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Adriana Vinhas Bueno
INTRODUÇÃO	2
A FORMAÇÃO DOS CONTRATOS	10
A PRINCIPIOLOGIA CONTRATUAL	14
CLASSIFICAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DOS CONTRATOS	19
INTERPRETAÇÃO DO CONTRATO	27
CESSÃO DO CONTRATO	28
RELATIVIDADE DOS CONTRATOS	29
EFEITOS DOS CONTRATOS	31
EXTINÇÃO DOS CONTRATOS	34
COMPRA E VENDA	35
DOAÇÃO	45
COMODATO E MÚTUO	53
LOCAÇÃO	54
INTRODUÇÃO
1- Novos paradigmas da teoria dos contratos
Rosenvald e Cristiano Chaves elucidam que o humor contido na expressão de Érico Veríssimo (o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença) ilustra muito bem as influências recíprocas observadas entre a Constituição e o direito privado. A bem da verdade, a dicotomia entre público e privado (expressão de Bobbio), que até muito recentemente era latente, se inseria em um contexto em que a Constituição era a ordem jurídica fundamental do Estado, enquanto o CC traduzia a ordem jurídica fundamental da sociedade.
Atualmente, esta situação encontra-se substancialmente superada, chegando Paulo Bonavides a concluir que “ontem os Códigos, hoje as Constituições“. O pós 2a Guerra Mundial é o marco histórico renovatório da ciência do direito, período no qual se acabou por descortinar um novo direito privado. De fato, a constitucionalização do direito civil rompe com a dicotomia público/privado, por inexistir ilhas inóspitas à Constituição, sendo que a supremacia e a unidade desta exigem que as normas de direito privado sejam submetidas a um permanente processo de filtragem.
Em um Estado Democrático de Direito não há espaço para uma visão bipartida do ser humano: seja em suas relações com o Estado (dimensão vertical dos DF´s), seja em suas relações a sociedade (dimensão horizontal dos DF´s). Descabe, assim, uma DUPLA ÉTICA no seio da sociedade (Canotilho), que existe quando, p. ex., se considera violação da integridade física e moral a exigência de testes de gravidez de funcionárias públicas e se toleram esses mesmos testes no pedido de emprego de entidades privadas, em nome da autonomia contratual e empresarial.
A materialização dos contratos é, no entendimento de Tereza Negreiros, um novo modo de ver o contrato que, em lugar da abstração de formas universais, assume o PARTICULARISMO DIFERENCIADOR. Assim, p. ex., o contratante é considerado tendo-se em vista seus aspectos pessoais, imperscrutáveis sob a capa das categorias abstratas de credor e devedor, consubstanciando-se em uma DISCRIMINAÇÃO POSITIVA, a favor da tutela de qualquer pessoa que se considere vulnerável.
2- A liberdade de contratar
Historicamente, sempre existiram duas limitações de caráter geral à liberdade de contratar: a ordem pública e os bons costumes (limitações inspiradas em razão da utilidade social). Os contratos que têm causa contrária a leis de ordem pública e aos bons costumes são nulos, e firma-se, consequentemente, o princípio de que toda declaração de vontade produz o efeito desejado, se a sua causa for lícita.
No entanto, a história mostrou necessário o surgimento de outros tipos de limitações à liberdade de contratar, como forma de coibir os abusos frequentes. “Entre o fraco e o forte é a liberdade que escraviza e a lei que liberta” (Lacordaire).
Art. 421 CC: “A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato”. Surge, então, uma nova limitação à liberdade de contratar.
Fala-se na decadência do contrato em virtude de todas essas limitações, já que em muitos casos as cláusulas deixaram de ser livremente determinadas pelas partes.
Existem algumas situações em que há obrigação de contratar, como na prestação de serviços públicos (de primeira necessidade) e quanto aos que exercem atividade econômica em caráter de monopólio.
A liberdade de determinação do conteúdo do contrato é restringida com o surgimento dos contratos de adesão (ou condições gerais do contrato), do contrato normativo ou coletivo (típico das relações de trabalho), dos contratos associativos stricto sensu e dos contratos abertos, além da regulamentação autoritária que é imposta em muitos casos.
Firmaram-se, assim, novos meios técnicos usados pelo Direito Contemporâneo para coibir abusos decorrentes dos dogmas individualistas em sua pureza original: a conversão de leis supletivas em leis imperativas (que Orlando Gomes aponta como o novo princípio da regulamentação legal do conteúdo dos contratos), o controle da atividade de certas empresas (cuja atividade interessa à economia popular ou se exerce no setor da assistência vital) e a discussão corporativa (que afasta a regulamentação autoritária, restaurando o equilíbrio das forças dos contraentes – contrato coletivo de trabalho).
3- Aspectos históricos
No Direito Romano primitivo, os contratos e todos os atos jurídicos tinham caráter sacramental, e o seu descumprimento configurava pecado. Aquilo que foi pactuado deveria ser rigorosamente obedecido, ainda que não representasse a real vontade das partes. Na lei das XII Tábuas, a intenção das partes estava manifesta nas palavras corretamente pronunciadas.
No Direito Romano, convenção e pacto eram expressões equivalentes e significavam o acordo de duas ou mais pessoas a respeito de determinado objeto. Mas o simples acordo, convenção ou pacto não tinha o condão de formalizar o negócio jurídico, fazia-se necessário acatar certas formalidades para que se criasse uma obrigação. Estas solenidades davam força às convenções e, cada uma destas convenções, sob certas formalidades, acabava por construir uma forma de contractus. No Direito Romano prevalecia o contrato entre particulares.
Na época de Justiniano tivemos uma modificação: o elemento subjetivo, ou seja, a vontade dos contratantes, começa a sobrepujar o formalismo excessivo que acompanhavam a formalização dos contratos até então. Assim, passou-se conferir uma ação para qualquer convenção entre as partes. Embora a vontade ainda fosse considerada em segundo plano, pois a proteção dependia mais do interesse que da vontade, qualquer tipo de convenção poderia tornar-se obrigatória, desde que revestida de certas formalidades. Isto foi, inegavelmente, um grande avanço, pois abriu caminho para que o acordo de vontades ficasse acima do contrato, ou seja, para que a conventio sobrepujasse as formalidades.
Com a ocasião do domínio romano houve um retrocesso, pois passou a predominar o Direito Germânico que era menos evoluído que o Direito Romano, havendo necessidade, para a formalização de obrigações, da observância de um ritual. Tal procedimento conservou-se até a idade média. Houve então, uma evolução nas práticas contratuais na época medieval, passando a forma escrita a ter predominância na estipulação dos contratos.
Contrato no Código Francês a máxima que diz: “o contrato faz lei entre as partes” (pacta sun servanda), explicita bem a função do contrato no Código Francês, onde a liberdade e a propriedade estão ligadas indissoluvelmente. Sem propriedade não pode haver liberdade. Em verdade, o contrato representava uma garantia para os burgueses e para classes proprietárias de que seus bens não lhes seriam tolhidos, assim, os proprietários não poderiam mais ser privados de seus bens sem a sua manifestação de vontade. É a forma extremista do contratualismo, onde a vontade das partes é lei, independentemente de qualquer outra limitação que não seja aquela fundada no interesse público (fase da autonomia privada absoluta).
Contrato no Código Civil Alemão e a assimilação de seu conceito: o Código Alemão veio quase um século após o Francês, e embora se constitua em um estatuto capitalista, trouxe inovações. O contrato passou a ser subespécie de uma espécie maior que é o negócio jurídico. O contrato não mais tem o condão de, de per si, transferir a propriedade. É o meio de transferência, mas não a opera. Este sistema, com adaptações, foi acolhido pelo Código de 1916 e mantido pelo atual. Assim, podemos definir contrato como uma declaração de vontade destinada a produzir efeitos jurídicos. Embora o contrato seja a parte mais importante da vida negocial, há também negócios jurídicos que independem de duas vontades,a eficácia, autorizando a revisão/resolução. Aplicando-se Teoria da Base objetiva (CDC) ou Teoria da Imprevisão (CC).
Inf. 508, STJ: decretada a resolução do contrato de promessa de compra e venda, deve o juiz, ainda que não tenha sido expressamente provocado pela parte interessada, determinar a restituição, pelo promitente vendedor, das parcelas do preço pagas pelos promitentes compradores. Trata-se da concretização da eficácia restitutória da resolução, aplicável em benefício das duas partes do contrato, como consequência natural da desconstituição do vínculo contratual.
Inf. 508, STJ: a restituição dos valores pagos, diante da rescisão de contrato de promessa de compra e venda de imóvel, constitui consectário natural do próprio desfazimento do negócio.
A pretensão ao recebimento de valores pagos, que não foram restituídos diante de rescisão judicial, por sentença que não tenha decidido a respeito da restituição, submete-se ao prazo prescricional de 10 (dez) anos, previsto no artigo 205 do Código Civil, e não ao prazo de 3 (três) anos, constante do artigo 206, § 3o, incisos IV e V, do mesmo diploma.
4.3- Coisa
Qualquer coisa apreciável economicamente pode ser objeto de compra e venda.
O objeto da compra e venda pode ser bens móveis, imóveis, fungíveis, infungíveis, corpóreos, incorpóreos e até ser coisa incerta e coisa alternativa.
Também pode ser coisa litigiosa, hipótese em que não incidia a evicção. Art. 457, CC/02.
Admite-se também a chamada venda “a domino”, corresponde a venda de alo que não pertence ao vendedor. Art. 1.268, §1,CC/02. Aqui, a eficácia do negócio fica condicionada à aquisição superveniente da coisa.
Não se pode se vender direitos da personalidade, herança de uma pessoa viva (“Pacta corvina”, art. 426, CC/02).
5- Efeitos da compra e venda
5.1- Garantia dos vícios redibitórios pelo vendedor

5.2- Garantia contra a evicção pelo vendedor

5.3- Garantia em relação à perda ou deterioração da coisa adquirida ( Teoria dos riscos da coisa. Res perit domino).
5.4- Responsabilidade pelas despesas do contrato. Art. 490, CC/02 
Será do devedor a responsabilidade pelas despesas com a tradição; e do comprado, as responsabilidades pela despesa com o registro, salvo disposição contrária.
6- Situações especiais
Duas situações especiais de compra e venda - especiais, pois têm regra própria.
I. Venda por amostras, protótipo ou modelo. Art. 484, CC/02: 1) o vendedor se responsabiliza pela qualidade correspondente da coisa entregue; 2) havendo divergência entre a amostra e a coisa entregue prevalece a amostra.

II. Venda “ad corpus” ou “ad mensuram” – Venda”ad corpus” é a venda de uma unidade pelo todo, pelo seu todo representativo. Ex: Fazenda São Paulo (venda de uma coisa, representada pelo seu todo).
Venda “ad mensuram - É a venda por extensão. Interessa a extensão. Os vícios redibitórios anham aqui importância, pois pode dizer respeito a quantidade.
O art. 500 do CC/02 estipula que não haverá vício redibitório se a venda do imóvel o imóvel não exceder a 1/20 ou 5% da área convencionada.
Ver STJ, REsp. 436.853/ DF, é nula a cláusula contratual prevendo o não direito a indenização por falta de medida.
7- Cláusulas acessórias
A inclusão delas têm de ser expressa e escrita.
7.1- Retrovenda 
Art. 505, CC/02: é a cláusula permitindo ao vendedor, no prazo máximo de 3 anos, exercer o direito de comprar a coisa de volta, independente da vontade do comprador, pagando o preço tanto por tanto (valor do negócio acrescido das despesas e benfeitorias).
Curiosamente produz eficácia erga omnes.
7.2- Preferência ou Preempção convencional 
Art. 513, CC/02: é a cláusula pela qual o comprador assume a obrigação de, resolvendo vender a coisa, dentro de determinado prazo, ofertá-la primeiramente a quem lhe vendeu.
Aqui, o STJ não se admite a eficácia erga omnes.
7.3- Venda a contento (critério subjetivo puro) e venda sujeita a prova (critério objetivo) 
Arts. 509- 512, CC/02: é a cláusula que subordina os efeitos de uma compra e venda a um evento futuro e incerto: o gosto, a aprovação, do comprador em relação à coisa. É uma exceção á proibição de condição puramente potestativa.
