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CADERNOS DA SBDG CADERNOS DA SBDG CADERNOS DA SBDG CADERNOS Wilfred Ruprecht Bion Maria Lúcia Simas Paulino Maria José Pinheiro UM POUCO DA BIOGRAFIA Os dados de sua vida provêm dos registro autobiográficos conti- dos na trilogia Uma memória do futuro, onde em três volumes (O so- nho, 1975; O passado apresentado, 1977; e A aurora do esquecimen- to, 1979) relata passagens que contribuíram com o homem e o profis- sional Bion que, segundo Zimerman (1995), “carregou a vida (bio) incrustada em seu próprio nome”. Bion nasceu na cidade de Mutra, na Índia, em 1897. Filho de pais ingleses, o pai, na condição de engenheiro, prestava serviços para o governo indiano. Tinha uma irmã mais nova, Edna, e ambos foram criados por uma babá indiana, que acabou por exercer significativa influência em sua obra. A cultura indiana ficou impressa no seu in- consciente de modo que em sua produção científica dos anos 70, a natureza místico-religiosa se faz presente e o misticismo oriental. Aos oito anos, foi para a Inglaterra estudar e morou sozinho, no internato, recebendo esporadicamente a visita dos pais. O sofrimento da separação, o regime repressor e rígido da escola, a discriminação dos colegas e a culpa imposta pela igreja à masturbação, muito a- tormentaram Bion e contribuíram com sua solidão. Voltou a inte- grar-se com os colegas quando tornou-se capitão de equipes despor- tivas e conquistou as primeiras colocações em sua atividade estudan- til. Sonhava em se tornar um desportista internacional em Oxford ou Cambridge. Tentou bolsas de estudo, mas “seus conhecimentos não estavam à altura de seus desejos” (Bléandonu, 1993). Wilfred Ruprecht Bion / 31 Ao finalizar os estudos, aos 17 anos, e retornar para a casa dos pais, sentia-se frustrado, mas o desejo de ser livre imperou. A I Grande Guerra começou. Bion apresentou-se voluntariamente e foi recusado. Nova frustração: “O pai lhe deixou claro que não entendia como seu filho não pudera se fazer aceito por uma nação em guerra” (idem). Bion foi em busca de um pistolão e conseguiu entrar para as for- ças armadas aos 19 anos. Engajou-se com desespero e destacou-se por suas qualidades esportivas e intelectuais. Definia-se como “rígi- do, tímido, taciturno e detestável” (idem). Durante a I Guerra entrou em ação militar e viu a morte de perto. Ao término da ação, acabou como herói, sendo condecorado pelo Palácio de Buchinghan e pelo governo francês. Chegou a ser Capi- tão; porém, quando a guerra acabou, abandonou o exército e foi para a Universidade de Oxford. Este abandono se deu em função do con- tato que tivera com a mentira, com as informações falsas das autori- dades, com a busca de prestígio e glória em detrimento da preocu- pação com a vida das tropas. Reconhecia que as responsabilidades a ele impostas ultrapassavam sua capacidade, sua formação e educa- ção. Em Oxford, optou pelo setor dos historiadores; nas ciências hu- manísticas, valem os seguintes registros: estudou História Moderna; licenciou-se em Letras; estudou Filosofia e aprofundou-se em Kant; estudou Teologia e Lingüística; lecionou História e Literatura; fez Medicina ao entrar em contato com livros de Freud; graduou-se mé- dico aos 33 anos, recebendo respeitáveis títulos honoríficos em Me- dicina; trabalhou com Wilfred Trotter, médico-cirurgião que também interessava-se por psicologia individual e grupal, e escreveu o livro Instintos de horda na paz e na guerra, que muito influenciou Bion, pois tratava dos progressos psicossociológicos realizados durante a I Guerra. Aos 35 anos, empregou-se na Clínica Tavistock, como médico as- sistente e logo lançou-se à prática da Psiquiatria e da Psicanálise. A Clínica Tavistock Esta instituição começou a funcionar em 1920, como um dos primeiros centros ambulatoriais a fornecer psicoterapia de orienta- ção psicanalítica à população que não podia pagar honorários na clí- nica privada. O financiamento era alimentado por doações e “subs- crições” públicas e assessorado pela modesta contribuição dos paci- 32 / Cadernos da SBDG – 9 entes. A experiência na cura das neuroses de guerra, provocadas pe- lo primeiro conflito mundial, servia de modelo. O Dr. J. A. Hadfield, médico e psicólogo de orientação psicodi- nâmica da universidade britânica, influenciou um grupo de médicos da clínica, entre eles Bion, impondo seu modo de ver à formação de- le. Com isso, a clínica, entre 1932 e 1939, teve grande expansão e a pesquisa tornou-se a atividade mais importante, juntamente com a terapia e a formação. Segundo Bléandonu, “Foi a época da ‘análise redutiva’ [reductive analysis]. O trata- mento tinha por objetivo descobrir as ligações psicodinâmicas entre o sintoma e as causas no passado. Buscava-se pela livre as- sociação e a análise dos sonhos o que Hadfield denominava de ‘incidentes nucleares’.” Não seriam necessariamente acontecimentos muito traumáticos, mas crises na vida interior da criança. Hadfield diferenciava uma tríade de pulsões: a libido-sexual, a agressão ou afirmação de si mesmo, a dependência (notar-se-á, de passagem, a semelhança com os três pressupostos básicos propostos por Bion). Os mais adianta- dos hadfieldianos criticavam “sua rejeição deliberada e racional do significado da transferência”. Hadfield a considerava somente um fenômeno transitório na atualização do material infantil. Isso dava um caráter um pouco irreal a um procedimento “que forçava as fan- tasias”. Vários destes alunos acabaram por recusar este método e procuraram terminar sua formação junto a analistas oficiais. Bion foi um destes.” Em função do atendimento à população