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Estratégia de Gestão de Processos Qualidadee da Marcelo Guelbert 2009 IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Todos os direitos reservados. © 2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G96e Guelbert, Marcelo Estratégia de gestão de processos e da qualidade / Marcelo Guelbert. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2009. 148 p. Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-0652-6 1. Gestão da qualidade total. 2. Estratégia. 3. Cultura organizacional. I. Título. 09-1775 CDD: 658.562 CDU: 658.562 Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: Jupiter Images / DPI Images Marcelo Guelbert Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. Mestre em Engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Graduado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Técnico em Mecânica pelo Centro Fede- ral de Educação Tecnológica do Paraná. Atua há 18 anos em indústria de médio e grande porte. É pesquisador e professor universitário desde 2002 nas áreas de gestão, qualidade e produção. su m ár io su m ár io su m ár io Gestão pela qualidade 11 11 | A importância da qualidade 17 | Gestão de falhas 18 | Programas de qualidade e a competitividade 20 | O controle de qualidade e a produção 22 | Kaizen 23 | Produção enxuta 24 | Custos da qualidade e da não qualidade Estratégia corporativa 33 36 | O Planejamento Estratégico (PE) 47 | Balanced Scorecard (BSC) Cultura, 5Ss, T&D e padronização 61 61 | Cultura organizacional 63 | 5Ss 67 | Treinamento e Desenvolvimento (T&D) 74 | Padronização Implementação das diretrizes estratégicas 83 83 | Passos 86 | Ferramentas da qualidade Gerenciamento de diretrizes estratégicas 111 112 | Meta, indicadores e diretrizes 118 | Desdobramento de diretrizes Gabarito 135 Referências 139 Anotações 147 E stratégia de G estão de P rocessos e da Q ualidade Apresentação As décadas que sucederam a Segunda Guerra Mundial marcaram profundas mudanças e alterações de paradigmas nos sistemas produ- tivos. As organizações que insistem em manter antigos modelos não conseguem acompanhar as novas necessidades da sociedade (BONA- CIN, 2004). As empresas vêm experimentando a utilização de sistemas envolvendo a gestão da produção e serviços baseados no Benchmarking com organizações que têm obtido resultados positivos. À medida que novas formas de gestão são implementadas nas empresas, estas vão deline- ando um processo produtivo que acreditam ser mais adequado quando analisadas através de indicadores. Além do requisito qualidade, exigida pelo cliente, o aumento da concorrência e a evolução tecnológica pressionam as empresas para que reavaliem seus processos destinados à manufa- tura em busca de produtividade e competitivi- dade, que resultam na execução de uma estra- tégia. Apesar dos objetivos serem semelhantes a todas as organizações, os meios de alcançá-los não são únicos, pelo contrário, muitas são as perspectivas e ideias que surgem nas orga- nizações para adequar a produção aos novos tempos. O assunto a ser explorado neste livro é a es- tratégia de gestão de processos e da qualidade, que pode ser definido como um conjunto de elementos (humanos, financeiros, físicos e pro- cedimentos gerenciais) inter-relacionados que são projetados para gerar produtos finais, cujo valor comercial supere o total dos custos envol- vidos para obtê-lo e, para isso, é necessário uma série de conhecimentos e desdobramentos de atividades para o ganho de vantagens compe- titivas frente aos concorrentes. A estratégia de gestão de processos e da qualidade também pode ser entendida como um sistema, ou seja, uma série de funções ou ati- vidades (componentes) em um organismo, que trabalham em conjunto em prol de um mesmo objetivo. Gerir um sistema exige o conhecimen- to das inter-relações entre os diversos compo- nentes e das pessoas que trabalham nele, assim, pode-se agregar a palavra sistema ao meca- nismo lógico proposto no decorrer deste livro. Dessa forma, define-se sistema como um con- junto de partes inter-relacionadas que, quando ligadas, atuam de acordo com os padrões esta- belecidos sobre as entradas de informações no sentido de produzir as saídas, conforme o que foi planejado. O livro é dividido em cinco capítulos, sendo que o primeiro capítulo é dedicado à gestão da qualidade. A seguir são apresentadas as es- tratégias corporativas que, em conjunto com a cultura, 5Ss, treinamento e desenvolvimento e padronização do terceiro capítulo, servirão de base para o desenvolvimento das diretrizes es- tratégicas propostas. O quinto e último capítulo trata da consolidação do sistema apresentado exemplificando o gerenciamento de diretrizes estratégicas. E stratégia de G estão de P rocessos e da Q ualidade Gestão pela qualidade A gestão pela qualidade é a maneira pela qual a empresa busca a satisfa- ção de seus clientes e funcionários, organiza seus órgãos e realiza suas ope- rações, adotando uma interdependência lógica entre as etapas do processo. Para produzir com eficiência e eficácia, torna-se necessário escolher e definir um sistema de qualidade que seja mais adequado ao produto/serviço que se pretende produzir. Um sistema de qualidade pode ser diferente para diver- sas organizações, isso significa buscar os meios mais adequados para produ- zir determinado produto ou operar determinado serviço. É o que se chama de racionalidade: buscar os meios apropriados para alcançar determinados objetivos definidos. Toda empresa possui sua própria racionalidade, isto é, a escolha dos meios necessários para alcançar os fins desejados. A racionalida- de envolve equipamentos, métodos e processos de trabalho que sejam os melhores para produzir algo (DEMING, 1990). Uma vez que os processos necessários para a adoção de estratégias e metodologia de implantação de mecanismos destinados a potenciali- zar a qualidade e suas sequências e interações tenham sido identificados, recomenda-se determinar as responsabilidades referentes à gestão e ao de- sempenho desses processos. Existem várias abordagens disponíveis para o estudo da gestão pela qualidade e algumas delas possuem alguns elemen- tos básicos em comum. Essa seção tem por objetivo mostrar as principais ferramentas e elementos necessários à implementação da qualidade. A importância da qualidade Embora a Administração da Qualidade Total (Total Quality Management – TQM) tenha sua origem nos anos 1940 e 1950, a expressão foi inicialmente usada por Feigenbaun, em 1957. Entretanto, abordagens foram introduzidas por vários estudiosos da qualidade como Deming, Juran, Ishikawa, Taguchi e Crosby (SLACK et al., 2002). A constatação de que a qualidade é importante surge de maneira inten- sificada nos anos 1970, com o renascimento da indústria japonesa. Em 1980, os fabricantes de veículos japoneses, antes vistos com pouca atenção pelos fabricantes norte-americanos, foram tornando-se competitivos no mercado, 12 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade criando dificuldades para os demais fabricantes de veículos mundiais. Um bom projeto e nível de qualidade, aliados a preços competitivos, fizeram com que os japoneses conquistassem o mercado em diversos países (MARTINS; LAUGENI, 2003). Na maioria dos países ocidentais, até a década de 1980, as empresas de forma geral objetivavam o máximo de rentabilidade para seus investimentos.Com a chegada de produtos fabricados pela indústria orien- tal, o consumidor ocidental começou a exigir melhor qualidade em produtos e serviços. Um bom exemplo desta época foi o surgimento, no ocidente, de relógios digitais de pulso fabricados no Japão. O significado do termo qualidade possui várias interpretações, sendo im- portante sua compreensão e definição, pois uma definição equivocada pode gerar problemas para a empresa. Por exemplo, se a qualidade for considera- da como algo abstrato, sem forma, não existirão técnicas que levem a ela, ou, se qualidade for considerada como a perfeição ou algo exato, nutre-se a sensação de que nunca será alcançada. As consequências dessas definições refletem na gestão da qualidade (PALADINI, 2004). Não se pode planejar a qualidade se não há concordância com o seu sig- nificado. O quadro a seguir exemplifica algumas definições em relação a ex- celência, valor, especificações, padronização e adequação ao uso. (M AX IM IA N O , 2 00 4, p . 1 77 . A da pt ad o. ) Excelência Qualidade significa o melhor que se pode fazer; o padrão mais elevado de desempenho. Valor Qualidade significa mais atributos no produto/serviço, ou seja, usar materiais ou serviços raros que custam mais caro. Especificações Qualidade significa funcionamento do produto/serviço de acordo com as especificações. Regularidade/padronização Qualidade significa baixa variabilidade entre os produtos/serviços produzidos. Adequação ao uso Qualidade significa atingimento das expectativas do cliente e ausência de deficiências. Quadro 1 – Definições de qualidade A história da evolução da qualidade passa por três momentos distintos iniciando na era da inspeção, seguido da era do controle estatístico e che- Gestão pela qualidade 13 gando recentemente (há menos de 100 anos) na era da qualidade total, como mostra a o quadro a seguir. Quadro 2 – As três eras da história da qualidade Era da inspeção Produtos e serviços � verificados um a um. Cliente participa da � inspeção. Inspeção encontra � defeito, mas não produz qualidade. Era do controle estatístico Produtos e serviços � verificados com base em amostras. Departamento � especializado faz controle da qualidade. Ênfase na � localização de defeitos. Era da qualidade total Produtos e serviços � verificados com base nos interesses do consumidor. Toda a empresa é � responsável pela qualidade. Ênfase na � prevenção de defeitos. (M AX IM IA N O , 2 00 4, p . 1 84 . A da pt ad o. ) Na era da qualidade total há ênfase na prevenção de defeitos e no siste- ma da qualidade. Neste enfoque a qualidade não diz respeito somente ao produto ou serviço, é de responsabilidade de todos os funcionários e não apenas de um departamento. A qualidade nesse sentido é uma questão sistêmica. Desenvolvendo e aplicando a qualidade do sistema se garante a qualidade total. A gestão pela Qualidade Total em manufatura se confunde com a própria história de William Edwards Deming, embora outros teóricos tenham con- tribuído para que a qualidade fosse aplicada com sucesso às organizações. Deming (1990) comenta de uma reação em cadeia – quando há melhoria na qualidade, os custos diminuem devido à redução do retrabalho, menos erros, diminuição de atrasos e obstáculos, melhor uso de tempo, máquinas e insumos. Em consequência, melhora a produtividade, o que traz a captação de mercados com melhor qualidade e preços menores. Assim, mantêm-se os negócios e amplia-se o mercado de trabalho. 14 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade O mesmo autor prossegue o assunto afirmando que baixa qualidade im- plica em custo elevado e descreve o que aconteceu numa fábrica que estava apresentando grande quantidade de produtos defeituosos. Perguntei ao gerente: Quantas pessoas estão engajadas nesta linha para refazerem as falhas cometidas em operações precedentes? O gerente foi ao quadro-negro e foi anotando 3 pessoas aqui, 4 em outro setor, e assim por diante; no total, 21% da mão de obra da linha. Os defeitos não saem de graça. Alguém os produz, e é pago para fazê-los. Supondo-se que custe o mesmo tanto para corrigir um defeito quanto custa para fazê-lo, conclui-se que 42% da folha de pagamento e encargos estavam sendo gastos para produzir e reparar produtos defeituosos. (DEMING, 1990, p. 6) Em 1924 o americano Walter A. Shewhart desenvolveu o conceito esta- tístico das cartas de controle, isso foi considerado como o início formal do controle estatístico de qualidade. As cartas de controle são gráficos ou es- quemas estatísticos usados principalmente para o estudo do controle de processos repetitivos. Shewhart desenvolveu também uma concepção sistêmica, ou ciclo de desenvolvimento no sentido de fluxo interdependente de ações que geram um contínuo melhoramento, o chamado Ciclo de Deming para a qualidade. O ciclo foi divulgado por Deming, por isso leva seu nome. É composto de quatro quadrantes e tem por objetivo tornar mais claros e ágeis os processos que envolvem a execução da gestão da qualidade: Planejar � (plan) – em posse de conhecimentos da estratégia corpora- tiva, desenvolve a definição de metas e os métodos que permitirão atingir essas metas propostas. Executar � (do) – executar o processo conforme o planejado; coletar da- dos e promover educação e treinamento. Verificar � (check) – monitorar e avaliar o processo em relação ao espe- cificado, consolidando informações. Agir � (action) – corrigir o que foi verificado e, de acordo com os relató- rios, o qual, ligado ao primeiro quadrante de planejar, inicia novamen- te o ciclo, tornando-se um sistema de melhoria contínua. Este ciclo tornou-se conhecido como PDCA das iniciais das palavras em inglês de cada quadrante do Ciclo de Deming conforme mostra a Figura 1. Sua aplicação é muito importante, porque leva à raiz de um sistema de qualidade. Gestão pela qualidade 15 (C A M PU S, 1 99 0, p . 3 0) A (ac tio n) P(plan) C(check) D (do ) Atuar corretivamente. Verificar os resultados da tarefa executada. Definir os métodos que permitirão atingir as metas propostas. Executar a tarefa (coletar dados). Definir as metas. Educar e treinar. Figura 1 – Ciclo PDCA. O caminho das melhorias, sugerido pelo PDCA, ocorre quando essa roda gira no sentido horário, significando a melhoria contínua dos processos ou serviços. A Figura 2 mostra o melhoramento contínuo através da resolução de problemas no decorrer do tempo a cada ciclo. (C A M PU S, 1 99 9, p . 3 4. A da pt ad o. ) Tempo Análise do processo e novo padrão proposto (melhorias) M el ho ria Me lho ria co ntí nu a A A A A C C C C P P P P D D D D Figura 2 – Conceito de melhoramento contínuo. 16 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Deming introduziu uma nova abordagem da administração, com base na qualidade, a qual definiu como sendo o Saber Profundo, que é composto de quatro elementos: visão geral de um sistema; � Teoria da Variabilidade; � Teoria do Conhecimento; � psicologia. � A visão sistêmica contemplava a interdependência entre os componen- tes dos agentes em prol do objetivo maior do sistema, no caso, a organiza- ção. Deming foi o grande defensor da abordagem estatística de aplicação na qualidade, baseada em estudos de estatística. Sua teoria separava as chama- das causas especiais de ocorrência eventual, das causas comuns ou naturais do processo. Seu foco principal estava na redução das variações do processo para se atingir a qualidade (DEMING, 1990). O gerenciamento da qualidade no Japão, depoisde iniciado pelo Contro- le Estatístico de Processos como no estilo americano, passou para o controle da qualidade no estilo japonês, culminando com o controle da qualidade aplicado a todos os processos e sistemas e praticado por todas as pessoas da empresa. Esse processo ficou conhecido como Controle da Qualidade Total, e envolve três ações gerenciais: planejar, manter e melhorar a qualidade. Essas três ações, quando aplicadas, devem ser operacionalizadas em conjun- to para atingir a eficácia integral dos processos (CHENG, 1995). Essas ações aplicadas à lógica do PDCA é apresentada na figura a seguir. Plan Do Action(mantém) Action (remoção sintoma) Acompanha Ideias Melhorias Action (bloqueia causa) Check Manutenção Causa Resultado Sim Não (C A M PO S, 1 99 9, p . 3 6. A da pt ad o. ) Figura 3 – Manutenção e melhoria da qualidade. Gestão pela qualidade 17 O ciclo de manutenção e melhoria pode ser assim explicado (CAMPUS, 1999): Plan � – definir os itens de controle a serem acompanhados e a defini- ção de procedimentos-padrão necessários à manutenção do processo. Essa fase é o ponto fraco das empresas brasileiras, pois muitas delas não possuem as faixas de valores de controle e procedimentos-padrão para controle de processos; Do � – desenvolver o treinamento baseado nos procedimentos-padrão, assim como a coleta de dados do processo e a execução das tarefas. Quando há a falta dos procedimentos-padrão não há como desenvol- ver o treinamento de forma adequada; Check � – os itens de controle coletados no processo anterior devem ser verificados nesta fase. Caso o item checado não esteja de acordo com os procedimentos, deve-se bloquear ou simplesmente remover a causa; Action � – caso o item checado esteja de acordo com os procedimentos, estes devem ser mantidos em um primeiro momento, caracterizan- do o Ciclo de Manutenção. Mas isso não basta, o processo deve ser condicionado à melhoria contínua, pois deve-se acrescentar ideias ao processo. Caso ocorra alguma anomalia, a chefia deve ser avisada ime- diatamente para as ações corretivas necessárias, a não ser que as ações corretivas cabíveis já estejam padronizadas. Toda anomalia ocorrida deve sempre ser registrada para futura análise. Gestão de falhas A gestão de falhas de uma empresa está ligada diretamente ao incre- mento da produtividade, permitindo a adequada alocação dos recursos em busca de maior qualidade. Produtividade pode ser definida como a utilização racional e eficiente dos fatores de produção, tendo como objetivo básico alcançar o máximo em termos de quantidade e ausência de defeitos com a utilização do menor espaço de tempo e com os menores custos. Genericamente, a forma de medir a produtividade é obtida pela divisão da produção física por um dos fatores empregados: trabalho, capital, matérias-primas, tecnologia. Assim, pode-se desenvolver definições complementares do termo produtividade (CARON, 2003): 18 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade produtividade do trabalho – é a quantidade de produção obtida num � determinado tempo gasto (hora, dia, mês, ano); produtividade do capital – é a quantidade de unidades de produção � gerada por uma determinada quantidade de capital utilizado; produtividade da matéria prima – é a quantidade de produto final obti- � da por uma determinada quantidade de matéria-prima consumida; produtividade marginal – são alterações na quantidade de mão de obra � ou de capital ou de matérias-primas, mas que modificam significativa- mente a quantidade e os custos das unidades de bens produzidos. Mui- tas vezes, pequenas alterações em um e/ou vários fatores de produção simultâneos modificam significativamente a produção obtida. Programas de qualidade e a competitividade Na década de 1980, “a qualidade foi uma dimensão competitiva” (KAPLAN; NORTON 1997, p. 92). No entanto, a “qualidade deixou de ser uma vantagem estratégica em meados da década de 1990 para se tornar uma necessidade competitiva”. Diversas empresas que foram incapazes de oferecer de forma confiável, produtos ou serviços sem defeitos deixaram de ser concorrentes sérias, perderam espaço no mercado. É certo que, uma qualidade excelente é o diferencial de uma empresa entre a concorrência (KAPLAN; NORTON, 2004). Conforme Crosby (1992, p. 121), o “processo de instalar a melhoria da qua- lidade é uma viagem sem fim”. Nessa visão, define-se qualidade como con- formidade com os requisitos, medida pelo custo da não qualidade. Existindo ou não existindo conformidade, o autor desenvolveu o termo zero defeito, que representa a meta das organizações em não ter nenhum defeito, pre- coniza que todos os trabalhadores podem desenvolver o trabalho correta- mente desde a primeira vez, e complementa citando que o desenvolvimento da qualidade é não só tecnicamente possível como também desejável eco- nomicamente pelas empresas. No seu programa, a alta administração é a geradora da política da qualidade, implantada com o auxílio das equipes de divulgação e melhoria, coordenadas por gestores. Torna-se imprescindível a contínua e eficiente comunicação entre o pessoal da empresa e os pro- gramas de treinamentos, seguindo as necessidades detectadas em todos os níveis da empresa. Gestão pela qualidade 19 Cheng (1995) expõe que o propósito da implantação de programas de qualidade é suprir as necessidades dos seres humanos. Como consequên- cia direta, ela visa gerar satisfação às pessoas envolvidas, no caso, clientes, funcionários, acionistas, vizinhos e sociedade como um todo. A satisfação somente será atingida se as organizações sobreviverem, gerarem lucros para uma remuneração adequada de funcionários e acionistas, beneficiar social- mente os vizinhos e a comunidade, e ainda dar ao cliente a garantia de com- prar um produto ou serviço com confiança e ter a satisfação de usufrui-lo por um longo período de tempo. Gatenby (2005) reforça e dá atualidade a Cheng, comentando sobre a importância de servir as necessidades sociais dos empregados e a relação de equipes de trabalho com o foco no alinha- mento estratégico da qualidade. O mundo está na era da qualidade. Se o Brasil quiser ser competitivo, terá que também buscar esse caminho. Um sistema de Qualidade Total não é so- mente um modo de aumentar a qualidade de seus produtos. Além disso, serve para aumentar a produção, reduzir seus custos e melhorar o relaciona- mento com os empregados. Paladini (2004, p. 22) comenta sobre o controle de qualidade, a melhoria contínua e a avaliação da qualidade. Considerando o conceito atual de controle de qualidade e o de melhoria contínua, podem-se obter novas justificativas e novos referenciais para a avaliação da qualidade. De fato, a ideia que se tem hoje do controle da qualidade – em última análise, comparação de resultados obtidos com padrões ou objetivos pré-fixados exige ao mesmo tempo: 1) planejamento (pelo qual são determinados padrões e objetivos a atingir); 2) um modelo de avaliação baseado em valores quantitativos (única forma de confrontar o que foi planejado com o que o que foi produzido para verificar, por exemplo, o alcance dos objetivos propostos). Já a melhoria contínua enfatiza o monitoramento (processo de acompanhamento permanente) como mecanismos para avaliar até que ponto estão movendo-se, etapa por etapa, em direção a um objetivo. Uma das características da gestão pela qualidade, segundo Gunasekaram e Goyal (1998), é que ela integra técnicas e procedimentos de gestão, es- forços de melhoria e ferramentas sob um foco na melhoria contínua, sendo responsabilidade de cada pessoa da organização. A gestão da qualidade abrange toda a empresa e aspira pela melhoria contínua em todas as funções da organização, produtivas ou não, e que só pode ser realizadase o conceito de qualidade é utilizado desde a aquisição de recursos para o serviço ao cliente até a venda. Yung (1997) define a gestão da qualidade como um método no qual todas as pessoas estão envolvidas na melhoria. Stachelski (2001) complementa dizendo que a gestão da qua- 20 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade lidade é um modelo estratégico de gestão adotado pelas organizações no sentido de tornarem-se mais flexíveis e promoverem alterações no desenho organizacional, tanto em seus componentes técnicos como nos aspectos comportamentais e culturais. O controle de qualidade e a produção O controle de qualidade dos produtos na produção primitiva fazia parte da própria tarefa de produzir. O artesão escolhia, de acordo com a sua habi- lidade e preferência, suas ferramentas de trabalho, o método de fabricação e como controlá-lo. A qualidade do produto resultava da perícia do artesão, que aplicava engenho e arte à sua manufatura. Durante a fase inicial da produção em massa, e por muito tempo, o contro- le da qualidade foi realizado sob a forma tradicional, denominada inspeção, conforme visto anteriormente, que consiste em alocar pessoas capacitadas para diferenciar um produto ruim de um bom, inspecionando suas caracte- rísticas de acordo com um padrão. No auge da produção em massa no pós-Primeira Guerra, as empresas levaram ao limite o conceito tayloriano de divisão da tarefa e separação dos funcionários em pensantes e executantes, colocando inspetores para verificar o trabalho dos operadores. Essa clara divisão entre funcionários trazia em si o pressuposto de que os operários de produção, por serem pessoas sem instrução, simples executores de operações repetitivas, não eram capazes de fazer de forma adequada o seu trabalho. Por este motivo, achava-se necessário colocar outros, com melhores condições, para verificar a qualidade do produto. Assim, a administração achava normal e perfeitamente aceitável que o executor do processo não o controlasse e, ao colocar outro funcionário para verificar a qualidade do trabalho, concluíam que estavam resolvendo o pro- blema da qualidade da empresa. Caso ainda não fosse suficiente, colocavam mais inspetores checando o trabalho dos próprios inspetores. Na produção industrial em massa, fabrica-se em série, ou seja, vários com- ponentes iguais, com emprego de complicadas máquinas. O processo pro- dutivo decompõe-se em operações elementares, algumas ou apenas uma delas cabendo a cada operário, que realiza assim uma parte do produto, peça Gestão pela qualidade 21 ou componente, quase nunca um artigo completo. Várias peças, produzidas muitas vezes em fábricas e localidades diferentes, são reunidas na linha de montagem de outra fábrica. Para que a montagem aconteça sem transtor- nos, as peças de um dado tipo devem ser intercambiáveis. Isso significa que as características de precisão das peças devem estar dentro de uma faixa de variação que permita montá-las com as demais do conjunto projetado. A produção em larga escala e a utilização de peças intercambiáveis foi introduzida há menos de dois séculos. Nessa época, a ideia generalizada era a da possibilidade de se produzir peças de características invariáveis ou di- mensões exatas. Com a normalização das tolerâncias, começou a generalizar-se a ideia de elaboração de especificações de fabricação. Nascia então a noção de que, além da especificação de fabricação, seria necessário criar a especificação de aceitação. Isso levou os técnicos a esbo- çarem gráficos de controle de fabricação, considerando que, mesmo em um processo de produção aparentemente sob controle, inevitáveis variações ocorrem. A partir das técnicas industriais japonesas, a qualidade experimentou no- tável desenvolvimento técnico, com a aplicação de técnicas estatísticas no controle do processo, com a participação dos funcionários na melhoria do processo. O surgimento do controle estatístico de qualidade tornou-se possível em virtude do desenvolvimento, que então havia sido iniciado na teoria exata da amostragem, acompanhado do desenvolvimento das técnicas estatísti- cas em variados domínios científicos. O controle estatístico da qualidade passou a ser mais popularizado e sua aplicação foi aceita em praticamente todas as empresas, principalmente na- quelas que buscavam um diferencial de qualidade em seus produtos. A lenta adoção das técnicas de controle estatístico pelas empresas não ja- ponesas, podia ser atribuída em parte à convicção dos engenheiros de produ- ção de que a sua principal tarefa era aperfeiçoar os processos técnicos, de tal modo que sérias variações de qualidade não persistissem, e que, de qual- quer modo, as leis do acaso não tinham lugar adequado em meio a métodos científicos de produção. 