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CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DESIRRE DE ANDRADE CORREA A INSERÇÃO DAS QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL SALVADOR 2017 DESIRRE DE ANDRADE CORREA A INSERÇÃO DAS QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL Trabalho de conclusão de Curso apresentado ao curso de Psicologia da Faculdade Regional da Bahia (FARB/UNIRB), com requisito para obtenção do Grau de Bacharel em Psicologia. Professora de TCCII: Msc. Franciane Professor Orientador: Gilmaro Nogueira SALVADOR 2017 DESIRRE DE ANDRADE CORREA INSERÇÃO DAS QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Psicologia, pela Faculdade Regional da Bahia. Aprovado em ____ de __________________________ de 2017. Banca Examinadora __________________________________________ Gilmaro Nogueira (Orientador) Mestre em Cultura e Sociedade (UFBA / Pós-Graduado em Estudos Culturais (UNIJORGE) / Pós-Graduado em Atenção a usuários de álcool e outras drogas (UFBA) __________________________________________ Jaqueline Vitoriano da Silva Msc. Em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Faculdade Regional da Bahia - UNIRB __________________________________________ Tais Abreu Especialista em Terapia Analítico-comportamental pela Unijorge / Mestranda em Educação pela UFBA LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS LGBT – Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais, transgêneros PNE - Plano Nacional de Educação ABA - Associação Brasileira de Antropologia LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 – Biscoito Sexual FIGURA 2 – Quadro de violência contra a mulher Dedico o presente trabalho ao meu filho Kauê que surgiu no momento em que deveria surgir e me tornou uma mulher ainda mais determinada. AGRADECIMENTOS Agradeço a coordenadora Jaqueline por toda orientação e ajuda que me foram dados durante a graduação A este meu orientador, Gilmario Nogueira, pela paciência, dedicação e ensinamentos que possibilitaram que eu realizasse este trabalho, além das aulas maravilhosas que me transmitiram muito conhecimento. Aos meus pais, pelo amor, carinho e paciência. Agradeço de forma especial à minha mãe Ednice, por não medir esforços para que eu pudesse levar meus estudos adiante. Agradeço as minhas amigas Psicolindas, por confiarem em mim e estarem do meu lado em todos os momentos da vida. Em especial meus agradecimentos a Mariângela Matos que está comigo durante toda essa caminhada até aqui. A Valesca minha irmã do coração por sempre apontar minhas qualidades e me mostrar que sou capaz de alcançar meus objetivos A Luã por me presentear com meu primeiro livro de psicologia e por sempre estender a sua mão nos momentos mais difíceis . Ao meu irmão, que é meu companheiro de brincadeiras e durante este tempo me incentivou e acreditou sempre em mim. Obrigado maninho. Ao Davi Fagundes por estar sempre ao meu lado, me apoiando nas minhas escolhas, e me acolhendo nos momentos de frustração A minha preceptora de estágio Julie Cruz sempre disposta a ajudar e a ouvir minhas queixas e me acalmar nos momentos de tensão. A todas as professoras e professores que em algum momento da vida cruzaram o meu caminho e fizeram parte da minha formação. ...Mulher, a culpa que tu carrega não é tua Divide o fardo comigo dessa vez Que eu quero fazer poesia pelo corpo E afrontar as leis que o homem criou... Todxs Putxs - Ekena RESUMO Essa pesquisa tem como objetivo discutir sobre a inserção das questões de gênero e sexualidade no ensino fundamental, refletindo sobre a importância da inserção dessas questões na educação, com base no levantamento de dados obtidos através de pesquisa bibliográfica. Nesse sentido apresenta as diferenças conceituais de sexo, gênero e orientação sexual, discutindo os limites e possibilidades da inserção dessas questões no ensino fundamental. Faz necessário falar de gênero e sexualidade nas escolas para que seja possível o exercício da cidadania e para o reconhecimento da igualdade e equidade entre homens e mulheres. Dando relevância para compreender o papel de a educação ensinar as diferentes formas de se relacionar e a existência das diferenças para que previna a desigualdades, a violência simbólica e física, do sexismo e dos preconceitos enraizados do senso comum. Com esse estudo espera-se colaborar para os debates sobre gênero, sexualidade e educação, e para a transformação das psicólogas e psicólogos de como contribuir sobre a importância da inserção dessas questões no ensino fundamental e da formação de profissionais capacitados para lidar com essa temática. Palavras-chaves: Sexualidade e gênero; Ensino Fundamental; Psicologia; Inclusão ABSTRACT This research aims at discussing the insertion of gender and non-elementary sexuality issues, reflecting on the importance of insertion issues of these questions in education, based on the collection of data obtained through bibliographic research. In this sense it presents the conceptual differences betwen sex, gender and sexual orientation, discussing the limits and possibilities of the insertion at fundamental education. It is necessary to talk about gender and sexuality in schools so that it is possible to exercise citizenship and to recognize equality and equity between men and women. Giving relevance to understand the role of education to teach the different ways of relating and the existence of differences to prevent inequalities, symbolic and physical violence, sexism and entrenched prejudices of common sense. This study hopes to contribute to the debates about gender, sexuality and education, to the transformation of psychologists and to contribute with the importance of insertion of these issues in primary education and the training of specialized professionals to deal with this issue. Keywords: Sexuality and gender; Elementary School; Psychology; Inclusion SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 13 2 DIFERENÇAS CONCEITUAIS ENTRE SEXO, GÊNERO E ORIENTAÇÃO S EXUAL ..... 17 2.1 SEXO NEM TÃO BIOLÓGICO .................................................................................................. 19 2.2 UMA VISÃO PARA ALÉM DAS POLARIDADES DE GÊNERO .......................................... 20 2.3 ORIENTAÇÃO SEXUAL ............................................................................................................. 22 2.4 TEORIA QUEER E A SUBVERSÃO DAS IDENTIDADES ................................................... 23 3 LIMITES E POSSIBILIDADES DE INSERÇÃO DAS QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL ..................................................................... 25 3.1 A ESCOLA E SEU POTENCIAL NA FORMAÇÃO................................................................. 28 3.2 A INVENÇÃO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO NA EDUCAÇÃO .......................................... 32 3.3 PSICOLOGIA E A SUBVERSÃO DOS DISCURSOS DOMINANTES ................................ 34 3.4 INCLUSÃO ESCOLAR................................................................................................................na educação: por uma escola democrática, inclusiva e sem censuras , 2015. 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Em épocas passadas era inaceitável que as mulheres estudassem, trabalhassem fora do lar, votassem etc. Com o passar dos tempos elas tiveram diferentes participações no trabalho. Á vista disso, as mulheres passaram a ocupar mais espaços e estarem mais presentes em diversos setores (OLIVEIRA, 2011). Na atualidade, apesar de conquistas das mulheres em diversos espaços essas ainda enfrentam as desigualdades salariais, as violências e as discriminações. Elas não dispõem de acesso igualitário no mercado de trabalho, na educação ainda são marcadas as questões relacionadas ás mulheres no campo da reprodução do machismo, onde os meninos tem mais liberdade que as meninas etc. (SANTOS e OLIVEIRA, 2010). Deste modo, existe uma diferença salarial entre mulheres e homens; as mulheres sofrem violências físicas e simbólicas devido á ideia de que os homens são superiores, não apenas em questão de força mas também economicamente; de que mulheres são dependentes emocionalmente e financeiramente (SANTOS e OLIVEIRA, 2010). Nos dias atuais a comunidade LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, travestis, trangêneros) também enfrenta as desigualdades, as travestis, por exemplo, não tem espaços em determinados campos de trabalho, a não ser em salões de beleza ou com a prostituição, esses ficam então vulneráveis a vários tipos de violência, além