DOAÇÃO
1- Noções gerais
Doação é constituída pelo elemento subjetivo animus donandi (liberalidade) + o elemento objetivo transferência patrimonial (tradição).
Durante muito tempo somente se vislumbrava na doação o elemento subjetivo, razão pela qual não era vista como um contrato. Este entendimento encontra-se superado.
2- Classificação
I. É contrato benéfico, devendo ser interpretado restritivamente (art. 114);
II. Unilateral;
III. Gratuito, não incidindo vícios redibitórios e evicção (exceção: doação remuneratória e doação contemplativa de casamento);
IV. Solene, sendo exigida a forma escrita, pública ou particular. Exceção: a doação verbal ou manual será válida em se tratando de bens móveis de pequeno valor, seguida da tradição. Para alguns autores (Pablo Stolze) menor valor seria o que não excede 1 SM. O STJ, entretanto, já entendeu que a concepção de pequeno valor dependerá do patrimônio do doador.
Doação remuneratória: é aquela que se faz como contraprestação a uma obrigação sem exigibilidade jurídica. Ex.: cuidador de carros.
3- Promessa de doação
Durante muitos anos houve um questionamento quanto à validade e eficácia da promessa de doação, por entender-se estar ausente um dos seus elementos constitutivos, qual seja, a liberalidade (Pablo Stolze, Silvio Rodrigues, etc).
Entretanto, prevaleceu na doutrina o entendimento contrário (Carlos Roberto Gonçalves, Washington de B. Monteiro, Flávio Tartuce, Cristiano Chaves). Assim, é perfeitamente possível a promessa de doação, sendo presente o animus donandi no momento em que se celebra o pré-contrato e a promessa de doação é realizada. A jurisprudência também se posiciona neste sentido mesmo antes do advento do CC/02, que acabou por simplificar e regulamentar essa possibilidade (art. 462), a partir da concepção da boa-fé objetiva.
4- Elementos constitutivos da doação
4.1- Sujeito
Doador: deve ter plena capacidade e legitimação, quando for exigível. Ex.: autorização do cônjuge, salvo no regime de separação absoluta.
Donatário: em face do caráter benéfico e unilateral do contrato, ordinariamente não se exige a capacidade do donatário – é possível doação ao nascituro, ao incapaz e também ao embrião laboratorial (posição majoritária, por analogia à possibilidade de testamento).
Somente será válida a doação feita ao nascituro e absolutamente incapaz se não for onerosa.
Inf. 523, STJ: João e Maria eram casados sob o regime da comunhão parcial e decidiram se divorciar.
Surgiu um impasse quanto à partilha de um apartamento.
O referido apartamento foi pago, durante o casamento, com dinheiro doado pelo pai de Maria. João alegava que o pai de Maria não afirmou expressamente que a doação era exclusivamente para ela e que, diante desse silêncio, deveria ser interpretada como sendo para o casal.
A interpretação conferida por João está correta? Em caso de silêncio na doação, deve-se interpretar que essa liberalidade aconteceu em favor do casal?
NÃO. As conclusões são as seguintes:
1. Se o bem for doado para um dos cônjuges, em um casamento regido pela comunhão parcial 
dos bens, a regra é que esse bem pertence apenas ao cônjuge que recebeu a doação. Em 
outras palavras, esse bem doado não se comunica, não passa a integrar os bens do casal. 
2. Em um regime de comunhão parcial, o bem doado somente se comunica se, no ato de 
doação, ficar expressa a afirmação de que a doção é para o casal. 
3. Logo, em caso de silêncio no ato de doação, deve-se interpretar que esse ato de liberalidade 
ocorreu em favor apenas do donatário (um dos cônjuges). 
4.2- Objeto
O objeto da doação somente podem ser bens de valor econômico.
Admite-se a doação de coisa futura ou a non domino (promessa de doação) e doação em forma de subvenção periódica (alimentos voluntários).
Art. 545. A doação em forma de subvenção periódica ao beneficiado extingue-se morrendo o doador, salvo se este outra coisa dispuser, masnão poderá ultrapassar a vida do donatário.
Doação com cláusula de reversão: o doador pode dispor que, se o donatário pré-morrer, o bem doado volta ao seu patrimônio. É nula, entretanto, a cláusula de reversão em favor de terceiro (proíbe-se o fideicomisso em contrato de doação). 
O doador pode inserir como cláusulas restritivas ou limitadoras no contrato de doação: inalienabilidade, incomunicabilidade e impenhorabilidade. De acordo com o art. 1.911, a cláusula de inalienabilidade faz presumir as demais, mas as demais não a presumem. Não havendo previsão, a cláusula restritiva será de, no máximo, a vida do donatário, que transmitirá a doação aos seus herdeiros sem as referidas limitações.
Lei 9.434/97 (transplante de órgãos): tecnicamente não se pode falar em doação de órgãos (mas sim dação de órgãos), pois só se pode doar bens de valor econômico.
Por fim, nenhum contrato pode ter por objeto herança de pessoa viva (pacta corvina ou pacto sucessório).
4.3- Mútuo consentimento ou aceitação do donatário
Para alguns autores não se exige o consentimento do donatário, por ser o contrato de doação unilateral. Esta não foi a opção do CC/02, que exige a aceitação.
A aceitação pode ser:
I. Expressa: por declaração de vontade direta ou indireta (procurador).
II. Tácita: é comportamental, consistindo na prática de um ato que implique a aceitação.
III. Presumida: ocorre quando o doador estabelece prazo para a aceitação da doação e o donatário não se manifesta dentro deste prazo.
IV. Ficta: é a doação feita ao absolutamente incapaz, quando se dispensa a aceitação (o relativamente incapaz precisa aceitar), mas desde que se trate de doação pura e simples.
OBS1: se a doação é para o nascituro a aceitação caberá ao seu representante.
OBS2: o CC dispensa a aceitação quando se tratar de doação contemplativa de casamento, pois neste caso a própria celebração do casamento consubstancia a aceitação.
4.4- Forma
Art. 541. A doação far-se-á por escritura pública ou instrumento particular.
Parágrafo único. A doação verbal será válida, se, versando sobre bens móveis e de pequeno valor, se lhe seguir incontinenti a tradição.
5- Proibições ao contrato de doação
a) Nulidade da doação universal:
Art. 548. É nula a doação de todos os bens sem reserva de parte, ou renda suficiente para a subsistência do doador.
O fundamento da nulidade não é o patrimônio doado, mas sim a dignidade da pessoa humana do doador (teoria do patrimônio mínimo ou do mínimo existencial). 
b) Nulidade da doação inoficiosa: é nula a doação naquilo que exceder o limite da legítima. Assim, quem tem herdeiro necessário só pode dispor de 50% de seu patrimônio líquido.
Art. 549. Nula é também a doação quanto à parte que exceder à de que o doador, no momento da liberalidade, poderia dispor em testamento.
Ação de redução de doação inoficiosa: é imprescritível, e visa reconhecer o excesso doado. O STJ já entendeu que esta ação é cabível ainda quando o doador permanece vivo.
OBS: para alguns doutrinadores, p. ex. Pablo Stolze e Cristiano Chaves, só deveria haver proibição de doação inoficiosa quando o titular tiver herdeiros incapazes, pois esta situação configura na verdade interdição parcial.
c) Anulabilidade da doação à concubina:
Art. 550. A doação do cônjuge adúltero ao seu cúmplice pode ser anulada pelo outro cônjuge, ou por seus herdeiros necessários, até dois anos depois de dissolvida a sociedade conjugal.
Como o fundamento é moral (e não jurídico), a consequência é a anulabilidade – o interesse é privado. O MP não tem legitimidade para esta ação.
OBS: o STJ vem entendendo que, se a doação ocorreu após a separação de fato, convalida-se a situação (não é mais concubina, mas sim companheira).
Em conformidade com a teoria da actio nata, os prazos extintivos só devem começar a fluir da data do conhecimento da situação. Ou seja, o prazo decadencial de 2 anos só começa a fluir após o conhecimento do cônjuge (tese já adotada pelo STJ).
6- Situações especiais de doação
6.1- Doação com cláusulas especiais (condição, termo e encargo ou modal)
Condição (evento futuro e incerto): enquanto a condição não for cumprida não há aquisição nem exercício de direitos.
Termo (evento futuro e certo ou inevitável): enquanto não for sobrevier o termo, há aquisição mas não há exercício de direitos.
Encargo ou modo: mesmo enquanto não for cumprido o encargo, há aquisição e exercício de direitos. Neste caso, o CC possibilita a execução do encargo enquanto este não for cumprido, podendo ser promovida pelo doador, por seus herdeiros, pelo beneficiário do encargo ou pelo MP quando o encargo for em favor da coletividade. Se a execução não for frutífera, caberá ainda ação de revogação da doação, no prazo prescricional de 10 anos.
OBS: quando o encargo estiver expresso sob forma de condição, seguirá as regras desta.
6.2- Doação remuneratória
É a doação feita em contraprestação de serviços não exigíveis.
6.3- Doação meritória ou contemplativa
Art. 540. A doação feita em contemplação do merecimento do donatário não perde o caráter de liberalidade, como não o perde a doação remuneratória, ou a gravada, no excedente ao valor dos serviços remunerados ou ao encargo imposto.
Apesar de não perder o caráter de liberalidade, é possível a alegação de erro por falso motivo (art. 140) para anular a doação meritória, quando mostrar-se inexistente o mérito.
6.4- Doação conjuntiva ou comum a mais de uma pessoa
Art. 551. Salvo declaração em contrário, a doação em comum a mais de uma pessoa entende-se distribuída entre elas por igual.
Direito de acrescer na doação conjuntiva: se os donatários, em tal caso, forem marido e mulher (ou companheiro e companheira), subsistirá na totalidade a doação para o cônjuge sobrevivo.
Entretanto, a doutrina entende que este direito de acrescer é de duvidosa constitucionalidade, por ter a possibilidade de violar direito hereditário.
6.5- Doação para entidade futura
Art. 554. A doação a entidade futura caducará se, em dois anos, esta não estiver constituída regularmente. 
Ex.: doação para constituição de fundação.
6.6- Doação contemplativa de casamento futuro ou propter nupcias
Art. 546. A doação feita em contemplação de casamento futuro com certa e determinada pessoa, quer pelos nubentes entre si, quer por terceiro a um deles, a ambos, ou aos filhos que, de futuro, houverem um do outro, não pode ser impugnada por falta de aceitação, e só ficará sem efeito se o casamento não se realizar.
6.7- Doação de ascendente para descendente
Art. 544. A doação de ascendentes a descendentes, ou de um cônjuge a outro, importa adiantamento do que lhes cabe por herança.
O bem doado nestes termos tem que ser colacionado, sob pena de caracterização de sonegados, salvo se o doador expressamente indicar que o bem está saindo de sua quota disponível (STJ).
7- Revogação da doação
Art. 555. A doação pode ser revogada por ingratidão do donatário, ou por inexecução do encargo.
7.1- Revogação por descumprimento de encargo
Art. 562. A doação onerosa pode ser revogada por inexecução do encargo, se o donatário incorrer em mora. Não havendo prazo para o cumprimento, o doador poderá notificar judicialmente o donatário, assinando-lhe prazo razoável para que cumpra a obrigação assumida.
OBS1: a revogação por descumprimento do encargo exige a constituição do donatário em mora, que pode ser ex re (automática – se havia prazo para o cumprimento do encargo) ou ex persona (depende de prévia de notificação – se não havia prazo).
OBS2: a revogação da ingratidão não se condiciona à prévia execução do encargo.
OBS3: para muitos autores, o prazo para requerer a revogação da doação no caso de descumprimento de encargo seria de 1 ano (mesmo prazo no caso de ingratidão do donatário). O STJ, entretanto, estabeleceu que a natureza daquela ação é condenatória (e não desconstitutiva), portanto o prazo seria prescricional de 10 anos, e no decadencial de 1 ano.onal de 10 anos, e nnatureza daquela açzo no caso de ingratidao acto sucessorio)ão decadencial de 1 ano.o decadencial de 1 ano.onal de 10 anos, e nnaturezadaquela açzo no caso de ingratidao acto sucessorio)
7.2- Revogação por ingratidão do donatário
Art. 556. Não se pode renunciar antecipadamente o direito de revogar a liberalidade por ingratidão do donatário.