22 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Adicionalmente a esta convicção, o cenário econômico do pós-guerra mostrava um mundo diferente, com os países industrializados destruídos – Alemanha, Itália, Inglaterra e o próprio Japão –, a concorrência praticamente inexistia e a demanda de produtos para uso mundial e para reconstrução dos países destruídos era muito maior que a oferta. Este desequilíbrio entre a oferta e a demanda fazia com que o único supri- dor capaz – as indústrias americanas – possuíssem total controle da oferta. O resultado era uma forte ênfase das empresas nos altos volumes de produção, para suprir de qualquer forma um mercado sedento por produtos. Por esse motivo, não havia muito interesse em desenvolver novos méto- dos de melhoria da qualidade nos Estados Unidos dos anos 1950 e 1960. A ênfase era notadamente na produção, na relação cliente-produtor, em que o produtor era francamente favorecido. Logo, a reação dos países reconstru- ídos do pós-guerra se fez notar, principalmente o Japão, que desenvolveu as técnicas de qualidade e produtividade de forma tão eficiente, que esta passou a ser considerada como uma nova revolução industrial. A filosofia da Qualidade Total com a participação dos trabalhadores, as técnicas estatísticas aplicadas aos processos, levando a uma nova maneira de administrar as empresas, inicialmente industriais, e posteriormente de serviços, traziam resultados surpreendentes. A ênfase no cliente mudou o paradigma anterior e este passou a ser a parte mais importante da relação com o produtor. O resultado foi uma oferta de produtos japoneses de alta qualidade com preços reduzidos, conquistando o mercado e desbancando empresas americanas tradicionais. A partir das técnicas industriais japonesas, o controle estatístico da quali- dade e da qualidade total passou a ser mais popularizado e sua aplicação se generalizou nas empresas em geral, principalmente nas que desejavam um diferencial de qualidade em seus produtos. Kaizen Kaizen é uma palavra japonesa para melhoria contínua. São rápidos e intensivos esforços de melhoria que usam equipes de trabalho, e tem foco em problemas específicos. Esse conceito é ensinado geralmente em eventos kaizen, que tem por objetivo, além de mostrar a forma de desenvolvimento da estratégia na organização, gerar impulso e energia para formar envolvi- Gestão pela qualidade 23 mento dos funcionários para o desenvolvimento de sugestões que com- batam desperdícios. Esse conceito falhou inicialmente nos EUA, mas teve sucesso no Japão, onde provou ser próspero para os fabricantes de carros como Honda, Nissan e Toyota. Posteriormente, o kaizen se tornou uma histó- ria de sucesso global com uso difundido no Japão e EUA, além disso, China e Europa Oriental o estão adotando para ficarem mais competitivos (IMAI, 2005). As empresas devem deixar de modismos e de propaganda enganosa perante clientes, ou mesmo os próprios funcionários, para que a melhoria contínua seja algo que cause motivação para os empregados ereverta em satisfação dos clientes e rentabilidade para a empresa. É fácil dizer que uma organização possui a melhoria contínua, mas o fato principal para a crença da transformação deve ser a construção de uma cultura de aprendizado, onde a melhoria contínua é praticada todos os dias durante décadas. Este fator cultural é baseado nas experiências pessoais de cada indivíduo da or- ganização e a obtenção de sucesso nas pequenas atividades relacionadas à melhoria contínua. Para Ortiz (2006), um candidato ideal para implantar o kaizen em uma or- ganização deve ter conhecimentos sólidos em conceitos e atitudes dentro e fora da organização, como a comunicação visual, a standarização de ativida- des e o 5Ss, e criar assim um ambiente cultural propício à melhoria contínua. A cultura organizacional é a chave para a melhoria contínua. Desenvolver um programa de kaizen é uma decisão importante, que requer muitos esforços para uma empresa, sendo o melhor modo para co- meçar um programa de melhoria contínua com resultados duradouros, para isso, é necessário treinar todas as pessoas da empresa nas políticas, padrões, e forma de implementação do kaizen. Se houver qualquer sinal de dúvida dos gestores ou funcionários as chances para sucesso são baixas. Produção enxuta A produção enxuta surgiu com o esgotamento do modelo de produção em massa tornando os sistemas produtivos mais flexíveis. Enquanto a pro- dução em massa tem como foco a economia de escala de produção, vendas e lucro, a produção enxuta, visa à qualidade dos produtos, satisfazendo, da melhor maneira possível, a crescente e diversificada clientela, fruto do mundo cada vez mais globalizado. Um conjunto de novas técnicas e estraté- 24 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade gias é utilizado para aprimorar a qualidade e a produtividade, modificando o foco do produto por ele próprio para a qualidade no processo de manufa- tura (BONACIN, 2004). Assim como no TQM, a produção enxuta busca, não só suprir as necessidades de adaptações a novas ferramentas e tecnologias, mas também melhorias na qualidade de vida do trabalhador, ou seja, além de mudanças na forma de produção de uma empresa, a valorização dos fatores humanos da organização é fundamental. No sistema de produção em massa, o poder de decisão estava concentrado no topo da hierarquia, pois trabalhadores da linha de produção seguiam apenas rotinas predefinidas. Em oposição à produção em massa onde os funcionários são especialistas, estando somente restritos às suas funções particulares; no ambiente de produção enxuta, os funcionários devem ser flexíveis, suas habilidades vão além de suas funções particulares, possuir senso crítico e um bom desempenho no trabalho em equipe, sendo assim, considerados elementos inteligentes necessários para aprimorar a qualidade do processo de produção. De acordo com Womack e Jones (1996), a produção enxuta representa uma ferramenta que utiliza menos recursos para criar a mesma produção que um sistema de produção em massa tradicional, enquanto aumenta a gama de bens acabados para o cliente final. Também pode ser chamado de fabricação ágil, Just-In-Time ou JIT, fabricação sincronizada, fabricação de classe mundial. Produção enxuta é um sistema de manufatura com grande capacidade de desenvolvimento de tecnologias, recursos humanos e gerenciamento, para acompanhar as rápidas mudanças de necessidade de mercado (velocidade, flexibilidade, clientes, competidores, fornecedores, infraestrutura, poder de resposta). É um sistema que muda rapidamente a velocidade de seu pro- cesso com modelos de produtos ou de linhas de produção (flexibilidade) e consegue responder à demanda do cliente. Custos da qualidade e da não qualidade Custos da qualidade A qualidade desenvolvida pelas empresas de produtos ou serviços requer investimentos para ser alcançada e mantida. Os valores gastos para imple- Gestão pela qualidade 25 mentar a qualidade compõem os custos da qualidade. Os principais custos da qualidade, segundo Maximiano (2004) são: Custos de prevenção Custos de evitar ocorrência de erros e defeitos. Exemplo: treinamento para a qualidade, manutenção preventiva e desenvolvimento de fornecedo- res e sistema de produção. Custos de avaliação Custos de aferição da qualidade do sistema de produção de bens e servi- ços. Exemplo: inspeção, elaboração de relatórios e realização de atividades de controle estatístico de processo. Custo da não qualidade Os custos da não qualidade são gerados quando há prejuízos para o clien- te ou para a organização. São dois os principais custos da não qualidade: Custos internos dos defeitos Custos dos defeitos que são identificados antes de os produtos e serviços serem expedidos para o cliente. Exemplo: perda de receita, modificações nos processos produtivos ou produtos refugados. Custos externos dos defeitos Custos dos defeitos que ocorrem depois que o produto ou serviço chega ao cliente. Exemplo: perda de clientes e de mercado, comprometimento da imagem, devoluções ou cumprimento de garantias oferecidas ao cliente. A priori quanto mais qualidade melhor, e mais qualidade custa menos à empresa e aos clientes, devido à minimização de gastos com falhas mas, por exemplo, uma empresa do setor de aeronáutica devido ao segmento em que atua, gasta muito mais em qualidade, do que uma empresa que fabrica tijolos ou telhas. Assim, como empresas do segmento farmacêutico preci- sam adequar-se a regras rígidas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), uma metalúrgica precisa basicamente do alvará da prefeitura para 26 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade funcionar. Dessa forma, cada empresa deve buscar o nível ideal de qualidade para seus produtos ou serviços. O gráfico a seguir exemplifica essa relação. Custo das falhas Nível de qualidade Gastos com ferramentas da qualidade Ponto ótimo Cu st o O a ut or . Gráfico 1 – Relação dos custos das falhas com os gastos da qualidade Observe, no gráfico, que quanto maior o custo das falhas (defeitos e não conformidades) menor é o nível de qualidade, e quanto maiores os gastos com a aplicação de ferramentas da qualidade maior é o nível de qualidade. O ponto ótimo representado na interseção das linhas é o que toda empresa deve buscar, pois representa o equilíbrio entre os gastos com a qualidade e o custo das falhas. Ampliando seus conhecimentos A alma de uma empresa (GOMES, 2003) A Johnson & Johnson quase se perdeu na crise dos anos 1990. Mas um líder carismático recuperou o brilho nos olhos dos funcionários. Certa vez o brasileiro Oscar Motomura, da consultoria Amana-Key, de São Paulo, travou o seguinte diálogo com o guru Peter Drucker: Motomura: – Empresas têm alma? Gestão pela qualidade 27 Peter Drucker: – Sim. Motomura: – Dê exemplo. Peter Drucker: – Johnson & Johnson. Drucker, um profundo conhecedor das empresas americanas, referia-se à cultura peculiar da Johnson & Johnson. Trata-se de uma empresa cuja carta de princípios, batizada de Nosso Credo, foi escrita em 1943 pelo filho do fundador. Diz o texto que seus objetivos, nessa ordem de prioridade, são: cliente, funcio- nário, comunidade e, por último, acionista. Drucker não sabia que, nos anos 1990, esse credo quase perdeu o sentido para os funcionários da filial brasileira da J&J. “Começamos a acreditar mais em tecnologia do que em pessoas”, diz Nilson Salustiano Gomes, diretor de Recursos Humanos. As marcas amargas na alma da J&J surgiram com a abertura da economia. As décadas de 1970 e 1980 foram de euforia expansionista. A de 1990, por sua vez, foi de aflição. Nas gôndolas dos supermercados, novos concorrentes como Kimberly-Clark e Procter & Gamble davam golpes duríssimos na liderança da J&J em diversaslinhas de produtos. Internamente, fábricas foram vendidas ou fechadas, linhas de produtos descontinuadas, pessoas demitidas. Não é de es- tranhar, portanto, que a J&J tenha se tornado uma empresa nervosa, estressa- da. No começo desta década, a J&J tinha mudado muito para se enquadrar aos novos tempos – mas não o bastante. “Era preciso mudar mais”, diz José Antonio Justino, presidente da empresa, no cargo desde o começo de 2000. Para recuperar o brilho original da J&J, Justino mexeu em duas frentes. Al- gumas mudanças afetam diretamente o humor das pessoas. O fim do terno e da gravata e o toque de recolher às 18 horas para que ninguém fique no escri- tório além da hora são duas delas. As outras decisões mexeram no coração do negócio e na forma como as pessoas trabalhavam. Justino diz que tinha poucas certezas quando a matriz o transferiu da filial da Colômbia para a do Brasil. Uma delas era: para a J&J voltar a crescer era preciso envolver toda a empresa na mu- dança. Na verdade, ele não inventou a roda – dezenas de gurus vêm falando a mesma coisa desde meados da década passada. A diferença é que ele colocou a teoria na prática – e de cima para baixo. Era maio de 2000. Justino estava há um mês no cargo. Seus muitos anos como expatriado fizeram dele um estranho na matriz da empresa em São Paulo. Restavam poucos colegas do tempo em que foi gerente de produto, nos anos 1970. Um dos chefes daqueles tempos seria agora seu subordinado. Com 28 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade a ajuda de Oscar Motomura (o mesmo do diálogo no início da matéria), os 76 principais executivos da Johnson se reuniram em maio de 2000, durante três dias, pela primeira vez sob a liderança do novo chefe. Tinham como missão responder a duas perguntas: 1. O que estamos fazendo que precisamos parar de fazer? 2. O que não estamos fazendo que precisamos fazer? Saíram de lá com várias respostas para os problemas críticos da empresa e uma mensagem de Justino: pessoas e negócios andam sempre juntos. Um mês depois, o segundo encontro reuniu 350 pessoas. Meses depois, todos os 2 200 funcionários se encontraram numa imensa reunião de trabalho no ginásio de esportes da General Motors, em São José dos Campos. A proposta era obter a adesão de 100% da companhia para as mudanças que viriam pela frente. Cada grupo de trabalho tinha 300 pessoas. No fim do dia, a mensagem estava assi- milada. Os vídeos gravados na época mostram peças de teatro, música e dança apresentadas por funcionários, além de depoimentos expressando. A primeira meta estabelecida foi a de focar as linhas de produtos mais rentáveis. Com isso, reduziu-se a complexidade da gestão do negócio, uma grande fonte de estres- se e de dispersão de esforços. Até agora, houve uma redução de 32% nos itens produzidos. Pactuou-se também que a J&J no Brasil deve faturar 1 bilhão de dólares em 2006 – um crescimento de quase 35% em relação aos números de 2001 (dados do anuário Melhores e Maiores da revista Exame). Para mudar a empresa era preciso mexer na forma como as pessoas tra- balhavam. A área comercial é um exemplo. Quem cuidava de absorventes hi- giênicos não sabia o que estava acontecendo com a escova dental. Por isso, era comum que funcionários das duas linhas se encontrassem na recepção de uma mesma rede de supermercados. Não há mais o risco de isso acontecer. Em vez de olhar para a própria linha de produtos, agora olham para o mercado. Em outras palavras, o mesmo funcionário que vai ao Carrefour ou ao Pão de Açúcar está preparado para oferecer todos os produtos Johnson & Johnson. Do preservativo Jontex ao protetor solar Sundown. Ao mesmo tempo, a área comercial em seu formato tradicional deixou de existir. Agora, ela integra uma grande célula batizada de order to cash, do pedido ao faturamento. Os funcio- nários da célula pensam em todas as etapas que envolvem o cliente. Com a integração dos vários departamentos, a J&J fez uma descoberta aterradora: no caminho entre a venda e a cobrança, a empresa realiza 5 500 atividades. Cerca de 30% delas (1 500) não agregam valor ao negócio. Como em quase tudo que Gestão pela qualidade 29 envolve a transformação da empresa, um grupo multidisciplinar foi criado com a tarefa de eliminá-las. Essas mudanças pretendem mostrar uma nova imagem da Johnson & Johnson para o mercado. Entretanto, é dentro de suas paredes que a empresa mais mudou. A começar pelo estilo de comunicação aberto do presidente. Justino faz um café da manhã por mês com funcionários. Segundo ele, as conversas são semelhantes às que comanda com os membros do con- selho de administração. São comuns perguntas como: Por que não tem recla- me? Por que nosso preço é alto? Justino responde e, com isso, dá o exemplo de que a regra, com ele, é pensar junto e fazer junto. “Virou credo na empresa que as pessoas devem ser envolvidas nas decisões”, diz Gomes, do RH. Os desafios da mudança atingiram também o RH. Como todas as demais áreas, deve esquecer o departamento e focar o processo. Dentre as mudanças, foi criada uma área dedicada a desenhar os novos cargos que surgiram após a reorganização em células. O cargo de vendedor, por exemplo, deu lugar ao de gestor do negócio. Além de novo nome, esse profissional também precisa ser avaliado e remunerado de outra forma. A variável de cada um agora depen- de dos resultados alcançados em relação a indicadores de desempenho pre- viamente acertados. Além das competências técnicas, as emocionais também contam. “Queremos saber como as competências técnicas são usadas”, diz Gomes. Neste começo de 2003, a alma da J&J no Brasil parece mais leve. “Vol- tamos a ter amizades e a comemorar nossas vitórias”, diz Gomes. “Estamos vol- tando a trabalhar com alegria.” Os resultados da mudança também apareceram no balanço. De 2001 para 2002, a empresa cresceu 12% em vendas. Também se manteve líder de mercado em diversas linhas de produtos. Por fim, eis o dado mais comemorado pela cúpula da empresa: a satisfação dos funcionários subiu 9 pontos percentuais na pesquisa de clima realizada pela multinacional em todas as suas unidades. O Brasil se igualou à Colômbia, que tinha a melhor pontuação da América Latina. Para Justino, tudo o que se conseguiu até agora são apenas as bases para a mudança no longo prazo. “Foi só o começo de um plano de cinco anos”, diz. Simples e envolvente O paulistano José Antonio Justino, de 49 anos, foi gerente-geral da filial da Johnson & Johnson na Colômbia. As dificuldades políticas e econômicas do país vizinho, diz ele, ensinaram-no que intenção e palavra não realizam mudanças. Pessoas, sim. “Só que as pessoas precisam de tempo para assimilar a necessidade de mudar. Só então mudam”, diz. Ao chegar ao Brasil, Justino tinha 30 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade pressa, mas não podia correr. “A palavra mágica numa mudança é paciência”, diz. Justino entrou no mercado de trabalho nos anos 1970, uma época de autocracia e inflação. “Como saíam de uma crise para outra, as empresas não delegavam decisões para limitar seus riscos. Centralizavam tudo”, diz. Esse está longe de ser o estilo do presidente da J&J. É comum encontrá-lo pelos corredores da empresa vestindo jeans e conversando sobre os negócios ou sobre a vida. “Justino usa a inteligência emocional para envolver a companhia”, diz Nilson Gomes, diretor de RH, que o conhece há 25 anos. Naquele tempo, Gomes trabalhava em finanças. Justino vendia o absorvente interno o.b. Atividades de aplicação 1. A gestão pela qualidade é a) uma maneira pela qual uma empresa busca o maior número de clientes. b) uma técnica surgida no Ocidente em meados da Primeira Guerra Mundial. c) forma pela qual os funcionários buscam para produzir com eficiên- cia. d) a busca dos meios mais adequados para ampliar as vendas. 2. Sobre o cicloPDCA, marque a resposta correta. a) Deming desenvolveu e implementou o ciclo PDCA inicialmente nos EUA. b) O “P” refere-se as atividades de execução de melhorias em uma empresa. c) A primeira etapa a ser executada no ciclo é a de levantamento de informações. d) O check de verificação serve para monitorar e avaliar o processo em relação ao especificado. Gestão pela qualidade 31 3. Identifique a questão correta a respeito do Kaizen. a) Kaizen é uma palavra japonesa para a produção enxuta nas em- presas. b) São esforços de melhoria que usam equipes de trabalho, e tem foco em problemas específicos. c) Possui sua orientação para resolução de problemas e análise de falhas na área de serviços. d) Obteve êxito quando aplicado nos EUA e, posteriormente, imple- mentado no Japão. 4. Quando se fala em qualidade podem surgir inúmeros conceitos. No entanto, é imprescindível que as organizações definam o que signi- fica qualidade para elas e qual a importância dessa definição. Elen- que e explique quais são os principais conceitos associados ao termo qualidade. Estratégia corporativa A palavra estratégia tem origem no termo grego stratego, que significa general e nasceu das campanhas militares em que os resultados (vitória ou derrota) seriam de responsabilidade de bons ou maus estrategistas. O tema estratégia encontra-se em textos desde a Antiguidade e, acredita-se que A Arte da Guerra, do chinês Sun Tzu (século IV a.C.), seja o texto mais antigo que trata do objeto. Apenas no final do século XX a obra foi bastante difun- dida, no entanto, surgiu no Ocidente no século XVIII, abordando princípios de caráter geral, que auxiliariam um soberano a triunfar na guerra. Enfatiza a necessidade de conhecer muito bem a si e seus adversários e a importância de evitar os confrontos diretos. O livro continua influenciando o pensamento organizacional, nos mais diversos aspectos da literatura empresarial (CARVA- LHO; LAURINDO, 2007). O tema estratégia foi incorporado aos poucos durante as últimas décadas à gestão das empresas e ao dia a dia dos executivos brasileiros. Kaplan e Norton (1997), no prefácio de sua obra, descrevem que a execução da estra- tégia é uma das tarefas mais difíceis dos empresários, cujos números, segun- do vários estudos, evidenciam o insucesso na ordem de 70 a 90%. Autor clássico, Porter (1986) afirma que toda empresa possui uma estra- tégia, seja ela explícita por meio de processo de planejamento ou implícita através das atividades dos vários departamentos funcionais de uma organi- zação. O planejamento estratégico nas empresas reflete a proposição de que existem benefícios significativos a serem obtidos com um processo explícito e escrito de formulação de estratégias, garantindo, assim, que os departa- mentos das empresas sejam coordenados e dirigidos, visando um conjunto de metas. Dessa forma, pode-se definir estratégia como a descrição do que a organi- zação quer atingir a longo prazo (por exemplo, nos quatro ou cinco próximos anos), expressa pelos objetivos estratégicos quando tomados em conjunto (COUTINHO; KALLÁS 2005). Os objetivos estratégicos devem ser concisos quando transmitidos à organização, também em forma de processo e holís- tica, ao invés de levar a informação com uma visão parcial. A estratégia, em síntese, é a forma como a organização irá atingir sua visão de futuro. Este 34 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade termo, portanto, está associado à noção de trilhar ações para atingir um re- sultado específico, planejado, visualizado. Carvalho e Laurindo (2007) defendem que a estratégia é uma busca deli- berada por um plano de ação que desenvolverá uma vantagem competitiva para o negócio, bem como colocá-lo em prática. Para Hitt et al. (2008, p. 4) a estratégia “é um conjunto integrado e coordenado de compromissos e ações definidas para explorar competências essenciais e obter vantagem competi- tiva”, portanto, as organizações, ao definirem sua estratégia, escolhem alter- nativas para competir. Thompson Jr. et al (2008) foca o conceito central de estratégia nos passos competitivos e nas abordagens administrativas que os gerentes utilizam para o crescimento do negócio, para atrair e satisfazer os clientes, para com- petir de modo bem-sucedido e alcançar os níveis almejados de desempenho organizacional. Uma estratégia vencedora precisa ajustar-se às situações ex- ternas, como o mercado, e internas da empresa, como os processos e cultura organizacional, e assim criar vantagem competitiva sustentável e melhorar o desempenho da organização. Mas quando uma empresa obtém ou cria vantagem competitiva? Quando ela consegue desenvolver uma estratégia difícil de ser copiada! Dessa forma a empresa tem vantagem competitiva sobre as demais. Uma estratégia empresarial bem-sucedida tipicamente inicia-se com uma avaliação realista da situação ambiental presente, uma visão coerente do futuro e a compreensão da transição necessária para estabelecer uma ponte entre o presente e o futuro (AKAO, 1997). A estratégia deve ter um horizonte de tempo longo e estar preparada para as mudanças que possam ocorrer no ambiente. Para a constituição de uma estratégia, deve-se ter um conjunto de ações consistentes no tempo e não modificáveis ao primeiro sinal de frustração de expectativas. A flexibilidade é necessária em uma estratégia, e também para a adaptação às condições (mutáveis) de um ambiente como o econômico, e não implica o seu abando- no a qualquer revés (CATERMOL, 2006). Albuquerque e Silva (2002) deixam evidente em seu trabalho que, para que os objetivos competitivos da orga- nização tenham êxito, é necessário o desenvolvimento e a implementação de uma estratégia competitiva consistente com a estratégia da empresa, ou seja, as necessidades de mercado, os meios e as ferramentas de produção Estratégia corporativa 35 devem estar alinhados. É a estratégia da empresa que norteia a definição das ferramentas a serem implantadas para alcançar a eficiência operacional. Paladini (1995, p. 79) comenta sobre a diferença entre estratégia e ferramenta, [...] a implantação da qualidade no processo pode utilizar ferramentas e estratégias já bem conhecidas e consagradas. Inicialmente, reserva-se o termo ferramenta para os dispositivos, procedimentos gráficos, numéricos ou analíticos, formulações práticas, esquemas de funcionamento, mecanismos de operação, enfim, os métodos estruturados para viabilizar a implantação da Qualidade Total. O termo estratégia é mais abrangente, e determina uma metodologia de implantação de mecanismos destinados a produzir qualidade em qualquer atividade, processo, serviço ou produto em uma organização. A noção de estratégia é mais ampla do que a noção de ferramenta, embora, às vezes, os termos sejam, equivocamente trocados. A estratégia envolve a utilização de várias ferramentas e tende a produzir resultados mais amplos. Além disso, dificilmente uma ferramenta gera uma estrutura própria de suporte – o que ocorre com as estratégias. Como estudado nesta seção, a intensificada competição entre as organi- zações tem reafirmado o interesse na definição de estratégia de uma empre- sa, e em realizá-la em consonância com os objetivos organizacionais em um contexto dinâmico, possibilitando a contribuição dessa estratégia para ao sucesso competitivo. Portanto, é a partir da estratégia de uma empresa que são determinadas as ações para as diretrizes do negócio que, desdobradas, percorrem todos os níveis organizacionais. Deslizes da empresa em relação à determinação dos elementos que compõem a estratégia podem ser fatais para a sobre- vivência do negócio. Como exemplo, se uma empresa que produz filtros de água possui sua missão focando a qualidade dos produtos fabricados, seu negócio irá desenvolver estratégias de processo eproduto envolvendo melhorias nos filtros. Mas se essa mesma empresa possuir uma missão que enfoque a qualidade de vida de seu cliente, poderá trabalhar no desenvolvi- mento de outros tipos de produtos que não sejam filtros como, por exemplo, purificadores. Villar et al. (2008) aponta três níveis hierárquicos dentro das organizações onde encontram-se as estratégias de planejamento: o nível corporativo define estratégias globais, a � estratégia corporati- va, definindo as áreas de negócios nas quais a empresa irá participar, bem como a organização e distribuição dos recursos para cada uma dessas áreas ao longo do tempo. Segundo Porter (1986), a estratégia corporativa está associada às questões da diversificação dos negócios. À medida que as empresas diversificam seus negócios, podem surgir 36 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade custos que restrinjam essas expansões. A estratégia corporativa deve- rá especificar em que condições a diversificação de negócios contri- buirá para o crescimento sustentável de toda a corporação. Portanto, quando uma organização pretende diversificar os negócios, deve-se questionar: O novo negócio é financeiramente atrativo? Qual o custo de entrar nesse novo negócio? Quanto a empresa ganhará de compe- titividade ao incorporar esse novo negócio? Dentro desse contexto, é muito importante a experiência e habilidade que a empresa possui em cada unidade de negócios, e como essa experiência pode ser absorvi- da pela nova diversificação que se pretende; o nível da unidade de negócios é uma subdivisão do nível corporati- � vo. Cada unidade de negócios tem uma estratégia de negócios, tam- bém chamada de estratégia competitiva, definindo como seu negócio compete no mercado, o desempenho esperado e as estratégias que deverão ser conduzidas pelas áreas operacionais para sustentar tal posição; o terceiro nível é o da � estratégia funcional. Nesse nível, estão associa- das as políticas de operação das diversas áreas funcionais da empre- sa, consolidando as estratégias corporativa e competitiva. A definição de uma estratégia funcional tem como resultado planos de ação, que considera as grandes áreas de produção, finanças e marketing. O Planejamento Estratégico (PE) O planejamento estratégico procura maximizar os resultados das ope- rações e minimizar os riscos na tomada de decisões das organizações. O impacto das decisões é de longo prazo e afeta a natureza e as característi- cas das empresas, garantindo o alcance de sua visão e missão. Para efetuar um planejamento estratégico, a empresa deve entender os limites de suas forças e habilidades no relacionamento com o meio ambiente, de maneira a criar vantagens competitivas em relação à concorrência, aproveitando-se de todas as situações que lhe trouxerem ganhos. Planejar estrategicamente consiste em gerar condições para tomada de decisões rápidas, pelas orga- nizações, diante de oportunidades e ameaças, otimizando suas vantagens competitivas em relação ao mercado onde atuam, garantindo a competitivi- dade ao longo do tempo (TUBINO, 1997). Estratégia corporativa 37 O processo de elaboração e execução de uma estratégia envolve oito fases, conforme a figura a seguir: Figura 1 – Processo de Planejamento Estratégico. Elaboração da estratégia para alcançar os objetivos, a missão e a visão. Feedback e controle de todas as etapas do PE. Implementação e execução da estratégia. Visão estratégica Definição dos objetivos. Análise da concorrência - 5 forças de Porter: concorrente, clientes, substitutos, entrantes e fornecedores. Análise do ambiente interno (forças e fraquezas) e externo (ameaças e oportunidades). Matriz SWOT. Missão estratégica (K O TL ER , 1 99 8; T H O M PS O N JR . e t a l. 20 08 . A da pt ad o. ) Visão corporativa O conceito central de visão estratégica descreve os caminhos que a empresa pretende seguir para desenvolver e consolidar seus negócios ( THOMPSON JR. et al., 2008). É um retrato do que a empresa pretende ser e do que pretende realizar, portanto, molda o futuro pretendido. A visão re- flete os valores e as aspirações de uma empresa e visa captar o coração e a mente de cada funcionário, bem como de outros stakeholders (fornecedores, colaboradores, sindicatos, comunidade, acionistas, dentre outros), a visão também tende a ser duradoura (HITT et al., 2008). Biagio e Batocchio (2005) complementam que a visão deve ser elaborada e promovida pela alta gerência, refletindo suas aspirações e suas crenças. Projeta uma ideia de como a empresa será dentro de 10 ou 20 anos e espelha a relação organização-sociedade. Para tornar a declaração de visão fácil de ser lembrada, ela tende a ser relativamente curta e concisa. A indústria farmacêutica Merck afirma em sua visão que, “nosso negócio é preservar e melhorar a vida humana. Todas as ações devem ser avaliadas com base em nosso sucesso em lograr esse objetivo”. 