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PROCESSO PENAL I Prof. Me. Alisson Eduardo Maul CONCEITO O processo penal deve conferir efetividade ao direito penal, fornecendo os meios e o caminho para materializar a aplicação da pena ao caso concreto. Tem como finalidades a pacificação social obtida com a solução do conflito (mediata), e a viabilização da aplicação do direito penal, concretizando-o (imediata). (TÁVORA, 2018) PRETENSÃO PUNITIVA O Estado cria leis penais incriminadoras e a ideia é no sentido de que surja para o Estado o direito de punir (abstrato). O Direito Penal não é um Direito de coação direta. Caso um indivíduo mate outro, o Direito Penal não poderá ser empregado diretamente. Para que a pena cominada no preceito secundário seja a ele aplicada é necessário um processo penal. Conceito de pretensão punitiva: consiste no poder do Estado de exigir de quem comete um delito a submissão à sanção penal. PRINCÍPIOS NO PROCESSO PENAL 1. Princípio da presunção de inocência (estado de inocência ou presunção de não culpabilidade): Presunção de inocência é o direito que cada um de nós tem de sermos tratados como se fôssemos inocentes ou não culpados, pelo menos até o momento em que houvesse o encerramento do processo criminal. 2. Princípio do “nemo tenetur se detegere”: A expressão “nemo tenetur se detegere” pode ser traduzida como “ninguém é obrigado a contribuir para sua própria destruição”. Trata-se do princípio que veda a autoincriminação, no sentido de que “ninguém é obrigado a produzir prova contra simesmo”. 3. Princípio do contraditório: Consiste na ciência bilateral dos atos ou termos do processo e a possibilidade de contrariá-los. Eis o motivo pelo qual se vale a doutrina da expressão “audiência bilateral”, consubstanciada pela expressão em latim audiatur et altera pars (seja ouvida também a parte adversa). 4. Princípio da ampla defesa: A ampla defesa é um dos princípios mais importantes do processo penal. Ao contrário do contraditório, que vale para ambas as partes, a ampla defesa vale apenas para o acusado. Por isso que, às vezes, há violação do contraditório, mas não violação da ampla defesa ou vice versa. 5. Princípio do juiz natural: Consiste no direito que cada cidadão possui de conhecer antecipadamente a autoridade jurisdicional que irá processar e julgá-lo caso venha a praticar um fato delituoso. 6. Princípio da publicidade: A garantia do acesso de todo e qualquer cidadão aos atos praticados no curso do processo. O princípio da publicidade tem, como objetivo precípuo assegurar da transparência do Poder Judiciário, para viabilizar uma fiscalização não apenas pelas partes, mas, também, pela sociedade como um todo. 7. Princípio da obrigatoriedade ou legalidade: Significa que havendo justa causa, os órgãos oficiais estão obrigados a agir, concretizando a “persecutio criminis”. 8. Princípio do devido processo legal: Caracteriza-se pelo estabelecimento procedimental baseado no contraditório e ampla defesa os quais orientarão as garantias do acusado. 9. Princípio da duração razoável do processo: Tal princípio orienta que os prazos no âmbito do processo penal devem ser respeitados como forma de garantia para instruir e julgar o fato delitivo. INTERPRETAÇÃO DA LEI PROCESSUAL PENAL Interpretar significa buscar o verdadeiro alcance da norma. 1. Interpretação quanto ao resultado: • Declaratória: O alcance da norma não é ampliado, nem restringido. Limita-se a declarar aquilo que consta do dispositivo legal. • Restritiva: A lei disse mais do que pretendia dizer. A interpretação é no sentido de restringir o alcance da lei. • Extensiva: A lei disse menos do que pretendia dizer. A interpretação é no sentido de ampliar o alcance da lei. • Progressiva: Busca ajustar as leis às transformações sociais. 