Art. 557. Podem ser revogadas por ingratidão as doações:
I - se o donatário atentou contra a vida do doador ou cometeu crime de homicídio doloso contra ele;
II - se cometeu contra ele ofensa física;
III - se o injuriou gravemente ou o caluniou;
IV - se, podendo ministrá-los, recusou ao doador os alimentos de que este necessitava.
OBS: o rol não é taxativo, podendo abranger outras situações que apresentem a mesma finalidade da prevista em lei. Ex.: auxílio, instigação e induzimento ao suicídio.
Art. 558. Pode ocorrer também a revogação quando o ofendido, nos casos do artigo anterior, for o cônjuge, ascendente, descendente, ainda que adotivo, ou irmão do doador.
Art. 559. A revogação por qualquer desses motivos deverá ser pleiteada dentro de um ano, a contar de quando chegue ao conhecimento do doador o fato que a autorizar, e de ter sido o donatário o seu autor.
Art. 560. O direito de revogar a doação não se transmite aos herdeiros do doador, nem prejudica os do donatário. Mas aqueles podem prosseguir na ação iniciada pelo doador, continuando-a contra os herdeiros do donatário, se este falecer depois de ajuizada a lide.
Art. 561. No caso de homicídio doloso do doador, a ação caberá aos seus herdeiros, exceto se aquele houver perdoado.
Art. 563. A revogação por ingratidão não prejudica os direitos adquiridos por terceiros, nem obriga o donatário a restituir os frutos percebidos antes da citação válida; mas sujeita-o a pagar os posteriores, e, quando não possa restituir em espécie as coisas doadas, a indenizá-la pelo meio termo do seu valor.
Art. 564. Não se revogam por ingratidão:
I - as doações puramente remuneratórias;
II - as oneradas com encargo já cumprido;
III - as que se fizerem em cumprimento de obrigação natural;
IV - as feitas para determinado casamento.
COMODATO E MÚTUO
1-
Inf. STJ: se o comodatário negar-se a restituir o bem emprestado, ele ficará obrigado ao pagamento de um “aluguel-pena”, arbitrado UNILATERALMENTE pelo comodante.
O valor arbitrado pelo comodante não precisa ser igual à média do mercado locativo. Segundo o STJ, o valor do aluguel-pena pode ser até o dobro do valor do mercado.
Inf. 524, STJ: a sentença de interdição não tem como efeito automático a extinção do mandato outorgado pelo interditando ao advogado para sua defesa na demanda.
OBS: de fato, o art. 682, II, do CC dispõe que a interdição do mandante acarreta automaticamente a extinção do mandato, inclusive o judicial. Contudo, ainda que a norma se aplique indistintamente a todos os mandatos, faz-se necessária uma interpretação lógico-sistemática do ordenamento jurídico pátrio, permitindo afastar a sua incidência no caso específico do mandato outorgado pelo interditando para a sua defesa judicial na própria ação de interdição. Isso porque, além de o art. 1.182, § 2o, do CPC assegurar o direito do interditando de constituir advogado para sua defesa na ação de interdição, o art. 1.184 do mesmo diploma legal deve ser interpretado de modo a considerar que a sentença de interdição produz efeitos desde logo quanto aos atos da vida civil, mas não atinge, sob pena de afronta ao direito de defesa do interditando, os mandatos referentes ao próprio processo.
LOCAÇÃO
1-
“Conceito: O contrato de locação pode ser definido como o negócio jurídico pelo qual uma das partes transfere o exercício do uso e gozo do bem infungível mediante certa retribuição.
Elementos:
a) essenciais: consentimento, coisa e preço;
b) não-essenciais: prazo e forma.
No regime de locação de imóveis urbanos, regulado pela Lei 8.245/91 (art. 3º), exige-se a vênia conjugal para o contrato de locação celebrado por prazo igual ou superior a 10 anos.
É contrato consensual, em que a tradição da coisa significa execução do negócio.
Não é necessário que o locador tenha a propriedade do bem, pois, basta ser possuidor jurídico, usufrutuário ou simples administrador.
Se a coisa cujo uso se concede é fungível, o contrato degenera em mútuo.
É possível a locação de bens incorpóreos (ex.: patente de invenção, fundo de comércio, etc).
Não se exige que a renda ou aluguel seja necessariamente em dinheiro, não sendo a pecuniaridade essencial ao contrato de locação de coisa, excetuadas as locações prediais.
A jurisprudência do STJ entende que o contrato de locação constitui título executivo extrajudicial, mesmo que não subscrito por duas testemunhas.
No regime do CC, o contrato de locação tem caráter impessoal, não sendo personalíssimo nem para o locador nem para o locatário. Admite, pois, em princípio, cessão, sublocação e sucessão em virtude de morte de qualquer dos contratantes. As partes podem, porém, convencionar diversamente.
Aplicam-se ao contrato de locação as normas relativas aos vícios redibitórios, sendo possível ao locatário rejeitar a coisa defeituosa ou exigir o abatimento do aluguel.
A maioria da doutrina entende que o locatário não poderá reter o aluguel ou descontar o que considera ter direito a receber como indenização.
Art. 567: a resolução deverá ser decretada pelo juiz, não se operando de pleno direito, ainda que o locatário tenha abandonado a coisa por motivo relevante.
Se a turbação ou o esbulho forem praticados pelo próprio locador, o locatário poderá defender-se, também, através do desforço imediato e das ações possessórias.
Saliente-se, contudo, que em casos como a requisição e a desapropriação do bem locado pela Administração Pública, não há que se falar em perturbação da posse direta do locatário e violação do direito ao uso pacífico da coisa, mas sim em motivos de força maior, decorrentes do factum principis que trazem cunho de nítida liceidade, por se orientarem no rumo do bem comum, ainda que na sua esteira deixem a marca da lesão a interesses privados.
O locador responde ao locatário pela evicção.
A lei exige, expressamente, que o vício seja oculto para ensejar a responsabilidade do locador. Todavia, se o vício for aparente, considera-se que o locatário quis o bem viciado, acertando o aluguel justo em virtude do defeito. Contudo, parece ser mais razoável não exonerar o locador da garantia dos vícios aparentes, a não ser que prove que deles o locatário ficou tendo conhecimento, porquanto ele locador é quem, conhecendo melhor a existência de tais vícios, ou defeitos, deveria para eles chamar a atenção do locatário.
O aluguel é obrigação quesível ou querable. Logo, caberá ao locador procurar o locatário para realizar a cobrança. As partes podem, entretanto, convencionar de forma diversa, transformando-a em portável ou portable.
O pagamento de aluguéis não pode ser retido a pretexto algum, sob pena de incidir o devedor em mora; não pode este, destarte, subtrair-se ao cumprimento da referida obrigação legal, alegando que a coisa locada se acha em mau estado, que o locador não fez as reformas prometidas ou que ela não serve aos seus objetivos.
Pelas deteriorações havidas por caso fortuito ou força maior não responderá o locatário, bem como por aquelas naturais do uso regular.
Art. 570: para ensejar a indenização, é indiferente que o dano provenha de ato seu ou de seus prepostos ou de sublocatários.
Art. 571 (denúncia pelo locatário): se nada dispuser o contrato a respeito da cláusula penal, e se não houver consenso entre as partes, a solução será o arbitramento judicial da multa.
Em caso de locação de imóvel urbano, não é admitida a denúncia antecipada do contrato pelo locador, que deve respeitar o termo final estipulado no contrato. Todavia, ao locatário é permitido despedir-se antecipadamente do negócio jurídico pactuado, com o pagamento de multa cominada, seja contratualmente, seja judicialmente (L 8245/91, art. 4º).
A mora constitui-se de pleno direito com o advento do termo contratual; a notificação serve exclusivamente para afastar a presunção relativa de que, no silêncio do locador, presume-se prorrogado o contrato.
Direito deretenção: como meio de autotutela que é, somente se admite nos casos expressamente previstos em lei.
Durante o exercício do direito de retenção pelo locatário, este não será obrigado a arcar com a despesa de aluguel. Ademais, como corolário do principio da gravitação jurídica (v. art. 92, CC), a retenção do bem principal (coisa locada) presume a de seus acessórios, no caso de seus frutos, dentre os quais se destaca o aluguel.
O exercício do direito de retenção, contudo, traz consigo a imposição de obrigações para o locatário, tais como a conservação do bem locado, a restituição do bem ao fim da retenção e a indenização dos danos eventualmente ocasionados ao bem por sua culpa.
Art. 573: a posse do locatário, que durante o contrato é justa e de boa-fé, depois da constituição em mora passa a ser precária, ensejando o direito ao locador de utilizar-se dos interditos possessórios, especialmente a reintegração de posse, para defender-se. Ressalte-se que nos casos de locação de imóvel urbano, a ação apropriada será a de despejo (L 8245/91, art. 5º).
Duas são as condições, então, para que ocorra a prorrogação do contrato por prazo determinado, uma vez terminado o termo ajustado: a continuação do locatário na posse do bem e a falta de oposição do locador.
Art. 575 (aluguel-pena): a estipulação de valor totalmente arbitrário acarreta abuso do direito por parte do locador (art.187). Dois fatores importarão para a fixação do valor do novo aluguel, sendo eles a contraprestação e a penalidade.
Art. 576: havendo continuação do contrato, o adquirente sub-roga-se em todos os direitos e obrigações assumidas pelo locador originário, ou seja, o alienante.
STF: salvo estipulação contratual averbada no registro imobiliário, não responde o adquirente pelas benfeitorias do locatário.
O contrato por tempo indeterminado, em caso de morte de qualquer das partes, poderá ser denunciado, aplicando-se o disposto nos arts. 574-575.
Só poderá o locatário exercer o direito de retenção estando quite com as obrigações que lhe competem e, entre elas, a do pagamento do aluguel e da conservação da coisa locada.
O direito de retenção será exercitado sem limitação temporal. Isso é, enquanto não indenizado o locatário, a retenção será legítima, não importando o decurso de tempo. Em sentido contrário, entende-se que o direito de retenção termina quando o valor das contraprestações acumuladas durante o prazo da retenção se equipara ao valor das obras realizadas.
STJ: não é nula, nos contratos de locação urbana, a cláusula que estabelece a renúncia ao direito de retenção ou indenização por benfeitorias.
Nas relações de consumo, é nula a cláusula que possibilite a renúncia do direito de indenizar por benfeitorias necessárias”. [Tepedino]
Inf. STJ: se houver transação e/ou moratória entre credor e devedor, sem a anuência do fiador, este não responde pelas obrigações resultantes do pacto adicional (o fiador ficará desonerado).
Inf. STJ: se o locatário do imóvel está descumprindo os deveres do condomínio e, com isso, causando danos a outros, a ação de indenização poderá ser proposta contra o locatário (causador direto do dano), contra o locador (proprietário e possuidor indireto da coisa) ou contra ambos conjuntamente.
Inf. STJ: mesmo não havendo expressa previsão contratual da manutenção da fiança, em caso de prorrogação por prazo indeterminado do contrato de locação de imóvel urbano, o pacto acessório também seria prorrogado automaticamente, seguindo a sorte do principal?
Contratos ANTERIORES à Lei 12.112/09: NÃO

Regra: o fiador respondia apenas até o fim do prazo do contrato por prazo determinado.

Exceção: responderia pela prorrogação se houvesse cláusula dizendo que a garantia se estenderia até a entrega do imóvel (“entrega das chaves”).
Em outras palavras, a regra era que a fiança não se prorrogava automaticamente com a prorrogação do contrato de locação, salvo disposição em sentido contrário.
Contratos POSTERIORES à Lei 12.112/09: SIM

Regra: mesmo sem cláusula expressa, o fiador responde em caso de prorrogação automática do contrato.

Exceção: o fiador poderá fazer constar uma cláusula no contrato dizendo que não responderá se houver prorrogação automática do contrato.
Em outras palavras, a regra é a de que A FIANÇA PRORROGA-SE AUTOMATICAMENTE com a prorrogação do contrato de locação, salvo disposção em sentido contrário.
Inf. STJ: os juros de mora decorrentes de inadimplemento em contrato de locação fluem a partir do vencimento de cada parcela em atraso, inclusive para o fiador.
Trata-se de obrigação cuja mora é ex re.
Inf. STJ: se a ação renovatória for julgada improcedente e, com isso, a locação comercial não for renovada, o juiz determinará a desocupação do imóvel alugado (despejo) no prazo de 30 dias. O termo inicial deste prazo é a data da intimação pessoal do locatário realizada por meio do mandado de despejo.
Inf. STJ: o locador, ainda que não seja o proprietário do imóvel alugado, é parte legítima para a propositura de ação de despejo fundada na prática de infração legal/contratual ou na falta de pagamento de aluguéis.
Inf. STJ: o comprador de imóvel locado não tem direito a proceder à denúncia do contrato de locação ainda vigente sob a alegação de que o contrato não teria sido objeto de averbação na matrícula do imóvel se, no momento da celebração da compra e venda, tivera inequívoco conhecimento da locação e concordara em respeitar seus termos.
Inf. 519, STJ: a administradora de imóveis é parte legítima para figurar no polo passivo de ação que objetive indenização por perdas e danos na hipótese em que a pretensão veiculada na petição inicial diga respeito, não à mera cobrança de alugueres atrasados, mas sim à sua responsabilização civil pela má administração do imóvel.
A imobiliária deve indenizar o proprietário pelas perdas e danos decorrentes da frustração de execução de alugueres e débitos relativos às cotas condominiais e tributos inadimplidos na hipótese em que a referida frustração tenha sido ocasionada pela aprovação deficitária dos cadastros do locatário e do seu respectivo fiador.
10como ocorre no testamento e na promessa de recompensa, que são negócios jurídicos unilaterais.
4- Conceito de contrato
Em sentido amplo, contrato é uma espécie de negócio jurídico que se distingue, na formação, por exigir a presença de pelo menos duas partes. Contrato é, portanto, negócio jurídico bilateral ou plurilateral.
Em sentido estrito, contrato é o acordo de duas ou mais vontades, na conformidade da ordem jurídica, destinado a estabelecer uma regulamentação de interesses entre as partes, com o escopo de adquirir, modificar ou extinguir relações jurídicas de natureza patrimonial.
Os doutrinadores lembram que, no entanto, a teoria do negócio jurídico representa um formidável instrumento ideológico servindo aos interesses da burguesia e do capitalismo, ao propor a igualização formal dos sujeitos jurídicos (credor e devedor), ocultando a concreta posição econômico-social das partes. Assim, a única qualidade do sujeito que até então importava era a sua capacidade para a prática do negócio jurídico, sendo que, em uma visão unidimensional do contrato, detacava-se uma concepção puramente procedimental de justiça, sendo ela automaticamente garantida com o exercício do ato de liberdade, de acordo com a máxima “quem diz contratual diz justo”.
Por outro lado, no direito contemporâneo, concorreram para a modificação da noção de contrato (“crise” dos contratos): a interferência do Estado na vida econômica, implicando na limitação legal da liberdade de contratar e no encolhimento da esfera de autonomia privada (menor liberdade para determinar o conteúdo da relação contratual); a criação de leis que dispensam proteção especial a determinadas categorias de pessoas para compensar juridicamente a debilidade da posição contratual de seus componentes e eliminar o desequilíbrio criado pela igualdade formal, além das novas técnicas impostas pela massificação do contrato, ocasionando a uniformização de suas condições ou cláusulas e a despersonalização dos contraentes.
A despeito da conceituação histórica do contrato como espécie de negócio jurídico, a partir do reconhecimento da eficácia horizontal dos DF’s (STF, RE 201.819/RJ), o D. Civil passou a conviver não apenas com valores patrimoniais, mas também com VALORES SOCIAIS. Sendo assim, o conceito histórico de contrato precisou ser revisitado, passando a ser entendido como ajuste de interesses particulares com outras finalidades que não somente a patrimonial, p. ex., promoção da dignidade humana, solidariedade social e igualdade substancial. Atualmente, entende-se que o ajuste de interesses particulares NÃO pode prejudicar os direitos e garantias fundamentais e sociais dos contratantes e a tutela jurídica de terceiros. O STF (HC 86.009/DF, questão de ordem) já admitiu a tese de que ocorreu MUTAÇÃO CONSTITUCIONAL NO TOCANTE AO CONCEITO DE CONTRATO (compreensão sobre seu verdadeiro significado).
Atenção! Não se deve confundir a constitucionalização do direito civil ou direito civil constitucional com a publicização do direito civil. Enquanto a primeira é a interpretação dos clássicos institutos do direito civil conforme os valores constitucionais, a segunda é o dirigismo contratual (intervenção concreta do Estado em uma relação privada com o propósito de assegurar a igualdade entre as partes).
5- Elementos de validade dos contratos
a) Capacidade das partes: todo negócio jurídico pressupõe capacidade genérica das partes contratantes para praticar os atos da vida civil, as quais não devem enquadrar-se nos arts. 3º e 4º do CC, sob pena do contrato se tornar nulo ou anulável.
Os entes despersonalizados podem celebrar contrato, por terem capacidade.
Para determinadas contratos, o CC pode exigir além da capacidade a legitimação (para atos de direito material).
Distingue-se a partir do Direito Processual a capacidade da legitimação, na medida em que, nesta última, a impossibilidade de agir é circunstancial, e o que conta é a posição da pessoa em relação a determinados bens que podem ser objeto de negócios jurídicos em geral, ou em relação a especiais categorias de negócios. A legitimação direta ou ordinária dispõe sobre a competência de toda pessoa capaz para regular seus próprios interesses, dispondo de seus direitos e contraindo obrigações. Já a legitimação indireta ocorre por meio da representação e da autorização, mediante os quais os interesses de uma pessoa são dispostos por outra por delegação legal ou do próprio interessado. A consequência da ilegitimidade da parte no contrato é a nulidade deste.
b) Idoneidade do objeto: o objeto do contrato deve ser lícito, possível e determinado ou determinável. O objeto pode ser inidôneo por motivos técnicos (quando as partes utilizam contrato que não comporta o objeto – ex: penhor de imóveis), por razões de política legislativa (quando há impossibilidade jurídica – ex: contrato que disponha sobre herança de pessoa viva), ou, ainda, o objeto é inidôneo quando o titular não tem o poder de dispor sobre ele (como ocorre quanto aos bens inalienáveis). Existe a idoneidade relativa, onde a impossibilidade relativa do objeto não é causa de nulidade do contrato. Como se trata de um pressuposto de validade, a inidoneidade absoluta do objeto acarretará a nulidade do contrato.
OBS: o CC permite contratos a non domino (dispondo de algo que ainda não pertence ao contratante. No entanto, a eficácia do contrato fica subordinada à aquisição superveniente da coisa.
c) Forma: vigora no direito contratual o princípio da forma livre, entendendo-se que os contratos formais ou solenes representam exceções. No entanto, é importante salientar que os contratos que devem ser estipulados pela forma prescrita na lei não valem se tal forma não for observada. A invalidade do contrato pela sua forma ocorre apenas quando esta for da substância do contrato, e não quando for exigida apenas para a sua prova.
Para os contratos nulos por vício de forma (e somente nesta hipótese de nulidade absoluta), o CC possibilita a conversão substancial, que não se confunde com a convalidação. A conversão substancial ou transinterpretação com recategorização é o aproveitamento, por ato judicial, da vontade válida manifestada em um contrato nulo por vício de forma.
d) Vontade livre e desembaraçada: a vontade não pode ser viciada.
Eventual vício acerca da vontade acarreta a anulabilidade por defeito do negócio jurídico.
O silêncio pode ser interpretado como manifestação de vontade, quando não houver forma prescrita em lei e quando os usos e circunstâncias autorizem, p. ex., a aceitação da doação pode se dar pelo silêncio, mas a realização de doação nunca.
6- Direito intertemporal
O art. 2.035 do CC e a CF estabelecem o regramento do direito intertemporal contratual, por ser o contrato negócio jurídico de trato sucessivo, em regra. A existência e a validade de uma relação jurídica ficam submetidas à norma vigente na data de sua celebração; já a eficácia submete-se à norma atualmente em vigor. Trata-se de retroatividade mínima, porque o CC atuará de forma imediata para os negócios jurídicos passados apenas no que concerne ao que está por vir, sem tocar nos efeitos já consumados.
O próprio CC excepciona, no entanto, a possibilidade de previsão pelas partes de determinada forma de execução, o que afastará a aplicação da lei nova. A exceção da exceção fica por conta do dispositivo que impede que uma convenção elaborada entre particulares na vigência do CC/16 possa produzir efeitos já na vigência do CC/02, se estes violarem preceitos de ordem pública. Nessa linha de raciocínio, não se admite que determinada convenção condominial que tenha expressamente referido a multa de 20% sobre o valor do débito (legislação anterior) continue a aplica-la, já que existe no CC/02 norma de ordem pública que estabelece o limite de 2% fixado anualmente.
Assim, mesmo que o CC/1916 não discipline a onerosidade excessiva, é possível aplicar a resolução contratual sugerida no art. 478 do CC/02, tratando-se de ineficácia superveniente do negócio jurídico posterior à 11/01/2003.
Enunciado 164 do Conselhoda Justiça Federal: tendo início a mora do devedor ainda na vigência do Código Civil de 1916, são devidos juros de mora de 6% ao ano, até 10 de janeiro de 2003; a partir de 11 de janeiro de 2003 (data de entrada em vigor do novo Código Civil), passa a incidir o art. 406 do Código Civil de 2002. (III Jornada de Direito Civil). Isso se dá porque o pagamento de juros se insere no tempo do cumprimento da obrigação, isto é, em seu plano de eficácia. Portanto, os contratantes se submeterão às normas em vigor quando do adimplemento/inadimplemento.
Inf. STJ: é permitida a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano em contratos celebrados após 31/03/2000 (edição de medida provisória sobre o tema), desde que expressamente pactuada, e a previsão no contrato bancário da taxa de juros anual superior a 12 vezes a mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual contratada.
A FORMAÇÃO DOS CONTRATOS
1- Contrato preliminar, pré-contrato ou promessa de contrato
É a obrigação de fazer consistente na celebração de outro contrato.
O contrato preliminar não é acessório do contrato prometido, não havendo entre eles relação de dependência (são dois contratos autônomos).
Súmula 239, STJ: mesmo que a promessa de compra e venda não tenha sido registrada, o promitente comprador tem direito à adjudicação compulsória (a promessa de compra e venda não precisa ter a mesma forma do contrato de compra e venda, tal qual dispõe o art. 462).
De fato, a distinção que reside entre o contrato preliminar registrado e o não registrado reside unicamente na oponibilidade perante terceiros.
A proteção jurídica do contrato preliminar se dará por meio de execução específica ou de perdas e danos, de acordo com o interesse do titular.
A execução específica pode ser afastada por cláusula expressa ou presumida de arrependimento, neste último caso quando o contrato preliminar anuncie arras penitenciais (é o “preço do arrependimento”), por clara incompatibilidade. Por outro lado, a teoria do venire contra factum proprium enfatiza a vedação ao arrependimento naquelas hipóteses em que a parte já iniciou a execução das prestações que lhe incumbiam no contrato preliminar.
Apenas nas obrigações personalíssimas será vedada ao magistrado a sub-rogação sobre a vontade do devedor inadimplente.
Art. 462. O contrato preliminar, exceto quanto à forma, deve conter todos os requisitos essenciais ao contrato a ser celebrado.
Art. 463. Concluído o contrato preliminar, com observância do disposto no artigo antecedente, e desde que dele não conste cláusula de arrependimento, qualquer das partes terá o direito de exigir a celebração do definitivo, assinando prazo à outra para que o efetive.
Parágrafo único. O contrato preliminar deverá ser levado ao registro competente.
Art. 464. Esgotado o prazo, poderá o juiz, a pedido do interessado, suprir a vontade da parte inadimplente, conferindo caráter definitivo ao contrato preliminar, salvo se a isto se opuser a natureza da obrigação.
Art. 465. Se o estipulante não der execução ao contrato preliminar, poderá a outra parte considerá-lo desfeito, e pedir perdas e danos.
Art. 466. Se a promessa de contrato for unilateral, o credor, sob pena de ficar a mesma sem efeito, deverá manifestar-se no prazo nela previsto, ou, inexistindo este, no que lhe for razoavelmente assinado pelo devedor.
OBS: a doutrina amplamente majoritária e a jurisprudência recente do STJ admitem a promessa de doação, pois entender em sentido contrário (como fazem Carlos R. Gonçalves e Pablo Stolze) seria violar a boa-fé objetiva.
