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Fundam entos da educação especial Fundamentos da Irene Carmen Picone Prestes educação especialFundamentos daeducação especial Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6318-5 9 788538 76318 5 2017 Fundamentos da educação especial Irene Carmen Picone Prestes Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Shutterstock/Max Krasnov CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ P939f Prestes, Irene Carmen Picone Fundamentos da educação especial / Irene Carmen Picone Prestes. - 1. ed. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2017. 96 p.: il. ISBN: 978-85-387-6318-5 1. Educação especial. 2. Inclusão escolar. I. Título. 17-40515 CDD: 371.9CDU: 376 © 2015-2017 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Apresentação Articular de maneira criativa a prática e a teoria é um dos desafios que a educação inclusiva nos convida a fazer. Os fundamentos teóricos da educação especial apresentam temas dirigidos ao trabalho do educador com alunos com necessidades edu- cativas especiais e/ou com deficiência, ou melhor, alunos com ritmos, tempo, funcionamentos cognitivos e estilos de aprendizagens pró- prios. Alguns dos temas abordados são: a compreensão da educação num sentido amplo e suas perspectivas entrelaçadas ao contexto his- tórico-cultural atual; o conhecimento e as sugestões dos dispositivos legais nacionais e internacionais direcionados à educação acessível e inclusiva; o lugar e a função do educador e do aluno no processo ensi- no-aprendizagem; a reflexão sobre os saberes que sustentam as propo- sições curriculares das instituições escolares. Esperamos que os temas descritos estimulem a reflexão crítica fren- te às dimensões que envolvem a implementação de práticas educativas inclusivas e acessíveis. Que as ações em sala de aula considerem a singu- laridade de cada aprendiz e suscitem o máximo das suas potencialidades para o sucesso na aprendizagem. Ainda, que o respeito à alteridade e à diversidade humana sejam ingredientes na sala de aula e favoreçam o desenvolvimento das habilidades e competências de todos os alunos. Sobre a autora Irene Carmen Picone Prestes Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Antropologia Cultural pela UFPR. Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Psicanalista. Psicóloga. Docente na UTP. Presidente da Comissão de Educação Inclusiva da UTP. 6 Fundamentos da educação especial SumárioSumário 1 Educação especial e educação inclusiva no Brasil 9 1.1 Educação no Brasil e educação especial 9 1.2 Abordagens do processo de ensino 12 1.3 A instituição escolar inclusiva 13 2 Necessidades educacionais especiais e a formação docente 21 2.1 Necessidades educacionais especiais 21 2.2 Processo do aprender 23 2.3 Formação docente 25 3 Inclusão escolar: legislação, teoria e prática 31 3.1 Educação para todos 31 3.2 Políticas educacionais 32 3.3 Inclusão educacional 34 4 Altas habilidades/superdotação 41 4.1 Concepções teóricas 41 4.2 Reconhecendo a pessoa com altas habilidades/superdotação 44 4.3 Questões éticas na educação inclusiva 47 5 Comportamento social inadequado 53 5.1 Fatores associados ao comportamento social inadequado 53 5.2 Dificuldades de aprendizagem 54 5.3 Sobre o comportamento e a educação inclusiva 55 Fundamentos da educação especial 7 SumárioSumário 6 Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) 61 6.1 Características e manifestações do TDAH 61 6.2 O contexto e a percepção social 62 6.3 O professor e o aluno com TDAH 64 7 Transtornos do neurodesenvolvimento 71 7.1 Conhecendo a etiologia 71 7.2 Pode-se aprender? 73 7.3 Relação escola–família na inclusão 74 8 Habilidades cognitivas 81 8.1 O que são as habilidades cognitivas? 81 8.2 Estilo cognitivo 83 8.3 Processo criativo na educação escolar inclusiva 84 9 Adaptações curriculares para a educação inclusiva 89 9.1 Operacionalizando as adaptações curriculares 89 9.2 Recursos necessários 90 9.3 Avaliação da aprendizagem 91 Fundamentos da educação especial 9 1 Educação especial e educação inclusiva no Brasil 1.1 Educação no Brasil e educação especial As análises atuais acerca da história da educação no Brasil centram-se na investigação do contexto escolar, nos aspectos de interatividade, organização e funcionamento institucional. As pesquisas de cunho histórico contribuem para a compreensão das mudanças filosóficas, ideológicas e culturais que influenciam o comportamento manifesto nos diferentes espaços interativos: família, escola, comunida- de e trabalho. Historicamente identifica-se que o comportamento conservador e tradicional da sociedade brasilei- ra manteve-se até o período entre 1960 e 1970, quando superou a atitude social individualista para dar lugar à convivência social voltada à coletividade, à solidariedade e ao bem-viver em comunidade. Esse mesmo comportamento vigorou na instituição escolar refletindo na função do professor na sala de aula e nos efeitos à aprendizagem do aluno. As mudanças ocorridas, ao longo do tempo, também decorrem dos efeitos produzidos pelos dispo- sitivos legais, entre eles, a Constituição Federal do Brasil1 (BRASIL, 1988) que traz em seu bojo a ação e par- ticipação política apoiada nos Direitos Humanos Universais2 (ONU, 1948) que vêm sendo consolidadas no século XXI. Trouxe também sugestões para erradicar o analfabetismo, universalizar o atendimento escolar e a implementação da formação para o trabalho e da formação humanística e tecnológica no país. A Constituição ainda assegurou que a educação da pessoa com deficiência deveria ocorrer, prefe- rencialmente, na rede regular de ensino. 1 A Constituição Brasileira no seu Preâmbulo institui o Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna pluralista e sem preconceitos, fundada na ordem interna e internacional. 2 A Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama como o ideal a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, por meio do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e à liberdade, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observân- cia universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados-membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição (ONU, 1948). Educação especial e educação inclusiva no Brasil1 Fundamentos da educação especial10 Também verificam-se efeitos à construção de valores morais e éticos socialmente dese- jáveis que vieram incrementar o comportamento colaborativo do cidadão nas decisões polí- ticas, promover melhores condições de vida para todos, indiscriminadamente, e igualdade de oportunidades educativas e sociais. Outro dispositivo que fortalece o atual comportamento na educação escolar refere- -se à Declaração de Jomtien (UNESCO, 1990) que recomenda o fim de preconceitos e es- tereótipos de qualquer natureza na educação. Nessa declaração, os países lembram que a educação é um direito fundamental de todos, mulheres e homens de todas as idades, no mundo globalizado. A Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) corrobora com essas recomendações e des- taca princípios, políticas e práticas voltadas às necessidades educativas especiais. A educa- ção escolar deve adaptar-se às especificidades dos alunos e não o contrário, independente das diferenças individuais, a educação é direito universal. Sobre a atual concepçãode educação destacamos a contribuição do educador e pesqui- sador Jamil Cury (2006), que foca a educação escolar no desenvolvimento das habilidades e competências do aluno, entendendo que se trata da aquisição e da socialização em relação à ética e à moral e vivência na sociedade, entrelaçadas à produtividade, à autonomia e ao pleno exercício da cidadania. A educação escolar ao privilegiar o lugar do aluno na escolarização deve oferecer ativi- dades e experiências significativas, sem desconsiderar a subjetividade dos alunos. Tais ativi- dades devem promover a interatividade entre partícipes (aluno e professor, aluno e aluno) e, consequentemente, desenham e revelam o sentido e significado do lugar do professor na sala de aula e os efeitos à aprendizagem do aluno. Assinala-se que levar em conta diferentes pontos de vista, aprender a respeitar as opi- niões dos demais e exercitar-se na busca de autênticos consensos são habilidades essenciais na constituição da personalidade do aluno, na autonomia de aprendizagem e na qualidade de vida em sociedade. A pesquisadora da educação Isabel Alarcão (2001) apresenta a educação atual voltada à nova racionalidade do século XXI, preocupada com contextos relacionais saudáveis e arti- culada às tecnologias de informação e comunicação. Neste contexto de profunda mudança ideológica, cultural, social e profissional, aponta-se a educação como cerne do desenvolvimento da pessoa humana e da sua vivência na sociedade, sociedade da qual se espera um desenvolvimento eco- nômico acrescido e uma melhor qualidade de vida. (ALARCÃO, 2001, p. 10) Assim, a educação é a essência do processo de humanização na sociedade. Ciente disso, a escola deve utilizar, o mais adequadamente possível, seu espaço e tempo para facilitar e fa- vorecer o aprendizado de todos os alunos. Desse ponto de vista, podemos considerar como fator de sucesso na aprendizagem a riqueza e a diversidade de atividades educacionais que, oferecidas ao aluno, potencializam seu desenvolvimento integral. A educação especial, ao longo da história da educação no Brasil, passou por inúmeras transformações políticas, filosóficas, ideológicas e culturais. Essas influências refletiram na Educação especial e educação inclusiva no Brasil Fundamentos da educação especial 1 11 concepção da instituição de educação especial, desde seu caráter assistencialista, filantrópi- co até o educativo do atendimento aos alunos com deficiência no espaço escolar. A seguir, citamos alguns aspectos que neste percurso histórico interferiram na definição do público-alvo e nas práticas de ensino e aprendizagem na educação escolar especial. São eles: • ensino público obrigatório; • conceituação e classificação da deficiência; • serviços de diagnóstico e plano de tratamento; • abordagens do ensino à educação especial; • escolas especiais, classes especiais na escola comum; • formação de professores. Para a compreensão histórica da educação especial é interessante destacar alguns do- cumentos legais, entre eles, as Diretrizes Nacionais para Educação Especial na Educação Básica (BRASIL, 2001, p. 9-10) que delimita a educação especial “como modalidade da educação escolar, organiza-se de modo a considerar uma aproximação sucessiva dos pressupostos e da prática pedagógica social da educação inclusiva” devendo garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos alunos que apresentam necessidades educacionais especiais. Nesta mesma direção, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva descreve seu objetivo de assegurar a inclusão escolar de alunos [...] com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/ superdotação, orientando os sistemas de ensino para garantir: acesso ao ensino regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais eleva- dos do ensino; transversalidade da modalidade de educação especial desde a educação infantil até a educação superior; oferta do atendimento educacional especializado; formação de professores para o atendimento educacional espe- cializado e demais profissionais da educação para a inclusão; participação da família e da comunidade [...]. (BRASIL, 2008, p. 14) Em 2009 a Resolução CNE/CEB n. 4/2009 (BRASIL, 2009) institui as Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, modalidade Educação Especial. Em acordo, outro dispositivo, o Decreto n. 7.611, de 17 de novembro de 2011, dispõe sobre a Educação Especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências. Além desses, existem outros dispositivos legais sobre as dimensões da educação especial e sua implementação. Atualmente, a educação especial sistematiza suas práticas educativas inclusivas e deli- neia seus caminhos planejando intervenções de forma colaborativa entre professores, para identificar as condições de melhorar as tecnologias, os instrumentos pedagógicos para que o aluno possa se beneficiar dos recursos e possa aprender a aprender. A educação especial pode atuar de forma complementar, suplementar ou substitutiva como espaço educacio- nal de preparação para que o aluno tenha mais autonomia de aprendizagem na educação regular. Educação especial e educação inclusiva no Brasil1 Fundamentos da educação especial12 1.2 Abordagens do processo de ensino São inúmeras as abordagens pedagógicas que, historicamente, influenciam as tendên- cias dos processos de ensino e aprendizagem. Resgatar e refletir criticamente sobre a interfe- rência dos diversos enfoques do ensino contribui para a identificação de suas manifestações nas ações educacionais da escola. As abordagens do processo de ensino se entrelaçam ao planejamento e aplicação das tarefas e atividades escolares formativas e avaliativas. Compreender a inter-relação entre as abordagens de ensino e os processos de aprendizagem é essencial para uma educação escolar atualizada aos fundamentos teóricos e construtivistas da perspectiva inclusiva, ou melhor, uma educação voltada ao aprendizado dos conceitos e atenta à qualidade e trans- missão do ensino para todos. Há várias formas de se conceber o fenômeno educativo. [...] É um fenômeno humano, histórico e multidimensional. Nele estão presentes tanto a dimensão humana quanto a técnica, a cognitiva, a emocional, a sociopolítica e cultural [...] Diferentes formas de aproximação do fenômeno educativo podem ser conside- radas como mediações historicamente possíveis, que permitem explicá-lo [...] por isto, devem ser elas analisadas, contextualizadas e discutidas criticamente. (MIZUKAMI, 1986, p. 7) Em acordo ao proposto por Mizukami e demais pensadores da educação, apresentamos a seguir alguns enfoques do processo de ensino: 1. Teoria da educação de enfoque progressista – Representantes de destaque: Dewey, Montessori e Piaget. Função da escola visa ao ajustamento social em que, por meio de experiências, a escola deve retratar a vida cotidiana. A função do professor é auxiliar o desenvolvimento livre e a vivência do aluno, por meio de conteúdos curriculares selecionados com base nos interesses do aluno. O ambiente é um meio estimulador à atividade do aprendiz. Valorização dos aspectos afetivos e atitudi- nais para o desenvolvimento pleno do aluno. 2. Teoria da educação de enfoque não diretivo de Carl Rogers – Função da esco- la: voltada à formação de atitudes individuais e coletivas no espaço da instituição escolar. O professor é um especialista em relações humanas e oferece um relacio- namento autêntico e pessoal ao aluno. Aprender é refletir sobre a percepção de si mesmo no contexto social da escola, a autorrealização. Privilegia a autoavaliação. 3. Teoria da educação de enfoque diretivo tecnicista – Representantes: Skinner, Gagné. O enfoque tecnicista atende às Leis 5540/683 e 5692/714 revogadas pela Lei 3 Lei 5540/68 – Fixa normas de organização do ensino superior e sua articulação com a escola média, e dá outras providências.4 Lei 5692/71 – Lei de diretrizes e bases da educação nacional. Fixa diretrizes e bases para o ensino de 1° e 2° graus e dá outras providências. Educação especial e educação inclusiva no Brasil Fundamentos da educação especial 1 13 9394/965 que trouxe um novo direcionamento à educação escolar. É função da es- cola produzir mão de obra capacitada para o mercado de trabalho. O papel do pro- fessor é de técnico que aplica instrumentos que garantem a eficiência e a eficácia de ensino. Ênfase na produtividade do alunado. 4. Teoria da educação de enfoque progressista libertadora – Representantes: Celestin Freneit, Paulo Freire e Rubem Alves. É função da escola desenvolver mecanismos de mudanças institucionais e transformação no alunado. Baseia-se na participação grupal e nas atividades de aprendizagem ao aluno. O conhecimento é a desco- berta às necessidades e exigências da vida em sociedade. O papel do professor é de orientador da aprendizagem por meio de temas geradores. A apropriação dos conteúdos curriculares só tem sentido e significado quando aplicados ao cotidiano da vida do alunado. 5. Teoria da educação de enfoque histórico-crítico – Representantes: Makarenko, Saviani e Frigotto. A escola tem um caráter ideológico e serve para socializar o saber para todos os alunos. Na relação pedagógica professor e aluno são sujeitos. É função do professor criar as condições necessárias à apropriação do conhecimen- to científico. 6. Teoria da educação de enfoque crítico-reprodutivo – Representantes: Bourdieu, Passeron e Althusser. É função da escola reproduzir a cultura dominante. O conví- vio entre alunos e professores serve de articulador às relações entre grupos sociais (família, escola, comunidade). As práticas educativas pedagógicas estão funda- mentadas na cultura dos grupos sociais. Os diversos enfoques de ensino descrevem algumas qualidades básicas que alicerçam as práticas educativas na instituição escolar. Desta maneira, revelam a organização, o fun- cionamento e o clima institucional, em que professores e alunos, com deficiência e sem, participam como atores no processo ensino-aprendizagem. 1.3 A instituição escolar inclusiva A escola6 como organismo vivo, institucionalmente, mostra-se como variável interve- niente no aprendizado do aluno. Atualmente, verificamos que os pais/responsáveis preocu- pam-se com as propostas educativas da escola e interessam-se em conhecê-la previamente a 5 Lei 9394/96 – Fixa as diretrizes e bases da educação nacional. No Art. 1° a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. No Art. 8° A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios devem organizar em regime de colaboração os respectivos sistemas de ensino. 6 Escola – de acordo a Maria Mossato, 2000, p. 3 “a escola (e seus participantes), enquanto organis- mo vivo, [...] Articula-se como qualquer outro sistema, na busca da manutenção de sua identidade, de seu equilíbrio, ainda que esse equilíbrio implique ônus consideráveis”. Educação especial e educação inclusiva no Brasil1 Fundamentos da educação especial14 matrícula do filho. Os pais, em sua maioria, procuram uma escola que estimule as potencia- lidades, atenda às necessidades de aprendizagem e conte com recursos tecnológicos e socia- lizadores que favoreçam o desenvolvimento do seu filho, uma vez que a educação escolar para o aluno é “qualitativamente diferente do processo de educação em sentido amplo. Na escola a criança está diante de uma tarefa particular: entender as bases dos estudos científi- cos, ou seja, um sistema de concepções científicas” (VYGOTSKY, 1991, p. 147). Refletir sobre a instituição7 escolar requer ponderar sobre seus princípios filosóficos, ideológicos e culturais e sinalizar as características organizacionais da escola que contri- buem para o sucesso da aprendizagem de cada aluno. Não há consenso sobre que aspectos constituem o sistema organizacional escolar, no entanto, é possível sugerir alguns alicerces ao funcionamento institucional: 1. as relações e o cenário sócio-histórico-cultural; 2. as metas e tarefas propostas ao aluno; 3. ser um sistema aberto e funcional; 4. a permanente formação docente; 5. as tecnologias de comunicação e informação; 6. a interatividade comunicacional institucional. De acordo com Aquino (1998, p. 44), “o papel da escola é o de uma instituição social- mente responsável” e acessível nos aspectos comunicacional, metodológica e instrumental ao aluno e aos demais atores escolares. Os autores Cesar Coll, Álvaro Marchesi, Jesus Palacios e colaboradores (2004, p. 394), ao estudar o clima institucional da escola, sinalizam que a dinâmica do sistema escolar, “a cultura que molde o seu funcionamento e as decisões que se tomem nela acabarão de fato tendo uma influência educacional sobre os alunos”. Os autores discorrem sobre duas possi- bilidades de influência: 1a) a influência indireta é aquela que organiza as práticas docentes numa direção espe- cífica, conformada com as características da instituição escolar; 2a) a influência direta que se dá nas atividades oferecidas aos alunos dentro e fora da sala de aula. O quadro 1 apresentado a seguir detalha aspectos das influências, direta e indireta, da escola que regem os seus modelos de atuação sobre o aprendizado de cada aluno (COLL; MARCHESI; PALACIOS et al., 2004, p. 396). 7 Instituição – na obra Psicologia Institucional, de José Bleger, 1984, p. 37, significa “o conjunto de organismos de existência física concreta, que têm certo grau de permanência em algum campo ou setor específico da atividade ou vida humana”. Educação especial e educação inclusiva no Brasil Fundamentos da educação especial 1 15 Quadro 1 – Influência direta e indireta da escola. Influência indireta ou mediada Favorecendo as melhores condições na escola para que os professores respondam de maneira adequada às necessida- des educacionais de seus alunos Influência direta Favorecendo a participação direta dos alunos em situações de aprendizagem complementares às da sala de aula Objetivo básico Contar com um projeto de es- cola coerente, ajustado e viável Fatores: decisões do projeto - Agrupamento dos alunos - Organização do tempo - Organização dos espaços - Grau de interdisciplinarida- de das matérias curriculares - Medidas de trânsito en- tre séries e etapas Processos: organização e estilo da tomada de de- cisões do projeto - Estruturas de participação - Coordenação vertical e horizontal da escola - Grau de participação de toda a comunidade escolar - Estilo de liderança - Autonomia da escola e de cada professor ao longo do tempo para ajustá-las - Variação das formas de interatividade - Avaliação da escola Normas e modelos de comportamento Atividades não letivas I. Fase de planejamento da prática - Intencionalidade: incluí- -lo no currículo explícito - Participação - Caráter preventivo, e não meramente sanciona- dor do RRI (regulamento do regimento interno) II. Fase de pôr em prática - Coerência entre o que se diz e o que se faz e coerência entre o con- junto dos professores - Uso da razão dialógi- ca na educação moral - Riqueza e variedade da oferta de atividade - Complementaridade dessas atividades com as letivas - Competência educa- tiva dos responsáveis pelas atividades - Complementaridade com o ambiente Fonte: COLL; MARCHESI; PALACIOS et al., 2004, p. 396. Refletir sobre os aspectos estruturais da instituição escolar revela a complexidade do sistema escolar e a necessidade da reflexão crítica institucional. Educação especial e educação inclusiva no Brasil1 Fundamentos da educação especial16 Desejamos uma escola reflexiva, concebida como uma organização que conti- nuadamente se pensa a si própria, na sua missão social e na sua organização e confronta-se com o desenrolarda sua atividade em um processo heurístico simultaneamente avaliativo e formativo. (ALARCÃO, 2001, p. 11) Desse modo, a escola é convidada a pensar com responsabilidade e cuidado quando busca alicerçar ao funcionamento escolar as premissas da educação inclusiva, como acolher a diversidade cultural, as diferenças individuais e a alteridade do sujeito, com vias à convi- vência socioeducativa harmoniosa e saudável. Ainda, a competência educativa da mediação e das atividades de aprendizagens a que os alunos, com deficiência e sem, são partícipes na escola. Ampliando seus conhecimentos A fundamentação filosófica (BRASIL, 2004, p. 7-9) A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) uniu os povos do mundo todo, no reconhecimento de que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de cons- ciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade” (Art. 1°). A concepção contemporânea de Direitos Humanos, introduzida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), se fundamenta no reconhecimento da dignidade de todas as pessoas e na universalidade e indivisibilidade desses direitos; universalidade, porque a condição de pessoa é requisito único para a titularidade de direitos e indivisibilidade, porque os direitos civis e políticos são conjugados aos direitos econômi- cos, sociais e culturais. A Declaração conjuga o valor de liberdade ao valor de igualdade, já que assume que não há liberdade sem igualdade, nem tampouco igualdade sem liberdade. Neste contexto, o valor da diversidade se impõe como condição para o alcance da universalidade e a indivisibilidade dos Direitos Humanos. Num primeiro momento, a atenção aos Direitos Humanos foi marcada pela tônica da proteção geral e abstrata, com base na igualdade formal; mais recentemente, passou-se a explicitar a pessoa como sujeito de direito, respeitado em suas peculiaridades e particularidades. Educação especial e educação inclusiva no Brasil Fundamentos da educação especial 1 17 O respeito à diversidade, efetivado no respeito às diferenças, impul- siona ações de cidadania voltadas ao reconhecimento de sujeitos de direitos, simplesmente por serem seres humanos. Suas especificidades não devem ser elemento para a construção de desigualdades, discri- minações ou exclusões, mas sim, devem ser norteadoras de políticas afirmativas de respeito à diversidade, voltadas para a construção de contextos sociais inclusivos. Princípios A ideia de uma sociedade inclusiva se fundamenta numa filosofia que reconhece e valoriza a diversidade, como característica inerente à cons- tituição de qualquer sociedade. Partindo desse princípio e tendo como horizonte o cenário ético dos Direitos Humanos, sinaliza a necessidade de se garantir o acesso e a participação de todos, a todas as oportunidades, independentemente das peculiaridades de cada indivíduo e/ou grupo social. A identidade pessoal e social e a construção da igualdade na diversidade A identidade pessoal e social é essencial para o desenvolvimento de todo indivíduo, enquanto ser humano e enquanto cidadão. A identidade pessoal é construída na trama das relações sociais que per- meiam sua existência cotidiana. Assim, há que se esforçar para que as rela- ções entre os indivíduos se caracterizem por atitudes de respeito mútuo, representadas pela valorização de cada pessoa em sua singularidade, ou seja, nas características que a constituem. “A consciência do direito de constituir uma identidade própria e do reco- nhecimento da identidade do outro traduz-se no direito à igualdade e no respeito às diferenças, assegurando oportunidades diferenciadas (equi- dade), tantas quantas forem necessárias, com vistas à busca da igual- dade.” (MEC/SEESP, 2001). A Constituição Federal do Brasil assume o princípio da igualdade como pilar fundamental de uma sociedade democrática e justa, quando reza no caput do seu Art. 5° que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros, resi- dentes no país, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igual- dade, à segurança e à propriedade” (CF – BRASIL, 1988). Educação especial e educação inclusiva no Brasil1 Fundamentos da educação especial18 Para que a igualdade seja real, ela tem que ser relativa. Isto significa que as pessoas são diferentes, têm necessidades diversas e o cumprimento da lei exige que a elas sejam garantidas as condições apropriadas de atendi- mento às peculiaridades individuais, de forma que todos possam usufruir as oportunidades existentes. Há que se enfatizar aqui, que tratamento diferenciado não se refere à instituição de privilégios, e sim, a disponibili- zação das condições exigidas, na garantia da igualdade. [...] Atividades 1. Como Isabel Alarcão descreve a nova racionalidade na educação? 