de baixa renda, outros casos de distúrbios de comportamento começaram a aparecer na clí- nica, e a necessidade de uma instituição psicoterápica especializada começou a se fazer presente. Estudos conjuntos com o Instituto de Psicanálise foram feitos, e Bion juntou-se a esta última. Com vida interior atormentada, então procurou Rickman, psicanalista reno- mado, ex-analisando de Freud e Melanie Klein. Com esta, sentia maior identificação. Suas interpretações acabaram por afastar Bion de Hadfield e aproximá-lo de Melanie Klein. Sua psicanálise, foi interrompida pela II Guerra Mundial. Ainda trabalhava em Tavistock quando voltou ao exército, em 1940, por questões de solidariedade e defesa de seu país. Resolveu aplicar seus conhecimentos adquiridos com as neuroses de guerra e sua expe- riência como combatente, indo para o Serviço da Saúde Militar. Wilfred Ruprecht Bion / 33 O período grupal Neste serviço, os distúrbios emocionais se constituíam como a causa mais relevante da inativação dos militares. As forças armadas propunham, então, programas de reabilitação e readaptação. Ao mesmo tempo, precisavam de um grande número de oficiais e o número de candidatos impunha um método mais adequado de seleção. Segundo Zimerman (1995): “Premido por essas duas circunstâncias, ocorreu a Bion a ge- nial idéia de utilizar o recurso grupal. No tocante ao projeto de readaptação dos militares estressados, Bion executou no hospital militar um plano de reuniões coletivas, nas quais se discutiam os problemas comuns a todos, e se estabeleciam programas de e- xercícios e atividades. Assim, em 1942, no hospital Northfield, que comportava 200 leitos no “pavilhão de tratamento” e 400 lei- tos no “pavilhão de readaptação”, Bion iniciou os seus experi- mentos com grupos. Ele se reunia diariamente numa sala com 15 pa- cientes, e promovia uma discussão grupal, com o objetivo precí- puo de readaptá-los à vida militar, ou então para julgar se eles eram capazes de voltar ativamente a essa vida. Um fruto visível desse trabalho grupal foi o de que Bion conseguiu restabelecer a disciplina e manter uma ocupação útil dos seus homens e, com isso, constituiu-se um verdadeiro“espírito de grupo”. Por razões que nunca ficaram bem esclarecidas (a mais provável é a de que a cúpula dos oficiais superiores teria ficado alarmada com a mudança do clima do hospital), essa experiência durou apenas seis semanas. Uma das sementes que germinou dessa curta ex- periência foi o fato de que o hospital Northfield tornou-se o ber- ço da “comunidade terapêutica”, cujo modelo, após a guerra, ganhou uma enorme expansão, principalmente nos Estados U- nidos.” Quanto à seleção dos oficiais, Bion instituiu a técnica de “grupos sem líder”, em que propunha uma tarefa coletiva (construção de uma ponte), cuja avaliação residia não na construção em si, mas na aptidão em estabelecer e lidar com as inter-relações, em enfrentar tensões dele e de outros, em lidar com o medo do fracasso e o desejo de êxito pessoal. Tais experiências, permitiram a Bion (1975) concluir que o “bom espírito de grupo” apresenta as seguintes características: 34 / Cadernos da SBDG – 9 “a) Um propósito comum, seja ele vencer um inimigo ou de- fender e nutrir um ideal ou uma construção criativa no campo das relações sociais ou das comunidades físicas. b) Um reconhecimento comum, por parte dos membros do grupo, dos ‘limites’ deste e sua posição e função em relação às de unidades ou grupos maiores. c) A capacidade de absorver novos membros e perder outros sem medo de perder a individualidade grupal, isto é, o ‘caráter do grupo’ deve ser flexível. d) A liberdade dos subgrupos internos de terem limites rígi- dos (isto é, exclusivos). Se um subgrupo achar-se presente, ele não deve ser centrado em nenhum de seus membros nem em si próprio, tratando os outros membros do grupo principal como se eles não fizessem parte da principal barreira grupal; o valor do subgrupo para o funcionamento do grupo principal deve ser geralmente reconhecido. e) Cada membro individual é valorizado por sua contribuição ao grupo e possui liberdade de movimentos dentro dele, com sua liberdade de locomoção sendo limitada apenas pelas condi- ções geralmente aceitas, esperadas e impostas pelo grupo. f) O grupo deve ter a capacidade de enfrentar o descontenta- mento dentro de si e possuir meios de tratar com ele. g) O tamanho mínimo do grupo é três. Dois membros têm re- lações pessoais; com três ou mais, há uma mudança de qualida- de (relação interpessoal).” Com o término da II Guerra, Bion retornou a Tavistock, dedican- do-se a grupos compostos por diretores da clínica e pessoas que de- tinham funções de poder, trabalhando com eles em um clima de alta tensão grupal. Estas experiências duraram pouco tempo, porém mo- bilizaram os participantes, inclusive, a procurar psicanálise indivi- dual, pois cada um deles pode funcionar como paciente e como ana- lista dos demais. A partir de 1948, organizou grupos unicamente terapêuticos cu- jas observações contribuíram com as concepções acerca da dinâmica dos grupos, descritas a posteriori. A análise com Melanie Klein, inici- ada em 1945 e prolongada por oito anos, e o retorno à formação no Instituto de Psicanálise de Londres também foram decisivas. Neste período, muitas mudanças ocorreram em sua vida. Foi a- ceito como Membro da Sociedade Britânica de Psicanálise e conside- rado um dos mais brilhantes discípulos de M. Klein. Perdeu a pri- meira esposa em 1945, por ocasião do parto de sua primeira filha, cuja dor o acompanhou por toda a vida. Casou-se pela segunda vez Wilfred Ruprecht Bion / 35 com uma assistente sua em