Nas negociações preliminares (que, via de regra, não vinculam as partes) a responsabilidade, quando houver, será pré-contratual. Já nos contratos preliminares a responsabilidade será contratual.
OBS1: em detida análise sobre a promessa de compra e venda, Orlando Gomes questiona se realmente ela se insere entre os contratos preliminares ou, ao contrário, se é um instituto que, em sua essência, repele tal configuração. Atribuindo-se ao promissário comprador um direito real sobre o bem, surgiria um contrato preliminar impróprio, cuja denominação mais justa seria compromisso de compra e venda.
OBS2: não há possibilidade de inserção de cláusula de arrependimento, tanto nos contratos que envolvam lotes rurais (Dec-Lei 58/37) quanto nos que se referem a lotes urbanos (Lei n. 6766/79). A vedação é de ordem pública, sendo plenamente justificável pela própria dinâmica dos contratos que envolvam loteamentos (relação de consumo de vulnerabilidade manifesta). Em virtude dessa irretratabilidade (que alcança também as novas incorporações imobiliárias), é apropriada a adoção da expressão compromisso de compra e venda, por significar algo bem mais sólido do que as meras promessas (o compromisso é mesmo uma nova forma de venda). Em síntese, nestas hipóteses o compromisso é apto para o registro do bem, tornando dispensável a escritura de compra e venda.
2- Fases da formação dos contratos
a) Negociações preliminares, tratativas ou puntuações: constituem nos ajustes prévios ou estudos acerca do interesse em celebrar o contrato, p. ex. as minutas.
Não existem obrigações contratuais, porque ainda não há contrato, assim como não há responsabilidade civil contratual, podendo-se falar apenas em responsabilidade civil pré-contratual, com fundamento na violação dos deveres anexos da boa-fé objetiva. No entanto, mesmo estando configurada tal responsabilidade, ocorrerá no máximo a sua conversão em perdas em danos, em virtude da impossibilidade de se coagir alguém a celebrar um contrato.
Na responsabilidade pré-contratual não são indenizáveis os interesses positivos (as vantagens patrimoniais que a parte auferiria caso o negócio jurídico alcançasse o bom termo), mas apenas os interesses negativos (compreendendo apenas os prejuízos que o contratante sofreu em razão de ter, de boa-fé, confiado na conclusão do contrato).
b) Proposta ou policitação: é o anúncio ou a declaração unilateral da vontade de contratar.
A proposta obriga tanto o proponente quanto os seus sucessores, salvo se o contrário resultar de expressa advertência ou da sua própria natureza.
A proposta feita ao público vincula o proponente nos mesmos termos da proposta individual. A tutela jurídica da proposta pode se dar por execução específica ou por perdas e danos.
A oferta deve ser qualificada pela firmeza, precisão e completude, consubstanciando todos os elementos do contrato que será celebrado, sob pena de não ter efeito vinculante, tornando-se meras tratativas preliminares.
c) Aceitação ou oblação: é a adesão ou anuência à proposta formulada, devendo ser plena ou integral (não pode estar submetida a elementos externos).
Art. 431. A aceitação fora do prazo, com adições, restrições, ou modificações, importará nova proposta.
Em regra, a aceitação deve ser expressa, salvo quando ofertante e oblato já tenham realizado contratos da mesma natureza, com dispensa de aceitação expressa, ou quando o proponente a tenha dispensado por ocasião da oferta.
O CC/2002 admite ao longo de seus dispositivos tanto a aceitação expressa (quando o destinatário da oferta se serve de certo meio que propiciará ao proponente conhecimento imediato da aceitação, seja por forma escrita, falada e mesmo por gestos) quanto a aceitação tácita (quando o oblato atua de maneira incompatível com a vontade de não aceitar), servindo ambas as espécies ao aperfeiçoamento do contrato. É possível, ainda, excepcionalmente, que o silêncio produza significado social relevante, como forma de aceitação e declaração negocial, produzindo efeitos positivos e desde que as circunstâncias e os usos autorizem, o que não se confunde com a aceitação tácita (nesta há alguma espécie de manifestação).
O momento de formação do contrato entre pessoas presentes (nas mesmas circunstâncias de tempo e de espaço, inclusive telemarketing) é a aceitação. Já entre ausentes, o momento de formação dos contratos é o momento em que a aceitação chega ao conhecimento do proponente (teoria da cognição, adotada pela doutrina). OCC/02, no entanto, adotou a teoria da agnição por expedição, sendo o contrato formado no momento em que o aceitante expede a aceitação, independentemente de ter chegado ao conhecimento do proponente. 
O sistema de oferta ao público adotado pelo CC é diverso daquele concebido no CC, no qual a oferta pública é irrevogável (princípio da eficiência). No âmbito das relações civis, há uma distinção entre o alcance da proposta e da oferta. A vinculação do proponente à proposta será mais ampla do que a do oferente à oferta, pois aquela englobará mais especificidades do que esta, à medida que, necessariamente, a proposta encerrará os requisitos essenciais do contrato. Já a declaração que não consubstanciar os requisitos de uma proposta será um convite a contratar (oferta ao público).
3- Lugar do contrato
Art. 435. Reputar-se-á celebrado o contrato no lugar em que foi proposto.
Não obstante o que dispõe o art. 435 do CC, o art. 9o, p. 2o da LINDB, afirma que o lugar do contrato é a residência do proponente, sendo que tal dispositivo só se aplicará aos contratos internacionais, enquanto o CC deve ser aplicado nos contratos internos.
OBS: as cláusulas de foro de eleição em contrato de adesão, em detrimento do aderente, serão nulas, podendo o juiz declinar da competência para o juízo do domicílio do réu (exceção à regra de que o juiz não declara a incompetência relativa de ofício).
A PRINCIPIOLOGIA CONTRATUAL
1- Princípio da autonomia privada
“Consiste no poder das partes de estipular livremente, como melhor lhes convier, mediante acordo de vontades, a disciplina de seus interesses, suscitando efeitos tutelados pela ordem jurídica, envolvendo, além da liberdade de criação do contrato, a liberdade de contratar ou não contratar, de escolher o outro contraente e de fixar o conteúdo do contrato, limitadas pelo princípio da função social do contrato, pelas normas de ordem pública, pelos bons costumes e pela revisão judicial dos contratos” (Maria H. Diniz).
“O princípio da autonomia da vontade particulariza-se no Direito Contratual na liberdade de contratar. Significa o poder dos indivíduos de suscitar, mediante declaração de vontade, efeitos reconhecidos e tutelados pela ordem jurídica” (Orlando Gomes).
Historicamente, o direito contratual esteve assentado no conceito de autonomia da vontade (pacta sunt servanda). No entanto, esse entendimento (liberdade contratual concedida de forma absoluta) impossibilitava a interferência do Estado para corrigir as desigualdades entre as partes. Atualmente, com o movimento de constitucionalização do direito civil, esse panorama sofreu fortes limitações, passando a autonomia privada a ser entendida como instrumento de circulação de riquezas, respeitados os valores constitucionais, como dignidade humana e solidariedade social, permitindo o livre desenvolvimento da pessoa humana.
Sem asfixiar a liberdade humana, o movimento de constitucionalização do direito civil e a eventual publicização do direito civil estabelecem limites à liberdade de contratar. A concepção atual de contrato, em razão da incidência dos valores constitucionais, da boa-fé e da função social, é no sentido de garantir a liberdade de iniciativa com respeito a valores humanos e sociais. Não se quer sacrificar interesses privados ou creditícios, mas condicioná-los a uma perspectiva garantista. 
2- Princípio do consensualismo
“Segundo esse princípio, o simples acordo de duas ou mais vontades basta para gerar contrato válido, pois a maioria dos negócios jurídicos bilaterais é consensual, embora alguns, por serem solenes, tenham sua validade condicionada à observância de certas formalidades legais” (Maria H. Diniz).
A regra existente é de que “a simples operação intelectual do concurso de vontades pode gerar o contrato” (Orlando Gomes), ou seja, o acordo de vontade é suficiente à perfeição do contrato.
Exceções: contratos solenes e contratos reais, que exigem formas especiais.
3- Princípio da obrigatoriedade da convenção
“Por esse princípio, as estipulações feitas no contrato deverão ser fielmente cumpridas, sob pena de execução patrimonial contra o inadimplente. O ato negocial, por ser uma norma jurídica, constituindo lei entre as partes, é inatingível, a menos que ambas as partes o rescindam voluntariamente ou haja a escusa por caso fortuito ou força maior (CC, art. 393, parágrafo único), de tal sorte que não poderá alterar seu conteúdo, nem mesmo judicialmente. Entretanto, tem-se admitido, ante o princípio do equilíbrio contratual ou da equivalência material das prestações, que a força vinculante dos contratos seja contida pelo magistrado em certas circunstâncias excepcionais ou extraordinárias que impossibilitem a previsão de excessiva onerosidade no cumprimento da prestação (Lei n. 8.078/90, arts. 6º, V, e 51; CC, arts. 317, 478, 479 e 480)” (Maria H. Diniz).
O princípio da força obrigatória é o que trata do pacta sunt servanda, instituindo a regra de que o contrato se torna lei entre as partes, desde que tenha sido celebrado com a observância de todos os pressupostos e requisitos necessários à sua validade. É intangível, na medida em que acarreta a irretrabilidade do acordo de vontades (não pode ser revisado pelo juiz ou unilateralmente).
Alguns autores negam a autonomia do princípio da força obrigatória, afirmando que decorre do princípio da autonomia da vontade (já que a possibilidade de revisão contratual pelo juiz fere diretamente a liberdade de contratar).
Atualmente, esse princípio sofre atenuações, admitindo-se que em situações excepcionais seja relativizado, possibilitando a intervenção judicial.
Teoria da imprevisão: dispõe que os contratos poderão ser objeto de intervenção judicial “quando acontecimentos extraordinários determinam radical alteração no estado de fato contemporâneo à celebração do contrato, acarretando consequências imprevisíveis, das quais decorre excessiva onerosidade no cumprimento da obrigação, o vínculo contratual pode ser resolvido ou, a requerimento do prejudicado, o juiz altera o conteúdo do contrato, restaurando o equilíbrio desfeito” (Orlando Gomes).
4- Princípio da relatividade dos efeitos dos contratos
“Por esse princípio, a avença apenas vincula as partes que nela intervieram, não aproveitando nem prejudicando terceiros, salvo raras exceções” (Maria H. Diniz).
Esse princípio trata da eficácia dos contratos, dispondo que seus efeitos, via de regra, não podem atingir terceiros, se produzindo exclusivamente entre as partes.
Orlando Gomes define os efeitos internos do contrato como os direitos e obrigações dos contratantes que a eles se limitam, reduzem e circunscrevem.
Entretanto, o princípio da relatividade dos contratos não é absoluto, admitindo importantes exceções, como ocorre nos contratos com a estipulação em favor de terceiros, no contrato coletivo de trabalho, na locação em certos casos e no fideicomisso inter vivos.
5- Princípio da boa-fé objetiva
“Segundo esse princípio, na interpretação do contrato, é preciso ater-se mais à intenção do que ao sentido literal da linguagem, e, em prol do interesse social de segurança das relações jurídicas, as partes deverão agir com lealdade e confiança recíprocas, auxiliando-se mutuamente na formação e na execução do contrato. Daí estar ligado ao princípio da probidade” (M. H. Diniz).
Distingue-se a boa fé objetiva da boa fé subjetiva, na medida em que esta última se refere a um estado subjetivo ou psicológico do indivíduo, sendo muito mais aplicada no Direito das Coisas, enquanto a boa fé objetiva corresponde a uma regra de conduta ou um modelo de comportamento social externo em relação ao sujeito. A boa-fé objetiva é o mínimo ético que se espera de alguém e, enquanto a ética é um sentimento coletivo, a moral é um sentimento individual.
Dado que atualmente vigora, no Direito, o princípio do consensualismo, não se pode admitir os contratos de direito escrito, conforme chamavam os romanos, no qual a interpretação deveria ser feita literalmente (e onde vigora o princípio do formalismo).
Existem três funções principais do princípioda boa-fé objetiva:
1. Função interpretativa Toda e qualquer cláusula contratual deve ter o seu sentido e alcance definidos pela eticidade – art. 113 do CC.
