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Jurisdição e competência penal Você vai estudar os principais aspectos da jurisdição e da competência em matéria processual penal e os conceitos e critérios de sua fixação. Prof. Edison Ponte Burlamaqui 1. Itens iniciais Propósito O estudo dos conceitos envolvendo a jurisdição e competência em matéria processual penal, bem como dos critérios de sua fixação, é de extrema importância para profissionais da área. As regras que tratam da competência no processo penal têm como principal objetivo garantir a justiça e a imparcialidade dos julgamentos. Preparação Antes de iniciar seu estudo, é preciso ter disponível o Código de Processo Penal para acompanhar melhor os dispositivos legais mencionados. Objetivos Reconhecer os conceitos básicos relacionados à jurisdição e à competência no direito processual penal. Distinguir as hipóteses de conexão e continência. Identificar as regras que estabelecem o foro por prerrogativa de função. Introdução A jurisdição e a competência em matéria processual penal são um tema de grande importância, que impacta diretamente a justiça dos julgamentos. Elas concretizam diversos princípios processuais penais estabelecidos na Constituição Federal, como o princípio da imparcialidade dos julgamentos, o do juiz natural e o da legalidade, entre outros. Além das definições e dos conceitos básicos, é preciso também compreender as regras estabelecidas no Código de Processo Penal que buscam fixar o juízo competente para o julgamento das ações penais. Elas têm a finalidade de equalizar o sistema e permitir que, a depender do crime, dos sujeitos envolvidos e do local do fato, as partes possam ter a plena certeza de quem é o responsável por realizar o julgamento. Por fim, por se tratar de regras que buscam concretizar princípios e direitos fundamentais, a inobservância delas pode levar à existência de nulidades, sejam elas absolutas ou relativas e, consequentemente, à anulação dos atos processuais. • • • 1. Conceitos e critérios de jurisdição e fixação da competência Conceito de jurisdição A competência penal e seus critérios Acompanhe, neste vídeo, a competência penal e os critérios para a sua fixação, como: o lugar da infração, o domicílio ou residência do réu, a natureza da infração, a distribuição, a conexão ou continência, a prevenção e a prerrogativa de função. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. A vida em sociedade gera diversos conflitos. Na maioria das situações, eles são resolvidos pelas próprias partes, seja por meio de acordos ou, até mesmo, renúncias ou outras formas de autocomposição. Entretanto, considerando que, em regra, é vedada a autotutela na hipótese de resistência de uma das partes a pretensão da outra, surge a necessidade de intervenção do Estado por meio do processo, a fim de o conflito de interesses opostos seja resolvido. A intervenção do Estado, por meio do processo, é concretizada a partir da jurisdição, que pode ser definida como o poder-dever reflexo de sua soberania. Por meio dele, substituindo-se a vontade das partes, age-se coercitivamente em prol da segurança jurídica e da ordem social. No que se refere à jurisdição penal, discute-se, em regra, a resolução de um conflito intersubjetivo de interesses. De um lado, há a intenção punitiva do Estado, inerente ao ius puniendi, de outro, o direito de liberdade do cidadão. Nesse sentido, o processo penal estabelece as regras para que se possa verificar a materialidade do fato típico, ilícito e culpável, bem como para que se possa confirmar a respectiva autoria delitiva e a incidência, ou não, da norma penal material incriminadora. Dessa maneira, como função estatal exercida pelo Poder Judiciário, a jurisdição se caracteriza pela aplicação do direito objetivo a um caso concreto. Atenção A jurisdição é una. Contudo, isso não significa dizer que o mesmo magistrado possa processar e julgar todas as causas. Por motivos de ordem lógica e prática, impõem-se ao Estado a necessidade de distribuir o poder de julgar entre diversos juízes e tribunais. Assim, cada órgão do Poder Judiciário somente pode aplicar o direito objetivo dentro dos limites que lhe foram conferidos nessa distribuição, que autoriza e limita o exercício do poder de julgar no caso concreto. Isso se chama competência. Compreende-se competência como o poder que o órgão do Poder Judiciário tem de fazer atuar a função jurisdicional em um caso concreto. Assim, ela é a quantidade de jurisdição atribuída a cada órgão jurisdicional. Ou seja, a medida da jurisdição. Cabe destacar que as regras que definem a competência estão intimamente ligadas ao princípio do juiz natural, que é necessário para o processo penal e determina que cada cidadão tem de saber previamente a autoridade judiciária que deve o processar e julgar na eventual hipótese de praticar uma infração penal. Assim, o princípio do juiz natural se refere à existência de juízo adequado para o julgamento de determinada demanda, conforme as regras de fixação de competência, e à proibição de juízos extraordinários ou tribunais de exceção constituídos após os fatos. O artigo 69 do Código de Processo Penal estabelece sete critérios para a fixação da competência: O lugar da infração O domicílio ou a residência do réu A natureza da infração A distribuição A conexão ou continência A prevenção A prerrogativa de função As competências pelo lugar da infração e pelo domicílio (ou residência) do acusado têm a finalidade de estabelecer o foro (a comarca) onde se dará o julgamento. Já o critério do domicílio do réu tem aplicação subsidiária, pois apenas é levado em consideração quando o local onde ocorreu o delito é totalmente desconhecido. Uma vez fixada a comarca, é o critério da natureza da infração que apontará a Justiça competente (a saber: Eleitoral, Militar ou Comum), cabendo destacar que dentro da mesma Justiça, a natureza da infração pode ainda levar o julgamento a varas especializadas (exemplos: júri, juizado especial criminal ou juizado de violência doméstica e familiar contra a mulher). Fixados o foro e a Justiça, será possível ainda que coexistam vários juízes igualmente competentes. Assim, caso algum deles tenha se adiantado aos demais na prática de algum ato relevante, ainda que antes do início da ação, ele estará prevento e será o competente. Porém, se não houver nenhum juiz prevento, deverá ser feita a distribuição, uma espécie de sorteio, para que os autos sejam direcionados a um juiz determinado. A conexão e a continência, por sua vez, são institutos que determinam a alteração ou prorrogação da competência em situações específicas. Já a competência por prerrogativa de função é verificada quando o legislador, levando em consideração a relevância do cargo ou função ocupada pelo autor da infração, estabelece órgãos específicos do Poder Judiciário que julgarão o detentor daquele cargo, caso cometa infração penal. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. Veja as diferenças entre as competências em razão da pessoa e da matéria e a competência territorial. Competência pelo lugar da infração Domicílio ou residência do réu O Código de Processo Penal, no artigo 70, adotou a teoria do resultado considerando competente para o processo e julgamento o juízo do lugar onde a infração se consumou, ou, sendo hipótese de tentativa, o local onde o último ato de execução foi praticado. Em complemento, de acordo com o artigo 14, I, do Código Penal, considera-se consumado um delito quando, no caso concreto, reúnem-se todos os elementos de sua descrição penal. Entretanto, a depender do crime, existem algumas peculiaridades a serem consideradas. Por exemplo, o homicídio se consuma no local da morte, e o julgamento deveria ser feito no Tribunal do Júri da Comarca em que tal resultado tenha se dado. Contudo, segundo o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça, no crime de homicídio a competência é fixada pelo local da ação (teoria da atividade), e não do resultado, pois, segundos as cortessuperiores, isso facilita a colheita de provas no lugar em que os atos executórios se desenvolveram, além de dar uma resposta à comunidade que reside onde ocorreu a ofensa ao bem jurídico. Observe alguns tipos de crimes e suas respectivas peculiaridades. Crimes qualificados pelo resultado Fixa-se a competência no lugar onde ocorreu o evento qualificador. Crime de apropriação indébita Será estabelecido o local do juízo competente, porque esse crime se consumiu no lugar onde o sujeito ativo inverte a posse, demonstrando intenção de dispor da coisa, ou pela negativa em devolvê-la. Crime de estelionato É praticado mediante depósito e emissão de cheques sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado, com o pagamento frustrado ou mediante transferência de valores. O artigo 70, § 4º do Código de Processo Penal estabelece que a competência será definida pelo local do domicílio da vítima, e, em caso de pluralidade de vítimas, a competência se firmará pela prevenção. Competência em razão da pessoa e da matéria São absolutas, pois o seu estrito cumprimento é de interesse público. Dessa forma, seu desrespeito gera nulidade absoluta, que pode ser alegada e reconhecida a qualquer momento. Competência territorial É relativa, de modo que se ela não for alegada pela parte interessada até o momento oportuno da ação penal, ela é considerada prorrogada, sendo válido o julgamento pelo juízo que, em princípio, não tinha competência territorial. Crime de uso de documento falso É determinado, segundo a súmula 546 do Superior Tribunal de Justiça, que a competência para processar e julgar o crime é firmada em razão da entidade ou órgão ao qual foi apresentado o documento público, não importando a qualificação do órgão expedidor. Crimes tentados É estabelecido, nos termos da parte final do artigo 70 do Código de Processo Penal, que a competência é firmada pelo local da prática do último ato de execução. Dessa forma, nessa hipótese, adota-se a teoria da atividade, e não a do resultado. Já no caso de crimes permanentes ou continuados que sejam cometidos no território de duas ou mais comarcas, de acordo com o artigo 71 do mesmo código, a competência irá se firmar pela prevenção. Crimes à distância São os cometidos parte no território nacional e parte no estrangeiro, nos termos do artigo 70, § 1º, do Código de Processo Penal. Será competente, para processar e julgar o delito, o lugar no Brasil onde foi praticado o último ato de execução. Por outro lado, quando o último ato de execução ocorre no exterior, para produzir resultado em território brasileiro, a solução encontra-se no artigo 70, § 2º, do mesmo código, que estabelece que será competente para processar e julgar a infração penal o juiz do local em que o crime (mesmo parcialmente), tenha produzido ou devia produzir seu resultado. Nessas hipóteses, deve-se aplicar a teoria da ubiquidade, considerando como local do crime tanto o lugar em que se realizou a ação ou omissão como aquele em que ocorreu ou deveria ter acontecido o resultado. Crimes no exterior Determina-se que se um crime foi cometido integralmente no exterior e deve, nos termos do artigo 7º do Código Penal, ser julgado no Brasil, será competente o juízo da Capital do estado onde houver por último residido o acusado e, se nunca tiver residido no Brasil, será competente o juízo da Capital da República. Nos termos do artigo 72 do Código de Processo Penal, não sendo conhecido o lugar da infração, a competência será firmada pelo local do domicílio ou residência do réu. Dessa forma, trata-se de critério subsidiário, pois só se aplica quando o lugar da consumação for totalmente ignorado. Além disso, se o réu possui mais de uma residência, a ação penal pode ser proposta em qualquer dos locais onde ele tenha residência, devendo ser firmada em uma delas por prevenção. Já se a residência do réu é ignorada ou se seu paradeiro é desconhecido, será competente o juiz que primeiro tomar conhecimento formal dos fatos. Por fim, vale destacar que nos termos do artigo 73 do Código de Processo Penal, nos casos de exclusiva ação privada, o querelante poderá preferir o foro de domicílio ou da residência do réu, mesmo que conhecido o lugar da infração. Local da infração, domicílio e competência Acompanhe, neste vídeo, a competência jurisdicional no direito penal, com foco na determinação do foro competente com base no lugar da infração e no domicílio ou na residência do réu. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Competência pela natureza da infração Neste vídeo, confira como a competência é determinada pela natureza da infração, destacando que diferentes tipos de crimes são julgados por tribunais específicos. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Depois de fixado o foro competente, o próximo passo é averiguar a Justiça em que deverá ocorrer o julgamento na comarca. Mas lembre-se: será a natureza da infração que dará a solução. Dessa forma, a depender da espécie de crime cometido, o julgamento poderá estar afeto à Justiça Especial (Eleitoral ou Militar) ou à Comum (Estadual ou Federal). Atenção A natureza da infração também poderá indicar o órgão do Poder Judiciário ao qual caberá o julgamento: juízo singular, júri, juizado especial criminal, juizado de violência doméstica ou familiar contra a mulher, juizado do torcedor etc. À Justiça Militar cabe julgar os crimes militares, conforme definidos no Código Penal Militar. Entretanto, alguns crimes praticados por militares não se inserem na competência da Justiça Militar. Em regra, os crimes dolosos contra a vida praticados por militar contra civil continuam sendo julgados pela Justiça Comum, ou seja, pelo tribunal do júri. No entanto, serão de competência da Justiça Militar da União os casos de crimes dolosos contra a vida praticados por militares das Forças Armadas contra civis, na hipótese prevista no artigo 9º, § 2º, do Código Penal Militar, a exemplo do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa, de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante, e de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem (GLO) ou de atribuição subsidiária. A Justiça Eleitoral, por sua vez, julga os crimes eleitorais e seus conexos nos termos do artigo 121 da Constituição, combinado com o seu artigo 109, IV, que prevê a exclusão da competência da Justiça Federal quando se tratar de crime eleitoral. O julgamento em primeira instância é feito pelos juízes eleitorais, função exercida pelos próprios juízes estaduais designados para tal atividade pelo Tribunal Regional Eleitoral. Em segunda instância, os recursos referentes aos crimes eleitorais são julgados pelos Tribunais Regionais Eleitorais, e, em última instância, pelo Tribunal Superior Eleitoral. Destaca-se que o Supremo Tribunal Federal decidiu que compete à Justiça Eleitoral julgar os crimes eleitorais e os comuns que lhes forem conexos. Entretanto, também cabe à Justiça Eleitoral analisar, caso a caso, a existência de conexão de delitos comuns aos delitos eleitorais e, não havendo, remeter os casos à Justiça competente. Quanto à Justiça Federal, a Constituição Federal expressamente prevê a sua competência criminal em seu artigo 109, incisos IV, V, V-A, VI, VII, IX e X: IV – os crimes políticos e as infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, excluídas as contravenções e ressalvada a competência da Justiça Militar e da Justiça Eleitoral; V – os crimes previstos em tratado ou convenção internacional, quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente; V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo; VI – os crimes contra a organização do trabalho e, nos casos determinados por lei,contra o sistema financeiro e a ordem econômico-financeira; VII – os habeas corpus, em matéria criminal de sua competência ou quando o constrangimento provier de autoridade cujos atos não estejam diretamente sujeitos a outra jurisdição; VIII – os mandados de segurança e os habeas data contra ato de autoridade federal, excetuados os casos de competência dos tribunais federais; IX – os crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves, ressalvada a competência da Justiça Militar; X – os crimes de ingresso ou permanência irregular de estrangeiro, a execução de carta rogatória, após o “exequatur”, e de sentença estrangeira, após a homologação, as causas referentes à nacionalidade, inclusive a respectiva opção, e à naturalização. Em primeira instância, o julgamento é realizado pelos juízes federais em atuação nas varas federais ou nos juizados especiais criminais federais, ou, ainda, pelo Tribunal do Júri Federal. Já em segunda instância, o julgamento dos recursos é feito nos Tribunais Regionais Federais. Por fim, a Constituição e as leis processuais não definem quando um caso é da competência estadual. Como as regras são bem detalhadas para a Justiça Militar, a Eleitoral e a Federal, podemos concluir por exclusão que, na ausência dessas especificações, o julgamento deve ser feito pela Justiça Estadual Comum. Competência pela prevenção e distribuição Depois de fixadas a comarca e a Justiça competentes, é possível que ainda restem vários juízes igualmente competentes para o caso. Nessa situação, um juiz pode ser considerado responsável se começar a agir antes dos outros, mesmo antes da denúncia ou queixa ser apresentada. Assim, ele se torna o juiz competente para o processo. Entretanto, se não houver qualquer juiz prevento, será feita a distribuição, que é um sorteio para a fixação de um determinado juiz para a causa, nos termos do artigo 75 do Código de Processo Penal. Cabe destacar que existem algumas hipóteses em que o próprio código de processo penal prevê expressamente que a prevenção será o critério utilizado para fixação da competência. O artigo 70, §3º do Código de Processo Penal determina que, quando o limite territorial entre duas ou mais jurisdições for incerto, ou quando a jurisdição for incerta por ter sido a infração consumada ou tentada nas divisas de duas ou mais jurisdições, a competência será firmada pela prevenção. Já o artigo 71 do Código de Processo Penal determina que, tratando-se de infração continuada ou permanente, praticada em território de duas ou mais jurisdições, a competência será firmada pela prevenção. No mesmo sentido, o artigo 72, § 1º do Código de Processo Penal dispõe que, se o réu tiver mais de uma residência, a competência será firmada pela prevenção. Já no caso de conexão, quando não houver foro prevalente, por serem os delitos da mesma categoria de jurisdição e tiverem as mesmas penas, o artigo 78, II, c do mesmo código determina que a competência será fixada pela prevenção. Após a análise de alguns critérios de fixação da competência, podemos concluir que existem basicamente três fases na sua determinação. Confira a seguir quais são! Primeira fase Verifica-se o foro competente pelos critérios do local da infração ou domicílio do réu. Segunda fase Observa-se a justiça competente pelo critério da natureza da infração. Terceira fase Caso necessário, determina-se a vara competente por meio da prevenção ou distribuição, critério que será estudado. Prevenção e distribuição no processo penal Veja, neste vídeo, a competência pela prevenção e distribuição no Código de Processo Penal e como se estabelece a jurisdição prioritária quando múltiplos juízos são igualmente competentes. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 A competência no processo penal brasileiro é fixada, em regra, pelo lugar em que se consuma a infração. Entretanto, se a execução do crime tiver início no território nacional, mas ele for consumado em território estrangeiro, a competência é do lugar em que foi praticado o último ato executório. Nessa hipótese aplica-se a teoria A da ubiquidade. B do resultado. C da irretroatividade. D da atividade. E da ultratividade. A alternativa A está correta. Nos casos de crimes transnacionais, que ocorrem em parte no Brasil e em parte no exterior, a jurisdição competente para processar e julgar o crime será a do local no Brasil onde o último ato de execução foi realizado. Por outro lado, quando o último ato de execução acontece no exterior, visando ao resultado em território brasileiro, a competência para processar e julgar a infração penal caberá ao juiz do lugar em que o crime, ainda que parcialmente, produziu ou deveria produzir seu resultado. Nesses casos, aplica-se a teoria da ubiquidade, considerando como local do crime tanto o lugar onde se realizou a ação ou a omissão como aquele onde ocorreu ou deveria ocorrer o resultado. Questão 2 No que se refere à determinação da competência para processar e julgar os feitos no processo penal, é correto afirmar que no caso de A exclusiva ação privada, poderá o querelante preferir o foro de domicílio ou da residência do réu, ainda quando conhecido o lugar da infração. B não sendo conhecido o lugar da infração, a competência regular-se-á pelo domicílio ou residência da vítima. C a vítima não ter residência certa ou for ignorado o seu paradeiro, será competente o juízo do domicílio do réu. D infração continuada ou permanente, praticada em território de duas ou mais jurisdições, a competência será determinada pelo domicílio da vítima. E conexão ou continência, no concurso entre a jurisdição comum e a militar, haverá unidade de processo e julgamento. A alternativa A está correta. Conforme o artigo 73 do Código de Processo Penal, mesmo conhecendo o local da infração. Essa prerrogativa oferece flexibilidade processual, facilitando o acesso à justiça e equilibrando os interesses das partes, ao permitir que o querelante opte pelo foro mais conveniente. Essa norma visa garantir uma tramitação eficiente e justa, respeitando tanto o direito do querelante quanto o do réu, promovendo um processo penal mais acessível e ágil. 2. Conexão e continência Hipóteses de conexão Diferentemente do que ocorre na continência, para a existência de conexão, deve-se necessariamente estar diante de duas ou mais infrações penais. Além disso, elas devem estar interligadas por algum dos vínculos elencados nos incisos do artigo 76 do Código de Processo Penal, que dispõe: Art. 76. A competência será determinada pela conexão: I – se, ocorrendo duas ou mais infrações, houverem sido praticadas, ao mesmo tempo, por várias pessoas reunidas, ou por várias pessoas em concurso, embora diverso o tempo e o lugar, ou por várias pessoas, umas contra as outras; II – se, no mesmo caso, houverem sido umas praticadas para facilitar ou ocultar as outras, ou para conseguir impunidade ou vantagem em relação a qualquer delas; III – quando a prova de uma infração ou de qualquer de suas circunstâncias elementares influir na prova de outra infração. A primeira hipótese de conexão é chamada de intersubjetiva e está prevista no artigo 76, I do Código de Processo Penal. Nessa modalidade, as duas ou mais infrações são praticadas por duas ou mais pessoas, sendo que o elo entre os delitos reside justamente nisso. A intersubjetiva se subdivide em: Conexão intersubjetiva por simultaneidade (ou ocasional) Ocorre quando duas ou mais infrações penais foram praticadas ao mesmo tempo por várias pessoas reunidas. Conexão intersubjetiva por concurso Acontece se duas ou mais infrações penais foram praticadas por várias pessoas em concurso (coautoria ou participação), embora diverso o tempo e o lugar. Essa hipótese se aplica sempre que duas ou mais pessoas cometerem dois ou mais delitos em concurso, pouco importando que ocorram em momento e locais diversos, como no caso da gangue que pratica vários delitos em determinada cidade, porém em bairros diversos.Conexão intersubjetiva por reciprocidade Está presente quando as infrações forem praticadas por duas ou mais pessoas, umas contra as outras. É o que ocorre, por exemplo, no caso de lesões corporais recíprocas. A segunda hipótese de conexão é chamada de conexão objetiva, material ou lógica e está prevista no artigo 76, II do Código de Processo Penal. O vínculo de uma infração está na motivação de uma delas, que a relaciona à outra. Ela se subdivide em: 1Conexão teleológica Ocorre quando uma infração penal busca facilitar a prática de outra infração. Nessa hipótese, o vínculo encontra-se na motivação do primeiro delito em relação ao segundo, como na hipótese do agente que mata o segurança da vítima para que possa garantir o seu sequestro. 2 Conexão consequencial Dá-se quando uma infração é cometida visando ocultar outra, quando uma infração é praticada para conseguir a impunidade de outra ou quando uma infração é realizada para assegurar a vantagem de outra. A terceira é última hipótese de conexão é chamada de instrumental ou probatória e está prevista no artigo 76, III do Código de Processo Penal. Ela ocorre quando a prova de uma infração (ou de qualquer de suas circunstâncias) influir na prova de outra infração ― por exemplo, na prova do crime de roubo que pode influenciar na comprovação e responsabilização do receptador. A conexão de ações penais Neste vídeo, confira as hipóteses de conexão no direito processual penal, explicando como diferentes crimes ou processos podem ser vinculados e julgados conjuntamente. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Hipóteses de continência A continência é o vínculo que une dois ou mais infratores a uma única infração (concurso de pessoas) ou à ligação de mais de uma infração por decorrerem de uma só conduta (concurso formal de crimes, aberractio ictus com unidade complexa e aberractio criminis com unidade complexa), ocasionando a reunião de todos os elementos em processo único, estando prevista expressamente no artigo 77 do Código de Processo Penal. Veja! Art. 77. A competência será determinada pela continência quando: I – duas ou mais pessoas forem acusadas pela mesma infração; II – no caso de infração cometida nas condições previstas nos arts. 51, § 1º, 53, segunda parte, e 54 do Código Penal (atualmente arts. 70, 73, segunda parte, e 74 do Código Penal). A primeira hipótese de continência é chamada de continência por cumulação subjetiva, prevista no artigo 77, I do Código de Processo Penal. Ela ocorre quando duas ou mais pessoas forem acusadas pela mesma infração penal. Dessa forma, trata-se aqui de crime único cometido por duas ou mais pessoas em coautoria ou participação. A segunda hipótese de continência é chamada de continência por cumulação objetiva, prevista no artigo 77, II do Código de Processo Penal. Ela ocorre em todos os casos de concurso formal, bem como nas hipóteses de erro na execução (aberratio ictus) ou resultado diverso do pretendido (aberratio criminis) com duplo resultado. Dessa forma, há continência quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, em vez de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge a pretendida (aberratio ictus) e outra. Há ainda a possibilidade de, por acidente ou erro na execução do crime, ocorrer resultado diverso do pretendido, mas também ocorre o esperado (aberratio criminis). Em ambos os casos, há mais de uma infração que decorre de apenas uma conduta. Continência no processo penal Assista, neste vídeo, às hipóteses de continência no processo penal, em que um único processo envolve dois ou mais delitos ou acusados, julgados conjuntamente por estarem inter-relacionados. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Critérios de fixação da competência Hipóteses de conexão e continência Os critérios de prevalência estão previstos no artigo 78 do Código de Processo Penal, que dispõe: Art. 78. Na determinação da competência por conexão ou continência, serão observadas as seguintes regras: I – no concurso entre a competência do júri e a de outro órgão da jurisdição comum, prevalecerá a competência do júri; Il – no concurso de jurisdições da mesma categoria; a) preponderará a do lugar da infração, à qual for cominada a pena mais grave; b) prevalecerá a do lugar em que houver ocorrido o maior número de infrações, se as respectivas penas forem de igual gravidade; c) firmar-se-á a competência pela prevenção, nos outros casos; III – no concurso de jurisdições de diversas categorias, predominará a de maior graduação; IV – no concurso entre a jurisdição comum e a especial, prevalecerá esta. Vamos analisar os quatro critérios de forma lógica: Primeiro critério É o que determina que no concurso de jurisdições de categorias diversas predominará a de maior graduação. Essa hipótese se aplica, por exemplo, nos casos em que há concurso de agentes e apenas um deles possui foro por prerrogativa de função, como no crime praticado por um juiz de direito e um cidadão comum, sendo ambos julgados pelo tribunal de justiça. Segundo critério É o que estabelece que no concurso entre a jurisdição comum e a especial, prevalecerá a especial. O alcance dessa regra se limita às hipóteses de conexão entre crime eleitoral e comum, quando ambos serão julgados pela Justiça Eleitoral, pois em relação à Justiça Militar, o artigo 79, I, do Código de Processo Penal, estabelece que haverá cisão de processos. Ou seja, a justiça castrense julgará o crime militar, e a Justiça Comum, o outro delito. Terceiro critério É o que estipula que no concurso entre a competência do júri e a de outro órgão da jurisdição comum prevalecerá a competência do primeiro. Entretanto, havendo concorrência entre crime doloso contra a vida e crime de competência da jurisdição especial, seja ela militar ou eleitoral, deverá ocorrer a separação dos processos. Quarto critério É o que determina que no concurso de jurisdições da mesma categoria prevalecerá inicialmente a do lugar da infração à qual for cominada a pena mais grave e, em seguida, a do lugar em que ocorreu o maior número de infrações (se as respectivas penas forem de igual gravidade). Entretanto, se as penas forem idênticas e em igual número, será firmada a competência por prevenção. Conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça (súmula 122), compete à Justiça Federal o processo e julgamento unificado dos crimes conexos de competência federal e estadual. Por fim, nos casos de conexão entre crimes que possuam ritos processuais diversos, deverá ser observado o rito mais amplo, assim entendido aquele que conferir maiores oportunidades de defesa ao réu. Competência, conexão e continência Neste vídeo, acompanhe como crimes ou processos relacionados são agrupados para julgamento conjunto, seja por conexão entre fatos ou interdependência probatória, seja por continência envolvendo vários acusados ou delitos. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Separação dos processos Unidade de processo e julgamento A conexão e a continência importarão unidade de processo e julgamento. Contudo, em algumas hipóteses, o Código de Processo Penal estabelece que deverá ocorrer a separação dos processos para o julgamento. Inicialmente, o artigo 79 do referido código traz duas hipóteses de separação obrigatória dos processos, que ocorrerá quando houver concurso entre a jurisdição comum e a militar, e no concurso entre a jurisdição comum e a do juízo de menores. Vamos conhecer tais hipóteses! 1 Art. 79, § 1º do Código de Processo Penal A unidade do processo cessará, em qualquer caso, se algum corréu for acometido de doença mental. Nesse caso, nos termos do artigo 152, do Código de Processo Penal, o processo será suspenso até que sua sanidade se restabeleça, havendo, assim, o desmembrando do feito em relação a tal acusado. 