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Tutoria UC 7 Nascimento, Crescimento e Desenvolvimento - Problema 6 1. Identificar os fatores de risco da gestante a partir do exame clínico, exames laboratoriais e de imagem como passo importante na avaliação do feto e recém-nascido com anomalias congênitas/doenças genéticas; A gestação consiste em um evento fisiológico que acarreta alterações físicas, funcionais, sociais e emocionais na gestante. Em função disso, algumas gestações podem evoluir de forma desfavorável do ponto de vista da saúde da gestante e do bebê.9 Assim, após a confirmação da gestação, é fundamental a realização do acompanhamento pré- natal, o qual inclui diferentes oportunidades para a anamnese e realização de diferentes tipos de exames. Anamnese da gestante: A anamnese da gestante é uma das primeiras e mais importantes etapas para identificar se o feto pode apresentar alguma anomalia congênita. É nesse momento que a presença ou exposição da gestante a uma série de fatores de risco para anomalias congênitas é investigada. Durante a anamnese podem ser identificados possíveis fatores de risco para anomalias congênitas, alguns dos quais serão exemplificados a seguir. Idade materna: Sabe-se que a idade materna representa um importante fator de risco para prematuridade, complicações da gestação (ex.: placenta prévia e descolamento prematuro de placenta) e anomalias congênitas.13 Em relação às anomalias, a idade materna avançada, considerada a partir dos 35 anos de idade, está relacionada a maior risco do feto apresentar algumas síndromes cromossômicas frequentes, como a síndrome de Down (código CID-10: Q90) e outras anomalias numéricas, como as trissomias dos cromossomos 13 (síndrome de Patau – Q91) e 18 (síndrome de Edwards – Q91), as quais cursam frequentemente com cardiopatias congênitas (Q20-Q28) e outros tipos de anomalias congênitas. Além disso, a idade materna jovem, especialmente inferior a 20 anos, representa um dos principais fatores de risco para a gastrosquise (Q79.3), um tipo de defeito de parede abdominal. Assim, os profissionais de saúde que acompanham a gestante no pré-natal devem estar atentos e investigar a possível presença de anomalias congênitas em fetos de gestantes jovens ou com idade avançada. Gestações múltiplas: A gestação de dois ou mais fetos pode representar um risco aumentado de diversas complicações em comparação às gestações únicas, como restrição de crescimento intrauterino e anomalias congênitas. Por isso, os profissionais de saúde responsáveis pelo acompanhamento pré-natal devem monitorar essa possibilidade para que, eventualmente, realizem o diagnóstico oportuno. O único exame que permite o diagnóstico de gestação gemelar precocemente é o ultrassom, com a vantagem adicional de poder determinar a existência de placenta única ou duas ou mais placentas nas gestações múltiplas. Exame físico e exames laboratoriais de rotina no pré-natal: Durante a realização dos exames de rotina no pré-natal, é possível identificar alterações ou situações de risco para o feto. Durante o exame físico da gestante, a identificação de alterações na ausculta dos batimentos cardíacos fetais e nos movimentos fetais pode levantar a suspeita de anomalias cardíacas ou do sistema nervoso central. A alteração da medida da altura uterina também pode levar à suspeita de oligodrâmnio ou polidrâmnio, ambos potencialmente relacionados com anomalias congênitas. Além do exame físico, a realização de exames de triagem para Z-Storch (vírus Zika, sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes simplex), vírus da imunodeficiência humana (HIV) e outros agentes infecciosos potencialmente teratogênicos permite a identificação de infecções gestacionais que podem resultar em desfechos adversos no feto ou no recém-nascido. Exames de imagem e complementares: Durante a gestação, alguns exames de imagem e complementares podem ser realizados caso haja suspeita de complicações com o feto, seja por histórico familiar, pessoal e obstétrico da gestante ou devido à presença/exposição a fatores de risco para anomalias congênitas. Entre os exames de imagem, a ultrassonografia obstétrica é comumente realizada na gestação para a determinação da idade gestacional e para a detecção precoce de gestações múltiplas. Nesse exame é possível a detecção de diversos tipos de anomalias congênitas, tais como defeitos de tubo neural, defeitos de parede abdominal, entre outros. Na ultrassonografia morfológica de primeiro trimestre, entre a 11ª e a 14ª semanas de gestação, é possível avaliar o acúmulo excessivo de fluido na nuca do feto (translucência nucal), o qual pode ser indicativo da presença de alterações cromossômicas, como a síndrome de Down. Destaca-se, no entanto, que esse é um dado de triagem e o diagnóstico de alterações cromossômicas requer exames complementares. Outros exames de imagem que podem ser realizados, conforme a suspeita, são: ultrassonografia morfológica de segundo trimestre e ressonância magnética. A ultrassonografia morfológica destaca-se como um importante exame de triagem para a detecção de cardiopatias congênitas, por meio da detecção da presença das quatro câmaras e grandes vasos. Com base nos resultados desse exame ou na história materna sugestiva de risco para cardiopatias congênitas, a realização de ecocardiografia fetal pode ser indicada. Ainda, a ultrassonografia morfológica permite a detecção de outras anomalias congênitas maiores ou achados anormais como oligo ou polidrâmnio. A ressonância magnética, por sua vez, auxilia principalmente no esclarecimento de anomalias que envolvem o sistema nervoso central. Além de ser indicada com base em achados da ultrassonografia morfológica, a ecocardiografia fetal costuma ser indicada especificamente para gestantes: • Com diabetes mellitus ou lúpus eritematoso sistêmico; • Em uso de anticonvulsivantes; • Expostas a infecções que podem levar a ocorrência de anomalias congênitas, como à infecção pelo vírus da rubéola; • Que possuem familiares de primeiro grau com alguma cardiopatia congênita, ou que realizaram reprodução assistida; • Cujo feto apresente alterações cromossômicas; taquicardia/bradicardia; macrossômicos; ou com hidropsia fetal (acúmulo de líquidos em órgãos ou partes do corpo do feto). Outros exames complementares são a triagem do soro materno; o teste pré- natal não invasivo (NIPT), que detecta o DNA fetal livre na circulação materna e auxilia na identificação de alterações cromossômicas, por exemplo. Os procedimentos invasivos para obtenção de amostra fetal incluem a amniocentese ou punção de vilosidades coriônicas, para avaliação genética de síndromes e outras doenças do feto. A amniocentese pode ser realizada a partir da 16ª semana de gestação e a biópsia de vilosidades coriônicas tão precoce quanto 11 semanas. Exame físico: O exame físico do nascido vivo consiste em uma avaliação física minuciosa do indivíduo, por meio de uma série de técnicas. É recomendado que este exame seja realizado entre 12 e 24 horas após o nascimento, sendo avaliados detalhadamente todos os segmentos corporais do nascido vivo. A Secretaria de Atenção Primária a Saúde (Saps) desenvolveu um guia para os profissionais de saúde acerca da Atenção à Saúde do Recém-Nascido, no qual são descritos diversos aspectos desse importante exame, bem como a forma que ele deve ser realizado. Em virtude disso, no atual documento serão destacados aspectos específicos do exame físico do nascido vivo, os quais podem auxiliar na detecção e no diagnóstico de anomalias congênitas. Destaca-se, inicialmente, que a cuidadosa observação do nascido vivo, mesmo sem tocá-lo, já permite que diversas informações sejam obtidas, entre as quais a identificaçãoe o diagnóstico de anomalias congênitas morfológicas e faces típicas de algumas síndromes (como a síndrome de Down – Q90, entre outras). No entanto, salienta-se que o exame deve ser realizado incluindo a inspeção, a palpação, a percussão e a ausculta do nascido vivo, sendo conduzido, preferencialmente, no sentido externo para o interno e craniocaudal. Com base nos achados do exame físico do nascido vivo, as anomalias congênitas identificadas devem ser descritas detalhadamente na Declaração de Nascido Vivo (DNV), cujo preenchimento é abordado no tópico 6 deste Guia. Pele: Durante a avaliação da pele do nascido vivo, diversas características devem ser atentamente observadas, entre as quais textura, cor, umidade, presença de anomalias congênitas, entre outras. A cianose, que consiste na coloração azulada da pele, é relativamente comum nos nascidos vivos, especialmente nas extremidades. No entanto, a cianose central é preocupante e pode estar associada a alterações ou doenças cardiorrespiratórias, incluindo cardiopatias congênitas (Q20-Q28). A presença de hemangiomas (tumor vascular benigno – D18.0) pode ter significado patológico, especialmente quando localizados em segmento cefálico e face, com coloração vinhosa, ou no caso de hemangiomas cavernosos, compostos de elementos vasculares maduros e grandes. Da mesma forma, a presença de nevus, manchas