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RINOSSINUSITES
Sinusite é todo processo inflamatório da mucosa de revestimento da cavidade paranasal.
• Como a sinusite (originada nos seios paranasais) e a rinite (originada na cavidade nasal)
são doenças em continuidade, o termo mais utilizado atualmente é “rinossinusite”.
• A rinite existe de forma isolada, mas a sinusite sem rinite é rara
A rinossinusite aguda (RSA) é um processo inlamatório da mucosa rinossinusal de início súbito,
com até 4 semanas.
• Pode ocorrer uma ou mais vezes num determinado período de tempo, mas sempre com
remissão completa dos sinais e sintomas entre os episódios.
• A etiologia mais comum da RSA é uma infecção viral associada ao resfriado comum.
Classificações
• RSA viral ou resfriado comum: uma condição usualmente autolimitada, em que a duração
dos sintomas é menor que 10 dias;
• RSA pós-viral: definida quando há piora dos sintomas após 5 dias de doença ou quando
os sintomas persistem por mais de 10 dias de doença;
• RSA bacteriana (RSAB): uma pequena porcentagem (0,5 a 2%) dos pacientes com
RSA pós-viral pode evoluir com RSAB.
Microbiologia
A rinossinusite aguda pode ser viral (denominada nasofaringite) ou bacteriana.
• Virus: rinovírus, vírus influenza e vírus parainfluenza
• Os agentes mais comuns da rinossinusite aguda bacteriana são: Streptococus
pneumoniae, Haemophylus influenza e Moraxella catarrhalis (com as duas primeiras
compreendendo aproximadamente 75 % dos casos de RSAB)
• O Staphylococcus aureus é um agente menos comum, porém importante, por conta de sua
resistência aos antimicrobianos e por causar infecções em imunodeprimidos.
Fisiopatologia
A rinossinusite viral aguda (RSVA) inicia-se com a inoculação viral por contato direto com a
conjuntiva ou mucosa nasal. A rinite viral se espalha para os seios paranasais por via sistêmica
ou direta.
• Assoar o nariz pode ser um mecanismo importante; pressões intranasais positivas
geradas durante o assoar o nariz podem impulsionar fluido contaminado da cavidade nasal
para os seios paranasais.
• Segue-se a inflamação, resultando em hipersecreção nasossinusal e aumento da
permeabilidade vascular, levando à transudação de líquido para a cavidade nasal e seios
da face.
• Os vírus também podem exercer efeito tóxico direto nos cílios nasais, prejudicando a
depuração mucociliar.
• Uma combinação de edema da mucosa, secreções abundantes espessadas e discinesia
ciliar resulta em obstrução sinusal e perpetua o processo da doença
Somente em 0,5 a 2% dos casos há evolução para RSA bacteriana no adulto e de 5-13% na
criança
• A RSAB ocorre quando as bactérias infectam secundariamente uma cavidade sinusal
inflamada.
• A RSAB ocorre mais comumente como uma complicação de infecção viral, mas também
pode estar associada a rinite ou outras condições que obstruem o nariz ou prejudicam a
função imunológica local ou sistêmica.
Epidemiologia
• Mais comum no inverno
• A maioria dos casos de rinossinusite aguda ocorre após IVAS (80%), sendo que os 20%
restantes ocorrem após um quadro alérgico.
Quadro clínico
• Principais sintomas: obstrução nasal, rinorreia (em geral, purulenta), dor facial e
hiposmia, desconforto nos dentes maxilares.
• A dor ou pressão facial eios da face é pior ao se inclinar para frente
• Podem ocorrer sintomas sistêmicos: sonolência, mal-estar, indisposição e febre, além
de dor de garganta, disfonia, cefaleia, halitose, otalgia ou pressão nos ouvidos e tosse
• O pico de sintomas típicos, como obstrução nasal, rinorreia e tosse, ocorre entre o 2° e 3°
dias de infecção, com tendência à diminuição após esse período. Os sintomas podem,
entretanto, durar 14 dias ou mais.
Sintomas de rinossinusite aguda
Secreção nasal anterior purulenta
Corrimento nasal posterior purulento ou descolorido
Congestão ou obstrução nasal
Congestão ou plenitude facial
Hiposmia ou anosmia
Febre
Dor de cabeça
Dor de ouvido, pressão ou plenitude
Halitose
Dor de dente
Fadiga
Exame físico
• Na rinoscopia anterior, pode-se observar edema de mucosa e secreção purulenta em
meato médio (rinossinusite maxilar, etmoidal anterior ou frontal) e/ou no meato superior
(rinossinusite etmoidal posterior ou esfenoidal).
• Os pacientes podem apresentar exacerbação da dor ou pressão facial com a percussão dos
seios da face
• Pode ocorrer dor à palpação dos seios paranasais e, no caso de infecção dentária
envolvendo o seio maxilar, os dentes podem ficar sensíveis à percussão
Quando pensar em Rinossinusite bacteriana?
Os sintomas da RSAV e da RSAB se sobrepõem. Não existem critérios clínicos validados para
distingui-los. No entanto, AVRS e ABRS têm cursos clínicos diferentes:
AVRS:
• Tem um curso clínico semelhante a outras IVAS, com pacientes apresentando resolução
parcial ou completa dos sintomas dentro de 7 a 10 dias.
• Embora os sintomas possam persistir por mais de 10 dias, normalmente há alguma
melhora no dia 10.
• Se houver febre, ela geralmente está presente no início da doença e desaparece nas
primeiras 24 a 48 horas, com os sintomas respiratórios tornando-se mais proeminentes
após a resolução da febre
• Pacientes com infecção viral podem apresentar secreção nasal purulenta durante o curso
da doença; secreção nasal purulenta e descolorida é um sinal de inflamação da mucosa
nasal e sinusal.