Tavistock, Francesca, que lhe deu mais dois filhos e foi sua inseparável companheira até o final de sua vida. Já respeitado, pelos colegas, exerceu a função de Diretor do Insti- tuto da Sociedade Psicanalítica Britânica de 1956 a 1962. Porém, no final da década de 60 “mostrava visíveis sinais de desgaste com a maioria de seus pares que de uma forma ou outra lhe temiam e que, por isso, mostravam uma certa indiferença pelo seu pensamento psi- canalítico” (Zimerman, 1995), aceitando o convite da Sociedade Psi- canalítica de Los Angeles para lá residir e compartilhar os conheci- mentos da obra de M. Klein. Suas idéias foram aceitas por um grupo restrito de pessoas e ignoradas pela grande maioria de psicanalistas. Segundo Zimerman, “estes conflitos estão bem expressados em seus textos sobre o ‘místico’ e o ‘establishment’.” A partir de 1968 até sua morte, em 1979, Bion visitou a América Latina. Primeiramente, a Argentina – onde influenciou a formação de um grupo de estudos liderado por L. Gringberg, cujo livro Intro- dução às idéias de Bion foi consagrado – e depois o Brasil. No país, Bion visitou São Paulo em 1973, São Paulo e Rio de Ja- neiro em 1974, Brasília em 1975 e São Paulo em 1978. Seus debates culminaram com os livros intitulados Conferências brasileiras, que o- cupam lugar de destaque no seu acervo psicanalítico. Bion, faleceu aos 82 anos, no retorno a Londres, após 11 anos de afastamento, em conseqüência de uma leucemia mielóide aguda. Zimerman coloca que toda a obra de Bion foi baseada na sua ex- periência emocional com a prática da situação clínica e que sua prin- cipal contribuição “consiste na abertura de novas formas de pensar as questões da prática clínica, independentemente de quais são as correntes teóricas que servem de respaldo a um psicanalista, apesar de que de modo algum isso signifique que essas teorias devam ser dispensadas ou relegadas a um plano secundário”. Segundo este autor, a obra de Bion não segue uma evolução line- ar e é cheia de avanços e recuos, mas segue uma unidade conceitual. Ele simplifica a trajetória de Bion pelas principais idéias das quatro décadas de produção científica: Década de 40. A prática com grupos lhe permite formular concei- tos sobre a dinâmica grupal que confirmam as teorias de M. Klein sobre os “mecanismos defensivos do ego, as ansiedades psicóticas e as manifestações inerentes à posição esquizoparanóide”. 36 / Cadernos da SBDG – 9 Década de 50. A análise de pacientes esquizofrênicos não interna- dos lhe permite aprofundar os conhecimentos de fenômenos psicóti- cos. Década de 60. A partir do trabalho anterior, dedica-se ao estudo da gênese e natureza dos pensamentos, tanto do campo da normali- dade quanto da patologia. É sua fase mais notável, onde escreve as seguintes obras: Ataque aos vínculos (1959); Aprendendo com a expe- riência (1962); Elementos em Psicanálise (1963); Transformações (1965). Década de 70. suas idéias tornam-se complexas e adquirem uma característica “místico-transcendental, de difícil compreensão para a grande maioria dos leitores”. Escreve a trilogia Uma memória do futu- ro, de cunho autobiográfico e não científico. CONCLUSÕES ACERCA DA DINÂMICA GRUPAL Bion elaborou conceitos originais acerca da dinâmica do campo grupal. Para ele qualquer grupo movimenta-se em dois planos. O primeiro plano é o consciente onde o grupo opera em busca da reali- zação de uma tarefa, é o Grupo de Trabalho. De forma latente a este está o grupo de pressupostos básicos assentado no plano incons- ciente – que correspondem a pulsões e fantasias primitivas e atávicas (dependência durante certo tempo; luta e fuga contra predadores e acasalamento para a sobrevivência da espécie). No decorrer dos sé- culos permaneceram na mentalidade e na cultura grupal e cabe ao terapeuta ou coordenador/facilitador trazer para o plano consciente e elucidar os movimentos do grupo para assegurar seu desenvolvi- mento. A cultura grupal consiste em permanente interação entre o indivíduo e seu grupo – entre o narcisismo e o socialismo. Em 1948, ao focalizar seu trabalho no grupo terapêutico, em Ta- vistock, propôs o estudo das tensões dos pacientes como uma tarefa grupal. Para tanto, nas sessões, não apresentava qualquer regra ou pauta de discussão. O grupo, então, experimentava um fenômeno semelhante ao da associação livre e esperava dele uma reação. En-frentando esta espera como uma interpretação, comunicava ao gru- po o que sentia. Segundo Bléandonu: “A tensão mantida desta forma favorecia as trocas verbais entre o psiquiatra e os participantes. Cada vez que lhe parecia ser o momento oportuno, Bion interpretava, tra- duzia em termos precisos a atitude do grupo para com ele.” O mes- mo acontecia quando, as forças afetivas eram deslocadas para outro participante. Wilfred Ruprecht Bion / 37 Bion, em determinados momentos, percebeu que ao invés dos indivíduos preocuparem-se com a solução de seus problemas psico- lógicos mobilizaram-se de forma hostil contra os doentes mentais e contra todos que desejassem enfrentar ou mesmo elucidar estes pro- blemas. Ao colocar tais sentimentos, o grupo rechaçou suas interpre- tações negando e evadindo-se do sentimento de hostilidade. Inclusi- ve, a emergência da cooperação do grupo contra ele contraria- va a idéia da época de que neuróticos não cooperam. Bion se deu conta que se todos negaram esta hostilidade é por- que o grupo permitia que ela se expressasse anonimamente. Diz ele: “Pode-se ver que aquilo que um indivíduo diz ou faz num grupo ilumina tanto sua própria personalidade quanto a sua o- pinião do grupo; às vezes, sua contribuição ilumina uma mais que a