2. Aplicação subsidiária do novo CPC ao processo penal. SISTEMAS PROCESSUAIS • Sistema inquisitorial. • Sistema acusatório. • Sistema misto (ou francês). SISTEMA INQUISITORIAL • Concentração das funções de acusar, defender e julgar numa única pessoa (juiz inquisidor). • O problema da imparcialidade do juiz. • Não há contraditório. • O juiz é dotado de ampla iniciativa probatória. SISTEMA ACUSATÓRIO I – Presença de partes distintas: • Acusação: Ministério Público. • Defesa: Defensor Público, defensor dativo ou defensor constituído. • Julgar: juiz. II – Presença da imparcialidade. III – Quanto à gestão da prova há duas correntes sobre o tema: • 1ª corrente: o juiz jamais pode agir de ofício. • 2ª corrente (majoritária): o juiz pode agir de ofício, mas apenas durante a fase processual, desde que procure fazê-lo de maneira subsidiária. À luz da Constituição Federal nosso sistema é o acusatório. A partir do momento em que o texto constitucional outorgou ao Ministério Público a titularidade da ação penal (CF, art. 129, I). SISTEMA MISTO OU FRANCÊS É chamado de sistema misto porquanto o processo se desdobra em duas fases distintas; A primeira fase é tipicamente inquisitorial; Na segunda fase de caráter acusatório; Observação: Há em nosso sistema uma fase preliminar que se aproxima do sistema inquisitorial, mas se trata de fase investigatória. LEI PROCESSUAL NO TEMPO E NO ESPAÇO LEI PROCESSUAL PENAL NO TEMPO Direito intertemporal; Sucessão de leis no tempo; Difere das normas de Direito Penal: • Norma penal: nas normas do direito penal, a regra é o critério da irretroatividade da lex gravior, ou seja, a norma penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu; • Norma processual: em se tratando de normas do direito processual, estas se aplicam de maneira imediata após sua publicação; 1. Norma genuinamente processual: são aquelas que cuidam de procedimentos, atos processuais, técnicas do processo; 2. Norma processual material (mista ou híbrida): São aquelas que abrigam naturezas diversas, de caráter penal e de caráter processual penal. 3. Normas processuais heterotópicas: • Há determinadas regras que, não obstante previstas em diplomas processuais penais, possuem conteúdo material, devendo, pois, retroagir para beneficiar o acusado; • Outras, no entanto, inseridas em leis materiais, são dotadas de conteúdo processual, a elas sendo aplicável o critério da aplicação imediata (tempus regit actum). LEI PROCESSUAL NO ESPAÇO Enquanto à lei penal aplica-se o princípio da territorialidade (CP, art. 5º) e da extraterritorialidade incondicionada e condicionada (CP, art. 72), o Código de Processo Penal adota o princípio da territorialidade ou da lex fori. A atividade jurisdicional é um dos aspectos da soberania nacional, logo, não pode ser exercida além das fronteiras do respectivo Estado. Na visão da doutrina, todavia, há situações em que a lei processual penal de um Estado pode ser aplicada fora de seus limites territoriais: a) aplicação da lei processual penal de um Estado em território nullhis; b) quando houver autorização do Estado onde deva ser praticado o ato processual; c) em caso de guerra, em território ocupado. VAMOS EXERCITAR? Em 23 de novembro de 2015 (segunda feira), sendo o dia seguinte dia útil em todo o país, Técio, advogado de defesa de réu em ação penal de natureza condenatória, é intimado da sentença condenatória de seu cliente. No curso do prazo recursal, porém, entrou em vigor nova lei de natureza puramente processual, que alterava o Código de Processo Penal e passava a prever que o prazo para apresentação de recurso de apelação seria de 03 dias e não mais de 05 dias. No dia 30 de novembro de 2015, dia útil, Técio apresenta recurso de apelação acompanhado das respectivas razões. Considerando a hipótese narrada, o recurso do advogado é a) intempestivo, aplicando-se o princípio do tempus regit actum (o tempo rege o ato), e o novo prazo recursal deve ser observado. b) tempestivo, aplicando-se o princípio do tempus regit actum (o tempo rege o ato), e o antigo prazo recursal deve ser observado; c) intempestivo, aplicando-se o princípio do tempus regit actum (o tempo rege o ato), e o antigo prazo recursal deve ser observado.d) tempestivo, aplicando-se o princípio constitucional da irretroatividade da lei mais gravosa, e o antigo prazo recursal deve ser observado. João, no dia 2 de janeiro de 2015, praticou um crime de apropriação indébita majorada. Foi, então, denunciado como incurso nas sanções penais do Art. 168, §1º, inciso III, do Código Penal. No curso do processo, mas antes de ser proferida sentença condenatória, dispositivos do Código de Processo Penal de natureza exclusivamente processual sofrem uma reforma legislativa, de modo que o rito a ser seguido no recurso de apelação é modificado. O advogado de João entende que a mudança foi prejudicial, pois é possível que haja uma demora no julgamento dos recursos. Nesse caso, após a sentença condenatória, é