2. Função supletiva/integrativa a boa-fé atua criando deveres anexos ou implícitos para a relação contratual – art. 422 do CC.
OBS: violação positiva de contrato é um novo modelo de inadimplemento obrigacional, decorrente do descumprimento dos deveres anexos, mesmo que, eventualmente, os deveres contratuais sejam cumpridos.
3. Função corretiva através da qual a boa-fé atua no sentido de controlar as cláusulas abusivas e serve como parâmetro para o exercício das posições jurídicas – art. 187 do CC. Ex.: anatocismo – o STJ vem entendendo que é permitido ao juiz controlar a taxa de juros.
 Venire contra factum proprium: é a proibição do comportamento contraditório, uma sequencia de dois comportamentos sendo que, isoladamente, cada um dos comportamentos é lícito, mas o segundo se torna abusivo por conta da confiança despertada pelo primeiro.
6- Princípio da função social do contrato
O contrato está conformado à sua função social quando as partes se pautarem pelos valores da solidariedade (CF 1º, IV e 170 caput), for respeitada a dignidade da pessoa humana (CF 1º, II), não ferirem valores ambientais e preservarem seus fins econômicos e sociais.
A função social do contrato é a socialidade aplicável aos contratos, de forma que o exercício de direitos contratuais não cause influência negativa no meio social ou sobre terceiros.
O princípio da função social dos contratos também pode ter eficácia interna entre as partes, correspondente ao princípio da dignidade da pessoa humana.
Tríplice função da função social do contrato:
a) O contrato entre duas partes não pode prejudicar terceiros;
Súmula 308, STJ: o contrato de hipoteca entre a construtora e o banco não pode prejudicar terceiros adquirentes.
b) O contrato entre duas partes não pode prejudicar a coletividade;
O terceiro ofendido pode propor ação de revisão de contrato do qual não é parte e, se o 3o ofendido for a coletividade, o legitimado será o MP.
c) Terceiros não devem prejudicar os contratos alheios.
7- Princípio da equivalência material
Por fim, no que diz respeito aos novos princípios sociais contratuais, há de se incluir o princípio da equivalência material entre as partes. Embora não explicitado expressamente como os princípios anteriores, tal princípio se encontra consagrado em diversos dispositivos, consistindo na idéia básica de que, nos contratos, deve haver uma correspondência, a saber, equivalência, de obrigações entre as partes contratantes.
O princípio inspirador desse princípio contratual é, sem sombra de dúvida, o princípio da isonomia, pois, sabendo-se utópica a idéia de igualdade real entre as partes, é preciso tutelar mais um dos contratantes, tratando-os desigualmente na medida em que se desigualam.
Tal concepção influenciou, por certo, a construção da autonomia dos microssistemas jurídicos, como a disciplina trabalhista e a consumista, em que o reconhecimento da desigualdade fática dos sujeitos impôs um tratamento diferenciado para, juridicamente, tê-los como equivalentes materialmente.
No CC-2002, tal princípio é claro, por exemplo, na disciplina do contrato de adesão (arts. 423/424), no reconhecimento positivado da resolução por onerosidade excessiva (a cláusula "rebus sic stantibus" implícita em todo contrato, agora consagrada nos arts. 478/480) e, na disciplina genérica do negócio jurídico, na anulabilidade da avença por força do vício da lesão (art. 157), em que, embora exija um elemento subjetivo (primeira necessidade ou inexperiência), não se tem positivada a exigência de um dolo ou aproveitamento.
CLASSIFICAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DOS CONTRATOS
1- Quanto à natureza da obrigação entabulada:
Contratos bilaterais ou sinalagmáticos ou com prestações recíprocas são aqueles que, no momento de sua feitura, atribuem obrigações a ambas as partes. Tais contratos têm como característica principal o sinalagma, que é a dependência recíproca de obrigações.
Essa classificação não se refere ao número de partes (que devem ser sempre pelo menos duas), mas sim à carga de obrigações das partes estipuladas no momento do aperfeiçoamento do contrato.
Ambos os contratantes nos contratos bilaterais respondem por simples culpa (art. 392 CC);
Princípio da exceptio non adimplenti contractus (exceção de contrato não cumprido): permissão da lei para que o contratante suste sua parte no cumprimento até que o outro contratante perfaça a sua (art. 476 CC);
Cláusula solve et repete: é a renúncia à oposição da exceção de contrato não cumprido, comum nos contratos administrativos. Deve ser evitada no Direito Privado, sendo proibida no âmbito de atuação do Cód. de defesa do consumidor e possível apenas nos contratos paritários.
Princípio da non rite adimplenti contractus: é uma exceção que se funda em um descumprimento parcial, incompleto ou defeituoso do negócio.
Todos os contratos bilaterais trazem a chamada cláusula resolutória implícita, que permite a rescisão do contrato pela parte que não deu causa ao seu descumprimento. 
Exemplos de contratos bilaterais: compra e venda, locação, etc.
Contratos unilaterais são aqueles que, quando da sua formação, só geram obrigações para uma das partes.
Aquele que não possui a carga será tratado com mais rigor (responde por culpa), enquanto aquele que possui a carga responderá apenas por dolo;
Em determinados casos as partes podem alterar a natureza primária de um contrato (ex: doação com encargo – contrato bilateral);
Exemplos de contratos unilaterais: doação, comodato e mútuo.
Contratos plurilaterais alguns doutrinadores citam essa terceira categoria de contratos, na qual cada parte adquire direitos e contrai obrigações com relação a todos os outros contratantes.
A vontade de cada uma das partes pode ir-se manifestando escalonadamente;
O vício que inquina uma das vontades não atinge todo o negócio;
Cada partícipe terá uma parcela de execução contratual diversa das demais;
Exemplo: cessão de posição contratual
Contratos gratuitos são aqueles em que toda a carga de responsabilidade contratual fica por conta de um dos contratantes, cabendo ao outro apenas os benefícios do negócio.
Há uma liberalidade intrínseca a esse negócio (não tem o caráter de contraprestação);
O contrato que circunstancialmente impõe deveres à parte beneficiada não deixará de ser gratuito (ex: dever do donatário de não incorrer em ingratidão);
Os contratos benéficos sofrem interpretação restritiva por disposição do CC – art. 114;
O onerado apenas responderá por dolo;
O doador não está sujeito à evicção (art. 552 CC);
Na revogação do negócio por fraude contra credores, os atos gratuitos são tratados com maior rigor (arts. 158 e 159 CC);
Exemplos de contratos gratuitos: doação sem encargo, comodato, mútuo sem pagamento de juros, depósito e mandato gratuitos.
Contratos onerosos são aqueles em que ambos os contratantes têm direitos e deveres, vantagens e obrigações, a carga de responsabilidade contratual está repartida entre eles, embora nem sempre em igual nível.
Todo contrato bilateral é oneroso, mas existem contratos unilaterais que também o são (ex: mútuo com pagamento de juros);
Os contratos onerosos se subdividem em:
Cumulativos: os contraentes conhecem, ex radice, suas respectivas prestações.
Aleatórios: ao menos o conteúdo da prestação de uma das partes é desconhecido quando da elaboração da avença. O contrato funda-se na álea, sorte, para ao menos uma das partes, podendo decorrer de sua própria natureza (seguro, jogo e aposta) ou da vontade das partes (aquisição de uma futura colheita). Nos arts. 458 a 461 do CC é tratada a compra e venda aleatória, tendo normas que se aplicam a outros contratos, dizendo respeito a coisas futuras cujo risco de virem a existir ou não seria assumido pelo adquirente. A álea poderá dizer respeito à própria existência da coisa (art. 458 – emptio rei) ou apenas à quantidade da mesma (art. 459 – emptio speratae).
2- Quanto à previsão do legislador:Contratos típicos ocorrem quando a avença contratual for uma daquelas descritas e especificadas (tipificadas) na lei.
Também são conhecidos por contratos nominados (erroneamente).
Em se tratando de normas não cogentes, pode-se dispor diferentemente delas no contrato típico, desde que assim fique expresso;
Contratos atípicos ocorrem quando a avença contratual tem por objeto a regulação de relações negociais menos comuns, ou sui generis, que não estão descritas ou especificadas na lei (art. 425 CC).
São conhecidos também por contratos inominados.
3- Quanto à forma:
Contratos consensuais são os contratos que se aperfeiçoam com o simples consentimento das partes, sem necessidade de qualquer outro ato. 
Exemplo: compra e venda de bens móveis, locação, etc.
Contratos solenes são os contratos que tem sua forma prescrita na lei. 
O ato consensual pode ser transformado em solene.
Venosa distingue ainda contrato formal de contrato solene, explicando que para a legislação brasileira contrato solene é aquele que exige escritura pública. Assim, os contratos que exigem a forma escrita são formais, mas não necessariamente solenes, e nem sempre a ausência da forma acarretará a nulidade do contrato (se for solene, no entanto, sempre a acarretará). 
Exemplo: a venda de imóveis cujo valor seja igual ou superior a 30 salários mínimos vigentes na época da avença que necessitará de escritura pública, e o casamento. 
Contratos reais são os contratos que só se aperfeiçoam com a traditio, ou seja, com a entrega da coisa.
Exemplos: depósito, comodato, mútuo, arras.
4- Quanto aos outros contratos:
Contratos principais são os contratos autônomos, que não dependem de outro para existir. 
Contratos acessórios são os contratos que dependem de outro para existir, não existem por si só, é uma garantia ao cumprimento do contrato principal.
Será nulo o contrato acessório se o contrato principal deixar de existir. 
Exceção: se o contrato principal for firmado por um absolutamente incapaz, e o acessório firmado por um capaz para cumprir a obrigação.
Sempre que o contrato principal prescrever, o acessório também irá.
Exemplo: a fiança.
5- Quanto ao tempo de execução
Contratos instantâneos são os contratos cujas prestações podem ser realizadas em um só instante. As partes adquirem e cumprem seus direitos e obrigações no mesmo momento da celebração do contrato.
De execução imediata: a execução do contrato instantâneo se dá logo após a sua conclusão. Ex.: compra e venda à vista. 
De execução diferida: são os contratos instantâneos em que há um única prestação por parte do devedor que é protraída para um momento posterior. Ex.: uma geladeira que foi comprada à vista e só será entregue em 03 dias. 
Contratos de duração também chamados de execução continuada e de trato sucessivo, são os contratos em que há uma pluralidade ou sucessividade de prestações por parte do devedor e que são cumpridas periodicamente. Ao prazo de cada prestação é que se inicia o prazo prescricional. 
Só existem contratos de duração por sua própria natureza (se foram as partes que acordaram a divisão das prestações no tempo, o contrato não é de execução continuada).
Obs.: a relevância dessa classificação está na teoria da excessiva onerosidade – artigo 478, CC; a exceção do contrato não cumprido só se aplica aos contratos deferidos e de duração.
Contrato por prazo determinado é o contrato em que as partes estabeleceram uma tempo para sua duração, e sendo assim, quando o prazo acabar termina o contrato. 
É comum se transformar em indeterminado, caso haja o término e as partes continuem a cumprir as obrigações. 
Contrato indeterminado as partes não estabelecem de ante mão quando o contrato termina, típico de sociedade e de trabalho. É necessário notificar a outra parte caso haja vontade de rescindir o contrato. Se for omisso o contrato, o prazo do aviso prévio é de 30 dias. 
6- Quanto à pessoa do contratante
Contratos pessoais são os contratos em que há a presença do intuito personae, assim, apenas aquele contratado poderá cumprir a obrigação, sendo esta personalíssima.
Nesses contratos geralmente há obrigações de fazer.
Ex: um pintor, escolhido para realizar a pintura de um quadro devido a suas características pessoais. 
Contratos impessoais são os contratos em que as partes são fungíveis, ou seja, qualquer pessoa poderia realizar o cumprimento da obrigação.
Como regra geral, as obrigações de dar são objeto desses contratos.
Contratos Mercantis, Civis ou de Consumo: até 1980, existiam dois tipos de contrato, o mercantil, no qual um dos pólos era uma empresa, ou um comerciante e os civis entre os particulares. Os contratos mercantis eram regulados pelo Código Comercial. Em 1990, com o CDC grande parte dos contratos que eram civis ou mercantis viram de consumo. Em 2002, o CC revoga quase todos os contratos mercantis, sobrando o Seguro Marítimo. Assim, 90% dos contratos hoje são civis ou de consumos. Importante ressaltar que uma classificação não exclui a outra. A maioria dos contratos são de consumo, e por exceção são civis. Obedece ao CDC e no que for omisso, subsidiariamente ao CC. 