outra. Ele está preparado para efetuar algumas contribui- ções como provindas inequivocamente de si mesmo, mas exis- tem outras que gostaria de fazer anonimamente. Se o grupo po- de fornecer meios pelos quais as contribuições possam ser feitas anonimamente, acham-se então lançadas as bases para um sis- tema bem sucedido de evasão e negação e, nos primeiros exem- plos que dei, era possivelmente porque a hostilidade dos indiví- duos estava sendo colocada anonimamente no grupo, de modo que cada membro dele podia, com toda a sinceridade, negar que estivesse se sentindo hostil. Teremos de examinar intimamente a vida mental do grupo para descobrir como este fornece meios para a efetivação destas contribuições anônimas” (Bion, 1975). Com tal percepção, Bion trouxe para o contexto grupal a referên- cia de um inconsciente como o contexto individual e formulou o conceito de MENTALIDADE DE GRUPO: expressão unânime da vontade do grupo oposta aos objetivos conscientes dos indivíduos que o compõem, que contribuem com ela de forma anônima. Continua ele: “Postularei uma mentalidade de grupo como o fundo comum ao qual as contribuições anônimas são efetuadas e através do qual os impulsos e desejos implícitos nestas contribuições são sa- tisfeitos. Qualquer contribuição a esta mentalidade de grupo tem de angarias o apoio das outras contribuições anônimas dele ou achar-se em conformidade com elas. Deveria esperar que a men- talidade de grupo se distinguisse por uma uniformidade con- trastante com a diversidade de pensamento existente na menta- 38 / Cadernos da SBDG – 9 lidade dos indivíduos que contribuíram para a sua formação. Deveria esperar que a mentalidade de grupo, tal como a postu- lei, se opusesse aos objetivos confessados dos membros indivi- duais do grupo” (Bion, 1975). Ao mesmo tempo reconhecia que o grupo era essencial para a realização da vida mental do homem e satisfação de necessidades e que a mentalidade grupal se colocava como um obstáculo a ser desa- fiado. Postulou, então que o grupo enfrenta a este desafio pela elabo- ração do que chamou: CULTURA DO GRUPO: estrutura, ocupações e organização que o grupo adota frente ao conflito entre a mentalidade grupal e as necessidades individuais. Passou a encarar o grupo como uma tríade indivíduo- mentalidade-cultura, “uma ação recíproca entre as necessidades in- dividuais, a mentalidade de grupo e a cultura”. No entanto, percebeu que as interpretações baseadas na tríade não davam conta de alguns padrões de comportamento que ocor- riam no âmbito das relações entre os componentes do grupo e se re- petiam. Diz ele: “Como é que o emprego desses três conceitos – mentalidade de grupo, cultura de grupo e indivíduo – como fenômenos in- terdependentes, opera na prática? Não muito bem: descobri que o grupo reagia de uma maneira cansativamente errática. Pude dar interpretações do tipo que descrevi e, de vez em quando, a reação que se seguia podia ser explicada como um desenvolvi- mento lógico da interpretação que havia dado, mas havia exce- ções desorientadoras. O grupo alterava-se de maneiras que me deixavam dificuldade e incapaz de aplicar minhas teorias de qualquer modo que me convencesse. Ou, então, sentia que elas eram inaplicáveis ou, alternativamente, que iluminavam um as- pecto da situação que não possuía significação” (Bion, 1975). Descobre então que o objetivo das relações no grupo se explica por suposições básicas de preservação do próprio grupo, onde o in- divíduo que alimenta a mentalidade do grupo não se sente à vonta- de quando age em desacordo com as suposições. Reformula o postu- lado da mentalidade grupal enfatizando que: “A mentalidade do grupo é a expressão unânime da vontade do grupo, à qual o indivíduo contribui por maneiras de que não se dá conta, influenciando-o desagradavelmente sempre que ele Wilfred Ruprecht Bion / 39 pensa ou se comporta de um modo que varie de acordo com as suposições básicas. Assim, trata-se de uma maquinaria de inter- comunicação que é construída para garantir que a vida de grupo se acha de acordo com as suposições básicas. Seguir-se-á disso que a cultura de grupo apresentará sempre sinais das suposições básicas subjacentes” (Bion, 1975). Bion, então, dirigiu todos os seus esforços para identificar as su- posições básicas e no final de seu projeto concluiu a coexistência permanente em qualquer grupo de dois níveis de atividades ou for- ças que operam nele, a saber: a do grupo de trabalho e a do grupo de (pré) suposições básicas. GRUPO DE TRABALHO: postula que todo grupo, mesmo constituído no acaso, se reúne para levar a cabo uma tarefa e seus componentes co- operam voluntariamente para cumpri-la. Equivale às funções do ego consciente proposto por Freud, onde a realidade se faz presente e a busca da evolução do desenvolvimento é permeado pelo respeito à verdade e pela consciência do fator tempo. Segundo Bion: “Em qualquer grupo podem ser discernidas tendências de a- tividade mental. Todo grupo, por casual que seja, encontra-se para ‘fazer’ algo; nesta atividade, de acordo com as capacidades do indivíduo, eles cooperam. A cooperação é voluntária e de- pende, em certo grau, da habilidade refinada do indivíduo. A participação nesta atividade só é possível a indivíduos com anos de treinamento e uma capacidade de experiência que lhes per- mitiu desenvolver-se mentalmente. Uma vez que esta atividade acha-se ligada a uma tarefa, ela se encontra relacionada com a realidade, seus métodos são racionais e, dessa maneira, embora em forma embriônica, é científica. Suas características são seme- lhantes àquelas atribuídas por Freud (1911) ao ego. Chamei de Grupo