hipocrômicas ou hipercrômicas também pode ter significado patológico, especialmente quando associados às outras anomalias congênitas. Esqueleto e articulações: A presença de alterações ósseas e inadequações de mobilidade do nascido vivo devem ser avaliadas cuidadosamente. A polidactilia (Q69) consiste na presença de dedos adicionais nas mãos ou pés. A mais comum é a presença nas mãos de dedo extranumerário fixado na face lateral da segunda ou terceira falange do dedo mínimo (polidactilia pós-axial) ou ao lado do polegar (polidactilia pré-axial). Outras anomalias nos membros como sindactilia (Q70) (dedos unidos), aracnodactilia (Q87.4) (dedos muito longos), clinodactilia (Q74.0) (dedos desviados do eixo), agenesias (de rádio, fêmur, tíbia, úmero etc.) também devem ser observadas. No exame físico das mãos, devem-se observar também as pregas palmares. Em situações de hipotonia fetal, como na síndrome de Down (Q90), observa-se uma prega palmar transversal única em ambas as mãos, muitas vezes associada à ausência de prega falangiana no quinto quirodáctilo (dedo mínimo). No exame dos pés, deve-se avaliar seu posicionamento para a possível detecção de pés tortos. No caso do pé torto posicional, o examinador, com manobra delicada, pode corrigir a posição do pé. Já no caso do pé torto congênito (Q66), será necessário o tratamento ortopédico. O movimento das articulações também deve ser avaliado, considerando que sua limitação pode configurar a ocorrência de artrogripose congênita múltipla (Q74.3). Além disso, a articulação coxofemoral deve receber atenção especial para que se exclua a presença de displasias no desenvolvimento do quadril (Q65). Ainda, fazendo parte do exame osteoarticular, deve-se inspecionar ou palpar a linha média da coluna vertebral na busca de anomalias congênitas, tais como espinha bífida (Q05), iniencefalia (Q00.2), craniorraquisquise (Q00.1) (anomalias oriundas de defeitos no fechamento do tubo neural), entre outras. Crânio: A aferição do perímetro cefálico deve ser realizada com fita métrica inextensível, passando pela glabela e proeminência occipital. Essa medida, juntamente com o peso, o comprimento, o sexo e a idade gestacional do nascido vivo, devem ser lançados nos gráficos de crescimento do Intergrowt-21st, para avaliar se a medida do perímetro cefálico encontra-se dentro dos valores esperados ou se está desviando, como nos casos de microcefalia (Q02) (medida do perímetro cefálico inferior a menos 2 desvios- padrão da média) e microcefalia grave (Q02) (medida inferior a menos 3 desvios- padrão da média). Deve-se atentar também para a detecção do osso occipital achatado ou proeminente. O achatamento occipital, por exemplo, pode ocorrer em função de braquicefalia (anomalia congênita causada devido à junção prematura das suturas cranianas), comumente presente em casos de síndrome de Down (Q90). Já a proeminência do osso occipital por estar associada a casos de microcefalia (Q02) devido à infecção congênita pelo vírus Zika. Durante a palpação das fontanelas, deve- se atentar para a detecção de fontanela posterior aumentada.15 Destaca-se também que a fontanela bregmática abaulada sugere aumento da pressão intracraniana, como em casos de hidrocefalia (Q03), entre outras complicações. Na avaliação das suturas, deve-se atentar para a sutura metópica proeminente e sutura lambdoide grande, que podem levar à suspeita de determinadas condições como hipotireoidismo congênito, síndrome de Down (Q90), entre outras síndromes. Olhos: Deve-se observar a distância entre os olhos do nascido vivo, entre os cantos internos das pálpebras (distância intercantal interna), a posição da fenda palpebral e a presença de sobrancelhas, cílios e epicanto. A fenda palpebral oblíqua para cima, por exemplo, pode ser indicativa de síndrome de Down (Q90), enquanto para baixo está presente em outras síndromes. Na avaliação da esclera, ao perceber a ocorrência da cor azul mais intensa em nascidos vivos pré-termo, deve-se investigar a possibilidade da osteogênese imperfeita (Q78.0). Além disso, por meio do “teste do olhinho” devem-se pesquisar catarata congênita (Q12.0), glaucoma congênito (Q15.0), entre outras anomalias e alterações oculares. Orelhas: Fossetas e apêndices pré-auriculares podem ser observados e muitas vezes estão associados à perda auditiva, sendo importante a realização do teste da orelhinha por emissão otoacústica. Anomalias de orelhas, como microtias (Q17.2) de grau variado, também podem ser observadas em anomalias do primeiro arco branquial e podem fazer parte de algumas síndromes genéticas. Nariz: Anomalias congênitas no nariz geralmente envolvem defeitos intrínsecos do osso do nariz, sendo comuns em síndromes cromossômicas, como na síndrome de Edwards (Q91) (trissomia do 18) e síndrome de Down (Q90).9 Deve-se observar ainda a raiz nasal achatada, a hipoplasia de asas, as narinas antevertidas e a distância nasolabial aumentada. Boca: Os lábios do nascido vivo devem ser avaliados considerando espessura (fino ou grosso), presença de fendas, depressões e fossetas. Fenda labial (Q36) pode ser observada tanto unilateralmente quanto bilateralmente. A avaliação do palato deve ser feita por inspeção e não por palpação, sendo possível a identificação de fenda palatina (Q35). Ambas, fenda labial com fenda palatina (Q37), também podem ocorrer. A mandíbula pequena ou micrognatia deve ser também observada, podendo representar um sinal de alerta para dificuldade respiratória e dificuldade de amamentação. No exame do tamanho e da mobilidade da língua, a identificação da macroglossia pode ser sugestiva de algumas síndromes. Pescoço: A presença de pele redundante na nuca pode estar associada à síndrome de Down (Q90), e na parte lateral (o chamado pescoço alado) à síndrome de Turner (Q96).9 A restrição da mobilidade e o encurtamento do pescoço também devem ser avaliados, sendo características indicativas de algumas síndromes, por exemplo. Tórax: Durante a avaliação do tórax do nascido vivo, a identificação de uma assimetria pode representar a presença de alguma cardiopatia congênita (Q20-Q28), anomalia pulmonar, da coluna e do arcabouço costal. 9 Além disso, deve-se observar também a presença de saliência ou depressão na região esternal, que também podem estar presentes em algumas síndromes. Aparelho respiratório: O exame dosistema cardiorrespiratório deve ser realizado quando o nascido vivo estiver calmo, uma vez que o choro costuma alterar os parâmetros avaliados. A inspeção, palpação, percussão e ausculta devem ser feitas em toda a área de extensão do parênquima pulmonar. A detecção de assimetrias pode indicar anormalidades, entre as quais a presença de anomalias congênitas nos órgãos internos. Ainda, a presença de taquipneia ou estertores na ausculta podem ser indicativas de alguma cardiopatia congênita (Q20-Q28). Aparelho cardiocirculatório: Durante o exame do aparelho cardiocirculatório, a detecção de frêmito é sugestiva de alguma cardiopatia congênita (Q20-Q28), especialmente se associado ao sopro. Ainda no exame físico com foco cardiovascular, deve-se buscar achados compatíveis com o diagnóstico de cardiopatia congênita cianótica, como aumento do fígado, turgência jugular, além da cianose. Algumas cardiopatias congênitas podem se apresentar com sinais sugestivos de insuficiência cardíaca congestiva, como taquipneia, disfunção respiratória, crepitantes na ausculta pulmonar, dificuldade para mamar, bem como pele fria e pálida e diminuição de pulsos periféricos. Durante a ausculta cardíaca, realizada quando o nascido vivo está calmo, a presença de terceira e quarta bulhas (galope) pode ser indicativo de cardiopatias congênitas (Q20-Q28). No nascido vivo prematuro, pulsos cheios podem indicar persistência do canal arterial, enquanto pulsos femorais débeis ou ausentes podem indicar a coarctação da aorta. Deve-se também realizar o “teste do coraçãozinho” para se excluir a presença de cardiopatias críticas que descompensam e que geralmente necessitam de algum procedimento ainda nos primeiros 30 dias de vida. A presença de qualquer um desses sinais clínicos sugestivos de cardiopatia deve ser mais bem investigado por meio de ecocardiografia e avaliação com cardiologista pediátrico, para diagnóstico mais específico acerca do tipo de cardiopatia congênita presente no indivíduo, bem como necessidade de intervenção cirúrgica. Abdome: Durante o exame físico do abdome, a detecção de artéria umbilical única associada a outras anomalias congênitas pode indicar a presença de anomalias renais ou síndromes genéticas. Na inspeção, é possível também observar a detecção de defeitos da parede abdominal, como a onfalocele (também chamada de exonfalia – Q79.2) e a gastrosquise (Q79.3), que são anomalias congênitas que consistem na herniação de estruturas da cavidade abdominal através desses defeitos da parede abdominal. Aparelho geniturinário: Durante o exame da genitália, podem ser identificadas anomalias na saída da uretra. A hipospádia (Q54), por exemplo, é caracterizada pela presença do orifício de saída da uretra na face ventral do pênis. Já