• Na maioria das vezes, a secreção começa clara, torna-se purulenta e depois torna-se clara
novamente
RSAB
• Pacientes com RSAB tendem a apresentar sintomas que duram mais (> 10 dias)
• Uma doença de padrão bifásico (“dupla piora”), caracterizada pela piora dos sintomas
após um período inicial de melhora, também sugere uma causa bacteriana
• Sintomas individuais, como secreção nasal purulenta ou dor facial, não podem ser usados
para distinguir com precisão RSAB de RSAV
Já segundo as diretrizes brasileiras (2015) e europeias para rinossinusites (EPOS 2012 -
European Position Paper on Rhinosinusitis and Nasal Polyps), os quadros que não se enquadram
claramente como virais (duração até 10 dias, com evidente melhoria após o 5◦ dia) são chamados
de pós-virais. Dentre os quadros pós-virais, o diagnóstico de RSA bacteriana deve ser
considerado nos pacientes com sintomas por mais de 10 dias e que apresentem pelo menos 3
dos seguintes critérios:
• Secreção nasal (com predominância unilateral) e secreção purulenta** na rinofaringe
• Dor intensa local (com predominância unilateral);
• Febre > 38ºC;
• VHS ou PCR elevadas;
• “Dupla piora”: reagudização ou deterioração após a fase inicial de sintomas leves
*Os pacientes podem não relatar a “piora do quadro”. É frequente o relato de um quadro sintomático há
alguns dias e que agora estão novamente enfermos.
• Saiba que, na maioria dos casos, pode tratar-se da evolução da mesma doença, de uma RSA viral
para uma pós-viral, e não de duas infecções distintas.
** a presença de rinorreia purulenta não necessariamente indica a existência de um quadro bacteriano, e não
deve servir de critério isolado para a prescrição de antibióticos
Quando pensar em complicações?
Pacientes com RSAB que apresentam sinais ou sintomas que indicam disseminação além dos
seios paranasais e da cavidade nasal (no sistema nervoso central, na órbita ou nos tecidos
circundantes) requerem avaliação e tratamento urgentes. Estes incluem pacientes com os
seguintes sinais ou sintomas:
• Dor de cabeça intensa e persistente
• Edema periorbital, inflamação ou eritema
• Alterações na visão (visão dupla ou visão prejudicada)
• Movimentos extraoculares anormais
• Proptose
• Dor com movimento dos olhos
• Paralisias de nervos cranianos
• Estado mental alterado
• Rigidez do pescoço ou outros sinais meníngeos
• Papiledema ou outro sinal de aumento da pressão intracraniana
eritema e edema na área pré-septal, que podem ser causados por infecção orbitária oupré-septal.
EXAMES
• Exames laboratoriais, endoscópicos e de imagem: não são necessários na rotina,
ficando reservados para pacientes de alto risco ou na suspeita de complicações;
• RX de seios da face: tem baixas sensibilidade e especificidade, e em geral não é indicado
nas rinossinusites;
• endoscopia nasal: permite a ampliação dos dados da rinoscopia anterior, não sendo
geralmente necessária nos casos não complicados. Fornece informações adicionais
sobre a anatomia nasal, auxiliando na coleta de amostras para bacterioscópico e cultura;
• TC: indicada quando não há melhora clínica após tratamento adequado, na suspeita de
complicações orbitárias ou intracranianas e na rinossinusite aguda nosocomial. Nos
casos suspeitos de complicação, deve ser solicitado exame com contraste. Se obtidos, os
achados incluem níveis hidroaéreos, edema da mucosa e bolhas de ar nos seios da face
(inespecíficos)
edema de mucosa (setas) e secreções espessas (asteriscos).
Os exames de imagem não são indicados em pacientes com rinossinusite não complicada
diagnosticada clinicamente
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico é clínico, feito pela presença de ≥ 2 dos seguintes sintomas (é obrigatória a
presença do 1° ou do 2° sintoma):
• bloqueio/obstrução/congestão nasal;
• rinorreia anterior ou posterior (mais frequentemente, mas não obrigatoriamente purulenta);
• dor/pressão facial/cefaleia;
• hiposmia ou anosmia.
É diagnosticado quando os pacientes apresentam (UpToDate):
• <4 semanas de drenagem nasal purulenta e
• Obstrução nasal grave, dor/pressão/plenitude facial ou ambos
O diagnóstico é ainda apoiado pela presença de sintomas secundários, incluindo anosmia,
plenitude auricular, tosse e dor de cabeça.
Os pacientes são diagnosticados com ARS viral ou bacteriana, dependendo da qualidade,
duração e progressão dos sintomas
• A rinossinusite viral aguda (AVRS) é diagnosticada clinicamente quando os pacientes
apresentam <10 dias de sintomas consistentes com ARS que não estão piorando
Rinossinusite bacteriana aguda:
• Sintomas ou sinais persistentes de RSA com duração de 10 ou mais dias sem evidência
de melhora clínica; ou
• Padrão bifásico de doença, que normalmente se estende por um período de 10 dias,
caracterizado por sinais e sintomas de RSA que inicialmente começam a melhorar, mas
pioram aproximadamente 5 a 6 dias depois ("piora dupla")
* O início de sintomas graves ou sinais de doença grave (por exemplo, febre alta [>39°C ou
102°F], secreção nasal purulenta, dor facial) durante pelo menos 3 a 4 dias consecutivos no início
da doença apoia o diagnóstico de RSAB. No entanto, a gravidade da doença por si só não é
critério suficiente para iniciar antibióticos
O diagnóstico diferencial deve ser feito para identificar as complicações:
• orbitárias: representam 60-75% dos casos de complicação. Entre elas se encontram:
celulita pré-septal, abscesso pré-septal, celulita pós-septal, abscesso subperiosteal e
abscesso intraconal;
• intracranianas (15-20%): meningite, abscesso extradural, abscesso subdural, abscesso
cerebral e trombose de seio sigmoide; são importantes por causa da alta mortalidade
relacionada a elas;
• ósseas (5-10%): osteomielite.
Complicações da rinossinusite bacteriana aguda
Complicação Características clínicas Avaliação por imagem*
Celulite pré-septal Dor ocular, inchaço das pálpebras e
eritema
Diagnóstico clínico (imagem
geralmente não é necessária, a
menos que haja preocupação com
celulite orbitária)
Celulite orbitária Dor ocular, inchaço das pálpebras e
eritema, além de dor com
movimentos oculares, proptose ou
alterações visuais sugerindo
envolvimento do tecido orbitário
TC com contraste ou RM sem e com
contraste da cabeça, incluindo órbita
e seios paranasais
Abscesso subperiosteal Deslocamento do globo, além de
sintomas de celulite orbitária
RM sem e com contraste da cabeça,
órbita e seios paranasais
Abscesso intracraniano Dor de cabeça com ou sem alteração
do estado mental, febre ou
náusea/vômito
TC com contraste ou ressonância
magnética sem e com contraste da
cabeça e seios paranasais
Meningite Febre, rigidez de nuca e/ou estado
mental alterado
TC de crânio sem contraste pode ser
indicada antes da punção lombar ¶
Trombose séptica do seio cavernoso Paralisias de nervos cranianos (NC III,
IV, VI) com ou sem dor de cabeça e
febre
RM sem e com contraste da cabeça e
seios paranasais. Venografia por RM
sem ou com contraste.
