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Este livrotemcomoobjetivoensinaraoestudanteasartes
correlacionadasnacomunicaçãovisual.O temaé
apresentadonãocomoumalínguaestrangeira,mascomo
umalínguanativaqueo estudante"sabe",masnaqual
aindanãoconsegue"ler".Estaanalogiaproporcionaum
métododeensinoútil,empartepor nãoserelaboradaem
demasiaou aplicadacomexcessivorigor.Estemétodode
ensinara vere a lerdadosvisuaisjá foi postoa provacom
sucessoemvárioscontextossocioeconômicos.
Nadamaisadequado,portanto,quealgunsdosobjetivos
maisimportantesdo livrotenhamsidocomunicadospor
meiosvisuais.Váriosexemplosilustradossãousadospara
esclareceros elementosbásicosdo design(a aprendizagem
do alfabeto),paramostrarcomoelessãousadosem
combinaçõessintáticassimples(a aprendizagemde
"sentenças"simples)e, finalmente,paraapresentara
síntesesignificativada informaçãovisualcomoobrade
arteacabada(a compreensãodapoesia).
DonisA. Dondisé atualmenteprofessoradecomunicação
naBostonUniversitySchoolof Communicatione diretora
do SummerTermPublicCommunicationInstitute,dessa
mesmainstituição.
ISBN 85-336-0583-8
11/1
9"788533605831
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Estacoleçãopretende
reunirosestudosmais
significativosno campoda
comunicaçãovisuale das
artesplásticasem
particular,reservandoum
espaçoprivilegiadoparao
modernismo.Seuobjetivo
é garantira umpúblicode
artistas,críticos,estudiosos
e amantesdaarteacesso
nãoapenasaosclássicos
quesinalizarama história
daarte,paraa compreensão
desuaevoluçãoe desuas
tendências,mastambém
aosmanuaise estudos
recentesqueproporcionam
os elementosessenciais
paraa compreensãoda
gramáticadacomunicação
visual.
SINTAXE DA
LINGUAGEM VISUAL
CAPA
Projeto gráfico KatiaHarumiTerasaka
Imagem SergioRomagnolo,(detalhe)
SemTitulo(DobraAzul), 1991,plástico
modelado,74cmx 107cmx 2&m.
Coleçãoparticular.
Rivas & Lunas
Nota
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Título original: A PRIMER OF VISUAL UTERACY.
Copyrighl @ by TheMassachusettslnstitutt ofTechnology. 1973.
Copyright @Livraria Martins Fontes Editora LIda.,
São Paulo. 1991,para apresenteedição.
21edição
fevereirode/997
21tiragem
janeirode1999
SUMÁRIO
Tradução
JEFFERSONLUlZ CAMARGO
Revisãodatradução
MariaEsteIoHeiderCamlheiro
Revisãográfica
ÁureaReginaSarror;
Maurício'Ba/thazarLeal
Produçãogrãlica
GeraldoA/ves
Capa
KatiaHarumiTerasaka
Imagemdacapa
SergioRomagn%(detalhe),
"SemTitulo"(DobraAzul),1991,
plásticomodelado,74emx /07emx28em.
Coleçãoparticular.
Prefácio
DadosInternacionaisdeCatalogaçãona Publicação(CIP)
(Cãmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Dondis. Donis A.
Sintaxe da linguagem visual I Donis A. Dondis ; [tradução
Jefferson Luiz Camargo]. - 2' ed. - São Paulo: Martins Fontes.
1997.- (Coleção 3)
1.Carátere conteúdodo alfabetismovisual 5
2. Composição:fundamentossintáticosdo alfabetismovisual 29
3.Elementosbásicosda comunicaçãovisual 51
4. Anatomiada mensagemvisual 85
5.A dinâmicado.contraste 107
6. Técnicasvisuais:estratégiasdecomunicação 131
7. A síntesedo estilovisual 16I
8. As artesvisuais:funçãoe mensagem183
9. Alfabetismovisual:comoe por quê 227
Título original: A primer of visualliteracy.
Bibliografia.
ISBN 85-336-0583-8
Bibliografia 233
FontesdasIlustrações 235
I. Alfabetismovisual2.Arte- Técnica3. Composição(Arte)
4. ComunicaçãovisualI. Título.11.Série.
97-0543 CDD-700.14
Índicesparacatálogosistemático:
I. Comunicaçãovisual:Artes 700.14
Todosos direitospara o Brasil reservadosà
Livraria Martins Fontes Editora LIda.
Rua ConselheiroRamalho,330/340
01325-000 São Paulo SP Brasil
Tel, (011)239-3677 Fax (011)3105-6867
e-mail: info@martinsfontes.com
http://www.martinsfontes.com
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PREFÁCIO
Sea invençãodotipomóvelcriouo imperativodeumalfabetismo*>
verbaluniversal,semdúvidaa invençãodacâmeraedetodasassuas
formasparalelas,quenãocessamdesedesenvolver,criou,porsuavez,
o imperativodoalfabetismovisualuniversal,umanecessidadequehá
muitotemposefaz sentir.O cinema,a televisãoe os computadores
visuaissãoextensõesmodernasdeumdesenharedeum fazerquetêm
sido,historicamente,umacapacidadenaturaldetodoserhumano,e
queagorapareceter-seapartadodaexperiênciado homem.
A arteeo significadodaarte,a formaea funçãodocomponente
visualdaexpressãoe da comunicação,passarampor umaprofunda
transformaçãonaeratecnológica,semquesetenhaverificadoumamo-
dificaçãocorrespondentenaestéticadaarte.Enquantoo caráterdas
artesvisuaisedesuasrelaçõescomasociedadeeaeducaçãosofreram
transformaçõesradicais,aestéticadaartepermaneceuinalterada,ana-
cronicamentepresaà idéiadequea influênciafundamentalparaoen-
tendimentoeaconformaçãodequalquerníveldamensagemvisualdeve
basear-sena inspiraçãonão-cerebral.Emborasejaverdadequetoda
informação,tantodeinputquantodeoutput,devapassaremambos
osextremosporumarededeinterpretaçãosubjetiva,essaconsidera-
. · Literacyquerdizer"capacidadedelereescrever".Por extensão,significatam-
be)11"educado","conhecimento","instrução",etc.,termos,porém,quenãotradu-
zemo verdadeirosentidodovocábulocomoeleéaquiempregado.Paraevitaraintrodução
deumneologismodesentidoobscuro,como,por exemplo,"alfabetidade",optou-se
aquipor"alfabetismo",definidonodicionárioAuréliocomo"estadoouqualidadede
alfabetizado".(N. T.)
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~
2 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
çãoisoladatransformariaa inteligênciavisualemalgosemelhantea
umaárvoretombandosilenciosamentenumaflorestavazia.A expres-
sãovisualsignificamuitascoisas,emmuitascircunstânciaseparamuitas
pessoas.É produtodeumainteligênciahumanadeenormecomplexi-
dade,daqualtemos,infelizmente,umacompreensãomuitorudimen-
tar. Para tornaracessívelum conhecimentomaisamplodealgumas
dascaracterísticasessenciaisdessainteligência,opresentelivropropõe-
seaexaminaroselementosvisuaisbásicos,asestratégiaseopçõesdas
técnicasvisuais,asimplicaçõespsicológicasefisiológicasdacomposi-
çãocriativae agamademeiose formatosquepodemseradequada-
menteclassificadossob a designaçãoartese ofícios visuais.Esse
processoé o começodeumainvestigaçãoracionale deumaanálise
quesedestinamaampliaracompreensãoeo usodaexpressãovisual.
Emboraestelivronãopretendaafirmara existênciadesoluções
simplesouabsolutasparaocontroledeumalinguagemvisual,ficaclaro
quearazãoprincipaldesuaexploraçãoésugerirumavariedadedemé-
todosdecomposiçãoedesignquelevememcontaadiversidadedaes-
truturadomodovisual.Teoriaeprocesso,definiçãoeexercício,esta-
rãoladoa ladoaolongodetodoo livro.Desvinculadosumdooutro,
essesaspec:tosnãopodemlevarao desenvolvimentodemetodologias
quepossibilitemumnovocanaldecomunicação,emúltimainstância
suscetíveldeexpandir,comofazaescrita,osmeiosfavoráveisà inte-
raçãohumana.
A linguagemésimplesmenteumrecursodecomunicaçãopróprio
do homem,queevoluiudesdesuaformaauditiva,purae primitiva,
atéacapacidadedelereescrever.A mesmaevoluçãodeveocorrercom
todasascapacidadeshumanasenvolvidasnapré-visualização,nopla-
nejamento,nodesenhoenacriaçãodeobjetosvisuais,dasimplesfa-
bricaçãode ferramentase dosofíciosatéa criaçãode símbolos,e,
finalmente,àcriaçãodeimagens,nopassadoumaprerrogativaexclu-
sivadoartistatalentoso einstruído,mashoje,graçasàsincríveispos-
sibilidadesdacâmera,umaopçãoparaqualquerpessoainteressadaem
aprenderumreduzidonúmeroderegrasmecânicas.Mas o quedizer
doalfabetismovisual?Por sisó,a reproduçãomecânicadomeioam-
bientenãoconstituiumaboaexpressãovisual.Paracontrolaro as-
sombrosopotencialdafotografia,sefaznecessáriaumasintaxevisual.
O adventodacâmeraéumacontecimentocomparávelaodolivro,que
PREFÁCIO 3
originalmentebeneficiouo alfabetismo."EntreosséculosXIII eXVI,
aordenaçãodaspalavrassubstituiua inflexãodaspalavrascomoprin-
cípiodasintaxegramatical.A mesmatendênciasedeucoma forma-
çãodaspalavras.Como surgimentodaimprensa,ambasastendências
passarampor um processodeaceleração,e houveumdeslocamento
dosmeiosauditivosparaosmeiosvisuaisdasintâxe."* Paraquenos
consideremverbalmentealfabetizadosé precisoqueaprendamosos
componentesbásicosdalinguagemescrita:asletras,aspalavras,aor-
tografia,a gramáticae a sintaxe.Dominandoa leiturae a escrita,o
quesepodeexpressarcomessespoucoselementoseprincípiosé real-
menteinfinito.Umavezsenhordatécnica,qualquerindivíduoécapaz
deproduzirnãoapenasumainfinitavariedadedesoluçõescriativas
paraosproblemasdacomunicaçãoverbal,mastambémumestilopes~
soal.A disciplinaestruturalestánaestruturaverbalbásica.O alfabe-
tismosignificaqueumgrupocompartilhao significadoatribuídoaum
corpocomumdeinformações.O alfabetismovisualdeveoperar,de
algumamaneira,dentrodesseslimites.Não sepodecontrolá-Iomais
rigidamentequea comunicaçãoverbal;nemmaisnemmenos.(Seja
comofor, quemdesejariacontrolá-lo rigidamente?)Seusobjetivossão
os mesmosquemotivaramo desenvolvimentoda linguagemescrita:
construirumsistemabásicoparaa aprendizagem,a identificação,a
criaçãoea compreensãodemensagensvisuaisquesejamacessíveisa
todasaspessoas,enãoapenasàquelasqueforamespecialmentetrei-
nadas,comooprojetista,oartista,o artesãoeoesteta.Tendoemvis-
taesseobjetivo,estaobrapretendeserummanual.básicodetodasas
comunicaçõeseexpressõesvisuais,umestudodetodososcomponen-
tesvisuaiseumcorpocomumderecursosvisuais,coma consciência
e o desejodeidentificaras áreasdesignificadocompartilhado.
O modovisualconstituitodoumcorpodedadosque,comoa lin-
guagem,podemserusadosparacomporecompreendermensagensem
diversosníveisdeutilidade,desdeo puramentefuncionalatéos mais
elevadosdomíniosdaexpressãoartística.É umcorpodedadosconsti-
tuídodepartes,umgrupodeunidadesdeterminadasporoutrasunida-
* MarshallMcLuhan,"The Effectof thePrintedBookou Languagein the16th
Century", in Exploratonsin Communications,EdmundCarpentere MarshallMcLu-
han,editores(Boston,Massachusetts,BeaconPress,1960).
,
4 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
des,cujo significado,emconjunto,éumafunçãodo significadodas
partes.Comopodemosdefinirasunidadeseo conjunto?Atravésde
provas,definições,exercícios,observaçõese, finalmente,linhasmes-
tras,quepossamestabelecerrelaçõesentretodososníveisdaexpres-
são visual e todas as característicasdas artesvisuaise de seu
"significado".Detantobuscaro significadode"arte", asinvestiga-
çõesacabampor centralizar-senadelimitaçãodo papeldo conteúdo
naforma.Nestelivro,todaaesferadoconteúdonaformaseráinves-
tigadaemseunívelmaissimples:a importânciadoselementosindivi-
duais,comoa cor, o tom,a linha,a texturae a proporção;o poder
expressivodastécnicasindividuais,comoaousadia,asimetria,a rei-
teraçãoeaênfase;eo contextodosmeios,queatuacomocenáriovi-
sualparaasdecisõesrelativasaodesign,comoapintura,a fotografia,
aarquitetura,atelevisãoeasartesgráficas.É inevitávelqueapreocu-
paçãoúltimado alfabetismovisualsejaa formainteira,o efeitocu-
mulativodacombinaçãodeelementosselecionados,amanipulaçãodas
unidadesbásicasatravésdetécnicasesuarelaçãoformalecompositi-
va como significadopretendido.
A forçaculturaleuniversaldocinema,da fotografiaedatelevi-
são,naconfiguraçãodaauto-imagemdohomem,dáamedidadaur-
gênciado ensinodealfabetismovisual,tantoparaoscomunicadores
quantopara aquelesaosquaisa comunicaçãose dirige.Em 1935,
Moholy-Nagy,o brilhanteprofessordaBauhaus,disse:"Os iletrados
do futurovão ignorartantoo usodacanetaquantoo dacâmera."
O futuroé agora.O fantásticopotencialdacomunicaçãouniversal,
implícitonoalfabetismovisual,estáàesperadeumamploearticula-
do desenvolvimento.Com o presentelivro, damosummodestopri-
meiropasso.
1
CARÁTER E CONTEÚDO
DO ALFABETISMO VISUAL
Quantosde nósvêem?
Queamploespectrodeprocessos,atividades,funções,atitudes,essa
simplesperguntaabrange!A listaélonga:perceber,compreender,con-
templar,observar,descobrir,reconhecer,visualizar,examinar,ler,
olhar.As conotaçõessãomultilaterais:daidentificaçãodeobjetossim-
plesaousodesímbolosedalinguagemparaconceituar,dopensamen-
toindutivoaodedutivo.O númerodequestõeslevantadasporestaúnica
pergunta:"Quantosdenósvêem?",nosdáachavedacomplexidade
do caráteredoconteúdodainteligênciavisual.Essacomplexidadese
refletenasinúmerasmaneirasatravésdasquaisestelivrovaipesquisar
anaturezadaexperiênciavisualmedianteexplorações,análisesedefi-
nições,quelhepermitamdesenvolverumametodologiacapazdeins-
truir todasaspessoas,aperfeiçoandoaomáximosuacapacidade,não
sódecriadores,mastambémdereceptoresdemensagensvisuais;em
outraspalavras,capazdetransformá-Iasemindivíduosvisualmenteal-
fabetizados.
A primeiraexperiênciaporquepassaumacriançaemseuproces-
sodeaprendizagemocorreatravésdaconsciênciatátil.Alémdesseco-
nhecimento"manual", o reconhecimentoincluio olfato,a audição
eo paladar,numintensoefecundocontatocomo meioambiente.Es-
sessentidossãorapidamenteintensificadosesuperadospeloplanoicô-
nico - a capacidadedever, reconhecere compreender,emtermos
visuais,asforçasambientaiseemocionais.Praticamentedesdenossa
rr-
6 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL CARÁTER E CONTEÚDO DO ALFABETISMO VISUAL 7
primeiraexperiêncianomundo,passamosa organizarnossasnecessi-
dadesenossosprazeres,nossaspreferênciasenossostemores,combase
naquiloquevemos.Ounaquiloquequeremosver.Essadescrição,po-
rém,éapenasapontado iceberg,enãodádeformaalgumaaexata
medidado podereda importânciaqueo sentidovisualexercesobre
nossavida.Nós o aceitamossemnosdarmoscontadequeelepode
seraperfeiçoadono processobásicodeobservação,ou ampliadoaté
converter-senumincomparávelinstrumentodecomunicaçãohumana.
Aceitamosa capacidadedeverdamesmamaneiracomoa vivencia-
mos- semesforço.
Paraosquevêem,o processorequerpoucaenergia;osmecanis-
mosfisiológicossãoautomáticosnosistemanervosodohomem.Não
causaassombroo fatodequeapartirdesseoutputmínimorecebamos
umaenormequantidadedeinformações,detodasasmaneirase em
muitosníveis.Tudoparecemuitonaturalesimples,sugerindoquenão
hánecessidadededesenvolvernossacapacidadedeveredevisualizar,
equebastaaceitá-Iacomoumafunçãonatural.Emseulivro Towards
a VisualCulture,CalebGattegnocomenta,referindo-seànaturezado
sentidovisual:"Emborausadapornóscomtantanaturalidade,avi-
sãoaindanãoproduziusuacivilização.A visãoéveloz,degrandeal-
cance,simultaneamenteanalíticaesintética.Requertãopoucaenergia
parafuncionar,comofunciona,àvelocidadedaluz, quenospermite
recebereconservarumnúmeroinfinitodeunidadesdeinformaçãonu-
mafraçãodesegundos."A observaçãodeGattegnoéumtestemunho
dariquezaassombrosadenossacapacidadevisual,oquenostornapro-
pensosa concordarentusiasticamentecomsuasconclusões:"Com a
visão,o infinitonosédadodeumasóvez;a riquezaésuadescrição."
Nãoédifícildedetectaratendênciaàinformaçãovisualnocom-
portamentohumano.Buscamosumreforçovisualdenossoconheci-
mentopor muitasrazões;a maisimportantedelaséo caráterdireto
dainformação,aproximidadedaexperiênciareal.Quandoanavees-
pacialnorte-americanaApoio XI alunissou,equandoos primeirose
vacilantespassosdosastronautastocarama superfícieda lua, quan-
tos,dentreos telespectadoresdo mundointeiroqueacompanhavam
atransmissãodoacontecimentoaovivo,momentoamomento,teriam
preferidoacompanhá-Io atravésdeumareportagemescritaou falada,
pormaisdetalhadaoueloqüentequeelafosse?Essaocasiãohistórica
é apenasumexemplodapreferênciado homempelainformaçãovi-
sual.Há muitosoutros:o instantâneoqueacompanhaa cartadeum
amigoqueridoqueseachadistante,o modelotridimensionaldeum
novoedifício.Por queprocuramosessereforçovisual?Veréumaex-
periênciadireta,eautilizaçãodedadosvisuaisparatransmitirinfor-
maçõesrepresentaa máximaaproximaçãoquepodemosobtercom
relaçãoàverdadeiranaturezadarealidade.As redesdetelevisãode-
monstraramsuaescolha.Quandoficouimpossívelocontatovisualdi-
reto com os astronautasda Apoio XI, elascolocaramno ar uma
simulaçãovisualdo queestavasendosimultaneamentedescritoatra-
vésdepalavras.Havendoopções,a escolhaémuitoclara.Nãosóos
astronautas,mastambémoturista,osparticipantesdeumpiquenique
ou o cientista,voltam-se,todos,parao modoicônico,sejaparapre-.
servarumalembrançavisualsejaparateremmãosumaprovatécnica.
Nesseaspecto,parecemostodosser do Missouri; dizemostodos:
"Mostre-me."
A falsa dicotomia:belas-artese artesaplicadas
A experiênciavisualhumanaé fundamentalnoaprendizadopara
quepossamoscompreenderomeioambienteereagiraele;a informa-
çãovisualéomaisantigoregistrodahistóriahumana.As pinturasdas
cavernasrepresentamo relatomaisantigoquesepreservousobreo
mundotalcomoelepodiaservistohácercadetrintamil anos.Ambos
osfatosdemonstramanecessidadedeumnovoenfoquedafunçãonão
somentedoprocesso,comotambémdaquelequevisualizaa socieda-
de.O maiordosobstáculoscomquesedeparaesseesforçoéaclassifi-
caçãodasartesvisuaisnaspolaridadesbelas-artese artesaplicadas.
Em qualquermomentodahistória,adefiniçãosedeslocaemodifica,
emboraosmaisconstantesfatoresdediferenciaçãocostumemserauti-
lidadee a estética.
A utilidadedesignao designea fabricaçãodeobjetos,materiais
edemonstraçõesquerespondama necessidadesbásicas.Dasculturas
primitivasà tecnologiadefabricaçãoextremamenteavançadadenos-
sosdias,passandopelasculturasantigasecontemporâneas,asneces-
sidadesbásic,\sdo homemsofrerampoucasmodificações.O homem
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8 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL CARÁTER E CONTEÚDO DO ALFABETISMO VISUAL 9
precisacomer;parafazê-Io,precisadeinstrumentosparacaçarema-
tar,lavrarecortar;precisaderecipientesparacozinharedeutensílios
nosquaispossacomer.Precisaprotegerseucorpovulneráveldasmu-
dançasclimáticasedomeioambientetraiçoeiro,eparaissonecessita
deferramentasparacosturar,cortaretecer.Precisamanter-sequente
esecoeproteger-sedospredadores,eparatantoéprecisoquecons-
truaalgumtipodehábitat.As sutilezasdapreferênciaculturalou da
localizaçãogeográficaexercempoucainfluênciasobreessasnecessida-
des;somenteainterpretaçãoeavariaçãodistinguemoprodutoemter-
mosdaexpressãocriadora,comorepresentantedeumtempooulugar
específicos.Na áreadodesignedafabricaçãodasnecessidadesvitais
básicas,supõe-sequetodomembrodacomunidadesejacapaznãoape-
nasdeaprenderaproduzir,mastambémdedarumaexpressãoindivi-
duale únicaa seutrabalhoatravésdo designedadecoração.Mas a
expressãodasprópriasidéiaséregida,primeiro,peloprocessodeapren-
dizagemdoofícioe,emsegundolugar,pelasexigênciasdefuncionali-
dade.O importanteé queo aprendizadosejaessenciale aceito.A
perspectivadequeummembrodacomunidadecontribuaemdiversos
níveisdaexpressãovisualrevelaumtipodeenvolvimentoeparticipa-
çãoquegradualmentedeixoudeexistirnomundomoderno,numpro-
cessoquesetemaceleradoporinúmerasrazões,entreasquaissobressai
o conceitocontemporâneode "belas-artes".
A diferençamaiscitadaentreo utilitárioeo puramenteartístico
éo graudemotivaçãoquelevaà produçãodobelo.Esseéo domínio
daestética,da indagaçãosobrea naturezadapercepçãosensorial,da
experiênciadobeloe,talvez,damerabelezaartística.Massãomuitas
asfinalidadesdasartesvisuais.Sócrateslevantaa questãode"as ex-
periênciasestéticasteremvalorintrínseco,oudesernecessáriovalorizá-
Iasoucondená-Iaspor seuestímuloaoqueéproveitosoebom". "A
experiênciadobelonãocomportanenhumtipodeconhecimento,seja
elehistórico,científicoou filosófico", diz ImmanuelKant. "Delase
podedizerqueéverdadeirapor tornar-nosmaisconscientesdenossa
atividademental."Sejaqualfor suaabordagemdoproblema,osfiló-
sofosconcordamemquea arteincluiumtema,emoções,paixõese
sentimentos.No vastoâmbitodasdiversasartesvisuais,religiosas,so-
ciaisoudomésticas,o temasemodificacoma intenção,tendoemco-
mumapenasa capacidadede comunicaralgo de específicoou de
abstrato.ComodizHenriBergson:"A arteéapenasumavisãomais
diretadarealidade."Em outraspalavras,mesmonessenívelelevado
deavaliação,asartesvisuaistêmalgumafunçãoou utilidade.É fácil
traçarumdiagramaquesituediversosformatosvisuaisemalgumare-
laçãocomessaspolaridades.A figura1.1apresentaumamaneirade
expressarastendênciasatuaisemtermosdeavaÍiação:
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BELAS-ARTES ARTES APLICADAS
FIGURA 1.1
Essediagramaficariamuitodiferenteserepresentasseoutracul-
tura,como,por exemplo,a pré-renascentista(fig. 1.2),
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BELAS-ARTES
FIGURA 1.2
ARTES APLICADAS
ouo pontodevistadaBauhaus,queagrupariatodasasartes,aplica-
dasou belas,numpontocentraldo continuum(fig. 1.3).
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BELAS-ARTES
FIGURA 1.3
ARTES APLICADAS
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10 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL CARÁTER E CONTEÚDO DO ALFABETISMO VISUAL 11
Muito antesdaBauhaus,WilliamMorriseospré-rafaelitasjá se
inclinavamnamesmadireção."A arte", diziaRuskin,porta-vozdo
grupo,"é una,equalquerseparaçãoentrebelas-arteseartesaplicadas
é destrutivaeartificial." Os pré-rafaelitasacrescentavama essatese
umadistinçãoqueosafastavatotalmentedafilosofiaposteriordaBau-
haus- rejeitavamtodotrabalhomecanizado.O queéfeitopelamão
ébelo,acreditavam,eaindaqueabraçassema causadecompartilhar
aartecomtudo,o fatodevoltaremascostasàspossibilidadesdapro-
duçãoemmassaconstituíaumanegaçãoóbviadosobjetivosqueafir-
mavamseguir.
Em suavoltaaopassadopararenovaro interesseporumartesa-
natoorgulhosoeesmerado,oqueogrupodomovimentolideradopor
Morris, "ArteseOfícios", naverdadeafirmavaeraaimpossibilidade
deproduzirartedesvinculadadoartesanato- umfatofacilmentees-
quecidonaesnobedicotomiaentreasbelas-arteseasartesaplicadas.
Duranteo Renascimento,o artistaaprendiaseuofícioapartirdetare-
fassimples,e,apesardesuaelevadaposiçãosocial,compartilhavasua
guildaou suaagremiaçãocomo verdadeiroartesão.Issogeravaum
sistemadeaprendizagemmaissólido,e, o queeramaisimportante,
menorespecialização.Havialivreinteraçãoentreartistae artesão,e
osdoispodiamparticipardetodasasetapasdotrabalho;aúnicabar-
reiraa separá-Ioserao respectivograudehabilidade.Com o passar
dotempo,porém,modificam-seosprocedimentos.O queseclassifica
como"arte" podemudarcomtantarapidezquantoaspessoasque
criamesserótulo."Um corodealeluias",dizCarl Sandburgemseu
poema"The People,Yes", "eternamentetrocandodesolista."
A concepçãocontemporâneadasartesvisuaisavançouparaalém
damerapolaridadeentreasartes"belas"eas"aplicadas",epassou
aabordarquestõesrelativasàexpressãosubjetivaeà funçãoobjetiva,
tendendo,maisumavez,àassociaçãodainterpretaçãoindividualcom
a expressãocriadoracomopertencenteàs"belas-artes",eà resposta
à finalidadeeaousocomopertencenteaoâmbitodas"artesaplica-
das".Um pintordecavaletequetrabalheparasimesmo,sema preo-
cupaçãodevender,estábasicamenteexercendoumaatividadequelhe
dáprazerenãoo levaa preocupar-secomo mercado,sendo,assim,
quasequeinteiramentesubjetiva.Umartesãoquemodelaumrecipiente
decerâmicapodeparecer-nostambémsubjetivo,poisdáa suaobra
a formaeo tamanhoquecorrespondema seugostopessoal.Em seu
caso,porém,háumapreocupaçãodeordemprática:essaformaque
lheagradapoderásertambémumbomrecipienteparaa água?Essa
modificaçãodautilidadeimpõeaodesignerumcertograudeobjetivi-
dadequenãoétãoimediatamentenecessária,nemtãoaparentenaobra
dopintordecavalete.O aforismodoarquitetonórte-americanoSulli-
van,"A formaacompanhaa função",encontrasuailustraçãomáxi-
ma no designerdeaviões,quetemsuaspreferênciaslimitadaspela
indagaçãodequaisformasaseremmontadas,quaisproporçõese,ma-
teriaissãorealmentecapazesdevoar.A formado produtofinalde-
pendedaquiloparaqueeleserve.Masnoquedizrespeitoaosproblemasmaissutisdodesignhámuitosprodutosquepodemrefletirasprefe-
rênciassubjetivasdodesignere,aindaassim,funcionarperfeitamente-
bem.O designernãoé o únicoa enfrentara questãodesechegara
ummeio-termoquandoo queestáempautaéo gostopessoal.É co-
mumqueumartistaouumescultortenhademodificarumaobrapelo
fatodeterrecebidoaencomendadeumclientequesabeexatamente
o quedeseja.As intermináveisbrigasdeMichelangelo,porcausadas
encomendasquelheforamfeitaspordoispapas,constituemosexem-
plosmaisvivoseilustrativosdoproblemacomquesedeparaumartis-
ta ao terdemantersuasidéiaspessoaissobcontroleparaagradara
seusclientes.Mesmoassim,ninguémseatreveriaadizerque"O juízo
final" ou o "Davi" sãoobrascomerciais.
OsafrescosdeMichelangeloparao tetodaCapelaSistinademons-
tramclaramentea fragilidadedessafalsadicotomi...Comorepresen-
tantedas necessidadesda Igreja, o papa influenciouas idéiasde
Michelangelo,asquaistambémforam,porsuavez,modificadaspelas
finalidadesespecíficasdomural.Trata-sedeumaexplicaçãovisualda
"Criação" paraumpúblicoemsuamaiorparteanalfabetoe,portan-
to, incapazdelerahistóriabíblica.Mesmoquesoubesseler,essepú-
blico não conseguiriaapreenderde modo tão palpáveltoda a
dramaticidadedo relato.O muraléumequilíbrioentrea abordagem
subjetivaeaabordagemobjetivadoartista,eumequilíbriocompará-
velentrea puraexpressãoartísticaeo caráterutilitáriodesuasfinali-
dades.Essedelicadoequilíbrioé extraordinariamenteraro nasartes
visuais,mas,semprequeéalcançado,temaprecisãodeumtirocertei-
ro. Ninguémquestionariaessemuralcomoumprodutoautênticodas
12 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL CARÁTER E CONTEÚDO DO ALFARETlSMO VISUAL 13
"belas-artes"e,noentanto,eletemumpropósitoeumautilidadeque
contradizemadefiniçãodasupostadiferençaentrebelas-arteseartes
aplicadas:as"aplicadas"devemserfuncionais,eas "belas" devem
prescindirdeutilidade.Essaatitudeesnobeinfluenciamuitosartistas
deambasasesferas,criandoumclimadealienaçãoeconfusão.Por
maisestranhoquepareça,trata-sedeumfenômenobastanterecente.
A noçãode"obradearte"émoderna,sendoreforçadapeloconceito
demuseucomorepositóriodefinitivodobelo.Um certopúblico,en-
tusiasticamenteinteressadoemprostrar-seematitudedereverênciadian-
tedoaltardabeleza,delaseaproximasemsedarcontadeumambiente
inacreditavelmentefeio.Tal atitudeafastaaartedoessencial,confere-
lheumaauradealgoespecialeinconseqüentea serreservadoapenas
aumaeliteenegao fatoinquestionáveldequãoelaéinfluenciadapor
nossavidaenossomundo.Seaceitarmosessepontodevista,estare-
mosrenunciandoaumapartevaliosadenossopotencialhumano.Não
sónostransformamosemconsumidoresdesprovidosdecritériosbem
definidos,comotambémnegamosa importânciafundamentaldaco-
municaçãovisual,tantohistoricamentequantoemtermosdenossapró-
pria vida.
o impactoda fotografia
certezanãomorrerájamais;nãoobstante,nossaculturadominadapela
linguagemjá sedeslocousensivelmenteparao nívelicônico.Quasetudo
emqueacreditamos,ea maiorpartedascoisasquesabemos,aprende-
mosecompramos,reconhecemosedesejamos,vemdeterminadopelo
domínioqueafotografiaexercesobrenossapsique.çessefenômenotende
a intensificar-se.
O graudeinfluênciada fotografiaemtodasassuasinúmerasva-
riantesepermutaçõesconstituiumretornoà importânciadosolhosem
nossavida.Em seulivroTheAct of Creation,ArthurKoestlerobserva:
"O pensamentoatravésdeimagensdominaasmanifestaçõesdo incons-
ciente,o sonho,o semi-sonhohipnagógico,asalucinaçõespsicóticase
avisãodoartista.(O profetavisionárioparecetersidoumvisualizador,
enãoumverbalizador;o maiordoselogiosquepodemosfazeraosquê
sesobressaememfluênciaverbaléchamá-Iosde'pensadoresvisioná-
rios'.)" Ao ver,fazemosumgrandenúmerodecoisas:vivenciamoso
queestáacontecendodemaneiradireta,descobrimosalgoquenuncaha-
víamospercebido,talveznemmesmovisto,conscientizamo-nos,através
deumasériedeexperiênciasvisuais,dealgoqueacabàmosporreconhe-
ceresaber,epercebemoso desenvolvimentodetransformaçõesatravés
daobservaçãopaciente.Tantoapalavraquantooprocessodavisãopas-
saramaterimplicaçõesmuitomaisamplas.Verpassouasignificarcom-
preender.O homemdeMissouri,a quemsemostraalgumacoisa,terá,
provavelmente,umacompreensãomuitomaisprofundadessamesmacoisa
do queseapenastivesseouvidofalardela.
Existem,aqui,implicaçõesdamáximaimportânciaparao alfabetis-
movisual.Expandirnossacapacidadedeversignificaexpandirnossaca-
pacidadede entenderumamensagemvisual,e, o queé aindamais
importante,decriarumamensagemvisual.A visãoenvolvealgomais
do queo merofatodeverou dequealgonossejamostrado.É parte
integrantedoprocessodecomunicação,queabrangetodasasconsidera-
çõesrelativasàsbelas-artes,àsartesaplicadas,à expressãosubjetivae
à respostaa um objetivofuncional.
O últimobaluartedaexclusividadedo"artista"éaqueletalentoes-
pecialqueo caracteriza:a capacidadededesenhare reproduziro am-
bientetal comoestelheaparece.Em todasassuasformas,a câmera
acaboucomisso.Elaconstituio últimoelodeligaçãoentreacapacidade
inatadeverea capacidadeextrínsecaderelatar,interpretareexpressar
o quevemos,prescindindodeumtalentoespecialoudeumlongoapren-
dizadoquenospredisponhaaefetuaro processo.Há poucasdúvidasde
queoestilodevidacontemporâneotenhasidocrucialmenteinfluenciado
pelastransformaçõesqueneleforaminstauradaspeloadventoda foto-
grafia.Emtextosimpressos,apalavraéoelementofundamental,enquan-
toosfatoresvisuais,comoocenáriofísico,o formatoea ilustração,são
secundáriosounecessáriosapenascomoapoio.Nosmodernosmeiosde
comunicaçãoaconteceexatamenteocontrário.O visualpredomina,over-
baltema funçãodeacréscimo.A impressãoaindanãomorreu,ecom
14 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL CARÁTER E C01\TEÚDO DO ALFAHETISMO VISlJAL 15
Conhecimentovisuale linguagemverbal sasersubmetidaaalgunsquestionamentose indagações.Paracomeçar,
linguagemealfabetismoverbalnãosãoamesmacoisa.Sercapazdefa-
larumalínguaémuitíssimodiferentedealcançaro alfabetismoatravés
daleituraedaescrita,aindaquepossamosaprenderaentenderea usar
a linguagememambososníveisoperativos.Massóa linguagemfalada
evoluinaturalmente.OstrabalhoslingüísticosdeNoamChomskyindi-
camqueaestruturaprofundadacapacidadelingüísticaébiologicamente
inata.O aIfabetismoverbal,o lereo escrever,deveporémseraprendido
aolongodeumprocessodivididoemetapas.Primeiroaprendemosum
sistemadesímbolos,formasabstratasquerepresentamdeterminadossons.
Essessímbolossãoo nossoá-bê-cê,o alfaeo betadalínguagregaque
deramnomeatodoo grupodesímbolossonorosou letras,o alfabeto.
Aprendemosnossoalfabetoletraporletra,paradepoisaprendermosas
combinaçõesdasletrasedeseussons,quechamamosdepalavrasecons-
tituemosrepresentantesousubstitutosdascoisas,idéiaseações.Conhe-
cero significadodaspalavrasequivaleaconhecerasdefiniçõescomuns
quecompartilham.O últimopassoparaaaquisiçãodoalfabetismover-
balenvolveaaprendizagemdasintaxecomum,o quenospossibilitaes-
tabeleceroslimitesconstrutivosemconsonânciacomosusosaceitos.São
essesosrudimentos,oselementosirredutivelmentebásicosdalinguagem
verbal.Quandosãodominados,tornamo-noscapazesdelereescrever,
expressarecompreendera informaçãoescrita.Estaéumadescriçãoex-
tremamentesuperficial.Ficaclaro,porém,quemesmoemsuaformamais
simplificadaoaIfabetismoverbalrepresentaumaestruturadotadadepla-
nostécnicosedefiniçõesconsensuaisque,comparativamente,caracteri-
zama comunicaçãovisualcomoquaseque inteiramentecarentede
organização.Não é bemissoo queacontece.
Visualizarésercapazdeformarimagensmentais.Lembramo-nosdeum
caminhoque,nasruasdeumacidade,noslevaaumdeterminadodesti-
no,eseguimosmentalmenteumarotaquevaideumlugaraoutro,veri-
ficandoaspistasvisuais,recusandooquenãonosparececerto,voltando
atrás,efazemostudoissoantesmesmodeiniciarocaminho.Tudomen-
talmente.Porém,deummodoaindamaismisteriosoemágico,criamos
a visãode umacoisaque nuncavimosantes.Essa visão,ou pré-
visualização,encontra-seestreitamentevinculadaaosaltocriativoeàsín-
dromedeheureca,enquantomeiosfundamentaisparaasoluçãodepro-
blemas.E é exatamenteesseprocessodedarvoltasatravésdeimagens
mentaisemnossaimaginaçãoquemuitasvezesnoslevaasoluçõesedes-
cobertasinesperadas.Em TheActof Creation,Koestlerformulaassim
o processo:"O pensamentoporconceitossurgiudopensamentoporima-
gensatravésdolentodesenvolvimentodospoderesdeabstraçãoedesim-
bolização,assimcomoaescriturafonéticasurgiu,porprocessossimilares,
dossímbolospictóricosedoshieróglifos."Nessaprogressãoestácontido
umgrandeensinamentodecomunicação.A evoluçãodalinguagemco-
meçou,comimagens,avançourumoaos pictogramas,cartunsauto-
explicativoseunidadesfonéticas,echegoufinalmenteaoalfabeto,aoqual,
emThelntelligentEye,R. L. Gregorysereferetãoacertadamentecomo
"a matemáticadosignificado".Cadanovopassorepresentou,semdúvi-
da,umavançorumoaumacomunicaçãomaiseficiente.Masháinúme-
rosindíciosdequeestáemcursoumareversãodesseprocesso,quese
voltamaisumavezparaaimagem,denovoinspiradopelabuscademaior
eficiência.A questãomaisimportanteéo alfabetismoeo queelerepre-
sentanocontextodalinguagem,bemcomoquaisanalogiasdelapodem
serextraídase aplicadasà informaçãovisual.
A linguagemocupouumaposiçãoúnicano aprendizadohumano.
Temfuncionadocomomeiodearmazenaretransmitirinformações,veí-
culoparao intercâmbiodeidéiasemeioparaquea mentehumanaseja
capazdeconceituar.Logos,a palavragregaquedesignalinguagem,in-
cluitambémossignificadosparalelosde"pensamento"e"razão"napa-
lavrainglesaquedeladeriva,logic.As implicaçõessãobastanteóbvias;
a linguagemverbalévistacomoummeiodechegaraumaformadepen-
samentosuperioraomodovisualeaotátil.Essahipótese,porém,preci-
Alfabetismovisual
O maiorperigoquepodeameaçaro desenvolvimentodeumaabor-
dagemdo alfabetismovisualé tentarenvolvê-Ionumexcessodedefini-
ções.A existênciada linguagem,ummododecomunicaçãoqueconta
comumaestruturarelativamentebemorganizada,semdúvidaexerceuma
fortepressãosobretodososqueseocupamdaidéiamesmadoalfabetis-
movisual.Seummeiodecomunicaçãoétãofácildedecomporempar-
16 SI:-.iT..\XEDA LI~GUAGEM VISUAL CARÁTER E CONTEÚDO DO ALFABETISMO VISUAL 17
1
. I
i I
tescomponenteseestrutura,porquenãoo outro?Qualquersistemade
símboloséumainvençãodohomem.Os sistemasdesímbolosquecha-
mamosdelinguagemsãoinvençõesou refinamentosdo queforam,em
outrostempos,percepçõesdoobjetodentrodeumamentalidadedespo-
jadadeimagens.Daíaexistênciadetantossistemasdesímbolosetantas
línguas,algumasligadasentresiporderivaçãodeumamesmaraiz,eou-
trasdesprovidasdequaisquerrelaçõesdessetipo.Osnúmeros,porexem-
plo,sãosubstitutosdeumsistemaúnicoderecuperaçãodeinformações,
o mesmoacontecendocomasnotasmusicais.Nosdoiscasos,a facilida-
dedeaprendera informaçãocodificadabaseia-senasínteseoriginaldo
sistema.Ossignificadossãoatribuídos,esedotacadasistemaderegras
sintáticasbásicas.Existemmaisdetrêsmil línguasemusocorrenteno
mundo,todaselasindependentese únicas.Em termoscomparativos,a
linguagemvisualétãomaisuniversalquesuacomplexidadenãodeveser
consideradaimpossíveldesuperar.As linguagenssãoconjuntoslógicos,
masnenhumasimplicidadedessetipopodeseratribuídaàinteligênciavi-
sual,etodosaqueles,dentrenós,'quetêmtentadoestabelecerumaana-
logiacoma linguagemestãoempenhadosnumexercícioinútil.
Existe,porém,umaenormeimportâncianousodapalavra"alfabe-
tismo"emconjunçãocoma palavra"visual".A visãoé natural;criar
ecompreendermensagensvisuaisénaturalatécertoponto,masaeficá-
cia,emambosos níveis,só podeseralcançadaatravésdo estudo.Na
buscadoalfabetismovisual,umproblemadeveserclaramenteidentifi-
cadoeevitado.No alfabetismoverbalseespera,daspessoaseducadas,
quesejamcapazesdelereescrevermuitoantesquepalavrascomo"cria-
tivo" possamseraplicadascomojuízo devalor.A escritanãoprecisa
sernecessariamentebrilhante;ésuficientequeseproduzaumaprosacla-
raecompreensível,degrafiacorretaesintaxebemarticulada.O alfabe-
tismoverbalpodeseralcançadonumnívelmuitosimplesderealização
ecompreensãodemensagenses~ritas.Podemoscaracterizá-Iacomoum
instrumento.Saberlereescrever,pelapróprianaturezadesuafunção,
nãoimplicaanecessidadedeexpressar-seemlinguagemmaiselevada,ou
seja,aproduçãoderomancesepoemas.Aceitamosa idéiadequeo alfa-
betismoverbalé operativoemmuitosníveis,desdeasmensagensmais
simplesatéasformasartísticascadavezmaiscomplexas.
Em partedevidoà separação,naesferadovisual,entrearteeofí-
cio,e empartedevidoàslimitaçõesdetalentoparao desenho,grande
partedacomunicaçãovisualfoideixadaaosabordaintuiçãoedoacaso.
Comonãosefeznenhumatentativadeanalisá-Iaoudefini-Iaemtermos
daestruturadomodovisual,nenhummétododeaplicaçãopodeserob-
tido.Naverdade,essaéumaesferaemqueo sistemaeducacionalsemo-
vecomlentidãomonolítica,persistindoaindaumaênfasenomodoverbal,
queexcluio restantedasensibilidadehumana,epo~coounadaSépreo-
cupandocomocaráteresmagadoramentevisualdaexperiênciadeapren-
dizagemdacriança.Até mesmoa utilizaçãodeumaabordagemvisual
do ensinocarecederigoreobjetivosbemdefinidos.Em muitoscasos,
osalunossãobombardeadoscomrecursosvisuais- diapositivos,filmes,
slides,projeçõesaudiovisuais-, mastrata-sedeapresentaçõesquerefor-
çamsuaexperiênciapassivadeconsumidoresdetelevisão.Os recursos
decomunicaçãoquevêmsendoproduzidoseusadoscomfinspedagógi-.
cossãoapresentadoscomcritériosmuitodeficientesparaa avaliaçãoe
acompreensãodosefeitosqueproduzem.O consumidordamaiorparte
daproduçãodosmeiosdecomunicaçãoeducacionaisnãoseriacapazde
identificar(pararecorrermosa umaanalogiacomo alfabetismoverbal)
umerrodegrafia,umafraseincorretamenteestruturadaouumtemamal
formulado.O mesmosepodequasesempreafirmarnoquedizrespeito
àexperiênciadosmeios"manipuláveis".As únicasinstruçõesparao uso
decâmeras,naelaboraçãodemensagensinteligentes,procedemdastra-
diçõesliterárias,enãodaestruturaedaintegridadedomodovisualem
si.Umadastragédiasdoavassaladorpotencialdoalfabetismovisualem
todososníveisdaeducaçãoéa funçãoirracional,dedepositáriodare-
creação,queasartesvisuaisdesempenhamnoscurrículosescolares,ea
situaçãoparecidaqueseverificanousodosmeiosdecomunicação,câ-
meras,cinema,televisão.Por queherdamos,nasartesvisuais,umade-
voçãotácitaaonão-intelectualismo?O examedossistemasdeeducação
revelaqueo desenvolvimentodemétodosconstrutivosdeaprendizagem
visualsãoignorados,a nãosernocasodealu~osespecialmenteinteres-
sadose talentosos.Osjuízosrelativosaoqueé factível,adequadoeefi-
caznacomunicaçãovisualforamdeixadosao sabordasfantasiasede
amorfasdefiniçõesdegosto,quandonãodaavaliaçãosubjetivaeauto-
reflexivadoemissoroudoreceptor,semquesetenteaomenoscompreen-
deralgunsdosníveisrecomendadosqueesperamosencontrarnaquiloque
chamamosdealfabetismonomodoverbal.Issotalveznãosedevatanto
a umpreconceitocomoà firmeconvicçãodequeé impossívelchegara
18 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL CARÁTER E CONTEÚDO DO ALFABETlSMO VISUAL 19
qualquermetodologiae a quaisquermeiosque.nospermitamalcançar
o alfabetismovisual.Contudo,a exigênciadeestudodosmeiosdeco-
municaçãojá ultrapassoua capacidadedenossasescolase faculdades.
Diantedodesafiodoal(abetismovisual,nãopoderemoscontinuarman-
tendopor muitomaistempoumaposturadeignorânciado assunto.
Comofoiquechegamosaessebecosemsaída?Dentretodososmeios
decomunicaçãohumana,o visualéo únicoquenãodispõedeumcon-
juntodenormasepreceitos,demetodologiaedenemumúnicosistema
comcritériosdefinidos,tantoparaa expressãoquantoparao entendi-
mentodosmétodosvisuais.Por que,exatamentequandoo desejamos
edeletantoprecisamos,o alfabetismovisualsetornatãoesquivo?Não
restadúvidadequesetornaimperativaumanovaabordagemquepossa
solucionaressedilema.
Temosumgrandeconhecimentodossentidoshumanos,especialmente
davisão.Nãosabemostudo,masconhecemosbastante.Tambémdispo-
mosdemuitossistemasdetrabalhoparaoestudoeaanálisedoscompo-
nentesdasmensagensvisuais.Infelizmente,tudoissoaindanãoseintegrou
emumaformaviável.A classificaçãoeaanálisepodemserdefatoreve-
ladorasdo quesempreali esteve,asorigensdeumaabordagemviável
do alfabetismovisualuniversal.
Devemosbuscaro alfabetismovisualemmuitoslugaresedemuitas
maneiras,nosmétodosdetreinamentodeartistas,naformaçãotécnica
deartesãos,nateoriapsicológica,nanaturezaeno funcionamentofisio-
lógicodo próprioorganismohumano.
A sintaxevisualexiste.Há linhasgeraisparaacriaçãodecomposi-ções.Há elementosbásicosquepodemseraprendidosecompreendidos
portodososestudiososdosmeiosdecomunicaçãovisual,sejamelesar-
tistasounão,equepodemserusados,emconjuntocomtécnicasmani-
pulativas,paraa criaçãodemensagensvisuaisclaras.O conhecimento
detodosessesfatorespodelevaraumamelhorcompreensãodasmensa-
gensvisuaís.
Apreendemosa informaçãovisualdemuitasmaneiras.A percep-
çãoeasforçascinestésicas,denaturezapsicológica,sãodeimportân-
cia fundamentalparao processovisual.O modocomonosmantemos
empé,nosmovimentamos,mantemoso equilíbrioenosprotegemos,
reagimosà luz ou ao escuro,ou aindaa ummovimentosúbito,são
fatoresquetêmumarelaçãoimportantecomnossamaneiradereceber
e interpretarasmensagensvisuais.Todasessasreaçõessãonaturais
e atuamsemesforço;nãoprecisamosestudá-Iasnemaprendercomo
efetuá-Ias.Mas elassãoinfluenciadas,e possivelmentemodificadas,
porestadospsicológicosecondicionamentosculturais,e, porúltimo,
pelasexpectativasambientais.O modocomoencaramosomundoquase
sempreafetaaquiloquevemos.O processoé,afinal,muitoindh:idual
paracadaumdenós.O controledapsiqueé freqüentementeprogra-
madopeloscostumessociais.Assimcomoalgunsgruposculturaisco-.
memcoisasquedeixariamoutrosenojados,temospreferênciasvisuais
arraigadas.O indivíduoque cresceno modernomundoocidental
condiciona-seàstécnicasdeperspectivaqueapresentamummundosin-
téticoe tridimensionalatravésdapinturaeda fotografia,meiosque,
naverdade,sãoplanosebidimensionais.Um aborígineprecisaapren-
deradecodificara representaçãosintéticadadimensãoque,numafo-
tografia,sedáatravésdaperspectiva.Temdeaprendera convenção;
é incapazdevê-Ianaturalmente.O ambientetambémexerceumpro-
fundocontrolesobrenossamaneiradever.O habitantedasmonta-
nhas,por exemplo,temdedarumanovaorientaçãoa seumodode
verquandoseencontranumagrandeplanície.Emnenhumoutroexem-
plo issosetornamaisevidentedo quenaartedos"esquimós.Tendo
umaexperiênciatãointensadobrancoindiferenciadodaneveedocéu
luminosoemseumeioambiente,queresultanumobscurecimentodo
horizonteenquantoreferência,a artedosesquimóstomaliberdades
comoselementosverticaisascendentese descendentes.
Apesardessasmodificações,háumsistemavisual,perceptivoe
básico,queécomumatodosossereshumanos;o sistema,porém,está
sujeitoavariaçõesnostemasestruturaisbásicos.A sintaxevisualexis-
te,esuacaracterísticadominanteéacomplexidade.A complexidade,
porém,nãoseopõeà definição.
Umacoisaécerta.O alfabetismovisualjamaispoderáserumsis-
tematãológicoeprecisoquantoa linguagem.As linguagenssãosiste-
masinventadospelohomemparacodificar,armazenaredecodificar
Uma abordagemdo alfabetismovisual
rr
20 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL CARATER E CONTEÚDO DO ALFABETlSMO VISUAL 21
informações.Suaestrutura,portanto,temumalógicaqueo alfabetis-
mo visualé incapazdealcançar.
Em ThelntelligentEye,R. L. Gregoryrefere-seaelescomo"cartoons
of cartoons".
Porém,mesmoquandoexistemcomocomponenteprincipaldo
modovisual,os símbolosatuamdiferentementeda linguagem,e, de
fato,pormaiscompreensíveletentadoraquepossaser,a tentativade
encontrarcritériosparao alfabetismovisualna estruturada lingua-
gemsimplesmentenãofuncionará.Mas ossímbolos,enquantoforça
no âmbitodo alfabetismovisual,sãode importânciae viabilidade
enormes.
A mesmautilidadeparacompormateriaise mensagensvisuais
encontra-senosoutrosdoisníveisda inteligênciavisual.Sabercomo
funcionamnoprocessodavisão,edequemodosãoentendidos,pode
contribuirenormementeparaacompreensãodecomopodemserapli...
cadosà comunicação.
O nívelrepresentacionaldainteligênciavisualéfortementegover-
nadopelaexperiênciadiretaqueultrapassaapercepção.Aprendemos
sobrecoisasdasquaisnãopodemosterexperiênciadiretaatravésdos
meiosvisuais,dedemonstraçõesedeexemplosemformademodelo.
Aindaqueumadescriçãoverbalpossaserumaexplicaçãoextremamente
eficaz,o caráterdosmeiosvisuaisémuitodiferentedodalinguagem,
sobretudonoquediz respeitoasuanaturezadireta.Nãosefazneces-
sáriaa intervençãodenenhumsistemadecódigosparafacilitaracom-
preensão,edenenhumadecodificaçãoqueretardeo entendimento.Às
vezesbastaverumprocessoparacompreendercomoelefunciona.Em
outrassituações,verumobjetojá nosproporciona.umconhecimento
suficienteparaquepossamosavaliá-Ioecompreendê-Io.Essaexperiên-
ciadaobservaçãoservenãoapenascomoumrecursoquenospermite
aprender,mastambématuacomonossamaisestreitaligaçãocoma
realidadedenossomeioambiente.Confiamosemnossosolhos,ede-
lesdependemos.