38 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Já para a divisão de produtos dentários da 3M Corporation, a visão é “tornar-se o principal fornecedor dos mercados dentários profissionais em escala global, oferecendo produtos de qualidade mundial e inovadores”. A Ford Motor Company, fundada por Henry Ford, tinha como visão, “tornar o automóvel acessível a todos os norte-americanos”. A visão da Stihl contempla a crescente preocupação de alguns stakeholders com as variáveis sociedade e o meio ambiente, “manter a liderança no mercado brasileiro de ferramentas motorizadas portáteis, com rentabilidade e comprometimento com a sustentabilidade”. Portanto, a visão deve comunicar para onde a empresa quer ir, ou seja, a direção que pretende tomar, bem como o tipo de empresa que quer se tornar. Missão corporativa Consiste na declaração da razão de ser da empresa, o seu propósito e o que ela faz (BIAGIO; BATOCCHIO, 2005), portanto, deve ter um alcance social. Uma declaração de missão bem-sucedida diferencia a natureza empresarial da organização de outros empreendimentos com finalidade lucrativa, utili- zando uma linguagem específica para revelar sua própria identidade (HITT et al., 2008). A missão especifica os negócios nos quais as empresas pretendem com- petir e o público que pretende atender (THOMPSON JR. et al., 2008), bem como o relacionamento da empresa com outros stakeholders. Segundo Kotler (1998), “uma declaração de missão bem preparada pro- porciona aos funcionários da empresa um senso único de propósito, direção e oportunidade”. Orienta os funcionários a trabalhar coletivamente para rea- lizarem as metas da organização, pois estabelece princípios norteadores que serão utilizados como balizadores das escolhas estratégicas. Estratégia corporativa 39 A Motorola declara que: “o propósito da Motorola é atender honoravel- mente às necessidades da comunidade, fornecendo produtos e serviços de qualidade superior e preço; ao fazer isso procuramos o lucro adequado e necessário para o crescimento da empresa, dando oportunidade para que nossos funcionários e acionistas conquistem objetivos pessoais razoáveis”. A missão da Merck é “proporcionar à sociedade produtos e serviços su- periores, criando inovações e soluções que melhorem a qualidade de vida e atendam as necessidades dos clientes; oferecer um trabalho significativo e chances de progredir, aos empregados, e uma taxa de retorno superior aos investidores”. Para a Stihl, sua missão representa “facilitar a vida de nossos clientes, com ferramentas motorizadas portáteis, oferecendo soluções rápidas e inovadoras”. Portanto, a missão da empresa deve ser moldada por cinco elementos: a história de propósitos, políticas e realizações; as preferências atuais dos pro- prietáriose da administração; ambiente de mercado; os recursos e as com- petências distintivas (KOTLER, 1998). A visão e a missão formam a base para a definição e implementação das estratégias, que devem ser operacionalizadas por meio da estratégia corpo- rativa, competitiva e funcional. Análise da concorrência – 5 forças de Porter Segundo Porter (1986) a essência da formulação de uma estratégia com- petitiva é relacionar uma companhia ao seu meio ambiente, ou seja, as in- dústrias com as quais ela compete. A concorrência em uma indústria tem raízes em sua estrutura econômica básica, e depende de cinco forças com- petitivas (poder de negociação dos fornecedores, poder de negociação dos compradores, novos entrantes, produtos substitutos e rivalidade entre os concorrentes) representadas na Figura 2. 40 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade (T H O M PS O N JR . e t a l, 20 08 ) Produtos substitutos Pressões competitivas surgindo das tentativas de empresas de fora do setor em conquistar clientes para seus produtos. Compradores Pressões surgindo do poder de negociação do comprador e da colaboração entre comprador e vendedor. Fornecedores Pressões surgindo do poder de negociação do fornecedor e da colaboração entre fornecedor e vendedor. Rivalidade entre vendedores concorrentes Pressões competitivas visando melhor posição de mercado, vendas e participação de mercados maiores e vantagem competitiva. Novos entrantes em potencial Pressões competitivas surgindo da ameaça da entrada de novos concorrentes. Figura 2 – Modelo das cinco forças. As cinco forças competitivas em conjunto determinam a intensidade da concorrência na indústria, sendo que as forças mais acentuadas predomi- nam e tornam-se cruciais para a formulação de estratégias. Para Thompson Jr. (et al., 2008), empregar o modelo permite avaliar se a intensidade da concorrência permite uma boa lucratividade e promove pen- Estratégia corporativa 41 samento estratégico fundamentado sobre como combinar a estratégia da empresa com o caráter competitivo do mercado. Análise ambiental – matriz SWOT Avaliar os pontos fortes (strengths) e fracos (weaknesses); suas oportuni- dades (opportunities) e ameaças (threats) externas proporciona uma visão de conjunto a respeito da situação geral da empresa em relação a sua saúde (saudável ou precária). Proporciona a base para a elaboração de estratégias, visando aproveitar diretamente as melhores oportunidades e defender-se contra ameaças (THOMPSON Jr. et al., 2008). A análise do ambiente externo envolve fatores como economia, políti- ca, demografia, cultura, tecnologia, valores, acontecimentos, consumidores, concorrentes, fornecedores, canais de distribuição, dentre outros, e contribui para a definição do caminho a seguir. A probabilidade de sucesso da empresa também depende da competên- cia para superar seus concorrentes, gerar maior valor para o cliente e susten- tá-lo ao longo do tempo. O confronto de informações relativas a demanda versus oferta, permite identificar as oportunidades. Por exemplo, uma necessidade do cliente que ainda não está sendo atendida, ou ainda projetar as necessidades futuras de um grupo de clientes, o que pode ser um ótimo indicador para os próximos lançamentos da empresa. Assim como os dados relativos a demanda versus oferta permitem iden- tificar as oportunidades, também podem sinalizar as ameaças. As empresas devem identificar qual é a possibilidade da ameaça se concretizar e como serão afetadas por ela, para que possam elaborar seus planos ou transformá- -las em oportunidades. Mas que tipo de informação deve ser analisada? Alguns exemplos de oportunidades e ameaças são apresentadas na tabela a seguir. 42 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Tabela 1 – Exemplos de oportunidades e ameaças Oportunidades Ameaças Mudanças demográficas, políticas, sociais e econômicas. Mudanças demográficas, políticas, sociais e econômicas. Mudanças na legislação. Alteração nos gostos e hábitos dos clientes. Novas tecnologias. Novas tecnologias. Abertura de mercados estrangeiros. Declínio no ciclo de vida do produto. Concorrentes com dificuldades. Produtos substitutos. Produtos substitutos. Novas parcerias entre os concorrentes. Parceria com distribuidores e fornecedores. Globalização dos mercados com a entrada de novos concorrentes. (P SI LL A KI S, 2 00 4, p . 4 47 ) Além das oportunidades e ameaças, provenientes do ambiente externo, a empresa precisa verificar se possui competência interna (forças e fraquezas) para defender-se das ameaças e aproveitar as oportunidades. Portanto, antes de estabelecer os objetivos estratégicos, a empresa pre- cisa analisar tudo que está sob seu controle, tais como os aspectos orga- nizacionais, de marketing, financeiros, pessoais e de produção, pois, se a empresa vislumbrar uma oportunidade de negócio com alto grau de atrati- vidade e probabilidade de sucesso, exigirá forte reputação no mercado para capitalizar tal oportunidade, mas esta variável se traduz em uma fraqueza representativa de seu negócio, precisando traçar estratégias que revertam o quadro antes de capitalizar a oportunidade de negócio. Caso a empre- sa decida por não eliminar a fraqueza, poderá desperdiçar a oportunidade (BIAGIO; BATOCCHIO, 2005). Quais fatores deve-se considerar? A Tabela 2 elenca alguns desses fatores. Tabela 2 – Exemplos de forças e fraquezas Forças Fraquezas Criatividade das equipes. Custos elevados. Velocidade na tomada de decisões. Gestão centralizada e lenta. Disponibilidade de recursos. Falta de flexibilidade. Força da marca. Prazos longos de entrega. Domínio da tecnologia. Preços altos. Reconhecimento no mercado. Inexistência de planejamento estratégico. Logística e distribuição eficientes. Qualidade dos produtos que deixa a desejar. (P SI LL A KI S, 2 00 4, p . 4 48 ) Estratégia corporativa 43 A análise da matriz SWOT permite identificar as principais orientações estratégicas da empresa e os gerentes precisam, de forma inteligente, pro- curar corrigir as fraquezas competitivas que a tornam vulnerável, limitam a lucratividade ou não lhe permitem buscar uma oportunidade atrativa ( THOMPSON JR. et al., 2008). Definição dos objetivos e metas Os objetivos devem ser capazes de impulsionar e orientar a empresa e as pessoas que nela trabalham. O sucesso do planejamento estratégico depen- de, também, da definição dos objetivos a curto e a longo prazo. Para Biagio e Batocchio (2005) o principal motivo da definição dos obje- tivos de uma empresa é orientar a direção que deve ser seguida para que a empresa cumpra sua missão e vá ao encontro de sua visão, tendo como base as informações da análise da concorrência proposta por Porter e da matriz SWOT. Os objetivos devem ser claros, simples e formulados por escrito para que todos da organização possam compreender o que a empresa deseja realizar (PSILLAKIS, 2004). Devem ser individuais, estreitamente relacionados com a missão da em- presa e devem ser utilizados para a comunicação das intenções para todo o ambiente externo e interno. As metas são declarações específicas que se correspondem com deter- minado objetivo, mostrando os passos que devem ser dados e quando. As metas devem estar associadas a números e devem ser específicas, mensurá- veis, atingíveis, relevantes e temporais. Como exemplo: Objetivo – “conquistar a liderança do mercado Sul e Sudeste“. Meta – “implantar 60 novos pontos de distribuição nas cidades com mais de 50 mil habitantes, na região Sul e Sudeste, até o final de 2010”. Ação – Lançar campanha promocional com a veiculação de 10comerciais diários de 30 segundos cada, em horário nobre, nas emissoras de televisão que atingem os estados das regiões Sul e Sudeste nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro, no ano de 2010. 44 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Os objetivos representam os resultados mais abrangentes com os quais as organizações assumem um compromisso definitivo. As metas são decla- rações específicas diretamente relacionadas com determinado objetivo, evi- denciando os passos que devem ser dados e quando. Elaboração da estratégia A formulação da estratégia indica que a empresa escolherá a forma como atuará no mercado para cumprir suas metas e atingir seus objetivos. Porter (1986) definiu três abordagens estratégicas genéricas: liderança total em custos, diferenciação e foco. O sucesso em obter uma vantagem de custo baixo em relação aos concor- rentes surge de um melhor gerenciamento, ao se determinar como executar as atividades da cadeia de valor de modo mais eficiente em termos de custo, e eli- minar ou reduzir atividades não essenciais da cadeia de valor ( THOMPSON JR. et al., 2008). Portanto, na liderança de custos, a empresa deverá buscar a pro- dução ao menor custo possível, podendo, com isso, praticar os menores preços do mercado e aumentar o volume de vendas. A produção em grande escala, a experiência adquirida, a padronização dos produtos e métodos, a facilidade de acesso aos mercados fornecedores e compradores são algumas das carac- terísticas necessárias para se competir dentro dessa estratégia (VILLAR, 2004). Empresas líderes em baixo custo incluem a BIC para canetas esferográficas, Black&Decker para ferramentas elétricas, General Electric para os principais utensílios domésticos, dentre outras (VILLAR et al., 2008). Na estratégia de diferenciação ampla, a empresa concentra esforços para alcançar desempenho superior em uma importante área de benefício para o consumidor, valorizada por grande parte do mercado. Segundo Kotler (1998) a empresa pode esforçar-se para ser líder em serviço, qualidade, estilo, tec- nologia etc. Assim, a empresa que busca liderança em qualidade deve fabri- car ou comprar os melhores componentes, montá-los com a maior precisão, inspecioná-los, considerar aspectos como a imagem, a marca, a assistência técnica, a entrega imediata e pontual etc. A terceira estratégia, a de focalização, se distingue das duas anteriores, pois a empresa deverá focar suas habilidades em uma pequena parte do mercado total e deverá atendê-lo melhor do que os demais competidores. O segmento almejado, ou nicho, pode ser definido por sua particularidade geográfica, suas exigências específicas no uso do produto ou por atributos Estratégia corporativa 45 especiais do produto que atraem somente os participantes do nicho. Exem- plos de empresas que se concentram em um nicho de mercado bem defini- do, compatível com o produto ou segmento de mercado específico incluem a Porsche, para os carros esportivos; Google, nos sites de busca na internet, Rent-a-Car, especializada em oferecer carros de aluguel para clientes de ofi- cinas mecânicas, dentre outras. Para Thompson Jr. et al. (2008), as microcer- vejarias, confeitarias locais, lojas varejistas gerenciadas pelos proprietários representam bons exemplos de empreendimento que organizaram suas operações para atender segmentos restritos ou regionais de clientes. Contudo, os clientes querem cada vez mais adquirir produtos diferencia- dos a preços baixos. Isso está sendo traduzido para algumas organizações como uma estratégia integrada de custos/diferenciação. Nesse contexto, a flexibilidade é necessária para que as empresas concluam as atividades pri- márias e de suporte, para que possam fabricar produtos relativamente dife- renciados a custos mais baixos. Os sistemas de fabricação flexíveis, as redes de informações e os sistemas de gerenciamento de qualidade total são três fontes de flexibilidade particularmente úteis para as empresas que estão tentando equilibrar as frequentes reduções de custos e as expansões cons- tantes das fontes de diferenciação (HITT et al., 2008). Kotler (1998) afirma que as empresas que não definem uma estratégia clara serão malsucedidas. Decidir qual delas utilizar como modelo para apoiar o restante das estratégias da empresa não é uma simples tarefa. Conforme a abordagem do texto, cada estratégia posiciona a empresa de maneira dife- rente em seu ambiente competitivo, estabelecendo diretrizes de suas ações para esse mercado. Implementação e execução da estratégia Uma vez definidas as principais estratégias, um plano de ação que norteie a implantação deverá ser elaborado. Ele deve responder às seguintes per- guntas: O que deverá ser realizado? Quem fará o quê? Qual a sequência ideal das etapas? Quando as etapas ocorrerão? Quais verbas serão necessárias? Uma estratégia clara e um programa de apoio bem delineado podem ser inúteis se a empresa falhar em sua implementação cuidadosa. De fato, a es- tratégia é apenas um entre sete elementos, conforme a empresa de consul- toria McKinsey, que trabalha para as empresas mais bem administradas do mundo. O modelo 7S da McKinsey (Structure – Estrutura, Systems – Sistemas, 46 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Style - Estilo, Shared Values - Valores compartilhados, Staff - Pessoal, Skills - Habilidades e Strategy – Estratégia) para o sucesso empresarial é mostrado na Figura 3. Os três primeiros elementos (estratégia, estrutura e sistemas) são considerados o hardware do sucesso. Os outros quatro (estilo, pessoal, habilidades e valores compartilhados) são considerados o software. Estrutura Sistemas Estilo Pessoal Habilidades Estratégia Valores compartilhados (K O TL ER , 1 99 8) Figura 3 – O modelo 7S da McKinsey. Feedback e controle A empresa precisa verificar, em intervalos regulares de tempo, a medida que implementa sua estratégia, se os resultados esperados estão sendo al- cançados e monitorar se os novos desenvolvimentos nos ambientes interno e externo sofreram algumas modificações significativas para alterar sua es- tratégia inicial. Alguns ambientes mantêm-se estáveis de um ano para outro, outros desenvolvem-se lentamente, de maneira previsível, mas há um terceiro am- biente em que as mudanças acontecem rapidamente e de maneira imprevi- sível. Independente do ambiente em que a organização atue, a única certeza é sobre a capacidade de mudança do mercado, portanto, as organizações precisam desenvolver mecanismos que identifiquem as necessidades de correções ou alterações na implementação das estratégias. Estratégia corporativa 47 Balanced Scorecard (BSC) O Balanced Scorecard (BSC) faz parte de uma corrente de pensamento estratégico que enfoca processos administrativos, disciplina e busca meios para que as empresas desenvolvam indicadores de desempenho abrangen- do outros aspectos além do financeiro (HITT et al., 2008). O termo Balanced Scorecard traduzido por Coutinho e Kallás (2005) quer dizer Painel Balancea- do de Indicadores. O BSC desenvolvido por Kaplan e Norton, em 1992, resultou das neces- sidades de captar toda a complexidade da performance nas organizações e tem sido ampla e crescentemente empregado em organizações (PRIETO et al., 2006). Entre as contribuições do BSC estão a composição e a visualização de medidas de performance que reflitam a estratégia de negócios da empresa. O BSC deve levar à criação de uma rede de indicadores de desempenho que deve atingir todos os níveis organizacionais, tornando-se, assim, uma ferramenta para comunicar e promover o comprometimento geral com a estratégia da corporação. (KAPLAN; NORTON, apud PRIETO 2006, p. 2) Marins, citado por Sellitto (2006), comenta que os sistemas de medição mais encontrados até 1990 se preocupavam maiscom resultados financeiros do que com outras dimensões de desempenho. O BSC é importante para a implementação de estratégias nas organizações, e o movimento resultante da sua implementação é talvez comparável ao início da Qualidade Total. Para Moreira (2002) e Cardoza e Carpinetti (2005) as organizações necessitam permanentemente aferir se o seu desempenho está compatível com as premissas estratégicas estabelecidas. Sobre a importância da medição de desempenho nas organizações, Mo- reira (2002) considera as medidas como sinais vitais da organização, e decla- ra ser o ingrediente chave, pois sua ausência influencia tanto o desempenho das organizações, como também afeta de maneira significativa o desempe- nho humano. Sem a medição, as pessoas (funcionários) não poderiam com- preender totalmente o que se espera delas. Segundo Vaal (2003) o gerenciamento da performance através do Balan- ced Scorecard (BSC) nas empresas vem atraindo a atenção de pesquisadores e acadêmicos, e no mundo é desenvolvido um artigo a cada cinco horas. Ainda a respeito do crescimento do BSC, Beber (2006) relata a sua utilização em 60% das empresas que constam na revista Fortune 500, onde as princi- pais e maiores empresas norte-americanas se encontram. 48 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Existe abertura para a visão e o desenvolvimento estratégico no topo hie- rárquico nas organizações e Peter Drucker (1993) já havia percebido isso na década de 1960, quando desenvolveu o termo gerenciamento por objetivos, mas na época não existiam formas para efetivar esse tipo de gerenciamento. Essa falha tornou-se mais aparente em 1970, quando ações diárias dos fun- cionários foram afetadas pelo programa de gerenciamento total da qualida- de (TQM). Não havia uma forma de introduzir eficientemente os objetivos pessoais dos funcionários e integrar à gestão. Foram feitas poucas iniciativas entre a estratégia da organização e o aumento do poder dos funcionários (VAAL, 2003). O BSC procura a linguagem requerida para essa falta de comu- nicação e une visão e estratégia para as ações diárias dos funcionários, em prioridades claras e mensuráveis, melhorando assim a satisfação e motiva- ção não só dos funcionários, mas gestores e acionistas e demais envolvidos. Self (2004) reforça a questão da comunicação, afirmando que o BSC encora- jou as inovações e que equipes de trabalho tiveram mais chances de terem suas ideias ouvidas. Severiano Filho (1995, p. 1) comenta também essa relação do BSC com outras estratégias aplicadas às empresas, como o TQM. Durante a década de 1990 muitas empresas desenvolveram enormes esforços, no sentido de incorporar em suas operações os modernos programas de gerenciamento da TQM, os processos de produção e distribuição de natureza Just-In-Time (JIT), assim como os Sistemas Flexíveis de Manufatura (SFMs). A verificação do desempenho operacional destas novas técnicas de produção requer necessariamente uma adaptação do sistema contábil-financeiro ao novo ambiente produtivo da empresa. Esta consideração se justifica pelo fato de que as tradicionais medidas de desempenho da manufatura, conhecidas como indicadores de produtividade, tornaram-se ineficazes para traduzir o nível de desempenho da organização, justamente por estarem vinculadas a um sistema contábil, que controla basicamente os elementos tangíveis da estrutura de custos. Sabe-se, por exemplo, que a produtividade global da empresa, na realidade, não resulta apenas do exercício de sua atividade principal (produção de bens ou serviços), mas resulta da interação das diversas ações organizacionais, combinadas com o esforço de todos os atores envolvidos em sua execução. Estratégia corporativa 49 O Balanced Scorecard deve traduzir a missão (razão de ser) e a estratégia de uma unidade de negócios em objetivos e medidas tangíveis. As medi- das representam o equilíbrio entre indicadores externos voltados para acio- nistas e clientes, e às medidas internas dos processos críticos dos negócios, inovação, aprendizado e crescimento. Há um equilíbrio entre as medidas de resultados, as consequências de esforços passados – e as medidas que de- terminam o desempenho futuro. O BSC se equilibra entre medidas objetivas, de resultado, facilmente quantificáveis, e vetores subjetivos, até certo ponto discricionários, das medidas de trabalho (BEBER et al., 2006). A equipe de Change Integration – Price Waterhouse (1995, p. 24) afirma que, ao dirigir a mudança e fazer com que as pessoas adotem atitudes novas, exigirá que o gestor examine cuidadosamente o sistema de indicadores de desempenho da empresa. O gestor deve visualizar a mudança primeiro, e depois projetar indicadores novos e consistentes com suas estratégias e metas. Deve-se também fazer reavaliações e, se necessário, revogar critérios antigos. Dessa forma os indicadores de desempenho podem ser um dos princi- pais meios para assegurar o correto funcionamento e gerenciar a mudança na implementação de ferramentas destinadas ao desenvolvimento de uma estratégia de manufatura. Perspectivas do Balanced Scorecard (BSC) O BSC, segundo Prieto et al. (2006), é uma ferramenta que reúne em um único documento, indicadores de performance em quatro perspectivas: fi- nanceira, clientes, processos internos e aprendizado e crescimento. A Figura 4 representa as quatro perspectivas. 50 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade A pr en di za do e c re sc im en to Pa ra a tin gi r n os sa m is sã o, c om o no ss o pe ss oa l de ve a pr en de r, co m un ic ar e tr a- ba lh ar ju nt os ? Objetivos Indicadores Metas Iniciativas Pr oc es so s in te rn os Pa ra c um pr ir a m is sã o, e m q ue pr oc es so s de ve m os se r e xc el en te s? Objetivos Indicadores Metas Iniciativas Fi na nç as Pa ra c um pr ir a m is sã o, c om o de ve m os g er en ci ar os re cu rs os fi na n- ce iro s? Objetivos Indicadores Metas Iniciativas Cl ie nt es Pa ra a tin gi r a m is - sã o es ta be le ci da , co m o de ve m os se r v is to s pe lo s cl ie nt es ? Objetivos Indicadores Metas Iniciativas Vi sã o e Es tr at ég ia (K A PL A N ; N O RT O N , 1 99 7, p . 