Osteomielite Dor surda no local envolvido, muitas
vezes com sensibilidade, eritema ou
inchaço subjacentes
TC com contraste ou ressonância
magnética sem e com contraste da
cabeça e seios paranasais
MANEJO
O tratamento da RSVA concentra-se no manejo sintomático/suporte, pois normalmente se resolve
em 7 a 10 dias
• Mesmo os quadros bacterianos, boa parte se resolve dentro de 2 semanas. Portanto, o
tratamento adjuvante inicial sem uso de antibióticos pode ser uma opção viável nos casos
de rinossinusite leve e/ou pós-viral.
• A medicação deve ser escolhida de acordo com os sintomas mais intensos do paciente.
Dessa maneira, o médico deve personalizar o tratamento para cada paciente atendido, evitar
o uso de ‘‘receitas-padrão’’
Medidas gerais:
• hidratação adequada;
• umidificação do ambiente;
• Controle da dor e febre (AINES e analgésicos simples)
• lavagem nasal com SF ou solução hipertônica: importante para todos os pacientes;
Corticoide tópico intranasal
Os CE tópicos apresentam alto efeito anti-inflamatório local, com baixo índice de efeitos colaterais.
Auxiliam na diminuição do edema da mucosa nasal, melhoram os sintomas obstrutivos e
contribuem para a patência dos óstios de drenagem sinusais
• Pacientes maiores de 12 anos com rinossinusite pós-viral, ou RSAB não complicada e
sintomas leves ou moderados, sem febre ou dor facial intensa, beneiciam-se com os
corticoides tópicos nasais como monoterapia.
• Além de aliviar os sintomas de rinorreia, congestão nasal, dor sinusal, dor/ pressão facial,
os corticoides tópicos minimizam o uso indiscriminado de antibióticos
• As diretrizes europeias (EPOS 2012) recomendam o uso dos CE tópicos nas RSA pós-virais
e bacterianas, em dose dobrada. Já as diretrizes americanas (2015) consideram o uso dos
CE tópicos até nas RSA virais
Corticosteroide VO:
• Sugerimos não utilizar glicocorticóides sistêmicos no tratamento da RSAB. Ao contrário dos
glucocorticóides tópicos, os glucocorticóides sistémicos representam um risco potencial de
efeitos secundários que supera os benefícios clínicos
Descongestionantes orais e tópicos
• O uso de descongestionantes orais isolados ou associados aos anti-histamínicos para os
pacientes com RSAB não modifica signiicativamente a evolução clínica ou radiológica, tanto
em crianças quanto em adultos
Antibioticoterapia:
• Segundo o EPOS, casos leves podem ser inicialmente tratados apenas com medidas
recomendadas para a RSA pós-viral e reavaliados em 48-72 horas, enquanto que em
casos mais graves devem receber antibioticoterapia
• A diretriz americana orienta a prescrição do antibiótico para uso imediato (para aqueles
que não podem ser observados) ou a observação da evolução, para iniciar o uso do
antibiótico se não houver melhora dos sintomas em 7 dias ou se houver agravamento
do quadro a qualquer momento.
A introdução do antibiótico deve ser considerada quando não há melhora após o tratamento com
medidas adjuvantes ou se os sintomas se acentuarem. Indicação de antibióticos:
• RSAB moderada ou grave, pacientes com sintomas intensos (febre > 37,8ºC e dor
intensa em face) e imunodeprimidos, independentemente do tempo da doença, e
• casos de RSAB leve ou não complicada que não apresentam melhora com o tratamento
inicial com corticoides tópicos nasais
Antibióticos (5-7 dias**):
• 1ª escolha (semfatores de risco para resistência pneumocócica): amoxicilina (500 mg
3x/dia ou 875 mg 2x/dia) ou amoxicilina-clavulanato (500 mg/125 mg 3x/dia ou 875 mg/125
mg 2x/dia);
* A adição de clavulanato à amoxicilina melhora a cobertura para Haemophilus influenzae resistente
à ampicilina, bem como para Moraxella catarrhalis
• 1ª escolha (com fatores de risco para resistência pneumocócica): Altas doses de
amoxicilina-clavulanato (comprimidos de liberação prolongada de 2 g/125 mg 2x/dia)
** Em geral, a duração do tratamento varia de 7-10 dias para a maioria dos antimicrobianos e 14
dias para claritromicina (Diretriz brasileira)
Fatores de risco para resistência pneumocócica em adultos com RSBA
Viver em regiões geográficas com taxas de S. pneumonia não suscetível à penicilina superiores a 10%*
Idade ≥65 anos
Hospitalização nos últimos 5 dias
Uso de antibióticos no mês anterior
Imunocomprometimento
Múltiplas comorbidades (por exemplo, diabetes ou doença cardíaca, hepática ou renal crônica)
Infecção grave (por exemplo, evidência de toxicidade sistêmica com temperatura ≥102°F, ameaça de complicações
supurativas)
Pacientes com alergia à penicilina
https://www.uptodate.com/contents/amoxicillin-and-clavulanate-drug-information?topicRef=83012&source=see_link
https://www.uptodate.com/contents/amoxicillin-and-clavulanate-drug-information?topicRef=83012&source=see_link
https://www.uptodate.com/contents/amoxicillin-and-clavulanate-drug-information?topicRef=83012&source=see_link
• cefalosporina oral de terceira geração (com fatores de risco de resistência, a adição
de clindamicina proporciona melhor cobertura para S. pneumoniae resistente a beta-
lactâmicos)
• fluoroquinolona respiratória* ( levofloxacina 750 mg ou 500 mg 1x/dia ou
moxifloxacina 400 mg 1x/dia)
*Usar apenas em último caso
** Macrólidos e Bactrim não são recomendados para terapia empírica devido às altas taxas de resistência de
S. Pneumoniae (UpToDate). Os macrolídeos apresentam eicácia comparável à amoxicilina e são indicados
para pacientes com alergia aos β-lactâmicos (Referência brasileira).
https://www.uptodate.com/contents/clindamycin-drug-information?topicRef=83012&source=see_link
https://www.uptodate.com/contents/levofloxacin-drug-information?topicRef=83012&source=see_link
https://www.uptodate.com/contents/moxifloxacin-drug-information?topicRef=83012&source=see_link
Opções de cuidados sintomáticos para adultos com rinossinusite aguda
Aula
Opções de medicação
selecionadas
Vantagens Desvantagens
Analgésicos e antipiréticos
orais (de preferência)
• Paracetamol
• AINEs (por
exemplo,
ibuprofeno,
naproxeno)
• Fornecer alívio da
dor sistêmica e
controle da febre
• Geralmente bem
tolerado
• O uso de
paracetamol deve
ser limitado ou
evitado em
pacientes com
doença hepática
em estágio
avançado ou
cirrose
descompensada
• Os AINEs são
evitados ou usados
com cautela em
pacientes com
doença
cardiovascular,
doença renal
crônica ou doença
hepática em
estágio avançado
ou cirrose.
• Os AINEs podem
estar associados ao
aumento do risco
de sangramento e
distúrbios
gastrointestinais
Sprays intranasais de
glicocorticóides (de
preferência)
• Propionato de
fluticasona
• Mometasona
• Triancinolona
• Aliviar a congestão
reduzindo a
inflamação
• Pode ser
particularmente
útil para pacientes
com rinite alérgica
• Pode causar
epistaxe e dor de
garganta
Spray salino intranasal • Solução salina
estéril intranasal
• Hidrata passagens
e solta secreções
• Pode melhorar
temporariamente a
patência da
passagem nasal
• Útil em
combinação com
sprays intranasais
de glicocorticóides
• Alguns pacientes
podem achar isso
difícil ou
desconfortável
• A solução salina
deve ser estéril
Spray anticolinérgico
intranasal
• Brometo de
ipratrópio
• Reduz
significativamente
a rinorréia
• Pode não melhorar
o
congestionamento
Sprays descongestionantes
intranasais
• Oximetazolina • Pode melhorar a
patência nasal e
• Pode causar
congestão rebote
promover a
drenagem
ou danos nas
mucosas quando
usado por longos
períodos
• Não deve ser usado
por >3 dias
Descongestionantes orais • Pseudoefedrina
• Fenilefrina
• Alivia a congestão
através da
vasoconstrição
• A pseudoefedrina
pode ser mais
eficaz que a
fenilefrina
• Pode ser
particularmente
útil para pacientes
com disfunção da
tuba auditiva (por
exemplo, dor de
ouvido, sensação
de plenitude ou
pressão auricular,
perda auditiva
e/ou zumbido)
• Evite ou use com
cautela em
pacientes com
doença
cardiovascular,
hipertensão,
glaucoma de
ângulo fechado ou
obstrução do colo
da bexiga devido a
efeitos
simpaticomimético
s
Anti-histamínicos orais • Primeira geração:
• Clemastina
• Difenidramina
• Segunda geração:
• Fexofenadina
• Loratadina
• Cetirizina
• Agentes de
primeira geração
podem ser úteis
para efeito de
secagem
• Agentes de
segunda geração
podem ser úteis
em pacientes com
alergias
• Disponível em
combinação com
descongestionante
s orais
• Pode causar
secreções
ressecadas,
espessadas e
difíceis de
mobilizar e
aumento do
desconforto
• Pode causar
sonolência,
comprometimento
cognitivo e efeitos
anticolinérgicos
Expectorantes orais • Guaifenesina • Pode promover a
drenagem ao diluir
as secreções
• Os efeitos
colaterais podem
incluir distúrbios
gastrointestinais e
sonolência
/-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------/
OTITE MÉDIA AGUDA
Otite média é um processo inflamatório, infeccioso ou não, que acomete a fenda auditiva,
podendo ser agudo, subagudo ou crônico.
• Como o osso temporal é pneumatizado, uma inflamação da orelha média pode acometer
também o osso temporal ou mastoide (mastoidite), o ápice petroso e as células
perilabirínticas.
• A OMA ocorre mais frequentemente como consequência de uma IVAS que causa
inflamação/disfunção da TA, à pressão negativa da orelha média e ao movimento de
secreções, contendo os vírus causadores da IVAS e as bactérias patogênicas, para a
cavidade da orelha média
A otite média aguda é uma infecção da orelha média que se apresenta com dor e inflamação
exsudativa, podendo ser viral ou bacteriana. A bacteriana é mais prevalente. Os principais
agentes envolvidos na otite média aguda são:
• vírus: vírus sincicial respiratório, adenovírus, influenza e parainfluenza;
• bactérias: Streptococcus pneumoniae, Haemophylus influenza não tipável e Moraxella
catarrhalis
• O pneumococo responde por cerca de metade das otites médias agudas de origem
bacteriana (27-52%), o que corresponde a 25% de todos os pacientes afetados.
* OMA causada por pneumococo está mais associada a alterações importantes da membrana
timpânica (principalmente abaulamento), febre e otalgia, enquanto a causada pelo H. influenzae
está mais associada a sintomas oculares (conjuntivite purulenta)
Epidemiologia
• Prevalente, mas baixa mortalidade
• Comum em crianças
• apenas 20% dos casos ocorrem em adultos
• Sua incidência é maior no inverno, acompanhando IVAS (em geral, ocorre após quadro de
nasofaringite ou rinossinusite aguda).
• É comum a OMA ser precedida por IVAS ou um “resfriado comum”
QUADRO CLÍNICO
A principal queixa encontrada é otalgia súbita, comumente após nasofaringite aguda, que piora
ao se assoar o nariz e com a deglutição.
• Outros sintomas são hipoacusia, febre, plenitude auricular e ruídos subjetivos.
• Quando realizada timpanocentese, há saída de secreção geralmente purulenta.
• Com a evolução do quadro, pode ocorrer perfuração da membrana timpânica, seguida
por otorreia e melhora da dor (por diminuição da pressão)e da toxemia, quadro
denominado otite média aguda supurada.
• Pediatria: otalgia (criança que manipula muito a orelha), o choro excessivo, a febre, as
alterações de comportamento e do padrão do sono, a irritabilidade, a diminuição do
apetite e até a diarreia
A otoscopia é indispensável para o diagnóstico:
a hiperemia, a diminuição de translucidez da membrana timpânica ou a presença de líquido retro
timpânico isoladamente, sem abaulamento ou otorreia, não são sinais que distinguem OMA
• A membrana timpânica encontra-se íntegra, espessada, opacificada, abaulada, com
hiperemia* ao redor do cabo do martelo ou em toda a membrana e com pouca mobilidade.
• Abaulamento da membrana timpânica é o sinal mais fidedigno. O achado mais
significativo no diagnóstico da OMA é o abaulamento da MT, com sensibilidade de 67% e
especificidade de 97%
• Na forma supurada, a membrana timpânica encontra-se perfurada e espessada, com
otorreia fluida no conduto auditivo externo, podendo haver otite externa associada
• A otorreia define o diagnóstico, pois é necessária a presença de efusão ou líquido na
cavidade da orelha média para estabelecer o diagnóstico de OMA.
*Uma simples hiperemia da MT quando a criança estiver chorando pode levar a muitos
diagnósticos errados de OMA
Normal
Um nível hidroaéreo é apreciado quando a membrana timpânica parece translúcida acima e opaca abaixo
de uma linha que demarca a separação
Otite média aguda com abaulamento característico, visualização de vasos radiais na membrana timpânica e
identificação de secreção purulenta na orelha média
Otite média aguda com identificação de nível hidro-aéreo, característico na fase de resolução.
(A) Membrana timpânica abaulada com eritema mínimo.
(B) Abaulamento da membrana timpânica, eritema acentuado ao longo do cabo do martelo e nível
hidroaéreo na porção ântero-superior da membrana timpânica.
EXAMES COMPLEMENTARES
• TC de ossos temporais com contraste: deve ser solicitada na suspeita de complicações.
Tem maior acurácia para complicações ósseas, enquanto a RNM é superior na suspeita de
complicações intracranianas
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico é clínico. O diagnóstico de certeza da OMA se baseia na otoscopia. Atentar
principalmente para:
• otalgia súbita, secreção na orelha média (membrana timpânica abaulada, com
mobilidade reduzida, nível líquido retrotimpânico); e
• sinais e sintomas de inflamação da orelha média (hiperemia da membrana timpânica,
otalgia que afeta o sono e as atividades diárias).
O diagnóstico clínico de OMA requer um ou mais dos seguintes:
• Abaulamento da membrana timpânica; plenitude distinta ou abaulamento da membrana
timpânica é o sinal mais específico e reprodutível de inflamação aguda.
• Perfuração da membrana timpânica com otorreia purulenta aguda se tiver sido
excluída otite externa aguda.
• Sinais de inflamação aguda (por exemplo, eritema acentuado da membrana timpânica e
febre ou dor de ouvido) e efusão do ouvido médio
MANEJO
Os sintomas devem ser tratados com analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios, prescritos
sempre para alívio da dor e controle da febre.
• A história natural das OMAs não graves demonstra que a cura dessa afecção ocorre
independentemente do uso de antibióticos
• A maioria das crianças (80%) apresenta evolução favorável durante um episódio de
OMA, com resolução espontânea. Essa melhora independe da adesão ao tratamento ou
do tipo de medicação.
• Embora haja realmente um benefício adicional em se usar um antibiótico para resolução do
quadro de OMA, esse benefício é modesto.
Suporte
• analgésicos e antitérmicos deve ser imediato, já que os antibióticos demoram até 48 horas
para aliviar o quadro de febre e otalgia
Antibioticoterapia
Indicações:
• Crianças < 6 meses;
• Crianças > 6 meses com doença grave (otalgia moderada ou intensa, por mais de 48 horas,
ou temperatura ≥ 39 ◦C);
• OMA bilateral;
• Presencia de otorreia
Em criança entre 6-23 meses de idade sem sinais ou sintomas graves (otalgia < 48 horas,
temperatura < 39 °C) deve-se monitorar de perto a evolução ou prescrever antibiótico (com base
em decisão conjunta médico/pais).
• Caso se decida por observar sem dar antibiótico, mas a evolução mostrar piora ou falhar em
melhorar dentro de 48-72 horas, então, deve-se dar antibiótico.
Nos casos de OMA uni ou bilateral em crianças com idade acima de 24 meses, sem sinais ou
sintomas graves (otalgia leve há < 48 horas, temperatura < 39 °C), deve-se observar de perto a
evolução do quadro ou prescrever antibiótico (com base em decisão conjunta médico/pais).
• Caso se decida por observar sem dar antibiótico, mas a evolução piorar ou falhar em
melhorar dentro de 48-72 horas, então, deve-se dar antibiótico
Sugerimos que adultos com OMA sejam tratados com tratamento antibiótico em vez de
“espera vigilante”
• Até 1/4 dos agentes etiológicos em crianças não serão bacterianos e a observação pode ser
uma opção. Mas, em adultos, como a OMA é incomum e as complicações podem ser
significativas, parece prudente tratar todos os pacientes adultos com terapia antibiótica
Antibióticos de escolha
Pediátrico:
• Amoxicilina* (45 mg/Kg/dia dividida em duas ou três doses) por 10 dias
*pode ser associada a inibidores de beta-lactamase em casos de pacientes com comorbidades agravantes ou
suspeita/confirmação de infecções resistentes (ex: cultura que comprove resistência, mau resultado anterior
a esse fármaco, uso de antibióticos recentes)
* A amoxicilina pode ser dada se a criança não a recebeu nos últimos 30 dias, não tiver conjuntivite purulenta
e não for alérgica à penicilina.
* caso a criança tenha recebido amoxicilina nos últimos 30 dias ou tenha conjuntivite purulenta associada ou
histórico de OMA recorrente que não responde à amoxicilina, deve-se prescrever antibiótico com cobertura
adicional para betalactamase (clavulanato associado à amoxicilina ou uma cefalosporina de segunda
geração, como a cefuroxima, ou de terceira geração, a ceftriaxona, esta última no caso de a criança apresentar
vômitos ou diarreia)
Adultos:
• Amoxicilina 500 mg 3x/dia por 5-7* dias ou 875 2x/dia (adultos)
• Amoxicilina-Clavulanato 870/125 2x/dia
* Casos leves/moderados: 5 a 7 dias
* Casos graves (perda auditiva significativa, dor intensa e/ou dor timpânica acentuada): 10 dias
Duração de tratamento
• Crianças com sintomas mais graves: 10 dias.
• Crianças com OMA moderada: 7 dias; e
• crianças com OMA leve: 5-7 dias
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FARINGOAMIGDALITES
Faringotonsilites são doenças inflamatórias e infecciosas da mucosa faríngea e do tecido linfoide
do anel linfático de Waldeyer.