2. Sugira um esquema que demonstre a organização e o funcionamento do processo de ensino-aprendizagem na escola. Alguns elementos que pode usar: professor, aluno, método, avaliação, conteúdo e objetivo. 3. Qual a definição de José Bleger para instituição? Referências ALARCÃO, Isabel (Org.). Escola reflexiva e nova racionalidade. Porto Alegre, ArtMed, 2001. AQUINO, Julio (Org.). Diferenças e preconceito na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1998. BLEGER, José. Psico-higiene e psicologia institucional. Porto Alegre: ArtMed, 1984. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Publicada no Diário Oficial da União, de 05 de out. 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicao.htm>. Acesso em: 6 abr. 2017. ______. Lei n. 5.540, de 28 de novembro de 1968. Fixa normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média, e dá outras providências. Publicada no Diário Oficial da União de 23 dez. 1968 e retificado no Diário Oficial da União 03 dez. 1968. Revogada pela Lei n. 9.394, de 20 nov. 1996. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5540.htm>. Acesso em: 6 abr. 2017. ______. Lei n. 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média, e dá outras providências. Publicada no Diário Oficial da União de 23 nov. 1968 e retificado no Diário Oficial da União de 03 dez. 1968. Revogada pela Lei n. 9.394, de 1996, com exceção do artigo 16, alterado pela Lei n. 9.192, de 1995. Disponível em: <www. planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5692.htm>. Acesso em: 6 abr. 2017. Educação especial e educação inclusiva no Brasil Fundamentos da educação especial 1 19 BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacio- nal. Publicada no Diário Oficial da União, Brasília. DF, de 23 dez. 1996. Disponível em: <http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm>. Acesso em: 6 abr. 2017. ______. Ministério da Educação. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Secretaria de Educação Especial. MEC; SEESP, 2001, 79 p. 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VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos supe- riores. São Paulo: Martins Fontes, 1991. Educação especial e educação inclusiva no Brasil1 Fundamentos da educação especial20 Resolução 1. A pesquisadora da educação Isabel Alarcão (2001) apresenta a educação atual volta- da à nova racionalidade do século XXI, preocupada com espaços de vida saudável e articulada às tecnologias de informação e comunicação. 2. Processo de ensino-aprendizagem (sugestão): OBJETIVOS CONTEÚDO MÉTODOS AVALIAÇÃO RECURSOS PROFESSOR ALUNOGRUPO 3. Instituição para Bleger é “o conjunto de organismos de existência física concreta, que têm um certo grau de permanência em algum campo ou setor específico da atividade ou vida humana”. Fundamentos da educação especial 21 2 Necessidades educacionais especiais e a formação docente 2.1 Necessidades educacionais especiais Ao longo da história a terminologia dirigida às pessoas com necessidades espe- ciais e/ou deficiências recebeu múltiplos sentidos e significados, desde os de ordem biológica voltados aos deficits e incapacidades da pessoa, sustentados numa premissa clínico-médica, até as significações mais atuais sustentadas numa premissa socioedu- cativa que remetem à singularidade, à convivência socioeducativa e ao exercício da cidadania. As discussões para precisão e atualização da terminologia e conceptualização no Brasil começam nos anos 1980 com inúmeros movimentos da sociedade civil, rom- pendo com o paradigma assistencialista e clínico para um paradigma sociocultural que busca compreender as pessoas com limitações e restrições de participação física, sensorial, mental ou múltipla. Entre os documentos nacionais e internacionais, a Constituição Federal Brasileira (1988) e a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (1989) orientam que a educação, num sentido amplo, deve promover o desenvolvimento das potencialidades de todos os seres humanos e a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) ratifica a expressão pessoas com necessidades especiais. Necessidades educacionais especiais e a formação docente2 Fundamentos da educação especial22 O termo “necessidades especiais” não substitui a palavra “deficiência”, como se imagina. A maioria das pessoas com deficiência pode apresentar necessidades especiais (na escola, no trabalho, no transporte) mas nem todas as pessoas com necessidades especiais têm deficiências. As necessidades especiais são decorren- tes de condições atípicas como, por exemplo, deficiências, insuficiências orgâ- nicas, transtornos mentais, altas habilidades, experiências de vida marcantes. Estas condições podem ser agravadas e/ou resultantes de situações socialmente excludentes”. (BRASIl, 2008, p. 84-85) Atualmente, um documento de referência é a Lei 13.146/2015 que institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, e dá orientações no Art. 2°. Art. 2o Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de lon- go prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. 1o A avaliação da deficiência, quando necessária, será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar e considerará: I – os impedimen- tos nas funções e nas estruturas do corpo; II – os fatores socioambientais, psicoló- gicos e pessoais; III – a limitação no desempenho de atividades; e IV – a restrição de participação. 2o O Poder Executivo criará instrumentos para avaliação da deficiência. (BRASIL, 2015) Para incrementar a identificação das necessidades especiais das pessoas é importante destacar o documento da CIF – Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (OMS, 2004), o qual articula a acessibilidade e representa uma mudança no para- digma para avaliar, planejar intervenções e trabalhar com a “deficiência”. Alinha-se a este as ajudas técnicas ou tecnologias assistivas1, como recursos essenciais a todas as pessoas para potencializar as suas habilidades e competências e promover a cidadania. Ainda, incrementando a discussão sobre classificação de deficiências, a Cartilha de com- portamentos , mitos e verdades – SEDPCD-PR (CURITIBA, 2014) pautada na Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência (BRASIL, 2008) e o protocolo facultativo, apresenta uma estrutura básica cronológica para compreender a deficiência (CURITIBA, 2014, p. 23): 1° momento: o ambiente dá origem à causa; 2° momento: a causa produz impedimento na pessoa; 3° momento: o impedimento se transforma em deficiência; 4° momento: no ambiente, a interação “barreiras ambientais/pessoa com defi- ciência” resulta em incapacidade imposta sobre a pessoa. O significado da expressão necessidades educacionais especiais delimita as necessida- des específicas do aluno, seja de natureza psíquica, biológica, social ou cultural, as quais 1 Tecnologia Assistiva (TA) – entendida como dispositivo que atende a todas as dimensões de aces- sibilidade dirigidas às necessidades da pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida e limitada nas suas funções motoras, auditivas, visuais ou de comunicação. Necessidades educacionais especiais e a formação docente Fundamentos da educação especial 2 23 influenciam na aprendizagem e nos comportamentos esperados do aluno. “É uma forma de reconhecer que muitos alunos, tenham ou não deficiência [...] apresentam necessidades educacionais que passam a ser especiais quando exigem respostas específicas e adequadas” (PARANÁ, 2001, p. 15). O pesquisador do desenvolvimento humano Lev Vygotsky2 (1896-1934) ao estudar as necessidades educativas especiais relata que para compreendê-las devemos observar suas manifestações no comportamento social da pessoa em relação a um determinado período do desenvolvimento do ser humano. “É lembrarque essa estrutura humana completa é produ- to de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social” (VYGOTSKY, 1991, p. 33). Para atender às necessidades educativas especiais de cada aluno “é necessário que os recursos educacionais sejam viabilizados em várias instâncias para assegurar a todos o di- reito de exercício da cidadania” (PARANÁ, 2001, p. 15). Quer dizer, a perspectiva educa- cional atual deve alinhar-se às contingências de acessibilidade e à remoção das barreiras para o aprendizado do aluno com deficiência. A prática educativa inclusiva deve focar na potencialização das habilidades e competências próprias do aluno para seu desenvolvimen- to intelectual e vivência social. Desse ponto de vista, o psicólogo Vygotsky (1991, p. 101) ressalta que o [...] aprendizado não é desenvolvimento, entretanto, o aprendizado adequada- mente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado é um aspecto necessário e universal do pro- cesso de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente humanas. (VYGOTSKY, 1991, p. 101) Espera-se que na construção das ações pedagógicas e educativas o professor ponde- re entre as respostas esperadas e as necessidades educacionais especiais para a adequada aprendizagem do aluno. Uma prática educativa inclusiva trabalha na direção do sucesso da aprendizagem e no desenvolvimento das potencialidades do aluno, não fica restrita à inca- pacidade e à falta de participação, seja ela motora, intelectual, visual ou auditiva. 2.2 Processo do aprender Historicamente, as práticas educativas deixam de focar as necessidades educacionais especiais nos deficits, incapacidades de aprendizagem e nas dificuldades específicas dos alu- nos, para focar no seu processo do aprendizado, nas práticas educativas formativas e no desenvolvimento das suas habilidades e competências. 2 Lev S. Vygotsky foi advogado, filólogo e psicólogo russo. O objetivo dos seus estudos foi relacionar os princípios do materialismo histórico e dialético à psicologia do desenvolvimento humano. Buscou re- construir a origem e o curso do desenvolvimento do comportamento e da consciência. O desenvolvimento é um processo em movimento e em mudança que tem sua história, a qual é caracterizada por mudanças qualitativas (mudança na forma, estrutura e características básicas) e quantitativas. Necessidades educacionais especiais e a formação docente2 Fundamentos da educação especial24 O sentido e significado do processo do aprendizado descrito por Maria Luisa Cabani (2004) considera a interatividade entre três variáveis que moldam a relação ensino-aprendi- zagem e seu resultado. A seguir as variáveis: 1° o cenário educacional, que é composto pelo ambiente institucional físico e humano, a sala de aula; 2° as intenções, que podem ser conscientes e inconscientes, que orientam a atitude e a vontade do aprendiz; 3° a ação pedagógica educacional do professor na sala de aula. A educadora Cabani (2004) ao discutir sobre as teorias de Entwistle (1998)3 descreve a “aprendizagem centrada no aprendiz” na interatividade entre quatro enfoques: • Enfoque de aprendizagem: identifica a intenção que orienta a atividade do aprendiz. • Enfoque estratégico: o aprendiz organiza a informação para conseguir o melhor re- sultado possível. Orienta seu trabalho em função da percepção que tem das preferên- cias dos professores. Busca as condições e os materiais adequados para o estudo. • Enfoque profundo: o aprendiz transforma a informação para compreender as ideias e dotá-las de sentido. Relaciona as ideias com o conhecimento prévio e com a experiência. Examina a lógica e os argumentos de maneira cautelosa e crítica. • Enfoque superficial: o aprendiz reproduz a informação para cumprir os requisi- tos da série. Memoriza os dados e os procedimentos de maneira rotineira. Sente-se pressionado e angustiado pelo trabalho sem motivo aparente. Vale lembrar que a aprendizagem centrada na perspectiva do aprendiz vai ao encontro dos estilos cognitivos e de aprendizagem do aluno que são definidos como a atitude, consciente e inconsciente, do aprendiz frente às atividades escolares e à resolução dos problemas na sala de aula. A pesquisadora Vanessa Lindemann, quando define os estilos de aprendizagem, diz que: [...] os sujeitos têm variadas maneiras de perceber e processar a informação, que implica diretamente em diferenças nos processos de aprendizagem, que podem modificar-se ao longo do tempo no mesmo sujeito. (LINDEMANN, 2008, p. 36) Finalmente, ao focalizar o processo do aprendizado no aprendiz, a escola confirma os fundamentos teóricos e metodológicos da inclusão. Dar maior valor ao aluno, sem desva- lorizar as técnicas e os recursos educacionais, para que as atividades escolares promovam novas formas de funcionamento mental. Portanto, coerente aos pressupostos teóricos para uma educação inclusiva que atende as diferenças e potencialidades individuais e a diversi- dade cultural humana. 3 Noel Entwistle é psicólogo educacional e professor na universidade de Edimburgo, na Escócia. É autor de diversas publicações, dirigidas ao tema das teorias da aprendizagem e ensino, e à compreen- são da universidade e o ensino superior. Necessidades educacionais especiais e a formação docente Fundamentos da educação especial 2 25 2.3 Formação docente O pressuposto atual é que a educação exerce função essencial na humanização dos su- jeitos na sociedade. No contexto escolar compete ao educador ocupar o lugar de interlocutor do aluno, desta feita, impõe-se hoje a revitalização do seu status, “o professor dever ser reco- nhecido como tal pela sociedade, além de dispor da autoridade necessária e das ferramentas adequadas para exercer sua função” (DELORS, 2010, p. 34)4. Jacques Delors (2010) descreve a prática educativa do professor alicerçada sobre qua- tro aprendizagens fundamentais: aprender a conhecer, a fazer, a viver em comunidade e, finalmente, a ser humano. O autor chama a atenção para as práticas de educação formativa do sujeito nas dimensões cognitiva, afetiva e sociocultural. Essas práticas devem despertar o potencial criativo, a capacidade do saber pensar e o pensamento argumentativo do aluno para a compreensão dos conceitos, seus significados e sentidos num plano teórico e prático. O lugar do professor se conforma na convivência escolar, coerente com o projeto políti- co pedagógico atrelado a um tempo e espaço escolar. De outro modo, o lugar do professor se dá em acordo a sua formação continuada durante a permanência na instituição escolar. A Lei 9.394/96 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, proclama a educação por meio do processo de ensino-aprendizagem em instituições escolares dando ênfase à formação docente continuada. A formação do professor deve ser um processo continuo que perpassa sua práti- ca com os alunos, a partir do trabalho transdisciplinar com uma equipe perma- nente de apoio. É fundamental considerar e valorizar o saber de todos os pro- fissionais da educação no processo de inclusão [...]. É imprescindível, portanto, investir na criação de uma política de formação continuada para os profissionais da educação. (PAULON, et al., 2005, p. 21-22) A formação permanente do docente pode ser pensada na interatividade de quatro di- mensões que a sustentam na escola: • A interatividade trata da relação professor-aluno que vai se construindo e se atua- lizando na sala de aula. “Quando um profissional reconhece uma situação como única não pode lidar com ela apenas aplicando técnicas derivadas de sua bagagem de conhecimento profissional” (SCHON, 2000, p. 17), trata-se portanto de uma interação afetivo-social-cultural entre professor-aluno. • A coerência que é revelada na atitude e prática docente que, quando ajustada aos processos pedagógicosinstitucionais, viabiliza o aprender do aprendiz. • A responsividade é demonstrada quando o docente está em comunhão com as propostas institucionais da escola. 4 Jacques Delors redigiu o Relatório para a Unesco, produzido pela Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI. Este documento mundial sobre a educação para todos deu origem ao livro: Educação: um tesouro a descobrir, trazendo como eixos essenciais os quatro pilares da educação, que são as bases das habilidades e competências para este século. Necessidades educacionais especiais e a formação docente2 Fundamentos da educação especial26 • A executável é a dimensão que se refere à viabilidade das condições de trabalho proporcionada pela instituição ao professor, para que concretize sua práxis peda- gógica e educacional, a favor do seu aluno, de todos os alunos. Muitos reconhecem que a tarefa do professor é viabilizar o desenvolvimento do aluno. Para tanto, foca o trabalho com o aluno na mediação dos conteúdos e conceitos e nas ativi- dades desafiadoras de aprendizagem. Lavoura, Botura e Darido (2006) no artigo “Educação física escolar: conhecimentos necessários para a prática pedagógica”, enfatizam que uma qualidade essencial do professor é a generosidade e o respeito incondicional ao aluno [...] pois com a generosidade é que o professor consegue chegar ao aluno; a ar- rogância nega a generosidade e também a humildade. O respeito [...] nasce de relações justas, sérias, humildes e generosas, e então o professor assume a sua autoridade docente e o aluno assume a sua liberdade de forma ética, e assim se forma o espaço pedagógico, o conteúdo pode chegar ao aluno e este pode pon- derar a respeito do que recebe. (LAVOURA; BOTURA; DARIDO, 2006, p. 206) A formação docente consiste numa das conquistas e também num dos desafios à in- clusão. Cabe à escola, na formação inicial e continuada do professor, atentar para que não seja diferenciada para alguns alunos, mas que seja própria para cada aluno. A tarefa do pro- fessor deve oferecer diretrizes claras que potencializem as habilidades e competências do aluno. Deve oferecer condições que impulsionem os processos de aprendizagem criativos e significativos aos alunos com deficiência e demais. Essas e outras ações atreladas às condições de trabalho do professor e ao funcionamen- to da instituição escolar certamente colaborarão para a melhoria das práticas educativas inclusivas no Brasil. Ampliando seus conhecimentos Os estilos cognitivos na educação escolar e sua dimensão conceitual como aporte teórico para a orientação do ensino e da aprendizagem. Uma discussão introdutória (LEMES, 2012, p. 2-4) A dimensão cognitiva no processo de aprendizagem é objeto permanente de preocupação e busca de respostas aos desafios apresentados pela com- plexidade das circunstâncias educativas. Nesse contexto, a educação esco- lar procura atender às demandas da sociedade na qual está contida. Entre essas demandas encontra-se a necessidade da qualificação do processo pelo respeito e compreensão às diferenças e, com efeito, à individualidade Necessidades educacionais especiais e a formação docente Fundamentos da educação especial 2 27 e potencialidade de cada sujeito. Os estudos sobre Estilos Cognitivos têm contribuído significativamente nesse sentido. São algumas dessas contri- buições que serão exploradas neste texto, de forma conceitual e introdu- tória, com o objetivo de esclarecer e possibilitar esse debate no âmbito da educação escolar. Com origem na Psicologia Cognitiva, mais especificamente, nos estudos sobre cognição humana, na perspectiva diferencial, os Estilos Cognitivos são constructos desenvolvidos para descrever traços perceptuais dos indivíduos. Desde o século XIX, psicólogos como Cattell e Jastrow procuravam anali- sar e medir as diferenças individuais através da avaliação das capacidades perceptuais dos indivíduos; porém, juntamente com a evolução dos estu- dos no campo da psicologia ocorre a sua fragmentação, emergindo daí inúmeras subáreas e, dentre elas, a própria Psicologia Experimental. Já no século XX, inúmeros desafios se apresentam na busca da compreensão do homem e sua individualidade. Estudos procuram estabelecer relações, por exemplo, entre a denominada Psicologia Diferencial e a Psicologia Genética de Piaget. Nos anos 80, Reuchlin e Bacher (1981), desenvol- vem estudos sobre aspectos cognitivos da personalidade e, dentre outras coisas, destacam, numa alusão direta aos postulados piagetianos, como sendo altamente provável a hipótese da origem genética das diferenças entre os indivíduos. Sperry (1977) considera que o interesse por esses estudos tenha se disse- minado de forma mais intensa, a partir dos trabalhos de três diferentes grupos de investigação: o de Brooklyn, o de Menninger e o do Instituto Fels. Na escola de Brooklyn, Asch e Witkin, isolam traços de percepção que denominam como “Dependência e Independência de Campo” e, mais tarde, o próprio Witkin e outros (1962), apresentam evidências em seus estudos de que as percepções individuais são parte de um conjunto mais amplo de fatores interrelacionados que refletem o nível de diferenciação psicológica dos indivíduos (SPERRY, 1977, p. 72-73). Os autores, apesar disso, procuram ir além desse constructo ampliando a sua abrangência. Em discussões específicas sobre essa questão, descrevem esse constructo – Estilos Cognitivos (EC)2 – como as “características do modo como a concepção individual organiza o ambiente”. Necessidades educacionais especiais e a formação docente2 Fundamentos da educação especial28 Conforme os principais grupos de maior influência sobre os estudos dos EC, apresentados por Sperry, as concepções também se mostram dife- rentes. Para o grupo da Fundação Menninger, formado por Holtzman, Gardner e outros, EC é visto como um “composto de controles cogniti- vos” que, por sua vez, é definido como “[...] processos internos de con- trole cognitivo, enquanto formas características de integração dos aconte- cimentos externos” (SPERRY, 1977, p. 73). Para o grupo do Instituto Fels, formado por Kogan e seus associados, EC é definido como “preferências individuais estáveis nos modos de organização perceptiva e categoriza- ção conceitual do ambiente externo” (SPERRY, 1977, p. 71). No caso do terceiro grupo, denominado de Grupo do Brooklin ou Escola de Brooklin, formado por Witkin, Asch e colaboradores, EC foi definido como “[...] formas, sutís e relativamente estáveis, como o indivíduo percebe, pensa, resolve problemas, aprende e se relaciona com os outros” (PENNINGS; SPAN, 1991, p. 8). As principais correntes de estudo que têm sustentado as pesquisas sobre EC na atualidade, manifestam suas posições a partir dos conceitos de Dependência e Independência de Campo propostos por Herman Witkin e seus colaboradores; da concepção de diferenciação e indiferenciação cog- nitivas, propostas por Gardner e colaboradores e dos traços de reflexão e impulsividade, apresentados por Kogan e associados. Estas dimensões de estilos cognitivos, além de serem as mais pesquisadas, introduzem o leitor a alguns estudos clássicos destes diferentes grupos (do Brooklyn, da Fundação Menninger e do Instituto Fels). Nos três casos, a preocupação principal é a investigação das diferenças individuais e do modo pelo qual a informação é processada por diferentes indivíduos (SPERRY, 1977, p. 111). [...] Atividades 1. Qual documento internacional que ratifica o termo necessidades especiais? 2. Descreva o foco do processo do aprender na educação atual. 3. Quais as quatro dimensões sugeridas à sustentação da formação continuada docente? Necessidades educacionais especiais e a formação docente Fundamentos da educação especial 2 29 Referências BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacio- nal. Publicada no Diário Oficial da União, Brasília, DF, de 23 dez. 1996. Disponível em: <http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm>.Acesso em: 6 abr. 2017. ______. Lei n. 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Este texto não substitui o publicado no DOU de 7.7.2015. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm>. Acesso em: 17 abr. 2017. ______. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE. A Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência Comentada. Coordenação de Ana Paula Crosara Resende e Flavia Maria de Paiva Vital. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, 2008. Disponível em: <www.governoeletronico.gov.br/biblioteca/ arquivos/a-convencao-sobre-os-direitos-das-pessoas-com-deficiencia-comentada>. Acesso em: 20 fev. 2015. CABANI, Maria Luisa. A aprendizagem escolar do ponto de vista do aluno: os enfoques de aprendi- zagem. In: COLL, Cesar; MARCHESI, Alvaro; PALACIOS, Jesus e colaboradores. Desenvolvimento psicológico e educação. Porto Alegre: ArtMed, 2004. CURITIBA. 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O foco atual do processo do aprender é o desenvolvimento das habilidades e com- petências do aprendiz. 3. Interatividade, coerência, responsividade e executável. Fundamentos da educação especial 31 3 Inclusão escolar: legislação, teoria e prática 3.1 Educação para todos A “educação para todos” como a nova cultura educacional é viável no mundo globalizado em concordância com as tecnologias de comunicação e informação que avançam sem parar. A sociedade atual alerta que as demandas de ensino e aprendiza- gem devem considerar o excesso de informações disseminadas pelos diferentes canais de comunicação. Cabe aos profissionais da educação o “saber lidar” com esse contexto complexo para que construam práticas educativas inclusivas voltadas à apropriação e aplicação do conhecimento nos diversos ambientes de convivência das pessoas com deficiência e as demais. É válido relembrar os dispositivos legais que fundamentam a educação para todos. A política educacional brasileira se entrelaça às propostas internacionais de educação, entre elas a Conferência de Jomtien (UNESCO, 1990), que reconhece como necessidade da educação proporcionar ao aluno a satisfação no processo do aprender. Cada aluno deverá estar em condições de aproveitar as oportunidades educativas oferecidas no espaço escolar. Inclusão escolar: legislação, teoria e prática3 Fundamentos da educação especial32 A proposta internacional da Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) valoriza a peda- gogia centrada no aprendiz e reconhece a necessidade de providências dos programas de educação às crianças com necessidades educacionais especiais dentro do sistema regular de ensino. Para combater as atitudes discriminatórias e desenvolver ações acolhedoras e cola- borativas, a declaração defende aplicação de práticas educativas inclusivas. “Toda a criança possui características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são úni- cas” (UNESCO, 1994, p. 1), que devem ser contempladas nas ações e atividades docentes em sala de aula para que as pessoas possam aprender a aprender e aprender a ser. Ainda, práticas educativas que promovam a autonomia na aprendizagem. A Convenção da Guatemala de 1999 proclama o favorecimento das pessoas com defi- ciência para plena inclusão social e a eliminação de todas as formas de discriminação contra elas, exaltando a garantia da dignidade do ser humano. A expressão discriminação é entendi- da como qualquer modo de exclusão ou restrição de participação baseada em “deficiência” (BRASIL, 2001b). Outro documento fundamental é a Declaração Internacional de Montreal1 sobre Inclusão, de 2001, que defende os direitos universais das pessoas, reforça a igualdade dos direitos inerentes ao ser humano e a liberdade de convivência em todos os espaços de vida como fundamental ao exercício pleno da cidadania. Ainda, estabelece que a conquista do desenvolvimento sustentável da sociedade no século XXI depende do esforço coletivo e é um desafio fundamental à inclusão para todos (BRASIL, 2001a). O Relatório da Comissão Internacional sobre a Educação (DELORS, 2001) para o sécu- lo XXI destaca os eixos essenciais à aprendizagem: os quatro pilares da educação, que são alicerces das habilidades e competências à educação para todos. O relator Jacques Delors (2001) descreve a educação como um direito e uma necessidade de todos os seres humanos. Aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; final- mente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. (DELORS, 2001, p. 89-90, grifo nosso) Delors (2001) desenha a cultura educacional focalizada no aluno. O aprendiz deverá descobrir, reavivar e fortalecer seu modo particular de aprender, e também compreender o mundo ao seu redor para viver dignamente e em harmonia. Aprender a aprender é de- senvolver a curiosidade de ser pesquisadordo conhecimento, é ser criativo. Finalmente, o maior desafio da educação para todos é aprender a conviver com os outros, derrubar os pre- conceitos, a discriminação e a hostilidade nas relações interpessoais e deixar aflorar a ami- zade, a solidariedade, o acolhimento das diferenças individuais e a diversidade humana. 1 Declaração Internacional de Montreal sobre Inclusão (2001) – decorre do Congresso Internacional re- alizado em Montreal, Quebec, em junho de 2001. Dá reconhecimento fundamental e providências aos direitos inerentes à pessoa humana. Delineia que o acesso igualitário a todos os ambientes da vida é um pré-requisito para os direitos humanos universais e liberdades fundamentais do cidadão. Consi- dera que o desafio rumo a uma sociedade inclusiva para todos é a essência do desenvolvimento social sustentável. Inclusão escolar: legislação, teoria e prática Fundamentos da educação especial 3 33 3.2 Políticas educacionais A política educacional e ações inclusivas em linhas gerais existem para preservar o Direito Universal de Ser Humano (1948) e promover a convivência social plena e equitativa entre as pessoas. A sociedade inclusiva viabiliza a acessibilidade e acolhe as diferenças indi- viduais e a diversidade cultural entre seus cidadãos. Nesta mesma direção, a escola inclusiva viabiliza ao aluno a transmissão do conhecimento sistematizado histórica e coletivamente. As políticas educacionais e políticas educacionais inclusivas constituem os fundamen- tos à inclusão nos contextos familiar, escolar e na comunidade. Entre elas, a Constituição Federal do Brasil (BRASIL, 1988) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional-LDBEN n. 9.394 (BRASIL, 1996), de 20 de dezembro de 1996, são instrumentos legais centrais para a cultura educacional nacional. Ambas promoveram um avanço qualitativo na concepção e diretrizes da educação num sentido amplo. A Constituição Federal do Brasil (BRASIL, 1988) é um dispositivo legal de grande signifi- cância à inclusão social, pois assegura ao cidadão a igualdade de oportunidades. Em conso- nância, a LDBEN-9.394/96 (BRASIL, 1996) reforça o caráter humanista e social da educação, destacando como essencial à formação do cidadão a relação pessoa-pessoa nos diversos contextos da vida familiar, escolar e profissional. A LDBEN-9.394/96 (BRASIL, 1996) na seção II, artigo 29 orienta que a educação infantil deve ter como finalidade o desenvolvimento pleno da criança em todos os seus aspectos biopsicossociais, devendo ser complementado pela intervenção da família e da comunidade. Quer dizer, a finalidade última da LDBEN visa a internalização da cidadania e seu pleno exercício no espaço socioeducativo. A Lei n. 13.005/2014 (BRASIL, 2014) aprova o Plano Nacional de Educação para o de- cênio 2014-2024, sugere diretrizes à política de educação especial e indica objetivos e metas para a educação de pessoas com necessidades educacionais especiais. Esse dispositivo legal aponta os fundamentos às políticas educacionais e ações inclusivas no território nacional. É composto por 20 metas para a educação com foco na valorização do magistério, na univer- salização e a qualidade da educação escolar. O Plano Nacional de Educação, ao descrever a Meta 4, indica providências à educação espe- cial e aos direitos da pessoa com deficiência. Implementa as salas de recursos multifuncionais e fomenta a formação continuada docente para o atendimento especializado complementar. Meta 4: universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou su- perdotação, o acesso à educação básica e ao atendimento educacional especia- lizado, preferencialmente na rede regular de ensino, com garantia de sistema educacional inclusivo, de sala de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados. (BRASIL, 2014) O Decreto 7.612/2011 (BRASIL, 2011) proclama o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência e institui o Plano Viver sem Limite. Esse dispositivo legal tem a finalida- de de promover, por meio da integração e articulação de políticas, programas e ações, o Inclusão escolar: legislação, teoria e prática3 Fundamentos da educação especial34 exercício pleno e equitativo dos direitos das pessoas com deficiência. Possui basicamente quatro eixos: acessibilidade, atenção à saúde, inclusão social e acesso à educação. Esse dis- positivo prevê a garantia de que os equipamentos públicos de educação sejam acessíveis para as pessoas com deficiência. Concluímos que os dispositivos legais, nacionais e internacionais, têm valor relevante para o aprimoramento da educação nacional e desenham ações inclusivas com a intenção de instrumentalizar a sociedade e os profissionais da educação nos conhecimentos necessários para o desenvolvimento das habilidades e competências e o aperfeiçoamento das potencia- lidades de todos os alunos. 3.3 Inclusão educacional Nos processos educativos a inclusão educacional tem como premissa a valorização da di- versidade humana de modo a preservar a liberdade, a criatividade e a singularidade do aluno para o aperfeiçoamento integral das suas potencialidades. Esses aspectos devem ser considera- dos na elaboração e transmissão dos conteúdos curriculares pelo professor na sala de aula. Sabemos que um professor sozinho pouco pode fazer diante da complexidade de questões que seus alunos colocam em jogo. Por este motivo, a constituição de uma equipe interdisciplinar, que permita pensar o trabalho educativo desde os diversos campos do conhecimento, é fundamental para compor uma prática inclusiva junto ao professor. É verdade que propostas correntes nessa área refe- rem-se ao auxílio de um professor especialista e à necessidade de uma equipe de apoio pedagógico. (PAULON; FREITAS; PINHO, 2005, p. 9) No contexto contemporâneo em que se insere o sujeito, a acessibilidade e a inclusão vis- tas enquanto direito humano alicerçam a autonomia, a independência e o empoderamento da pessoa com deficiência, limitações e restrições de participação (SASSAKI, 1997). Para tanto, a acessibilidade nas suas diferentes dimensões arquitetônica, tecnológica, comuni- cacional, linguística, pedagógica e atitudinal (preconceito, medo e ignorância), preconiza a construção de acesso e eliminação dos diversos tipos de barreiras favorecendo a dignidade, o bem-estar e o bem-viver de todos os cidadãos. A promoção e proteção da acessibilidade prevista na Lei Federal n. 10.098/2000 (BRASIL, 2000), estabelece as normas e os critérios básicos de acessibilidade às pessoas com deficiên- cia ou mobilidade reduzida e a aplicação se dá em todos os espaços de convivência social, educativa e profissional. Sobre as condições gerais da acessibilidade: Para fins de providências da Lei, o Artigo 2° estabelece as seguintes definições: I – acessibilidade: possibilidade e condição para utilização, com segurança e au- tonomia, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos transportes e dos sistemas e meios de comunicação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida; Inclusão escolar: legislação, teoria e prática Fundamentos da educação especial 3 35 II – barreiras: qualquer entrave ou obstáculo que limite ou impeça o acesso, a liber- dade de movimento, a circulação com segurança das pessoas, classificadas em: a) barreiras arquitetônicas urbanísticas: as existentes nas vias públicas e nos es- paços de uso público; b) barreiras arquitetônicas na edificação: as existentes no interior dos edifícios públicos e privados; c) barreiras arquitetônicas nos transportes: as existentes nos meios de transportes; d) barreiras nas comunicações: qualquer entrave ou obstáculo que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens por intermédio dos meios ou sistemas de comunicação, sejam ou não de massa; III – pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida: a que tempo-rária ou permanentemente tem limitada sua capacidade de relacionar-se com o meio e de utilizá-lo; IV – elemento da urbanização: qualquer componente das obras de urbanização, tais como os referentes a pavimentação, saneamento, encanamentos para esgo- tos, distribuição de energia elétrica, iluminação pública, abastecimento e distri- buição de água, paisagismo e os que materializam as indicações do planejamen- to urbanístico; V – mobiliário urbano: o conjunto de objetos existentes nas vias e espaços públi- cos, superpostos ou adicionados aos elementos da urbanização ou da edificação, de forma que sua modificação ou traslado não provoque alterações substanciais nestes elementos, tais como semáforos, postes de sinalização e similares, cabines telefônicas, fontes públicas, lixeiras, toldos, marquises, quiosques e quaisquer outros de natureza análoga; VI – ajuda técnica: qualquer elemento que facilite a autonomia pessoal ou possi- bilite o acesso e o uso de meio físico. (BRASIL, 2000) Romeu Sassaki (2009), consultor de inclusão social, ao descrever sobre aplicação das premissas de acessibilidade ressalta que é uma qualidade que desejamos ver em todos os espaços de convivência e que traz benefícios a todas as pessoas, tendo ou não deficiência. Sassaki (2009, p. 1-6) dá exemplo de acessibilidade no contexto escolar: 1 – Acessibilidade arquitetônica: guias rebaixadas na calçada defronte à entrada da escola, caminhos em superfície acessível por todo o espaço físico dentro da escola, portas largas em todas as salas e demais recintos, sanitários largos, tor- neiras acessíveis, boa iluminação, boa ventilação, correta localização de mobílias e equipamentos, etc. Implantação de amplos corredores com faixas indicativas de alto contraste, elevadores, rampas no trajeto para o recinto da biblioteca e áreas de circulação dentro dos espaços internos desse recinto entre as prateleiras e estantes, as mesas e cadeiras e os equipamentos (máquinas que ampliam letras de livros, jornais e revistas, computadores entre outros). Inclusão escolar: legislação, teoria e prática3 Fundamentos da educação especial36 2 – Acessibilidade comunicacional: sem barreiras na comunicação interpessoal, na comunicação escrita e na comunicação virtual e digital. Ensino de noções bá- sicas da língua de sinais brasileira (Libras) para se comunicar com alunos surdos; ensino do braille e do sorobã para facilitar o aprendizado de alunos cegos; uso de letras em tamanho ampliado para facilitar a leitura para alunos com baixa visão; permissão para o uso de computadores de mesa e/ou notebooks para alunos com restrições motoras nas mãos; utilização de desenhos, fotos e figuras para facilitar a comunicação para alunos que tenham necessidades especiais etc. 3 – Acessibilidade metodológica: sem barreiras nos métodos e técnicas de estu- do. Ensino e aplicação dos estilos de aprendizagem; aprendizado e aplicação da teoria das inteligências múltiplas; utilização de materiais didáticos adequados às necessidades educacionais especiais, etc. 4 – Acessibilidade instrumental: sem barreiras nos instrumentos e utensílios de estudo, dispositivos que atendam às limitações sensoriais, físicas e mentais. Adaptação da forma como alguns alunos poderão usar o lápis, a caneta, a régua e todos os demais instrumentos de escrita, normalmente utilizados em sala de aula, na biblioteca, na secretaria administrativa, etc. As bibliotecas deverão pos- suir livros em braille, produzidos pelas editoras de todo o Brasil. Dispositivos que facilitem anotar informações tiradas de livros e outros materiais, manejar gavetas e prateleiras, manejar computadores e acessórios etc. 5 – Acessibilidade programática: revisão atenta de todos os programas, regula- mentos, portarias e normas da escola, a fim de garantir a exclusão de barreiras invisíveis neles contidas que possam impedir ou dificultar a participação plena de todos os alunos, com ou sem deficiência, na vida escolar. Sem barreiras invi- síveis nos regulamentos e normas para uso dos serviços e materiais disponíveis na biblioteca. 6 – Acessibilidade atitudinal: através de programas e práticas de sensibiliza- ção e de conscientização das pessoas promovidas dentro e fora da escola a fim de eliminar preconceitos, estigmas e estereótipos, e estimular a convivência com alunos que tenham as mais diversas características atípicas (deficiência, síndro- me, etnia, condição social etc.) para que todos aprendam a evitar comportamen- tos discriminatórios. Um ambiente escolar (e também familiar, comunitário etc.) que não seja preconceituoso melhora a autoestima dos alunos e isto contribui para que eles realmente aprendam em menos tempo e com mais alegria, mais motivação, mais cooperação, mais amizade e mais felicidade. Pessoal capacitado em atitudes inclusivas para dar atendimento aos usuários com deficiência de qualquer tipo. Para tanto, entendemos que a inclusão educacional se faz desenhada pelas políticas de educação inclusiva e acessibilidade aplicadas criativamente nos espaços socioeducativos, aprimorando a qualidade de vida e o bem-estar social a todas as pessoas. Inclusão escolar: legislação, teoria e prática Fundamentos da educação especial 3 37 Responsabilidades definidas e necessidades de articulação: a oportunidade do novo PNE (BRASIL, 2014, p. 5-6) A Constituição Federal de 1988 define, em seu Capítulo III (Seção I, Da Educação), os papéis de cada ente federativo no cenário da garantia do direito à educação. Em resumo: À União cabe organizar o sistema federal de ensino, financiar as institui- ções de ensino federais e exercer, em matéria educacional, função redis- tributiva e supletiva, para garantir equalização de oportunidades edu- cacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios. Os municípios devem atuar prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil; os estados e o Distrito Federal, prioritariamente nos ensinos fundamental e médio (art. 211, §§ 1°, 2° e 3°). As responsabilidades estão definidas, mas ainda não há normas de coo- peração suficientemente regulamentadas. Isso faz com que existam lacu- nas de articulação federativa que resultam em descontinuidade de políti- cas, desarticulação de programas, insuficiência de recursos, entre outros problemas que são históricos no Brasil. Tais lacunas são bastante visíveis no campo da educação básica em função da obrigatoriedade e da conse- quente necessidade de universalização. O Ministério da Educação exerce, nesse contexto, sua função de coorde- nação federativa, tendo como desafio estimular que as formas de colabo- ração entre os sistemas de ensino sejam cada vez mais orgânicas, mesmo sem que as normas de cooperação ainda estejam regulamentadas. Cabe ressaltar, inclusive, que o art. 13 da Lei do PNE estipula um prazo de dois anos a partir da sua publicação para que o poder público institua o Sistema Nacional de Educação em lei específica. Assim, o PNE significa também uma oportunidade: se as diferentes esfe- ras de governo têm compromissos comuns, terão resultados mais efetivos e recursos otimizados se planejarem suas ações de maneira integrada e Ampliando seus conhecimentos Inclusão escolar: legislação, teoria e prática3 Fundamentos da educação especial38 colaborativa. Além desses claros benefícios, ao realizarem essa tarefa, os gestores indicarão caminhos concretos para a regulamentação dos pactos federativos nacionais em torno da política pública educacional, estabele- cendo o primeiro desenho para o Sistema Nacional de Educação. O espírito deste PNE: uma política de estado de educação para a próxima década Elaborar um plano de educação no Brasil, hoje, implica assumir compro- missos com o esforço contínuo de eliminação de desigualdades que são históricas no País. Portanto, as metas são orientadas para enfrentar as bar- reiras para o acesso e a permanência; as desigualdades educacionaisem cada território com foco nas especificidades de sua população; a formação para o trabalho, identificando as potencialidades das dinâmicas locais; e o exercício da cidadania. A elaboração de um plano de educação não pode prescindir de incorporar os princípios do respeito aos direitos humanos, à sustentabilidade socioambiental, à valorização da diversidade e da inclu- são e à valorização dos profissionais que atuam na educação de milhares de pessoas todos os dias. O PNE foi elaborado com esses compromissos, largamente debatidos e apontados como estratégicos pela sociedade na CONAE 2010, os quais foram aprimorados na interação com o Congresso Nacional. Há metas estruturantes para a garantia do direito à educação básica com quali- dade, que dizem respeito ao acesso, à universalização da alfabetização e à ampliação da escolaridade e das oportunidades educacionais. [...] Atividades 1. Quais as três ações que os dispositivos legais apresentados preconizam à nova cultu- ra educacional voltada à educação para todos? 2. Qual a premissa primordial das políticas educacionais e das ações inclusivas no ter- ritório nacional? 3. Qual o significado de acessibilidade descrito no Art. 2° da Lei 10.098/2000? Inclusão escolar: legislação, teoria e prática Fundamentos da educação especial 3 39 Referências BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Publicada no Diário Oficial da União de 05.10.1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao. htm>. Acesso em: 6 abr. 2017. ______. Decreto n. 7.612, de 17 de novembro de 2011. Institui o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Plano Viver sem Limite. Publicado no Diário Oficial da União de 18.11.2011. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7612.htm>. Acesso em: 6 abr. 2017. ______. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacio- nal. Publicado no Diário Oficial da União de 23.12.1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/L9394.htm>. Acesso em: 6 abr. 2017. ______. Lei Federal n. 10.098 de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas e critérios básicos para a promoção da acessibilidade às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, e dá outras providên- cias. Publicado no Diário Oficial da União. De 20.12.2000. 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Fundamentos da educação especial 41 4 Altas habilidades/ superdotação 4.1 Concepções teóricas Desde a década de 1980 verifica-se uma preocupação maior dos cientistas com as teorias sobre inteligência e amplia-se a visão sobre altas habilidades/superdotação. Não há consenso sobre a definição das altas habilidades/superdotação, no entanto, todos concordam que a criança superdotada apresenta elevado desempenho e elevada potencialidade. Apresentamos cinco estudos que buscam definir e delinear características às pes- soas superdotadas, entre eles: Altas habilidades/superdotação4 Fundamentos da educação especial42 • Teoria da desintegração positiva de Kazimierz Dabrowski (1950) – marca os pri- meiros estudos voltados à superdotação. Além de estudar a personalidade huma- na, Drabrowski identifica a criança superdotada como tendo hiperexcitabilidade devido a um alto nível de habilidades gerais que se correlacionam positivamente. Essas habilidades apresentam cinco características: sensório-perceptiva, psicomo- tora, cognitiva, vivacidade e sensibilidade emocional. No processo de desenvol- vimento socioemocional pessoal a maioria das pessoas experimenta inicialmente uma integração caracterizada na internalização de comportamentos sociais vigen- tes. Num segundo momento, é a desintegração positiva que leva a pessoa a perío- dos de reflexão e introspecção que culminam na adoção dos próprios valores. Esse processo de desintegração é acompanhado por angústia e ansiedade. • Teoria do círculo dos três anéis, de Joseph Renzulli (1986) – destaca os aspectos intelectuais e o raciocínio lógico-matemático, ou melhor, a capacidade de resolu- ção de problemas, a capacidade criativa elevada e o envolvimento com a tarefa. As pessoas superdotadas sãomuito motivadas e comprometidas com as ativida- des que desenvolvem. A manifestação do comportamento é definido na dinâmica funcional entre os três anéis, em que se valoriza a realização criativo-produtiva. Os comportamentos dos superdotados ocorrem com determinadas pessoas, em determinados momentos e em determinadas circunstâncias, ou seja, têm relação com o tema e as circunstâncias vivenciadas. Renzulli destaca que a educação esco- lar deve buscar o aprimoramento das potencialidades, habilidades e competências do aluno superdotado. Figura 1 – Teoria do círculo dos três anéis. Capacidade realizadora acima da média Envolvimento emocional com a tarefa-motivação Criatividade Comportamento do superdotado Fonte: Elaborada com base em RENZULLI, 1986. • Teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner (1995) – baseia sua con- cepção de inteligência em competências cognitivas que se interpenetram às inteli- gências múltiplas. A maioria das pessoas é capaz de uma atuação em pelo menos sete diferentes habilidades: inteligência linguística, inteligência lógico-matemá- tica, inteligência corporal-cinestésica, inteligência espacial, inteligência musical, inteligência intrapessoal e interpessoal. As pessoas são inteligentes quando de- monstram um comportamento intencional e habilidades na resolução de proble- mas. “Algumas inteligências são mais valorizadas em uma cultura do que outra e, portanto, o indivíduo só pode ser considerado inteligente se o seu contexto for levado em consideração” (VIRGOLIM, 2007, p. 54). Altas habilidades/superdotação Fundamentos da educação especial 4 43 Figura 2 – Teoria das inteligências múltiplas. Inteligências múltiplas Linguística Logico- -matemática Corporal cinestésica MusicalIntrapessoal Interpessoal Espacial Fonte: Elaborada com base em GARDNER, 1995. • Teoria triádica da inteligência de Robert Sternberg (1996) – a inteligência está marcada pela habilidade de êxito. As pessoas superdotadas conhecem seus pontos fracos e fortes e são capazes de equilibrá-los para a resolução dos conflitos cotidia- nos. O pesquisador descreve cinco características essenciais presentes na superdo- tação: excelência, raridade, produtividade, demonstratividade e valor. “A pessoa pode ser inteligente de três formas: pelo uso de uma inteligência analítica, ou pelo uso de uma inteligência criativa, ou ainda pelo uso de uma inteligência prática” (VIRGOLIM, 2007, p. 53). A pessoa superdotada poderá destacar-se apenas em uma das formas de inteligência, em duas, ou ainda nas três simultaneamente. Sternberg adverte que a valorização e o reconhecimento sociocultural interfere na funcionalidade das atividades cotidianas da pessoa superdotada. Figura 3 – Teoria triádica da inteligência. Criativa Prática Analítica Fonte: Elaborada com base em STERNBERG, 1996. Altas habilidades/superdotação4 Fundamentos da educação especial44 • Teoria do modelo diferenciado de sobredotação e talento de Françoys Gagné (2000) – reconhece habilidades intelectuais inatas a priori na sobredotação ou su- perdotação. A pessoa superdotada se refere ao rendimento alcançado como resul- tado independente da vivência prática. Gagné descreve alguns talentos específicos da superdotação que decorrem das influências e interações num campo ambiental e gradativamente se desenvolvem. O pesquisador identifica cinco talentos: cog- nitivo, criativo, socioafetivo, sensório-motor e perceptivo-sensorial. O talento se aprimora no contexto relacional e a pessoa é identificada como superdotada entre seus pares. A partir dos estudos apresentados se percebe que a identificação das pessoas com altas habilidades é um tema complexo e com implicações importantes nos diversos contextos fa- mília, escola e sociedade. A avaliação diagnóstica e o plano de intervenção devem envolver equipe de profissionais especializados nas áreas da educação e saúde. 4.2 Reconhecendo a pessoa com altas habilidades/superdotação Quando o assunto é superdotação alguns mitos estão presentes: diz-se que é uma pes- soa “pronta”, “gênio” e “extraordinária”. Nem tanto assim, são pessoas comuns que devem ser reconhecidas por seus talentos, potencialidades específicas e um modo não convencional de resolver problemas cotidianos. Já seu reconhecimento na escola se dá na medida em que o professor foca o aprendi- zado na potencialização dos talentos, habilidades e competências próprias do aluno. Para o aluno superdotado o reconhecimento do professor e seu acolhimento tornam-se muitas vezes essenciais para sua adaptação e sucesso ao ambiente escolar, não apenas do ponto de vista cognitivo, como também social e afetivo. A pesquisadora Angela Virgolim (2007) descreve características importantes para o re- conhecimento das pessoas com altas habilidades. As pessoas com altas habilidades formam um grupo heterogêneo, com caracterís- ticas diferentes e habilidades diversificadas; diferem uns dos outros também por seus interesses, estilos de aprendizagem, níveis de motivação e de autoconceito, ca- racterísticas de personalidade e principalmente por suas necessidades educacionais. Entendemos que é tarefa dos educadores, sejam eles professores ou pais, compreen- der a superdotação em seus aspectos mais básicos e assim se tornarem agentes na promoção do desenvolvimento dos potenciais, de forma a poder atender as necessi- dades especiais desta população. (VIRGOLIM, 2007, p. 11) O professor deve aplicar estratégias educativas inclusivas que visem identificar o estilo cognitivo e de aprendizagem do aluno superdotado. Na transmissão dos conteúdos curri- culares pode utilizar a suplementação, a diferenciação e o enriquecimento curricular. Dessa Altas habilidades/superdotação Fundamentos da educação especial 4 45 maneira, contemplam-se no processo de aprendizagem as necessidades especiais cogniti- vas, sociais e afetivas do aluno; respeitando seu modo particular de construir conhecimento e seu estilo e ritmo de aprendizagem. As diretrizes legais são instrumentos essenciais ao reconhecimento e às necessidades especiais da pessoa com altas habilidades/superdotação. Ainda, sugerem as ações inclusivas na educação escolar. Na resolução do Conselho Nacional de Educação – CNE/CEB n. 2 de 2001 (BRASIL, 2001), que estabelece as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, no artigo 5° inciso III, apresenta como perfil da pessoa com altas habilidades/superdotação a grande facilidade de aprender o que as leva a dominar rapidamente conceitos, procedimen- tos e atitudes. Ainda, apresenta um padrão irregular de desenvolvimento cognitivo, social e afetivo. As diretrizes educacionais em sua série de adaptações curriculares, Saberes e Práticas da Inclusão (BRASIL, 2006), descrevem indicativos às crianças com altas habilidades/super- dotação. Alertam que é notável seu desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos isolados ou combinados (BRASIL, 2006. p. 20-21): • aprendizagem com instrução mínima; • persistência e concentração; • alto grau de energia; • interesses específicos; • estilo próprio para resolver situações-problema; • curiosidade acentuada. Para o levantamento do perfil cognitivo do aluno superdotado, a seguir sugere-se ao professor o preenchimento de um formulário com indicativos de altas habilidades/ superdotação. Reserve alguns minutos para listar os nomes dos alunos que venham primeiramente à sua mente quando você lê as descrições abaixo. Utilize essa lista como uma associação livre e de forma rápida. Não é necessário preencher todas as linhas. É provável que você encontre mais do que um aluno em cada descrição. Formulário para a identificação da superdotação 01 Aprende fácil e rapidamente. 02 Original, imaginativo, criativo, não convencional. 03 Amplamente informado; informado em áreas não comuns. 04 Pensa de forma incomum para resolver problemas. Altas habilidades/superdotação4 Fundamentos da educação especial46 05 Persistente, independente,autodirecionado (faz coisas sem que seja mandado). 06 Persuasivo, capaz de influenciar os outros. 07 Mostra senso comum; pode não tolerar tolices. 08 Inquisitivo, cético, curioso sobre o como e porquê das coisas. 09 Adapta-se a uma variedade de situações e novos ambientes. 10 Esperto ao fazer coisas com materiais comuns. 11 Habilidades nas artes (música, dança, desenho etc.). 12 Entende a importância da natureza (tempo, Lua, Sol, estrelas, solo etc.). 13 Vocabulário excepcional, verbalmente fluente. 14 Aprende facilmente novas línguas. 15 Trabalhador independente, mostra iniciativa. 16 Bom julgamento, lógico. 17 Flexível, aberto. 18 Versátil, muitos interesses, interesses além da idade cronológica. 19 Mostra insights e percepções incomuns. 20 Demonstra alto nível de sensibilidade, empatia com relação aos outros. 21 Apresenta excelente senso de humor. 22 Resiste à rotina e repetição. 23 Expressa ideias e reações, frequentemente de forma argumentativa. 24 Sensível à verdade e à honra. Fonte: GALBRAITH; DELISLE, 1996. Verifica-se como uma tarefa difícil a avaliação diagnóstica e o levantamento do per- fil característico da pessoa superdotada. Para o professor é um grande desafio oportuni- zar ao aluno atividades escolares que atendam às necessidades educacionais específicas do aluno superdotado e ainda estimular e aprimorar suas potencialidades para o suces- so da aprendizagem. Altas habilidades/superdotação Fundamentos da educação especial 4 47 4.3 Questões éticas na educação inclusiva A educação inclusiva na interface com as ações éticas tem por referência diretrizes nacionais e internacionais, entre elas a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), a Constituição Federal do Brasil (BRASIL, 1988), o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997), Declaração Internacional de Montreal sobre Inclusão (BRASIL, 2001) e a Política Nacional de Educação em Direitos Humanos (BRASIL, 2007). Agir em acordo com as premissas éticas significa ter por base o respeito às diferenças individuais como único meio de se atingir a igualdade social e a convivência solidária. A ética se traduz na atitude de respeito e de reconhecimento do outro em qualquer ambiente de relacionamento pessoa-pessoa, a família, a escola e o trabalho. As práticas educativas viabilizam ações éticas no cotidiano escolar quando promovem um clima de sociabilidade, visando à construção de um ambiente de respeito ao ser huma- no. Dessa maneira, as ações éticas no contexto da educação escolar inclusiva superam as práticas discriminatórias e excludentes vigentes, promovem a igualdade entre as pessoas, propiciam a interatividade comunicacional, a responsividade social, o acolhimento às dife- renças e a diversidade. Para tanto, na sala de aula cabe ao professor propiciar aos alunos atividades coerentes às questões éticas e que estimulem a manifestação de comportamentos adequados. A seguir, algumas sugestões de ações educativas à postura ética no espaço escolar: • promover uma atitude reflexiva sobre as práticas educativas; • mobilizar a compreensão do conceito de justiça social; • desenvolver o aprender a ser solidário e rejeitar discriminações; • aplicar o diálogo como forma de gerenciamento de conflitos e tomada de decisões; • construir uma postura que considere diferentes pontos de vista e valorize as po- tencialidades de cada um. • desenvolver o desejo e a satisfação de aprender a ser. Concluímos que cabe ao educador transmitir ao aluno a atitude reflexiva-crítica-ética para incrementar e disseminar a cultura educacional em todos os ambientes. Propiciar ao aluno atividades escolares que provoquem o saber pensar e saber agir frente aos conflitos desafiadores do cotidiano. É a convivência ética que nos faz diferentes de outras espécies, nos faz essencialmente humanos. Incentivar a reflexão, despertar o senso crítico, a curiosidade, a criatividade do aluno é inseri-lo na sociedade inclusiva e para todos são atitudes essenciais para o desenvol- vimento social sustentável. Altas habilidades/superdotação4 Fundamentos da educação especial48 Altas habilidades/superdotação encorajando potenciais (VIRGOLIM, 2007, p. 28-29) [...] A definição brasileira atual considera os educandos com altas habi- lidades/superdotação aqueles que apresentam grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos, proce- dimentos e atitudes (BRASIL, 2001, Art. 5º, III). Essa definição ressalta duas características marcantes da superdotação, que são a rapidez de aprendizagem e a facilidade com que estes indivíduos se engajam em sua área de interesse. Também, completa a apresentada pelas Diretrizes gerais para o atendi- mento educacional aos alunos portadores de altas habilidades/super- dotação e talentos (BRASIL, 1995), que foi construída a partir do refe- rencial teórico apresentada por Sidney Marland no relatório oficial da Comissão de Educação ao congresso americano em 1971 e posterior- mente integrado na definição brasileira. Permitiu, asim, que a superdo- tação ultrapassasse a tradicional visão acadêmica para ser entendida em uma perspectiva mais plural. Essa definição postula que as pessoas com altas habilidades/superdo- tação são os educandos que apresentam notável desempenho e/ou ele- vada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: a. capacidade intelectual geral – envolve rapidez de pensamento, com- preensão e memória elevadas, capacidade de pensamento abstrato, curiosidade intelectual, poder excepcional de observação; b. aptidão acadêmica específica – envolve atenção, concentração, motiva- ção por disciplinas acadêmicas do seu interesse, capacidade de produção acadêmica, alta pontuação em testes acadêmicos e desempenho excep- cional na escola; c. pensamento criativo ou produtivo – refere-se à originalidade de pen- samento, imaginação, capacidade de resolver problemas de forma diferente e inovadora, capacidade de perceber um tópico de muitas formas diferentes; Ampliando seus conhecimentos Altas habilidades/superdotação Fundamentos da educação especial 4 49 d. capacidade de liderança – refere-se à sensibilidade interpessoal, ati- tude cooperativa, capacidade de resolver situações sociais complexas, poder de persuasão e de influência no grupo, habilidade de desenvol- ver uma interação produtiva com os demais; e. talento especial para artes – envolve alto desempenho em artes plásticas, musicais, dramáticas, literárias ou cênicas (por exemplo, facilidade para expressar ideias visualmente; sensibilidade ao ritmo musical; facilidade em usar gestos e expressão facial para comunicar sentimentos); e f. capacidade psicomotora – refere-se ao desempenho superior em esportes e atividades físicas, velocidade, agilidade de movimentos, força, resistência, controle e coordenação motora fina e grossa. Esta definição é vantajosa, uma vez que chama a atenção para importantes aspectos, como: a. a pluralidade de áreas do conhecimento humano em que uma pessoa possa se destacar, não se limitando à tradicional visão acadêmica da superdotação; b. o entendimento de que as altas habilidades se relacionam tanto com o desempenho demonstrado quanto com a potencialidade em vir a demonstrar um notável desempenho; e c. a percepção de que a superdotação se modifica no decurso do desen- volvimento do indivíduo. Vejamos então como estas capacidades em distintas áreas podem ser observadas em pessoas que se destacaram, no cenário mundial, pelo uso superior destas habilidades. A nossa intenção aqui é justamente mostrar como características únicas de personalidade, a curiosidade, a criativi- dade, a persistência e motivação intrínseca para se atingir um objetivo, aliadas às oportunidades oferecidas por um ambiente suportivo, foram fundamentais para que o indivíduo chegasse a um patamar superior de realizações. Embora focalizando nossa atenção em pessoas extraordiná- rias,é nosso dever enquanto pais e educadores favorecer a expressão das potencialidades únicas de nossos filhos e alunos, por meio de um ambiente de suporte e estimulação. Habilidade intelectual geral: Stephen Hawking O físico inglês Stephen William Hawking (1942 – atual) é doutor em Cosmologia e um dos mais consagrados físicos teóricos do mundo. Altas habilidades/superdotação4 Fundamentos da educação especial50 Conhecido pela ousadia de suas ideias e pelo humor e clareza com que as expressa, Hawking utiliza como principais campos de pesquisa a cos- mologia teórica e a gravidade quântica. Seu livro, O Universo em uma casca de noz (HAWKING, 2001), mostra seu poder excepcional de abstração, a grandeza de seu pensamento lógico-matemático e sua capacidade única de ver problemas sob ângulos inusitados. Seu trabalho com relação à singularidade no espaço-tempo e com a rela- tividade geral reformulam as ideias de Newton e de Einstein, o que lhe rendeu numerosos prêmios e medalhas honrosas. Seus trabalhos com Buracos Negros, como a quarta Lei da mecânica de buraco negro, ocu- param grande parte de sua vida adulta. Hawking fez descobertas impor- tantes que levaram o seu nome, como a radiação Hawking, em que faz uma analogia dos buracos negros com a termodinâmica. O asteroide 7672 Hawking é assim chamado em sua homenagem. Apesar de sofrer, desde os 21 anos, de esclerose amiotrófica lateral, uma rara doença degenerativa que paralisa, um a um, os músculos do corpo, inclusive a musculatura voluntária, Hawking não parou de trabalhar. Depois de sofrer uma traqueotomia, passou a utilizar um sintetizador de voz para se comunicar e, com seu auxílio (e muita perseverança), publicou mais de 180 trabalhos, entre artigos, livros e ensaios científicos. Hawking demonstra uma grande coragem, persistência em atingir seus objetivos e uma enorme força para ultrapassar as vicissitudes de sua vida. Nascido exatamente 300 anos depois da morte de Galileu, Hawking ocupa hoje o posto que foi de sir Isaac Newton, atuando como professor lucasiano de Matemática na Universidade de Cambridge na Inglaterra. Pela definição de superdotação apresentada, Hawking se encaixa per- feitamente no perfil de uma pessoa com habilidade intelectual geral. Ressaltamos aqui sua capacidade de pensamento abstrato, sua curiosi- dade intelectual e o poder excepcional de observação dentro de usa área. Aliados a estas características ressaltam-se aspectos de personalidade, como persistência em atingir seus objetivos, coragem e resiliência. A resiliência se refere à capacidade interior de reagir aos sofrimentos e tragédias da vida, tornando-se mais forte, criando uma couraça de pro- teção e fazendo do sofrimento assumido uma alavanca para prosseguir a luta da vida. Talvez a resiliência tenha impulsionado o jovem Stephen a ultrapassar os obstáculos da doença e persistir nos caminhos que sua grande potencialidade já apontava. [...] Altas habilidades/superdotação Fundamentos da educação especial 4 51 Atividades 1. Qual destaque o pesquisador Renzulli, na teoria do círculo dos três anéis, dá aos aspectos intelectuais da pessoa superdotada? 2. Como é reconhecido o aluno com altas habilidades/superdotação nas Diretrizes Na- cionais para a Educação Especial na Educação Básica? 3. O que significa agir de acordo com as premissas éticas? Referências BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos/Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. – Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO, 2007. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&task=doc_download gid=2191>. Acesso em: 05 abr. 2017. ______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de educação Básica. Resolução CNE/CEB n. 2, de 11 de setembro de 2001. Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Publicada no Diário Oficial da União. Brasília, 14 de setembro de 2001. ______. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Publicado no Diário Oficial da União de 05 de outubro de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/consti- tuicao.htm>. Acesso em: 6 abr. 2017. ______. Declaração internacional de Montreal sobre inclusão. 2001. Disponível em: <http://portal. mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/dec_inclu.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2017. ______. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Este texto não substitui o publicado no DOU 16.7.1990 e retificado em 27.9.1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: 11 abr. 2017. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Saberes e Práticas da Inclusão: de- senvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos com altas habilidades/superdotação. SEESP/MEC. Brasília: MEC, 2006. 143 p. Disponível em: <http://portal. mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/altashabilidades.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017. ______. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO, 2007. ______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Adaptações Curriculares. Secretaria de Educação Fundamental. Secretaria de Educação Especial. Brasília: MEC/ SEF/SEESP, 1998. ______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais/Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf>. Acesso em: 05 abr. 2017. GAGNÉ, F. Understanding the complex choreography of talent development through DMGT-Based Analysis. In: HELLER, K. A.; MÖNKS, F. J.; STERNBERG R. J.; SUBOTNIK, R. F. (Eds.). International handbook of giftedness and talent. 2. ed. Oxford: Pergamon, 2000. p. 67-79. Altas habilidades/superdotação4 Fundamentos da educação especial52 GALBRAITH, J; DELISLE, J. The gifted Kid’s survival guide: A tem handbook. Minneapolis, MN: Free Spirit Publishing, 1996. In: VIRGOLIM, A.M.R. Altas habilidades/superdotação encorajando poten- ciais. Brasília: MEC/Secretaria de Educação Especial, 2007, p. 44. GARDNER, Howard. Estruturas da mente: a teoria das Inteligências Múltiplas. (M. A. V. Veronese, Trad.). Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. ONU – ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. De 10 de agosto de 1948. Disponível em: <http://www.onu.org.br/img/2014/09/DUDH.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2017. RENZULLI, Joseph. S. The three-ring conception of giftedness: A developmental model for creative productivity. In: J. S. Renzulli & S. M. Reis (Orgs.), The triad reader (p. 2-19). Mansfield Center, CT: Creative Learning Press, 1986. STERNBERG, Robert. Myths, countermyths, and truths about intelligence. Educational Researcher, 25 (2), 11-16, 1996. ______. Successful intelligence: How practical and creative intelligence determine success in life. New York: Simon & Schuster, 1996. ______. What should we ask about intelligence? The American Scholar, 65, 205-217, 1996. VIRGOLIM, Angela. Altas habilidades/superdotação: encorajando potenciais.. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/ arquivos/pdf/altashab1.pdf>. Acesso em: 4 abr. 2017. Resolução 1. Renzulli destaca na pessoa com superdotação os aspectos intelectuais e o raciocínio lógico-matemático, ou melhor, a capacidade de resolução de problemas, a capacida- de criativa elevada e o envolvimento com a tarefa. 2. Estabelece que o aluno com altas habilidades/superdotação apresenta grande faci- lidade de aprender a aprender, dominando rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes. 3. Significater por base o respeito às diferenças individuais como único meio de se atingir a igualdade social. Fundamentos da educação especial 53 5 Comportamento social inadequado 5.1 Fatores associados ao comportamento social inadequado A criança com comportamento social inadequado pode ser descrita como aquela que foge aos pa- drões de comportamento esperado para determinada pessoa num determinado período do desenvolvi- mento (infância, adolescência), numa determinada comunidade. No cotidiano pode ser referida como a criança “sem limites” que tem dificuldade em perceber o espaço do outro e se harmonizar com o ambiente, por exemplo, na sala de aula ao relacionar-se com o professor e os colegas. Sua atividade é incessante, questiona o professor, fala e quer mostrar que nin- guém manda nela. A pesquisadora Elias (2005, p. 54) faz um alerta aos professores: “de acordo com a percepção dos professores, esses alunos apresentam mais dificuldades de adaptação às demandas da sala de aula quando comparados aos colegas com rendimento satisfatório”. A manifestação do comportamento social inadequado pode estar relacionada à impossibilidade de internalizar responsabilidades, deveres, não respeitar as regras e os limites do ambiente e apresentar atitude desafiadora diante da autoridade. Dessa maneira, a criança revela imaturidade e dependência das relações afetivas e não sabe como lidar com a frustração e a castração. O reconhecimento da criança com comportamento social inadequado ocorre normalmente, quan- do atinge um comportamento patológico ou quando persiste por muito tempo, parecendo faltar-lhe a capacidade de aprender com os efeitos prejudiciais e destrutivos dos seus próprios atos e seu comporta- mento passa a ter maior impacto nos outros que em si mesmo. A pessoa manifesta um comportamento intimidador e violento com os outros. Creditam-se como fatores causais do comportamento social inadequado o ambiente interior e exte- rior, ou seja, fatores constitucionais e o ambiente de convivência (familiar e social) da criança. No ambiente escolar, o aluno com comportamento social inadequado não se envolve com o ensino e isso reflete no seu aproveitamento e desempenho. Ao ser questionado responde impulsivamente “não Comportamento social inadequado5 Fundamentos da educação especial54 quero saber de nada disso”, “isso não me interessa”. Estes padrões de comportamento ina- dequados se chocam com a aprendizagem formal e o perfil idealizado do alunado vigente na instituição escolar, dificultando a intervenção da educação como um elemento transfor- mador do comportamento no espaço escolar. Quanto mais cedo forem identificados os comportamentos sociais inadequados de uma dada criança, maiores serão as chances de reversão nos quadros de desajustamento socioe- ducativo e maiores serão os benefícios para um desenvolvimento saudável e digno de ci- dadania. “Sem um programa de intervenção precoce, os problemas de comportamento em crianças podem se cristalizar a partir dos oitos anos de idade, iniciando uma trajetória de problemas acadêmicos” (RIOS, WILLIANS, 2008, p. 800). 5.2 Dificuldades de aprendizagem Na busca por uma compreensão atualizada das dificuldades de aprendizagem, supera- -se o paradigma de que as causas estejam no aluno e ignoram-se as influências do ambiente na aprendizagem. Não há dúvidas de que o entendimento das dificuldades de aprendi- zagem só acontece quando se compreende a complexidade das interações entre aspectos do ambiente interior e exterior, quer sejam contexto socioafetivo, biológico e cognitivo, e o contexto das estratégias de aprendizagem na escolarização do aluno. A pesquisadora Evely Boruchovitch considera que para uma compreensão das dificul- dades de aprendizagem inúmeros problemas podem ser identificados como [...] problemas situacionais de aprendizagem [...] problemas de comportamen- to, problemas emocionais, problemas de comunicação [...] problemas físicos, de visão e de audição e, por fim, problemas múltiplos. (BORUCHOVITCH, 2001, p. 40-41) Tais problemas afetam e interferem nas manifestações do comportamento social. Dessa forma, pessoas que os apresentam podem ser interpretadas como “alunos que não apren- dem”, “são desatentos” ou “desinteressados” no ambiente de aprendizagem. No ambiente escolar o aluno frente ao professor e às atividades e tarefas pode apresen- tar atitudes de descrença, percepção negativa da sua capacidade de realizar tarefas escola- res, distorção da realidade e problemas motivacionais. Outros aspectos que podem complementar e ampliar a definição das dificuldades de aprendizagem são os atrasos ou dificuldades na linguagem oral e escrita e raciocínio ló- gico-matemático, em pessoas com inteligência potencialmente normal e sem deficiência. Geralmente, afetam algumas áreas do processamento cognitivo e podem estar relacionadas a problemas de percepção, concentração, memória, raciocínio lógico, pensamento reflexivo- -crítico, adaptação social e conflitos afetivos. Diferentes campos do conhecimento investigam as dificuldades de aprendizagem como a psicologia, fonoaudiologia, neuropsicologia, musicoterapia, entre outros. Cabe reconhecer que as dificuldades de aprendizagem exigem um olhar interdisciplinar para pensar as ques- tões relativas a sua definição, etiologias, diagnósticos e planos de intervenção. Comportamento social inadequado Fundamentos da educação especial 5 55 O pesquisador Vitor da Fonseca (1995) no livro Introdução às dificuldades de aprendizagem am- plia os procedimentos de avaliação diagnóstica ao sugerir uma investigação psicoeducacional, como um instrumento avaliativo para a identificação do potencial de aprendizagem do aluno. Isso contribui no planejamento de uma intervenção que atenda melhor as necessidades específi- cas de aprendizagem do aluno. Permite a melhor compreensão dos pressupostos da modificabi- lidade cognitiva e da experiência de aprendizagem mediada pelo professor. O reconhecimento precoce das dificuldades de aprendizagem é essencial para preser- var as potencialidades e a vontade de aprender do aluno e propiciar um ambiente inclusi- vo e acessível que respeite as características, os interesses, os diferentes ritmos e estilos de aprendizagem de cada aluno. 5.3 Sobre o comportamento e a educação inclusiva O termo comportamento pode aqui ser entendido como uma reação da pessoa aos efeitos da interação com o ambiente interior e exterior. O comportamento é uma ação dirigida à adaptação da pessoa no ambiente. Apresenta características de maleabilidade e mutabilida- de que se desenvolvem no curso do ciclo de vida da pessoa, desde a infância, adolescência, vida adulta e velhice. O psicólogo do desenvolvimento Lev Vygotsky, ao discorrer sobre a origem do desen- volvimento humano, diz que Desde os primeiros dias do desenvolvimento da criança, suas atividades adqui- rem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo di- rigidas a objetivos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é o processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social. (VYGOTSKY, 1991, p. 33) Pensar a relação entre o comportamento e a educação inclusiva remete-nos à acessi- bilidade em todos os ambientes de interatividade entre pessoas. Em especial, a acessibili- dade atitudinal reflete um comportamento coerente e adequado ao sistema social vigente, fundamentado nos direitos humanos universais e sem qualquer forma de comportamento discriminatório e excludente. A manifestação de um comportamento inclusivo no ambiente escolar revela a oferta de condições de acesso e de permanência na escola, de garantia do direito à educação escolar de qualidade a todos os alunos com vistas ao exercício da cidadania, entendendo que a edu- cação é um direito básico e fundamental do ser humano. Credita-seà escola um dos espaços institucionais de convivência formativa entre pes- soas, a inscrição de comportamentos socioeducativos adequados. Cabe ao professor criar um ambiente acolhedor a todo tipo de comportamento do aluno, mesmo este sendo, inicial- mente, “não adequado” ou, com “dificuldades” no processo de aprender. Com esta postura ética o professor fortalece no aluno o eixo educacional aprender a ser, tanto no plano cogniti- vo quanto no plano das atividades práticas. Comportamento social inadequado5 Fundamentos da educação especial56 A postura do educador deve ser de uma constante reavaliação de sua atuação e de uma análise crítica sobre as reais potencialidades e dificuldades de seus alunos que estejam interferindo no aprender. É claro que estamos considerando também o aluno que possui como causa da desadaptação escolar fatores psico- lógicos, neurológicos, psiquiátricos, dentre outros. O professor não irá “curar” os problemas dos alunos e nem saberá diagnosticá-los, mas tem uma participa- ção muito importante na criação de um ambiente de respeito, de promoção de autoconfiança, diminuindo a ansiedade e uma visão negativa que seus alunos possam estar criando. (OLIVEIRA, 2001, p. 94) Esse ambiente de respeito caracteriza uma instituição escolar inclusiva, que é um siste- ma complexo aberto, dinâmico e flexível, que se atualiza nas trocas com a comunidade num contexto histórico cultural. Nos comportamentos dos professores e dos alunos verificamos o engajamento, a valorização e aceitação das diferenças, demonstrando a internalização dos fundamentos inclusivos. Assim, teremos pessoas implicadas e mobilizadas para a busca de alternativas que elimi- nem qualquer tipo de barreira à inclusão educacional e social. Pessoas com comportamentos solidários, colaborativos e éticos propiciam o exercício da cidadania plena. As experiências me- diadas no ambiente escolar possibilitam o aprimoramento de outras formas de funcionamento mental e de atitudes comportamentais adequadas ao sistema social vigente. Sociedade inclusiva é aquela que acolhe a diversidade, a alteridade como direitos inerentes ao ser humano. Ampliando seus conhecimentos Problemas de comportamento de crianças/ adolescentes e dificuldades de pais/ cuidadores: um estudo de caracterização (BOLSONI-SILVA; PAIVA; BARBOSA, 2009) Dificuldades de interação social, a partir de deficits em habilidades sociais e de consequentes interações coercitivas e/ou negligentes, são muito iden- tificadas nas interações estabelecidas entre as pessoas no geral, o que não é diferente no caso do relacionamento estabelecido entre pais e filhos. Muitas são as definições de habilidades sociais encontradas na literatura. De acordo com Caballo (1996), o comportamento socialmente habilidoso ocorre quando o indivíduo consegue expressar atitudes, sentimentos (positivos e negativos), opiniões e desejos, de maneira que possa respeitar a si próprio e aos outros, para que possa existir, de uma maneira geral, resolução de problemas imediatos de uma determinada situação e conse- quente diminuição de problemas futuros. Comportamento social inadequado Fundamentos da educação especial 5 57 Mais recentemente, Del Prette e Del Prette (2001) classificam e definem interações sociais a partir de respostas habilidosas, não habilidosas pas- sivas e não habilidosas ativas (agressivo). No caso do relacionamento pais-filhos, Bolsoni-Silva e Marturano (2006) identificaram habilida- des que parecem maximizar interações positivas, às quais denominou- -se Habilidades Sociais Educativas Parentais, referindo-se a habilidades sociais aplicáveis às interações pais e filhos (Silva, 2000). Bolsoni-Silva e Marturano (2002) afirmam que para os pais promoverem comportamen- tos socialmente habilidosos em seus filhos é necessário que se comportem maximizando as interações sociais positivas, como, por exemplo, comu- nicando-se, sendo afetivos, sendo consistentes, dizendo não com expli- cação, resistindo a pressões e elogiando comportamentos socialmente habilidosos. Diante de comportamentos problema seria interessante, por outro lado, que os pais utilizassem algumas estratégias para estabelecer limites sem serem agressivos, tais como expressarem sentimentos negati- vos e positivos, apontando a quais comportamentos se referem, além de expressarem opinião e de pedirem mudança específica de comportamento e, assim, sinalizarem possíveis consequências positivas frente à mudança comportamental dos filhos (BOLSONI-SILVA e MARTURANO, 2002). O desenvolvimento dessas habilidades sociais educativas dos pais pode ajudar na prevenção de problemas de comportamento das crianças, visto que, como apontam diversos autores (Bolsoni-Silva e Del Prette, 2002; Bolsoni-Silva, 2003; Bolsoni-Silva e Del Prette, 2003; Bolsoni-Silva, Del Prette e Oishi, 2003; Cole, Zahn-Walser e Smith, 1994; Cowan, Cohn, Cowan e Pearson, 1996; D’Ávila-Bacarj, Marturano e Elias, 2005; Jouriles e Norwood, 1995; Kilgore, Snyder e Lentz, 2000; Marinho e Silvares, 1996; Marturano, Parreira e Benzoni, 1997; Rosa, Garcia, Domingos e Silvares, 2001; Weber, Prado, Viezzer e Bandenburg, 2004), problemas de compor- tamento estão direta e/ou indiretamente relacionados ao repertório com- portamental dos pais. Nesta direção, Romero (1995) afirma que famílias de crianças com pro- blemas de comportamento são caracterizadas por maior desorganização, mais problemas emocionais ou de comunicação e apresentam comporta- mentos e modelos “indesejáveis” para o desenvolvimento social e cogni- tivo das crianças. Mais especificamente, tais famílias parecem estimular esses comportamentos por disciplina inconsistente, pouca interação posi- tiva, pouco monitoramento e supervisão insuficiente das atividades das crianças (Brioso e Sarria, 1995; Conte, 1997; Kaiser e Hester, 1997; Kaplan, Sadock eGrebb, 1997; Patterson, DeBaryshe e Ramsey, 1989; Webster- Stratton, 1997). Ainda de acordo com esses mesmos autores, muitos pais Comportamento social inadequado5 Fundamentos da educação especial58 tendem a não reforçar positivamente os comportamentos socialmente habilidosos de seus filhos e punem, de forma pouco efetiva (não contin- gente, inconsistente), os comportamentos problema dos mesmos. Esta prática pode levar ao fortalecimento de respostas coercitivas emitidas pela criança ou adolescente, enquanto que as socialmente habilidosas são ignoradas ou consequenciadas de forma inapropriada. As práticas parentais podem fazer elo com o campo teórico-prático do Treinamento em Habilidades Sociais, no que se refere às práticas paren- tais positivas, entendidas por Gomide (2006) como as que envolvem moni- toria positiva (uso adequado da atenção e distribuição de privilégios) e o comportamento moral (o qual implica, por exemplo, promover condições favoráveis ao desenvolvimento das virtudes, tais como empatia, senso de justiça, responsabilidade e trabalho). As práticas educativas negativas envolvem, por outro lado, a negligência, ausência de atenção e de afeto e disciplina relaxada que compreende, entre outros aspectos, o afrouxa- mento das regras estabelecidas e a punição inconsistente. E quanto à definição de problemas de comportamento, por não haver consenso na literatura (Bolsoni-Silva e Del Prette, 2003), neste trabalho será utilizada a definição funcional de Bolsoni-Silva (2003), na qual os pro- blemas de comportamento “seriam aqueles que dificultariam o acesso da criança a novas contingências de reforçamento, que por sua vez facilita- riam a aquisição de repertórios relevantes de aprendizagem” (BOLSONI- SILVA, 2003: 10). Por entender que além da funcionalidade a topografia de resposta também é importante, considera-se a classificação de Achenbach e Edelbrock (1979), que identificam duas amplas categorias de problemas de comportamentos: os comportamentos externalizantes e os internalizantes. Os primeiros são aqueles que envolvem impulsividade, agressão, agitação, bem como provo- cações e brigas. Já osinternalizantes podem ser observados quando há preo- cupação em excesso, tristeza, timidez, insegurança e medos. Ambos conjun- tos de comportamentos podem trazer dificuldades de interação da criança com seus pares e adultos de sua convivência por dificultar o seu acesso a novas contingências de reforçamento e consequente redução de possibilida- des de expansão de repertórios. Por exemplo, ao ser tímida, a criança pode perder a chance de tirar dúvidas com a professora ou de inserir-se em turmas de amigos e, por outro lado, se for agressiva, pode ficar isolada na escola e/ ou na família, o que é fator de risco para aproximar-se de grupos desviantes. Tais relações também denotam as dificuldades da escola e da família, em par- ticular, em estabelecer contingências mais promotoras de habilidades sociais para as crianças e adolescentes. Comportamento social inadequado Fundamentos da educação especial 5 59 Intervenções junto a pais e mães têm sido eficazes em diversos casos de problemas de comportamento. A orientação de pais possibilita equipá- -los com habilidades necessárias para lidar com as dificuldades da criança (Dishion e Andrews, 1995; Pfiffner e McBurnett, 1997; Rosa, Garcia, Domingos e Silvares, 2001; Ruma, Burke e Thompson, 1996; Sanders, Markie-Dadds, Tully e Bor, 2000; Webster-Stratton, 1997). Para uma efetiva intervenção torna-se importante caracterizar as pessoas que procuram pelo atendimento, seja através da caracterização dos com- portamentos dos pais, seja através da caracterização dos comportamentos das crianças/adolescentes, a fim de permitir a elaboração de estratégias mais condizentes com a população atendida. Marinho e Silvares (1996) concordam que dados obtidos em estudos como esse podem auxiliar tanto em intervenções para reduzir problemas de comportamento, como para aquelas que buscam prevenir o surgimento dessas dificuldades. Poucos foram os estudos de caracterização realiza- dos com a mencionada população, porém todos indicam a incidência alta de dificuldades interpessoais em crianças e adolescentes (Achenbach e Edelbrock, 1979; Graminha, 1994; Santos, 1990), o que justifica a preocu- pação com intervenções o mais cedo possível, com os filhos e, especial- mente, com suas famílias. Diante da literatura apresentada encontra-se uma lacuna no conheci- mento no que se refere a caracterizar repertórios de pais e filhos quanto às queixas que motivam a procura por atendimento, ao menos na realidade brasileira, pois são escassos os estudos nessa direção. Consequentemente, o objetivo do presente artigo é o de caracterizar, através de uma Entrevista Clínica Semiestruturada, as queixas de um grupo de pais/mães/educado- res que buscaram o serviço de atendimento psicológico em um Centro de Psicologia Aplicada (CPA), nos anos de 2004 a 2006, com a intenção de melhorar a relação estabelecida com seus filhos. [...] Atividades 1. O comportamento social inadequado é definido com base em três aspectos determi- nantes. Quais são esses aspectos? 2. Quais os problemas que Boruchovitch identifica para a definição das dificuldades de aprendizagem? 3. Qual dimensão de acessibilidade favorece o comportamento inclusivo? Comportamento social inadequado5 Fundamentos da educação especial60 Referências BOLSONI-SILVA, Alessandra Turini; PAIVA, Mariana Marzoque de; BARBOSA, Caroline Garpelli. Problemas de comportamento de crianças/adolescentes e dificuldades de pais/cuidadores: um estudo de caracterização. Psicologia Clínica, vol. 21, n. 1, Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: <http://pepsic. bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652009000100012>. Acesso em: 24 fev. 2017. BORUCHOVITCH, Evely. Dificuldades de aprendizagem, problemas motivacionais e estratégias de aprendizagem. In: SISTO, Fermino; BORUCHOVITCH, Evely. Dificuldades de aprendizagem no contexto psicopedagógico (Orgs). 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São Paulo: Martins Fontes, 1991. Resolução 1. Um comportamento social inadequado é aquele que: • foge aos padrões de comportamento esperado para determinada pessoa; • aparece num determinado período do desenvolvimento (infância, adolescência); • é reconhecido numa determinada comunidade. Ou seja, será identificado numa pessoa específica, numa das etapas do ciclo de desen- volvimento humano e numa determinada comunidade, cultura. 2. Boruchovitch considera que para a definição das dificuldades de aprendizagem inú- meros problemas podem ser identificados: • problemas situacionais de aprendizagem; • problemas de comportamento; • problemas emocionais; • problemas de comunicação; • problemas físicos, de visão e de audição; • problemas múltiplos. 3. A acessibilidade atitudinal reflete um comportamento coerente e adequado aos fun- damentos da educação escolar inclusiva. Fundamentos da educação especial 61 6 Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) 6.1 Características e manifestações do TDAH Há controvérsias sobre a definição, as causas, o diagnóstico e o tratamento clínico do transtorno de deficit de atenção e hiperatividade – TDAH. De acordo com DSM IV e V1 e OMS2 pode-se entender que a pessoa com hiperatividade ou transtorno hipercinético apresenta perfil de comportamento com ausên- cia de atenção e concentração, hiperatividade e/ou impulsividade, em grau maior que aquele observado entre pessoas com a mesma faixa etária e período de desenvolvimento. Para um diagnóstico do TDAH indica-se que as manifestações sintomáticas devam estar presentes antes dos sete anos de idade em pelo menos dois ambientes (familiar, escolar e social) diferentes, por um período superior de seis meses. Ainda, deve-se observar a manifestação de um padrão de compor- tamento hiperativo e sintomas de desatenção e hiperatividade frequentes como: [...] agitar as mãos ou os pés ou se remexer na cadeira; abandonar sua cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se espera que permaneça sentado; correr ou escalar em dema- sia, em situações nas quais isto é inapropriado; pela dificuldade em brincar ou envolver-se silenciosamente em atividades de lazer; estar frequentemente “a mil” ou muitas vezes agir como se estivesse “a todo o vapor”; e falar em demasia. Os sintomas de impulsividade são: frequentemente dar respostas precipitadas antes das perguntas terem sido concluídas; com frequência ter dificuldade em esperar a sua vez; e frequentemente interromper ou se meter em assuntos de outros. (ROHDE et al., 2000, p. 2) 1 DSM IV e V – referem-se ao Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria. É um instrumento padrão de classificação de transtornos mentais de uso dos profissionais de saúde. Entre os anos de 1994 a 2000 o DSM IV foi elaborado e publicado e esteve vigente até a publicação do DSM V em 2013. O DSM V atualizou e alterou alguns critérios do DSM IV. 2 OMS – Organização Mundial da Saúde foi criada em 1948, estando subordinada às prerrogativas da ONU. Tem por fundamento gerenciar as ações de promoção e proteção de saúdea todas as nações. Saúde entendida como o pleno desenvolvimento e bem-estar da pessoa nos aspectos orgânicos, psíquicos e socioculturais. Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH)6 Fundamentos da educação especial62 A criança com TDAH pode sofrer de inquietação, hiperexcitabilidade e desorganiza- ção generalizada. Pode demonstrar interesse por tudo o que está acontecendo no ambiente ao seu redor, embora não sustente o interesse. O que importa para ela é perguntar, não tanto ouvir a resposta. Pode apresentar dificuldade de manter a atenção nas tarefas e/ou atividades que são desagradáveis. Dificilmente escuta as instruções e conclui as atividades solicitadas pelos pais, professores e/ou autoridades. Mantém uma referência egocêntrica nos relacionamentos e nas interações com o ambiente. Tendem a adotar um estilo de vida e de aprendizagem muito peculiar que pode com- prometer sua adaptação social e sucesso escolar e de aprendizagem. É possível verificar alto índice de inteligência nas crianças com esse transtorno. Parecem ser mais atraídas pelas atividades divertidas e recompensadoras em qualquer ambiente (família, escola, sociedade). A interação entre os aspectos genéticos e o contexto ambiental de convivência da crian- ça influenciam no destino do TDAH e podem ser considerados como aspectos determinan- tes a sua etiologia. Os problemas no ambiente familiar não são determinantes únicos mas influenciam a apresentação do transtorno. Uma das características familiares importantes são as práticas educativas negligentes dos pais em relação a seus filhos, que conduz a crian- ça a ter que se comportar de maneira inadequada para conseguir a atenção necessária das figuras parentais ou seus representantes. A história de vida pessoal e escolar é um dado significativo para o diagnóstico do transtorno. Pela multiplicidade e complexidade dos aspectos etiológicos do transtorno, seu diagnóstico e tratamento clínico devem ser realizados por equipe interdisciplinar com profissionais da neuropsiquiatria, psicologia, psicopedagogia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Já no que se refere ao tratamento, em alguns casos, é adequada a prescrição de fármacos específicos. Finalmente, o diagnóstico deve buscar compreender as características e manifestações próprias do transtorno e o desenvolvimento da criança e propor um plano de tratamento que contribua para a melhoria da qualidade de vida da criança em todos os ambientes de sua convivência. 6.2 O contexto e a percepção social O contexto e a percepção social são dimensões significativas para o processo ensino- -aprendizagem. Ao estudar o contexto contemporâneo em que se inserem a escola e o sujeito (aluno e professor), Benedetti (2008) investiga a influência dos contextos sociais, culturais e éticos no comportamento social adequado e na educação escolar. A desconsideração das dimensões socioculturais e psicológicas da criança obs- taculiza o conhecimento do aluno na totalidade de suas características o que pode levar os professores a terem uma visão irreal daqueles com quem atuarão. (BENEDETTI, 2008, p. 143) A educadora Selma Martinelli (2001) destaca que “o aspecto afetivo é um importante elemento a se considerar quando se pretende compreender o processo de aprendizagem dos Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) Fundamentos da educação especial 6 63 indivíduos” (MARTINELLI, 2001. p. 99). Portanto, devemos investigar os ingredientes do conhecimento nos domínios cognitivo, sociocultural e psicológico com a intenção de com- preender mais sobre as barreiras no contexto escolar que impedem o sucesso à aprendiza- gem de cada aluno. Na teoria histórico-cultural de Vygotsky3 o homem é um ser social em permanente de- senvolvimento e aprendizagem. É inserido num contexto específico no qual internaliza ele- mentos constituintes como costumes, valores, moral e ética, os quais delineiam a percepção do mundo e as manifestações do comportamento social. No mesmo sentido, a aprendizagem não acontece de maneira isolada, o indiví- duo participante de um grupo social, ao conviver com outras pessoas efetua tro- cas de informações e, desta forma, vai construindo o seu conhecimento conforme seu desenvolvimento psicológico e biológico lhe permite. (MELLO, 2012, p. 3-4) O outro ingrediente essencial ao conhecimento é a percepção social da pessoa. Esse termo é muito bem descrito na Psicologia da Gestalt4 como o ato de perceber o mundo ao seu redor e apreender um sentido e um significado que será manifesto no comportamento. [...] a forma como interpretamos os estímulos do meio ambiente, utilizando nos- sa experiência e vivências anteriores e nossas necessidades presentes, constitui o ato de perceber. Experiências anteriores, maior ou menor interesse pelos estí- mulos, motivação, estado afetivo-emocional no momento de observação, sen- sibilidade dos órgãos dos sentidos para estímulos particulares e a integração ou organização do que está ocorrendo – determina nossa percepção dos fatos. (COUTINHO, 2008, p. 36) O pediatra e pesquisador do desenvolvimento mental humano Donald Winnicott5 in- tegra os termos contexto e percepção ao descrever o conceito holding como essencial para o desenvolvimento do comportamento social da criança. Trata-se do ambiente relacional en- tre a mãe e seu filho, no qual a mãe faz continente para a convivência e desenvolvimento saudável do bebê. No holding a mãe protege o filho das agressões fisiológicas e externas, estabelecendo uma relação de cuidado. Nesta mesma direção em que pensamos a relação professor/aluno, cabe ao professor criar um ambiente que favoreça a continuidade do desenvolvimento e crescimento pes- soal e escolar. Portanto, as práticas educativas devem estar centradas no aluno com foco no conteúdo emocional visando ao desenvolvimento cognitivo. Um contexto educacional 3 Lev Vygotsky dedicou-se a investigar os mecanismos pelos quais a cultura torna-se parte de cada comportamento social. Para Vygotsky a pessoa troca experiências no contexto de convivência social e adquire conhecimento a partir das relações intra e interpessoais. 4 Psicologia da Gestalt – Sua premissa é que o todo sempre é mais que a soma de suas partes. Ainda, os fatos, sensações, percepções sociais e manifestações de comportamento são definidos e alcançam seu sentido e significado quando de sua organização num contexto específico e não por meio de seus componentes individuais. A natureza humana se organiza em estruturas. A unidade mínima estrutu- ral é a figura-fundo. 5 Donald Winnicott (1896-1971) – Pediatra inglês. Enfatizou nos seus estudos a influência do meio ambiente no desenvolvimento do ser humano. É o ambiente, inicialmente representado pela mãe, que permite ou entrava o livre desenrolar dos processos psíquicos do ser humano. Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH)6 Fundamentos da educação especial64 inclusivo acolherá e servirá de continente para que todos os alunos desenvolvam o melhor das suas habilidades e competências. 6.3 O professor e o aluno com TDAH As pessoas com transtorno de deficit de atenção e hiperatividade, em linhas gerais, ca- racterizam-se por ter dificuldades para transformar suas grandes ideias em ação verdadeira. Têm problemas em entender e explicar seus pontos de vista e isso afeta a apreensão e signifi- cado da aprendizagem. Seu limite de tolerância à opinião discordante da sua é baixo, o que faz com que apresente comportamento instável, rapidamente vai da tristeza para a raiva e vice-versa. A pessoa com transtorno também tem dificuldade de gerenciamento de organização, planejamento e tempo nas atividades e tarefas. Raramente apresenta consciência crítica re- flexiva, não aprende com seus próprios erros. No contexto escolar e na sala de aula devem-se observar as manifestações do compor- tamento social inadequado associadas às características da hiperatividade, no que se refere ao respeito às regras e à autoridade instituídana escola. A educadora e pesquisadora Rita Signor (2013) alerta que o não reconhecimento das ca- racterísticas específicas do transtorno reforça a patologização da educação, e compromete a subjetividade e o aprendizado do aluno com transtorno de deficit de atenção e hiperatividade. [...] Muitas escolas não acolhem a diversidade manifesta nos modos de ser, pensar e agir dos alunos e tentam impor um comportamento em conjunto. Os educadores que aderem a esse movimento de higienização das diferenças no espaço da escola, terminam por adotar certas estratégias, entre elas a exclusão [...]. (SIGNOR, 2013, p. 6) O aluno com transtorno apresenta dificuldades de aprendizagem que podem afetar seu desempenho e aproveitamento escolar, o que pode resultar no fracasso e/ou evasão escolar. As dificuldades de aprendizagem no TDAH remetem aos processos mentais básicos e supe- riores como atenção, memória, percepção, pensamento, linguagem, entre outros. O professor, no trabalho com o aluno, deve considerar que se trata de um transtorno complexo e multifatorial no qual interferem a história de vida pessoal e escolar do aluno, para a definição do conteúdo curricular e dos fatores avaliativos na aprendizagem. Estamos discutindo aqui não o conteúdo do professor, mas a forma como ele geren- cia seu conteúdo, ou seja, não o que ele faz, mas como ele age. A generosidade do professor é que o faz questionar os seus conteúdos e permite que ele não se paralise diante de suas convicções. É também o que toca o aluno e lhe desperta o sentimento de empatia e anseio de conhecer, que faz surgir nele a vontade de ir além do que é simplesmente proposto. (LAVOURA; BOTURA; DARIDO, 2006, p. 207) Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) Fundamentos da educação especial 6 65 Os autores enfatizam que uma qualidade essencial do professor é a generosidade e o respeito incondicional ao aluno. Vale destacar, para além dos diversos contextos em que se insere o sujeito, que especificamente na escola é importante levar em conta o estilo cogni- tivo, que é a ideia de que cada aluno tem uma maneira peculiar de “perceber” e de “pro- cessar a informação” o que resulta num modo próprio de proceder em relação à aquisição dos conhecimentos. Ainda, devem-se levar em conta os contextos extraescolares que tratam das dimensões das políticas públicas educacionais, da gestão administrativo-financeira e da gestão pedagógica. Ampliando seus conhecimentos O uso da gestaltpedagogia no desenvolvimento das inteligências múltiplas aplicada no processo de ensino- -aprendizagem (BÖNMANN, 2001, p. 55-59) O aluno no processo de ensino aprendizagem em gestaltpedagogia [...] Em gestaltpedagogia objetiva-se desenvolver a personalidade dos alu- nos, levando em consideração seu campo fenomenológico, assim a situa- ção de ensino aprendizagem deve sempre levar em conta a unidade indi- víduo-meio, a relação interpessoal com o professor, como seus colegas de classe, seus pais, amigos e outros, estar atento aos laços que prendem o aluno ao seu meio. Como trabalhar para este desenvolvimento? Bem, há a implicação com relação à mudança de comportamento do professor que foi apreciada anteriormente e há também a introdução de novos objetivos e métodos de ensino. Por novos métodos destaca-se a aplicação de méto- dos e técnicas gestálticas, como por exemplo, a viagem-fantasia, a troca de papéis trabalhando com a cadeira vazia, o feedback e a identificação, em essência o ensino em gestaltpedagogia passa segundo Besems (1977 apud BUROW, ano 1951, p. 123) pela: • a situação de ensino aprendizagem: aluno = unidade, indivíduo-meio; • o contato direto entre as pessoas: contato direto, baseado na relação intersubjetiva e não somente em passar tema; Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH)6 Fundamentos da educação especial66 • o aluno não pode ser formado só intelectualmente, mas estimulados emocional e fisicamente; • desenvolver uma situação horizontal de ensino: desenvolver uma parceria entre aluno e professor como seres humanos totais, pois ambos empenham a sua própria condição psíquica como instru- mento no processo de ensino e aprendizagem; • o processo de ensino não começa na matéria: mas no ponto de par- tida de todas as - reflexões, é criar novas situações e possibilidades que permitam aos alunos uma aprendizagem repleta de sentido. Exemplo: a aula sobre “cálculo da área de figuras irregulares” poderia começar com o professor perguntando: “para que poderia ser importante a você/vocês saberem calcular tais áreas?”; • ensino no método pela vivência: exige do professor captação do aqui agora na sala de aula, reagindo com criatividade, fantasia e capaci- dade de compreensão. Assim o professor não diz mais ao aluno o que ele deve descobrir, mas cria situações nas quais os alunos vivenciam as coisas que lhes são importante, tomando-se consciente de suas pos- sibilidades e necessidades. O existencialismo como o humanismo dão fundamentação teórica a ges- taltterapia, Cari Rogers um expoente da teoria humanista traça pressu- postos no processo de ensino aprendizagem relacionando-os com a sua teoria da personalidade e destaca os princípios da aprendizagem centrada no aluno, suas ideias remontam suas experiências no magistério e sua hipótese central sobre o ensino centrado no estudante é o seguinte: Não se pode ensinar diretamente a uma outra pessoa, pode-se, tão somente, facilitar a aprendizagem (ROGERS, ano 1951 apud JUSTO, 1973; p. 109). Justo (1973) examina esta hipótese comparando-a a uma afirmativa prá- tica e de verdade ignorada, “Podes conduzir um cavalo junto á água, mas não podes obrigá-lo a beber”. A ideia agora, não é, falar extensivamente sobre a teoria humanista de Rogers, mas tomar emprestado este ponto que reforça o atual estudo. O ponto central do autor está dividido em 10 princípios que serão apresen- tados resumidamente. a. Todos os seres humanos têm natural potencialidade para aprender: Há uma tendência do homem em ser curioso e a autoatualização, ou seja, querer estudar. Há o desejo de crescer, de procurar descobrir. Na Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) Fundamentos da educação especial 6 67 aprendizagem há seu aspecto penoso, requer esforço, quiçá renúncia a experiência atual, reformulação, nem sempre fácil, de esquemas de saber já estruturados, Rogers compara o processo de aprender às ten- tativas feitas pela criança para caminhar, apesar dos tropeços e even- tuais contusões, recomeça e toma a recomeçar. A satisfação do cami- nhar compensa os sacrifícios do esforço e do sofrimento. O professor terá como tarefa estabelecer relação pessoal e clima na sala de aula, para essas tendências naturais vir à tona. b. Aprendizagem significativa ocorre quando o aluno percebe a relevân- cia da matéria de estudo para seus objetivos: Isso significa que o aluno aprende de modo significativo somente as coisas percebidas por ele como associada à manutenção ou à valorização do próprio “self”. O conhecimento autêntico, significativo é função de uma necessidade pessoal. Exemplo: o universitário, para quem, o conhecimento repre- senta a possibilidade de acesso à profissão dos seus sonhos e reali- zações de seus objetivos, diferente do eu, que tem na posse de um diploma, um elemento decorativo. c. A aprendizagem que implica uma mudança da organização do self — na percepção de si mesmo — é ameaçadora, e tende a provocar resis- tências: “Leciono fez trinta anos e agora vem gente nova querendo me ensinar como dar aula!” a ameaça ao conformismo dificulta muitas vezes em aceitar os argumentos. Observe o exemplo de Justo (1973, p. 111), onde a resistência é explicável, embora não admissível, como é explicável, mas não admissível o caso do “matuto mineiro” – conto de Urbano Duarte. d. As aprendizagens ameaçadoras do “self’ são mais facilmente perce- bidas e assimiladas quando as ameaças externas forem reduzidas ao grau mínimo: exemplo, alunodeficiente em alguma disciplina: se humilhado, castigado, privados de jogos, TV – a dificuldade tende a aumentar. “A ameaça ao ‘self’ aparece como barreira à aprendizagem significativa” (ROGERS, 1951 apud JUSTO, 1973). Ambiente deve ser favorável, que o estimule e livre de medo. e. Se a ameaça ao “self” for débil, a experiência pode ser percebida de modo diferenciado, possibilitando ocorrência da aprendizagem: as ameaças são claramente distinguidas, ameaça intensa, onde a prendizagem se dá para preservar a integridade do organismo e as que ameaçam ao “self’, são tipos de ameaças que interferem negativamente no processo de aprendi- zagem, como humilhações, desprezos, ridicularizações etc. Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH)6 Fundamentos da educação especial68 f. A maior parte da aprendizagem significativa é adquirida pela prática: Possibilitar ao estudante contato direto com problema de toda classe: social, filosófico, literário... g. A aprendizagem é facilitada quando o aluno participa responsavel- mente no processo de aprendizagem: A aprendizagem ativa, parti- cipada, é superior à passiva e puramente dependente. Identificado em seu interesse, estudar os problemas que o preocupam, escolher a forma e o ritmo para estudar a solução, o aluno mobiliza recursos. h. A aprendizagem voluntária, a engajar totalmente o estudante — tanto a sensibilidade como a inteligência — é a mais duradoura e mais per- cuciente: “E da divergência ou da concordância emocional e intelec- tual entre as experiências que vai nascer ou não a possibilidade de aprender” (PERETTI, 1966 apud JUSTO, 1973; p. 228-229). i. Independência, criatividade, autoconfiança são facilitadas quando a autocrítica e a autoavaliação são básicas, passando a avaliação dos outros a um segundo plano: “A criatividade pode desabrochar tão somente num clima de liberdade” (ROGERS, 1969 apud JUSTO, 1973; p. 163). O autor recomenda aos pais serem modelos de com- portamento aos filhos, mas, à medida que avançam em idade, devem estimulá-los à autoavaliação a fim de chegarem a conclusões pessoais. j. A aprendizagem socialmente mais útil no mundo moderno consiste em aprender o processo da aprendizagem, a permanente abertura à experiência e a assimilação do processo da mudança: “Se nossa cul- tura sobreviver, será devido ao feto de termos sido capazes de desen- volver indivíduos para os quais a mudança é o elemento central da existência, podendo viver satisfatoriamente com este dado fundamen- tal” (ROGERS, 1969 apud JUSTO, 1973; p. 63). Estes princípios apresentados por Rogers contribuem com muitas ideias sensa- tas, estímulos e conceitos. Estes conhecimento possibilitam tomar clara a estrutura da psique do ser humano em vários aspectos importantes para as práticas terapêuticas e pedagógicas. Embora esta abordagem seja não diretiva como é a gestalt-terapia, ve- rifica-se que a ajuda passa pelo sinalizar da compreensão do que o aluno afirma ou apresenta. A gestalt-terapia tenta encontrar métodos que lhe possibilitem tomar claro ao aluno a estrutura das aberrações de sua percepção. [...] Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH) Fundamentos da educação especial 6 69 Atividades 1. Qual deve ser a premissa no diagnóstico e tratamento do TDAH entendido como um transtorno complexo e multifatorial? 2. Como a psicologia da Gestalt define o termo percepção? 3. O que o professor, na definição dos conteúdos curriculares para o aluno com trans- tornos de deficit de atenção e hiperatividade, deve levar em conta? Referências BENEDETTI, Ieda; URT, Sonia da Cunha. Escola, ética e cultura contemporânea: reflexões sobre a constituição do sujeito que “não aprende”. Psicologia da Educação. São Paulo. n. 27, 2 sem. 2008, p. 141-155. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psie/n27/v27a08.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017. BÖNMANN, Rosana Dias. O uso da gestaltpedagogia no desenvolvimento das inteligências múltiplas aplicada no processo de ensino-aprendizagem. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina, SC, 2001. 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O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: ArtMed, 1983. Transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH)6 Fundamentos da educação especial70 Resolução 1. No diagnóstico deve-se compreender o desenvolvimento peculiar da criança. No tratamento deve-se visar à melhoria da qualidade de vida da criança em todos os ambientes de convivência (familiar, escolar e social). 2. Percepção é a forma como interpretamos os estímulos do meio ambiente, utilizando nossa experiência e vivências anteriores e nossas necessidades presentes. 3. O professor, no trabalho com o aluno, deve considerar que se trata de um transtorno complexo e multifatorial no qual interferem a história de vida pessoal e escolar do aluno, para a definição do conteúdo curricular e dos fatores avaliativos na aprendizagem. Fundamentos da educação especial 71 7 Transtornos do neurodesenvolvimento 7.1 Conhecendo a etiologia A expressão transtornos do neurodesenvolvimento foi descrita, recentemente, no DSM V1 – Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais, que tem por finalidade fazer um levantamento estatís- tico da prevalência e curso dos transtornos e ser um guia facilitador das trocas interdisciplinares entre os profissionais da área da saúde mental (psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, entre outros). De acordo com pesquisas recentes, os transtornos do neurodesenvolvimento estão relacionados a alterações das células neuronais, que formam o sistema nervoso e o cérebro humano. As manifesta- ções dos transtornos estão entrelaçadas aos contextos relacionais, características pessoais, dimensões neuropsicológicas e cognitivas. Geralmente, apresentam comprometimento nas áreas: comportamento social, linguagem e interação interpessoal e intrapessoal. De acordo com as informações descritas, compreende-se que o uso da classificação sintomatológica é insuficiente para um diagnóstico e intervenção clínica ou educacional que atendamas particularida- des de cada indivíduo, como apontam os pesquisadores Araújo e Neto (2014). Nesse sentido o uso de classificações categoriais é limitante pois a topografia de um compor- tamento não é suficiente para a compreensão da sua função para um determinado indivíduo. A análise funcional do comportamento é imprescindível para o planejamento da intervenção clínica. (ARAÚJO; NETO, 2014. p. 68) São descritas pelo DSM V como transtorno do neurodesenvolvimento as patologias: 1 O DSM-V, oficialmente publicado em 18 de maio de 2013, é a mais nova edição do Manual Diagnóstico e Esta- tístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana. A publicação é o resultado de um processo de doze anos de estudos, revisões e pesquisas de campo realizados por centenas de profissionais divididos em dife- rentes grupos de trabalho. O objetivo final foi o de garantir que a nova classificação, com a inclusão, reformulação e exclusão de diagnósticos, fornecesse uma fonte segura e cientificamente embasada para aplicação em pesquisa e na prática clínica (ARAÚJO; NETO, 2014, p. 70). Transtornos do neurodesenvolvimento7 Fundamentos da educação especial72 • deficiências intelectuais; • transtornos da comunicação; • transtorno de espectro autista; • transtorno de deficit de atenção e hiperatividade; • transtorno específico de aprendizagem; • transtornos motores. Um exemplo de deficiência intelectual é a síndrome de Down, que apresenta caracte- rísticas como percepção adequada de si mesmo e do ambiente em que vive, interesse pelo ambiente e relacionamento afetivo interpessoal. Seu desenvolvimento global é persistente, harmônico e lento. Apresenta estilo e ritmos de aprendizagem próprios. Destacamos que a investigação clínica das alterações provocadas pela síndrome de Down constitui um eixo fundamental para o diagnóstico e plano de tratamento que atendam às necessidades espe- cíficas da pessoa com a síndrome. Entre os transtornos de comunicação, estão as disfluências de linguagem e da fala, que comprometem a comunicação com um interlocutor. Entre eles estão a gagueira infantil e a dislalia. Essas alterações de linguagem envolvem fatores genéticos, degenerativos, ambien- tais e emocionais, caracterizam a má articulação, omissões, distorções dos sons da fala, inca- pacidade respiratória, inadequação da mastigação e deglutição, hábitos orais inadequados. No transtorno de espectro autista, encontram-se o autismo e a síndrome de Asperger, com características de ruptura nos processos das habilidades sociais, comprometimento de habilidades estratégicas para o aprendizado que podem determinar prejuízos persistentes e difusos. Apresentam incapacidade nas funções executivas e rigidez dos comportamentos estereotipados e interesses restritos. Os transtornos de deficit de atenção e hiperatividade caracterizam-se como transtornos de alta incidência nas crianças, com comorbidades de difícil análise diagnóstica e tratamen- to. Suas manifestações comprometem a capacidade de atenção, concentração, atividade psi- comotora e comportamento social adequado. Entre os transtornos específicos de aprendizagem, encontram-se as disartrias, dis- calculias e as dislexias. As dislexias apresentam limitações nas funções cognitivas de atenção e memória, em alguns aspectos do desenvolvimento da linguagem oral e escrita, na socialização e até emocionalmente. Falta de habilidade em aprender com sua expe- riência é uma característica. Os transtornos motores podem ser ilustrados com a síndrome de Tourette, caracteriza- da por tiques múltiplos de alta frequência e repetitivos, motores ou vocais, como tossir, fun- gar ou limpar a garganta, movimentos de coçar ou de bater com as mãos na cabeça. Podem estar associados a outros transtornos. Assim, os transtornos do neurodesenvolvimento são classificados de acordo com as ca- racterísticas sintomatológicas e comportamentais. Características que devem ser criteriosa- mente observadas na avaliação diagnóstica e apresentação do tratamento clínico. Entende-se Transtornos do neurodesenvolvimento Fundamentos da educação especial 7 73 que a investigação diagnóstica requer a participação e colaboração de vários informantes, desde os familiares até o trabalho multiprofissional de especialistas das áreas da saúde. 7.2 Pode-se aprender? É fundamental considerar que todos os alunos podem aprender, porém, para alguns alunos que apresentam necessidades educacionais especiais, é preciso compreender que en- globam uma variedade de condições restritivas de participação e de limitações orgânicas e sensoriais, condições ambientais e condições pessoais psicológicas com diferentes conse- quências ao aproveitamento e ao seu desempenho escolar. As psicanalistas Maria Cristina Kupfer e Renata Petri (2000) discorrem sobre estas ques- tões no livro: Por que ensinar a quem não aprende? Deve-se ainda dizer à professora que pergunta pela capacidade de aprender des- sas crianças algo sobre suas condições intelectuais. Evidentemente, essas crian- ças aprendem. Aliás, todas as crianças aprendem muito mais do que sonha a nos- sa vã pedagogia. A preocupação com os problemas de aprendizagem de leitura e da escrita na escola moderna é tão grande, que muitos educadores acabam por reduzir a imensa capacidade de aprender de uma criança ao seu repertório de habilidades para ler e escrever. (KUPFER; PETRI, 2000, p. 115-116) Na inclusão educacional, identificar condutas de interesse na instituição escolar, os mo- delos de intervenção pedagógica, a rotina diária do professor, as relações de cooperação contribuem para a compreensão e criação de um plano de intervenção que atende ao pro- cesso de inclusão do aluno com necessidades especiais. Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer que seja o campo de atividade, trata-se, nesse “novo”, de novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto, a capaci- dade de compreender, e esta, por sua vez, a de ordenar, configurar, significar. (OSTROWER,1987, p. 9) Pode-se aprender quando observa-se a direção do olhar do educador na relação com o aluno. É um indicativo dos aspectos que estão sendo iluminados, se para o diagnóstico, para a deficiência, para o sujeito, para o aprendiz, para o contexto histórico-cultural, para as dimensões de acessibilidade social e educacional de todos os alunos, ressaltando que uma atitude inclusiva pressupõe assumir uma posição de coautoria na construção de novos co- nhecimentos e novas possibilidades de aprender. A concepção de que o aprendizado que possibilita o despertar de processos in- ternos do indivíduo liga o desenvolvimento da pessoa a sua relação com o am- biente sociocultural em que vive. (OLIVEIRA, 1993, p. 58) A inclusão educacional desafia a instituição escolar a repensar suas estratégias táticas educativas. Para tanto, é necessário começar pelo processo do aprender do aluno, depois Transtornos do neurodesenvolvimento7 Fundamentos da educação especial74 criar as estratégias de aprendizagem que contemplem o ensino dos conceitos, seus significa- dos e sentidos. Aplicar atividades desafiadoras a fim de mobilizar e despertar a vontade de conhecer e, assim, promover o desenvolvimento de novas formas de funcionamento mental do aprendiz. 