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Elementos da Linguagem Visual Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.ª Maria Jose Spiteri Tavolaro Passos Revisão Textual: Prof.ª Me. Sandra Regina Fonseca Moreira Elementos Básicos da Linguagem Visual • Introdução; • Tom; • Textura; • Escala, Proporção e Composição. • Descrever, apresentar e exemplifi car os elementos compositivos básicos da lingua- gem visual; • Compreender suas relações na composição e aplicações na linguagem visual, exem- plifi cando, analisando e comentado algumas das diversas alternativas possíveis. OBJETIVOS DE APRENDIZADO Elementos Básicos da Linguagem Visual Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual Introdução Olhe o espaço ao seu redor e observe que tudo o que vemos está relacionado à luz: formas, cores, tonalidades, texturas, a distância entre os objetos... Tudo depen- de da luz e dos seus efeitos sobre os corpos. Depois de tratarmos de elementos primordiais na linguagem visual como o ponto, a linha e a forma, vamos seguir a nossa jornada verificando outros elementos básicos que estão diretamente ligados às superfícies das formas, como o tom e a textura, e à relação entre as formas e o espaço, como é o caso da escala e da proporção. Assim como está presente na natureza, entre as representações do mundo reali- zadas pelo homem, o uso do tom pode ser encontrado desde as pinturas rupestres (link a seguir). Detalhe de desenhos na Toca da Entrada do Pajaú no Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no Estado do Piauí por Tiago Queiroz, disponível em: https://goo.gl/vxWEXWEx pl or Observe que, na realidade, só podemos visualizar os temas representados por causa do contraste entre o tom das formas pintadas, que é mais escuro do que aquele da superfície rochosa que lhes serviu como suporte. Também a textura, enquanto qualidade das superfícies, é um elemento funda- mental quando tratamos da linguagem visual. Já parou para pensar em como so- mos atraídos pelas texturas dos materiais? Cada material tem a sua textura especí- fica e cada textura nos traz uma informação e uma sensação, seja do ponto de vista tátil ou do ponto de vista visual. Ao longo da História, o homem vem explorando largamente esse elemento e diferentes modos de representá-lo em suas produções. A escala é um outro elemento importante no campo da visualidade, pois ela estabelece a relação e a proporção do ser humano com relação ao seu entorno. Assim, ao observarmos novamente a pintura rupestre o link anterior, podemos ter alguma noção de como os caçadores eram pequenos se comparados ao animal que estavam tentando capturar, uma relação do grande sobre o pequeno. Visualmente, as relações de escala já serviram para representar a hierarquia em uma sociedade, como podemos observar no Antigo Egito, quando em suas obras empregavam-na para uma representação da hierarquia social, conforme apresen- tado no link a seguir. Veja que nessa imagem, quanto maior a importância (faraó, sacerdotes, entre outros), maior a figura. Já os de menor relevância na estrutura so- cial (os soldados, o povo, os escravos...), eram representados com menor tamanho. Cenas agrícolas, disponível em: https://goo.gl/rDv5kg Ex pl or 8 9 Na Grécia Antiga, descobriu-se a escala de crescimento exponencial presente na natureza, a proporção áurea (trataremos a respeito dela mais adiante) e a incorpo- raram na produção artística e arquitetônica como seu ideal de beleza matemática. Este módulo trata a respeito de tudo isso. Aproveite a oportunidade para, por meio dos exemplos apresentados ao longo do texto, ampliar e aprofundar seus co- nhecimentos. Procure também analisar e perceber as diversas alternativas possíveis de aplicação desses elementos. Tom Quando tratamos de tom no meio natural, estamos nos referindo à intensidade e claridade de qualquer coisa vista, pois “vemos graças à presença ou à ausência re- lativa de luz, mas a luz não se irradia com uniformidade no meio ambiente, seja ela emitida pelo Sol, pela Lua ou por alguma fonte artificial” (DONDIS, 2010, p. 56). É com base nessas variações de claridade ou de obscuridade, bem como no contraste entre os claros e escuros que conseguimos perceber as informações de um ambiente. Na natureza, as tonalidades são