correto afirmar que o advogado de João a) deverá respeitar o novo rito do recurso de apelação, pois se aplica ao caso o princípio da imediata aplicação da nova lei; b) não deverá respeitar o novo rito do recurso de apelação, em razão do princípio da irretroatividade da lei prejudicial e de o fato ter sido praticado antes da inovação. c) não deverá respeitar o novo rito do recurso de apelação, em razão do princípio da ultratividade da lei. d) deverá respeitar o novo rito do recurso de apelação, pois se aplica ao caso o princípio da extratividade. Analise as afirmativas abaixo, quanto aos princípios do Processo Penal: I. O princípio da ampla defesa implica em que a defesa técnica seja indisponível e efetiva. Assim, o STF tem entendimento consolidado de que a deficiência da defesa constitui nulidade absoluta, que independe da constatação de prejuízo para o réu. II. A atração por continência ou conexão do processo do corréu ao foro por prerrogativa de função de um dos denunciados não viola os princípios do juiz natural, da ampla defesa e do contraditório. III. O princípio nemo tenetur se detegere tem aplicação apenas em relação ao mérito do interrogatório, pois o réu tem o dever de informar seu nome e endereço, não sendo aplicável o direito ao silêncio quanto aos dados de qualificação. IV. Segundo o princípio tempus regt actum os atos processuais praticados sob a égide da lei anterior são considerados válidos e as normas processuais têm aplicação imediata, independentemente da data do fato imputado na denúncia. Está correto apenas o que se afirma em: a) I e III. b) II e IV; c) I, II e IV. d) II e III. Os princípios constitucionais aplicáveis ao processo penal incluem: a) indisponibilidade. b) verdade real. c) razoável duração do processo; d) identidade física do juiz. e) favor rei. Considerando os princípios constitucionais que regem o processo penal, assinale a alternativa correta. a) Sobre a duração razoável do processo, duas teorias buscam reger sua aplicação, a saber: a teoria do não prazo e a teoria do prazo fixo; b) O princípio da dignidade da pessoa humana é um conceito vago e indeterminado e ideias kantianas de autonomia não contribuem para sua determinação. c) A duração razoável do processo é uma norma programática e por isso não possui qualquer eficácia imediata, dependendo totalmente de norma regulamentadora. d) O princípio Nemo tenetur se detegere tal qual expresso na jurisprudência do STF traduz-se, exclusivamente, no direito ao silêncio. e) Para o STF, o princípio da presunção de inocência não possui eficácia irradiante. Segundo o Código de Processo Penal, a lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica; INVESTIGAÇÃO PRELIMINAR A PERSECUÇÃO CRIMINAL A persecução criminal para a apuração das infrações penais e sua respectiva autoria comporta duas fases bem delineadas. A primeira, preliminar, inquisitiva, é o inquérito policial. A segunda, submissa ao contraditório e à ampla defesa, é denominada de fase processual. Assim, materializado o dever de punir do Estado com a ocorrência de um suposto fato delituoso, cabe a ele, Estado, como regra, iniciar a persecutio criminis para apurar, processar e enfim fazer valer o direito de punir, solucionando as lides e aplicando a lei ao caso concreto. POLÍCIA ADMINISTRATIVA A polícia tem a incumbência de preservar a paz social e intervir nos conflitos mediante atividade investigativa tendente a apurar infrações que venham ocorrer. Polícia administrativa ou de segurança; De caráter eminentemente preventivo, visa, com o seu papel ostensivo de atuação, impedir a ocorrência de infrações. Ex.: a Polícia Militar dos Estados-membros. POLÍCIA JUDICIÁRIA De atuação repressiva, que age, em regra, após a ocorrência de infrações; Visa obter elementos para apuração da autoria e constatação da materialidade delitiva. O papel da Polícia Civil - art. 144, § 4°, da CF/1988; A polícia judiciária tem a missão primordial de elaboração do inquérito policial; Fornecer às autoridades judiciárias as informações necessárias à instrução e julgamento dos processos; realizar as diligências requisitadas pelo juiz ou pelo Ministério Público; Cumprir os mandados de prisão e representar pela decretação de prisão cautelar (art. 13, CPP). INQUÉRITO POLICIAL É o procedimento administrativo inquisitório e preparatório, presidido pela autoridade policial, com o objetivo de identificar fontes de prova e colher elementos de informação quanto à autoria e a materialidade da infração penal, a fim de permitir que o titular da ação penal possa ingressar em juízo. OBSERVAÇÕES: • Procedimento administrativo. • Procedimento inquisitório. • Procedimento preparatório. • Presidido pela autoridade policial. • Identificar fontes de prova. • Colher elementos de informação quanto à autoria e materialidade. Dupla função: a) Preparatória; b) Preservadora; DESTINATÁRIOS DO IP 1. DESTINATÁRIOS IMEDIATOS a) MP → ação penal pública → oferecimento da DENÚNCIA. b) Ofendido → ação penal privada → oferecimento da QUEIXA-CRIME. 