O últimoníveldeinteligênciavisualétalvezo maisdifícildedes-
crever,epodeviratornar-seo maisimportanteparaodesenvolvimen-
to do alfabetismovisual.Trata-seda subestrutura,da composição
elementarabstrata,e,portanto,damensagemvisualpura.AntonEh-
renzweigdesenvolveuumateoriadaartecombasenumprocessopri-
máriodedesenvolvimentoevisão,ouseja,o nívelconsciente,e,num
nívelsecundário,o pré-consciente.Elaboraessaclassificaçãodosní-
Algumascaracterísticasdasmensagensvisuais
I
I
.1
A tendênciaaassociaraestruturaverbaleavisualéperfeitamen-
tecompreensível.Umadasrazõesénatural.Osdadosvisuaistêmtrês
níveisdistintose individuais:o inputvisual,queconsistedemiríades
desistemasdesímbolos;o materialvisualrepresentacional,queiden-
tificamosnomeioambienteepodemosreproduziratravésdodesenho,
dapintura,daesculturaedo cinema;ea estruturaabstrata,a forma
detudoaquiloquevemos,sejanaturalouresultadodeumacomposi-
çãoparaefeitosintencionais.
Existeum vastouniversodesímbolosqueidentificamaçõesou
organizações,estadosdeespírito,direções- símbolosquevãodesde
osmaispródigosemdetalhesrepresentacionaisatéoscompletamente
abstratos,etãodesvinculadosdainformaçãoidentificávelqueépreci-
soaprendê-Iosdamaneiracomoseaprendeumalíngua.Ao longode
seudesenvolvimento,o homemdeuospassoslentosepenososquelhe
permitemcolocarnumaformapreservávelosacontecimentoseosges-
tosfamiliaresdesuaexperiência,eapartirdesseprocessodesenvolveu-
sea linguagemescrita.No início, aspalavrassãorepresentadaspor
imagens,e quandoissonãoé possívelinventa-seumsímbolo.Final-
mente,numalinguagemescritaaltamentedesenvolvida,asimagenssão
abandonadaseossonspassama serrepresentadospor símbolos.Ao
contráriodasimagens,a reproduçãodossímbolosexigemuitopouco
emtermosdeumahabilidadeespecial.O alfabetismoéinfinitamente
maisacessívelàmaioriaquedisponhadeumalinguagemdesímbolos
sonoros,por sermuitomaissimples.A línguainglesautilizaapenas
vinteeseissímbolosemseualfabeto.Contudo,aslínguasquenunca
foramalémdafasepictográfica,comoo chinês,ondeossímbolosda
palavra-imagem,ouideogramas,contam-seaosmilhares,apresentam
grandesproblemasparaaalfabetizaçãoemmassa.Emchinês,aescri-
taeodesenhodeimagenssãodesignadospelamesmapalavra,caligra-
fia. Issoimplicaaexigênciadealgumashabilidadesvisuaisespecíficas
paraseescreveremchinês.Os ideogramas,porém,nãosãoimagens.
-
22 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL CARATER E CONTEÚDO DO ALFABETISMO VISUAL 23
II
veisestruturaisdomodovisualassociandoo termodePiaget,"sincré-
tico", paraavisãoinfantildomundoatravésdaarte,como conceito
denão-diferenciação.Ehrenzweigdescrevea criançacomosendoca-
pazdevertodooconjuntonumavisão"global". Essetalento,acredi-
taele,nuncavemaserdestruídonoadulto,epodeserutilizadocomo
"um poderosoinstrumento".Outramaneiradeanalisaressesistema
dúplicedevisãoéreconhecerquetudooquevemosecriamoscompõe-se
doselementosvisuaisbásicosquerepresentama forçavisualestrutu-
ral, deenormeimportânciaparao significadoepoderosano quediz
respeitoà resposta.É umaparteinextricáveldetudoaquiloqueve-
mos,sejaqualfor suanatureza,realistaou abstrata.É energiavisual
pura,despojada.
Váriasdisciplinastêmabordadoaquestãodaprocedênciadosig-
nificadonasartesvisuais.Artistas,historiadoresda arte,filósofose
especialistasdevárioscamposdasciênciashumanase sociaisjá vêm
hámuitotempoexplorandocomoe o queasartesvisuais"comuni-
cam".Creioquealgunsdostrabalhosmaissignificativosnessecampo
foramrealizadospelospsicólogosdaGestalt,cujoprincipalinteresse
têmsidoosprincípiosdaorganizaçãoperceptiva,oprocessodaconfi-
gurl\çãodeumtodoa pártirdaspartes.O pontodevistasubjacentedaGesta/t,conformedefiniçãodeEhrenfels,afirmaque"secadaum
dedozeobservadoresouvisseumdosdozetonsdeumamelodia,aso-
madesuasexperiênciasnãocorresponderiaaoqueseriapercebidopor
alguémqueouvissea melodiatoda" .RudolfArnheiméo autordeuma
obrabrilhantenaqualaplicougrandepartedateoriadaGesta/tdesen-
volvidaporWertheimer,KõhlereKoffka à interpretaçãodasartesvi-
suais.Arnheimexploranãoapenaso funcionamentodapercepção,mas
tambéma qualidadedasunidadesvisuaisindividuaise asestratégias
desuaunificaçãoemumtodo finalecompleto.Em todososestímu-
losvisuaiseemtodososníveisdainteligênciavisual,o significadopo-
deencontrar-senãoapenasnosdadosrepresentacionais,nainformação
ambientalenossímbolos,inclusivea linguagem,mastambémnasfor-
çascompositivasqueexistemou coexistemcoma expressãofactuale
visual.Qualqueracontecimentovisualéumaformacomconteúdo,mas
o conteúdoéextremamenteinfluenciadopelaimportânciadaspartes
constitutivas,comoacor,o tom,a textura,a dimensão,a proporção
esuasrelaçõescompositivascomosignificado.EmSymbolsandCivi-
lization,RalphRosssófalade"arte" quandoobservaqueesta"pro-
duzumaexperiênciadotipoquechamamosdeestética,umaexperiência
pelaqualquasetodospassamosquandonosencontramosdiantedo
beloe queresultanumaprofundasatisfação.O queháséculosvem
deixandoos filósofosintrigadoséexatamentepor quesentimosessa
satisfação,masparececlaroqueeladepende,dealgumaforma,das
qualidadesedaorganizaçãodeumaobradeartecomseussignifica-
dosincluídos,enãoapenasdossignificadosconsideradosisoladamen-
te". Palavrascomosignificado,experiência,estéticaebelezacolocam-se
todasemcontigüidadenomesmopontodeinteresse,istoé,aquiloque
extraímosdaexperiênciavisual,ecomoo fazemos.Issoabrangetoda
aexperiênciavisual,emqualquerníveledequalquermaneiraemque
elasedê.
Para começara respondera essasperguntasé precisoexaminar
oscomponentesindividuaisdoprocessovisualemsuaformamaissim-
ples.A caixadeferramentasdetodasascomunicaçõesvisuaissãoos
elementosbásicos,afontecompositivadetodotipodemateriaisemen-
sagensvisuais,alémdeobjetoseexperiências:oponto,a unidadevi-
sualmínima,o indicadoremarcador deespaço;a linha,o articulador
fluidoeincansávelda forma,sejanasolturavacilantedoesboçoseja
narigidezdeumprojetotécnico;aforma, asformasbásicas,o círcu-
lo, o quadrado,o triânguloetodasassuasinfinitasvariações,combi-
nações,permutaçõesdeplanosedimensões;a direção,o impulsode
movimentoqueincorporaerefleteo caráterdasformasbásicas,circu-
lares,diagonais,perpendiculares;o tom,a presençaou a ausênciade
luz,atravésdaqualenxergamos;a cor, a contrapartedo tomcomo
acréscimodocomponentecromático,oelementovisualmaisexpressi-
voeemocional;a textura,ópticaoutátil,o caráterdesuperfíciedos
materiaisvisuais;aescalaouproporção,amedidaeo tamanhorelati-
vos;adimensãoeo movimento,ambosimplícitoseexpressoscoma
mesmafreqüência.Sãoessesoselementosvisuais;apartirdelesobte-
mosmatéria-primaparatodososníveisdeinteligênciavisual,eéapartir
delesqueseplanejameexpressamtodasasvariedadesdemanifesta-
Çõesvisuais,objetos,ambientese experiências.
Oselementosvisuaissãomanipuladoscomênfasecambiávelpe-
lastécnicasdeco . ~ . I "mUnIcaçaoVlsua, numarespostadIretaaocaraterdo
queestásendoconcebidoeaoobjetivodamensagem.A maisdinâmi-
--
24 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL CARÁTER E CONTEÚDO DO ALFABETISMO VISUAL 25
!!
Contraste
Instabilidade
Assimetria
Irregularidade
Complexidade
Fragmentação
Profusão
Exagero
Espontaneidade
Atividade
Ousadia
Ênfase
Transparência
Variação
Distorção
Profundidade
Justaposição
Acaso
Agudeza
Episodicidade
Harmonia
Equilíbrio
Simetria
Regularidade
Simplicidade
Unidade
Economia
Minimização
Previsibilidade
Estase
Sutileza
Neutralidade
Opacidade
Estabilidade
Exatidão
Planura
Singularidade
Seqüencialidade
Difusão
Repetição
quantoelementosdeconexãoentrea intençãoeo resultado.Inversa-
mente,oconhecimentodanaturezadastécnicascriaráumpúblicomais
perspicazparaqualquermanifestaçãovisual.
Emnossabuscadealfabetismovisual,devemosnospreocuparcom
cadaumadasáreasdeanáliseedefiniçãoacimamencionadas;asfor-
çasestruturaisqueexistemfuncionalmentenarelaçãointerativaentre
osestímulosvisuaiseoorganismohumano,tantoaonívelfísicoquan-
to ao nívelpsicológico;o caráterdoselementosvisuais;eo poderde
configuraçãodastécnicas.Alémdisso,assoluçõesvisuaisdevemser
regidaspelaposturae pelosignificadopretendidos,atravésdo estilo
pessoalecultural.Devemos,finalmente,consideraromeioemsi,cujo
caráterecujaslimitaçõesirãoregerosmétodosdesolução.A cadapasso
denossosestudosserãosugeridosexercíciosparaampliaro entendi-'
mentoda naturezadaexpressãovisual.
Emtodososseusinúmerosaspectos,oprocessoécomplexo.Não
obstante,nãoháporquetransformaracomplexidadenumobstáculo
àcompreensãodomodovisual.Certamenteémaisfácildispordeum
conjuntodedefiniçõese limitescomunsparaaconstruçãoouacom-
posição,masasimplicidadetemaspectosnegativos.Quantomaissim-
plesa fórmula,maisrestritoseráo potencialdevariaçãoeexpressão
criativas.Longedesernegativa,a funcionalidadeda inteligênciavi-
sualemtrêsníveis- realista,abstratoesimbólico- temanosofere-
cerumainteraçãoharmoniosa,por maissincréticaquepossaser.
Quandovemos,fazemosmuitascoisasaomesmotempo.Vemos,
perifericamente,umvastocampo.Vemosatravésdeum movimento
decimaparabaixoedaesquerdaparaadireita.Com relaçãoaoque
isolamosemnossocampovisual,impomosnãoapenaseixosimplíci-
tosqueajustemo equilíbrio,mastambémummapaestruturalquere-
gistreemeçaaaçãodasforçascompositivas,tãovitaisparao conteúdo
e,conseqüentemente,parao inputeooutputdamensagem.Tudoisso
aconteceaomesmotempoemquedecodificamostodasascategorias
desímbolos.
Trata-sedeumprocessomultidimensional,cujacaracterísticamais
extraordináriaéasimultaneidade.Cadafunçãoestáligadaaoproces-
s~eàcircunstância,poisavisãonãosónosofereceopçõesmetodoló-
glCasparao resgatedeinformações,mastambémopçõesquecoexistem
esãodisponíveiseinterativasnomesmomomento.Os resultadossão
ca dastécnicasvisuaisé o contraste,quesemanifestanumarelação
depolaridadecoma técnicaoposta,a harmonia.Nãosedevepensar
queo usodetécnicassó sejaoperativonosextremos;seuusodeve
expandir-se,numritmosutil,porumcontinuumcompreendidoentre
umapolaridadeeoutra,comotodososgrausdecinzaexistentesentre
o brancoe o negro.Sãomuitasastécnicasquepodemseraplicadas
na buscadesoluçõesvisuais.Aqui estãoalgumas.dasmaisusadase
demaisfácilidentificação,dispostasdemodoademonstrarsuasfon-
tesantagônicas:
111
As técnicassãoosagentesno processodecomunicaçãovisual;é
atravésdesuaenergiaqueocaráterdeumasoluçãovisualadquirefor-
ma.As opçõessãovastas,esãomuitososformatoseosmeios;ostrês
níveisdaestruturavisualinteragem.Por maisavassaladorquesejao
númerodeopçõesabertasa quempretendasolucionarumproblema
visual,sãoastécnicasqueapresentarãosempreumamaioreficáciaen-
26 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
CARÁTER E CONTEÚDO DO ALFABETISMO VISUAL 27
-I
extraordinários,nãoimportandoquãocondicionadosestejamosatomá-
loscomoverdadeiros.À velocidadedaluz,a inteligênciavisualtrans-
miteumamultiplicidadedeunidadesbásicasdeinformação,ou bits
atuandosimultaneamentecomoumdinâmicocanaldecomunicação
eumrecursopedagógicoaoqualaindanãosedeuo devidoreconheci-
mento.Seráesseo motivopeloqualaquelequeé visualmenteativo
pareceaprendermelhor?Gattegnoformuloumagistralmenteessaques-
tão,emTowardsa VisualCulture:"Há milênioso homemvemfun-
cionandocomoumacriaturaquevêe,assim,abarcandovastidões.Só
recentemente,porém,atravésda televisão(edosmeiosmodernos,o
cinemaea fotografia),elefoi capazdepassardarudezadafala(por
maismilagrosaeabrangentequeestaseja)enquantomeiodeexpres-
são,eportantodecomunicação,paraospoderesinfinitosdaexpres-
sãovisual,capacitando-seassima compartilhar,comtodosos seus
semelhantese comenormerapidez,imensosconjuntosdinâmicos."
Não existenenhumamaneirafácildedesenvolvero alfabetismo
visual,masesteé tãovitalparao ensinodosmodernosmeiosdeco-
municaçãoquantoa escritaea leituraforamparao textoimpresso.
Na verdade,elepodetornar-seo componentecrucialdetodososca-naisdecomunicaçãodopresenteedo futuro.Enquantoa informação
foi basicamentearmazenadae distribuídaatravésda linguagem,e o
artistafoi vistopelasociedadecomoumsersolitárioemsuacapacida-
deexclusivadecomunicar-sevisualmente,o alfabetismoverbaluni-
versal foi consideradoessencial,mas a inteligênciavisual foi
amplamenteignorada.A invençãodacâmeraprovocouo surgimento
espetaculardeumanovamaneiradevera comunicaçãoe, porexten-
são,a educação.A câmera,o cinema,a televisão,o videocasseteeo
videoteipe,alémdosmeiosvisuaisqueaindanãoestãoemuso,modi-
ficarãonãoapenasnossadefiniçãodeeducação,masdaprópriainte-
ligência. Em primeiro lugar, impõe-seuma revisãode nossas
capacidadesvisuaisbásicas.A seguirvema necessidadeurgentedese
buscare desenvolverum sistemaestruturale umametodologiapara
o ensinoe o aprendizadodecomointerpretarvisualmenteasidéias.
Um campoquefoi outroraconsideradodomínioexclusivodoartista
edodesignerhojetemdeservistocomoobjetodapreocupaçãotanto
dosqueatuamemquaisquerdosmeiosvisuaisdecomunicaçãoquan-
to deseupúblico.
Seaarteé,comoBergsonadefine,uma"visãodiretadarealida-
de", entãonãorestadúvidadequeosmodernosmeiosdecomunica-
çãodevemsermuitoseriamentevistoscomomeiosnaturaisdeexpressão
artística,umavezqueapresentame reproduzema vidaquasecomo
umespelho."Oh, quealgumpodernosdesseo dom", imploraRo-
bertBurns,"de vermosa nóspróprioscomoos outrosnosvêem!"
E osmeiosdecomunicaçãorespondemcomseusvastospoderes.Não
sócolocaramsuamagiaà disposiçãodopúblico,comotambémade-
puseramfirmementenasmãosdequemquerquedesejeutilizá-Iospa-
ra expressarsuasidéias.Numa infinita evoluçãode seusrecursos
técnicos,a fotografiae o cinemapassampor umconstanteprocesso
desimplificaçãoparaquepossamserviramuitosobjetivos.Masaha-
bilidadetécnicanomanuseiodoequipamentonãoésuficiente.A na-
turezadosmeiosdecomunicaçãoenfatizaanecessidadedecompreensão
deseuscomponentesvisuais.A capacidadeintelectualdecorrentede
umtreinamentoparacriare compreenderas mensagensvisuaisestá
setornandoumanecessidadevitalparaquempretendaengajar-senas
atividadesligadasàcomunicação.É bastanteprovávelqueo alfabetis-
movisualvenhaa tornar-se,noúltimoterçodenossoséculo,umdos
paradigmasfundamentaisda educação.
A arteeo significadodaartemudaramprofundamentenaeratec-
nológica,masaestéticadaartenãodeurespostaàsmodificações.Acon-
teceuo contrário:enquantoo caráterdasartesvisuaise suarelação
Coma sociedademodificaram-sedramaticamente,a estéticada arte
tornou-seaindamaisestacionária.O resultadoéa idéiadifusadeque
asartesvisuaisconstituemo domínioexclusivodaintuiçãosubjetiva,
umjuízotãosuperficialquantoo seriaaênfaseexcessivanosignifica-
do literal.Na verdade,a expressãovisualéo produtodeumainteli-
gênciaextremamentecomplexa,da qual temos,infelizmente,um
conhecimentomuitoreduzido.O quevemoséumapartefundamental
doquesabemos,e o alfabetismovisualpodenosajudara vero que
vemosea sabero quesabemos.
lill
28 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Exercícios
1.Escolha,entreseuspertencesouentreasfotosdeumarevista,
umexemplodeobjetoquetenhavalortantoemtermosdebelas-artes
quantodeartesaplicadas.Façaumalista,avaliandosuafuncionalida-
de,suabelezaestética,seuvalorcomunicativo(o queelefazparaex-
pandiro conhecimentodo leitorsobresi mesmo,seumeioambiente,
o mundo,opassadoeo presente)eseuvalordecorativooudeentrete-
nimento.
2. Recorteumafotodeumarevistaoujornale façaumarelação
derespostascurtasoudeumasópalavraquevocêlheaplicariaemter-
mosdamensagemliteraldafotoedeseusignificadocompositivosub-
jacente,eincluaa reaçãoaquaisquersímbolos(lingüísticosoudeoutro
gênero)quenelaestejaminclusos.Depoisdeanalisara foto, escreva
umparágrafoquedescrevacompletamenteoefeitodafotoeoquepo-
deriaserusadoemsubstituiçãoà mesma.
3. Escolhauminstantâneoquevocêtenhafeito,ouqualquerou-
tra coisaquetenhadesenhadooucriado(umdesenho,umbordado,
umjardim,umarranjodesala,roupas),eanalisequalfoi o efeitoou
a mensagemqueteveemmenteaocriá-Io.Compareasintençõescom
os resultados.
2
COMPOSIÇÃO: FUNDAMENTOS
SINTÁTICOS DO ALFABETISMO VISUAL
oprocessodecomposiçãoéo passomaiscrucialnasoluçãodos
problemasvisuais.Os resultadosdasdecisõescompositivasdetermi-
namoobjetivoeosignificadodamanifestaçãovisualetêmfortesim-
plicaçõescomrelaçãoaoqueérecebidopeloespectador.É nessaetapa
vitaldoprocessocriativoqueo comunicadorvisualexerceo maisfor-
tecontrolesobreseutrabalhoe tema maioroportunidadedeexpres-
sar,emsuaplenitude,o estadode espíritoquea obra sedestinaa
transmitir.O modovisual,porém,nãooferecesistemasestruturaisde-
finitivoseabsolutos.Comoadquiriro controledenossoscomplexos
meiosvisuaiscomalgumacertezadeque,no resultadofinal, haverá
umsignificadocompartilhado?Em termoslingüísticos,sintaxesigni-
ficadisposiçãoordenadadaspalavrassegundoumaformaeumaor-
denaçãoadequadas.As regrassãodefinidas:tudoo quesetemdefazer
éaprendê-Iaseusá-Iasinteligentemente.Mas,nocontextodo alfabe-
tismovisual,asintaxesópodesignificaradisposiçãoordenadadepar-
tes,deixando-noscomo problemadecomoabordaro processode
composiçãocominteligênciaeconhecimentodecomoasdecisõescom-
Positivasirãoafetaro resultadofinal.Nãoháregrasabsolutas:o que
existeéumaltograudecompreensãodoquevaiaconteceremtermos
designificado,sefizermosdeterminadasordenaçõesdaspartesquenos
permitamorganizareorquestrarosmeiosvisuais.Muitosdoscritérios
~araoentendimentodosignificadonaformavisual,o potencialsintá-
tiCOdaestruturano alfabetismovisual,decorremda investigaçãodo
processodapercepçãohumana.
111
Na criaçãodemensagensvisuais,o significadonãoseencontra
apenasnosefeitoscumulativosdadisposiçãodoselementosbásicos,
mastambémnomecanismoperceptivouniversalmentecompartilhadO
peloorganismohumano.Colocandoemtermosmaissimples:criamos
umdesigna partirdeinúmerascorese formas,texturas,tonse pro-
porçõesrelativas;relacionamosinterativamenteesseselementos;temos
emvistaumsignificado.O resultadoé a composição,a intençãodo
artista,do fotógrafoou do designer.É seuinput.Ver éoutropasso
distintodacomunicaçãovisual.É o processodeabsorverinformação
no interiordosistemanervosoatravésdosolhos,dosentidodavisão.
Esseprocessoeessa.capacidadesãocompartilhadosportodasaspes-
soas,emmaioroumenorgrau,tendosuaimportânciamedidaemter-
mosdosignificadocompartilhado.Osdoispassosdistintos,verecriar
e/ou fazersãointerdependentes,tantoparao significadoemsentido
geralquantoparaamensagem,nocasodesetentarrespondera uma
comunicaçãoespecifica.Entreo significadogeral,estadodeespírito
ou ambientedainformaçãovisualeamensagemespecificaedefinida
existeaindaumoutrocampodesignificadovisual,a funcionalidade,
nocasodosobjetosquesãocriados,confeccionadosemanufaturados
paraserviraumpropósito.Conquantopossaparecerqueamensagem
detaisobrasésecundáriaemtermosdesuaviabilidade,osfatospro-
vamo contrário.Roupas,casas,edifíciospúblicoseatémesmoosen-
talheseosobjetosdecorativosfeitosporartesãosamadoresnosrevelam
muitíssimosobreaspessoasqueoscriarameescolheram.E nossacom-
preensãodeumaculturadependedenossoestudodomundoqueseus
membrosconstruíramedasferramentas,dosartefatosedasobrasde
artequecriaram.
Basicamente,o atodeverenvolveumarespostaà luz.Emoutras
palavras,o elementomaisimportanteenecessáriodaexperiênciavi-
sualé denaturezatonal.Todosos outroselementosvisuaisnossão
reveladosatravésdaluz,massãosecundáriosemrelaçãoaoelemento
tonal,queé, defato,a luzou aausênciadela.O quea luznosrevela
eofereceéasubstânciaatravésdaqualo homemconfiguraeimagina
aquiloquereconhecee identificano meioambiente,istoé, todosOS
outroselementosvisuais:linha,cor,forma, direção, textura,escala,
FUNDAMENTOSSINTÁTICOSDOALFABETlSMO VISUAL 31
dimensão,movimento.Queelementosdominamquaismanifestações
visuaiséalgodeterminadopelanaturezadaquiloqueestásendocon-
cebido,ou,nocasodanatureza,daquiloqueexíste.Masquandodefi-
nimosa pinturabasicamentecomotonal,comotendoreferênciade
formae,conseqüentemente,direção,comotendotexturaematiz,pos-
sivelmentereferênciadeescala,enenhumadimensãoou movimento,
anãoserindiretamente,nãoestamosnemcomeçandoadefiniro po-
tencialvisualdapintura.As possíveisvariaçõesdeumamanifestação
visualqueseajusteperfeitamenteaessadescriçãosãoliteralmentein-
finitas.Essasvariaçõesdependemdaexpressãosubjetivado artista,
atravésda ênfaseemdeterminadoselementosemdetrimentodeou-
tros,edamanipulaçãodesseselementosatravésdaopçãoestratégica
dastécnicas.É nessasopçõesqueo artistaencontraseusignificado~
O resultadofinaléaverdadeiramanifestaçãodoartista.O signi-
ficado,porém,dependedarespostadoespectador,quetambémamo-
dificae interpretaatravésdarededeseuscritériossubjetivos.Um só
fatorémoedacorrenteentreo artistaeopúblico,e,naverdade,entre
todasaspessoas- o sistemafísicodaspercepçõesvisuais,oscompo-
nentespsicofisiológicosdosistemanervoso,o funcionamentomecâni-
co,o aparatosensorialatravésdo qualvemos.
A psicologiada Gestalttemcontribuídocomvaliososestudose
experimentosnocampodapercepção,recolhendodados,buscandoco-
nhecera importânciadospadrõesvisuaisedescobrindocomoo orga-
nismohumanovêeorganizao inputvisualearticulao outputvisual.
Emconjunto,ocomponentefísicoeopsicológicosãorelativos,nunca
absolutos.Todopadrãovisualtemumaqualidadedinâmicaquenão
podeserdefinidaintelectual,emocionaloumecanicamente,atravésde
tamanho,direção,formaou distância.Essesestímulossãoapenasas
mediçõesestáticas,masas forçaspsicofísicasquedesencadeiam,co-.
moasdequaisqueroutrosestímulos,modificamo espaçoeordenam
o~perturbamoequilíbrio.Emconjunto,criamapercepçãodeumde-
slgn,deumambienteoudeumacoisa.As coisasvisuaisnãosãosim-
plesmentealgoqueestáali por acaso.Sãoacontecimentosvisuais,
ocorrências t t . -. -o aIS,açoesqueIDcorporama reaçaoao todo.
d .Pormaisabstratosquepossamseroselementospsicofisiológicos
taSlDtaxevisual,pode-sedefinirseucarátergeral.Na expressãoabs-rata o si .f. ., gOlIcadolDerenteéintenso;elecolocao intelectoemcurto-
30 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Percepçãoe comunicaçãovisual
, ,..,
32 SJNTAX": 1M LJ'liGL\(;EIII VISLAI. f'l "1J.\\IEyrOs SIYr\lIlOS lJo ..\LF\lInIS\1O \ IS\'\I :{;{
circuito,estabelecendoo contatodiretamentecomasemoçõeseossen-
timentos,encapsulandoo significadoessencialeatravessandoo cons-
cienteparachegarao inconsciente.
A informaçãovisualtambémpodeterumaformadefinivel,seja
atravésdesignificadosincorporados.emformadesímbolos,oudeex-
periênciascompartilhadasno ambienteenavida.Acima,abaixo,céu
azul,árvoresvertiatis,areiaásperaefogovermelho-alaranjado-amardo
sãoapenasalgumasdasqualidadesdenOlativas,possíveisdeseremin-
dicadas,quetodoscompartilhamosvisualmente.Assim,conscientemen-
le ou não,respondemoscomalgumaconformidadea seusignifkado.
11
FIGURA 2.1 IIGI 1<.\2 ~ I.I(,II<A 2..1
Equilíbrio I
\i~~i~r1]-- -I~- - -:!..- -.:.
1
I
I
I
I
I
I
I
I
I
l____
A maISimporÚmteinfluênciatantopsicológicacomofísicasobre
a percepçãohumana{:a necessidadequeo homemtemdeequilíbrio,
deterospésfirmememeplantadosnosoloesaberquevaipermanecer
eretoemqualquercircunstância.emqualqueratitude,comumcerto
graudecerteza.O l'quilibrioé, então,a referênciavisualmaisforte
e firmedo homem,suabaseconscientee inconscienteparafazerava-
liaçõesvisuais.O extraordinárioéque,enquantotodosospadrõesvi-
maistêmumcentrodegravidadequepodesertecnicamentecalculável.
nenhummétododecalcularé tãorápido,exatoeautomáticoquanto
o sensointuitivode equilíbrioinerenteàs percepçõesdo homem.
Assim,o COOSlructohorizontal-verticalconstituia relaçãobásica
do homemcomseumeioambiente.Mas alémdo equilíbriosimples
c estáticoilustradona figura2.1existeo processode ajustamentoa
cadavariaçãodepeso,quesedáatravésdeumareaçãodecontrapeso
(fig. 2.2 e 2,3). Essaconsciênciaimeriorizadada firmeverticalídade
emrelaçãoa umabaseestáveléexternamenteexpressapelaconfigura-
çãovisualda figura2.4, por umarelaçãohorizontal-verticaldo que
estásendovisto(fig. 2.5)eporseupesorelativoemrelaçãoa umesta-
dodeequilíbrio(fig. 2.6).O equilíbrioétào fundamentalnanatUreza
quantono homem.É o estadoopostoao colapso.É possívelavaliar
o efeitodo desequilíbrioobservando-se° aspectodealarmeestampa-
do no rostodeumavít.imaque,subitamentee semavisoprévio,leva
umempurrão.
FIGURA 2.4 I.IGU RA 2 ~ I.I(;URA 2.6
Naexpressãoou interpretaçãovisual,esseprocessodecstabíliZ<l-
çãoimpõca todasascoisasvistaseplanejadasum"eixo" vertical,com
umreferentehorizontalsecundário.osquaísdeterm,ini'lrnemconjun-
to, osfatoresestrutUraisquemcdemo equilíbrio.Esseeixovisualtam.
béméchamadodeeixosentido,quemelhorexpressaapresençainvisível
maspreponderantedo cixono atodever.Trata-sedeumaconstante
inconsciente.
Tensão
I .
Muitascoisasnom"ínambienteparecemnãoterestabilidade.O cír-
culoé umbomexemplo.Panxeo ~ ~~ D.OlhemCS
r
34 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL FUNDAMENTOS SINTÁTICOS DO ALFABETISMO VISUAL 35
(fig.2.7),mas,noatodever,lheconferimosestabilidadeimpondo-lhe
oeixoverticalqueanalisaedeterminaseuequiUbrioenquantoforma(fig.
2.8),eacrescentandoemseguida(fig.2.9)a basehorizontalcomorefe-
rênciaquecompletaasensaçãodeestabilidade.Projetarosfatoresestru-
turaisocultos(oumanifestos)sobreformasregulares,comoo círculo,
o quadradoou umtriânguloeqüilátero,é relativamentesimplese fácil
decompreender,mas,quandoumaformaéirregular,aanáliseeadeter-
minaçãodoequilíbriosãomaisdifíceisecomplexas(verfigura2.10).Es-
seprocessodeestabilizaçãopodeserdemonstradocommaiorclareza
atravésdeumaseqüênciademodificaçõesligeirasnosexemplosedosefei-
tosdaposiçãodoeixosentidoaoestadovariáveldeequilíbriodafigura
2.11.
FIGURA 2.7
FIGURA 2.10
I
I
I
I
I
I
I
FIGURA 2.11
FIGURA 2.8
Es!>epr~cessodeordenação,dereconhecimentointuitivodaregula-
ridadeou d~ suaausência,éinconscienteenãorequerexplicaçãoouver-
balização-Tanto parao emissorquantoparao receptordainformação
visual,a Cal.a deequilíbrioe regularidadeéumfatordedesorientação.
Emoutras~alavras,éo meiovisualmaiseficazparacriarumefeitoem
respostaao <>bjetivodamensagem,efeitoquetemum potencialdireto
eeconômic~detransmitirainformaçãovisual.Asopçõesvisuaissãopo-
laridades,.taIlto deregularidadequantodesimplicidade(fig.2.12)deum
lado,ou de "ariaçãocomplexaeinesperada(fig.2.13)deoutro.A esco-
lhaentrees~ opçõesdeterminaa respostarelativadoespectador,tanto
emtermosde repousoe relaxamentoquantodetensão.
FIGURA 2.9
FIGURA 2.12(REPOUSO) FIGURA 2.13(TENSÃO)
A relaçãoentretensãorelativaeequilíbriorelativopodeserdemons-
tradaemqualquer formaregular.Por exemplo,umraioempontano
interiordeum círculo(fig.2.14)provocauniamaiortensãovisualpor-
queo raiomãoseajustaao"eixovisual"invisível,perturbando,portan-
to,o equilíbrio.O elementovisível,o raio,émodificadopeloelemento
invisível,o eixo sentido(fig.2.15),etambémporsuarelaçãocomabase
horizontale estabilizadora(fig.2.16).Emtermosdedesign,deplanoou
FIGURA 2.14 FIGURA 2.15 FIGURA 2.16
J-
36 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL FUNDAMENTOS SIl'óTÁTICOS DO ALFABETlSMO VISlJAL 37
propósito,podemosdizerque,setivermosdoiscírculosladoa lado,o
quemaisatrairáaatençãodoespectadorseráo círculocomraioempon-
ta, ou não-concordante(fig.2.18maisquea 2.17).
FIGURA 2.19
FIGURA 2.17 'FIGURA 2.18
I
I II
Não hápor queatribuirjuízo devalora essefenômeno.Ele não
é nembomnemmau.Na teoriadapercepção,seuvalorestánomodo
comoéusadonacomunicaçãovisual,istoé, dequemaneirareforçao
significado,o propósitoeaintenção,e,alémdisso,comopodeserusado
comobaseparaa interpretaçãoea compreensão.A tensão,ousuaau-
sência,éo primeirofatorcompositivoquepodeserusadosintaticamente
na buscado aIfabetismovisual.
Há muitosaspectosdatensãoquedeveriamserdesenvolvidos,mas,
primeiro,éprecisolevaremcontaquea tensão(o inesperado,o mais
irregular,complexoeinstável)nãodomina,porsisó,oolho.Naseqüên-
ciadavisão,háoutrosfatoresresponsáveispelaatençãoepelopredomí-
nio compositivo.O processode estabelecero eixoverticale a base
horizontalatraio olhocommuitomaiorintensidadeparaambososcam-
posvisuais,dando-Ihesautomaticamenteumamaiorimportânciaemter-
moscompositivos.Comojá foidemonstrado,éfácillocalizaressescampos
quandosetratadeformasregulares,aexemplodasqueforammostra-
dasnafigura2.19.Em formasmaiscomplexas,naturalmenteémaisdi-
fícilestabelecero eixosentido,maso processoaindaconservaamáxima
importânciacompositiva.Assim,umelementovisualcolocadono local
ondeseencontrao eixosentido,nosexemplosdafigura2.20,vê-seauto-
maticamenteenfatizado.Trata-sedeexemplossimplesdeumfenômeno
quecontinuasendoverdadeiro,nãosónasformascomplexas,mastam-
bémnascomposiçõescomplicadas.Contudo,pormaisqueoselementos
sefaçamsentir,o olhobuscaoeixosentidoemqualquerfatovisual,num
FIGURA 2.20
~
7;
processointermináveldeestabelecimentodoequilíbriorelativo.Numtríp-
tico,a informaçãovisualcontidanopainelcentralpredomina,emter-
moscompositivos,emrelaçãoaospainéislaterais.A áreaaxialdequalquer
campoésempreaquiloparao queolhamosemprimeirolugar;é onde
esperamosveralgumacoisa.O mesmoseaplicaà infQrmaçãovisualda
metadeinferiordequalquercampo;o olhosevol~paraesselugarno
passosecundáriodeestabelecimentodo equilíbrioatravésdareferência
horizontal.,
Nivelamentoe aguçamento
O poderdoprevisível,porém,empalidecediantedo poderdasur-
presa.A estabilidadeea harmoniasãopolaridadesdaquiloqueévisual-
menteinesperadoedaquiloquecriatensõesnacomposição.Empsicologia,
essesopostossãochamadosdenivelamentoeaguçamento.Numcampo
visualretangular,umademonstraçãosimplesdenivelamentoseriacolo-
I,I
38 SINTAXE DA LlN(;UAGEM VISUAl.
FUNDAMENTOS SINTÁTICOS DO ALFABETlSMO VISUAl. 39
.-
.
I
---...---
I
confundiroespectadorque,inconscientemente,pretendesseestabilizarsua
posiçãoemtermosdeequilíbriorelativo.Comoa ambigüidadeverbal,
aambigüidadevisualobscurecenãoapenasa intençãocompositiva,mas
tambémo significado.O processodeequilíbrionaturalseriarefreado,
tornar-se-iaconfusoe,o queémaisimportante,nãoresolvidopelafra-
seologiaespacialsemsignificadodafigura2.26.A leidaGestaltquerege
asimplicidadeperceptivavê-seextremamentetransgredidaporesseesta-
dotãopoucoclaroemtodaacomposiçãovisual.Emtermosdeumaper-
feitasintaxevisual,aambigüidadeétotalmenteindesejável.Detodosos
nossOSsentidos,avisãoéo queconsomemenosenergia.Elaexperimen-
taeidentificao equilíbrio,óbvioousutil,easrelaçõesqueatuamentre
diversosdadosvisuais.Seriacontraproducentefrustrareconfundiressa
funçãoúnica.Emtermosideais,asformasvisuaisnãodevemserpropo-
sitalmenteobscuras;devemharmonizaroucontrastar,atrairou repelir,
estabelecerrelaçãoou entraremconflito.
FIGURA 2.21 FIGURA 2.22
II1111
carumpontonocentrogeométricodeumtraçadoestrutural(fig.2.21).
A posiçãodo ponto,comoé mostradona figura2.22,nãooferecene-
nhumasurpresavisual;étotalmenteharmoniosa.A colocaçãodoponto
nocantodireitoprovocaumaguçamento(fig.2.23).O pontoestáfora
do centronãoapenasnaestruturavertical,mastambémnahorizontal,
comoémostradona figura2.24.Elenemmesmoseajustaaoscompo-
nentesdiagonaisdo traçadoestrutural(fig.2.25).Em ambososcasos,
nivelamentoeaguçamentocompositivos,háclarezadeintenção.Através
denossapercepçãoautomática,podemosestabelecero equilíbrioouuma
ausênciamarcantedomesmo,etambémreconhecerfacilmenteascondi-
çõesvisuaisabstratas.Masháumterceiroestadodacomposiçãovisual
quenãoé nemo niveladonemo aguçado,e no qualo olho precisa
esforçar-seporanalisaroscomponentesnoquedizrespeitoaseuequilí-
brio.A esseestadodá-seo nomedeambigüidade,eemboraaconotação
sejaamesmaqueadalinguagem,a formapodeservisualmentedescrita
emtermosligeiramentediferentes.Na figura2.26,o pontonãoestácla-
ramentenocentro,nemestámuitodistanciadodomesmo,comosemos-
tranafigura2.27.Em termosvisuais,suaposiçãonãoéclara,epoderia
Preferênciapelo ânguloinferior esquerdo
III
I
II
. I
---+---
I
. I' ......................
--->1<---
1
........
........
. ........
Alémdeserinfluenciadapelasrelaçõeselementarescomo traça-
doestrutural,a tensãovisualémaximizadadeduasoutrasmaneiras:
o olhofavorecea zonainferioresquerdadequalquercampovisual.
Traduzidoemformaderepresentaçãodiagramática,issosignificaque
existeumpadrãoprimáriodevarreduradocampoquereageaosrefe-
rentesverticais-horizontais(fig.2.28),eumpadrãos,cundáriodevar-
reduraquereageaoimpulsoperceptivoinferior-esquerdo(fig. 2.29).
<Q)
I
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FIGURA 2.23 FIGURA 2.24 FIGURA 2.25
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I ...............
I ........
FIGURA 2.28
FIGURA 2.29
FIGURA 2.26 FIGURA 2.27
. . Háinúmerasexplicaçõesparaessaspreferênciasperceptivassecun-
danas,e,aoCOntráriodoqueacontececomaspreferênciasprimárias,
nãoé fácildar-Ihesumaexplicaçãoconclusiva.O favorecimentoda
...........-
Itl 40 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL FUNDAMENTOS SINTÁTICOS DO ALFABETlSMO VISUAL 41
parteesquerdadocampovisualtalvezsejainfluenciadopelomodooci-
dentaldeimprimir,epelofortecondicionamentodecorrentedo fato
deaprendermosa ler daesquerdaparaa direita.Há poucosestudos
eaindamuitoaaprendersobreo porquêdesermosorganismospredo-
minantementedestrosedetermosconcentradonohemisfériocerebral
esquerdonossafaculdadedelereescreverdaesquerdaparaadireita.
Curiosamente,adestrezaestende-seàsculturasqueescreviamdecima
parabaixo,e que,no presente,escrevemdadireitaparaa esquerda.
Tambémfavorecemoso campoesquerdodevisão.Sedesconhecemos
asrazõesquenoslevama fazê-Io,já ésuficientesabermosqueo fato
secomprovanaprática.Bastaobservarmosparaqueângulodeum
palcosevoltamosolhosdopúblicoquandoaindanãoháaçãoeacor-
tina sobe.
povisualsobreasuperior,estamosdiantedeumacomposiçãonivela-
da, queapresentaum mínimode tensão.Quandopredominamas
condiçõesopostas,temosumacomposiçãovisualdetensãomáxima.
Em termosmaissimples,oselementosvisuaisquesesituamemáreas
detensãotêmmaispeso(fig. 2.33,2.34,2.35)do queos elementos
nivelados.O peso,quenessecontextosignificacapacidadedeatrair
oolho,temaquiumaenormeimportânciaemtermosdoequilíbriocom-
positivo.
xxx XXX
ó.
FIGURA 2.33 FIGURA 2.34 FIGURA 2.35
'I Alguns exemplos
1'1
I
Por maisconjeturalquepossaser,a existênciadediferençasde
pesoalto-baixoeesquerda-direitatemgrandevalornasdecisõescom-
positivas.Issopodenosproporcionarumrequintadoconhecimentode
nossacompreensãodatensão,talcomoseilustrana figura2.30,que
mostraumadivisãolineardeumretângulonumacomposiçãonivela-
da;a figura2.31representaumaguçamento,masnelaatensãoémini-
mizada,aopassoquea figura2.32mostraummáximodetensão.Esses
fatospodemsercertamentemodificadosparaaspessoascanhotas,ou
llaraaquelasque,emsuasrespectivaslínguas,nãolêemdaesquerda
paraa direita.
J'.>-.A.J ~
r=lt~(j
j
~
III
FIGURA 2.36
FIGURA 2.30 FIGURA 2.31 FIGURA 2.32
Quandoo materialvisualseajustaàsnossasexpectativasemter-
mosdoeixosentido,dabaseestabilizadorahorizontal,dopredomínio
daáreaesquerdadocamposobreadireitaedametéldeinferiordocam- FIGURA 2.37
42 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
.............--
~T"'[)AMENTOS SINTÁTICOS DO ALFABETISMO VISUAL 43
Umademonstraçãopráticadateoriademonstradanafigura2.36
revelaque,numanatureza-morta,umamaçãà direitaequilibraduas
maçãsàesquerda.O predomíniocompositivoéintensificadoaodeslo-
carmosa maçãdadireitaparaumaposiçãomaisaltaquea dasduas
maçãsda esquerda,comosevêna figura2.37.
Há umarelaçãodiretaentreo pesoeo predomíniovisualdasfor-
masesuaregularidaderelativa.A complexidade,a instabilidadee a
irregularidadeaumentama tensãovisual,e, emdecorrênciadisso,
atraemo olho,comosemostranasformasregulares(fig.2.38,2.39,
2.40)enasirregulares(fig.2.41,2.42,2.43).Osdoisgruposrepresen-
tamaopçãoentreduascategoriasfundamentaisemcomposição:acom-
posiçãoequilibrada,racionale harmoniosa,em contraposiçãoà
exagerada,distorcidae emocional.
simplesemenoscomplicada,qualidadesessasquedescrevemo estado
a quesechegouvisualmenteatravésdasimetriabilateral.Os designs
deequilíbrioaxialnãosãoapenasfáceisdecompreender;sãotambém
fáceisdefazer,usando-sea formulaçãomenoscomplicadadocontra-
peso.Seumpontofor firmementecolocadoàesquerdadoeixoverti-
calou eixosentido,provoca-seumestadodedesequilíbrio,mostradonafigura2.44,queé imediatamenteanuladopeloacréscimodeoutro
ponto,comosevênafigura2.45.Trata-sedeumaperfeitademonstra-
çãodocontrapeso,o qual,aoserusadonumacomposiçãovisual,pro-
duz o efeitomaisordenadoe organizadopossível.O templogrego
clássicoé umtourdeforceemsimetria,e, comoseriadeseesperar,
umaformavisualdeextremaserenidade.
I
111::
~
I.
I
"I FIGURA 2.38 FIGURA 2.39
I I
~
I
II
'Li
FIGURA 2.41 FIGURA 2.42
. . .
FIGURA 2.44 FIGURA 2.45
FIGURA 2.40
É extraordinárioencontrar,tantonanaturezaquantonasobras
criadaspelohomem,umgrandenúmerodeexemploscapazesdeatin-
girumestadodeequilíbrioideal.Poder-se-iaargumentarque,emter-
mos compositivos,é maisdinâmicochegara um equilíbriodos
elementosdeumaobravisualatravésda técnicadaassimetria.Não
étãofácilassim.As variaçõesdosmeiosvisuaisenvolvemfatorescom-
positivosdepeso,tamanhoeposição.As figuras2.46e2.47demons-
trama distribuiçãoaxialdo pesobaseadano tamanho.Tambémé
possívelequilibrarpesosdessemelhantesmudando-sesuaposição,co-
mosemostrana figura2.48.
FIGURA 2.43
NateoriadapercepçãodaGestalt,aleidapregnância(Pragnanz)
definea organizaçãopsicológicacomosendotão"boa" (regular,si-
métrica,simples)quantoo permitamascondiçõesvigentes.Nesseca-
so,o adjetivo"bom" nãoéumapalavradesejável,enemmesmoum
termodescritivo,levando-seemcontao significadopretendido;uma
definiçãomaisprecisaseriaemocionalmentemenosprovocativa,mais
~~=k
FIGURA 2.46 FIGURA 2.47 FIGURA 2.48
r~ -
44 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
FUNDAMENTOSSINTATICOSDOALFABETISMO VISUAL 45
li
Ilil
1I ~
II
II
111I
Atração e agrupamento
a atraçãodosmesmos.Foi essefenômenovisualquelevouo homem
primitivoa relacionarospontosdeluzdasestrelasa formasrepresen-
tacionais.Ainda podemosfazero mesmonasnoitesclarase estrela-
das,quandoolhamosparao céuedistinguimosasformasdeÓrion,
daUrsaMaioredaUrsaMenor,já hátantotempoidentificadas.Po-
deríamosinclusivetentarumexercíciooriginal,descobrindoobjetos
delineadospelospontosluminososdasestrelas.
A forçadeatraçãonasrelaçõesvisuaisconstituioutroprincípio
daGestoltdegrandevalorcompositivo:a leidoagrupamento.Ela tem
doisníveisdesignificaçãoparaa linguagemvisual.É umacondição
visualquecriaumacircunstânciadeconcessõesmútuasnasrelações
queenvolveminteração.Um pontoisoladoemumcamporelaciona-se
como todo,comosemostrana figura2.49,maselepermanecesó,
e a relaçãoé umestadomoderadode intermodificaçãoentreeleeo
quadrado.Na figura2.50,osdoispontosdisputamaatençãoemsua
interação,criandomanifestaçõescomparativamenteindividuaisdevi-
doàdistânciaqueossepara,e,emdecorrênciadisso,dandoa impres-
sãodeserepeliremmutuamente.Na figura2.51,há umainteração
imediatae maisintensa;os pontosse harmonizame, portanto,se
atraem.Quantomaiorfor suaproximidade,maiorserásuaatração.
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I
I
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lil~1111
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III
II
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FIGURA 2.49 FIGURA 2.50 FIGURA 2.51
.. . o
No atoespontâneodever,asunidadesvisuaisindividuaiscriamoutras
formasdistintas.Quantomaispróximasasmarcas,maiscomplicadas
as formasquepodemdelinear.Em diagramassimples,comoo 2.52
eo 2.53,o olhosupreoselosdeligaçãoausentes.Atravésdesuasper-
cepções,o homemtemnecessidadedeconstruirconjuntosapartirde
unidades;nessecaso,a necessidadeé ligaros pontosdeacordocom
.......o o.....
o..... .: .... . . . "'.. e.. 8. .. ..
FIGURA 2.53
.
L
o segundoníveldeimportânciaparao alfabetismovisual,noque
dizrespeitoà leidoagrupamento,consistenomodocomoestaúltima
éafetadapelasimilaridade.Na linguagemvisual,os opostosserepe-
lem,masossemelhantesseatraem.Assim,o olhocompletaascone-
xõesquefaltam,masrelacionaautomaticamente,ecommaiorforça,
asunidadessemelhantes.O processoperceptivoédemonstradopelas
pistasvisuaisdafigura2.54,queformamumquadrado(figo2.55).Na
figura2.56,porém,aspistasforammodificadas,esuaformainfluen-
ciaoselementosqueseligameaordememquesedáa ligação;a figu-
ra2.57mostrapossíveisligações.Emtodasasquatrofiguras(2.54-2.57),
.
FIGUkA 2.52
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46 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
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FIGURA 2.56
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FUNDAMEI\TOS SI"'TÁTICOS DO AI.FABETlSMO VISUAL 47
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I I
I I
I I
I I
I I
I I
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Positivoe negativo
FIGURA 2.55
TudoaquiloquevemostemaqualidadegramaticaldeSeraafir-
maçãoprincipalouo modificadorprincipal- emterminologiaverbal
-, osubstantivoouo adjetivo.A relaçãoestruturaldamensagemvi-
sualestáfortementeligadaàseqüênciadevereabsorverinformação.
O quadradoé umbomexemplodeumcampoqueé umaafirmação
visualpositiva,expressandoclaramentesuaprópriadefinição,seuca-
ráteresuaqualidade(fig.2.61).Seriaconvenienteobservarque,como
nocasodamaiorpartedessesexemplos,o quadradoéo campomais
simplespossível.Emboraa introduçãodeumpontono quadradoou
campo(fig.2.62)sejatambémumelementovisualdesprovidodecom-
plexidade,elaestabeleceumatensãovisualeabsorvea atençãovisueM
doespectador,desviando-a,emparte,doquadrado.Criaumaseqüência
devisãoqueéchamadadevisãopositivae negativa.A importância
do positivoedo negativoness~contextorelaciona-seapenasao fato
deque,emtodosos acontecimentosvisuais,háelementosseparados
eaindaassimunificados.As figuras2.62e2.63demonstramqueposi-
tivoenegativonãosereferemabsolutamenteàobscuridade,luminosi-
dadeou imagemespecular,comoacontecena descriçãode filmese
reproduçõesfotográficas.Quersetratedeumpontoescuronumcam-
poluminoso,comonafigura2.62,oudeumpontobrancosobrefun-
doescuro,comonafigura2.63,o pontoéa formapositiva,a tensão
ativa,eoquadradoéa formanegativa.Em outraspalavras,o quedo-
minao olhonaexperiênciavisualseriavistocomo.elementopositivo,
ecomoelementonegativoconsideraríamostudoaquiloqueseapre-
sentademaneiramaispassiva.A visãopositivaenegativamuitasve-
zesenganao olho.Olhamosparaalgumascoisase,napistavisualque
~x~I II II II II II II II II II I
<:) ~
FIGURA 2;57
a similaridadedemonstradaé a forma,masmuitasoutrasafinidades
visuaisregema lei do agrupamentono atodever,taiscomoo tama-
nho,atexturaouo tom,comosemostranasfiguras2.58,2.59e2.60.
III~
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11
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FIGURA 2.61 FIGURA 2.62 FIGURA 2.63
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FIGURA 2.58 FIGURA 2.59 FIGURA 2.60
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Ft::'IóDAMENTOS SI:'IóTÁTICOS DO ALFABETISMO VISUAL 49
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11::
48 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
elanostransmite,vemosoquenarealidadealinãoseencontra.Vistos
àdistância,doiscasaismuitopróximospodemassemelhar-seaumcão
sentadosobreaspatastraseiras.Umrostopodeparecer-nosmodelado
empedra.O envolvimentocomaspistasrelativaseativasdavisãode
umobjetopodeseràsvezestãoconvincentequeficaquaseimpossível
veraquiloparao queestamosrealmenteolhando.Essasilusõesóticas
sempreforamdegrandeinteresseparaosgestaltistas.Na figura2.64,
aseqüênciapositivo-negativoédemonstradaporaquiloquevemos-
umvasoou doisperfis-, epor aquiloquevemosprimeiro,issono
casodevermosasduascoisas.As mesmasobservaçõespodemserfei-
tascomrelaçãoaomodocomovemoso 2 eo 3justapostosna figura
2.65.Nosdoisexemploshápoucopredomíniodeumelementosobre
o outro,o quevemreforçara ambigüidadeda manifestaçãovisual.
O olho procuraumasoluçãosimplesparaaquiloqueestávendo,e,
emboraoprocessodeassimilaçãodainformaçãopossaserlongoecom-
plexo,a simplicidadeéo fim quesebusca.O símbolochinêsdeyin-
yang,mostradonafigura2.66,éumexemploperfeitodecontrastesi-
multâneoedesigncomplementar.Comoo "arcoquenuncadorme",
oyin-yangédinâmicotantoemsuasimplicidadequantoemsuacom-
plexidade,movendo-seincessantemente;seuestadovisualnegativo-
positivonuncaseresolve.Encontra-seo maispróximopossíveldeum
equilíbriodeelementosindividuaisqueformamumtodocoerente.