• As faringotonsilites infecciosas podem se manifestar em situações diversas, afetando de
forma mais evidente uma porção específica e recebendo, conforme a região afetada, nomes
diversos: adenoidite, amigdalite, tonsilite lingual ou faringite.
A maioria dos pacientes com faringite de qualquer causa apresenta dor de garganta que piora ao
engolir. Dor no pescoço ou inchaço devido a linfadenopatia regional geralmente acompanham a
dor de garganta. Febre, dor de cabeça, fadiga e mal-estar estão presentes de forma variável.
• A causa microbiológica específica da faringite raramente pode ser distinguida com base
apenas nas características clínicas.
• A maioria das faringotonsilites é causada por vírus (em mais 70% casos), geralmente
com presença de odinofagia difusa e branda, febre baixa ou ausência de febre, tosse,
rouquidão, congestão nasal, rinorreia, presença de lesões ulceradas ou vesiculares na
mucosa oral, evolucão insidiosa, entre outros
Já os quadros bacterianos, que correspondem a uma menor porcentagem em todas as faixas
etárias (menos de 30% dos casos), geralmente se apresentamcom odinofagia mais intensa,
febre alta (> 38,5 ◦C), gânglios linfáticos maiores do que 1 cm, edema e exsudato tonsilar e
faríngeo, petéquia palatal, rash escalatiniforme, dor abdominal isolada e início abrupto dos
sintomas.
• Dentre os principais agentes bacterianos envolvidos nas faringotonsilites agudas, destaca-
se o S. pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A), pela sua alta prevalência na
faixa etária entre 3-15 anos (até 2/3 casos), formas mais invasivas com repercussão
sistêmica e, especialmente, pelo seu risco de desenvolver febre reumática
A avaliação inicial da pessoa com dor de garganta tem como principal objetivo a
identificação dos casos que necessitam de tratamento com antibiótico. O reconhecimento e
o tratamento da faringoamigdalite estreptocócica são considerados medidas preventivas
primárias para casos de febre reumática
Faringotonsilites virais
• Os vírus são responsáveis por 75% das faringoamigdalites infecciosas.
• Os mais comuns são: adenovírus (20% dos casos), rinovírus, coronavírus, herpes simples,
influenza, parainfluenza, vírus sincicial respiratório, coxsackie A e Epstein-Barr vírus, o
causador da mononucleose infecciosa.
Em adultos e em menores de 3 anos, os vírus causadores de dor de garganta mais frequentes são
os responsáveis pelos sintomas do resfriado comum ou nasofaringite – rinovírus, coronavírus e
influenza
• O Epstein-Barr vírus é responsável por 80% das síndromes mono-like; sendo os 20%
restantes causados por citomegalovírus, vírus da rubéola, Toxoplasma gondii, vírus da
hepatite A e HIV
• As amigdalites virais são predominantes nos primeiros 3 anos de vida, sendo menos
frequentes após a puberdade. A principal exceção é a mononucleose infecciosa, mais
comum em adolescentes e adultos jovens.
• As infecções causadas pela maioria dos vírus têm curso limitado e melhora espontânea
Quadro clínico:
Diagnóstico é clínico
• Apresentam sintomas leves.
• As principais queixas são odinofagia e disfagia, acompanhadas de febre baixa, mialgia,
coriza hialina, espirros, tosse e, eventualmente, diarreia e conjuntivite
• A dor de garganta costuma ser moderada, podendo estar presente desde o início do
processo ou, mais comumente, aparecer 1 ou mais dias após os outros sintomas
• Anorexia e mal-estar
• sinais e sintomas de infecção do trato respiratório superior, como fadiga, congestão
nasal e tosse. Coriza, conjuntivite, espirros, rouquidão, dor de ouvido, desconforto sinusal,
úlceras orais e exantema viral
• Conjuntivite, coriza, rinite, tosse, rouquidão e diarreia são achados frequentes, e a presença
de 2 ou mais dessas manifestações sugere o diagnóstico de infecção viral.
• A febre associada à infecção viral do trato respiratório superior é tipicamente de baixo grau,
exceto em pacientes com influenza e COVID-19.
• A inflamação na faringe costuma ser leve, mas em alguns casos é grave, com ulcerações
no palato mole e nos pilares posteriores.
• Pode haver exsudato nos folículos linfoides, indistinguível daquele encontrado nas
faringites estreptocócicas, em especial nas infecções por adenovírus.
• A conjuntivite associada à faringite por adenovírus é chamada de febre faringoconjuntival.
• Os linfonodos cervicais muitas vezes estão moderadamente aumentados, podendo ser
dolorosos
• No exame físico, observam-se hiperemia e edema da mucosa faríngea, acompanhados
ou não de aumento do volume das amígdalas. Em geral, não há exsudato, mas há
exceções, como a mononucleose infecciosa
• A doença pode durar pouco mais de 24 horas e, em geral, não persiste por mais de 5 dias,
exceto a faringite por adenovírus, que pode persistir por 7 dias.
• As complicações são raras.
Sinais e sintomas das faringites virais:
• Conjuntivite
• Coriza
• Tosse
• Diarreia
• Rouquidão
• Estomatite ulcerativa discreta
• Exantema viral
Exames:
• Nas amigdalites virais, pesquisa e cultura de vírus podem ser realizadas, mas geralmente
não são solicitadas, pois possuem alto custo e não alteram o tratamento.
Tratamento
• Terapias de suporte com medicações analgésicas e antiinflamatórias.
• Antibióticos são utilizados somente no caso de infecções bacterianas secundárias
Faringotonsilites bacterianas
Etiologia
O EBGA, ou S. pyogenes, é uma bactéria gram-positiva que coloniza a garganta e a pele do
hospedeiro. É transmitida pelo contato direto com a pessoa infectada, por inalação de
secreções, por meio de tosse ou espirros, contato de pele ou por fômites contaminados. Em geral,
acomete pessoas entre 5 e 15 anos. Não é comum causar infecção em crianças menores de 3
anos
• Nas amigdalites bacterianas, o Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do
grupo A) é o causador de 15-30% dos casos em crianças e de 5-20% em adultos.
• Entre as amigdalites bacterianas, o Streptococcus pyogenes é o agente predominante na
faixa etária dos 5-15 anos, idade em que atinge a prevalência de 3-15%.