a presença do orifício na face dorsal do pênis caracteriza a epispádia (Q64.0). Ainda considerando o órgão genital masculino, a não palpação dos testículos na bolsa escrotal pode representar criptorquidia (Q53). Quando a criptorquidia é bilateral e associada a bolsa escrotal hipoplásica e pênis pequeno. Em genitália aparentemente feminina, a presença de nódulos em topografia de grandes lábios, fusões labiais e aumento do clitóris também podem ser sugestivos de sexo indeterminado ou pseudo- hermafroditismo (Q56). Ânus: O exame do orifício anal deve ser feito obrigatoriamente, podendo-se detectar anomalias anorretais e fístulas. Além disso, é importante estar atento para a eliminação de mecônio pela uretra, períneo ou vagina. A gestação é um fenômeno fisiológico e deve ser vista pelas gestantes e equipes de saúde como parte de uma experiência de vida saudável envolvendo mudanças dinâmicas do ponto de vista físico, social e emocional. Entretanto, trata-se de uma situação limítrofe que pode implicar riscos tanto para a mãe quanto para o feto e há um determinado número de gestantes que, por características particulares, apresentam maior probabilidade de evolução desfavorável, são as chamadas “gestantes de alto risco”. Gestação de Alto Risco é “aquela na qual a vida ou a saúde da mãe e/ou do feto e/ou do recém-nascido têm maiores chances de serem atingidas que as da média da população considerada”. (CALDEYRO-BARCIA, 1973). Embora os esforços dos cientistas para criar um sistema de pontuação e tabelas para discriminar as gestantes de alto risco das de baixo risco não tenham gerado nenhuma classificação capaz de predizer problemas de maneira acurada, existem fatores de risco conhecidos mais comuns na população em geral que devem ser identificados nas gestantes, pois podem alertar a equipe de saúde no sentido de uma vigilância maior com relação ao eventual surgimento de fator complicador. A assistência pré-natal pressupõe avaliação dinâmica das situações de risco e prontidão para identificar problemas de forma a poder atuar, a depender do problema encontrado, de maneira a impedir um resultado desfavorável. A ausência de controle pré-natal, por si mesma, pode incrementar o risco para a gestante ou o recém-nascido. É importante alertar que uma gestação que está transcorrendo bem pode se tornar de risco a qualquer momento, durante a evolução da gestação ou durante o trabalho de parto. Portanto, há necessidade de reclassificar o risco a cada consulta prénatal e durante o trabalho de parto. A intervenção precisa e precoce evita os retardos assistenciais capazes de gerar morbidade grave, morte materna ou perinatal. Existem vários tipos de fatores geradores de risco gestacional. Alguns desses fatores podem estar presentes ainda antes da ocorrência da gravidez. Sua identificação nas mulheres em idade fértil na comunidade permite orientações às que estão vulneráveis no que concerne ao planejamento familiar e aconselhamento pré-concepcional. Assim, é importante que as mulheres em idade reprodutiva, especialmente aquelas em situações de vulnerabilidade, tenham acesso aos serviços de saúde e oportunidade de estar bem-informadas e na melhor condição física possível antes de engravidar. Como exemplo podemos citar uma mulher diabética, que deve estar bem controlada antes de engravidar. Os fatores de risco gestacional podem ser prontamente identificados no decorrer da assistência pré-natal desde que os profissionais de saúde estejam atentos a todas as etapas da anamnese, exame físico geral e exame gineco-obstétrico e podem ainda ser identificados por ocasião da visita domiciliar, razão pela qual é importante a coesão da equipe. Na maioria dos casos a presença de um ou mais desses fatores não significa a necessidade imediata de recursos propedêuticos com tecnologia mais avançada do que os comumente oferecidos na assistência pré-natal de baixo risco, embora indiquem uma maior atenção da equipe de saúde a essas gestantes. Pode significar apenas uma frequência maior de consultas e visitas domiciliares, sendo o intervalo definido de acordo com o fator de risco identificado e a condição da gestante no momento. Além disso, atenta-se para uma necessidade maior de ações educativas dirigidas aos problemas específicos detectados nas gestantes. Em muitos casos, intervenções junto à família e à comunidade podem gerar impactos positivos. No decorrer do acompanhamento das gestantes consideradas de baixo risco, deve-se atentar para o aparecimento de algum desses fatores no curso da gestação. Os marcadores e fatores de risco gestacionais presentes anteriormente à gestação se dividem em: 1. Características individuais e condições sociodemográficas desfavoráveis: - Idade maior que 35 anos; - Idade menor que 15 anos ou menarca há menos de 2 anos*; - Altura menor que 1,45m; - Peso pré-gestacional menor que 45kg e maior que 75kg (IMC30); - Anormalidades estruturais nos órgãos reprodutivos; - Situação conjugal insegura; - Conflitosfamiliares; - Baixa escolaridade; - Condições ambientais desfavoráveis; - Dependência de drogas lícitas ou ilícitas; - Hábitos de vida – Fumo e álcool; - Exposição a riscos ocupacionais: esforço físico, carga horária, rotatividade de horário, exposição a agentes físicos, químicos e biológicos nocivos, estresse. 2. História reprodutiva anterior: - Abortamento habitual; - Morte perinatal explicada e inexplicada; - História de recém-nascido com crescimento restrito ou malformado; - Parto pré-termo anterior; - Esterilidade/infertilidade; - Intervalo interpartal menor que dois anos ou maior que cinco anos; - Nuliparidade e grande multiparidade; - Síndrome hemorrágica ou hipertensiva; - Diabetes gestacional; - Cirurgia uterina anterior (incluindo duas ou mais cesáreas anteriores). 3. Condições clínicas preexistentes: - Hipertensão arterial; - Cardiopatias; - Pneumopatias; - Nefropatias; - Endocrinopatias (principalmente diabetes e tireoidopatias); - Hemopatias; - Epilepsia; - Doenças infecciosas (considerar a situação epidemiológica local); - Doenças autoimunes; - Ginecopatias; - Neoplasias. Os outros grupos de fatores de risco referem-se a condições ou complicações que podem surgir no decorrer da gestação transformando-a em uma gestação de alto risco: 1. Exposição indevida ou acidental a fatores teratogênicos. 2. Doença obstétrica na gravidez atual: - Desvio quanto ao crescimento uterino, número de fetos e volume de líquido amniótico; - Trabalho de parto prematuro e gravidez prolongada; - Ganho ponderal inadequado; - Pré-eclâmpsia e eclâmpsia; - Diabetes gestacional; - Amniorrexe prematura; - Hemorragias da gestação; - Insuficiência istmo-cervical; - Aloimunização; - Óbito fetal 3. Intercorrências clínicas: - Doenças infectocontagiosas vividas durante a presente gestação (ITU, doenças do trato respiratório, rubéola, toxoplasmose etc.); - Doenças clínicas diagnosticadas pela primeira vez nessa gestação (cardiopatias, endocrinopatias). Todos os profissionais que prestam assistência a gestantes devem estar atentos à existência desses fatores de riscos e devem ser capazes de avaliá-los dinamicamente, de maneira a determinar o momento em que a gestante necessitará de assistência especializada ou de interconsultas com outros profissionais. As equipes de saúde que lidam com o pré- natal de baixo risco deve estar preparadas para receber as gestantes com fatores de risco identificados e prestar um primeiro atendimento e orientações no caso de dúvidas ou situações imprevistas. Uma vez encaminhada para acompanhamento em um serviço especializado em pré-natal de alto risco é importante que a gestante seja orientada a não perder o vínculo com a equipe de atenção básica ou Saúde da Família que iniciou o acompanhamento. Por sua vez esta equipe deve ser mantida informada a respeito da evolução da gravidez e tratamentos administrados à gestante por meio de contrarreferência e de busca ativa das gestantes em seu território de atuação, por meio da visita domiciliar. O estabelecimento dessa comunicação dinâmica entre os serviços é importante porque a gestante tem maior facilidade de acesso aos serviços de atenção básica, até mesmo pela proximidade ao seu domicílio, possibilitando que as Equipes de Saúde da Família possam ofertar a essas gestantes acolhimento e apoio, por meio da identificação e ativação da rede de suporte familiar e social, participação em atividades educativas individuais e em grupo, reforço para frequência nas consultas especializadas e maior adesão aos tratamentos instituídos, além do primeiro atendimento na suspeita de intercorrências, nos casos em que o acesso da gestante aos serviços especializados seja difícil. O intuito da assistência pré-natal de alto risco é interferir no curso de uma gestação que possui maior chance de ter um resultado desfavorável, de maneira a diminuir o risco ao qual estão expostos a gestante e o feto, ou reduzir suas possíveis consequências adversas. A equipe de saúde deve estar preparada para enfrentar quaisquer fatores que possam afetar adversamente a gravidez, sejam eles clínicos, obstétricos, ou de cunho socioeconômico ou emocional. Para tanto, a gestante deverá ser sempre informada do andamento de sua gestação e instruída quanto aos comportamentos e atitudes que deve tomar para melhorar sua saúde, assim como sua família, companheiro(a) e pessoas de convivência próxima, que devem ser preparados para prover um suporte adequado a esta gestante. A equipe de saúde que irá realizar o seguimento das gestações de alto risco deve levar em consideração continuamente: a) Avaliação clínica Uma avaliação clínica completa e bem realizada permite o adequado estabelecimento das condições clínicas e a correta valorização de agravos que possam estar presentes desde o início do acompanhamento, por meio de uma história clínica detalhada e avaliação de parâmetros clínicos e laboratoriais. b) Avaliação obstétrica Inicia-se com o estabelecimento da idade gestacional de maneira mais acurada possível e o correto acompanhamento da evolução da gravidez, mediante análise e adequada interpretação dos parâmetros obstétricos (ganho ponderal, pressão arterial e crescimento uterino). A avaliação do crescimento e as condições de vitalidade e maturidade do feto são fundamentais. c) Repercussões mútuas entre as condições clínicas da gestante e a gravidez É de suma importância o conhecimento das repercussões da gravidez sobre as condições clínicas da gestante e para isso é fundamental um amplo conhecimento sobre a fisiologia da gravidez. Desconhecendo as adaptações pelas quais passa o organismo materno e, como consequência, o seu funcionamento, não há como avaliar as repercussões sobre as gestantes, principalmente na vigência de algum agravo. Por outro lado, se não se conhecem os mecanismos fisiopatológicos das doenças, como integrá-los ao organismo da grávida? Portanto, o conhecimento de clínica médica é outro requisito básico de quem se dispõe a atender gestantes de alto risco, sendo também importante o suporte de profissionais de outras especialidades. d) Parto A determinação da via de parto e o momento ideal para este evento nas gestações de alto risco talvez represente ainda hoje o maior dilema vivido pelo obstetra. A decisão deve ser tomada de acordo com cada caso e é fundamental o esclarecimento da gestante e sua família, com informações completas e de uma maneira que lhes seja compreensível culturalmente, quanto às opções presentes e os riscos a elas inerentes, sendo que deve ser garantida a sua participação no processo decisório. Cabe salientar, todavia, que gravidez de risco não é sinônimo de cesariana. Em muitas situações é possível a indução do parto visando o seu término por via vaginal, ou mesmo aguardar o seu início espontâneo. A indicação da via de parto deve ser feita pelo profissional que for assistir ao parto. É importante que profissionais que atendem a mulher durante a gestação não determinem qual deverá ser a via de parto, que depende não só da história preexistente, como também da situação da mulher na admissão à unidade que conduzirá o parto. e) Aspectos emocionais e psicossociais É evidente que para o fornecimento do melhor acompanhamento da gestante de alto risco, há necessidade de equipe multidisciplinar, constituída por especialistas de outras áreas, tais como Enfermagem, Psicologia, Nutrição e Serviço Social, em trabalho articulado e planejado. Aspecto quase esquecido, por receio ou desconhecimento, é o componente emocional no seguimento da gestação de alto risco. Assim como organicamente a gravidez representa desafio para condições maternas, também do ponto de vista emocional surge como desafio adaptativo. No conteúdo emocional da mulher grávidaentram em jogo fatores psíquicos preexistentes e atuais, e, entre os últimos, os componentes da gravidez e ambientais. Este conteúdo manifesta-se principalmente por intermédio da ansiedade, mecanismo emocional basal que se estende durante toda a gravidez, de forma crescente, até o termo. A ansiedade tem causas várias identificáveis para cada trimestre, mas que se intercambiam psicodinamicamente. Listam-se, entre elas, ambivalência, negação, regressão, introspecção, medo etc. Na gestação de alto risco, as dificuldades de adaptação emocional são maiores, a começar pelo rótulo que se lhes dá, “de alto risco”, portanto “diferente” das demais, “normais”. Some-se a isto o próprio fator de risco como componente estressante e dois modelos clínicos podem ser então identificados. Quando a condição clínica preexiste à gestação, pode, por um lado, ser tomada como nova chance de vida, o triunfo sobre a doença. No entanto, por outro lado, pode haver rotura do equilíbrio emocional anteriormente adquirido, com frequente deterioração ou perda da autoestima e surgimento de sentimento de incompetência; a partir daí, estabelece- se a dificuldade de vinculação. Nesses casos, é importante que a gravidez seja planejada, com avaliação pré-concepcional, e início oportuno de gestação, quando for possível. Na segunda possibilidade, a condição de risco é diagnosticada durante a gestação e a grávida experimenta, então, todas as reações associadas à vivência do luto, pela “morte da gravidez idealizada”. Surgem sentimentos de culpa, raiva, censura. A hospitalização, tão comum quanto por vezes necessária no seguimento da gravidez de alto risco, deve ser considerada como outro fator estressante adicional. Conscientiza-se a grávida da sua doença; é afastada do suporte familiar; vive conflito entre a dependência imposta e a perda de autonomia (perda do controle sobre si e sobre a gravidez). Devem ser levadas em conta, ainda neste contexto emocional, as reações da família, muito semelhantes às da grávida (ambivalência, culpa, raiva, luto, etc.). No grupo familiar, o parceiro desempenha papel importante, por reações que podem se manifestar por meio de apoio e companheirismo ou sentimentos de exclusão, ressentimento, agressividade, culpa e outros. Considere-se, neste ambiente emocional, o papel da equipe assistencial sob a ótica da gestante: a equipe é inominada, onipotente, autoritária, distante, fria, mal-humorada, “de falar difícil”, e pouco comunicativa. Por outro lado, o médico também é visto pela grávida como super-homem ou de idade, capaz de salvar a vida dela e de seu filho. Mas também é importante a visão que a equipe tem de si mesma, pois os sentimentos e emoções são intercambiáveis com os da gestante. A equipe trabalha entre dificuldades diagnósticas e terapêuticas; com cobranças por parte da gestante, da família ou da instituição, obrigando-se, muitas vezes, à “política de resultados”; conta-se ainda, o estresse profissional, podendo viver emoções tipo “montanha- russa”. Desta forma, a equipe de saúde precisa ter conhecimento e sensibilidade para identificar e entender o processo emocional que rodeia o acompanhamento da gestação de alto risco. Uma atividade que pode contribuir tanto para reduzir o estresse da equipe como para aprofundar o entendimento de quais serão os melhores encaminhamentos é a discussão do caso com os vários integrantes da equipe, incluindo o psicólogo, que tem o preparo profissional para ajudar a equipe a lidar com as dificuldades emocionais envolvendo gestantes de risco. 2. Correlacionar os achados fenotípicos com as doenças genéticas a partir do pré-natal e nascimento; As doenças genéticas são aquelas causadas por uma alteração no nosso material genético, que podem causar anomalias congênitas ou se manifestarem ao longo da vida. As anomalias congênitas são alterações no funcionamento ou na estrutura do corpo que surgem durante o desenvolvimento no bebê e que, portanto, já estão presentes ao nascimento. Elas podem ser causadas por fatores ambientais, como a infecção pelo vírus da Zika, ou por fatores genéticos. De acordo com o Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM- DATASUS), ocorreram 1.397 óbitos fetais no estado da Bahia por malformações congênitas, deformidades e anomalias cromossômicas no período de 2009 a 2019, sendo a segunda causa de morte (Gráfico 1). No Brasil, foram registrados 19.731 óbitos fetais no mesmo período, sendo que o Nordeste foi a segunda região de maior mortalidade por esta causa (Tabela 1). Diante da importância de já suspeitar de doença genética no pré-natal, iremos abordar quais as condições genéticas pré- natais que devem ser investigadas; e, quando encaminhar as pessoas para consulta genética materno infantil: o que inclui atendimento a tentantes (casais que estão tentando engravidar), casais com perdas gestacionais, gestantes e recém- nascidos (até 28 dias de vida). Casais Consanguíneos - Mesmo antes de engravidar, os casais podem ter indicação de consulta de aconselhamento genético para levantamento dos riscos e orientações. Este é o caso dos casais consanguíneos, como, por exemplo, casais de primos que estão planejando ter filhos. Histórico familiar - para as pessoas que têm história familiar de doenças genéticas, com risco de serem transmitidas ao longo das gerações, este também é o caso. Falência ovariana precoce - ainda, a falência ovariana precoce (antes dos 40 anos) com dosagem de hormônios LH e FSH elevados, e sem causa não genética que justifique o quadro, pode levantar a suspeita de condição genética. Para os tentantes é importante estarem atentos as condições genéticas quando: 1) Apresentarem infertilidade (falha em conceber após 12 meses tentando engravidar sem medidas de anticoncepção; 2) Com história de perdas gestacionais (mais de três perdas) quando a avaliação inicial do casal com ginecologista e urologista forem normais. Outros fatores - quando houver anomalias congênitas ou condição genética em gestação anterior ou atual há indicação de consulta com médico geneticista. O mesmo acontece quando alguns exames de pré-natal se encontram alterados, como é o caso do aumento das translucência nucal. O aumento da translucência nucal pode estar relacionado, por exemplo, a cromossomopatias, como a Síndrome de Down, e a cardiopatias congênitas. Algumas vezes não é possível identificar as doenças genéticas no bebê durante a gestação e, ao observar a presença de anomalias congênitas, a equipe deve estar atenta para solicitar avaliação do médico geneticista, para que ocorra o diagnóstico precoce e o tratamento necessário. Estão incluídas ainda a avaliação genética os casos de dúvidas em relação a infecções ou substâncias com potencial teratogênico (tudo aquilo capaz de causar dano ao embrião ou feto durante a gravidez), pois, muitas vezes, é necessária uma avaliação detalhada para que sejam excluídas condições genéticas. A avaliação genética é parte dos exames pré-natais de rotina e deve ser feita, preferencialmente, antes da concepção. A extensão do teste genético está relacionada à forma como a mulher e seu parceiro ponderam fatores como • Probabilidade de anormalidade fetal com base em fatores de risco e os resultados de testes anteriores • Probabilidade de complicações por exame fetal invasivo • A importância de conhecer os resultados (p. ex., se a gestação deve ser interrompida, caso haja diagnóstico de deformidade; não saber os resultados causa ansiedade) Por essas razões, a decisão é individual, e as recomendações muitas vezes não podem ser generalizadas para todas as mulheres, mesmo aquelas com riscos semelhantes. A história de triagem familiar faz parte da avaliação. A história é resumida à árvore genealógica (ver figura Símbolospara construção de um heredograma familiar). As informações nela descritas devem conter as condições de saúde e presença de doenças genéticas ou condição de portador de ambos os pais, dos parentes em 1º grau (pais, irmãos, filhos) e dos parentes em 2º grau (tias, tios, avós), assim como etnia, raça e casamentos consanguíneos. Os resultados de gestações anteriores devem ser anotados. Se houver suspeita de doenças genéticas, é necessário rever anotações médicas relevantes. De modo ideal, antes da concepção, fazem-se testes de rastreamento genético à procura de potenciais pais. Tradicionalmente, os testes são oferecidos aos pais com risco de serem portadores assintomáticos de algumas doenças mendelianas comuns (ver tabela Triagem genética para algumas linhagens). Testes diagnósticos para anormalidades específicas devem ser oferecidos aos pais, quando apropriado (ver tabela Indicações para testes de diagnóstico genético fetal). Como a etnia dos pais geralmente é complexa e não está bem definida e como o teste genético pré-natal está se tornando muito menos dispendioso e mais rápido, alguns médicos estão começando a fazer a triagem de todos os potenciais pais (e expectantes), independentemente da etnia (chamada triagem de portador universal). Portanto, as abordagens atuais para a triagem de portadores incluem oferecer a todos os pacientes a mesma lista ampliada de condições a serem avaliadas. Muitas vezes, dezenas de genes e doenças (algumas com consequências fenotípicas mais graves do que outras) são incluídos (1). Aumentar a quantidade de testes e avaliações deve aumentar a complexidade do aconselhamento pré- teste. O American College of Medical Genetics and Genomics recomenda um sistema de triagem do portador em camadas, de acordo com a frequência do portador, e forneceu tabelas listando as https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/t%C3%B3picos-especiais/princ%C3%ADpios-gerais-da-gen%C3%A9tica-m%C3%A9dica/vis%C3%A3o-geral-da-gen%C3%A9tica#v1123248_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/t%C3%B3picos-especiais/princ%C3%ADpios-gerais-da-gen%C3%A9tica-m%C3%A9dica/vis%C3%A3o-geral-da-gen%C3%A9tica#v1123248_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/t%C3%B3picos-especiais/princ%C3%ADpios-gerais-da-gen%C3%A9tica-m%C3%A9dica/vis%C3%A3o-geral-da-gen%C3%A9tica#v1123248_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/teste-gen%C3%A9tico-pr%C3%A9-natal-dos-pais#v55253250_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/teste-gen%C3%A9tico-pr%C3%A9-natal-dos-pais#v55253250_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/teste-gen%C3%A9tico-pr%C3%A9-natal-dos-pais#v55253365_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/teste-gen%C3%A9tico-pr%C3%A9-natal-dos-pais#v55253365_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/teste-gen%C3%A9tico-pr%C3%A9-natal-dos-pais#v45110187_pt doenças a serem incluídas nos painéis de triagem de portadores (2). Após a concepção, deve-se oferecer às gestantes rastreamento à procura de doenças cromossômicas fetais usando um dos vários métodos existentes. Um dos métodos usa múltiplos marcadores séricos maternos [alfa-fetoproteína, beta gonadotropina coriônica humana (beta-hCG), estriol, inibina A] para detectar defeitos do tubo neural, síndrome de Down (e outras anormalidades cromossômicas) e alguns outros defeitos ao nascimento. Esse exame é chamado triagem para analitos. É feito com 15 a 20 semanas da gestação. Um método cada vez mais popular de rastreamento da síndrome de Down fetal, trissomia 18 e trissomia 13 é a análise do DNA livre de células (cfDNA) no plasma materno. As taxas de detecção usando essa tecnologia são mais altas do que com métodos mais antigos. Exames diagnósticos fetais: Normalmente, realizam-se testes diagnósticos genéticos fetais por meio de amostras do vilo coriônico, amniocentese ou, raramente, amostra percutânea do sangue umbilical. Esses testes podem detectar todas as trissomias, várias outras anormalidades cromossômicas e várias centenas de anormalidades mendelianas. Anomalias cromossômicas submicroscópicas não são percebidas por testes cariótipos tradicionais e só podem ser identificadas por tecnologias de micromatriz, como a matriz de hibridização genômica comparativa e polimorfismo de nucletideo único (PNU) baseado em matriz. Em geral, recomendam-se testes se o risco de anomalias cromossômicas fetais é alto (ver tabela Indicações para testes genéticos fetais). Testes diagnósticos genéticos fetais, ao contrário dos testes de triagem, geralmente são invasivos e envolvem riscos para o feto. Dessa forma, no passado, esses testes geralmente não eram recomendados para mulheres sem fatores de risco. No entanto, por sua maior segurança e disponibilidade atual, o teste diagnóstico genético fetal, para todas as gestantes, independentemente do risco, é recomendado. A hibridização genômica por arranjo comparativo nos testes pré- natais é mais frequentemente usada para avaliar fetos com anormalidades estruturais. As matrizes detectam anormalidades no número de cromossomos (p. ex., trissomias), bem como doenças cromossômicas estruturais não balanceadas, como microdeleções. Estudos relataram cerca de 6% de incidência de anormalidades do arranjo que não seriam percebidas na cariotipagem tradicional em fetos estruturalmente anormais. 3) Conceber a importância do reconhecimento precoce de anomalias congênitas maiores durante o exame físico do recém-nato; As anomalias congênitas (AC) estão entre as principais causas de mortalidade neonatal e infantil, doenças crônicas e deficiência, causando impacto em nível individual, familiar, no sistema de saúde e https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/teste-gen%C3%A9tico-pr%C3%A9-natal-dos-pais#v45110187_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/estrat%C3%A9gias-n%C3%A3o-invasivas-de-triagem-pr%C3%A9-natal#v73498032_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/estrat%C3%A9gias-n%C3%A3o-invasivas-de-triagem-pr%C3%A9-natal#v73498032_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/estrat%C3%A9gias-n%C3%A3o-invasivas-de-triagem-pr%C3%A9-natal#v73498032_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/estrat%C3%A9gias-n%C3%A3o-invasivas-de-triagem-pr%C3%A9-natal#v73498032_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/pediatria/anomalias-gen%C3%A9ticas-e-cromoss%C3%B4micas/s%C3%ADndrome-de-down-trissomia-do-21 https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/pediatria/anomalias-gen%C3%A9ticas-e-cromoss%C3%B4micas/trissomia-do-18 https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/pediatria/anomalias-gen%C3%A9ticas-e-cromoss%C3%B4micas/trissomia-do-13 