Há outrosexemplosdefenômenospsicofísicosdevisãoquepo-
demserutilizadosparaa compreensãoda linguagemvisual.O queé
maiorparecemaispróximodentrodocampovisual,comosemostra
na figura2.67.Contudo,adistânciarelativaéaindamaisclaramentedeterminadapelasuperposição(fig.2.68).Elementosclarossobrefundo
II
I
I
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I ,I ~1I
111
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FIGURA 2.64
D
o
FIGURA 2.67 FIGURA 2.68 FIGURA 2.69
escuroparecemexpandir-se,aopassoqueelementosescurossobrefun-
doclaroparecemcontrair-se(fig. 2.69).
Há ummétodoBerlitzparaa'comunicaçãovisual.Nãoépreciso
conjugarverbos,soletrarpalavrasou aprendersintaxe.O aprendiza-
doocorrenaprática.No modovisual,pegamosumlápisouumcreiom
edesenhamos;esboçamosumcroquideumanovasaladeestar;pinta-
mosumcartazqueanunciaumaapresentaçãopública.Podemosespe-
cularsobreosmeiosvisuaiscapazesdeproduzirumamensagem,um
planoouumainterpretação,mascomoo esforçoseajustaemtermos
dasnecessidadesdoalfabetismovisual?As principaisdiferençasentre
aabordagemdiretaeintuitivaeo alfabetismovisualéo níveldecon-
fiabilidadeeexatidãoentrea mensagemcodificadaea mensagemre-
cebida.Na comunicaçãoverbal,ouve-seapenasumavezaquiloque
sediz.Saberescreveroferecemaioresoportunidadesdecontrolaros
efeitos,e restringea áreadeinterpretação.O mesmoacontececoma
mensagemvisual,apesardasdiferençasexistentes.A complexidadedo
modovisualnãopermitea estreitagamadeinterpretaçõesda lingua-
gem.Masoconhecimentoemprofundidadedosprocessosperceptivos
queregema respostaaosestímulosvisuaisintensificao controledo
significado.
Osexemplosdestecapítulorepresentamapenasumapartedain-
formaçãovisualpossíveldeseutilizarnodesenvolvimentodeumalin-
guagemvisualquepossaserarticuladaecompreendidaportodos.O
C?~hecimentodessesfatosperceptivoseducanossaestratégiacompo-Sltlvaeoferec '.. '.,
ecntenossmtatlcosa todososquecomeçamasevoltar
p~rao aprendizadodoalfabetismovisual.Ospadrõesdoalfabetismo
naoexigem d ..' queca acnadordeumamensagemvisualsejaumpoeta;assim não '.. senaJustopretenderquetododesigneroucriadordemate-
FIGURA 2.65 FIGURA 2.66
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.........--
50 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
riaisvisuaisfosseumartistadegrandetalento.Trata-sedeumprimei-
ro passorumoà liberaçãodahabilidadedeumageraçãoimersanum
ambientecomintensopredomíniodemeiosvisuaisdecomunicação;
aquiestãoasregrasbásicasquepodemrepresentarumasintaxeestra-
tégicaparatodososquecarecemdeinformaçãovisual,queassimpo-
derãocontrolare determinaros rumosdo conteúdodeseutrabalho
visual.
3
ELEMENTOS BÁSICOS
DA COMUNICAÇÃO VISUAL
II
I'!I
II
Exercícios
&111
I. Fotografeouencontreumexemplodeequilíbrioperfeitoeum
exemplodedesequilíbriocompleto.Analise-osdo pontodevistada
disposiçãocompositivabásicaedeseusefeitos,sobretudoseusigni-
ficado.
2. Façaumacolagemusandoduasformasdiferentescomomeio
paraidentificareassociardoisgruposdistintos(porexemplo,velho/no-
vo, rico/pobre,alegre/triste).
3. Acheumexemplodecriaçãovisualquesejademáqualidade
emtermosdeartegráfica,eque,apesardepretendertransmitiruma
mensagem,sejadifícildelerecompreender.Analiseatéquepontoa
ambigüidadecontribuiparao fracassodaexpressãovisual.Esboceno-
vamenteodesenho,procurando:1)nivelaroefeitoe2)aguçaroefeito.
Semprequealgumacoisaéprojetadaefeita,esboçadaepintadâ,
desenhada,rabiscada,construída,esculpidaougesticulada,asubstância
visualdaobraécompostaa partirdeumalistabásicadeelementos.
Não sedevemconfundiros elementosvisuaiscomos materiaisou o
meiodeexpressão,a madeiraou a argila,a tintaou o filme.Os ele-
mentosvisuaisconstituema substânciabásicadaquiloquevemos,e
seunúmeroé reduzido:o ponto,a linha,a forma,a direção,o tom,
acor,atextura,adimensão,aescalaeo movimento.Por poucosque
sejam,sãoa matéria-primadetodainformaçãovisualemtermosde
opçõesecombinaçõesseletivas.A estruturadaobravisualéa força
quedeterminaquaiselementosvisuaisestãopresentes,ecomqualên-
faseessapresençaocorre.
Grandepartedoquesabemossobrea interaçãoeo efeitodaper-
cepçãohumanasobreo significadovisualprovémdaspesquisasedos
experimentosdapsicologiadaGestalt,maso pensamentogestaltista
temmaisaofereceralémdamerarelaçãoentrefenômenospsicofisio-
lógicoseexpressãovisual.Suabaseteóricaéacrençaemqueumaabor-
dagemdacompreensãoedaanálisedetodosos sistemasexigequese
reconheçaqueosistema(ouobjeto,acontecimento,etc.)comoumto-
doéformadoporpartesinteratuantes,quepodemserisoladasevistas
comointeiramenteindependentes,e depoisreunidasno todo.É im-
possívelmodificarqualquerunidadedosistemasemque,comisso,se
modifiquetambémo todo.Qualquerocorrênciaouobravisualconsti-
tui umexemploincomparáveldessatese,umavezqueelafoi inicial-
menteconcebidaparaexistircomoumatotalidadebemequilibradae
11111
1111111
11111
II1
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52 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇÃO VISUAL 53
II1111
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inextricavelmenteligada.Sãomuitosos pontosdevistaa partirdos
quaispodemosanalisarqualquerobravisual;umdosmaisrevelado-
resédecompô-Iaemseuselementosconstitutivos,paramelhorcom-
preendermoso todo.Esseprocessopodeproporcionarumaprofunda
compreensãodanaturezadequalquermeiovisual,etambémdaobra
individualedapré-visualizaçãoecriaçãodeumamanifestaçãovisual,
semexcluira interpretaçãoe a respostaquea elasedê.
A utilizaçãodoscomponentesvisuaisbásicoscomomeiodeco-
nhecimentoecompreensãotantodecategoriascompletasdosmeios
visuaisquantodeobrasindividuaiséummétodoexcelenteparaexplo-
raro sucessopotenciale consumadodesuaexpressão.A dimensão,
porexemplo,existecomoelementovisualnaarquiteturaenaescultu-
ra,meiosnosquaispredominaemrelaçãoaosoutroselementosvisuais.
Todaa ciênciaeaartedaperspectivaforamdesenvolvidasduranteo
Renascimentoparasugerira presençadadimensãoemobrasvisuais
bidimensionais,comoa pinturae o desenho.Mesmocomo recurso
do tromped'oeilaplicadoàperspectiva,adimensãonessasformasvi-
suaissópodeestarimplícita,semjamaisexplicitar-se.Masemnenhum
outromeioépossívelsintetizartãosutilecompletamenteadimensão
doquenofilme,paradoouemmovimento.A lentevêcomovêoolho,
emtodososdetalhesecomo apoioabsolutodetodososmeiosvisuais.
Tudo issoé outromododedizerqueos meiosvisuaistêmpresença
extraordináriaemnossoambientenatural.Nãoexistereproduçãotão
perfeitadenossoambientevisualnagênesedasidéiasvisuais,nospro-
jetosenoscroquis.O quedominaa pré-visualizaçãoéesseelemento
simples,sóbrioe extremamenteexpressivoqueé a linha.
É fundamentalassinalar,aqui,queaescolhadoselementosvisuais
queserãoenfatizadoseamanipulaçãodesseselementos,tendoemvis-
taoefeitopretendido,estánasmãosdoartista,doartesãoedodesig-
ner;eleé o visualizador.O queeledecidefazercomelesésuaartee
seuofício,easopçõessãoinfinitas.Oselementosvisuaismaissimples
podemserusadoscomgrandecomplexidadedeintenção:opontojus-
tapostoemdiferentestamanhoséo elementoessencialda impressão
edachapaameio-tom(clichê),meiomecânicoparaa reproduçãoem
massadematerialvisualdetomcontínuo,especialmenteemfotogra-
fia;a foto,cujafunçãoéregistraro meioambienteemseusmínimos
detalhesvisuais,podeaomesmotempotornar-seummeiosimplifica-
doreabstratonasmãosdeumfotógrafomagistral,comoAaronSis-
kind. A compreensãomaisprofundada construçãoelementardas
formasvisuaisofereceao visualizadormaiorliberdadeediversidade
deopçõescompositivas,asquaissãofundamentaisparao comunica-
dor visual.
Paraanalisarecompreenderaestruturatotaldeumalinguagem
visual,éconvenienteconcentrar-senoselementosvisuaisindividuais,
umporum,paraumconhecimentomaisaprofundadodesuasquali-
dadesespecíficas.
o ponto
~
O pontoéaunidadedecomunicaçãovisualmaissimpleseirredu-
tivelmentemínima.Na natureza,a rotundidadeéa formulaçãomais
comum,sendoque,emestadonatural,a retaou o quadradoconsti-
tuemumararidade.Quandoqualquermateriallíquidoévertidosobre
umasuperfície,assumeumaformaarredondada,mesmoqueestanão
simuleumpontoperfeito.Quandofazemosumamarca,sejacomtin-
ta,comumasubstânciaduraoucomumbastão,pensamosnesseele-
mentovisualcomoumpontodereferênciaouumindicadordeespaço.
Qualquerpontotemgrandepoderdeatraçãovisualsobreoolho,exis-
taelenaturalmenteou tenhasidocolocadopelohomememresposta
a um objetivoqualquer(fig. 3.1).
111'li! . .
.
FIGURA 3.1
Doispontossãoinstrumentosúteisparamediro espaçonomeio
ambienteounodesenvolvimentodequalquertipodeprojetovisual(fig.
3.2).Aprendemoscedoautilizaropontocomosistemadenotaçãoideal,
juntocomaréguaeoutrosinstrumentosdemedição,comoocompas-
so.Quantomaiscomplexasforemasmedidasnecessáriasà execução
deumprojetovisual,tantomaiorseráo númerodepontosusados(fig.
3.3,3.4).
~lIt'n
III
54 SI:'IóTAXE DA LINGUAGEM VISlJAL
III!I
I
I
i
-
ELEMENTOSBÁSICOSDA COMUNICAÇAoVISUAL 55
miaameio-tom,peloqualsãoatualmentereproduzidos,naimpressão
emgrandeescala,quasetodasasfotoseosdesenhosemcores,detom
contínuo.
A capacidadeúnicaqueumasériedepontostemdeconduziro
olharé intensificadapelamaiorproximidadedospontos(fig. 3.8).
Quandovistos,os pontosseligam,sendo,portanto,capazesde
dirigiro olhar(fig. 3.5).Em grandenúmeroejustapostos,ospontos
criama ilusãodetomou decor, o que,comojá seobservouaqui,é
o fatovisualemquesebaseiamosmeiosmecânicosparaa reprodução
dequalquertomcontinuo(fig. 3.6,3.7).O fenômenoperceptivoda
fusãovisualfoi exploradoporSeuratemseusquadrospontilhistas,de
coretomextraordinariamentevariados,aindaqueelesótenhautiliza-
do quatrocores- amarelo,vermelho,azulepreto- etenhaaplica-
do a tinta com pincéismuito pequenose pontiagudos.Todos os
impressionistasexploraramosprocessosdefusão,contrasteeorgani-
zação,queseconcretizavamnosolhosdoespectador.Envolventeees-
timulante,o processoeradealgumaformasemelhantea algumasdas
maisrecentesteoriasdeMcLuhan,paraasquaiso envolvimentovi-
sualeaparticipaçãonoatodeversãopartedo significado.Masnin-
guéminvestigouessaspossibilidadestãocompletamentequantoSeurat,
que,emseusesforços,pareceterantecipadoo processodequadricro-
.
FIGURA 3.2
II
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II
,111
II
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II
FIGURA 3.5 FIGURA 3.6
..
.......... ...
A linha
Quandoospontosestãotãopróximosentresiquesetornaimpos-
sívelidentificá-Iasindividualmente,aumentaa sensaçãodedireção,e
acadeiadepontossetransformaemoutroelementovisualdistintivo:
alinha(fig.3.9).Tambémpoderíamosdefiniralinhacomoumponto
emmovimento,oucomoahistóriadomovimentodeumponto,pois,
quandofazemosumamarcacontínua,ou umalinha,nossoprocedi-
mentoseresumeacolocarummarcadordepontossobreumasuperfí-
cieemovê-Iasegundoumadeterminadatrajetória,detal formaque
asmarcasassimformadasseconvertamemregistro(fig. 3.10).
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FIGURA 3.9
~ ,').... ;----....-..........
"" .... " ../ "..................-----
FIGURA 3.10
FIGURA 3.7
. . .
. . .
. .
FIGURA 3.3 FIGURA 3.4
. .. . . . . . ...
FIGURA 3.8
.,............-
56 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
ELEMEj\;TOS BÁSICOS DA COMUNICAÇÃO VISUAL 57
A linhapodeassumirformasmuitodiversasparaexpressaruma
grandevariedadedeestadosdeespírito.Podesermuitoimprecisae
indisciplinada,comonosesboçosilustrados,paratirarproveitodesua
espontaneidadedeexpressão.Podesermuitodelicadaeondulada,ou
nítidaegrosseira,nasmãosdomesmoartista.Podeserhesitante,in-
decisaeinquiridora,quandoésimplesmenteumaexploraçãovisualem
buscadeumdesenho.Podeseraindatãopessoalquantoummanus-
critoemformaderabiscosnervosos,reflexodeumaatividadeincons-
cientesobapressãodopensamento,ouumsimplespassatempo.Mesmo
no formatofrio e mecânicodosmapas,nosprojetosparaumacasa
ounasengrenagensdeumamáquina,alinharefleteaintençãodoartí-
ficeouartista,seussentimentose~moçõesmaispessoaise, maisim-
portantequetudo,suavisão.
A linhararamenteexistenanatureza,masapareceno meioam-
biente:narachaduradeumacalçada,nosfiostelefônicoscontrao céu,
nosramossecosdeumaárvoreno inverno,noscabosdeumaponte.
O elementovisualda linhaé usadoprincipalmenteparaexpressara
justaposiçãodedoistons.A linhaé muitousadaparadescreveressa
justaposição,tratando-se,nessecaso,deumprocedimentoartificial.
Nasartesvisuais,alinhatem,porsuapróprianatureza,umaenor-
meenergia.Nuncaéestática;éo elementovisualinquietoeinquiridor
doesboço.Ondequerquesejautilizada,éo instrumentofundamental
dapré-visualização,o meiodeapresentar,emformapalpável,aquilo
queaindanãoexiste,anãosernaimaginação.Dessamaneira,contri-
bui enormementeparao processovisual.Suanaturezalineare fluida
reforçaa liberdadedeexperimentação.Contudo,apesardesuaflexi-
bilidadee liberdade,a linhanãoé vaga:é decisiva,tempropósitoe
direção,vaiparaalgumlugar,fazalgodedefinitivo.A linha,assim,
podeserrigorosaetécnica,servindocomoelementofundamentalem
projetosdiagramáticosdeconstruçãomecânicaedearquitetura,além
deapareceremmuitasoutrasrepresentaçõesvisuaisemgrandeescala
ou dealtaprecisãométrica.Sejaelausadacomflexibilidadeeexperi-
mentalmente(fig.3.11),oucomprecisãoemedidasrigorosas(fig.3.12),
alinhaéo meioindispensávelparatornarvisíveloqueaindanãopode
servisto,por existirapenasna imaginação.
I
I
ii
'!
A forma
FIGURA 3.11
FIGURA 3.12
A linhadescreveumaforma.Na linguagemdasartesvisuais,a
linhaarticulaacomplexidadedaforma.Existemtrês-formasbásicas:
o quadrado,o círculoeo triânguloeqüilátero.Cadaumadasformas
básicas(fig. 3.13)temsuascaracterísticasespecíficas,e a cadauma
seatribuiumagrandequantidadedesignificados,algunsporassocia-
ção,outrosporvinculaçãoarbitrária,eoutros,ainda,atravésdenos-
li'
A linhaé tambémuminstrumentonossistemasdenotação,co-
mo,porexemplo,aescrita.A escrita,acriaçãodemapas,ossímbolos
elétricosea músicasãoexemplosdesistemassimbólicosnosquaisa
linhaéo elementomaisimportante.Na arte,porém,a linhaéo ele-
mentoessencialdo desenho,um sistemadenotaçãoque,simbolica-
mente,nãorepresentaoutracoisa,mascapturaa informaçãovisual
ea reduzaumestadoemquetodainformaçãovisualsupérfluaéeli-
minada,eapenasoessencialpermanece.Essasobriedadetemumefei-
to extraordinárioem desenhosou pontas-secas,xilograVuras,
águas-fortese 1itografias.
FIGURA 3.I3
,.........--
58 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
II
II sasprópriaspercepçõespsicológicase fisiológicas.Ao quadradose
associamenfado,honestidade,retidãoeesmero;ao triângulo,ação,
conflito,tensão;ao círculo,infinitude,calidez,proteção.
Todasasformasbásicassãofigurasplanasesimples,fundamen-
tais,quepodemserfacilmentedescritaseconstruídas,tantovisualquan-
toverbalmente.O quadradoéumafiguradequatrolados,comângulos
retosrigorosamenteiguaisnoscantose ladosquetêmexatamenteo
mesmocomprimento(fig.3.14).O círculoéumafiguracontinuamen-
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COMPRIMENTOS
IGUAIS
FIGURA 3.14
FIGURA 3.17
TODOS OS RAIOS COM
O MESMO COMPRIMENTO
PONTO CENTRAL Direção
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ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇÃO VISUAL 59
~LJ
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tecurva,cujocontornoé,emtodosospontos,eqüidistantedeseuponto
central(fig. 3.15).O triânguloeqüiláteroé umafiguradetrêslados
cujosânguloseladossãotodosiguais(fig.3.16).A partirdecombina-
çõesevariaçõesinfinitasdessastrêsformasbásicas,derivamostodas
asformasfísicasda naturezae da imaginaçãohumana(fig. 3.17).
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[Q] ~Pê>
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I
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tL CURVATURA CONTÍNUA
Todasasformasbásicasexpressamtrêsdireçõesvisuaisbásicas
esignificativas:oquadrado,ahorizontaleavertical(fig.3.18);o triân-
gulo,a diagonal(fig. 3.19);o círculo,a curva(fig. 3.20).Cadauma
dasdireçõesvisuaistemumfortesignificadoassociativoeéumvalio-
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FIGURA 3.15
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FIGURA 3.18
TODOS OS LADOS COM
O MESMO COMPRIMENTO
60° 60°
FIGURA 3.16
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FIGURA 3.19
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FIGURA 3.20
so instrumentoparaa criaçãodemensagensvisuais.A referência
horizontal-vertical(fig. 3.21)já foi aquicomentada,mas,a títulode
recordação,valedizerqueconstituia referênciaprimáriadohomem,
em'termosdebem-estaremaneabilidade.Seusignificadomaisbásico
tema vernãoapenascoma relaçãoentre'o organismohumanoe o
meioambiente,mastambémcomaestabilidadeemtodasasquestões
visuais.A necessidadedeequilíbrionãoéumanecessidadeexclusiva
do homem;deletambémnecessitamtodasascoisasconstruídasede-
senhadas.Adireçãodiagonal(fig. 3.22)temreferênciadiretacoma
idéiadeestabilidade.É a formulaçãooposta,a forçadirecionalmais
instável,e,conseqüentemente,maisprovocadoradasformulaçõesvi-
suais.Seusignificadoéameaçadorequaseliteralmenteperturbador.
As forçasdirecionaiscurvas(fig. 3.23)têmsignificadosassociadosà
abrangência,à repetiçãoe à calidez.Todasasforçasdirecionaissão
degrandeimportânciaparaa intençãocompositivavoltadaparaum
efeitoe um significadodefinidos.
As margenscomqueseusaa linhapararepresentarumesboço
rápidoouumminuciosoprojetomecânicoaparecem,namaiorparte
doscasos,emformadejustaposiçãodetons,ou seja,deintensidade
60 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
li,
FIGURA 3.21 FIGURA 3.22
Tom
.,.....-
ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇÃO VISUAL 61
daobscuridadeou claridadedequalquercoisavista.Vemosgraçasà
presençaou à ausênciarelativadeluz, masa luz nãoseirradiacom
uniformidadeno meioambiente,sejaelaemitidapeloSol, pelaLua
ouporalgumafonteartificial.Seassimfosse,nosencontraríamosnu-
maobscuridadetãoabsolutaquantoa quesemanifestanaausência
completadeluz. A luz circundaascoisas,é refletidapor superfícies
brilhantes,incidesobreobjetosquetêm,elespróprios,claridadeou
obscuridaderelativa.As variaçõesdeluzoudetomsãoosmeiospelos
quaisdistinguimosoticamentea complexidadeda informaçãovisual
do ambiente.Em outraspalavras,vemoso queéescuroporqueestá
próximoou sesuperpõeao claro,e vice-versa(fig. 3.24,3.25)..
FIGURA 3.24 FIGURA 3.25
Nanatureza,atrajetóriaquevaidaobscuridadeàluzéentremea-
dapormúltiplasgradaçõessutis,quesãoextremamentelimitadasnos
meioshumanosdereproduçãodanatureza,tanton~artequantono
cinema.Quandoobservamosatonalidadenanatureza,estamosvendo
averdadeiraluz.Quandofalamosdetonalidadeemartesgráficas,pin-
tura,fotografiaecinema,fazemosreferênciaaalgumtipodepigmen-
to, tintaou nitratodeprata,queseusaparasimularo tomnatural.
Entrea luzeaobscuridadenanaturezaexistemcentenasdegradações
tonaisespecíficas,masnasartesgráficasena fotografiaessasgrada-
çõessãomuitolimitadas(fig.3.26).Entreo pigmentobrancoeo pre-
to,aescalatonalmaiscomumenteusadatemcercadetrezegradações.
NaBauhauseemmuitasoutrasescolasdearte,sempresedesafiouos
alunosa descobrirquantasgradaçõestonaisdistintase identificáveis
Podiamrepresentarentreo brancoeo negro.Comgrandesensibilida-
deedelicadeza,seunúmeropodechegara trintatonsdecinza,mas
FIGURA 3.23
i
j
I
II
I
ELEMENTOSBÁSICOSDA COMUNICAÇÁOVISUAL 63
va,a linhanãocriará,porsisó,umailusãoconvincentedarealidade;
paratanto,precisarecorreraotom(fig.3.29).O acréscimodeumfundo
tonalreforçaaaparênciaderealidadeatravésdasensaçãodeluzrefle-
tidaesombrasprojetadas.Esseefeitoéaindamaisextraordinárionas
formassimplesebásicascomoo círculo,que,seminformaçãotonal,
nãopareceriater dimensão(fig. 3.30).
A claridadeeaobscuridadesãotãoimportantesparaapercepção
denossoambientequeaceitamosumarepresentaçãomonocromática
darealidadenasartesvisuais,eo fazemossemvacilar.Na verdade,
ostonsvariáveisdecinzanasfotografias,nocinema,natelevisão,nas
águas-fortes,nasgravurasà maneira-negraenosesboçostonaissão
substitutosmonocromáticos,e representamummundoquenãoexis-
te,ummundovisualquesóaceitamosdevidoaopredomíniodosvalo-
restonaisemnossaspercepções(prancha3.1)*.A facilidadecomque
aceitamosa representaçãovisualmonocromáticadáaexatamedidada
importânciavitalqueo tomtemparanós,e,o queéaindamaisinte-
ress~nte,decomosomosinconscientementesensíveisaosvaloresmo-
nótonosemonocromáticosdenossomeioambiente.Quantaspessoas- ·As pranchas 3.1 e 3.6 estão nas páginas 67 e 68.
~ ,....-
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62 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
FIGURA 3.26
II tL L_~I:ICaM.
FIGURA 3.27
issonãoépráticoparao usocomum,porserexcessivamentesutil,em
termosvisuais.Dequemodo,então,podeovisualizadorlidarcomes-
salimitaçãotonal?A manipulaçãodotomatravésdajustaposiçãodi-
minuimuitoaslimitaçõestonaisinerentesao problemadecompetir
coma abundânciadetonsdanatureza.Ao sercolocadonumaescala
tonal(fig.3.27),umtomdecinzapodemodificar-sedramaticamente.
A possibilidadedeumarepresentaçãotonalmuitomaisvastapodeser
obtidaatravésda utilizaçãodessesmeios.
O mundoemquevivemosé dimensional,eo toméumdosme-
lhoresinstrumentosdequedispõeovisualizadorparaindicareexpres-
saressadimensão.A perspectivaéo métodoparaacriaçãodemuitos
dosefeitosvisuaisespeciaisdenossoambientenatural,eparaa repre-
sentaçãodo modotridimensionalquevemosemumaformagráfica
bidimensional.Recorreamuitosartifíciosparasimularadistância,a
massa,o pontodevista,opontodefuga,alinhadohorizonte,o nível
doolho,etc.(fig.3.28).No entanto,mesmocomaajudadaperspecti-
FIGURA 3.30
FIGURA 3.29
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LINHA DO HORIZONTE PONTO DE FUGAPONTO DE FUGA ~-
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..............
.......
FIGURA 3.28
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64 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇAo VISUAL 65
sedãocontadequepossuemessasensibilidade?A razãodessesurpreen-
dentefatovisualéqueasensibilidadetonalébásicaparanossasobre-
vivência.Só é superadapelareferênciavertical-horizontalenquanto
pistavisualdo relacionamentoquemantemoscomo meioambiente.
Graçasa elavemoso movimentosúbito,a profundidade,a distância
eoutrasreferênciasdoambiente.O valortonaléoutramaneiradedes-
crevera luz. Graçasa ele,eexclusivamentea ele,é queenxergamos.
vemexpressanestefragmentodo poema"The People,Yes", deCarl
Sandburg:
Cor
Sendovermelhoo sanguedetodososhomensdetodasasnações
a InternacionalComunistafezvermelhoseuestandarte
O papaInocêncioIV deuaoscardeaisseusprimeiroscapelos
vermelhosdizendoqueo sanguedeum cardealpertencia
à santamadreigreja.
O vermelho,cordesangue,é um símbolo.*
II~
i
As representaçõesmonocromáticasquetãoprontamenteaceita-
mosnosmeiosdecomunicaçãovisualsãosubstitutostonaisdacor,
substitutosdissoquenaverdadeé ummundocromático,nossouni-
versoprofusamentecolorido.Enquantoo tomestáassociadoaques-
tõesde sobrevivência,sendoportantoessencialpara o organismo
humano,acortemmaioresafinidadescomasemoções.É possívelpen-
sarnacorcomoo glacêestéticodo bolo, saborosoe útil emmuitos
aspectos,masnãoabsolutamentenecessárioparaacriaçãodemensa-
gensvisuais.Estaseriaumavisãomuitosuperficialdaquestão.A cor
está,defato, impregnadadeinformação,eéumadasmaispenetran-
tesexperiênciasvisuaisquetemostodosemcomum.Constitui,por-
tanto,umafontedevalorinestimávelparaoscomunicadoresvisuais.
No meioambientecompartilhamosossignificadosassociativosdacor
dasárvores,darelva,docéu,daterraedeumnúmeroinfinitodecoi-
sasnasquaisvemosascorescomoestímuloscomunsatodos.E atudo
associamosumsignificado.Tambémconhecemosacoremtermosde
umavastacategoriadesignificadossimbólicos.O vermelho,porexem-
plo, significaalgo,mesmoquandonãotemnenhumaligaçãocomo
ambiente.O vermelhoqueassociamosà raivapassoutambémparaa
"bandeira(oucapa)vermelhaqueseagitadiantedotouro". O verme-
lhopoucosignificaparao touro,quenãotemsensibilidadeparaacor
esóésensívelaomovimentodabandeiraoucapa.Vermelhosignifica
perigo,amor,calorevida,etalvezmaisumacentenadecoisas.Cada
umadascorestambémteminúmerossignificadosassociativosesim-
bólicos.Assim,acorofereceumvocabulárioenormeedegrandeutili-
dadeparao alfabetismovisual.A variedadedesignificadospossíveis
Existemmuitasteoriasdacor.A cor,tantodaluzquantodopig-
mento,temumcomportamentoúnico,masnossoconhecimentodacor
nacomunicaçãovisualvaimuitopoucoalémdacoletadeobservações
denossasreaçõesa ela.Não háumsistemaunificadoedefinitivode
comoserelacionamos matizes.
A cortemtrêsdimensõesquepodemserdefinidasemedidas.Ma-
tizoucroma,éacoremsi, eexisteemnúmerosuperioracem.Cada
matiztemcaracterísticasindividuais;osgruposoucategoriasdecores
compartilhamefeitoscomuns.Existemtrêsmatizesprimáriosou ele-
mentares:amarelo,vermelhoeazul.Cadaumrepresentaqualidades
fundamentais.O amareloé a corqueseconsideramaispróximada
luzedocalor;o vermelhoéamaisativaeemocional;oazulépassivo
e suave.O amareloe o vermelhotendema expandir-se;o azul, a
contrair-se.Quandosãoassociadasatravésdemisturas,novossignifi-
cadossãoobtidos.O vermelho,um matizprovocador,é abrandado
aomisturar-secomo azul,e intensificadoaomisturar-secomo ama-
relo.As mesmasmudançasdeefeitosãoobtidascomo amarelo,que
sesuavizaao semisturarcomo azul.
Em suaformulaçãomaissimples,aestruturadacorpodeseren-
sinadaatravésdocírculocromático.As coresprimárias(amarelo,ver-
melhoeazul),eascoressecundárias(laranja,verdeevioleta)aparecem
invariavelmentenessediagrama.Tambémécomumqueneleseincluam
1I1
* The blood of ali menof ali nations being redl the Communist International na-
med red its banner colori Pope Innocent IV gavecardinais their first red hatsl saying
a cardinal's blood belongedto theholy motherchurch.l The bloodcolor red is a symbol.
,.
66 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL ELEMENTOSBAsICOSDA COMUNICAÇAoVISUAL 67
li'
II
asmisturasadicionaisdepelomenosdozematizes.A partirdosimples
diagramado círculocromático(prancha3.2),épossívelobtermúlti-
plasvariaçõesdematizes.
A segundadimensãodacoréasaturação,queéapurezarelativa
deumacor,domatizaocinza.A corsaturadaésimples,quaseprimi-
tiva,efoi sempreapreferidapelosartistaspopularesepelascrianças.
Nãoapresentacomplicações,eéexplícitaeinequívoca;compõe-sedos
matizesprimáriosesecundários.As coresmenossaturadaslevamauma
neutralidadecromática,eatémesmoàausênciadecor, sendosutise
repousantes.Quantomaisintensaousaturadafor acoloraçãodeum
objetoouacontecimentovisual,maiscarregadoestarádeexpressãoe
emoção.Os resultadosinformacionais,naopçãoporumacorsatura-
da ou neutralizada,fundamentama escolhaemtermosdeintenção.
Em termos,porém,deumefeitovisualsignificativo,adiferençaentre
a saturaçãoeasuaausênciaéamesmaqueexisteentreo consultório
deum dentistae o ElectricCircus.
A terceiraeúltimadimensãodacoréacromática.É o brilhorela-
tivo, doclaroaoescuro,dasgradaçõestonaisou devalor.É preciso
observareenfatizarquea presençaou a ausênciadecornãoafetao
tom,queéconstante.Um televisoremcoreséumexcelentemecanis-
moparaa demonstraçãodessefatovisual.Ao acionarmoso controle
dacoratéqueaemissãofiqueembrancoepretoetenhamosumaima-
gemmonocromática,estaremosgradualmenteremovendoasaturação
cromática.O processonãoafetaemabsolutoosvalorestonaisdaima-
gem.Aumentaroudiminuirasaturaçãovemdemonstraraconstância
do tom,provandoquea coreo tomcoexistemnapercepção,semse
modificarementresi.
A imagemposterioré o fenômenovisualfisiológicoqueocorre
quandoo olho humanoestevefixadoou concentradoemalgumain-
formaçãovisual.Quandoessainformação,ouobjeto,ésubstituídapor
umcampobrancoevazio,vê-seumaimagemnegativanoespaçova-
zio. O efeitoestáassociadoàsmanchasquevemosdepoisquenosso
olhoéatingidopeloclarãorepentinodeumflash, oupor luzesp'lUito
brilhantes.Emboraessesejaumexemploextremo,qualquermaterial
ou tomvisualprovocaráumaimagemposterior.A imagemposterior
negativadeumacorproduzacorcomplementar,ouseuextremoopos-
to. Munsellbaseoutodaaestruturadesuateoriadacornessefenôme-
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Prancha3.1
AMARELO
AMARELO.ESVERDEADO
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VERDE 8 8 LARANJA
VERDE-AZULADO 8 8 LARANJA-A VERMELHADO
AZUL 8 8 VERMELHO
AZUL-ARROXEADO 8
8 8 VERMELHO.ARROXEADO
ROXO
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68 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
ELEMENTOSBÁSICOSDA COMUNICAÇÁOVISUAL 69
11
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1I . .
no visual.Em seucírculocromático,acoropostaequivaleàcorque
teriaa imagemposterior.Masháoutrasimplicaçõesnoatodeolhar-
mosparaumacorpelotemposuficienteparaaproduçãodeumaima-
gemposterior.Veremosprimeiroacorcomplementar.Se,porexemplo,
estivermosolhandoparao amarelo,opúrpuraapareceránaáreavazia
denossaimagemposterior(prancha3.3).O amareloéo matizmais
próximoaobrancoouà luz;o púrpuraéo maispróximodopretoou
negro.A imagemposteriornaprancha3.3nãoseráapenastonalmen-
temaisescuraqueo valordo amarelo,masseráo tommedianodo
cinza,desdequefossemmisturadosouequilibrados(prancha3.4).Um
vermelhodevalortonalmédioproduziriaumverdecomplementardo
mesmotommédio.A imagemposterior,portanto,parecereagirse-
gundoumprocedimentotonalidênticoaodopigmento.Quandomis-
turamosduascorescomplementares,vermelhoe verde,amareloe
púrpura,elasnãoapenasneutralizamseurespectivocroma,oumatiz,
quepassaacinza,mastambémproduzem,atravésdesuamistura,um
tomintermediáriodecinza.
Há outramaneiradedemonstraresseprocesso.Duascorescom-
plementarescolocadassobreo mesmotommédiodecinzainfluenciam
otomneutro.O painelcinzacomummatizlaranja-avermelhadoequen-
tepareceazuladoou frio (prancha3.5),enquantoaconteceo contrá-
rio como cinzasobreo qualsecolocouumquadradoverde-azulado
(prancha3.6).O fundocinzapareceterumtomquenteeavermelha-
do.Essaexperiênciamostraqueo olhovêo matizopostooucontras-
tantenãosó na imagemposterior,masque,ao mesmotempo,está
vendoumacor.O processoéchamadodecontrastesimultâneo,esua
importânciapsicofisiológicavaialémdesuaimportânciaparaateoria
dacor.É maisumaevidênciaaindicaraenormenecessidadedeseatin-
girumacompletaneutralidade,e,portanto,umrepousoabsoluto,ne-
cessidadeque,nocontextovisual,o homemnãocessadedemonstrar.
Comoapercepçãodacoréo maisemocionaldoselementosespe-
cíficosdoprocessovisual,elatemgrandeforçaepodeserusadacom
muitoproveitoparaexpressareintensificara informaçãovisual.A cor
nãoapenastemumsignificadouniversalmentecompartilhadoatravés
daexperiência,comotambémumvalorinformativoespecífico,quese
dáatravésdossignificadossimbólicosaelavinculados.Alémdosigni-
ficadocromáticoextremamentepermutáveldacor,cadaumdenóstem
Prancha3.3
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II
II
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AMARELO CINZA MÉDIO
ROXO
Prancha3.4
Prancha3.5 Prancha3.6
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70 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇAo VISUAL 71
II
A texturaéo elementovisualquecomfreqüênciaservedesubsti-
tutoparaasqualidadesdeoutrosentido,o tato.Na verdade,porém,
podemosapreciare reconhecera texturatantoatravésdotatoquanto
da visão,ou aindamedianteumacombinaçãodeambos.É possível
queumatexturanãoapresentequalidadestáteis,masapenasóticas,
comonocasodaslinhasdeumapáginaimpressa,dospadrõesdeum
determinadotecidooudostraçossuperpostosdeumesboço.Ondehá
umatexturareal,asqualidadestáteiseóticascoexistem,nãocomotom
e cor, quesãounificadosemum valorcomparávele uniforme,mas
deumaformaúnicae específica,quepermiteà mãoe ao olho uma
sensaçãoindividual,aindaqueprojetemossobreambosumfortesig-
nicadoassociativo.O aspectoda lixaea sensaçãopor elaprovocada
têmo mesmosignificadointelectual,masnãoo mesmovalor.Sãoex-
periênciassingulares,quepodemounãosugerir-semutuamenteemde-
terminadascircunstâncias.O julgamentodo olho costumaser
confirmadopelamãoatravésdaobjetividadedotato.É realmetitesuave
ouapenaspareceser?Seráumentalheouumaimagememrealce?Não
édeadmirarquesejamtantososletreirosondeselê"Favornãotocar"!
A texturaserelacionacomacomposiçãodeumasubstânciaatra-
vésdevariaçõesmínimasnasuperfíciedomaterial.A texturadeveria
funcionarcomoumaexperiênciasensíveleenriquecedora.Infelizmen-
te, naslojascaras,osavisos"Não tocar" coincidem,emparte,com
o comportamentosocial,esomosfortementecondicionadosanãoto-
carascoisasou pessoasdenenhumaformaqueseaproximedeum
envolvimentosensual.O resultadoéumaexperiênciatátilmínima,e
mesmoo temordo contatotátil;o sentidodo tatocegoécuidadosa-
mentereprimidonaquelesquevêem.Agimoscomexcessivacautela
quandoestamosdeolhosvendadosounoescuro,avançandoàsapal-
padelas,e,devidoà limitaçãodenossaexperiênciatátil,comfreqüên-
ciasomosincapazesdereconhecerumatextura.Na ExpoMontrealde
1967,05+ ComingoPavilionfoi projetadoparaqueosvisitantesex-
plorassemaqualidadedeseuscincosentidos.Eraumaexperiênciaagra-dáveledegrandeapelopopular.As pessoascheiravamumasériede
tubos,queofereciamumagrandevariedadedeodores,emborasuspei-
tassem,comrazão,quealgunsnãoseriamagradáveis.Ouviam,olha-
vam,degustavam,masficavaminibidaseinsegurasdiantedosburacos
escancaradosnosquaisdeviampenetraràscegas.O quetemiam?Pa-
recequeaabordageminvestigadora,natural,livree"manual"dobe-
bêedacriançafoi eliminadanoadultopela- quemsaberáaocerto?
- éticaanglo-saxã,pelarepressãopuritanaepelostabusinstintivos.
Sejaqualfor o motivo,o resultadonosprivadeumdenossosmaisri-
cossentidos.Maso problemanãoéinfreqüentenestemundocadavez
maisplásticoevoltadoparaasaparências.A maiorpartedenossaex-
periênciacoma texturaéótica,nãotátil.A texturanãosóé falseada
demodobastanteconvincentenosplásticos,nosmateriaisimpressos
enaspelesfalsas,mas,também,grandepartedascoisaspintadas,fo-
tografadasou filmadasquevemosnosapresentama aparênciacon-
vincentedeumatexturaqueali nãoseencontra.Quandotocamosa
foto deum veludosedosonãotemosa experiênciatátil convincente
quenosprometemaspistasvisuais.O significadosebaseianaquilo
quevemos.Essafalsificaçãoéumimportantefatorparaasobrevivên-
ciananatureza;animais,pássaros,répteis,insetosepeixesassumem
a coloraçãoe a texturadeseumeioambientecomoproteçãocontra
ospredadores.Na guerra,o homemcopiaessemétododecamufla-
gem,numarespostaàsmesmasnecessidadesdesobrevivênciaqueo
inspiramna natureza.
suaspreferênciaspessoaispor coresespecíficas.Escolhemosa corde
nossoambientee denossasmanifestações.Mas sãomuitopoucasas
concepçõesoupreocupaçõesanalíticascomrelaçãoaosmétodosoumo-
tivaçõesdequenosvalemosparachegara nossasopçõespessoaisem
termosdo significadoedo efeitodacor. Quandoumjóqueivesteas
coresdeumdeterminadoproprietário,um soldadoenvergaseuuni-
formeou umanaçãoexibesuabandeira,a tentativadeencontrarum
significadosimbólicoemsuascorespodeseróbvia.Nãoaconteceexa-
tamenteomesmocomnossasescolhaspessoaisdascores,quesãome-
nossimbólicase, portanto,dedefiniçãomenosclara.Mesmoassim,
pensemosnissoou não,tenhamosou nãoconsciênciadisso,o fatoé
querevelamosmuitascoisasaomundosemprequeoptamosporuma
determinadacor.
Textura
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72 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇAo VISUAL 73
Escala
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Todososelementosvisuaissãocapazesdesemodificaresedefi-
nir unsaosoutros.O processoconstitui,emsi,o elementodaquiloque
chamamosdeescala.A cor é brilhanteou apagada,dependendoda
justaposição,assimcomoosvalorestonaisrelativospassamporenor-
mesmodificaçõesvisuais,dependendodotomqueIhesestejaaolado
ouatrás.Em outraspalavras,o grandenãopodeexistirsemo peque-
no (fig. 3.31).Porém,mesmoquandoseestabeleceo grandeatravés
dopequeno,aescalatodapodesermodificadapelaintroduçãodeou-
tra modificaçãovisual(fig. 3.32).A escalapodeserestabelecidanão
sóatravésdotamanhorelativodaspistasvisuais,mastambématravés
dasrelaçõescomo campoou como ambiente.Em termosdeescala,
os resultadosvisuaissãofluidos,enãoabsolutos,poisestãosujeitos
amuitasvariáveismodificadoras.Na figura3.33,o quadradopodeser
consideradograndedevidoa suarelaçãodetamanhocomo campo,
aopassoqueo quadradodafigura3.34podeservistocomopequeno,
emdecorrênciadeseutamanhorelativono campo.Tudo o quevem
sendoafirmadoéverdadeironocontextodaescalae falsoemtermos
demedida,poiso quadradodafigura3.33é menorqueo dafigura.
3.34.
D
D
II
FIGURA 3.33 FIGURA 3.34
o o
emtermosdadistânciareal,asmedidassimuladasnumprojetoouma-
pa.A medidaéparteintegrantedaescala,massuaimportâncianão
écrucial.Maisimportanteéajustaposição,o queseencontraaolado
doobjetovisual,emquecenárioeleseinsere;essessãoosfatoresmais
important~s.
No estabelecimentodaescala,o fatorfundamentaléamedidado
própriohomem.Nasquestõesdedesignqueenvolvemconfortoeade-
quação,tudoo quesefabricaestáassociadoao tamanhomédiodas
proporçõeshumanas.Existeumaproporçãoideal,umnívelmédio,e
todasasinfinitasvariaçõesquenosfazemportadoresdeumanatureza
única.A produçãoemsérieécertamenteregidapelasproporçõesdo
homemmédio,e todosos objetosgrandes,comocarrosebanheiras,
sãoaelasadaptados.Por outrolado,asroupasproduzidasemsérie
sãodetamanhomuitovariável,umavezquesãoenormesasdiferen-
çasdetamanhodaspessoas.
Existemfórmulasdeproporçãonasquaisaescalapodebasear-se;
amaisfamosaéaseçãoáureagrega,umafórmulamatemáticadegran-
deelegânciavisual.Paraobtê-Ia,éprecisoseccionarumquadradoe
usara diagonaldeumadesuasmetadescomoraio, paraampliaras
dimensõesdoquadrado,detalmodoqueeleseconvertanumretângu-
loáureo.Naproporçãoobtida,a:b=c:a.O métododeconstruirapro-
porçãoé mostradonasfiguras3.35e 3.36.A seçãoáureafoi usada
pelosgregosparaconcebera maiorpartedascoisasquecriaram,des-
I
FIGURA 3.31 FIGURA 3.32
A escalaémuitousadanosprojetosemapaspararepresentaruma
medidaproporcionalreal.A escalacostumaindicar,porexemplo,que
lcm:lOkm,ou lcm:20km.No globoterrestresãorepresentadasdistân-
ciasenormesatravésdemedidaspequenas.Tudoissorequerumacer-
ta ampliaçãodenossoentendimento,paraquepossamosvisualizar,
I
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74 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
ELEMENTOS BÁSICOSDA COMUNICAÇAoVISUAL 75
I( " ~If-- "---71 deasânforasclássicasatéasplantasbaixasdostemplosesuasproje-
çõesverticais(fig. 3.37,3.38).
Há muitosoutrossistemasdeescala;aversãocontemporâneamais
importanteé a quefoi concebidapelofalecidoarquitetofrancêsLe
Corbusier.Suaunidademodular,naqualsebaseiatodoo sistema,é
o tamanhodo homem,ea partirdessaproporçãoeleestabeleceuma
alturamédiadeteto,umaportamédia,umaaberturamédiadejanela,
etc.Tudosetransformaemunidadeeépassívelderepetição.Por mais
estranhoquepareça,o sistemaunificadodaproduçãoemsérieincor-
poraessesefeitos,eassoluçõescriativasdodesigncomfreqüênciase
vêemlimitadaspeloselementosdequesedispõeparatrabalhar.
Aprendera relacionaro tamanhocomo objetivoeo significado
éessencialnaestruturaçãodamensagemvisual.O controledaescala
podefazerumasalagrandeparecerpequenae aconchegante,e uma
salapequena,abertaearejada.Esseefeitoseestendeatodamanipula-
çãodo espaço,por maisilusórioquepossaser.
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Dimensão
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A representaçãodadimensãoemformatosvisuaisbidimensionais
tambémdependedailusão.A dimensãoexistenomundoreal.Nãosó
podemossenti-Ia,mastambémvê-Ia,como auxíliodenossavisãoes-
tereópticaebinocular.Masemnenhumadasrepresentaçõesbidimen-
sionaisdarealidade,comoo desenho,apintura,a fotografia,o cinema
ea televisão,existeumadimensãoreal;elaéapenasimplícita.A ilu-
sãopodeserreforçadademuitasmaneiras,maso principalartifício
parasimulá-Iaéaconvençãotécnicadaperspectiva.Osefeitosprodu-
zidospelaperspectivapodemserintensificadospelamanipulaçãoto-
nal,atravésdoclaro-escuro,adramáticaenfatizaçãodeluzesombra.
A perspectivatemfórmulasexatas,comregrasmúltiplasecom-
plexas.Recorreàlinhaparacriarefeitos,massuaintençãofinalépro-
duzirumasensaçãoderealidade.Há algumasregrasemétodosbastante
fáceisdedemonstrar.Mostrardequemododoisplanosdeumcubo
aparecemaosnossosolhosdepende,emprimeirolugar(comosevê
nafigura3.39),dequeseestabeleçao níveldo olho.Sóháumponto
defuganoqualumplanodesaparece.O cubodecimaévistodoponto
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FIGURA 3.38
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ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇÃO VISUAL 77
76 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
pectiva;eleausaeaconhece.Em termosideais,osaspectostécnicos
daperspectivaestãopresentesemsuamentegraçasaumestudocuida-
doso,e podemserusadoscomgrandeliberdade.
A perspectivapredominanafotografia.A lentecompartilhacom
o olhoalgumasdaspropriedadesdeste,esimulara dimensãoé uma
desuascapacidadesprincipais.Masexistemoutrasdiferençascruciais.
O olhotemumaamplavisãoperiférica(fig.3.41),algoqueacâmera
é incapazdereproduzir.
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NtvELDOOLHO " " HORIZONTE~--------------
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I '............." " PONTO DE FUGA
FIGURA33.U
devistadeumaminhoca,e o inferior,do pontodevistado olho de
um pássaro.
Na figura3.40,doispontosdefugaprecisamserusadosparaex-
pressaraperspectivadeumcubocomtrêsfacesà mostra.Essesdois
exemplossãodemonstraçõesextremamentesimplesdecomofunciona
a perspectiva.Apresentá-Iaadequadamenteexigiriaumaquantidade
enormedeexplicações.O artistaporcertonãousacegamentea pers-
---------------------------- ----------------------------
FIGURA 3.41
A amplitudedecampodacâmeraévariável,ou seja,o queela
podevereregistrarédeterminadopeloalcancefocaldesualente.Mas
elanãopodecompetircomoolhosemaenormedistorçãodeumalen-
teolho-de-peixe.A lentenormal(fig. 3.43)nãotemabsolutamentea
amplitudedecampodo olho,maso queelavêseaproximamuitoda
perspectivadoolho.A teleobjetiva(fig.3.42)poderegistrarinforma-
çõesvisuaisdeumaformainacessívelao olho, conttaindoo espaço
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PONTO DE FUGA /// / ' " , PONTO DE FUGA
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FIGURA 3.43 FIGURA 3.44
FIGURA 3.40
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78 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇAo VISUAL 79
II
comoumacordeão.A grandeangularaumentaa amplitudedo cam-
pO,mastambémnãoédemodoalgumcapazdecobriraáreadosolhos
(fig.3.44).Mesmosabendoqueacâmeratemsuaperspectivaespecífi-
caediferentedado olhohumano,umacoisaécerta:a câmerapode
reproduziro ambientecomumaprecisãoextraordináriaeumagrande
riquezadedetalhes.
A dimensãorealé o elementodominanteno desenhoindustrial,
no artesanato,naesculturae naarquitetura,e emqualquermaterial
visualemqueselidacomo volumetotale real.Esseé umproblema
deenormecomplexidade,erequercapacidadedepré-visualizarepla-
nejaremtamanhonatural.A diferençaentreo problemadarepresen-
taçãodovolumeemduasdimensõeseaconstruçãodeumobjetoreal
emtrêsdimensõespodeserbemilustradapelafigura3.45,ondesevê
umaesculturacomoumasilhuetaaumentada,comalgumdetalhamen-
to. Na figura3.46temoscincovistas(superior,frontal,posterior,di-
reita,esquerda)deumaescultura.As cincovistasrepresentamapenas
algunsdosmilharesdesilhuetasqueessaesculturapodeapresentar.
O cortedessaesculturaempedaçosdaespessuradeumafolhadepa-
pel resultariaemum númeroinfinitodesilhuetas.
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FIGURA 3.46
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II finitodeesboços,flexíveis,inquiridoresedescompromissados.Depois
vêmosdesenhosdeprodução,rígidosemecânicos.Osrequisitostéc-
nicosedeengenharianecessáriosàconstruçãooumanufaturaexigem
quetudosejafeitocomriquezadepormenores.Por último,apesardos
altoscustosqueacarreta,aelaboraçãodeumamaquete(fig.3.47)tal-
vezsejaaúnicaformadefazercomqueaspessoasdepoucasensibili-
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II
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FIGURA 3.45 b..,.....II! ~..!'I....-
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É essaenormecomplexidadedevisualizaçãodimensionalqueexi-
gedocriadorumaimensacapacidadedeapreensãodoconjunto.Para
a boacompreensãodeumproblema,a concepçãoeo planejamento
deummaterialvisualtridimensionalexigesucessivasetapas,aolongo
dasquaissepossarefletireencontrarassoluçõespossíveis.Primeiro
vemo esboço,geralmenteemperspectiva.Podehaverumnúmeroin-
FIGURA 3.47
--- \
80 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
ELEMENTOS BÁSICOS DA COMUNICAÇÃO VISUAL 81
dadeparaavisualizaçãopossamvercomoumadeterminadacoisavai
ficaremsuaformadefinitiva.
Apesardenossaexperiênciahumanatotalestabelecer-seemum
mundodimensional,tendemosaconceberavisualizaçãoemtermosde
umacriaçãodemarcas,ignorandoosproblemasespeciaisdaquestão
visualquenossãocolocadospeladimensão.
semedianteumfatorremanescentedavisão,detalformaqueo movi-
mentoparecereal.
Algumasdaspropriedadesda"persistênciadavisão"podemcons-
tituira razãoincorretado usodapalavra"movimento"paradescre-
vertensõeseritmoscompositivosnosdadosvisuaisquando,naverdade,
o queestásendovistoé fixoe imóvel.Um quadro,umafotooua es-
tampadeumtecidopodemserestáticos,masaquantidadederepouso
quecompositivamenteprojetampodeimplicarmovimento,emresposta
à ênfaseeà intençãoqueo artistateveaoconcebê-Ios.O processoda
visãonãoé pródigoemrepouso.
O olhoexploracontinuamenteomeioambiente,embuscadeseus
inúmerosmétodosdeabsorçãodasinformaçõesvisuais.A convenção
formalizadadaleitura,porexemplo,segueumaseqüênciaorganizada
(fig.3.48).Enquantométododevisão,oesquadrinhamentopareceser
desestruturado,mas,pormaisquesejaregidopeloacaso,aspesquisas
emediçõesdemonstramqueospadrõesdeesquadrinhamentohumano
sãotãoindividuaiseúnicosquantoasimpressõesdigitais.É possível
fazeressamediçãoprojetando-seumaluznoolhoeregistrando-se,so-
breumfilme,o reflexonapupilaàmedidaqueoolhocontemplaalgu-
macoisa(fig.3.49).O olhotambémsemoveemrespostaaoprocesso
inconscientedemediçãoeequilíbrioatravésdo "eixosentido"edas
preferênciasesquerda-direitaealto-baixo(fig.3.50).Umavezquedois
oumesmotodosessestrêsmétodosvisuaispodemocorrersimultanea-
mente,ficaclaroqueexisteaçãonãoapenasno quesevê,mastam-
bémno processodavisão.