inúmeras, mas na produção humana, verificou- -se que entre o pigmento branco e o preto, há cerca de treze gradações facilmen- te perceptíveis (Figura 1). Porém, observe que quando criamos relações entre as tonalidades, por justaposição e sobreposição, por exemplo, é possível obter uma variação tonal mais ampla, pois um tom de cinza modifica-se sensivelmente ao ser inserido numa escala tonal (Figura 2) (DONDIS, 2010, p. 56-57). Figura 1 – Escala tonal do branco ao preto Figura 2 – Inserção do cinza na escala tonal Veja que na natureza, o tom está sempre relacionado à quantidade de luz que incide sobre uma superfície. No entanto, quando tratamos de tonalidade em produções visuais como na fotografi a, no cinema, na pintura e em outras, buscamos por recursos que representem aquilo que vemos. Assim, transformamos o que na natureza seria luz, em manchas produzidas com corantes mais ou menos escuros (as tintas), sais de prata e outras substâncias que possam reagir à luz para criar as variações de claridade (como ocorre na fotografi a) e assim tentamos “imitar” os tons naturais. Ex pl or 9 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual O tom é um elemento muito importante para a percepção humana, compreen- demos de imediato uma representação monocromática do mundo real sem hesitar. Os tons variáveis de cinza utilizados nas artes gráficas, pintura, fotografia e cinema são substitutos monocromáticos para a vasta gama de cores da natureza. Mas a riqueza da natureza é tamanha que é impossível transpor para a fotogra- fia, por exemplo, todos os valores tonais nela existentes. Na década de 1930, o fotógrafo e músico estadunidense Ansel Easton Adams queria muito reproduzir na fotografia os muitos tons de cinza presentes no meio natural. Pensou em um modo de criar um tipo de escala (como se os tons fossem notas musicais) e passou a estabelecer associações entre o que vemos e as tonali-dades na fotografia. A essa escala tonal de cinzas, chamou-se de Sistema de Zonas. Importante! Ansel Easton Adams é considerado um dos maiores ícones da fotografia em preto e branco; nasceu a 20 de fevereiro de 1902 e faleceu em 22 de abril de 1984. Em 1916, durante uma viagem com a família fotografou o Parque Nacional de Yosemite. Nunca mais parou de fotografar! Você Sabia? Conheça um pouco mais da obra de Ansel Adams, que pode ser vista em: https://goo.gl/9dqulY Ex pl or O método de Adams, aplicado à captura, revelação e impressão com o controle preciso dos tons de cada região de uma paisagem fotografada, resumidamente consiste na divisão do intervalo tonal, desde o preto até o branco mais puro, em onze zonas (0 até 10). A Zona 0 corresponde ao valor de preto mais profundo que o papel foto- gráfico poderia reproduzir, e a Zona 10 ao valor de branco mais claro possível, no caso, o tom do próprio papel. Todas as áreas do assunto fotografado com valores diferentes de luminosidade seriam relacionadas a uma dessas 11 zonas de exposição (Figura 3) e, a seguir, aos valores correspondentes de cinza na impressão final (Figura 4). Figura 4 – Correspondência de cinza na impressão Fonte: Medium Zona 0 Zona I Zona II Zona III Zona IV Zona V Zona VI Zona VII Zona VIII Zona IX Zona X Figura 3 – Zonas de exposição e seus valores 10 11 A luminosidade ou obscuridade relativa de uma determinada cor é denominada valor cromático e tem valor tonal correspondente (por aproximação) na escala de cinza (Figura 5), ou seja, não é muito mais claro nem muito mais escuro que o tom de cinza correspondente. Cores diferentes podem possuir o mesmo valor tonal, ou seja, não são mais claras nem mais escuras entre si. Escala de Tons e Valores Índices de luminosidade (aproximados) % 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Figura 5 – Escala de tons e valores Em meados do século XIX, muitos fotógrafos, na tentativa de conferir um status de arte à fotografia, alteravam manualmente as propriedades das imagens, chegan- do a, com base nos valores tonais, acrescentar cor às suas fotos. A essa tendência denominou-se pictorialismo. Como exemplo, vemos na Figura 6 uma das fotogra- fias da estadunidense Anne Brigman. Atualmente, por meio de softwares, podemos alterar com grande facilidade a coloração de uma imagem, inclusive trabalhando somente com os valores