7.3 Relação escola–família na inclusão A família, pensada como instituição, é essencial para a apresentação e transmissão de crenças, virtudes, valores éticos e morais, e para a internalização e o desenvolvimento sau- dável e adaptativo dos bebês e das crianças. A convivência familiar, a inter-relação pais-filhos, é determinante à aquisição e manu- tenção de comportamentos socioafetivos adequados. Cabe aos pais perceberem o significado e o sentido valioso da função que têm o pai e a mãe para o filho na formação de uma base de normas vigentes que representem um pa- drão mínimo de referência socioafetiva, um repertóriode possibilidades comportamentais à convivência nos diversos ambientes (família, escola, comunidade), para uma capacidade de discernimento crítico-reflexivo do filho. O envolvimento familiar e o acolhimento família-sujeito são percebidos pelo filho ou pela criança nas ações de proteção, de continente, nas relações de confiança, de segurança no ambiente de conivência. Ainda, favorecem ao filho ou à criança a emergência de competên- cias afetivas e sociais importantes para o pleno exercício de cidadania. Competências com- portamentais como autonomia, independência, iniciativa, saber pensar e agir de maneira crítica, criativa e reflexiva no gerenciamento satisfatório dos conflitos do dia a dia. O contexto inter-relacional educativo, social, cultural e político propicia ao sujeito criar estratégias para elaboração dos desafios cotidianos em prol da formação integral do sujeito humanizado. Sobre a importância da relação família-escola para a prevenção de problemas de com- portamento social, conflitos afetivos, dificuldades cognitivas e educação inclusiva na infân- cia verificamos que corroboram as políticas de saúde e de educação. Apresentamos a seguir as orientações da Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), que em seus artigos 57, 58 e 59 preconiza: 57 – A educação de crianças com necessidades educacionais especiais é uma ta- refa a ser dividida entre pais e profissionais. Uma atitude positiva da parte dos pais favorece a integração escolar e social. Pais necessitam de apoio para que possam assumir seus papéis de pais de uma criança com necessidades especiais. O papel das famílias e dos pais deveria ser aprimorado através da provisão de informação necessária em linguagem clara e simples; ou enfoque na urgência de informação e de treinamento em habilidades paternas constitui uma tarefa importante em culturas aonde a tradição de escolarização seja pouca. 58 – Pais constituem parceiros privilegiados no que concerne as necessidades especiais de suas crianças, e desta maneira eles deveriam, o máximo possível, Transtornos do neurodesenvolvimento Fundamentos da educação especial 7 75 ter a chance de poder escolher o tipo de provisão educacional que eles desejam para suas crianças. 59 – Uma parceria cooperativa e de apoio entre administradores escolares, profes- sores e pais deveria ser desenvolvida e pais deveriam ser considerados enquanto parceiros ativos nos processos de tomada de decisão. Pais deveriam ser encorajados a participar em atividades educacionais em casa e na escola (aonde eles poderiam observar técnicas efetivas e aprender como organizar atividades extracurriculares) bem como na supervisão e apoio à aprendizagem de suas crianças. A relação colaborativa entre família e escola fortalece uma das premissas e fundamen- tos da educação inclusiva, que é o envolvimento de todos com as questões de cada um. A interação entre as instituições família e escola propicia a circulação e internalização de valo- res éticos, morais, solidários e cooperativos. Essa parceria estimula nos sujeitos a autonomia, independência e empoderamen- to às manifestações do comportamento social, finalmente, serve de alavanca para que crianças e adolescentes convivam em ambientes mais saudáveis e favoráveis ao seu de- senvolvimento integral. Ampliando seus conhecimentos Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: da categoria psiquiátrica à particularidade do caso a caso nos processos de inclusão escolar (RAMOS, 2012, p. 20-27) Os paradigmas da educação especial e os transtornos globais do desenvolvimento Os estudos sobre a Educação Especial nos revelam a constituição de um percurso que, a seu tempo e mediante os recursos técnicos e científicos disponíveis, buscaram dar respostas educacional e socialmente adequa- das face às diversas formas de compreensão sobre a diferença, estabele- cendo proposições e paradigmas diferentes para lidar com as dificuldades escolares vivenciadas por determinados alunos. As mudanças observadas nesta trajetória também sedimentaram designações para as marcas sin- gulares que alguns alunos trouxeram para o contexto da organização das práticas pedagógicas na escola regular. Desta forma, falar de inclusão escolar é ter em mente o campo conceitual da Educação Especial que, historicamente, delineou práticas e designações Transtornos do neurodesenvolvimento7 Fundamentos da educação especial76 para as diferenças. De um modo geral, a gênese das primeiras discussões e abordagens a estas diferenças remonta ao final do século XVI, com as atenções médicas e pedagógicas às deficiências físicas e sensoriais. As pre- missas da Educação Especial ganham vulto a partir do século XIX, com a pesquisa e a atenção médico-pedagógica ao sofrimento mental infantil, selando uma relação entre a Medicina e a Pedagogia e, mais especifica- mente, entre a Psiquiatria e a Pedagogia que, ao longo de sua existên- cia, passa por aproximações e distanciamentos. No campo da Educação Especial brasileira, verifica-se que ainda hoje esta articulação se faz pre- sente. Apesar de todas as proposições encontradas no sentido de ameni- zar os efeitos do uso destas terminologias no âmbito das escolas, ainda hoje se identifica a designação de quadros de impasses escolares por meio de terminologias psiquiátricas. Este é o caso específico do apontamento feito em torno dos alunos iden- tificados nas legislações educacionais a partir de suas dificuldades de aprendizagem e de seus comportamentos peculiares. São os alunos com transtornos globais do desenvolvimento (BRASIL, 2008; 2009; 2010). Sua inserção nas escolas regulares costuma levantar questionamentos sobre a educação especial em detrimento da regular ou comum, sobre o diag- nóstico psicopatológico encaminhado às escolas e sobre as estratégias pedagógicas pertinentes aos processos de adaptação da criança na escola. De certa forma, tais questões impelem o educador no sentido de revisitar momentos, práticas e conceitos que contribuíram para o que atualmente se concebe por inclusão escolar. Ao se consultar alguns teóricos da inclusão escolar (COLL, 2004; MARCHESI, 2004; MANTOAN, 2006; MENDES, 2006; PALÁCIOS, 2007, GLAT; BLANCO, 2009), torna-se possível observar que as mudanças paradigmáticas impressas no campo da Educação Especial trazem em si um deslocamento primordial para que este campo seja reconhecido como o lócus privilegiado das práticas pedagógicas de inclusão escolar. Este deslocamento se processa do olhar lançado sobre a deficiência como algo potencialmente irreversível e inerente a alguns indivíduos para a visão não só sobre as potencialidades dos sujeitos deficientes – as quais podem ser observadas para além destes quadros, como também para a verifica- ção de que, no processo escolar, todos estão sujeitos a deficits maiores ou menores em algum momento de sua trajetória educativa. Neste sentido, a deficiência passa a ganhar a conotação de dificuldade, entendida como transitória ou permanente conforme cada caso. Isso embasa o conceito de necessidades educativas especiais, definidor do paradigma da inclusão escolar, arrolado pelos autores aqui referidos. Transtornos do neurodesenvolvimento Fundamentos da educação especial 7 77 O que se recolhe disto é um constante tensionamento entre o que pode ser compreendido como possibilidades em torno de um projeto educativo inclusivo, bem como acerca da definição sobre quem deve ser o alvo des- tas ações, imprimindo-se, a partir destas questões, modelos paradigmáti- cos constantemente revisitados e aperfeiçoados. Sendo uma particulari- dade presente na Educação Especial Inclusiva brasileira a partir do ano de 2008, a inserção de crianças com transtornos globais do desenvolvimento nas escolas regulares não foge a um campo de discussões em que a ques- tão da diferença se faz presente de forma radical [...]. Um tempo de passagem: novas perspectivas sobre a infância e sobre a diferença Entre os anos de 1930 e 1940, verifica-se uma evoluçãoconceitual no campo da atenção social e psiquiátrica à criança que deixará suas mar- cas na Educação Especial. Referimo-nos aos movimentos institucionais da nascente Psiquiatria Infantil que, a partir da década de 30 do século XX, se encarregou de apontar as particularidades constitucionais a que esta- vam submetidas as crianças e suas questões psíquicas (BERCHERIE, 2001; KANNER, 1990 apud RAHME, 2010). É possível verificar nestes autores a afirmação de que a produção teórica vinculada a partir da Psiquiatria Infantil se difundiu para espaços institucionais e sociais diferentes da clí- nica psiquiátrica, disseminando uma nova concepção de infância e de seus problemas, bem como institucionalizando a prática da consulta dos edu- cadores ao saber psiquiátrico. Nesta perspectiva, coube a este saber uma ampliação da noção sobre os desajustes psíquicos infantis, não cabendo mais ao psiquiatra apenas a avaliação sobre o sofrimento mental, mas a todos os tipos de reações emocionais infantis – “ [...] el psiquiatra moderno aprende a atender las reacciones de miedo, accesos de mal humor o terrores noc- turnos de los niños [...]” (KANNER, 1976. p. 76). Esta construção torna-se um reflexo da agregação de várias teorias dife- rentes no corpo da Psiquiatria a partir da década de 30. Nota-se neste campo teórico as influências da Psicanálise, da Gestalt e das teorias do desenvolvimento psicológico infantil (KANNER, 1976; BERCHERIE, 2001), o que permitiu uma avaliação e uma distinção mais justa entre os problemas psíquicos infantis e a questão da debilidade mental. Isso ofe- rece a possibilidade de um encaminhamento mais acertado das questões da infância em que estão implicadas inclusive as questões educacionais (RAHME, 2010), uma vez que, a partir deste tipo de visão sobre o sofri- mento psíquico infantil, nem todas as questões estariam mais referidas ao campo cognitivo e, portanto, à deficiência. Transtornos do neurodesenvolvimento7 Fundamentos da educação especial78 Ao se retomar o texto de Marchesi (2004), verifica-se os possíveis refle- xos das inovações no campo da Psiquiatria, notadamente pelas mudanças ocorridas entre os anos de 1940 e 1950. Segundo o autor, neste período foram realizados sérios questionamentos sobre a origem constitutiva e a incurabilidade da deficiência – dogma estabelecido desde as primeiras pesquisas em torno da idiotia no campo da Psiquiatria. De acordo com o autor, trata-se de uma nova visão, promovida a partir das influências sociais e culturais abarcadas pelas proposições ambientalistas e behavio- ristas que, nessa época, começaram a abrir caminhos tanto no campo da psicologia quanto no campo da deficiência. Os questionamentos que decorrem destas posições abriram espaço para o questionamento da deficiência somente como questão inata e consti- tucional para uma noção sobre uma organização deficitária da persona- lidade gerada pela influencia do ambiente. O deficit seria causado tanto pela falta de estímulo adequado à formação da personalidade quanto pela condução equivocada dos processos de aprendizagem aplicados, sobretudo, sobre o atraso intelectual. Marchesi (2004) sustenta ainda que a distinção entre causas endógenas e exógenas para explicar os supostos deficits de personalidade representou um passo definitivo para se revisar o critério de incurabilidade que repousava sobre eles. A partir de então, a nova visão sobre o deficiente aponta que ele é, de fato, capaz de aprender. No campo da Educação Especial, a visão médico-pedagógica em torno da deficiência começa a ser substituída, ao menos parcialmente, por uma noção social do deficit, o que promove o início de um deslocamento dos fracassos escolares localizados a partir da criança para a responsabilidade ou corresponsabilidade do ambiente sobre eles. No esteio da evolução social, científica e técnica que se seguiu após a década de 50 do século XX, o deficit já não poderia ser considerado uma categoria em que se verificavam perfis clínicos estáveis e as perspectivas integracionistas de educação dos deficientes começam a ser delineadas sob o pressuposto de que “[...] o sistema educacional pode intervir para favorecer o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos com alguma característica ‘deficitária’” (MARCHESI, 2004, p. 17). Há nesse movimento uma nova concepção sobre os transtornos do desenvolvimento e a defici- ência em que se verificam os reflexos das alterações experimentadas no campo das teorias do desenvolvimento e da aprendizagem. [...] Transtornos do neurodesenvolvimento Fundamentos da educação especial 7 79 Atividades 1. Compreende-se a etiologia dos transtornos do neurodesenvolvimento como sendo multifatorial, por quê? 2. Como Ostrower descreve o tema criar? 3. Que ações traduzem o envolvimento e acolhimento familiar e família-escola? Referências ARAÚJO, Álvaro; NETO, Francisco. A nova classificação americana para os transtornos mentais – DSM-5. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. V. XVI n. 1, 2014. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517 -55452014000100007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 12 abr. 2017. KUPFER, Maria; PETRI, Renata. Por que ensinar a quem não aprende ? Estilos da clínica. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/estic/v5n9/_08.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017. OLIVEIRA, Marta. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento – um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1993. OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 1987. RAMOS, Fernanda do Valle Corrêa. Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: da cate- goria psiquiátrica à particularidade do caso a caso nos processos de inclusão escolar. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Minais Gerais. Belo Horizonte, 2012. Disponível em: <http://www. bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/BUOS-8ZLQD4/disserta__o_fernanda_ do_valle_corr_a_ramos_em_pdf___vers_o_final_para__impress_o.pdf?sequence=1>. Acesso em: 24 fev. 2017. UNESCO. Declaração de Salamanca. Sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais. Espanha, 1994. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ salamanca.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017. Resolução 1. Os transtornos do neurodesenvolvimento envolvem alterações das células neuro- nais que formam o sistema nervoso, condições neuropsicológicas, cognitivas, con- texto pessoal e o ambiente de convivência. 2. De acordo com o autor Fayga Ostrower, criar é poder dar forma a algo novo. É for- mar. O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender, e esta, por sua vez, a de ordenar, configurar, significar. 3. As ações de proteção, de continente; as relações de confiança, de segurança no ambiente familiar em que a criança convive com os integrantes da família (pais/responsáveis). Fundamentos da educação especial 81 8 Habilidades cognitivas 8.1 O que são as habilidades cognitivas? O funcionamento do nosso sistema cognitivo é complexo e articula-se ao desenvolvimento das competências da inteligência, como: raciocínio lógico-matemático, raciocínio linguístico, pensamento reflexivo-crítico, capacidade de análise e síntese, atenção-concentração, compreensão-interpretação e argumentação textual, para a autonomia e a atualização das estruturas do conhecimento do aprendiz, no processo de educação escolar. Para compreender o curso da inteligência recorremos à pesquisadora Dias (2002), que cita o clássico epistemólogo do conhecimento Jean Piaget1 (1936) quando descreve a inteligência como um processo mental. É um termo genérico designando as formas superiores de organização ou de equilíbrio das estruturas cognitivas [...] a inteligência é essencialmente um sistema de operações vivas e atuantes. Ela é adaptação mental mais extremada. (PIAGET, 1936, apud DIAS, 2002, p. 22) Jean Piaget é pioneiro na definição qualitativa da inteligência e sua concepção como um processomental humano. Assim, as competências e habilidades cognitivas constituem um dos grandes desafios a ser aprimorado em todas as etapas de escolarização, desde a educação infantil ao ensino superior, atendendo as prerrogativas da “educação para todos” e demais dispositivos legais nacionais e inter- nacionais. Cabe à educação criar as condições para operacionalizar práticas educativas que atendam a educação escolar inclusiva. 1 Jean Piaget (1896-1980): suíço, biólogo e filósofo do conhecimento. Investigou os mecanismos que levam o sujeito à construção de operações lógicas mentais. O desenvolvimento mental humano se organiza progressiva- mente e é entendido como uma adaptação sempre mais precisa à realidade. Esse processo de interação se dá pelos mecanismos de assimilação e acomodação. São quatro os momentos de construção da inteligência: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório mental. Habilidades cognitivas8 Fundamentos da educação especial82 Nas primeiras décadas do século XX, Lev Vygotsky busca reconstruir o curso do desen- volvimento estrutural cognitivo do homem, a transformação dos processos elementares em processos mentais complexos. Durante o processo de educação escolar a criança parte de suas próprias genera- lizações e significados; na verdade ela não sai de seus conceitos mas, sim, entra num novo caminho acompanhada deles, entra no caminho da análise intelectual, da comparação, da unificação e do estabelecimento de relações lógicas. [...] Os conceitos iniciais que foram construídos na criança ao longo de sua vida no con- texto de seu ambiente social. (VYGOTSKY, 1991, p. 147) Primi (2001), ao descrever as competências e habilidades cognitivas, apresenta a defini- ção de habilidade proposta por Carrol (1993), articulada aos processos de aprender. A habilidade pressupõe a ideia de potencial de realização, ou seja, a existência de uma relativa facilidade em lidar com informações e com problemas de uma determinada classe ou conteúdo. O investimento deste potencial em experiên- cias de aprendizagem pode conduzir à maestria, que envolve um conhecimento organizado sobre um determinado tema. (CARROLL, 1993, apud PRIMI, 2001, p. 155) O sistema cognitivo humano se desenvolve na interação de fatores condicionantes: or- gânico, sociocultural e afetivo. Apresentamos três modelos explicativos para uma definição da inteligência: a. Modelo psicométrico – define as estruturas cognitivas com base nos instrumen- tos de medida do coeficiente de inteligência – QI. Pesquisadores: Alfred Binet e Francis Galton. b. Modelo desenvolvimentista – define a inteligência e a sua dinâmica ao longo de períodos do desenvolvimento específico (criança e adolescente), trazendo avan- ços significativos, ao procurar descrever o processamento cognitivo e relacioná-lo aos diferentes estágios do desenvolvimento humano. Pesquisadores: Jean Piaget, Henri Wallon e Lev Vygotsky. Propõe que a inteligência evolui frente às resolu- ções de conflitos entre dois mundos: o interior, povoado de sonhos e fantasias; e o exterior (realidade), cheio de símbolos, códigos e valores sociais e culturais. Nesse conflito entre situações antagônicas e soluções dos confrontos, a inteligência se de- senvolve, estabelecendo um ciclo constante de boas e novas descobertas. c. Modelo do processamento neuronal de informação – é a mais recente proposta de entendimento das estruturas mentais. Pesquisadores: Howard Gardner, Daniel Golemann e Robert J. Sternberg. Os neurocientistas trabalham para compreender a relação entre estrutura neural (cérebro) e a função mental (linguagem, memória, atenção entre outras); que são determinantes para a aprendizagem e para o com- portamento do homem. Entendem que um comportamento pode ser aprendido e aperfeiçoado pela experiência. Habilidades cognitivas Fundamentos da educação especial 8 83 A compreensão do sistema complexo cognitivo se dá na investigação das etapas de es- truturação das habilidades mentais, por meio das correntes explicativas e interação dos três condicionantes primordiais: o orgânico, o cultural e o afetivo. O educador se instrumentaliza melhor ao conhecer o processo de construção do siste- ma cognitivo humano. Contribui ao criar um ambiente escolar acessível e com estimulantes experiências de aprendizagem a todos os alunos. 8.2 Estilo cognitivo É importante entender que o desenvolvimento das habilidades cognitivas alavancam as estratégias cognitivas utilizadas pelo sujeito aprendiz na resolução dos problemas coti- dianos. As habilidades cognitivas remetem-nos a dois fatores constituintes: estilo de apren- dizagem e estilo cognitivo. A interdependência entre os fatores favorece a autonomia, a iniciativa e autoconfiança do sujeito e, de fato, o reconhece como sujeito ativo no aprender a aprender e, apreender o conhecimento. Assim, o estilo é um modo de ser pessoal, em que a pessoa usa das suas competências e habilidades para saber sobre si mesmo e conhecer seu ambiente de convivência. O estilo define um modo particular de extrair informações, conscientes e inconscientes, para proces- sá-las e criar formas significativas de se conduzir na vida. “É através da apercepção criativa, mais do que qualquer outra coisa, que o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida” (WINNICOTT, 1975, p. 95). Parga (2004), no texto “O enlace desejo-inteligência na aprendizagem” diz que “para compreendermos o processo de aprendizagem, é necessário ir além da experiência imediata, pois o conhecimento se encontra antes, por longos períodos, inconscientes” (PARGA, 2004, p. 150). O autor aponta a vontade de conhecer atrelada aos processos mentais inconscientes e singulares do sujeito aprendente. Estilo cognitivo significa o modo como o indivíduo apreende e processa as informações em situações gerais de resolução de conflito. Leibovitz (2013) cita a definição de Kolb (1984) para estilo de aprendizagem, “como tendo a ver com características individuais e variáveis, de índole cognitiva e/ou de personalidade, que explicam as diferentes formas de abordar, planear ou responder a um desafio de aprendizagem” (KOLB, 1984 apud LEIBOVITZ, 2013, p. 4522-4523). No processo de aprendizagem, compreender e considerar o estilo tem implicações edu- cacionais importantes que interferem na atitude do professor, no planejamento das ativida- des para a sala de aula, nas estratégias desafiadoras de aprendizagem, na diversificação dos instrumentos de avaliação aplicados aos alunos. Reconhecer que os alunos aprendem de forma diferente vai ao encontro das premissas da educação inclusiva, que contempla as diferenças individuais, a alteridade e a diversidade cultural nas práticas educativas. Habilidades cognitivas8 Fundamentos da educação especial84 Não se pode, pois, entender o processo da aprendizagem desconectado da pró- pria história do sujeito aprendente, uma vez que este significa suas novas expe- riências a partir da revivescência singular de seu passado. (PARGA, 2001, p. 151) Finalmente, a educação escolar deve atender de maneira mais individualizada possível e própria de cada aluno e, deve observar a forma como cada um lida com os conteúdos cur- riculares apresentados pelo professor. Cabe ao professor oferecer condições de impulsionar processos de ensino e aprendizagem criativos e significativos a todos os alunos. 