Movimento
Comonocasodadimensão,o elementovisualdo movimentose
encontramaisfreqüentementeimplícitodoqueexplícitonomodovi-
sual.Contudo,o movimentotalvezsejaumadasforçasvisuaismais
dominantesdaexperiênciahumana.Naverdade,o movimentoenquan-
to tal só existenocinema,natelevisão,nosencantadoresmóbilesde
AlexanderCaldereondequerquealgumacoisavisualizadaecriada
tenhaumcomponentedemovimento,comono casoda maquinaria
ou dasvitrinas.As técnicas,porém,podemenganaro olho;a ilusão
detexturaou dimensãoparecemreaisgraçasao usodeumaintensa
manifestaçãodedetalhes,comoacontececoma textura,eao usoda
perspectivaeluzesombraintensificadas,comonocasodadimensão.
A sugestãodemovimentonasmanifestaçõesvisuaisestáticasé mais
difícil deconseguirsemqueao mesmotemposedistorçaa realidade,
masestáimplícitaemtudoaquiloquevemos,ederivadenossaexpe-
riênciacompletademovimentonavida.Emparte,essaaçãoimplícita
seprojeta,tantopsicológicaquantocinestesicamente,nainformação
visualestática.Afinal, a exemplodo universotonaldo cinemaacro-
máticoquetãoprontamenteaceitamos,asformasestáticasdasartes
visuaisnãosãonaturaisa nossaexperiência.Esseuniversoimóvele
congeladoéo melhorquefomoscapazesdecriaratéo adventodape-
lículacinematográficaeseumilagrederepresentaçãodomovimento.
Observe-seporémque,mesmonessaforma,nãoexisteo verdadeiro
movimento,comonóso conhecemos;elenãoseencontranomeiode
comunicação,masnoolhodoespectador,atravésdo fenômenofisio-
lógicoda"persistênciadavisão".A películacinematográficaénaver-
dadeumasériedeimagensimóveiscomligeirasmodificações,asquais,
quandovistaspelohomema intervalosdetempoapropriados,fundem-
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I FIGURA 3.48 FIGURA 3.49 FIGURA 3.50
..............-
o milagredomovimentocomocomponentevisualédinâmico.O
homemtemusadoacriaçãodeimagensedeformascommúltiplosob-
jetivos,do~quaisumdosmaisimportanteséa objetivaçãodesimes-
mo. Nenhummeio visual pôde até hoje equiparar-seà película
cinematográficaenquantoespelhocompletoe eficazdo homem.
Todosesseselementos,o ponto,alinha,a forma,adireção,o tom,
a cor, a textura,a escala,a dimensãoe o movimentosãooscompo-
nentesirredutíveisdosmeiosvisuais.Constituemosingredientesbási-
coscomosquaiscontamosparao desenvolvimentodo pensamentoe
dacomunicaçãovisuais.Apresentamodramáticopotencialdetrans-
mitir informaçõesdeformafáciledireta,mensagensquepodemser
apreendidascomnaturalidadeporqualquerpessoacapazdever.Essa
capacidadedetransmitirumsignificadouniversaltemsidouniversal-
mentereconhecidamasnãobuscadacomadeterminaçãoqueasitua-
çãoexige.A informaçãoinstantâneadatelevisãotransformaráo mundo
numaaldeiaglobal,diz McLuhan.Mesmoassim,a linguagemconti-
nuadominandoosmeiosdecomunicação.A linguagemsepara,nacio-
naliza;o visualunifica.A linguagemécomplexaedifícil;ovisualtem
avelocidadedaluz,epodeexpressarinstantaneamenteumgrandenú-
merodeidéias.Esseselementosbásicossãoosmeiosvisuaisessenciais.
A compreensãoadequadadesuanaturezaedeseufuncionamentocons-
tituiabasedeumalinguagemquenãoconheceránemfronteirasnem
barreiras.
ELEMENTOSBÁSICOSDA COMUNICAÇÁOVISUAL 83
marevista,ouemqualqueroutromaterialimpressooudesenhado.A
composiçãodeveenfatizara naturezada formaescolhida.
3. Pegueumafolhadepapelcoloridoe façaumdesenhoouuma
colagemqueexpresseo(s)significado(s)queessacor temparavocê.
Tenteencontrarum significadouniversalparaessacor.
4. Fotografeou façaumacolagemondedeliberadamenteseen-
contreumobjetoconhecido,depequenotamanho,masquetorneme-
nor um outro objetoque sabemossergrande.A surpresatornará
manifestoo sentidofortementepredeterminadoquetodostemosda
escala.
5. Escolhaumafotooupinturadequalquertema,e relacioneos
elementosbásicosquevocênelaidentificar.
82 SINTAXE DA LINGUAGEMVISCAL
II
~
'111
Exercícios
DI
I. Numquadradodedezcentímetros,façaumacolagemcomal-
gunsoutodososseguinteselementosvisuaisespecíficos:ponto,linha,
textura.Cadacolagemdeveserconstituídademuitosexemplosdoele-
mento,talcomoeleéencontradoimpressooudesenhado,eorganiza-
dademodoademonstraralgumasdascaracterísticasessenciaisdesse
elemento.
2. Numquadradodedezcentímetros,numcírculodedezcentí-
metrosdediâmetroounumtriângulodedezcentímetrosdebase,com-
ponhaumacolagemcomosobjetosouasaçõesquemaiscomumente
seassociemaessaformabásica.Osexemplospodemserbuscadosnu-
- .,-----
4
ANATOMIA DA MENSAGEM VISUAL
I,
Expressamoserecebemosmensagensvisuaisemtrêsníveis:o re-
presentacional- aquiloquevemoseidentificamoscombasenomeio
ambienteenaexperiência;o abstrato- aqualidadecinestésicadeum
fatovisualreduzidoaseuscomponentesvisuaisbásicoseelementares,
enfatizandoosmeiosmaisdiretos,emocionaisemesmoprimitivosda
criaçãodemensagens,eo simbólico- o vastouniversodesistemas
desímboloscodificadosqueo homemcriouarbitrariamenteeaoqual
.atribuiusignificados.Todosessesníveisderesgatedeinformaçõessão
inlerligadosesesobrepõem,masépossívelestabelecerdistinçõessufi-
cientesentreeles,detalmodoquepossamseranalisadostantoemter-
mosdeseuvalorcomotáticapotencialparaa criaçãodemensagens
quantoemtermosdesuaqualidadeno processoda visão.
A visãodefineo atodeveremtodasassuasramificações.Vemos
comprecisãodedetalhes,eaprendemoseidentificamosiodo material
visualelementardenossasvidasparamantermosumarelaçãomaiscom-
petentecomo mundo.Esseéo mundono qualcompartilhamoscéu
emar,árvores,relva,areia,terra,noiteedia;esseéo mundodanatu-
reza.Vemoso mundoquecriamos,ummundodecidades,aviões,ca-
sase máquinas;é o mundoda manufaturae da complexidadeda
tecnologiamoderna.Aprendemosinstintivamentea compreenderea
atuarpsicofisiologicamenteno meioambientee, intelectualmente,a
conviverea operarcomessesobjetosmecânicosquesãonecessários
anossasobrevivência.Tantoinstintivaquantointelectualmente,gran-
departedoprocessodeaprendizagemévisual.A visãoéo únicoele-
mentonecessárioà compreensãovisual.Para falarou entenderuma
língua,nãoéprecisoseralfabetizado;nãoprecisamosservisualmente
ii
::I~I
11'
........
-
ANATOMIA DA MENSAGEM VISUAL 87
86 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
alfabetizadosparafazeroucompreendermensagens.Essasfaculdades
sãointrínsecasaohomem,e,atécertoponto,acabampormanifestar-
secomou semo auxíliodaaprendizagemedemodelos.Assimcomo
sedesenvolvemnahistória,tambémo fazemnacriança.O inputvi-
sualédeprofundaimportânciaparaacompreensãoeasobrevivência.
No entanto,todaaáreadavisãotemsidocompartimentadaevemso-
frendoumprocessodeperdade importânciaenquantomeiofunda-
mentaldecomunicação.Umaexplicaçãoparaessaabordagembastante
negativaéqueo talentoeacompetênciavisuaisnãoeramvistoscomo
acessíveisatodos,aocontráriodoqueocorriacomaaquisiçãoeodo-
míniodalinguagemverbal.Issonãoémaisverdadeiro,seéquealgu-
mavezo foi. Partedo presentee a maiorpartedo futurovãoestar
nasmãosdeumageraçãocondicionadapelafotografia,pelocinema
epelatelevisão,equeteránacâmeraenocomputadorvisualumim-
portantecomplementointelectual.Um meiodecomunicaçãonãone-
gaooutro.Sealinguagempodesercomparadaaomodovisual,deve-se
compreenderquenãoexisteumacompetiçãoentreambos,masqueé
precisosimplesmenteavaliarsuasrespectivaspossibilidadesemtermos
deeficáciaeviabilidade.O alfabetismovisualtemsidoesempreserá
umaextensãodacapacidadeexclusivaqueohomemtemdecriarmen-
sagens.
A reproduçãoda informaçãovisualnaturaldeveseracessívela
todos.Deveserensinadaepodeseraprendida,maséprecisoobservar
quenelanãoháumsistemaestruturalarbitrárioeexterno,semelhante
ao da linguagem.A informaçãocomplexaqueexistediz respeitoao
âmbitodaimportânciasintáticado funcionamentodaspercepçõesdo
organismohumano.Vemos,e compreendemosaquiloquevemos.A
soluçãodeproblemasestáestreitamenteligadaaomodovisual.pode-
mosatémesmoreproduzira informaçãovisualquenoscerca,através
dacâmera,e, maisainda,preservá-Iaeexpandi-Iacomamesmasim-
plicidadedequesomoscapazesatravésdaescritaedaleitura,e,o que
émaisimportante,atravésdaimpressãoedaproduçãoemsériedalin-
guagem.O difícil écomofazê-Io.Dequemaneiraacomunicaçãovi-
sual podeserentendida,aprendidae expressa?Até a invençãoda
câmera,essecampopertenciaexclusivamenteaoartista,excetuando-
seascriançaseospovosprimitivos,quedesconheciamo fatodepos-
suiressacompetência.Por exemplo,todossomoscapazesdeverere-
conhecerum pássaro.Podemosampliaresseconhecimentoaté a
generalizaçãodetodaumaespécieeseusatributos.Paraalgunsobser-
vadores,a informaçãovisualnãovaialémdonívelprimáriodeinfor-
mação.Para Leonardoda Vinci, umpássarosignificavavoar,e seu
estudodessefatolevou-oa tentara invençãodemáquinasvoadoras.
Vemosumpássaro,talvezumtipoespecíficodepássaro,digamosuma
pomba,eissotemumsignificadoampliadodepazou amor.O visio-
nárionãosedetémdiantedoóbvio;atravésdasuperfíciedosfatosvi-
suais,vêmaisalém,echegaaesferasmuitomaisamplasdesignificado.
Representação
A realidadeéaexperiênciavisualbásicaepredominante.A cate-
goriageraltotaldopássaroédefinidaemtermosvisuaiselementares.
Umpássaropodeseridentificadoatravésdeumaformageral,edeca-
racterísticaslinearesedetalhadas.Todosospássaroscompartilhamre-
ferentesvisuaiscomunsdentrodessacategoriamaisampla.Emtermos
predominantementerepresentacionais,porém,ospássarosseinserem
emclassificaçõesindividuais,eo conhecimentodedetalhesmaissutis
decor,proporção,tamanho,movimentoesinaisespecíficosénecessá-
rioparaquepossamosdistinguirumagaivotadeumacegonha,ouum
pombodeumgaio.Existeaindaumoutronívelnaidentificaçãoindi-
vidualdepássaros.Um determinadotipodecanáriopodetertraços
individuaisespecíficosqueoexcluamdetodaacategori&doscanários.
A idéiageraldeumpássarocomcaracterísticascomunsavançaatéo
pássaroespecíficoatravésdefatoresdeidentificaçãocadavezmaisde-
talhados.Todaessainformaçãovisualéfacilmenteobtidaatravésdos
diversosníveisdaexperiênciadiretado atodever.Todosnóssomos
a câmeraoriginal;todospodemosarmazenare recordar,paranossa
utilizaçãoecomgrandeeficiênciavisual,todaessagamadeinforma-
Çõesvisuais.As diferençasentrea câmeraeo cérebrohumanoreme-
temà fidelidadeda observaçãoe à capacidadede reproduzira
informaçãovisual.Nãohádúvidadeque,emambasasáreas,o artista
ea câmerasãodetentoresdeumadestrezaespecial.
Alémdeummodelotridimensionalrealista,acoisamaispróxima
davisãoconcretadeumpássaro,naexperiênciadireta,seriaumafoto
- .......-
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8H SI:\T.\XE DA LI:\GL\GDI VISIJAL ANATOMIA DA MENSAGEM VISUAL 89
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cuidadosamenteexpostae focadado mesmo,emsuascoresplenase
naturais.A fotoseequiparaàhabilidadedoolhoedocérebro,repro-
duzindoo pássarorealemseumeioambientereal.Costumamosdizer
quesetratadeumefeitorealista.É precisonotar,porém,quenaexpe-
riênciadireta,ouemqualquerníveldaescaladeexpressãovisual,da
fotoaoesboçoimpressionista,todaexperiênciavisualestáfortemente
sujeitaà interpretaçãoindividual.Da resposta"Vejo umpássaro"a
"Vejo o vôo" eaosmúltiplosníveisegrausdesignificadoeintenção
queasmedeiameultrapassam,amensagemestásempreabertaàmo-
dificaçãosubjetiva.Somostodosúnicos.Qualquerinibiçãonoestudo
(eatémesmonaestruturação)dopotencialvisualhumanoqueprove-
nhado medodequetal avançopossalevarà destruiçãodo espírito
criativo,ouàconformidade,éabsolutamenteinjustificável.Naverda-
de,amísticaquepassouaenvolverosvisualizadores,depintoresaar-
quitetos,deixa implícito o fato de que fazemuma abordagem
não-cerebraldeseutrabalho.O desenvolvimentodematerialvisualnão
devesermaisdominadopelainspiraçãoeameaçadopelométododo
queo seucontrário.Fazerum filme,produzirumlivro e pintarum
quadroconstituemsempreumaaventuracomplexa,quedeverecorrer
tantoà inspiraçãoquantoaométodo.As regrasnãoameaçamo pen-
samentocriativoemmatemática;agramáticaeaortografianãorepre-
sentamumobstáculoàescritacriativa.A coerêncianãoéantiestética,
eumaconcepçãovisualbemexpressadeveteramesmaelegânciaebe-
lezaqueencontramosnumteoremamatemáticoou numsonetobem
elaborado.
A fotografiaé o meioderepresentaçãoda realidadevisualque
maisdependedatécnica.A invençãoda"câmaraescura",noRenas-
cimento,comoumbrinquedoparavero ambientereproduzidonapa-
redeou no assoalhofoi só a primeiraetapade.umaárvoremuito
frondosa,quenospermitiuchegar,atravésdocinemaedafotografia,
ao enormeepoderosoefeitoquea magiada lenteveioinstaurarem
nossasociedade.Dacâmaraescuraaosmeiosdecomunicaçãodemas-
sa,comoocinemaea fotografiaimpressa,tem-severificadoumalen-
ta,masfirmeprogressãodemeiostécnicosmaisaperfeiçoadosdefixar
e conservara imagem,edemostrá-Iaa milhõesdepessoasemtOdo
o mundo.A fotografiajá éumfatoconsumadohámaisdecemanos.
Os inúmerospassosque separamo "daguerreótipo"único, não-
reproduzívelinclusive,dacalotipianegativaedeimpressãomúltipla,
dapelículaKodakflexível,dapelículacinematográficade350101,dos
métodoslentamenteaperfeiçoadosdereproduçãodafotografiadetom
contínuoatravésdechapasfotográficasdemeio-tomparaimpressão
emsérie,edospapéisespeciaisparaumaimpressãomaissofisticada,
levaram,todos,àonipresençadafotografia,tantofixaquantoemmo-
vimento,nasociedademoderna.Atravésdafotografia,umregistrovi-
sualequaseincomparavelmenterealdeumacontecimentonaimprensa
diária,semanaloumensal,asociedadeficaombroaombrocomahis-
tória.Essacapacidadeúnicaderegistrarosfatosatingeseupontocul-
minantenocinema,quereproduza realídadecomumaprecisãoainda
maior,e no milagreeletrônicoda têlevisão,quepermitiuao mundo
inteiroacompanharoprimeiropassodadopelohomemnaLua,simul-
taneamenteaoacontecimento.O conceitodetempofoimodificadopela
imprensa;o conceitodeespaçofoi parasempremodificadopelacapa-
cidadedacâmeradeproduzirimagens.
Atravésdafotografiaépossível,então,fixarumpássaronotem-
poenoespaço(fig.4.1).Umapinturaouumdesenhodeforterealis-
mopodemproduzirumefeitosemelhante,umtipodeformaquenão
podeprescindirdo artista.Os desenhosdeAudubon,por exemplo,
FIGURA 4.t
..,...... \-
destinavam-seaserusadoscomoreferênciatécnica,eporessemotivo
sãobastanterealistas.Audubonestudoueregistrouasinúmerasvarie-
dadesdepássarosdeseupaíscomesmeroepormenoressurpreenden-
tes(fig.4.2).Comrelaçãoaseusdesenhos,podemosdizerquerefletem
a própriarealidade.Com issoqueremosdizerqueo artistatinhapor
objetivofazercomqueopássaro(ouqualqueroutracoisaqueestives-
sesendovisualmenteregistrada)seassemelhasseaomáximoaseumo-
delonatural.Audubonnãoestavaapenascriandoumaimagem,mas
tambémregistrandoeoferecendo,aosalunos,dadosquepudessemser
identificadoscomsegurança,ou seja,elecolocavano papelinforma-
çõesvisuaisquepudessemtero valordereferências.Decertomodo,
a fotografiapoderiaserconsideradamaissemelhanteaomodelonatu-
ral,masargumenta-setambémqueo trabalhodoartistaémaislimpo
eclaro,umavezqueelepodecontrolá-Ioemanipulá-Io.É o começo
deumprocessodeabstração,quevaideixardeladoosdetalhesirrele-
vantese enfatizaros traçosdistintivos.
ANATOMIA DA MENSAGEMVISUAL 91
o quesepretendeenfatizaréo movimentodeumpássaro,osdetalhes
estáticoseo acabamentomaisrigorososãoignorados,comosevêno
esboçoda figura4.3.Em ambosos casosde licençavisual,a forma
final segueasnecessidadesdacomunicação.Em ambosos casos,na
informaçãovisualestãopresentesdetalhesdoaspectonaturaldopás-
sarosuficientesparaqueapessoacapazdereconhecerumpássaropossa
identificá-Ionosesboços.A eliminaçãoulteriordosdetalhes,atéseatin-
gir a abstraçãototal,podeseguirdoiscaminhos:a abstraçãovoltada
parao simbolismo,àsvezescomumsignificadoidentificável,outras
vezescomumsignificadoarbitrariamenteatribuído,eaabstraçãopu-
ra,oureduçãodamanifestaçãovisualaoselementosbásicos,quenão
conservamrelaçãoalgumacomqualquerrepresentaçãorepresentacio-
nalextraídada experiênciado meioambiente. "
90 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
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FIGURA 4.3
Simbolismo
FIGURA 4.2
A abstraçãovoltadaparaosimbolismorequerúmasimplificação
radical,ouseja,a reduçãododetalhevisualaseumínimoirredutível.
Parasereficaz,umsímbolonãodeveapenasservistoereconhecido;
devetambémserlembrado,emesmoreproduzido.Nãopode,porde-
o processodeabstraçãoétambémumprocessodedestilação,oU
seja,dereduçãodosfatoresvisuaismúltiplosaostraçosmaisessen-
ciaisecaracterísticosdaquiloqueestásendorepresentado.Porém,se
...........-
92 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
ANATOMIA DA MENSAGEM VISUAL 93
gestotenhasidoadotado,nosEstadosUnidos,pelomovimentodeopo-
siçãoà guerrado Vietnã.Para essemovimento,o gestosetransfor-
mounumsímbolodepaz.Outrosímbolopacifistafoi pelaprimeira
vezconcebidoeutilizadopelomovimentodeDesarmamentoNUclear
naInglaterra(fig.4.7).Suaderivaçãovisualfoiexplicadacomoacom~
binação,emumaúnicafigura,dossímbolossemafóricosdoN edoD.
Enquantomeiodecomunicaçãovisualimpregnadodeinforma-
çãodesignificadouniversal,o símbolonãoexisteapenasnalingua-
gem.Seuusoémuitomaisabrangente.O símbolodevesersimples(fig.
4.8)ereferir-sea umgrupo,idéia,atividadecomercial,instituiçãoou
partidopolítico.Às vezeséextraídodanatureza.Paraa transmissão
deinformações,seráaindamaiseficientequandofor umafigurato-
talmenteabstrata(fig. 4.9).Nessaforma,converte-seemumcódigo
queservecomoauxiliardalinguagemescrita.O sistemacodificadodos
númerosnosdáexemplosdefigurasquetambémsãoconceitosabs-
tratos:
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I
: II
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FIGURA 4.5FIGURA 4.4
finição,contergrandequantidadedeinformaçãopormenorizada.Mes-
moassim,podeconservaralgumasdasqualidadesreaisdeumpássaro,
comosevêna figura4.4.Na figura4.5,a mesmainformaçãovisual
básicadaformadopássaro,acrescidaapenasdeumramodeoliveira,
transformou-senosimbolofacilmenteidentificáveldapaz.Nesseca-
so, algumaeducaçãopor partedo públicosefaznecessáriaparaque
a mensagemsejaclara.Porém,quantomaisabstratofor o símbolo,
maisintensadeverásersuapenetraçãonamentedopúblicoparaeducá-
Iaquantoaoseusignificado.ComogestosimbólicodaSegundaGuer-
raMundial,a figura4.6foi outroraosignodavitóriatãointensamen-
tedesejadasobreos alemães.O gestoeramuitousadopor Winston
Churchill,edeleseapropriaramosingleses,seguindoseulider.O ges-
to nãoeradesconhecidonosEstadosUnidos,eeracomumvê-Ioem
fotosdesoldadosnorte-americanos,queoutilizavamparaexternarsua
esperançadevitórianosnaviosquetransportavamastropas,nocam-
podebatalhaeemleitosdehospitais.É extremamenteirônicoquetal
11
2 3 4 5 6 7 8 9 O
11
Existemmuitostiposdeinformaçãocodificadaespecialusadospor
engenheiros,arquitetos,construtoreseeletricistas.Um deleséosiste-
madesímbolosmusicais,quemuitaspessoasaprendemeatravésdoI
11~I
"1111
"II,~
11.1
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I1
FIGURA 4.7FIGURA 4.6
C>< >t
FIGURA4.8
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FIGURA 4.9
--
94 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL ANATOMIA DA MENSAGEM VISUAL 95
d
esteIhesé imposto.A reduçãodetudoaquiloquevemosaoselemen-
tosvisuaisbásicostambéméumprocessodeabstração,que,naverda-
de,émuitomaisimportanteparaoentendimentoeaestruturaçãodas
mensagensvisuais.Quantomaisrepresentacionalfor a informaçãovi-
sual,maisespecíficaserásuareferência;quantomaisabstrata,mais
geraleabrangente.Em termosvisuais,a abstraçãoéumasimplifica-
çãoquebuscaumsignificadomaisintensoecondensado.Comojá foi
aquidemonstrado,a percepçãohumanaeliminaos detalhessuperfi-
ciais,numareaçãoà necessidadedeestabelecero equilíbrioe outras
racionalizaçõesvisuais.Suaimportânciaparaosignificado,porém,não
terminaaqui.Nasquestõesvisuais,aabstraçãopodeexistirnãoape-
nasnapurezadeumamanifestaçã'ovisualreduzidaà mínimainfor-
mação representacional,mas tambémcomo abstraçãopura e
desvinculadadequalquerrelaçãocomdadosvisuaisconhecidos,se-
jamelesambientaisouvivenciais.A escoladepinturaabstrataestáas-
sociadaaoséculoXX, edelafazpartea obradePicasso,cujoestilo
caminhoudoexpressionismoaoclássico,dosemi-abstratoaoabstrato
(fig.4.]2). Por umlado,modificouos fatosvisuaisparaenfatizara
corea luz,emboratenhaconservadoa informaçãorealistaeidentifi-
FIGURA 4.10
I'
II
qualconseguemcomunicar-se(fig.4.10).Todosossistemasforamde-
senvolvidosparacondensara informação,detal modoqueelapossa
serregistradae comunicadaao grandepúblico.
A religiãoeo folcloresãopródigosemsimbolismo.As sandálias
" aladasdemercúrio,Atlassustentandoo mundonosombrosea vas-
souradasbruxassãoapenasalgunsexemplos.Maisconhecidodenós
comoumalinguagemvisualquetodosutilizamoséo simbolismodas
datasfestivas(fig. 4.]1).Antesquenossaeducaçãovisual,comode
fatoacontecia,parassetãoabruptamentedepoisdaescolaprimária,
todosnósdesenhávamosecoloríamosessessímbolosconhecidospara
decorara saladeaulaou levá-Iosconoscoparacasa.Sensíveisa seu
enormeefeitopublicitário,asempresasdegrandeportepassaramem
pesoa sintetizarsuasidentidadese objetivosatravésdesímbolosvi-
suais.Trata-sedeumapráticaextremamenteeficazemtermosdeco-
municação,pois,se,comodizemoschineses,"uma imagemvalemil
palavras",umsímbolovalemil imagens.
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FIGURA 4.11
Abstração
A abstração,contudo,nãoprecisaternenhumarelaçãocomacria-
çãodesímbolosquandoos símbolostêmsignificadoapenasporque
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98 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
cável.Em outraabordagem,numadevoçãoquasepuristaà informa-
çãovisualrepresentacional,fezecoàqualidadedivinadohomem,no
realismoligeiramenteexageradodeseuestiloclássico.As grandesli-
berdadesquetomoucomarealidaderesultaram,primeiro,emefeitos
extremamentemanipulados,e,porfim,nocompletoabandonodoco-
nhecido,emfavordo espaçoe do tom,dacor e datextura.Assim,
esteúltimoestilovisualestavaapenaspreocupadocomquestõesdecom-
posiçãoecomaessênciadodesignoNesseavançoqueo levoudapreo-
cupaçãocom a observaçãoe do registrodo mundocircundantea
experimentoscoma essênciamesmadacriaçãodemensagensvisuais
elementares,o desenvolvimentodaobradePicassoseguiuporumca-
minhonãonecessariamenteseqüencial,masquepercorreuetapasdi-
ferentesdomesmoprocesso.O caminhoporeleseguidopodeserainda
maisclaramentediscernívelnaobradeJ. M. W. Turner,que,quando
jovem,praticousuaartequasecomosefosseumrepórter,usandosua
pinturaparao detalhamentoea preservaçãodesuaprópriaépoca.O
interessedeTurner,porém,voltou-separao métodoqueusoupara
desenvolversuapintura,principalmentequandoestaaindaseencon-
travanoestágiodeesboço.Aos poucos,suaobraevoluiudeumatéc-
nica de representaçãomagistralpara uma sugestãoindefinidae
indagadoradarealidade,parafinalmentechegaraumapinturaquase
inteiramenteabstrataecaracterizadapelaausênciaquaseabsolutade
pistasvisuaissobreaquiloqueestavasendopintado(fig. 4.13).
Osmúltiplosníveisdeexpressãovisual,queincluemarepresenta-
cionalidade,aabstraçãoeo simbolismo,oferecemopçõestantodees-
tiloquantodemeiosparaasoluçãodeproblemasvisuais.A abstração
temsidoparticularmenteassociadaàpinturaeàesculturacomoaex-
pressãopictóricaquecaracterizao séculoXX. Masumgrandenúme-
ro deformatosvisuaissãoabstratospor suapróprianatureza.Uma
casa,umamoradia,o abrigomaissimplesou maiscomplexonãose
parecemcomnadaqueexistananatureza.Em outraspalavras,uma
casanãosegueaconfiguraçãodeumaárvore,queemalgumascircuns-
tânciaspoderiaserdescritacomoumabrigo;seuaspectoédetermina-
do peloobjetivoquelevouo homema criá-Ia;suaformaseguesua
função.Em seunívelelementar,trata-sedeumvolumeabstratoedi-
mensional.Masassoluçõespossíveisparaanecessidadequeohomem
temdeabrigoeproteçãosãoinfinitas.Podemserinspiradaspelautili- FIGURA 4.16
ANATOMIA DA MENSAGEMVISUAL 99
dade(fig. 4.14),peloorgulho(fig. 4.15),pelaexpressão(fig. 4.16)e
pelacomunicaçãoeproteção(fig.4.17).Assim,o usoaquesedestina
umedifícioé umdosmaisfortesfatoresquedeterminamseutama-
nho, suaforma,suasproporções,seutom,suacor e textura.Nesse
caso,comoemoutroscontextosvisuais,a formaseguea função.Mas
o ondeeo quandosãotambémquestõesprofundamenteimportantes
paraasdecisõesestilísticase estruturaisqueenvolvemo projetoe a
construçãodeumacasa.O ondeésignificativoemfunçãodo clima,
tendoemvistaqueasnecessidades,emtermosdeabrigo,variamdras-
FIGURA 4.14
. I I
FIGURA 4.15
FIGURA 4.17
ANATOMIA DA MENSAGEM VISUAL 101
DissotudosepoderiaconcluirqUequalquermanifestaçãovisual
abstrataéprofunda,equea representacionalnãopassadeumamera
imitaçãomuitosuperficial,emtermosdeprofundidadedecomunica-
ção. Mas o fatoé que,mesmoquandoestamos diantedeumrelato
visualextremamenterepresentacionaledetalhadodomeioambiente,
esserelatocoexistecomoutramensagemvisualqueexpõeas forças
visuaiselementareseédenaturezaabstrata(fig.4.20,4.21,4.22),mas
queestáimpregnadadesignificadoeexerceumaenormeinfluênciaso-
brea resposta.A subestruturaabstrataéa composição,o designoO
100 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
iiJ~
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FIGURA 4.18 FIGURA 4.19
ticamentedalinhadoEquador(fig.4.18)parao PóloNorte(fig.4.19).
O lugarondeseconstróialgumacoisatambéminfluenciaadisponibi-
lidadedemateriais.NosconfinsgeladosdoÁrticoésimplesmenteim-
possívelencontrarosramosefolhasexistentesnostrópicos.Antesque
a formapossaseguira função,éprecisoqueelapossamoldar-seapartir
domaterialoudosmateriaisfacilmenteencontráveisnomeioambien-
te.Nãoapenasalocalizaçãogeográfica,mastambémoslimiteshistó-
ricos,ouseja,oquandoseprojetaeconstróialgumacoisa,éumfator
quenormalmentecontrolaasdecisõesestilísticaseculturais.Por mui-
tasdasrazõesacimamencionadas,umasoluçãoespecíficadedesign
éobtidaerepetidacommuitopoucasmodificaçõesatétornar-seiden-
tificávelcomumdeterminadoperíododetempoe umadeterminada
localizaçãogeográfica(fig.4.18,4.19).O últimofatordeterminante
desseprocessoéo julgamentoeapreferênciadoindivíduo.Nãoéver-
dadequetodosqueinfluenciamo projetoeaconstruçãodeumacasa
sentemqueeladealgumaformaos representa?Até mesmoo atoda
escolhanacompradeumacasaévistocomoumamanifestaçãodogosto
dequema compra,e, portanto,da própriapessoa.Há umaenorme
quantidadedeinformaçãovisualemtudoisso,masnãopercamosde
vistaqueestamosexaminandoo projetoea construçãodeedifícios,
quesãotodosabstratosetalvez,atécertoponto,simbólicos,masem
hipótesealgumarepresentacionais.O significadoseencontranasubes-
trutura,nasforçasvisuaiselementaresepurase,porpertenceraodo-
míniodaanatomiadeumamensagemvisual,édegrandeintensidade
emtermosdecomunicação.
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FIGURA 4.20
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FIGURA 4.21
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102 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
ANATOMIA DA MENSAGEM VISUAL 103
Interaçãoentreos trêsníveis
~~.1 .~ Osníveisdetodososestímulosvisuaiscontribuemparao proces-sodeconcepção,criaçãoerefinamentodetodaobravisual.Paraser
visualmentealfabetizado,éextremamentenecessárioqueo criadordaobravisualtenhaconsciênciadecadaumdessestrêsníveisindividuais,
mastambémqueo espectadorou sujeitotenhadelesa mesmacons-
ciência.Cadanível,o representacional,o abstratoeosimbólico,tem
característicasespecíficasquepodemserisoladasedefinidas,masque
nãosãoabsolutamenteantagônicas.Naverdadeelessesobrepõem,in-
terageme reforçammutuamentesuasrespectivasqualidades.
A informaçãovisualrepresentacionaléo nívelmaiseficaza ser
utilizadonacomunicaçãofortee diretadosdetalhesvisuaisdo meio
ambiente,sejamelesnaturaisouartificiais.Atéainvençãodacâmera,
sóosmembrosmaistalentososeinstruídosdacomunidadeeramcapa-
zesdeproduzirdesenhos,pinturase esculturasquepudessemrepre-
sentardeformabem-sucedidaa informaçãovisualtalqualelasemostra
ao olho.Essahabilidadefoi sempreadmirada,eo artistaquea pos-
suíasemprefoi vistocomoumapessoamuitoespecial.Há umaespé-
ciedemagianaobravisualmuitominuciosaerealista,mesmoquando
elapodeservistacomosuperficial.Quandosediz,diantedeumretra-
to, "Parececomigo",o comentárioimplicaumreconhecimentomui-
to especialdoartistaqueo fez.Mastudoissomudoucomo advento
dacâmera.Umavezquea semelhançapodeserobtidaatravésdeum
instantâneooudeumafotonumestúdiometiculosam~nteiluminado,
trata-sedeumaquestãoquenemmesmoselevaemcontanaavaliação
deumretrato.A câmeracompõeumrelatovisualdequalquercoisa
.queestejaàsuafrente,eo fazcomumaexatidãoeumdetalhamento
extraordinários.Emseurelatodoquevê,quasepecapeloexcesso.Mas
o comunicadorvisualdispõedemuitasmaneirasdecontrolarosresul-
tados,tantoemtermostécnicosquantoestilísticos.Não obstante,a
representacionalidade,o relatorealistado queelavê,é naturalpara
acâmeraepodeperfeitamenteserumdosfatoresessenciaisquedeter-
minamo interessecadavezmaiorpelosegundonívelda informação
visual,o nívelabstrato.
Comojá observamosaqui,a abstraçãotemsidoo instrumento
fundamentalparao desenvolvimentodeumprojetovisual.É extre-
FIGURA 4.22
potencialdecriaçãodemensagensatravésdareduçãoda informação
visualrealistaa componentesabstratosestánareaçãodo arranjoao
efeitopretendido.Podehaverumsignificadocomplexonasubestrutu-
ra abstrata?A música,afinal,é totalmenteabstrata...Mesmoassim,
definimosoconteúdomusicalcomoalegre,triste,vivo,empolado,mar-
cial, romântico.Dequemodochegamosatal identificaçãoinformati-
va,queédenaturezabastanteuniversal?Algunssignificadosatribuídos
à composiçãomusicalestãoassociadosà realidade,eoutrosprovêm
daprópriaestruturapsicofísicadohomem,desuarelaçãocinestésica
comamúsica.Assim,dizemosqueamúsicaétotalmenteabstrata,mas
quealgunsdeseusaspectospodemserinterpretadoscomreferência
a umsignificadocomum.O caráterabstratopoderealmenteampliar
a possibilidadedeobtençãodeumamensagemedeumdeterminado
estadodeespírito.Nasformasvisuaiséacomposiçãoqueatuacomo
acontraparteabstratadamúsica,quersetratedamanifestaçãovisual
emsi, querdasubestrutura.O abstratotransmiteo significadoessen-
cialaolongodeumatrajetóriaquevaidoconscienteaoinconsciente,
daexperiênciadasubstâncianocamposensóriodiretamenteao siste-
manervoso,do fato à percepção.
1I
104 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
mamenteútilnoprocessodeexploraçãodescompromissadadeumpro-
blemaenodesenvolvimentodeopçõesesoluçõesvisíveis.A natureza
daabstraçãoliberaovisualizadordasexigênciasderepresentarasolu-
çãofinaleconsumada,permitindoassimqueafioremà superfícieas
forçasestruturaisesubjacentesdosproblemascompositivos,queapa-
reçamoselementosvisuaispurosequeastécnicassejamaplicadasatra-
vés da experimentaçãodireta.É um processodinâmico,cheiode
começosefalsoscomeços,maslivreefácilpornatureza.Nãoédees-
tranharquemuitosartistasseinteressempelapurezadessenível.Co-
mojá seobservouanteriormente,oartistaeovisualizadorpodemterse
sentidoliberadosparaassumirumaabordagemmaislivredaexpres-
sãovisual,graçasà competênciamecânicanaturaldacâmeraparaa
reproduçãodeumamanifestaçãovisualconsumadaedefinitiva.Por
quecompetircomela?Semprehouveartistascomformação,talento
e interessesuficientesparadarcontinuidadeà tradiçãodo realismo,
deSalvadorDaliesuasobrashiper-realista.s,massubjetivamenteinter-
pretadascomosurrealistas,àsutilezadaspinturasrepresentacionaisde
AndrewWyeth.Comtodacerteza,osartistasdessetiponuncadeixa-
rão deexistir.
O interesseemencontrarsoluçõesvisuaisatravésdalivreexperi-
mentaçãoconstitui,contudo,umdeverimprescindíveldequalquerar-
tistaoudesignerquepartadafolhaembrancocomoobjetivodechegar
à composiçãoe à finalizaçãodeumprojetovisual.O mesmonãose
podedizerdo fotógrafo,do cineastaou do câmera.Em todosesses
casos,o trabalhovisualbásicoédominadopelainformaçãorealista
detalhada,ficandoinibidaportanto,emtodoaquelequepensaemter-
mosdefilme,a investigaçãodeumpré-projetovisual.No cinemae
natelevisãoháumcomponentelingüísticoinerenteaoprocessodepla-
nejamento,mas,étristeconstatar,aspalavrascostumamsermuitomais
usadasnapré-visualizaçãodeumfilmedoqueoscomponentesvisuais.
Uma consciênciamaisaprofundadado nívelabstratodasmensagens
visuaisdepartedetodosaquelesqueusamacâmera,podeabrirnoVOS
caminhosparaa expressãovisualdesuasidéias.
O últimonívelde informaçãovisual,o simbólico,já foi objeto
deextensoscomentáriosaqui.O símbolopodeserqualquercoisa,de
umaimagemsimplificadaaumsistemaextremamentecomplexodesig-
nificadosatribuídos,aexemplodalinguagemoudosnúmeros.Emto-
1II
1
~
ANATOMIA DA MENSAGEM VISUAL 105
das as suas formulações,pode reforçar, de muitasmaneiras,a
mensagemeo significadonacomunicaçãovisual.Em termosdeim-
pressão,éumcomponenteimportanteesubstancialdosatributosto-
taisdeumlivro,deumarevistaoudeumpõster,edevesertrabalhado
nacriaçãodeumprojetoemformadedadosvisuaisabstratos,ades-
peitodo fatodeconstituirinformação,comformaeintegridadepró-
prias.Para o designer,trata-sedeumaforçainterativaqueeledeve
abordaremtermosdesignificadoe aspectovisual.
O processodecriaçãodeumamensagemvisualpodeserdescrito
comoumasériedepassosquevãodealgunsesboçosiniciaisembusca
deumasoluçãoatéumaescolhae decisãodefinitivas,passandopor
versõescadavezmaissofisticadas.Há algoa seracrescentadoaqui:
o termodefinitivodescrevequalquerpontoquesejadeterminadopelo
visualizador.A chavedapercepçãoencontra-seno fatodequetodo
o processocriativopareceinverter-separao receptordasmensagens
visuais.Inicialmente,elevêos fatosvisuais,sejamelesinformações
extraídasdomeioambiente,quepodemserreconhecidas,ousímbolos
passíveisdedefinição.No segundoníveldepercepção,o sujeitovêo
conteúdocompositivo,oselementosbásicoseastécnicas.É umpro-
cessoinconsciente,maséatravésdelequesedáaexperiênciacumula-
tivade inputinformativo.Seasintençõescompositivasoriginaisdo
criadordamensagemvisualforembem-sucedidas,ouseja,separaelas
foi encontradaumaboasolução,o resultadoserácoerenteeclaro,um
todoquefunciona.Seassoluçõesforemextremamenteacertadas,a
relaçãoentreformae conteúdopoderáserdescritacomoelegante.
Quandoassoluçõesestratégicasnãosãoboas,o efeitovisualfinalserá
ambíguo.Os juízosestéticosquesevalemdetermoscomo"beleza"
nãoprecisamestarpresentesnesseníveldeinterpretação,masdevem
ficarrestritosaoâmbitodospontosdevistamaissubjetivos.A intera-
çãoentrepropósitoecomposição,e entreestruturasintáticae subs-
tânciavisual,devesermutuamentereforçadaparaqueseatinjauma
maioreficáciaemtermosvisuais.Constituem,emconjunto,a força
maisimportantedetodacomunicaçãovisual,a anatomiadamensa-
gemvisual.
106 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Exercícios
1.Fotografeouencontreumexemplodecadaumdostrêsníveis
do materialvisual:representacional,abstratoe simbólico.
2. Tire umafoto desfocadae outracomfoco eestudea versão
desfocadaemtermosdasensaçãocompositivaquetransmite.Avalie
omodocomosentequeamensagemabstrataserelacionacomamani-
festaçãorepresentacional.Seriapossívelmelhorá-Iaalterando-seopon-
to devistaapartirdoquala fotofoi tirada?Façaumcroquiparaver
comopoderiamodificá-Iaalterandoa posiçãodacâmera.
3.Encontreumsímboloquevocêsejacapazdedesenhar,ecom-
parea facilidadecomquepodereproduzi-Iocomasletrasdoalfabeto
ou os números.
4. Dividaumafotoemfaixasdamesmalargura,tantohorizon-taisquantoverticais,ereordene-asemfunçãodeumdeterminadoplano.
Qualquerreordenaçãoromperáaordemrepresentacionalerevelaráa
estruturacompositivaabstrata.
.'1'
Ihl
\r'
1
I
5
A DINÂMICA DO CONTRASTE
o controlemaiseficazdoefeitovisualencontra-senoentendimento
dequeexisteumaligaçãoentremensagemesignificado,porumlado,
etécnicasvisuaisporoutro.Oscritériossintáticosoferecidospelapsi-
cologiadapercepçãoea familiaridadecomo caráterea pertinência
doselementosvisuaisessenciaisproporcionamatodososquebuscam
o alfabetismovisualumabasesólidaparaa tomadadedecisõescom-
positivas.Contudo,o controlecrucialdosignificadovisualencontra-
senafunçãofocalizadoradastécnicas.E, dentretodasastécnicasvi-
suaisqueestaremosabordandoaqui,nenhumaémaisimportantepa-
ra o controledeumamensagemvisualdo queo contraste.
Contrastee harmonia
Comojá observamos,astécnicasvisuaisforamordenadasempo-
laridades,nãosóparademonstrareacentuaravastagamadeopções
operativaspossíveisnaconcepçãoenainterpretaçãodequalquerma-
nifestaçãovisual,mastambémparaexpressara enormeimportância
datécnicaedoconceitodecontrasteemtodososmeiosdeexpressãovisual.
Todoequalquersignificadoexisteno contextodessaspolarida-
des.Seriapossívelentendero calorsemo frio, Oaltosemo baixo,o
docesemo amargo?O contrastedesubstânciasea receptividadedos
Sentidosaessemesmocontrastedramatizaosignificadoatravésdefor-
mUlaçõesopostas."O princípiobásicoda 'forma'determinaessaes-
1 8
'I
2 7
3 6
4 5
5 4
6 3
2
\(1111
1
I1
1 2 3 4 5 6 7 8 9
987 6 5 4 3 2 1
108 SINTAXE DA LINGUAGEM VISl:AL
I
I,I
"!
II1
11
treitarelaçãoentreunidadeaperceptivae distinçõeslógicas,queos
antigosconheciamcomo'unidadenadiversidade'."É assimque,em
seuensaio"AbstractioninScienceandAbstractioninArt"*, Susanne
Langerdescrevea "articulaçãodoselementosestruturaisdeumtodo
dado". No processodearticulaçãovisual,o contrasteéumaforçavi-
tal paraacriaçãodeumtodocoerente.Em todasasartes,o contraste
é umpoderosoinstrumentodeexpressão,o meioparaintensificaro
significado,e, portanto,simplificara comunicação.
Embora,norol dastécnicas,aharmoniasejacolocadacomopo-
laridadedecontraste,éprecisoenfatizarmuitoquea importânciade
ambostemumsignificadomaisprofundonatotalidadedo processo
visual.Representamurhprocessocontínuoeextremamenteativoem
nossomododeverosdadosvisuais,e,portanto,decompreenderaquilo
quevemos.O organismohumanoparecebuscaraharmonia,umesta-
do detranqüilidadeeresoluçãoqueoszen-budistaschamamde"me-
ditaçãoemrepousoabsoluto".Há umanecessidadedeorganizartoda
espéciedeestímulosemtotalidadesracionais,comofoi demonstrado
pelosexperimentosdosgestaltistas.Reduziratensão,racionalizar,ex-
plicareresolverasconfusõessãocoisasqueparecem,todas,predomi-
narentreasnecessidadesdohomem.Sónocontextodaconclusãológica
dessaindagaçãoincessanteeativaéqueo valordocontrasteficacla-
ro. Seamentehumanaobtivessetudoaquiloquebuscatãoavidamen-
teemtodososseusprocessosdepensamento,oqueseriadela?Chegaria
a umestadodeequilíbrioimponderável,estáveleimóvel- aorepou-
soabsoluto.O contrasteéumaforçadeoposiçãoaesseapetitehuma-
no. Desequilibra,choca,estimula,chamaaatenção.Semele,amente
tenderiaa erradicartodasassensações,criandoumclimademortee
deausênciadeser.Sintamosounãoumfortedesejodemorrer,aquela
vozinsistenteeinsinuantequesussurra"É agora"noouvidodotrape-
zista,o fatoéqueesseestadoderesoluçãoeconfinamentoabsolutos
nãonossatisfazenquantoestadodesensaçãozero,consumadaedefi-
nitiva.Comoemqualquerambienteemquepredominasseacorcinza,
teríamosasensaçãodavisãosemver,davidasemviver.Seríamosco-
moPalinuro,enterradovivoecondenadoa sentirtodasascoisasem
seutúmulo,ummorto-vivo.Os psicólogosnosdizemquenossosso-
A DINÂMICA DOCONTRASTE 109
nhossãoumaespéciedeperspiraçãodamente,queexpulsaos vene-
nosdapsiquenumprocessoconstantedelimpezae clarificaçãoque
édeimportânciafundamentalparanossasaúdemental.Assim,opro-
cessomesmodavidatambémpareceexigirumariquezadeexperiên_
ciassensórias,especialmenteatravésdavisão.Vemosmuitomaisdo
queprecisamosver,masnossoapetitevisualnuncasedáporsatisfei-
to.Estabelecemoscontatocomomundoesuascomplexidadesatravés
davisão,erecorremosàquiloqueo poetachamade"olho damente"
parapensaremtermosvisuais.Se,aolongodeseumovimento,opro-
cessovisualavançarumoàneutralidadeabsoluta,oquenosdevepreo-
cuparé o processo,e nãoo resultadofinal.
o papeldo contrastena visão
·Em Problemsof Arf.
No alfabetismovisual,a importânciadosignificadodocontraste
começanonívelbásicodavisãooudaausênciadesta,atravésdapre-
sençaoudaausênciadeluz.Por melhorquefuncioneo aparatofisio-
lógicodavisão,osolhos,o sistemanervoso,o cérebro,oupor maior
quesejao númerodecoisasqueo meioambientenosponhadiante
dosolhos,numacircunstânciaemquepredomineo escuroabsoluto
somostodoscegos.O aparatodavisãohumanatemimportânciase-
cundária;a luzéa chavedenossaforçavisual.Em seuestadovisual
elementar,a luzé tonal,evaido brilho(ouluminosidade)à obscuri-
dade,atravésdeumasériedeetapasquepodemserdescritascomocons-
tituídaspor gradaçõesmuitosutis.No processodever,dependemos
daobservaçãodajustaposiçãointeratuantedessasgradaçõesdetom
paraverosobjetos.Nãonosesqueçamosdequeapresençaou a au-
sênciadecornãoafetaosvalorestonais,quesãoconstantesetêmuma
importânciainfinitamentemaiorqueacor,tantoparaverquantopa-
raconcebere realizar.No pigmento,a luminosidadeésintetizadaou
Sugeridapelabrancuraquetendeaobrancoabsoluto,enquantoaobs-
curidadeésugeridapelonegrorquetendeaonegroabsoluto.Assim,
tUdoo quevemospodeinvestir-sedasduaspropriedadesdosvalores
tonais,aqualidadePigmentáriadabrancuraoudonegrorrelativosdo
tom,ea qualidadefísicada luminosidadeou daobscuridade.A luzfísicate""'U
'. .
." mavastagamadeIntensIdadetonal,aopassoqueo plg_
;;11
-
110 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
"
mentocostumaserutilizadonumâmbitolimitadodeoito a catorze
graustonais.No pigmento,amaisvastagamadetonsdecinzaclara-
mentediferenciadosgiraemtornodetrintaecinco.Sema incidência
de luz sobreele,nemmesmoo maisbrancodosbrancospoderáser
visto.Portanto,quervenhadoSol,daLua, deumavelaou luzelétri-
ca,aluzéumelofundamentaldenossacapacidadefisiológicadever.
Masaausênciadeluznãodetémo potencialexclusivodebloquear
a visão.Setodoo nossomeioambientefossecompostoporumvalor
homogêneoe invariáveldeumatonalidadeintermediáriadecinza,a
meiocaminhoentreo brancoe o negro,seriapossívelver,ou seja,
nãoexperimentaríamosasensaçãodecegueiracriadaporumambien-
tetotalmentenegro.No entanto,acapacidadedediscerniro queesta-
ríamosvendoseriatotalmenteeliminadade nossaspercepções.Em
outraspalavras,noprocessodavisão,o contrastedetomédeimpor-
tânciatãovitalquantoapresençadaluz.Atravésdotom,percebemos
padrõesquesimplificamosemobjetoscomforma,dimensãoeoutras
propriedadesvisuaiselementares.É umprocessodedecodificaracons-
tantesimplificaçãodosdadosemestadobruto,atéque,atravésdele,
chegamosa reconhecerea aprenderascoisasdomundoemquevive-
mos,desdeasformigas,quesemovemapressadamentepelochão,até
asestrelas,quereluzemnocéuemdiferentestamanhoseintensidades
tonais.A luzcria padrões,e, umavezidentificadosessespadrões,a
informaçãoobtidaéarmazenadanocérebroparaserutilizadaemre-
conhecimentosposteriores.É umprocessocomplexoeenganador,ma-
gistralmentedescritoporBernardBerenson,emseuensaio"Seeingand
Knowing": "Vejo massasdeverde,opacas,translúcidasou cintilan-
tes.Sãopontiagudasousuaves,e,comosealiestivessemparamantê-
Ias,coisasvagamentecilíndricasepardacentas,esverdeadaseacinzen-
tadas.Quandocriança,aprendiqueeramárvores,edoto-asdetron-
cos,galhos,rebentos,ramageme folhas,o quefaçodeacordocom
suaspresumíveisespécies,azevinho,castanheiro,pinheiro,oliveira,
muitoemborameusolhossó vejamdiferentestonsdeverde."
Assim,osolhoseo processodevisãoestendem-seemmuitasdire-
ções,extrapolandoo atodevereatingindoosdomínioseasfunçõ~S
da inteligência.Todo o sistemanervosointeragecomavisão,intenSI-
ficandonossacapacidadedediscriminar.O tato,opaladar,aaudição
. eoolfatocontribuemparanossacompreensãodomundoquenoScer-A DINÂMICA DOCONTRASTE 111
ca,aumentandoe, àsvezes,entrandoemcontradiçãocomo quenos
dizemnossosolhos.Tocamosalgumacoisaparadeterminarseédura
oumacia,cheiramosparadescobrirseháounãoumdeterminadoaro-
ma,provamosparadescobrirseumcheiroagradávelindicaquealgu-
macoisatambémé agradávelao paladar,e prestamosatençãopara
sabersealgoestáparadoouemmovimento.Todososnossossentidos
nãocessamdediscriminarerefinarnossoreconhecimentoenossacom-
preensãodomeioambiente.Dentretodososnossossentidos,porém,
nãohádúvidadequea visãoéaqueledequemaisdependemos,e o
quesobrenósexerceumpoderSuperior.E avisãofuncionacommais
eficáciaquandoospadrõesqueobservamossetornamvisualmentemais
clarosatravésdocontraste.Tantonanaturezaquantonaarte,o con-
trasteédeimportânciafundamentalparao visualizador,aquiloque,
emseulivroElementsof Design,DonaldAndersonchamade"mani-
pulaçãodeumconjuntodematérias-primas,comoaargila,o arame,
o pigmento,os dados,os sons,aspalavras,os números...transfor_
mando-asemestruturascoesasemumnívelsuperiordesignificado"
"
"
o papeldo contrastena composição
A visãoestáfortementeligadaà percepçãodepadrões,umpro-
cessoquedeterminaanecessidadedediscernimento.Emseulivro The
Intel/igentEye,R. L. Gregorydiz: "Nessesentido,'padrões'sãomui-
todiferentesde'objetos'.Por padrãoentendemosumcertoconjunto
deinputsqueatingemoreceptornoespaçoounotempo." Versignifi-
ca classificaros padrões,com o objetivode compreendê_1os ou
reconhecê_1os.A ambigüidadeéseuinimigonatural,edeveserevitada
paraqueo processodevisãofuncioneadequadamente.Observemos
umaárvore.Seelaéverticaleparecefirme,sabemosquepodemosnos
apoiarnela.Seelanosparecerperigosamenteinclinadae frágil,não
oUsaríamosconfiar-lhenossopeso.Masseelanosdera impressãode
serUmmistodessasduasqualidades,ouseja,denãoserneminteira-
"'en'efrágil,nemforteo suficienteparasustentarnnssopeso,estare-
"'nsdian'edelOnainfonnuçãovisualconfusa.O padrão,o inputvisual
será,nessecaso,inconclusivo.Sedaprecisousaroutrosmétodosque
A DINÂMICA DOCONTRASTE 113
112 SINTAXE DA UNGUA(;I.:M VISCAI.
I
I
I
I
I
I
I
I
I
I
I
valeracontraste(fig.5.2),enivelamentopodeserassociadoaharmo-
nia(fig.5.3).Porém,sejaqualfor a linguagemdescritivaempregada
paradesignarasduaspolaridadesdacomposiçãovisual,aniveladaou
a aguçada,deve-seenfatizarqueambasconstituemexcelentesinstru-
mentosparaelaborarumamanifestaçãovisualcomclarezadeponto
devista.Suautilizaçãohabilidosaajudamuitoaevitarconfusão,tan-
to do designerquantodo observador.