1 0) Figura 4 – Estrutura do Balanced Scorecard. Estratégia corporativa 51 Essas perspectivas são listadas adiante conforme Kaplan e Norton (1997), Moreira (2002) e Prieto et al. (2006). Perspectiva financeira A perspectiva financeira do BSC representa risco, crescimento e rentabili- dade do negócio na perspectiva do grupo de acionistas. Dessa forma, a pers- pectiva financeira do BSC utiliza os objetivos financeiros tradicionais e busca a elaboração de um plano de negócios que reúne os recursos que deverão ser investidos e o retorno a ser obtido sobre esses investimentos, conectados integralmente à estratégia global da empresa através do mapa estratégico. Dessa forma, esses objetivos financeiros representam os objetivos e as metas de longo prazo a serem atingidos. Monitoram-se os indicadores da empresa para constatar se está efetivamente contribuindo para a melhoria dos resul- tados financeiros. Os objetivos e medidas financeiras desempenham um papel duplo: de- finem o desempenho financeiro esperado da estratégia e servem de meta principal para a definição dos objetivos e medidas das outras perspectivas do Balanced Scorecard. Para operacionalizar essa perspectiva, asempresas trabalham com duas premissas básicas: crescimento da receita e produti- vidade. A primeira irá refletir nas outras perspectivas, no sentido de gerar novas fontes de receita provenientes de novos mercados, novos produtos ou novos clientes ou na ampliação do relacionamento com os clientes exis- tentes. Já a produtividade irá refletir na busca da execução eficiente das ati- vidades operacionais em apoio aos clientes atuais, podendo incluir também a redução de custos. Perspectiva dos clientes A perspectiva dos clientes preocupa-se com a forma pela qual os clientes (internos e/ou externos) analisam e percebem os produtos e serviços ofer- tados. Nessa perspectiva, busca-se agregar valor e diferenciar o produto de acordo com os desejos e necessidades do cliente. Nessa perspectiva a empresa deve determinar seu segmento-alvo de clientes e negócios, e dispor de um conjunto de medidas essenciais para esses segmentos. Pressupõe definições quanto ao mercado e segmentos nos quais a organização deseja competir. A organização deverá traduzir em medidas específicas os fatores importantes para os clientes. A proposta é 52 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade monitorar como a empresa entrega real valor ao cliente certo. Além disso, é preciso identificar o que esses clientes do segmento-alvo valorizam e ela- borar uma proposta de valor a eles. Medições típicas: satisfação dos clientes, aquisição de clientes, retenção de clientes, a lucratividade dos clientes, fide- lidade dos clientes, participação no mercado e índice de reclamações. Perspectiva dos processos internos Essa perspectiva envolve os processos de inovação, operacionais e de serviços pós-vendas. Envolve o trabalho dos processos internos para que os objetivos traçados no mapa estratégico sejam alcançados. Define as priori- dades estratégicas de vários processos de negócio que criam satisfação para os clientes e acionistas. Os indicadores de perspectiva dos clientes e dos acionistas devem ser apoiados por processos internos. Nessa perspectiva, as organizações iden- tificam os processos críticos para a realização dos objetivos das duas pers- pectivas anteriores. Os processos devem criar as condições para que a or- ganização ofereça propostas de valor ao cliente, capazes de atrair e reter clientes nos seus segmentos de atuação e, ao mesmo tempo, criando valor aos acionistas. Perspectiva de aprendizado e crescimento Na perspectiva de aprendizado e crescimento, busca-se identificar a infraestrutura necessária para propiciar o crescimento e melhorias a longo prazo, a qual provém de três fontes principais: pessoas, sistemas e procedi- mentos organizacionais. Os indicadores utilizados nessa perspectiva podem ser relacionados a – lucratividade por funcionário; rotatividade dos funcio- nários; nível de satisfação dos funcionários; tempo de treinamento dos fun- cionários; participação dos funcionários com sugestões para aumentar a lu- cratividade e a produtividade. Empresas em condições de ser cada vez melhores são empresas com ca- pacidade de aprender. A capacitação da organização se dará por meio dos investimentos em novos equipamentos, em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, em sistemas e procedimentos e nos recursos humanos da empresa. Estratégia corporativa 53 Visto de maneira integrada, o Balanced Scorecard traduz o conhecimen- to, habilidades e sistemas que os empregados precisarão (seu aprendizado e crescimento) para inovar e construir as capacidades estratégicas certas e eficientes (processos internos), que entregarão valor específico ao mer- cado (clientes), os quais proporcionarão o aumento do valor ao acionista (financeiro). Causas de fracasso de implantações do BSC em empresas Em pesquisa desenvolvida por Vaal (2003), as organizações com resulta- dos favoráveis na implementação do BSC criaram um melhor senso de ur- gência e melhor comunicação para o gerenciamento da performance. Self (2004) explica, em estudo realizado após uma aplicação do BSC, a importân- cia da cultura organizacional, comentando que o BSC pode indicar proble- mas, mas não revela soluções. Os fracassos ocorrem quando a cultura organi- zacional não está predisposta ao aprendizado contínuo. Baseado em Prieto et al. (2006) e Self (2004) seguem 21 das principais causas: falta de comprometimento da alta administração ou dos executivos; � a organização não está voltada para o aprendizado; � a empresa não possui uma estratégia definida; � se não estiver baseado na estratégia, haverá o risco de subutilização; � problemas na circulação das informações; � medidas mal projetadas; � utilizado no nível organizacional errado; � envolvimento de poucas pessoas; � encastelamento do BSC no topo; � desenvolvimento muito demorado ou muito rápido; � tratamento do BSC como projeto de uma única área; � contratação de consultores inexperientes; � 54 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade implantação apenas para fins de remuneração; � choques com ferramentas ou estratégias administrativas; � medidas definidas de forma diferente por toda a organização; � dificuldade em monitorar as medidas não financeiras; � dificuldade em estabelecer simultaneamente objetivos a curto e lon- � go prazo; dificuldades no acesso e entendimento das informações; � relações de causa e efeito mal estabelecidas; � o BSC adquire um papel secundário nos casos de fusões e aquisições; � interferência sindical. � O BSC, conforme exposto, pode ser uma ferramenta de grande impor- tância para as organizações, caso seja planejada corretamente, contribuindo com a definição e a comunicação dos indicadores entre níveis hierárquicos e setores da empresa, bem como auxiliar na integração de ferramentas de uma estratégia de manufatura. Ampliando seus conhecimentos Uma questão de estratégia Pioneira entre as empresas que adotaram o conceito de responsabilidade social no Brasil, a Natura enfrenta agora o desafio de atender à pressão do mercado de capitais sem perder sua essência (HERZOG, 2008) Embora não existam ainda muitas verdades absolutas quando o assunto é sustentabilidade, estudiosos do tema são unânimes quanto a um raciocínio: uma empresa só é capaz de ajudar a melhorar, de forma efetiva, o caos ambien- tal e social do planeta se levar os preceitos do desenvolvimento sustentável para o cerne de seu negócio. A teoria pode parecer simples, mas colocar essa associação em prática é algo extremamente difícil – e ainda raro. Prova disso é que o americano Michael Porter, um dos mais respeitados gurus de negó- Estratégia corporativa 55 cios do mundo, constantemente critica as grandes companhias por terem duas estratégias – uma econômica e uma de responsabilidade social – quando, na verdade, deveriam ter uma só. Neste ano, pela primeira vez desde seu lança- mento, em 2000, o Guia EXAME de Sustentabilidade decidiu eleger, entre as 20 empresas-modelo, uma vencedora: a Empresa Sustentável do Ano. A escolhida foi a Natura, uma companhia que segue a premissa de Porter como poucas. Única empresa presente entre os destaques das nove edições do anuário, a Natura tem a preocupação com a sustentabilidade impregnada em sua estra- tégia desde a fundação, em 1969, quando lançou seus primeiros cosméticos feitos com ativos naturais. “Acreditamos que os desafios sociais e ambientais não são entraves ao nosso crescimento, mas alavancas para a inovação”, afirma o executivo Alessandro Carlucci, que assumiu a presidência da Natura em 2005, depois que seus fundadores – Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos – deixaram o dia a dia da gestão para fazer parte do conselho de administração. A adoção de refis, ainda na década de 1980, legitima a declaração de Car- lucci. Hoje, cerca de 30% da linha de mais de 800 produtos da Natura tem refil.Essas embalagens consomem, em média, 30% menos matéria-prima que as re- gulares e responderam por 21,3% do total de itens vendidos pela empresa no ano passado. Em 2006, esse índice foi de 19,8%. O aumento de um ano para o outro não se deve apenas a um despertar de consciência por parte dos consu- midores, mas também, aos esforços da empresa, que fez muitas promoções em 2007 para estimulá-los a optar pela embalagem. “Com promoções e descontos no preço, conseguimos aumentar as vendas do refil”, diz José Vicente Marino, vice-presidente de marketing e vendas da operação brasileira da Natura. O es- forço dos executivos para aumentar as vendas desse tipo de produto é estimu- lado também pelo sistema de remuneração variável da Natura. Desde 2003, quando implantou um sistema de gestão da responsabilidade corporativa em todas as suas áreas, a companhia determinou o cumprimento de metas sociais e ambientais. Uma das metas de 2008, por exemplo, é que o percentual de refis vendidos seja equivalente a 18,5% do volume total da empresa (até o final de setembro, esse objetivo vinha sendo cumprido com folga). As metas “verdes” abrangem outras iniciativas relacionadas diretamente ao negócio. Uma delas, iniciada em 2005, foi batizada internamente de “vegeta- lização dos produtos”. Na época, a Natura substituiu a base dos sabonetes, de gordura animal, por uma de origem vegetal. A medida não só conferiu mais cremosidade aos produtos como cortou seu vínculo com o sacrifício de ani- mais. O processo teve continuidade no ano passado, quando o óleo mineral, de 56 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade origem fóssil, foi substituído pelo vegetal em todos os óleos de corpo da marca. O principal desafio das trocas foi adequar as fórmulas dos produtos para que o novo ingrediente não os tornasse menos eficientes, seguros ou atraentes para o consumidor. A vegetalização do óleo Sève, por exemplo, um dos mais tradi- cionais e antigos da marca, consumiu um ano e meio de pesquisas. Para este ano, a meta é substituir o álcool normal por orgânico em todos os produtos. O álcool orgânico é mais caro que o convencional, mas a certificação dá à Natura a certeza de que ele foi produzido de acordo com boas práticas ambientais. Segundo a empresa, as mudanças nas fórmulas não aumentaram o preço dos produtos. Todas essas iniciativas ganharam relevância ainda maior em meados de 2007, quando a companhia anunciou um plano para se tornar “carbono neutro” até o final deste ano. Diferentemente do que o termo passou a significar para a maioria das empresas, a decisão da Natura não implica simplesmente sair plantando milhares de árvores – embora ela esteja financiando um projeto de reflorestamento para neutralizar parte de suas emissões. O que chamou a aten- ção dos especialistas foi o compromisso de reduzir 33%, até 2010, as emissões diretas não só de sua operação, mas de toda a sua cadeia produtiva – da extra- ção da matéria-prima ao descarte do produto. Uma das principais iniciativas da empresa nesse sentido foi colocar em funcionamento um projeto piloto de logística reversa nas cidades de Recife e São Paulo, em março de 2007. Na práti- ca, a Natura está convencendo suas consultoras a ajudá-la numa tarefa compli- cada: coletar as milhares de embalagens da marca descartadas diariamente e encaminhá-las para cooperativas de reciclagem. Em 2007, o programa coletou cerca de 90 toneladas de resíduos – um volume ainda considerado desprezível pela empresa. Aos poucos, o projeto deverá ser expandido para todo o país, alcançando as 632 000 consultoras da Natura. Com isso, no futuro, a ideia é que seja possível descontar, no cálculo das reduções de emissões da empresa, as toneladas de embalagens recicladas. A dificuldade de levar a cabo o programa de logística reversa só é superada por outro desafio: tirar do papel os sonhos que a empresa tem para sua sa- boaria em Benevides, no Pará, única unidade industrial da Natura fora de São Paulo. Benevides, como é chamada internamente, começou a ser idealizada em 2003 com dois propósitos. O primeiro era marcar a presença da Natura na Amazônia, região de onde ela extrai grande parte dos ativos naturais usados em sua linha de produtos mais conhecida, a Ekos. Além disso, a presença no local daria à empresa a oportunidade única não só de ganhar dinheiro, mas Estratégia corporativa 57 também, de gerar renda para mais de 2 000 famílias carentes espalhadas em 27 municípios próximos à sua fábrica. Inicialmente, o plano previa que a Natura fizesse o noodle, massa vegetal que responde por 90% da composição do sabo- nete da companhia, usando 100% de óleo de palma fornecido pela Agropalma, empresa sediada no Pará. A previsão era que, aos poucos, a matéria-prima da Agropalma fosse substituída pelos óleos de uma dezena de outros frutos, tais como o murumuru e a copaíba, que seriam fornecidos por famílias da região. “Benevides era o grande projeto de base da pirâmide da Natura”, afirma um ex- -executivo da empresa. O que explica o uso do verbo no passado é o fato de que as coisas não caminharam exatamente como planejado. A entidade que seria o principal elo da companhia com as comunidades extrativistas, a Coo- perativa Nova Amafrutas, faliu em novembro de 2006, seis meses antes de a Natura inaugurar a saboaria. Sem a parceira, a empresa passou a se relacionar diretamente com as comunidades extrativistas para estruturar sua cadeia de fornecimento. Além disso, a sede abandonada da Nova Amafrutas, localizada num terreno ao lado do da Natura, passou a ser alvo de uma série de invasões. Para Guilherme Leal, copresidente do conselho de administração da Natura e um de seus fundadores, o sonho de Benevides foi atropelado, mas não acabou. “É um projeto muito ambicioso, e não tenho dúvidas de que será bem-sucedi- do a longo prazo”, afirma. A expectativa da companhia é que os primeiros re- sultados da iniciativa comecem a aparecer em 2009. “A partir do ano que vem, vamos colocar no mercado sabonetes especiais com óleos produzidos pelas famílias extrativistas de Benevides”, afirma Paulo Lalli, vice-presidente de ope- rações e logística da Natura. Ainda que a atuação da Natura esteja permeada de ideais (ou, para usar o linguajar de seus próprios executivos e funcionários, de “crenças e valores nobres”), a empresa não está protegida contra críticas relacionadas a sua estra- tégia de sustentabilidade. Muito menos ao seu desempenho financeiro. Pelo menos por enquanto, o mercado de capitais está pouco interessado em saber sobre o andamento da unidade de Benevides ou sobre o percentual de mate- rial reciclado usado nas embalagens. “Não acompanho o desempenho socio- ambiental”, afirma a analista Daniela Bretthauer, do banco Goldman Sachs, que cobre a Natura. Para analistas como Daniela, o que interessa é saber se a Natura, que faturou 4,3 bilhões de reais em 2007, conseguirá cumprir a meta de aumen- tar em 23% sua margem obtida em 2008. O indicador é um dos mais usados pelo mercado para medir a rentabilidade de uma empresa – e o da Natura re- gistrou queda nos últimos dois anos. Interessa também saber se a companhia 58 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade será capaz de recuperar o vigor de seus papéis – nos últimos 24 meses, as ações da Natura caíram 32,7%. “Quem quer ser sustentável deve estabelecer limites para seu crescimento. E, uma vez no mercado de capitais, ela não vai conseguir fazer isso”, diz Giovanni Barontini, coordenador da filial brasileira do Carbon Disclosure Project, iniciativa internacional criada por investidores institucionais para incentivar as empresas a divulgar informações sobre suas políticas relacio- nadas às mudanças climáticas. A medida sugerida pelo consultor foi adotada, por exemplo, pela americana Patagonia, fabricante de roupas e acessórios para a prática de esportes radicais,como alpinismo e surfe, com faturamento anual de quase 300 milhões de dólares. O fundador da empresa e hoje presidente do conselho de administração, Yvon Chouinard, é categórico ao afirmar que não pretende abrir o capital da Patagonia. Apesar das críticas, Leal acredita que a abertura de capital foi uma decisão acertada e não atrapalhará os propósitos da Natura de espalhar as ideias que, até hoje, nortearam sua gestão. “Poderia tentar mudar o jogo estando fora do campeonato, fora do mercado de capitais, mas meu poder de influência seria menor.” Atividades de aplicação 1. Conceitue visão e missão, bem como o valor que elas têm para o pro- cesso de administração estratégica. 2. Como as cinco forças, na análise da concorrência de determinado se- tor, podem influenciar no seu potencial de lucro? 3. Em relação à matriz SWOT, qual das alternativas pode ser considerada uma força da organização? a) A cultura, as crenças e os valores dos consumidores. b) A disponibilidade de recursos financeiros, materiais e humanos. c) Concorrentes com dificuldades. d) Gestão centralizada e baixa flexibilidade. Cultura, 5Ss, T&D e padronização Neste capítulo serão vistos os elementos básicos para o desenvolvimento das diretrizes estratégicas: cultura organizacional, a ferramenta educacional 5Ss, o Treinamento e Desenvolvimento (T&D), e os conceitos básicos sobre a padronização das atividades, processos, produtos e serviços. Cultura organizacional A cultura organizacional dá forma à visão dos fundadores de uma empre- sa. Os primeiros valores servem para orientar e influenciar a administração em vigor. Por exemplo, basta pensar na imagem do inventor da lâmpada Thomas Edison, trabalhando até tarde da noite, para se entender grande parte da dedicação dos funcionários atuais à empresa que ele fundou, a Ge- neral Electric ou na imagem do carteiro, que não permite que nem a chuva, a neve, o granizo ou a escuridão da noite o impeçam de entregar a cor- respondência. A dedicação de Edison e a perseverança dos primeiros car- teiros continuam a influenciar os trabalhadores de hoje. Esses valores são chamados de valores centrais de uma cultura organizacional (MONTANA; CHARNOV, 2003, p. 82). Cultura organizacional é um sistema de valores, crenças, costumes, normas e hábitos compartilhados, que tornam uma empresa única. Algumas vezes denominada cultura corporativa, por refletir o ambiente interno e particular de cada organização sendo um elemento crítico que deve ser gerenciado, e que para gerenciar essa cultura é necessário primeiro entendê-la e, então, de- terminar como esta pode efetivamente contribuir, senão sustentar, a estraté- gia adotada pela organização. Para a mudança da cultura organizacional são envolvidos cinco aspectos, segundo Silva (2004, p. 424): Nivelamento das normas atuais � – etapa em que são listadas as normas vigentes (comportamentos esperados da organização) que os partici- pantes acreditam que corretamente influenciam suas atitudes e ações. Esse processo é estabelecido em grupos de empregados ou represen- tantes de grupos, que buscam as normas que revelam impacto negati- vo sobre a eficácia da cultura. 62 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Articulação de novas direções – etapa em que os membros do grupo � discutem a direção atual da organização e os comportamentos que são necessários para o sucesso organizacional. Estabelecimento de novas normas – etapa em que os membros do � grupo desenvolvem uma lista de novas normas que teriam um impac- to positivo na eficácia da organização. Identificação de fendas culturais – envolve a identificação das áreas nas � quais existe uma grande diferença (fenda cultural) entre as normas reais e aquelas que influenciam positivamente a eficácia organizacional. Fechamento das fendas culturais – etapa que vincula o acordo sobre � as novas normas e projeta os meios de reforçá-las, tais como o estabe- lecimento de sistemas de recompensas que encorajam os membros a seguirem novas normas culturais. Esses passos listados podem ser um processo útil e eficaz somente quando acompanhados pela alta direção da organização. Há vários elementos que afetam a cultura organizacional que, como visto, é um complexo sistema de valores da organização, refletindo assim uma cultura organizacional. Os ele- mentos que afetam a cultura são: comunicação, objetivos, responsabilidade, benefícios, participação, criatividade, liderança, motivação, reconhecimento, padrões de qualidade, experiência, normas e ações compartilhadas, entre outros. Com o objetivo de elucidar a cultura organizacional Caravantes et al. (2005) observa três fatores básicos para a cultura de uma organização, divi- didos em fatores determinantes, componentes e consequências. A Figura 1 representa esses fatores, tendo como consequência a eficácia organizacio- nal, as guias para efetivar as ações, e o ambiente adequado para o desenvol- vimento de diretrizes estratégicas. – Valores – História – Visão – Missão – Experiências compartilhadas – Histórias compartilhadas – Crenças compartilhadas – Normas compartilhadas – Ações compartilhadas – História – Visão – Eficácia organizacional – Guias para ação – Ambiente para implantar diretrizes (CA RA VA N TE S, 2 00 5, p . 4 98 . A da pt ad o. ) Figura 1 – Fatores básicos da cultura organizacional. Determinantes Componentes Consequências Cultura, 5Ss, T&D e padronização 63 Para detectar uma primeira impressão da cultura organizacional de uma empresa, basta perguntar a um funcionário: Você gosta de trabalhar aqui? Por quê? Um funcionário motivado e contente é sinônimo, na maioria das vezes, de uma cultura organizacional adequada para se implementar ferra- mentas como o desdobramento das diretrizes. Conforme visto, a cultura organizacional é um dos pré-requisitos para o desenvolvimento de melhorias através do desdobramento de diretrizes es- tratégicas, sendo completado com a ferramenta educacional 5Ss, o treina- mento e desenvolvimento e a padronização das atividades. 5Ss Também chamado de Housekeeping (casa limpa), o 5Ss foi elaborado como sendo uma ferramenta de trabalho que permite desenvolver um pla- nejamento sistemático de classificação, ordem e limpeza, permitindo de ime- diato maior produtividade, segurança, clima organizacional, motivação dos funcionários e consequente melhoria da competitividade da organização. O 5Ss é uma ferramenta importante para melhoria contínua, porque assegura limpeza no lugar de trabalho. A ordem e organização devem estar ao coração de qualquer iniciativa de melhoria contínua. Terra (1996, p. 1) comenta que o 5Ss apresenta algumas semelhanças com a campanha do Sugismundo no Brasil, na qual se dizia que “Povo limpo é povo desenvolvido”. Infelizmente, a campanha brasileira não vingou, ao contrário do que ocorreu no Japão. Osada (1992, p. 11) comenta da importância e do esforço para implemen- tação do 5Ss em toda empresa por todos os funcionários: “não se pode dizer apenas aos operários da fábrica que implementem, mas também a gerência deve fazer a sua parte”. A nomenclatura 5Ss deve-se às iniciais de palavras japonesas que iniciam com S e representam as cinco etapas de implantação (em português são chamados geralmente de sensos). Seiri: utilização, seleção A atividade a ser executada na primeira etapa é a identificação de mate- riais, equipamentos, ferramentas, utensílios. Avaliar as informações e dados 64 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade necessários e desnecessários, descartando ou dando a devida destinação àquilo considerado sem utilidade ao exercício das atividades. Seiton: organização, ordenamento, sistematização, arrumação A segunda etapa é a definição dos locais apropriados e critériospara es- tocar, guardar ou dispor materiais, equipamentos, ferramentas, utensílios, informações e dados (inclusive em meio eletrônico) de modo a facilitar o seu uso e manuseio, facilitar a procura, localização e guarda de qualquer item no interior de um ambiente organizacional. Popularmente significa: cada coisa no seu devido lugar. Seiso: limpeza, inspeção, zelo Esta terceira etapa é referente à eliminação de sujeira ou objetos estranhos para manter limpo o ambiente (paredes, armários, o teto, gavetas, estantes, tubulações, máquinas, piso etc.) bem como manter dados e informações atualizados (inclusive em meio eletrônico) para garantir a correta tomada de decisões no momento apropriado. Nesse senso são desenvolvidas listas de verificação de locais e equipa- mentos. Um conceito importante nessa etapa do 5Ss não é o ato de limpar, mas o ato de não sujar . Isso significa que além de limpar é preciso identificar a fonte de sujeira e as respectivas causas, de modo a evitar que isso ocorra (bloqueio das causas). Seiketsu: asseio, padronização, saúde, higiene, aperfeiçoamento A quarta etapa significa criar condições favoráveis à saúde física e mental, garantir ambiente não agressivo e livre de agentes poluentes, manter boas condições sanitárias nas áreas comuns (lavatórios, banheiros, cozinha, res- taurante etc.), zelar pela higiene pessoal e cuidar para que as informações e comunicados sejam claros, de fácil leitura e compreensão. Cultura, 5Ss, T&D e padronização 65 Shitsuke: disciplina, autocontrole, educação, autodisciplina A última etapa da ferramenta desenvolve o hábito de observar e seguir normas, regras, procedimentos, atender especificações, sejam elas escritas ou informais. Esse hábito é o resultado do exercício da força mental, moral e física. Poderia ainda ser traduzido como desenvolver o querer de fato, ter vontade de, e se predispor a. Aplicação e implantação do 5Ss Segundo o IPEM-SP (2006) a ferramenta 5Ss demonstrou ser tão eficaz enquanto reorganizador das empresas e da própria economia japonesa que, até hoje, é considerado uma das principais ferramentas de gestão da quali- dade e produtividade utilizada naquele país. Ainda para o mesmo instituto, o programa denominado educacional foi desenvolvido com o objetivo de transformar o ambiente das organizações e a atitude das pessoas, melhoran- do a qualidade de vida dos funcionários, diminuindo desperdícios, reduzin- do custos e aumentando a produtividade das instituições. A implantação do 5Ss em uma fábrica torna-se em curto espaço de tempo visível, pois rapida- mente mostra algumas realizações e resultados. Osada (1992) descreve atividades relacionadas à implementação da fer- ramenta 5Ss em uma empresa. Definir e desenvolver a liderança na implementação. Ter uma pessoa � que domine a ferramenta e se dedique em tempo integral, ao menos no início do programa, para estudo e aplicação. Definir o prazo para implementação. Caso, por alguma razão, não se � puder cumprir com o cronograma de implantação, o programa deve ser retomado no ponto que ocasionou a descontinuidade. Promover a educação e o treinamento. Divulgação através de cartazes, � convidando os funcionários para participação. Desenvolvimento das atividades nos locais de trabalho. Criar mapas � de responsabilidades 5Ss e manuais de acompanhamento. Recomen- 66 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade da-se, nessa etapa, motivar permanentemente para que não decaia o ânimo e entusiasmo dos trabalhadores. Realizar auditorias permanentes para dar seguimento apropriado e � desenvolver indicadores. Recomenda-se, nessa etapa, continuar com a ferramenta 5Ss como início de um processo de melhoria contínua, onde as aplicações de ferramentas sucessivas na empresa permitam melhorar a qualidade e a produtividade. É indispensável que a alta gerência assuma a liderança do processo; ela precisa motivar as pessoas e dar o exemplo. Além disso, para o desenvolvi- mento do 5Ss é recomendada a criação de uma comissão que coordenará todo o processo, inclusive levando adiante as primeiras ações relativas ao programa, as quais servirão de exemplo para toda a empresa. Aconselha-se, ainda, que o programa tenha abordagem gradualista, ou seja, implementan- do aos poucos, a cada resultado positivo, etapa a etapa, pois: as pessoas ficam, inevitavelmente, cansadas e sujas quando limpam e � organizam o local de trabalho; a conscientização não apenas ocorre por meio de discursos e reuniões � mas, também, através de ações; é muito difícil envolver a todos ao mesmo tempo. Assim, alguns seto- � res da empresa podem servir de exemplo para outros. Os benefícios da consolidação do 5Ss são atingidos após algum tempo de implantação do programa. Como exemplo de melhorias, pode-se citar ( TRINDADE, 2005): melhora do ambiente de trabalho; � otimização do tempo das pessoas; � aumento da produtividade; � redução dos desperdícios e custos; � redução dos riscos de acidentes; � aumento da participação, qualidade de vida e satisfação das pessoas; � contribuição para preservação do meio ambiente; � melhora na imagem da organização perante os clientes; � Cultura, 5Ss, T&D e padronização 67 melhora no aproveitamento de recursos (pessoas, espaço, tempo, ma- � teriais, equipamentos etc.). O 5Ss apresentam resultados através de formas mais convenientes com trabalhadores que se orgulham do que fazem, como diminuição do tempo de manutenção, maior produtividade e qualidade. O 5Ss pode, portanto, fornecer um ambiente favorável à operacionali- dade de outras ferramentas e operacionalização de estratégias através da atitude, educação e da prática dos cinco sensos. Os resultados podem ser a redução de perdas de materiais, tempo de paradas de máquina, índices de acidentes, melhora na qualidade do ambiente de trabalho, entre outras melhorias significativas. Treinamento e Desenvolvimento (T&D) A palavra treinar é derivada do francês traîner e significa exercitar-se para competições desportivas; adestrar; acostumar. A palavra treinamento, por sua vez compõe-se de treinar + mento, sendo que mentor significa pessoa que aconselha, ensina ou guia (SILVEIRA, 2004). A necessidade de avaliar o desempenho e desenvolver treinamento em organizações surgiu de forma sistemática no início do século XX, com o ob- jetivo de avaliar e incrementar a produtividade do trabalhador a partir de uma análise científica, e com o crescimento das relações humanas, um esfor- ço combinado do teórico e prático, tornou-se possível sensibilizar gestores sobre as necessidades e a satisfação dos funcionários em aplicar a avaliação e o treinamento (RESENDE et al., 2004). Frederick W. Taylor foi talvez o pai do treinamento, pois foi o pioneiro na documentação dos elementos do trabalho para que as pessoas pudessem ser treinadas para executar as atividades com eficiência, minimizando as variações do processo. Segue exemplo da importância do treinamento em uma passagem da Segunda Guerra Mundial: Hitler tinha certeza de que os Estados Unidos não poderiam desempenhar um papel sério na Segunda Guerra Mundial. Hitler sabia que no mar, no ar e em terra, a guerra depende muito da óptica para definição do alvo preciso. Comparou a grande força alemã de técnicos altamente habilitados em óptica com sua inexistência nos Estados Unidos, mas este em detrimento do início da Segunda Guerra, com velocidade surpreendente, desenvolveu treinamento maciço em tecnologia óptica proporcionando à indústria as habilidades técnicas necessárias, e logo começou a surgir equipamento bélico de alta precisão norte-americano. (SCHONBERGER, 1996, p. 152) 68 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Treinamento e Desenvolvimento pode ser definido como um conjunto de ações organizacionais, intencionalmentedesenhadas para promover apren- dizagens dos trabalhadores, visando melhoria de desempenhos e crescimen- to pessoal, sendo necessário, para isso, a aquisição sistemática de atitudes, conceitos, conhecimentos, regras ou habilidades que resultem na melhoria do desempenho no trabalho, obtidos por meio da análise de tarefas e princí- pios da tecnologia instrucional. O treinamento e desenvolvimento auxiliam o empregado a adquirir eficiência no seu trabalho presente ou futuro, atra- vés de apropriados hábitos de pensamento (CAMPOS et al., 2004). Ishikawa (1986) comenta que a qualidade começa e termina com educa- ção. O termo educação é destinado à preparação da pessoa para o ambiente dentro ou fora do trabalho, ou seja, a longo prazo; já o treinamento é um processo educacional de