das que costumam sofrer diariamente (OLIVEIRA, 2011). Por medo das violências alguns homossexuais evitam lugares abertos, evitam andar de mãos dadas e mostrar afeto ao seu companheiro ou companheira, dentre outras. Nos dias atuais esses sujeitos clamam por segurança, tendo em vista que há um alto índice de crime contra essas pessoas (CASSEMIRO, 2015). Sendo assim, por que não começar desde cedo a desconstruir padrões que geram violência e exclusão? Nessa perspectiva faz-se necessário definir gênero e sexualidade, pois esses conceitos são diferentes, dessa forma entende-se que gênero é a diferença entre os 14 comportamentos masculinos e femininos que são esperados de homens e mulheres e por sexualidade compreende-se como a atração afetivo-sexual por algum individuo. Gênero e sexualidade são aspectos distintos e que não devem ser confundidos (JESUS, 2012). Visto que as psicólogas e os psicólogos compõem uma categoria profissional, que faz parte da equipe que integra o contexto escolar, desenvolvendo o interesse em discutir as questões de gênero e sexualidade nesse âmbito, o estudo se faz pertinente por que seus resultados visem conduzir esse profissional a construir meios reflexivos sobre a importância da inserção dessas questões no ensino fundamental, como uma das principais referencias na vida do ser humano, a escola pode atuar como uma ferramenta de conscientização da sociedade contra praticas de violência contra as mulheres e a comunidade LGBT. Sendo a escola uma instituição importante, nessa perspectiva questiona-se: Qual a importância da inserção das questões de gênero e sexualidade no ensino fundamental? A motivação para esse estudo partiu do meu interesse sobre as questões sociais que abordam temas como as questões de gênero e sexualidade. Além disso, o que impulsiona a realização dessa pesquisa é o fato de ser mulher e viver numa sociedade machista e preconceituosa. É ver diariamente nos noticiários casos de intolerância à diversidade sexual e a violência de gênero. Para Silva (2014) é no ensino fundamental que as relações de gênero e sexualidade entre os alunos são percebidas de forma nítida. Á vista disso, a autora compreende que essas questões estão presentes através das distinções nas brincadeiras, nas atividades escolares, nos sentimentos e emoções carregados de energia sexual e no comportamento desigual de meninas e meninos. Silva (2014) certifica que a escola é responsável por explicar sobre esses temas. Sendo então papel da escola de contribuir com as informações sobre gênero e sexualidade desta forma passar informações sobre a construção do gênero, sobre o feminino e masculino e as concepções que se tem sobre o homem e a mulher. De acordo com o Pereira e Bahia (2011, p. 52) “a escola precisa contribuir com esse movimento de emancipação, de tornar a diversidade algo discutido para que o ser humano possa relacionar-se melhor com ele próprio e com os outros.” Neste sentido, este campo de aprendizado torna-se referência para o reconhecimento e o contato com a singularidade. 15 A pesquisa desenvolvida é importante, pois conduz a reflexões sobre a diversidade que nos constitui, a conscientização sobre a violência contra a mulher e o preconceito em relação à sexualidade. Este trabalho faz-se necessário para compreender o papel de a educação ensinar as diferentes formas de se relacionar e a existência das diferenças para que previna a desigualdades, a violência simbólica e física, do sexismo e dos preconceitos enraizados do senso comum. Essa pesquisa tem como objetivo geral discutir sobre a inserção das questões de gênero e sexualidade no ensino fundamental. Como objetivos específicos o estudo irá descrever conforme a literatura as diferenças conceituais de sexo, gênero e orientação sexual e discutir os limites e possibilidades da inserção dessas questões no ensino fundamental. Em decorrência da delimitação dos objetivos, optou-se pela pesquisa qualitativa que é uma proposta definida como uma sequência de atividades que envolvem uma seleção de observações, interpretações e reflexões; e bibliográfica onde é realizada a partir de pesquisas já elaboradas, constituído principalmente de livros e artigos científicos (GIL, 2002), na qual foram priorizados textos de autores renomados na área tais como Louro, Preciado, Bento, e outros. Com o propósito de construção do estudo, à coleta de dados teve inicio no primeiro semestre do ano de 2017, sendo realizado em sites como o Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino Americana do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Google Acadêmico, Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC), além de livros e revistas publicados no período de 1997 à 2017, possibilitando o entendimento da inserção das questões de gênero e sexualidade no ensino fundamental. A escolha desses textos se deu prioritariamente em função da facilidade de acesso aos mesmos, que abordam de forma clara e precisa, temas que dizem respeito aos objetivos do estudo. Para a pesquisa foi utilizado os descritores gênero e sexualidade; gênero, sexualidade e educação; psicologia, sexualidade e gênero. O projeto do estudo não necessitou de avaliação e aprovação por um Comitê de Ética em Pesquisa, por se tratar de estudo bibliográfico, que compreende a pesquisa, através da revisão de artigos, com dados secundários, que discorriam sobre essa temática. Assim, tivemos o cuidado de não se utilizar de plágio, nem apropriação intelectual indevida, referendando todos os autores utilizados, estando dispostos, conforme a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). 16 O presente trabalho está dividido em dois capítulos, no capitulo I serão apresentados ás diferenças conceituais entre sexo, gênero e orientação sexual, pois ainda há muita confusão em relação a esses conceitos. Também será apresentado o biscoito da sexualidade que tende a explicar essas questões de forma didática apesar das suas limitações. Diante disso é possívelperceber nesse capitulo que os conceitos são inesgotáveis. No capitulo II é exposto os limites e possibilidades de inserção das questões de gênero e sexualidade, onde é mostrada a importância da escola para a formação dos sujeitos e os impactos de uma educação que normatiza e, as violências de gênero e sexual, além das desigualdades. Também serão discutidos os mecanismos utilizados para o impedimento da inserção desses temas, além da contribuição da psicologia na criação de políticas públicas para formação de pessoas capacitadas para lidar com essa temática. Optou-se por dois capítulos pois eles contemplam o tema em questão. Por se tratar de uma pesquisa exploratória e de curto prazo não optou por ir a campo e fazer entrevistas com as psicólogas e psicólogos nas escolas que demandariam a aprovação do conselho de ética. 17 2 DIFERENÇAS CONCEITUAIS ENTRE SEXO, GÊNERO E ORIENTAÇÃO SEXUAL Antes de falar sobre a inserção das questões de gênero e sexualidade no ensino fundamental se faz necessário dialogar sobre as diferenças entre sexo, gênero e orientação sexual, pois as pessoas ainda se confundem em relação a esses conceitos, de acordo com a autora Louro (1997, p.8) “na prática social tais dimensões são, usualmente, articuladas e confundidas”. Não há pretensão de se esgotar os conceitos, pois eles são complexos, visto que segundo Oliveira (2017) há corpos que não se adéquam ou não condizem com o que é imposto socialmente. Para auxiliar na compreensão desses conceitos existe uma imagem chamada de Biscoito Sexual que é um desenho onde se apresenta de forma didática a questão do sexo biológico, da orientação sexual e das questões do gênero (KILLERMANN, 2017). Porém, posteriormente farei uma critica à essa explicação didática. De acordo com o criador do biscoito, Killermann (2017) a identidade de gênero, está relacionado a quem você pensa que é. Desta forma, como é mostrado na Figura 1, do lado esquerdo está “mulher” e do direito está “homem” e no meio encontra-se os “andrógenos”. Assim, quando nos referimos a nós mesmos como homem ou mulher, estamos se referindo a identidade de gênero. Já a expressão de gênero está relacionada á forma que você ira se apresentar para a sociedade através da sua forma de agir, de se vestir, dentre outros. Esta é identificada por feminino e masculino e no meio é a forma mista ou ambígua de expressar o gênero (KILLERMANN, 2017). Enfatiza-se aqui o comportamento, isto é, a compreensão que determinados comportamentos são masculinos por pertencerem ao homem e vice-versa. Em relação ao sexo biológico, do lado esquerdo temos “fêmea” e do direito “macho”, no meio encontra-se um termo novo chamado “intersexo”. Aqui considera- se primordial para a diferença a anatomia do corpo ou em último caso as genitálias. Entende-se que ter um pênis significa ser homem e vice-versa. Sexo aqui é tratado na dimensão biológica (KILLERMANN, 2017). De acordo Killermann (2017) orientação sexual é por quem você sente atração, desta forma encontra-se em um dos lados “heterossexuais” e do outro “homossexuais”, no meio estará os “bissexuais”. Ou seja, a orientação sexual 18 diferente das outras dimensões, e refere-se a sentimentos e afetos por outros sujeitos. É importante diferencia orientação sexual de identidade de gênero, uma vez que são umas das confusões mais comuns. Sendo assim, conforme mostra a imagem, a identidade de gênero, a expressão de gênero, o sexo biológico e a orientação sexual são independentes um do outro. Uma não determinar a outra (KILLERMANN, 2017). Figura 1: Biscoito da sexualidade FONTE: KILLERMANN (2017) 19 2.1 SEXO NEM TÃO BIOLÓGICO O sexo é entendido como biologicamente determinado - como fêmea e macho e com alguns sujeitos sendo categorizados como intersexuais de acordo com seus traços orgânicos como os órgãos reprodutivos e genitais, os cromossomos e os níveis hormonais. Indo de encontro com o senso comum o sexo não se limita a uma dualidade (binarismo ou dimorfismo sexual), mas como um contínuo complexo de atributos sexuais (JESUS, 2012). Souza e Meglhiorati (2017) apud Aran (2006) diz que em relação ao conceito do sexo biológico, este é considerado como os órgãos reprodutivos dos quais são programados e fixados ao corpo orgânico, intitulado por vagina, pênis ou ambos. Essa característica biológica que constitui esse corpo orgânico não necessariamente definirá a identidade de gênero, muito menos a orientação sexual. O termo sexo é utilizado para diferenciar as anatomias externas e internas do corpo humano. Essas diferenciações anatômicas, em geral, são dadas no momento do nascimento, porém há atribuições de significados que a elas serão relacionadas e que são fortemente históricos e sociais (WEEKS, 2000). Segundo Sterlling (2001), a segunda onda do feminismo afirmava que o sexo é diferente do gênero. Desta forma, ter pênis ou vagina diz respeito a uma diferença de sexo, e esse termo passou a corresponder a anatomia e o desempenho fisiológico do corpo. Até o século XVIII o homem era o único modelo de sexo e este era tido como perfeito. Em torno do século XVI e XVII a mulher era vista como um homem invertido e quando o clitóris foi descoberto ele recebeu o nome de pênis de fêmea. Desta forma a sociedade entendeu que a mulher era então um homem imperfeito devido a sua anatomia que recordava o órgão masculino (SOUZA e CARRIERI, 2010). As pessoas que nascem com os dois traços biológicos são conhecidas pela medicina como hermafroditas e pelos estudiosos da sociologia como intersexo (SOUZA e MEGLHIORATI, 2017) numa tentativa de abandonar o termo hermafrodita – que é patologizante e medicalizante. O intersexual é aquela pessoa em que o corpo diverge da categoria de macho e fêmea, no que se diz aos aspectos dos cromossomos e aos órgãos genitais, onde pode ocorrer, por exemplo, a ausência da vagina, um pênis excessivamente pequeno ou um clitóris muito grande, testículos que não descem, coexistência de 20 ovários e tecidos testiculares, dentre outros (JESUS, 2012). Assim, vemos que a compreensão de sexo varia desde o estritamente biológico a outras teorias que apontam os significados atribuídos ao corpo e as normas que produzem o binarismo. 2.2 UMA VISÃO PARA ALÉM DAS POLARIDADES DE GÊNERO A autora Jesus (2012) vai dizer que o gênero se relaciona com as formas de se identificar e ser identificada como masculino e feminino, e a partir dessa classificação social e pessoal dos sujeitos como homem e mulher é que ira orientar os papéis de gênero e a identidade de gênero. O gênero está em constante construção e transformação, e através dos seus meios sociais, dos múltiplos discursos, símbolos, das representações e práticas, é que os indivíduos se constroem como femininos e masculinos. Há uma transição nessa construção, pois existe uma transformação aos longos dos anos, como também na articulação com as historias pessoais, as identidades sexuais, étnicas, de raça, de classe etc (LOURO, 1997). Com os estudos feministas, o gênero deixou de ser visto apenas como diferença sexual e passou a ser considerada uma construção social, ou seja, homens e mulheres assumem comportamentos e papéis culturalmente estabelecidos. A escola, a igreja, a família, as mídias, as instituições legais e médicas são importantes nesse processo de construção do gênero (LOURO, 2008). Ainda para a autora acreditamos que cor rosa é de menina, azul é de menino, jogar bola é coisa para menino e brincar de boneca é coisa para menina; mulheres são reprimidas sexualmente enquanto os homens são incentivados desde a infância. Somos ensinados também a maneira adequada de nos vestir, nos sentar, o que fazer para conquistar um parceiro(a) etc. Bento (2006)afirma que se iniciou a observação de que feminino e masculino é construído nas relações e na disputa de poder. A idéia de que existe apenas o gênero masculino e feminino produz um pensamento universal, onde são atribuídas certas características que são compartilhadas por todos os sujeitos. Desta forma existe um corpo, sem conteúdos, a espera de um selo da cultura que através de vários significados culturais atribuirá o gênero. Discutir a aprendizagem de papéis masculinos e femininos parece remeter a análise para os indivíduos e para as relações interpessoais. As 21 desigualdades entre os sujeitos tenderiam a ser consideradas no âmbito das interações face a face. Ficariam sem exame não apenas as múltiplas formas que podem assumir as masculinidades e as feminilidades, como também as complexas redes de poder que (através das instituições, dos discursos, dos códigos, das práticas e dos símbolos...) constituem hierarquias entre os gêneros (LOURO, 1997, pg 8). Bento (2016) parte do pressuposto de que a explicação para essa constituição hierárquica e binária dos gêneros ocorre pelo fato dos homens sempre terem habitado um espaço público enquanto as mulheres estariam voltadas para o campo doméstico. Desta forma, “a mulher é tomada como sinônimo de família, sendo que nesse ponto, não existe qualquer menção ao pai” (p 37). Sendo assim, o feminino está sempre no âmbito da subordinação; o masculino naturalizado. Já no final do século XX houve uma reformulação dos pressupostos teóricos no âmbito dos conhecimentos acerca das “mulheres”, com isso fortificou-se os estudos a respeito das relações de gênero. O objetivo era a desconstrução dessa mulher universal e subordinada, mostrando que existem múltiplos fatores que se articulavam para a construção das identidades de gêneros. Desta forma buscaram- se nas classes sociais, nas etnias, nas nacionalidades, nas orientações sexuais os subsídios fundamentais para “desnaturalizar e dessencializar a categoria mulher” (p, 38) que se fraciona em brancas e conservadoras, negras analfabetas e racistas, dentre outras (BENTO, 2006). Louro (1997) considera que conceber o gênero como gerado numa idéia de masculinidade e feminilidade, pressupõe rejeitar e/ou desconsiderar todos os indivíduos que não se encaixam em um desses modelos. As pessoas que formam a dicotomia, não são somente homens e mulheres, mas são homens e mulheres de diversas raças, religiões, idades, sexualidade, etc. Para Jesus (2012) o termo transgênero compreende diferentes grupos de pessoas que não se identificam com os papeis de gêneros que lhes foram atribuídos ao seu nascimento. Alguns sujeitos não se encaixam na identidade de gênero que a ela foi determinada. Diante do exposto há uma multidão de possibilidades na identificação dos indivíduos com algum gênero, pois existe uma variedade de experiências humanas sobre essa identificação (JESUS, 2012). 22 Ainda de acordo com a autora Jesus (2012), uma pessoa pode ter um pênis e ter uma identidade de gênero de mulher e vice-versa. Adotar um determinado padrão ou papéis de gênero não está relacionado aos nossos genitais, aos níveis hormonais ou aos cromossomos. Sendo assim. O pênis ou a vagina não é determinante na identidade de gênero, uma vez que ela não é uma consequência do corpo, mas de uma compreensão da subjetividade e interna. 