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DIDÁTICA DO EDUCADOR DA EJA UNIASSELVI-PÓS Autoria: Gilvan Charles Cerqueira de Araújo Indaial - 2021 2ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Copyright © UNIASSELVI 2021 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. A663d Araújo, Gilvan Charles Cerqueira de Didática do educador da EJA. / Gilvan Charles Cerqueira de Araújo. – Indaial: UNIASSELVI, 2021. 123 p.; il. ISBN 978-65-5646-353-7 ISBN Digital 978-65-5646-352-0 1. Educação. – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 370 Impresso por: Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Jóice Gadotti Consatti Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Marcelo Bucci Jairo Martins Marcio Kisner Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E A EDUCAÇÃO BÁSICA .................................................................7 CAPÍTULO 2 FORMAS DE OFERTA, PLANEJAMENTO E ORGANIZAÇÕES PEDAGÓGICAS DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS .......45 CAPÍTULO 3 EJA: CURRÍCULO, AVALIAÇÃO E FORMAÇÃO DE PROFESSORES ............................................................................85 APRESENTAÇÃO A Educação de Jovens e Adultos é uma das modalidades mais importantes da Educação Básica. É por meio da EJA que os estudantes podem iniciar ou dar continuidade a seus percursos de escolarização, permitindo a construção ou retomada de seus projetos e histórias de vida pela escola e os estudos. Há um debate de valorização das modalidades educacionais e a EJA está inserida nesse processo. A correlação com etapas e também outras formas de atendimento educacional faz parte da essência da Educação de Jovens e Adultos. Para que sua essência e objetivo sejam alcançados é preciso que a EJA esteja ao alcance de todos aqueles que dela precisam como porta de acesso ou continuidade do percurso de escolarização. O Brasil possui condições específicas e históricas de desafios e dificuldades envolvendo a oferta educacional para sua população. A Educação Básica, em suas etapas, muitas vezes não alcança grande parcela da sociedade brasileira. Esses jovens, adultos e idosos que não tiveram acesso à escola, ou então a frequentaram de forma descontinuada, formam o principal público-alvo da Educação de Jovens e Adultos. Tendo essa característica especial, a EJA possui em seu ínterim aspectos que precisam ser levados em consideração a respeito do seu currículo, formas de avaliação, escolha de conteúdos, diversidade e complexidade de seus sujeitos, a importância de se pensar nas avaliações formativas e acompanhamento pedagógico, a formação específica para professores da modalidade, dentre outros aspectos que fazem parte do debate teórico e prático sobre a EJA. Compreender a relação da Educação de Jovens e Adultos e seu papel como modalidade da Educação Básica é tanto essencial como imprescindível, envolvendo elementos como didática, diversidade dos sujeitos da EJA, formas de oferta, avaliação, construção curricular e formação dos professores que atuam na modalidade. No Capítulo 1, “A Educação de Jovens e Adultos e a Educação Básica”, há a apresentação dos tópicos principais e basais da EJA em relação a sua própria estrutura e características, seus sujeitos e a relação com as etapas da Educação Básica. Buscar o protagonismo da EJA no âmbito da oferta educacional brasileira é o primeiro passo a ser dado em direção a um aprofundamento teórico e aperfeiçoamento da prática pedagógica direcionadas à EJA. Em continuidade aos debates iniciados no primeiro capítulo, no Capítulo 2, “Formas de oferta, planejamento e organizações pedagógicas da Educação de Jovens e Adultos” serão tratadas, principalmente, a diversidade, complexidade e variabilidade de se pensar a oferta da EJA na realidade social e educacional brasileira. No terceiro e último capítulo, intitulado “EJA: Currículo, Avaliação e Formação de Professores” serão tratados aspectos complementares do debate envolvendo a EJA. Formas de avaliação, construção curricular e as diferentes formas de avaliar os sujeitos da EJA são as diretrizes que fazem parte desse capítulo. Busca-se, portanto, contemplar a Educação de Jovens e Adultos com algumas das questões atuais e necessárias de toda a Educação Básica. A partir desses três capítulos espera-se, portanto, que ao final dos estudos seja possível elencarmos um panorama dos estudos educacionais relacionados à Educação de Jovens e Adultos. Ao longo deste capítulo, a EJA será tratada em sua especificidade como modalidade educacional, o protagonismo na Educação Básica e a complexidade e diversidade dos seus sujeitos, junto à valorização dos professores que atuam na EJA. Bons estudos! Professor Gilvan Charles Cerqueira de Araújo. CAPÍTULO 1 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • compreender a EJA em suas etapas, segmentos e especificidades didático- pedagógicas; • ser capaz de integrar os desafios da EJA com as possibilidades de melhorias, e análise crítica, reflexiva e propositiva sobre a modalidade em suas diferenciações com o ensino regular; • ter contato com os desafios e aspectos gerais da EJA como uma das modalidades da Educação Básica; • fazer um percurso entre o histórico, aspectos e possibilidades de aperfeiçoamento, diálogo metodológico, aprofundamento teórico e implantação de melhores políticas públicas educacionais que atendam às especificidades da EJA. 8 Didática do Educador da EJA 9 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Para que o debate sobre a Educação de Jovens e Adultos seja iniciado é preciso a delimitação de alguns temas principais para esse ponto de partida. Essencialmente, a EJA necessita ser alocada em seu lugar protagonista na totalidade da Educação Básica, como previsto tanto na Lei de Diretrizes Bases como na Constituição Federal (BRASIL, 1988; 1996). Assim como as demais modalidades educacionais, somente a partir do reconhecimento de sua importância no processo de ensino e aprendizagem é possível pensar em avanços para reflexões e práticas didático-pedagógicas a respeito da Educação de Jovens e Adultos. Nesse sentido, este capítulo está dividido em duas partes que se complementam nessa introdução ao debate sobre a EJA. Inicia-se com questões pertinentes à modalidade, sua diversidade, importância e características específicas em relação às demais etapas da escolarização. A EJA é a porta de entrada ou trilha de continuidade para jovens, adultos e idosos que iniciam ou retomam seus estudos, buscando ressignificações para sua formação pessoal, cultural, escolar e profissional. Busca-se também compreender as nuances características dos sujeitos da EJA, a história e diversidade da modalidade em relação ao seu público- alvo. Pensar a Educação de Jovens e Adultos é compreender as mudanças contemporâneas que vivemos. Jovens, adultos e idosos estão presentes na sociedade e, em muitos casos, não tiveram oportunidades de iniciar ou dar continuidade ao seu percurso de escolarização, papel central da EJA nas redes de ensino espalhadas pelo país. Inserir novos diálogos, reflexões e práticas para a modalidade, valorizar seu histórico de início de seus estudantes com a leitura eescrita, a importância da formação profissional para as histórias de vida dos sujeitos da modalidade, dentre várias questões que complexificam e definem a EJA como uma das mais importantes modalidades da Educação Básica. 2 AS MODALIDADES DA EDUCAÇÃO BÁSICA E A EJA 10 Didática do Educador da EJA FIGURA 1 – A DIVERSIDADE E IMPORTÂNCIA DA EJA FONTE: <https://novaescola.org.br/conteudo/8/eja-alfabetizacao-o- que-muda-planejamento-aulas>. Acesso em: 9 mar. 2021. A Educação de Jovens e Adultos é uma das principais modalidades da Educação Básica. Dentro da estrutura de organização educacional brasileira, jovens, adultos e idosos da EJA representam a oportunidade de retomar ou iniciar o percurso de escolarização que não realizaram nas etapas regulares, principalmente Ensino Fundamental e Ensino Médio, havendo a demanda considerável para o atendimento educacional desses sujeitos. Mesmo que em seu início como modalidade, a EJA tenha passado por um momento de foco no processo de alfabetização e letramento (FREIRE, 1991; 2003; GADOTTI, 2014; PAIVA, 2005), ao longo das últimas décadas, a modalidade passou por transformações em sua estrutura e demandas. A incorporação de novos segmentos e modalidades ocorreu de forma natural, acompanhando, de forma espelhada, a estruturação das etapas educacionais, para que fosse possível ofertar aos estudantes da EJA a oportunidade de iniciar ou continuar seus estudos. As etapas da Educação Básica são estruturas com a finalidade de proporcionar um caminho a ser trilhado pelos estudantes em sua escolarização. Séries, anos e semestres estão presentes em gradações de complexidades quanto às aprendizagens a serem alcançadas pelos estudantes. Do mesmo modo, questões como construção curricular, diferentes propostas de avaliação, formação inicial e continuada de professores, diálogo e aproximação com as modalidades também fazem parte da estruturação das etapas educacionais. 11 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 FIGURA 2 – ETAPAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA FONTE: O autor Na Figura 2 temos as etapas educacionais da organização escolar brasileira. Observa-se que há uma linearidade ao longo de tais etapas que as configuram como o percurso no qual os estudantes terão seus estudos e experiências escolares. Do início da alfabetização e letramento dos primeiros anos do Ensino Fundamental até as aprendizagens mais complexas do Ensino Médio ocorrem, por meio da estruturação das etapas educacionais, gradações de complexidade nas aprendizagens nessas etapas. Tais gradações, estruturadas nas propostas de construção curricular e objetivos de aprendizagem, principalmente, nos permitem ter um panorama completo de como a Educação Básica está organizada no país. A garantia do direito à educação básica para todos exige que se realize também uma avaliação rigorosa da escolarização oferecida a crianças e adolescentes. Para atingir o direito à educação para todos, é fundamental que haja políticas de EJA significativas, as quais assegurem acesso e permanência, pois a maioria dos jovens e adultos não alfabetizados, bem como dos que não terminaram o ensino fundamental, já passou pela escola e segue não alfabetizada. Cabe aos gestores públicos identificar essas pessoas em suas características peculiares, para a definição de uma política de expansão da escolaridade. Isso significa conhecer onde residem e quais são os limites de acesso às classes de educação de jovens e adultos; quais possuem necessidades especiais de aprendizagem e demandariam atendimentos diferenciados; quais estão em situação de vulnerabilidade social e demandariam outras políticas sociais integradas à oferta de escolaridade (BRASIL, 2016). 12 Didática do Educador da EJA FIGURA 3 – MODALIDADES DA EDUCAÇÃO BÁSICA FONTE: O autor Já na Figura 3 temos as modalidades educacionais, que são representadas pelas ofertas educacionais que possuem como objetivo e papel principal complementar, adicionar ou suprir demandas específicas das etapas da Educação Básica. A EJA possui relação direta com as demais modalidades educacionais. No caso da Educação Especial há muitos jovens, adultos e idosos que necessitam de atendimento educacional inclusivo. Nesse sentido, EJA e Educação Especial caminham juntas para a garantia do acesso à educação desses sujeitos, seja em atendimentos especializados ou em iniciativas e estruturação das redes de ensino para a inclusão desses estudantes. 13 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 As modalidades educacionais, muitas vezes, ficam em segundo plano nas organizações e destinação de recursos governamentais para Educação. Com a EJA, o cenário não é diferente. Por representar uma grande diversidade de público, material didático e diferentes componentes curriculares e especialidades de professores, a EJA possui um custo de implantação elevado nas redes educacionais, fazendo com que haja a necessidade de compromisso e esforço dos agentes públicos no fornecimento de recursos para a modalidade. Secretarias de educação municipais, estaduais e os órgãos federais de regulação, acompanhamento e estruturação da Educação Básica no Brasil orientam-se a partir dessa complementariedade entre etapas e modalidades educacionais. Para que a EJA alcance seus objetivos como oferta educacional para o público específico de jovens, adultos e idosos é preciso que haja o conhecimento, experiência, vivência e aprofundamento da realidade, contexto, especificidades e diversidade desses sujeitos da modalidade. A busca por reconhecimento, valorização e expansão da oferta da EJA é uma realidade nas redes de ensino brasileiras. A preconização de atenção, recursos, esforços governamentais e acompanhamento de gestão e didático-pedagógico para as etapas educacionais faz com que as modalidades precisem rumar a caminhos de fortalecimento próprio. Desse modo, é importante acompanhar os movimentos de valorização da EJA como modalidade educacional, dos sujeitos que compõem seu público-alvo, da formação voltada aos profissionais que nela atuam e, principalmente, ao papel fundamental que a Educação de Jovens e Adultos possui na oferta de um início e continuidade do direito à educação a jovens, adultos e idosos. 14 Didática do Educador da EJA 2.1 DESAFIOS DIDÁTICO- PEDAGÓGICOS DA EJA PARA O SÉCULO XXI FIGURA 4 – DESAFIOS DA EJA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO FONTE: <https://www.pexels.com/pt-br/foto/aluno-aprendendo- aprender-aprendiz-159844/>. Acesso em: 9 mar. 2021. Pensar a educação para o século XXI é colocarmo-nos em desafio único, complexo e multifacetado. Partindo da premissa de que temos atualmente uma necessidade dialógica, geracional e de produção e acesso a informação e conhecimento diferenciados, temos diante dos processos de ensino e aprendizagem tanto aberturas como óbices para seus sucessos como propostas didático-pedagógicas (MORAN; BACICH, 2018; PERRENOUD, 2000; LUCKESI, 2011). Diferentes autores buscaram problematizar, refletir e propor práticas educacionais para o século XXI, especialmente na passagem do século passado para o atual (LUCKESI, 2011; SOARES; GIOVANETTI; GOMES, 2005; DI PIERRO, 2001). Em termos gerais, o que se produziu e defendeu nos últimos anos para a educação como um todo é a busca por um conhecimento que seja interdisciplinar, complexo, dialógico, multimodal, inovador, acessível e que permita às diferentes gerações e singularidades de estudantes ter acesso ou iniciar seus percursos de escolarização. No caso da Educação de Jovens e Adultos para o século XXI, uma das prerrogativas mais frequentemente encontradas para jovens, adultos e idosos dessa modalidade educacional é a necessidade de inserção formativa para o mundo do trabalho de forma integrada à formação básica. 15 A EducaçãoDe Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 Também há demandas mais específicas como aperfeiçoamento da estruturação da acessibilidade da EJA Interventiva, que é a associação dessa modalidade com a inclusão e educação especial, a complexidade da educação nas prisões, novas formas de se pensar e colocar em prática os processos de alfabetização e letramento, dentre outras questões que fazem parte da organização, estrutura e desafios da EJA. Ir à escola, forma institucionalizada de educação da sociedade moderna, não tem por objetivo a permanência no estágio cultural em que se está, mas, sim, a aquisição de um patamar novo, a partir da ruptura que se processa pela assimilação ativa da cultura elaborada. A cultura espontânea é insuficiente para a sociedade moderna que exige dos indivíduos novos níveis de entendimentos através da educação formalizada. Isso não significa uma condenação ao autodidatismo. Ocorre que o autodidatismo, no que se refere ao acesso à cultura elaborada, exige iniciação escolar ou, ao menos, iniciação preliminar de leitura, escrita, raciocínio numérico etc. A cultura elaborada, hoje, exige a escolarização, como instância pedagógica (LUCKESI, 2011, p. 118). É preciso, nesses termos, que façamos o percurso da ressignificação da escola à reflexão dialógica, ampla, crítica e propositiva sobre os rumos da Educação de Jovens e Adultos para o século XXI. Contexto, diversidade, acessibilidade, realidades, início ou continuidade do ensino e aprendizagem na escolarização, essas grandes bandeiras e desafios devem fazer parte desse processo, como podemos observar nos seguintes apontamentos sobre esses desafios da modalidade: • A alfabetização e letramento precisam ser incorporados às demandas contemporâneas de uma sociedade tecnológica em constante transformação, desigual e que precisa fornecer as habilidades, competências e aprendizagens necessárias para as diferentes gerações de estudantes, de como ler e compreender o mundo contemporâneo. A era digital e de instantaneidade na troca de informações oferece campos profícuos de exploração das aprendizagens, ao mesmo tempo em que reforça o papel crucial de uma alfabetização e letramento que fomente o olhar crítico e reflexivo da informação e conhecimento acessados, produzidos e, principalmente, compartilhados. • A inserção da formação profissional não basta em sua forma tradicional de aprendizagem de profissões ou ocupações trabalhistas tradicionais. É preciso que as novas oportunidades e formas de geração de renda e empregabilidade façam parte de uma perspectiva de trabalho para o mundo contemporâneo, renovando estruturas formativas de profissões e ocupações já presentes no mercado e a inserção das novas formas de se obter renda e inserção nas múltiplas possibilidades surgidas 16 Didática do Educador da EJA nas últimas décadas, especialmente após o advento do crescimento e avanços tecnológicos. • O processo de juvenilização é uma realidade para a EJA. Em muitas redes de ensino já é possível encontrar formações inteiras de turmas voltadas a jovens em situação de distorção idade-série/ano. Isso significa que o papel da EJA, em muitos casos, mesclou-se com as de turmas de aceleração de aprendizagem ou correção de fluxo. Nesse caso, em não havendo como redefinir a EJA ao seu papel anteriormente destinado mais para adultos e idosos, torna-se necessária sua reconfiguração como modalidade que também recebe, e muito, a demanda de jovens em sua organização, demandando uma atenção didático-pedagógica específica, desafiadora e cada vez mais comum nas escolas brasileiras. • A EJA é formada, em essência, pelo atendimento a um público-alvo formado por sujeitos diversificados, complexos e singulares. Isso significa que, em sua estrutura e organização, encontraremos diferentes focos que definem a modalidade. O atendimento a jovens, adultos e idosos em situação de rua, custodiados nos sistemas prisionais, em atendimento específico ou complementar pela Educação Especial e Inclusiva, ou ainda, que estejam na composição de turmas de outras modalidades como EaD, Educação Escolar Indígena ou Quilombola. Portanto, a EJA irá ao encontro dos pontos de atendimento educacional não alcançados pela Educação Básica em suas etapas. As ações listadas anteriormente fazem parte das principais bandeiras e características da EJA no Brasil. Há, também, especificidades que fazem parte da modalidade, especialmente sua proximidade e complementação nas ações de continuidade de estudos de jovens, adultos e idosos que tiveram que interromper seu percurso de escolarização. No site dos fóruns EJA é possível encontrar vídeos, livros, artigos, documentos, representantes da sociedade civil, poder público e parceiros da Educação de Jovens e Adultos. Destaca-se, também, a presença de todo o arquivo dos fóruns estaduais e regionais da modalidade que ocorrem no país, bem como os documentos das Conferências Internacionais de Jovens e Adultos (CONFINTEA), nas quais encontram-se alguns dos debates mais atuais e discussões envolvendo os sujeitos da EJA. Acesse http://www.forumeja.org.br/. 