curto prazo aplicado de maneira sistemática e or- ganizada através do qual as pessoas aprendem conhecimentos, habilidades e competências em função de objetivos definidos. O treinamento envolve a transmissão de conhecimentos específicos relativos ao trabalho do dia a dia e às atitudes frente a aspectos da organização. Conceitualmente, o treinamento é considerado um processo educacional sistemático e organizado, por meio do qual as pessoas mudam o seu com- portamento, adquirindo conhecimentos específicos, desenvolvendo habili- dades e modificando atitudes (ESCULÁPIO, 2003): conhecimentos (informação, saber o quê, saber o porquê); � habilidades (técnica, capacidade, saber como); � atitudes (querer fazer, identidade, determinação, convicção). � Muitas organizações têm questionado a eficácia das ações de treinamen- to, buscando avaliar o retorno de seus investimentos nessa área. No entanto, o uso do treinamento é uma importante alternativa para a mudança de ati- tudes, conhecimentos ou habilidades necessárias ao desempenho adequado do capital humano na empresa. Importância do treinamento É notória a importância do treinamento nas organizações. Não treinar pessoas quando admitidas em um emprego e durante a permanência do tra- balhador em uma empresa é um grande erro. Deming (1990) dá grande im- Cultura, 5Ss, T&D e padronização 69 portância ao treinamento das pessoas em ambiente organizacional para que façam bem seu trabalho, mas há requisitos necessários da organização, pois quando a empresa está em estado de caos (má chefia, má administração, inexistência de padrões, cultura organizacional inadequada com ambientes desorganizados), é impossível, para qualquer um dentro da organização, de- senvolver sua capacidade real e potencial de trabalhar de maneira uniforme ou em favor da qualidade. O treinamento funciona como o principal catalisador da mudança da gestão de pessoas nas organizações, confrontando o desempenho passado e atual com novos patamares que se pretende alcançar no futuro, o mesmo autor comenta, ainda, que a capacitação contínua das pessoas para níveis cada vez mais elevados de desempenho deve ser incentivada, pois a busca da excelência e da perfeição deve ser uma jornada infinita, tanto das pes- soas, quanto das organizações. A superação do despreparo em todos os níveis organizacionais poderá, portanto, ser equacionada por meio do trei- namento e desenvolvimento pessoal. Campos et al. (2004) justifica que o treinamento vem sendo utilizado pelas empresas com o objetivo geral de desenvolver pessoas, tanto na aprendizagem de novas habilidades quanto na ampliação daquelas já existentes, uma vez que as pressões socioculturais, tecnológicas, econômicas e políticas direcionam as organizações contempo- râneas a se adaptarem às exigências que o mercado impõe, focando mais intensamente seu capital humano. Chiavenato (2004) complementa os ob- jetivos do treinamento: preparar as pessoas para execução imediata das diversas tarefas do � cargo; proporcionar oportunidades para o contínuo desenvolvimento pes- � soal, não apenas em seus cargos atuais mas, também, para outras fun- ções mais complexas; mudar as atitudes das pessoas, seja para criar um clima mais satisfa- � tório entre elas ou para aumentar-lhes a motivação e torná-las mais receptivas às novas estratégias organizacionais. A importância do treinamento e desenvolvimento envolve as dimensões da produtividade, das relações e da qualidade. Do ponto de vista da produti- vidade, procurando atingir as metas e os melhores resultados tanto pessoal quanto da organização, do ponto de vista das relações, estabelecendo vín- culos e a boa comunicação, inspirando e motivando os funcionários a fazer 70 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade emergir o melhor deles e da organização e, finalmente, do ponto de vista do desenvolvimento da qualidade, auxiliando indivíduos e organizações a preencherem demandas e expectativas da qualidade global da empresa (SILVEIRA, 2004). Sousa (2001) complementa que, com treinamento adequa- do, as equipes de trabalho podem atacar problemas complexos e crônicos, descobrindo soluções eficazes e permanentes. A prática do treinamento e desenvolvimento proposta por Silveira (2004), se ajusta com a citada por Esculápio (2003), e podem ser resumidas em três pontos: preparar profissionais para atividades técnicas ou gerenciais novas, ou � mais complexas que as outras. melhorar o desempenho nas atividades técnicas ou gerenciais já � exercidas. sensibilizar, conscientizar, promover aprendizagem tanto em relação a � aspectos técnicos quanto a comportamentais ou atitudinais. O treinamento em habilidades técnicas fornece uma maneira lógica e eficaz de uma organização manter e ampliar suas competências e capacida- des coletivas, fundamentais na alavancagem rumo ao domínio das novas e futuras tecnologias. Desenvolver habilidades de percepção dos novos desa- fios edifica a prática do pensamento crítico e altera gradativamente a cultura da organização em lidar com o novo (LACERDA; ABBAD, 2003). Aplicação do treinamento e desenvolvimento Há três etapas para o processo de treinamento: diagnosticar, planejar, executar e avaliar. Resende (2004) sugere a descrição e análise de cargos e avaliação de desempenho como passos para o diagnóstico e planejamento. Chiavenato (2004) complementa: solicitação direta ou entrevistas com coordenadores, supervisores e � gerentes; exames de seleção; � entrevista de saída; � relatórios ou questionários da empresa ou de produção. � Cultura, 5Ss, T&D e padronização 71 De forma diferenciada Campos et al. (2004) delineiam as etapas neces- sárias para a realização de um treinamento: verificar condições antecedentes ao treinamento (características indi- � viduais, motivação para treinamento, precondições ambientais); métodos de treinamento e estratégias instrucionais (ex.: aprendiza- � gem específica, tecnologia de ensino e treinamento a distância, jogos e treinos baseados em simulação, equipes de treinamento); condições pós-treinamento (avaliação do treinamento e transferência � de treinamento – manutenção e generalização do comportamento). Chiavenato (2004) comenta que o levantamento das necessidades de treinamento é uma forma de diagnóstico que deve basear-se em informa- ções agrupadas sistematicamente provenientes das necessidades de im- plantação de novas estratégias e ferramentas. Lacerda e Abbad (2003) com- plementam citando a importância e influência da cultura organizacional no levantamento das necessidades de treinamento. A realização de programas de treinamento esporádicos não conduz ao desenvolvimento de um clima de envolvimento e comprometimento com os objetivos globais da empresa, o investimento em treinamento será sempre insatisfatório, uma vez que os resultados de treinamentos esporádicos serão, na maioria dos casos, insufi- cientes para justificar os gastos incorridos. Empresas que aplicaram programas de treinamento A empresa automotiva estudada por Aranha(2003) divide os conteúdos do treinamento em formação básica, gerencial e comportamental. Comenta ainda que o padrão internacional é de 80 horas de treinamento por funcio- nário por ano, e utiliza os seguintes passos para formatação do treinamento, que chama de articulada e contínua: análise das necessidades de formação (organizacionais, profissionais � e pessoais); projeção dos percursos de aprendizagem; � planejamento dos interventos de formação; � operacionalização; � avaliação dos resultados. � 72 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Estudo desenvolvido em 300 empresas do estado de São Paulo, com mais de 100 funcionários, indicaram pouco controle dos gastos em trei- namento, visto que 44% das empresas não têm conhecimento do valor investido nessa área. 70% das organizações relatam analisar sistematica- mente as necessidades de treinamento, enquanto 73% destas controlam a eficiência. A avaliação é feita de forma informal, em 50% das empresas ana- lisadas. As futuras necessidades de treinamento se encontram nas áreas de administração de negócios e estratégia (12,2%) e de gerenciamento de pessoal e supervisão (11,7 %). Apesar de muitas empresas detectarem a necessidade da aprendizagem de novas habilidades, os recursos investidos em treinamento ainda são pouco sistematizados e requerem maior aten- ção (CAMPOS et al; 2004). Outro estudo desenvolvido com 298 trabalhadores de várias organizações do Distrito Federal mostra que a metade da amostra (50%) tinha ao menos o Ensino Médio completo, seguido de Curso Superior completo (32%). A média de idade dos participantes foi de 31,4 anos. O tempo médio de experi- ência profissional foi de 12 anos. Os participantes relataram uma experiência média de 11,1 treinamentos realizados durante sua vida profissional. Sobre essa última questão é importante ressaltar que nenhum participante relatou que não teve experiência com treinamentos. Essa variável indica que existe uma grande variação nos relatos da amostra sobre o número de treinamen- tos realizados mas, de forma geral, a grande maioria tem relativa experiência com treinamentos (PILATI; ANDRADE, 2005). Alguns estudos como o de Marco (2003) mostra a falta de planejamento e preparação para o treinamento. A pesquisa foi desenvolvida sobre treina- mento com 40 gestores, cujo principal papel era identificar as empresas para formar uma rede e dar o suporte administrativo e de secretaria para aquelas que formavam. Como avaliação do programa, o autor concluiu que o custo foi alto para os resultados obtidos, pois, passados três anos do término do programa, 75% das redes não existiam mais. As organizações participantes da pesquisa mostraram que mais de dois terços das empresas consideravam que tiveram uma boa experiência de aprendizado, mas poucas tiveram um impacto financeiro com a participação na rede. As principais razões desses resultados foram atribuídas ao tempo curto das fases de planejamento e preparação, à ineficácia do treinamento dos gestores e ao fato da iniciativa não estar suficientemente direcionada para as necessidades das empresas. Cultura, 5Ss, T&D e padronização 73 A Confederação Nacional das Indústrias (CNI, 2006) comenta que, em 2003, o percentual de empresas que treinaram seus empregados no local de trabalho, por porte de empresa, foi 75% entre as micro, 88% entre as pe- quenas, 96% entre as médias e 99% entre as grandes empresas. Para que um plano de treinamento tenha êxito, é necessário que seja considerada, de fato, vital e imprescindível para o desenvolvimento da organização, com apoio total e irrestrito da alta administração. As técnicas de treinamento têm influência sobre a formação do víncu- lo dos empregados com a empresa, conforme os efeitos do sentimento de competência pessoal que os empregados novos apresentam ao desempe- nhar uma tarefa requisitada. Práticas de recrutamento e seleção, que devem ser rigorosas, apontam as tendências para o sentimento de compromisso, procurando técnicas que identifiquem os candidatos propensos à assiduida- de, ao bom desempenho e à permanência na empresa. Como visto, os programas de treinamento têm se tornado uma impor- tante ferramenta para alavancar a competitividade das empresas. É comum observar que, quando as organizações atravessam crises financeiras, parce- las significativas dos cortes nos investimentos estão relacionadas com a área de treinamento. Essa situação é, em grande parte, decorrente da dificulda- de com a avaliação através de indicadores relacionados aos benefícios gera- dos pelos treinamentos. Dessa forma, os estudos nas áreas relacionadas às ações para aumentar a transferência do aprendizado desenvolvem-se para proporcionar o aumento da efetividade dos programas de treinamento, uma vez que as pessoas, mesmo sem instrução formal a respeito, tendem a perceber que tais ações possibilitam a aplicação do aprendido (PILATI; ANDRADE, 2005). Há avanços nas pesquisas, sobre treinamento, descreven- do a respeito da identificação de fatores como cultura organizacional, que afetam a eficácia de treinamentos em ambientes empresariais, no entanto, são poucas as evidências de que as organizações estejam realmente apli- cando os resultados de pesquisas científicas na elaboração de seus progra- mas de treinamento. O Treinamento e Desenvolvimento vai além de ser uma vantagem competitiva, é elemento chave de qualquer estratégia adotada, sendo que é com o fator treinamento que se inicia uma bem-sucedida estraté- gia empresarial. 74 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade O ser humano, se considerado como fator de produção, é o elemento capaz de criar vantagens competitivas nas organizações. Dentre todos os fatores produtivos utilizados na geração de bens e serviços, como capital, matérias-primas e tecnologias (máquinas), este é o único que tem a força da criação e motivação. Portanto, da habilidade, conhecimento, motivação, e capacidade de inovação é que irá depender o sucesso na identificação e gerenciamento da melhor função de produção. Pessoas e sua capacidade de utilizar o conhecimento são a mais importante vantagem para a competiti- vidade (CARON, 2003). Como se pode observar, a produtividade, e consequentemente a compe- titividade, é uma causa a ser conquistada pela força de trabalho inteligente, talentosa e bem formada. A produtividade é consequência de informações e conhecimentos desenvolvidos e aplicados no sistema produtivo. O sucesso de uma organização é conquistado com pessoas capazes e comprometidas com seu próprio sucesso e com o sucesso da organização na qual atua. As informações aqui reunidas buscam demonstrar o quão amplo e com- plexo pode ser o universo do treinamento, sua importância para as organiza- ções e sua relação direta com o desdobramento das diretrizes estratégicas. Diante disso, compreende-se que diversos fatores devem ser conside- rados quando a questão do treinamento e desenvolvimento está em foco. Atenção especial parece ser dada às reais necessidades de treinamento em consonância às outras ferramentas adotadas, uma vez que são de suma im- portância para o êxito de metas organizacionais. Padronização Até 1990 pouquíssimas empresas brasileiras dispunham de padronização de tarefas, para não falar de processos. Houve, então, um grande esforço na- cional nesse sentido e, embora ainda haja um longo caminho a ser percor- rido, hoje já se pode dizer que as grandes e médias empresas brasileiras são razoavelmente gerenciadas (CAMPOS, 2004). Padronização, para Imai (2005), é um conjunto de planos de ação, normas, diretrizes e procedimentos, criado pela administração para todas as princi- pais operações e serve como regra, permitindo que todos os empregados executem as tarefas com sucesso. Cultura, 5Ss, T&D e padronização 75 A padronização é para seter certeza de que todos saibam o que fazer e como fazer durante todo o processo, estabelecendo um procedimento por escrito mostrando claramente quais são os passos a seguir. Por exemplo, um procedimento de recebimento de materiais contempla atividades de confirmação da existência de pedido de compra, a quantidade especificada pelo pedido, a verificação das especificações do material contra os padrões definidos para este, o processo de preenchimento de formulários que irão informar a organização, e assim, todo o processo de recebimento passa a ser padronizado e sempre será repetido da mesma forma. Os procedimentos são necessários sempre que uma atividade é crítica para a qualidade, seja ela qual for. Uma vez identificada a atividade, esta é padronizada na forma de procedimento escrito ou de um fluxograma de processo (que pode substituir o procedimento), e seu andamento é periodi- camente auditado, para se ter certeza de que a atividade crítica será sempre efetuada na forma como foi planejada. Há situações que, mesmo uma ativi- dade não sendo crítica para a qualidade, há a necessidade do desenvolvi- mento de um procedimento. Por exemplo, uma empresa detectou reclama- ções de fornecedores em relação ao atendimento telefônico inadequado e demorado na empresa. A ação a ser tomada após análise criteriosa do pro- blema é um procedimento-padrão, com regras definidas de forma e tempo de atendimento. Existe, assim, uma hierarquia de regras. O nível maior é um documento denominado Manual da Qualidade com regras gerais da empresa. Os proce- dimentos que refletem o Manual da Qualidade e as Instruções de Trabalho ajudam o executor por meio de informações operacionais adicionais. Procedimentos operacionais Instruções de trabalho Manual da qualidade O a ut or . Figura 2 – Estrutura para padronização. As diretrizes gerais do manual da qualidade procuram cobrir os principais pontos críticos que influem na qualidade dos processos de uma empresa. Como, por exemplo, a responsabilidade da alta administração, a organiza- ção e o rigor burocrático na cópia dos procedimentos para a certificação de 76 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade que não existe documento obsoleto sendo seguido, a auditoria interna, o acompanhamento das disposições de materiais e produtos não conformes, a verificação formal de que todos os participantes do processo entendem a política de qualidade da empresa e a seguem, e outros pontos vitais descri- tos detalhadamente na norma. A filosofia básica é a de se idealizar um padrão, um conjunto coerente de regras, como se fosse a Constituição de um país, depois desenvolver o Manual da Qualidade, já no nível dos processos específicos da empresa, mas respeitando os requisitos gerais do primeiro nível, como se fossem as leis, pos- teriormente os procedimentos operacionais que informam as regras especí- ficas de cada processo em questão e, por último, as instruções de trabalho, que servem ao propósito de fornecer os detalhes que os procedimentos não cobriram, e de importante apoio no nível operacional. A padronização das atividades, portanto, considerada aqui uma ferra- menta básica para o desenvolvimento de diretrizes estratégicas, fornece subsídios para as empresas que desejam melhorar a qualidade de seus pro- dutos e serviços. Elemento básico para empresas que buscam a qualidade, a adoção de um sistema de padronização contribui não só para empresas e governo mas, também, à sociedade. A padronização pode, portanto, auxiliar a qualidade, e consequente sucesso da empresa no mercado, oferecendo preços baixos e atendendo todos os quesitos de qualidade, tendo produtos e serviços padronizados. Ampliando seus conhecimentos Receita para estimular os cérebros Estudioso do mundo do trabalho diz o que as empresas devem fazer para tornar mais produtivos os profissionais que ganham para pensar (COSTA1, 2006) “Eu quero apenas dois bons braços. Infelizmente, devo levar uma pessoa in- teira junto com eles.” A frase foi dita quase um século atrás por Henry Ford, o pai da moderna linha de montagem. Para Ford, assim como para todos os outros empresários da época, trabalho era força bruta. O século 21, porém, vem sendo 1 O economista Carlos A. J. da Costa é sócio da P&L, empresa especializada em educação executiva. Cultura, 5Ss, T&D e padronização 77 aclamado como um marco na era do conhecimento. É a mente das pessoas, e não os músculos, a responsável pelo sucesso ou fracasso das empresas. Quem vencerá nesse ambiente? De acordo com o americano Thomas Davenport, pro- fessor do Babson College, uma das mais renomadas escolas de empreendedo- rismo dos Estados Unidos, as empresas bem-sucedidas serão as que consegui- rem extrair o máximo dos “trabalhadores do conhecimento”. A tese faz parte do último livro de Davenport, Thinking for a Living, ainda sem tradução para o português. A classe dos trabalhadores do conhecimento é formada pela parcela mais educada e especializada da mão de obra. Sua missão é criar, descobrir e dis- tribuir conhecimento dentro das empresas e para seus clientes. Fazem parte dessa turma cientistas, engenheiros e administradores, entre outros profissio- nais que, como Davenport diz: “pensam para viver”. Estima-se que existam 36 milhões de trabalhadores americanos enquadrados nessa categoria. É evidente que o modelo burocrático, rígido e hierárquico defendido por Ford – e que, surpreendentemente, ainda sobrevive em numerosas empresas – não funciona com o “trabalhador do conhecimento”, expressão cunhada há 35 anos por Peter Drucker. Em seu livro, Davenport tenta responder, de maneira prática, ao que Drucker considerava o maior desafio da administração no século 21 – tornar esses profissionais cada vez mais produtivos. Para escrever Thinking for a Living, Davenport apoiou-se numa pesquisa que realizou com 600 profis- sionais e uma centena de empresas. O perfil de profissional que dela emergiu preza a autonomia, gasta boa parte do tempo em rotinas difíceis de detalhar passo a passo, que podem ir de um bate-papo com um colega de trabalho até uma happy hour com um cliente ou fornecedor. Ele é tão mais produtivo quanto mais estiver comprometido com seus desafios profissionais e quanto maior for sua empatia com o trabalho. Diante disso, técnicas tradicionais de monitoramento, controle e ameaça costumam resultar numa espécie de efeito bumerangue, ou seja, voltam-se contra o próprio negócio. Em outras palavras, é preciso aniquilar o modelo de gestão vigente até hoje. O que, convenhamos, é uma tarefa que exige coragem. Davenport enfatiza a importância de as empresas disponibilizarem suas bases de informação, constantemente atualizadas, para os funcionários. O pres- suposto é que isso cria um ambiente de trabalho capaz de estimular uma cultu- ra mais produtiva de criação e compartilhamento do conhecimento. Durante o estudo, o autor acompanhou os trabalhadores do conhecimento em ação, em 78 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade companhias de diferentes setores. Foi quando deparou com a importância que eles devotam às suas redes de relacionamentos. Esses profissionais costumam acessar com frequência seus contatos dentro e fora das empresas, em geral, com bons resultados. Davenport observa, no entanto, que tal prática costu- ma ser feita de maneira desordenada. O que ele propõe é que as empresas passem a investir em sistemas especializados de networking. Tome-se o caso da HP, uma das pioneiras a desenvolver um sistema que identifica os especialistas mais adequados dentro da organização para determinadas questões técnicas e de negócios e os conecta com seus escritórios mundo afora. Um mérito da obra de Davenport é o fato de estar repleta de práticas capazes de consolidar um ambiente favorável aos trabalhadores do conhecimento. Eleconclui a tarefa com uma lista de prioridades que, a seu ver, deveriam ser segui- das pelo mundo dos negócios. A primeira recomendação é que parte do tempo dos administradores seja reservada a atividades profissionais não diretamente vinculadas ao dia a dia da gestão. Um diretor de hospital com formação de médico, por exemplo, deve continuar atendendo pacientes. Outra é estimular a formação de comunidades virtuais de especialistas, como a criada pela Daimler Chrysler para que seus engenheiros possam compartilhar inovações. Os execu- tivos também devem concentrar esforços no recrutamento e na retenção de ta- lentos, a exemplo do que faz a Cisco Systems, especializada em equipamentos e soluções de internet. A empresa mantém registros de 65 000 candidatos em potencial, que podem ser contratados a qualquer momento para sustentar sua estratégia de crescimento. A quarta ênfase é para que as empresas criem uma cultura estimulante ao conhecimento, com pouca burocracia, ágil, amigável, flexível e divertida. Finalmente, devem preencher suas posições de liderança com pessoas preparadas para gerenciar esse perfil específico de profissional. A receita está dada. Colocá-la em prática é outra história. Atividades de aplicação 1. É correto afirmar, a respeito de cultura organizacional: a) É proveniente do ambiente externo e interno da empresa. b) Os valores e a história da empresa são consequências da cultura. Cultura, 5Ss, T&D e padronização 79 c) Cultura organizacional é um dos pré-requisitos para o desenvolvi- mento de melhorias. d) A cultura não pode ser medida em uma empresa. 2. Sobre 5Ss, é correto afirmar: a) A atividade a ser executada na terceira etapa de implantação é a identificação de materiais, equipamentos, ferramentas, utensílios. b) Não é muito importante a gerência dar apoio a sua implementa- ção, pois é uma ferramenta operacional. c) Seiketsu é o senso que desenvolve o hábito de observar e seguir normas, regras, procedimentos. d) O senso de limpeza retrata a eliminação de sujeira, inclusive ele- trônica, em pastas de computadores. 3. Sobre Treinamento e Desenvolvimento identifique a resposta correta. a) A necessidade de avaliar o desempenho e desenvolver treinamento em organizações surgiu de forma sistemática na década de 1990. b) É um conjunto de ações organizacionais, intencionalmente dese- nhadas para promover aprendizagens dos trabalhadores. c) Seu principal objetivo é melhorar o relacionamento entre funcio- nários em uma empresa. d) O termo conhecimento é relativo a técnica, capacidade ou saber, como desenvolver as atividades. 4. Sobre a importância do treinamento e a aplicação do Treinamento e Desenvolvimento, pode-se afirmar que a) deve-se treinar pessoas apenas quando admitidas em uma empre- sa, já durante a permanência do trabalhador no emprego não é tão importante. b) com treinamento adequado, as equipes de trabalho podem ata- car principalmente problemas simples, descobrindo soluções pa- liativas. 80 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade c) há influência da cultura organizacional no levantamento das ne- cessidades de treinamento. d) o levantamento das necessidades de treinamento é uma forma de diagnóstico que deve basear-se principalmente no histórico da empresa. 5. Sobre a padronização, é correto afirmar: a) Pode-se dizer que a padronização dos processos já está arraigada nas empresas brasileiras há muitas décadas. b) É um conjunto de planos de ação, normas, diretrizes e procedi- mentos, criado somente pelos funcionários operacionais. c) Os procedimentos são necessários sempre que uma atividade é crítica para a qualidade, seja ela qual for. d) Existe uma hierarquia de regras onde o nível maior é um docu- mento denominado Instrução de Trabalho. Implementação das diretrizes estratégicas Para eficiente aplicação do desdobramento das diretrizes estratégicas, segue sugestão desdobrada em nove etapas, com os passos para implemen- tação em uma empresa, na sequência serão demonstradas as principais fer- ramentas utilizadas no processo de desdobramento. Passos Para o desenvolvimento dos passos de implementação das diretrizes es- tratégicas, serviram como base a consulta de autores como Akao (1997) e Campos (1999): 1.ª etapa – sensibilização da alta gerência/presidente. A alta administração da empresa deve reconhecer a necessidade da apli- cação das diretrizes estratégicas e dar apoio ao estudo a ser iniciado, bem como fornecer incentivo pelo exemplo e determinação. 2.ª etapa – selecionar os membros para a equipe de implantação. Aconselha-se, nessa etapa, construir uma equipe que possua membros com poder de decisão na empresa, como o presidente, diretores, gerentes, supervisores ou coordenadores. Também aqui, pode-se determinar um fa- cilitador especialista na ferramenta, preferencialmente dedicado em tempo integral, dependendo do porte da empresa. 3.ª etapa - levantamento de dados. Deve ser realizado pelos membros da equipe sugestionada na etapa an- terior. Em ambiente permeado pela qualidade, as diretrizes estratégicas de- pendem da estratégia corporativa representada pela missão, visão e valores, e pela cultura organizacional como elemento dependente da ferramenta 5Ss, do treinamento e desenvolvimento e da padronização, conforme Figura 1. Falhas no levantamento dessas informações com ênfase na estratégia e cultura podem comprometer os resultados esperados. 84 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Qu al id ad eQualidade Estratégia corporativa Padronização Missão Visão Valores Cultura organizacional Diretrizes estratégicas O a ut or . Figura 1 – Elementos das diretrizes estratégicas. 5Ss T&D 4.ª etapa – desenvolver os propósitos estratégicos. Com base no levantamento de dados, haverá necessidade da escolha dos propósitos estratégicos, como os critérios de desempenho: entrega, custo, qualidade ou flexibilidade. É importante a mensuração de cada pro- pósito selecionado, baseado na contribuição dos objetivos empresariais fundamentais. 5.ª etapa – planejamento detalhado das diretrizes estratégicas. O planejamento de implantação deverá, a priori, seguir os elementos des- critos nas etapas anteriores acompanhados de cronograma com datas e prazos de reuniões e demais atividades, com ênfase inicial na adequação da cultura organizacional, utilizando as guias da visão e missão, propondo, assim, o deta- lhamento do desdobramento. Nessa etapa a detecção e análise dos pontos de correlação entre os elementos da Figura 1 devem estar concluídas. 