O queosgestaltistasinvestigaramedeterminaramatravésdeseu
reconhecimentodo valordessasduastécnicasvisuaiséqueo olho (e
comeleo cérebrohumano)nãoserádetidoemsuaeternabuscade
resoluçãoou fechamentodosdadossensóriosquepercebe.Werthei-
merintroduziuo princípioqueregeessahipótese,echamou-odelei
dapregnância,quedefineassim:"A organizaçãopsicológicaserásem-
pretão'boa'quantoo permitamascondiçõesvigentes."O quesepre-
tendedizercom"boa" nãoficainteiramenteclaro.Semdúvida,oque
eleestásugerindoé a resoluçãoemtermosderegularidade,simetria
e simplicidade.Forçascomoa necessidadedeconcluirou ligaruma
linhainacabada(fig.5.4),comono fechamento,oudecontraporfor-
massemelhantes,comono"princípiodasimilaridade", sãoaplicáveis
aqui(fig.5.5).Concluiraslinhasou agruparas formassemelhantes
éumpassorumoàsimplificação,umpassoinevitávelnamecânicada
percepçãodoorganismohumano.Seria,porém,tãodesejávelquanto
o indicariao impulsofisiológicoquelevaa ele?A regularidadeabso-
lutapodeserapuradaeregulada,tendoemvistaumperfeitoresultado
finaldeumamanifestaçãovisual.É fácildedeterminar,e é simples
reagira ela.Em qualquerdosextremosdo modelodecomunicação
estímulo - resposta,nadaficaaosabordoacaso,daemoçãoouda
I
II~
FIGURA 5.1
nosconfirmassemaresistênciaeasolidezdaárvore.Umalinhatraça-
da emumquadrado,muitopróximadeseucentrogeométrico,mas
aomesmotempodistantedele,constituiumexemplomaisabstratoda
mesmasituação(fig. 5.1).A linhaseencontraa umadistânciasufi-
cientedoeixosentidoparaperturbaro observador,masnãoestásufi-
cientementedistanteparafazercomquesuaposiçãodedesequilíbrio
sejapercebidacomtodaaclareza.A utilizaçãomaiseficazdosmeca-
nismosdepercepçãovisualconsisteemsituarou identificarpistasvi-
suaiscomo uma coisa ou outra, em equilíbrioou não, forte ou
ameaçadoramentefrágil.Os gestaltistastrabalhamcomessanecessi-
dade,edescrevemosdoisestadosvisuaisantagônicoscomonivelação
eaguçamento.Em Principiesof GestaltPsychology,Koffka defineo
aguçamentocomo"um incrementoouexagero",eo nivelamentoco-
mo "um enfraquecimentoou abrandamentodapeculiaridadedeum
padrão".Naterminologiadastécnicasvisuais,aguçamentopodeequi- o o D· o.· O 8
O ... .
O
FIGURA 5.4 FIGURA 5.5
FIGURA 5.2
FIGURA 5.3
-
114 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
A DINÂMICA DO CONTRASTE 115
a b
c
denada.O efeitofinal foi o querealmentebuscavam,umefeitode
harmoniaeequilíbriocompletosemquenadaficavavisualmentesem
resolver.Chamamoso estilogregode"clássico",e a eleassociamos
umaestabilidadetotal,semquaisquerequívocosporpartedodesigner
e semfatoresquepossampertl1rbaro observador.Semdúvida,res-
pondea todososcritérioscapazesdeproduziro "bom" descritopor
Wertheimeremsualeidapregnância,eseajustaàsexigênciasincons-
cientesdamentee à mecânicafísicado corpo.É umaqualidadeda
qualasinstituiçõesoficiaiscertamenteseapropriaramnomodernomun-
doocidental,eémuitocomumseempregaro estiloclássicoemedifí-
ciospúblicos,emespecialnospaláciosdeJustiça.A opçãopor esse
estiloarquitetõniconãosóassociaseusconstrutoresaoamorpelosa-
bereaosideaisdemocráticosdosgregos,mastambémàracionalidade
deseuequilíbrio.A figuradaJustiçacomosolhosvendados,quenos
remeteasuabuscadeequilíbrioeimparcialidade(simbolicamentemos-
tradapelabalançaquetraznasmãos),évisualmenteconsumadapela
simetriada concepçãodeumtemplogrego.
Maso "bom", talcomoo definea leidapregnância,nãoprecisa
desimetriaeequilíbriocomoexpressõesúnicas;nessesentido,"bom"
tambémdescrevea clarezadeumamanifestaçãovisual,quepodeser
obtidaatravésdoaguçamento,ou,nostermosdeumaoutradefinição
possível,atravésdatécnicadocontraste.Aindaqueanecessidademais
óbviaeaparentedoserhumanosejaequilíbrioerepouso,anecessida-
dederesoluçãoé igualmenteforte,e o aguçamentooferecegrandes
possibilidadesdeatingi-Ia,poisa resoluçãoé umaextensãoda idéia
interiordeharmoniaeprovémmaisdaorganizaçãodacomplexidade
doquedapurasimplicidade.Em Art and VisualPerception,Rudolf
Arnheimserefereà aparentecontradiçãodessefatocomo"umadua-
lidadeligadaàsatividadesparalelasdo processodecrescimentoedo
esforçoparachegaraosobjetivosvitais".O nivelamento(fig.5.8),co-
monaconcepçãodafachadadeumtemplogrego,éharmoniosoesim-
ples,maso aguçamento(fig.5.9)temintençõesmuitomaisvitaisem
seucarátervisual.Contudo,nãoseriajustodizerqueumémaisfácil
deperceberqueo outro.Sãosimplesmentediferentes.
f. O atodeveré umprocessodediscernimentoe julgamento.NaIgura5 8 d . .. ,os OISprocessospodemseratlvados,e os resultadosde
seufun .
Clonamentopodemserestabelecidosrápidaeautomaticamente
~@2~):~~~ ~
\'"
',',
111\1
li!
"ti
II1
FIGURA 5.6
interpretaçãosubjetiva.Osgregosdemonstramabuscaabsolutaeló-
gicaderesultadosharmoniososnaconcepçãodetemploscomoo Par-
tenon.Não só seutilizaali a fórmulada seçãoáurea,a proporção
matematicamentedeterminada,comohátambémo maiscompletouso
do equilíbrioaxialou simétrico(fig. 5.6).Os gregosseanteciparam
inclusivenostruquesperceptivosdeconcepçãoeconstrução,detalmo-
do queaquiloquesevêpareçao maispróximopossíveldaperfeição
dequeo homemécapaz.Comooolhotransformaumalinharetanu-
macurvaligeiramentecôncava(fig.5.7a)quandocontempladelonge,
osarquitetosgregosprojetaramascolunasdafachadadotemplocom
umaconvexidadeligeira,naverdade,imperceptível(fig. 5.7b),para
compensaressefenômenoeproduzirumalinharetaaparentementeper-
feita(fig. 5.7c).Em suabuscada perfeição,nãosedetinhamdiante
FIGURA 5.7
116 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
00
EITE5
DD
DD brionão-axiale,devidoàclarezadessefato,podemosdizerquesetra-tadeumaboademonstraçãodoestadode"aguçamento"visual.Paracriarumamanifestaçãovisualclara,éprecisooptardecididamentepor
umououtrocaminho,o niveladoou o aguçado,o contrastadoou o
harmonioso.O designerdeveseguiro ditopopular:"É pegarou lar-
gar." A áreaentrea nivelaçãoeo aguçamentoéconfusaeobscura,
enormalmentedeveserevitada,poisa comunicaçãoquedelaresulta
nãoéapenasmedíocre,mastambémesteticamentefeia.Quandoasin-
tençõesvisuaisdodesignernãoforemesboçadasecontroladascomde-
terminação,o resultadoseráambíguo,e o efeitoproduzidoserá
insatisfatórioedecepcionanteparao público(fig.5.11).O equilíbrio
nãopodeserestabelecidoclaramentenemdeummodo,nemdeoutro;
emprimeirolugar,oselementosnãopodemorganizar-seerelacionar_
seentresi,assimcomotambémnãoconseguemfazê-locomo campo.
A nãoserquesejaessaaexpressãovisualprocuradapelodesigner(uma
possibilidaderemota),aambigüidadedeveserevitadacomoomaisin-
desejáveldosefeitosvisuais,nãoapenasporserpSicologicamenteper-
turbadora,maspor suanaturezadesleixadae inferior,emqualquerníveldecritérioda comunicaçãovisual.
A DINÂMICA DOCONTRASTE 117
FIGURA 5.8 FIGURA 5.9
peloobservador.O exemplodemonstraumequilíbriocompletoe in-
questionável.Mastambémpodemosprever,comrelaçãoaoobserva-
dor, a mesmarespostarápidaeautomáticaà figura5.9.A definição
daestruturanãoétãoinequívoca,anãosernumsentidonegativo;os
elementosvisuaisnãosãosimétricos.Nãoseequilibramnosentidoób-
vioqueo fazemoselementosda figura5.8.Maso equilíbrionãopre-
cisaassumira formadesimetria.O pesodoselementosdodesignpode
ajustar-seassimetricamente.As forçasadicionaisafastamo designda
simplicidade,maso efeitofinaléumequilíbrioestruturadopelopeso
epelocontrapeso,pelaaçãoepelareação.O efeitofinalpodeserlido,
eo observadorpoderesponderaelecomgrandeclareza;trata-seape-
nasdeumprocessomaiscomplexo,e,portanto,maislento(fig.5.10).
A mesmacapacidadeperceptivadapsicofisiologiahumanaquedeter-
minao equilíbriosimétricopode,automaticamente,mediroequilíbrio
assimétricoe respondera ele.Nãoéumprocessofácildedemonstrar
edefinir,e,emdecorrênciadisso,costumaparecermaisintuitivoque
físico.
Umacoisaécertanoquedizrespeitoaoequilíbrioassimétricoda
figura5.10:quasenãoestáequilibradasimetricamente.O observador
nãoé provocadopelaausênciaderesolução,nemsevêincomodado
pelaambigüidadevisual.O desenhopassaumaclaraidéiadeequilí-
~iO00°
FIGURA 5.11
)
A harmonia,ouo estadoniveladododesignvisual,éummétodo
utilequaseinfalivelparaa soluçãodosproblemascompositivosque
aOigemocriadordemensagemvisuaisinexperienteepoucohábil.As
regrasaseremobservadassãoextremamentesimpleseclaras,e,sefo-
remseguidascomrigor,semdúvidaosresultadosobtidosserãoatraen-
tes.Simplesmentenàohácomoeqnivocar-se.Por razõesdesegurança,
oeqUilíbrioaxialenquantoestratégiadedesigntemsidouminestimá-
Velauxiliarparaacriaçãodedesignsdelinhasdespojadaseconcisas.
FIGURA 5.10
~
r
~I
A DINÂMICA DOCONTRASTE 119
118 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
o des;gndelivrostemsidodominadopeloaspectoclássicodas
páginasemequilíbrioabsoluto(fig.5.12),principalmentedesdea in-
vençãodotipometálicomóvel.A naturezamecânicaematemáticada
composiçãotipográficapresta-seperfeitamenteaoscálculosqueresul-
tamemequilíbrio.Porém,pormaiorquesejaa segurançaeaconfia-
bilidadequea técnicaharmoniosado des;gnniveladopodeoferecer,
propiciando,comonocasodoslivros,umaconfiguraçãodecomposi-
çãovisualquenãointerferecomamensagem,amenteeo olhoexigem
umestímulo.A monotoniarepresentaparaodes;gnvisualumaamea-
çatãograndequantoemqualqueroutraesferadaarteedacomunica-
ção.A menteeo olho exigemestímulosesurpresas,eumdes;gnque
resulteemêxitoeaudáciasugerea necessidadedeaguçamentodaes-
truturae da mensagem.
A PRIMER OF VISUAL LlTERACY
DonisA. Dondis
objetivoaobtençãodeumefeitointenso.Masa intensificaçãodosig-
nificadovaiaindamaislongequea merajustaposiçãodeelementos
díspares.Consisteemumasupressãodosuperficialedesnecessário,que
por suavezlevaaoenfoquenaturaldo essencial.Rembrandtutilizou
essemétodonodesenvolvimentodesuatécnicadoclaro-escuro.O no-
medessatécnicavemdacombinaçãodeduaspalavrasitalianas:ch;a-
ro e scuro. São essesos elementosque ele usa, a claridadee a
obscuridade.Em suastelas(fig. 5.13)e emsuaságuas-fortes,Rem-
brandtdescartavaos tonsintermediáriosparaacentuare realçarseu
temacomumaspectomajestosoeteatral.A incrívelriquezadosresul-
tadoséumargumentotãoforteparao entendimentoeautilizaçãodo
contrastequantoquaisqueroutrosqúepossamserencontradosemqual-
quernível,no corpoda obravisual.
O contrasteéuminstrumentoessencialdaestratégiadecontrole
dosefeitosvisuais,e, conseqüentemente,do significado.Mas o con-
trasteé,aomesmotempo,uminstrumento,umatécnicaeumconcei-
to. Em termosbásicos,nossacompreensãodo lisoé maisprofunda
quandoocontrapomosaoáspero.É umfenômenofísicoo fatodeque,
quandotocamosemalgumacoisaásperaegranulosa,eemseguidato-
camosemumasuperfícielisa,o lisopareceráaindamaisliso.Osopos-
tosparecemseraindamaisintensamenteelesmesmosquandopensamos
nelesemtermosdesuasingularidade.Nessaobservaçãoencontra-se
o significadoessencialdapalavracontraste:estarcontra.Ao compa-
rarmoso dessemelhante,aguçamoso significadodeambosos opos-
-fos.O contrasteéumcaminhofundamentalparaaclarezadoconteúdo
.emarteecomunicação.Em seuensaio"The DynamicImage"*,Su-
~anneLangerdiz, comrelaçãoa essefenômeno:"Uma obradearte
J umacomposiçãodetensõese resoluções,equilíbrioedesequilíbrio,
.;oerênciarítmica:umaunidadeprecária,porémcontínua.A vidaéum
d,rocessonaturalcompostopor essastensões,equilíbriose ritmos;é
~~soo quesentimos,quandocalmosou emocionados,comoo pulso
~
Ienossaprópriavida." Mas o impulsodemonstradopelocontraste
treosopostosdevesermanipuladocomtantadelicadezaquantoaque-
U.exigidapelostemperosnaculinária.O principalobjetivodeumama-
Jtfestaçãovisualéa expressão,a transmissãode idéias,informaçõest----
-., ·Em Problemsof Arf.
I
FIGURA 5.12
Comoestratégiavisualparaaguçarosignificado,ocontrastenão
sóécapazdeestimulareatraira atençãodoobservador,maspode
tambémdramatizaressesignificado,paratorná-Iomaisimportantee
maisdinâmico.Se,porexemplo,quisermosquealgumacoisapareça
claramentegrande,bastacolocarmosoutracoisapequenapertodela.
Issoéocontraste,umaorganizaçãodosestímulosvisuaisquetempor
,
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FIGURA 5.13
,
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~~"T~...~ .~
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../!! '111:
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)1'
FIGURA 5.14
A DINÂMICA DOCONTRASTE 121
e sentimentos;paraentendê-Iomelhor,éprecisovê-Ioemtermosda
expressão.RudolfArnheiJ11deua interpretaçãomaiscriativada inte-
raçãoentrepensamentoe estímulosvisuais.Em seuensaio"Expres-
sionandGestaltTheory",quefazpartedeumavastacompilaçãode
textosentituladaPsychologyandthe VisualArts, Arheimdefineex-
pressãocomosendoa"cofltrapartidapsicológicadosprocessosdinâ-
micosqueresultamnaor~anizaçãodosestímulosperceptivos".Em
outraspalavras,osmesm05meiosdequeo organismohumanosevale
paradecodificar,organizatedarsentidoà informaçãovisual,naver-
dadeatodainformação,podemprestar-se,comgrandeeficácia,àcom-
posiçãodeumamensagema sercolocadadiantedeumpúblico.Em
suasramificaçõespsicológicase fisiológicas,o processode inputin-
formativohumanopodesetvirdemodeloparao outputinformativo.
Sejanoníveldaexpre,sãoqueimplicaapenaso contrastedeele-
mentosvisuais,ounonível daexpressão,queenvolvea transmissão
deinformaçõesvisuaiscomJ'lexas,ocomunicadorvisualdevereconhe-
cero caráterdeeficáciado contrasteesuaimportânciaenquantoins-
trumentodetrabalhoquepodeedeveserusadonacomposiçãovisual.
O contrasteéoaguçador d~todosignificado;éo definidorbásicodas
idéias.Entendemosmuitor$1aisa felicidadequandoacontrapomosà
tristeza,eo mesmosepodec1izercomrelaçãoaosopostosamoreódio,
afeiçãoehostilidade,motiv~çãoepassividade,participaçãoesolidão.
CadapolaridadepUrament~conceitualpodeserexpressaeassociada
atravésdeelementosetécni.&asvisuais,osquais,por suavez,podem
associar-seaseusignificadoO amor,porexemplo,podesersugerido
porcurvas,formascirculare~,coresquentes,texturasmaciasepropor-
b o
I
100
I
O
FIGURA 5.15 FIGURA 5.16
122 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
A DINÂMICA DO CONTRASTE 123
1
\.
I.
çõcssemelhantes(fig. 5.15).O ódio,comoseuoposto,poderiaserin-
tensificadoporângulos,formasretas,coresagressivas,texturasásperas
ep,roporçõesdessemelhantes(fig.5.16).Oselementosnãosãoabsolu-
tamenteopostos,maspoucofaltaparaqueo sejam.Dentretodasas
técnicasvisuais,ocontrasteéonipresentenasmanifestaçõesvisuaisefi-
cazesemtodososníveisdaestruturatotaldamensagem,sejaelacon-
ceitualouelementar.Assim,éprecisodizerque,enquantoinstrumento
visualdeumvalorinestimável,o contrastedevesempreserumarefe-
rênciaobrigatória,desdea etapageneralizadada composiçãovisual
atéo caráterespecíficodecadaumdoselementosvisuaisescolhidos
paraarticulare expressarvisualmenteumaidéia.
possibilidadesdeproduçãodeinformaçõesvisuaiscontrastantes.A li-
nha,porexemplo,podeserformalou informal,enosdoiscasosserá
portadoradefortespistasinformativas.A flexibilidadedalinhainfor-
malresultanumasensaçãode investigaçãoe tentativanãoresolvida
(fig.5.20),aopassoqueo usoformaldalinhaconotaprecisão,plane-
jamento,técnica(fig.5.21).Somenteatravésdajustaposiçãodosdois
opostospoderemoscriarumacomposiçãocontrastante(fig.5.22)em
queseacentueo caráterbásicodotratamentodispensadoacadalinha.
"
'J
FIGURA 5.18 FIGURA 5.19
FIGURA 5.17
........
....
'..
......
L.
É óbvioquepodemosexplicarmuitomaisfacilmenteo altoseo
compararmoscomo baixo,sobretudoquandosãousadosestímulos
visuais(fig.5.17).A proporçãoédeimportânciafundamentalnama-
nipulaçãocompositivadocampo.Assim,paraexpressarcomprecisão
a ênfasenadessemelhançadaspistasvisuais,o pontoprincipaldeve
ocupara maiorproporçãodo espaçoa elededicado(fig. 5.18),pelo
menosumou doisterçosdo mesmo.Essadivisãoproporcionaldeve
aumentaraprecisãodasintençõescompositivas(fig.5.19).Qualquer
quesejaoefeitopretendido,ainformaçãobásicadeveocuparumasu-
perfíciegrandeedesproporcionaldocampoaeladedicado.A propor-
ção e a escaladependem,no quediz respeitoao efeitovisado,da
manipulaçãodotamanhooudoespaço,mas,aindaqueestasejauma
consideraçãobásicarelativamenteà estruturado contraste,nãoéde
modoalgumnecessária.Outrasforçaselementaressãodegrandeim-
portânciaparao efeitofinal.Cadaelementovisualoferecemúltiplas
"
/'
FIGURA 5.20 FIGURA 5.21
1I
II !..
FIGURA 5.22
r
\~
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\
A DINÂMICA DOCONTRASTE "125
124 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
1\ n.
Contrastede tom
Como tom,~claridadeouaobscuridaderelativasdeumcampo
estabelecemaintensidadedocontraste.O tamanhoouaproporçãonão
éaúnicacoisaaserlevadaemconta.A divisãodeumcampoempar-
tesiguaispodetambémdemonstraro contrastetonal(fig.5.23),uma
vezqueo campoé dominadopelopesomaiordo negro.Seumtom
cadavezmaisclarofosseusadoemsubstituiçãoaonegro,aproporção
da áreacobertapelotommaisescuroprecisariaseraumentadapara
conservaro efeitodadominaçãoerecessividadequedáreforçovisual
àsmensagensconceituais(fig. 5.24).O tomcertamentenãocostuma
serdistribuídonocampodeformaassimtãorígidae regular;no en-
tanto,aanálisedeumacomposiçãovisualpodemostrarseháumadi-
visãodosextremostonaissubstancialo suficienteparaaexpressãodo
contraste.Rembrandtchegouaextremosno controledesuascompo-
siçõese,aoutilizarcontrastesintensos,clarocontraescuro,escurocon-
traclam,obteveumdosmaisextraordináriosresult~dosvisuaisdetoda
a história.
\.
Contrastede cor
FIGURA 5.23
O tomsuperaacoremnossarelaçãocomo meioambiente,sen-
do,portanto,muitomaisimportantequeacornacriaçãodocontras-
te. Dastrêsdimensõesdacor (matiz,tome croma),o tomé a que
predomina.JohannesIttenfezumaabordagemestruturaldo estudo
euso'dacorcombaseemmuitoscontrastes,enfatizandobasicamente
aoposiçãoclaro-escuro.Depoisdotonal,talvezomaisimportantecon-
trastedecorsejao quente-frio,queestabeleceumadistinçãoentreas
coresquentes,dominadaspelovermelhoepeloamarelo,easfrias,do-
minadaspeloazule peloverde.A naturezarecessivadagamaazul-
verdesemprefoi usadaparaindicardistância,enquantoa qualidade
dominantedagamavermelho-amarelotemsidousadaparaexpressar
expansão.Essasqualidadespodemafetaraposiçãoespacial,umavez
queatemperaturadacorpodesugerirproximidadeoudistância.Itten
citaalgunsoutroscontrastesdecor, entreos qu~iso complementar
eo simultâneo.Cadaumdelestema vercomaqualidadedecorque
podeserusadaparaaguçarumamanifestaçãovisual.O contrastecom-
plementaréo equilíbriorelativoentreo quentee o frio. De acordo
comateoriadacordeMunsell,acorcomplementar'Sesituanoextre-
moopostodocírculocromático.Em formadepigmento,ascomple-
mentaresdemonstramduascoisas:primeiro,quandomisturadas,'
produzemumtom~eutroeintermediáriodecinza;emsegundolugar,
aoseremjustapostas,ascomplementaresfazemcomquecadaumadelas
cheguea umaintensidademáxima.Ambosos fenômenosestãoasso-
ciadosà teoriadeMunselldocontrastesimultâneo.Munsellestabele-
ceuas coresopostasno círculocromáticocombaseno fenômeno
fisiológicohumanodaimagemposterior,ouseja,acorquevemo~nu-
masuperfíciebrancaevaziadepoisdetermosfixadoo olharemalgu-
maOutraCorporalgunssegundos.O processopodeassumiraindauma
~.u~raforma.Quandoumquadradocinzaécolocadodentrodasuper-
ICledeumaCorfria, serávistocomoquente,istoé, matizadopelo
!I
I
\111
FIGURA 5.24
Ir
126 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
~~
A DINÂMICA DO CONTRASTE 127
Os mesmosfatoresdejustaposiçãodequalidadesdesproporcionaise
diferenciadassefazemnotarnoempregodetodososelementosvisuais
quandosetemporobjetivoaproveitaro valordocontrastenadefini-
çãodosignificadovisual.A funçãoprincipaldatécnicaéaguçar,atra-
vésdoefeitodramático,maselapode,aomesmotempoecommuito
êxito,darmaiorrequinteàatmosferaeàssensaçõesqueenvolvemuma
manifestaçãovisual.O contrastedeveintensificarasintençõesdode-signer.
tomcomplementarda coremqueestásituado.Em outraspalavras,
a coropostanãoé apenasumacoisaqueseexperimentaperceptiva-
mentecomoumaimagemposterior;aexperiênciaquedelatemosési-
multânea,atravésde um processode neutralização,associadoao
impulsoaparentedereduzirtodososestímulosvisuaisasuaformamais
neutraesimplificadapossível.Inserimosacorcomplementaremqual-
quercorqueestivermosvendo.Assim,parecequenãosóexperimen-
tamosumefeitodereduçãoconstantedosestímulosemnossapercepção
dospadrões,mastambémestamosfisiologicamenteenvolvidosemum
processodesupressãocromáticadenossoinputinformativovisual,nu-
mabuscaincessantedeum tomintermediáriodecinza.O contraste
é o antídotoprincipalcontraessatendência.
A necessidadequetodoo sistemaperceptivodoserhumanotem
denivelar,deatingirumequilíbrioabsolutoe o fechamentovisualé
a tendênciacontraa qualo contrastedesencadeiaumaaçãoneutrali-
zante.Atravésdacriaçãodeumaforçacompositivaantagônica,adi-
nâmicado contrastepoderáserprontamentedemonstradaemcada
exemplodeelementovisualbásicoquedermos.Seo objetivofor atrair
aatençãodoobservador,a formaregular,simpleseresolvida,édomi-
nadapelaformairregular,imprevisível.Ao seremjustapostas,astex-
turasdesiguaisintensificamo caráterúnicodecadauma(fig. 5.26).
Contrastede forma
FIGURA 5.25
Contraste de escala
A distorçãodaescala,porexemplo,podechocaro olhoaomani-
pularà forçaaproporçãodosobjetosecontradizertudoaquiloque,
emfunçãodenossaexperiência,esperamosver(fig.5.27).A idéiaou
mensagemsubjacenteao usodo contrasteatravésdeumaescaladis-
torcidadeveriaserlógica;deveriahaverummotivoracionalparaama-
nipulaçãodeobjetivosvisuaisconhecidos.No exemploquedemos,a
relaçãoentreosignificadodagrandebolotaemprimeiroplanoeocar-
valhomenoraofundoinvertevisualmentea idéiadeque"os grandes
carvalhosnascemdepequenasbolotas",masdramatizaaimportância
dabolota,e,aofazê-Io,articulao significadobásicoqueseprocura-
""'-' -.:>
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3,-~ ~
III~~ V III III
u~11 ~ix...'"<J ~~'"'~~
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::~~II 1IIIIv
FIGURA 5.26
FIGURA 5.27
va.Comotécnicavisual,o contrastepodeseraindamaisintensificado
atravésdajustaposiçãodemeiosdiferentes.Sea bolotafor represen-
tadaemtons,eaárvorepor meiodelinhas(fig. 5.28),ou sea repre-
sentaçãotonalfor umafoto, eo desenhoa linha,maisinterpretativo
e flexível(fig.5.29),ocontrasteseráintensificadoatravésdepistasvi-suaiselementaresa partirdasquaisperceberemosumsignificado.
128 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
111
II
FIGURA 5.28
~
A DINÂMICA DO CONTRASTE 129
pontodahierarquia,devaserdisciplinadapelaintençãocomunicativa
do designer.Quersetratedeumasetadesenhadanumaárvorepara
indicaro caminhonumafloresta,ou deumaimponentecatedralque
erguesuastorresparaocéu,aorganizaçãodoselementosvisuaisdeve
responderao objetivodamanifestaçãovisual,ou seja:a formadeve
seguira função.Nessabusca,o contrasteéa ponteentrea definição
e a compreensãodasidéiasvisuais,nãono sentidoverbalda defini-
ção,masno sentidovisualdetornarmaisvisíveisasidéias,imagens
e sensações.
Exercícios
FIGURA 5.29
1.Tireumafotoouencontreexemplosdeumamanifestaçãovi-
sualqueseja(1)equilibradaeharmonisa,e (2)assimétricaecontras-
tante.Analiseecompareo efeitodecadauma,esuacapacidadede
transmitirinformaçõesou criarumadeterminadaatmosfera.
2. Escolhaduasidéiasconceituaisopostas(amor-ódio,guerra-paz,
cidade-campo,organização-confusão).Numquadrado,façaumaco-
lagemquerepresenteo contrastedeidéias,utilizandotécnicasvisuais
quereforcemo significadoatravésdo materialusado.
3. Façaumacolagemou tireumafotoemquemateriaisvisuais
dessemelhantesestejamjustapostos,tendoemvistaumaintensifica-
çãoou aguçamentodo efeitoda mensagem.
4. Procureumexemplodedesignouartegráficaemqueasurpre-
saresultantedajustaposiçãodeinformaçõesvisuaisinesperadasdra-
matizea intençãosubjacentedo artista.
No nívelbásicodeconstruçãoedecodificação,o contrastepode
serutilizadocomtodososelementosbásicos:linha,tom,cor,direção,
forma,movimentoe,principalmente,proporçãoeescala.Todasessas
forçassãovaliosasparaaordenaçãodo inputedooutputvisual,enfa-
tizandoaimportânciafundamentaldocontrastenocontroledosigni-
ficado.Todamensagemvisualcombinaoselementosemumainteração
complexa.Muitascoisasestãoacontecendoaomesmotempo,eédifí-
cil evitaraconfusãoeaambigüidade.Seo queseprocuraéumefeito
finalcoerente,o vagoeo genéricodevemsermodificados,atravésdo
contraste,emdireçãoaoestadoprecisoeespecíficodarealidadecon-
creta,emumprocessoemqueo designresultedeumasériededeci-
sões.A visãoinclina-separaa organizaçãodosdados,e, atravésde
umacomplexidadecadavezmaior,vaidassensaçõesprimárias(aex-
pressãoeacompreensãodeidéiassimples)atéo nívelabstrato.A in-
formaçãovisualtemessemesmocaráterevolutivo,embora,emalgum
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6
111!
TÉCNICAS VISUAIS: ESTRATÉGIAS
DE COMUNICAÇÃO
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I.
o conteúdoea formasãooscomponentesbásicos,irredutíveis,
detodosos meios(a música,a poesia,a prosa,a dança),e, comoé
nossaprincipalpreocupaçãoaqui,dasarteseofíciosvisuais.O con-
teúdoé fundamentalmenteo queestásendodiretaou indiretamente
expresso;é o caráterda informação,a mensagem.Na comunicação
visual,porém,o conteúdonuncaestádissociadodaforma.Mudasu-
tilmentedeummeioa outroedeumformatoa outro,adaptando-se
àscircunstânciasdecadaum;vaidesdeo designdeumpôster,jornal
ouqualqueroutroformatoimpresso,comsuadependênciaespecífica
depalavrasesímbolos,atéumafoto,comsuastípicasobservaçõesrea-
listasdosdadosambientais,ouumapinturaabstrata,comsuautiliza-
çãodeelementosvisuaispurosnointeriordeumaestrutura.Em cada
umdessesexemplos,eemmuitos,muitosoutros,o conteúdopodeser
basicamenteo mesmo,masdevecorrespondera suaconfiguração,e,
aofazê-Io,procederamodificaçõesmenoresemseucaráterelementar
ecompositivo.Umamensagemécompostatendoemvistaumobjeti-
vo: contar,expressar,explicar,dirigir, inspirar,afetar.Na buscade
qualquerobjetivofazem-seescolhasatravésdasquaissepretendere-
forçareintensificarasintençõesexpressivas,paraquesepossadeter
o controlemáximodasrespostas.Issoexigeumaenormehabilidade.
A composiçãoéo meiointerpretativodecontrolara reinterpretação
deumamensagemvisualpor partedequema recebe.O significado
seencontratantono olho do observadorquantono talentodo cria-
dor.O resultadofinaldetodaexperiênciavisual,nanaturezae,basi-
camente,nodesign,estánainteraçãodepolaridadesduplas;primeiro,
132 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL TÉCNICAS VISUAIS: ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO 133
as forçasdo conteúdo(mensageme significado)eda forma(design,
meioeordenação);emsegundolugar,o efeitorecíprocodoarticula-
dor (designer,artistaouartesão)edoreceptor(público)(fig.6.1).Em
ambososcasos,umnãopodeseseparardooutro.A formaéafetada
peloconteúdo;o conteúdoéafetadopelaforma.A mensageméemiti-
da pelocriadore modificadapeloobservador.
A mensageme o método
111
I
~CONTEÚDO~
ARTISTA PÚBLICO
~FORMA~
A mensageme o métododeexpressá-Iadependemgrandemente
dacompreensãoedacapacidadedeusarastécnicasvisuais,osinstru-
mentosda composiçãovisual.Em Elementsof Design,DonaldAn-
dersonobserva:"A técnicaéàsvezesa forçafundamentaldaabstração,
a reduçãoeasimplificaçãodedetalhescomplexosecambiáveisa rela-
çõesgráficasquepodemserapreendidas- à formadaarte." Domi-
nadaspelocontraste,as técnicasde expressãovisualsão os meios
essenciaisdequedispõeo designerparatestarasopçõesdisponíveis
paraa expressãodeumaidéiaemtermoscompositivos.Trata-sede
umprocessodeexperimentaçãoeopçãoseletivaquetemporobjetivo
encontrara melhorsoluçãopossívelparaexpressaro conteúdo.Em
seuensaio"The Eye is Part of theMind" *, Leo Steinbergdescreve
assimo queacontece:"Para levarà plenitudeseupoderdeorganiza-
ção,o pintortemdebuscarsuaspercepçõesno limboemqueelasse
encontram,efazercomqueelasparticipemdoprojetoquetememmen-
te." Não só na pintura,masemqualquerníveldeexpressãovisual,
o problemaserásempreo mesmo.Basicamente,o pictóricoou visual
édeterminadopelainformaçãovisualobservada,pelainterpretaçãoe
percepçãodedadose pistasvisuais,pelatotalidadedamanifestação
visual.O conteúdoea formadeterminadospelodesignerrepresentam
apenastrêsdosquatrofatorespresentesnomodelodoprocessodeco-
municaçãovisual(fig.6.1):artista,conteúdo,forma.Quedizerdoquar-
to, o público?A percepção,a capacidadedeorganizara informação
visualquesepercebe,dependedeprocessosnaturais,dasnecessidades
e propensõesdo sistemanervosohumano.Emboratodoo corpoda
psicologiadaGestaltsejachamadopelosfrancesesdeIapsychologie
delaforme,seriaerradonãoatribuira mesmaimportânciaàpsicolo-
giadapercepçãoaoexaminarmosamaneiracomoextraímosinforma-
çõesvisuaisdaquiloquevemos.O conteúdoe a formaconstituema
manifestação;o mecanismoperceptivoé o meioparasuainterpreta-
ção.O inputvisualé fortementeafetadopelotipodenecessidadeque
motivaa investigaçãovisual,etambémpeloestadomentalou humor
dosujeito.Vemosaquiloqueprecisamosver.A visãoestáligadaàso-
FIGURA 6.1
Os símbolosea informaçãorepresentacionalgiramemtornodo
conteúdocomotransmissorescaracterísticosdeinformação.O design
abstrato,adisposiçãodoselementosbásicos,tendoemvistao efeito
pretendidoemumamanifestaçãovisual,éa formarevelada.Oscom-
ponentesda forma,istoé, a composição,sãoaspectosconvergentes
ou paralelosdecadaimagem,sejaa estruturaaparente,comonuma
formulaçãovisualabstrata,sejaelasubstituídapordetalhesrepresen-
tacionais,comonocasoda informaçãovisualrealista,ou, ainda,in-
formacionalmentedominadaporpalavrasesímbolos.Sejaqualfor a
substânciavisualbásica,acomposiçãoédeimportânciafundamental
emtermosinformacionais.EssepontodevistaédefendidoporSusan-
neLangeremProblemsof Art: "Faz-seumquadrodistribuindo-sepig-
mentossobreumpedaçodetela,masaimagemcriadanãoéasomatória
dopigmentoedaestruturadatela.A imagemqueemergedoprocesso
é umaestruturadeespaço,e o próprioespaçoé umtodoemergente
deformas,devolumescoloridosevisíveis."A mensagemeo signifi-
cadonãoseencontramnasubstânciafísica,massimnacomposição.
A formaexpressaoconteúdo."Artisticamentebométudoaquiloque
articulae apresentaum sentimentoa nossacompreensão."
* Em Reflectionson Art, SusanneK. Langer(ed.).
134 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL T~CNICASVISUAIS:ESTRAT~GIASDECOMUNICAÇAo 135
brevivênciacomosuamaisimportantefunção.Masvemoso quepre-
cisamosver em outro sentido,ou seja, atravésda influênciada
disposiçãomental,daspreferênciasedoestadodeespíritoemqueeven-
tualmentenosencontramos.Sejaparacompor,sejaparaver,ainfor-
maçãocontidanosdadosvisuaisdeveemergirdarededeinterpretações
subjetivas,ouserporelafiltrada."As palavrasdeumhomemmorto
sãomodificadasnasentranhasdosvivos", refleteW. H. Auden,em
seupoema"In Memoryof W. B. Yeats". Para realmenteexercero
máximodecontrolepossível,o compositorvisualdevecompreender
os complexosprocedimentosatravésdosquaiso organismohumano
vê,e,graçasaesseconhecimento,aprendera influenciarasrespostas
atravésdetécnicasvisuais.
A inteligêncianãoatuasozinhanasabstraçõesverbais.Pensar,
observar,entender,etantasoutrasqualidadesdainteligênciaestãoas-
sociadasàcompreensãovisual.Maso pensamentovisualnãoéumsis-
temaretardado;ainformaçãoétransmitidadiretamente.A forçamaior
dalinguagemvisualestáemseucaráterimediato,emsuaevidênciaes-
pontânea.Emtermosvisuais,nossapercepçãodo conteúdoeda for-
maé simultânea.É precisolidarcomamboscomoumaforçaúnica
quetransmiteinformaçãoda mesmamaneira.Escuroé escuro;alto
éalto;o significadoéobservável.Quandoadequadamentedesenvolvi-
daecomposta,umamensagemvisualvaidiretamenteanossocérebro,
parasercompreendidasemdecodificação,traduçãoou atrasocons-
cientes."Vocêvêaquiloqueconseguever" éocomentárioquesetor-
noumarcaregistradadohumoristaFlipWilson.E quãoacertadoéesse
seuditoespirituoso,emtermosdeanálisedacomunicaçãovisual.Na
verdade,nãoentraabsolutamenteemconflitocoma observaçãoda
grandefilósofadaestéticaqueéSusanneLanger:"...comoescreveu
umpsicólogoquetambémémúsico,'A músicasoacomoossentimen-
tossentem.E o mesmoacontececomapintura,aesculturaea arqui-
teturadealtonível,ondeasformaseascoresequilibradas,aslinhas
e as massasseassemelham,na imagemquenostransmitem,ao que
experimentamasemoções,tensõesvitaise resoluçõesquedelaspro-
vêm'".. O quevocêvê,vocêvê.Naimediatezseencontrao incompa-
rávelpoderdainteligênciavisual.O reconhecimentodessefatoedesse
potencialrevelaa importânciafundamental,emtermosdecontrole,
dessaimediatezdeexpressãomuitoespecial,queéespecíficadacomu-
nicaçãovisualesemanifestaatravésdousodetécnicasquenospermi-
tem controlar o significadodentro da estrutura.O design,a
manipulaçãodeelementosvisuais,éumacoisafluida,maso método
depré-visualizaçãoe deplanejamentoilustrao caráterdamensagem
sintetizada.É umtipoespecialdeinteligêncianão-verbal,e suanatu-
rezaestáligadaàemissãodeconteúdoemumaforma,atravésdocon-
troleexercidopelatécnica.ParacitarmosSusanneLangermaisuma
vez,eiscomo,emProblemsof Arf, eladescrevecommuitaperspicá-
ciao fatodaexpressãovisual:"A forma,nosentidoemqueosartis-
tasfalamde'formasignificante'ou 'expressiva',nãoéumaestrutura
abstrata,masumaaparição;eosprocessosvitaisdasensaçãoedaemo-
çãoqueumaboaobradearteexpressadãoaoobservadora impressão
deestaremdiretamentecontidosnela,nãosimbolizados,masrealmente
representados.A congruênciaétãoassombrosaquesímboloesignifi-
cadoparecemconstituirumasó realidade."
Inteligênciavisualaplicada
·Em Reflectionson Art, SusanneK. Langer(ed.).
A pré-visualizaçãoéumprocessoflexível.Idealmente,éa etapa
dodesignemqueo artista-compositormanipulaoelementovisualper-
tinentecomtécnicasapropriadasaoconteúdoeàmensagem,aolongo
deumasériedelivrestentativas.Por seremconside~adosdesnecessá-
rios,nessafasedodesenvolvimentodeumaidéiavisualsãoabandona-
dososdetalhes,etalvezatémesmoasassociaçõesjá identificáveiscom
o resultadofinal.Cadaartistadesenvolveumagrafiapessoal.Talvez
devidoà flexibilidadee à casualidadedessepasso,nabuscadeuma
soluçãocompositivaqueagradeaodesigner,ajuste-sea suafunçãoe
expresseasidéiasouocaráterpretendidos,aelaboraçãodemanifesta-
çõesvisuaiscostumaserassociadaaatividadesnão-cerebrais.Umasé-
riedeesboçosrápidoseostensivamenteindisciplinadoscertamentenão
sugerenenhumtipoderigorintelectual.Afinal, o artistaévistocomo
seestivessenumestadohipnótico,"no mundodaLua" enquantoto-
masuasdecisões.O queéquerealmenteacontece?Na verdade,o ar-
tista,designer,artesãooucomunicador visualestáenvolvidonumponto
136 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
crucialdesuatomadadedecisões,numprocessoextremamentecom-
plexodeseleçãoe rejeição.
O talento,o controleartísticodo meiodeexpressãoea intuição
costumamservistosdeummodoumtantoconfuso.De fato, o que
chamamosdeintuiçãonaarteéumacoisaextremamenteilusória.A
raizlatinadotermo,intuitus,significa"olhar oucontemplar",mas,
eminglês,apalavrapassoua indicarumtipoespecialdeconhecimen-
to, "conhecimentooucogniçãosempensamentoracional".A defini-
ção do dicionáriotambémtraz significadoscomo "apreensãoou
cogniçãoimediatas"e "insightrápidoeinstantâneo".A combinação
nadamaisfazqueaumentaraconfusão.Nasquestõesvisuais,aapreen-
sãoimediatadesignificadofazcomquetudopareçamuitofácilpara
serlevadoasériointelectualmente.E comete-secomoartistaainjusti-
ça deprivá-Iodeseugênioespecial.
Qualqueraventuravisual,pormaissimples,básicaoudespreten-
siosa,implicaa criaçãodealgoqueali nãoestavaantes,eemtornar
palpáveloqueaindanãoexiste.Masqualquerumécapazdeconceber
ou fazeralgumacoisa,mesmoquesejaumatortadebarro.Há crité-
riosaseremaplicadosaoprocessoeaojulgamentoquedelefazemos.
A inspiraçãosúbitae irracionalnãoéumaforçaaceitávelnodesigno
O planejamentocuidadoso,a indagaçãointelectualeo conhecimento
técnicosãonecessáriosnodesignenopré-planejamentovisual.Atra-
vésdesuasestratégiascompositivas,o artistadeveprocurarsoluções
paraosproblemasdebelezaefuncionalidade,deequilíbrioedorefor-
ço mútuoentreformaeconteúdo.Suabuscaéextremamenteintelec-
tual;suasopções,atravésdaescolhàdetécnicas,devemserracionais
econtroladas.Emtermosvisuais,acriaçãoemmúltiplosníveisdefun-
çãoeexpressãonãopodedar-senumestadoestéticosemicomatoso,
por maissublimequeo mesmosupostamenteseja.A inteligênciavi-
sualnãoédiferenteda inteligênciageral,e o controledoselementos
dosmeiosvisuaisapresentaos mesmosproblemasqueo domíniode
outrahabilidadequalquer.Essedomíniopressupõequesesaibacom
quesetrabalha,e dequemodosedeveproceder.
A composiçãovisualpartedoselementosbásicos:ponto,linha,
forma,direção,textura,dimensão,escalaemovimento.Na composi-
ção,o primeiropassotempor baseumaescolhadoselementosapro-
priadosaoveículodecomunicaçãocomquesevaitrabalhar.Emoutras
11'
TÉCNICAS VISUAIS: ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇAo 137
I
I
palavras,a formaéa estruturaelementar.Maso queseprecisafazer
aracriara estruturaelementar?As opçõesquelevamao efeitoex-
pressivodependemdamanipulaçãodoselementosatravésdetécnicas
~isuais.Entreos dois,elementose técnicas,eosmúltiplosmeiosque
oferecemao designer,há umnúmerorealmenteilimitadodeopções
paraocontroledoconteúdo.As opçõesdedesign,literalmenteinfini-
tas,tornamdifíciladescriçãodastécnicasvisuaissegundoo procedi-
mentorígidoedefinitivocomqueestabelecemoso significadocomum
daspalavras.
Veréumfatonaturaldoorganismohumano;a percepçãoéum
processodecapacitação.A práticadodesigntemumpoucoavercom
asduascoisas.Ouvirnãoimplicaa capacidadedeescrevermúsica,e,
pelomesmomotivo,o fatodevernãogaranteaninguémacapacidade
detornarcompreensíveise funcionaismanifestaçõesvisuais.A intui-
çãosimplesmentenãobasta;nãoéumaforçamísticadaexpressãovi-
sual.O significadovisual,talcomoétransmitidopelacomposição,pela
manipulaçãodoselementosepelastécnicasvisuais,implicaumaenor-
mesomatóriadefatorese forçasespecíficas.A técnicafundamental
é,semdúvida,ocontraste.É aforçaquetornaasestratégiascomposi-
tivasmaisvisíveis.O significado,porém,emergedasaçõespsicofisio-
lógicasdosestímulosexterioressobreoorganismohumano:atendência
aorganizartodasaspistasvisuaisemformaso maissimplespossível;
a associaçãoautomáticadaspistasvisuaisquepossuemsemelhanças
identificáveis;a incontornávelnecessidadedeequilíbrio;a associação
compulsivadeunidadesvisuaisnascidasdaproximidade;eo favoreci-
mento,emqualquercampovisual,daesquerdasobrea direita;e do
ânguloinferiorsobreo superior.Todosessesfatoresregema percep-
çãovisual,eo reconhecimentodecomooperampodefortaleceroune-
garo usodatécnica.Mais alémdo conhecimentooperativodessese
deoutrosfenômenosperceptivoshumanosencontra-sea formadeto-
dasascoisasvisuais,naarte,namanufaturaenanatureza.Seucará-ter,eapercepçãodomesmo,criamotodo,a forma.PaulSternaborda
SUadefiniçãonoensaio"On theProblemsof ArtisticForm"*: "So-
~e~t~quandotodososfatoresdeumaimagemetodososseusefeitos
Individuaisestãoemcompletasintoniacomo sentimentovital,intrín-
· EmReflecfionson Arf, SusanneK. Langer(ed.).
-
138 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
T~CNICAS VISUAIS: ESTRAT~GIAS DE COMUNICAÇAO 139
secoe únicoqueseexpressano todo- quando,por assimdizer,a
clarezada imagemcoincidecoma clarezado conteúdointerior- é
quesealcançauma'forma'verdadeiramenteartística."Emsuamani-
festaçãovisual,a formacompõe-sedoselementos,docaráteredadis-
posiçãodosmesmos,e da energiaqueprovocamno observador.A
escolhadequaiselementosbásicosserãoutilizadosnumdeterminado
design,e dequemodoissoseráfeito,tema vertantocoma forma
quantocoma direçãodaenergialiberadapelaformaqueresultano
conteúdo.O objetivoanalisadoedeclaradodocompositorvisual,seja
informativosejafuncional,ouaindadeambosostipos,servedecrité-
rio paraorientara buscadaformaqueseráassumidapor umamani-
festaçãovisual.Se,comoafirmouLouis Sullivan,"a formaseguea
função",serialógicoampliarseupensamentoeacrescentar"a forma
segueoconteúdo".Umaviãotemumaspectoqueseajustaàquiloque
faz. Suaformaéregidaemodeladaporaquiloqueelefaz.O mesmo
aconteceriacomumcartazqueanunciasseumaquermesseparoquial
deverão.Suaformanãodecorreriatantodesuafunçãoemsentido
mecânico,mas,muitomais,da funçãodeseuconteúdo.O cartazex-
pressao objetivoemfunçãodoqualfoi criado?Deveriaservivo,ale-
gre,atraente,movimentadoedivertido.É precisoquerepresenteerevele
o fim a quesedestina.Não apenasatravésdepalavrasou símbolos,
masdacomposiçãototal.Comporumcartazformale ilegívelparao
objetivoemquestãoseajustariaperfeitamenteàsOpçõescriativasde
umdesigner(fig.6.2),masosresultadosteriammuitopoucoavercom
asrazõesdesuacriação.Podemosverque,nessecaso,asescolhasde
técnicasnãosãoeficazes.Quetécnicasvisuaispodemexpressara es-
sênciadoacontecimentoatravésdeumcartaz?A luminosidadedotom
ea fragmentaçãosugeremestímuloearrebatamento;aespontaneida-
deindicaparticipaçãoemovimento.A claraformulaçãodamensagem
verbalrespondeà funçãodo cartaz,ou seja,solicitara presençado
público.Misturandotodasessascoisas,chegaremosaumasolução(fig.
6.3)quepareceadequada.
Técnicasde comunicaçãovisual
FIGURA 6.2 FIGURA 6.3
As técnicasvisuaisoferecemaodesignerumagrandevariedadede
meiosparaaexpressãovisualdoconteúdo.Existemcomopolaridades
deumcontinuum,oucomoabordagensdesiguaiseantagônicasdosig-
nificado.A fragmentação,o opostodatécnicadaunidade,éumaex-
celenteopçãoparademonstrarmovimentoevariedade,comosevêna
figura6.3.Comofuncionariaenquantoestratégiacompositivaquere-
fletisseanaturezadeumhospital?A análisedessanaturezaeumpro-
jetoquea representasseemtermoscompositivosdeveriaseguiromesmo
padrão,embuscadedescriçõesverbaiseficazes.Semdúvida,a "frag-
mentação"enquantotécnicaé umapéssimaescolh.aparafazeruma
associaçãocomumcentromédico,emborasejaótimaparadarmais
vidaao anúnciodeumaquermesseparoquial.O significad.ointerior
deambosos exemplosdeterminaasopçõesdequedispõeo designer
pararepresentá-Ios.Essasopçõesconstituemo controledo efeito,o
quevai resultarnumacomposiçãoforte.
As técnicasvisuaisnãodevemserpensadasemtermosdeopções
mutuamenteexcludentesparaaconstruçãoouaanálisedetudoaquilo
quevemos.Os extremosdesignificadopodemsertransformadosem
grausmenoresdeintensidade,aexemplodagradaçãodetonsdecinza
entreobrancoeo negro.Nessasvariantesencontra-seumavastíssima
gamadepossibilidadesdeexpressãoecompreensão.As sutilezascom-
positivasdequedispõeo designerdevem-seemparteàmultiplicidade
COME TO THE F AIR
GAMES EXHI81TS
FUN, RIDES, PRIZES
DON'T MISS IT'
SATURDAY
140 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL T~CNICAS VISUAIS: ESTRAT~GIAS DE COMUNICAÇAo 141
I1I
\
deopções,masastécnicasvisuaistambémsãocombináveise intera-
tuantesemsuautilizaçãocompositiva.É precisoesclarecerumponto:
aspolaridadestécnicasnuncadevemsersutisapontodecomprometer
a clarezado resultado.Emboranãosejanecessárioutilizá-Iasapenas
emseusextremosdeintensidade,devemseguirclaramenteumouou-
tro caminho.Senãoforemdefiníveis,tornar-se-ãotransmissoresam-
bíguoseineficientesdeinformação.O perigoéespecialmentesériona
comunicaçãovisual,queoperacoma velocidadeea imediatezdeum
canalde informação.
Seriaimpossívelenumerartodasastécnicasdisponíveis,ou, seo
fizéssemos,dar-Ihesdefiniçõesconsistentes.Aqui,comoaconteceacada
passodaestruturadosmeiosdecomunicaçãovisual,a interpretação
pessoalconstituiumimportantefator.Contudo,levando-seemconta
essaslimitações,cadatécnicaeseuopostopodemserdefinidosemter-
mosdeumapolaridade.