17 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 A EJA caracteriza-se, dessa maneira, como a abertura maior no âmbito da Educação Básica do ponto de vista de atendimento educacional. A universalização do acesso e direito à formação escolar perpassa pelo atendimento da EJA. Esse fato específico de presença da modalidade como ponto de apoio às etapas educacionais é um dos seus pontos mais marcantes de força e desafios, pelo fato de agregar em si muitas das questões e problematizações da oferta e qualidade educacional das redes de ensino. • A política educativa deve ser suficientemente diversificada e concebida de modo a não se tornar um fator suplementar de exclusão social. • A socialização de cada indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal não devem ser coisas antagônicas. Deve se tender para um sistema que procure combinar as vantagens da integração e o respeito pelos direitos individuais. • A educação não pode, por si só, resolver os problemas postos pela ruptura (onde for o caso) dos laços sociais. Espera-se, no entanto, que contribua para o desenvolvimento do querer viver juntos, elemento básico da coesão social e da identidade nacional. • A escola só pode ter êxito nesta tarefa se contribuir para a promoção e integração dos grupos minoritários, mobilizando os próprios interessados no respeito a sua personalidade. • A democracia parece progredir, segundo formas e fases adaptadas a situação de cada país. Mas a sua vitalidade é constantemente ameaçada. É na escola que deve começar a educação para uma cidadania consciente e ativa. • A participação democrática depende, de algum modo, das virtudes cívicas. Mas ela pode ser encorajada ou estimulada pela instrução e por práticas adaptadas à sociedade dos meios de comunicação social e da informação. Trata-se de fornecer referências e grades de leitura a fim de reforçar as capacidades de compreensão e discernimento. • Cabe à educação fornecer às crianças e aos adultos as bases culturais que lhes permitam decifrar, na medida do possível, as mudanças em curso. O que supõe a capacidade de operar uma triagem na massa de informações, a fim de melhor interpretá- las, e de reconstituir os acontecimentos inseridos numa história de conjunto. • Os sistemas educativos devem dar resposta aos múltiplos desafios das sociedades da informação, na perspectiva de um enriquecimento contínuo dos saberes e do exercício de uma cidadania adaptada às exigências do nosso tempo (DELORS, 2001, p. 67-68). Na mesma linha de argumentação de Delors (2001) é que Gadotti (2014) reforça a necessidade e urgência de um direcionamento específico de elaboração e implantação de políticas públicas educacionaispara a EJA. Se o pensamento, prática e realidade colocados em debate dizem respeito aos avanços necessários para o direito à educação de toda sociedade, então é imprescindível que a EJA possua papel central nesse processo. 18 Didática do Educador da EJA Em suas etapas e segmentos, a EJA contribuirá para que várias temáticas contemporâneas de renovação, proposição e atualização da oferta educacional sejam alcançadas de forma dialógica, democrática, diversificada e ampla e em todos os contextos e realidades dos ambientes escolares existentes no Brasil. No artigo de Friedrich et al. (2010), Trajetória da escolarização de jovens e adultos no Brasil: de plataformas de governo a propostas pedagógicas esvaziadas, é possível encontrarmos importantes informações e reflexões sobre o histórico, importância e particularidades da Educação de Jovens e Adultos no Brasil. Os autores tratam desde a realidade, contextos e sujeitos da modalidade até o seu histórico de implantação e necessidade constante de se pensar políticas públicas educacionais específicas para a EJA. FRIEDRICH, M. et al. Trajetória da escolarização de jovens e adultos no Brasil: de plataformas de governo a propostas pedagógicas esvaziadas. Ensaio: aval. pol. públ. educ., Rio de Janeiro, v. 18, n. 67, jun. 2010. A EJA para o século XXI precisa estar alinhada, portanto, a uma perspectiva de desenvolvimento de políticas públicas educacionais pensadas especificamente para a modalidade. Somente a partir dessa compreensão ampla entre a tradição, história, inovação e contemporaneidade é que a modalidade irá dialogar e se encontrar com os desafios da educação no mundo atual. 19 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 A Educação de Jovens recebe esse nome mas possui também, como característica, o atendimento educacional de estudantes idosos. Portanto, como modalidade educacional, a EJA abrange jovens, adultos e idosos em seus segmentos níveis ou etapas. Por essa diversidade do seu público-alvo é que a EJA possui uma grande infiltração de importância e protagonismo nas demais etapas e modalidades educacionais. É comum, desse modo, vermos setores específicos nos órgãos de gestão educacional que destinam parte de suas atenções em atuação para a EJA como Ensino Médio 3º segmento da EJA, Educação Especial e Inclusiva, ações conjuntas com iniciativas educacionais de Educação Escolar Indígena ou Educação Ambiental, entre outros. A origem da EJA, dessa maneira, está ligada à oferta da alfabetização e letramento, e também às iniciativas de educação popular. A partir desse ponto inicial é que a EJA foi inserida no âmbito das redes de ensino como modalidade educacional. Suas características originárias foram mantidas e ampliadas, de forma a dialogar, se aproximar e aperfeiçoar a diversidade e demandas dos sujeitos da EJA. FIGURA 5 – DESAFIOS DA EJA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO FONTE: <https://br.freepik.com/vetores-premium/educacao-online- cursos-de-formacao-educacao-a-distancia-e-educacao-global-estudo- da-internet-livro-online-tutoriais-e-learning-fundo-do-conceito_10124770. htm#page=2&query=escola&position=19>. Acesso em: 11 mar. 2021. 20 Didática do Educador da EJA Há, portanto, muitos desafios que acompanham a Educação de Jovens e Adultos, seja em sua aproximação e diálogo com as demais etapas e modalidades educacionais ou em sua oferta aos sujeitos que compõem seu público-alvo. No mundo contemporâneo, especialmente com o advento das tecnologias de informação e comunicação e diversificação do público da EJA houve um acréscimo das temáticas e discussões que envolvem a modalidade. 1) Qual a importância da EJA como modalidade para o percurso de escolarização da Educação Básica? 2) Cite dois desafios para a Educação de Jovens e Adultos no século XXI. 3 AS APRENDIZAGENS E DIVERSIDADE DOS SUJEITOS DA EJA Pensar sobre a Educação de Jovens e Adultos é considerar a diversidade de seu público-alvo. Os sujeitos da EJA passaram por consideráveis transformações nas últimas décadas, de um cenário mais focado em estudantes com idade com faixa etária mais avançada e priorização da alfabetização e letramento para uma abertura maior para jovens e adultos na modalidade. Essa alteração na composição dos sujeitos da EJA traz consigo desafios e também possibilidades de formação, estudo, prática, metodologias e toda uma complexidade de oferta educacional condizente com esse novo cenário. Contextos, realidades, histórias e projetos de vida, expectativas e experiências escolares diversas são alguns dos elementos que fazem parte desse processo de uma nova perspectiva acadêmica, de gestão, profissional e de formação para a Educação de Jovens e Adultos. Diferentes autores trabalham atualmente com a perspectiva da EJA para o século XXI, aos jovens, adultos e idosos que por ela são atendidos e que estão presentes em diferentes realidades educacionais (SOARES; GIOVANETTI; GOMES, 2005; DI PIERRO, 2005; FRIEDRICH et al., 2010). A EJA define-se pela 21 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 diversidade e multiplicidade de cenários de ensino e aprendizagem que existem na modalidade para além de seu cenário histórico e, principalmente, abarcando as características do mundo contemporâneo. Somente a partir desse passo em direção a novas perspectivas de ensino, aprendizagem, metodologias de ensino e as especificidades educacionais da EJA é que conseguiremos compreender o atual momento da composição dos sujeitos atendidos pela modalidade. Esses são os pontos que serão tratados neste tópico de nossos estudos, com o objetivo de apresentar e propiciar as aberturas de reflexões a respeito da temática envolvendo as aprendizagens e diversidade dos sujeitos da Educação de Jovens e Adultos. 3.1 OS SUJEITOS DA EJA E SUA DIVERSIDADE FIGURA 6 – A DIVERSIDADE DOS SUJEITOS DA EJA Os sujeitos da EJA são compostos por jovens, adultos e idosos, muitos deles trabalhadores ou em busca de uma formação ou ocupação profissional ou fonte de renda. Também há na EJA estudantes com necessidades especiais, de origem étnica, cultural e histórica tradicionais ou nativas, à abertura e diálogo com as demais etapas educacionais. Na essência da EJA está a oferta de alfabetização e letramento que a acompanha especialmente no 1º segmento. Em outros termos, houve um avanço da diversidade dos sujeitos da EJA, e as redes de ensino, professores, FONTE: <https://atividadesprofessores.com.br/atividades- para-eja/>. Acesso em: 11 mar. 2021. 22 Didática do Educador da EJA gestores e comunidade escolar estão lidando com essas mudanças e desafios que abrangem toda Educação Básica. E é nesse sentido das histórias de vida que devemos compreender os sujeitos da EJA como sujeitos inseridos em sua sociedade cada vez mais complexa. Para além do ato e alfabetizar e letrar esses sujeitos é preciso que consideremos os seus percursos e escolhas, experiências e contextos, estruturas familiares diversificadas etc. O educando é um sujeito que necessita da mediação do educador para reformular sua cultura, para tomar em suas próprias mãos a cultura espontânea que possui, para reorganizá-la com a apropriação da cultura elaborada. Assim, o educando é um sujeito possuidor de capacidade de avanço e crescimento, só necessitando para tanto da mediação da cultura elaborada, que possibilita a ruptura com o seu estado espontâneo (LUCKESI, 2011, p. 118). Pensar os sujeitos da EJA significa trabalhar para, com e na diversidade. A diversidade é constituída das diferenças entre os sujeitos, que os distinguem uns dos outros – mulheres, homens, crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, pessoas com necessidades especiais, privados de liberdade, indígenas, afrodescendentes, descendentes de europeus, de asiáticos,de latino-americanos e migrantes, entre outros. A diversidade que constitui a sociedade brasileira abrange formas de ser, de viver, de pensar e de agir que se enfrentam, entre tensões, com modos distintos de construir identidades sociais e étnico-raciais e cidadania – ou seja, em situações- limite. O não reconhecimento das diferenças como diversidade cultural, que afirma as identidades, tem fortalecido um perfil homogêneo do direito à educação que descaracteriza os sujeitos. O reconhecimento da diversidade dos sujeitos da EJA, das diferenças culturais em contextos de sala de aula e das relações sociais afirmam identidades em políticas de EJA, buscando mecanismos políticos de luta pela igualdade sempre que as diferenças se tornarem desigualdades. No Brasil, as desigualdades econômicas e educacionais são significativas nas questões de gênero e etnia, conforme demonstrado no diagnóstico anterior. Potencializar a diversidade na educação escolar é um desafio pertinente às políticas de EJA, pois, embora tenham sido executados projetos, programas e ações, os impactos do atendimento não foram suficientes para contribuir para a superação das desigualdades sociais e educacionais (BRASIL, 2016, p. 73). É importante que a EJA encontre um equilíbrio entre a diversidade etária e as particularidades de cada segmento da modalidade. A EJA possui em sua essência a multiplicidade de histórias, vivências, experiências e aprendizados. Conteúdos, metodologias, materiais didáticos, práticas e estudos voltados à modalidade devem estar inseridos nessa especificidade fundamental da EJA. 23 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 FONTE: <https://exercicios.mundoeducacao.uol.com.br/exercicios-redacao/ exercicios-sobre-interpretacao-charges-tirinhas.htm>. Acesso em: 11 mar. 2021. FIGURA 7 – O MUNDO CONTEMPORÂNEO A AS APRENDIZAGENS ESCOLARES Apenas ofertar a educação para os sujeitos da EJA não é suficiente no sentido da garantia da formação cidadã, acadêmica, cultural, crítica e propositiva desses estudantes. É preciso que a modalidade seja pensada, praticada e implantada de acordo coma s múltiplas realidades socioculturais e contextos de seus sujeitos. Haverá jovens inseridos no mundo informacional, mesmo que de forma precária em muitos casos, questões de alfabetização presentes em todas as faixas etárias da EJA, a importância da formação integrada com ofertas de cursos de qualificação profissional. E, o mais importante a ser destacado é o fato de ser necessária a elaboração de uma visão própria de políticas educacionais para os sujeitos da EJA, em sua diversidade e particularidades. FONTE: <https://mundoeducacao.uol.com.br/upload/conteudo/ charge-de-ivan-cabral.jpg>. Acesso em: 11 mar. 2021. FIGURA 8 – REALIDADES E CONTEXTOS DOS SUJEITOS DA EJA 24 Didática do Educador da EJA Nesse sentido de repensar as bases da oferta educacional para jovens, adultos e idosos é importante, também, ser colocado em evidência, a necessidade de integrar a EJA à Educação Profissional em todos seus segmentos. Essa ressignificação na modalidade deve contemplar os diferentes elementos da educação como um todo. Construção das propostas curriculares, diferentes maneiras de avaliar as aprendizagens, renovação e aprimoramento das metodologias de ensino que contemplem o ensino e aprendizagem integrados etc. Na medida em que compreendemos a educação, de um lado, reproduzindo a ideologia dominante, mas, de outro, proporcionando, independentemente da intenção de quem tem o poder, a negação daquela ideologia (ou o seu desvelamento) pela confrontação entre ela e a realidade (como de fato está sendo e não como o discurso oficial diz que ela é), realidade vivida pelos educandos e pelos educadores, percebemos a inviabilidade de uma educação neutra. A partir deste momento, falar da impossível neutralidade da educação já não nos assusta ou intimida. É que o fato de não ser o educador um agente neutro não significa, necessariamente, que deve ser um manipulador. A opção realmente libertadora nem se realiza através de uma prática manipuladora nem tampouco por meio de uma prática espontaneísta. O espontaneísmo é licencioso, por isso irresponsável. O que temos de fazer, então, enquanto educadoras ou educadores, é aclarar, assumindo a nossa opção, que é política, e sermos coerentes com ela, na prática (FREIRE, 2001, p. 16). Quando os estudantes da EJA encontram na escola as mesmas metodologias, práticas e aspectos didático-pedagógicos que os afastaram da escola anteriormente há o risco considerável de evasão e abandono escolar, uma realidade em muitas redes de ensino que ofertam a modalidade. A EJA integrada à Educação Profissional e Tecnológica é um dos caminhos possíveis para reverter essa realidade. O filme Entre os muros da escola (Entre les murs / The Class, de 2009), do diretor Laurent Cantet, é um exemplo profundo de como a escola contemporânea precisa ser pensada para as novas gerações com experiências de escolarização descontinuadas. O cenário apresentado no filme também é observado e encontrado na realidade da EJA no Brasil, quando passamos por um momento de atualização, renovação e ressignificação de jovens e adultos para a modalidade, especialmente em cenários de novas propostas educacionais no mundo contemporâneo. 25 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 A aproximação da EJA com a diversidade, contextos, histórias e projetos de vida dos estudantes da modalidade também favorece para que a experiência de início ou continuidade dos estudos seja diferente, profícua e significativa para esses sujeitos. Por essa razão é preciso olhar para os sujeitos da EJA de forma diferente, específica, contextualizada, dialógica e com disposição crítico- propositiva do que é ofertado, por exemplo, regularmente nas etapas educacionais, que possuem aspectos contextuais diferentes da Educação de Jovens e Adultos. A tese de doutorado de Jane Paiva, intitulada Educação de jovens e adultos: direito, concepções e sentidos, é um dos melhores registros acadêmicos de estudo sobre os sujeitos da EJA. Questões didático-pedagógicas, teórico-conceituais, históricas, prático- metodológicas e de implantação de políticas públicas educacionais para a modalidade são discutidas pela autora em sua pesquisa. Em um país em que o acesso à educação é seletivo, guardando simetria com as profundas desigualdades geográficas e socioeconômicas, como é o caso do Brasil, a identidade político-pedagógica da educação de jovens e adultos não foi construída com referência às características psicológicas ou cognitivas das etapas do ciclo de vida (juventude, maturidade, velhice), mas sim em torno de uma representação social enraizada, de um lado, no estigma que recai sobre os analfabetos nas sociedades letradas e, de outro, em uma relativa homogeneidade sociocultural dos educandos conferida pela condição de camponeses ou migrantes rurais (ou sua descendência) e trabalhadores de baixa qualificação pertencentes a estratos de escassos rendimentos. Outra questão debatida pelos fóruns e que interroga as políticas públicas é a permanente tensão entre o propósito de inserção orgânica da educação de jovens e adultos nos sistemas de ensino, o que implica o estabelecimento de normas e certo grau de institucionalização, e a necessidade de preservar elevada flexibilidade organizacional, curricular e metodológica para que os programas respondam às necessidades de formação de sujeitos sociais muito diversos (DI PIERRO, 2005, p. 1131). Como refletido por Arroyo (2005), em concordância com Di Pierro (2005), a EJA encontra-se no limiar da ressignificação não apenas da aprendizagem de jovens, adultos e idosos para toda a Educação Básica. O olhar para EJA vai ao encontro dessas reflexões, ou seja, de sepensar no que é particular e também específico na complexidade e diversidade que faz parte da essência da modalidade. 26 Didática do Educador da EJA Quanto mais se avança na configuração da juventude e da vida adulta teremos mais elementos para configurar a especificidade da EJA, a começar por superar visões restritivas que tão negativamente a marcaram. Por décadas, o olhar escolar os enxergou apenas em suas trajetórias escolares truncadas: alunos enviados, reprovados, defasados, alunos com problemas de frequência, de aprendizagem, não concluintes da 1° a 4° ou da 5° a 8°. Com esse olhar escolar sobre esses jovens-adultos, não avançaremos na configuração (ARROYO 2005, p. 22-23). História de vida – A ideia de história de vida aplicada à EJA diz respeito a uma expansão do conceito de projeto de vida. Compreende-se que os sujeitos da modalidade, em muitos casos, já tiveram passagens e oportunidades de iniciarem ou prosseguirem seus estudos. Desse modo, pensar a história de vida dos sujeitos da EJA é valorizar suas biografias, de modo a (re)inseri-las no percurso de escolarização da Educação Básica. Ter acesso à leitura e escrita é, dessa maneira, se (re)encontrar na sociedade, lendo-a e interpretando-a para além da linguagem alfabética. O direito à educação é ofertado em sua condição mais essencial por meio da alfabetização e letramento. Por essa razão, a EJA recebe especial atenção, protagonismo e centralidade no âmbito da Educação Básica, por configurar esse acesso e continuidade do ato de ler e escrever, crítica e propositivamente pelos estudantes da EJA. No site indicado é possível encontrar diferentes atividades didático-pedagógicas que podem ser utilizadas com estudantes da EJA. É sempre bom lembrarmos que há uma grande diversidade dos sujeitos na modalidade, sejam eles jovens, adultos e idosos. Essa diversidade do público-alvo da EJA faz com que professores e gestores sejam criativos e inventivos em sua ação, de modo a contemplar os pontos necessários de contextualização didático-pedagógica para os estudantes da EJA. Acesse: https://www.espacoeducar. net/2009/06/200-atividades-diversificadas-para-eja.html. 27 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 3.2 EJA ENTRE SUAS ETAPAS E SEGMENTOS FIGURA 9 – A EJA NAS ETAPAS E MODALIDADES DA EDUCAÇÃO BÁSICA FONTE: <https://www.pexels.com/pt-br/foto/aluno-aprendiz- atividade-balcao-159774/>. Acesso em: 11 mar. 2021. A Educação de Jovens e Adultos possui como uma de suas principais características ofertar a formação escolar das etapas da Educação Básica em formatos específicos para jovens, adultos e idosos. Outro ponto importante dessa organização específica da EJA se dá na temporalidade da formação escolar. Se nas etapas a periodicidade formativa do estudante ocorre no intervalo de um ano letivo, seguindo o ano-calendário (mesmo no caso de estruturas de Ensino Médio semestrais, encontradas em diferentes locais do país), no caso a EJA, a temporalidade para todas as etapas, séries e anos é a semestral. Esse aspecto temporal da semestralidade precisa ser reforçado pelo fato de definir a EJA em um dos pontos que lhe é mais característico, que é a formação diferenciada dos sujeitos que serão os estudantes da modalidade, e que buscam tanto retomar como iniciar seus estudos em uma realidade e contexto diferenciados do que ocorre nas etapas da Educação Básica. Ampliação dos segmentos da EJA nas redes de ensino, segundo Haddad e Di Pierro (2005), se deve a um longo histórico de precarização do atendimento educacional regular, seja no início ou continuidade dos estudos, fazendo com que haja um número maior de jovens e adultos que buscam novos caminhos para sua formação escolar na EJA. 28 Didática do Educador da EJA A ampliação da oferta escolar não foi acompanhada de uma melhoria das condições do ensino, de modo que, hoje, temos mais escolas, mas sua qualidade é muito ruim. A má qualidade do ensino combina-se à situação de pobreza extrema em que vive uma parcela importante da população para produzir um contingente numeroso de crianças e adolescentes que passam pela escola sem lograr aprendizagens significativas e que, submetidas a experiências penosas de fracasso e repetência escolar, acabam por abandonar os estudos. Temos agora um novo tipo de exclusão educacional: antes as crianças não podiam frequentar a escola por ausência de vagas, hoje ingressam na escola mas não aprendem e dela são excluídas antes de concluir os estudos com êxito (HADDAD; DI PIERRO, 2000, p. 125-126). Outro ponto característico e importante a respeito dos segmentos da EJA é o fato de ser necessária uma elaboração didático-pedagógica própria para a modalidade. Muitas das questões de construção de propostas educacionais para jovens, adultos e idosos partem do cenário regular das etapas da Educação Básica, o que pode gerar diferentes equívocos de diagnósticos e visualização do cenário e contexto específico da EJA. Vejamos a seguir, por exemplo, como é possível identificar alguns desses traços didático-pedagógicos nos diferentes segmentos da EJA. QUADRO 1 – 1º SEGMENTO Ensino Fundamental Anos Iniciais EJA 1º segmento 1º Ano 1ª Etapa/Série2º Ano 3º Ano 2ª Etapa/Série 4 º Ano 3ª Etapa/Série 5 º Ano 4ª Etapa/Série FONTE: O autor O 1º segmento da EJA é marcado pela característica de retomada ou início da alfabetização e letramento em seus níveis ou etapas. Um ponto importante a ser destacado é a diferenciação entre as divisões do Ensino Fundamental em seus anos iniciais, sendo que no primeiro caso mantém-se a estrutura anterior de 8 séries (ou etapas/níveis) e no atual Ensino Fundamental Anos Iniciais há cinco anos de escolarização que o compõem. Outro ponto importante do primeiro segmento é que todas as etapas, níveis ou séries devem ter em sua estrutura e proposta o objetivo de alfabetizar e letrar os estudantes da modalidade. Mesmo que haja a concentração de tais atividades iniciais de alfabetização e letramento nos dois primeiros níveis, etapas ou 29 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 séries, essa continuidade é fundamental para os jovens, adultos e idosos desse segmento. Destaca-se, também, o fato de ser possível, desde o 1º segmento da EJA, haver a inserção de cursos de formação profissional para a EJA, fomentando também diferentes demandas de qualificação para o mundo do trabalho, desde os primeiros passos de início ou retomada do processo de escolarização. QUADRO 2 – 2º SEGMENTO Ensino Fundamental Anos Finais EJA 2º segmento 5º Ano 5ª Etapa/Série 6º Ano 6ª Etapa/Série 7º Ano 7ª Etapa/Série 8º Ano 8ª Etapa/Série FONTE: O autor O 2º segmento da EJA é talvez o período de transição mais complexo da modalidade. Nesse segmento encontramos a correspondência com os anos finais do Ensino Fundamental, ou seja, 6º, 7º, 8º e 9º anos. A equivalência entre anos e níveis e etapas da EJA se torna mais natural do que, por exemplo, os primeiros passos do 1º segmento da EJA. Um ponto marcante do 2º segmento da EJA diz respeito ao cenário cada vez mais comum de juvenilização da modalidade. Em outras palavras, é nesse segmento da modalidade que encontramos muitos jovens que tiveram seus estudos interrompidos na etapa Ensino Fundamental e estão na EJA para retomar o processo de escolarização. Há, portanto, um desafio geracional latente que se aprofunda e complexifica no 2º segmento da EJA, junto às diferentes visões de mundo, interesses e sociabilidade uns com os outros entre o atual público que compõe essa fase intermediária da modalidade. No artigo de Ferreira et al. (2013), intitulado Práticas dos professores alfabetizadores da EJA: o que fazem os professores, o que pensam os seus alunos?, os autores tratam de alguns dos óbices e possibilidades presentes no processode alfabetização da EJA, especialmente na correlação de proximidade e importância de especificação dos métodos didático-pedagógicos para o 1º segmento. Essa mesma lógica tratada pelos autores do estudo pode ser ampliada para os demais segmentos e etapas da EJA em suas particularidades. 30 Didática do Educador da EJA FERREIRA, A. T. B. et al. Práticas dos professores alfabetizadores da EJA: o que fazem os professores,, o que pensam os seus alunos? Educ. rev., Belo Horizonte, v. 29, n. 3, set. 2013. Os desafios da juvenilização devem ser discutidos, portanto, com a etapa do Ensino Fundamental, especialmente em seus anos finais, por meio de oportunização de turmas de aceleração de aprendizagem, por exemplo, para depois haver o encaminhamento dos estudantes para a EJA, dentre outras possibilidades de diálogo e resolução desse cenário didático-pedagógico cada vez mais comum. É também no 2º segmento que as formações profissionais integradas podem ser potencializadas de acordo com os interesses dos estudantes jovens, adultos e idosos da EJA. Como inserção qualificada ao mundo do trabalho, nesse segmento será possível ofertar opções mais específicas de formações voltadas a diferentes oportunidades de ocupação profissional para os estudantes da modalidade. QUADRO 3 – 3º SEGMENTO Ensino Médio EJA 3º segmento 1º Ano 1ª Ano/Série 2º Ano 2ª Ano/Série 3º Ano 3ª Ano/Série FONTE: O autor O 3º segmento da EJA também possui correspondência direta com a etapa que o estrutura, ou seja, o Ensino Médio. Dessa maneira, os três anos da etapa serão os semestres que comporão os anos, séries ou níveis do terceiro segmento da modalidade. Muitas instituições de ensino, inclusive, ofertam tanto a etapa como a modalidade, a depender da formação das turmas, especificidades e necessidades particulares dos estudantes que compõem o público-alvo da EJA. Em relação ao 3º segmento, também se destaca o fato de haver, muitas vezes, uma proximidade etária elevada entre a etapa de origem, o Ensino Médio, e a modalidade em seu terceiro segmento. Essa situação é verificada principalmente nos dois anos finais do Ensino Médio ofertados nos semestres equivalentes da EJA. Não há, por exemplo, uma definição exata para que as redes de ensino direcionem seus estudantes do Ensino Médio para a EJA, independentemente de 31 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 seu rendimento escolar, faixa etária ou demais elementos que façam com que tal direcionamento se torne possível. Esse é um quadro cada vez mais comum nas instituições de ensino e que demanda uma reflexão e proposições de solução para que possamos repensá-lo e estruturar da melhor forma possível a oferta do Ensino Médio regular ou o 3º segmento da EJA. É também no 3º segmento da EJA que teremos a inserção das formações profissionais mais complexas. Essa qualificação profissional se dará por meio de cursos técnicos integrados ou não à formação básica dos estudantes. Para que alcancemos a ressignificação da EJA, especialmente na questão de uma oferta educacional contextualizada às realidades dos estudantes que a compõem é necessária a reflexão e ação voltada a uma EJA integrada à qualificação profissional e, no caso, específico do 3º segmento. A oferta de cursos técnicos se configuram como a melhor maneira de alcançar tal objetivo de reestruturar a modalidade e, também, proporcionar aos estudantes da EJA a formação profissional mais qualificada para o mundo do trabalho ou, no melhor dos cenários, a continuidade de sua formação escolar e profissional iniciada também no 1º ou 2º segmentos da modalidade. A formação técnica e profissional da EJA é uma das principais características de busca por uma redefinição e ressignificação da modalidade. Ofertar possibilidades de qualificação profissional para os estudantes da EJA possui o duplo papel de oferecer a esses jovens, adultos e idosos aspectos de diferenciação de seu contato e vivência escolar e, também, possui uma formação que o permita encontrar novas oportunidades no mundo do trabalho. 32 Didática do Educador da EJA FIGURA 10 – A EJA EM SEUS DIFERENTES SEGMENTOS FONTE: <http://portal.mec.gov.br/images/stories/noticias/2010/livros_didaticos. jpg>. Acesso em: 11 mar. 2021. É importante destacar que as nomenclaturas das correlações entre a EJA como modalidade educacional com as etapas correspondentes podem variar entre cidades e unidades da federação. Dessa forma, a EJA possui tanto proximidade como também características específicas em seus segmentos, destinados a faixas etárias diversificadas e aspectos didático-pedagógicos singulares. Os segmentos da EJA também perpassam um longo ciclo de escolarização da Educação Básica. Essa condição de contemplar todas as etapas educacionais regulares faz com que vários elementos sejam alocados em ponto central de pensamento, elaboração e implantação para a EJA como construção curricular, formação inicial e continuada, material didático, dentre outros aspectos que necessitam de direcionamento específicos para os sujeitos da EJA. 33 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 3.3 ALFABETIZAÇÃO, LETRAMENTO E AS APRENDIZAGENS DE JOVENS, ADULTOS E IDOSOS FIGURA 11 – ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO NA EJA FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/guy-homem-leitura-livro- neg%C3%B3cios-2557251/>. Acesso em: 11 mar. 2021. A alfabetização e letramento compõem uma das principais bandeiras da EJA, desde sua origem como modalidade educacional (FREIRE, 2001; SOARES, 2004; HADDAD; DI PIERRO, 2005). Universalizar a alfabetização e letramento sempre fez parte das prerrogativas estruturantes da EJA. Apesar de haver a centralidade de tais processos no 1º segmento da modalidade, é importante destacarmos que somente por meio da alfabetização e letramento é que poderemos vislumbrar a continuidade do início ou retomada da escolarização por jovens, adultos e idosos que fazem parte do público-alvo da EJA. Alfabetizar e letrar são processos didático-pedagógicos que estão presentes no âmbito da Educação Básica mas que a ultrapassam em protagonismo e centralidade sociocultural. É por meio da leitura e escrita que os indivíduos possuem acesso ao arcabouço teórico de suas sociedades à cultura elaborada presente, por exemplo, nas propostas curriculares que estruturam etapas e modalidades educacionais. Os códigos e normas presentes no idioma e transpostos como percursos e níveis de escolarização constituem a formalização do caminho necessário para se ter alcance a toda construção histórica, cultural, geográfica, econômica e sociopolítica de uma sociedade. A leitura deve ser um dos principais fatores e vetores do fomento às aprendizagens do processo de alfabetização. É pela leitura que a palavra e a 34 Didática do Educador da EJA escrita ganharão significado para os estudantes, e por meio desta será possível dialogar com os contextos, histórias de vida, realidades e diferentes situações de aprendizagem nas quais os saberes-fazer da leitura e escrita encontrarão novos significados para os estudantes da EJA: Inicialmente me parece interessante reafirmar que sempre vi a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo, como um ato criador. Para mim seria impossível engajar-me num trabalho de memorização mecânica dos ba-be-bi-bo-bu, dos la-le-li-lo-lu. Daí que também não pudesse reduzir a alfabetização ao ensino puro da palavra, das sílabas ou das letras. Ensino em cujo processo o alfabetizador fosse “enchendo” com suas palavras as cabeças supostamente “vazias” dos alfabetizandos. Pelo contrário, enquanto ato de conhecimento e ato criador, o processo da alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. O fato de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorreem qualquer relação pedagógica, não significa dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem. Na verdade, tanto o alfabetizador quanto o alfabetizando, ao pegarem, por exemplo, um objeto, como laço agora com o que tenho entre os dedos, sentem o objeto, percebem o objeto sentido e são capazes de expressar verbalmente o objeto sentido e percebido. Como eu, o analfabeto é capaz de sentir a caneta, de perceber a caneta e de dizer caneta. Eu, porém, sou capaz de não apenas sentir a caneta, de perceber a caneta, de dizer caneta, mas também de escrever caneta e, consequentemente, de ler caneta. A alfabetização é a criação ou a montagem da expressão escrita da expressão oral. Esta montagem não pode ser feita pelo educador para ou sobre o alfabetizando. Aí tem ele um momento de sua tarefa criadora (FREIRE, 2001, p. 9). Essa metodologia da conexão entre o teórico-metodológico e prático- contextual é dos diferenciadores do ensino e aprendizagem na EJA como um todo, para além até da alfabetização e letramento. No entanto, é preciso que reflitamos de qual alfabetização e quais sujeitos da EJA estamos nos referindo, especificamente se tratando da realidade que vivemos na contemporaneidade. 35 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 Alfabetização: diz respeito ao ensino e aprendizado voltado para as diretrizes em representações de sons, fala, fonemas, formação de grafemas e construções gráficas, e as questões ortográficas e seus sistemas alfabéticos. Letramento: vai ao encontro da alfabetização, com maior foco na contextualização e correlação das aprendizagens de alfabetização aos contextos e realidades de estudantes e professores. As experiências e inserção de tais aspectos nas estratégias didático- pedagógicas é uma das marcas características do letramento. Muitas vezes, o fator de descontinuidade das aprendizagens é desconsiderado na alfabetização e letramento dos jovens, adultos e idosos, sujeitos da EJA. Seja como início do percurso de escolarização ou retorno a uma continuidade interrompida nas etapas da Educação Básica, é preciso que tais fatores sejam relevados. A cultura escrita, como abertura ao letramento desses sujeitos, se complexifica ainda mais, merecendo especial atenção por aqueles que trabalham com a modalidade, especialmente em sua prática pedagógica cotidiana: […] na aprendizagem inicial da língua escrita, com sérios reflexos ao longo de todo o ensino fundamental, parece ser necessário rever os quadros referenciais e os processos de ensino que têm predominado em nossas salas de aula, e talvez reconhecer a possibilidade e mesmo a necessidade de estabelecer a distinção entre o que mais propriamente se denomina letramento, de que são muitas as facetas – imersão das crianças na cultura escrita, participação em experiências variadas com a leitura e a escrita, conhecimento e interação com diferentes tipos e gêneros de material escrito – e o que é propriamente a alfabetização, de que também são muitas as facetas – consciência fonológica e fonêmica, identificação das relações fonema-grafema, habilidades de codificação e decodificação da língua escrita, conhecimento e reconhecimento dos processos de tradução da forma sonora da fala para a forma gráfica da escrita (SOARES, 2004, p. 15). A aprendizagem dos códigos e normas na alfabetização, portanto, deve respeitar a questão da contextualização gráfica fonética e escrita no âmbito sociocultural. Também é possível levar tais especificidades, no caso da EJA, para a questão contextual da aprendizagem pela alfabetização e letramento, ou seja, quando entra em cena o fator das histórias de vida dos sujeitos da modalidade em seu início ou retorno para o processo de escolarização, demandando desafios particulares e diferenciados em suas aprendizagens da leitura e escrita: 36 Didática do Educador da EJA Em síntese, o que se propõe é, em primeiro lugar, a necessidade de reconhecimento da especificidade da alfabetização, entendida como processo de aquisição e apropriação do sistema da escrita, alfabético e ortográfico; em segundo lugar, e como decorrência, a importância de que a alfabetização se desenvolva num contexto de letramento […] particularmente a alfabetização, em suas diferentes facetas – outras caracterizadas por ensino incidental, indireto e subordinado a possibilidades e motivações das crianças; em quarto lugar, a necessidade de rever e reformular a formação dos professores das séries iniciais do ensino fundamental, de modo a torná-los capazes de enfrentar o grave e reiterado fracasso escolar na aprendizagem inicial da língua escrita nas escolas brasileiras (SOARES, 2004, p. 16). A partir dessas premissas teórico-conceituais levantadas pela autora é possível elencarmos alguns aspectos definidores e estruturantes tanto da alfabetização como do letramento, para que assim possamos visualizá-los no cerne das singularidades da Educação de Jovens e Adultos. Vejamos a seguir alguns desses pontos de definição. A escolarização é um direito universal. Essa premissa de acesso à educação deve ser compreendida no sentido mais amplo possível, ou seja, em como podemos e devemos ofertar os meios pelos quais estudantes das etapas e modalidades da Educação Básica iniciarão ou retomarão seus estudos e aprendizados. É nesse sentido que a alfabetização e letramento são direcionados como os primeiros e mais importantes passos de um longo, complexo e profícuo caminho de formação tanto do estudante como do cidadão. A universalização do ensino elementar, a garantia de domínio dos códigos básicos de leitura e escrita e a superação do fracasso escolar terão que ser por nós enfrentados de forma tal que o propósito conteúdo do ensino, receba tratamento adequado ao mais pleno desenvolvimento cognitivo. Não se trata mais de alfabetizar para o mundo no qual a leitura era privilégio de poucos ilustrados, mas sim para contextos culturais nos quais a decodificação da informação escrita é importante para o lazer, o consumo e o trabalho. Este é um mundo letrado, no qual o domínio da língua é também pré- requisito para a aquisição da capacidade de lidar com códigos e portanto, ter acesso a outras linguagens simbólicas e não verbais, com as da informática e as das artes (MELLO, 1993, p. 28). A leitura do mundo demanda do estudante a apropriação teórico-conceitual e prática-metodológica de visualização dos elementos sociais e naturais que o circundam. Esse ato de ler o mundo significa, ao mesmo tempo, mobilizar o conhecimento científico-acadêmico adquirido em sua formação escolar como também correlacioná-los de forma crítica, analítica e propositiva ao mundo que 37 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 habitam, modificam e fazem parte. Ao realizarmos ou proporcionarmos tal ponte no processo de escolarização, então teremos alcançado muitos dos objetivos de aprendizagem que estão presentes na estruturação de uma leitura do mundo, que permeia toda a Educação Básica, em suas etapas e modalidades. Ler o mundo é inseri-lo em seu contexto, experiência, prática, memória, cultura e vivência. É nesse sentido que Freire (1991, p. 22) realiza a reflexão sobre tal processo quando coloca que: “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”. FIGURA 12 – O MUNDO DA LEITURA E ESCRITA NA EJA FONTE: <https://www.pexels.com/pt-br/foto/aprendendo-aprender- biblioteca-capa-dura-220326/>. Acesso em: 11 mar. 2021. E mais que o comentário de Freire (1991), muito assentado na experiência da EJA e educação popular na realidade adulta, é preciso haver uma ressignificaçãoda EJA contemporânea, muito marcada por elementos como a juvenilização, a necessidade de oferta da modalidade integrada à formação profissional e inserção de novos elementos para o século XXI como ensino híbrido, TDICs, metodologias ativas etc. Essa busca por uma nova identidade e identificação para a EJA é trabalhado amplamente por autores contemporâneos. A realidade da alfabetização e letramento foi um dos pontos de partida da modalidade em seu processo de maturação e afirmação no Brasil, mas o cenário atual nos trouxe novos desafios e realidades, que precisam ser colocadas em questão quando pensamos em novas perspectivas para a modalidade. 38 Didática do Educador da EJA Um aspecto que também faz parte dessas conceituações sobre as novas identidades e sujeitos da EJA diz respeito ao analfabetismo funcional. Essa condição está presente também nas etapas da Educação Básica, mas possui especial condição de agravante no caso da EJA por um dos aspectos definidores dos sujeitos dessa modalidade, que é a descontinuidade de estudos ou percurso de escolarização. O projeto MOVA de São Paulo é uma das experiências de alfabetização e letramento de maior referência no Brasil. Tendo como característica a adoção do método Paulo Freire e o olhar diferenciado para o público que compõe, a Educação de Jovens e Adultos é um dos traços da iniciativa, presente em seu site: “A ação pedagógica se desenvolve com base na Leitura do Mundo do(a) educando(a), que busca mapear as situações significativas do contexto em que estão inseridos. Desse processo surgem os Temas Geradores que orientam a escolha dos conteúdos”. Acesse https://www.paulofreire. org/programas-e-projetos/projeto-mova-brasil. Para Haddad e Di Pierro (2000) é justamente esse caráter de descontinuidade e falta de uma atenção quanto às políticas públicas educacionais para a EJA que fez com que a situação do analfabetismo funcional se tornasse um dos mais graves desafios da modalidade. Esse conjunto da população que possui conhecimentos parcos e descontinuados da leitura e escrita estão, muitas vezes, inseridos nas turmas da EJA em seus vários segmentos e etapas e precisam de uma especial atenção a respeito de sua condição de analfabeto funcional: Essa nova modalidade de exclusão educacional que acompanhou a ampliação do ensino público acabou produzindo um elevado contingente de jovens e adultos que, apesar de terem passado pelo sistema de ensino, nele realizaram aprendizagens insuficientes para utilizar com autonomia os conhecimentos adquiridos em seu dia a dia. O resultado desse processo é que, no conjunto da população, assiste-se à gradativa substituição dos analfabetos absolutos por um numeroso grupo de jovens e adultos cujo domínio precário da leitura, da escrita e do cálculo vem sendo tipificado como analfabetismo funcional (HADDAD; DI PIERRO, 2000, p. 126). 39 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 Nessa nova realidade ressaltada pelos autores é que novos elementos são acrescentados às estratégias didático-pedagógicas de alfabetização e letramento para a EJA. Essas alterações e atualizações também se conectam ao momento atual de diversificação dos sujeitos da Educação de Jovens e Adultos em todos os seus segmentos, como pode ser encontrado atualmente nas primeiras etapas da EJA, quando há o processo de ensino e aprendizagem da escrita e leitura. A alfabetização deve ser um dos focos da Educação de Jovens e Adultos, que faz parte da sua origem como modalidade. Alfabetizar e letrar jovens, adultos e idosos é o primeiro e mais importante passo para a garantia de início ou continuidade do percurso de escolarização. Por meio da alfabetização e letramento também conseguimos ofertar aos diferentes indivíduos que compõem a modalidade caminhos pelos quais estes alçarão novos objetivos para suas histórias de vida, cada qual com complexidades, experiências e relações diferentes com a educação (FREIRE, 1991; 2001; 2003). A estruturação tardia do sistema público de ensino brasileiro, suas mazelas e os equívocos das políticas educacionais não parecem suficientes, porém, para esclarecer as causas da persistência de elevados índices de analfabetismo absoluto e funcional e de uma média de anos de estudos inferior àquela de países latino-americanos com níveis equivalentes de desenvolvimento econômico. Essa descontinuidade entre as dimensões econômica e cultural da modernização torna-se compreensível quando percebemos a estreita associação entre a incidência da pobreza e as restrições ao acesso à educação (HADDAD; DI PIERRO, 2000, p. 127). A alfabetização e letramento estão presentes na EJA como essência de sua origem e uma de suas principais bandeiras. Pensar a teoria e prática educacional do ato de alfabetizar e letrar no âmbito da EJA é, em grande medida, ir em direção ao que a modalidade possui de mais originário e histórico. Proporcionar a jovens, adultos e idosos a oportunidade e direito à escrita e leitura é inseri-los no mundo, fornecendo os instrumentos, habilidades, competências e saberes necessários para compreenderem o mundo que habitam, o outro e si mesmos, de forma ressignificada, a partir do ambiente escolar. Alfabetização e letramento continua sendo uma das bandeiras principais da EJA, por seu papel histórico, correlação com os primeiros anos do Ensino Fundamental e a importância de levar o aprendizado de escrita e leitura para jovens, adultos e idosos. 40 Didática do Educador da EJA 1) A partir da citação a seguir, responda às questões: “As políticas de EJA, dentre essas as de alfabetização, vêm disputando concepções sobre o que é alfabetizar e garantir o direito à educação para jovens e adultos. A perspectiva é de formar leitores e escritores autônomos, que dominem o código linguístico, mas que também sejam capazes de atribuir sentidos e recriar histórias; de compreender criticamente sua realidade intervindo para transformar (a práxis), pela escrita, sem prejuízo de outras formas de expressão como imagens, o que vai além do que tem sido observado em muitas práticas de alfabetização na EJA. O mundo contemporâneo exige o leitor de diversos códigos, do múltiplo, do diverso, perspicaz na interpretação e com capacidade de atribuir sentidos com toda a liberdade, para além da oralidade, campo em que sujeitos jovens e adultos têm domínio” (BRASIL, 2009, p, 34). a) Qual é a importância de haver iniciativas governamentais para alfabetização e letramento de jovens, adultos e idosos? b) Como repensar a alfabetização e letramento da EJA no século XXI? 4 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A Educação de Jovens e Adultos é uma das principais modalidades educacionais por possuir como principal característica proporcionar a jovens, adultos e idosos iniciar ou retomar o seu percurso no processo de escolarização. A diversidade da EJA é encontrada, portanto, em dois pontos principais de sua estruturação. O primeiro deles diz respeito ao público-alvo que a compõe, ou seja, os múltiplos sujeitos da EJA, que tiveram ou não o direito, oportunidade ou contexto propício para início ou retomada de sua escolarização, em uma ampla diversidade e diferentes aspectos para cada faixa etária ou grupos sociais que formam os sujeitos da EJA. Por outro lado, é característico da EJA contemplar em sua estrutura todas as etapas da Educação Básica, ou seja, elementos da Educação Infantil e, 41 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 principalmente, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Os segmentos e etapas ou níveis da EJA são estruturados para que comportem os nove anos do Ensino Fundamental (Anos Iniciais e Finais) e os três anos do Ensino Médio. Também é característico da EJA uma aproximação e diálogo profundo com as demais modalidades, como Educação Ambiental,Educação Profissional e Tecnológica, Educação Escolar Indígena e Educação Especial e Inclusiva. Pensar a EJA é considerar, dessa maneira, levar em consideração a necessidade de pensá-la em uma perspectiva que vá da alfabetização e letramento desses sujeitos até sua formação para o mundo do trabalho. Colocar em primeiro relevo tais aspectos é significar a EJA para as demandas sociais, pessoais, socioemocionais, profissionais e familiares dos sujeitos da modalidade. É importante que haja a retomada ou início da escolarização, mas também, mais necessário ainda é direcionar essa formação escolar para a realidade, situação e contexto que acompanha e faz parte da realidade vivida dos estudantes que fazem parte da EJA. Há uma diversidade da EJA que a acompanha como modalidade da Educação Básica e organização como um todo do ambiente escolar. É comum encontrarmos nas diferentes redes de ensino do país a oferta de etapas e modalidades educacionais. O ambiente escolar é formado por uma diversidade e múltiplas realidades de ensino e aprendizagem, e a EJA é inserida nesse contexto como o complemento principal para que jovens, adultos e idosos comecem ou retomem o seu percurso de escolarização. Muitos dos desafios da EJA para o século XXI dizem respeito a sua conexão com um mundo móvel, efêmero e conectado. Em outras palavras, é preciso que questões educacionais como currículo, avaliação, formação de professores, formas de oferta, materiais didáticos e conteúdos estejam em diálogo, proximidade e correlação com a atualidade. O momento é de ressignificar e atualização da modalidade, teórica, prática, metodológica e em suas formas de oferta nas redes de ensino, respeitando a diversidade e particularidades dos sujeitos da EJA. REFERÊNCIAS ARROYO, M. G. Educação de Jovens-Adultos: um campo de direitos e de responsabilidades públicas. In: SOARES, L. et al. Diálogos da educação de jovens e adultos. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 42 Didática do Educador da EJA BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Documento Nacional Preparatório à VI Conferência Internacional de Educação de Adultos. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Brasília: MEC, 2016. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Documento Nacional Preparatório à VI Conferência Internacional de Educação de Adultos (VI CONFINTEA). Ministério da Educação (MEC). Brasília: MEC; Goiânia: FUNAPE/UFG, 2009. BRASIL. Lei n. 9394 de 20 dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial da União. Brasília, p. 027833, col. 1, 23 dez. 1996. BRASIL. Constituição Federal do Brasil. Brasília: Senado, 1988. DELORS, J. Educação um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI. 6. ed. Tradução José Carlos Eufrázio. São Paulo: Cortez, 2001. DI PIERRO, M. C. Notas sobre a redefinição da identidade e das políticas públicas de educação de jovens e adultos no Brasil. In: Educação e Sociedade, Campinas, v. 26, n. 92, p. 1115-1139, 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/ pdf/es/v26n92/v26n92a18. Acesso em: 20 fev. 2020. FERREIRA, A. T. B. et al. Práticas dos professores alfabetizadores da EJA: o que fazem os professores, o que pensam os seus alunos? Educ. rev., Belo Horizonte, v. 29, n. 3, set. 2013. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 27. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003. FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2001. FREIRE, P. A educação na cidade. São Paulo: Cortez,1991. FRIEDRICH, M. et al. Trajetória da escolarização de jovens e adultos no Brasil: de plataformas de governo a propostas pedagógicas esvaziadas. Ensaio: aval. pol. públ. educ., Rio de Janeiro, v. 18, n. 67, jun. 2010. 43 A Educação De Jovens E Adultos E A Educação BásicaA Educação De Jovens E Adultos E A Educação Básica Capítulo 1 GADOTTI, M. Por uma política nacional de educação popular de jovens e adultos. 1. ed. São Paulo: Moderna : Fundação Santillana, 2014. HADDAD, S.; DI PIERRO, M. C. Escolarização de jovens e adultos. In: Revista Brasileira de Educação, n. 14, p, 110-115, 2000. Disponível em: http://www. scielo.br/pdf/rbedu/n14/n14a07. Acesso em: 20 fev. 2020. LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 2013. LUCKESI, C. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 2011. MELLO, G. N. Magistério de Primeiro Grau: da competência técnica ao compromisso político. 10. ed. v. 01. São Paulo: Cortez, 1993. MORAN, J.; BACICH, L. (Org.). Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018. PAIVA, J. Educação de jovens e adultos: direito, concepções e sentidos. 2005. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói/RJ, 2005. PERRENOUD, P. 10 novas competências para ensinar. Porto Alegre: ArtMed, 2000. SOARES, M. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. In: Revista Brasileira de Educação (Impresso), v. 51, p. 5-17, 2004. Disponível em: https:// www.scielo.br/pdf/rbedu/n25/n25a01.pdf. Acesso em: 25 jun. 2020. SOARES, L.; GIOVANETTI, M. A; GOMES, N. L. Diálogos na educação de jovens e adultos. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 44 Didática do Educador da EJA CAPÍTULO 2 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E Adultos A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • compreender a EJA em suas diferentes formas de oferta, planejamento educacional, organizações pedagógicas e a diversidade de seus sujeitos; • apresentar as organizações e formas de a EJA ser ofertada como modalidade da Educação Básica; • aplicar os conhecimentos sobre a modalidade EJA em diferentes situações, contextos e realidades de oferta da modalidade e seus sujeitos. 46 Didática do Educador da EJA 47 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO A Educação de Jovens e Adultos diversifica-se em suas formas de oferta, que se adaptam às múltiplas realidades socais nas quais a modalidade possui seu protagonismo e importância. A EJA reflete-se em posição central e crucial da Educação Básica, por ocupar espaços, histórias de vida e inícios ou descontinuidades dos estudos em percursos de escolarização de jovens, adultos e idosos. Se formos no sentido do título do presente capítulo: “Formas de oferta, planejamento e organizações pedagógicas da Educação de Jovens e Adultos” teremos uma correspondência entre o cotidiano e a complexidade da prática pedagógica com a diversidade do trabalho e importância da organização desse trabalho no dia a dia escolar. Por essa razão, as seções estão inicialmente voltadas à prática pedagógica e organizações pedagógicas para a EJA, nomeadas com questões sobre a organização pedagógica e planejamento educacional para a EJA e a didática e prática pedagógica para a diversidade e singularidades da EJA. Posteriormente, há o segundo momento do capítulo, no qual serão tratadas as diferentes formas de oferta da EJA, como EJA Presencial, EJA EaD, EJA e Educação Inclusiva, EJA e Educação Profissional e a Educação nas Prisões. Compreender a diversidade das formas de oferta conecta-se à importância da prática pedagógica junto à organização e planejamento da modalidade, bem como a valorização de seu avanço, diversificação e complexidade frente a um cenário cada vez mais imbricado de singularidades em meio às formulações destinadas ao ensino e aprendizagem de jovens, adultos e idosos. 48Didática do Educador da EJA 2 A PRÁTICA PEDAGÓGICA E ORGANIZAÇÕES PEDAGÓGICAS PARA A EJA FIGURA 1 – A PRÁTICA E ORGANIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/estudo-estudante-tutor- educa%C3%A7%C3%A3o-5645247/>. Acesso em: 17 mar. 2021. A prática pedagógica está na essência do trabalho docente, sendo composta por elementos da formação docente, metodologias de ensino, métodos de avaliação, propostas de construção curricular e acompanhamento didático- pedagógico da gestão escolar. Alinhada à organização do trabalho pedagógico, a didática possui uma relação indissociável do planejamento educacional, que faz com que haja um direcionamento do processo de ensino e aprendizagem para as demandas específicas das etapas e modalidades da educação básica, em toda estrutura e trilhas possíveis do percurso de escolarização. Para a Educação de Jovens e Adultos há uma relação cada vez mais próxima do pensar e agir pedagógico de forma planejada. Por possuir uma considerável diversidade em suas formas de oferta, a EJA traz um desafio intrínseco tanto para a prática pedagógica como também à organização e planejamento educacional. Os contextos, situações e diferenciações das realidades sociais e histórias de vida dos jovens, adultos e idosos da EJA pedagógica, do planejamento educacional, perpassando as mudanças e diferentes ofertas da EJA nas redes. 49 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 2.1 ORGANIZAÇÃO PEDAGÓGICA E PLANEJAMENTO EDUCACIONAL PARA A EJA FIGURA 2 – ORGANIZAÇÃO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA E PLANEJAMENTO EDUCACIONAL FONTE: <https://unsplash.com/photos/gcsNOsPEXfs>. Acesso em: 17 mar. 2021. O planejamento educacional é um dos aspectos fundamentais da educação básica. Professores, gestores e demais agentes, fatores e situações dos ambientes de aprendizagem estão, em seu cotidiano, envolvidos com tomadas de decisão a respeito do que ensinar, estruturação de formas de avaliação e metodologias didático-pedagógicas, escolhas de materiais didáticos etc. No caso da Educação de Jovens e Adultos é comum haver um prolongamento do que é planejado para as etapas da educação básica para os segmentos da EJA. Reitera-se que, em alguns aspectos é possível realizar essa transposição, como estruturação da divisão equivalente entre séries do Ensino Fundamental e Médio para os segmentos da EJA, por exemplo. No entanto, para além das formas, divisões normativas de séries e etapas, é preciso que façamos um movimento mais profundo, de direcionamento da organização do ato de planejar para as especificidades da EJA. É nesse sentido que Libâneo (2005) reforça a importância do pensar e agir pedagógico de forma planejada, de acordo com as especificidades dos objetivos de aprendizagem. A EJA e demais modalidades da educação básica estão 50 Didática do Educador da EJA inseridas nessa totalidade complexa das diferentes redes de ensino e ambientes de aprendizagem espalhados pelo país: Três coisas são, portanto, necessárias de serem ditas para quem quiser ajudar e não dificultar as condições do agir pedagógico. A primeira é que práticas pedagógicas implicam necessariamente decisões e ações que envolvem o destino humano das pessoas, requerendo projetos que explicitem direção de sentido da ação educativa e formas explícitas do agir pedagógico. Quem se dispuser ao agir pedagógico, estará ciente de que não se pode suprimir da pedagogia o fato de que ela lida com valores, com objetivos políticos, morais, ideológicos. A segunda é que não é suficiente, quando falamos em práticas escolares, a análise globalizante do problema educativo. Aos aspectos externos que explicitam fatores determinantes da realidade escolar é necessário agregar os meios educativos, os instrumentos de mediação que são os dispositivos e métodos de educação e ensino, ou seja, a didática. E a terceira: dada a natureza dialética da pedagogia, ocupando-se ao mesmo tempo da subjetivação e da socialização, da individuação e da diferenciação, cumpre compreender as práticas educativas como atividade complexa, uma vez que encontram-se determinadas por múltiplas relações e necessitam, para seu estudo, do aporte de outros campos de saberes (LIBÂNEO, 2005, p. 2). As considerações de Libâneo (2005) corroboram para uma necessidade de estruturação, organização e direcionamento das atividades didático-pedagógicas de forma organizada e planejada. A seguir, podemos observar algumas das principais escalas desse planejamento educacional, de suma importância para as realidades das redes de ensino: • Diário: o planejamento diário diz respeito aos planos aula, é a menor escala de organização do trabalho pedagógico dos professores. No entanto, é a partir desse pensar e agir cotidiano que as escalas maiores do planejamento educacional se tornam tanto possíveis como direcionadas a objetivos concretos e profícuos de aprendizagem ao longo do processo de ensino e aprendizagem. • Semanal: o planejamento semanal é a continuidade natural da organização pedagógica diária de professores, já entrando em cena elementos de gestão e direcionamentos mais gerais como uso de material didático e melhor coordenação entre objetivos de aprendizagem, metodologias de ensino e acompanhamento das formas de avaliação para o âmbito mais amplo da prática pedagógica. • Mensal ou bimestral: nesse caso, a presença dos gestores é mais detectável como orientação e coordenação da organização do trabalho pedagógico dos professores. Meses e bimestres compõem um âmbito diretamente relacionado à rede de ensino e correlação com as demais escolas, de modo a promover um acompanhamento adequado das 51 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 diferentes estratégias de ensino e aprendizagem, na diversidade de situações pedagógicas para etapa e modalidades da educação básica. • Anual: o planejamento anual alcança a escala proximal de ação de gestores de médio e longo poder de orientação nas redes de ensino, com metas e objetivos para todas as etapas e modalidades da educação básica. Os calendários pedagógicos das escolas são formulados previamente, de modo a contemplar objetivos didáticos, de gestão, de acompanhamento das aprendizagens, atividades diversificadas e demais elementos que formam a miríade complexa da realidade complexa do cotidiano escolar. • Plurianual: composto pelo conjunto de metas, objetivos e estratégias das anualidades de planejamento da educação, que vai do agir e pensar pedagógico aos planos de gestão de cada ano e semestre. No que se refere às redes de ensino, possui uma ligação direta com a captação de recursos educacionais, para a garantia do acesso à educação a crianças, jovens e adultos em toda a rede de ensino, bem como a definição de médio e longo prazo do que se espera alcançar como projeto educacional para as cidades, estados e país. Pensa-se pela reflexão e coloca-se em prática as diferentes formas do agir pedagógico. A importância do planejamento educacional em suas diferentes escalas vai além das etapas e modalidades, alcançando toda a diversidade do ensino e aprendizagem da educação básica: A ação de planejar, portanto, não se reduz ao simples preenchimento de formulários para controle administrativo; é, antes, a atividade consciente de previsão das ações docentes, fundamentadas em opções político-pedagógicas, e tendo como referência permanente as situações didáticas concretas (isto é, a problemática social, econômica, política e cultural que envolve a escola, os professores, os alunos, os pais, a comunidade, que interagem no processo de ensino) (LIBÂNEO, 2013, p. 246). A mais importante dasestratégias de planejamento educacional é, conforme destaca Libâneo (2005), ir em direção às particularidades de cada situação de ensino e aprendizagem: “Respeitar a realidade do estudante é fundamental em todos os níveis de ensino, mas ganha uma importância ainda maior quando eles já são experientes. É preciso levar em conta a bagagem da turma” (NOVA ESCOLA, 2012, s.p.). Da menor à maior escala de organização do trabalho pedagógico e âmbito do planejamento educacional, no caso específico da EJA, é imprescindível haver uma preocupação em levar em consideração a realidade dos estudantes da modalidade: “O papel do educador na EJA é, principalmente, o de ajudar o adulto a perceber mais sensivelmente o mundo que o cerca e ampliar o repertório dos alunos para que consigam solucionar questões do cotidiano com mais propriedade (NOVA ESCOLA, 2012). 52 Didática do Educador da EJA As considerações anteriores vão ao encontro do que está disposto nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, especificamente no que diz respeito à importância de se destinar objetivos de aprendizagem, organização pedagógica e um planejamento educacional específico para a modalidade: Parágrafo único. Como modalidade destas etapas da Educação Básica, a identidade própria da Educação de Jovens e Adultos considerará as situações, os perfis dos estudantes, as faixas etárias e se pautará pelos princípios de equidade, diferença e proporcionalidade na apropriação e contextualização das diretrizes curriculares nacionais e na proposição de um modelo pedagógico próprio, de modo a assegurar: I- quanto à equidade, a distribuição específica dos componentes curriculares a fim de propiciar um patamar igualitário de formação e restabelecer a igualdade de direitos e de oportunidades face ao direito à educação; II- quanto à diferença, a identificação e o reconhecimento da alteridade própria e inseparável dos jovens e dos adultos em seu processo formativo, da valorização do mérito de cada qual e do desenvolvimento de seus conhecimentos e valores; III- quanto à proporcionalidade, a disposição e alocação adequadas dos componentes curriculares face às necessidades próprias da Educação de Jovens e Adultos com espaços e tempos nos quais as práticas pedagógicas assegurem aos seus estudantes identidade formativa comum aos demais participantes da escolarização básica (BRASIL, 2000a, s.p.). Vejamos no quadro a seguir, como as orientações das Diretrizes Curriculares da EJA vão ao encontro do que elabora Libâneo (2005) a respeito da importância de se incorporar dimensões internas e externas ao processo de ensino e aprendizagem no pensar e agir pedagógico. As Diretrizes Curriculares Nacionais da EJA, atualmente, encontram-se desatualizadas em relação ao normativo vigente de referência e orientação da educação básica, a BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Desse modo, muitas redes de ensino municipais e, principalmente, estaduais, têm se voltado a elaborar suas atualizações curriculares para a EJA, a partir da nova base e com o objetivo de direcionar o planejamento educacional e a organização do trabalho pedagógico e objetivos de aprendizagem da modalidade em suas redes de ensino. 53 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 QUADRO 1 – O PEDAGÓGICO E AS ESCOLHAS DO PLANEJAMENTO EDUCACIONAL 1º Práticas pedagógicas implicam necessariamente decisões e ações que envol- vem o destino humano das pessoas, requerendo projetos que explicitem direção de sentido da ação educativa e formas explícitas do agir pedagógico. Quem se dis- puser ao agir pedagógico, estará ciente de que não se pode suprimir da pedago- gia o fato de que ela lida com valores, com objetivos políticos, morais, ideológicos. 2º Não é suficiente, quando falamos em práticas escolares, a análise globalizante do pro- blema educativo. Aos aspectos externos que explicitam fatores determinantes da re- alidade escolar é necessário agregar os meios educativos, os instrumentos de me- diação que são os dispositivos e métodos de educação e ensino, ou seja, a didática. 3º Dada a natureza dialética da pedagogia, ocupando-se ao mesmo tempo da subjetivação e da socialização, da individuação e da diferenciação, cumpre compreender as práticas educativas como atividade complexa, uma vez que encontram-se determinadas por múl- tiplas relações e necessitam, para seu estudo, do aporte de outros campos de saberes. FONTE: Adaptado de Libâneo (2005, p. 2) No livro Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta, de Gadotti e Romão (2005), há um conjunto de trabalhos, estudos e experiências que possuem como foco a ponte entre a realidade educacional da EJA com a teoria e prática. Um dos debates presente na obra é a questão de como é fundamental e relação entre um planejamento, organização e elaboração de metodologias de ensino e aprendizagem específicos para a EJA, em todas suas formas de oferta, diversidade e singularidades. GADOTTI, M.; ROMÃO J. E. (Orgs). Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta. 7. ed. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2005. O planejamento não assegura, por si só, o andamento do processo de ensino. Mesmo porque a sua elaboração está em função da direção, organização e coordenação do ensino. É preciso, pois, que os planos estejam continuamente ligados à prática, de modo que sejam sempre revisitados e refeitos. A ação docente vai ganhando eficácia na medida em que o professor vai acumulando e enriquecendo experiências ao lidar com as situações concretas. Isso significa que, para planejar, o professor se serve, de um lado, dos conhecimentos do processo didático e das metodologias específicas das matérias e, de outro, da sua própria experiência prática (LIBÂNEO, 2013, p. 247). 54 Didática do Educador da EJA O Brasil, ao longo de sua história, naturalizou desigualdades educacionais em relação ao acesso à escola, à permanência dos estudantes e ao seu aprendizado. São amplamente conhecidas as enormes desigualdades entre os grupos de estudantes definidos por raça, sexo e condição socioeconômica de suas famílias. Diante desse quadro, as decisões curriculares e didático-pedagógicas das Secretarias de Educação, o planejamento do trabalho anual das instituições escolares e as rotinas e os eventos do cotidiano escolar devem levar em consideração a necessidade de superação dessas desigualdades. Para isso, os sistemas e redes de ensino e as instituições escolares devem se planejar com um claro foco na equidade, que pressupõe reconhecer que as necessidades dos estudantes são diferentes (BRASIL, 2017, p. 15). Prática pedagógica, organização do trabalho pedagógico e planejamento educacional, portanto, devem caminhar juntos. Dos objetivos de aprendizagem de uma aula à composição dos elementos avaliativos de um conjunto de atividade para uma semana ou bimestre, passando pelo uso de metodologias de ensino diversificadas e recursos didáticos diferenciados, o planejamento educacional, contextualizado e voltado às realidades sociais dos estudantes e professores é fundamental para todas as etapas e modalidades da educação básica. FIGURA 3 – O PLANEJAMENTO EDUCACIONAL FONTE: <https://unsplash.com/photos/Oalh2MojUuk>. Acesso em: 17 mar. 2021. 55 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 Essa correlação entre o que é ensinado com os objetivos de aprendizagem específicos para as características de cada etapa ou modalidade é que deve ser pensada das diretrizes curriculares aos grandes planos anuais e plurianuais. As diferentes escalas do planejamento educacional precisam se conectar ao cotidianoescolar, da pequena escala da atividade docente: • Assegurar aos alunos o domínio mais seguro e duradouro possível dos conhecimentos científicos; • Criar as condições e os meios para que os alunos desenvolvam capacidades e habilidades intelectuais de modo que dominem métodos de estudo e de trabalho intelectual visando a sua autonomia no processo de aprendizagem e independência de pensamento; • Orientar as tarefas de ensino para objetivos educativos de formação da personalidade, isto é, ajudar os alunos a escolherem um caminho na vida, a terem atitudes e convicções que norteiem suas opções diante dos problemas e situações da vida real (LIBÂNEO, 2013, p. 75). No Quadro 2 é possível efetivarmos a correlação entre o planejamento educacional e as funções da EJA. Nesse caso, é preciso irmos em direção ao histórico e importância da modalidade na realidade social do país, englobando desde percursos de escolarização em seus primeiros passos de alfabetização até realidades de ensino e aprendizagem mais singulares, como a EJA Integrada à Educação Profissional e Tecnológica ou o ensino especial e incluso para jovens e adultos da modalidade. O universo da Educação de Jovens e Adultos tanto necessita como demanda um pensar, agir, planejar pedagógico específico para suas singularidades. QUANDO 2 – FUNÇÕES DA EJA Reparadora, significa não só a entrada no circuito dos direitos civis pela restaura- ção de um direito negado: o direito a uma escola de qualidade, mas também o re- conhecimento daquela igualdade ontológica de todo e qualquer ser humano. Equalizadora, vai dar cobertura a trabalhadores e a tantos outros segmentos sociais como donas de casa, migrantes, aposentados e encarcerados. A reentrada no sistema educacional dos que tiveram uma interrupção forçada, seja pela repetência ou pela evasão, seja pelas desiguais oportu- nidades de permanência ou outras condições adversas, deve ser saudada como reparação correti- va, ainda que tardia, de estruturas arcaicas, possibilitando aos indivíduos novas inserções no mun- do do trabalho, na vida social, nos espaços da estética e na abertura dos canais de participação. Qualificadora, mais do que uma função permanente da EJA que pode se cha- mar de qualificadora. Mais do que uma função, ela é o próprio sentido da EJA. Ela tem como base o caráter incompleto do ser humano cujo potencial de desenvolvi- mento e de adequação pode se atualizar em quadros escolares ou não escolares. FONTE: Adaptado de Brasil (2000b, p. 34-41) 56 Didática do Educador da EJA 2.2 DIDÁTICA E PRÁTICA PEDAGÓGICA PARA A DIVERSIDADE E SINGULARIDADES DA EJA FIGURA 4 – A PRÁTICA E ORGANIZAÇÃO PEDAGÓGICA FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-gratis/professor-de-matematica- envelhecido-escrevendo-na-lousa_4931171.htm#query=adult%20 education&position=41>. Acesso em: 17 mar. 2021. A prática pedagógica é composta pelo conjunto de ações e decisões do agir didático no cotidiano de ensino e aprendizagem. Diferentes metodologias de ensino, recursos didáticos, elementos internos e externos de contextualização e complexificação da atividade docente, a formação inicial e continuada em seu papel de referencial teórico-conceitual, os diferentes métodos de avaliação, dentre outros elementos que compõem a totalidade complexa da prática pedagógica, ponto central da didática, ou seja, o labor docente. É por meio da prática pedagógica que conseguimos alcançar o aperfeiçoamento do pensar e agir pedagógico, que: “[...] generaliza processos e procedimentos obtidos na investigação das matérias específicas, das ciências que dão fundamento ao ensino e a aprendizagem e das situações concretas da prática docente” (LIBÂNEO, 2013, p. 25). Realidade e pensamento, reflexão e prática unem-se no desafio do trabalho docente em suas mais variadas dimensões, contextos e situações de ensino e aprendizagem. É por essas razões que nas Ciências da Educação, a Didática, como campo específico de estudo recebe atenção central, ou seja, é o início e fim de todo o 57 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 trabalho de professores e professoras, do início de sua formação no magistério às singularidades de cada dia de trabalho no cotidiano escolar: “Didática trata da teoria geral do ensino. As metodologias específicas ocupam-se dos conteúdos e métodos próprios de cada matéria na sua relação com fins educacionais (LIBÂNEO, 2013, p. 25). Nóvoa (2000) vai mais além, direcionando o debate para a natureza da Pedagogia, ou seja, como composição uni-diversificada entre teoria e prática. A ação profissional destacada pelo autor vai ao encontro das definições sobre a prática pedagógica, o agir pensado do trabalho docente nos ambientes de ensino e aprendizagem: A pedagogia é uma “teoria prática” que permite aos professores organizarem o seu trabalho, com coerência e sentido. A pedagogia é essa espécie de filtro que permite aos professores simplificarem (tornarem acessível) sem caírem no simplismo (na banalidade). Não há pedagogia sem bons professores. Mas será que queremos mesmo ter bons professores? O que temos feito por isso? Temos sido capazes de atrair os melhores alunos do ensino secundário para a profissão docente? E de lhes dar uma boa formação? E de os motivar? E de os valorizar do ponto de vista social? Temos sido capazes de promover os professores? E de os apoiar na sua acção profissional? E de melhorar as suas condições de trabalho? E de proteger a colegialidade e a imagem pública da profissão? Ou será que não temos feito nada disto? (NÓVOA, 2000, p. 46). A Didática forma o núcleo das Ciências da Educação em teorias e metodologias. Diferentes tendências pedagógicas e correntes de pensamento da Pedagogia estudam a maneira como pensar a prática pedagógica, a continuidade do legado cultural da sociedade pela educação. De igual maneira, diferentes temáticas pedagógicas envolvem a Didática, como os debates sobre materiais didáticos, formas de avaliação, tecnologias digitais de informação e comunicação, formação inicial e continuada dos professores etc. Ir à escola, forma institucionalizada de educação da sociedade moderna, não tem por objetivo a permanência no estágio cultural em que se está, mas, sim, a aquisição de um patamar novo, a partir da ruptura que se processa pela assimilação ativa da cultura elaborada. A cultura espontânea é insuficiente para a sociedade moderna que exige dos indivíduos novos níveis de entendimentos através da educação formalizada. Isso não significa uma condenação ao autodidatismo. Ocorre que o autodidatismo, no que se refere ao acesso à cultura elaborada, exige iniciação escolar ou, ao menos, iniciação preliminar de leitura, escrita, raciocínio numérico etc. A cultura elaborada, hoje, exige a escolarização, como instância pedagógica (LUCKESI, 2011, p. 118). 58 Didática do Educador da EJA A partir das colocações anteriores é possível afirmarmos a importância da prática pedagógica para a EJA, que deve estar alinhada às especificidades da modalidade, ou seja, a diversidade de histórias de vida e realidades dos seus diferentes segmentos. Sem essa correlação e contextualização, assistir-se-á a um afastamento entre a realidade social de estudantes e professores com o cotidiano de ensino e aprendizagem que se diversifica consideravelmente na complexidade da EJA e, por continuidade, na prática pedagógica destinada à modalidade. Para a Educação de Jovens e Adultos formula-se, comumente, a ideia de Andragogia, ou seja, direcionar técnicas, metodologias e práticas de ensino e aprendizagem especificamente para o público adulto e idoso da modalidade. Inicialmente, a proposta foi pensada por Malcom Knowles e foi expandida para diferentes avanços e aprofundamentos teórico-metodológicos como a aprendizagem ao longo da vida, quedireciona o debate didático-pedagógico da EJA para seus desafios de ensino e aprendizagem em relação à diversidade das histórias de vida de seus sujeitos. FIGURA 5 – O PROFISSIONAL DA EDUCAÇÃO E SUA PRÁTICA PEDAGÓGICA FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-premium/retrato-de-bonito- professor-segurando-notepads-em-um-sala-aula-em-escola_2683441. htm#page=3&query=adult+education&position=25>. Acesso em: 17 mar. 2021. 59 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 No artigo de Rosanna Barros intitulado Revisitando Knowles e Freire: Andragogia versus pedagogia, ou O dialógico como essência da mediação sociopedagógica, a autora trabalha com importantes conceitos sobre como refletirmos a respeito da relação entre a prática pedagógica para jovens, adultos e idosos. Também é possível encontrarmos colocações a respeito da formação de professores, do papel do contexto e realidade social na prática pedagógica bem como a complexidade da EJA no âmbito de uma nova andragogia, que se aproxima em alguns da pedagogia e os desafios impostos por tal relação didático-pedagógica. BARROS, R. Revisitando Knowles e Freire: Andragogia versus pedagogia, ou O dialógico como essência da mediação sociopedagógica. Educ. Pesqui., São Paulo, v. 44, p. 1-19, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ep/v44/1517-9702-ep- 44-e173244.pdf. Acesso em: 28 out. 2020. Parte fundamental da prática pedagógica da EJA está relacionada ao saber ensinar, ou seja, a maneira como os professores irão direcionar sua formação, experiência e percepção da prática pedagógica para as especificidades das histórias de vida dos jovens, adultos e idosos da modalidade. Podemos, nesse sentido, correlacionar tais fatores ao que é trabalhado por Tardif (2002, p. 17), quando o autor diz que: […] saber-ensinar, é importante na medida em que exige conhecimento da vida, saberes personalizados e competências que dependem da personalidade dos atores, do seu saber- fazer pessoal, tem suas origens na história de vida familiar e escolar dos professores de profissão. O autor considera a construção dos saberes profissionais no próprio decorrer da carreira profissional. Muitas dessas características destacadas pelo autor sobre o saber-ensinar, como competência profissional docente essencial para que possamos repensar a prática pedagógica pode ser encontrada em colocações e contribuições teórico- metodológicas de autores da EJA, como Paiva (2005), Gadotti (2014) e Haddad e Di Pierro (2000), que corroboram com o fato de somente a partir de um olhar para o contexto, realidade e situação social, bem como o agir e pensar pedagógicos organizados e planejados para tais diversidades é que poderemos alcançar novos patamares de maturação da prática pedagógica. Nesse sentido, o mesmo autor, 60 Didática do Educador da EJA em retomada da discussão sobre a importância da formação inicial e continuada para professores, reforça que: […] os conhecimentos teóricos construídos pela pesquisa em ciências da educação, em particular os da pedagogia e da didática que são ministradas nos cursos de formação para o ensino, não concedem ou concedem muito pouca legitimidade aos saberes dos professores, saberes criados e mobilizados por meio de seu trabalho. Na formação inicial, os saberes codificados das ciências da educação e os saberes profissionais são vizinhos, mas não se interpenetram nem se interpelam mutuamente. Se admitirmos a legitimidade dessa tese, não podemos deixar de considerar certas questões importantes para a pesquisa e para a formação universitária (TARDIF, 2000, p. 18). Dessa maneira, refletir sobre Didática é incluir o pensamento e a prática, colocar em um só plano saberes, formação, experiência, contexto, dialogia e ambientes diversificados de ensino e aprendizagem, envolvendo a composição complexa da educação básica e suas etapas e modalidades existentes nas redes de ensino. No que se refere à EJA, o debate precisa envolver, principalmente, a questão de haver um histórico e realidades específicas no ensino e aprendizagem de jovens, adultos e idosos. Pelo fato de conter uma grande diversidade de situações contextuais no âmbito didático-pedagógico há, inevitavelmente, uma demanda considerável de reflexões envolvendo as melhores maneiras de inserir a EJA no cerne de valorização da didática, o que mostra que professores, estudantes, gestores e demais representantes da comunidade escolar estão e devem estar presentes no debate sobre a valorização dos estudos e metodologias para o aperfeiçoamento da prática pedagógica. 61 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 1) Observe a figura a seguir e responda: Qual a importância de planejar a prática pedagógica de forma diferenciada para as etapas e modalidades da educação básica, em geral, e para EJA, especificamente? FIGURA – PLANEJANDO A PRÁTICA PEDAGÓGICA FONTE: <https://pedagogicoetecanhanguera.files.wordpress.com/2018/07/o- que-c3a9-aprender-3.jpg?w=820>. Acesso em: 17 mar. 2021. 3 AS FORMAS DE OFERTA DA EJA FIGURA 6 – A EJA E A DIVERSIDADE DE SUA OFERTA NA EDUCAÇÃO BÁSICA FONTE: <https://unsplash.com/photos/jCIMcOpFHig>.Acesso em: 17 mar. 2021. 62 Didática do Educador da EJA No início das experiências pedagógicas da Educação de Jovens e Adultos houve uma preocupação maior com a alfabetização e letramento, principalmente de adultos e idosos. Com o passar dos anos, a EJA diversificou-se, enriquecendo em formas de oferta cada vez mais ricas, e abarcando uma parcela considerável de jovens acima de 15 anos que também começaram a fazer parte da modalidade (DI PIERRO, 2005; FRIEDRICH, 2010). Conhecer a diversidade da EJA é valorizar sua importância para a educação básica brasileira. Da prática pedagógica aos planos e planejamentos educacionais, e também a organização do trabalho pedagógico precisam contemplar os aspectos e características dos diferentes processos de ensino e aprendizagem da EJA. Quanto mais nos aprofundarmos em relação a tais questões teóricas, práticas e metodológicas melhores serão os debates e proposições para aperfeiçoamento do pensar e agir no ensino e aprendizagem de jovens, adultos e idosos. 3.1 EJA PRESENCIAL FIGURA 7 – A FORMA DE OFERTA PRESENCIAL FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/sala-de-aula-escola- secret%C3%A1rias-1910012/>. Acesso em: 17 mar. 2021. A Educação de Jovens e Adultos presencial é a forma de oferta mais tradicional da modalidade, envolvendo espaços físicos de escolas e demais ambientes de aprendizagem. Mesmo quando estudamos o histórico e trajetória da EJA, observamos a valoração e conquista de diferentes espaços de aprendizagem, para além das salas de aula da escola (FREIRE; PAPERT, 1996; PAIVA, 2005). O fato de ter seu início atrelado principalmente ao processo de alfabetização e letramento, a EJA possui o enraizamento na forma presencial de ensino e aprendizagem, pelo fato de serrem necessárias metodologias e práticas 63 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 pedagógicas mais proximais, para a garantia do alcance dos objetivos, habilidades e competências ligados às aprendizagens da leitura e escrita, principalmente, para a superação de décadas de desvalorização da modalidade no todo da educação básica do país. As estratégias político-didático-pedagógicas na EJA fundamentam-se em como viabilizar a superação de outros processos ainda marcados pela organização social da instituição escola, hierarquizada em um sistema verticalizado, emuma lógica disciplinar, com saberes e conhecimentos tomados como “conteúdos” fragmentados e estáticos, distantes da realidade e acríticos, que dificultam a legitimação dos saberes historicamente construídos por homens e mulheres. O trabalho na escola com saberes do cotidiano; com a articulação de saberes das classes populares com os conteúdos escolares (técnicos e científicos), exige modos não-hierarquizados e não-dicotomizados de intervenção pedagógica, dando sentido e significado a esses novos saberes assim produzidos, de forma a construir sistemas conceituais que contribuam para compreender a realidade, analisá-la e transformá-la (BRASIL, 2008, p. 33). Com o passar das décadas, a EJA teve um rico processo de diversificação, o que não a fez abandonar os seus aspectos iniciais voltados ao aprendizado da leitura e escrita. A escolarização ganhou força como principal bandeira para o ensino e aprendizagem de jovens, adultos e idosos, de modo a buscar e encontrar caminhos e maneiras de garantir o acesso e direito à educação para aqueles que não tiveram oportunidade de iniciar ou continuar seus estudos. FIGURA 8 – JOVENS E ADULTOS NO ENSINO PRESENCIAL FONTE: <https://unsplash.com/photos/xHaZ5BW9AY0>. Acesso em: 17 mar. 2021. 64 Didática do Educador da EJA Os diferentes segmentos e etapas da EJA representam, na prática, essa diversidade a que alcançou a modalidade no cenário contemporâneo. A alfabetização e letramento estão presentes no 1º segmento, assim como o 2º segmento atende a uma gama considerável de jovens e adultos em processo de continuidade de seus estudos e, por fim, o 3º segmento ganha força como importante porta de entrada para encerramento da educação básica e de todo o percurso de escolarização para jovens, adultos e idosos. As perspectivas da EJA presencial foram expandidas, a modalidade cresceu, enriqueceu-se e diversificou-se, aumentando a responsabilidade de demandas por organizações pedagógicas, planejamento educacional, formação docente inicial e continuada, construções curriculares específicas e correlação entre objetivos de aprendizagem e formas de avaliação que contemplem cada uma das etapas e segmentos da modalidade. O que houve, de fato, foi uma abertura para uma nova EJA, mais ampla, dialógica e próxima das diferentes, realidades e contextos da sociedade brasileira. A demanda pelo início e continuidade do processo de escolarização persiste, e alcança novos patamares, cenários e possiblidades, angariando protagonismo para o ensino e aprendizagem de jovens, adultos e idosos. Por sua vez, a escolarização de jovens e adultos pode ser considerada em toda sua trajetória como proposta política redimensionada à plataforma de governo na tentativa de elucidação de um problema decorrente das lacunas do sistema de ensino regular. Sendo assim, muitas confusões surgem nas definições encontradas na literatura acerca da nomenclatura de EJA. Não significa que essa modalidade de ensino, hoje Educação de Jovens e Adultos, tenha diferentes definições, mas pela própria história da evolução da EJA no Brasil e no mundo nas diferentes faces do desenvolvimento histórico da sociedade, o tratamento dos termos associados foi-se confundindo e se configurando como complementação de estudos e suplementação de escolarização (FRIEDRICH, 2010, p. 392). O uso da terminologia EJA Presencial se tornou ainda mais comum com o avanço das formas de oferta da EJA a Distância, sendo necessária uma diferenciação entre ambas. Enquanto no primeiro caso há uma correlação maior com o modo tradicional de se pensar, agir e planejar a EJA, no segundo existem diferentes conexões como práticas pedagógicas, metodologias de ensino e recursos didáticos diferenciados para a realidade do ensino híbrido ou completamente a distância. 65 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 Esclarecer as finalidades assumidas para a escolarização e descobrir como são vivenciadas na prática docente é penetrar nas razões mais profundas da ação da educação formal institucional. Nada, nem o pensamento cientificista e sua especialização fragmentária, é mais importante do que a função para a qual acreditamos que as escolas existem, já que sua razão de ser tem a ver com um projeto cultural e político. Os professores são principalmente agentes culturais e suas posições, aquilo que desenvolvem e acreditam que devem difundir, são determinantes para suas práticas (SACRISTÁN, 1998, p. 48). Como escolarização, a EJA conquistou seu lugar por entre as três etapas da educação básica, permitiu que diferentes sujeitos tivessem o direito à educação garantido, e sonhassem com novas perspectivas para suas histórias de vida. Em suma, a EJA torna-se, dentre as modalidades, a que mais percorre, infiltra e demanda diálogo com as temáticas atinentes às Ciências da Educação, ao planejamento e gestão educacional, a formação de professores e compreensão de como a aprendizagem precisa estar conectada a um público cada vez mais complexo. No livro A EJA em Xeque – desafios das políticas públicas de educação, Roberto Catelli Júnior, Sérgio Haddad e Vera Masagão organizam diferentes discussões, trabalhos, experiências, estudos e propostas de reflexão sobre os desafios da EJA na contemporaneidade. Os autores partem do princípio da diversificação da oferta da EJA, sua importância como início ou continuidade do processo de escolarização e o papel protagonista da modalidade na educação básica. CATELLI, Roberto Júnior; HADDAD, Sérgio; MASAGÃO, Vera. A EJA em Xeque – desafios das políticas públicas de educação. São Paulo: Global, 2014. 66 Didática do Educador da EJA 3.2 EJA EAD FIGURA 9 – OS SUJEITOS DA EJA E A EAD FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-gratis/alunos-adultos-focados-fazendo-testes-on- line_5890250.htm#page=2&query=aula+adultos&position=13>. Acesso em: 17 mar. 2021. A Educação de Jovens e Adultos a Distância é uma realidade e ganha cada vez mais espaço nas redes de ensino. Mas como pensar em inserir, utilizar e garantir o acesso às tecnologias digitais de informação e comunicação no âmbito da EJA? Esse é um dos principais desafios postos nessa forma de oferta para o ensino e aprendizagem de jovens, adultos e idosos. O livro Cibercultura, de Pierre Lévy, é uma das obras mais clássicas a respeito de nossa sociedade contemporânea em sua relação com a tecnologia. Muito do que é pensado e vivido como inserção e presença do avanço técnico-científico no cotidiano das pessoas é tratado pelo autor, podendo facilmente ser levado ao cenário educacional, que também faz parte da totalidade sociocultural em que os estudantes estão inseridos. LÉVY, P. Cibercultura. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. 67 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 Moran (2001, p. 28) nos traz importantes reflexões sobre a temática do ensino remoto e híbrido, ou seja, quando há a presença da prática pedagógica a distância completa ou parcialmente: “Educar com novas tecnologias é um desafio que até agora não foi enfrentado com profundidade: são feitas apenas adaptações, pequenas mudanças”. E ainda, completa o autor, que: “Ensinar com novas tecnologias será uma revolução se mudarmos simultaneamente os paradigmas convencionais do ensino, que mantêm distante professores e alunos. Caso contrário, conseguiremos dar um verniz de modernidade, sem mexer no essencial (MORAN, 2001, p. 28). No caso da EJA, é importante relacionar os benefícios e desafios da tecnologia na educação com as especificidades das temporalidades diferentes de aprendizagem de jovens, adultos e idosos: [...] a minha questão nãoé acabar com a escola, é mudá-la completamente, radicalmente; fazer com que nasça dela um novo ser tão atual quanto a tecnologia. Eu continuo lutando no sentido de pôr a escola à altura do seu tempo e não soterrá-la, mas refazê-la” (FREIRE; PAPERT, 1996, s.p.). Colocar a escola no seu tempo, no dizer dos autores, é ir em direção a um contexto da educação como um todo em meio aos avanços tecnológicos e informacionais na educação. O movimento do presencial ao remoto e ao híbrido é, portanto, inevitável, no âmbito da contemporaneidade que é cada vez mais tecnológico e informacional. RCV – O que vem a ser a Educação 4.0? JM – A educação que acompanha as transformações que houve na sociedade, na forma de organizar seus serviços. Na indústria, principalmente. A indústria 1.0 é a do carvão; a 2.0 é a da eletricidade, que permitiu a expansão massiva de serviços; a 3.0 já foi da segunda metade do século XX, que foi a da informação, quando chegou a internet e permitiu a automação; a 4.0, que nós estamos entrando, é a disruptiva, quando tudo começa a convergir: a convergência digital, a inteligência artificial, a biotecnologia. A vida começa a se ligar com as tecnologias, então tudo está conectado (MORAN, 2019, p. 6). A importância das aprendizagens presenciais da EJA é um debate fundamental para a modalidade, mas é preciso, também, que consideremos a inserção dos sujeitos que formam o seu público-alvo no movimento global do ensino remoto e híbrido (MORAN, 2001). Essa correlação, entre tecnologia e educação, que também precisa permear a escolarização de jovens, adultos e idosos foi, e ainda é, uma das principais competências para a renovação da educação como um todo problematizada no início do século passado: As tecnologias da informação e da comunicação poderão constituir, de imediato, para todos, um verdadeiro meio de 68 Didática do Educador da EJA abertura aos campos da educação não formal, tornando-se um dos vetores privilegiados de uma sociedade educativa, na qual os diferentes tempos de aprendizagem sejam repensados radicalmente. Em particular, o desenvolvimento destas tecnologias, cujo domínio permite um enriquecimento contínuo dos saberes, deveria levar a reconsiderar o lugar e a função dos sistemas educativos, na perspectiva de uma educação prolongada pela vida afora. A comunicação e a troca de saberes já não serão apenas um dos polos principais do crescimento das atividades humanas, mas um fator de desenvolvimento pessoal, no contexto de novos modos de vida social (DELORS, 2001, p. 66). Para a EJA, há as iniciativas da alfabetização e letramento tecnológicos, ou seja, a correspondência das aprendizagens com a realidade dos sujeitos da EJA, abarcando sua realidade, contexto e experiências para além da escola. Muitos dos desafios da EJA EaD também perpassam questões estruturais, de formação e alcance de suas possibilidades, principalmente em seus 2º e 3º segmentos, quando há uma abertura considerável de utilização das tecnologias digitais de informação e comunicação. É possível, portanto, encontrar diferentes definições para o ensino híbrido na literatura. Todas elas apresentam, de forma geral, a convergência de dois modelos de aprendizagem: o modelo presencial, em que o processo ocorre em sala de aula, como vem sendo realizado há tempos, e o modelo on-line, que utiliza as tecnologias digitais para promover o ensino. Podemos considerar que esses dois ambientes de aprendizagem, a sala de aula tradicional e o espaço virtual, tornam-se gradativamente complementares. Isso ocorre porque, além do uso de variadas tecnologias digitais, o indivíduo interage com o grupo, intensificando a troca de experiências que ocorre em um ambiente físico, a escola. O papel desempenhado pelo professor e pelos alunos sofre alterações em relação à proposta de ensino considerado tradicional, e as configurações das aulas favorecem momentos de interação, colaboração e envolvimento com as tecnologias digitais. O ensino híbrido configura-se como uma combinação metodológica que impacta na ação no professor em situações de ensino e na ação dos estudantes em situações de aprendizagem (BACICH; TANZI NETO; TREVISANI, 2018, p. 52). 