Para que seja relação de consumo é necessário haver um consumidor e um fornecedor ligados a um produto.
7- Quanto à maneira como são formados
Contratos paritários ambos os contraentes estipulam todas as cláusulas contratuais livremente (existia como regra). 
Contratos por adesão são os contratos em que uma das partes estipula todas as cláusulas e a outra parte tem a faculdade de aderir ou não ao contrato. São contratos padronizados devido ao grande aumento de consumo. Limita a liberdade contratual, mas ela existe. Na dúvida de interpretação beneficia-se o aderente.
Contratos derivados (subcontratos) são contratos que a princípio são autônomos, mas que existem em decorrência de outro. Como por ex. um contrato de compra e venda é firmado, após firma-se um contrato de mútuo a fim de conseguir o dinheiro para realizar o primeiro contrato. Há coligação com o contrato-base. A sublocação é acessória e por isso não pode ser considerada como derivado.
Contratos coativos são os contratos impostos, nos quais não há a faculdade de contratar, mas a obrigação de firmar o contrato.
8- Figura especial: o autocontrato
“Na representação voluntária, os poderes do representante devem conter-se nas lindes da outorga recebida, distinguindo-se da representação legal que autorizam o representante agir em nome do representado (como por exemplo a representação do filho menor pelo seu pai, do pupilo por seu tutor) faltando-lhe, em princípio, o poder de disposição patrimonial. Na linha dos efeitos da representação adverte o grande Caio Mário que cabe o exame da autocontratação onde se figura o representante celebrar negócio consigo mesmo, procedendo como representante de outrem. 
Por outro lado, contra a autocontratação se alinham várias razões, quer de ordem prática, quer de ordem teórica e, ainda de ordem ética. O primeiro óbice é a diversidade de interesses que é fato natural, corriqueiro e normal no negócio jurídico bilateral. Na ordem teórica, a objeção fulcra-se na falta de duas vontades distintas que é requisito essencial a formação do contrato. Já, na ordem ética, há a tentação do representante vir a sobrepor seus próprios interesses, aos interesses do epresentado, sacrificando-o. Por tais razões, a nova sistemática presente no Código Civil de 2002 em princípio veda a autocontratação ou o contrato consigo mesmo. O representante deve proceder, ao contratar, em proveito do representado. Se celebra consigo mesmo o negócio jurídico para o qual foi investido de poderes está traindo o representado e, daí, justifica-se que tal negócio é passível de anulação. E, vide bem que não é negócio nulo de pleno direito, porque deixa a critério do interessado (representado) atacá-lo ou simplesmente mantê-lo. 
No entanto, casos há que a autocontratação é lícita, é quando a lei o permitir e, quando for autorizada pelo representado. Sendo que nesse último caso, o ato negocial advém de manifestaçãode duas vontades, a do representante e a do representado, contida expressamente na autorização. Caio Mário ainda é perspicaz ao ensinar que o negócio jurídico celebrado consigo mesmo não é ato unilateral. É bilateral, uma vez que nele estão presentes duas declarações de vontade. 
O parágrafo único do art. 117 do Código Civil Brasileiro de 2002 espelha a mesma condenação ao ato, quando o representante transfere a outrem os poderes para figurar no ato, como fosse o representado, e nele comparece pessoalmente, como se tratasse de outra parte. 
O negócio jurídico resultante contém, portanto dupla emissão volitiva apenas formalmente, pois na essência, o representante comparece e, na pessoa do terceiro, em quem sub-roga os poderes recebidos. A alusão ao substabelecimento pontifica Caio Mário contida no parágrafo do art. 117 CC pode dar a impressão desta proibição implica somente à representação convencional. Mas, em verdade, aplica-se também à representação legal. Parece ser melhor a solução que o representante sem abdicar da representação (seja a convencional ou a legal), ou pedir sua substituição ou designação de outro, especificamente, para aquele negócio. Presume-se a má fé se vem a omitir o conflito de interesses existente. Realizado o ato negocial, dentro desse conflito de interesses, é anulável, caso o terceiro tendo conhecimento do fato, a vista da comunicação do representante, ou por outras vias, seja no de convencerem as circunstâncias de que ele não o ignorava. Para a segurança da vida negocial, a anulação deve ocorrer respeitado o prazo decadencial de seis meses a contar da conclusão do negócio jurídico ou da cessação da incapacidade (art. 119, parágrafo único do CC).”
INTERPRETAÇÃO DO CONTRATO
1-
CESSÃO DO CONTRATO
1-
RELATIVIDADE DOS CONTRATOS
1- Promessa de fato de terceiro
É a obrigação de fazer consistente em obter a anuência de um 3o para que este preste uma outra obrigação.
Art. 439. Aquele que tiver prometido fato de terceiro responderá por perdas e danos, quando este o não executar.
OBS: em regra, a responsabilidade pelo inadimplemento será do promitente e na modalidade objetiva (sem risco integral), não sendo cabível a tutela específica.
Parágrafo único. Tal responsabilidade não existirá se o terceiro for o cônjuge do promitente, dependendo da sua anuência o ato a ser praticado, e desde que, pelo regime do casamento, a indenização, de algum modo, venha a recair sobre os seus bens.
Art. 440. Nenhuma obrigação haverá para quem se comprometer por outrem, se este, depois de se ter obrigado, faltar à prestação.
2- Estipulações em favor de terceiros
Ocorre quando duas pessoas celebram um contrato para que os seus efeitos benéficos se produzam em relação a um terceiro, que não precisa ser capaz nem solvente (não é parte). No entanto, o terceiro tem legitimidade para executar o contrato. Ex.: seguro de vida.
O estipulado será indicado livremente pelo estipulante, e poderá ser substituído a qualquer tempo por este, independentemente da sua anuência ou do outro contratante. Exceção: o estipulado não poderá ser substituído se já executou o contrato.
Art. 436. O que estipula em favor de terceiro pode exigir o cumprimento da obrigação.
Parágrafo único. Ao terceiro, em favor de quem se estipulou a obrigação, também é permitido exigi-la, ficando, todavia, sujeito às condições e normas do contrato, se a ele anuir, e o estipulante não o inovar nos termos do art. 438.
Art. 437. Se ao terceiro, em favor de quem se fez o contrato, se deixar o direito de reclamar-lhe a execução, não poderá o estipulante exonerar o devedor.
Art. 438. O estipulante pode reservar-se o direito de substituir o terceiro designado no contrato, independentemente da sua anuência e da do outro contratante.
Parágrafo único. A substituição pode ser feita por ato entre vivos ou por disposição de última vontade.
3- Contrato com pessoa a declarar
Trata-se de uma relação jurídica contratual estabelecida entre duas partes com cláusula expressa prevendo que um ou ambos os contratantes reserva a si o direito de, dentro de determinado prazo, indicar a pessoa que passará a figurar na sua posição contratual.
No contrato com pessoa a declarar o terceiro será parte, portanto precisa ser solvente e capaz, devendo assumir as obrigações e titularizar os direitos retroativamente à data da celebração do contrato. Ocorre a expromissão da parte, passando o terceiro a integrar efetivamente o contrato com a sua aceitação.
Art. 467. No momento da conclusão do contrato, pode uma das partes reservar-se a faculdade de indicar a pessoa que deve adquirir os direitos e assumir as obrigações dele decorrentes.
Art. 468. Essa indicação deve ser comunicada à outra parte no prazo de cinco dias da conclusão do contrato, se outro não tiver sido estipulado.
Parágrafo único. A aceitação da pessoa nomeada não será eficaz se não se revestir da mesma forma que as partes usaram para o contrato.
Art. 469. A pessoa, nomeada de conformidade com os artigos antecedentes, adquire os direitos e assume as obrigações decorrentes do contrato, a partir do momento em que este foi celebrado.
Art. 470. O contrato será eficaz somente entre os contratantes originários:
I - se não houver indicação de pessoa, ou se o nomeado se recusar a aceitá-la;
II - se a pessoa nomeada era insolvente, e a outra pessoa o desconhecia no momento da indicação.
Art. 471. Se a pessoa a nomear era incapaz ou insolvente no momento da nomeação, o contrato produzirá seus efeitos entre os contratantes originários.
EFEITOS DOS CONTRATOS
1- Vícios redibitórios
São defeitos estruturais na coisa adquirida, em regra, onerosamente, tornando-a imprópria para o uso ou diminuindo o seu valor econômico. Ex.: touro reprodutor estéril.
São requisitos para o reconhecimento dos vícios redibitórios:
I. Onerosidade do contrato: só há o reconhecimento do vício redibitório nos contratos onerosos, salvo no caso de doação contemplativa de casamento e de doação remuneratória (contraprestação voluntária para uma obrigação que não teria exigibilidade);
II. Existência de um defeito que torna a coisa imprópria para o uso ou subtrai valor econômico;
III. Existência do defeito ao tempo da tradição;
IV. Descoberta do defeito somente após a tradição;
V. Inexistência de cláusula excludente da garantia: o CC permite que as partes excluam a garantia dos vícios redibitórios por meio de cláusula expressa. No entanto, esta cláusula será nula nos contratos de consumo ou de adesão, só podendo ter validade nos contratos paritários, em nome da autonomia privada;
VI. Reclamação do vício, por meio das ações edilícias, que são as ações para reclamação do vício redibitório (ação redibitória, ação estimatória ou quanti minoris e ação ex empto). No âmbito do CDC, existe ainda a ação para substituição do produto ou do serviço.
As ações edilícias devem ser propostas nos seguintes prazos decadenciais:
Art. 445. O adquirente decai do direito de obter a redibição ou abatimento no preço no prazo de trinta dias se a coisa for móvel, e de um ano se for imóvel, contado da entrega efetiva; se já estava na posse, o prazo conta-se da alienação, reduzido à metade.
§ 1o Quando o vício, por sua natureza, só puder ser conhecido mais tarde, o prazo contar-se-á do momento em que dele tiver ciência, até o prazo máximo de cento e oitenta dias, em se tratando de bens móveis; e de um ano, para os imóveis.
§ 2o Tratando-se de venda de animais, os prazos de garantia por vícios ocultos serão os estabelecidos em lei especial, ou, na falta desta, pelos usos locais, aplicando-se o disposto no parágrafo antecedente se não houver regras disciplinando a matéria.
Art. 446. Não correrão os prazos do artigo antecedente na constância de cláusula de garantia; mas o adquirente deve denunciar o defeito ao alienante nos trinta dias seguintes ao seu descobrimento, sob pena de decadência.
2- Evicção
É a perda da coisa adquirida onerosamente por força de uma decisão judicial ou administrativa, que a conferiu, no todo ou em parte, a um terceiro.
São requisitos da evicção:
I. Onerosidadedo contrato, exceto no caso de doação contemplativa para o casamento e doação remuneratória;
II. Perda da posse ou propriedade da coisa adquirida, no todo ou em parte;
III. Decisão judicial ou administrativa conferindo a coisa a um terceiro;
IV. Inexistência de cláusula excludente da garantia da evicção: mesmo nos contratos paritários, a cláusula de exclusão da evicção só terá validade se a parte for expressamente advertida do risco e assumi-lo.
Alguns autores consideram que a evicção constitui o único caso em que se deve haver denunciação da lide obrigatória, o que não pode ser considerado tecnicamente correto, já que o evicto pode propor ação autônoma de regresso.
Assim, o entendimento mais acertado é no sentido de que a denunciação da lide não é requisito da evicção, já tendo o STJ admitido o regresso autônomo do evicto.
Pode ocorrer a evicção mesmo na aquisição por hasta pública.
Inf. 519, STJ: para que o evicto possa exercer os direitos resultantes da evicção, na hipótese em que a perda da coisa adquirida tenha sido determinada por decisão judicial, não é necessário o trânsito em julgado da referida decisão. O direito que o evicto tem de cobrar indenização pela perda da coisa evicta independe, para ser exercitado, de ele ter denunciado a lide ao alienante na ação em que terceiro reivindicara a coisa.