Equibbrio Instabilidade
Depoisdocontraste,o equilíbrio(fig.6.4)éo elementomaisim-
portantedastécnicasvisuais.Suaimportânciafundamentalbaseia-se
no funcionamentodapercepçãohumanaenaenormenecessidadede
suapresença,tantonodesignquantonareaçãodiantedeumamani-
festaçãovisual.Numcontinuumpolar,seuopostoéa instabilidade.
O equilíbrioéumaestratégiadedesignemqueexisteumcentrodesus-
pensãoa meiocaminhoentredoispesos.A instabilidade(fig. 6.5)é
aausênciadeequilíbrioeumaformulaçãovisualextremamenteinquie-
tantee provocadora.
FIGURA 6.4.EQUILíBRIO
~
O
FIGURA 6.5. INSTABILIDADE
_0.-
~.. Nova Arte TrioMozartBeethovenHindemith
142 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Simetria
~
Assimetria
TÉCNICAS VISUAIS: ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇAo 143
Regularidade Irregularidade
A regularidade(fig. 6.8)nodesignconstituio favorecimentoda
uniformidadedoselementos,eo desenvolvimentodeumaordemba-
seadaemalgumprincípiooumétodoconstanteeinvariável.Seuopos-
to é a irregularidade(fig. 6.9),que,enquantoestratégiade design,
enfatizao inesperadoeo insólito,semajustar-seanenhumplanodeci-
frável.
o equilíbriopodeserobtidonumamanifestaçãovisualdeduas
maneiras:simétrica(fig. 6.6)eassimetricamente(fig.6.7).Simetriaé
equilíbrioaxiaI.É umaformulaçãovisualtotalmenteresolvida,emque
cadaunidadesituadadeumladodeumalinhacentralérigorosamente
repetidadooutrolado.Trata-sedeumaconcepçãovisualcaracteriza-
da pelalógicae pelasimplicidadeabsolutas,masquepodetornar-se
estática,emesmoenfadonha.Osgregosveriamnaassimetriaumequi-
líbrio precário,mas,naverdade,o equilíbriopodeserobtidoatravés
davariaçãodeelementoseposições,queequivalea umequilíbriode
compensação.Nessetipo dedesign,o equilíbrioécomplicado,uma
vezquerequerum ajustedemuitasforças,emborasejainteressante
e fecundoemsuavariedade.
o
FIGURA 6.6.SIMETRIA
111'
11'
r
FIGURA 6.7.ASSIMETRIA
-
.. =. .............. ......... ........ ...".".. .. ....................... ....... ......
".f.t,.;'~? 4">~ d~'''".<!>.$>
:JI'.Jt:~ ;}l'Ifl..'".."~->lfd~~"'~
~~'?~,.:~~~:::.;~~~~t~~~
FIGURA 6.8.REGULARIDADE
:;:,::.~'ni
~~:~
FIGURA 6.9. IRREGULARIDADE
144 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Simplicidade
T~CNICAS VISUAIS: ESTRAT~GIAS DE COMUNICAÇAo 145
Complexidade Unidade
Fragmentação
As técnicasdeunidade(fig.6.12)e fragmentação(fig. 6.13)são
parecidascomasdasimplicidade-complexidade,eenvolvemestraté-
giasdedesignqueconservamo mesmoparentesco.A unidadeé um
equilíbrioadequadodeelementosdiversosemumatotalidadequese
percebevisualmente.A junçãodemuitasunidadesdeveharmonizar-
sedemodotãocompletoquepasseaservistaeconsideradacomouma
únicacoisa.A fragmentaçãoéadecomposiçãodoselementoseunida-
desdeumdesignempartesseparadas,queserelacionamentresi mas
conservamseucaráterindividual.
A ordemcontribuienormementeparaasíntesevisualdasimplici-
dade(fig.6.10),umatécnicavisualqueenvolveaimediatezeaunifor-
midadeda formaelementar,livre de complicaçõesou elaborações
secundárias.Suaformulaçãovisualoposta,acomplexidade(fig.6.11),
compreendeumacomplexidadevisualconstituídapor inúmerasuni-
dadeseforçaselementares,eresultanumdifícilprocessodeorganiza-
çãodo significadono âmbitodeum determinadopadrão.
1-
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I
FIGURA 6.10.SIMPLICIDADE
I
I
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FIGURA 6.11.COMPLEXIDADE
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CS) "
FIGURA 6.12.UNIDADEMUSIC AT MIT
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Il""'-: . i ~
~atl;.."1_, '",.1.,.",./..,
FIGURA 6.13.FRAGMENTAÇÃO
. . . .1
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O O O I If. . . .
O O O I -.-. . . .. .
146 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Economia Profusão
TÉCNICAS VISUAIS: ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇAo 147
Minimização
A presençadeunidadesmínimasdemeiosdecomunicaçãovisual
étípicadatécnicadaeconomia(fig.6.14),quecontrastademuitasma-
neirascomseuoposto,a técnicadaprofusão(fig. 6.15).A economia
éumaorganizaçãovisualparcimoniosaesensataemsuautilizaçãodos
elementos.A profusãoécarregadaemdireçãoa acréscimosdiscursi-
vosinfinitamentedetalhadosaumdesignbásico,osquais,emtermos
ideais,atenuame embelezamatravésdaornamentação.A profusãoé
umatécnicadeenriquecimentovisualassociadaaopodereà riqueza,
enquantoaeconomiaévisualmentefundamentaleenfatizao conser-
vadorismoe o abrandamentodo pobree do puro...
FIGURA 6.14.ECONOMIA
.
I
FIGURA 6.15.PROFUSÃO
Exagero
A minimização(fig.6.16)eo exagero(fig.6.17)sãoosequivalen-
tesintelectuaisdapolaridadeeconomia-profusão,eprestam-sea fins
parecidos,aindaquenumcontextodiferente.A minimizaçãoé uma
abordagemmuitoabrandada,queprocuraobterdoobservadoramá-
ximarespostaapartirdeelementosmínimos.Na verdade,emsuaes-
tudadatentativadecriargrandesefeitos,a minimizaçãoé a perfeita
imagemespeculardesuapolaridadevisual,o exagero.A seupróprio
modo,cadaumatomagrandesliberdadescomamanipulaçãodosde-
talhesvisuais.Para servisualmenteeficaz,o exagerodeverecorrera
umrelatoprofusoeextravagante,ampliandosuaexpressividadepara
muitoalémdaverdade,emsuatentativadeintensificareamplificar.
111
~," ,,~-'
"à N 'D ]R J: '\iV 'VVj'( JE T H
...~.~
'lI'
FIGURA 6.16.MINIMIZAÇÃO
=.t;:;::""..::.-- =~::--'-
FIGURA 6.17.EXAGERO
148 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Previsibilidade
~
Espontaneidade Atividade
TtCNICAS VISUAIS: ESTRATtGIAS DE COMUNICAÇÃO 149
A previsibilidade(fig.6.18)sugere,enquantotécnicavisual,algu-
maordemouplanoextremamenteconvencional.Sejaatravésdaexpe-
riência,daobservaçãoou darazão,é precisosercapazdepreverde
antemãocomovaisertodaamensagemvisual,efazê-Iocombasenum
mínimodeinformação.A espontaneidade(fig.6.19),poroutrolado,
caracteriza-seporumafaltaaparentedeplanejamento.É umatécnica
saturadadeemoção,impulsivae livre.
<=-- >='- --
Do
D~
DO O O
FIGURA 6.18.PREVISIBILIDADE
~ o
~;-/.#o/~
;, o.~-
~
il
FIGURA 6.19.ESPONTANEIDADE
,
Estase
A atividade(fig. 6.20)comotécnicavisualdeverefletiro movi-
mentoatravésdarepresentaçãooudasugestão.A posturaenérgicae
estimulantedeumatécnicavisualativavê-seprofundamentemodifi-
cadana forçaimóveldatécnicaderepresentaçãoestática(fig. 6.21),
aqual,atravésdoequilíbrioabsoluto,apresentaumefeitoderepouso
e tranqüilidade.
FIGURA 6.20.ATIVIDADE
FIGURA 6.21.ESTASE
I ,. I.rI I I..,!lI "
! I j· I 1111 I AI .'.- r. ,- ...
150 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
I[I
Sutileza
--
TÉCNICAS VISUAIS: ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇAo 151
Ousadia Neutralidade Ênfase
Numamensagemvisual,a sutilezaéa técnicaqueescolheríamos
paraestabelecerumadistinçãoapurada,quefugissea todaobviedade
e firmezadepropósito.Emboraasutileza(fig.6.22)sugiraumaabor-
dagemvisualdelicadaedeextremorequinte,devesercriteriosamente
concebidaparaqueassoluçõesencontradassejamhábeiseinventivas.
A ousadia(fig.6.23)é, por suapróprianatureza,umatécnicavisual
óbvia.Deveserutilizadapelodesignercomaudácia,segurançaecon-
fiança,umavezqueseuobjetivoé obtera máximavisibilidade.
FIGURA 6.22.SUTILEZA
1i
FIGURA 6.23.OUSADIA
Umdesignqueparecesseneutro(fig.6.24)seria,emtermos,qua-
seumacontradição,masnaverdadeháocasiõesemquea configura-
ção menosprovocadorade uma manifestaçãovisualpode ser o
procedimentomaiseficazparavencera resistênciado observador,e
mesmosuabeligerância.Muito poucoda atmosferadeneutralidade
éperturbadapelatécnicadaênfase(fig.6.25),emqueserealçaapenas
umacoisacontraum fundoemquepredominaa uniformidade.
D ~rII
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FIGURA 6.24.NEUTRALIDADE
RCHITECTUR
...<--ó...___
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0000
8 c§)
O COo
·-c:-
~:
~LUME 1 THE TRADITION OF MODER
DITION OF MODERN ARCHITECTUR
RV OF MODER
Goya
---'-
FIGURA 6.25.ÊNFASE
152 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Transparência
----
Opacidade Estabilidade
T~CNICASVISUAIS:ESTRATtGIAS DE COMUNICAÇAo 153
Variação
As polaridadestécnicasdetransparência(fig. 6.26)eopacidade
(fig. 6.27)definem-semutuamenteemtermosfísicos:a primeiraen-
volvedetalhesvisuaisatravésdosquaissepodever,detalmodoque
o quelhesfica atrástambémnosé reveladoaosolhos;a segundaé
exatamenteo contrário,ouseja,o bloqueiototal,o ocultamento,dos
elementosquesãovisualmentesubstituídos.
A estabilidade(fig.6.28)éatécnicaqueexpressaacompatibilida-
devisuale desenvolveumacomposiçãodominadapor umaaborda-
gemtemáticauniformeecoerente.Seaestratégiadamensagemexige
mudançaseelaborações,a técnicadavariação(fig. 6.29)oferecedi-
versidadee sortimento.Na composiçãovisual,contudo,essatécnica
refleteo usodavariaçãonacomposiçãomusical,no sentidodeque
as mutaçõessãocontroladaspor umtemadominante.
- --
FIGURA 6.26.TRANSPAR~NCIA
FIGURA 6.27.OPACIDADE
88Ci
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FIGURA 6.28.ESTABILIDADE
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FIGURA 6.29.VARIAÇÃO
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Exatidão
154 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
--I--
Distorção Planura
TÉCNICAS VISUAIS: ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇAo 155
Profundidade
A exatidão(fig. 6.30)éa técnicanaturaldacâmera,a opçãodo
artista.Nossaexperiênciavisualenaturaldascoisaséomodelodorea-
lismonasartesvisuais,esuautilizaçãopodeimplicarmuitostruques
e convençõesdestinadosa reproduzirasmesmaspistasvisuaisqueo
olhotransmiteaocérebro.A câmerasegueospadrõesdoolho,repro-
duzindo,conseqüentemente,muitosdeseusefeitos.Parao artista,o
usodaperspectivareforçadapelatécnicadoclaro-escuropodesugerir
oquevemosdiretamenteemnossaexperiência.Massãoilusõesóticas.
É exatamenteestaadenominaçãoque,empintura,sedáà formamais
estudadaeintencionaldeexatidão:(rompel'oeU.A distorção(fig.6.31)
adulterao realismo,procurandocontrolarseusefeitosatravésdodes-
viodaformaregular,e,emalgunsoutroscasos,atémesmodaforma
verdadeira.É umatécnicaquerespondebemàcomposiçãovisualmar-
cadaporobjetivosintensos,dando,nessesentido,excelentesrespostas
quandobemmanipulada.
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FIGURA 6.30.EXATIDÃO
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FIGURA 6.31.DISTORÇÃO
Essasduastécnicassãobasicamenteregidaspelousooupelaau-
sênciadeperspectiva,e sãointensificadaspelareproduçãoda infor-
maçãoambientalatravésda imitaçãodos efeitosde luz e sombra
característicosdoclaro-escuro(fig.6.32,6.33),como objetivodesu-
gerirou deeliminara aparêncianaturaldedimensão.
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ProcHIdures
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FIGURA 6.32.PLANURA
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FIGURA 6.33.PROFUNDIDADE
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156 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Singularidade
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Justaposição Seqüencialidade
T~CNICAS VISUAIS: ESTRAT~GIAS DE COMUNICAÇAo 157
A singularidade(fig. 6.34)equivalea focalizar,numacomposi-
ção,umtemaisoladoeindependente,quenãocontacomo apoiode
quaisqueroutrosestímulosvisuais,tantoparticularesquantogerais.
A maisfortecaracterísticadessatécnicaéatransmissãodeumaênfase
específica.A justaposição(fig.6.35)exprimea interaçãodeestímulos
visuais,colocando,comofaz, duassugestõesladoa ladoe ativando
a comparaçãodasrelaçõesqueseestabelecementreelas.\
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FIGURA 6.34.SINGULARIDADE
III
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AND THE CITY
FIGURA 6.35.JUSTAPOSIÇÃO
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Acaso
No design,umaordenaçãoseqüencial(fig.6.36)baseia-senares-
postacompositivaa umprojetoderepresentaçãoquesedispõenuma
ordemlógica.A ordenaçãopodeseguirumafórmulaqualquer,mas
emgeralenvolveumasériedecoisasdispostassegundoumpadrãorít-
mico.Umatécnicacasual(fig.6.37)devesugerirumaausênciadepla-
nejamento,umadesorganizaçãointencionalouaapresentaçãoacidental
da informaçãovisual.
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FIGURA 6.36.SEQÜENCIALIDADE
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Carter
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FIGURA 6.37.ACASO
158 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Agudeza
,.........-
Difusão Repetição
TÉCNICAS VISUAIS: ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇAo 159
Episodicidade
A repetição(fig.6.40)correspondeàsconexõesvisuaisininterruptas
quetêmimportânciaespecialemqualquermanifestaçãovisualunifi-
cada.No cinema,naarquiteturaenasartesgráficas,a continuidade
nãosedefineapenaspelospassosininterruptosquelevamdeumpon-
toaoutro,mastambémporsera forçacoesivaquemantémunidauma
composiçãodeelementosdíspares.As técnicasepisódicas(fig. 6.41)
indicam,naexpressãovisual,adesconexão,ou,pelomenos,apontam
paraaexistênciadeconexõesmuitofrágeis.É umatécnicaquereforça
a qualidadeindividualdaspartesdo todo,semabandonarpor com-
pletoo significadomaior.
A agudeza(fig.6.38)comotécnicavisualestáestreitamenteliga-
daàclarezadoestadofísicoeàclarezadeexpressão.Atravésdapreci-
são e do usode contornosrígidos,o efeitofinal é claroe fácil de
interpretar.A difusão(fig. 6.39)é suave,preocupa-semenoscoma
precisãoemaiscomacriaçãodeumaatmosferadesentimentoecalor.
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FIGURA 6.38.AGUDEZA
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FIGURA 6.39.DIFUSÃO
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FIGURA 6.41.EPISODICIDADE
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160 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Essastécnicassãoapenasalgunsdosmuitospossíveismodifica-
doresdeinformaçãoqueseencontramàdisposiçãododesigner.Qua-
setodoformuladorvisualtemsuacontrapartida,ecadaumestáligado
aocontroledoselementosvisuaisqueresultamnaconfiguraçãodocon-
teúdoenaelaboraçãodamensagem.Muitasoutrastécnicasvisuaispo-
demserexploradas,descobertaseempregadasnacomposição,sempre
no âmbitoda polaridadeação-reação:luminosidade,embaçamento;
cor, monocromatismo;angularidade,rotundidade;verticalidade,ho-
rizontalidade;delineamento,mecanicidade;interseção,paralelismo.
Seusestadosantagônicosdepolaridadedãoaocompositorvisualuma
grandeoportunidadedeaguçar,graçasàutilizaçãodocontraste,aobra
emquesãoaplicados.
Emtodoesforçocompositivo,astécnicasvisuaissesobrepõemao
significadoeo reforçam;emconjunto,oferecemaoartistaeao leigo
os meiosmaiseficazesdecriarecompreendera comunicaçãovisual
expressiva,nabuscadeumalinguagemvisualuniversal.
7
A SÍNTESE DO ESTILO VISUAL
'I
1.Escolhaqualquerpardetécnicasopostas(ênfase-neutralidade,
exagero-minimização,profundídade-planura,etc.),eencontre,paraca-
daum,omaiornúmeropossíveldeexemplos.Ordene-osdeumapola-
ridadea outra.
2.Escolhaqualquertemavisualefotografe-oparademonstrartan-
tastécnicasvisuaisquantasfor capazdeexpressaratravésdediferen-
tesenfoqueseposições,alémdeoutrasvariaçõestécnicasqueincluam
a luz.
3. Escolhaumadastécnicasenumeradasenãoilustradas,e faça
um esboçoabstratoparailustrá-Ia.
4. Selecionealgunsanúncios,cartazesou fotoseassociecadaum
às técnicasmaisevidentespresentesemsuacomposição.
Noscapítulosanterioresháumadiversidadedepontosdevistaa res-
peitodequaisfatoreseforçasdevemserconhecidospeloartistaepelo
comunicadorvisual,paraconstruir,compore pré-planejarqualquer
materialvisualemtermosdesignificadoouatmosfera.O conhecimen-
todeprincípiosperceptivoscompartilhadosconstituiumpontodepar-
tida,umabaseparao prognósticodecertasdecisõesvisuaissobrea
organizaçãodeum projeto.Os elementosoferecemao comunicador
visuala substânciafundamental(esaturadadesignificado)paraessa
construção.A classificaçãodosdiferentesníveísdeinputeoutputvi-
suaisindicao caminhoparaa definiçãointeligentedatarefaedeseu
propósitosubjacente.As técnicassãooscapacitadores,asopçõespara
umatomadadedecisãoquecontroleos resultados.Em conjunto,es-
sesmeiosvisuaisoferecemao artistaumoutroníveldeformaecon-
teúdo,queabrangeamanifestaçãopessoaldocriadorindividuale,além
disso,a filosofiavisualcomumeo caráterdeumgrupo,umacultura
ou umperíodohistórico.
Exercícios
III1~
Estilo
O estiloéasíntesevisualdeelementos,técnicas,sintaxe,inspira-
ção,expressãoe finalidadebásica.É complexoedifícil dedescrever
comclareza.Talvezamelhormaneiradeestabelecersuadefinição,em
termosdealfabetismovisual,sejavê-lo comoumacategoriaouclasse
deexpressãovisualmodeladapelaplenitudedeumambientecultural.
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162 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL A SfNTESE DO ESTILO VISUAL 163
111
I
,,11
Por exemplo,asdiferençasentrea arteorientale a ocidentalsãoas
convençõesqueasregem.Dessesdoisestilosculturais,o orientaléde
longeo maisconvencionalizado,istoé, governadopor regrassólidas
eprincípiosbásicosqueenvolvemtraçosculturaisdeconsenso.Naquase
totalidadedaartejaponesa,etambémnoestilodevidadopovojapo-
nês,háumanítidadeferênciaparacomo meio.Issoremetebasica-
menteàmaneiradefazerascoisas,quersetratedo desenhodeuma
imagem,daconcepçãodeumjardim,dapreparaçãodocháoudacom-
posiçãodehaicais.A abordagemdetodasessascoisaspressupõecrité-
rioselevados,amorao beloedevoçãopor partedo indivíduoquese
dedicaataistarefas,masoconceitodemeiovaialémdoscritériosaqui
mencionados.A mélhormaneiradeilustrá-Ioconsisteemdescreveras
normasqueregemacriaçãodehaicais.A formaérigidamentedefini-
da. Um haicaideveterdezessetesílabas,nemmais,nemmenos.As
variaçõesnãosãopermitidasnemrespeitadas.Todaequalqueresco-
lhadetécnicaedeexpressãoindividualdeveajustar-seaumformato
prescrito.Trata-sedeumaconvenção.Masosjaponesesnãosóacei-
tamasregrasabsolutasparaa escritadessetipo especialdepoema,
comotambémprocurama liberdadedentrodadisciplinaimpostaepa-
recemsentir-seàvontadeaotrabalharnoâmbitodeumadeterminada
estrutura.Os resultadosnãoparecemmenoscriativosdo queos das
formaspoéticasmaislivres,queoferecema possibilidadedeopções
subjetivas.Ninguém,defato,poderiavero haicaicomoumclichêem
potencial.
O estiloinfluenciaaexpressãoartísticaquasetantoquantoacon-
venção.Mas asnormasestilísticassãomaissutisqueasconvenções,
eexercemsobreo atodecriaçãomaisinfluênciaquecontrole.As con-
vençõesartísticasocidentaissãomaislivresquea artedoOriente,e,
noentanto,oestilopessoalcujodesenvolvimentofavorecemérestrin-
gidopelocontextosuperpostodoestilocultural.O arquitetoLouisSul-
livan sentiaa estruturaimpostadestemodo: "Você não pode
expressar-se,a menosquetenhaum sistemadeexpressão;nãopode
terumsistemadeexpressão,amenosquetenhaumsistemaanterior
depensamentoepercepção;nãopodeterumsistemadepensamento
epercepção,a menosquetenhaumsistemabásicodevida." Paraos
artistase aspessoasemgeral,os sistemasdevidasãoculturalmente
condicionados,eadefiniçãogradualdascategoriasmaisamplasdeex-
pressãovisualajudama entendera relaçãoentreo estiloindividuale
a precedênciae o predomíniodo estilocultural.
Há muitosnomesdeestilosartístícosqueidentificamnãoapenas
umametodologiaexpressiva,mastambémumperíodohistóricoeuma
posiçãogeográficadistinta:bizantino,renascentista,barroco,impres-
sionista,dadaísta,flamengo,gótico,Bauhaus,vitoriano.Cadanome
evocaumasériedepistasvisuaisidentificáveisque,emconjunto,abar-
cama obrademuitosartistas,alémdeumperíodoeumlugar.Ase-
melhançaentrea obradosimpressionistasleva-aaservistacomoum
grupoestilísticoúnico,coerenteecorrelacionado,quedemodoalgum
comprometea individualidadereconhecíveldecadaartistaidentificá-
velno conjunto.O períodovitorianopodenãosugeriros nomesde
umgrupodeartistasquetrabalhamsegundoummesmoestilo,mas
nãoháamenordúvidadequeexisteumariquezadereferentesvisuais
queseassociamaessadesignação.Comoissoépossível?Em suabus-
cadenovasformas,cadagrupoindividualestabelecesuasprópriastra-
dições.Ao nívelestrutural,abuscadenovasformasimplicaarealização
deexperimentoscomumaorquestraçãocompositivadoselementos,e
o estabelecimentodenovastradiçõeseresultadosdentrodeumame-
todologiabaseadanaescolhadetécnicasvisuaismanipulativas.Aspre-
ferênciasmetodológicassãocompartilhadasporartistaseartesãosque
trabalhamsegundoumdeterminadoestilo.É possível,então,escolher
umexemplodeumperíodoestilísticoespecíficoeanalisá-losoboponto
devistadesuaestruturaelementaredasdecisõescompositivasàsquais
sechegoupelaescolhadastécnicasquepossibilitaram...suaexistência.
Osrequinteseasvariantestécnicaspodemservirparaidentificara in-
dividualidadeestilísticadeumartistaespecífico,masumaanáliseapar-
tir deumpontodevistamaisamploirá efetivamentedefiniro estilo
detodaumaescolaou detodoumperíodoqueabrangesuaobra.
O impressionismo,porexemplo,éumperíodoestilísticointeira-
menteassociadoà pintura.Foi umaescolafrancesa,cujosmembros
trabalhavamemParisearredoresemmeadosdoséculoXIX. A pintu-
ra deMonetéumexemplodoselementose técnicasqueconfiguram
a escolatoda(fig. 7.1).O estilogóticonãoapareceapenasna forma
arquitetõnica,mastambémnaescultura,nasartesgráficasenoarte-
sanato.Difundiu-sepelaEuropasetentrional,daFrançaàAlemanha
eInglaterra,abrangendoumperíododetempoquevaidefinsdosécu-
II
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164 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
A SíNTESE DO ESTILO VISUAL 165
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Darnomea umestiloouaumaescoladeexpressãovisualéuma
grandeconveniênciahistóricaparafacilitaraidentificaçãoea referên-
cia(fig.7.3),embora,noperíodocontemporâneo,anomenclaturate-
nhasefragmentadodetal formaqueseprecipitouemumasituação
absurda.Doopaopopeaotop(ográfico),asmudançasdenomesacon-
tecemquasetodososdias,apontodepodermosdizerqueconstituem
umaexpressãoemsi mesmos.Certamentea individualidadedeuma
obranãosóédesejável,mastambéminevitável.Todoserhumanotem
umrostoúnico,impressõesdigitaisúnicaseumpadrãoúnicodees-
quadrinhamento,esepedíssemosacadaumquedesenhasseumcírcu-
lo, todosos círculosseriamúnicos.No entanto,o agrupamentoem
estilosaparecenaanálisedeumperíodohistórico,tantovisualquanto
filosoficamente.Nãosóaobradeartistasindividuaisseagrupademodo
naturalcombasenasrelaçõesentremeios,métodosetécnicas;osgru-
posestilísticospodem,damesmamaneira,relacionar-seentresi, gra-
çasàs semelhançasde formae conteúdo,aindaqueestejammuito
distantesnotempoenoespaço,tantohistóricaquantogeograficamente.
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FIGURA 7.1
10XII aoséculoXIII, echegaaoséculoXIV, numafasedetransição
caracterizadaporversõesdoestiloextremamentedecorativas.Umexem-
plopurodoestilogótico,etalvezo maisfamoso,éacatedraldeChar-
tres(fig.7.2).Maisumav~z,oexemploespecíficoservedeespelhopara
todaumaclasse,quevaibuscarmuitoselementosdesuaformaecon-
teúdonaescolhadastécnicascompositivas.
I.,
CATEGORIA ESTILÍSTlCA GERAL
CLAssI; OU ESCOLA
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FIGURA 7.2 FIGURA 7.3
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I
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166 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL A SfNTESE DO ESTILO VISIT A I 167
I
11
Nasartesvisuais,o estiloé a sínteseúltimadetodasasforçase
fatores,aunificação,aintegraçãodeinúmerasdecisõeseestágiosdis-
tintos.No primeironívelestáaescolhadomeiodecomunicação,ea
influênciadestesobrea formaeo conteúdo.Depoisvemo objetivo,
a razãopelaqualalgumacoisaestásendofeita:sobrevivência,comu-
nicação,expressãopessoal.O atodefazerapresentaumasériedeop-
ções:abuscadedecisõescompositivasatravésdaescolhadeelementos
edoreconhecimentodocaráterelementar;amanipulaçãodoselemen-
tosatravésdaescolhadastécnicasapropriadas.O resultadofinaléuma
expressãoindividual(àsvezesgrupal),regidapor muitosdosfatores
acimaenumerados,maisinfluenciada,especialeprofundamente,pelo
quesepassano ambientesocial,físico,políticoe psicológico,todos
elesfundamentaisparatudoaquiloquefazemosou expressamosvi-
sualmente.
Qualéa influênciaperceptivadasforçasexterioressobrea cria-
çãodetodasasclassesdeobjetosvisuais,esobreaexpressãodeidéias?
Acostumadoavivernumespaçoreduzidoecompoucaluz,ohabitan-
tedasgrandesflorestastemumaenormedificuldadeparaenxergarnu-
maplanícieabertaeintensamenteiluminada.A formulaçãoopostase
aplicaaohabitantedosdesertos:acostumadoàsgrandesdistâncias,en-
xergacomdificuldadequandoseencontraemambientefechado.Es-
tassãocondiçõespuramentepsicológicas,masospadrõessociaiseo
comportamentodosgruposentresiecomrelaçãoaoutrosgruposexer-
cemenormeinfluênciasobreapercepçãoeaexpressão.As percepções
sãoformadasporcrenças,religiãoefilosofia;aquiloemqueacredita-
mosexerceumenormecontrolesobreaquiloquevemos.As classes
dominanteseasquesãodominadas,ouseja,osfatoresdeordempolí-
ticaeeconômica,atuamemconjuntoparainfluenciara percepçãoe
darformaàexpressão.Juntos,apolítica,aeconomia,o meioambien-
teeos padrõessociaiscriamumapsiquecoletiva.Essasmesmasfor-
ças,quesedesenvolvememlinguagensindividuaisno planoverbal,
combinam-senomodovisualparacriarumestilocomumdeexpressão.
Ao longodetodaahistóriadohomem,quasetodososprodutos
dasartesedosofíciosvisuaispodemserassociadosa cincograndes
categoriasdeestilovisual:primitivo,expressionista,clássico,ornamen-
tal e funcional.Os períodosestilísticose asescolasmenoresseassO-
ciam,porsuascaracterísticas,aumaoualgumasdessascategoriasgerais
eabrangentes.Paraentendereexecutaressascategorizações,épreciso
elevar-seacimadosrótulosestereotipadoseascenderaumníveldede-
finiçõesarquetípicas.Por exemplo,asprimeirastentativasqueo ho-
memfezderegistrare transmitirinformaçõesnaspinturasrupestres
do suldaFrançaedo nortedaEspanhacostumamserchamadasde
primitivas.Em TheHistoryof Art, E. H. Gombrichdiz: "não porse-
remmaissimplesquenós- seusprocessosmentaissãofreqüentemente
mais complexosque os nossos- maspor estaremmais próximos do
estadodo qualtodaa humanidadeemergiu".
Primitivismo
Já quea únicacoisaquerestadasintençõesdohomemprimitivo
aocriarseusdesenhos,trintamilanosatrás,sãoosprópriosdesenhos,
sópodemosformularhipótesessobreosobjetivosquetinhamemmente.
Paraesseshomens,os animaisemseumeioambienterepresentavam
tantoumaameaçamortalquantoummeiodesobrevivência.Em qua-
setodososcasos,essesanimaisconstituíamo temaprincipaldesuas
obras.Por queelesosdesenhavamnasprofundezasdascavernasem
queseabrigavamnoinverno,esemprenapartemaisaltadasparedes?
Algumashipótesesparecemmaisprováveisqueoutras.Umadasqua-
lidadesdaspinturasrupestreséseurealismo,umacaracterísticainco-
mumdaarteprimitiva,o quesugerequeeramconcebidasparaseruma
ajudavisual,ummanualdecaçacompostopararecriarosproblemas
dacaçaerevigoraro conhecimentodocaçador,alémdeinstruirosque
aindaeraminexperientes.Essateoriaencontraapoioemdetalhesde
desenhoscomflechasqueapontamparaórgãosvitaisepartesvulne-
ráveisdosanimais.Os desenhostêmlinhasdeumlirismosurpreen-
dente,esãorealmenteencantadores,indicandoserprovávelquetenham
sidofeitoscomgrandeamoreapreçopelosanimaisrepresentados.É
possívelquenossohomemdascavernasdetrintaséculosatrásreal-
mentecompartilhassedanostalgiadeseuspredecessoresarborícolas,
bemcomodalembrançadeestaçõesmaisquentes,quandoa caçaera
abundante,ehavia,portanto,muitoalimento.Podeserqueessasobras
tenhamsaídodasmãosdosprimeirospintoresdedomingodasocieda-
de,edeve-seenfatizaro fatodeseremdegrandebelezaeextremamen-
~
168 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
A SÍ:'I:TESE DO ESTILO VISUAL 169
"
tesofisticadas,sejamquaisforemospadrõesartísticospelosquaisas
julguemos.Mas o meioambienteameaçadorcolocavao homempri-
mitivodiantedequestõesparaasquaisnãohaviarespostas,e,àseme-
lhançadaquiloquebuscavaa maioriados homens,essesdesenhos
devemtertidoalgumarelaçãocomosmistériosqueeletentavacom-preender,e, portanto,devemter-seprestadodealgumaformaa um
objetivoquasereligioso.
Certamenteo animal,juntocomoutrosobjetosdanaturezaco-
munsaomeioambiente,apareceocupandoumaposiçãorelevantenas
religiõesprimitivas,expressandoo podermísticoqueos homenslhes
atribuíam.Ossímboloszoomórficos,chamadosdetotens,diferemem
muitosaspectosdosanimaisdesenhadosnascavernas.Antesdemais
nada,suafinalidadesocialémaiscomplexa.Alémdeseusignificado
religioso,tambémestãoligadosaocumprimentodedeterminadasleis,
proibindoo incestonossistemassociaissimplesdehomenspré-letrados,
aoexplicitarcommaisclarezaasligaçõesdogrupoquecompartilhava
o mesmototem.Os totensdo clãassumiamumafinalidadecientífica
quandoeramusadosparaidentificara relaçãoentreasconstelações
no céue suasposiçõesvariáveisnasdiferentesestações.Mais tarde,
os totensdo zodíacoserviramcomoprimeirocalendáriodo homem.
Sãoessesossímbolosastrológicossobosquaisnascemos,equemui-
tosaindahojevêemcomoindicaçõesextremamentesignificativasde
suapersonalidade,e atémesmodeseudestino.
A únicamaneiraválidadeclassificaressesdesenhospré-históricos
é tentardefiniro primitivocomoumestilo,combaseemumafinali-
dadeeemalgumastécnicas.A arteeodesignprimitivossãoestilistica-
mentesimples,ou seja,nãodesenvolveramtécnicasdereprodução
realistadainformaçãovisualnatural.Na verdade,trata-sedeumesti-
lo muitoricoem"símbolos" comfortecargadesignificado,e, por
essarazão,podemtermuitomaisavercomo desenvolvimentodaes-
critadoquecomaexpressãovisual.É possívelesboçarumaseqüência
dasvariaçõesderegistroda informaçãovisual,quetalvezsejamuito
esclarecedoraemtermosda linguagemambíguadasartesvisuais.A
pinturadascavernaséumatentativahumanadeolharparaanatureza
erepresentá-Iacomo máximoderealismopossível.É umdesenhofei-
to por algummembrodatribodotadodeumacapacidadeespecialde
expressargraficamenteaquiloquevia.É umacapacidadequeseuscom-
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I
I
I
I
J
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: i
panheirosnãotinham.Seudesenhosetorna,então,umalinguagem
quetodospodemcompreender,masquenemtodossãocapazesdefa-
lar.O toteméemgeralumaabstraçãodanatureza,umasimplificação
quecorporificaaessênciadoobjeto.Essasimbolizaçãoabstratadana-
turezapodeserreproduzidaportodos;éumalinguagemquetodossão
capazesdeentenderefalar.Masumpassoédadoquandosurgeosím-
bolo quenãotemligaçãocomquaisquerobjetosdo meioambiente,
quecontéminformaçãocodificadaepodesermanipuladoportodos,
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1111
170 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
f\ Sí:-.lTESE DO ESTILO VISUAL 171
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1111
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comoasletraseosnúmeros,masquedeveseraprendido,umavezque
seusignificadolhe foi arbitrariamenteatribuído.
Considerando-sequequalquerformadealfabetismo,ouseja,qual-
quersistemadeescrita,émuitoimprovávelemumpovoprimitivo,não
surpreendequehajaumariquezatãograndedesímbolos.O símbolo
é, caracteristicamente,a estenografiadacomunicaçãovisual,eonde
querquesejausado,sobretudonaarteprimitiva,canalizaumagrande
energiainformativadocriadoraseupúblico.Outrosaspectosdaarte
primitivareforçamessasqualidadesdeintensificaçãodo significado.
A simplicidadedasformas,naverdade,asimplicidade,éumaprimiti-
vatécnicavisualdeestilo.A representaçãoplanaé tambémumadas
técnicasmaisfreqüentementedetectáveisnasobrasvisuaisprimitivas,
assimcomoascoresprimárias.A somatóriadetodasessastécnicas
constituiumaespéciedeatributoinfantildoestiloprimitivo,quetem
algumaimportâncianasíntesedessemesmoestilo.AntonEhrenzweig
valorizatantoessaabordagemquediz,emTheHiddenOrderDfArt:
"é precisonadamenosquea despreocupaçãodacriançaparacomo
pormenorestético,esuaimpetuosatendênciaparao todosincrético".
O queEhrenzweigentendepor"sincrético"éumaespéciededesprezo
deliberadopelodetalhe,nabuscadaapreensãodo significadodoob-
jeto total.Na arteprimitiva,naobravisualdascriançaseemmuitas
outrasformasdearte,avisãosincréticaéumintensoepoderosomeio
deexpressão.A caricaturaéumbomexemplodamanipulaçãodarea-
lidadedaspartesdeumrostohumano,que,emconjunto,seasseme-
lhamuitomaisàpessoaretratadadoqueumretratorealista.Por quê?
Porqueostraçosespecíficosdapessoaretratadasãoexagerados,eo
resultadocolocaemcurto-circuitoasinformaçõesmaisimportantes,
levando-asdiretamenteà percepçãodo observador.
Consideramosincipienteaobradascriançasedospovosprimiti-
vos,masantesdeaceitaressejulgamentodeveríamosreavaliaraobra
tendoemvistaosobjetivosquelevamasuacriação.A adequaçãoexerce
umgrandeefeitosobrequalquerobravisual,edeveríamosdaro devi-
do valorà intensidadee à purezadesseestilo.
Todo estilovisualextraiseucarátere suaformadastécnicasvi-
suaisaplicadas,sejaconscientemente,por partedo artesãoou artista
quereceberamumasólidaformação,sejainconscientemente,comono
casodoshomensprimitivosou dascrianças.
Técnicasprimitivas
Exagero
Espontaneidade
Atividade
Simplicidade
Distorção
Planura
Irregularidade
Rotundidade
Colorismo
Expressionismo
.
I
O expressionismoestáestreitamenteligadoaoestiloprimitivo;a
únicadiferençaimportanteentreosdoisé a intenção.É comumque
o detalheexageradodo primitivosejapartedeumatendênciaparaa
representacionalidade,umatentativélsinceradefazercomqueascoi-
saspareçammaisreais,tentativaquefracassapelafaltadetécnicas.
O expressionismousao exageropropositalmente,como objetivode
distorcera realidade.É umestiloquebuscaprovocara emoção,seja
religiosaouintelectual.Partedesuasraízesencontram-senoprimitivo
conflitocristãoentrea iconoduliaea iconoclastia.Em seusprimór-
dios,o Cristianismofoi umanovareligiãoprofundamenteinfluencia-
dapelaproibiçãohebraicadaadoraçãodeimagens,queeramassociadas
a falsosdeuses.Chegou-sedepoisa ummeio-termo:umaabstração
darealidade,queeraaindareconhecível.A distorçãoeaênfasenaemo-
çãofazemdaartebizantinaumtípicoexemplodoestiloexpressionis-
ta.Ondequerqueexista,oestiloultrapassao racionaleatingeomístico,
umavisãointeriordarealidade,saturadadepaixãoeintensificadape-
lo sentimento.
O expressionismosempredominoua obradeartistasindividuais
oudeescolasinteiras,cujaproduçãopodesercaracterizadaporsenti-
mentosintensoseporgrandeespiritualidade.A IdadeMédia,porexem-
plo,produziuumdosmaioresexemplosdesseestilo,ogótico.Foi um
períodohistóricocheiodeerros,simbolizadopelasCruzadas,umexer-
cíciodedoisséculosdefutilidade.Atravésdetudoisso,porém,num
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172 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
A SfNTESE DO ESTILO VISUAL 173
I
I
usointensodaslinhasverticais,davaa quemseencontrasseemseu
interiorumasensaçãodeestarlevitandoe sendoalçadoaoscéus.
A mesmaintensidadedesentimentosestápresentenaspaisagens
eretratosdeEI GrecoeKokoschka,cujasobraspodemserfortemente
associadasaosmosaicosdo ImpérioBizantino.Sejanogóticoou no
bizantino,ouaindanaobradeartistasindividuais,o estiloexpressio-
nistaestápresentesemprequeo artistaou designerprocuraevocara
máximarespostaemocionalno observador.
Técnicasexpressionistas
Exagero
Espontaneidade
Atividade
Complexidade
Rotundidade
Ousadia
Variação
Distorção
Irregularidade
Justaposição
Verticalidade
Classicismo
gestocontínuodedevoçãoa Deusedeprocuradasalvaçãoeternano
céu,aspessoasjuntaramseusesforçosparaconstruirsuasigrejasco-
moumaoferendadesuascidades.Soba supervisãodemestrescons-
trutoreseartesãos,cadacidadãotrabalhavaanonimamenteparadar
algumacontribuiçãoduradouraaseuDeus.O resultadofoi umlento
masapaixonantedesenvolvimentodacatedralgótica,cujosarcosagu-
doseabobadados,ecujosarcobotantesabriamespaçoparaquea luz
entrasseatravésdosvitrais.O movimentoparacima,atenuadopelo
O caráteremocionaldoexpressionismocriaumcontrastediretocom
a racionalidadededesignmetodologicamentetípicadaartegregae ro-
mana,queproduziuo estilovisualprototípicodo cIassicismo.Em sua
formamaispura,o estiloclássicoextraisuainspiraçãodeduasfontes
distintas.Primeiro,éinfluenciadopeloamorànatureza,idealizadopelos
gregosdemodoa tornar-seumaespéciedesupra-realidade.Em vezde
veremasipróprios(comofaziamosjudeu-cristãos)comoemissáriosde
DeusnaTerra,adoravammuitosdeusesdotadosdevariáveiseespecífi-
cospoderesdesuper-homens,deusesemgeralembuscadeprazeresex-tremamentemundanos.Os gregosbuscavama verdadepura em sua
filosofiaeciência,eaquiseencontraa segundafontedoestiloclássico.
Formalizavamsuaarteatravésdamatemática,ecriarama seçãoáurea,
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I~'I 174 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL A SíNTESE DO ESTILO VISUAL 175
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Gréciae Romaforama fontedo Renascimento,umperíodocujo
nomesignificavaexatamenteisso,umaretomadadatradiçãoclássica.Os
eruditoseosartistasitalianosdoséculoXV estUdaramtodosostesouros
remanescentesdessasculturas,e, sobsuainfluência,voltaramsuaaten-
çãoparaohumanismo,afastando-sedostemascristãosdaIdadeMédia.
Emboraosartistaseartesãosseconcentrassemnaversãogreco-romana
deestiloclássico,o Renascimentofoi, naverdade,umaexpressãoindivi-
dualdomesmotema.Comoseuspredecessores,admiravamarealidade,
e, atravésdodesenvolvimentodaperspectivaedeumtratamentoúnico
daluznapintura,conseguiramreproduziremseusquadroso meioam-
bientequasecomoseeleestivessesendorefletidonumespelho.Nãofoi
por meracoincidênciaqueosprimeirosvislumbresda futurainvenção
dafotografiatenhamsurgidonoRenascimento,naformadacâmaraes-
cura,umaespéciedebrinquedoparareproduziro ambientenasparedes
deumasalaescura.
TantonoséculoXV quantonoXVI, o artistavisualselibertoude
seuanonimatoepassouaserreconhecido,nãosócomoindivíduo,mas
tambémcomoummestrecujaeducaçãotinhadeseramesmadeumeru-
ditoclássico.Na época,e comonuncadeixariadeser,a perfeiçãoera
associadaaoestiloclássico.A exemplodacultOragreco-romana,o Re-
nascimentofoi umgrandemarcodivisóriodeidéiasartísticase filosófi-
cas,e umperíododegrandesgênios.
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Técnicasclássicas
Harmonia
Simplicidade
Exatidão
Simetria
Agudeza
Monocromatismo
Profundidade
Estabilidade
Estase
UnidadeIIIIIIII
umafórmulaparaorientarasdecisõesnocampododesignoA elegância
visualquebuscavamestavaligadaaessesistema,masa rigidezquedele
decorriaeraengrandecidapor umaexecuçãoperfeitae suavizadapelos
cálidosefeitosdaesculturadecorativa,pelapinturaepelosartefatosque
realçavamasubestruturadesuafórmula.Osgregosprocuravama bele-
zanarealidade.Glorificavamo homemeseuambientenatural.Aprecia-
vamo pensamento.Seusesforçosproduziramumestilovisualdotadode
racionalidadee lógica,tantona artequantono designo
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176 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
A SfNTESE DO ESTILO VISUAL 177
o estiloornamental
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feitoparaumreiou imperadorcujaspreocupaçõesnãovãoalémda
satisfaçãodeseusprópriosprazeres.Sãomuitososperíodoseescolas
deartee designquepodemseragrupadossobessadesignaçãogeral
deornamentação:Art Nouveau,estilovitoriano,romanotardio.Em
todososcasos,o designétipicamentegrandioso,comumadecoração
infinitadesuperfíciesqueo fazparecerregidopeloseguinteaforismo:
a ligaçãomaisdesejávelentredoispontosé umalinhacurva.
Nenhumaescolaémaisrepresentativadasqualidadesdesseestilo
doqueo Barroco.Esseperíodoserviudeponteentreo Renascimento
eaeramoderna,difundindoseuestilodesdesuasorigensitalianas,ao
nortedosAlpes,atéFlandres,Alemanha,Inglaterra,França,Europa
Central,Espanhae, levadopelosmissionárioscatólicos,AméricaLa-
tinaeExtremoOriente.O Renascimentotinhasidoitalianoe,emqua-
setodososseusaspectos,umestilohomogêneo.A artebarrocaéuma
categoriagenéricaemuitoinadequadaqueagrupaumperíodovasto
e diversificadodeexpressãocriativae seestendepelosséculosXVII
eXVIII. Pormaisinadequadaquepossaser,contudo,refleteumaépo-
cadeanacronismoedegrandesriquezasladoa ladocomumagrande
pobreza.É umaarteemquecertamentenãoháespaçoparaaobjetivi-
dadeou a realidade,não importaa quenível.
A exuberânciadoBarrocosemdúvidaparecetermuitopoucare-
laçãocomoperíodovitoriano,embora,naverdade,osdoisestiloscom-
partilhemamesmacategoriaestilística.As fontesdeinspiraçãodeseu
caráterornamentaldiferemnitidamente.Paraumacultura,o decora-
tivismodesenfreadoeraumaposturasimbólicadeglóriaepoder,ao
passoque,parao períodovitoriano,tratava-semaisdo quedeuma
simplesorgiadearabescosdomésticos.
O estiloornamentalenfatizaaatenuaçãodosângulosagudoscom
técnicasvisuaisdiscursivasqueresultamemefeitoscálidoseelegantes.
Esseestilonãosóésuntuosoemsimesmo,comotambémcostumaser
associadoàriquezaeaopoder.Osefeitosgrandiososquepodeprodu-
zir constituemumabandonodarealidadeemfavordadecoraçãotea-
traledomundodafantasia.Emoutraspalavras,anaturezadesseestilo
é freqüentementefloridaeexagerada,configurandoumambienteper-
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Técnicasornamentais
Complexidade
Profusão
Exagero
Rotundidade
Ousadia
Fragmentação
Variação
Colorismo
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A SÍNTESE DO ESTILO VISUAL 179
haus,umaescoladearteiniciadapor WalterGropiuseumgrupode
eminentesprofessoresalemães,imediatamenteapóso términodaguer-
ra,em1919.Seuobjetivoeraacriaçãodenovasformaseo encontro
denovassoluçõesparaasnecessidadesbásicasdohomem,semdeixar
deladosuasnecessidadesestéticas.O currículodaBauhausretomou
osfundamentos,osmateriaisbásicoseasregrasbásicasdodesignoAs
questõesqueousaramformularlevaramanovasdefiniçõesdobelono
âmbitodosaspectospráticose nãoornamentaisdo funcional.
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178 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
Atividade
Brilho
Funcionalidade
Emboraafuncionalidadecostumeserfundamentalmenteassociada
ao designcontemporâneo,elaé naverdadetão antigaquantoo pri-
meirorecipienteparaáguacriadopelohomem.É umametodologia
dedesignestreitamenteligadaà regrada utilidadee a considerações
deordemeconômica.O adventodaRevoluçãoIndustrialedodesen-
volvimentotecnológicouniua filosofiademeiossimplesàcapacidade
naturaldamáquina,aindaqueessesmeiossimplessempretenhames-
tadoaoalcancedafabricaçãoedamanufatura.A principaldiferença
entreoutrasabordagensestilísticasevisuaiseoestilofuncionaléabusca
da belezanasqualidadestemáticase expressivasdaestruturabásica
e subjacente,emqualquerobravisual.
Encontrarumvalorestéticonosprodutosartesanaisnãoconstitui
novidade.É umprocedimentotípicodequalquerartesãoquesedelei-
tacomasimperfeiçõesrelacionadasàlutatravadaentreeleeseumeio.
As mesmaspessoasquepelaprimeiravezdesenvolveramumafiloso-
fia modernadoartesanato,ospré-rafaelitas,fizeram-nocombasena
recusatotaldo conceitodefabricaçãopelamáquina.Na Inglaterra,
lideradopor WilliamMorris, o Arts andCraftsCounciladotouuma
filosofiaparaaqual" A verdadedafabricaçãoéa fabricaçãomanual,
ea fabricaçãomanualéa fabricaçãoporprazer".Optaramporvoltar
ascostasàdesagradávelrealidadedaproduçãoemmassa.Maso fato
degostaremounãocareciadeimportância- amáquinatinhavindo
paraficar.O primeirogrupoquerealmentetentoucompreenderasim-
plicaçõesda máquinaecolocar-seà alturadeseupotencialfoi uma
confederaçãoindependentedearquitetos,designerseartesãos,quevi-
verametrabalharamnaAlemanhaantesdaPrimeiraGuerraMundial.
Davamasimesmoso nomedeDeutscherWerkbund,etentaramche-
garaumaconsciênciamaisprofundadosignificadointerioredanatu-
rezadascoisasqueconcebiam,atravésdabuscadaSachlichkeit,ou
objetividadedeseusmateriais.Suastentativasdeencontrarmeiosque
reconciliassemo artistacoma máquinainspiraramacriaçãodaBau-
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180 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL A Si:-';TESE 110ESTILO VISUAL 181
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TécnicasfuncIOnais
Simplicidade
Simetria
Angularidade
Previsibilidade
Estabilidade
Seqüencialidade
Unidade
Repetição
Economia
Sutileza
Planura
Regularidade
Agudeza
Monocromatismo
Mecanicidade
Exercícios
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1. Façaumdesenhoou umacolagemabstrataqueexpresseuma
categoriaestilísticabásica,ecombineastécnicasvisuaisquenelamais
sobressaem.Vocêpodeempregartécnicasdecolagem,masevitea in-
formaçãovisualrepresentacional.
2. Inspirando-seno exercícioanterior,tirealgumasfotosouen-
contrereproduçõesdefotosqueexpressemoestiloqueestásendoana-lisado.
3. Façaumarelaçãodeexemplosespecíficosqueidentifiquemos
cincodiferenteestilosvisuaisemqualquerumdosseguintescasos:ar-
quitetura,moda,designdeinteriores.Sepossível,encontreexemplos
queilustremseuspressupostos.Vocêpoderiafazero mesmocomes-
péciesvivasda natureza,comoárvoresou pássaros?
4. Façaumesboçodecomepoderiafotografaromesmotemaem
estilosdiferentes.Anote astécnicasquevocêutilizaria.
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A estruturaeo significadodo estilotêmmuitomaisaspectosdo
quepodemserabarcadosexclusivamenteemtermosdecategorias,ou
detécnicasquetêmparticipaçãointensanodesenvolvimentodessasca-
tegorias.Paraefeitodedefiniçãoestéticaouaplicaçãoprática,a sim-
plificaçãodosconceitosestilísticoseasvariaçõestécnicassãodegrande
utilidadenacompreensãoenocontroledosmeiosvisuais.A simplifi-
cação,porém,nãoafetaacomplexidadedoalfabetismovisual.O exer-
cíciodecategorizaçãoépuramentearbitrário,eo númerodetécnicas
éinfinitoemsuassutisvariações.Da formacomosãoabordadasaqui,
sãoapenasumasugestãoemmeioaosimensosrecursosdenossovoca-
buláriovisual.Mas éprecisoquea pessoainexperienteesemforma-
çãovisualtenhaumpontodepartidaquefuncione,eo conhecimento
da naturezadetodosos componentesdacomunicaçãovisualoferece
um meiodebuscarmétodosdedesignquepropiciemalgumacerteza
quantoao acertodassoluçõesencontradas.
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8
AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO
E MENSAGEM
Quaissãoasrazõesbásicasesubjacentesparaacriação(concep-
ção, fabricação,construção,manufatura)detodasasinúmerasfor-
masdemateriaisvisuais?As circunstânciassãomuitas,algumasvezes
clarasediretas,outras,multilateraisesobrepostas.O principalfator
demotivaçãoéa respostaaumanecessidade,masagamadenecessi-
dadeshumanasabrangeumaáreaenorme.Podemserimediataseprá-
ticas,tendoa vercomquestõestriviaisdavidacotidiana,ou podem
estarvoltadasparanecessidadesmaiselevadasdeauto-expressãode
umestadodeespíritooudeumaidéia.O amoraobelo,porexemplo,
podeinspirara decoraçãodeumobjetodeumamaneiramodestae
pessoal,ou umgrandiosoplanoparatodoumambiente,cuidadosa-
menteconcebidoparaa obtençãodeumefeitoestéticoconjunto.No
modovisual,muitosobjetossedestinama glorificarou a preservar
amemóriadeumindivíduoougrupo,àsvezescomalcancemonumen-
tal,maisfreqüentementecomfinalidadesmaismodestas.Masamaior
partedomaterialvisualproduzidodiz respeitounicamenteà necessi-
dadederegistrar,preservar,reproduzireidentificarpessoas,lugares,
objetosouclassesdedadosvisuais.Essesmateriaissãodegrandeutili-
dadeparademonstrareensinar,tantoformalquantoinformalmente.
A últimarazãomotivadora,eademaioralcance,éautilizaçãodeto-
dososníveisdosdadosvisuaisparaampliaro processodacomunica-
çãohumana.
Osdadosvisuaispodemtransmitirinformação:mensagensespe-
cíficasou sentimentosexpressivos,tantointencionalmente,comum
objetivodefinido,quantoobliquamente,comoumsubprodutodauti-
~
184 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 185
I
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J
lidade.Umacoisaécerta:no universodosmeiosdecomunicaçãovi-
sual, inclusiveas formasmaiscausaise secundárias,algumtipo de
informaçãoestápresente,tenhaelarecebidoumaconfiguraçãoartísti-
caou sejaelaresultadodeumaproduçãocasual.Em qualquernível
deavaliaçãosempreinconstantedoqueconstituiarteaplicadaoubelas-
artes,todaformavisualconcebíveltemumacapacidadeincomparável
deinformaroobservadorsobresimesmaeseuprópriomundo,ouainda
sobreoutrostemposelugares,distantesedesconhecidos.Essaéaca-
racterísticamaisexclusivaeinestimáveldeumavastagamadeforma-
tosvisuaisaparentementedissociados.
Um meiovisualpodedesempenharmuitospapéisaomesmotem-
po. Por exemplo,umpõsterquesedestinabasicamenteaanunciarum
concertodepiano,podeacabarservindoparadecoraraparededeum
estúdio,superando,assim,afinalidadecomunicativaquemotivousua
criação.Umapinturaabstrata,concebidapeloartistadeformaintei-
ramentesubjetivaecomoexpressãodeseussentimentos,podeserusa-
dacomoilustraçãodecontra-capadealgumfolhetoeditadoporuma
organizaçãodecaridade,como objetivodelevantarfundosparasuas
atividades.Os objetivosdosmeiosvisuaissemisturam,interageme
setransformamcomumacomplexidadecaleidoscópica.Paracompreen-
derosmeiosdecomunicaçãovisuais,éprecisoquenossoconhecimen-
to sobreelesse fundamentenumcritériode grandeamplitude.As
respostasàsindagaçõessobreosmotivosqueoslevamaseremconce-
bidoseproduzidossãofluidas,easperguntas,portanto,tambémde-
vemsê-Io.Deveminterrogaranaturezadecadameiodecomunicação,
suafunçãoou níveisde função,suaadequação,a clientelaa quese
destinae,porúltimo,suahistóriaesuamaneiradeserviràsnecessida-
dessociais.
I
Há muitasrazõesparalevaremconsideraçãoo potencialdoalfa-
betismovisual.Algumassãoprovocadaspelaslimitaçõesdoalfabetis-
mo verbal.A leiturae a escrita,e sua relaçãocom a educação,
constituemaindaumluxo dasnaçõesmaisricase tecnologicamente
maisdesenvolvidasdomundo.Paraosanalfabetos,a linguagemfala-
da,a imagemeo símbolocontinuamsendoosprincipaismeiosdeco-
municaçãoe, dentreeles,só o visualpodesermantidoemqualquer
circunstânciaprática.Issoé tão verdadeirohojequantotemsidoao
longodahistória.Na IdadeMédiaenoRenascimento,o artistaservia
à Igrejacomopropagandista.Nos vitrais,nasestátuas,nosentalhes
eafrescos,naspinturaseilustraçõesdemanuscritos,eraelequemtrans-
mitiavisualmente"a Palavra"aumpúblicoque,graçasa seusesfor-
ços,podiaverashistóriasbíblicasdeformapalpável.O comunicador
visualtem,de fato, servidoao imperadore ao comissáriodo povo.
O "realismosocial"da RevoluçãoRussapunhaalgunsfatosdaco-
municaçãovisualdiantedeumpúblicoanalfabetoeprovavelmentedes-
tituídodequalquersofisticação.Em filmescomo"Os dezdiasque
abalaramo mundo"ou "O encouraçadoPotemkin",Eisensteininse-
riu trechosdejornaiscinematográficosreais,masemseumaterialori-
ginalseguiatécnicasdocumentaisquebuscavama autenticidadeese
destinavamaconvencero públicodequesetratavadeumtestemunho
histórico.Na ilustração,napinturae no design,os russosseguema
mesmatécnicado hiper-realismo,eo fazemcomo mesmofim. Am-
bososcasosrespondemaofatodequeacomunicaçãopictóricadirigi-
da a gruposdebaixoíndicedealfabetização,sepretendesereficaz,
devesersimpleserealista.A sutilezaeasofisticaçãotendemasercon-
traproducentes.Deve-sebuscarumequilíbrioideal:nemumasimplifi-
caçãoexagerada,queexcluadetalhesimportantes,nemacomplexidade
queintroduzadetalhesdesnecessários.Sãoessesosprocedimentosca-
pazesdeampliare reforçara compreensão.O realismosimplificado
foi tambémaabordagemdeumextraordináriogrupodepintoresme-
xicanos- Siqueros,OrozcoeRivera- para transmitir asmensagens
derevoluçãosocialdeseusgovernos.Elesemuitosoutrosartistasres-
suscitarama técnicado afresco,e usaram-naparadecoraros muros
dascidadesprovincianascomimagenscujoobjetivofundamentalera
apropagandapolítica.Osmeiosvisuaiscomfinalidadeseducativastam-
bémforamutilizadosnacampanhadecontroledemográficonaÍndia,
naidentificaçãodepartidospolíticosnomundointeiroenadoutrina-
çãopolíticaemCuba.Entreaspopulaçõesanalfabetas,aeficáciada
comunicaçãovisualé inquestionável.
Masasimplicaçõesdanaturezauniversaldainformaçãovisualnão
seesgotamemseuusocomosubstitutivoda informaçãoverbal.Não
Alguns aspectosuniversaisda comunicaçãovisual
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186 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MENSAGEM 187
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hánenhumconflitoentreosdoistiposdeinformação.Cadaumatem
suasespecificidades,maso modovisualaindanãofoiutilizadoemsua
plenitude.A compreensãovisualé ummeionaturalquenãoprecisa
seraprendido,masapenasrefinadoatravésdo alfabetismovisual.O
quevemosnãoé, comona linguagem,umsubstitutoqueprecisaser
traduzidodeumestadoparaoutro.Emtermosperceptivos,umama-
çãé a mesmacoisatantoparaumnorte-americanoquantoparaum
francês,aindaqueo primeiroachamedeapple,eo segundo,depom-
me.Mas, damesmaformaquena linguagem,a comunicaçãovisual
efetivadeveevitaraambigüidadedaspistasvisuaisetentarexpressarasidéiasdomodomaissimplesedireto.É atravésdasofisticaçãoex-
cessivaedaescolhadeumsimbolismocomplexoqueasdificuldades
interculturaispodemsurgirnacomunicaçãovisual.
Já houvemuitastentativasdedesenvolversistemasquepudessem
reforçaro alfabetismovisualuniversal.Umadelaséo equivalentevi-
sualdeumdicionárioqueusa,emvezdepalavras,imagensdiagramá-
ticas extremamentesimples,numa tentativade estabeleceruma
uniformidadededadosvisuais.Essesistemapictográficoéchamado
de ISOTYPE, umaabreviaçãodeseunomecompleto:International
Systemof TypographicPictureEducation.A compilaçãoconsisteem
umagrandesériededesenhosemformadecartum,nosquaisserepre-
sentamobjetosconhecidos,quesedestinama seremidentificadosde
imediatograçasàênfasedascaracterísticasmaisimportantesdaquilo
querepresentam.Até o momento,essesistema,ououtrosparecidos,
aindanãoforamamplamenteutilizados.Nãosea~entouaindaemsua
importânciaparaoscomputadoresvisuaisou comoformaadiantada
de umalinguagemdesignosinternacionais.
O cartunistafrancêsJeanEffel tentoudesenvolveroutrotipode
sistemadecomunicaçãovisualuniversal,umaespéciede"esperanto"
visual,queconcebeuparaaproveitarosmúltiplossistemasdesímbo-
losquejá sãodeusocorrentenomundo.Um exemplodoqueeleestá
tentandofazerpodedemonstraraspossibilidadesdetalsistema.O lei-
tor podetentarlê-Iovisualmente.
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O símbolomatemáticoquesignifica"existe".
( ~ ) denotaumverbo.
O sinalinternacionaldetrânsitosimbolizadopor
umabifurcaçãona estrada.
A faixa oblíquaé um sinal internacionalde
proibição.
A mãoqueapontaéumaformaidentificávelque
significa"isso".
rT Símbolomarginalparadenotaralgumacoisaes-pecífica.Símbololingüísticodepergunta.
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A mensagemé extraídadeHamlet,deShakespeare:"To beor
nottobe,thatisthequestiono" .
O maiorproblemado sistemadeEffel, quandocomparadoao
ISOTYPE, é queelenãopassadeumanovaversãodequalquerlin-
guagembaseadaemsímbolospictográficosouabstratos.Todasassuas
pistasvisuaissãosubstitutosqueprecisamsertraduzidosparaadqui-
rir significado.Em outraspalavras,Effel estárealmenteinventando
outralinguagemqueignoraaquelaqualidadeespecialdainformação
visual,queé a evidênciaespontânea.É essaqualidade,a apreensão
diretadainformaçãovisual,queacrescentamaisumadimensãoàcon-
veniênciadosdadosvisuaisenquantomeiosdecomunicação:aextraor-
dináriacapacidadedeexpressarinúmerossegmentosdeinformaçãode
umasó vez,intantaneamente.
Atravésdaexpressãovisual,somoscapazesdeestruturarumaafir-
maçãodireta;atravésdapercepçãovisual,vivenciamosumainterpre-
I~I
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II
1,11
I
188 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MENSAGEM 189
11111
taçãodiretadaquiloqueestamosvendo.Todasasunidadesindividuais
dosestímulosvisuaisinteragem,criandoummosaicodeforçassatura-
dasdesignificado,masdeumtipoespecialdesignificado,exclusivo
doalfabetismovisualepassíveldeserdiretamenteabsorvidocommuito
poucoesforço,secomparadoà lentadecodificaçãoda linguagem.A
inteligênciavisualtransmiteinformaçãoa umaextraordináriaveloci-
dade,e, seosdadosestiveremclaramenteorganizadose formulados,
essainformaçãonãosóémaisfácildeabsorver,comotambémdere-
ter e utilizarreferencialmente.
O maisdireto,aindaqueinformal,detodosos meiosvisuais,é
aqueledequetodosparticipamos,conscientementeounão,atravésda
expressãofacialedagesticulaçãocorporal.Um saboramargoprovoca-
rá, emqualquerpartedomundo,amesmareação:umadistorçãodos
músculosdorosto.Acrescente-seomedoàmesmaexpressão,eelapas-
saráa comunicaro sofrimentoprovocadopelador. O risodeescár-
nio, o sorrisoe o acenode cabeçasão variaçõesexpressivasde
significadouniversal,quepodemtranscenderfronteirasnacionais,cul-
turase línguasdiferentes.Os italianospossuemumvastoarsenallin-
güísticodeimprecações,todaselasacompanhadasporexpressõesfaciais
egestoseloqüentes.O mesmoé feitoporoutrosgruposétnicos.Ape-
sardeserumainvençãonorte-americana,emquasetodasaspartesdo
mundoummotoristaidentificacomoumpedidodecaronao punho
cerradocomo polegarindicandoumadeterminadadireção.O punho
cerradoe o braçolevantadoé um símboloda unidadecomunista;a
mãoaberta,comapalmaparabaixoeo braçoformandoumângulo
como corpoéa saudaçãofascistatomadadeempréstimoàsantigas
legiõesromanaspelosfascistasitalianos,emaistardeadotadapelos
nazistasda S.A. deHitler. Todosessesexemplosestãorelacionados
aumalinguagemcomunicativasimplesebásica,empregadapelosho-
menseatémesmopelosanimais(todossabemosmuitobemo queum
cachorroquerdizerquandoabanasuacauda),parasecomunicarvi-
sualmente.O movimentodasmãosformao alfabetodossurdos,mas
a maioriadasexpressõese dosgestosémuitomenosformalizada,e
sóexistecomoumaespéciedelinguagempopular.Na dançaenotea-
tro, o gestoea expressãorecebemoutrosnomes- balé,representa-
ção - e, nessecontexto,sãovistoscomoarte.
O gestQ,a expressão,a linguagemescritaea simbolizaçãoestão
todosaoalcancedo leigo.Masasarteseosofíciosvisuais,o desenho
industrial,a fotografia,a pintura,a esculturaea arquiteturaexigem
dosqueos praticamumtalentoespecíficoe umaformaçãoespecial.
Cadaumdosmeiosdecomunicaçãovisualtemnãoapenasseuspró-
prioselementosestruturais,mastambémumametodologiaúnicapara
aaplicaçãodasdecisõescompositivaseautilizaçãodetécnicasemsua
conceitualizaçãoe formulação.O entendimentodessasforçasamplia
o campoda experimentaçãoe da interpretaçãotantoparao criador
quantoparao observador,eos levaa umconjuntodecritériosmais
sofisticadosdeavaliaçãovisual,capazesdeunirmaisestreitamentea
realizaçãoe o significado.
Escultura
1111'11
A essênciadaesculturaconsisteno fatodeserconstruídacomma-
teriaissólidoseexistiremtrêsdimensões.A maioriadasoutrasfor-
masdeartevisual- pintura,desenho,artesgráficas,fotografia,cinema
- apenassugereastrêsdimensõesatravésdeumautilizaçãoextrema-
mentesofisticadada perspectivae da luz e sombrado claro-escuro.
As pontasdenossosdedoscolocadassobreumafotoou pinturanão
nosdariamnenhumainformaçãosobreaconfiguraçãofísicadotema
representado,masaevoluçãodarepresentaçãobidimensionaldeobje-
tostridimensionaisnoscondicionoua aceitara ilusãodeumaforma
que,naverdade,éapenassugerida.Na escultura,pbrém,a formaali
está;podesertocada,lidaoucompreendidapeloscegos.LorenzoGhi-
berti,o escultore pintor florentino,observava:"a perfeiçãodetais
obrasnosfogeaosolhos,esópodeserentendidasepassarmosamão
pelosplanosecurvasdo mármore".Emboraosavisos"Proibido to-
car" tornemquaseimpossívela experiênciatátildaescultura,seuca-
ráterdimensionalpodeserpercebidopelavisão.
Comoo restantedenossomundonatural,aesculturaexistenuma
formaque,alémdepodersertocada,tambémpodeservistaa partir
deumnúmeroinfinitodeângulos,comcadaplanocorrespondendo
àquiloque,emduasdimensões,seriaumdesenhocompleto.Essaenor-
mecomplexidadedevefundir-senumaestruturatãounificadaque,co-
mo observouMichelangelo,deveriaser possívela uma escultura
despencardeumacolinasemquesedesprendesseumúnicosegmento
dotodo.A pedraeomármore,materiaisnosquaisaesculturaécinze-
lada,sãobastantefortes,mastambémquebradiços.A sutilezadede-
talheséimpossível,eacoesãododesignéimprescindível.A consciência
queMichelangelotinhadessefatodisciplinavasuaconcepçãodeuma
obra.Elepensavanaesculturacomojá existentenointeriordapedra,
eviacomoproblemafundamentaldoescultorsualiberaçãoparaarea-
lidade.Emnenhumoutroexemplodaarteescultóricaessafilosofiaes-
tá melhordemonstradado que nas figuras,tão apropriadamente
chamadasde"Escravos",queconcebeuparao túmulodopapaJúlio
(fig. 8.1).Emcadafiguradessasérie,Michelangelodemonstrao pro-
cessodaescultura;o esboçorústicodasformasgerais,abuscadeuma
informaçãomaisdescritivanamesmaforma,e,porúltimo,o mármo-
reextremamentedetalhadoepolidoatéresultarumaformafinalqua-
se viva, cujos tecidosdão a impressãode respirar.Esseefeitoé
intensificadopelocontraste,poiscadafiguraseencontraemdiversos
emúltiplosestadosdeacabamento:umamãojá concluídaeminucio-
sa,queemergedeumbraçotoscamenteesboçado,queporsuavezsurge
deum mármoreintacto,numajustaposiçãoqueintensificacadaum
dosestados.As figurasnãosóemergemdapedragraçasàhabilidade
inquiridoradeMichelangelo,mastambém,quasecomosetivessemvon-
larl
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190 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
1,1
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1,1
FIGURA 8.1
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AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 191
tadeprópria,parecemlutarcontrao mármoreemsuatentativade
libertar-se.Dasseisfigurasoriginalmenteprojetadasparao túmulo,
somenteduasforamconcluídas.As outrasquatroestãonaAcademia
deFlorença,e, nesseestadoúnicodeobrasemparteconcluídas,em
parteintactas,oferecema possibilidadedeumestudocompletoe in-
comparáveldecomoa esculturaé concebidae executada.
A palavraesculturavemdesculpere,entalhar,emboraosegundo
métodopreferidoemesculturanãorecorraaoentalhe,masaumpro-
cessodeconstruçãoqueutilizamateriaismaleáveis,comoa argilaou
a cera.Issooferecemaioresoportunidadesdeexperimentaçãoealte-
rações;duranteo processodeconstrução,a obranuncaestádefiniti-
vamenteacabada,detal formaqueoserrospodemsercorrigidossem
dificuldade.Quandoaobraestáconcluída,háduasmaneirasdefazer
comqueaargilamaciachegueaseuestadodefinitivo:podesercozida
aaltatemperatura,atésolidificar-senummaterialchamadoterracota,
ouvazadaemmoldesdeplásticooudeummetalpermanente,dosquais
o maiscomuméobronze.Essemétodopermiteumadelicadezaeuma
fluidezexpressivaimpossíveisdeobterna pedraquebradiça.
Comexceçãodobaixo-relevo,umaespéciedeponte"embraile"
entrea formabidimensionaleaverdadeiraformatridimensional,aes-
culturadevesercontroladaatravésda compacidadedo designoSeja
enfatizandoa figurahumanaglorificada,comonosmelhoresmomen-
tosdoperíodoclássicogrego,sejaacentuandoaespiritualidadedoho-
mem,atravésdasfigurasexpressionistasqueintegravamaarquitetura
da IdadeMédia,a simplicidadeé o ingredientemaisnecessáriopara
a eficáciada escultura.
Projetarumaobratridimensionalrequerdoisesboçosbidimen-
sionaisquepermitamumareflexãosobreosdiferentesângulosa par-
tir dosquaisaobraserávista(fig. 8.2).No casodaesculturaquevai
sercinzelada(tantoem pedraquantoem madeira),o designdeve
concentrar-senaamplamoldagemdasmassas,maisquenosdetalhes
enassutilezas.Essasoutrasconsideraçõesserãosugeridasetrabalha-
dasnumaetapaposteriordodesenvolvimento.A principalpreocupa-
ção deveser imaginaro materialdesdeuma formageralatéuma
informaçãovisualmaisespecífica.
A mesmaobservaçãoaplica-seà esculturaem argilaou cera,
enfatizando-sesempreque,nessecaso,épossíveldesenvolverumpro-
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192 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MENSAGEM 193
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FIGURA 8,3
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FIGURA 8.2 entalhe;emoutroscasosessetrabalhoéentregueaespecialistasemre-
produçãoapartirdeumoriginal.Issoaconteceprincipalmentenoca.
sodaesculturademonumentosdegrandesdimensões,nos'quaisaescala
éomaisimportanteelementodeinterpretação.Masumaesculturaque
perdecontatocomamãocriadoradoartistaoudesigner,aolongode
seuprocessodecriação,tambémperdemuitoemtermosdeintegridade.
Osmétodosmodernosdeproduçãodeesculturasvãodesdea in-
formaçãorealistaextraídado meioambiente,passandopor umain-
formaçãocadavezmenosnatural,atéumaabstraçãoabsoluta,que
enfatizaa formapura,dominadapeloselementosvisuaisda formae
dadimensão.
As conquistasmaiscaracterísticasdaesculturacontemporâneasão
aabstração,a semi-abstração,a mobilidadedo designbásico,novos
materiaisevelhosmateriaisusadosdemaneiranova.Mesmonasten-
dênciasmaisexperimentais,asobrasmodernasconservamo caráter
"
cessomuitomaislivredeexploraçãoebuscadesoluções.A argilaou
acerapodemserfacilmenteacrescentadasouretiradas,detalmaneira
que,aindaquepossamserutilizadosos esboçosa linha,o processo
deacrescentarou retirarconstitui,emsi mesmo,umesboçoquevai
dainterpretaçãotoscaelivreaumaetapadedefiniçãocadavezmaior
(fig. 8.3).Algunsescultoresquetrabalhamemargilaavançam,atra-
vésdessaprogressão,atéumestadofinalextremamenterealistaebem
acabado,aopassoqueoutros,comoJacobEpstein,preferemdeixar
a riquezatexturaldoprocessocomoparteintegranteevisíveldaquali-
dadedaobra.
Um modeloemargilapodeserusadoparao entalhedegrandes
obrasempedraou mármore,usando-secompassosdecalibreouou-
tros instrumentosdemedida.Algumasvezes,o próprioartistafazo
'li
-.......-
1,1
194 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MENSAGEM 195
essencialdessaformaartística:a dimensãoquepodeservistaetoca-
da. A esculturatemdeexistirno espaço.
residenciaise edifíciospúblicos,os métodose materiaisexprimemo
espíritoe a atitudedeumpovoe deumaépoca,o queIhesconfere
umenormesignificado.Muitasdasformasexpressamumsignificado
simbólico:o pináculo,buscandoocéu;acúpula,representandooscéus
eo firmamento;a torre,significandoo poder;ospostigoseasjanelas
emformadenicho,sugerindoumretiroaconchegantee protegido.
As preferênciaseo gostopessoaldoarquitetosobrepujama téc-
nica,osmateriaiseosestilossimbólicos.É eleo artista,oconceituali-
zadorquecriaapartirdoselementosbásicosdodesign,dosestilosatuais
ouhistóricos,dosmateriaisetécnicasdeengenharia.Suasdecisõesar-
quitetõnicassãomodificadaspelaforçadesuadisciplina,pelafinali-
dadeúltimadoedifícioepelaadequaçãodeseusprojetos.Basicamente,
então,seusedifíciosdevempermanecerempéparacumprirseuobjeti-
vo: serpermanentes.Essasexigênciascomrelaçãoà artee ao ofício
doarquiteto,aliadasàsexigênciasdeseusclientes,limitamsuaexpres-
sãosubjetiva.Quantomaioresasfinalidadesutilitáriasdeumedifício,
maisintensasserãosuaslimitações.Apesardessaslimitaçõesedospro-
blemasavassaladoresdeexplosãourbanaereparodeedifícios,o ar-
quitetocontinuaa criar projetosambientaisimportantes,reinter-
pretandoconstantementeas necessidadespráticasdo homeme re-
fletindosuaculturaatravésda expressãoe do conteúdode suaar-
quitetura.
O elementofundamentaldoplanejamentodaexpressãoarquite-
tõnicaé a linha.Tantona exploraçãopreliminar,embuscadeuma
solução,quantonasfasesfinaisdeprodução,o caráterlineardapre-
paraçãovisualdominatodososprocedimentos.Osprimeirosesboços
podemserlivrese indisciplinados,buscandoformasespaciaisaolon-
godo processodepré-visualização(fig. 8.4).
As etapasmaisrigorosasdo planejamentoarquitetõnicoexigem
aelaboraçãodeplantasbaixaseelevaçõesdetalhadaseestruturalmen-
teidentificáveis(fig.8.5).As plantasbaixasdeterminamo espaçoin-
teriorreal,a posiçãodasjanelas,portaseoutrosdetalhesestruturais.
Alémdisso,aplantadeveestarrepresentadanaescalaenaproporção
exatas,detalmodoqueo construtoreo proprietáriosejamcapazes
deinterpretá-Iasepossamterumaidéiaclaradosresultadosfinais(fig.
8.6).Comosefaznecessáriaumacertaformaçãoparavisualizaraplan-
taemtrêsdimensões,enemtodasaspessoassãocapazesdeimaginar
Arquitetura
L,
A arquiteturapartilhacomaesculturaacaracterísticadadimen-
são.Naarquitetura,adimensãoencerraumespaçocujafinalidadebá-
sica é protegero homemcontraos caprichosdo meio ambiente.
Qualquertipodeedifícioé umproblemacompositivoenvolvendoos
elementosvisuaispurosdetom,forma,textura,escalaedimensão.A
casaéa unidadesocialbásica,umlugarondeo homempodedormir,
prepararseualimento,comer,trabalharemanter-seaquecidoeemse-
gurança. Variaçõesna casa- habitaçõescoletivase apartamentos-
foramdesenvolvidasinicialmentepelosromanos,queprecisavamaco-
modarumapopulaçãourbanadegrandedensidade,eessasvariações
têmorigemnascavernasemoradiasqueabrigavamgrupostribaisnas
escarpasdasmontanhas.
À medidaqueasculturassetornarammaisdesenvolvidas,aarte
eatécnicadaconstruçãopassaramaservirtambémàsatividadeseaos
interessesdohomem:a suareligião,comigrejas,santuáriosemonu-
mentos;aseugoverno,comedifíciosadministrativos,câmaraslegisla-
tivasepaláciosdejustiça;aseulazer,comteatros,-auditórios,ginásiosdeesporteemuseus;a seubem-estare suaeducação,comhospitais,
escolas,universidadese bibliotecas.
O estiloea formadosedifíciospúblicose privadoscomunicam
algoqueultrapassasuasfunçõessociais,expressandoo gostoeasas-
piraçõesdosgrupossociaisedasinstituiçõesqueosconceberamecons-
truíram.O estilosarquitetõnicosnãosóvariamsegundoa finalidade
deumedifício,mastambémsegundoastradiçõesdeumacultura,tra-
diçõsquefreqüentementesãoinfluenciadaspor diferençasnacionais,
geográficas,religiosase intelectuais.Os padrõesquederivamdessas
influênciassemantêmnumestadodefluxocontínuo,quegeravaria-
çõesdedesigneàsvezesresultaeminovaçõesradicais.A disponibili-
dadedosmateriaisinfluenciao caráterdoestiloarquitetõnicodeuma
cultura,damesmamaneiraquefazoconhecimentodastécnicasdecons-
trução.Comoumtodo,eatravésdaconstruçãodecasas,conjuntos
II
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196 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MENSAGEM 197
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FIGURA 8.6
o efeitoa partirdedesenhosesquemáticosou elevaçõesbidimensio-
nais,emgeralosarquitetospreparameapresentamaseusclientesre-
presentaçõestridimensionais,e, emalgunscasos,tambémmaquetes
tridimensionais,oquevemaminimizaranecessidadedevisualizaruma
coisaqueaindanãoexiste,a nãoseremformadeprojeto.
O arquitetodeveserumartesãoeumengenheiroqueconheceos
métodosdeconstruçãoe demanipulaçãodemateriais.Deveserum
políticocapazdelidarcomseusclientes,quevãodeindivíduosa in-
dústrias,ouinstituiçõesgovernamentais.Deveserumsociólogocapaz
decompreendersuaprópriaculturae criarprojetosquerespondam
àsnecessidadesdeseutempoeseajustemcoerentementeaomeioam-
biente.E, o queémaisdifícil ainda,deveserumartistaqueconheça
oselementos,astécnicaseosestilosdasartesvisuais,econsigacombi-
nara formaeafunção,paraatingirosefeitospretendidos.Nessecam-
po,seutalentodevecompetircomodoescultor,umavezque;emúltima
instância,seusprojetosficarãocomomanifestaçõesvisuaisabstratas
a seremesteticamenteavaliadas.
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FIGURA 8.4
Pintura
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Quandousamosatualmenteadenominação"belas-artes",emgeral
nosreferimosàpinturaeaosquadrostransportáveisquependemdas
paredesdecasas,edifíciospúblicosemuseus.Essaformaúltimadas
artesvisuaisderivoudemuitasfontes,começandopelasprimeirasten-
I~
FIGURA 8.5
,...
198 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 199
11
tativasfeitaspelohomempré-históricoparacriarimagens,desenha-
dasou pintadas,atéchegarao cenárioda artecontemporânea,com
seu"establishment"decríticos,museusecritériosparao reconheci-
mentoeo sucesso.Os desenhosprimitivos,comsuascoresterrosas,
sobreviveramnascavernasdosuldaFrançaenortedaEspanhacomo
exemplosdasprimeirastentativashumanasdeusarimagenscomomeio
deregistrarecompartilharinformações.Desdeosprimórdiosdacivi-
lização,acriaçãodeimagenstemsidoparteintegrantedavidadoho-
mem,e foi a partirdelaquesedesenvolveua linguagemescrita.Os
esboços,osobjetosreligiosos,amobíliadecorada,osmosaicos,asce-
râmicaseosazulejospintados,osvitraiseastapeçariasmantêm,to-
dos,umaestreitarelaçãocoma pintura,eseequiparamà escritaem
suacapacidadedecontarhistórias.Mas, emtodasassuasformas,a
criaçãodeimagenscompartilhaoutrosatributos:a contemplaçãoda
natureza,umaformadeo homemenxergare compreendera si pró-
prio,aglorificaçãodegruposou indivíduos,aexpressãodesentimen-
tos religiosose a decoração,paratornarmaisagradávelo ambiente
humano.
O artistaeseudomdecriarimagenstemtradicionalmenteinspi-
radoadmiração,maso usodessedomassociadoaosritosreligiosos
acrescentou-lheumaaurademagiaquenuncadesapareceupor com-
pleto.Cadaculturainterpretoudiferentementeo papeldo artistana
expressãoreligiosa.Algumasdelas,comoa muçulmanaea hebraica,
proibiram a criaçãode imagens,considerando-aanti-religiosae
associando-aàadoraçãodefalsosdeuses.Essesexemplosconstituem,
semdúvida,umaexceção.Quasetodasasreligiões,maioresoumeno-
res,semprerecorreramao artistaparacriarobjetosdeculto,deuses
emformadehomens,animais,a lua,o sol,insetos,flores,eatémes-
moconfiguraçõessimbólicasabstratas.O estilodo desenhoedapin-
tura tendiapara o não-realismo,o exageradoe misterioso,maso
surgimentodatradiçãoclássicagregatransformouessepanorama,en-
fatizandoprincipalmenteo homemecriandodeusescomoumaespé-
cie de super-homens.Essa posturaexigiao realismona expressão
artística,a compreensãodasleisdaperspectivae o conhecimentoda
anatomiahumana,o quepor suavezrequeriaumcuidadosoestudo
da natureza.Inevitavelmente,asartesplásticasevoluíram,passando
daprimitivaartecristã,centradanoexpressionismoenasdistorções,
paraaessênciadoespíritogrego,ouseja,paraumaartediretaeracio-
nal. Romaherdouo estiloclássico,e, juntamentecomele,a ênfase
sobreo realismo,aproporçãomatemáticaeo monumento,restringin-
doaatividadedopintoraosmuraisdosedifíciospúblicos,àscasasde
campodosricoseaalgunsretratos,umaesferabastantereduzidapara
a aplicaçãodeseuofício.
O colapsodoImpérioRomanotrouxeconsigoaascensãodomun-
docristão.Apesardeaindapresosàtradiçãohebraica,queproibiaído-
los, os primeiroscristãosrejeitaramo realismoesevoltaramparao
expressionismonodesenhoenapintura,embuscadeumefeitodeal-
toconteúdoemocional.Osmosaicosdasigrejasbizantinaseosvitrais
dascatedraisgóticasseentrelaçavamaumestilopictóricoplanoenão-
dimensional,ricoemmisticismo,atéqueo Renascimentoredescobriu
a tradiçãoclássica.Nesseponto,osdoisestilossefundiramnabusca
deumarespostatantoemocionalquantoracional.A eclosãodeum
grandeinteressepelaanatomiaepelaperspectivaveioa combinar-se
como incrementodo patronato.A partirdaí,a pinturapassoua ser
vistacomoumaformadeartesuperiore umadasmaisimportantes
formasdeexpressãodoespíritohumano.A pinturaabandonouaspa-
redesdosedifícioseseupapeldeauxiliardaarquitetura,adquirindo
identidadeprópria.Comsuasorigensnosaltaresmóveisenadecora-
çãoreligiosa,apinturadecavaleteassumiua formaemquehojeaco-
nhecemos.O artistaascendeuaumanovaposiçãonaestruturasocial,
tornou-sesolicitado,celebradoe rico, enquantoseutrabalhoatingia
umpúblicocadavezmaior,cumprindotodasasfinalidadesdacriação
deimagens,danarraçãodehistórias,daobjetivaçãodo homeme de
suaexperiência,daglorificaçãodaIgrejaedoengrandecimentodomeio
ambiente.Inaugurou-se,assim,a idadedeouro deumapinturaem
diferentesestilos. .
Tendochegadoa essenívelderealização,o pintorsedissociou
cadavezmaisdaparticipaçãoedoenvolvimentonasquestõessociais
eeconômicasdeseutempo.Em paísesdiferenteseporrazõesdiferen-
tes,ascondiçõescontribuíramparaadicotomiaentreo pintorea so-
ciedade.Identificando-secoma Reformaecoma sublevaçãopolítica
doIluminismo,o artistacomfreqüênciatornou-seoporta-vozdecau-
sasimpopulares,perdendoo apoioquesemprelheforadadopelo"es-
tablishment".Em seguidaà revoluçãopolítica veio a Revolução
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~~
II
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200 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 201
I
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Industrialeamelhoriadopadrãodevidadaclassemédia,quetrouxe
consigoumdecréscimodiretamenteproporcional,emtermosdegosto
estético,eaqualidadequestionáveldosartefatosproduzidosemsérie.
A RevoluçãoIndustrialprovocouumatransformaçãodinâmica
emtodasascoisasfeitaspelamáquina,peloartesãoepeloartista;elas
nãoerammaisproduzidaspor encomenda,masparafinsespeculati-
vos.Aqui estáo produto,criadoemanufaturado;alguémvaiquerê-
lo? Rompe-se,então,todoo intercâmbioentreo criadoreo usuário,
dandolugara meiosmaistriviaisdeentendimento.O vazioé preen-
chidoportodotipodeabordagemartificial,quetemporobjetivoesti-
mulara demandadoconsumidor,comoa publicidadeeaspesquisas
de mercado,maso testedefinitivoserásemprea respostado con-sumidor.
A câmeratiroudo artistaaexclusividadedeseutalento.Mesmo
os quebuscavamo pintore seusprodutosreduziramsuademandae
ousadia,permitindoqueo artistaseencerrassenuma"torre demar-
fim" ecompartilhandocomeleaidéia,agoraaceitaportodos,deque
as"belas-artes"nãotêmoutrafinalidadesenãosatisfazerosdesejos
criativosdopróprioartista.Em seulivroPioneersof ModernDesign,
NikolausPevsnerdescreveassimessacorrosivaevolução:
"Schillerfoi o primeiroa formularumafilosofiadaartequefez
deleo sumosacerdotedeumasociedadesecularizada.Schellingado-
touessafilosofia,no quefoi seguidopor Coleridge,ShelleyeKeats;
o artistanãoémaisumartesãonemumcriado:eleagoraéumsacer-
dote.Seuevangelhopodesera humanidadeou a beleza,umabeleza
'idênticaàverdade'(Keats),umabelezaqueé 'amaiscompletaunida-
deentreavidaea forma'(Schiller).Ao criar,o artistatornaconscien-
te'o essencial,ouniversal,oaspectoeaexpressãodoespíritoquehabita
o interiordaNatureza'(Schelling).Schillerlheassegura:'adignidade
da Humanidadeestáemtuasmãos',e o comparaa umrei 'quevive
nospíncarosdaHumanidade'.A conseqüênciainevitáveldetaladula-
çãotorna-secadavezmaisvisívelàmedidaqueavançao séculoXIX.
O artistacomeçaa desprezara utilidadeeo público.Distancia-seda
vidarealdeseutempo,encerra-seemseucírculosagradoecriaaarte
pelaarte,a arteparaa satisfaçãodo artista."
A arte,qualquerarte,éamanifestaçãodesseanseiohumanopela
realizaçãoespiritual.Para ser válida,a artenuncadevedeixarde
comunicar-secomessasaspiraçõeseagiremnomedelas.Comodesti-
laçãodevida,devepurificaraverdadeatéo mínimoirredutível,een-
tão projetá-Ia,comumaafirmaçãopoderosae rica emsignificado
universal,atodososníveisdasociedade.Quandoumaarteéexagera-
damenteesotéricaeperdea capacidadedecomunicarseusobjetivos,
é precisoquestionaratémesmosuavalidade.É provávelqueosque
interpretamcommaisconhecimentos,osespecialistas,estejamadmi-
randoas"roupasdorei", temerososdepareceremloucosaosedepa-
rar coma óbvianudezdosobjetivosda pinturacontemporânea.O
discernimento,o bomgostoeosjuízosdevalorpodemfalharporcom-
pletonaexcitaçãodadescoberta,mas,quandoa ciência,atravésdo
experimento,rompecomvelhosconceitos,osdadosrecém-descobertos
ligam-seàesperançahumanadeprogresso.Napintura,issoapenascria
umnovoemaisseletogrupofechado,ea arteseafastacadavezmais
denossavida,umaarteque,comoa descreveuAndréGide,volta-se
para "um públicoimpacientee marchandsespeculadores".
Comoasociedadeeoartistapodemreconciliar-se?NoséculoXIX,
WilliamMorris imaginouumasoluçãoqueconsistiaemnegara má-
quina.Salvaremoso futuro,apregoava,voltandoparatrás,paraopas-
sado,ondeaarteeo homemseserviammutuamente.A filosofiada
Bauhausabordavacommaisrealismoaexistênciairremovíveldamá-
quina,pleiteandoquea artea considerasseemseusprópriostermos,
atravésdaênfasenautilidadeenaeconomiademeios.Masnenhuma
dessasabordagens,nemquaisqueroutrasqueporvent!:lratenhamsido
feitas,foi capazdesolucionaro problemadoabismocadavezmaior
queseparao artistadeseuenvolvimentocomsuaprópriaépoca.A
pinturacontinuacadavezmaisesotérica.O públicorevelauminteres-
secadavezmenornastentativasdoartistaparaexpressara si mesmo
seusprópriospensamentos,numaatitudedeexperimentaçãopelaex-
perimentação.O pintoreumasociedadequeprecisadesesperadamen-
te de sua intuiçãoespeciale de seu talentopeculiarcontinuam
irreconciliadosnomuseuounosubúrbio,enquantoapinturaeo pin-
torseafastamcadavezmaisdosignificadoedoconteúdo."Devefi-
car claro,então",diz EdgarWind emAr! andAnarchy, "que, ao
colocar-seàmargem,aartenãoperdesuasqualidadesenquantoarte,
ruas perde apenassua relevânciadireta para nossa existência:
transforma_senumaesplêndidacoisasupérflua."
~,
t:
I
.......
~I
III
I
202 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 203
Maso artista,o pintoreo criadordeimagenstêmqualidadespa-
ra o controledosmeiosdecomunicaçãoqueaindafazemdeseupro-
dutoumapartedesejávelenecessáriadaexperiênciahumana.Embora
o produtopré-fotográficoquenoschegouatravésdopinceldospinto-
resnosofereçarelatosvisuaisdecomoeramascoisas,o tipoderoupa
queaspessoasusavametodaainformaçãovisualquehojesónosche-
gaatravésdacâmera,daqual,nesseaspecto,nostornamosdependen-
tes,os pintoresfizerammuitomaisqueisso.Deram-nosinsight,na
exatamedidadesuasensibilidadee talento.O métodoparao desen-
volvimentodeumdesenhoou deumapinturademonstraessabusca
decontroledosmeiosdecomunicação.Primeirosefazumasériede
esboçosa partirdonaturaloudo imaginário,parainvestigaro mate-
rial visualquevaifazerpartedo quadro(fig.8.7).Em seguidasede-
senvolveumaestruturacompositivaqueadapteo materialvisualà
intençãoelementareabstratadoartista(fig.8.8).Quasetodososele-
mentosvisuaisestãopresentesnumapintura-linha, forma,tom,cor,
textura,escalae,por sugestãoeimplicação,o movimentoeadimen-
são.A composiçãoincorporao processodemanipulaçãodoselemen-
tosatravésdo usodetécnicasquetêmpor objetivoobterumefeito
específico.O controledetudoissoseencontranacapacidadedopin-
tordeprojetarepré-visualizar,tantoquantoderepresentarerealizar.
O artistapodeacrescentaro queali nãoestá,e eliminaro queestá,
umapossibilidadedequeo fotógrafonãodesfruta,aomenoscomes-
segraudeliberdade.Ao contráriodaexatidãoinformativadacâmera,
indiscriminadaaindaqueadmirável,ocriadordeimagenspodemodi-
ficarascircunstânciasvigentesatéo pontodeabstraira informação
depormenoreseatingiramaispuraterminologiavisualdosignificado
formal.
O graudeinfluênciaexistentenoprocessoenoprodutodapintu-
racontemporâneaéumaquestãoemaberto,impossíveldeserresolvi-
da no momento.Umacoisaécerta:o animalhumanoé umcriador
deimagens,e, sejacomofor queessefatosemanifeste,sejamquais
foremosmeiosdecomunicaçãousadoseasfinalidadespretendidas,
nuncadeixarádesê-Io.
~I
nustração
~ ,
A produçãoemmassadelivroseperiódicos,decorrentedeuma
maiorperfeiçãotécnicadareproduçãoimpressa,abriuumnovocam-
po departicipaçãoparaosartistas- a ilustração.Comoilustrador,
o pintordecavaleteserviafreqüentementedevisualizadorparaa in-
dústriagráfica,atéentãoincapazdereproduzireimpFimirfotos.Em-
bora fotógrafosextraordinários,como Brady e Sullivan,tenham
trabalhadoobstinadamenteparadocumentara GuerraCivil, todoo
relatovisualdessaguerraficoua cargodosilustradores.Os esboços
quefizeramnocampodebatalhaeramrapidamentegravadosemme-
tal ou madeira,paraquepudessemserusadospor jornaise revistas.
Quandoastécnicasdereproduçãofotográficaforamdesenvolvi-
das,osjornaispassaramausá-Iascomexclusividade,deixandooartista-
ilustradoremcompletoabandono.Sóoslivros(livrostécnicoseo flo-
rescenteveiodoslivrosinfantis),asrevistaseapublicidadecontinuam
dependendobastantedoilustradoredesuacapacidadeespecialdecon-
trolarseutema.O toqueessencialmenteluminosodo ilustradore a
maestriadeseutrabalhoconstituemseuprincipalfascínio.Em livros
1.1
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FIGURA 8.7 FIGURA 8.8
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204 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 205
I~
ou revistas,a ficçãoeafantasiasãoo territóriopreferidodesuaima-
ginação.
Emboraospintoresdecavaletefaçamilustrações(WinslowHo-
merfoi umdosartistasquecobriramaGuerraCivil), osilustradores
propriamenteditos,assimcomoosdesignersgráficos,sãoespecialis-
tasquesededicama seucampoespecíficodeatuação.Muitasvezes,
umilustradorétãobem-sucedidoe ficatãofamosoquetodoumpe-
ríodopassaa identificar-secomele:BeardsleyeaArt Nouveaudofin
desiec/e;John HeldJr., e a juventudedosanos20nosEstadosUni-
dos;NormanRockwelletodaumageraçãoligadaàscapasdo Satur-
dayEveningPostoTantoemseudesenhoquantoemsuapintura,o
ilustradordevealcançaro mesmoníveldequalidadedopintor;naver-
dade,deveseraindamaiságilerápido.Devetrabalharporencomen-
da,ecriardentrodospra~osestabelecidospelapublicaçãoparaaqual
trabalha.Muito seexigedele,masasrecompensassãograndes.Ape-
sardetodaasuahabilid~de,o ilustradoremgeralnãoépretensioso,
eàsvezes,comoo casodeNormanRockwell,nãotemo menorinte-
resseemserchamadodeartista.Há outraclassedeilustradorescujo
trabalhotemsidomuitoimportanteparaasconquistastecnológicas
denossaépoca,emgeraldenaturezacientífica.Trata-sedoilustrador
tecnológico,sobreo qua.lWilliam Ivinsdiz, emseulivro Printsand
VisualCommunication:
"No séculoXIX, oslivrosinformativos,muitobemilustradoscom
manifestaçõespictóricaspassíveisdeumareproduçãoextremamente
exata,tornaram-sedisponíveisaumagrandepartedahumanidade,tan-
to naEuropaOcidentalquantonaAmérica.O resultadofoi a maior
revoluçãono pensamento(eemsuaconsumaçãoprática)dequeja-
maisseteveconhecimento.Essarevoluçãofoi deenormeimportância
nãosódopontodevistaéticoepolítico,mastambémmecânicoeeco-
nômico.As massastinham começadoa teracessoao grandeinstru-
mento de que necessitavampara capacitar-sea resolverseus
problemas."
Essacompilaçãoen~iclopédicadeinformaçãovisualcomeçoucom
o desenvolvimentoda linguagemescrita,e continuaa expandir-se.
A câmera,esuainc~mensurávelcapacidadederegistrarodetalhe
visual,temfeitocontínttasincursõesnosdomíniosdo ilustrador.Em
qualquercasoemquea credibilidadesejaumfatorimportante,dá-se
preferênciaà fotografia,muitoemborasejaextremamentefácilexage-
rarcomumacâmera.Masatelevisão,ogostoeasreaçõesdopúblico
têmcontribuídomuitoparareduziro campodeaçãodo ilustrador.
Maso objetivobásicodo ilustradoréreferencial,sejanocasode
umafotografia,deum detalhadodesenhoa traçoou deumafoto-
gravuraempretoe brancoou emcores.Trata-se,basicamente,de
levarumainformaçãovisuala um determinadopúblico,informa-
çãoqueemgeralsignificaa expansãodeumamensagemverbal.As-
sim,a variedadedeilustraçõesabrangedesdedesenhosdetalhadosde
máquinasdesenvolvidosparaexplicarseufuncionamentoatédesenhos
expressivosfeitospor artistastalentososeconsumados,queacompa-
nhamum romanceou umpoema.
Designgráfico
Para o designgráfico,a industrializaçãoe a produçãoemsérie
começaramemmeadosdoséculoXV, como desenvolvimento'dotipo
móvel,eseugrandemomentofoi assinaladopelaimpressãodaBíblia
deGutenberg.Pelaprimeiraveznomundoocidental,emvezdapeno-
sacópiamanualdelivros,foi possívelproduzirsimultaneamentemui-
tosexemplares.Paraa comunicação,asimplicaçõessãoenormes.A
alfabetizaçãofoi umapossibilidadepráticaestendidanãoapenasaos
privilegiados;asidéiasdeixamdeserumaexclusividadedospoucos,
queatéentãocontrolavama produçãoe a distribuiçãode livros.
É bemprovávelqueosprimeirosimpressoresnãoconsiderassem
umgrandeproblemao fatodetambémseremdesignersgráficos.Vi-
viamatormentadospor muitosoutrosproblemas.Alémdedesenhar
seuprópriotipodeimpressão,precisavamaprendera fundi-Ioemme-
tal,aconstruirprensas,acomprarpapel,adesenvolvertintasadequa-
das,a venderseusserviços,e freqüentementetambéma escrevero
materialquepretendiamimprimir.Ao longodosséculosXVI eXVII,
osimpressoresavançarammuito,aperfeiçoandoconstantementeseu
ofício.Algunsdelestiveramseutrabalhoimortalizadoporseusdesig-
nersdetipos,muitosdosquaisaindasãousadoshojeecontinuamsendo
identificadospelosnomesdeseuscriadores,emborapoucossaibamque
essesnomessereferema pessoasreais- Bodoni, Garamond, Caslon
.....
206 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MENSAGEM 207
_ todoselesimpressoresqueexercerammodestamenteseutrabalho
muitotempoatrás.A impressãoe o designdosmateriaisdeimpres-
são,enquantoatividadecomercial,tenderamsempreao anonimato.
Demodocomoo conhecemoshoje,o designergráficosósurgiu
durantea verdadeiraRevoluçãoIndustrialdo séculoXIX, quandoa
sofisticaçãodastécnicasdeimpressãoedeconfecçãodepapéispermi-
tiu a criaçãodeefeitosdecorativosmaiscriativosnamanipulaçãodo
textoedasilustrações.Foramosartistasgráficoseospintoresdeca-
valetequeseinteressarampelosprocessosdeimpressãohápoucode-
senvolvidos,produzindoresultadosextraordinariamentecriativos.
Toulouse-Lautrecsentiu-seatraídopelacriaçãodepôsteres;William
Morris, basicamenteum desenhista-industrial,fundoua Kelmscott
Press;ambos,porém,constituemcasosexcepcionais.O precursordo
designgráficoeraumtrabalhadorespecializado,aquemsecostumava
chamar"artistacomercial",denominaçãoquecontémumacertacar-
gapejorativa.Quandotalentoso,essetipodeprofissionalfoimaistar-
deresgatadodacidadaniadesegundaclasseaquetinhasidocondenado
pelospintoresecríticos.Tendoà frenteprimeiroosempenhosdeWil-
liamMorris, edepoisosdaBauhaus,surgiuumnovopontodevista_ umaretomadado interessepelastécnicasbásicasdeimpressão,e
umatentativadecompreenderaspossibilidadesdessesprocessose a
diversidadedesuamaquinaria,o queacabouresultandoemumnovo
perfildosmateriaisimpressos.Muitasvezes,o "artistacomercial"rea-
lizavasuatarefacomumaignorânciatotaldoprocessomecânico,dei-
xandoo impressorcomo nadainvejávelencargodeadaptara obra
dearteaumaformaquepudesseserimpressa.O entendimentoentre
ambospraticamenteinexistia.
Com o renovadointeressepelastécnicasbásicasdo ofíciodeim-
pressor,o designeraprendeua trabalharemharmoniacomo impres-
sor,e essacooperaçãotemsidoumdosmaisimportantesfatoresda
qualidadecadavezmaiordodesignnaimpressãocontemporânea.Em
todos oscamposdasartesgráficas- designdo olho detipo, defolhe-
tos,decartazes,deembalagens,decabeçalhoselivros- aexperimen-
taçãolevouaresultadossólidosedinâmicos,tantoemtermosdaeficácia
dacomunicação,quantodacriaçãodeumprodutomaisatraente.O
governodosEstadosUnidosrealizou,no exterior,inúmerasexposi-
çõesdotrabalhodeseusartistasgráficos,demonstrandoassimseual-
to apreçopelaqualidadedasobras.O anônimo"artistacomercial"
dopassadofoi substituídoporumartistagráficoextremamenteimagi-
nativo,cujosnomeseestilossãohonradosatravésdeexposiçõesnes-
sessantificadosbastiõesda "Arte" pura- os museus.
Emboraoesboçododesigngráficosejacomparávelaoesboçona
pinturaenaescultura,eleémaisliteral.É muitoútil parao designer
emsuabuscapreliminardaspossíveissoluçõesparaumtrabalhoim-
presso,oferecendo-lheaoportunidadedeprocurar,comgrandeliber-
dade,inúmerasvariantesemodificações,aolongodeumaconcepção
visualúnicaoudeumasériedealternativastemáticas.O esboçográfi-
coéautodescritivo;éumarepresentaçãoemminiaturadoprodutofi-
nal.As pequenasdimensõesdesseesboçooferecemaodesignermuitas
vantagensqueos esboçosemtamanhonaturalnão lheofereceriam.
Em primeirolugar,podemserfeitosemgrandenúmero,sendopossí-
velalterá-losou descartá-Iosfacilmente,umavezquesuaexecuçãoé
muitorápida.Por outrolado,essesesboçossãosimplesdecontrolar
emanterlimpos,enosdãoumaboaidéiadoaspectoqueasoluçãoterá
emsuaformafinal.Essaminiaturaofereceaindaumaoutravantagem
ao designer:numespaçomuitopequenonãosó é possívelfazerum
grandenúmerodeesboços,comotambém,nocasodeumfolhetoou
deumarevistacomumcertonúmerodepáginas,épossívelvertoda
apeçaimpressacomoumtodo,umefeitoqueo leitorsópoderáobter
cumulativamente,e atravésdeumaexperiênciaseqüencial(fig. 8.9).
O controletotaldoconjuntoatravésdessemétododepré-visualização
significaqueo designermantémsobcontroleo efeitototal.
A práticadesseexercíciodeencontrarmúltiplassoluçõesparaum
problemadedesigngráficoequivaleademonstrararelaçãoentreouso
deelementoseanaturezadomeiodecomunicação.Naimpressão,por
exemplo,oelementovisualdominanteéalinha;outroselementos,co-
moo tom,a cor,a texturaou a escala,sãosecundários.A mudança
deuma outrogrupodeesboçospermitequeo designerpossaoptar
pordiferentestécnicasvisuais,numprocessodedecisõesfinaisquemos-
traclaramentea relaçãoentreformaeconteúdo.Essarelaçãoéespe-
cialmenteimportantenosmeiosde impressãoemmassa,já queeles
envolvemumacombinaçãodepalavras,imagense formulaçõesabs-
tratasdedesign,esuanaturezabásicasedefinepor suacombinação
doverbaledovisual,numatentativadiretadetransmitirinformações.
I
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208 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 209
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Á partirdosesboçosda faseinicial,a escolhadaspossíveissolu-
çõesdedesignemgeralsereduzemadoisou trêsdosmelhoresesbo-
ços,osquais,atravésdaescala,sãotransferidosdaversãoemtamanho
pequenoparaasverdadeirasdimensõesda impressãodefinitiva(fig.
8.10).O quetemosentãoé o leiaute.
Cadapassodatrajetóriaquevaido esboçoà etapafinal requer
algumconhecimentodosaspectostécnicosdaimpressão,comoacom-
posiçãotipográfica,osdiferentestiposdeimpressãoesuaconveniên-
cia parao projetoemandamento,os processosdereproduçãopara
a impressãodetodotipodearte-final,desdeos desenhosa traçoaté
as fotogravurasempreto-e-brancoe emcores.Porém,mesmopa-
ra o principiantecoma responsabilidadede produzirum pôsterou
umfolheto,o problemafundamentalserásemprea composição,um
ordenamentodasunidadesdeinformaçãoverbalevisualqueresulte
naênfasepretendidaeexpresseclaramentesuamensagem.Os impres-
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1"
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FIGURA 8.10
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210 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 211
11.
sorespodemsermuitoúteiscomsuassoluçõestécnicas.Comalgum
conhecimentodealfabetismovisual,aabordagemdodesignedapro-
duçãodeformatosimpressospodesermaiscultaesofisticada;além
disso,eo quetalvezsejaaindamaisimportante,essemesmotipode
abordagempossanoslevara umacompreensãomelhordotalentoar-
tísticooudesuaausêncianasmensagensimpressasquechegamaténós.
Artesanato
caçõesempeçascujaformaestátentandomodificar.Sealgumastéc-
nicassãopredominantesnaconcepçãoenaproduçãodoartesanto,são
elasa economia,a simplicidadeea harmonia.Mas qualquerartesão,
sejaelesérioedesólidaformação,ouumsimplesdiletante,devecom-
preendermuitobemtodososaspectosdo alfabetismovisualparaser
capazdecrescertantotécnicaquantoesteticamente,alémdeadquirir
um controlecadavezmaiordeseumeioe desuatécnica.
Os tipos deartesanato- cerâmica,tecelagem,muitasvariedades
detrabalhoemmetalou madeira- alémdeconstituíremmeiosdesu-
prir ummercadodeconsumidoresespecíficos,exercemumaatração
cadavezmaiorenquantoatividadedelazer.Muitaspessoassevoltam
parao artesanatocomoumpassatempo,oqueajudaarecuperaro in-
teressepor essaatividade.
Hojeemdia,osartesãoscomunsocupamumlugarespecialeeso-
téricoemnossasociedade.Tudooqueproduzemprovavelmentepode
serfabricadopelamáquinademodomaisrápidoebarato,masseesta
é capazde fazê-Iodemodomaisartísticoé aindaumaquestãoem
aberto.No passado,osprodutosfeitosamãoeramdeabsolutaneces-
sidade;emnossaépoca,sãoproduzidosparapessoasdegostoespe-
cial, quepodempermitir-sepagarum preçomuitomaiorqueo dos
produtosfeitosemsérie.Osartesãossetransformaramempetitsartis-
tes,esuasobrassãocolecionadascomosefossemquadros.Aindaper-
sistemecostardiosdasidéiasdeWilIiamMorris eseusacólitos,para
os quaisa belezaseriaimpossívelsemo toqueindividualdoartesão.
Esseprotestocontraa máquinaeessaênfaseno indivíduo,dooutro
ladodaquestão,negamtodamelhoriano padrãodevidaquesetor-
noupossívelgraçasàRevoluçãoIndustrial.A produçãoemmassain-
viabilizouoprodutomanual,masaindahámuitoo queaprendercom
o artesãoeseuconhecimentodosmateriaisedamaneiradeutilizá-Ios
comcompetência.
Cadatipodeartesanatotemsuasespecificidades,noquedizres-
peitoaoselementosvisuaisbásicos,mastodaselastendemaserdomi-
nadaspeladimensãoepelatextura.Planejara produçãodatramade
umtecidooua formadeumvasodecerâmicanãoimplicaumdetalha-
mentotãorigorosoquantoo exigiriamoutrosmeiosvisuais.As solu-
çõespodemestarnapontadosdedosdo artista,e pode-sechegara
elasatravésdaelaboraçãodecadaumadaspeças,ouseja,atravésde
umaincessanteexperimentação.A experiênciatambéméummétodo
fundamentalparaaevoluçãodeumdesign,atravésdeumaprodução
lentaeprogressiva,quepermiteaoartistaintroduzirpequenasmodifi-
Desenhoindustrial
Ao contráriodossectáriosdomovimentodearteseofíciosnaIn-
glaterraenaEuropa,quevoltaramsuascostasparaosquestionáveis
padrõesdaproduçãoemsérie,o grupoalemãodaBauhausprocurou
compreenderaspossibilidadesúnicasdamáquina,ebuscousuacapa-
cidadeespecíficadeproduzirobjetosqueincorporassemumanovacon-
cepçãodebeleza.O designerindustrialsetransformounoartesãodos
temposmodernos,eapalavradesignadquiriuumnovosignificado_
"a adaptaçãodeumprodutoàproduçãoemsérie".A filosofiadaBau-
hauscontribuiuemmuitopararesgataro objetoproduzidoemsérie
dacópiademaugostodo objetomanual:inspirouprodutossimples
e funcionais,deestilomoderno.Em nenhumaoutraesferado movi-
mentoartísticoverificou-seuminteressemaissinceropeloretornoao
básico.Em suaessência,o programadaescolaconduziaseusalunos
atravésdeexplorações"manuais"dasqualidadesessenciaisdosmate-
riaiscomquetrabalhavam,eo faziadeumaformaquelembravamui-
to a pesquisados componentesvisuaisbásicos,uma investigação
importantequandoo objetivoé o alfabetismovisual.
Há muitastendênciasemdesenhoindustrialparaa produçãoem
sériedemóveis,roupas,automóveis,equipamentosdomésticos,ferra-
mentas,etc.A abordagemmaiscomuméa puramentefuncionalista,
~
212 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MtNSAGEM 213
I
11
queexpõeoselementosdaestruturavisualbásicacomoo temavisual
predominante,o quepor suavezresultanumaspectoimpessoal,em
neutralidadeexpressiva.Algumastentativasdodesenhoindustrialre-
sultaramnumasuperestruturaqueignoravaosmecanismosinteriores
doproduto.Umdesseserros,eo maisflagrantedetodos,foi odesign
dasprimeiraslocomotivasparaa UnionPacificRailroad.Ao serem
testadas,constatou-sequetodaasuaestruturateriadesererguidaca-
davezqueprecisasseserengraxada.Na verdade,a idéiatodadode-
signaerodinâmicocomoestilomodernodifundiu-seapartirdeprodutos
que tinham na velocidadesua característicafundamental - carros,
aviões,barcos- para muitosoutros quenuncaprecisariammover-se.
Paradesenvolverbelosdesignsdemáquinaseartefatosemsérie,
éprecisodesenvolvertambémumdelicadoequilíbrioentreacapacida-
detécnicae o amorà beleza.E issonãoé fácil.Mas o mergulhona
forçadinâmicadasconsideraçõesvisuaispuraséabsolutamenteneces-
sárioparao técnico,oferecendo-lhe,comodefatoo faz,umaforma
deampliarsuacompreensãodoproblemadiantedoqualseencontra.
Quem,maisqueoengenheiro,podebeneficiar-sedanaturezaabstrata
econceitualdocomponentevisual,talcomoeleévistoedefinidono
contextodoalfabetismovisual?A menteliteralpodebeneficiar-seuni-
camentedeumpontodevistaqueesperaafastara expressãovisual
daórbitadaintuiçãoeaproximá-Iamaisdeumprocessooperacional
deentendimentointelectuale deopçõesracionais.
O fatormaisquestionáveldomodernodesenhoindustrialéaob-
solescência,anaturezaperecíveldesuaaparência,quenelejá seproje-
ta tendoemvistaumaconstanterenovaçãodaprodução.Contribua
ou nãoparaumaqualidadeinferiordosprodutos,essapráticareal-
mentecriaumclimafavorávelaosmodismospassageirosno quediz
respeitoàaparênciadosobjetoscriados,o queexige,porsuavez,um
númerocadavezmaiordedesignerscomidéiasnovas.
Essaincessantetransformaçãosemdúvidapõeàprovaa forçacria-
tivadodesigner.Para serbem-sucedida,suaobranãodeveperderde
vistaanoçãodelucro;deveconcebersuascriaçõescomoumelemento
a maisnaproduçãoeconômicadeumprodutovendável.Nessecon-
textoficadifícildesenvolveressaintegridadequesevoltaparaapro-
duçãodeprodutosbelose funcionais,algoquenãosequestionacom
relaçãoaotrabalhodosartesãos,comseuíntimoconhecimentodosfins
e materiaisa partirdosquaissuasobrassãocriadas.Oshomensde
negóciosseconscientizamcadavezmaisdequantoumdesignbem-
sucedidoécapazdeaumentarasvendas.O idealseriaqUeodesigner
e o homemdenegócioschegassema umequilíbrio.WalterGropius
expressoumuitobemessanecessidade,em1919,noscomentáriosque
fezsobreosobjetivosdaBauhaus:"Nossaambiçãoeraresgataro ar-
tistacriativodesseoutro mundoem queele estásempresituado,
reintegrá-Ioaomundodasrealidadescotidianas,aomesmotempoam-
pliandoehumanizandoa mentalidaderígidaequaseexclusivamente
materialdo homemdenegócios."
Fotografia
Para asartesvisuais,o desenvolvimentoda fotografiarepr~sen-
touumatotalrevolução.O statusdoartistaesuarelaçàocomasocie-
dadepassarampor umadrásticatransformação;suasingularidade
insubstituívelviu-separasemprealteradaporessenovométododeob-
terimagens,quepodiaregistrarmecanicamenteumainfinidadedede-
talhes.O talentoespecialeosanosdeaprendizadoquernodelavameaprimoravamashabilidadesartísticaspassarama serdesafiadospor
umamáquinaque,depoisdeumbreveperíododeaprendizado,podia
serutilizadaporqualquerum.EmmeadosdoséculoXX,cujaavassa-
ladorarevoluçãotecnológicaproduzintermináveismilagreseletrôni-
cos,a fotografiatambémpassouaocuparumaposiçãoinquestionável.
O séculoXIX nãoerasofisticadoo suficienteparadeixar_sedominar
inteiramentepelafotografia.
Primeirocomobrinquedo,depoiscomonecessidadesocial,a fo-
tografiaesteveaserviçodaclassemédia,suamaisdedicadaprotetora.
Foi sónosprimórdiosdoséculoXX queo plenoimpactodafotogra-
fia sobrea comunicaçãosetornouumarealidade.Comodissemuito
bemArthurGoldsmith,emseuartigo"The PhotographerasaGod",
publicadonarevistaPopularPhotography:
"Vivemosnumaépocadominadapelafotografia.Nouniversoin-
visíveldointelectoedasemoçõesdohomem,a fotografiaexercehoje
umaforçacomparávelà da liberaçãodaenergianuclearnouniverso
físico.O quepensamos,sentimos,nossasimpressõesdosacontecimen-
II
I
II
1
214 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 215
11
toscontemporâneose da históriarecente,nossasconcepçõesdo ho-
memedocosmo,ascoisasquecompramos(oudeixamosdecomprar),
o padrãodenossaspercepçõesvisuais,tudoissoémodelado,emcerta
medidae o maisdasvezesdecisivamente,pelafotografia."
Fazerumregistrodafamília,dosamigosedesuasatividades,ainda
continuasendoa razãofundamentalda popularidadeda fotografia.
O instantâneoconservaseuenormepoderdeatração,quesó fezau-
mentar,graçasàinvenção,porEdwardLand,dacâmeraPolaroid,que
prescindedoquartoescuroeproduzimagensinstantâneas.Dessegrande
exércitodefotógrafosqueutilizaa câmeracomfins limitados,surge
umgrupocadavezmaiordediletantessérios,queestudaemprofundi-
dadeaspossibilidadesdomeio,trabalhaemseupróprioquartoescuro
epretendeaperfeiçoarsuacapacidadecriativa.Algunspassamparao
campoprofissional;amaiorpartecontinuadesenvolvendoumaativi-
dadeamadora,consumindoenormesquantidadesdedinheiroetempo
livrecomo queconstitui,semdúvida,o maispopulardospassatem-
poscontemporâneos.
Masa fotografiatambéméumaprofissãodeimportânciafunda-
mentalparao universodacomunicação,e umaprofissãoqueconta
cominúmerasespecializações.
O repórterfotográficofazacoberturadosacontecimentosatuais
deumamaneirasimplesedireta.É seutrabalhoconseguirfotosníti-
daseaudaciosas,queconservemsuamensagemapesardamáqualida-
dedereproduçãodosjornais.As melhorespossibilidadesdereprodução
dasrevistasdãoaofotógrafoaoportunidadedecobrirosmesmosacon-
tecimentoscommaissutilezaeprofundidade.Osavançostécnicosdos
anos30viabilizaramtodaaconcepçãodahistóriaemimagens,empri-
meirolugargraçasaoadventodepapéisdemelhorqualidadeenovos
métodosdeimpressão,emaistardecoma invençãodacâmeradepe-
quenoporteelentesdealtavelocidade,umaespéciederevoluçãoden-
tro darevolução,quelibertouo fotógrafodo incômodopesodeseu
equipamentoanterior,e,na faltadeluzadequada,do aborrecimento
representadopelasluzesofuscantesdoflash. Graçasa umalenteea
umapelículamaisrápidas,foi-lhedadaaoportunidadedeobteraque-
la imagemmaisíntima,ousadae reveladora,quesemanalmentetraz
a históriaparanossasaladeestar.
O fotógraforetratistaaindaémuitosolicitado,esuaatividadenão
seviucomprometidapelaabundânciadeamadores.As grandescâme-
rasdeseuestúdioeastécnicasderetoqueconferema seutrabalhoo
atributoformalexigidopelademandasempreinalteradaderetratosper-
sonalizados,quedesdeospintoresedaguerreotipistasdopassadocon-
tinuamsendomuitosolicitados.O fotógrafodocumentarista,hojemais
freqüentementeaserviçodaindústriaedogoverno,aindatrabalhana
mesmatradiçãodo passado.Serveà experimentaçãocientífica,com
seusmicroscópios,câmerasà provad'águae películasespeciais.
A fotografiaédominadapeloelementovisualemqueinteratuam
o tomeacor, aindaquedelatambémparticipema forma,a textura
eaescala.Masafotografiatambémpõediantedoartistaedoespecta-
dor o maisconvincentesimulacrodadimensão,poisa lente,comoo
olhohumano,vê,eexpressaaquiloquevêemumaperspectivaperfei-
ta. Em conjunto,oselementosvisuaisessenciaisda fotografiarepro-
duzemo ambiente,equalquercoisa,comenormepoderdepersuasão.
O problemadocomunicadorvisualnãoépermitirqueessepoderdo-
mineo resultadodo design,mascontrolá-lo esubmetê-Ioaosobjeti-
vose à atitudedo fotógrafo.Dequemodo?No processodetomada
deimagenscombinam-sea imaginação,a capacidadedevisualizar,e
o conhecimentodelinguagemcorporal,paracolocarà disposiçãodo
fotógrafoasmesmasopçõesilimitadasdequedispõeodesigner-artista-
sintetizador.À primeiravistapoderiaparecerqueo criadordeima-
genssevêlimitadopeloquealiestádiantedacâmera,eque,comexce-
çãodealgunscontrolesinformativos(sorria,volte-seumpoucopara
aesquerda),temdesesubmeteràscircunstâncias.Masnãoébemas-
sim.Umacentenadefotógrafoscomsuascâmerasvoltadasparaomes-
mo temaproduzirãocemsoluçõesvisuaisdistintas,em maisuma
demonstraçãoprevisíveldessefatorinevitávelqueéainterpretaçãosub-
jetiva.
Há inúmerasvariáveisà disposiçãodo fotógrafo,eestaslheper-
mitemcontrolara inexorávelinformaçãoambiental.Em primeirolu-
gar,eissoéo maisimportantedetudo,estáaexpansãodosconceitos
visuaisatravésdosexercíciosdealfabetismovisual.Osprojetospara
umafoto ou umahistóriaemimagenspodemserelaboradossobreo
papel- trata-sedeumaboaformadepré-planejamento.Masépro-
vávelqueo fotógrafovápensaremtermosdeimagensvisuais,evê-Ias
projetadasnumaespéciedetelamental.As opçõescompositivasex-
:1
I
,:1
I
1III1
I'
216 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 217
II1I
pIoradasemformadeesboçoeprojetodevemserconcretizadasdeou-
trasmaneiras.Cerrarosolhosparareduzirainformaçãovisualaformas
simpleseabstrataséalgoqueofereceumainformaçãocompositivaà
qualsepoderesponder,equepodesermodificadaatravésdo atode
agachar-se,curvar-se,saltarsobreumacadeiraou subirumaescada.
Todosessesmétodoseginásticasconstituem,parao fotógrafo,umequi-
valentedosesboçosda fasedepré-visualização.As opçõestornam-se
aindamaioresgraçasàexistênciadediferentestiposdecâmera,longi-
tudefocal, filmes(coloridoou preto-e-branco)e horasdo dia. Uma
coisaécerta- dificilmentequalqueroutromeiovisualpoderáserco-
locadoempráticacomtamanhafacilidade,oferecendocomissoopor-
tunidadesdeexperimentaçãotãorápidasebaratas.Desdeosprimórdios
dessemétodovisual,sempreexistiramfotógrafosqueo viramcomo
umaformadearteea praticavamsemfinscomerciais.Nosclubesde
fotografia,nossalõeseconcursosinternacionais,essefotógrafo-artista
sempreexplorouaspossibilidadesdacâmeradeumamaneirainteira-
mentecriativa.Nosúltimostempos,taisesforçosvêmsendoreconhe-
cidosatravésdeexposiçõese comparaçõescoma pintura.
A fotografiatemumacaracterísticaquenãocompartilhacomne-
nhumaoutraartevisual- acredibilidade.Costuma-sedizerqueacâ-
meranãopodementir.Emborasetratedeumacrençaextremamente
questionável,eladáàfotografiaumenormepoderdeinfluenciaramen-
tedoshomens.No artigoanteriormentecitado,ArthurGoldsmithas-
simsemanifestasobreessaquestãocrucial:
"Uma compreensãomaisprofundadoprópriomeiodecomuni-
caçãoedecomoeleatuasobreo intelectoeasemoçõeshumanasre-
presentaumpassoadianteparaumaampliaçãomaisútil esensatado
grandepotencialdafotografiaenquantoformadearteedecomunica-
ção.Comotécnica,porém,a fotografiatendemaisaumavançorápi-
doqueaterinsightsacercadasimplicaçõesestéticasepsicológicasdessas
técnicas.Na longaperspectivadahistóriadohomem,talvezissonão
surpreenda.Seusássemosumsistemademedidasquenosdesseo in-
tervalodetempotranscorridodesdeaspinturasrupestresdoPaleolíti-
co até nossosdias, a escritajá estariaexistindohá cercade seis
polegadas,masa fotografianãopassariadeumoitavodepolegada!
Nessaminúsculafraçãodetempo,malcomeçamosa compreendera
naturezada câmerae seumilagre."
Cinema
Sea fotografiaestárepresentadapor umoitavodepolegadano
breveperíododetempodahistóriavisual,o cinemanãovaialémde
umpequenoeinsignificanteponto.OsexperimentosdeEdisoneo triun-
fo mecânicodeLumiereutilizaramo fenômenodapersistênciadavi-
sãoparaobterfotografiasquepudessemregistraro movimento.As
açõeseosacontecimentosdramáticospodiamserregistradoserepro-duzidosquantasvezessequisesse.As etapasexperimentaisdessenovo
meiocontavamcomlimitaçõesintrínsecas(ausênciadecor,somemo-
bilidadeda câmera),queampliaramos conhecimentosbásicosdos
cineastas.Osgestosexageradoseamímicacompensavama impossibi-
lidadedosdiálogos.A comédia-pastelão,exclusivado cinema,foi le-
vadaàperfeiçãoporChaplin,o maiorpalhaçodatela.As técnicasde
documentárioampliaramo contatoemprimeiramãocomumaespé-
ciedelivrovivodahistória,queanteriormentejamaisteriasidopossí-
vel.Em seuensaio"Climateof Thought", incluídoemGatewayto
theTwentiethCentury,JeanCassouassimresumeasimensaspossibi-lidadesdo cinema:
"Assim,o últimoinventomecânicoaserviçodarealidade,desti-
nadoadesempenharmaistardeseupapelcientíficocomtalperfeição,
demonstrousimultaneamenteserumaartedepotencialidadetãovas-
tasepropriedadestãosingularesquenãosóabarcavatodasasoutras
artes,comotambémassuperava.O cinemaéaomesmot,empoumins-
trumentodeabsolutaprecisãoeumgrandecriadordemagia:umes-
pelhodaverdade,umsonhadordesonhoseumoperadordemilagres."
O cinematambémprecisouenfrentaromesmoevelhodilemaen-
treexpressãoartísticaesucessofinanceiro.Fazerumfilme,mesmoos
primitivos,emqueseusavaapenasumrolo,eraalgoqueexigiacapi-
tal, e, portanto,umcertocontrolesobreo produtofinal. Mas os fil-
messetransformaramnumsucessofinanceiroinstantâneoe total.O
públicoosdevorava,eo novomeioseviudiantedeenormesoportuni-
dadesde.expansãoeexperimentação.Maistardeapareceramoslonga-
metragenscomenredosmuitosemelhantesaosdosromances,ecom
elesessaíncomparávelfiguradostemposmodernos:aestrelacinema-
tográfica.Introduziu-seo som,maistardeacor,eambosvempassan-
doatéhojeporumprocessodeaperfeiçoamentocontínuo.A realização
~
1-
218 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MENSAGEM 219
defilmesconverteu-senumaindústriadegrandeporte,emqueosgran-
desedispendiososespetáculoseramassociadosa Hollywood,eoses-
forçoscriativos,deorçamentosmaismodestos,ao cinemaeuropeu.
Existe,porém,umaformade intercâmbioquehojeemdiaconstitui
umaexceçãoa essefato,quandoumgrandenúmerodeatoresepro-
dutorescruzamfreqüentementeo Atlânticoemambasasdireções.
Tantoparao espectadorquantoparao realizador,o elementovi-
sualpredominantenocinemaéo movimento.Quandoesseelemento
vemsomar-seàscaracterísticasrealistasda fotografia,o resultadoé
umaexperiênciaqueseaproximamuitíssimodoquesepassanomun-
dotalcomooobservamos.O cinemacertamentepodefazermuitomais
doqueapenasreproduzircomfidelidadeaexperiênciavisualhumana.
Podetransmitirinformações,efazê-Iocomgranderealismo.Também
podecontarhistórias,eencerraro tempoemumaconvençãoquelhe
éprópriaeexclusiva.A magnitudedeseupodernosdáa medidadas
dificuldadesparacompreendê-Ioestruturalmente,planejá-Ioemantê-
10sobcontrole.Ainda queos roteirosverbaissejamos maisusados
no planejamentoena elaboraçãodosfilmes,a melhorformadega-
rantira qualidadeéutilizaro storyboard,umequivalentevisualdo
esboçográficoou pictórico(fig. 8.11).A exemplodo esboçousado
pelosartistasgráficos,ostoryboardtambéméfeitoemdimensõesre-
duzidas,o quedáaocineastaapossibilidadedeumavisãodeumcon-
junto, ou, pelomenos,desegmentosmaioresqueassimplestomadas
individuais,o quepermiteumamaiorpossibilidadedeinsightdosefei-
toscumulativos.Permitetambémao planejadorexercerumcontrole
simultâneodasunidadesvisuaisinteratuantesqueconstituemascenas,
numavisãopanorâmicadetodoo designo
O storyboardtambémpermitequeo cineastaincorporeo mate-
rial verbala umdesigndemaiorcontinuidade,assimcomoa música
e,nocasodeseremusados,osefeitossonoros.As forçassegmentadas
do filmepodemserprevistasecontroladasgraçasàssoluçõesexperi-
mentaisdo storyboard.
O maiorconhecimentotécnicoampliouasáreaspossíveisdarea-
lizaçãocinematográfica.Foraminventadascâmerasmaisbaratasepe.-
lículasmaisadequadasaosamadores,esurgiuentãoo equivalentedo
instantâneo,o cinemafeitoemcasa.Esseequipamentoamador,ligei-
ramenteaperfeiçoado,foi adotadopor realizadoresdefilmesindus-
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FIGURA 8.11
triais e científicos,e tambémse encontraao alcancede cineastas
altamentecriativos,quefazemfilmescomoafirmaçõespessoaisdeseu
talentoartístico.Taisobras,filmesdearteoudocumentários,sãoem
suamaiorparteexibidasnosfestivaisdecinemadestinadosexatamen-
teaessetipodefilme,enosprogramasdastelevisõeseducativascujo
númerosetornacadavezmaior.Atémesmoasredescomerciaisjá fo-
raminvadidasporessasobrasexpressivasesuastécnicasestimulantes
eexperimentais.De fato,a televisão,ummeioeletrônicodivididoen-
trea utilizaçãodacâmeraaovivoeosfilmes,equedeinícioparecia
representarumagrandeameaçaàsobrevivênciadocinema,temnaver-
dadecontribuídomuitoparadifundirjuntoao públicoa consciência
doqueéo cinema.As freqüentesreprisesdevelhosfilmeseo usode
..,..
220 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
AS ARTES VISUAIS: FUNÇAo E MENSAGEM 221
II1
curtas-metragensexperimentaistêmfeitoaumentaro númerodeciné-
filos, os quaisvêemessemeiocomumanovaseriedade,queos traz
devoltaàs salasdeprojeçãocomumgostomaisapurado.
Emboraaindanãopassedeumacriança,ocinemaprometetornar-
seumaformadearteextraordináriaeincomparável.Em "Climateof
Thought", Jean Cassouassimvêessapromessa:
"O cinema,esóocinema,comsuagestualidadeeseuritmo,com
suasrestriçõestécnicas,comsuaslimitaçõesespecíficasesuaindigên-
cia fantasticamentefértil,pôdeengendraressetipodegargalhadade
quetodasasclassessociaispodemparticipar,desdeos queriempor
qualquermotivoatéosqueexigemasatisfaçãodenecessidadesestéti-
casmaissutis.A absolutaoriginalidadedo cinema- a 'SétimaAr-
te' - comsuasinfinitaspossibilidades,já ficavamuitoclaradesde
assuasprimeiraserudimentaresproduções.Deve-se,porém,admitir
(eatémesmoproclamar)queo desenvolvimentodaartecinematográ-
ficaconstituiumaextraordináriaaventura;queo cinemaé,naverda-
de, a característicae a grandeformaartísticado séculoXX."
II
II
I
II
Em sentidomoderno,o conceitodemeiosdecomunicaçãoestá
inextricavelmenteassociadoà idéiadeaudiênciaemmassa.Emtermos
estritos,qualquerportadordemensagens- umapinturamural,um
discurso,umacartapessoal- podeserchamadodemeiodecomuni-
cação.Essareferênciaseriaválidapor definição,mashoje,quando
falamosemmeiosdecomunicação,a idéiaimplícitaéum grande,e
possivelmenteimpessoal,grupodepessoas.É emtermosdegrupo,ou
demuitosgrupos,queasmensagensdemassasãoconcebidas,coma
intençãode obterumarespostaou umacooperaçãopor partedo
público.
Osmodernosmeiosdecomunicação,comsuaaudiênciaemmas-
saeinvisível,sãoosprodutoscolateraisdaRevoluçãoIndustrialede
suacapacidadedeproduçãoemsérie.As iluminurasda IdadeMédia
nãoseriamclassificadascomomeiosdecomunicaçãonessesentido,nem
ospoemasépicosdosgregos,ouasbaladas(enotíciaseopiniões)dos
menestréiserrantesdaEuropa.Por quê?As variantesindividuaisnão
sópoderiaminfiltrar-senoconteúdodasmensagens,comomuitopro-
vavelmenteo fariam.O resultadofinalseriaquenemtodososrecep-
toresdasinformaçõescomunicadaspoderiamtercertezadeestarem
recebendoamesmamensagem.Essavariaçãodamensagembásicater-
minoucoma invençãoe o usocadavezmaiordo tipomóvel.Uma
vezfixadaemtipo,cadaumadascópiasdeumapeçaimpressaéabso-
lutamenteuniformeeidêntica.A idéiadeuniformidadepodenãoser
atraente.Temseusbonseseusmausaspectos,maséapartirdelaque
sedáo inevitáveladventodapalavramassanos"meiosdecomunica-
çãodemassa".
O livroprovocoue incentivouo alfabetismo,querompeucomo
monopóliodainformaçãomantidoporumaminoriacultaepoderosa.
A coleta,acompilaçãoeadistribuiçãodeinformaçõesinsinuou-sepor
todososníveisdasociedadeduranteo SéculodasLuzes.O fenômeno
do livro aindaparticipadenossasvidas.À medidaqueastribos,os
vilarejose a famíliacederamlugara identidadesgrupaise lealdades
maisamplas,o livroeosdemaisformatosimpressosvieramasubsti-
tuir o mitoeo símbolo,a fábulaea moralidade.O quefazer,o que
pensar,o quesaberecomocomportar-sesãoquestõesquesetorna-
rammaispúblicaseuniformes.Aindahoje,numaépocadominadape-
losmeioseletrônicosdecomunicação,olivroeosimpressosemgeral
continuamsendopoderososagentesdetransformação.A principaldi-
ferençaentreunseoutrosestánasimultaneidade.A uniformidadedos
formatosimpressos- livros,revistas,jornais,folhetos,pôsteres_
tornapossívelatransmissãodeumamensagemparaum'grandepúbli-
co. Mas o adventodo rádioe da televisãofezcomqueessamesma
informaçãoeexperiênciasetornasseminstantaneamenteacessíveisa
umaaudiênciaemmassa.
Osmodernosmeiosdecomunicaçãosurgiramdeduasconquistas
paralelasqueacabarampor unir-se.A primeiradelasfoi acâmera,o
criadormecânicodeimagens;asegundafoi acapacidadequeasondas
derádiotêmdetransmitirdadosatravésdecondutoresoudaatmosfe-
ra.O milagredacâmera,quecomeçoucomacâmaraescura,umbrin-
quedorenascentista,nãoterminounasfotografiasfixasepreserváveis.
A câmaraescuraeracapazdefazeralgoquenãoestavaaoalcanceda
câmera:mostrarmovimento.Essaconquistaaparentementeimpossí-
velconcretizou-segraçasaosesforçoslentosepenososdemuitosho-
Televisão
~
r-
I
.,...
11.
mens,comoMuybridge,Edisone os irmãosLumiere.Utilizandoo
fenômenoda persistênciadavisão,a ilusãodemovimentofoi repro-
duzidapelajustaposiçãode imagensimperceptivelmentediferentes,
mostradasemrápidasucessãoenumaseqüênciaregular.O olhoseen-
carregavado resto.
Em conjunto,a fotografiafixa,easériedefatosqueconstituem
apelículacinematográficasãoapenasumcaminhoparao desenvolvi-
mentodosmodernosmeiosdecomunicaçãode:massa.O outroestá
ligadoàbuscademeiosdeenviarmensagensa longadistância.O pri-
meirométodofoio telégrafo(doprefixogregote/e,quesignifica"dis-
tante"),quetransmitiaumcódigoauditivo,pormeiodepontosetraços,
atravésdecondutoreselêtricosque,nocomeçodesteséculo,interliga-
vamo mundo,passandosobo oceano.MaslogoessainvençãodeSa-
muelF. B. Morse foi modificadae aperfeiçoada,dandolugarao
telefone,umaparelhocapazdetransmitirsonsmaiscomplexos.Foi
apossibilidadedetransmitirsonsatravésdoespaçopormeiodeondas
eletromagnéticas,resultantedasexperiênciasdeScotchmanMaxwell
eGermanHertz,quesetransformarianopontodepartidadaquiloque
maistardeseriao rádio.Assimcomoo telégrafodeMorse,quetrans-
mitiasonsporumfio, tinhasugeridoo telefone,quepodiatransmitir
umaconversaentrepessoas,a transmissãosemfio deMarconi,que
enviavasinaiselétricospeloar, logicamentesugeriuapossibilidadede
enviarumdiscursoarticuladoou outrossonsmaisapurados,comoa
música,atravésdeondasaéreas.Essafaçanhafoi realizadapelapri-
meiravezpor umnorte-americano,ReginaldAubreyFessenden,em
1900.
É aquiqueosdoiscaminhosseunem.A criaçãodeimagenseas
ondasderádiocombinam-separacriaro maispoderosoe inovador
detodososmodernosmeiosdecomunicação- atelevisão.Ospassos
finaisdo inventosãocomplexoseenormementedispendiosos:o selê-
nio eo discomecânico,a válvuladeraioscatódicos,o iconoscópio,
o cinescópio.Cadaumdessespassosfoi lentoevacilante,etodosen-
volveramcontribuiçõesdeinúmerosindivíduos.Umaprogramaçãoain-
da muitolimitadateveiníciono finaldosanos30e primórdiosdos
anos40,masa verdadeiratelevisão,capazdeformarredesdetrans-
missão,sóveioadesenvolver-sedepoisdaSegundaGuerraMundial.
Em termoselementares,a principaldiferençaentrea televisãoe
AS ARTES VISUAIS: FUNÇÁOE MENSAGEM 223
o cinemaéaescala.Todososoutroselementosvisuaissãoosmesmos.
O cinemafoi concebidoparareproduzirimagensmaioresqueas de
tamanhonatural,enquantoquenatelevisãoaconteceexatamenteocon-
trário.Talvezsejaesseo motivoprincipaldautilizaçãomaisfreqüente
dostoryboardnoplanejamentodeumaapresentaçãotelevisiva.Outro
fatorimportanteéquenatelevisãopredominamrígidaslimitaçõesde
tempo.Planejarparaelasignificasabernãosóo queestáacontecendo
e quando,mas,maisexatamente,quandoepor quantotempo.
As opçõesvisuaisdatelevisãosãoprofundamenteinfluenciadas
pelaspequenasdimensõesda telae pelasperturbaçõesdo ambiente.
Essaslimitaçõestornamprioritáriaumaformulaçãovisualclaraeen-
fática.O criadordeumprogramadeveterumgrandedomíniodasfor-
çascapazesdeneutralizarasperturbaçõesprovocadasporcriançasque
choram,pessoasqueandampelacasae telefonesquetocam,e para
fazê-Iodeverecorrera técnicasvisuaisfortesedominantes,quevão
docontrasteaoexagero,àênfase,àousadia,àagudezaeaoutrasque
possamreforçaros efeitosobtidos.
A essaalturadahistóriadacomunicação,a televisãonãosóéca-
pazdeatingirsimultaneamenteo maiorpúblicodetodosostempos,
comotambém,atravésdossatélitesTelstar,defazercomqueessepú-
blicoultrapassefronteiras,continenteseculturas.As implicaçõesde
tudoissosãoassombrosas.Os momentoshistóricosda humanidade
podemsercompartilhadosportodos,emqualquerpartedomundoonde
existaumtelevisor.E, pelocontrário,os fatosquepoderiamtersido
eliminadosdaexperiênciadireta,ouatémesmosilenciados,sãominu-
ciosamenteexaminadospeloolhopenetrantee inexoráveldacâmera.
É verdadequeo conteúdoaudiovisualdatelevisãopodesercontrola-
do,emesmomanipulado.Masnãosãojustasasqueixasdequeatele-
visãoouo cinemapodemdistorcerasinformaçõesmaisqueosoutros
meios.O responsávelporessaatitudedefensivatalvezsejaopoderpu-
ro de imagense palavrasquea televisãoé capazdetransmitir,com
umcarátertãoíntimoeprivilegiado(fig. 8.12).As cabanasdepapel
alcatroadodo sul ruralpuderamver,graçasà televisão,ummundo
quejamaispensaramexistir.O mesmoaconteceucomos moradores
dosbairrospobresdo norte.
Ninguémdevesesurpreendercomos resultados!Toda a nação
norte-americanapôdeacompanhar,noiteapósnoite,asreportagens
222 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
II~
I
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I
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I
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I~I
II
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224 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL í
I
FIGURA 8.12
deumaguerradistanteondeseusfilhoslutavam.Da experiênciasur-
giutodaumanovaposturadiantedaguerra.As convençõespolíticas,
osheróispopulares,osdistúrbioseosespetáculospodemtodosservis-
tos,no exatomomentoemquesedáa ação,ou poucodepois.Já se
tornouumlugar-comumimaginaralguémassistindoumaversãodu-
bladade"I LoveLucy" ou do "HomemdeVirgínia" diantedeum
solitárioaparelhodetelevisão,instaladonumacidadezinhado Brasil
ou deGana.Podeentãoelevar-seo cântico:"Todos estãovendo",
vendoasipróprios,vendo-seunsaosoutros,eo resultadoéumapro-
fundainfluênciasobreastransformaçõessociais.
Existemmuitosformatosmenoresdeartesvisuaisdosquaisnão
poderemosnosocuparaqui;muitosdelessãopoucopraticadosouco-
nhecidos,comoo designde iluminárias,a decoraçãodeinteriorese
o designdetiposdeimpressão.Por maisnaturale relevantequeseja
suavisibilidade,talveznãopercebamosoquantoimpregnamnossoesti-
lo devida:ovastouniversodaschargespolíticas,osquadrinhos,eo in-
cansáveleempermanentetransformaçãodesignderoupas.Em parte,
sãotodosvariantese combinaçõesdo modovisual,queinfluenciam
cadaumdosaspectosdenossomeioambiente.De fato,umdosfor-
I
II
AS ARTES VISUAIS: FUNÇÃO E MENSAGEM 225
matosqueultimamentevemadquirindoimportânciacadavezmaior
éumaramificaçãodoplanejamentourbanoaquesedáo nomedede-
signambienta!.Emboravivamosmuitopróximosdeles,seráqueos
percebemos?Mais umavez,é precisoperguntar:"Quantosde nós
vêem?"
No futuro,porém,nãomaisexistirãoos artistastal comohoje
osconhecemos,ecomoforamdefinidospelomundomoderno.As mes-
masforçasqueno início inspiraramao homema satisfaçãodesuas
necessidadesea expressãodesuasidéiasatravésdosmeiosvisuaisjá
nãosãopropriedadeexclusivado artista.Graçasà câmera,mesmoa
maissofisticadacriaçãodeimagensseencontratecnicamenteaoalcance
dequalquerpessoa.Mas a técnica,a intuiçãoartísticaou o condicio-
namentocultural,isoladamente,nãobastam.Para compreenderos
meiosvisuaiseexpressaridéiassegundoumaterminologiavisual,será
precisoestudaroscomponentesdainteligênciavisual,oselementosbá-
sicos,asestruturassintáticas,osmecanismosperceptivos,astécnicas,
os estilose ossistemas.Atravésdeseuestudo,poderemoscontrolá-
los,damesmaformaqueo homemaprendeua entender,a controlar
eausaralinguagem.Nessemomento,esóentão,seremosvisualmen-
te alfabetizados.
9
ALFABETISMO VISUAL: COMO
E POR QUÊ
mil o mundonãoatingiuumaltograudealfabetismoverbalcomra-
pidezou facilidade.Em muitospaíses,nemmesmoé umarealidade
viável.No casodoalfabetismovisual,o problemanãoédiferente.Noâmagodoproblemadoanalfabetismovisualexisteumparadoxo.Gran-
departedo processojá constituiumacompetênciadaspessoasinteli-
gentesedotadasdevisão.Quantosdenósvêem?Paradizê-lodemodo
ostensivo,todos,menososcegos.Comoestudaroquejá conhecemos?
A respostaaessaperguntaencontra-senumadefiniçãodoalfabetismo
visualcomoalgoalémdo simplesenxergar,comoalgoalémdasim-
plescriaçãodemensagensvisuais.O alfabetismovisualimplicacom-
preensão,emeiosdeverecompartilharo significadoaumcertonível
deuniversalidade.A realizaçãodissoexigequeseultrapassemospo-
deresvisuaisinatosdo organismohumano,alémdascapacidadesin-
tuitivasemnósprogramadasparaa tomadadedecisõesvisuaisnuma
basemaisoumenoscomum,edaspreferênciaspessoaisedosgostos
individuais.
Uma pessoaletradapodeserdefinidacomoaquelacapazdeler
eescrever,masessadefiniçãopodeampliar-se,passandoaindicaruma
pessoainstruída.No casodoalfabetismovisualtambémsepodefazer
a mesmaampliaçãodesignificado.Alémdeoferecerumcorpodein-
formaçõeseexperiênciascompartilhadas,o alfabetismovisualtrazem
si a promessadeumacompreensãocultadessasinformaçõese expe-
riências.Quandonosdamoscontadosinúmerosconceitosnecessários
paraa conquistado alfabetismovisual,a complexidadedatarefase
tornamuitoevidente.Infelizmente,nãoexistenenhumatalhoquenos
228 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL I ALF ABETlSMO VISUAL: COMO E POR QUÊ 229
permitachegar,atravésdamultiplicidadededefiniçõesecaracterísti-
casdovocabuláriovisual,aumpontoquenãoofereçaquaisquerpro-
blemasdeelucidaçãoecontrole.Há umgrandenúmerodefórmulas
simples,eosmanuaisestãocheiosdelas.Em geraltendemaserunidi-
mensionais,frágeise limitadas,e nãorepresentama qualidademais
desejáveldosmeiosvisuais,ou seja,seuilimitadopoderdescritivoe
suainfinitavariedade.Existempoucasrazõesparanosqueixarmosda
complexidadedaexpressãovisualquandonosdamoscontadeseugran-
depotenciale somoscapazesdevalorizá-Io.
A questãodequea linguagemnãoéanálogaao alfabetismovi-
sualjá foi colocadainúmerasvezes,epordiferentesrazões.Masa lin-
guageméummeiodeexpressãoecomunicação,sendo,portanto,um
sistemaparaleloaodacomunicaçãovisual.Não podemoscopiarser-
vilmenteosmétodosusadosparaensinaralereaescrever,maspode-
mostomarconhecimentodeleseaproveitá-Ios.Ao aprendera lerea
escrever,começamossemprepelonívelelementarebásico,decorando
o alfabeto.Essemétodotemumaabordagemcorrespondentenoensi-
nodoalfabetismovisual.Cadaumadasunidadesmaissimplesdain-
formaçãovisual,oselementos,deveserexploradaeaprendidasobtodos
os pontosdevistadesuasqualidadesedeseucaráterepotencialex-
pressivo.Nãoháporquepretenderqueesseprocessosejamaisrápido
queo aprendizadodo abecedário.Umavezquea informaçãovisual
émaiscomplexa,maisamplaemsua.sdefiniçõeseassociativaemseus
significados,énaturalquedemoremaisa seraprendida.Ao finalde
umlongoperíododeenvolvimentocomoselementosvisuaiseexposi-
çãoaosmesmos,osresultadosdeveriamrefletiro quesignificatermos
aprendidotodoo alfabeto.É precisoquehajaumagrandefamiliari-
dadecomoselementosvisuais.Precisamosconhecê-Ios"de cor". Em
outraspalavras,seureconhecimentoou suautilizaçãodevealçar-sea
um nívelmaisaltodeconhecimentoqueosincorporetantoà mente
conscientequantoà inconsciente,paraqueoacessoatéelessejaprati-
camenteautomático.Devemestarali, masnãodemodoforçado;de-
vemserpercebidos,masnãosoletrados,comoacontececomosleitores
principiantes.
O mesmométododeexploraçãointensivadeveseraplicadonafa-
secompositivadeinputououtputvisual.A composiçãoébasicamente
influenciadapeladiversidadedeforçasimplícitanosfatorespsicofi-
siológicosdapercepçãohumana.Sãodadosdosquaiso comunicador
visualpodedepender.A consciênciadasubstânciavisualépercebida
nãoapenasatravésdavisão,masatravésdetodosossentidos,enão
produzsegmentosisoladoseindividuaisdeinformação,massimuni-
dadesinterativasintegrais,totalidadesqueassimilamosdiretamente,
ecomgrandevelocidade,atravésdavisãoedapercepção.O processo
levaao conhecimentodecomosedá a organizaçãodeumaimagem
mentaleaestruturaçãodeumacomposição,edecomoissofunciona,
umaveztendoocorrido.
Todoesseprocessopodeseraplicadoaqualquerproblemavisual.
Parasechegarà interpretaçãodeumaidéiadentrodeumacomposi-
ção,oscritériosformuladospelapsicologia,sobretudopelapsicologia
daGestalt,complementamautilizaçãodastécnicasvisuais.Tantono
casodeumesboço,quantonodeumafotografiaoudesigndeinterio-
res,grandepartedo controledosresultadosfinaisestánamanipula-
çãodoselementosporpartedocomplexomecanismodetécnicasvisuais.
A familiaridadealcançadaatravésdousoedaobservaçãodecadatéc-
nicadálivrecursoàamplagamadeefeitospossibilitadosporsuasutil
gradaçãodeumapolaridadeà outra.A gamadeopçõesé enorme,e
as escolhassãomúltiplas.
Osconjuntoscompositivos,emconjuntocomasescolhasdetéc-
nicasesuarelativaimportância,constituemumvocabulárioexpressi-
vo quecorrespondeàsdisposiçõesestruturaise àspalavras,no caso
doalfabetismoverbal.O aprofundamentodaspesquisasedoconheci-
mentodeambosvaipermitirqueseabramnovasportasàcompreen-
sãoeaocontroledosmeiosvisuais.Masissolevatempo.Precisamos
examinarnossosmétodoscomo mesmorigorqueaplicamosà lingua-
gemouàmatemática,oua qualquersistemauniversalmentecompar-
tilhadoe portadordesignificado.
Dealgumaforma,poralgummotivoouváriosdeles,o modovi-
sualévistooucomointeiramenteforado alcanceecontroledaspes-
soassemtalento,ou, pelocontrário,comoimediatamente- quando
não instantaneamente- acessível.A supostafacilidadede expressão
visualtalvezestejaligadaànaturalidadedoatodever,ouà natureza
instantâneadacâmera.Todoessepontodevistaporcertosevêrefor-
çadopelafaltadeumametodologiaquepossibilitea conquistadoal-
fabetismovisual.Sejamquaisforemsuasfontesexatas,ambosos
230 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL T ALFABETISMO VISUAL: COMO E POR QUÊ 231
pressupostossãofalsoseprovavelmenteresponsáveispelabaixaquali-
dadedoprodutovisualemtantosmeiosdeexpressãovisual.Osedu-
cadoresdevemcorresponderàs expectativasde todosaquelesque
precisamaumentarsuacompetênciaemtermosdealfabetismovisual.
Elesprópriosprecisamcompreenderqueaexpressãovisualnãoénem
umpassatempo,nemumaformaesotéricaemísticademagia.Have-
ria,então,umaexcelenteoportunidadedeintroduzirumprogramade
estudosqueconsiderasseinstruídasaspessoasquenãoapenasdomi-
nassema linguagemverbal,mastambéma linguagemvisual.
Umametodologiaéimportante;imersãoprofundanoselementos
enastécnicasévital;umprocessolentoegradativoéumanecessidade
iminente.Essaabordagempodeabrirportasaoentendimentoeaocon-
troledosmeiosvisuais.Mas o caminhoa percorreré longo,eo pro-
cessolento.Dequantosanosprecisaumacriançaou um adultoque
falaperfeitamenteparaaprenderalereaescrever?Alémdisso,deque
maneiraa familiaridadecomo instrumentodoalfabetismoverbalafe-
tao controledalinguagemescritacomomeiodeexpressão?O tempo
eoenvolvimento,aanáliseeaprática,sãotodosnecessáriosparaunir
intençãoeresultados,tantonomodovisualquantonoverbal.Emam-
bososcasos,háumaescalacujospontospodemosmarcardiferente-
mente,maso alfabetismosignificaa capacidadede expressar-see
compreender,e tantoa capacidadeverbalquantoa visualpodeser
aprendidapor todos.E devesê-Io.
Essaparticipaçãoeessasuperaçãodaslimitaçõesfalsamenteim-
postasà expressãovisualsãofundamentaisparanossabuscado alfa-
betismovisual.Abrir o sistemaeducacionalparaqueneleseintroduza
o alfabetismovisual,eresponderàcuriosidadedoindivíduojá consti-
tuemumprimeiropassofirmeedecidido.Issotambémpodeserfeito
porqualquerumquesintanecessidadedeexpandirseuprópriopoten-
cialde fruiçãodo visual,desdea expresãosubjetivaatéa aplicação
prática.Comojá dissemos,trata-sedealgocomplexo,masnãomiste-
rioso.É precisoquenossareflexãoabranjadesdeosdadosindividuais
atéumavisãomaisampladosmeios,equetambémobservemosem
profundidadeaquiloqueexperimentamos,verificandocomoosoutros
alcançamseusobjetivose fazendonossasprópriastentativas.
Quevantagenstrazparaosquenãosãoartistasodesenvolvimen-
to desuaacuidadevisualedeseupotencialdeexpressão?O primeiro
e fundamentalbenefícioestáno desenvolvimentodecritériosqueul-
trapassemarespostanaturaleosgostosepreferênciaspessoaisoucon-dicionados.Sóosvisualmentesofisticadospodemelevar-seacimados
modismose fazerseusprópriosjuízosdevalorsobreo queconside-
ramapropriadoeesteticamenteagradável.Comomeioligeiramentesu-
periordeparticipação,o alfabetismovisualpermitedomíniosobreo
modismoe controledeseusefeitos.Alfabetismosignificaparticipa-
ção,etransformatodosqueoalcançaramemobservadoresmenospas-
sivos.Na verdade,o alfabetismovisual impedeque se instaurea
síndromedas"roupasdoimperador", eelevanossacapacidadedeava-
liaracimadaaceitação(ourecusa)meramenteintuitivadeumamani-
festaçãovisualqualquer.Alfabetismovisualsignificaumainteligência
visual.
Tudo issofazdoalfabetismovisualumapreocupaçãopráticado
educador.Maior inteligênciavisualsignificacompreensãomaisfácil
detodosos significadosassumidospelasformasvisuais.As decisões
visuaisdominamgrandepartedascoisasqueexaminamoseidentifica-
mos,inclusivena leitura.A importânciadessefato tão simplesvem
sendonegligenciadaportempolongodemais.A inteligênciavisualau-
mentaoefeitodainteligênciahumana,ampliaoespíritocriativo.Não
setrataapenasdeumanecessidade,mas,felizmente,deumapromes-
sadeenriquecimentohumanoparao futuro.
~
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234 SINTAXE DA LINGUAGEMVISUAL
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Fontesdasnustrações
Os númerosentreparêntesesqueseseguemaosnúmerosdasfiguras
indicamaspáginasemqueaparecemasfiguras.Todasasfigurasfo-
ramreproduzidascompermissão.
JacquelineCasey,doMIT PublicationsOffice,criouospôstereseos
anúnciosreproduzidosnasfiguras6.8c(143),6.12b(145),6.13b(145),
6.14b,c(146),6.15c(146),6.19b(148),6.22b,c (150),6.25b(151),6.26b
(152),6.27c(152),6.29c(153),6.30c(154),6.36b,c(157)e6.38c(158).
RalphCoburn,doMIT PublicationsOffice,criouospôstereseosanún-
ciosreproduzidosnasfiguras6.4b,c(141),6.6b,c(142),6.8b(143),6.9c
(143),6.17c(147),6.18b,c(148),6.23b(150),6.24c(151),6.25c(151),
6.26c(152),6.28b,c(153),6.32b,c(155)e 6.41b,c(159).
A foto da figura8.3(193)é deWaldo.
"
Carl Zahn,doMuseumof FineArtsdeBoston,criouomaterialgráfi-
coreproduzidonasfiguras6.11b(144),6.15b(146),6.16b(147),6.31c
(154),6.33c(155)e 6.40b,c(159).
O desenhoea fotodamaquetedoBostonCityHall, figuras3.12(56)
e 3.47(79),são reproduzidaspor cortesiados arquitetosKallman,
Knowlese Mckinnell.
As figuras4.2(90),4.3(91),4.12a(95),4.12b,c(96),4.13a,b,c(97),
~
236 SINTAXE DA LINGUAGEM VISUAL
5.13(120)5.14(120),e7.1(164)sãoreproduzidasporcortesiadoMu-
seumof FineArts deBoston.
A autoraforneceuo materialdasfiguras3.11(56),prancha3.1(67),
figuras3.45(78),3.46(79),4.1(89),5.27(127),5.28(129),5.29(129),
6.lOc(144),6.11c(144),6.12c(145),6.13c(145),6.19c(149),6.2Oc
(149),6.21b(149),6.24b(151),6.29b(153),6.30a(154),6.33b(155),
6.34b,c(156),6:35b(156),6.37b(157),6.38b(158),6.39b(158),7.2
(164),7.4(169),7.5(172),7.6(174),7.7(176),7.8(179),8.1(190),8.7
(202),8.8(202),8.9(208),8.10(209),8.11(219)e8.12(224).A escul-
turarepresentadanasfiguras3.45(78)e3.46(79)édeautoriadeEmory
Goff, e faz parteda coleçãoda autora.
As figuras8.2(192)e8.4(196)foramtiradasdosLivrosdeEsboços
deLeonardoda Vinci.
As figuras6.5b(141),6.7c(142),6.9b(143),6.lOb(144),6.17b(147),
6.20b(149),6.23c(150),6.27(152),6.30b(154),6.31b(154),6.35c(156),
6.37c(157),6.39c(158),8.5(196)e8.6(197)sãoreproduzidasdeli-
vroseanúnciospublicadospelaMIT Press.A capaea figura6.7b(142),
foramcriadasparaa MIT Presspor BernieLaCasse.
As figuras4.20(101),4.21(101),4.22(102)e6.31a(154)sãoexercí-
ciosdeestudantes.
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