https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/estrat%C3%A9gias-n%C3%A3o-invasivas-de-triagem-pr%C3%A9-natal#v73497974_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/procedimentos-para-diagn%C3%B3stico-pr%C3%A9-natal#v73498161_pthttps://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/procedimentos-para-diagn%C3%B3stico-pr%C3%A9-natal#v73498161_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/procedimentos-para-diagn%C3%B3stico-pr%C3%A9-natal#v73498152_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/procedimentos-para-diagn%C3%B3stico-pr%C3%A9-natal#v73498170_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/procedimentos-para-diagn%C3%B3stico-pr%C3%A9-natal#v73498170_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/teste-gen%C3%A9tico-pr%C3%A9-natal-dos-pais#v55253365_pt https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/aconselhamento-gen%C3%A9tico-e-avalia%C3%A7%C3%A3o-pr%C3%A9-natal/teste-gen%C3%A9tico-pr%C3%A9-natal-dos-pais#v55253365_pt na sociedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), anualmente, aproximadamente 8 milhões de recém-nascidos no mundo nascem com um defeito grave ou anomalia congênita e 3 milhões morrem antes dos 5 anos. Na América Latina, as AC ocasionam cerca de 20% das mortes de crianças menores de 5 anos e um em cada cinco bebês vai a óbito em decorrência de defeitos congênitos durante os primeiros 28 dias de vida. Cerca de 70% das AC podem ser evitadas ou seus efeitos minimizados com ações preventivas, particularmente nos países de média renda. Medidas como vacinação, fortificação de alimentos e cuidados pré- natais podem diminuir a carga associada a muitas dessas anomalias. O acompanhamento das variações geográficas e temporais também contribui para o planejamento estratégico de ações pela saúde pública. As medidas de prevenção para as AC requerem uma gama de estratégias que incluem a oferta de cuidados para a saúde das mulheres, dos recém-nascidos e das crianças. Nesse sentido, estratégias que promovam o cuidado e a prevenção das AC são factíveis, custo efetivas e devem ser uma prioridade dentro das políticas de saúde pública. As recomendações gerais para o cuidado e a prevenção das AC podem ser focadas na redução do risco, na melhora dos cuidados e na capacitação de profissionais da saúde e sociedade civil, como segue. REDUÇÃO DO RISCO: � - Educar a comunidade, os profissionais de saúde e trabalhadores, os formuladores de políticas, a mídia e outras partes interessadas sobre as AC e as oportunidades para cuidados e prevenção eficazes. � - Promover o planejamento familiar permitindo aos casais decidirem quando eles desejam ter os seus filhos, organizando o intervalo entre as gestações, o número de filhos, as idades em que desejam completar as famílias e na redução das gestações indesejadas. � - Garantir uma dieta saudável e equilibrada durante o período reprodutivo mediante uma ingestão adequada de macronutrientes, uma ampla gama de micronutrientes e fortificação quando necessário. Especial atenção em relação ao consumo de substâncias teratogênicas como a ingestão de álcool. � - Otimizar a saúde materna por meio do controle de doenças infecciosas e as crônicas associadas a um risco aumentado de AC. � - Capacitar os profissionais da saúde no reconhecimento de causas e de cuidados de crianças com AC. � - Realizar o exame físico de todos os recém-nascidos por profissionais da saúde capacitados para o reconhecimento antes da alta hospitalar ou clínica. - Oferecer serviços de saúde infantil adequados para o cuidado dos bebês com AC. � - Estabelecer sistemas de vigilância e de monitoramento de defeitos congênitos comuns para uma avaliação robusta de intervenções nacionais e locais. � - Capacitar e apoiar a sociedade sobre as AC. MELHORIAS NOS SERVIÇOS DE SAÚDE � - Promover a capacitação dos profissionais de saúde que trabalham direta ou indiretamente com as AC em relação aos fundamentos e reconhecimento de tais anomalias, causas e cuidados das crianças com AC e a garantia de exames físicos de todos os recém-nascidos por profissionais de saúde treinados antes da alta hospitalar. � - Garantir serviços médicos de preconcepção para auxiliar as mulheres e seus parceiros a atingir o nível ideal de saúde física e mental e bem-estar durante a gravidez, bem como promover um parto normal e com saúde para o bebê. Esses serviços devem incluir a triagem genética. � - Garantir serviços e tratamentos efetivos para as AC, incluindo cirurgia, medicamentos, modificações dietéticas e serviços de reabilitação quando necessário. - Fornecer apoio psicossocial para as famílias promovendo uma maior compreensão das AC e manejo do crescimento e do desenvolvimento de crianças com AC. 4) Detectar anomalias congênitas prioritárias para vigilância ao nascimento, notificação e medidas preventivas. As anomalias congênitas (AC) são alterações que ocorrem durante o desenvolvimento embrionário/ fetal e que afetam a estrutura ou a função do corpo, podendo ser detectadas ao nascimento ou não. Muitas causam deficiências e podem comprometer o desenvolvimento integral do indivíduo. (Quadro 1). As AC podem ser diagnosticadas durante o pré-natal ou no momento do nascimento, como, por exemplo, a anencefalia, que é uma malformação; após o nascimento, como as cardiopatias; ou mais tardiamente na vida, como a doença de Huntington. É importante destacar que nem todas as AC têm causas genéticas. Estima-se que as anomalias congênitas estejam presentes em cerca de 3% a 6% dos nascimentos mundiais, sendo que uma fração importante será identificada ao longo do desenvolvimento da criança. Na América Latina, essa prevalência é de 5%, entretanto, esses dados podem estar sub- -representados devido a falhas nos registros. Aproximadamente 94% das AC ocorrem nos países de baixa e média renda e, a cada ano, são responsáveis por mais de 300 mil óbitos no período neonatal em todo o mundo. Entre as AC graves, destacam-se os defeitos do tubo neural (DTN), as cardiopatias e a síndrome de Down (SD). As AC podem causar grande impacto nos âmbitos individual, familiar e socioeconômico, seja pelo seu prognóstico clínico, risco de recorrência na família, bem como abalo em sua estrutura e no sistema de saúde devido à cronicidade e à necessidade de atendimento multidisciplinar, muitas vezes, de alta complexidade.3,4 Identificar oportunamente as AC facilita o diagnóstico e o tratamento adequados, podendo orientar estratégias de prevenção primária, secundária e terciária. Assim, este capítulo tem por objetivo abordar as AC morfológicas ou anatômicas, etiologia, fatores de risco, fisiopatogênia, morbidade e prevenção. Quando ocorrem as anomalias congênitas? O período embrionário inicia-se a partir da fertilização (união do oócito com o espermatozoide) e formação do zigoto. Nesse momento ocorre uma série de divisões mitóticas que levam ao desenvolvimento de um conjunto de células denominada mórula, com células totipotentes, com capacidade total de regeneração. A mórula sofre um processo de cavitação dando origem ao blastocisto que ao final da primeira semana de desenvolvimento começa o processo de implantação no útero. Entre a segunda e a terceira semana de desenvolvimento embrionário, a implantação é consolidada e ocorre também o processo de gastrulação, cujo resultado é o estabelecimento dos três folhetos embrionários, que darão origem a todos os tecidos e órgãos do corpo. De maneira geral, alterações e/ou agressões que ocorrem nesse período são improváveis de resultarem em um desenvolvimento defeituoso. Alterações nessa fase acarretammorte do embrião ou são compensadas pelas propriedades reguladoras do embrião inicial. Entre a 3ª e 8ª semanas de desenvolvimento, a maioria dos órgãos e das regiões do corpo é estabelecida. Este período, conhecido como período de organogênese, é de máxima susceptibilidade para o desenvolvimento de estruturas anormais. Se algum fator físico, químico, intrínseco (genético ou não) intervir nesse período do desenvolvimento, anomalias congênitas podem acontecer. No Gráfico 1 é possível observar o período de maior e menor susceptibilidade a anomalias congênitas, mostrando a sensibilidade por órgão. Após o período de organogênese, o período embrionário termina e inicia o período fetal, que vai até o nascimento. No período fetal algumas estruturas que iniciaram o desenvolvimento no período embrionário são consolidadas, como, por exemplo, o fechamento da fenda palatina. Alguns sistemas seguem seu desenvolvimento no período fetal, como, por exemplo, os sistemas respiratório e nervoso. Existe menor probabilidade de ocorrência de anomalias congênitas estruturais neste período. Anomalias que surgem no período fetal tendem a ser funcionais (por exemplo, deficiência intelectual) ou envolver distúrbios no crescimento de estruturas fetais. Quais são as principais causas de anomalias congênitas? As AC podem ser causadas por fatores genéticos, ambientais ou multifatoriais. Nesse caso, elas ocorrem isoladamente por uma combinação de predisposição genética e fatores ambientais (herança multifatorial), podendo compreender a interação entre gene-gene e gene- ambiente, sendo conhecidas como multifatoriais. As causas genéticas são classificadas