69 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 A Educação 4.0 faz parte de um movimento maior da Revolução 4.0, que é a última fase da economia global, especialmente nos últimos 30 anos, com grande presença da inovação e tecnologias no modo de produção industrial. No cerne educacional, a presença da frente 4.0 se dá na inserção das tecnologias informacionais e digitais nos processos de ensino e aprendizagem em toda a educação básica, em suas etapas e modalidades. 3.3 EJA E EDUCAÇÃO INCLUSIVA FIGURA 10 – IMPORTÂNCIA DA INCLUSÃO NA SOCIEDADE E NA ESCOLA FONTE: <https://br.freepik.com/vetores-gratis/flat-design-pessoas-com- deficiencia-em-um-quarto_10627406.htm>. Acesso em: 17 mar. 2021. A Educação Especial e Inclusiva também é uma das modalidades da educação básica, assim como a EJA. Por possuir um leque considerável de possiblidades, aberturas e desafios, é preciso que tenhamos uma compreensão da importância de se pensar e colocar em prática a educação na modalidade especial e inclusiva. Principalmente, a partir da publicação da Declaração de Salamanca em 1994 (UNESCO, 1996). No Brasil, houve a inserção da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2007, que ratificou e avançou em muitos dos pontos discutidos na convenção de Salamanca (BRASIL, 2007). É nesse sentido que Paulon (2005) argumenta sobre a importância de uma política pública educacional direcionada a esse público que faz parte da sociedade e tem o direito à educação de acordo com suas necessidades específicas de aprendizagem: 70 Didática do Educador da EJA Uma política efetivamente inclusiva deve ocupar-se com a desinstitucionalização da exclusão, seja ela no espaço da escola ou em outras estruturas sociais. Assim, a implementação de políticas inclusivas que pretendam ser efetivas e duradouras deve incidir sobre a rede de relações que se materializam através das instituições já que as práticas discriminatórias que elas produzem extrapolam, em muito, os muros e regulamentos dos territórios organizacionais que as evidenciam (PAULON, 2005, p. 8). Para jovens, adultos e idosos haverá muitas situações de presença e necessidade de trabalhar com metodologias de ensino e práticas didático- pedagógicas voltadas à inserção orgânica de conteúdos, avaliações, recursos didáticos e planejamento educacional que insira, corresponda e garanta o acesso à educação. No caso da EJA, é comum encontrarmos múltiplas experiências exitosas de atendimento educacional especial e inclusivo. A EJA Inclusiva é muitas vezes chamada de EJA Interventiva, que compreende o ensino e aprendizagem da modalidade com metodologias, formação, recursos e materiais didáticos que façam jus à considerável demanda de adaptações e estudos de aplicação específicas para a Educação Especial e Inclusiva. A inclusão diz respeito, também, a uma correspondência do ambiente de aprendizagem escolar com as realidades sociais dos estudantes. Compreender a indissociabilidade entre as experiências e histórias de vida com os percursos de escolarização forma o primeiro passo para uma experiência de Educação Especial e Inclusiva profícua para a EJA: Jovens e adultos com deficiência constituem hoje ampla parcela da população de analfabetos no mundo porque não tiveram oportunidades de acesso à educação na idade apropriada. Nos países economicamente ricos, a maioria das pessoas com deficiência está institucionalizada, nos países economicamente pobres, está escondida, invisível na escola e nos vários espaços sociais. Em ambos os casos elas são privadas deoportunidades de aprendizagem formal e de desenvolvimento (FERREIRA, 2009, p. 77). A inclusão, portanto, deve ser contemplada pela educação, mas vai além desta. A exclusão social está presente na totalidade social em que as pessoas 71 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 com deficiência vivem e convivem com problemáticas e desafios cotidianos e diários. As políticas públicas de inclusão social precisam contemplar um cenário mais amplo, de múltiplas situações e realidades, deficiências estruturais em outras dimensões da ação estatal como saúde pública, assistência social, segurança pública, acessibilidade no transporte público etc. Como dissertado por Diniz (2007, p. 5): “Deficiência é um conceito complexo, que reconhece o corpo com lesão, mas que também denuncia a estrutura social que oprime a pessoa deficiente”. Portanto, a EJA Inclusiva vai ao encontro de uma realidade que é ainda desigual, complexa e intricada de problemáticas que ultrapassam os muros da escola. FIGURA 11 – REALIDADE SOCIAL E O CONTEXTO DE ENSINO E APRENDIZAGEM NA EJA INCLUSIVA FONTE: <https://unsplash.com/photos/9Fw_XdecPps>. Acesso em: 17 mar. 2021. Algumas metodologias para tratar dessa questão propõem a individualização do ensino através de planos específicos de aprendizagem para o aluno. Esta concepção tem como justificativa a diferença entre os alunos e o respeito à diversidade. Porém, como pensar a inclusão se os alunos com dificuldades e, apenas eles, têm um plano específico para aprender? Um plano individualizado, nessa perspectiva, pode ser um reforço à exclusão. Levar em conta a diversidade não implica em fazer um currículo individual paralelo para alguns alunos. Caso isto aconteça, estes alunos ficam à margem do grupo, pois as trocas significativas feitas em uma sala de aula necessariamente acontecem em torno dos objetos de aprendizagem. As flexibilizações curriculares são fundamentais no processo de inclusão educativa. Porém, é necessário pensá- las a partir do grupo de alunos e a diversidade que o compõe e não para alguns alunos tomados isoladamente (PAULON, 2005, p. 9). 72 Didática do Educador da EJA 3.4 EJA E EDUCAÇÃO PROFISSIONAL FIGURA 12 – OFICINA EM FORMAÇÃO TÉCNICA E PROFISSIONAL FONTE: <https://unsplash.com/photos/lENMSPhP8Vk>. Acesso em: 17 mar. 2021. A Educação Profissional e Tecnológica é uma das modalidades da educação básica, assim como a EJA. Quando integramos a formação geral básica, de disciplinas e áreas do conhecimento com a formação técnica com seus objetivos de aprendizagem, habilidade e competências com a EJA temos o que é chamado de integração, ou seja, o ensino tanto da formação geral básica como de alguma certificação técnica ou profissional. No caso da EJA, sua oferta integrada à Educação Profissional é uma das maiores possibilidades de reificação da modalidade. Em outras palavras, discute- se amplamente nas redes de ensino as maneiras de avançar no ensino e aprendizagem para jovens, adultos e idosos, e a presença da formação técnica, profissional e tecnológica emerge como uma das melhores opções pelo fato de possibilitar sua inserção ou retomada no mundo do trabalho. A volta à escola e ao ambiente de aprendizagem escolar precisa ter um diferencial para o público da EJA, que teve seu percurso de escolarização interrompido ou sequer o iniciou. Portanto, a EJA integrada à Educação Profissional e Tecnológica vem ao encontro dessa demanda, que faz com que tenhamos uma perspectiva de uma EJA para um mudo em transformação para toda a sociedade. De acordo com o Plano Nacional de Educação de 2014, 25% da Educação de Jovens e Adultos deveria se encontrar na forma de oferta integrada à Educação Profissional e Tecnológica. Essa meta é uma das mais ousadas e desafiadoras do PNE. 73 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 O Pronatec EJA é uma modalidade da Bolsa-Formação do Pronatec, para atendimento de estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Trata-se de uma estratégia para ampliar a atratividade da educação para jovens e adultos que não tiveram oportunidade de concluir os estudos na idade própria. Os cursos da EJA passarão a ser organizados de maneira a contemplar os conhecimentos advindos do mundo do trabalho e das experiências de vida dos estudantes, por meio de reconhecimento de saberes, na perspectiva de garantir o direito à educação ao longo da vida (BRASIL, 2017, s.p.). A Educação Profissional e Tecnológica é organizada no Brasil pela oferta de cursos FIC (Formação Inicial e Continuada). Com até 200 horas-aula, os cursos FIC possuem um catálogo próprio formulado pelo Ministério da Educação no site: http://portal.mec. gov.br/component/tags/tag/35931. E também os cursos técnicos que possuem entre 800 a 1200 horas para que o estudante receba a certificação da formação alcançada, esses cursos também possuem seu catálogo no Ministério da Educação no site: http://portal.mec.gov. br/docman/novembro-2017-pdf/77451-cnct-3a-edicao-pdf-1/file. A EJA Integrada à Educação Profissional e Tecnológica ocorre tanto com cursos FIC ou cursos técnicos. No 1º segmento da EJA, voltado principalmente à alfabetização e letramento não haverá, por exemplo, a presença de cursos técnicos, direcionados principalmente ao 3º segmento, corresponde à etapa educacional do ensino médio. Tanto o 2º como o 3º segmento podem ofertar cursos FIC ou técnicos. No site do Observatório do Plano Nacional de Educação é possível acompanhar as metas e estratégias alcançadas para a educação básica. No caso da EJA Integrada à Educação Profissional estão disponíveis os dados das redes de ensino sobre essa forma de oferta da modalidade pelo país: https://www.observatoriodopne.org.br/. 74 Didática do Educador da EJA Na Lei de Diretrizes e Bases para a educação básica brasileira já coloca como previsão da Educação Profissional e Tecnológica para a EJA. A integração de ambas as modalidades se coloca, portanto, como uma das mais ricas e profícuas uniões de experiências de ensino e aprendizagem, ou seja, é preciso correlacioná-la com os demais elementos que compõem a complexidade dos percursos de escolarização dos estudantes da EJA: Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. § 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. § 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si. § 3º A educação de jovens e adultos deverá articular-se, preferencialmente, com a educação profissional, na forma do regulamento. (Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008) Art. 38. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. § 1º Os exames a que se refere este artigo realizar-se-ão: I- no nível de conclusão do ensino fundamental, para os maiores de quinze anos; II- no nível de conclusão do ensino médio, para os maiores de dezoito anos. § 2º Os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos educandos por meios informais serão aferidos e reconhecidos mediante exames (BRASIL, 1996, s.p., grifo nosso). Como observado, há a indicação de preferência pela EJA integrada à Educação Profissional e Tecnológica.Em outros termos, o que se observa é um cenário de busca pela reificação da EJA, ou seja, como pensar a modalidade para jovens, adultos e idosos que voltam ou iniciam seus percursos de escolarização em novas perspectivas. 75 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 O termo Integração na EJA diz respeito à maneira como se deu a formação geral básica, de disciplinas e áreas do conhecimento de diretrizes e propostas curriculares com habilidades e competências da Educação Profissional e Tecnológica. Integrar significa, portanto, que as modalidades se complementam de maneira a um fortalecimento mútuo e valoração correspondente entre suas propostas para os estudantes. 1) Cite dois motivos para a importância da qualificação profissional na EJA 2) Por que podemos considerar a integração curricular com a Educação Profissional um dos pontos de maior mudança para a teoria e prática da EJA? 3.5 EDUCAÇÃO NAS PRISÕES FIGURA 13 – O AMBIENTE PRISIONAL E A EDUCAÇÃO FONTE: <https://unsplash.com/photos/ihl2Q5F-VYA>. Acesso em: 17 mar. 2021. 76 Didática do Educador da EJA A Educação nas Prisões é um dos maiores desafios da Educação de Jovens e Adultos. A EJA nos ambientes prisionais possui como principal característica levar o direito à educação às pessoas em privação de liberdade parcial ou total. Cada vez mais presente na realidade social e carcerária brasileira, a Educação nas Prisões se mostra uma abertura necessária para a ressocialização e humanização do ambiente prisional. Conforme trabalhado por Ireland (2011, p. 20): “Ao se pensar o processo educativo no espaço da prisão, há de se ter clareza sobre os limites impostos pelo contexto singular, mas também não reduzir o processo educativo à escolarização”. O autor ainda complementa seus argumentos com uma reflexão sobre a importância do processo educativo e a humanização das pessoas em privação de liberdade, especialmente no que se refere ao seu direito à educação: “Como em qualquer processo educativo, há que se buscar entender os interesses e as necessidades de aprendizagem da população carcerária e quais os limites que a situação impõe sobre esse processo (IRELAND, 2011, p. 20). As políticas públicas educacionais nas prisões, desse modo, demandam um esforço conjunto das instituições e gestores públicos, para que tal direito seja garantido aos adultos e idosos em situação de privação de liberdade, tanto em início como continuidade do processo de escolarização: “No caso da educação em prisões, não há como avançar sem uma articulação e um forte diálogo entre os Ministérios da Educação e da Justiça. Nos Estados, exige diálogo permanente entre Secretarias de Educação e de Justiça ou Administração Penitenciária” (IRELAND, 2011, p. 31). Há uma política pública educacional específica no Brasil para os ambientes prisionais, que vai além da remição da pena pelo estudo ou leitura. O ambiente prisional é colocado como um lugar no qual a ressocialização não apenas é almejada como conduzida por meio da formação educacional: Compreendendo a educação como um dos únicos processos capazes de transformar o potencial das pessoas em competências, capacidades e habilidades e o educar como ato de criar espaços para que o educando, situado organicamente no mundo, empreenda a construção do seu ser em termos individuais e sociais, o espaço carcerário deve ser entendido como um espaço educativo, ambiente socioeducativo. Assim sendo, todos que atuam nestas unidades – dirigentes, técnicos e agentes – são educadores e devem estar orientados nessa condição. Todos os recursos e esforços devem convergir, com objetividade e celeridade, para o trabalho educativo. Ou seja, todas as unidades deveriam possuir um “Projeto Político- Institucional” que oriente as ações, defina os recursos e viabilize uma atuação consciente e consistente com o plano individual de trabalho do interno. Esse projeto político-institucional deve 77 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 contemplar a intersetorialidade da educação, integrando-a de forma articulada com outras políticas e programas de promoção que possam ser destinadas aos privados de liberdade. De outro lado, pela natureza socioeconômica e cultural do ambiente, a própria organização das ações educativas nos estabelecimentos penais deve seguir esse princípio (BRASIL, 2013, p. 319, grifo nosso). […] a discussão sobre o papel da educação e do trabalho dentro do sistema penitenciário, é importante assinalar que existe um grande grupo de operadores da execução penal que os veem nos presídios como uma atividade ocupacional como tantas outras, sendo importante apenas para ajudar a diminuir a ociosidade nas cadeias. Isso significa dizer que, embora no centro do discurso que justifica e reivindica a presença da educação formal e das atividades laborativas nos presídios esteja a ideia de ressocialização, a perspectiva de que atividades escolares e laborativas ajudam a combater a ociosidade vigente nos presídios também faz parte dessa discussão (JULIÃO, 2009, p. 152). FIGURA 14 – PARA ALÉM DA PRISÃO PELA EJA E AS CELAS DE AULA FONTE: <https://www.freepik.com/premium-photo/close-up-prisoner-hands- jail_6969158.htm#query=jail&position=13>. Acesso em: 17 mar. 2021. 78 Didática do Educador da EJA O termo celas de aula é muito utilizado para se referir à EJA nos ambientes prisionais, e não está incorreto. Há muitas experiências educacionais para pessoas em situação de cárcere, o que inevitavelmente fará com que, em muitos casos, a sala de aula seja composta por ambientes anteriormente destinados ao cárcere e privação de liberdade, transformando tais espaços efetivamente em celas de aula na oferta da EJA nas Prisões aos custodiados em diferentes situações de pena ou ressocialização pela educação. E é nesse sentido das celas de aula e o direito à educação nos ambientes prisionais que o debate a respeito da ressocialização ganha força, tanto pelo estudo como pelo trabalho. A EJA integrada à Educação Profissional e Tecnológica surge então como uma das principais vias para se trabalhar em políticas púbicas que visem ao retorno desses indivíduos à sociedade com possiblidades de ocupação profissional. Essa perspectiva integrada da EJA nos ambientes prisionais vai ao encontro da ressocialização e também o retorno desses indivíduos ao mundo do trabalho com uma formação técnica ou profissional que os permitam reiniciar suas vidas longe das atividades ilícitas que o fizeram cumprir suas penas. QUADRO 3 – TRÊS EIXOS DA REINSERÇÃO DO PRESO E RESSOCIALIZAÇÃO PELO ESTUDO E TRABALHO Primeiro O primeiro define-se como a promoção de ações de qualificação técnica profissio- nal; promoção de ações de reabilitação psicossocial com foco no desenvolvimen- to de habilidades sociais e na educação básica em valores humanos, que auxi- liem a promoção da reinserção social de presos, favorecendo a sua reintegração na sociedade, fundado no pressuposto constitucional de que a educação é direi- to de todos e dever do Estado e da família, e que será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Segundo Insere como fato de ressocialização a educação básica em valores hu- manos, a fim de propiciar ao participante a oportunidade de trabalhar com os princípios éticos e morais em si mesmo, vivenciando-os e refle- tindo sobre eles. Estimular a percepção da estreita relação entre o indiví- duo, a sociedade e a natureza, entendendo que a mudança em qualquer das partes só é possível a partirda transformação interna do ser humano. 79 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 Terceiro Enquadra-se como a implantação de alternativas que possibilitem ao preso o desenvolvimento de habilidades sociais. O objetivo primor- dial é que o trabalho do preso propicie o treino de comportamentos so- ciais adequados por meio de metodologia teórico-vivencial que promo- va melhora nas condutas em variados contextos interpessoais, com a conscientização de suas ações e consequências para a sociedade FONTE: Adaptado de Oliveira e Carneiro (2017, p. 34-35) Autores como Di Pierro (2005; 2010), Gadotti (2014) e Hadadd e Di Pierro (2000) reforçam a importância de se pensar a Educação de Jovens e Adultos em sua totalidade. Como observado desde o início do capítulo, houve uma abertura e avanço das formas de oferta da modalidade, cenário no qual se enquadra a EJA nas Prisões. Ressignificar as histórias de vida de adultos e idosos em privação de liberdade é uma das perspectivas mais recentes, desafiadoras e de renovação de uma EJA que se reinventou. A ressocialização pelo estudo e formação técnica e profissional vai ao encontro de tais anseios, repensando o papel da escola em sentido amplo, abarcando os ambientes prisionais como possibilidade de aprendizagem e formação integral das pessoas que ali estão. 