2.3 ORIENTAÇÃO SEXUAL A orientação sexual diz respeito à atração afetivossexual por uma pessoa de algum gênero/s (JESUS, 2012). Diante do exposto, entende-se que uma pessoa se sente atraída, seja romanticamente, fisicamente ou emocionalmente por outro/a. De acordo com Weeks (2000) é possível entender que a sexualidade é formada pela nossa subjetividade que dirá quem e o que nós somos e pela sociedade, pois está se preocupa com a vida sexual dos sujeitos. Ambas estão ligadas, pois no meio delas está o corpo e suas potencialidades. A autora Jesus (2012) aponta que existem várias formas de expressar a sexualidade, sendo: homossexualidade – caracterizada pela atração sexual e afetiva entre pessoas do mesmo sexo; bissexualidade - caracterizada pela atração sexual e afetiva entre pessoas tanto do mesmo sexo como do sexo oposto; heterossexualidade - Caracterizada pela atração sexual e afetiva entre pessoas do sexo oposto; assexualidade – Caracterizada por pessoas que não sentem atração sexual por sujeitos de qualquer sexo. E Segundo Oliveira et al (2016) a pansexualidade – Caracterizada pela atração afetiva e sexual por qualquer individuo independente do seu sexo. Em relação á construção de uma identidade sexual, antes dos anos de 1950, Toledo e Pinafi (2012) apontam que apenas os homossexuais com comportamentos femininos eram considerados e se consideravam homossexuais, e os outros com comportamentos tidos como masculinos e com funções tidas como masculinas, ou seja, ativos, não eram vistos e não se consideravam homossexuais. Com o crescimento urbano, criou-se uma subcultura denominada liberação gay, com isso, houve uma atribuição de que o homossexual era detentor de um desejo incontrolável e as pessoas que se desviavam da norma heterossexual foram consideradas doentes que deveriam ser curadas. 23 Podemos dizer que o desejo homoerótico existe em todas as sociedades em todos os períodos, de várias formas, sendo aprovada ou desaprovada, já o homossexual, não!. E é a partir do século XIX que é desenvolvida uma categoria homossexual e uma identidade ligada a ela. Com a Industrialização na Europa e America do Norte é que houve a oportunidade do crescimento das identidades homossexuais tanto masculinas como lésbicas (WEEKS, 2000). A produção da heterossexualidade como norma, faz com que haja uma desaprovação da homossexualidade, deste modo as pessoas que sentem atração ou desejo diferente da que é imposta, são silenciadas e/ou segregadas. A demonstração de afeto entre homens são a todo tempo controladas e impedidas, são evidentemente codificadas, porém, como em diversas práticas sociais, estão em constante transformação (LOURO, 2000). Para o autor Weeks (2000) a lógica de uma identidade sexual é ambígua, pois no mundo contemporâneo, é um pensamento totalmente essencial em que é ofertado um envolvimento de unidade individual, de posição pessoal, e até mesmo de compromisso político. É incomum ver pessoas afirmando sua heterossexualidade, pois essa é a maior suposição. Porém assumir sua homossexualidade tem significado de pertencimento, é manifestar seu lugar em relação ás normas dominantes. 2.4 TEORIA QUEER E A SUBVERSÃO DAS IDENTIDADES Pode-se traduzir a palavra “queer” por aquilo que é estranho, incomum, bizarro, peculiar, anormal, etc. Por muito tempo foi utilizada de forma pejorativa para com homens gays e mulheres lésbicas, porém os movimentos assumiram esse termo atribuindo o significado de oposição a normalização e consequentemente a heteronormatividade imposta pela sociedade (LOURO, 2001). Na visão da autora Preciado (2011), entende-se que os corpos não estão mais docializados, considerando-se que os sujeitos passam por um processo de desidentificação, ou seja, não se enquadram nos padrões que são produzidos pela sociedade. Desse ponto de vista, essa não identificação aparece com as bichas que não são considerados homens, com as trans que também não são homens nem mulheres, e das sapatas que não são classificadas como mulheres. 24 Nomear um corpo em menina ou menino supõe que o sexo biológico é um fato que irá determinar o gênero e a orientação sexual, a partir disso os corpos serão masculinizados ou feminilizados. Esse sentido considera que o sexo é um dado que antecede a cultura, desta forma é concedido um caráter inalterado, binário e a- histórico. Porém há corpos que não se conformam e, desobedecem e subvertem essa lógica (LOURO, 2004). A política das pessoas queer fogeda lógica de identificação homem/mulher e das práticas heterossexuais/homossexuais. Entende-se que há uma pluralidade de corpos que se opõem aos regulamentos que ditam o que é normal ou anormal. Então se encontra uma multidão de diferenças que resistem as políticas do sexo (PRECIADO, 2011). Esse modelo baseado na diferença sexual nos faz pensar que há um acordo entre sexualidade, gênero e corpo. Entende-se que por ter uma vagina você é mulher, emotiva, materna, reprodutora e heterossexual, se você tem um pênis, você é homem, racional, paterno, procriador e heterossexual (BENTO, 2006). A população queer que é silenciada passa a se politizar e a partir disso transforma o estigma voltado para essas pessoas em orgulho, seja orientação sexual, de gênero, étnico, dentre outros. Desta forma, passam a ganhar visibilidade, porém há controvérsias onde algumas áreas sócias passam a mostrar crescente aceitação da multiplicidade sexual e, por outro lado, os campos tradicionais retomam suas ofensas, criando campanhas para a volta de princípios tradicionais da família até repulsa e violências físicas (LOURO, 2001). Os sujeitos que ultrapassam a barreira do gênero ou da sexualidade são vistos como desviantes. São considerados imigrantes e clandestinos que fogem do lugar que deveriam estar e essas pessoas são concebidas como delituosos e devem sofrer as penalidades. Desta forma, passam a ser corrigidos, rotulados e ignorados como minorias (LOURO, 2004). A sociedade normatiza, policia, vigia o que consideram como prováveis descuidos e desvios. Esses deslocamentos se encontram em mulheres que gostam de outras mulheres, com as que não querem ser mãe – mesmo que heterossexuais, a partir de homens e mulheres que reorganizam seus corpos/gêneros e lutam para ser reconhecidos pelas suas identidades, dentre outros. Percebe-se que há múltiplos desejos que se afastam dessa condição biológica e hormonal (BENTO, 2006). 25 Há sujeitos que não condizem com o projeto social de gênero, ou de corpo, ou os dois. Tendo em vista esse universo que é o gênero e as possibilidades de transitar por esse mundo, pode-se então haver uma auto identificação como trans ou não. Pois há uma pluralidade de alternativas onde umas são mais reconhecidas que outras (OLIVEIRA, 2017). O biscoito sexual utiliza três posições para cada dimensão de sexo, gênero e orientação sexual. Os estudos queer apontam que não existem três ou quatro lugares/possibilidades, mas que cada um de nós tem um gênero singular – e que as identidades colocadas em letras podem ser interessantes para pensar uma luta política, mas não como representação da realidade dos corpos. Oliveira (20017) afirma que não existe uma definição de homens e mulheres perfeitos nem de feminilidade ou masculinidade. Sendo assim, há mais gêneros e orientações sexuais do que isso – uma proliferação sem fim. 26 3 LIMITES E POSSIBILIDADES DE INSERÇÃO DAS QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE NO ENSINO FUNDAMENTAL Antes de refletir a importância da escola, é necessário contextualizar as questões de sexualidade e gênero e como essas trazem implicações na vida dos sujeitos. • Violência contra a mulher Conforme a Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, uma pesquisa do DataSenado em 2013 sobre violência contra a mulher estima que cerca de 13 milhões e 500 mil mulheres passaram por algum tipo de agressão. As vitimas de violências se encontram em todas as partes da sociedade. E na maioria dos casos o agressor é o próprio companheiro, desta forma, a violência domestica e familiar é a que tem maior impacto nos índices de homicídios contra mulheres, intitulado como feminicidio (BRASIL, 2015). O DataSenado (2013) aponta através de um gráfico quantas pessoas conhecem mulheres vitimas de violência seja física, psíquica, moral, patrimonial ou sexual, e qual a idade e escolaridade dessas mulheres. Figura 2: Quadro de violência doméstica ou familiar FONTE: Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, Secretária de Transparência, DataSenado (2013). O quadro aponta que 88,8% das pessoas entrevistadas conhecem alguma mulher que passou por algum tipo de violência doméstica e familiar. É possível perceber que a violência simbólica ou física atinge as adolescentes, jovens, adultas, idosas e também ocorre com mulheres de níveis de escolaridades diferentes. 