de Trabalho esta faceta da atividade mental num grupo. O termo abrange apenas a atividade mental de um tipo particu- lar, não as pessoas que se entregam a ela” (Bion, 1975). GRUPO DE (PRÉ)SUPOSIÇÕES BÁSICAS: Postula que existem supostos básicos que obedecem as leis do inconsciente e manifestam-se como defesas regressivas que acabam por opor-se ao desenvolvimento e evolução do grupo, impedindo comportamentos maduros e obstacu- lizando a tarefa proposta. Defesas estas que emergem frente a emo- 40 / Cadernos da SBDG – 9 ções e ansiedades subjacentes, que acabam por requerer uma lide- rança que atenda à pressuposição vigente. Vale citar o conceito interpretado por Zimerman (1995): “Os supostos básicos (SB) funcionam nos moldes do processo primário do pensamento e, portanto, obedecem mais às leis do inconsciente dinâmico. Assim, os supostos básicosignoram a noção de temporalidade, de relação causa-efeito, ou se opõem a todo o processo de desenvolvimento, e conservam as mesmas características que as reações defensivas mobilizadas pelo ego primitivo contra as ansiedades psicóticas”. “É claro que as emoções básicas, como o amor, ódio, medo, ansiedades, etc., estão presentes em qualquer situação. Porém, o que caracteriza particularmente os supostos básicos é a forma de como esses sentimentos vêm combinados e estruturados, e, por isso, exigem um tipo de líder específico apropriado para preen- cher os requisitos do suposto básico predominante e vigente no grupo” (Zimerman, 1995). Para vigorar, a suposição básica depende da participação invo- luntária, automática e inevitável dos componentes do grupo. À esta participação Bion empregou um termo da química denominado Va- lência. VALÊNCIA: aptidão de cada indivíduo combinar com os demais em função de um pressuposto básico. Diz ele, sobre valência: “Quero significar, pelo seu emprego, a presteza do indivíduo em entrar em combinação com o grupo na elaboração das supo- sições básicas e em atuar segundo elas; se sua capacidade de combinação é grande, falarei de uma valência elevada; se pe- quena, de uma valência baixa. Na minha opinião, ele só pode ser ausência de valência se, até onde concerne à função mental, dei- xar de ser humano. Embora empregue essa palavra para descre- ver fenômenos que são visíveis como fatos psicológicos ou de- duzíveis deles, gostaria também de empregá-las para indicar a presteza em combinar-se em níveis que dificilmente podem ser chamados de mentais, mas que caracterizam por um comporta- mento do ser humano que é mais análogo ao tropismo nas plan- tas que a um comportamento intencional, tal como se acha im- plícito numa palavra como ‘suposição’.” (Bion, 1995). Wilfred Ruprecht Bion / 41 Com o postulado da valência, Bion modificou sua visão de coo- peração. Enfatiza que o grupo de trabalho sob a égide da razão liga- se pela cooperação enquanto o grupo de suposição básica, banhado por faculdades instintivas, liga-se pela valência. 42 / Cadernos da SBDG – 9 Os três pressupostos básicos Dependência O grupo, em funcionamento primitivo, busca proteção, seguran- ça e alimentação material e espiritual. Supõe que está ali para ser di- rigido por indivíduo terno e onipotente. Se comporta como se fosse incompetente, com esperança de ser resgatado de sua impotência por um líder poderoso que instituirá e dirigirá o grupo para o cum- primento de seus objetivos. A fantasia presente na dependência é que o líder é mais capaz do que realmente o é, e que os seguidores são mais deficientes que o são na realidade. Com isto, o grupo evita exercitar sua autoridade pessoal e reduz o conceito de sua responsa- bilidade individual. Bléandonu descreve a participação com base no suposto de de- pendência da seguinte forma: “Os participantes se dedicam inicialmente a reforçar a idéia de que o grupo se compõe de um médico e seus pacientes. Insis- tem no fato de que o médico é o único personagem importante. Acreditam que estão sendo tratados apenas quando se dirigem diretamente a ele. Caso contrário, sentem-se frustrados, decep- cionados. Para este tipo de grupo, o poder vem da magia e não da ciência: eles gostaria de ter por ‘leader’ um feiticeiro ou al- guém que se comportasse assim.” Acasalamento O grupo consente que dois ou mais componentes se unam e se distinguiam do restante em busca de consolação mútua. A fantasia presente neste emparelhamento é que o grupo está reunido para sal- var-se de seus sentimentos irracionais, através da união de pessoas, grupos ou subgrupos. O grupo deseja que algo ou alguém o guie pa- ra uma nova e melhor direção. O produto indispensável desta união não é um líder capaz e sim a esperança de uma salvação que sempre estará por realizar-se. Vale ressaltar a citação de Bléandonu (1993) sobre a percepção de Bion do surgimento deste (pré)suposto. Diz ele: “Eis como Bion percebeu, pela primeira vez, este tipo de si- tuação. A conversa estava monopolizada por um homem e uma mulher que pareciam não ligar muito para a presença dos outros participantes. De vez em quando estes últimos trocavam olhares Wilfred Ruprecht Bion / 43 sugerindo a existência de uma relação amorosa. Todavia, a con- versa do casal não parecia muito diferente, em seu conteúdo, dos outros assuntos tratados pelo grupo. Enquanto, comumente, o neurótico perde a paciência frente a qualquer atividade que não diga respeito a seus problemas, neste caso os participantes aceitavam facilmente esta monopolização da palavra pelo casal. Bion percebeu, em seguida, que o sexo dos indivíduos não era relevante para a constituição do P.B. – de acasalamento. Cada vez que este tipo de relação se estabelece, parece tratar-se