6.ª etapa – aprovação do planejamento. Um aspecto fundamental é a aprovação da alta direção frente à estima- tiva de custos e cronograma com prazos e atividades. O cronograma deve ser detalhado, considerando todos os gastos como mão de obra de colabo- radores, treinamento, materiais e equipamentos necessários. Os resultados esperados ao final do projeto podem basear-se em benchmarking e estudos acadêmicos. A convicção que melhorias podem ser feitas em pouco tempo Implementação das diretrizes estratégicas 85 com resultados satisfatórios, pode incentivar a implementação, mas para evitar descontinuidade no desdobramento, sugere-se o desenvolvimento de cronograma de planejamento para cinco anos, podendo ser reavaliado e detalhado anualmente. 7.ª etapa – campanha de difusão do método. Essa etapa é destinada a todos os funcionários, em especial os formadores de opinião, ou líderes, em todos os processos da empresa. É importante a difu- são e internalização do gerenciamento pelas diretrizes por todos os colabora- dores da empresa, seguindo o exemplo de comprometimento dos gestores. A sensibilização dos funcionários, para evitar a rejeição oriunda de processos de mudança, pode ser obtidapor palestras, peça de teatro produzida com o tema em questão, reuniões, panfletos explicativos, cartazes e faixas de incentivo. 8.ª etapa – início da implementação. A etapa de implementação segue o cronograma aprovado pelos gestores da empresa. Nesse ponto os treinamentos são iniciados com metas traçadas e equipes de campo formadas. O comprometimento e a disponibilidade de tempo de funcionários são fatores decisivos para o sucesso inicial do projeto, sendo necessário o desenvolvimento sistemático de reuniões avaliativas com os líderes. Pesquisas de clima organizacional devem ser iniciadas para a ava- liação da cultura e motivação para a mudança iminente na empresa. O des- dobramento é iniciado pela adoção de diretrizes da cúpula da empresa com base no levantamento estratégico. Essa etapa pode levar de um a três meses, dependendo da avaliação inicial em que se encontra a empresa, sua estrutura de processos e disponibilidade de recursos humanos, materiais e financeiros. Todos os funcionários da empresa precisam, gradativamente, para o sucesso do desdobramento das diretrizes, receber treinamento, inclusive das áreas de compras, financeira, relações humanas etc., para que possam cooperar e participar das atividades pertinentes ao processo de mudança. 9.ª etapa – avaliação e consolidação. Nessa etapa a cultura organizacional alcançada é agente facilitador das ferramentas, que fornecem resultados positivos. Ao final de cada mês, as diretrizes devem ser confrontadas com as metas propostas e a estratégia adotada em reuniões de análise crítica. Na fase de consolidação, reuniões de avaliação são executadas com periodicidade necessária a garantir o bom de- senvolvimento da gestão pelas diretrizes. Indicadores de resultados ligados à gestão da empresa são atrelados ao desempenho dos processos, de forma sistemática e madura. Nessa etapa, há a necessidade da avaliação, revisão e 86 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade ajuste do cronograma e metas (anualmente). Para que o desdobramento das diretrizes seja considerada madura, dependendo da empresa, pode demorar três a quatro anos até que a cultura organizacional absorva por completo a sistemática das diretrizes. Lembrando que o processo de melhoria é um caminho sem fim (CROSBY, 1992), nessa etapa são refinadas ano após ano as diretrizes em todas as áreas da empresa. Ferramentas da qualidade As ferramentas da qualidade aqui escolhidas são utilizadas para atingir objetivos e metas estabelecidas pela estratégia da empresa, visando a ope- racionalização e implantação das diretrizes. Há várias ferramentas desenvolvidas para auxiliar os desdobramentos. Aqui foram escolhidas as principais, com a função de se obter uma visão sistêmica de um problema (conforme representado na Figura 2), porém, pode ser necessária a utilização de outras, pois existem problemas que não são fáceis de encontrar a solução ou que extrapolam o conhecimento das equipes de trabalho. Dessa forma, eventualmente, pode ser necessária a utilização de outras ferramentas e técnicas mais sofisticadas. Outras ferramentas utilizadas: folhas de verificação, histogramas, gráficos de tendência, gráficos de pizza, fluxograma, gráficos de dispersão, gráficos de controle, diagrama de afinidades e diagrama de árvore. Existe um problema Faz parte de uma situação Requer uma solução A solução apresentará efeitos diversos, além do impacto esperado sobre o problema Faz sentido antecipar esses efeitos A solução poderá ser avaliada pela identificação e ponderação da mistura de efeitos pretendidos e inesperados A solução não será estável, uma vez que a situação é dinâmica (H A M PT O N , 1 99 0, p . 2 4) Figura 2 – Pensamento sistêmico. Implementação das diretrizes estratégicas 87 Na aplicação das ferramentas alguns elementos são de extrema relevân- cia, pois contribuem para a efetividade do processo, tais como os dados e as informações obtidas, as ferramentas usadas em cada etapa, o método estru- turado de forma lógica e disciplinado e o trabalho em equipe, com intuito de ter uma boa comunicação e participação de todas as pessoas envolvidas no grupo. O método estruturado e o trabalho em equipe requerem habilidade, paciência e disciplina, enquanto que as ferramentas e os dados são elemen- tos fundamentais para a solução dos problemas (ROSSATO, 1996). As ferramentas principais escolhidas para o desdobramento das diretri- zes estratégicas são: Brainstorming, diagrama de causa e efeito ou espinha de peixe, cinco porquês, matriz de correlação, diagrama de blocos, diagrama de pareto e plano de ação. Serviram de base os autores Mizuno (1993); Moura (1994); Campos (1999; 2004). Brainstorming Brainstorming ou tempestade de ideias é um processo usado em dinâmi- cas de grupo, destinado à geração de ideias e sugestões criativas, possibili- tando ultrapassar os paradigmas dos membros da equipe. A técnica possui a característica de explorar as habilidades, potencialidades e criatividade dos participantes, encorajando o pensamento positivo. O Brainstorming foi originalmente desenvolvido por Osborn, em 1930. Ferramenta que a partir de um determinado problema envolvendo um as- sunto, objetivo ou meta, um grupo de pessoas consegue obter um grande número de ideias. A execução ocorre a partir de questionamentos realizados no início de cada reunião, com enfoque ao problema, utilizando folhas de flip chart ou um quadro que seja facilmente visível a todos. Uma pessoa que domine a técnica, geralmente chamado de facilitador, possui a função de coordenar, organizar a sessão, e de extrair as sugestões dos participantes, mas sem impor diretamente as suas opiniões. Para que a técnica obtenha êxito, são necessários alguns passos: O facilitador recebe as sugestões e as escreve no quadro, sem que ne- � nhum membro da equipe critique. Essas críticas e autocríticas são proibi- das na primeira etapa para não conter a criatividade. Mesmo que a ideia possa parecer absurda, deve ser inserida, pois a imaginação é livre; 88 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Nenhum membro do grupo deve ter tratamento especial, no caso de se � misturar gerentes e diretores, ou coordenadores e líderes em uma mes- ma sessão. O ideal é que todos participem e exponham sua opinião. Pode-se embarcar nas ideias dos outros, sugerindo ideias complemen- � tares, cuidando para não haver discussões ou críticas. Caso haja dificul- dade de expressão por alguns participantes, o facilitador fornece um papel e solicita para que os componentes da equipe escrevam suas sugestões, passando em seguida recolhendo as anotações e inserindo no quadro ou flip chart a sugestão. Depois de concluída a sessão de levantamento de ideias, inicia-se a � etapa onde todas as ideias são discutidas por todos e reorganizadas em tópicos temáticos. As ideias parecidas são relacionadas e reescri- tas. O reagrupamento pode ser listado em ordem de prioridade, após determinados os tópicos temáticos, que podem ser as espinhas do dia- grama de causa e efeito, caso essa ferramenta seja utilizada na sequên- cia. A Figura 3 exemplifica essa etapa. Ideias Ideias – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – Área temática 1 – – Área temática 2 – – Área temática 3 – – Figura 3 – Reorganização de ideias em áreas temáticas. Caso haja dificuldade em priorizar as ações e áreas temáticas por con- � senso, cada membro da equipe definirá uma nota para cada ideia, sen- do 1 para a sugestão pouco representativa em relação ao problema discutido, 3 para aderência média e 6 para as ideias consideradas mais importantes ou com grande aderência em relação ao problema em estudo. Após a votação, as notas são somadas para cada sugestão e listadas em ordem crescente.Implementação das diretrizes estratégicas 89 Para as ideias consideradas importantes pela equipe, fazer a seguinte � pergunta: Estas são efetivamente as soluções para o problema? Se a resposta for sim, outra pergunta deve ser feita: A sugestão pode ser mensurada por um objetivo? Se para a segunda questão a resposta também for positiva, metas e prazos deverão ser propostos, podendo posteriormente ser acompanhados de um plano de ação. Caso a res- posta de uma das perguntas for negativa o processo deverá ser revisto até que surjam formas de se medir as ações. A finalização do � Brainstorming, na realidade, é um começo, onde as pessoas participantes devem ter consciência e comprometimento para realizar as ações propostas. O facilitador deve relembrar a equipe de que eles é que criaram os objetivos. Caso não haja informações necessárias para a resolução do problema, � a sessão é interrompida e um dos componente do grupo é delegado a buscar os dados necessários ao andamento da sessão, que será adiada até esse levantamento ser realizado. Como ferramentas auxiliares, po- dem ser sugeridos o gráfico de Pareto ou folhas de verificação. Em posse de todas as informações analisadas e todos os objetivos e � metas detectados, o facilitador expõe no quadro o resumo do traba- lho, listando o problema, as metas, objetivos e demais informações para a elaboração do plano de ação. A elaboração do plano de ação, que será explicado adiante, é a ferramenta que proporciona o acompanhamento das ideias que surgiram na sessão de Brainstorming. As nove etapas aqui discutidas devem ser adaptadas a cada empresa e um procedimento-padrão ser redigido, para que a cada nova sessão seja seguida a mesma metodologia. Diagrama de causa e efeito ou espinha de peixe Diagrama de causa e efeito, espinha de peixe ou ainda diagrama de Ishi- kawa, é uma ferramenta que representa graficamente a relação entre o efeito e todas as possibilidades de causas que podem contribuir com esse efeito ou causa-raiz. O engenheiro químico Kaoru Ishikawa propôs o diagrama em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, afirmando que 95% dos proble- mas pudessem ser resolvidos com a ferramenta, além de ser fácil utilizá-la, mesmo por um operário. 90 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade É um diagrama com aspecto semelhante a uma espinha de peixe, onde as ideias que surgem em uma sessão de Brainstorming são organizadas em itens principais ou áreas temáticas. Na cabeça do diagrama encontra-se o problema, também chamado de efeito ou causa-raiz, e as espinhas representam uma divisão ou desdobra- mento em áreas temáticas desse efeito. Outra forma utilizada para o desdo- bramento é conhecido como 6M pois, em sua estrutura, praticamente todos os tipos de problemas podem ser classificados, são eles: Método (procedi- mentos), Matéria-prima (entradas), Mão de obra (recursos humanos), Máqui- nas (infraestrutura), Medição (indicadores) e Meio ambiente (ambiente da organização), conforme demonstra a Figura 4. Efeito Método Máquinas Matéria-prima Medição Mão de obra Meio ambiente O a ut or . Figura 4 – Diagrama espinha de peixe e o 6M. Essa ferramenta permite estruturar hierarquicamente as causas de um problema ou oportunidade de melhoria, bem como seus efeitos sobre a qualidade dos produtos ou serviços. O diagrama permite também estru- turar qualquer processo que necessite de visualização de forma gráfica e sintética. 5 porquês Ao perguntar repetidas vezes o por quê das coisas, se consegue descascar as camadas que escondem a causa de um problema. Muito frequentemente, a verdadeira motivação para um problema o levará a outra questão. Implementação das diretrizes estratégicas 91 Apesar de a técnica ser chamada de 5 porquês, pode-se descobrir a neces- sidade de perguntar menos ou mais do que cinco questões antes de encon- trar a exata pergunta ou causa-raiz referente ao problema. A ferramenta ajuda a identificar a causa-raiz de um problema, e determi- na a relação entre suas variadas causas. Para executar a ferramenta dos 5 porquês deve-se buscar primeiramen- te um problema específico, e em seguida fazer as perguntas, conforme exemplo: Problema – uma máquina apresentou vazamento de óleo. Por quê? Porque o retentor do cilindro estourou. Por quê? Porque não houve manutenção preventiva. Por quê? Porque o departamento responsável não programou a manutenção. Por quê? Porque a máquina não parou de trabalhar o mês inteiro. Por quê? Porque o departamento comercial vendeu peças acima da capacidade. Se a resposta dada não identificar a causa-raiz do problema apresentado no primeiro passo, pergunte por que novamente até encontrar a causa-raiz. A ferramenta 5 porquês pode ser usada individualmente ou como parte do diagrama espinha de peixe. A ferramenta ajuda a explorar todo o poten- cial ou as causas reais que resultam num defeito ou num fracasso singular. Matriz de correlação A matriz de correlação estimula o pensamento sistêmico através da inves- tigação das relações entre dois ou mais conjuntos de informações a respeito de parâmetros ou características de interesse. Além de indicar a presença da correlação, a matriz mostra a intensidade dessa relação entre os fatores analisados. O ponto mais importante na elaboração de uma matriz é decidir como combinar e depois mensurar os conjuntos de fenômenos e fatores corres- 92 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade pondentes. O objetivo, portanto, dessa matriz, é avaliar a pertinência das ações propostas. Para o preenchimento da matriz, conforme a Figura 5, são inseridas nas linhas as deficiências encontradas no processo analisado, e nas colunas as ações que se acredita serem as mais adequadas. Ações Deficiências Pl an o de tr ei na m en to M at ri z de re sp on sa bi lid ad e Im pl an ta çã o de n ov o so ftw ar e Re un iã o se m an al /m en sa l Pl an o de a çã o al m ox ar ifa do Pr io ri za çã o da s de fic iê nc ia s H is tó ric o Preenchimento de Ordens de Serviço. 9 3 3 15 Controle de paradas dos equipamentos. 3 3 9 3 18 Emissão automática de Ordens de Serviço de manutenção preventiva. 3 9 12 Controle de peças dos equipamentos. 3 3 9 15 Definir reuniões mensais e semanais. 3 3 9 15 Pe sq ui sa Atendimento e níveis de estoque do almoxarifado e de manutenção são adequados? 3 3 9 15 O técnico antecipa-se a problemas, ou seja, há pró-ativi- dade? 9 6 15 A organização e limpeza do equipamento após execução do serviço. 9 6 3 18 Na solicitação de serviço é comum a prioridade e prazo de conclusão, há follow up? 6 3 6 3 18 Av al ia çã o Programas de treinamento em manutenção. 9 3 3 15 Planejamento e programação da manutenção. 3 6 9 9 3 30 Manutenção preventiva. 3 3 9 3 6 24 Compras e estoques de manutenção. 6 3 6 3 9 27 Fatores de correção 57 42 51 51 36 Tempo necessário para implantação 1,0 1,5 1,0 2,0 1,0 Custos de implantação 2 1 1,5 1 1,5 Priorização 81 51 62 72 44 Figura 5 – Matriz de correlação. Implementação das diretrizes estratégicas 93 Na interseção entre as linhas e as colunas, os números inseridos indicam a intensidade da correlação entre a ação proposta e a deficiência. O não preenchimento do espaço na interseção indica a inexistência de correlação. Pode-se usar a seguinte classificação para indicar a correlação: três indica uma correlação fraca; � seis indica correlação média; � nove uma correlação forte. � Na parte inferior da matriz foram inseridos fatores de correção, pois a equipe responsável pelo preenchimento pode considerar importante veri- ficarfatores associados ao custo e tempo de implantação, priorizando assim as ações mais baratas e de menor tempo para implantação, respectivamente. Os fatores de correção adotados no exemplo foram: Fator de correção – tempo de implementação da ação. � baixo ou imediato (até três meses): corresponde ao Fator 2; � médio tempo de implantação (3 a 6 meses): corresponde ao Fator 1,5; � alto (acima de seis meses): corresponde ao Fator 1. � Fator de correção – o custo de implantação da ação. � baixo custo (até R$1.000,00): corresponde ao Fator 2; � médio custo (até R$1.001,00 até R$5.000,00): corresponde ao Fator 1,5; � alto custo (acima de R$5.001,00): corresponde ao Fator 1. � Tanto os valores quanto os fatores de correção são sugestões, sendo que a equipe que irá elaborar a matriz deverá, antes do preenchimento, analisar a efetiva necessidade de se adotar tais fatores. Por exemplo, uma ação que custe mais de R$20.000,00 pode destoar da classificação sugerida, sendo ne- cessário um tratamento individualizado para o item. Para o cálculo da priorização das ações foi utilizada na matriz da Figura 5 a soma das correlações, multiplicada pela raiz quadrada do tempo necessário para a implantação, e pela raiz quadrada dos custos de implantação, ou seja: Priorização das ações = da ação . tempo de implantação . custo de implantação No exemplo citado (Figura 5) a primeira ação da esquerda para a direita (nas colunas), o plano de treinamento, obteve maior nota (9 + 3 + 9 + 9 + 6 + 9 + 3 + 3 + 6 . 1 . 2 = 81), sendo, portanto, priorizado. Para análise das 94 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade linhas ou deficiências, o item relacionado como planejamento e programa- ção da manutenção foi priorizado com 30 pontos, seguido do item compras e estoques de manutenção, com 27 pontos. Diagrama de blocos O diagrama de blocos é a representação gráfica para o entendimento de um processo ou modelo de um sistema complexo. Através de figuras geo- métricas e ligações (linhas), descrevem-se as relações entre cada subsistema e o fluxo de informação. A Figura 6 mostra o exemplo de um diagrama de blocos para um pro- cesso de compras, sendo as colunas, os setores ou áreas por onde passam informações e documentos do processo analisado. O solicitante inicia o pro- cesso com o preenchimento do documento de solicitação de compras, pas- sando ao setor de compras, que faz a cotação, em seguida é desenvolvido um quadro comparativo com os preços da cotação, sendo necessário antes da emissão do pedido a aprovação da diretoria. (M A RT IN S; L AU G EN I, 20 00 ) Solicitante Compras Diretoria Fornecedor Solicitação de compras Pedido de compras – Emite a solicitação de compras – Obtém aprovações Solicitação de compras Pedido de compras Solicitação de cotação Cotação ou proposta Quadro comparativo Analisa/agrupa solicitações Emite ou efetua solicitação de cotação por: e-mail, fax, carta, fone etc. Analisa e emite quadro comparativo Quadro comparativo Aprova Pedido de compras Solicitação de cotação Cotação ou proposta Analisa Figura 6 – Diagrama de blocos de um processo de compras. Implementação das diretrizes estratégicas 95 Diagrama de Pareto É um gráfico de barras verticais que representa uma estratificação. O prin- cípio do Pareto também conhecido como Lei 80/20 pode ser detalhado nas mais variadas formas: 20% dos problemas representam 80% das causas; 20% dos itens de estoque representam 80% do valor total de estoque; 20% do tempo destinado ao planejamento economiza até 80% do tempo de exe- cução; 20% dos clientes representam 80% das vendas; 20% do retrabalho são responsáveis por 80% dos gastos com ret’rabalho, ou ainda 80% das dificuldades têm origem de 20% dos problemas. De forma prática, o que Pareto sugere é que existem elementos críticos que devem ser priorizados e desdobramentos. Para desenvolver a ferramenta, são necessários alguns passos: selecionar os problemas a serem estudados utilizando o � Brainstorming, ou utilizar dados existentes como principais defeitos de um setor de produção na última semana; padronizar a unidade de medida para que possa ser feita a compara- � ção, como número de ocorrências, custo, frequência ou outras; comparar o número de ocorrências de cada fator analisado, converter � em porcentagem, e elaborar um gráfico da esquerda para a direita no eixo horizontal. Os itens com valores pequenos devem ser agrupados na categoria Outros. O Gráfico 1 representa até essa etapa. 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 40 Prob. 1 Prob. 3 Prob. 5Prob. 2 Prob. 4 Outros 7 3 1 11 29 O a ut or . Gráfico 1 – Primeira etapa do Pareto A tabela 1 apresenta o agrupamento dos valores mostrados no gráfico � 1. No eixo vertical inserir uma escala de 0 a 100% e, a partir do canto 96 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade direito da coluna maior, ascendendo, traçar uma linha representando a frequência ou o custo acumulado das categorias. Esse procedimento responderá questões como: Quanto do total foi apurado nas três primei- ras categorias? Na sequência mostra-se o gráfico de Pareto completo. Valor Porcentagem Valores acumulados Problema 1 40 40/91 = 44% 44 Problema 2 29 29/91 = 32% 32 + 44 = 76 Problema 3 11 11/91 = 12% 12 + 76 = 88 Outros 7 + 3 + 1 = 11 11/91 = 12% 12 + 88 = 100 Tabela 1 – Agrupamento de valores O a ut or . Prob. 1 Prob. 3Prob. 2 Outros 100% 50% 0% Gráfico 2: Diagrama de Pareto O gráfico de Pareto pode ser usado sempre que for necessário ressaltar a importância relativa entre os vários problemas ou condições, no sentido de escolher e salientar um ponto de partida para a solução do problema em estudo, e priorizar itens para desdobramento, além de avaliar um progresso ou identificar a causa básica de um problema. O Pareto pode ser utilizado sempre que haja a necessidade de se comparar ocorrências de problemas em um processo. Implementação das diretrizes estratégicas 97 Plano de ação O plano de ação é uma ferramenta simples, porém poderosa para auxiliar o planejamento de todas as ações, prazos e demais informações necessárias para atingir um objetivo. A Figura 7 mostra a tabela para preenchimento de um plano de ação. Quando identificado o problema deve-se fazer as perguntas: o que é, como e onde acontece o problema, preenchendo as respostas na coluna respecti- va, e assim por diante, até a coluna de status ou acompanhamento e outras informações que possam ser necessárias. O a ut or . Item Descrição do problema Ação a ser tomada Data para conclusão Responsável pela ação Custo da ação Status/ observação 1 2 Até quando deverá ser resolvido o pro- blema? Quem executará a ação? Quanto custará para resolver o pro- blema? Acompanha- mento e outras informações. O que é, como e onde acontece o problema? O que fazer para resolver o problema? Figura 7 – Plano de ação. O plano de ação lista todos os itens que compõem um planejamento, e operacionaliza outras ferramentas como o Diagrama de Ishikawa, proporcio- nando o controle das ações realizadas. Ampliando seus conhecimentos As melhores práticas para melhoria As ferramentas de melhoria de processo têm sido utilizadas para avaliar a extensão dos processos empresariais desde a satisfação do funcionário até o suporte ao cliente. Várias ferramentas da qualidade e padrões de gestão da qualidade, incluindo Benchmarking, mapeamento de processos, análise de causa-raiz, Seis Sigma e ISO 98 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade 9001 estão disponíveis para ajudar na gestão dessesprojetos de melhoria. O foco deste artigo é o lado humano da gestão e da implementação de um projeto de melhoria (DOLAN1, 2003) Um dos meios mais significativos pelo qual os processos de melhoria têm mudado nos últimos cinco anos é o uso da internet (ver Figura1), que facilitou o contato entre pessoas com desafios similares e a identificação de soluções comuns e, mais importante, acelerou a coleta de dados e colocou as pessoas que estão envolvidas regularmente na implementação de projetos de melho- res práticas em contato com os seus colegas. Em uma pesquisa recente, rea- lizada on-line pelo Benchmarking Exchange-USA, foram interrogadas pessoas que estão envolvidas regularmente em projetos de melhoria de processos. A Figura 2 mostra as respostas mais frequentes a uma questão pedindo que os entrevistados identifiquem seus maiores problemas na implementação de um projeto de melhoria de processos 1. Os entrevistados então fizeram diversas recomendações para superar os obstáculos identificados por eles. Pe sq ui sa d o Be nc hm ar ki ng E xc ha ng e. Figura 1. Nunca 15% Diariamente 13% Semanalmente 35% Mensalmente 37% Benchmarking com o uso da internet Com qual frequência você utiliza a internet para colher informações a respeito das melhores práticas? 1 Tom Dolan é presidente do Benchmarking Exchange (TBE), um serviço de assinatura on-line que apoia as comunidades de Benchmarking e de melhoria de processo. Antes de lançar o TBE em 1993, Dolan esteve 15 anos com as empresas Amdahl e IBM. Fez parte da cadeira do Centro de Competência de Benchmarking da ASQ, de 1994 a 1997, e foi conselheiro editorial das publicações de gestão da qualidade, incluindo The Benchmark, Jornal Internacional da Qualidade e Benchmarking. Implementação das diretrizes estratégicas 99 Uma vez que o problema foi identificado, examine o processo causador do problema e identifique qual o impacto causado na satisfação do cliente, no envolvimento dos funcionários e nos retornos financeiros. Comece a identificar os riscos em potencial – Quais são os riscos da realização do projeto e quais são os riscos se este não for completado? Ian J. May, da Siemens, disse em resposta à pesquisa: “identificar uma opor- tunidade que ofereça não somente benefícios financeiros e para o cliente, mas que reduza a dor e o sofrimento para os envolvidos no andamento do processo diariamente”. Certifique-se de que os projetos de melhoria dos processos este- jam alinhados ao longo de todas as áreas dentro da companhia. Não é interes- sante melhorar o processo em uma área às custas de outras. Melhorias de pro- cessos isolados levam à frustração e não beneficiam os clientes, funcionários ou acionistas. Obter envolvimento e comprometimento válidos da alta administração foi a recomendação mais frequente por parte dos entrevistados. A administração precisa concordar com a existência do problema e a organização precisa ver que a administração apoia os esforços de melhoria. Donna Smith, da GPE Ele- tronics, recomenda: “você deve ter apoio pleno e visível da alta administração e todos devem saber que os projetos de melhoria de processos respondem diretamente à equipe da alta administração”. Pe sq ui sa d o Be nc hm ar ki ng E xc ha ng e. Figura 2. N úm er o de re sp os ta s Os maiores problemas para melhoria de processo Aceitação de resultados por executivos sênior Aceitação de resultados por chefes de departamento Falta de recursos humanos para implementar as mudanças Falta de recursos financeiros para implementar as mudanças Comunicação de resultados 300 250 200 150 100 50 0 155 204 272 182 180 100 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Escolher a equipe O próximo passo do processo de melhoria de processos é reunir uma equipe que irá recolher dados e supervisionar a implementação das mudanças reco- mendadas. Selecione os melhores e mais brilhantes para conduzir o trabalho, escolhendo representantes de todas as partes interessadas. Dependendo do projeto, isso pode incluir fornecedores e clientes, bem como funcionários de todos os níveis da organização. Esteja certo da inclusão daqueles que possuem conhecimento técnico ou detalhado dos departamentos envolvidos. Reunir todos em uma sala para conversar entre si irá melhorar muitos processos. Equipes multifuncionais são importantes. Junto com os representantes das partes interessadas, se possível, inclua também aqueles que não serão afetados se o processo for alterado. Funcionários de um departamento não relacionado ou de filiais ou matrizes podem oferecer ideias e credibilidade importantes. Sua visão imparcial e alheia irá adicionar uma perspectiva que as pessoas próxi- mas do processo não têm. Mesmo os cínicos, enquanto não forem destrutivos, provam que são bons membros de equipe, ajudando a identificar as objeções antes que o novo processo seja lançado. (P es qu is a do B en ch m ar ki ng E xc ha ng e so br e Se is S ig m a. D is po ní ve l e m : < w w .b en ch ne t.c om >. ) Figura 3. 