27 A Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres entende como violência física qualquer ação que cause danos a saúde corporal e integridade da mulher. Já a violência psicológica é compreendida como qualquer atitude que cause danos emocionais, prejuízos á saúde mental, baixa auto-estima ou que controle seus atos, comportamentos, convicções, que humilhe, ameacem, constranja, ridicularize, dentre outros (BRASIL, 2015). Em relação á violência sexual é considerada como a atitude que imponha a estar presente, a manter, ou se envolver em relações sexuais não desejadas, além de limitar e anular o exercício dos seus direitos sexuais e reprodutivos. A violência patrimonial é qualquer ação que caracterize reter, subtrair, destruir parcialmente ou totalmente os objetos, documentos, materiais de trabalho, dentre outros (BRASIL, 2015). A violência moral está relacionada à atitude que represente injúria, difamação ou calúnia. Assim sendo, é a violência contra mulheres é classificada na influencia do gênero, ou seja, as construções sociais, culturais e políticas do feminino e masculino, assim como a vinculação entre mulheres e homens. Desta forma, requer mudanças em níveis culturais, sociais e educativas para o confronto desse fenômeno (BRASIL, 2015). • Violência contra LGBT De acordo com o Grupo Gay da Bahia (2016), ocorreram no Brasil no ano de 2016, 343 mortes de LGBTs+ (lésbica, gays, bissexuais, transgênero, travestis, transexual, dentre outros) e a cada 25 horas um LGBTs é brutalmente assassinado. Segundo Junqueira (2009) diante do exposto, é possível perceber que a homofobia é um caso que está ligado á discriminação, preconceitos e violência contra LGBT+. A homofobia é uma trágica realidade que afeta a nossa sociedade brasileira, geralmente ela aparece de forma mascarada, através de brincadeira e de forma subliminar, mas não significa que seja menos grave e danosa. O combate a essa mazela social pode fazer diferença entre a vida e a morte (SANTOS, 2013). O machismo acredita que a norma do comportamento sexual humano é a heterossexualidade, portanto é perfeita e auspiciosa. Qualquer outra prática sexual é considerada como anormal, negativa e inferior e antinatural. A partir da perspectiva reducionista, são consideradas lésbicas as mulheres que apresentam 28 comportamento masculino e são considerados gays aqueles homens que expressam feminilidade. Neste caso, as ações violentas e desfavoráveis para com os sujeitos que atravessam os limites dos gêneros são idéias desta forma de sexismo1 (SANTOS, 2013). Desta forma é preciso pensar em mecanismos para o combate desses dois tipos de violência, de que forma é possível trabalhar para que haja menos machismo e lgbtfobia e uma construção de sociedade mais igualitária. 3.1 A ESCOLA E SEU POTENCIAL NA FORMAÇÃO Para compreender a escola como uma potencia na formação dos sujeitos Paulo Freire (2001) reflete que: Enquanto preparação do sujeito para aprender, estudar é, em primeiro lugar, um que-fazer crítico, criador, recriador, não importa que eu nele me engaje através da leitura de um texto que trata ou discute um certo conteúdo que me foi proposto pela escola ou se o realizo partindo de uma reflexão crítica sobre um certo acontecimentos social ou natural e que, como necessidade da própria reflexão, me conduz à leitura de textos que minha curiosidade e minha experiênciaintelectual me sugerem ou que me são sugeridos por outros (FREIRE, 2001, p. 260). Desta forma, a escola é um lugar privilegiado de aquisição de conhecimentos, onde crianças, jovens e adultos convivem, por isso é necessário ser um local que possibilite a transmissão de informações atualizadas do ponto de vista cientifico, onde se deve discutir tabus e preconceitos (MOURA, et al, 2011). Percebe-se que há uma censura nas discussões das questões de gênero e sexualidade em sala de aula, pois é tido como um assunto polêmico em vários sentidos e que ainda gera muito desconhecimento e preconceito. Inclusive em debates aleatórios com amigos é possível perceber atitudes e posturas preconceituosas (SILVA, 2014). Tal como Silva, percebe-se que ao falar de gênero e escola, há uma tensão, visto que é uma temática ainda pouco ou quase nada discutida no contexto escolar. Um dos propósitos do ensino é criar possibilidades para que as crianças e os jovens se integrem na sociedade de forma independente e critica, obtendo 1 Sexismo é o preconceito ou discriminação baseada no sexo ou gênero de uma pessoa. O sexismo pode afetar qualquer gênero, mas é particularmente documentado como afetando mulheres e meninas. . 29 condições para o exercício da cidadania. Sendo assim, a escola deve possibilitar que os alunos e alunas estejam aptos de se indignar, de forma critica, com as desigualdades sociais (PATARO e ALVES, 2011). Embora esse seja o papel da escola, há uma rejeição social à esses temas, e espera-se que a escola apenas prepare para o mercado de trabalho. Em geral a preocupação no ambiente escolar está voltada para os conhecimentos específicos e a formação para promoção da cidadania fica em segundo plano. Contudo, entende-se que a escola vai além dos conteúdos curriculares, pois ela também é responsável pelo desenvolvimento das condições físicas, cognitivas, psíquicas e culturais para que as alunas e alunos tenham uma vida benéfica (PATARO E ALVES, 2011). Para Silva (2014), é no ensino fundamental que aparece de forma nítida a relação de gênero e sexualidade entre os alunos. Elas são percebidas nas brincadeiras que estão relacionadas aos sentimentos, as emoções e sensações que envolvem a energia sexual, presente inclusive na forma de efetuar as atividades escolares, na arrumação dos materiais de estudo e nos comportamentos diferentes de meninas e meninos. Para Nogueira (2010), o papel da mulher vem mudando no desenrolar dos tempos em vários campos, no mercado de trabalho, na educação e na política. À educação concerne deixar claro que tanto homens quanto mulheres tem os mesmos direitos e deveres, sempre deixando o preconceito e a discriminação de lado ao realizá-lo. Diante dessa observação se torna necessário que o educador tenha uma prática pedagógica que realize contribuições para a promoção de uma educação igualitária. No ambiente escolar a todo o momento os corpos das meninas e dos meninos estão sendo avaliados, medidos e classificados, desta forma são corrigidos e moldados conforme as normas sociais. Sendo assim, esses corpos irão se tornar aptos, lucrativos e dóceis. É um trabalho continuo onde se caracterizam e geram divisões e distinções. Um procedimento que ao atribuir “traços” corpóreos, as concebe, esculpindo e implantando diferenças (LOURO, 2000). De acordo com Louro (2000) a produção das disciplinas é baseada numa perspectiva masculina e heterossexual, sendo assim, as experiências e os problemas das mulheres e dos homossexuais são ignorados. A partir dessa lógica 30 qualquer ato que indique a atração por uma pessoa do mesmo sexo é exorcizada. A idéia de que existe esse desejo entre meninos é assustadora. Louro (2000) diz que a masculinidade se forma em contraposto a feminilidade e também aos outros modos de exercer a masculinidade. Os corpos devem mostrar que rejeitam qualquer traço de homossexualidade e também não podem sugerir nenhuma feminilidade. Nesse entendimento, discutir nas escolas sobre gênero e sobre as suas diferentes identidades é denunciar as violências que esses sujeitos sofrem devido aos papéis sociais que são denotados aos sexos biológicos, alem de mostrar cientificamente que as construções sociais que ditam o modo “natural” de agir, que não é percebido pelos indivíduos (OLIVEIRA, 2011). No cotidiano escolar é possível perceber as manifestações das questões do gênero e sexualidade dentro da sala de aula e também nos ambientes não formais como nos corredores, no banheiro, no recreio, dentre outros. Nesses espaços ocorrem situações que são consideradas como sexualizadas, como preconceituosas e exclusivas ou inclusivas, elas se materializam em brincadeiras ou até silenciamento dessas questões, freqüentes em sala de aula (LIMA E SIQUEIRA, 2013). Oliveira (2011) afirma que a escola tem como papel orientar sobre as diferentes formas de relações, de ensinar o respeito e prevenir assim os pré- conceitos estabelecidos pelo senso comum. Pois existem pessoas que estão em sofrimentos seja por sua orientação sexual, por não se adequarem ao gênero estabelecido ou que não se encaixam nos padrões determinados socialmente. A educação tem como função lutar por uma sociedade onde as oportunidades sejam igualitárias e amenizar as opressões através do diálogo com as vivencias de meninos e meninas. Falar de gênero e sexualidade e as diversas violências que acontecem devido à norma, onde é imposto a forma correta de se viver, é falar sobre agressões físicas e simbólicas, sobre mortes, sobre problemas psíquicos de sujeitos (OLIVEIRA, 2011). Faz-se importante o debate de questões de gênero e sexualidade na metodologia de ensino aprendizagem, “pois a escola não pode mais simplesmente encaminhar ou marcar horário para tratar destas questões, cabe a ela se aprofundar em conhecimentos científicos historicamente construídos” (p, 4). Porém é possível perceber uma posição de fuga da responsabilidade desse educador. A educação 31 não se limita a conteúdos específicos de cada área do conhecimento (NOGUEIRA, 2010). Sendo assim, faz-se necessário que os educadores reflitam a forma de pensar, agir, dizer, produzir, a realidade que é diversa e complexa que envolvem os sujeito da educação. É importante pensar na contribuição da educação na construção de uma sociedade igualitária em todos os níveis das relações humanas, e a sua função social no tratamento pedagógico das questões de gênero e sexualidade (NOGUEIRA, 2010). Em relação á atuação do professor ou professora, é importante que este saiba manejar as informações recebidas para que seja almejada a produção do respeito e a quebra dos estereótipos e dos preconceitos. Desta forma é necessário a busca por novas posturas, além de estudos atualizados e um trabalho em sala de aula que promova a construção da igualdade (SILVA et al, 2011). O trabalho do docente em aula deve acontecer de maneira a desmistificar posicionamentos preconceituosos, debater ideias, a produção conhecimentos a partir do que as crianças já carregam consigo, para que seja possível a compreender as múltiplas diversidades e que cada um tem suas características e que não é por esses motivos que não devam ou merecem ser impedidos de assumir e exercer as atividades da sua escolha (SILVA et al, 2011). A utilização de uma linguagem unicamente masculina nos livros didáticos que não evidencia a forma feminina acaba por não conceber as meninas e mulheres como indivíduos próprios, elas são a todo o momento consideradas como parte de uma classe masculina (BRASIL, 2009). Em muitos momentos a escola não percebe que a linguagem adotada é segregadora e ao ser questionado explica sobre as normas da língua portuguesa que ao se relatar aos homens, pressupõe mulheres, e que a sociedade entendee funciona da mesma maneira. Percebe-se que dessa forma há um domínio do masculino sobre o feminino (BRASIL, 2009). Patarro e Alves (2011) sugerem um olhar diferente em relação ao papel da escola. Desta forma, a educação precisa preparar as crianças e jovens para a construção de uma sociedade mais justa e solidária. Sendo assim, é necessário que os meninos e meninas vivenciem a justiça, a cidadania, a igualdade e o reconhecimento direitos humanos no âmbito escolar. 32 Silva (2014) defende que os alunos e alunas têm o direito a um ensino que aborde as questões de gênero e sexualidade para que seja possível possibilitar a consciência desses sujeitos que são livres para viver e avaliar sua sexualidade, buscando o diálogo e a interação sobre a pluralidade de gêneros e sexualidades existentes nas escolas e na sociedade Junqueira (2009) acrescenta que as discussões para o enfrentamento das descriminações por orientação sexual e gênero nas escolas devem ir além do combate á violência. Se for limitado a ela, pouco haverá contribuição para a construção de uma cultura envolvida com a democracia. 3.2 A INVENÇÃO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO NA EDUCAÇÃO Em uma discussão em volta do Plano Nacional de Educação (PNE), a expressão “ideologia de gênero” foi usada por pessoas que assumem posições conservadoras, fundamentalista e reacionária relacionado ás identidades de gênero e orientação sexual. Afirmando que a ideologia desconstrói as famílias que esses consideram como tradicionais (REIS e EGGERT, 2017). De acordo com Varela (2016) o Papa Francisco deu uma entrevista em um vôo de volta a Roma, onde disse: "O que eu falei foi sobre a maldade que hoje se faz com a doutrinação da ideologia de gênero. Um pai francês me contava que, à mesa, ele estava falando com os filhos (...) e perguntou ao menino de dez anos:'O que você quer ser quando crescer?'. 'Uma menina!'. E o pai se deu conta de que, nos livros da escola, ensinava-se a ideologia de gênero. E isso é contra as coisas naturais. Uma coisa é que uma pessoa tenha essa tendência ou essa opção, ou mesmo aqueles que mudam de sexo. Outra coisa é fazer o ensino nas escolas nessa linha, para mudar a mentalidade [...] (VARELA, 2016 apud FRANCISCO, 2016). É indispensável salientar que em nenhum dos documentos finais das conferencias de educação e nem o PNE, faz referencia a expressão “ideologia de gênero”. O objetivo da inserção das questões de gênero e sexualidade é promover a equidade de gênero e o respeito á diversidade sexual (REIS e EGGERT, 2017). Valera (2016) afirma que a “ideologia de gênero” quer ensinar para as crianças que homossexualidade e troca de sexo são coisas normais e consequentemente ensinará sobre poliamor e incesto. A autora incentiva que pais e educadores cristãos não aceitem essa temática nas escolas. 33 Em relação á orientação sexual, é possível perceber no discurso dos conservadores que a homossexualidade é apontada como responsável pela perversão, pelo incesto e pela pedofilia, sendo assim é culpada pela destruição da família (ALMEIDA e LUZ, 2014). Há uma união formada por católicos e evangélicos que defendem o que intitulam como família e costumes tradicionais, que acabam por distorcer informações além de desvalorizar e desqualificar os estudos de gênero, isso trás prejuízos no que diz respeito ao real objetivo da inserção dessas questões na escola (REIS e EGGERT, 2017). De acordo com a Associação Brasileira de Antropologia (ABA, 2015), ideologias e/ou doutrinas são fundamentadas através das crenças e dogmas religiosos, em contraposição, o conceito de gênero é sustentado por indicadores científicos de elaboração de saberes a respeito do mundo. Diante do exposto, a ABA (2015) certifica que o conceito de gênero evidencia os desenvolvimentos históricos e culturais que classifica e posiciona os sujeitos com base na relação sobre o que se entende como masculino e feminino. Portanto, se trata de um agente que produz significado para as dessemelhanças concebidas nos corpos e que articulam os sujeitos, as práticas, as emoções, no meio de uma organização de poder. Varela (2016) declara que a ideologia de gênero expõe crianças a assuntos que normalizam o comportamento homossexual, desta forma fará com que as meninas e meninos se envolvam nesse tipo de relacionamento por conta de curiosidade e devido ao incitamento gerado pela orientação homossexual. E que os pais que criam os filhos com gênero neutro acabam por esquecer a biologia. A falsa alegação da ideologia de gênero tal como a desconstrução dos papeis de gênero e da família no âmbito escolar estabeleceu um pavor em pessoas conservadoras, a ponto de disseminar informações adulteradas. Quando o que se planejava era a equidade de gênero e o respeito à diversidade sexual (REIS e EGGERT, 2017). Pois através de muitas pesquisas foi possível reconhecer que existem mecanismos que reproduzem as desigualdades no ambiente escolar (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA, 2015). Circula pela internet uma cartilha sem autoria onde informam que caso seja aprovado á ideologia de gênero nas escolas, as crianças vão aprender que não são nem meninas nem meninos, e que é necessário inventar um gênero. E sendo assim 34 há um objetivo de destruição das famílias tradicionais (AUTOR DESCONHECIDO, 2015). As pessoas utilizam a palavra família inúmeras vezes nos argumentos que são contra a inserção das questões de gênero e sexualidade. É possível perceber que essa família referenciada é constituída por um casal, homem e mulher, heterossexual e com filhos. Deste modo é anunciado um modelo único de família, e todos os outros modelos são segregados (ALMEIDA E LUZ, 2014). As alegações usadas pelas pessoas que espalham a ideia de ideologia de gênero fazem com que haja a manutenção das desigualdades de gênero, onde mulheres são vistas como inferiores aos homens. Além da manipulação da informação sem nenhum fundamento cientifico (REIS e EGGERT, 2017). É de suma importância legitimar a igualdade e equidade de gêneros, pois a diferença binária entre feminino e masculino determina papéis engessados de gênero que apenas auxiliam para corroborar nas desigualdades, que em geral são resultantes do patriarcado2 (REIS e EGGERT, 2017). Nesta perspectiva, a solicitação de igualdade de gênero no âmbito escolar está correlacionada a um sistema educacional inclusivo, que possibilite o combate das discriminações e que não reproduza as desigualdades que existem na sociedade. Quando se propõe igualdade não quer dizer invalidar as diferenças, mas assegurar um local democrático em que as diferenças existentes não se transformem em desigualdades (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA, 2015). 