como monogênicas e cromossômicas. São chamadas de monogênicas aquelas determinadas por alterações em um único gene. Estas podem ser herdadas ou acontecer por acaso (mutação nova ou de novo). Quando herdadas, podem ocorrer de diferentes maneiras. No modo autossômico dominante, a criança pode herdar de um dos genitores a mutação que ocasiona as AC, formando um conjunto de características que podem ser denominadas de síndrome ou de sequência, como será visto adiante. A mutação pode também ser herdada de ambos os genitores, mesmo que eles não possuam nenhuma AC. Nesse caso, a herança é conhecida como autossômica recessiva e os pais são ditos portadores e, a prole, afetada. Um terceiro modo de herança é ligado ao sexo ou ligado ao X, no qual a mãe portadora carrega em um de seus cromossomos X uma mutação e a transmite aos filhos do sexo masculino.9 Problemas no número ou na estrutura dos cromossomos também causam AC. Esses problemas ocorrem quando há uma falha na separação dos cromossomos durante a divisão celular, processo que é chamado de não disjunção e que pode ocorrer com maior frequência quando a gestante tem 35 anos de idade ou mais. Anomalias congênitas também podem ser causadas por fatores ambientais, chamados teratógenos, que são agentes externos ao embrião em desenvolvimento, e representam de 7% a 10% das causas de AC.10,11 Podem ser agentes físicos, químicos, biológicos, mecânicos ou estados nutricionais, os quais incluem condições maternas, infecções, ingestão/intoxicação por metais pesados, uso de medicações e drogas, exposição à radiação, entre outros.10 Teratógenos humanos são particularmente difíceis de serem identificados, quer por sistemas de vigilância epidemiológica ou por observações clínicas. Devido a isso, apenas uma pequena parcela dos agentes externos é reconhecida como teratógenos ou tem suas anomalias associadas bem descritas. O Quadro 1 contém uma lista de alguns teratógenos humanos já descritos e suas anomalias associadas. Para a maioria deles, a identificação deu-se por meio de relatos de casos por médicos. Foi apenas a partir da década de 1940 que fatores ambientais foram reconhecidos como causadores de anomalias congênitas e de outros desfechos na gestação. A primeira evidência disso foi um relato de casos de catarata congênita em bebês com exposição intrauterina à rubéola. A ação teratogênica de um agente irá depender de diferentes fatores, como, por exemplo, a dose e o período de exposição ao agente durante a gravidez. A janela de ação teratogênica de um agente é uma característica importante e se refere ao período da gestação no qual os órgãos e os tecidos reconhecidamente afetados por esse agente possuem maior sensibilidade a ele, ou seja, período com maior risco de que esse teratógeno cause as anomalias observadas. É importante ressaltar que essa janela de ação é responsável pela AC observada para cada agente, além de que, exposições em períodos diferentes dentro da janela de ação teratogênica para um mesmo teratógeno podem conferir anomalias diferentes. Assim, os efeitos de um teratógeno são, normalmente, observados em um padrão específico de AC ou uma anomalia específica durante um período sensível da gestação com um efeito dose-dependente. Grande parte das anomalias relacionadas a teratógenos ocorrem em decorrência de condições maternas (Quadro 1). Doenças maternas crônicas e alterações de metabolismo como diabetes e possivelmente obesidade estão relacionados à ocorrência de AC, sendo o diabetes um importante risco às anomalias cardíacas e aos defeitos de fechamento de tubo neural (DTN). As infecções congênitas são também uma causa de AC dentro dos fatores ambientais, sendo consideradas uma classe de teratógenos do tipo biológicos. Sua relevância clínica e epidemiológica é tal que as principais afecções foram agrupadas no chamado "STORCH", referente à sífilis, à toxoplasmose, à rubéola, ao citomegalovírus e ao herpes simples 1 e 2.1 Exemplo mais recente de infecção congênita como fator de risco para anomalias, o vírus Zika, ganhou notoriedade a partir de 2015 quando foi associado ao aumento da incidência de microcefalia em filhos recém-nascidos de gestantes infectadas durante a gestação. As drogas lícitas e ilícitas, com as medicações, agentes químicos e agentes físicos, representam em torno de 1% das causas de AC. Das drogas lícitas, destaca- se que não há dose segura para consumo de bebidas alcoólicas que garanta o desenvolvimento normal do embrião, podendo haver o desenvolvimento da síndrome alcóolica fetal (SAF). O uso de medicamentos durante a gestação deve ser supervisionado por um profissional da saúde, que deve avaliar os riscos e os benefícios do seu uso, assim como a dose e a idade gestacional em curso, devido ao grande número de fármacos associados ao desenvolvimento de anomalias congênitas, sendo os mais reconhecidos, anticonvulsivantes, talidomida, ácido retinoico e varfarina (Quadro 1). A medicação com ação teratogênica melhor documentada é a talidomida, devido à chamada “tragédia da talidomida” que ocorreu no início da década 1960, em que mais de 10 mil crianças foram afetadas pelos efeitos teratogênicos da medicação. O conjunto de anomalias congênitas causado pela talidomida é conhecido como embriopatia da talidomida e inclui malformações de membros, principalmente a focomelia, malformações do coração, olhos e orelhas. No Brasil, essa medicação ainda é causa de anomalias congênitas em recém-nascidos. A exposição materna a produtos químicos como chumbo e mercúrio pode aumentar o risco de AC, em especial malformações. Além disso, a situação socioeconômica desfavorável pode ser um determinante indireto para AC, sendo que 94% das anomalias congênitas importantes ocorrem em países de média e baixa renda. Isso possivelmente decorre da falta de acesso das gestantes a uma nutrição adequada, maior exposição a infecções e menor acesso à saúde. Como classificamos as anomalias congênitas? Em relação à morbidade, as AC são classificadas como menores e maiores (Figura 1). As AC menores são oriundas do período fetal e, geralmente,não acarretam problemas significativos, sendo as mais frequentes na população. Contudo, deve ser verificada se sua ocorrência é isolada, pois a presença de duas ou mais AC menores pode indicar anomalias internas maiores. Das crianças nascidas com três ou mais anormalidades menores, 90% apresentam uma anormalidade maior, necessitando de investigação minuciosa. São exemplos de anomalias menores: apêndices pré- -auriculares, polidactilias digitiformes e hipospádia (Figura 1). As AC maiores originam-se no período embrionário e constituem anormalidades estruturais com consequências sociais e/ou médicas, sendo infrequentes na população. Em geral, demandam intervenções médicas ou cirúrgicas. Tais anormalidades são as principais responsáveis pelas taxas de mortalidade, morbidade e incapacidade relacionadas a defeitos congênitos.9 São exemplos: fendas orais, fendas lábio-palatinas, anencefalia, síndrome de Down e cardiopatias congênitas. As AC podem também ser classificadas de acordo com sua patogenia, como malformação, disrupção, displasia ou deformidade. São chamadas de malformações as AC estruturais que se apresentam em um órgão, parte de um órgão ou em regiões mais extensas do corpo e que são resultados de problemas no processo de formação, na organogênese da(s) estrutura(s) em questão, que pode não se formar, formar-se de forma anormal ou incompleta. Disrupção é o termo designado para referir-se a uma anomalia estrutural que, como as malformações, pode se apresentar em um órgão, parte de um órgão ou em uma área mais extensa do corpo, contudo, diferente da malformação, a disrupção não resulta de uma formação incorreta e sim da interrupção ou interferência extrínseca que ocorre em um processo de formação que se daria de maneira normal. Um exemplo disso são as alterações estruturais decorrentes das infecções congênitas, (rubéola, sífilis, citomegalovírus), radiação ionizante, medicamentos (talidomida, tetraciclinas, hidantoína) e/ou drogas (álcool, cocaína). Alterações estruturais decorrentes da ação de bridas amnióticas – bandas fibrosas que tem origem no saco amniótico e que tem capacidade de se enrolar no corpo do feto, também são consideradas disrupções. As AC resultantes de anormalidades na histogênese, de um ou de mais tecidos, bem como as consequências morfológicas dessas alterações dá-se o nome de displasia. As displasias, em geral, afetam tecidos como a pele, o encéfalo, a cartilagem ou os ossos, podendo acometer os tecidos de maneira localizada ou generalizada, por exemplo: acondroplasia, hemangioma, displasia ectodérmica. Já as deformidades são as AC na forma ou na posição de uma determinada parte do corpo decorrentes da ação de forças mecânicas sobre essa estrutura após o seu desenvolvimento inicial, ou seja, o desenvolvimento inicial ocorre de maneira normal, contudo, dada a ação de forças mecânicas a estrutura se deforma, por exemplo: Facies de Potter, luxação congênita do quadril, assimetria do quadril, pé torto por miopatia. Ainda, as AC podem