2.1- Extensão da garantia da evicção
EXTINÇÃO DOS CONTRATOS
1-
Inf. 526, STJ: a ocorrência de “ferrugem asiática” na lavoura de soja não enseja, por si só, a resolução de contrato de compra e venda de safra futura em razão de onerosidade excessiva. Isso porque o advento dessa doença em lavoura de soja não constitui o fato extraordinário e imprevisível exigido pelo art. 478 do CC/2002, que dispõe sobre a resolução do contrato por onerosidade excessiva.
COMPRA E VENDA
1- Noções gerais
A compra e venda é antiquíssima, de tal forma que consta no Novo Testamento da Bíblia. Contudo o mais importante contrato que se tinha era a troca ou permuta, chamada de escambo. Este foi a mais importante forma de circulação de riqueza até a chegada da moeda - com ela, diminuiu-se a importância da troca e aumentou–se a relevância da compra e venda. Este é o contrato que permite o acesso a bens e riquezas circulando a economia.
Caio Mário dizia que a compra e venda era a mais importante forma de circulação de riqueza na contemporaneidade, de tal forma que ela se enraizou na sociedade.
Hoje em dia, a importância da compra e venda é tamanha que já se tenta estabelecer uma Convenção Internacional para padronização da compra e venda. É o “Convention on Internation Sales of Goods – CISG”. Entre nós, essa convenção já está sendo analisada pelo Ministério da Justiça com parecer favorável e já encaminhado para o Congresso. Com ela teremos mais um exemplo de eficácia de Tratado internacional no direito privado.
Dá pra perceber que a finalidade da compra e venda é adquirir para consumir, mas uma pessoa não poderia adquirir um bem com outra finalidade? Os juristas, então, pensaram num contrato que tivesse o fim não para consumo, mas principalmente para o uso, e só depois poderia o adquirente decidir se quer ou não ter aquilo para sempre. Esse contrato foi criado em países europeus e foi admitido pelo nosso, chamado de “leasing” ou arrendamento mercantil, disciplinado pela lei 6.099/74 - criado como uma alternativa contemporânea à compra e venda. Por ele você recebe para usar a coisa, pagando uma renda mensal, e por fim o arrendatário decide ser quer ou não comprar. O arrendatário recebe a coisa para usá-la no prazo de 36 meses (salvo se for “leasing” de automóvel, que tem prazo de 24 meses). Nesse prazo, ele usa a coisa livremente, pagando uma renda mensal pelo uso. Ao final do prazo, surgem para ele 3 opções:
I. Renovar o contrato por outro período; 
II. Devolver a coisa e extinguir o contrato; 
III. Exercer o direito de compra, pagando o VGR – valor residual garantido (diferença do valor paga mensalmente a título de renda e o efetivo valor correspondente à coisa em si).
O bancos perceberam que, se o arrendatário pagasse o VRG antecipadamente, dificilmente desistiria da coisa. Assim, retirou-se dele o direito de opção/escolha (ainda por vias transversas). Efetivamente, quando o arrendante faz isso, transmuda o contrato de “leasing” para compra e venda à prazo, pois aqui o arrendatário não tem mais direito de escolha.
Súmula 263, STJ: a cobrança antecipada do valor residual (VRG) descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil, transformando-o em compra e venda a prestação. No entanto, julgando os RESPs 443.143-GO e 470.632-SP, na sessão de 27/08/2003, a Segunda Seção deliberou pelo CANCELAMENTO da Súmula n. 263.
Ocorre que com isso os bancos pararam de celebrar contrato de leasing e celebrar contratos a prazo, o que trouxe muitas implicações ao mercado. O STJ então editou a súmula 293 - “A cobrança antecipada do valor residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil”.
A súmula tira do contrato de leasing a sua verdadeira finalidade, ou seja, a de ser uma alternativa ao contrato de compra e venda, pois o leasing, hoje, nada mais é do que uma compra e venda a prazo com uma garantia diferenciada.
Inf. 517, STJ: o arrendador tem a obrigação de devolver as quantias pagas, antecipadamente, pelo arrendatário, a título de Valor Residual Garantido (VRG), nos casos em que o produto objeto do leasing for apreendido por reintegração de posse e alienado pelo arrendador?
Graficamente, a situação pode ser assim ilustrada:
I. Se VRG pago + valor do bem vendido > VRG previsto no contrato = o arrendatário terá direito de receber a diferença.
II. Se VRG pago + valor do bem vendidoconsigo mesmo). 
b) Consensual: a formalidade não é elemento essencial da compra e venda. Esta é a regra, a qual comporta exceções no art. 108, sendo que, em se tratando de bem imóvel, exige-se a escritura pública em cartório (ato solene), salvo se o valor do imóvel não exceder a 30 salários mínimos.
É possível falar em convalidação nos casos em que a compra e venda se tornar um contrato formal? Sempre que um contrato for formal a solenidade integra a substância do ato e a sua violação implica em nulidade, e não anulabilidade. Assim, não se admite convalidação, mas apenas conversão substancial. O valor que o direito dá para a forma no direito contratual é maior do que o valor dado no direito processual.
c) Onerosa: palco dos vícios redibitórios e evicção. Sobre o tema, importante o art. 503, venda de coisas conjuntas, por ela, “Nas coisas vendidas conjuntamente, o defeito oculto de uma não autoriza a rejeição de todas”. Para Cristiano, há aqui o princípio do aproveitamento do negócio jurídico. 
d) Comutativa: não traz consigo natureza aleatória, sendo que as vantagens obtidas pelas partes são previamente conhecidas. Excepcionalmente, admite-se compra e venda aleatória. Exemplos: Compra e venda a contento e arts. 458, CC/02 – “emptio spei” (venda da esperançada coisa) e art. 459 - “emptio rei sperante” (venda da esperança da quantidade da coisa). É o caso da venda da safra.
Nesse caso, a parte que compra assume a maior parte de riscos.

e) Instantânea ou de trato de sucessivo: ex.: compra e venda a vista e a prazo. Ela pode ser enquadrada como contrato de consumo, a partir do balizamento dos arts. 2 e 3 do CDC. STJ, interpretando estes artigos, adotou a Teoria Finalística, REsp. 1.038.645/ RS, por ela o comprador é o destinatário final, e assim assume a compra e venda natureza de consumo.
4- Elementos essenciais da compra e venda
4.1- Consentimento 
A compra e venda exige consentimento livre e desembaraçado, sob pena de anulabilidade por vício de vontade. Em se tratando de um incapaz exige-se a sua representação ou assistência para a validade do contrato. Mas aqui surge um belíssimo instituto – o da legitimação, pertencente também ao direito material (e não só processual), ele é um requisito específico para a prática de um ato específico. 
A legitimação é um requisito para além da capacidade.
No contrato de compra e venda os dois melhores exemplos são:
1) A autorização judicial, ouvido o MP, para a venda de imóveis de incapazes;
2) outorga do cônjuge ou vênia conjugal.
Se o casamento é no regime de separação convencional o Código dispensa a outorga, e, se for no se separação final nos aquestos, o próprio pacto pode dispensar. Quando um cônjuge se recusa imotivadamente admite-se o suprimento judicial.
Aspectos polêmicos envolvendo o consentimento:
I. Venda de bens sujeitos à administração alheia (curador, tutor, inventariante): nesses casos o código diz que a venda de bens imóveis é somente admitida com prévia autorização judicial, sob pena
de nulidade.
II. Venda entre cônjuges: possível desde que se trate de bens excluídos da comunhão. Ex: casamento no regime de comunhão universal não é possível essa venda; mas no de separação convencional já será possível, pois todos os bens são particulares.
Súmula 377, STF – no regime de separação legal/obrigatória haverá comunhão dos aquestos, o que inocorre no regime de separação convencional.
Art. 499. Regra: se a regra produz efeitos apenas intra-partes aplica na união estável, se produz efeitos para terceiros, não se aplica à união estável. União estável é somente intra-partes, e o casamento é erga omnes. Esse dispositivo se aplica à união estável.

3o) Venda de ascendente para descendente. Art. 496, CC/02 – A compra e venda de ascendente para descendente produz efeitos distintos da doação de ascendente para descendente. Nesta, temos a antecipação de legítima (herança). Na compra e venda não, pois o patrimônio é recomposto. O código permite que o ascendente faça doação para o descendente sem significar antecipação de herança, é o caso de o ascendente expressamente dispuser que o bem está saindo de sua cota disponível, desde que respeitada a legítima. Já na compra e venda de ascendente para descendente é distinto, pois o patrimônio está sendo recomposto. Não se pode esquecer quando aquele vende para este pode se valer do ato cm uma potencialidade fraudatória (ex: preço vil). Assim para evitar fraudes à legítima, o art. 496 exige o consentimento dos demais interessados, sob pena de anulabilidade, em prazo fixado no art. 179, CC/02, decadencial de dois anos, contados da celebração do negócio. Perde o objeto a súmula 494 do STF.
Art. 496, PU - Dispensa-se o consentimento se o casamento for no regime de separação obrigatória, pois esta não gera direitos sucessórios (1.829, CC/02).
Resumo: Há 2 regimes de separação de bens:
a) convencional/ total: não há meação, mas há herança (art. 1.829, CC/02).
b) obrigatória/ absoluta: não há herança, mas há meação. Súmula 377, STF.
Aí o STJ, no REsp. 992.749/ MS, disse que quem é casado no regime de separação convencional não tem direito a herança. Logo não tem direito nem à meação, nem herança. E com isso, não é mais necessário o consentimento no regime de separação convencional, de acordo com o STJ.
Se o pai vende a um dos filhos por preço justo, sem o consentimento dos filhos e do cônjuge, não é razoável anular esse negócio. Entendimento do STJ, REsp. 668.858/ PR, para quem só haverá anulabilidade se houver prejuízo.
O art. 179 diz que o prazo é de 02 anos, contados da celebração. Essa não é a melhor técnica, segundo a teoria da “actio nata”, que defende que os prazos devem fluir da data do conhecimento. Assim no STJ, AgRgREsp. 1.177.978 e na Súmula 278 do STJ.
Inf. STJ: para que a venda de ascendente para descendente seja anulada (art. 496 do CC), é imprescindível que o autor da ação anulatória comprove, no caso concreto, a efetiva ocorrência de prejuízo aos herdeiros necessários, não se admitindo a alegação de prejuízo presumido. Isso porque este negócio jurídico não é nulo (nulidade absoluta), mas sim meramente anulável (nulidade relativa). Logo, não é possível ao magistrado reconhecer a procedência do pedido no âmbito de ação anulatória da venda de ascendente a descendente com base apenas em presunção de prejuízo decorrente do fato de o autor da ação anulatória ser absolutamente incapaz quando da celebração do negócio por seus pais e irmão.
Enunciado 177 da Jornada entende que a recíproca não é verdadeira, não se exigindo a anuência dos demais interessados na venda descendente para ascendente.
OBS: o condômino não pode alienar o seu quinhão a terceiro, sem prévia comunicação aos demais consortes, a fim de possibilitar a estes o exercício do direito de preferência, tanto por tanto, seja a coisa divisível ou não (STJ).
4.2- Preço
É a remuneração do contrato. Importa saber: esse preço pode ser determinado ou determinável, inclusive pode estar submisso à taxa de mercado, bolsa de valores, índices econômicos. Pode ser fixado mesmo por um terceiro, que funciona como representante das partes. O que não se admite é a indeterminação absoluta do preço ou o puro arbítrio exclusivo de uma das partes.
O preço tem de ser em moeda nacional, sob o princípio do nominalismo, em que o preço é devido pelo seu valor nominal (art. 315, CC/02). O STJ flexibiliza esse princípio, entendendo que a correção monetária está embutida no nominalismo, não os juros.
A lei 9.069/65 (lei do Real) permite compra e venda em moeda estrangeira em dois casos:
a) compra e venda celebrado no Exterior;

b) compra e venda decorrente de importação.
O valor da compra e venda não pode ser expresso em salário mínimo (súmula vinculante 4).
O preço deve ser sério e idôneo, sob pena de nulidade. As circunstâncias indicam se o preço é sério e idôneo.
O preço deve ser justo. Veja o instituto da onerosidade excessiva que pode se apresentar:

a) no momento da celebração do contrato: atinge a validade. Pode tornar o ato nulo ou anulável.
b) superveniente: atinge

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