2 Art. 79, § 2º do Código de Processo Penal A unidade do processo não importará a do julgamento se houver corréu foragido que não possa ser julgadoà revelia. Assim, se o corréu for foragido antes de ser citado e, se citado por edital, não comparecer, o processo e a prescrição serão suspensos, prosseguindo, todavia, em relação aos demais acusados. Outra hipótese de separação dos processos ocorre no rito do júri. Quando há dois ou mais réus com defensores diversos, a escolha dos jurados não coincide e o número mínimo de sete deles para formar o Conselho de Sentença não foi obtido, o julgamento de todos se torna impossível na mesma data. Nesse caso, o processo será desmembrado, julgando-se apenas um deles de acordo com a ordem estabelecida no artigo 469, § 2º, do Código de Processo Penal. Por fim, existem também hipóteses de separação facultativa dos processos, estando previstas no artigo 80 do citado código. São elas: Quando as infrações forem praticadas em circunstâncias de tempo ou lugar diferentes. Quando houver número excessivo de acusados e para não prolongar a prisão provisória deles. Quando por outro motivo relevante o juiz reputar conveniente a separação. Separação de processos para julgamento Neste vídeo, veja o conceito de unidade de processo e julgamento no direito penal, destacando quando o Código de Processo Penal estabelece que deverá ocorrer a separação dos processos para julgamento. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 No que se refere à jurisdição e à competência no processo penal, marque a opção correta. • • • A Em caso de delito praticado por prefeito em concurso com agente que não tenha foro privilegiado, a separação do processo será obrigatória. B No caso de pluralidade de crimes, mas um deles tem o objetivo de conseguir impunidade em relação ao outro, a competência será determinada pela conexão. C Ocorrerá a conexão intersubjetiva por reciprocidade se duas ou mais infrações forem cometidas por duas pessoas contra terceira sem unidade de desígnios. D A precedência da distribuição fixará a competência quando em comarcas contíguas houver mais de um juiz competente, diante do início da execução ou do resultado do crime. E É de competência da Justiça Estadual o julgamento dos crimes de embriaguez ao volante e contrabando descobertos em diligência policial, por se tratar de competência por conexão instrumental. A alternativa B está correta. Segundo o artigo 76, II, do Código de Processo Penal, a competência é determinada pela conexão entre infrações quando forem praticadas para facilitar, ocultar outras ou assegurar impunidade ou vantagem. Essa regra é importante para que crimes interligados sejam julgados conjuntamente, evitando a dispersão das ações e garantindo decisões coerentes. A conexão permite uma análise completa dos fatos, facilitando uma decisão mais justa e eficiente. Além disso, ela também impede que o acusado se beneficie da fragmentação do processo, promovendo uma tramitação integrada e justa. Questão 2 Caso seja verificada conexão entre fatos concernentes a crimes de competência da justiça estadual e a crimes de competência da justiça federal, é correto afirmar que A o processamento e o julgamento dos crimes de forma unificada não são possíveis. B o juízo estadual é o competente para o processamento e o julgamento dos crimes conexos. C o juízo federal é o competente para o processamento e o julgamento dos crimes conexos, independentemente da pena prevista para cada um dos delitos. D o juízo federal é o competente para o processamento e o julgamento dos crimes conexos, salvo o caso de ser prevista pena mais grave ao delito estadual. E o Superior Tribunal de Justiça é competente para o processamento e o julgamento unificado dos crimes. A alternativa C está correta. A Súmula 122 do STJ determina que a Justiça Federal tem competência para julgar crimes conexos que envolvem infrações de competência federal e estadual, afastando a aplicação do artigo 78, II, a, do Código de Processo Penal. Essa orientação ajuda a garantir a unidade e a coerência dos processos, evitando a fragmentação e decisões conflitantes. Ao centralizar o julgamento na esfera federal, assegura-se uma análise integrada dos fatos, promovendo maior eficiência processual e justiça, especialmente em casos complexos que envolvem múltiplas jurisdições. 3. Foro por prerrogativa de função Competência por prerrogativa de função A competência originária do Supremo Tribunal Federal, quanto ao julgamento de determinadas autoridades, está prevista no artigo 102, I, b, c, d e i da CF. Acompanhe! Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe: I – processar e julgar, originariamente: (...) b) nas infrações penais comuns, o Presidente da República, o Vice-Presidente, os membros do Congresso Nacional, seus próprios Ministros e o Procurador-Geral da República; c) nas infrações penais comuns e nos crimes de responsabilidade, os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, ressalvado o disposto no art. 52, I, os membros dos Tribunais Superiores, os do Tribunal de Contas da União e os chefes de missão diplomática de caráter permanente; d) o habeas corpus, sendo paciente qualquer das pessoas referidas nas alíneas anteriores; o mandado de segurança e o habeas data contra atos do Presidente da República, das Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, do Tribunal de Contas da União, do Procurador-Geral da República e do próprio Supremo Tribunal Federal; (...) i) o habeas corpus, quando o coator for Tribunal Superior ou quando o coator ou o paciente for autoridade ou funcionário cujos atos estejam sujeitos diretamente à jurisdição do Supremo Tribunal Federal, ou se trate de crime sujeito à mesma jurisdição em uma única instância. Já a competência originária do Superior Tribunal de Justiça, quanto ao julgamento de autoridades, está prevista no artigo 105, I, a, b e c da Constituição Federal. Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: I – processar e julgar, originariamente: a) nos crimes comuns, os Governadores dos Estados e do Distrito Federal, e, nestes e nos de responsabilidade, os desembargadores dos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, os membros dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, os dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Trabalho, os membros dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios e os do Ministério Público da União que oficiem perante tribunais; b) os mandados de segurança e os habeas data contra ato de Ministro de Estado, dos Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica ou do próprio Tribunal; c) os habeas corpus, quando o coator ou paciente for qualquer das pessoas mencionadas na alínea a, ou quando o coator for tribunal sujeito à sua jurisdição, Ministro de Estado ou Comandante da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral; Quantos aos tribunais regionais federais, a Constituição Federal prevê a competência especial no artigo 108, I, a, como você pode ver a seguir: Art. 108. Compete aos Tribunais Regionais Federais: I – processar e julgar, originariamente: os juízes federais da área de sua jurisdição, incluídos os da Justiça Militar e da Justiça do Trabalho, nos crimes comuns e de responsabilidade, e os membros do Ministério Público da União, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral; A Constituição Federal estabelece ainda, em seu artigo 96, III, que compete privativamente aos Tribunais de Justiça julgar os juízes estaduais e do Distrito Federal e territórios, bem como os membros do Ministério Público, nos crimes comuns e de responsabilidade, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral. O artigo 30, X da Constituição Federal, dispõe que o julgamento do prefeito ocorrerá perante o Tribunal de Justiça. Entretanto, a súmula 702 do Supremo Tribunal Federal determina que a competência do tribunal de justiça para julgar prefeitos restringe-se aos crimes de competência da JustiçaComum Estadual. Nos demais casos, a competência originária caberá ao respectivo tribunal de segundo grau. Além disso, a súmula 208 do Superior Tribunal de Justiça dispõe que compete à Justiça Federal processar e julgar prefeito municipal por desvio de verba sujeita à prestação de contas perante órgão federal. Já a súmula 209 dispõe que compete ao Tribunal de Justiça do Estado apreciar e julgar originariamente os crimes de malversação de verba pública praticado por ex-prefeito municipal no exercício da função. Por fim, o próprio texto constitucional ressalva a competência da Justiça Eleitoral em detrimento da competência originária do Tribunal Regional Federal e do Tribunal de Justiça. Assim, caso um juiz ou promotor cometa crime eleitoral, ele será julgado originariamente pelo Tribunal Regional Eleitoral. Entretanto, as autoridades sujeitas à jurisdição do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça, ainda que cometam crime eleitoral, serão julgadas pelos referidos tribunais, e não pelo Tribunal Superior Eleitoral, já que em relação a eles a Constituição não fez ressalva quanto à competência da Justiça Eleitoral. Foro por prerrogativa de função Assista ao vídeo a seguir, em que abordaremos a competência por prerrogativa de função, explicando como certas autoridades, como políticos e juízes, possuem foro especial para julgamento de crimes. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Situações especiais de conexão ou continência Crime cometido por quem goza de foro privilegiado e outra pessoa Para o Supremo Tribunal Federal, quando se tratar de concurso entre autoridade submetida à jurisdição especial e investigado não submetido a ela, a regra é que haja separação dos processos, conforme noticiado no informativo 735. Veja! O desmembramento de inquéritos ou de ações penais de competência do STF deve ser a regra geral, admitida exceção nos casos em que os fatos relevantes estejam de tal forma relacionados, que o julgamento em separado possa causar prejuízo relevante à prestação jurisdicional. Não sendo o caso de desmembramento do processo, os réus serão julgados perante a jurisdição especial, já que a questão é solucionada pelo artigo 78, III, do Código de Processo Penal, segundo o qual no concurso entre jurisdições de categorias diversas, prevalece a mais graduada. A súmula 704 do Supremo Tribunal Federal determina que “não viola as garantias do juiz natural, da ampla defesa e do devido processo legal, a atração por continência ou conexão do processo do corréu ao foro por prerrogativa de função de um dos denunciados”. A doutrina e a jurisprudência entendem majoritariamente que a súmula 704 do Supremo Tribunal Federal não se aplica à hipótese em que os agentes em concurso possuem foro privilegiado definido na Constituição Federal. É o caso, por exemplo, do juiz que comete crime de homicídio em concurso de pessoas com um cidadão comum. O juiz tem foro por prerrogativa perante o Tribunal de Justiça, independentemente do crime praticado, nos termos do artigo 96, III, da Constituição Federal. Já para o cidadão comum, a CF dispõe que a competência é do Tribunal do Júri (artigo 5º, XXXVIII, d). Assim, nesse caso, entende-se a necessária separação dos processos, não tendo aplicação a Súmula 704 do Supremo Tribunal Federal. Ainda que o tribunal absolva quem tem foro especial, ele deverá julgar também o outro acusado, tratando-se, nesse caso, de hipótese de perpetuatio jurisdicionis, nos termos do artigo 81 do Código de Processo Penal. A súmula vinculante 45 do Supremo Tribunal Federal determina que a competência constitucional do tribunal do júri prevalece sobre o foro por prerrogativa de função estabelecido exclusivamente pela Constituição Estadual. Na hipótese de conexão ou continência em relação a pessoas que gozam de foro especial em órgãos diversos do Poder Judiciário, o Supremo Tribunal Federal entende que prevalece o órgão jurisdicional mais graduado. O Concurso entre investigados Confira, neste vídeo, o concurso entre autoridade submetida à jurisdição especial e investigado não submetido a ela. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Restrição ao foro por prerrogativa de função Posicionamento do STF O Supremo Tribunal Federal, na ação penal 937, resolveu questão de ordem a fim de fixar as seguintes teses, no que se refere à restrição ao foro por prerrogativa de função: a) O foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas; b) Após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de intimação para apresentação de alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais não será mais afetada em razão de o agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que ocupava, qualquer que seja o motivo. O foro privativo é uma prerrogativa do cargo ocupado. Assim, deixando de exercer o cargo, em regra, não há mais razão para que ele permaneça. Dessa forma, se o agente está respondendo a uma ação penal junto a um juízo ou tribunal, devido ao foro por prerrogativa de função, e renuncia ao cargo antes de iniciar o julgamento, o foro especial é finalizado e o processo deverá ser remetido para julgamento em primeira instância. Contudo, se o julgamento já tiver iniciado, mesmo suspenso em face de pedido de vista, o juízo especial continuará competente, pois o julgamento é ato unitário. No mesmo sentido, o foro especial também continuará competente quando restar configurada fraude processual e abuso de direito, a exemplo da renúncia ao cargo um dia antes do julgamento. O STF e o foro por prerrogativa Assista, neste vídeo, ao posicionamento do STF sobre a restrição ao foro por prerrogativa de função, designadamente as teses fixadas pelo julgamento da Ação Penal 937. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Sobre o foro por prerrogativa de função, é correto afirmar que A se estende a magistrado, ainda que aposentado. B a competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece sobre o foro por prerrogativa de função estabelecido exclusivamente por Constituição Estadual. C competem ao Supremo Tribunal Federal o processamento e julgamento de parlamentar federal por crime comum, praticado quando já diplomado, mesmo que não relacionado à função. D a instauração de inquérito policial e demais atos investigativos, inclusive os promovidos pelo Ministério Público, em face de agentes detentores de foro por prerrogativa da função, necessita de prévia autorização do órgão judiciário competente para processar e julgar a ação originária. E competem ao Superior Tribunal Federal o processamento e julgamento de desembargador, por crime comum, desde que relacionado à função judicante. A alternativa B está correta. A súmula vinculante 45 do STF estabelece que a competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece sobre o foro por prerrogativa de função previsto apenas nas Constituições Estaduais. Essa súmula reafirma a supremacia do Tribunal do Júri, que é o órgão competente para julgar crimes dolosos contra a vida, conforme garantido pela Constituição Federal. Questão 2 Um deputado federal eleito pelo estado do Rio de Janeiro que praticar crime de estelionato em São Paulo antes de entrar em exercício no cargo eletivo deverá ser processado no(a) A Supremo Tribunal Federal. B Superior Tribunal de Justiça. C justiça federal do Rio de Janeiro, em razão do cargo ocupado. D justiça estadual comum do Rio de Janeiro, na comarca do Rio de Janeiro. E justiça estadual comum de São Paulo, na comarca de São Paulo. A alternativa E está correta. Segundo o STF, o foro por prerrogativa de função aplica-se apenas a crimes cometidos no exercício do cargo e relacionados às funções do agente, garantindo que o julgamento seja realizado por um tribunal adequado. No entanto, a competência para julgar crimes é definida pelolocal da consumação, conforme o artigo 70 do Código de Processo Penal. Essa abordagem combina a necessidade de um foro especializado para cargos públicos com o princípio da proximidade ao local do delito, promovendo justiça equilibrada e eficiente. 4. Conclusão Considerações finais A jurisdição e a competência em matéria processual penal são temas de grande relevância, pois impactam a justiça dos julgamentos, concretizando diversos princípios processuais penais estabelecidos na Constituição Federal. Além das definições e dos conceitos básicos sobre o assunto, foi possível verificar as regras estabelecidas no Código de Processo Penal e na Constituição Federal, que fixam o juízo competente para o julgamento das ações penais. Assim, confirmamos que tais normas organizam o sistema e permitem que os sujeitos envolvidos possam ter a plena certeza de quem é o responsável por realizar o julgamento. Por fim, abordamos a importância de analisar as regras de conexão e continência, que podem levar à reunião das ações penais e à possibilidade de separação de processos em algumas hipóteses. Explore + Se você quer ir além nos seus estudos, confira as dicas que separamos! Leia o Título 4 - Ação penal e ação civil ex delicto, da obra Manual de processo penal, de Renato Brasileiro de Lima, e aprofunde-se nas regras sobre jurisdição e competência. Consulte o capítulo VI - Lei processual penal no tempo e no espaço, do livro Direito processual penal, de Aury Lopes Junior, para conhecer mais as regras sobre modificação de competência. Referências DE LIMA, R. B. Manual de processo penal – volume único. 13. ed. Salvador: Juspodivm, 2024. LOPES JÚNIOR, A. Direito processual penal. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2019. • • Jurisdição e competência penal 1. Itens iniciais Propósito Preparação Objetivos Introdução 1. Conceitos e critérios de jurisdição e fixação da competência Conceito de jurisdição A competência penal e seus critérios Conteúdo interativo Atenção Competência pelo lugar da infração Domicílio ou residência do réu Crimes qualificados pelo resultado Crime de apropriação indébita Crime de estelionato Crime de uso de documento falso Crimes tentados Crimes à distância Crimes no exterior Local da infração, domicílio e competência Conteúdo interativo Competência pela natureza da infração Conteúdo interativo Atenção Competência pela prevenção e distribuição Primeira fase Segunda fase Terceira fase Prevenção e distribuição no processo penal Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 2. Conexão e continência Hipóteses de conexão Conexão intersubjetiva por simultaneidade (ou ocasional) Conexão intersubjetiva por concurso Conexão intersubjetiva por reciprocidade Conexão teleológica Conexão consequencial A conexão de ações penais Conteúdo interativo Hipóteses de continência Continência no processo penal Conteúdo interativo Critérios de fixação da competência Hipóteses de conexão e continência Primeiro critério Segundo critério Terceiro critério Quarto critério Competência, conexão e continência Conteúdo interativo Separação dos processos Unidade de processo e julgamento Art. 79, § 1º do Código de Processo Penal Art. 79, § 2º do Código de Processo Penal Separação de processos para julgamento Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 3. Foro por prerrogativa de função Competência por prerrogativa de função Foro por prerrogativa de função Conteúdo interativo Situações especiais de conexão ou continência Crime cometido por quem goza de foro privilegiado e outra pessoa O Concurso entre investigados Conteúdo interativo Restrição ao foro por prerrogativa de função Posicionamento do STF O STF e o foro por prerrogativa Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Explore + Referências