8.3 Processo criativo na educação escolar inclusiva O processo criativo na educação escolar inclusiva traz uma outra perspectiva ao tra- balho e à interação professor-aluno, aprimorando a atitude do professor no ambiente de aprendizagem. “Muitos compararam o trabalho do professor com o do artista, destacando como fundamentais os aspectos da criação individual” (VYGOTSKY, 2003, p. 296). Criar produz maior envolvimento com a tarefa e satisfação pessoal. Essa perspectiva criativa norteia a educação atual. O processo ensino-aprendizagem quando balizado pelo pensar criativo contribui à construção do sujeito autônomo. “Para a educaçãoatual não é tão importante ensinar certa quantidade de conhecimentos, mas edu- car a aptidão de adquirir esses conhecimentos e valer-se deles” (VYGOTSKY, 2003, p. 296). O ato criativo [...] é algo que [...] se faz presente quando qualquer pessoa [...] se inclina de ma- neira saudável para algo ou realiza deliberadamente alguma coisa [...] de modo que seu impulso criativo possa tomar forma e o mundo seja testemunha dele. (WINNICOTT, 1975, p. 100) Compreendemos que o ato criativo depende das experiências vividas de cada pessoa em seu ambiente sócio-histórico-cultural e que para o impulso criativo importa criar formas e Formar importa em transformar. Todo processo de elaboração e de desenvolvi- mento abrange um processo dinâmico de transformação, em que a matéria, que orienta a ação criativa, é transformada pela mesma ação [...] o próprio homem com isso se configura [...] Estruturando a matéria, também dentro de si ele se estruturou. Criando, ele se recriou [...] A criatividade é, portanto, inerente à con- dição humana. (OSTROWER, 1999, p. 52-53) As práticas educativas que se organizam pelo processo criativo favorecem a identifica- ção dos estilos cognitivos e de aprendizagem, do ritmo de aprendizagem de cada estudan- te. Promovem igualdade de oportunidades e acessibilidade atitudinal, contribuindo para a convivência entre todos os participantes. “Há vários conceitos sobre a criatividade [...] em geral todos concordam que algo criati- vo tem que atender aos critérios de ser original e útil, em um determinado tempo histórico” (FLEITH, 2007, p. 16). Deste modo, as práticas educativas acolhem a história pessoal e esco- lar de cada aluno, respeitando a diversidade e a alteridade do sujeito. Habilidades cognitivas Fundamentos da educação especial 8 85 Ampliando seus conhecimentos A noção de competência: uma visão construtivista (TEIXEIRA, 2012, p. 9-10) As origens do termo competência O sentido original da palavra competência é de natureza jurídica, ou seja, diz respeito ao poder que tem uma certa jurisdição de conhecer e decidir sobre uma causa. Gradativamente o significado estendeu-se, passando o termo a designar a capacidade de alguém para se pronunciar sobre deter- minado assunto, fazer determinada coisa ou ter capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade. Recentemente, competência tornou-se uma palavra difundida, com fre- quência, nos discursos sociais e científicos. Entretanto, Isambert-Jamati (1997) afirma que não se trata simplesmente de uma moda porque o cará- ter relativamente duradouro do uso dessa noção e a existência de uma certa congruência em relação ao seu significado,em esferas como a da educação e do trabalho, podem ser reveladoras de mudanças na socie- dade e na forma como um grupo social partilha certos significados. Nesse sentido, o termo competência não é só revelador de certas mudanças como também pode contribuir para modelá-las. Ou seja, comparece no lugar de certas noções, ao mesmo tempo em que modifica seus significados. Pode-se dizer que, no geral, o termo competência vem substituindo a ideia de qualificação no domínio do trabalho e as de saberes e conhecimento, no campo da educação. As razões da invasão do termo competência, segundo Tanguy (1997), nas diferentes esferas da atividade social, são difíceis de precisar, embora no caso da educação e do trabalho possam estar associadas a uma série de movimentos geradores de concepções nesses dois campos, bem como das inter-relações entre eles. Dentre tais concepções ou crenças podemos des- tacar: necessidade de superar a ênfase na instrução e privilegiar a educa- ção; reconhecimento da importância do poder do conhecimento por todos os meios sociais e de que a transmissão do conhecimento não é tarefa exclusiva da escola; a institucionalização e sistematização de princípios sobre formação contínua fora do âmbito escolar; exigência de superar a qualificação profissional precária e baseada em aprendizagens mecâni- cas; necessidade de rever o ensino disciplinar e o saber academicista ou Habilidades cognitivas8 Fundamentos da educação especial86 descontextualizado; preocupação de colocar o aluno no centro do pro- cesso educativo como sujeito ativo. A intervenção desses elementos, refletindo sobre a problemática da for- mação e aprendizagens profissionais e a necessidade de novas adaptações ao mundo do trabalho e da escola, acabaram por proporcionar uma apro- priação geral da noção de competência em vários países, provavelmente na expectativa de atribuir novos significados às noções que ela pretende substituir nas atividades pedagógicas. Mais especificamente, no entanto, esse referencial sobre a noção de competência se impôs nas escolas, ini- cialmente, por meio da avaliação. Essas inter-relações produziram uma contaminação de significados e o termo competência passou a ser usado com frequência no sistema educativo, no qual ganhou outras conotações. Dado esse caráter polissêmico da noção de competência, trata-se de preci- sar em que sentido pretendemos utilizá-la. [...] Atividades 1. Que fatores interagem para o desenvolvimento do sistema cognitivo humano? 2. Como definir estilo? 3. Como definir o processo criativo na escolarização do aluno? Referências DIAS, Maria da Graça. O desenvolvimento das competências que nos permite conhecer. In: Eixos cognitivos do ENEM. Brasília, INEP Ministério da Educação, 2002, p. 21-29. Disponível em: <http:// pt.scribd.com/doc/23379855/eixos-cognitivos-do-enem#scribd>. Acesso em: 5 abr. 2017. FLEITH, Denise de Souza (Org). A construção de práticas educacionais para alunos com altas habi- lidades/superdotação: v. 2.: Atividades de estimulação de alunos. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/ download/texto/me004651.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017. LEIBOVITZ, Luiza Jesus; LEITE, Laurinda; NUNES, Manuela. A aprendizagem das ciências baseada na resolução de problemas online: comparação entre estilos de aprendizagem e opiniões de alunos do 7° ano. In: ATAS do XII Congresso Internacional Galego-Portugual de psicopedagogia. Braga: Universidade do Minho, p. 4522-4536. 2013. Disponível em: <http://repositorium.sdum.uminho.pt/ handle/1822/25186>. Acesso em: 5 abr. 2017. Habilidades cognitivas Fundamentos da educação especial 8 87 OSTROWER, Fayga. Criatividade e processo de criação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. PARGA, Márcia. O enlace desejo-inteligência na aprendizagem. In: SISTO, Fermino, BORUCHOVITCH, Evely e FINI, Lucila (Orgs). Dificuldades de aprendizagem no contexto psicopedagógico. Petrópolis; RJ: Vozes, 2004. PRIMI, Ricardo; et al. Competências e habilidades cognitivas: diferentes definições dos mesmos cons- trutos. Revista Psicologia: teoria e pesquisa. Mai-ago 2001, v. 17, n. 2, p. 151-159. Disponível em: <www.scielo.br/pdf/ptp/v17n2/7875.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017. TEIXEIRA, Leny Rodrigues Martins. A noção de competência: uma visão construtivista. In: Eixos cognitivos do ENEM. Ministério da Educação, Brasília, 2002. Disponível em: <https://pt.scribd.com/ doc/23379855/eixos-cognitivos-do-enem>. Acesso em: 24 fev. 2017. VYGOTSKY, Lev. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos supe- riores. São Paulo: Martins Fontes, 1991. ______. Psicologia pedagógica. Trad. Claudia Schilling. Porto Alegre: ArtMed, 2003. WINNICOTT, Donald. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. Resolução 1. Fatores condicionantes: orgânico, sociocultural e afetivo. 2. O estilo é um modo de ser pessoal, em que a pessoa usa das suas competências e habilidades para saber sobre si mesma e conhecer seu ambiente de convivência. Define um modo particular de extrair informações, conscientes e inconscientes, para processá-las e criar formas de se conduzir na vida. 3. Compreender que o ato criativo depende das experiências vividas de cada pes- soa em seu ambiente sócio-histórico-cultural e que para o impulso criativo im-porta criar formas. Fundamentos da educação especial 89 9 Adaptações curriculares para a educação inclusiva 9.1 Operacionalizando as adaptações curriculares Pensar o currículo na inclusão e sua operacionalização convida o educador a refletir sobre alguns dispositivos de funcionamento na instituição escolar inclusiva, entre eles: • os fundamentos teóricos da inclusão; • a concepção da educação escolar inclusiva; • a contextualização histórico cultural; • estilo cognitivo e estilo de aprendizagem; • o lugar e a função do professor; • transmissão dos conteúdos curriculares. Esses saberes sustentam o currículo pedagógico e vão nortear as práticas educativas no espaço escolar para garantir a acessibilidade aos conteúdos curriculares, a aquisição e transformação do conhe- cimento do sujeito aprendente. A educação como a essência do processo de humanização do homem no século XXI, entrelaçada à atitude do professor, é a alavanca que dispara a inclusão do aluno com necessidades educacionais especiais e os demais. Cabe ao professor criar metodologias e instrumentos cada vez mais significativos que ofereçam oportunidades de aprendizagem a todos os alunos. A sala de aula é o espaço onde se concretiza o currículo e deve acontecer o processo ensino- -aprendizagem. Este processo acontece não só por meio da transferência de conteúdos, mas, também pela influência das diversas relações e interações desse espaço escolar, na sala de aula e na relação professor-aluno. Concordamos que o eixo central do Currículo é diversos conhecimentos. (SABAINI, 2007, p. 9) Adaptações curriculares para a educação inclusiva9 Fundamentos da educação especial90 O currículo é sustentado em três dimensões interligadas: a epistemológica, a políti- co-social e a de sistema aberto complexo. Estabelece as possibilidades de operacionali- zar as competências e os conteúdos, os quais são descritos a partir do levantamento das seguintes informações: • sobre o que ensinar; • quando ensinar; • como ensinar; • o que, como e quando avaliar. Para uma proposta de adaptação curricular é válido considerar essas informações para adequar as diferentes situações de ensino-aprendizagem para as quais se aplica. Uma escola consegue organizar um currículo inclusivo quando reconhece a complexidade das relações humanas (professor-aluno), a amplitude e os limites de seus objetivos e ações; quando entende o ambiente escolar como um espaço relacional que estabelece laços que contribuem para a formação de uma identi- dade individual e social. [...] O professor organiza e pratica o currículo enquanto constrói e reconstrói suas concepções, percepções e escolhas e, assim, também o faz o aluno enquanto aprende. (MINETTO, 2008, p. 32-33) De fato, um currículo educativo inclusivo deve contar com as adaptações e flexibiliza- ções para atender as diferenças individuais, a alteridade e a diversidade em sala de aula, para práticas educacionais avaliativas e formativas com vistas à aprendizagem significativa e a autonomia do aprendiz com deficiência e dos demais. Currículos, em qualquer processo de escolarização, transforma-se na síntese bá- sica da educação [...] devem ter uma base nacional comum [...] a ser suplemen- tada ou complementada por uma parte diversificada e exigida, inclusive pelas características dos alunos. (BRASIL, 2001, p. 57-58) Cabe ao professor diferenciar as formas de aprender de cada aluno com e sem defi- ciência. Não deve apenas focar em diferenciar o conteúdo curricular e sim, a forma como cada aluno maneja o conteúdo. Planejar aulas interessantes que despertem as habilidades e competências e observar o comportamento do aluno. Não esperar a melhor resposta que reproduz a resposta previamente idealizada a um perfil de aluno anônimo. Essa estrutura e funcionamento da instituição escolar inclusiva deve demonstrar coe- rência entre aquilo que diz e aquilo que faz. Isso é necessário para viver em acordo ao para- digma da sociedade inclusiva da diversidade cultural e diferença individual no século XXI. 9.2 Recursos necessários Os recursos necessários à educação inclusiva contemplam os serviços de apoio pe- dagógico especializado, que acontece nas salas de aula comuns, com a presença de espe- cialistas, intérpretes de língua de sinais brasileira – Libras, sistema braille, tecnologias assistivas, acessibilidade em suas dimensões necessárias e, nas salas de recursos, onde Adaptações curriculares para a educação inclusiva Fundamentos da educação especial 9 91 o professor realiza a complementação curricular, utilizando de instrumentos técnicos e didático-pedagógicos específicos. Para a definição das ações pedagógicas, a escola deve prever e prover em suas prioridades, os recursos humanos e materiais necessários à educação na diversi- dade. (BRASIL, 2001, p. 42) Para um contexto e condições pedagógicas inclusivas é necessário o planejamento de práticas educativas que atendam às necessidades educacionais especiais de cada aluno. Para o sucesso na aprendizagem do aluno, a avaliação das potencialidades é fundamental para identificar necessidades específicas do aprendiz. Uma rede de apoio interinstitucional que envolva profissionais das áreas de saú- de, assistência social e trabalho sempre que necessário para o seu sucesso na aprendizagem. (BRASIL, 2001, p. 48) A flexibilização é uma ação essencial quando se pensa nos recursos e nas adaptações à educação escolar inclusiva. Dispomos de uma variedade de recursos de acessibilidade, desde os mais simples até os mais sofisticados. Os recursos da tecnologia de informação e comunicação desempenham papel importante à acessibilidade e inclusão do aluno com necessidades educacionais especiais. Destaca-se a contribuição das tecnologias assistivas e comunicação alternativa, como áreas de conhecimento investigativo e criação de instrumentos acessíveis à pessoa com de- ficiência, de modo a viabilizar a inserção e participação escolar e social visando ao pleno exercício da cidadania. Para os recursos e adaptações que atendam às limitações e restrições motoras, visuais, auditivas e físicas [...] existem sistemas/dispositivos que apresentam soluções, próteses chamadas de tecnologia assistiva/adaptativa ou Autoajudas/Ajudas técnicas [...] refere-se ao conjunto de artefatos disponibilizados às pessoas com necessidades especiais, que contribuem para prover-lhes uma vida mais independente, com mais quali- dade e possibilidades de inclusão social. (SONZA, 2013, p. 199) Concluindo, quando buscamos recursos necessários de acessibilidade ao aluno com deficiência devemos “começar com uma análise detalhada e escuta aprofundada de suas necessidades, para, a partir daí, ir optando pelos recursos que melhor respondem” (BRASIL, 2008, p. 38) às práticas educativas inclusivas. 9.3 Avaliação da aprendizagem Entende-se que a avaliação da aprendizagem no currículo adaptado deve estar inter- ligada à prática docente de ensino adaptativo. “As práticas avaliadoras configuram-se, no âmbito do ensino adaptativo, como recurso por excelência para concretizar a atenção educa- cional à diversidade” (COLL; MARCHESI; PALÁCIOS, 2004, p. 378) do alunado, quer dizer, as capacidades do aluno devem ser reconhecidas e ter algum significado para o professor. Adaptações curriculares para a educação inclusiva9 Fundamentos da educação especial92 Coll, Marchesi e Palácios (2004), ao discutirem a avaliação da aprendizagem escolar, su- gerem alguns critérios no planejamento e no desenvolvimento das atividades de avaliação adaptada. A seguir os critérios sugeridos: • “Priorizar a função pedagógica da avaliação das aprendizagens” – avaliação cumula- tiva; vincular todas as atividades de caráter avaliativo aplicadas em sala de aula. • “Reforçar o valor regulador, formativo e formador da avaliação nas aprendizagens” – deve ser um instrumento que contribua à melhoria do processo de aprender. • “Recuperar e reforçar a função pedagógica da avaliação cumulativa das aprendi- zagens”– avaliação continuada e diversificada, autoavaliação. Novas formas de incluir os pais nos processos avaliativos e de participação do aluno. • “A busca de maior coerência e continuidade entre as decisões de ordem peda- gógica e de ordem social associadas à avaliação das aprendizagens” – critérios de avaliação de acordo com os princípios psicopedagógicos que inspiram os usos pedagógicos de avaliação. • “A autonomia das escolas e dos professores no planejamento e no desenvolvi- mento da avaliação das aprendizagens”. (COLL; MARCHESI; PALÁCIOS, 2004, p. 378-384. Adaptado.) Os autores também sugerem que no planejamento e na execução das avaliações da aprendizagem escolar o professor atente para os seguintes pontos: • a importância dos fatos cognitivos, afetivos e relacionais na avaliação das aprendizagens; • a avaliação é um fator essencial na configuração dos perfis motivacionais e dos padrões atributivos dos alunos; • a avaliação das aprendizagens realizadas pelos alunos é uma questão de grau; • a inter-relação dos significados limita o alcance das atividades de avaliação; • a avaliação da aprendizagem: um momento não estático do processo de constru- ção do conhecimento; • a importância dos erros na avaliação; • a influência da natureza do conteúdo na avaliação; • a importância do contexto na construção do conhecimento escolar e na avaliação da aprendizagem; • a funcionalidade da aprendizagem e a busca de indicadores para a avaliação; • a incorporação progressiva do controle e da responsabilidade no processo de aprendizagem: uma fonte de indicadores para a avaliação. Ao refletir sobre essas informações, se espera criar instrumentos avaliativos e for- mativos que viabilizem ao aluno demonstrar ao máximo as competências na resolução de problemas e ampliem sua capacidade de aprender a aprender, bem como, sua auto- nomia na aprendizagem. Adaptações curriculares para a educação inclusiva Fundamentos da educação especial 9 93 Ampliando seus conhecimentos Currículo e educação inclusiva: as políticas curriculares nacionais (MESQUITA, 2010, p. 309-313) [...] Para compreender como se configura a constituição de uma política curricular é importante primeiramente defini-la a fim de se tornarem explícitas as intenções que lhes estão ocultas. De acordo com Sacristán (2000, p. 109) a política curricular é um aspecto específico da política educativa, que estabelece a forma de selecionar, ordenar e mudar o currículo dentro do sistema edu- cativo, tornando claro o poder e a autonomia que diferentes agen- tes têm sobre ele, intervindo dessa forma, na distribuição do conhe- cimento dentro do sistema escolar e incidindo na prática educativa, enquanto apresenta o currículo a seus consumidores, ordena seus conteúdos e códigos de diferente tipo. Nesse sentido, se temos uma política educativa voltada para a consolida- ção de uma educação e escola inclusiva, temos como consequência uma política curricular voltada a essa mesma perspectiva que assume um cará- ter próprio dentro das intenções de quem a elabora. Enquanto política, o currículo emerge de decisões gerais oriundas da ordenação jurídica e administrativa. Nesse sentido, as determinações por elas definidas não são neutras, configuram-se como intenções que fazem parte de políticas mais amplas, articulando-se a projetos sociais, econô- micos, culturais fruto de determinada realidade situada historicamente, de caráter espacial e temporal (APLLE, 1997; SACRISTÁN, 1998, 2000; SANTOMÉ, 1998). Para Sacristán (2000, p. 107) A política sobre o currículo é um condicionamento da realidade prática da educação que deve ser incorporado ao discurso sobre o currículo; é um campo ordenador decisivo, com repercussões muito diretas sobre essa prática e sobre o papel e margem de atua- ção que os professores e os alunos têm da mesma. Adaptações curriculares para a educação inclusiva9 Fundamentos da educação especial94 Apresentando-se como um mecanismo de controle (SACRISTÁN, 2000; GOODSON, 1995), as intervenções do governo incidem diretamente no cotidiano escolar. Especialmente na década de 1990, podemos observar uma série de reformulações que se desenham a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação em 1996, que define no Art. 3° como alguns dos princípios básicos da educação a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola e o respeito à liberdade e apreço à tolerância (BRASIL, 1996). Esses princípios educacionais formulados a partir dos ideais de Educação para Todos ganharam mais consistência com as diversas diretrizes, ela- boradas para os diferentes níveis de ensino (Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental, 1996; Diretrizes Curriculares para a Educação Especial na Educação Básica, 2001; Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores, 2002). Esses documentos con- figuram-se como um conjunto de definições doutrinárias sobre princípios, fundamentos e procedimentos, com o objetivo de orientar as escolas em suas organizações, articulações, desenvolvimento e avaliação de suas pro- postas pedagógicas. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (CNE/CB, n. 2, 11 de fevereiro de 2001) expressam determinações e orientações voltadas ao processo de inclusão dos alunos com necessidades educacionais especiais, no que tange aos aspectos pedagógicos e formação de professores. No Parecer 17/2001, referente à Resolução 2/2001 A inclusão é definida como a garantia, a todos, do acesso contínuo ao espaço comum da vida em sociedade, sociedade essa que deve estar orientada por relações de acolhimento à diversidade humana, de aceitação das diferenças individuais, de esforço coletivo na equi- paração de oportunidades de desenvolvimento, com qualidade, em todas as dimensões da vida (BRASIL/CNE, 2001a) Nesse sentido a educação voltada às pessoas com necessidades educa- cionais especiais está fundamentada nos princípios da preservação da dignidade humana, na busca da identidade e no exercício da cidadania. Práticas durante muito tempo negligenciadas no trato às pessoas que apresentassem qualquer tipo de deficiência, fosse ela física, sensorial ou cognitiva. De acordo com o Parecer, os princípios que orientam a elabora- ção das diretrizes têm por finalidade acabar com qualquer tipo de discri- minação e garantir o desenvolvimento da cidadania. Adaptações curriculares para a educação inclusiva Fundamentos da educação especial 9 95 Além dos fundamentos e princípios que embasam a inclusão das pessoas com NEE nas classes regulares de ensino, das determinações sobre a orga- nização do sistema educativo, são também desenvolvidas orientações referentes aos aspectos e componentes pedagógicos. No Art. 8°, inciso III as Diretrizes definem que as escolas devem prever e prover na organiza- ção das suas classes comuns: flexibilizações a adaptações curriculares que considerem os conte- údos básicos e instrumentais dos conteúdos básicos, metodologia de ensino e didáticos recursos diferenciados e processos de ava- liação adequados ao desenvolvimento dos alunos que apresen- tam necessidades educacionais especiais, em consonância com o projeto pedagógico da escola, respeitada a frequência obrigatória. (BRASIL, 2001b) Apesar das determinações oriundas da Resolução 2/2001, podemos obser- var orientações de forma mais nítida sobre a prática escolar nos Parâmetros Curriculares Nacionais – Adaptações Curriculares: atendimento às pes- soas com necessidades educacionais especiais, elaborados em 1998 pela Secretaria de Ensino Fundamental em parceria com a Secretaria de Educação Especial, cujo objetivo é subsidiar os professores na sua tarefa de favorecer seus alunos na ampliação do exercício da cidadania por meio da adequação curricular orientando a prática pedagógica (BRASIL, 1998). O documento foi elaborado com base no reconhecimento da diversidade existente na população escolar e na necessidade de respeitar e atender aessa diversidade. Em sua apresentação o documento considera que: O direito da pessoa à educação é resguardado pela política nacional de educação independentemente de gênero, etnia, idade ou classe social. O acesso à escola extrapola o ato da matrícula e implica apropriação do saber e das oportunidades educacionais oferecidas à totalidade dos alunos com vistas a atingir as finalidades da edu- cação, a despeito da diversidade na população escolar. (BRASIL, 1998) [...] Nesse sentido, é fundamental que as escolas tornem os currículos alter- nativos/diferenciados – não os adaptados – os gerenciadores do conheci- mento e da organização educacional, contribuindo para a constituição de uma nova escola, de uma nova sociedade. [...] Adaptações curriculares para a educação inclusiva9 Fundamentos da educação especial96 Atividades 1. Para operacionalizar o currículo quais informações devem ser descritas? 2. Quais os passos para definir o recurso que atenda às necessidades do aluno? 3. A que deve estar interligada a avaliação no currículo adaptado? Referências BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica. Secretaria de educação especial. MEC: SEESP, 2001. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/ arquivos/pdf/diretrizes.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017. COLL, Cesar; MARCHESI, Alvaro; PALACIOS; Jesus. Desenvolvimento psicológico e educação. Porto Alegre: ArtMed, 2004. ITS BRASIL.Tecnologia assistiva nas escolas: recursos básicos de acessibilidade sócio-digital para pessoas com deficiência. Its Instituto Tecnologia Social. 2008. Disponível em: <www.itsbrasil.org.br/ sites/itsbrasil.w20.com.br/files/Digite_o_texto/Cartilha_Tecnologia_Assistiva_nas_escolas_-_Recursos_ basicos_de_acessibilidade_socio-digital_para_pessoal_com_deficiencia.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2015. MESQUITA, Amélia Maria Araújo. Currículo e educação inclusiva: as políticas curriculares nacionais. Espaço do currículo, v. 3, n. 1, p. 305-315, março a setembro de 2010. Disponível em: <http://periodicos. ufpb.br/ojs/index.php/rec/article/view/9093/4781>. Acesso em: 24 fev. 2017. MINETTO, Maria de Fátima. 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Entende-se que a avaliação no currículo adaptado deve estar interligada à prática docente de ensino adaptativo. Fundam entos da educação especial Fundamentos da Irene Carmen Picone Prestes educação especialFundamentos daeducação especial Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6318-5 9 788538 76318 5