de uma situação sexual. Neste momento, uma atmosfera de espe- rança irracional contrasta com o aborrecimento e a frustração habituais. O grupo pensa que uma pessoa, ou uma idéia, virá salvá-lo, fará desaparecer todas as dificuldades atuais.” Desta forma, no acasalamento, o grupo manifesta defesas manía- cas, esperando um comportamento de liderança com características messiânicas e místicas, que, na verdade, sempre estará por vir mas nunca se realizará. Luta-fuga O grupo se comporta como se estivesse ali para manter-se livre da troca, da ansiedade e de qualquer dificuldade psicológica. Perce- be sua sobrevivência depende da luta, seja por agressão direta ou criação de bodes expiatórios, ou da fuga, que pode ser para o futuro, o passado ou ainda para eventos fora da situação ou utilizando inte- lectualizações, demonstrando passividade ou repetindo histórias já conhecidas. Sobre este pressuposto Zimerman (1995) diz: “O Suposto Básico de ‘Luta-fuga’ alude a uma condição em que o inconsciente grupal está dominado por ansiedades para- nóides e, por essa razão, ou a totalidade grupal mostra-se alta- mente defensiva e “luta” com uma franca rejeição contra qual- quer situação nova de dificuldade psicológica, ou eles “fogem” da mesma, criando um inimigo externo, ao qual atribuem todos os males e, por isso, ficam unidos contra esse inimigo “comum”. O líder requerido por esse tipo de suposto básico grupal deverá ter características paranóides e tirânicas.” Esse autor cita um trecho do trabalho de L. A. Py, grupo analista da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, que vale ser transcrito pela forma como trata da emergência das suposições bási- cas e como se intercomunicam: 44 / Cadernos da SBDG – 9 “Emerge algo inconsciente, instintivo e extremamente primi- tivo, impelindo o grupo a um determinado tipo de comporta- mento que parece um padrão da espécie humana, tendo em vista o fato de o homem ser um animal gregário. Talvez padrões se- melhantes sejam característicos do comportamento dos mamífe- ros gregários. Trata-se de um comportamento de sobrevivência que então aparece de forma rudimentar, ineficiente, caricata. Os aspectos mais essenciais da sobrevivência da espécie estão aí presentes conforme descritos por Bion. Existe a expectativa da emergência do líder místico, aquele que individualmente detém capacidades invulgares e que tem condições de liderar, dirigir o grupo para a sobrevivência. O instinto de obediência a esse líder aparece caricaturado no grupo de suposto básico de dependên- cia. Como animal predador e ao mesmo tempo alvo e presa de outros predadores, o ser humano necessita estabelecer padrões de comportamentos grupais que lhe permitam lutar e fugir de acordo com as circunstâncias. A liderança necessária para tal se faz presente e a formulação das atitudes grupais que fazem face a essas necessidades encontra-serepresentada no grupo de su- posição básica de luta-fuga. O outro elemento fundamental da sobrevivência da espécie, a procriação e a criação da prole, está expresso no grupo de suposto básico de acasalamento. Assim, vemos que as principais necessidades básicas de manutenção da espécie humana emergem desta forma primitiva nos agrupa- mentos humanos quando é dada a oportunidade para tal”. Bion observou, ainda, que estas suposições básicas não se con- trapõem entre si, alternam-se facilmente em decorrência das emo- ções suscitadas pela situação vivida. Embora sentimentos como me- do, segurança, depressão, ódio e amor sejam identificáveis, a forma como combina-se determina o pressuposto ativo. Desta forma a an- siedade do pressuposto de dependência se apresenta diferente no de acasalamento. Bion, então, interessou-se pela natureza e origem des- tas combinações – “queria saber porque os sentimentos se ligam uns aos outros com a tenacidade e exclusividade próprias às combina- ções químicas” (Bléandonu, 1993). Além disto, uma outra questão se impunha: O que acontece com as emoções vinculadas aos pressupos- tos que permanecem inativos, enquanto, um único opera? Postulou, então, a existência de uma dimensão atávica de grupo onde residem impressões e experiências emocionais primitivas que são “evacuadas” nos pressupostos básicos do grupo. As emoções associadas a estas experiências eclodem no Grupo de Trabalho sob a forma de um pressuposto básico determinado e Wilfred Ruprecht Bion / 45 capaz de ser identificado, mas o estado afetivo relacionado com os dois outros pressupostos permanecem latentes no que ele define como sistema protomental. Bion afirma: “Visualizo o sistema protomental como um sistema em que o físico e o psicológico ou mental são diferenciados. Trata-se de uma matriz donde originam-se os fenômenos que a princípio parecem – num nível psicológico e à luz da investigação psico- lógica – serem sentimentos distintos, apenas frouxamente asso- ciados uns com os outros. É desta matriz que as emoções pró- prias à suposição básica fluem para reforçar, infiltrar e, ocasio- nalmente, dominar a vida mental do grupo. Uma vez que se tra- ta de um nível em que o físico e o mental são indiferenciados, é razoável que, quando a aflição originária dessa fonte se manifes- ta, ela possa manifestar-se tanto sob formas físicas quanto sob formas psicológicas. As suposições básicas inoperantes acham-se confinadas dentro do sistema protomental; isto quer dizer que se o grupo refinado é impregnado pelas emoções associadas com a suposição básica de dependência, então as suposições básicas de luta-fuga e de acasalamento ficam confinadas dentro das limita- ções da fase protomental. São as vítimas de uma conspiração en- tre