3.3 PSICOLOGIA E A SUBVERSÃO DOS DISCURSOS DOMINANTES A responsabilidade ética, política e profissional do ensinante lhe coloca o dever de se preparar, de se capacitar, de se formar antes mesmo de iniciar sua atividade docente. Esta atividade exige que sua preparação, sua capacitação, sua formação se tornem processos permanentes. Sua experiência docente, se bem percebida e bem vivida, vai deixando claro que ela requer uma formação permanente do ensinante (FREIRE, 2001 p. 259). Pesquisas feitas em Psicologia escolar apontam que ainda é visível a desqualificação de professores e professoras. Este acontecimento pede um novo 2 Patriarcado – é um sistema social que continuamente beneficia o homem em detrimento a mulher (Oliveira 2017). 35 local institucional para o docente, com a finalidade de se construir um plano político pedagógico global, da qual os objetivos sejam claros e delimitados (SOUZA, 2010). Desta forma, cabe a Psicologia escolar no processo de formação de professoras e professores a construção de espaços reflexivos para queseja possível pensar nas dificuldades que interferem no aprendizado e quais as possibilidades de resolver essas questões. Além de auxiliar na subversão dos discursos dominantes que ditam uma norma de aluno perfeito (GESSER e NUERNBERG, 2011). Uma das possibilidades de contribuições da Psicologia no campo educativo pode se dá na colaboração das implementações das políticas públicas. Tendo em vista que os métodos educacionais ocorrem em múltiplos ambiente e níveis, essa junção de psicologia e educação pode assumir diversas e inúmeras formas (MARTINEZ, 2010). Em relação á formação de professores e professoras Souza (2010) considera que há uma necessidade de acompanhamento das pesquisas em Psicologia. Pois é considerável saber quais são as influencias e os impactos das modificações na formação dos docentes. Os sujeitos da escolarização passaram a ganhar visibilidade e devido á imagem passada de modelo a serem praticados e seguidos, os comportamentos, as linguagens, os desejos e pensamentos foram disciplinado, ou seja, além das disciplinas das meninas e meninos há um olhar voltado para a disciplina dos corpos dos professores (LOURO, 2000). Segundo afirma a autora Louro (2000) os costumes, as rotinas, as falas necessitam ser objetos de precaução e desconfiança, isto é, se atentar para o que é dito como natural. Diante do exposto, é preciso questionar os assuntos que são ensinados, a forma como é ensinada e o uso da linguagem, pois essas podem estar carregadas de racismo, sexismo e etnocentrismo. Tendo em vista a dificuldades dos docentes em lidar com certas questões, é fundamental o norteamento desses sujeitos para o entendimento do campo da sexualidade, do gênero, de raça, classe social, dentre outros. Portanto, a Psicologia Escolar pode e deve participar da formação desses professores e professoras com base em um posicionamento político e ético (GRESSE ET AL, 2012). É possível considerar que o trabalho da psicóloga e psicólogo diante das questões de gênero e sexualidade dentro do contexto escolar, devem se orientar por um compromisso com uma escola democrática e com qualidade social. Desta forma, 36 deve está pautada no direito e exercício da cidadania. Esse comprometimento é político, pois circunda a estruturação de uma escola participativa (SOUZA, 2010). A Psicologia escolar pode contribuir com projetos de formação de professores e professoras no que diz respeito à sexualidade, criando oportunidades de processos reflexivos sobre esse tema para que haja uma verificação das próprias crenças, valores, preconceitos referentes a esse assunto (GRESSE ET AL, 2012). A partir do momento que se exerce uma visão mais extensa da vida escolar, não centralizada unicamente no aspecto da psicoeducação, mas também no seu enfoque psicossocial; o valor do trabalho da psicóloga e psicólogo em ligação à implementação das políticas públicas no âmbito educacional fica mais claro e evidente (MARTINEZ, 2010). Assim como é indispensável que a psicóloga e o psicólogo, durante a formação de professores e professoras em uma óptica ético-política, faça-se intercessor nos procedimentos de “apropriação e reflexão crítica sobre os discursos constituintes da sexualidade na contemporaneidade” (GRESSE et al, 2012, p. 6), fazendo com que seja possível perceber as conseqüências destes na maneira que os docentes enfrentam as expressões da sexualidade no dia a dia. Por fim, é importante destacar que também faz parte do trabalho dos psicólogos e psicólogas a humanização tanto dos alunos quanto das professoras e professores. Quando há o cumprimento social da garantia de cidadania e do desenvolvimento do pensamento critico, essa humanização se torna capaz (GESSER e NUERNBERG, 2011). 3.4 INCLUSÃO ESCOLAR O funcionamento escolar é formado através de alguns procedimentos como obrigações, códigos de direitos e deveres, rituais, rotinas, que são construídos a partir de uma visão de exclusão e segregação de meninos e meninas de alguns grupos. Pode-se entender como a ideia de que um aluno ou aluna que apresenta rendimento abaixo do esperado deve ser retirado de um grupo e colocado em outro, os alunos mais novos devem ser afastados dos mais velhos, meninas e meninos brincam e estudam separadamente, dentre outras (SEFFNER, 2009). O ambiente escolar ainda tem muitos obstáculos em tratar sobre a orientação sexual e as identidades de gênero, ela se mostra insegura e confusa na presença de comportamentos que não estão no roteiro. Desta forma, se instalam os padrões 37 sociais de exclusão através de atitudes de violência ou de menosprezo, onde se faz de conta que não existe nada acontecendo, ou seja, não há escuta das denuncias do sofrimento pela discriminação (PERES, 2009). Na atualidade, os docentes precisam ser sensíveis para a questão da inclusão, pois ainda é complexo para a sociedade entender que gays, deficientes, lésbicas, deficientes mentais, travestis, transgêneros, gente mais velha, comportados e bagunceiros, espíritas e católicos, sejam capazes de estudar em equipe, num clima de respeito, aceitação e harmonia (SEFFNER, 2009). Quando o tema inclusão escolar é discutido, os professores e professoras mostram que são favoráveis, mas posteriormente apontam dificuldades para tal proposta. Os problemas existem como em qualquer processo, mas não devem ser o pretexto para que retorne ao sistema arcaico de exclusão dos diferentes (SEFFNER, 2009). Focar nas dificuldades faz com que se afastem de uma das finalidades educacional que é fazer com que as pessoas estejam preparadas para conviver com as diferenças através da promoção de sentimentos e ações de benevolência, irmandade, igualdade e equidade de direitos, pelo reconhecimento do coletivo e pela garantia do acesso ao conhecimento. Peres (2009) conclui seu pensamento ao dizer que não existe roupa correta para exercer a cidadania. A escola é um espaço público, onde todos e todas merecem estar e estudar sendo um local de aprendizado e de conciliação das diferenças. Os motivos apontados pelas escolas para “impedir” o acesso de pessoas LGBTs estão relacionados a pensamentos arcaicos (SEFFNER, 2009). As pessoas que romperam os padrões morais e estéticos são sujeitadas as crueldades dos preconceitos. Portanto quando há valores enrijecidos e sólidos no ensino, quanto mais regedora forem os exercícios que orientam, maior será a desigualdade, a hostilidade e o afastamento social (PERES, 2009). Vale lembrar que os professores e professoras são de gerações diferentes dos alunos e alunas. Tento em vista as múltiplas gerações e valores, o ideal é um dialogo produtivo onde eles possam debater mesmo que não disponham da mesma opinião. Sendo a escola um local de aprendizado, o/a professor/a deve dirigir seu vinculo com as crianças e os jovens na direção de investigar as possíveis formas de aprendizagem (SEFFNER, 2009). 