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ELETRÔNICA I Maikon Lucian Lenz Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a construção básica de um MOSFET. Analisar as curvas características do MOSFET-D e MOSFET-E. Detalhar a aplicação dos MOSFETs como chaves digitais. Introdução A introdução do MOSFET revolucionou os circuitos integrados, que pas- saram a contar com um transistor mais compacto e eficiente. Apesar de o seu uso também se dar em outras aplicações que envolvam a região ativa, é a aplicação em sistemas chaveados que transitam apenas entre o corte e a saturação que melhor aproveitará os benefícios dessa tecnologia: baixa potência de entrada, estabilidade na região de corte e operação em altas frequências. Devem ser diferenciadas, no entanto, duas construções básicas: MOSFET-D e MOSFET-E. Neste capítulo, você vai estudar a construção básica de um MOSFET e as curvas características do MOSFET-D e do MOSFET-E. Por fim, você vai analisar a aplicação dos MOSFETs como chaves digitais. Construção básica de um MOSFET O MOSFET, transistor de efeito de campo metal-óxido semicondutor, do inglês metal-oxide semiconductor fi eld eff ect transistor, leva esse nome por conta do material isolante presente no terminal da porta, ainda que, atualmente, boa parte dos MOSFETs não utilizem mais o conjunto metal-óxido — o compor- tamento é o mesmo. Esse isolamento é o grande diferencial entre o JFET e o MOSFET. O JFET possuía ligação direta com o material que dividia o canal do transistor. O MOSFET, no entanto, tem o terminal da porta completamente isolado por uma camada de dióxido de silício (vidro), conforme apontam Malvino e Bates (2016). Toda a estrutura pode ser vista na Figura 1. Figura 1. Estrutura interna de um MOSFET-D. Fonte: Malvino e Bates (2016, p. 472). Repare que, na Figura 1, está presente um quarto terminal, denominado substrato, que não existe nos demais transistores de efeito de campo. Esse terminal nem sempre é acessível, sendo, na maioria dos casos, ligado direta- mente ao terminal da fonte. Existem dois tipos de MOSFET, conhecidos por MOSFET-D e MOSFET-E. O primeiro é dito MOSFET de depleção, enquanto o segundo é o MOSFET de crescimento. A diferença está na existência ou não de um canal entre o dreno e a fonte, mesmo sem existir qualquer tensão na porta. A porta terá um comportamento similar ao de um capacitor, já que está isolada do restante do circuito, mas admitirá uma corrente de forma a polarizar a superfície próxima do isolante, criando um campo elétrico entre a porta e o substrato que, por sua vez, vai alterar a largura do canal. Como nos demais transistores, por se tratar de uma característica própria dos semicondutores, haverá também a possibilidade de formar duas estrutu- ras diferentes para cada tipo de MOSFET, uma com canal do tipo N e outra com canal do tipo P. Nas Figuras 2 e 3 estão apresentadas as simbologias de ambos os MOSFETs com seus dois canais possíveis. Observe que a diferença entre as simbologias utilizadas pelo MOSFET-D e pelo MOSFET-E é sútil, Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas2 diferenciando apenas a linha que representa o canal. No MOSFET-D, essa linha é contínua, indicando que está normalmente em condução, enquanto para o MOSFET-E essa linha é tracejada, indicando que está normalmente em corte, conforme lecionam Malvino e Bates (2016). Figura 2. Simbologia do MOSFET-D: a) canal tipo N; b) canal tipo P. Fonte: Adaptada de Malvino e Bates (2016). Figura 3. Simbologia do MOSFET-E: a) canal tipo N; b) canal tipo P. Fonte: Adaptada de Malvino e Bates (2016). As setas são os indicadores do tipo de canal, sendo o canal N com a seta apontando para a porta e o canal P com a seta no sentido oposto, direcionando para a fonte, ainda conforme Malvino e Bates (2016). 3Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas A camada de dióxido de silício que isola o terminal da porta do canal do dreno-fonte e do substrato é fina o suficiente para ampliar o controle do componente; por conse- quência, poderá ser facilmente danificada. Devido a essa sensibilidade, deve-se tomar cuidado com as especificações determinadas pelo fabricante sobre limites de tensão máxima na porta. Além disso, cargas eletrostáticas advindas apenas do contato com o componente e transitórios de circuitos que ainda se encontrem energizados, quando da inserção do componente, podem ser suficientes para romper essa camada e inutilizar o MOSFET. É comum que este seja fornecido com alguma proteção na embalagem, como folhas metálicas, anéis metálicos ou espumas condutoras, conforme lecionam Malvino e Bates (2016). MOSFET-D O MOSFET-D, como pode ser visto na Figura 1, possui um canal entre os terminais do dreno e da fonte existente, sem qualquer alimentação no terminal da porta. Nesse caso, o transistor estará em condução, e o aumento da tensão na porta fará com que o canal seja ampliado, facilitando ainda mais a condu- tividade, ou, de forma inversa, reduzindo a resistência interna do MOSFET. Sendo VGS > 0 (tensão porta-dreno), os elétrons livres presentes no subs- trato serão atraídos para próximo do terminal da porta pelas cargas positivas acumuladas na superfície do lado oposto do isolante — novamente, um com- portamento similar ao de um capacitor. Essa polarização, obviamente, vai gerar uma corrente do substrato até o isolante e da porta até o isolante, de forma que, apesar de não existir qualquer corrente que ultrapasse o material isolante, se observarmos o que ocorre antes e depois deste, será possível perceber uma corrente que flui da porta para o dreno. A movimentação de elétrons livres em direção à porta será acompanhada da movimentação de lacunas em direção ao substrato, resultando em um au- mento do canal de condução entre os terminais do dreno e da fonte, conforme apontam Malvino e Bates (2016). O aumento do canal, entretanto, possui um limite, a partir do qual não fará qualquer diferença o acréscimo de tensão no terminal da porta, exceto, é claro, se essa tensão for elevada o suficiente para danificar o componente. No sentido contrário, alimentando o terminal da porta com tensão VGS > 0, haverá um afastamento dos elétrons livres, ampliando a região de camada P e reduzindo o canal de condução que havia entre os terminais dreno-fonte. Caso Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas4 a tensão da porta seja negativa o suficiente, o transistor vai bloquear a passagem de corrente; estará, então, em corte, de acordo com Malvino e Bates (2016). Com o diferencial de ser naturalmente um condutor, mas operar tanto com tensões positivas quanto negativas, ao contrário do JFET, que apenas opera com uma das polaridades, o uso do MOSFET-D terá grande serventia em amplifi- cadores. Lembre-se de que os transistores, tanto BJT quanto JFET, necessitam de um circuito de polarização para centralizar seu ponto de trabalho antes de utilizar sinais de entrada que possuam qualquer polaridade; do contrário, apenas uma polaridade seria amplificada. Nesse caso, o MOSFET-D controla a camada de depleção do substrato, aumentando até estrangular o canal de condução, no caso de VGS > 0, ou diminuindo de modo a ampliar o canal de condução, se VGS > 0. Essa variação de corrente produzirá variações de tensão nos resistores associados aos terminais de dreno e fonte e, consequentemente, haverá variações na tensão que restará para a carga. MOSFET-E A principal diferença entre o MOSFET-E e o MOSFET-D é que o primeiro está em corte quando a tensão na porta é nula, enquanto o segundo, como visto anteriormente, encontra-se normalmente em condução. Isso ocorre porque a camada do substrato se estende do terminal conectado a ela até o isolante, atravessando todo o material que antes formava o canal de condução, conforme apontam Malvino e Bates (2016). A diferençapode ser facilmente percebida na Figura 1. Nesse caso, o funcionamento não será afetado por uma tensão negativa na porta (VGS 0), o comportamento será o mesmo do MOSFET-D e, obviamente, também do JFET. Sendo VGS > 0, as cargas negativas serão atraídas para o terminal da porta, enquanto as cargas positivas serão afastadas, dando início a um canal de condução entre o dreno e a fonte. Quanto maior for essa tensão, maior será o tamanho do canal e, claro, menor a resistência à passagem de corrente, até que se atinja o limite