o grupo refinado e a suposição básica operante. Foi apenas a fase protomental do grupo de dependência que se libertou para se desenvolver em estado diferenciado, onde o psiquiatra pode discernir sua operação como suposição básica” (Bion, 1975). Ressalta que em decorrência do confinamento no sistema proto- mental, o estado afetivo relacionado às suposições básicas inoperan- tes permanecem latentes e, porquanto, podem provocar a confusão, ou mesmo, incorreção na identificação da suposição básica operante. Bion afirma: “Cada estado, mesmo quando é possível diferenciá-lo com ra- zoável certeza dos outros dois, tem em si uma qualidade que sugere ser ele, de algum modo, o dual ou recíproco de um dos outros dois, ou, talvez, simplesmente outra visão daquilo que se pensou ser uma suposição básica diferente. Por exemplo, a espe- rança messiânica do grupo de acasalamento possui uma certa semelhança com a divindade grupal do grupo de dependência. Pode ser difícil perceber porque o tom emocional apresentado é tão diferente. Ansiedade, medo, ódio, amor, todos, como disse, existem em cada grupo de suposição básica. A modificação que os sentimentos sofrem em combinação no respectivo grupo de suposição básica pode surgir porque o ‘cimento’, por assim di- 46 / Cadernos da SBDG – 9 zer, que os une uns aos outros é a culpa e a depressão no grupo de dependência, a esperança messiânica no grupo de acasala- mento e a ira e o ódio no grupo de luta-fuga. Seja como for, o re- sultado é que o conteúdo de pensamento da discussão pode apa- recer como um resultado que é enganadoramente diferente nos três grupos. É possível às vezes, sentir que o gênio futuro do grupo de acasalamento é muito semelhante ao deus do grupo de dependência e, certamente, naquelas ocasiões em que o grupo de dependência apela para a autoridade de um líder ‘passado’, ele se aproxima muito do grupo de acasalamento, que apela para um líder ‘futuro’. Em ambos, o líder não existe; há uma diferen- ça de tempo gramatical e uma diferença na emoção” (Bion, 1975). Por conseqüência desta constatação propõe que a elucidação da suposição operante deve ser procurada em dois lugares: “o primeiro, na relação do indivíduo com o grupo de suposição básica e consigo próprio como participante na manutenção deste grupo; o outro, nas fases protomentais das outras duas suposições básicas”. As oscilações emocionais no grupo Bion observou ainda que as mudanças na mentalidade grupal não ocorreu simplesmente quando um pressuposto básico substitui a outro. Podem assumir formas aberrantes de acordo com a intensida- de das oscilações emocionais provocadas por diferentes pontos de vista que emergem dentro do grupo. Para resolver o dito conflito o grupo acaba por absorver grupos externos. Bion cita o seguinte e- xemplo: no grupo do suposto básico de dependência, o líder espon- tâneo é visto como “seriamente perturbado”, no entanto reconhecido como o líder de que depende. É visto como “louco” ou “gênio”: “Ora, isto só pode ser efetuado por uma série de oscilações de uma opinião para outra. Se me recuso a intervir, e testei esta si- tuação diversas vezes, deixando-a ir longe, até mesmo longe demais para a segurança, as oscilações se tornam muito rápidas. E quando, como nesta situação, a distância a separar as duas crenças é grande – porque é difícil imaginar duas opiniões mais amplamente separadas que a crença de que o líder é louco e a crença de que ele seja a pessoa de quem se depende, em que po- demos apoiar-nos para nosso bem-estar – então as oscilações têm de ser tanto rápidas no tempo quanto grandes em amplitu- de. O resultado é que o grupo não pode mais conter a situação emocio- Wilfred Ruprecht Bion / 47 nal que, logo após, se espalha com violência explosiva para ou- tros grupos, até grupos suficientes serem arrastados para absor- ver a reação. Na prática, no grupo pequeno, isto significa um impulso a queixar-se à autoridade externa” (Bion, 1975). Uma outra forma aberrante de dar conta da ansiedade frente às oscilações, é o que Bion chamou de cisma, caracterizado pela guerra interna decorrente da resistência que se forma quando há demanda pelo desenvolvimento e crescimento do grupo. Exemplifica ele: “De acordo com sua personalidade, o indivíduo adere a um de dois subgrupos. Um deles opõe-se a novos avanços e, assim fazendo, apela para a lealdade ao líder de dependência.” “Os adeptos deste subgrupo apelam para a tradição, para a ‘a palavra de deus’ (do grupo) ou para alguém que foi transforma- do em deus grupal com o fim de resistir à mudança. Os mem- bros deste subgrupo manipulam o líder de dependência ou substitutos seus que alegam apoiar de uma maneira tal que a adesão ao grupo não exija qualquer sacrifício penoso e, assim, seja popular. Dessa maneira, a atividade mental se estabiliza num nível que é cediço, dogmático e indolor. O desenvolvimen- to é interrompido e a estagnação resultante é difundida. O subgrupo recíproco compõe-se daqueles que apoiam osten- sivamente a idéia nova e este subgrupo se põe a campo para al- cançar o mesmo fim queo primeiro, mas de maneira bastante di- ferente. Ele se torna tão exigente em suas demandas que deixa de efetuar recrutamento. Deste modo, não existe a penosa reuni- ão de iniciados e não iniciados, primitivos e refinados que cons- titui a essência do conflito de desenvolvimento. Ambos os gru- pos atingem assim o mesmo fim e o conflito é encerrado. Exage- rando, para fins de melhor clareza, eu diria que o primeiro sub- grupo possui grande número de indivíduos não refinados e primitivos, que vêem seu número crescer constantemente, mas que não se desenvolvem. O outro subgrupo progride, mas numa frente tão estreita e com tão poucos recrutas que ele também evi- ta a penosa reunião da nova idéia e do estado primitivo. O me- canismo igualiza o grau de refinamento nos indivíduos da co- munidade e impede também o conflito entre o desenvolvimento e o instinto no indivíduo” (Bion, 1975). O grupo de trabalho especializado Bion, depois de Freud, interessou-se pela Igreja e pelo Exército, propondo-os como grupos de trabalhos especializados, que manipu- 48 / Cadernos da SBDG – 9 lam pressupostos básicos específicos, no caso dependência e luta- fuga, respectivamente, de forma a evitar que sejam bloqueados por eles, estimulam diante da ameaça de oscilações internas como as descritas acima. Mas, na medida em que a expressão de uma ação só é possível quando há contato com a realidade (este só possível no Grupo de Trabalho), estas instituições invertem o processo expressando a ação nos termos dos pressupostos básicos operantes. Cita Bion: “Como a função do grupo de trabalho consiste essencialmente na tradução de pensamentos e sentimentos em comportamentos adaptados à realidade, é má adaptação dar expressão às suposi- ções básicas, porque estas tornam-se perigosas proporcional- mente à tentativa que é feita de traduzi-las em ação. Na verdade, o grupo especializado de trabalho tende a reconhecer isso e o demonstra pela tentativa de executar o processo inverso, isto é, traduzir a ação nos termos da mentalidade de suposição básica – procedimento muito mais seguro. Dessa maneira, uma Igreja, quando lhe é apresentada alguma notável realização da função do grupo de trabalho, recomendará ao grupo que a agradeça à sua divindade e não à sua capacidade de trabalho duro e realís- tico – non nobis, Domine. A Igreja próspera e bem sucedida, do ponto de vista do facilitamento da função do grupo de trabalho, deve combinar de que nunca se deve agir segundo ela; o serviço de combate bem sucedido deve incentivar a crença de qualquer coisa poder ser feita pela força, desde que ela nunca seja usada. Em ambos os casos, chegamos ao seguinte: a mentalidade de su- posição básica não se presta à tradução em ação, uma vez que a ação, para manter contato com a realidade, exige a função do grupo de trabalho” (Bion, 1975). A título de informação Bion identificou, além da Igreja e do exér- cito, a aristocracia, como um grupo de trabalho especializado de su- posição básica de acasalamento em função do interesse na procria- ção. DA POSIÇÃO DO LÍDER DO GRUPO DE TRABALHO Por serem estas forças inconscientes tão poderosas, os grupos passam a maior parte do tempo na mentalidade das suposições bási- cas do que na do grupo de trabalho. Nenhum grupo será totalmente livre da influência do funcionamento típico das suposições básicas. Reconhecê-las, torná-las conscientes, ter uma tarefa bem definida e Wilfred Ruprecht Bion / 49 uma estrutura que a apoie representam os modos principais de ma- nejá-las e reduzir a influência negativa que exercem sobre os grupos. Para tanto Bion julga “necessário que o psiquiatra encontre in- terpretações que dêem ao grupo um ‘insight’ do que está acontecen- do; que coloque a suposição básica e a tarefa em contato. Propõe que o analista interprete o comportamento grupal verificando suas pró- prias reações emocionais frente a demanda do grupo à sua lideran- ça.” Afirma ele, que esta posição é a “extremidade receptora daquilo que Melanie Klein (1946) chamou de identificação projetiva”. O gru- po atuando numa suposição básica, manipula o analista para que ele desempenhe um papel, caso ele perca temporariamente o insight, se colocando como objeto da identificação projetiva justificando a situ- ação que se apresenta sem a verificação de sua causação, experimen- ta um processo contratransferencial que acaba por impedir a eluci- dação da suposição básica operante. Por isso, Bion acredita que: “a capacidade para sacudir a paralisante sensação de realidade conco- mitante a este estado é o primeiro requisito para o analista do grupo; se puder fazer isso, encontrar-se-á em posição para dar o que acredi- to ser a interpretação correta (Bion, 1975). Com a proposição acima, Bion estabeleceu uma concepção de li- derança diferente da de Freud. Este somente considera a identifica- ção como um processo de introjeção e que, portanto, o líder não é produto do grupo, mas opera sobre ele como hipnotizador, por sua personalidade forte e dominante. Já Bion, diz que o líder não é só produto da introjeção mas da projeção. Tende a emergir como decor- rência do suposto básico operante, que em determinado momento pode compactuar com o grupo de trabalho e manter contato com a realidade em outros pode estar nesta posição, somente por ser repre- sentante das emoções do pressuposto básico operante. Afirma ainda, que em todos os pressupostos básicos existe um líder, que pode estar “inexistente” no momento (no caso do acasala- mento, está no futuro – “Messias”), ou estar representado por um componente do grupo ou mesmo por um objeto ou idéia. Já no Gru- po de Trabalho, o líder é o analista. No nosso caso, o coordena- dor/facilitador àquele que cabe a elucidação dos processos grupais subjacentes. Referências bibliográficas BION, W. R. Experiências com grupos. São Paulo: USP, 1975. BLÉANDONU, O. Wilfred R. Bion – a vida e a obra. Rio de Janeiro: Imago, 1993. 50 / Cadernos da SBDG – 9 El Modelo Tavistock de la Organización: dos conceptos de la tarea principal y las fronteras. Management Today (en español), abr. 1990, p. 21-26. ZIMERMAN, D. E. Bion: da teoria à prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. Wilfred Ruprecht Bion / 51