tonais. Figura 6 – Figura feminina, 1915, por Anne Brigman Fonte: wikiart.org 11 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual Nos últimos anos, muitos artistas passaram a utilizar a edição digital para colorir fotogra- fias históricas captadas em preto e branco, entre eles Jordan J. Lloyd. Embora Lloyd tenha contado com a assessoria de profissionais, nunca saberemos ao certo se as cores aplicadas à versão colorida correspondem fielmente às cores originais da cena fotografada. Porém, os tons de cinza da fotografia original correspondem aos tons das cores aplicadas na versão colorida, e é isso que dá naturalidade e fidelidade à reprodução. Lloyd começou a colorir imagens em 2012 para atender ao pedido de colorir uma foto de família. Para efetuar esse trabalho, seu estúdio – a Dynamichrome – “pinta” a foto de forma digital. Para conseguir os efeitos desejados do modo mais real possível, primeiro ele pesqui- sa em fotos de época para depois ir sobrepondo camadas diferentes até conseguir o realismo que caracteriza suas fotos coloridas. Conheça alguns trabalhos desse artista, visitando o artigo: Artista dá nova vida a velhas fotos históricas com cor digital, disponível em: https://goo.gl/8av393 Ex pl or Mas, hoje, mesmo com o desenvolvimento tecnológico e tendo o recurso da fotografia colorida, o desafio de se transpor a atmosfera de um momento por meio da fotografia em preto e branco ainda motiva o trabalho de muitos fotógrafos: [...] embora as fotografias coloridas sejam as mais difundidas, muitos fo- tógrafos contemporâneos preferem trabalhar com filme preto e branco, pois a fotografia em preto e branco pode expressar uma ideia de modo muito mais vigoroso, conferindo uma atmosfera muito especial a uma obra. (OCVIRK et al, 2014, p. 150) As imagens podem ser criadas com valores tonais contrastantes, valores simi- lares ou com qualquer combinação de valores da escala. O contraste entre tons claros e escuros apresenta um efeito dramático, acentuado pelos contrastes mais extremos, como o preto e branco na foto de Claudia Andujar (Figura 7). Figura 7 – Yanomani (c. 1971-1977) – Claudia Andujar Fonte: Claudia Andujar, 1998 12 13 Importante! Claudia Andujar é uma fotógrafa suíça, naturalizada brasileira, que desde a década de 1970 se dedica à proteção dos índios Yanomani; chegou a eles como fotógrafa da revista Realidade (Editora Abril) para fazer uma reportagem a respeito da Amazônia. Você Sabia? Analise cuidadosamente as imagens apresentadas até agora. Observe que o va- lor tonal se refere ao grau de luminosidade. Isso faz com que uma obra que apre- senta predominantemente tons escuros (do cinza médio para o preto) tenha valores tonais baixos, enquanto que uma imagem com predominância dos tons claros (do cinza médio para o branco) tenha valores tonais altos e seja mais luminosa. O que acaba ocorrendo é que a predominância de áreas escuras (valores tonais baixos) sugere uma atmosfera de opressão, ameaça, drama, suspense ou tensão, enquanto uma obra que é predominantemente luminosa (valores tonais altos) suge- re exatamente o efeito contrário. Podemos usar o tom como auxiliar no momento de representar a dimensão de um objeto. As linhas da perspectiva podem não conseguir criar a ilusão perfeita de tridimensionalidade, mas a inclusão de um fundo tonal tende a reforçar essa ilusão. Esse efeito é ainda mais evidente na representação da esfera; sem informa- ção tonal, a forma básica círculo não sugeriria dimensão, mas tudo muda quando incluímos esse aspecto (Figura 8). Figura 8 – Efeitos do fundo tonal na esfera Como você perfeitamente observa na figura 8, o contraste de valores tonais claros e escuros reforçam o efeito de volume pela sensação de luz refletida e as sombras projetadas pelo objeto. 