máximo de tensão na porta, em que qualquer acréscimo será incapaz de ampliar ainda mais o canal de condução, segundo Malvino e Bates (2016). A essa camada de condução dá-se também o nome de camada de inversão. E a tensão mínima necessária para que apareça uma fina camada de inversão é chamada de tensão de limiar (do inglês, threshold). Para que a camada 5Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas de inversão seja atingida, possibilitando que uma corrente flua através dos terminais do dreno e da fonte, a tensão na porta VGS deverá ser maior do que a tensão de limiar VGS(th), ainda de acordo com Malvino e Bates (2016). Não é possível polarizar os MOSFET-E com as técnicas de autopolarização, po- larização por fonte de corrente e polarização direta, uma vez que essas técnicas dependem da camada de depleção para que funcionem, conforme apontam Malvino e Bates (2016). Curvas características MOSFET-D A curva do dreno, exibida na Figura 4, relaciona a tensão entre os terminais do dreno e da fonte e a corrente no dreno. Assim como em um transistor JFET, são várias as curvas para uma tensão entre a porta e a fonte específi ca, em que o ponto de trabalho é o cruzamento entre a reta formada pela corrente de saturação ID(sat) e a tensão de corte VGS(corte). Figura 4. Curva do dreno de um MOSFET-D. Fonte: Malvino e Bates (2016, p. 473). Note que a corrente IDSS não representa mais a corrente máxima no dreno, sendo a corrente em que a tensão no terminal da porta é nula. Já a Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas6 corrente máxima é determinada pela tensão fornecida ao dreno e o resistor conectado a este. (1) A corrente para uma determinada tensão na porta será determinada pela mesma relação quadrática expressa para JFETs (no caso deles, somente quando VGS 0, opera em modo de crescimento. Pode-se dizer, então, que o transistor MOSFET-D funciona tanto como um JFET para tensão de porta negativa quanto como um MOSFET-E para tensão positiva. Figura 5. Curva de transcondutância de um MOSFET-D. Fonte: Malvino e Bates (2016, p. 473). Percebe-se ainda que, na Figura 5, existe uma região em que a corrente do dreno não é constante, sendo esta a região ôhmica, na qual é possível controlar a resistência oferecida pelo canal do transistor. Há, portanto, assim como no JFET, três regiões de operação: ôhmica, fonte de corrente e corte, conforme apontam Malvino e Bates (2016). 7Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas MOSFET-E Para o MOSFET-E, há também uma série de curvas com valores de tensão para a porta, relacionando a tensão e a corrente do dreno. Na Figura 6 é possível perceber que, ao contrário do que ocorria com o MOSFET-D, a tensão mínima para que exista uma corrente no dreno é acima de zero e, principalmente, acima da tensão de limiar VGS(th). Figura 6. Curva do dreno de um MOSFET-E. Fonte: Malvino e Bates (2016, p. 477). Similar ao comportamento de um JFET, há uma tensão mínima entre dreno e fonte para que se atinja a região considerada ativa, ou região em que a corrente dependerá única e exclusivamente da tensão na porta. Abaixo dessa tensão de dreno, o transistor se encontrará na região ôhmica e servirá como uma resistência variável, conforme lecionam Malvino e Bates (2016). Até aqui, boa parte do uso de transistores se dava em aplicações de ampli- ficadores. Entretanto, as características do MOSFET-E fazem dele um ótimo componente para se utilizar em chaves digitais e, portanto, será costumeira- mente utilizado na região de corte e na região ôhmica. O gráfico de transcondutância da Figura 7 demonstra claramente a exis- tência de uma tensão mínima (tensão de limiar VGS(th)) a ser fornecida para que a camada de inversão se estabeleça e possibilite uma corrente entre dreno e fonte. Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas8 Figura 7. Curva de transcondutância de um MOSFET-E. Fonte: Malvino e Bates (2016, p. 477). Chaves digitais Como dito anteriormente sobre as curvas do transistor MOSFET-E, suas carac- terísticas facilitam a utilização como chave digital. Nessa situação, a região ativa deve ser evitada, e a entrada será, portanto, entre tensão baixa e alta. Entende-se por tensão baixa um valor igual ou muito próximo de 0 V, sufi ciente para impedir que o canal conduza. Por tensão alta, entende-se qualquer valor de tensão acima de VGS(lig), que dependerá do componente, conforme lecionam Malvino e Bates (2016). A tensão de limiar, tensão mínima para criar uma camada de inversão e, portanto, fechar o “contato” quando o transistor é operado como uma chave, é importante, pois garante uma maior estabilidade a eventuais ruídos que pode- riam fazer o transistor conduzir indevidamente. Já que a intenção é controlar o transistor entre as regiões de corte e de saturação, não há necessidade de controle rígido do sinal; deve-se garantir apenas que este se mantenha acima e abaixo da saturação e do corte, respectivamente. Vale lembrar que qualquer transistor pode operar como uma chave digital; entretanto, existem características únicas ao MOSFET que fazem dele nor- malmente a melhor opção para essa situação. Primeiro porque a inexistência 9Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas de portadores minoritários, assim como já ocorria em transistores JFET, permite que o reestabelecimento da região de corte, ao remover a tensão da porta, seja mais rápido que para transistores BJT. Isso vai garantir seu bom funcionamento em frequências elevadas, permitindo velocidades de operação em máquinas digitais e computadores. Além disso, a corrente do terminal da porta é praticamente nula. Se comparado ao JFET, o MOSFET-E encontra-se naturalmente em corte, e sua tensão de limiar garante uma pequena margem a ser superada antes de entrar em condução, que, como já dito anteriormente, evitará que ruídos interfiram no processo. Outras técnicas são possíveis com MOSFET-E que não o são com outros transistores — é o caso do uso de cargas ativas. Sabe-se que o MOSFET pode ser consideravelmente menos volumoso do que outros transistores; entretanto, a necessidade de cargas passivas amplia o volume do componente. Porém, no caso dos transistores MOSFET-E, é possível utilizar outro transistor como uma carga, alimentando e fechando um curto entre dreno e porta. Essa ligação é representada na Figura 8. Figura 8. MOSFET-E Q1 sendo usado como carga para o MOSFET Q2. Fonte: Malvino e Bates (2016, p. 486). Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas10 Cabe analisar ainda o comportamento esperado do circuito representado na Figura 8. Se a porta possui a mesma tensão do dreno, o transistor Q1 estará em condução e, quanto maior a tensão no dreno, maior será a tensão na porta, mantendo a impedância no canal fixa. A resistência do dreno responde à expressão que segue: (3) Fornecer tensão à porta do transistor Q2 vai drenar a corrente para o terra, enquanto eliminar a tensão vin colocaráQ2 em corte, mantendo nível alto em vout. Há uma operação de inversão nesse caso — a entrada vin em nível baixo resultará em saída vout nível alto, e vice-versa. Considere um circuito igual ao da Figura 8 em que ambos os transistores sejam do mesmo modelo e com as especificações que seguem: RD(lig) = 500 Ω, +VDD = 20 V e ID = 1 mA, quando VGS = 20 V. A tensão de saída quando vin for nível lógico baixo será igual a +VCC, já que o transistor Q2 estará em corte. Já quando vin for nível lógico alto, o transistor Q2 estará em condução, e um divisor de tensão será formado entre Q1 e Q2: A tensão de saída será igual à queda de tensão em Q2: 11Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas MALVINO, A.; BATES, D. Eletrônica. 8. ed. Porto Alegre: AMGH, 2016. v. 1. Leituras recomendadas BOYLESTAD, R. L.; NASHELSKY, L. Dispositivos eletrônicos e teoria de circuitos. 11. ed. São Paulo: Pearson, 2013. MALVINO, A.; BATES, D. Eletrônica: diodos, transistores e amplificadores. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2011. NAHVI, M.; EDMINISTER, J. A. Circuitos elétricos. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2014. SCHULER, C. Eletrônica I. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. SEDRA, A. S.; SMITH, K. C. Microeletrônica. 5. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007. Referência Transistor de efeito de campo MOS (MOSFET): características físicas12 Conteúdo: