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e-Book 2 Ana Roberta Almeida Comin FISIOLOGIA GERAL E DO EXERCÍCIO Sumário INTRODUÇÃO ������������������������������������������������� 3 PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DA BIOENERGÉTICA �������������������������������������������� 4 SUBSTRATOS PARA O EXERCÍCIO: OS MACRONUTRIENTES ������������������������������������� 9 SISTEMAS DE TRANSFERÊNCIA DE ENERGIA ������������������������������������������������������14 CONSIDERAÇÕES FINAIS ����������������������������31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS & CONSULTADAS ��������������������������������������������32 3 INTRODUÇÃO Neste módulo, você poderá aprender sobre o pa- pel dos nutrientes na bioenergética, observados magnamente na forma dos macronutrientes. Se- rão abordados, também, os principais conceitos dessa importante área do conhecimento, como os processos metabólicos que transformam a energia química presente nos alimentos em energia útil para a célula, permitindo assim o pleno funcionamento das funções fisiológicas e, consequentemente, a manutenção da vida. 44 PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS DA BIOENERGÉTICA A bioenergética pode ser compreendida como a ciência que investiga a transformação de energia nos seres vivos. Em mamíferos, é caracterizada pelo estudo dos vários processos químicos que tornam possível obtenção de energia a partir dos alimentos. Os seres vivos necessitam de fluxo constante de energia para sobreviverem. E essa fonte de energia está presente nos alimentos. Carboidratos, lipídios e proteínas são os combustíveis necessários ao corpo para realizar suas funções biológicas. Essa energia é utilizada desde para a manutenção do funcionamento de células, tecidos e órgãos, até para realizar o trabalho mecânico do musculoesquelético. A liberação da energia potencial dos macronutrien- tes ocorre por sucessivos processos metabólicos que estudaremos detalhadamente. Esse conteúdo nos permite entender os caminhos que os nutrien- tes percorrem até chegarem ao fornecimento de energia ao organismo. O entendimento dos conceitos que norteiam a bioenergética é de extrema importância, pois 55 permitem compreender como a energia química presente nos alimentos se convertem em outras formas de energia – essenciais para a manutenção da vida e a realização de trabalho. O trabalho biológico Metabolismo é a somatória de todas as transforma- ções químicas de um organismo para a realização de suas funções biológicas. A atividade coordenada de diversas vias metabólicas está relacionada a processos de síntese/degradação de estruturas celulares para a obtenção de energia química. Esse processo é regulado por diversos sistemas multienzimáticos que atuam conjuntamente. Naturalmente, para manter o trabalho biológico em pleno funcionamento é necessário, energia para tal. A energia Os seres vivos necessitam de fluxo constante de energia para a manutenção de suas funções vitais, o qual é proveniente da transferência de energia química presente em macronutrientes. As células, portanto, devem possuir mecanismos de conver- são de energia. A liberação de energia potencial encontrada em carboidratos, proteínas e lipídios ocorre por sucessivos processos enzimáticos que resultam na dissolução de suas ligações químicas. É importante ressaltar que as células são incapa- 66 zes de utilizar diretamente a energia proveniente de nutrientes, sendo necessário algumas etapas para que o organismo consiga utilizá-las em tra- balho biológico. As reações químicas podem ocorrer de forma exergônica (reações que liberam energia) ou ender- gônicas (reações que necessitam de suprimento energético para ocorrerem). Os nutrientes presentes nos alimentos representam moléculas orgânicas, cujas ligações atômicas contêm energia e que, por meio de reações exergônicas (pela desagregação de ligações químicas), possibilitam o surgimento de novas reações químicas endergônicas. Diferentes moléculas resultam em diferentes quantidades de energia liberada, em um processo que envolve a redução de moléculas complexas a moléculas mais simples. A diferença estrutural entre macronutrientes faz com que o potencial de fornecimento energético entre eles seja di- ferente. À medida que essas ligações químicas são “quebradas” e a energia é liberada, ocorre transferência energética entre diversas moléculas intermediárias. O desfecho dessa sequência de eventos culmina na passagem de energia (que a princípio se encontrava em macronutrientes) para uma molécula denominada adenosina trifosfato (ATP). Essa estrutura, além de receber, é capaz de ceder energia para reações endergônicas essen- 77 ciais para realização de trabalho celular (reações que consomem energia). Estruturalmente, podemos descrever o ATP como uma molécula formada por uma base purínica de adenina com ribose, associada a três radicais fosfato interligados em cadeia. Figura 1: Representação da estrutura de uma molécula de ATP. Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/biologia/atp.htm O fornecimento de energia para a formação de ATP pode ocorrer em consequência de três possíveis caminhos metabólicos. Em razão da oferta de: y Energia liberada pelo metabolismo anaeróbio alático y Energia liberada pelo metabolismo anaeróbio lático https://brasilescola.uol.com.br/biologia/atp.htm 88 y Energia liberada pelo metabolismo aeróbio Esses processos liberam energia para que o radical fosfato inorgânico (Pi) seja adicionado à molécu- la de ADP (adenosina difosfato). Isso permite a formação de ligações de fosfato de alta energia existente no ATP. A energia na forma de ATP pode ser então diretamente utilizada pela célula. As reações que necessitam de energia acontecem pela “quebra” da adenosina trifosfato (ATP) em adenosina difosfato (ADP) e fosfato (Pi). Essa re- ação exergônica é catalisada pela enzima ATPase. A reação é expressa da seguinte maneira: ATP+H2O ADP + Pi + energia No organismo, esse composto rico em energia é empregado como uma espécie de “moeda celular”, no qual as necessidades energéticas para traba- lho biológico (mecânico, de reações enzimáticas dependentes de energia, de ativação de ácidos graxos etc.) são “pagas” com essa molécula. Outra analogia que representa poderia ser a de que o ATP é uma bateria recarregável. Acumula energia proveniente de compostos energéticos mais ele- vados e cede energia para ser utilizada na forma de trabalho celular. 9 SUBSTRATOS PARA O EXERCÍCIO: OS MACRONUTRIENTES Antes de avançarmos no assunto e nos aprofun- darmos nos macronutrientes, é necessário que entendamos primeiro o seu conceito base: o que são os nutrientes. Os nutrientes são estruturas químicas essenciais encontradas nos alimentos capazes de fornecer suporte para o crescimento e a manutenção da vida. Eles podem ser classificados de acordo com di- ferentes aspectos observados nessas estruturas químicas, por exemplo, de acordo com a sua ori- gem, função, quantidade que deve estar presente na alimentação, capacidade de fornecer energia e quanto à sua obrigatoriedade de presença na dieta. Origem a) Orgânicos: são formados por moléculas que contêm em sua estrutura átomos de carbono e ligações covalentes entre moléculas de carbono e hidrogênio. A esse grupo de nutrientes perten- cem as proteínas, os lipídios, os carboidratos e as vitaminas. b) Inorgânicos: neste grupo de nutrientes faz parte a água e os sais minerais. 10 Função a) Energéticos: constituído por nutrientes capazes de fornecer energia ao organismo. Como será deta- lhado mais adiante, alguns nutrientes representam a maior parte do fornecimento energético neces- sário ao funcionamento do organismo, enquanto outros, apesar de serem capazes de contribuir nesse aspecto, apresentam outras funções primordiais. Por fornecerem energia, esses nutrientes possuem um destacado papel na regulação bioenergética. A essa classe de nutrientes pertencem os carboi- dratos, os lipídios e as proteínas. b) Plásticos ou construtores: formado por nu- trientes quese destinam aos processos de cres- cimento e reparação do organismo. Representam a matéria-prima necessária para a formação e o desenvolvimento em animais. Como exemplo, podemos citar as proteínas e lipídeos. Os ami- noácidos são utilizados como matéria-prima de diversas estruturas corporais, enquanto diversas estruturas são formadas a partir de lipídios, como as membranas celulares. c) Reguladores: composto por nutrientes encar- regados da regulação dos processos químicos do organismo. Fazem parte desse grupo as vitaminas e os sais minerais. 11 Quantidade necessária na alimentação e capacidade de fornecimento energético a) Macronutrientes: a este grupo pertencem os carboidratos, as proteínas e os lipídios. b) Micronutrientes: a este grupo pertencem as vitaminas e os minerais. c) Nos animais, os macronutrientes são carac- terizados por estarem em maior concentração na alimentação e são as estruturas responsáveis pelo fornecimento energético ao organismo. Por sua vez, os micronutrientes se encontram em menor concentração na nossa alimentação e sua função primordial está relacionada à função regulatória. Dessa forma, participam ativamente no controle da atividade de diversas enzimas. Obrigatoriedade de presença na dieta a) Nutrientes essenciais: são nutrientes que não são sintetizados endogenamente pelo organismo, surgindo assim a necessidade de obtermos esses nutrientes pela alimentação. Como exemplo, po- demos citar os aminoácidos essenciais (leucina, isoleucina, valina etc.), os ácidos graxos essenciais (ácidos graxos da família ômega 3 e 6) etc. b) Nutrientes não essenciais: são nutrientes que, metabolicamente, podem ser produzidos pelo organismo. Podemos citar como nutrientes não 12 essenciais alguns aminoácidos, como a alanina, arginina, glicina etc. Algumas condições específicas (no desenvolvimento, em doenças, no exercício físico extenuante etc.), alguns nutrientes que, em condições habituais, seriam considerados não essenciais podem se tornar necessários. A essa condição é utilizada a nomenclatura de nutrientes condicionalmente essenciais. Figura 2: A alimentação deve ir além da preocupação estética ou dietas do momento. É importante pensarmos no alimento como um substrato energético. Fonte: https://www.istockphoto.com/br/ foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o- -conceito-mediterr%C3%A2neo-flexitaria- no-equilibrado-da-dieta-gm1159204281-316897847?irgwc=- 1&esource=AFF_IS_IR_SP_FreeImages_246195_&asid=- FreeImages&cid=IS&utm_medium=affiliate_SP&utm_sour- ce=FreeImages&clickid=SNMyU8yy-xyLWVf0T7RMw- z4PUkETmn1H9ypUTs0&utm_term=dieta&utm_conten- t=270496&asset_type_keyword=_ https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita https://www.istockphoto.com/br/foto/alimento-saud%C3%A1vel-para-o-conceito-mediterr%C3%A2neo-flexita 13 Os macronutrientes A energia necessária ao organismo é obtida a partir dos macronutrientes presentes na dieta. Macronutrientes constituem moléculas essenciais ao funcionamento do organismo que devem ser ingeridas diariamente e representam a maior parte dos nutrientes consumidos na alimentação. Esse grupo de nutrientes é capaz de fornecer energia. Fazem parte do grupo dos macronutrientes: y Os carboidratos, capazes de fornecerem 4 kcal por grama; y As proteínas, capazes de fornecerem 4 kcal por grama; y Os lipídios, capazes de fornecerem 9 kcal por grama. 1414 SISTEMAS DE TRANSFERÊNCIA DE ENERGIA Sistema anaeróbio alático (ou sistema ATP-CP) As moléculas de ATP podem, por analogia, serem comparadas à moeda corrente do corpo humano. Isso significa que todos os processos fisiológicos que demandam energia dependem dela. No entanto, as reservas de ATP nas células são limitadas, o que carece de um ininterrupto reestabelecimento dessas moléculas para que as nossas funções fisiológicas continuem a acontecer de maneira satisfatória. Nesse sentido, as reservas de fosfocreatina ou creatina fosfato (PCr) surgem como uma solução. A PCr é formada a partir de uma molécula de cre- atina fosforilada. A creatina, em sua grande parte, está presente nas fibras musculares e no cérebro, em sua forma livre, e apenas uma parte na forma fosforilada. No músculo a quantidade de PCr é de 3 a 4 vezes maior do que a concentração de ATP. O sistema anaeróbio alático (também conhecido como sistema ATP-CP) demanda alta energia para se estabelecer, além da rápida disponibilidade de energia para a síntese de ATP. Isso é possível porque a fosfocreatina possui uma ligação fosfato de alta energia que pode ser doada à molécula de 1515 ADP para que o ATP seja formado, mantendo a sua concentração constante. O processo inverso também pode acontecer. Quan- do há moléculas de ATP além do necessário, parte delas doam energia para ressíntese da fosfocrea- tina. Para isso a molécula de creatina é fosforilada e há ação da enzima creatina fosfoquinase (CK). ADP + PCr ⇌ ATP + Cr Apesar de prover energia muito rapidamente, o metabolismo anaeróbio alático consegue manter esse fornecimento por apenas alguns segundos de trabalho. No entanto, a célula necessita de um fluxo constante de ressíntese de ATP. Portanto, é a intensificação de outros processos metabólicos que fornecem essa energia. O metabolismo anaeróbio é formado por processos metabólicos que viabilizam a formação de energia que ocorrem no citoplasma (sistema anaeróbio alático, discutido aqui, e a via glicolítica, que ve- remos a seguir). Já para o metabolismo oxidativo, diversas reações enzimáticas ocorrem em processos que exigem a atividade das mitocôndrias (e exigem, consequen- temente, aporte de oxigênio). 1616 Sistema anaeróbio lático (ou glicólise) Sabemos que para o fornecimento de energia é necessária a decomposição de compostos nutri- cionais complexos até se tornarem estruturas mais simples. A glicose é uma das principais fontes energética celulares, capaz de gerar ATP tanto na presença como na ausência de oxigênio. Na glicólise as reações ocorrem exclusivamente no citoplasma celular, em resultado da metabo- lização da glicose. Suas reações, portanto, são independentes de oxigênio. A glicólise é o resul- tado da decomposição de glicose até piruvato. A ativação desse sistema energético, entretanto, tende a acumular lactato e, subsequentemente, causar queda no pH, caso não haja escape de intermediários para a oxidação mitocondrial. Possui diversas etapas que se caracterizam pela sucessão de reações enzimáticas que, a princípio, dispendem/gastam energia (fase preparatória) e, posteriormente, produzem energia. As reações da via glicolítica, de glicose até piruvato, serão descritas em detalhes a seguir. A capacidade de a célula gerar energia através da glicólise depende, entre outras coisas, do fornecimento de glicose. Uma vez que a célula absorva o substrato, a glicose sofre um processo de fosforilação, que impede sua saída da célula. A enzima responsável por essa ação é a hexocinase 1717 (ou glicocinase no fígado) e compreende o gasto de ATP. A glicose 6-fosfato (G6P) é então reconfigurada estruturalmente, dando origem ao seu isômero, a frutose 6-fosfato (F6P). Esse intermediário recebe um fosfato (pela atividade da enzima fosfofruto- cinase – PFK-1, emum processo que envolve o gasto de ATP), produzindo frutose 1,6-bisfosfato (F1,6-BP). Esse intermediário é então clivado em duas moléculas fosforiladas, formando as trioses fosfatos, diidroxiacetona fosfato (DHAP) e gliceral- deído 3-fosfato (G3P). A DHAP pode retornar a via glicolítica pela isomerização de sua estrutura até G3P. Assim, é importante compreender que a partir de uma F1,6-BP podemos formar duas moléculas de G3P e, consequentemente, ao final da glicólise, termos duas moléculas de piruvato. 1818 Figura 3: Etapas da glicólise. Fase preparatória e de produ- ção de energia na via glicolítica. Fonte: Pelley (2009) O G3P é então oxidado e fosforilado. Isso produz o intermediário 1,3-bisfosfoglicerato (1,3-BPG) e NADH (nicotinamida adenina dinucleotídeo re- 1919 duzido). O fosfato do 1,3-BPG é transferido para uma molécula de ADP, formando 3-fosfoglicerato (3-PG) e de ATP. Há então mudança na localiza- ção do grupo fosfato desse intermediário (para o carbono 2), originando o 2- fosfoglicerato (2PG). Uma molécula de água é, posteriormente, removida e o produto dessa reação é o fosfoenolpiruvato (PEP). A atividade enzimática de piruvato cinase sobre essa molécula favorece a formação de ATP e piruvato. A disponibilidade de oxigênio é uma importante condição que irá coordenar se os processos de metabolismo ocorrerão de maneira aeróbia ou anaeróbia lática. Em condições nas quais a ofer- ta de oxigênio é suficiente, a maior proporção de piruvato é desviada para o metabolismo oxidativo e apenas uma pequena quantidade de piruvato é convertida em lactato. Por outro lado, a degrada- ção parcial de glicose para produção de energia em estado de baixa disponibilidade de oxigênio mitocondrial causa aumento desse intermediário. O ponto crítico nesse contexto é a taxa em que o NADH é formado e oxidado. O aumento de NADH é resultado de condições de hipóxia, exercícios físicos realizados em alta intensidade, síndrome de angústia respiratória aguda (SARA) e choque, devido à perda sanguínea. Quando o limite crítico de NADH é quebrado e essa molécula não é oxi- 2020 dada na mitocôndria, parte do piruvato é utilizada como aceptor de hidrogênio. No reduzido fluxo desse intermediário ao metabolismo oxidativo, o piruvato é então convertido em lactato em um processo que possibilita a reciclagem de NADH (forma reduzida) a NAD+ (forma oxidada). Essa reação é catalisada pela lactato desidrogenase (LDH) e o resultado desse processo possibilita a continuidade de formação de energia de forma anaeróbia. Essa condição, entretanto, favorece a acidose lática, que pode ser a causa de dores musculares durante o exercício físico, sobretudo de alta intensidade. Os passos metabólicos da decomposição de gli- cose e glicogênio até piruvato são semelhantes. O saldo final de energia proveniente da decompo- sição anaeróbia da glicose é de duas moléculas de ATP. A partir de glicogênio são três ATP, pois há intercâmbio de substratos da via glicolítica e do metabolismo da síntese e degradação de glicogênio. 2121 Figura 4: Formação de lactato pela glicólise. Fonte: Pelley (2009) Sistema aeróbio oxidativo Para o fornecimento de todo o potencial energético da molécula de glicose, além dos processos que ocorrem no citoplasma da célula, é necessária a ativação de vias metabólicas que ocorrem em mitocôndrias e que, consequentemente, requerem oxigênio. No metabolismo oxidativo, os produtos 2222 obtidos na glicólise são utilizados no ciclo de Krebs e na fosforilação oxidativa. O resultado disso é a produção de ATP, GTP, CO2, NADH, FADH2 e H2O. A produção de ATP pela oxidação de glicose em condições aeróbias é muito mais eficiente que pela produção anaeróbia. Nesse contexto, a conversão completa da glicose gera 36-38 ATP (somado com os ATP produzidos na glicólise). Ácidos graxos (lipídios) e em menor proporção aminoácidos (pro- teínas) também podem ser utilizados como fonte de energia gerada pelo metabolismo oxidativo. Estudaremos, a seguir, o papel do ciclo de Krebs e da fosforilação oxidativa na produção de energia. Ciclo de Krebs O ciclo de Krebs, ou ciclo do ácido cítrico, é formado por uma série de reações químicas que ocorrem na matriz mitocondrial. O piruvato, produto final da glicólise, é convertido em acetil-CoA. Esse proces- so ocorre pela ação da piruvato desidrogenase. A descarboxilação do piruvato produz CO2 e uma molécula de NADH. Após ser formado, o acetil-CoA se condensa com o oxaloacetato, mediante a ação da citrato sinta- se (CS). Ocorre, posteriormente, a formação de citrato que, dada a ação de uma série de reações enzimáticas, forma-se GTP (molécula análoga ao ATP), CO2, NADH, FADH2 e água. 2323 Ao fim do ciclo, temos como produto final a forma- ção de oxaloacetato que, em condições adequadas, irá mais uma vez se condensar ao acetil-CoA e dar continuidade ao ciclo. Após a formação de citrato pela conjugação de acetil-CoA com oxaloacetato, o citrato passa pelo processo de isomerização até chegar em isocitrato. Essa molécula sofre então descarboxilação oxida- tiva e produz CO2 e NADH. Como resultado dessa reação, observa-se a formação de α-cetoglutarato. Na sequência, α-cetoglutarato sofre descarboxilação oxidativa, resultando na produção de CO2, NADH e do intermediário succinil-CoA. Nessa etapa, ocorre a formação de uma molécula de GTP, já que o CoA é removido do succinil-CoA, gerando succinato livre. Esse succinato livre então é oxidado, dada a ação da succinato desidrogenase, resultando em fumarato, em uma reação que forma FADH2. O fumarato é então hidratado (adiciona-se moléculas de água) para gerar malato, que seguidamente se converte em oxaloacetato e libera mais um NADH (ação da malato desidrogenase). 2424 Figura 5: Esquema representativo do ciclo de Krebs. Fonte: Pelley (2009) Regulação do ciclo de Krebs O controle do ciclo de Krebs ocorre pela regulação de enzimas-chaves. Os principais pontos de controle ocorrem pela alteração da atividade de isocitrato desidrogenase, citrato sintase e α-cetoglutarato desidrogenase. A isocitrato desidrogenase é regu- lada pelo nível energético celular. É uma enzima alostérica que é positivamente regulada por ADP e negativamente controlada pela concentração de ATP e NADH. A atividade de citrato sintase é regu- 2525 lada pela concentração de seu produto e substrato. O aumento da concentração intramitocondrial de citrato causa diminuição da atividade dessa enzima. Por outro lado, o aumento do último intermediário do ciclo de Krebs, o oxaloacetato, causa aumento na sua função. De maneira similar, os produtos de α-cetoglutarato desidrogenase regulam sua ativi- dade, sendo negativamente regulado por NADH e succinil-CoA. Fosforilação oxidativa O maior potencial de formação de ATP pelas células ocorre através da fosforilação oxidativa, também chamada de cadeia respiratória. Essa etapa de geração de energia ocorre na membrana mitocondrial interna e produz muito mais ATP que outras vias bioenergéticas já descritas. Figura 6: Representação de uma mitocôndria e sua or- ganização estrutural. Observe a presença da membrana 2626 mitocondrial externa, membrana mitocondrial interna e da matriz. Fonte: https://registrodemarca.arenamarcas.com.br/ educacao/qual-e-a-funcao-da-mitocondria Os complexos enzimáticos presentes na cadeia transportadora de elétrons e necessários para a fosforilação oxidativa estão presentes na membrana interna mitocondrial. Esse complexo está expos- to a moléculas da matriz mitocondrial, como os produtos