2. DESTINATÁRIO MEDIATO Juiz → utiliza-se dos elementos para receber a peça inicial e para formar convencimento quanto à necessidade de decretação de medidas cautelares. PRESIDÊNCIA DO INQUÉRITO POLICIAL Fica a cargo da autoridade policial, exercendo as funções de POLÍCIA JUDICIÁRIA. Alguns doutrinadores diferenciam POLICIA JUDICIÁRIA de POLÍCIA INVESTIGATIVA. É a mesma polícia, mas ora exercendo a função judiciária e ora a função investigativa. A primeira auxilia o poder judiciário no cumprimento de suas ordens. CARACTERÍSTICAS DO INQUÉRITO POLICIAL As características a seguir vistas serão as seguintes: 1) Peça Escrita; 2) Peça Instrumental; 3) Peça Dispensável; 4) Sigiloso; 5) Inquisitivo; 6) Informativo; 7) Indisponível; 8) Temporário; 9) Discricionário. FORMAS DE INSTAURAÇÃO DO INQUÉRITO 1. AÇÃO PENAL PRIVADA (APP); 2. AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA À REPRESENTAÇÃO (APCR); 3. AÇÃO PENAL PÚBLICA INCONDICIONADA (API): O IP referente a crimes que são perseguidos através de API pode ser instaurado através das seguintes formas: 1) Instauração de ofício (PORTARIA); 2) Requisição do juiz ou doMP; 3) Requerimento do ofendido/representante legal; 4) Auto de prisão em flagrante delito; 5) Notícia oferecida por qualquer do povo (“delatio criminis”). 3.1. Instauração de ofício (PORTARIA); 3.2. Requisição do juiz ou do MP Promotor requisita a instauração do inquérito, o delegado é obrigado a atender? 3.3. Requerimento do ofendido/representante legal; 3.4. Auto de prisão em flagrante delito; 3.5. Notícia oferecida por qualquer do povo (“delatio criminis”) “NOTITIA CRIMINIS” 1. Conceito: É o conhecimento, espontâneo ou provocado, por parte da autoridade policial, acerca de um fato delituoso. 2. Espécies a) De cognição imediata (espontânea): a autoridade policial toma conhecimento do crime através de suas atividades rotineiras. b) De cognição mediata (provocada): a autoridade policial toma conhecimento do crime através de um expediente escrito. c) De cognição coercitiva: nesse caso a autoridade policial toma conhecimento do fato delituoso através da apresentação de indivíduo preso em flagrante. 3.“Notitia criminis” inqualificada; INDICIAMENTO 1. Conceito: Consiste em atribuir a alguém a autoria de determinada infração penal. 2. Pressupostos: O indiciamento não pode ser feito de maneira arbitrária ou leviana. É necessário o “fumus comissi delicti”: prova da existência do crime mais indícios de autoria e participação. 3. Atribuição: I - O indiciamento é um ato privativo do Delegado. II - O indiciamento não pode ser requisito pelo juiz e nem pelo Ministério Público. 4. Desindiciamento: é a desconstituição de anterior indiciamento e poderá ser realizado pelo próprio Delegado de Polícia ou pelo juiz, na hipótese de constrangimento ilegal. CONCLUSÃO DO INQUÉRITO POLICIAL Prazo para a conclusão do inquérito policial • Indivíduo preso: 10 dias. • Indivíduo solto: 30 dias. Relatório da autoridade policial (art. 10 do CPP) → Fórum → MP: a) oferecer denúncia; b) propor o arquivamento; c) requerer diligencias imprescindíveis ao oferecimento da denúncia. Atenção: pode o delegado indicar testemunhas que não se restaram ouvidas declinando o endereço em que podem ser encontradas. Requerer diligências imprescindíveis ao oferecimento da denúncia: não é qualquer diligencia que o promotor pode requerer, nos termos do art. 16 do CPP; Pode o juiz indeferir essas diligências? O juiz não pode indeferir essas diligencias. Caso o juiz indefira, a medida cabível será: Mandado de segurança e correição parcial, no entanto, este último não possui em todos os Estados. ARQUIVAMENTO DO INQUÉRITO POLICIAL MP (propõe o arquivamento) → Juiz → Concorda = o processo será