600 500 400 300 200 100 0 519 503 410 401 399 382 376 369 354 349 Benchmarking Diagrama de causa e efeito Processos direcionados ao cliente Gestão de mudança Planejamento de experimentos Gestão do desempenho Tomada de decisões Gráficos de controle Gestão do conhecimento Mapeamento de processos N úm er o de re sp os ta s As 10 ferramentas mais usadas de melhoria de processo Funcionários que receberam tempo e recurso para gerenciar o projeto de- veriam dirigir o trabalho de melhoria. O envolvimento deve ser encarado como parte de seus trabalhos, com as implementações métricas unidas às revisões de desempenho. Implementação das diretrizes estratégicas 101 No geral, a melhoria de processos é um trabalho interno, mas algumas vezes pode ser mais apropriado contratar um consultor externo. “Um facilitador”, por exemplo, pode ser utilizado para ajudar a disponibilizar e minimizar as ques- tões políticas. Um grupo externo de consultoria pode oferecer uma habilidade que não existe dentro da organização. Na implementação de projetos de Tec- nologia da Informação, nos quais a tecnologia muda rapidamente, o pessoal interno pode ser incapaz de avaliar, implementar e sincronizar o processo. Definir a estratégia e a visão O primeiro trabalho da equipe é articular claramente a meta do projeto e as melhorias pretendidas. Entender como o processo existente funciona – e não simplesmente como ele deveria funcionar – antes de tentar melhorá-lo. Definir o que está ruim, por quê isto deve ser melhorado e quais benefícios monetários isso irá trazer para a empresa, se a melhoria ocorrer. Dedique um tempo para compreender o que as pessoas realmente fazem. Tente diferentes abordagens para dar à equipe oportunidades para se abrir em relação aos problemas. “Certifique-se de incluir todas as partes interessadas do processo e não pare de investigar depois que a primeira ideia surgir”, sugeriu John Palmer da Saudi Aramco. Mapeamento de processos é uma poderosa ferramenta recomendada pelos entrevistados, utilizada para definir e mostrar visualmente o processo global. A criação de um mapa do atual processo geralmente descobre oportunidades não identificadas previamente ou trabalhos redundantes. Identifique os forne- cedores, a entrada, o processo, as saídas e clientes do processo. Inclua todos os envolvidos no processo, não somente a gerência. Durante um exercício recente de mapeamento de processos, cada pessoa foi questionada sobre quanto tempo a sua parte dotrabalho demorou a ser feita. O gerente da divisão ficou chocado com alguns atrasos descobertos. Uma vez que a equipe começa, ela pode descobrir problemas adicionais que aumentam o escopo do projeto. O líder do projeto deve focar no escopo e assegurar que a equipe mantenha-se concentrada no problema principal. Não tente modificar o que está além do escopo do seu processo. É melhor ter suces- so em uma ou duas áreas do que utilizar uma abordagem abrangente que não apresenta bons resultados. 102 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Continue concentrado, mas estabeleça metas agressivas. Isso estimula a equipe a olhar além de melhorias incrementais e calcula as soluções criativas quatro ou cinco vezes mais significativas. Seja rápido. Não pule nenhum passo, mas estime a duração dos projetos em cerca de 90 a 120 dias. Se o processo demorar muito o projeto perde seu foco e a atenção da gerência pode voltar para outras questões. Planeje um esquema de atividades razoavelmente agressivo e, então, man- tenha este esquema a qualquer custo. Como segurança, você pode querer identificar os pontos importantes em que o projeto possa ser determinado e ainda assim render benefícios. É muito melhor implementar 85% do seu tra- balho planejado conforme o cronograma do que perder a data alvo, mesmo que por pouco. Você pode sempre voltar e adicionar os 25% finais em um pro- jeto subsequente. “Não deixe o projeto se desviar”, aconselhou a Holloway da Longaberger Co. “É melhor reagendar ou cancelar o projeto do que deixá-lo à deriva”. Comunique-se, comunique-se A necessidade de comunicação perde, em importância, somente para a im- portância de assegurar o comprometimento da gerência executiva. Ao início do projeto, desenvolva um plano de comunicações e mantenha-o atualizado. A comunicação deve articular a visão, o objetivo e status do projeto a todos os envolvidos. Os benefícios das mudanças antecipadas devem ser preditos, ditos e reditos para obter ganhos e mantê-los. Rosemary Gregory, da NASA, recomendou: “comunique-se de todas as ma- neiras dentro da organização. Esteja à vista. Esteja aberto a sugestões e conti- nue caminhando para frente”. Comunique-se frequentemente com a equipe de projetos, dê orientações claras e revise os resultados coletivamente. Mantenha o foco no projeto de melhoria através de sessões regulares de atualização e mantenha a equipe informada a respeito do progresso no alcance das metas. Seja por meio de reuniões ou relatórios regulares, encontre algum mecanis- mo para comunicar aos executivos, regularmente, os progressos e benefícios. Utilize os resultados de investigações iniciais e cálculos financeiros para prote- ger o patrocínio da administração e projetar um orçamento. Reconheça quaisquer contratempos que você tiver encontrado. Eles irão ocorrer – mas concentre-se em como os problemas foram comunicados e nas Implementação das diretrizes estratégicas 103 mudanças resultantes. A gerência será mais receptiva na aceitação das mudan- ças se você demonstrar um benefício financeiro para a companhia. O apoio aos funcionários é crucial para o sucesso da implementação da me- lhoria. Publique os resultados (os sucessos e outros) na rede interna da corpo- ração ou por meio de outra ferramenta de comunicação interna para que todos aprendam sobre o projeto e possam participar dele. Promova cedo e regular- mente os resultados melhorados. Faça as partes interessadas falarem sobre o processo de melhoria proposto a fim de gerar entusiasmo nos colegas. Compartilhe o máximo possível de informações com todas as partes inte- ressadas e incorpore ao plano o feedback deles. Não selecione os dados para públicos diferentes. Certifique-se de que todos os grupos compreendam como seus trabalhos se encaixam nos projetos globais de melhoria do processo, e quais outros grupos estão contribuindo. Aumente o poder das Broad Based Actions Diversas normas e ferramentas de gestão da qualidade estão disponíveis para as organizações que embarcam em um projeto de melhoria de processo (ver Figura 3). Escolha uma ferramenta aplicável e trabalhe dentro desse for- mato. Selecione as ferramentas corretas para o projeto, pois nem todas as fer- ramentas são adequadas para todos os projetos. Se você planeja implementar esses pacotes prontos como parte da melhoria do processo, questione outras organizações a respeito de suas experiências com tais programas (ver Os 10 Processos de Melhoria mais Usados). Comece com uma metodologia de melhoria definida, aplicável ao escopo e à natureza do processo alvo da melhoria. Por exemplo, se você tiver um pro- cesso no qual você não pode identificar uma causa-raiz definitiva, a análise si- tuacional pode ser uma boa ferramenta para determinar e definir as causas-raíz potenciais. Uma metodologia de melhoria lógica e com base em dados pode ajudar a dispersar os mitos corporativos e assegurar que as recomendações sejam baseadas nas melhores soluções em vez de basear-se no membro mais influente da equipe. O Benchmarking também é uma ferramenta útil. “Visite outras companhias que já tenham percorrido este caminho antes. Isso ajuda as pessoas a supe- rarem a fase ‘é muito difícil’ ou ‘é impossível fazer isto’”, aconselha Gary Book da Candle Corp. “Os ganhadores do prêmio Baldrige são ótimos benchmarks”. 104 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Realize treinamentos em todos os níveis e, então, implemente. O currículo de treinamento deve incluir o uso de todas as ferramentas novas, a implementa- ção proposta, e a análise da eficácia. Dependendo da experiência da organi- zação com os projetos de melhoria de processo, o treinamento deve ser dado também na alta administração. A documentação garante que todas as mudanças sejam registradas a fim de beneficiar as equipes subsequentes, e deve ser revisada em períodos de tempo específicos para se manterem vivas. Não subestime o tempo necessário para implementar um processo novo. Um processo, com o ciclo de tempo de muitos anos, não mostrará melhoria instantânea. Formule um plano de implementa- ção detalhado, incluindo as melhores e piores hipóteses e escalas de tempo acordadas para facilitar a avaliação pós-implementação. Uma pessoa deve administrar a implementação, embora seja necessário o envolvimento de toda a equipe. Quando as mudanças estão longe de serem alcançadas, você poderá ter um gerente sênior, não necessariamente o gerente do projeto, para ser o champion. Convença a alta administração sobre a neces- sidade de resolver todos os problemas possíveis antes de implementar o plano de melhoria. Muitos processos de melhoria falham porque a alta administração deseja simplesmente sua implementação em vez de assegurar a antecipação de qualquer coisa que possa prejudicar o processo. Os 10 processos empresariais mais pesquisados para Benchmarking A lista a seguir mostra os processos empresariais mais ativamente pesquisa- dos para Benchmarking, de acordo com os membros do Benchmarking Exchan- ge (TBE). Os dados são recolhidos de milhares de membros do TBE e ordenados pelos últimos 12 meses. Tecnologia da Informação. � Desenvolvimento e treinamento do funcionário. � Controle de documentos e gerenciamento de registros. � Recursos Humanos. � Serviço ao cliente e sua satisfação. � Implementação das diretrizes estratégicas 105 Melhoria e medição do desempenho. � Centros de atendimento ao cliente. � Contabilidade. � Melhoria e gestão de processos. � Benefícios para os funcionários, compensações e programas de incentivo. � O objetivo desta lista é mostrar quais processos empresariais estão sendo mais frequentemente utilizados e oferecer um pouco de reflexão a respeito das expec- tativas para o futuro próximo. As 10 ferramentas de processos empresariais mais utilizadas,mostradas na Figura 3, estão entre centenas de processos e subproces- sos empresariais rastreados no banco de dados do TBE para seus membros. Comemore as etapas importantes Reconhecer o processo é difícil, bem como oferecer recompensas pelas con- quistas. Celebre as pequenas vitórias para demonstrar sucesso e criar entusias- mo. Mantenha o foco da equipe do projeto voltado para assuntos que dizem respeito às etapas cumpridas e ao cronograma. Metas devem ser definidas nas melhorias para que as conquistas possam ser rastreadas. Certifique-se de que seu plano de controle contenha planos de ação detalhados no caso de não conformidades. Cheque regularmente o status do progresso. Stan Suring, da Brady Corp., sugere: “faça planos para comemorações incre- mentais quando um checkpoint for alcançado. Não hesite em reconhecer os contratempos quando ocorrerem (eles sempre ocorrem). Em vez disso, concen- tre-se em como o contratempo está sendo tratado e em quais mudanças foram feitas como resultado”. Em 50 palavras ou menos A internet revolucionou os projetos de melhoria de processos, facilitando o benchmarking. O passo mais importante é alcançar o comprometimento da alta adminis- tração à comunicação. A melhoria dos processos é contínua e pode gerar retornos significantes. 106 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Construa para o futuro Uma vez que as mudanças foram implementadas, acompanhe-as regular- mente para garantir que a melhoria realmente ocorreu. Crie e mantenha pro- cessos de revisão multifuncionais para validar as melhorias e sustentar a me- lhoria contínua. Fluxogramas e técnicas modeladoras de processo podem ser utilizados para ilustrar a melhoria. Esteja certo de que a motivação para a nova melhoria seja constante e que o plano de controle tenha atividades de acom- panhamento regularmente agendadas. O controle é um enorme problema quando se trata de mudança. Muitas mu- danças funcionarão durante algumas semanas enquanto as pessoas têm cons- ciência delas. Mas todos voltam, no final, à velha maneira de fazer as coisas. É importante garantir que controles suficientes estejam a postos para prevenir a recaída. Pessoas e organizações não mudam da noite para o dia. Seja paciente, per- sistente e flexível, pois as mudanças levam tempo. Basicamente, uma organi- zação comprometida com a melhoria dos processos irá adotar uma cultura de mudança na qual as melhorias se tornem arraigadas e de longo prazo. É um processo contínuo que pode gerar retornos significativos. Atividades de aplicação 1. Sobre os passos para implantação do desdobramento das diretrizes estratégicas em uma empresa, marque a alternativa correta. a) Os dois passos iniciais sugestionam a aplicação de ferramentas. b) Os principais elementos para as diretrizes estratégicas são de res- ponsabilidade da média gerência. c) As diretrizes estratégicas dependem da estratégia corporativa e da cultura organizacional. d) Para iniciar a implementação das diretrizes não é necessário que a alta administração aprove o plano, pois a equipe já detalhou todo o plano. Implementação das diretrizes estratégicas 107 2. Sobre as ferramentas da qualidade no contexto do desdobramento das diretrizes, marque a alternativa correta. a) São utilizadas para atingir objetivos e metas estabelecidas pela empresa. b) São desenvolvidas de forma individualizada. c) O Brainstorming e Ishikawa não devem ser utilizados em conjunto. d) São complexas, dependendo de especialistas para as desenvol- verem. 3. O Brainstorming ou tempestade de ideias é um processo usado em di- nâmicas de grupo. Marque a alternativa correta sobre essa ferramenta. a) Foi criada na época da Revolução Industrial, mas só utilizada a par- tir de 1950. b) Para utilizá-la é necessário apenas pequenos papéis para anotar as sugestões. c) Após a sessão de levantamento de ideias, inicia-se a etapa onde todas as ideias são discutidas por todos. d) O facilitador deve expor claramente suas opiniões para o grupo sempre que achar importante. 4. O diagrama de causa e efeito foi desenvolvido por Kaoru Ishikawa. É correto afirmar sobre essa ferramenta: a) Não pode ser usada em conjunto com outras ferramentas. b) Na ponta das espinhas deve obrigatoriamente ser colocado o 6M. c) Permite estruturar hierarquicamente as causas de um problema. d) Possui preenchimento e desdobramento complexo e analítico. 5. Sobre a matriz de correlação, marque a resposta adequada. a) Para o correto preenchimento, cada componente da equipe deve conhecer um processo diferente. 108 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade b) A interseção entre colunas e linhas indica que há uma forte cor- relação a ser analisada. c) A ação a ser priorizada é sempre a que obtiver pontuações em to- dos os espaços. d) Fatores de correção são inseridos sempre que seja necessário in- cluir fatores como, por exemplo, custo e tempo de implantação. 6. Sobre o diagrama de blocos e o de Pareto, assinale a alternativa correta. a) O diagrama de blocos é uma representação simplificada e seto- rizada. b) Diagrama de blocos e diagrama de Pareto servem ao mesmo pro- pósito. c) O Pareto pode ser utilizado sem que haja a necessidade de se com- parar ocorrências. d) O diagrama de Pareto sugere desdobramentos do que foi priori- zado. Gerenciamento de diretrizes estratégicas Nos anos 1960, durante o período da liberalização do comércio, muitos diretores de empresas japonesas expressaram preocupação a respeito de como sobreviver em face de uma afluência de produtos tecnologicamen- te avançados provindos do Ocidente e de produtos baratos dos países em desenvolvimento. Isso para não mencionar a forte competição interna. Foi em resposta a esse sentido de crise que sistemas como o Total Controle da Qualidade, desdobramento de diretrizes, controle de qualidade e círculos de controle de qualidade foram introduzidos e desenvolvidos (AKAO, 1997). Na década de 1980, pouco se falava em metas e planos de ação em em- presas brasileiras (CAMPOS, 2004). Poucos se preocupavam com isso, já que o desempenho de uma organização era, em grande parte, mensurado pela capacidade de conseguir autorizações do governo para se praticar preços mais elevados. Mas 10 anos depois, com a estabilidade da economia e a abertura de mercados, há uma corrida pelo gerenciamento. A partir de 1996, o conceito de gerenciamento das diretrizes tem sido amplamente utilizado no Brasil para operacionalizar a estratégia corporativa adotada. O processo de gerenciamento e planejamento de desdobramento por dire- trizes estratégicas, no Japão possui a denominação Hoshin Kanri, surgiu como resposta à necessidade de um sistema administrativo mais flexível, com tempo de resposta mais curto em relação às mudanças internas e externas à empresa. A palavra Hoshin é composta de dois caracteres chineses: ho e shin. A primeira significa método ou estrutura; e shin, significa agulha brilhante ou bússola. Considerados juntos, formam a palavra hoshin, que significa uma metodologia para estabelecer a direção estratégica (AKAO, 1997). O planejamento Hoshin Kanri, ou simplesmente hoshin, também conheci- do como gerenciamento pelas diretrizes, ou desdobramento das diretrizes, tem suas origens no controle estatístico de qualidade, podendo ser consi- derado um dos pilares do Total Quality Management – Gestão da Qualidade Total (TQM), pois é uma forma para garantir que a política da qualidade da empresa seja efetivamente implementada. É um sistema de gestão que auxi- lia a determinação dos objetivos da organização, por meio do planejamento 112 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade estratégico, permitindo o seu desdobramento em todos os níveis hierárqui- cos, sem se desviar do rumo estratégico. Resumidamente,é um sistema para o controle da qualidade e para as atividades de melhoria contínua, desdo- brando diretrizes e passando pelos níveis hierárquicos da empresa até as ro- tinas diárias (NODA, 1998). A espinha dorsal do desdobramento das diretri- zes é o TQM, pois o desdobramento das diretrizes sem o TQM é inútil. O gerenciamento e desdobramento das diretrizes estratégicas tem sido usado para implementar a política da qualidade em todos os setores de uma organização. A sua utilização implica em maior participação da diretoria na prática dos métodos de gestão da qualidade. Entende-se por desdobramento de diretrizes o processo de difusão das di- retrizes da função mais alta de uma companhia. Trata-se de um processo em cascata, mediante o qual as diretrizes do nível máximo são absorvidas pelos diretores, que as repassam em termos mais explícitos e concretos para uso dos colaboradores, os quais, por sua vez, as traduzem para o nível subjacente. O desdobramento contribui, portanto, para a eficácia da Gestão da Qua- lidade, pois admite a cooperação e alinhamento dos objetivos estratégicos para todos os departamentos da organização e em todos os níveis. Deve-se tomar cuidado para que, principalmente nos primeiros anos que uma organização aplica o desdobramento das diretrizes, esta tende a gerar indicadores e ações com pouco foco (com pouca objetividade). Dessa forma, acabam sendo gerados um excessivo número de indicadores, principalmente a nível operacional, o que pode sobrecarregar o pessoal que trabalha direta- mente com os produtos/processos. O resultado típico é que no primeiro ano de aplicação, apesar dos avanços em relação ao planejamento estratégico tradicional, nem tudo o que foi desdobrado consegue ser de fato implemen- tado. Para que o desdobramento tenha o efeito esperado, há a necessidade de desenvolver aos poucos a ferramenta, ano após ano, pois, conforme os re- sultados positivos vão aparecendo, a confiança e a motivação pelo trabalho de desdobramento vão sendo arraigadas à cultura organizacional. Meta, indicadores e diretrizes A meta de uma empresa pode ser definida como o objetivo que esta deseja atingir. Dentro de uma mesma organização, podem existir várias Gerenciamento de diretrizes estratégicas 113 metas, cada qual com seus indicadores, dentro de um mesmo planejamento (CROSBY, 1992). A meta é constituída de três partes: objetivo; � valor; � prazo. � A diretriz é composta de duas partes: a meta e o como ou o quê fazer para atingir essa meta. Campos (2004) considera a diretriz, a soma da meta, mais as medidas que são os meios ou métodos específicos para se atingir a meta. Exemplo: Objetivo – reduzir o retrabalho. � Valor – 10% � Prazo – até fevereiro. � Diretriz – aplicar treinamento de qualidade; desenvolver novos métodos; � melhorar transporte; modernizar máquinas. Segundo Akao (1997), metas são definidas como resultados esperados. Meios são direções para atingir a meta. Portanto, os meios mostram como atingir as metas. Ainda, segundo o autor, diretriz é utilizada em um sentido mais amplo, sendo que as metas e os meios combinados podem ser deno- minados como uma diretriz. Para Campos (2004), uma meta é um ponto a ser atingido no futuro e é constituída de três elementos: objetivo gerencial, valor e prazo. Uma diretriz consiste de uma meta e de medidas prioritárias para atingir essa meta. Seu estabelecimento é um processo de planejamento e um suporte para a reso- lução de problemas. A Figura 1 mostra a diretriz sendo formada pelas medidas mais a meta. As causas dos problemas surgem no processo e os problemas aparecem no pro- duto produzido e na satisfação e segurança das pessoas que atuam no proces- so. O problema surge quando uma meta não é alcançada e a sociedade recebe um produto ou serviço com falhas. 114 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade (C am po s, 20 04 , p . 4 8. A da pt ad o. ) Figura 1 – Conceito de diretriz. Processo Produto, satisfação e segurança Medidas + Meta Pessoas Sociedade Causas Problemas Diretriz É importante desenvolver a estratégia da empresa e transformá-la ade- quadamente em indicadores, pois os vetores de desempenho (como os tempos de ciclo e a porcentagem de peças defeituosas por milhão – ppm) sem as medidas de resultado, podem permitir à empresa alcançar melho- rias operacionais a curto prazo, mas não revelarão se essas melhorias re- presentam a expansão dos negócios com novos clientes e com os já exis- tentes, refletindo, consequentemente, um melhor desempenho financeiro (KAPLAN, 1997). Cabe observar, entretanto, que a determinação de custos e benefícios fi- nanceiros da qualidade não podem ser feitos da forma convencional, empre- gando-se metodologias clássicas da área de engenharia econômica. Segundo Harrington (1993) a medição é o primeiro passo que leva ao controle e à melhoria. Se você não mede, não pode compreender. Se não compreende, não pode controlar. Se não controla, não pode administrar. No mecanismo de desdobramento dos objetivos do presidente ou ge- rente geral para todo o pessoal da empresa há o ciclo PDCA, conforme a tabela a seguir. Gerenciamento de diretrizes estratégicas 115 Tabela 1 – PDCA de níveis hierárquicos da empresa P D C A Gerente geral Estabelecer diretrizes e metas. Comunicação geral. Explanar a diretores e fazer com que eles formulem seus objetivos. Acompanhar e orientar os dire- tores e gerentes, Detectar os problemas atuais e utilizá-los para refletir no futuro. Diretor Estabelecer di- retrizes e metas importantes. Comunicação geral. Explicar as diretri- zes e fazer com que os gerentes estabe- leçam as metas. Acompanhar e orientar os geren- tes e coordena- dores. Ajustar as metas se necessário. Detectar os problemas atuais e utilizá-los para refletir no futuro. Apresentar o rela- tório ao gerente geral. Gerente Estabelecer as metas e planos de execução. Comunicação geral. Explicar as diretri- zes e fazer com que os coordenadores estabeleçam as metas. Acompanhar e orientar os subordinados e ajustar as metas se necessário. Detectar os problemas atuais e utilizá-los para refletir no futuro. Apresentar relató- rio ao diretor. Coordenador Estabelecer as metas e planos de execução. Explicar aos subordinados os planos e conduzir se necessário. Orientar as ativi- dades diárias. Ajustar os planos se necessário. Detectar os problemas atuais e utilizá-los para refletir no futuro. Apresentar relató- rio ao gerente. (O IS H I, 19 95 , p . 1 3. A da pt ad o. ) Os indicadores são usados pelas empresas para permitir um controle eficaz de seus processos e atividades, representando o que se quer medir, e mostram os resultados obtidos comparando-os com os resultados espera- dos (MOURA, 1994). Todo indicador deve apresentar uma combinação de medidas de resul- tados, que são elementos responsáveis por comunicar o significado da es- tratégia da unidade de negócios à organização, assim como os vetores de desempenho. O gerenciamento das diretrizes pode ser aplicado com qualquer tipo de indicadores como produtividade, lucratividade, custo ou retorno sobre o in- vestimento, a fim de ser colocado em prática, relacionando às medidas, o prazo e as condições de contorno. 116 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Para Deming (1990) o investimento em equipamentos é feito com razões criteriosas e bem definidas; ações de curto prazo são de importância se- cundária. Em uma empresa que segue a filosofia do TQM há uma meta que orienta todas as atividades. Essa meta principal deve ser abrangente, ou sim- plesmente, produtos ou serviços cada vez melhores com o passardo tempo, resultando em clientes satisfeitos. Implícitos nessa meta, estão os esforços para a eliminação dos defeitos e desperdícios com consequente melhoria da eficiência. Dessa forma o lucro será resultante do processo implementado. O gerenciamento pelas diretrizes é um sistema administrativo, praticado por todas as pessoas da empresa, que visa garantir a sobrevivência da orga- nização frente à concorrência. Para isso devem ser elaboradas diretrizes com base na estratégia corporativa e sustentadas pela cultura organizacional. A estratégia corporativa representada pelo planejamento gerencial possui como base a missão, a visão e os valores da organização. O planejamento de médio e longo prazo deve ser articulado por objetivos. É inútil avaliar um plano apenas em termos do atingimento ou não de uma meta numérica. Pla- nejar é antecipar os problemas que uma empresa provavelmente enfrentará no contexto dessa estrutura e considerar quais atitudes serão tomadas a fim de resolvê-los (AKAO, 1997). O gerenciamento pelas diretrizes significa desdobrar a meta principal que represente, na maioria das vezes, a sobrevivência da empresa, até chegar ao operacional, a ponto de entender, passando do geral para o particular, com a finalidade de articular ações para o alcance das metas. Todavia, são neces- sárias certas condições para sua aplicação: condições de cultura organizacional adequada; � definição clara da estratégia corporativa; � comprometimento e domínio da ferramenta por parte dos responsá- � veis pelo gerenciamento das diretrizes; completo entendimento da lógica do ciclo PDCA; � amplo conhecimento dos processos da empresa e ferramentas que � auxiliam o desdobramento; disponibilidade de recursos para consultorias, treinamentos e mudan- � ça de processo, caso necessite. Gerenciamento de diretrizes estratégicas 117 Em muitos casos, a implementação de indicadores de desempenho por si só, promove melhorias significativas. As maiores razões para esse fenômeno, são: os indicadores definem o que é importante para toda a empresa e fo- � cam a atenção das pessoas nesses aspectos; o desenvolvimento de indicadores requer o estabelecimento e comu- � nicação de padrões, que de outra forma não são compreendidos por todos; quando o desempenho se torna visível, ninguém quer se apresentar � mal frente aos colegas ou a si próprio. O que realmente motiva os funcionários são resultados. Entretanto, deve-se salientar que apenas por meio de um sistema bem implementa- do de indicadores, efetivamente pode-se esperar melhorias para a gestão organizacional. O gráfico a seguir exemplifica o indicador do número de peças defeituosas por milhão, ou seja, no mês de janeiro houve 673 (ppm pontual) peças de- feituosas fabricadas a cada milhão de peças produzidas. A linha contínua é a média do ano e a pontilhada é a medida do objetivo a ser alcançado. Nesse exemplo percebe-se um descontrole no mês de abril, pelo alto número de peças defeituosas (4.274) fabricadas neste mês. Gráfico 1 – Indicador de Peças (defeituosas) Por Milhão (PPM) O a ut or . PPM – mensal PPM – acumulado Objetivo 5000 4000 3000 2000 1000 0 Média 2003 Jan Fev Mar Abr Maio Jun Jul Ago Set Out Nov Dez PPM – mensal 1096 673 171 148 4274 983 787 90 108 75 46 468 119 PPM – acumulado 0 673 437 330 1369 1289 1198 1034 899 804 735 712 671 Objetivo 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1096 1369 1289 983 1198 787 1034 90 889 108 804 75 73546 712 468 671 119 673 437 171 330 148 4.274 As ações são o meio para a realização de um fim, que seria a meta. Para cada indicador pode-se estabelecer uma ou mais metas e a cada meta um plano de ação com iniciativas específicas para atingi-las. 118 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Ainda com relação ao estabelecimento das metas, sua importância reside no fato de que, de pouco adianta definir uma estratégia ou objetivo, se este não puder ser medido. Não se pode, portanto, confundir uma meta com um objetivo. A meta é a quantificação do objetivo, constituída essencialmente de valores, a ser alcançado em determinado prazo ou em uma determinada data preestabelecida. Na verdade, o que muitas pessoas entendem por um planejamento es- tratégico nada mais é do que a primeira atividade de várias dentro de um processo, que apresenta seus desafios no transcorrer de sua execução. Desdobramento de diretrizes Desdobrar uma diretriz significa dividi-la em várias outras diretrizes sob responsabilidade de outras pessoas. Nesse desdobramento são importantes os fatores (CAMPOS, 1997): ligação entre as diretrizes em um relacionamento meio-fim; � somente desdobrar o que é prioritário. � Implementar o desdobramento das diretrizes significa estabelecer um planejamento estratégico alinhado com a gestão diária. Dessa forma, a alta gerência assegura o controle eficaz da empresa para que suas estratégias de médio e longo prazos se concretizem em modificações na rotina diária e na melhoria dos processos e produtos (AKAO, 1997). Case A empresa fictícia PMS é a única filial no Brasil de uma grande organiza- ção sediada na Alemanha. Sua instalação ocorreu há oito anos, logo após um de seus clientes chegarem a este país. As diferenças culturais e econô- micas colocaram em cheque as operações já no segundo ano. Um planeja- mento estratégico minucioso foi desenvolvido, sendo determinados a visão, a missão e os valores da empresa filial. A organização deveria, segundo seu planejamento, dentre outras ações, buscar maior padronização nos proces- sos e desenvolver a ferramenta educacional 5Ss, além de institucionalizar o treinamento e desenvolvimento. E isso aos poucos estava ocorrendo. Parecia ir tudo bem, mas segundo os conceitos do TQM, os valores, visão e missão devem ser compartilhados por toda a empresa, e isso não estava aconte- Gerenciamento de diretrizes estratégicas 119 cendo. No terceiro ano foram desenvolvidos os conceitos do gerenciamento pelas diretrizes estratégicas, pois o cenário era propício para tal. A primeira atividade foi desenvolver um diagrama de correlação entre as ações e pro- cessos da empresa, conforme a Figura 2. Figura 2 – Diagrama de correlação. *Priorização = da ação . mercado externo . pacotes governamentais Ações Processos Cu st o Q ua lid ad e Fl ex ib ili da de Ra pi de z Co nfi ab ili da de Pr io ri za çã o da s de fic iê nc ia s Área comercial 9 3 3 3 3 21 Logística 3 3 9 3 3 21 Manutenção preventiva 1 3 3 0 1 8 Produção 9 9 9 9 6 42 Montagem 3 3 3 6 9 24 Administrativo/financeiro 6 3 0 3 1 13 Fatores de correção 31 24 27 24 23 Mercado externo 1,0 1,5 1,0 2,0 1,0 Pacotes governamentais 1 1 1 1 1 Priorização* 31 29 27 34 23 O diagrama de correlação evidencia o processo produtivo como elemen- to que requer atenção para o desdobramento. A ação priorizada foi a rapi- dez, o que interage fortemente com a produção e a montagem. A PMS após treinamentos desenvolveu pessoas capacitadas para a opera- cionalização das diretrizes estratégicas, do diretor geral até os supervisores. 120 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Para garantir a sobrevivência da empresa foi adotado o indicador de ponto de equilíbrio financeiro, por consenso entre os diretores da área comercial, financeira/administrativa e de operações responsáveis pelas áreas de produ- ção, logística e qualidade. Após a sensibilização da alta gerência, a escolha das pessoas para desen- volvimento das diretrizes, o levantamento de propósitos estratégicos relata- do na Figura 2, segue o planejamento das diretrizes estratégicas. O indicador de ponto de equilíbrio financeirofoi adotado pelo fato de, nos dois primeiros anos de operação, a empresa não apresentar lucro e já era outubro do terceiro ano, onde os vetores apontavam mais um ano amargo, tendo a empresa a percorrer bancos a fim de financiar capital de giro para pagamento de fornecedores e funcionários. O principal e primeiro objetivo determinado seria, então, igualar os gastos com as despesas até o final do próximo ano. Caso atingido esse indicador ao final do quarto ano de opera- ção, seria determinado outro valor ou outro indicador. Para se alcançar esse objetivo é necessário o desdobramento até chegar ao nível operacional, mas sem alterar as conquistas que a empresa obteve nos primeiros anos de fun- cionamento, como a manutenção dos padrões de qualidade e treinamento dos funcionários. A Figura 3 representa o desdobramento dos níveis hierár- quicos a partir do gerente geral da empresa. Veja como ficou a diretriz do gerente geral: Meta � – atingir o ponto de equilíbrio financeiro, ou seja, o problema são os custos elevados e a baixa lucratividade. Meios/medidas � – aumentar em 4% a lucratividade da empresa. Prazo � – até dezembro do próximo ano. Condições de contorno � – manutenção de padrões de qualidade e treinamento. Gerenciamento de diretrizes estratégicas 121 1. ° n ív el 2. ° n ív el 3. ° n ív el Metas da diretoria financeira/ administrativa Metas da diretoria de operações Metas da gerência administrativa Metas da gerência financeira Meta principal: Gerente Geral Metas da diretoria comercial Metas da gerência de vendas Metas da gerência de engenharia de produtos Metas da gerência de produção Metas da gerência de logística Figura 3 – Desdobramento nos níveis hierárquicos. O a ut or . Desenvolvido o indicador principal do gerente geral, segue o desdobra- mento em indicadores para os diretores de áreas. Para que isso aconteça é necessário que cada diretor reúna sua equipe e em conjunto sejam determi- nadas as diretrizes para cada gerente. O desdobramento entre os níveis deve necessariamente assegurar coe- rência entre diretrizes e ações por meio da cadeia de comando, com objeti- vos claramente definidos a cada etapa, tornando possível controlar e men- surar indicadores a cada curto espaço de tempo como, por exemplo, de um dia. Os níveis devem ser desdobrados até o nível operacional, como mostra a Figura 4. 122 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade O a ut or . Figura 4 – Desdobramento até o nível operacional. 3. ° n ív el 4. ° n ív el 5. ° n ív el Metas da coordenação de montagem Metas da coordenação de fabricação Metas: líder de montagem Linha 1 Metas: líder de montagem Linha 2 Metas da gerência de produção Metas da coordenação de manutenção Metas: líder de programação Linha 1 Metas: líder de programação Linha 2 Metas: líder de fabricação Linha 1 Metas: líder de fabricação Linha 2 NÍVEL OPERACIONAL Conforme descrito, a diretriz do gerente geral, que desencadeia todo o processo de desdobramento das diretrizes, deve ser determinada em uma reunião com os diretores de operações, comercial e administrativo financeiro, conforme demonstrado. Nesse momento, pode ser utilizado o brainstorming e o diagrama de causa e efeito para determinar de qual forma os meios e medidas serão utilizados para cumprir as metas, representado pelas setas, conforme demonstrado na Figura 5. O passo a seguir é representado por uma nova reunião entre os diretores com seus respectivos gerentes e coordenadores, em posse de suas diretrizes, para desdobrar até o nível operacional, onde em um segundo momento os líderes de área serão chamados para discutir suas diretrizes anuais que deve- rão ser analisadas no dia a dia da empresa. Deste momento em diante, para exemplificar, será tratado a seguir as ferramentas para o desdobramento das metas da coordenação de manutenção até o nível operacional, mas é im- portante lembrar que essa metodologia deve ser desenvolvida pelos outros níveis e outras áreas. A coordenação de manutenção possui, através do desdobramento das diretrizes, ligação direta com os resultados da organização. Por conseguinte, deve dar sua parte de esforço para alcançar o ponto de equilíbrio financei- ro. As metas da coordenação da manutenção podem ser desdobradas por Gerenciamento de diretrizes estratégicas 123 metas dos líderes de manutenção, mas para surgir efeito no primeiro ano, não devem ter muitos indicadores para serem controlados. A Figura 6 exem- plifica o desdobramento da coordenação da manutenção em indicadores e ações necessárias para o controle dos líderes. Figura 5 – Desdobramento utilizando o diagrama de causa e efeito. Ponto de equilíbrio Produção Engenharia Logística Administrativa Vendas Financeira O a ut or . CAUSA-RAIZ O a ut or . Metas do líder de programação Linha 1 Metas do líder de programação Linha 2 Metas da coordenação de manutenção Figura 6 – Desdobramento da coordenação de manutenção. Para a opreracionalização dessa etapa, podem ser desenvolvidas outras ferramentas. Em especial para este exemplo, a Figura 7 mostra o estudo do processo através de um diagrama de blocos. Pontos críticos do processo mostrado no diagrama devem ser analisados e sua correlação com os indica- dores da gerência deve ficar bem clara. Por exemplo, se há o desdobramento de um indicador de custos de estoques no nível gerencial, pouco adianta adotar um indicador relativo à limpeza e à organização do almoxarifado de 124 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade peças de manutenção. Não que esse indicador não seja interessante e im- portante para a empresa, mas deve ser tratado de forma diferenciada como, por exemplo, um programa de premiação atrelado à participação de lucros ou incentivar as áreas de melhor desenvolvimento, promovendo um jantar ou outro evento para o reconhecimento. O a ut or . Figura 7 – Diagrama de blocos do setor de manutenção. Coord. Planej. man. Coord. ativ. Execução Cliente Elaborar/ gerenciar plano de manutenção Cadastrar solicitação de serviços Emitir relação de serviços Providenciar materiais para serviços Atualizar programação Coordenar execução de serviços Aprovar/ relatórios. Gerenciar pendências Arquivar relatórios/ verificar padrões Executar serviços Relatório de pendências Emitir relatórios Fazer apropriações Verificar validade dos padrões utilizados Acompanhar pendências Aprovar/ relatórios padrões. Liberar serviços/ aceite Avaliar plano/ propor alterações Gerenciamento de diretrizes estratégicas 125 Após a análise e estudo do processo com o auxílio do diagrama de blocos, o setor de manutenção tem condições de buscar as diretrizes alinhadas com os indicadores da gerência. Caso não haja a necessidade da utilização de outras ferramentas, o pró- ximo passo a ser desenvolvido é o quadro de indicadores do setor, com de- talhes do nome do indicador, simbologia, interpretação, nível hierárquico ao qual pertence, cálculo, unidade de resultado, meta, fonte de análise, depar- tamento responsável e o tipo de gráfico que será utilizado para o acompa- nhamento do indicador. O Quadro 1 exemplifica os indicadores para o setor de manutenção. Quadro 1 – Indicadores da manutenção Nome do indicador Total de reparos ao mês – manutenção Número de horas apropriadas Simbologia TRM NHA Interpretação Número total de reparos executados Quantidade do número total de horas apropriadas efetuadas no mês. Nível hierárquico 4.º5.º Fórmula TRM = reparos NHA = horas apropriadas Resultado Número absoluto/mês Número absoluto/mês Meta 40 160 horas/funcionário Fonte de análise Departamento de manutenção Departamento de manutenção Dep. responsável Gerência de produção Gerência de produção Tipo de gráfico Gráfico de linhas Gráfico de colunas/funcionário A próxima etapa a ser executada é a aprovação da sistemática e dos in- dicadores da manutenção pela direção da empresa, sendo que as metas podem ser rediscutidas, e a aderência (correlação) dos indicadores entre os níveis hierárquicos questionada. No exemplo, os indicadores selecionados pelo setor de manutenção foram o total de reparos ao mês e o número de horas apropriadas por funcionários. Esses indicadores foram escolhidos pela equipe por considerar a existência de relação direta com o indicador do ge- rente: custos de manutenção. A campanha de difusão do método de desdobramento das diretrizes é ini- ciada nesse ponto, pois, até então, somente algumas pessoas na organização foram treinadas para o planejamento e desenvolvimento. Os funcionários da empresa, como um todo, precisam criar o hábito de olhar nos quadros e 126 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade editais, e verificar como está se comportando cada indicador relacionado a sua área. Também é importante que o funcionário interprete os indicado- res como uma oportunidade de crescimento da empresa e não apenas uma forma de controle da mão de obra. Com o cronograma aprovado, as diretrizes começam a ser mensuradas e analisadas no dia a dia. Ações devem ser tomadas quando nota-se a distorção de algum elemento, e planos de ação podem surgir com prazos e responsáveis. A última etapa no processo de desdobramento das diretrizes é a avalia- ção e consolidação. Ao final de cada mês, as metas são confrontadas com o plano de ação, e mudanças podem ocorrer, pois se as ações não estão surtin- do efeito, há necessidade de alterações no plano. Os planos de ação e iniciativas tomadas compõem a dinâmica de consecu- ção das metas. As ações são o meio para a realização de um fim – a meta. A abordagem com base em fatos para a tomada de decisões cria uma cul- tura organizacional que busca a superação. Decisões eficazes são baseadas na análise de dados e informações. As decisões corretas e eficazes são baseadas em fatos e dados, dificultando iniciativas simplórias e subjetivas. Não há mais espaço para se gerenciar com base no achismo. Com certeza informações cor- retas e adequada comunicação impedem que a política do medo se instale na empresa, oferecendo segurança para quem toma as decisões e para quem as recebe. Medições e informações são essenciais para planejamento e análise do desempenho da melhoria das operações. As organizações competitivas utilizam o profundo conhecimento sobre seus processos e resultados e, por- tanto, da medição e análise para gerenciar e tomar as decisões necessárias. Não há polêmica que resista a uma base de dados consistente. Ampliando seus conhecimentos Os mais decisivos segredos de gestão (ROCHA1, 2004) As diretrizes estratégicas representam, atualmente, uma significativa mu- dança de enfoque no âmbito dos negócios e uma grande alteração na cabeça das pessoas da organização. 1 Paulo Rocha é um dos criadores do conceito de sincronismo organizacional, sócio da RBG Consultores e professor da Fundação Dom Cabral. Gerenciamento de diretrizes estratégicas 127 É crescente o número de administradores de empresas com dificuldades para obter resultados operacionais. Atentos às nuances macro e microeconô- micas, são profissionais que, em sua maioria, não dão a devida importância à definição do que significa “diretriz estratégica” para o sucesso de uma organiza- ção. As diretrizes representam o elo entre a formulação estratégica e os planos de ação. Essa formulação leva em consideração uma série de variáveis internas e externas, que representam o contexto no qual o negócio está inserido e de- terminam as prioridades que orientarão as ações do dia a dia da empresa. Entretanto, com a nova configuração do ambiente, a maioria das organiza- ções está considerando a concorrência global como sendo uma das principais variáveis na formulação de sua estratégia. Portanto, no conjunto dessas dire- trizes está contida uma série de desafios relativos à competitividade. Como o eixo do conhecimento mudou, já não basta o conhecimento do negócio “centrado no próprio negócio”: as organizações estão sendo avaliadas por outros indicadores de performance, muito diferentes das formas tradicionais de cobrança. Nesse contexto, as diretrizes estratégicas representam, atualmente, uma significativa mudança de enfoque no âmbito dos negócios e uma grande mu- dança na cabeça das pessoas da organização. Isso significa que, obtidas as di- retrizes, não é suficiente ter boa vontade e continuar fazendo tudo da mesma forma, atribuindo aos outros a responsabilidade da implantação ou a culpa pelo fracasso. São os processos internos que passam a fazer a diferença entre atingir ou não as proposições impostas pelas diretrizes estratégicas. É preciso redesenhar determinados processos, questionar a sua existência, impor novos indicado- res vinculados aos indicadores do próprio negócio e também reorganizá-lo, de modo a deixá-lo apenas com as atividades que agregam valor, tanto do ponto de vista do cliente como do acionista. Porém, também não adianta redesenhar os processos e continuar fazendo tudo da mesma forma. Pessoas “velhas” serão cobradas por resultados novos. É necessário redefinir a forma de trabalho das pessoas, de tal forma que fique claro o porquê das atividades e visível seu grau de agregação de valor para o todo. Partindo da premissa de que os processos agregam valor ao cliente e riqueza para a organização, a ultrapassada cobrança por tarefas dá lugar a uma nova forma de avaliar o desempenho das pessoas – vinculada ao desempenho do processo – e abre espaço para uma divisão mais adequada do bolo. 128 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade Para transformar as diretrizes estratégicas em resultados operacionais é pre- ciso, portanto, que todas as pessoas que tenham influência, direta ou indireta- mente nos resultados, estejam comprometidas e acreditem na estratégia e no conjunto das diretrizes identificadas. Depois que sejam identificados e redese- nhados os processos-chave para o sucesso da estratégia, e que seja ajustada a forma de trabalho das pessoas às novas exigências requeridas pelos processos, o próximo passo passa por alterar o sistema de avaliação e recompensa das pessoas para suportar esse desafio. Além disso, um esforço para tornar realidade uma estratégia passa, necessa- riamente, pela definição da metodologia a ser adotada. Uma boa metodologia deve avaliar o contexto e intervir simultaneamente nos seus três níveis, ou seja, na estratégia, nos processos e nas pessoas, além de dar bases para a estrutu- ração do projeto, definindo a filosofia, o formato e as ferramentas que serão utilizados no transcorrer dos trabalhos. Desempenho Empresa voltada para o cliente é o discurso da maioria das organizações brasileiras. É verdade que alguns movimentos nesse sentido já podem ser per- cebidos pelos consumidores e usuários de produtos e serviços; entretanto, é pouco frente à grandiosidade da questão. Uma grande preocupação das em- presas tidas como de vanguarda, em termos de gestão, é que estão sendo exi- gidos novos índices de desempenho. O ciclo que a organização levará entre entender a lógica, a dinâmica e a tendência das necessidades de seu mercado – e transformá-las em oferta de produtos e serviços – juntamente com o tempo de resposta entre o recebimen- to de um pedido e sua efetiva entrega, serão os dois principais indicadores das empresas vencedoras. O resultado desta visão,construída de fora para dentro, é a definição de novas diretrizes e desafios estratégicos, abrindo caminho para o exame detalhado de como as coisas acontecem dentro dos muros da orga- nização. São os processos internos que passam então a fazer a diferença. Não adianta mudar a estratégia e continuar fazendo tudo da mesma forma, é preci- so identificar e redesenhar os processos-chave da organização. Conhecer o contexto e a cadeia de valor torna-se fundamental para o en- tendimento do que realmente é relevante e agrega valor ao produto ou serviço oferecidos pela empresa. Para tanto, é necessário que os colaboradores passem Gerenciamento de diretrizes estratégicas 129 a encarar o negócio como um sistema dinâmico, deixando a visão particular e especialista, para adotarem uma visão ampla do contexto ao qual a organiza- ção está inserida. Um esforço de redesenho da organização passa pela definição da filosofia, do formato e das ferramentas que serão utilizadas no projeto de mudança. Na filo- sofia, a principal decisão se refere à necessidade de ajuda externa. Em caso afir- mativo, qual o melhor tipo de ajuda, que pode variar entre a contratação de uma consultoria conselheira, para executar autonomamente o trabalho, ou uma con- sultoria que capacite um grupo interno para a condução e gestão da mudança. No formato, se definem os resultados e os prazos limites para obtê-los, a estrutura do projeto, os papéis e responsabilidades dos envolvidos, o fluxo de informações, os recursos e as restrições que devem ser observadas durante a realização dos trabalhos. As ferramentas completam o conjunto das definições básicas para se obter êxito no projeto de mudança. É aqui que se determina a metodologia, os instrumentos de trabalho, o apoio da informática e, principal- mente, a forma de envolvimento e participação da equipe interna. A forma vertical – como a maioria das organizações está estruturada – também se apresenta como uma barreira a ser vencida, pois ela dificulta o en- tendimento do negócio como um todo. Embora, de fato, os processos cruzem as fronteiras das áreas da organização, poucas pessoas conhecem a cadeia de valor. Elas conhecem bem o pedaço ao qual pertencem e o rompimento deste paradigma é fator crítico para o sucesso do projeto de mudança. O esforço deve ser conjugado. Se a estratégia aponta para lugares diferentes dos atuais, os processos internos devem ser alinhados a essas novas diretrizes — e este mesmo raciocínio é válido para as pessoas que fazem parte e, por consequência, operam os processos. O entendimento destas variáveis está diretamente ligado ao sucesso da mu- dança e, como mudança, entenda-se a definição da estratégia, a identificação e redesenho dos processos críticos e a adequação e integração das pessoas frente a esses novos requisitos de performance e comportamento. Mudanças Como tratar as pessoas no processo de mudança? Essa é uma questão fun- damental e tem sido objeto de preocupação para todos que participam ou pro- 130 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade movem mudanças nas organizações. Considerando as empresas como sistemas adaptativos, que necessitam de mecanismos para interpretar e de velocidade para se reposicionar frente às variações do ambiente, o componente humano ressurge como fundamental para o sucesso. Vivemos um momento em que as empresas buscam potencializar seus re- cursos humanos, pois perceberam que a mudança só terá seu resultado pleno se as pessoas estiverem engajadas e se enxergando como parte integrante do processo. Esqueçam aquelas organizações que espalham cartazes ou colocam outdoors na portaria com dizeres demagógicos, do tipo “nossos recursos hu- manos são nosso maior patrimônio” e, na primeira crise, não têm dúvidas em cortar seu “patrimônio”. Tratamos aqui de empresas que, de fato, vivenciaram a falta de comprome- timento dos seus quadros e tiveram de mudar alguns paradigmas, reconhe- cendo afinal que o “homem” faz a diferença e que a valorização desta parceria vale a pena. Passamos muito tempo supervalorizando, ingenuamente, a tecnologia. Co- locamos o “homem” em segundo plano até que, gradativamente, certas pre- missas foram enfim questionadas. Por que projetos tecnicamente perfeitos não saíram da gaveta ou não � produziram os resultados esperados? Quais as causas de programas que tinham tudo para dar certo e, no en- � tanto, foram abandonados? Por que nos enganamos dizendo “quando o sistema for implantado to- � dos nossos problemas estarão resolvidos”? De nada vale ter uma estratégia bem definida, os principais processos re- desenhados, com seus indicadores estrategicamente alinhados, e convivermos com pessoas desalinhadas deste esforço. A gradativa constatação de que o homem é parte integrante da mudança foi de tal forma poderosa que influen- cia, inclusive, a indústria da consultoria, fazendo-a migrar de uma atuação me- ramente conselheira, para uma etapa “fazedora” – quando a ênfase era contra- tar uma consultoria para executar o serviço. Hoje, as organizações não mais querem conselho, muito menos quem faça por elas. Desejam alguém que capacite seus recursos humanos para que eles Gerenciamento de diretrizes estratégicas 131 mesmos produzam as mudanças. Desde que capacitado, santo da casa agora faz milagre! Qualquer novo processo exigirá novas métricas e padrões de per- formance para cobrar e avaliar resultados dos seus funcionários e colabora- dores, para utilizar o termo que vem ganhando espaço nas áreas de Recursos Humanos. Isso precisa ser explicitado e negociado com as pessoas-chave do processo. A construção criteriosa desse novo modelo será utilizada como gabarito para comparar o “homem ideal com o homem existente”. A diferença, que chamo de “Gap” entre o ideal e o existente, indica a quantidade e a qualidade do esforço que a organização deverá empenhar para eliminar esta diferença. É a parte que cabe a organização. Este esforço é individual, ou seja, tratado caso a caso, para que qualquer pessoa possa desempenhar o seu novo papel no processo. Dessa forma, fica reforçado o link entre a real necessidade de agregação de valor do processo e o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI). Fica também claro que ele passa de um enfoque coletivo e institucional, para ter realmente um caráter individual, como o próprio nome sugere. Assim, as empresas podem criar as condições internas para cobrar novos resultados de pessoas “velhas”, sem cometer as inúmeras injustiças organizacionais que temos visto nos últi- mos anos. O Brasil agradece. Atividades de aplicação 1. Marque a resposta correta sobre as diretrizes estratégicas. a) As diretrizes estratégicas surgiram aos poucos durante a década de 1950 no Brasil. b) O Japão possui a denominação Hoshin Kanri. c) Não possui relação com o TQM. d) Depende pouco da participação da diretoria. 2. Sobre metas e indicadores, marque a alternativa correta. a) Deve-se desenvolver muitos indicadores no início da implementa- ção das diretrizes estratégicas. 132 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade b) A meta de uma empresa pode ser definida como o objetivo que esta deseja atingir. c) A meta é constituída basicamente de duas partes: o objetivo e o valor. 3. Quais são os elementos mais importantes para o desenvolvimento das diretrizes estratégicas? a) A cultura organizacional e indicadores de assiduidade. b) A estratégia da empresa e a cultura organizacional. c) Conhecer organizações que já implementaram. d) Contratar consultores capacitados. Gabarito Gestão pela qualidade 1. C 2. D 3. B 4. Excelência Qualidade significa o melhor que se pode fazer; o padrão mais elevado de desempenho. Valor Qualidade significa mais atributos no produto/serviço, ou seja, usar materiais ou serviços rarosque custam mais caro. Especificações Qualidade significa funcionamento do produto/serviço de acordo com as especificações. Regularidade/padronização Qualidade significa baixa variabilidade entre os produtos/serviços produzidos. Adequação ao uso Qualidade significa atingimento das expectativas do cliente e ausência de deficiências. Estratégia corporativa 1. A visão e a missão são desenvolvidas com base nas informações ob- tidas a partir da análise dos ambientes externo e interno de uma or- ganização. A visão é um quadro do que a empresa pretende ser e, em termos amplos, o que ela pretende realizar. Decorrente da visão, a missão especifica os negócios nos quais a empresa pretende com- petir e os clientes que pretende atender. Elas fornecem os rumos para as empresas e sinalizam informações descritivas importantes para os stakeholders. 2. O modelo de cinco forças inclui as variáveis: ameaça à entrada, o po- der dos fornecedores, o poder dos compradores, produtos substitutos e a intensidade da rivalidade entre os concorrentes. Estudando essas 136 Estratégia de Gestão de Processos e da Qualidade forças, a empresa encontra uma posição no setor em que ela pode in- fluenciar as forças a seu favor ou pode se proteger do poder para au- mentar sua capacidade de obter retornos acima da média. 3. B Cultura, 5Ss, T&D e padronização 1. C 2. D 3. B 4. C 5. C Implementação das diretrizes estratégicas 1. C 2. A 3. C 4. C 5. D 6. D Gerenciamento de diretrizes estratégicas 1. B 2. B 3. B Referências AKAO, Yoji. Desdobramento das Diretrizes para o Sucesso do TQM. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. ALBUQUERQUE, Marconi E. E.; SILVA, Francisco A. Cavalcanti. Da Estratégia Competitiva de Manufatura: uma abordagem teórica. 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