• Outras bactérias como staphylococcus aureus, haemophilus sp. e Moraxella catarrhalis são,
por vezes, responsáveis por recaídas de infecções estreptocócicas e atuariam produzindo
betalactamases, enzimas inativadoras de penicilinas, o que pode dificultar a erradicação dos
estreptococos piogênicos durante a terapêutica com betalactâmicos
Quadro clínico
O quadro clínico típico da faringite estreptocócica (início súbito, calafrios, dor de garganta intensa,
cefaleia, dor abdominal, orofaringe hiperemiada com exsudato, petéquias no palato mole e adenite
cervical anterior dolorosa) só é encontrado em 20% das crianças que contraem a doença. Na
maioria das vezes, as manifestações são menos específicas.
• O quadro cursa com dor faringea, odinofagia e otalgia reflexa.
• Os sinais e sintomas clássicos incluem dor de garganta de início agudo, febre, edema
faríngeo, exsudatos tonsilares irregulares e linfadenopatia cervical anterior
proeminente e sensível.
• Outras características que suportam o diagnóstico incluem petéquias palatinas, erupção
escarlatiniforme e língua em morango;
A escarlatina, causada pelas toxinas eritrogênicas dos estreptococos do grupo A, é caracterizada
pelo início súbito, com febre, faringite exsudativa, cefaleia, vômitos, calafrios, toxemia e erupção
cutânea de evolução característica
• A febre é de intensidade variável e pode ser acompanhada de queda do estado geral.
• início abrupto, dor intensa, adenopatia cervical e petéquias em palato, na ausência de
sintomas nasais e laringotraqueais
• Pode haver dor abdominal, náuseas e vômitos
• Em geral, não há tosse, coriza, rouquidão ou diarreia.
• Os sintomas cedem, espontaneamente, sem tratamento, entre 3 e 5 dias, com duração
máxima de 7 dias.
• No exame físico, são observados edema/hipertrofia e hiperemia amigdalianos com ou
sem exsudato, e linfonodos cervicais anteriores dolorosos à palpação
• A infecção ocorre, geralmente, no final do inverno e início da primavera
Um sinal ou sintoma avaliado isoladamente não pode ser considerado como bom preditor de
infecção por EBGA
Exames:
O EBGA pode ser identificado por teste rápido (TR) para detecção de antígenos da bactéria (RADT,
ou TR-EBGA) ou por cultura.
• O padrão-ouro para confirmação do diagnóstico é a cultura de material de orofaringe (com
sensibilidade entre 60-90% e especificidade entre 65-95%), porém tem resultado demorado
(24-48 horas).
• Os testes de detecção rápida do antígeno (RADT) apresentam especificidade de 95% e
sensibilidade de 70-95% e, apesar de serem mais caros, permitem diagnóstico rápido (15
min), reduzindo o tempo para início do tratamento e os riscos de disseminação. Porem,
resultados positivos nesses testes não permitem diferenciar a causa etiológica em
carreadores crônicos de S. pyogenes.
• O TR-EBGA e/ou a cultura não são indicados para crianças menores de 3 anos devido à
baixa incidência da bactéria e de febrereumática nessa população.
• Além disso, o TR-EBGA não é necessário para diagnóstico de faringoamigdalite
estreptocócica quando o quadro clínico é fortemente sugestivo (escore de Centor modificado
= 4)
• Ambos os exames são realizados em material proveniente das amígdalas coletado por
cotonete ou espátula específica para o exame (swab).
Outros testes como hemograma e dosagem de proteína C reativa (PCR) não são específicos para
distinguir uma infeccão causada por S. pyogenes das demais infeccões.
• Entretanto, quadros virais habitualmente cursam com linfocitose e níveis baixos de PCR,
enquanto quadros bacterianos podem cursar com neutrofilia e níveis de PCR mais elevados
• A determinacão de nível sérico de antiestreptolisina O (ASLO) não é útil para o diagnóstico
da infeccão aguda, pois a deteccão no soro ocorre apenas a partir da primeira semana de
infeccão, atinge o pico entre a 4a e a 6a semana, pode manter-se elevada por meses após
a infeccão.
Quem devo testar?
• Pacientes com uma síndrome clínica compatível com faringite por Streptococcus pyogenes
que não apresentam sintomas de uma síndrome viral respiratória devem fazer testes
microbiológicos
• Como as características clínicas da faringite por Streptococcus pyogenes se sobrepõem
amplamente às faringites causadas por vírus e outros patógenos, o tratamento empírico
para Streptococcus pyogenes sem confirmação microbiológica geralmente não é
recomendado.
Diagnóstico
O diagnóstico da faringoamigdalite aguda estreptocócica é basicamente clínico.
As características clínicas que devem levantar a suspeita de faringite por GAS incluem:
• Dor de garganta de início súbito
• Febre
• Edema tonsilofaríngeo e/ou uvular
• Exsudatos tonsilares irregulares
• Linfadenite cervical (geralmente sensível e anterior)
• Erupção cutânea escarlatiniforme e/ou língua em morango (escarlatina)
• Histórico de exposição ao GÁS
Streptococcus pyogenes faringite viral
Início súbito de dor de garganta Tosse (muitas vezes com febre e mal-estar)
Febre Congestão nasal
Edema tonsilofaríngeo e/ou uvular coriza
Exsudatos tonsilares faríngeos irregulares Conjuntivite
Adenite cervical anterior (gânglios linfáticos
sensíveis)
Rouquidão
Erupção cutânea escarlatiniforme (escarlatina) Úlceras orais
Histórico de exposição ao GÁS exantema viral
Quando a necessidade do teste não é clara com base apenas nas características clínicas, os
critérios do Centor podem ajudar a orientar a decisão de fazer o teste.
• as duas extremidades de pontuacão (≤ 1 ou ≥ 4 pontos) têm servido como discriminadores
de baixa probabilidade e alta probabilidade de infecção por S. pyogenes, respectivamente
• Dessa forma, em pacientes com baixa possibilidade de infecão estreptocócica (pontuacão
total ≤ 1 no escore de Centor modificado), assim como nos quadros clínicos mais prováveis
(pontuacão ≥ 4 no escore de Centor modificado), não haveria a necessidade de
rotineiramente usar o teste.
• Já pacientes com moderada probabilidade de infeccão estreptocócica (pontuação total 2-3
no escore de Centor modificado) idealmente deveriam ser submetidos à cultura ou ao teste
rápido de deteccão de antígeno para direcionamento de tratamento.