13 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual Textura Imagine o percurso de uma formiga que esteja andando sobre um piso de ci- mento bem áspero. Ela certamente encontrará uma série de altos e baixos, não é mesmo? Para nós, humanos, esse conjunto de acidentes do relevo de uma super- fície é chamado de textura. Para Donis Dondis (2010, p. 65), “a textura é o elemento visual que com frequência serve de substituto para as qualidades de outro sentido: o tato”. A textura confere uma certa identidade, e isso pode ser sentido pelo toque, pode ser reconhecido pela visão ou por ambos os sentidos. É por meio dela que con- seguimos distinguir e identificar se uma superfície é lisa, áspera, rugosa, porosa, macia, sedosa, entre outros. A textura se relaciona com a composição de uma substância através de variações mínimas na superfície do material. Quando vemos em uma revista, a ilustração de uma lixa ou de um veludo, percebemos a aspereza de um e a suavidade do outro, assim, a textura nos oferece informações que não temos como comprovar (no caso do exemplo da revista), mas que são extremamente sensíveis e enriquecedoras. Observe atentamente a figura 9. Figura 9 – Object (Le déjeuner en fourrure) (1936) – Méret Oppenheim Fonte: moma.org Trata-se de uma obra da artista plástica e fotógrafa suíça, Méret Oppenheim. Veja como a tex- tura de pele de animal aplicada à xícara, ao pires e à colher provoca sensações ambivalentes. Embora possamos reconhecer essa textura como algo macio e agradável ao tato, a sua apli- cação em objetos do cotidiano relacionados à alimentação pode gerar uma sensação muito desagradável ou mesmo repugnante ao paladar, quando imaginamos colocá-los na boca. Lembre-se de que, do ponto de vista tátil, não estamos nos relacionando fisicamente com os objetos, mas somente por meio deum contato visual. Assim, pense a respeito de como é possível provocar sensações (agradáveis ou não) em um observador por meio da manipu- lação das texturas. Ex pl or 14 15 Textura Tátil Como o próprio nome diz, a textura tátil é aquela que pode ser tocada, sentida, palpada, ou seja, ela é real. A textura tátil assume papel preponderante quando tratamos das representa- ções tridimensionais. Nesses casos, os materiais empregados em tais obras são cuidadosamente escolhidos de acordo com suas texturas e a sensação que o artista pretende transmitir com elas (Figura 10). Figura 10 – Texturas de madeira Fonte: Pixabay Nas elaborações das obras tridimensionais também podem existir texturas artifi- ciais, elaboradas pela manipulação de diversos tipos de materiais. Como exemplo disso, são as esculturas hiper-realistas de Ron Mueck (Figura 11 e 12), que combi- nam texturas naturais (cabelos, tecidos) com texturas artificiais (pele, unhas). Figuras 11 – Mask II Fonte: Acervo do conteudista Figura 12 – Detalhe de escultura Ron Mueck Fonte: Acervo do conteudista Quando trabalhamos com as linguagens bidimensionais, como na pintura e nas artes gráficas, a textura tátil pode ser simulada pela escolha dos materiais que sejam usados. Além da textura natural do próprio suporte, o ângulo de incidên- cia e a qualidade da luz sobre a superfície de um objeto podem revelar texturas diferentes. Quando usamos luz direta, iluminamos de maneira uniforme o objeto; 15 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual mas a luz lateral ou “rasteira” projeta sombras intensas que destacam a textura do material (Figura 13). Figura 13 – A iluminação pode acentuar as texturas Fonte: pxhere.com Textura Visual Como o próprio nome nos indica, naturalmente as texturas visuais não são per- ceptíveis ao toque, porém, sugerem ao olhar a sensação tátil. Alguns artifícios podem ser usados para sugerir ao olhar uma característica tátil inexistente; podemos lançar mão de padrões diferenciados de linhas, hachuras, formas sobrepostas, sobretons, luzes e sombras que têm o poder de criar a ilusão de textura. A textura visual é particularmente importante quando se trata de alimentos por- que a imagem, além de bonita, deve parecer também apetecível. Para isso, o ponto de vista é especialmente importante (Figura 14). Figura 14 – Salada de frutas Fonte: pixabay.org 16 17 Por exemplo, a imagem tomada de um ponto de vista próximo (Figura 14) pode fazer com que o alimento pareça mais apetecível, e que o expectador deseje provar a comida. Nesses casos, os detalhes devem ser muito bem escolhidos: objetos, am- bientação, cor do suporte. Pense que criar o entorno adequado para os alimentos faz parte da linguagem visual e da mensagem que se pretende transmitir. Outra forma de aplicar a textura visual na atualidade é nas animações 3D. A adequada exploração desse elemento é de grande importância para dar vida aos personagens e aos cenários, que geralmente são desenvolvidos com a utilização de programas de computa- ção gráfi ca (CGI). Tome como exemplo a animação Valente, produzida pela Pixar Animation Studios (2012). É simplesmente incrível o resultado visual obtido nas texturas das roupas, cabelos, pelos e cenografi a. É possível assistir a uma amostra dessa aplicação das texturas em CGI no trailer dessa anima- ção disponível em: https://youtu.be/vHOC1Kd_zhw Ex pl or Especialmente na fotografia, a textura tátil do tema é um elemento funda- mental. Há profissionais desse ramo que a usam como elemento primordial e até mesmo como tema-base de suas produções. É o caso, por exemplo, de Edward Weston, considerado um dos mais importantes fotógrafos americanos e um dos precursores da fotografia artística no século XX. Ele deu um novo sentido e vida a objetos triviais, unificando a simplicidade e realismo do comum com a abstração, em imagens que evidenciam as formas e texturas naturais dos temas fotografados (Figura 15). Figura 15 – Alcachofra (1930) Fonte: Edward Weston, 1930 17 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual Escala, Proporção e Composição O que é uma pessoa alta? Alguém com mais de 1,60m ou alguém com mais de 2,0m de altura? Muito bem, tudo depende do referencial... Vamos refletir: para uma criança de 5 anos, a pessoa com 1,60m de altura poderá parecer alguém muito alto, no entanto, essa mesma pessoa, se comparada à outra de 2,0m poderá parecer alguém muito pequeno. E essa relatividade se estende a todos os demais elementos: algo é claro em relação a...; algo é pouco colorido em relação a... Assim, em seu livro Sintaxe da Linguagem Visual, Donis, ao tratar de escala nos diz que: [...] todos os elementos visuais são capazes de se modificar e se definir uns aos outros. O processo constitui, em si, o elemento daquilo que chamamos de escala. A cor é brilhante ou apagada, dependendo da justaposição, assim como os valores tonais relativos passam por enormes modificações visuais, dependendo do tom que lhes esteja ao lado ou atrás. Em outras palavras, o grande não pode existir sem o pequeno. (DONDIS, 2010, p. 66) Em linguagem visual, composição é o processo de organização do campo plásti- co, ou seja, espaço disponível para a apresentação da mensagem. Qualquer produ- ção visual começa com a seleção desse espaço. Deve-se considerar como ele será organizado, em quais proporções, qual o melhor tamanho. Isso porque tamanho, posição, distribuição são variáveis que têm grande influência sobre a forma como o leitor (ou espectador) lê e interpreta a mensagem. Veja a Figura 16. Pode não parecer, mas os dois quadrados pretos possuem a mesma medida, porém, o da esquerda pode parecer maior. Sabe por quê? O moti- vo está na sua relação com o plano em que está inserido. Ele parece grande dentro daquele retângulo. Já no exemplo à direita, o quadrado negro (idêntico ao da es- querda) parece pequeno. Tudo é uma questão de relação com o entorno. Figura 16 – Relatividade da proporção Escala e proporção são sempre matematicamente comparativas entre as grandezas métricas de dois ou mais elementos visuais, portanto, podem ser dadas por fórmulas e equações. A escala é muito utilizada em mapas e projetos arquitetônicos para repre- sentar distâncias e medidas enormes por meio de medidas pequenas. Por exemplo, em um desenho técnico como um projeto arquitetônico, cada centímetro do desenho pode corresponder a um metro de área construída, e isso nos leva a dizer que está sendo 18 19 aplicada uma escala de 1/100, ou seja, cada centímetro representado corresponde 100 centímetros (1m) na realidade. É assim que surgem todas as escalas que vemos representadas em desenhos de precisão (1/50; 1/100; 1/200; 1/1000...). A medida é parte integrante da escala, mas não é a fundamental. Deve-se consi- derar também como importante a justaposição, ou seja, a relação entre os elemen- tos visuais e o cenário dentro do qual estão inseridos. Por exemplo, o contexto da intervenção urbana do artista inglês Slinkachu (Figura19) sugere que os personagens estejam apreciando uma escultura hiper- -realista enorme de uma bituca de cigarro, mas como sabemos o tamanho real da bituca, podemos afirmar que as figuras fotografadas é que são pequenas. Isso nos indica que eventualmente nem tudo o que é certo no contexto da escala é verda- deiro no contexto da medida. Se não tivéssemos a referência da medida da bituca, não seríamos capazes de dizer a medida dos personagens. Relic cigarette monument, disponível em: https://goo.gl/eGFMTX Ex pl or A escala também pode ser aplicada para representar coisas pequenas como a figura humana (dependendo, claro, da relação com os demais elementos) em enormes formatos, como nas esculturas hiper-realistas de Ron Mueck (Figura 17). As dimensões ampliadas das obras impactam sobremaneira o espectador. Figura 17 – Couple under an umbrella – Ron Mueck Fonte: Acervo do conteudista No entanto, mesmo quando se estabelece a relação entre dois elementos, o gran- de em relação aopequeno, a escala pode ser modificada pela introdução de outras variáveis perceptivas, como o ambiente, o foco de visão, entre outras. A relação entre a escala utilizada com o objetivo e o significado é essencial na estruturação da mensagem visual. Quando se controla a escala, podemos fazer com que algo pequeno pareça grande e se destaque na composição, ou o inverso. Observe a 19 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual fotografia de William Eggeston (Figura 18). Nela, o triciclo, mesmo em escala real, parece enorme em relação à casa colocada no segundo plano por causa do ângulo de visão utilizado para enquadramento. Figura 18 – Sem título (Memphis) William Eggeston Fonte: William Eggeston, 1970 Desde a Antiguidade as proporções humanas vêm sendo estudadas e têm servi- do de referência para muitas outras coisas. Ao longo dos anos, com base em pes- quisas a respeito de uma média das proporções humanas, construiu-se uma série de medidas-padrão, e hoje tudo o que é produzido em série, desde uma escova de dentes até um projeto um avião, leva em consideração essas medidas. Por exem- plo, a largura de uma porta, a altura do interruptor que você usa para acender a luz em sua casa, a altura do tampo de uma mesa, o assento de uma cadeira... Na linguagem visual, usamos fórmulas de proporção para calcular a escala. A mais conhecida e utilizada é a proporção áurea, que foi utilizada, por exemplo, na concep- ção do Parthenon (Figura 19) e em muitas obras da Antiguidade e do Renascimento. Figura 19 – Parthenon Fonte: Getty Images 20 21 Para obtermos a proporção áurea, tomamos um quadrado e traçamos uma diagonal a partir de uma de suas metades. Usamos essa diagonal como raio e tra- çamos um arco para obter um retângulo. Diagonal de uma das metades Traçar o arco da diagonal Figura 20 A proporção entre a base do quadrado original e a base do retângulo final é de 1;1,618. O que é interessante nessa proporção é que não importa o tamanho do quadrado, sempre que você dividir a base do retângulo áureo pela sua altura, o va- lor obtido será 1,618. Esse é o número áureo que aparece na natureza (veja alguns exemplos mais adiante, Figura 22) de forma constante. Se inserirmos um novo quadrado no retângulo obtido, continuaremos mantendo a mesma proporção entre eles, e assim sucessivamente. Se desenharmos um arco sobre as diagonais dos quadrados, obteremos uma forma em espiral também muito recorrente na natureza (Figura 21). Figura 21 – Espiral logarítmica obtida a partir da aplicação da proporção áurea Essa proporção pode ser encontrada nas medidas do corpo humano, no design de uma concha ou de uma flor, nas galáxias em espiral, nos furacões, nas ondas e no comportamento dos átomos, entre muitos outros exemplos (Figura 22). 21 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual Figura 22 – Exemplos da proporção áurea na natureza Fonte: Adaptado de Wikimedia Commons e Pixabay À esquerda, o corte da concha de um molusco (nautillus), por Chris 73; ao cen- tro, a imagem de um ciclone extratropical sobre a Islândia (NASA’s Aqua/MODIS satellite); à direita, um girassol. Se você tiver a curiosidade de sobrepor a figura 21 a 19, verificará que as li- nhas em vermelho que aparecem sobre o Parthenon correspondem à espiral da proporção áurea. Ocorreu que o matemático Fibonacci traduziu em uma sequência numérica essa proporção perfeita em uma escala de crescimento. Importante! Leonardo de Pisa (1170 – 1250), mais conhecido como Fibonacci (que significa “filho de Bonaccio”) foi um dos maiores matemáticos na Europa da Idade