arquivado → Discorda → Procurador Geral (art. 28 do CPP), este pode: a) ele próprio denunciar; b) designar outro promotor para denunciar; c) insistir no arquivamento, será arquivado. ARQUIVAMENTO E RECORRIBILIDADE: a) CPP: a decisão que determina o arquivamento do inquérito policial é irrecorrível, nos termos do CPP; b) Exceções: • Crime contra a economia popular e saúde pública, cabe o chamado Recurso de Ofício, esses crimes estão previstos na Lei 1.521/51, em seu art. 7°; • Contravenção de jogo do bicho; • Contravenção de corrida de cavalos fora do hipódromo Nas contravenções de jogo do bicho e corrida de cavalos fora do hipódromo caberá Recurso em Sentido Estrito, nos termos do art. 6°, parágrafo único da Lei 1.508/51. MODALIDADES DE ARQUIVAMENTO a) Arquivamento implícito: Não existe no nosso sistema. • Arquivamento implícito subjetivo: se duas pessoas forem investigadas e o promotor oferecer denúncia contra apenas uma delas haverá arquivamento em relação a outra. • Arquivamento implícito objetivo: se forem investigados dois ou mais crimes e o promotor não oferecer denúncia em relação a um deles haverá arquivamento em relação a este. Cabe observar que esta modalidade não é aceita. b) Arquivamento indireto: caso o promotor entenda que se trata de outro crime e o juiz dele discordar, haverá o chamado arquivamento indireto devendo ser aplicado o art. 28 do CPP. DESARQUIVAMENTO DO INQUÉRITO POLICIAL a) Como regra é possível desarquivar se houver novas provas e não estiver extinta a punibilidade, nos termos do art. 18 do CPP e a Súmula 524 do STF. b) Exceção: Se o fundamento for a atipicidade da conduta, então faz coisa julgada material e não pode desarquivar. O Supremo entende que o arquivamento baseado em causa excludente da ilicitude não faz coisa julgada material. Após receber denúncia anônima, por meio de disquedenúncia, de grave crime de estupro com resultado morte que teria sido praticado por Lauro, 19 anos, na semana pretérita, a autoridade policial, de imediato, instaura inquérito policial para apurar a suposta prática delitiva. Lauro é chamado à Delegacia e apresenta sua identidade recém-obtida; em seguida, é realizada sua identificação criminal, com colheita de digitais e fotografias. Em que pese não ter sido encontrado o cadáver até aquele momento das investigações, a autoridade policial, para resguardar a prova, pretende colher material sanguíneo do indiciado Lauro para fins de futuro confronto, além de desejar realizar, com base nas declarações de uma testemunha presencial localizada, uma reprodução simulada dos fatos; no entanto, Lauro se recusa tanto a participar da reprodução simulada quanto a permitir a colheita de seu material sanguíneo. É, ainda, realizado o reconhecimento de Lauro por uma testemunha após ser-lhe mostrada a fotografia dele, sem que fossem colocadas imagens de outros indivíduos com características semelhantes. Ao ser informado sobre os fatos, na defesa do interesse de seu cliente, o(a) advogado(a) de Lauro, sob o ponto de vista técnico, deverá alegar que A) o inquérito policial não poderia ser instaurado, de imediato, com base em denúncia anônima isoladamente, sendo exigida a realização de diligências preliminares para confirmar as informações iniciais; B) o indiciado não poderá ser obrigado a fornecer seu material sanguíneo para a autoridade policial, ainda que seja possível constrangê-lo a participar da reprodução simulada dos fatos, independentemente de sua vontade. C) o vício do inquérito policial, no que tange ao reconhecimento de pessoa, invalida a ação penal como um todo, ainda que baseada em outros elementos informativos, e não somente no ato viciado. D) a autoridade policial, como regra, deverá identificar criminalmente o indiciado, ainda que civilmente identificado, por meio de processo datiloscópico, mas não poderia fazê-lo por fotografias. Um Delegado de Polícia, ao tomar conhecimento de um suposto crime de ação penal pública incondicionada, determina, de ofício, a instauração de inquérito policial. Após adotar diligência, verifica que, na realidade, a conduta investigada era atípica. O indiciado, então, pretende o arquivamento do inquérito e procura seu advogado para esclarecimentos, informando que deseja que o inquérito seja imediatamente arquivado. Considerando as informações narradas, o advogado deverá esclarecer que a autoridade policial: A) deverá arquivar imediatamente o inquérito, fazendo a decisão de arquivamento por atipicidade coisa julgada material. B) não poderá arquivar imediatamente o inquérito, mas deverá encaminhar relatório final ao Poder Judiciário para arquivamento direto e imediato por parte do magistrado. C) deverá elaborar relatório final de inquérito e, após o arquivamento, poderá proceder a novos atos de investigação, independentemente da existência de provas novas. D) poderá elaborar relatório conclusivo, mas a promoção de arquivamento caberá ao Ministério Público, havendo coisa julgada em caso de homologação do arquivamento por atipicidade; Maria, 15 anos de idade, comparece à Delegacia em janeiro de 2017, acompanhada de seu pai, e narra que João, 18 anos, mediante grave ameaça, teria constrangido-a a manter com ele conjunção carnal, demonstrando interesse, juntamente com seu representante, na responsabilização criminal do autor do fato. Instaurado inquérito policial para apurar o crime de estupro, todas as testemunhas e João afirmaram que a relação foi consentida por Maria, razão pela qual, após promoção do Ministério Público pelo arquivamento por falta de justa causa, o juiz homologou o arquivamento com base no fundamento apresentado. Dois meses após o arquivamento, uma colega de classe de Maria a procura e diz que teve medo de contar antes a qualquer pessoa, mas em seu celular havia filmagem do ato sexual entre Maria e João, sendo que no vídeo ficava demonstrado o emprego de grave ameaça por parte deste. Maria, então, entrega o vídeo ao advogado da família. Considerando a situação narrada, o advogado de Maria A) nada poderá fazer sob o ponto de vista criminal, tendo em vista que a decisão de arquivamento fez coisa julgada material. B) poderá apresentar o vídeo ao Ministério Público, sendo possível o desarquivamento do inquérito ou oferecimento de denúncia por parte do Promotor de Justiça, em razão da existência de prova nova; C) nada poderá fazer sob o ponto de vista criminal, tendo em vista que, apesar de a decisão de arquivamentonão ter feito coisa julgada material, o vídeo não poderá ser considerado prova nova, já que existia antes do arquivamento do inquérito. D) poderá iniciar, de imediato, ação penal privada subsidiária da pública em razão da omissão do Ministério Público no oferecimento de denúncia em momento anterior. No tocante ao inquérito policial, é correto afirmar que: A) por ser um procedimento investigatório que visa reunir provas da existência (materialidade) e autoria de uma infração penal, sua instauração é indispensável. B) pode ser arquivado por determinação da Autoridade Policial se, depois de instaurado, inexistirem provas suficientes da autoria e materialidade do crime em apuração. C) para qualquer modalidade criminosa, deverá terminar no prazo de 10 (dez) dias se o indiciado tiver sido preso em flagrante ou estiver preso preventivamente, ou no prazo de 30 (trinta) dias, quando estiver solto. D) tem valor probatório relativo, mesmo porque os elementos de informação, no inquérito policial, não são colhidos sob a égide do contraditório e ampla defesa, nem na presença do magistrado; Aldo, delegado de polícia, recebeu em sua unidade policial denúncia anônima que imputava a Mauro a prática do crime de tráfico de drogas em um bairro da cidade. A denúncia veio acompanhada de imagens em que Mauro aparece entregando a terceira pessoa pacotes em plástico transparente com considerável quantidade de substância esbranquiçada e recebendo dessa pessoa quantia em dinheiro. Em diligências realizadas, Aldo confirmou a qualificação de Mauro e, a partir das informações obtidas, instaurou IP para apurar o crime descrito no art. 33, caput, da Lei n.