gerados no ciclo de Krebs. Finalmente a energia produzida pela degradação dos nutrientes, transferidas para moléculas intermediárias (coen- zimas NAD+ e FAD+), poderão ser convertidas em energia aproveitável pela célula (ATP). Isso é possível em virtude das reações redox que ocorrem pela condução de elétrons nos complexos proteicos da membrana interna mitocondrial. Esse https://registrodemarca.arenamarcas.com.br/educacao/qual-e-a-funcao-da-mitocondriahttps://registrodemarca.arenamarcas.com.br/educacao/qual-e-a-funcao-da-mitocondria 2727 encadeamento de reações proporciona um fluxo de íons H+ da matriz mitocondrial para o espaço intermembranar, que possibilita a formação de um gradiente de prótons essencial para produção de ATP. A fosforilação oxidativa conta com a cadeia de transporte de elétrons, que é formada por quatro grandes complexos. A saber: y Complexo I (NADH-Q redutase ou NADH desidrogenase); y Complexo II (Succinato-Q redutase); y Complexo III (Citocromo c redutase); y Complexo IV (Citocromo oxidase). A sequência de eventos que se manifestam pelos complexos proteicos mitocondriais se realiza da seguinte forma: Os elétrons provenientes de NADH são transferidos para o complexo I. O aceptor de elétrons é a coen- zima Q. Na medida em que os elétrons transitam por esse complexo, íons H+ são bombeados para o espaço intermembranar. As reações nessa etapa possibilitam que NADH se reconverta em NAD+. Os elétrons provenientes de FADH2 são transfe- ridos para o complexo II. Aqui também o aceptor de elétrons é a coenzima Q. Nessa etapa, não ocorre bombeamento de prótons para o espaço 2828 intermembranar. A entrega de elétrons por FADH2 nessa etapa gera FAD+. Nesse processo, a coen- zima Q (Ubiquinona) tem a função de transportar os elétrons recebidos no complexo I e II para o complexo III. Por ser uma estrutura lipossolúvel, isso se dá pelo processo de difusão da membra- na mitocondrial interna. Na medida em que os elétrons transpõem o complexo III, mais prótons são bombeados para o espaço intermembranar. Nesse complexo, parte dos elétrons da coenzima Q são doados à outra molécula, o citocromo c. Essa proteína hidrossolúvel então conduz os elétrons até o complexo IV. Isso, mais uma vez, gera fluxo de prótons para o espaço intermembranar. Nesse complexo, o citocromo c transfere elétrons para o oxigênio (O2) e água metabólica é formada pela redução de O2. Podemos concluir que a cadeia de transporte de elétrons possui duas importantes funções: y Reestabelecer as concentrações e NAD+ e FAD+; y Gerar um gradiente de prótons na membrana mitocondrial interna (causando maior concentra- ção de íons H+ no espaço intermitocondrial em relação à matriz mitocondrial). Como veremos mais adiante, para as células, o gradiente de pró- tons nesse espaço intermitocondrial terá o efeito análogo ao que é a água represada acima do nível 2929 de uma hidrelétrica, gerando assim um potencial energético. Bombeamento de prótons e síntese de ATP O acúmulo de íons H+ no espaço intermitocondrial ocorre porque os prótons são incapazes de se di- fundir livremente pela bicamada fosfolipídica da membrana mitocondrial. Logo, somente mediante o auxílio de proteínas específicas esses íons po- deriam retornar à matriz mitocondrial. O complexo ATP sintase funciona justamente como o complexo proteico, que possibilita o retorno dessas molé- culas para a matriz. É encontrada na membrana mitocondrial interna e forma túneis hidrofílicos que funcionam como a turbina de uma hidrelétrica. Na passagem de prótons por essa estrutura, a energia livre é formada e utilizada para gerar ATP. Podemos sumarizar a sequência de etapas da ca- deia transportadora de elétrons e da fosforilação oxidativa em: y Complexo I: Recebe elétrons do NADH. y Complexo II: Recebe elétrons de FADH2. y Os elétrons de NADH e FADH2 são transmitidos para a coenzima Q e direcionadas ao complexo III. y Complexo III: Os elétrons são transferidos para o citocromo c e direcionadas ao Complexo IV. 3030 y Complexo IV: O O2 funciona como aceptor de elétrons e produz água metabólica. y A transferência de elétrons entre os complexos proteicos possibilita o influxo de íons H+ para o espaço intermitocondrial, criando um gradiente de prótons nesse ambiente. y Complexo ATP sintase: ATP é formado pela energia livre criada pelo retorno de prótons para a matriz mitocondrial. Figura 7: Figura representativa da síntese de ATP na fosfo- rilação oxidativa, com a indicação da cadeia transportado- ra de elétrons. Fonte: https://www.stoodi.com.br/resumos/biologia/ fermentacao-e-respiracao-celular https://www.stoodi.com.br/resumos/biologia/fermentacao-e-respiracao-celular https://www.stoodi.com.br/resumos/biologia/fermentacao-e-respiracao-celular 31 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste módulo, pudemos aprender que a alimen- tação vai muito além de saciar a fome, uma vez que os macronutrientes encontrados na dieta são importantes substratos energéticos que permitem a realização do chamado trabalho biológico, que consiste na manutenção e no funcionamento adequado dos principais sistemas presentes no corpo humano. Naturalmente, para essa dinâmica acontecer é necessário que haja energia, assim como em uma máquina. Percebemos que essa energia, vinda dos macronutrientes é observada na forma de uma molécula denominada adenosina trifosfato (ATP). Para esse evento acontecer são possíveis dife- rentes caminhos metabólicos, a depender das circunstâncias. Na ausência do oxigênio, o ATP pode ser gerado por meio do sistema anaeróbio alático (ou sistema ATP-CP) ou do sistema anaeró- bio lático (ou glicólise). Já mediante ao aporte de O2, a energia pode ser gerada através do sistema aeróbio oxidativo, por meio do ciclo de Krebs ou da fosforilação oxidativa. Referências Bibliográficas & Consultadas BIESEK, S.; ALVES, L. A.; GUERRA, I. Estratégias de nutrição e suplementação no esporte. 3. ed. São Paulo: Manole, 2015. [Minha Biblioteca] HALL, J. E.; GUYTON, A. C. Tratado de fisiologia médica. Elsevier Brasil, 2017. KENNEY, W. L.; WILMORE, J. H.; COSTILL, D. L. Fisiologia do esporte e do exercício. 5. ed. São Paulo: Manole, 2013. [Minha Biblioteca] MCARDLE, W. D.; KATCH, F. I.; KATCH, V. L. Fisiologia do exercício: nutrição, energia e desempenho humano. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016. [Minha Biblioteca] MUSEU DE CIÊNCIAS DA VIDA. Universidade Federal do Espírito Santo. Fisiologia: história da fisiologia. História da Fisiologia. Disponível em: https://mcv.ufes.br/fisiologia. Acesso em: 05 fev. 2021. NEGRÃO, C. E.; BARRETTO, A. C. P.; RONDON, M. U. P. B. Cardiologia do exercício: do atleta ao cardiopata. 4. ed. São Paulo: Manole, 2019. [Minha Biblioteca] PELLEY, J. W. Bioquímica. 1. ed. Rio de Janeiro: Campus - Elsevier, 2009. POWERS, S. K.; HOWLEY, E. T. Fisiologia do exercício: teoria e aplicação ao condicionamento e ao desempenho. 9. ed. São Paulo: Manole, 2017. [Minha Biblioteca] PULZ, S.; GUZILLINI. S. Fisioterapia em cardiologia: aspectos práticos. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2014. [Biblioteca Virtual] RIEBE, D. Diretrizes do ACSM para os testes de esforço e sua prescrição. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. [Minha Biblioteca] SILVERTHORN, D. U. Fisiologia humana: uma abordagem integrada. 7. ed. Porto Alegre: ArtMed, 2017. [Minha Biblioteca] Introdução Princípios e fundamentos da bioenergética Substratos para o exercício: os macronutrientes Sistemas de transferência de energia Considerações finais Referências Bibliográficas & Consultadas