Média; cresceu no norte da África, onde adquiriu os conhecimentos matemáticos avançados dos estudio- sos árabes. Você Sabia? Fibonacci, em 1202, escreveu Liber Abaci, o livro do ábaco, no qual apresenta uma série de resoluções para diversos tipos de problemas a respeito de álgebra e geometria. É nesse texto que ele descreve e apresenta o que ficou conhecida na atu- alidade como a “sequência Fibonacci”, na qual cada número é a soma dos dois ante- riores até infinito, e sua notação é: 0:1:1:2:3:5:8:13:21:34:55:89:144:233:377... Quanto mais se avança nessa sequência numérica, mais a proporção de cresci- mento da escala (ou seja, a divisão de um número pelo seu antecessor) se aproxima do valor 1,618. Assista a esse curto documentário, A sequencia Fibonacci e o número de ouro, disponível em: https://youtu.be/QaWepnGWRs8Ex pl or Então, agora, vamos sobrepor à espiral da proporção áurea, as somas da sequência de Fibonacci, ou seja: 1+1=2, 2+1=3, 3+2=5, 5+3=8, 8+5=13... e assim até infinito. Teríamos, nessa sobreposição, o que aparece na figura 23. 22 23 Quanto mais se avança pela sequência numérica, mais a proporção de crescimen- to da escala (divisão de um número pelo seu antecessor) aproxima-se do valor 1,618. Utilizando essa sequência numérica, construímos o diagrama da proporção áurea. 13 8 5 3 21 1 Figura 23 – Sequência de Fibonacci na espiral da proporção áurea O que é curioso é que essa proporção, ou seja 1,618, é a mesma que existe entre a altura do corpo humano e a medida do umbigo até o chão; ou, a altura do crânio e a medida da mandíbula até o alto da cabeça; ou, a medida da cintura até a cabeça e o tamanho do tórax; medida do ombro à ponta do dedo e a medida do cotovelo à ponta do dedo. Essas são as mesmas proporções que aparecem no Homem Vitruviano (Figura 24) e na Monalisa (Figura 25) de Leonardo Da Vinci, para citar apenas dois exemplos bem conhecidos de todos. Figura 24 – Homem Vitruviano (1942). Leonardo Da Vinci Fonte: Wikimedia Commons Figura 25 – Monalisa (1503 – 1506). Leonardo Da Vinci Fonte: Wikimedia Commons 23 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual Observe que “a razão áurea é uma divisão baseada na proporção do número de ouro (1,618 comentado antes) e pode ser usada como método de posicionamento do assunto na imagem ou de divisão da composição em proporções agradáveis” (PRÄKEL, 2010, p. 22). É muito mais fácil lembrar da proporção 8:5 do que do número 1,618! Mas vale lembrar que os dois são a mesma coisa! Essa razão nos auxilia no momento de “definir onde ficará o horizonte, deter- minar qual será o ponto central de atenção do observador ou dividir o quadro em proporções agradáveis” (PRÄKEL, 2010, p. 22), porém, lembre-se: nada garante que você obterá um resultado fantástico no final! Outro método muito utilizado é a denominada “regra dos terços”. Ela constitui uma simplificação do que foi dito até agora com relação à proporção e composição. Na regra dos terços, a imagem é dividida mentalmente em terços verticais e ho- rizontais, com o que se obtém no final nove “pedaços”, daí o ponto de cruzamento das linhas indicam pontos de interesse do observador (Figura 26). Figura 26 – Divisão em terços e os pontos de interesse do observador Agora, vamos sobrepor essas linhas divisórias sobre a imagem e ver como fica (Figura 27). Figura 27 – Análise da aplicação da regra dos terços sobre foto de Michael Gaida Fonte: Adaptado de Pixabay Outra alternativa possível para organizar a composição da imagem e do foco de interesse é utilizar a simetria dinâmica. Ela também se fundamenta na razão áurea, 24 25 porém, utiliza diagonais no lugar das retas perpendiculares à base. Alguns profis- sionais consideram esta técnica mais fácil de visualizar. Para aplicar a simetria dinâmica, desenhe uma linha diagonal de um canto a outro do quadro e depois desenhe uma linha a partir do outro canto, de forma que gere um ângulo reto com a primeira diagonal desenhada. Pode parecer complica- do, assim descrito, mas com a prática e a experiência, é provável que você faça isso de forma automática. Se você trocar o formato da imagem, naturalmente terá de trocar a posição dessas linhas diagonais imaginárias. Na figura 28, você tem um exemplo de toda esta sequência. a) Aplicação da regra dos terços com os focos ativos. b) Focos de interesse com a simetria dinâmica inclusa. c) Ponto de interesse deacordo com a simetria dinâmica. Figura 28 – Sequência de terços e simetria dinâmica Fonte: Adaptado de Präkel, 2010 Esses conceitos da geometria comentados aqui são extremamente úteis, não ape- nas no enquadramento do objeto no momento da produção, mas também depois, no processo de montagem, corte e retoque necessários antes da produção final da ima- gem. Alguns profissionais aplicam folhas de acetato com linhas sobrepostas, que servem como guias, para visualizarem mais facilmente as alternativas de corte no momento da impressão. Essas linhas também podem ser desenhadas ou inseridas nos principais programas existentes para edição de imagens e usadas como um “fil- tro temporário” para se obter um corte adequado e perfeito (Figura 29). Para encerrar esta nossa conversa, um último aviso: a composição é uma das mais importantes (se não a mais) na solução de problemas da lingua- gem visual. Lembre-se: os elementos visuais são os mesmos para todos, mas o modo de articulá-los é que faz a diferença. É no momento da composição que temos em nossas mãos o processo criativo, pois nós definimos, nesse momento, o que o pú- blico receberá e sentirá a partir da imagem criada. A linguagem visual possui muitos artifícios, técnicas, estruturas, métodos e metodologias que ajudam e auxiliam nesse trabalho. Mas... assuma tudo isso com critério e parcimônia, use seu bom- -senso, pois nada garante o sucesso. Figura 29 – Paisagem Fonte: Kira Schwarz 25 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual Embora existam técnicas e métodos, nenhuma regra é definitiva, absoluta e infalível! Lembre-se da lição de um dos grandes mestres da fotografia do século XX, o francês Hensri Cartier-Bresson (apud PRÄKEL, 2010, p.101): “Para mim, a foto- grafia é o reconhecimento simultâneo em uma fração de segundo, da importância de um acontecimento e da organização precisa das formas que dão àquele evento sua exata expressão.” Portanto, o que define o sucesso de um fotógrafo é, além do conhecimento téc- nico, a sua sensibilidade, o refinamento do seu olhar associado à sua criatividade! Lembre-se disso! 26 27 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites The Ansel Adams Gallery A obra de Ansel Adams. https://goo.gl/9dqulY Pinterest Algumas fotos colorizadas por Jordan Lloyd. https://goo.gl/AC2E6J O Índio na Fotografia Brasileira Algumas fotos de Claudia Andujar. https://goo.gl/uy2jwS Edward Weston Algumas fotos de Edward Weston. https://goo.gl/OiRirf Vídeos Vik Muniz - Pictures of Garbage: Marat Making of da série Pictures of garbage, do fotógrafo Vick Muniz, produzida em escala ampliada. Observe também as texturas visuais presentes nas imagens finais, obtidas a partir das texturas reais dos materiais fotografados - terra na primeira série e materiais recicláveis na segunda. https://youtu.be/Tdgn6uiIq2Y Filmes Donald no País da Matemágica Essa animação aborda a matemática de maneira descontraída e histórica. O trecho entre 7m23s e 13m30s explica de uma maneira didática e lúdica a descoberta da proporção áurea, sua aplicação nas artes visuais através dos tempos e sua presença na natureza. Sin City – A cidade do pecado (2005) Filme dirigido por Robert Rodriguez e Frank Miller. Foi filmado com câmeras digitais de alta definição, com imagens em preto e branco, mantendo apenas alguns elementos como lábios, olhos, sangue, detalhes de objetos e algumas luzes coloridas. Os altos contrastes e a predominância de tons baixos seguem as características da obra original, realizada em HQ. Valente (2012) Animação de Mark Andrews e Brenda Chapman, produzida pela Pixar Animation Studios. Valente, produzida em tecnologia 3-D, simula com precisão inúmeras texturas reais em programas de computação gráfica; o resultado visual obtido nas texturas das roupas, cabelos, pelos e cenografia é impressionante. 27 UNIDADE Elementos Básicos da Linguagem Visual Referências ARNHEIM, R. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2009. OCVIRK, O. G. et al. Fundamentos de arte: teoria e prática. São Paulo: Mc- Graw-Hill, 2015. PRÄKEL, David. Composição. Porto Alegre: Bookman, 2010. ________. Fundamentos da fotografia criativa. São Paulo: Gustavo Gili, 2015. 28