ser classificadas segundo a sua apresentação clínica, sendo divididas em anomalia isolada, sequência, síndrome ou anomalia congênita múltipla, associação ou síndrome. Uma anomalia isolada é aquela que se apresenta de maneira única e o recém-nascido não apresenta outra anomalia relacionada. Ao conjunto de anormalidades relacionadas que, supostamente ou sabidamente, tem origem em um único defeito ou fator mecânico primário, dá-se o nome de sequência. A sequência representa uma sucessão de alterações ou erros desencadeados por uma mesma malformação, disrupção ou deformidade, como por exemplo: sequência de oligodrâmnio, sequência de Pierre Robin. As sequências são consideradas anomalias isoladas, exceto quando constituem parte de uma síndrome. A síndrome é um conjunto de AC que apresenta relação patológica, mas que não constitui uma sequência. Podem ser resultado de fatores genéticos, ambientais ou da interação entre ambos. São exemplos de síndromes a trissomia do 21 (síndrome de Down), resultado de uma anormalidade cromossômica, e a síndrome da rubéola congênita, que é resultado de uma infecção. Ao conjunto de anormalidades congênitas que se apresenta com maior frequência que o esperado para as combinações ao acaso, dá-se o nome de associação. Um exemplo é a associação conhecida pelo acrônimo VACTERL e caracterizada pela presença de anomalias vertebrais, atresia anal, anomalias cardíacas, fístula traqueo- esofágica, anomalias renais e anomalias dos membros. Quando há a presença de duas ou mais AC maiores que não são relacionadas, reflexo de uma associação aleatória que não constitui uma síndrome ou uma sequência já descrita, tem-se uma anomalia congênita múltipla. Existe tratamento para as anomalias congênitas? A maioria das AC é passível de tratamento cirúrgico, que pode corrigir ou reduzir repercussões fatais ou incapacitantes dos defeitos congênitos, abrandando sua morbimortalidade. Salienta-se, aqui, o grande avanço que a cirurgia cardíaca propiciou no tratamento das cardiopatias congênitas que são o grupo mais frequente das AC. Assim, a precocidade da identificação e do referenciamento é fundamental sendo que em algumas, como nas hidrocefalias, o diagnóstico pré-natal é decisivo para o planejamento terapêutico. Para as afecções em que intervenção cirúrgica não é possível, as terapias fisiomotora, fonoaudiológica e ocupacional são coadjuvantes na capacitação dos indivíduos com acometimento do desenvolvimento neuropsicomotor à melhor integração social. Considerando as AC integrantes do escopo das doenças de cunho genético, o aconselhamento genético e o apoio psicológico constituem aspecto primordial no suporte à criança e à sua família ao informar sobre a afecção, suas repercussões, taxas de recorrência e as possibilidades terapêuticas. Essas medidas permitem a tomada de decisões informadas. Como podemos prevenir as anomalias congênitas? Estratégias de prevenção de anomalias congênitas são de extrema importância durante o planejamento e o acompanhamento da gestação. Antes da concepção, as equipes de saúde podem auxiliar no planejamento reprodutivo, avaliando a situação de saúde da mulher e auxiliando no esclarecimento de dúvidas referentes à gestação. Da mesma forma, a realização do pré-natal torna-se importante para a prevenção das AC a partir da realização de exames, da suplementação nutricional, da vacinação, da prevenção de infecções, entre outros. A realização de exames de acompanhamento como a avaliação da anatomia fetal por ultrassonografia detalhada e ecocardiograma fetal podem ser solicitados para avaliação clínica complementar. As intervenções preconizadas pela OMS como estratégia de prevenção às AC incluem combater a nutrição inadequada ao garantir que mulheres jovens e gestantes tenham acesso à dieta variada e equilibrada visando ao consumo adequado de vitaminas e minerais. A suplementação de vitaminas e compostos pode e deve ser realizada durante o pré-natal. Suplementação de ácido fólico no período periconcepcional é importante para prevenção de anomalias do tubo neural.28 A suplementação de ferro é indicada durante o pré-natal e até o terceiro mês pós-parto para prevenção do baixo peso ao nascer, anemia e deficiência de ferro na gestante. Outras suplementações que devem ser avaliadas pelo profissional de saúde e que são recomendadas em contextos específicos são: cálcio, vitamina A e iodo. A suplementação de vitaminas C, D e E não são recomendadas para melhorar os desfechos maternos e perinatais. A vacinação da gestante deve ser recomendada pelo profissional da saúde levando em conta os riscos individuais de cada gravidez. As vacinas de influenza e de dTpa (difteria, tétano e coqueluche), que devem ser realizadas entre a 27º e 36ª semana, são indicadaspara todas as gestantes, sendo seguras para a mãe e para o bebê. O planejamento adequado de uma vacinação pode evitar a ocorrência de infecções congênitas e deve ser avaliada de acordo com os riscos e os benefícios, levando-se em consideração as regiões geográficas em que as gestantes estão situadas. Da mesma forma, a detecção, a prevenção e o tratamento de infecções maternas como as STORCH são importantes, sendo indicada a realização de exames para as infecções. Além dos exames de acompanhamento, da suplementação e da vacinação, outras estratégias de prevenção de AC incluem o controle de doenças maternas, como a diabetes mellitus e a obesidade. É aconselhado também informar a gestante sobre os desfechos possíveis após o uso de drogas, lícitas e ilícitas, ou da exposição a outras substâncias ambientais, como metais pesados e agrotóxicos, com o intuito de evitar a exposição materna a possíveis teratógenos. O papel do profissional da saúde também é relevante em informar à mãe sobre o uso de medicações sem prescrição médica ou sem avaliação dos possíveis riscos ao feto, visto que algumas medicações são contraindicadas durante a gestação por serem teratogênicas. A adesão às estratégias de prevenção supracitadas é facilitada por meio de um bom acompanhamento e adesão ao pré- natal, e permitem diminuir a exposição da gestante a agentes possivelmente danosos à gestação e ao bebê, evitando o desenvolvimento e o aumento da taxa de anomalias congênitas. Anomalias congênitas: como registrar e notificar? As AC detectáveis ao nascimento devem ser informadas na Declaração de Nascido Vivo (DNV). Essa declaração é composta de três vias e dividida em oito blocos. No campo 6 do bloco I deve ser preenchido “sim”, indicando a presença de anomalias. No campo 41 do bloco VI devem ser descritas todas as anomalias congênitas visíveis. Quanto mais bem descritas, melhor será a codificação. Cada diagnóstico, considerando uma ou mais anomalias, deve ser informado na DNV e no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc). É papel do médico descrever as anomalias congênitas na DNV. Devem ser registradas todas as anomalias observadas, sem hierarquia ou tentativa de agrupá-las em síndromes. A codificação qualificada das anomalias descritas de acordo com a décima versão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) deverá ser realizada preferencialmente em um segundo momento por pessoas capacitadas para esta função. Portanto, quanto melhor descrita a AC, melhor será o trabalho de codificação. Afinal, por que é importante notificar? O ato de notificar uma AC na declaração de nascimento é capaz de propiciar uma cadeia de eventos que impactarão diretamente o indivíduo, sua família e o sistema de saúde. Nos âmbitos individual e familiar, o conhecimento de que a criança possui uma ou mais anomalias, levará a um diagnóstico adequado e o encaminhamento a serviços de referência para tratamento, acompanhamento, aconselhamento genético e reabilitação. Além disso, possibilitará à família realizar escolhas para uma futura gestação com base em informações e evidências informadas pela equipe de saúde. Ainda, pode propiciar o chamado alerta, com a identificação de incidência acima do esperado para a população de uma determinada área geográfica (por exemplo, nos casos de síndrome da talidomida fetal nos anos 1960 e da síndrome congênita do ZIKV, ocorrida recentemente), o quê, por sua vez, possibilita a implementação de diferentes medidas de manejo, de cuidado e de prevenção. No âmbito da saúde pública, o registro de AC permite conhecer a real prevalência de tais agravos e pode identificar a necessidade de estratégias ou políticas de prevenção primária, secundária e terciária. Embora tal tema seja abordado em detalhes neste volume, um exemplo interessante é a recomendação do uso de ácido fólico no período periconcepcional, uma estratégia de prevenção primária bem-sucedida mundialmente. Todas essas estratégias, possíveis a partir da notificação, somadas ao alarme de possíveis modificações em frequências no espaço ou no tempo, além do impacto na saúde e na qualidade de vida do indivíduo afetado e sua família, têm um impacto social direto na população, pois, como apontado anteriormente, repercutirão na saúde pública e permitirão a criação de medidas adequadas para as populações afetadas.