º 11.343/2006 — Lei Antidrogas —, sem indiciamento. Na sequência, ele representou à autoridade judiciária pelo deferimento de medida de busca e apreensão na residência de Mauro, inclusive do telefone celular do investigado. Acerca dessa situação hipotética, assinale a opção correta. A) A instauração do IP constituiu medida ilegal, pois se fundou em denúncia anônima. B) Recebido o IP, verificados a completa qualificação de Mauro e os indícios suficientes de autoria, o juiz poderá determinar o indiciamento do investigado à autoridade policial. C) Em razão do caráter sigiloso dos autos do IP, nem Mauro nem seu defensor constituído terão o direito de acessá-los. D) Como não houve prisão, o prazo para a conclusão do IP será de noventa dias; E) Deferida a busca e apreensão, a realização de exame pericial em dados de telefone celular que eventualmente seja apreendido dependerá de nova decisão judicial. AÇÃO PENAL 1. Direito de ação penal: A partir do momento em que o Estado trouxe para si o exercício da função jurisdicional era importante que ele colocasse a disposição de todos os jurisdicionados um direito para obtê-la. Nesse contexto, surge o direito de ação que consiste no direito de se dirigir ao Estado-juiz pleiteando a aplicação do direito penal objetivo a determinado caso concreto. Classificação das ações penais condenatórias As ações penais condenatórias subdividem-se em: • Ação penal pública; • Ação penal privada. Ação penal pública: I – Titular: Ministério Público: CF, art. 129: “São funções institucionais do Ministério Público: I - promover, privativamente, a ação penal pública, na forma da lei; (...)”. II – Peça acusatória: denúncia. Ação penal pública incondicionada I - Recebe a denominação “incondicionada” porque ela não depende de nenhuma condição específica. Ou seja, o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público não depende de representação de ofendido ou de requisição do Ministro da Justiça. II - A ação penal pública incondicionada funciona como regra. Assim, se o Código Penal não dispuser nada a respeito, compreende-se tratar de ação penal pública incondicionada. Exemplos: homicídio, latrocínio, roubo e extorsão. Ação penal pública condicionada I – É denominada de “ação penal pública condicionada” porque a deflagração da persecução penal depende de representação do ofendido ou de requisição do Ministro da Justiça. Portanto, o Ministério Público somente poderá agir depois que uma dessas condições for implementada. Exemplos: injúria racial, estupro (em regra) e crime contra a honra do Presidente da República ou Chefe de Governo estrangeiro. II – Deve estar previsto em lei. Caso contrário, seguirá a regra (ação penal pública incondicionada). Geralmente, está previsto no próprio crime – exemplo: CP, art. 147, parágrafo único. No entanto, é comum encontrar, ao final de um Capítulo do Código Penal, disposições finais, nas quais o legislador disciplina a ação penal – exemplos: CP, art. 145 (crimes contra a honra) e CP, art. 182 (crimes contra o patrimônio). Ação penal privada subsidiária da pública Nessa ação haverá a inércia de um órgão oficial. Em razão disso, outro órgão oficial vai assumir a titularidade da ação penal. Na ação penal privada subsidiária da pública também há a inércia de um órgão oficial. No entanto, quem a assumirá é o ofendido ou seu representante legal. Ação penal de iniciativa privada I – Legitimado: ofendido ou seu representante legal. II - A ideia do legislador é a de que há crimes que atingem um interesse muito próprio ou específico da própria vítima e que nessa hipótese o Estado reconhece que não há interesse nessa persecução penal em razão do “strepitus judicii” (escândalo do processo). Portanto, nada mais razoável do que deixar nas mãos da vítima essa legitimidade para ingressar em juízo. III – Em algumas hipóteses, o Código de Processo Penal prevê a transferência da legitimidade para um curador especial (CPP, art. 331). IV – Sucessão processual: o direito de oferecer a queixa- crime é transferido aos sucessores (cônjuge, ascendente, descendente ou irmão) (CPP, art. 312). Ação penal privada personalíssima I – Somente o ofendido pode ingressar em juízo. Portanto, o direito não é transmitido ao representante legal ou aos sucessores. II – Nos casos de ação penal privada personalíssima não há sucessão processual. Assim, na eventualidade de ocorrer a morte da vítima, haverá a extinção do seu direito. Trata-se de uma hipótese raríssima em que a morte da vítima extingue a punibilidade do autor do delito. III – Exemplo: crime de induzimento a erro essencial e ocultação de impedimento: CP, art. 236: “Contrair casamento, induzindo em erro essencial o outro contraente, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior: Pena - detenção, de seis meses a dois anos. Parágrafo único - A ação penal depende de queixa do contraente enganado e não pode ser intentada senão depois de transitar em julgado a sentença que, por motivo de erro ou impedimento, anule o casamento”. O amor é mais...