O Critério de Centor Modificado contempla apenas cinco características clínicas das infeccões
causadas por S. pyogenes, não inclui outras características importantes, como presenca de
petéquia no palato, aparecimento súbito dos sintomas, ausência de úlcelras ou vesículas orais,
presença de cefaleia, ausência de diarreia, náuseas e vômitos, entre outros achados. Assim, mais
importante do que se avaliar apenas a pontuacão final do escore de Centor modificado, é preciso
considerar o quadro clínico global para que possamos melhorar a sensibilidade e a
especificidade dodiagnóstico clínico das faringotonsilites causadas por S. pyogenes
• Como os critérios de Centor não são sensíveis nem específicos para o diagnóstico de
faringite estreptocócica, o uso desses critérios não substitui o teste de GAS e não deve ser
usado para determinar a necessidade de antibioticoterapia (UpToDate).
• Para a maioria dos adultos com suspeita de faringite por Streptococcus do grupo A (GAS),
o teste apenas com um teste sensível de detecção rápida de antígeno (RADT), se disponível,
é suficiente para o diagnóstico, e a cultura da garganta de acompanhamento não é
necessária
• Para pacientes com RADT positivo e faringite sintomática, o tratamento com
antibióticos é recomendado.
• Para a maioria dos pacientes com RADT negativo, testes adicionais para GAS não são
necessários
Portanto, reservamos o uso de cultura para confirmar resultados negativos de RADT nos
seguintes pacientes selecionados:
• Pacientes com maior risco de infecção grave ou complicações de faringite por GAS (por
exemplo, pacientes com história de febre reumática aguda ou condições
imunocomprometidas)
• Pacientes que estão em contato próximo com indivíduos com alto risco de complicações
(por exemplo, pacientes cuidando de bebês ou vivendo com indivíduos
imunocomprometidos)
• Pacientes adultos jovens que vivem em dormitórios universitários ou outros locais onde a
prevalência de faringite por GAS é maior do que na população adulta em geral
• Pacientes que vivem em áreas onde a febre reumática aguda é endêmica ou onde há
epidemias ativas de febre reumática aguda
• Pacientes nos quais a suspeita clínica de GAS é alta, apesar de um RADT negativo (por
exemplo, pessoas com pontuação Centor ≥3 que apresentam fatores de risco adicionais
para faringite por GAS, como exposição a uma pessoa com infecção por GAS)
CONDUTA PROPOSTA:
Escore de Centor ≤ 1
• Não pedir exames nem prescrever antibióticos
• Pensar em outros diagnósticos: resfriado comum, gripe, faringoamigdalite por EBV, CMV,
herpes, faringite por HIV ou outras ISTs, alergia, tabagismo, baixa umidade do ar e DRGE
• Pessoas classificadas com escore de Centor ≤ 0, mas com história prévia de febre reumática
ou de infecção por EBGA, são consideradas de alto risco para novo episódio. Assim, a
realização de TR-EBGA ou cultura para verificar a presença de EBGA está adequada
Escore de Centor 2 e 3
• solicitação de TR-EBGA.
• Não havendo acesso ao TR-EBGA e/ou à cultura, pode ser iniciada antibioticoterapia
empírica com escore igual a 3
• Em caso de acesso ao TR-EBGA e frente a um resultado negativo, não é necessário solicitar
cultura ou prescrever antibióticos em adultos, e sugere-se avaliar outras causas de dor de
garganta
• Em crianças com TR-EBGA negativo, como o risco de complicações é maior, pode ser
solicitada cultura.
• Quando a cultura é negativa, outras causas de dor de garganta, por exemplo, infecções por
adenovírus, podem ser muito semelhantes ao quadro clínico da faringite estreptocócica em
crianças.
• Havendo positividade no teste para detecção de EBGA, o tratamento com antibiótico está
indicado.
• A principal indicação do tratamento com antibióticos é reduzir a febre reumática e as
complicações supurativas
Centor ≥ 4
• Não precisa pedir exames
• Tratar com antibiótico
Opinião retirada do manual do residente de clínica médica (Cap. 88)
• A cultura e o teste rápido muitas vezes são de difícil obtenção e retardariam o tratamento
adequado da estreptococcia, motivo pelo qual em saúde pública geralmente o procedimento
mais adequado é tratar com antibióticos todas as infecções de garganta com a mínima
possibilidade de serem bacterianas. Esse regime mais agressivo de uso de antibióticos é
adequado a situações de alta prevalência de estreptococos no ambiente ou em surtos
epidêmicos de amigdalite aguda.
Tratamento
Medidas gerais:
• antitérmicos, hidratação, alimentação adequada.
Analgesia:
• analgésicos comuns e anti-inflamatórios.
Antibioticoterapia:
• 1ª escolha: amoxicilina, VO, por 10 dias* ou penicilina G benzatina,dose única, ou
penicilina V, VO;
Devemos lembrar que o tratamento com essa droga por sete dias pode não ser efetivo na prevencão primária
de febre reumática, por não erradicar o S. pyogenes da orofaringe.
• 2ª escolha: amoxicilina + clavulanato de potássio, cefalosporinas (cefuroxima), macrolídeos
ou clindamicina;
• pacientes alérgicos a penicilina: macrolídeos.
O uso de antibióticos para os casos bacterianos realmente abrevia a duracão de dor e reduz de
maneira significativa em mais de 2/3 casos o risco de desenvolvimento de febre reumática
nem todo quadro de faringotonsilite bacteriana deve ser tratado com antibióticos, exceto
nos quadros mais graves ou nos casos de etiologia por S. pyogenes.
• O tratamento em relação à prevenção de febre reumática não precisa ser no início do quadro
(segurança de até nove dias para o início do tratamento), o que permite ao médico que
acompanhe a evolucão dos sintomas do seu paciente sem decisões precipitadas, ou até que
saiam resultados de exames solicitados para concluir o diagnóstico e introduzir o antibiótico
A eficácia do antibiótico em prevenir a febre reumática pode ser obtida em até 9 dias após o
episódio infeccioso
PROGNÓSTICO
Amigdalites virais
• As amigdalites virais são benignas, autolimitadas e se resolvem espontaneamente.
Amigdalites bacterianas
• Mesmo as faringotonsilites bacterianas, a maioria delas (90% casos) tem resolucão completa
e espontânea dentro de sete dias
As amigdalites bacterianas têm bom prognóstico, mas deve-se ficar atento às complicações da
faringotonsilite estreptocócica:
• não supurativas: escarlatina, febre reumática, glomerulonefrite, síndrome do choque tóxico
estreptocócico;
• supurativas: abscesso periamigdaliano, abscesso parafaríngeo e abscesso retrofaríngeo.
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