38 Para que isso aconteça, é necessário estudos, debates, reflexões a respeito da política e da educação, e paciência para que dessa forma os docentes identifiquem a riqueza que é a diversidade dentro da sala de aula, em todos os aspectos. Desta forma se faz importante a ruptura de preconceitos que são mantidos pelo senso comum (SEFFNER, 2009). As pessoas que não se encaixam nos padrões estabelecidos, como consequência, muitas vezes abandonam os estudos ou são expulsas das escolas. O ambiente que deveria ser de inclusão da diversidade acaba por não desempenhar este papel. Configura-se então em escola-polícia, escola-tribunal, escola-igreja, são desta forma “orientadas por tecnologias sofisticadas de poder centradas na disciplina dos corpos e na regulação dos prazeres” (PERES, 2009 p. 239) A inserção de alunos e alunas gays, lésbicas, travestis, transgêneros, dentre outras requer uma mudança na organização da escola. Inicialmentea abolição de piadas e das manifestações sexistas, a respeito dos sujeitos que fogem os padrões proferidos como “normais” (SEFFNER, 2009). Não há possibilidades de educação em um local que não tenha respeito, pois as agressões sejam verbais e física é uma arma que expulsa esses indivíduos que não se enquadram nos padrões estabelecidos pela sociedade. Em relação á diversidade sexual as regras para relacionamento entre homens e mulheres precisam ser as mesmas para todos os tipos de casais (SEFFNER, 2009). Ainda de acordo com o pensamento do autor Seffner (2009), uma educação de qualidade só pode acontecer quando houver de fato uma atenção para a inclusão escolar. E preocupação para inclusão deve ser feita a partir da valorização e do respeito pela diversidade sexual, pela diversidade de gênero, pelas mulheres, dentre outros. Sem isto não há uma preparação adequada de meninos e meninas para um mundo melhor. Então é de caráter urgente incluir nas mesas-redondas, nas palestras e nas discussões no que diz respeito ás identidades de gênero e sexuais. Pois é necessário que se crie espaços de respeito e harmonia no que se trata de pessoas que fazem parte da rede de ensino e socialização. Faz-se importante que a escola ofereça um local de escuta e acolhimento e que inclua na diretriz curricular e nas propostas pedagógicas a promoção do combate eficaz da LGBTfobia, do machismo e dos métodos de estigmatização (PERES, 2009). 39 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente pesquisa sofreu, no decorrer de seu progresso, várias alterações, surgiram questionamentos e inquietações até que chegasse a seu término. Demandou também ampla dedicação na busca de referencial teórico que contemplasse a proposta. No entanto foi um trabalho enriquecedor e incentivador tanto de um ponto de vista acadêmico como do pessoal. A construção e o desenvolvimento oportunizaram a reflexão das implicações do machismo e dos preconceitos na vida de determinados sujeitos, contribuiu para o entendimento dos padrões sociais referentes às masculinidades, às feminilidades e às distintas manifestações das sexualidades e das relações de gênero. O desenvolvimento do presente estudo possibilitou uma análise sobre as diferenças entre sexo, gênero e orientação sexual, sendo que esses conceitos ainda são confundidos pela maioria das pessoas. Diante disso foi possível perceber que diversos sujeitos não se enquadram nos padrões estabelecidos socialmente e que há mais diferenças de sexo e gênero do que possamos imaginar. Durante o texto foi ressaltado as diferenças entre os conceitos onde o sexo é definido biologicamente, nascemos machos ou fêmeas, em relação á sexualidade essa está ligada às pessoas por quem nos sentimos atraídos. E o gênero está ligado á construção social de homens e mulheres. Diante disso, foram discutidas as violências contra LGBT e as violências contra a mulher, seja ela a física, psicológica, moral, patrimonial e sexual que está no cotidiano de todas as classes sociais e afetam mulheres de qualquer nível escolar. A taxa de violência contra essas pessoas é altíssima e o principal mecanismo para combater esse fenômeno é a educação. Onde os meninos precisam respeitar o corpo da mulher e que todos e todas precisam ser tratados com 40 equidade. Pois nenhuma pessoa deve ser agredida ou violentada pelo fato de ser mulher ou LGBT. Foi exposto a importância da inserção das questões de gênero e sexualidade no ensino fundamental, pois, compreende-se que o espaço escolar é um lugar privilegiado de troca de conhecimentos onde circulam crianças e adultos, tendo assim mais facilidade para se discutir temas tidos como tabus. No entanto, nem todas as escolas não aderem as suas discussões dos assuntos relacionados ás questões de gênero e sexualidade, não contribuem para que as suas alunas e alunos estejam aptos a refletirem de maneira crítica as desigualdades sociais. Entende-se que a escola é um local onde devem ser discutidos diversos saberes, privilegiando os conhecimentos científicos. Sendo assim, não se deve permitir falácias criadas com o intuito de desvalorizar os estudos de raça, classe e gênero, sendo esse último tema sobre o qual me debrucei. Nesse contexto, as psicólogas e psicólogos podem contribuir no que diz respeito á criação de políticas públicas que possibilitem uma educação de fato inclusiva. A psicologia escolar, dentro do processo de formação de professores pode auxiliar nesse exercício, trazendo reflexões a partir de um olhar crítico diante da exclusão de questões tão importantes no espaço em que se produz conhecimento, onde se produz subjetividades. Por ser um espaço onde o sujeito se constitui esse precisa ser um espaço de reflexão, acolhimento e inclusão de crianças e adolescente e a conseqüência disso é menos homofobia, menos machismo, menos feminicídio, menos sofrimentos psíquicos, dentre outros, isso não é uma regra ou uma exatidão. Mas partindo desse pressuposto, é uma possibilidade. Levando em consideração as reflexões anteriores, nota-se que se faz necessário falar de gênero e sexualidade nas escolas para que seja possível o exercício da cidadania e para o reconhecimento da equidade entre mulheres e homens. Pois acredita-se que todos e todas tenham o direito de habitar seus corpos como desejam sem o receio da violência e da discriminação. Não falar sobre gênero e sexualidade nas escolas é silenciar, é violentar e acorrentar os sujeitos que não se encaixam no que é socialmente imposto. Tendo em vista que os sujeitos têm diversas maneiras de expressar o seu gênero e a sua sexualidade. Abordar esse tema foi satisfatório e enriquecedor, pois foi possível para a 41 pesquisadora ampliar o seu olhar acerca das questões de gênero e sexualidade, perpassando por fatores sociais e políticos, possibilitando uma reflexão sobre como o machismo tem imperado e apesar de atualmente se falar mais sobre essas questões, as escolas ainda reproduzem discursos que oprimem as pessoas que não fazem parte desse padrão tido como ideal. Nesse sentido, entende-se que abordar tais temas nos espaços escolares é produzir um sistema educacional inclusivo, que não corrobora com desigualdades sociais. Compreende-se então que as discussões apresentadas nos dois capítulos representam a vontade de que este trabalho possa de alguma forma colaborar para os debates sobre gênero, sexualidade e educação, e para a transformação das psicólogas e psicólogos de como contribuir sobre a importância da inserção dessas questões no ensino fundamental e da formação de profissionais capacitados para lidar com essa temática. Supõe-se que, no decorrer deste trabalho, foram alcançados os três objetivos propostos, vale ressaltar que o propósito dessa pesquisa foi discutir sobre as questões de gênero e sexualidade com a finalidade de ampliar as possibilidades de discussão dessas questões. Diante disso, foi possível constatar que esse é um tema recente e que requer uma analise muito mais investigada, além de uma maior participação da Psicologia de modo a manejar e facilitar esse processo. Dada à importância do assunto, torna-se necessário o desenvolvimento de mais pesquisas sobre a temática e de uma maior participação da Psicologia nesse processo, pois há uma escassez de referencias bibliográfica sobre as contribuições da Psicologia no processo da inserção das questões de gênero e sexualidade no ensino fundamental. 42 5 REFÊRENCIAS AUTOR DESCONHECIDO, Você já ouviu falar sobre a “Ideologia de Gênero, 2015. ALMEIDA, Kaciane Daniela, LUZ, Nanci Stancki. Ideologia de Gênero no PNE: uma discussão a partir de sítios. Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2014. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA. Manifesto pela igualdade de gênero