1) Leia atentamente o texto a seguir, retirado do trecho transcrito do “Documento Nacional Preparatório à VI Conferência Internacional de Educação de Adultos VI CONFINTEA” e responda à questão: Qual a importância da EJA integrada à Educação Profissional para jovens, adultos e idosos da modalidade? 10. Construir políticas públicas de Estado articuladas e de qualidade para jovens e adultos, reconhecendo a intersetorialidade nos avanços da EJA e priorizando questões como a relação entre a EJA e o trabalho, a saúde, o meio ambiente, a cultura e a comunicação, considerando as necessidades das diferentes faixas etárias. 11. Considerar experiências acumuladas pelos movimentos sociais, organizações não governamentais e instituições do terceiro setor na construção de políticas de EJA. 80 Didática do Educador da EJA 12. Fomentar ações afirmativas de gênero e geração de trabalho e renda que contribuam para a superação da desigualdade socioeconômica entre os educandos da EJA, considerando a diversidade cultural e social como bandeira de luta na promoção da igualdade e como subsídio na proposição de políticas públicas, face à história da sociedade de classes brasileira, hierárquica e autoritária (BRASIL, 2009, p. 46). 4 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Prática pedagógica e planejamento educacional formam uma dualidade indissociável, que precisa estar presente nos ambientes de aprendizagem. Da construção curricular, formas de avaliação e metodologias de ensino, há diferentes dimensões no processo de ensino e aprendizagem que precisam estar correlacionadas entre si, de forma organizada e planejada, para que os estudantes alcancem seus melhores rendimentos em seus percursos de escolarização. Para que seja possível termos um horizonte de aperfeiçoamento e aprofundamento tanto prático como teórico da EJA é preciso compreender a amplitude de sua diversidade, pelos sujeitos que são os estudantes da modalidade e pelas diferentes formas de oferta existentes na Educação de Jovens e Adultos. Seja de modo presencial ou a distância, atendendo ao público da Educação Especial e Inclusiva ou a oferta de Educação nas Prisões, a EJA possui um dos espectros de especificidades mais ricos da Educação Básica. Nos últimos anos, há uma tendência de maior quantidade de projetos educacionais e políticas públicas para EJA voltadas à EJA Integrada, ou seja, quando há a presença da Educação Profissional e Tecnológica junto aos conteúdos e temas da formação geral dos componentes curriculares da escolarização. O mais importante, nesse caso, é que haja uma completa dialogia entre o que se ensina de conteúdos prescritos nos segmentos da EJA com as possiblidades de contextualização e direcionamentos para aprendizados voltados ao mundo do trabalho, configurando, desse modo, a EJA Integrada à Educação Profissional. Nas redes de ensino espalhadas pelo país há, cada vez mais, uma busca por melhorias da estruturação da EJA, para que jovens, adultos e idosos tenham o seu direito à educação garantidos. Contemplar essa diversidade da EJA, pela prática pedagógica e planejamento educacional é uma demanda da educação básica como um todo, e no caso da Educação de Jovens e Adultos faz parte de 81 Formas De Oferta, Planejamento E Organizações PedagógicasFormas De Oferta, Planejamento E Organizações Pedagógicas Da Educação De Jovens E AdultosDa Educação De Jovens E Adultos Capítulo 2 um movimento de expansão e diversificação da modalidade nas redes de ensino, com seus desafios, particularidades e diversidade dos seus sujeitos. REFERÊNCIAS BACICH, L.; TANZI NETO, A.; TREVISANI, F. Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. In: BACICH, L.; TANZI NETO, A.; TREVISANI. (Orgs.). Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. Porto Alegre: Penso, 2018. p. 47-65. BARCELOS, L. B. O que é qualidade na educação de jovens e adultos? Educ. Real., Porto Alegre, v. 39, n. 2, jun. 2014. BRASIL. Ministério da Educação – MEC. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http:// basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site. pdf. Acesso em: 8 abr. 2020. BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretoria de Currículos e Educação Integral. Brasília: MEC, SEB, DICEI, 2013. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Documento Nacional Preparatório à VI Conferência Internacional de Educação de Adultos (VI CONFINTEA). Ministério da Educação (MEC). Brasília: MEC; Goiânia: FUNAPE/UFG, 2009. BRASIL. Resolução CNE/CEB Nº 1, de 5 de julho de 2000: Estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação e Jovens e Adultos. Brasília: MEC, 2000a. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/ CEB012000.pdf. Acesso em: 20 out. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Parecer CNE/CEB nº 011. Brasília: MEC, 2000b. BRASIL. Ministério da Educação. 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Saberes profissionais dos professores e conhecimentos universitários: Elementos para uma epistemologia da prática profissional dos professores e suas consequências em relação à formação para o magistério. Revista Brasileira de Educação, n. 13, p. 5-24, jan./fev./mar./abr. 2000. UNESCO. Declaração de Salamanca. Sobre Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais. Procedimentos-Padrões das Nações Unidas para a Equalização de Oportunidades para Pessoas Portadoras de Deficiências, A/RES/48/96, resolução das Nações Unidas adotada em Assembleia Geral. 1996. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/ pdf/salamanca.pdf. Acesso em: 20 out. 2020. CAPÍTULO 3 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: • compreender as maneiras pelas quais a EJA conecta-se diretamente com dimensões como a avaliação, o currículo e a formação de professores; • ser capaz de integrar as diferentes formas de avaliação, construção curricular e formação inicial e continuada à realidade, contexto e singularidades da EJA; • incorporar os conhecimentos das formas de avaliação, construção curricular e formação de professores à didática e atuação nas turmas, segmentos e formas de oferta da EJA. 86 Didática do Educador da EJA 87 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO A construção curricular é um dos pilares teórico-metodológicos das Ciências da Educação. Elaborar um currículo demanda um diálogo e aproximação com outros campos e temáticas educacionais como as formas de avaliação, as metodologias de ensino, a importância dos materiais didáticos, as situações de ensino e aprendizagem em sua diversidade de acordo com as etapas ou modalidades educacionais etc. Há uma complexidade intrínseca na educação, as realidades sociais em sua mais expressiva complexidade, que forçam e entrepassam os processos de ensino e aprendizagem, que estão presentes no cotidiano dos jovens, adultos e idosos da EJA. Gestores e professores, que atuam de forma protagonista e profunda nas dimensões da construção curricular, avaliação e formação, trazendo elementos teóricos, práticos e da experiência em suas atuações na modalidade. No caso específico da EJA é preciso que façamos sempre o movimento de contextualização da realidade social de estudantes e professores que atuam na modalidade. Construção curricular, metodologias de ensino, formas de avaliação e diversidade das formas de oferta da EJA devem fazer parte de uma totalidade mais complexa. De igual modo é preciso que reflitamos a respeito da formação dos professores, tanto a inicial como a continuada, em um processo contínuo de reaprendizado das mudanças e inovações que fazem parte da EJA. Das TDIC às diferentes formas de se pensar e colocar em prática o ensino e aprendizagem em relação aos sujeitos da EJA são questões de primeira ordem, para além da modalidade, alcançando a diversidade e singularidades da Educação de Jovens e Adultos em suas etapas, segmentos e formas de oferta. 88 Didática do Educador da EJA 2 INTERFACES EDUCACIONAIS DA EJA: DO CURRÍCULO ÀS AVALIAÇÕES DAS APRENDIZAGENS DOS JOVENS, ADULTOS E IDOSOS FIGURA 1 – PENSANDO A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS EM SUA DIVERSIDADE FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/estudantes-educa%C3%A7%C3%A3o- escola-jovem-2817247/>. Acesso em: 21 mar. 2021. Pensar a educação é um exercício prático e teórico. A atuação nas salas de aula envolve desde a preparação das aulas e utilização de diferentes metodologias de ensino até a decisão sobre o que e como ensinar, presentes nas prescrições curriculares e as formas de avaliar as aprendizagens dos estudantes. Colocar no mesmo plano de análise as múltiplas dimensões do processo didático-pedagógico do ensino e aprendizagem é sempre um desafio a ser posto e percorrido. Como será observado, não é possível refletirmos sobre elementos da construção curricular sem considerar aspectos como contexto, realidade social e ambientes de aprendizagem dos estudantes. Do mesmo modo, as avaliações passaram por transformações que levam atualmente a uma consideração maior ao seu perfil formativo, complexo e integral. 89 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 2.1 CONSTRUÇÃO CURRICULAR PARA EJA FIGURA 2 – AS ESCOLHAS DO CURRÍCULO FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/livros-educa%C3%A7%C3%A3o-escola-literatura-484766/>. Acesso em: 21 mar. 2021. A construção curricular é uma das dimensões mais importantes das Ciências da Educação, envolvendo intimamente elementos do processo de ensino aprendizagem. Conteúdos, competências, habilidades, objetivos de aprendizagem, temas, unidades e estrutura de organização para as aprendizagens são partes fundamentais de um currículo em sua elaboração e implantação. Como referido por Pinto (2011), a representação didático-pedagógica do currículo está relacionada ao seu papel de configurar o legado cultural de conhecimento de uma sociedade. Por meio da construção curricular são elegidas as orientações do que deve ser aprendido, ensinado, avaliado e incorporado à escolarização dos estudantes: Considerar que os indivíduos podem interferir na herança recebida implica compreender a prática educativa institucionalizada possível de transformação. No âmbito da prática escolar, a teoria pedagógica desempenha um papel importante para que essa prática possa ser alterada. Porém, se constatamos a complexidade na relação entre teoria e prática a partir da distinção entre a ação e a prática educativa, como podemos posicionar o papel da teoria pedagógica nesse âmbito? Ou seja, se nem a ação nem a prática educativa institucionaliza manifestam uma teoria depurada, marcadas que são por saberes fragmentados de diferentes procedências, em que sentido cabe falar em teoria pedagógica? (PINTO, 2011, p. 59). As melhores propostas curriculares, desse modo, são aquelas que fazem jus à incorporação dos aspectos contextuais, formativos e socioculturais de 90 Didática do Educador da EJA estudantes e professores. Como trabalhado por Sacristán (2013b), o currículo está em um patamar de importância primordial na organização da escolarização, indo das metodologias de ensino às práticas pedagógicas dos professores. FIGURA 3 – O CURRÍCULO E OS MÉTODOS DE ENSINO FONTE: Sacristán (2013b, p. 18) É nesse sentido que autores como Apple (2006) e Silva (2005) debatem a respeito da presença ideológica na composição curricular. Em outros termos, os autores destacam o papel preponderante do elemento decisional na escolha de conteúdos, temas e o que deverá ser ensinado nas escolas. Conforme ressaltado por Tomaz Tadeu da Silva (2005, p. 15): “O currículo é sempre resultado de uma seleção: de um universo mais amplo de conhecimentos e saberes seleciona-se aquela parte que vai constituir, precisamente o currículo”. E é nesse sentido que o fator das escolhas estão presentes de forma crucial na construção curricular. […] o problema do conhecimento educacional, do que se ensina nas escolas, tem de ser considerado como uma forma de distribuição mais ampla de bens e serviços de uma sociedade. Não é meramente um problema analítico (o que devemos construir como conhecimento?), nem simplesmente um problema técnico (como organizar e guardar o conhecimento de forma que as crianças possam ter acesso a ele e “dominá- lo?), nem, finalmente, um problema puramente psicológico (como fazer com que os alunos aprendam x?). Em vez disso, o estudo do conhecimento educacional é um estudo ideológico, a investigação do que determinados grupos sociais e classes, em determinadas instituições e em determinados momentos históricos, consideram conhecimento legítimo (seja este conhecimento do tipo lógico “que”, “como” ou “para”) (APPLE, 2006, p. 83). 91 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 As Diretrizes Curriculares Nacionais para EJA possuem como uma de suas prerrogativas a garantia de que a construção curricular da modalidade respeite as singularidades das formas de oferta da modalidade. É preciso que coloquemos sempre em evidência que a EJA terá turmas de alfabetização à formação técnica, elementos do ensino híbrido e técnico profissional e realidades de ambientes prisionais, atendimento a estudantes com necessidades especiais às realidades cotidianas de juvenilização, ou seja, um dos ambientes educacionais brasileiros mais complexos e diversificados. Art. 2º A presente Resolução abrange os processos formativos da Educação de Jovens e Adultos como modalidade da Educação Básica nas etapas dos ensinos fundamental e médio, nos termos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em especial dos seus artigos 4º, 5º ,37, 38, e 87 e, no que couber, da Educação Profissional. § 1º Estas Diretrizes servem como referência opcional para as iniciativas autônomas que se desenvolvem sob a forma de processos formativos extraescolares na sociedade civil. § 2º Estas Diretrizes se estendem à oferta dos exames supletivos para efeito de certificados de conclusão das etapas do ensino fundamental e do ensino médio da Educação de Jovens e Adultos. Art. 3º As Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental estabelecidas e vigentes na Resolução CNE/ CEB 2/98 se estendem para a modalidade da Educação de Jovens e Adultos no ensino fundamental. Art. 4º As Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio estabelecidas e vigentes na Resolução CNE/CEB 3/98, se estendem para a modalidade de Educação de Jovens e Adultos no ensino médio. Art. 5º Os componentes curriculares consequentes ao modelo pedagógico próprio da educação de jovens e adultos e expressos nas propostas pedagógicas das unidades educacionais obedecerão aos princípios, aos objetivos e às diretrizes curriculares tais como formulados no Parecer CNE/ CEB 11/2000, que acompanha a presente Resolução, nos pareceres CNE/CEB 4/98, CNE/CEB 15/98 e CNE/CEB 16/99, suas respectivas resoluções e as orientações próprias dos sistemas de ensino (BRASIL, 2000, s.p.). O que se verifica na resolução das Diretrizes Curriculares Nacionais para a EJA é a junção do formativo-institucional da prescrição curricular com a realidade das escolhas de ensino e aprendizagem da Educação de Jovens e Adultos. A construção curricular, portanto, deve ser entendida como um processo complexo e multifacetado, conforme defendido por Eisner (apud SACRISTÁN; PÉREZ GÓMEZ, 2000, p. 123): “[...] que o ensino é o conjunto de atividades que transformam o currículo na prática para produzir a aprendizagem, é uma característica marcante do pensamento curricular atual” e ainda completa o autor que: “[…] integrar o plano curricular à prática de ensiná-lo não apenas o torna realidade em termos de aprendizagem, mas que na própria atividade podem se 92 Didática do Educador da EJA modificar as primeiras intenções e surgir novos fins” (EISNER apud SACRISTÁN; PÉREZ GÓMEZ, 2000, p. 1). Como problematizado por autores que trabalham com a EJA, como Gadotti (2014), Soares, Giovanetti e Gomes (2005) e Haddad e Di Pierro (2000), do projeto político-pedagógico escolar à maneira como o currículo é utilizado como referência pelos professores, há a necessidade de uma conexão da propsota aos ritmos, formas de oferta e diversiade dos sujeitos da EJA. Observemos a seguir, por exemplo, o que ressalta Sacristán (2013a) a respeito da conexão do currrículo entre teoria e práxis: FIGURA 4 – ESQUEMA DE CONCEPÇÃO DE CURRÍCULO COMO PROCESSO E PRÁXIS FONTE: Sacristán (2013a, p. 26) 93 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 O currículo, como proposta de normatização dos passos a serem seguidos pelos estudantes em seus percursos de escolarização possui diferentes reflexões críticas sobre seu papel na sociedade. Desse modo, é imprescindível que façamos uma reflexão sobre como os currículos das redes de ensino estão correlacionados às realidades sociais e situacionais doe estudantes, professores e gestores, especialmente se pensarmos nas modalidades educacionais, como é o caso da Educação de Jovens e Adultos. Fins, meios e processo de ensino e aprendizado, conteúdos, objetivos, avaliações e metodologias deensino, diferentes aspectos presentes na construção curricular. Como elaborado por Sacristán (2013a) na Figura 4, todas essas dimensões da construçaõ curricular deverão fazer parte de um processo contextual e conectado à realidade das etapas e modalidaes educaionais: a. Os fins, objetivos ou motivos que nos orientam, que estão contidos no texto explícito do currículo e nos projetos concretos que desenvolvemos dentro dele. b. As ações e atividades que desenvolvemos, que constituem as práticas ou os métodos visíveis do ensino e podem contribuir em maior ou menor grau para a consecução do ponto anterior, aumentar ou não seu êxito, fazer com que ele acerte mais ou menos. Contudo, não é o currículo em si que constitui um plano escrito, mas o seu desenvolvimento. O primeiro é como se fosse a partitura, o segundo seria a música que é executada. Ambos guardam uma relação entre si, embora sejam coisas distintas. Com base na partitura, podem ser desenvolvidas ou executadas músicas diferentes. c. Os resultados ou efeitos reais provocados nos alunos são realidades que pertencem ao âmbito da subjetividade, mas que não são diretamente visíveis. Eles precisam ser inferidos por meio de nossa observação, exigindo manifestações dos sujeitos, provocando respostas, como as provas de avaliação. Com essas “aproximações”, buscamos conhecer os resultados efetivos, mas também nesse caso não cabe pensar que os efeitos reais da aprendizagem sejam idênticos aos resultados constatados ou avaliados. Podemos dar como certo que haja uma relação, mas eles continuam sendo realidades diversas. Como consequência, é absolutamente impossível querer que os objetivos ou fins da educação e do ensino correspondam aos resultados de aprendizagem, como se fossem aspectos totalmente simétricos (SACRISTÁN, 2013a, p. 25-26). 94 Didática do Educador da EJA Atualmente, o currículo da Educação Básica no Brasil é regido pela Base Nacional Comum Curricular, regulamentada pela Lei nº 13.415 de 2017, que alterada a LDB, de 1996, estabelecendo as diretrizes do que deve ser ensinado nas redes de ensino do país. Em linhas gerais, a BNCC agrega unidades, habilidades e competências que deverão fazer parte das construções curriculares das escolas, respeitando as singularidades locais e regionais do país: […] a BNCC indica que as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desenvolvimento de competências. Por meio da indicação clara do que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) e, sobretudo, do que devem “saber fazer” (considerando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho), a explicitação das competências oferece referências para o fortalecimento de ações que assegurem as aprendizagens essenciais definidas na BNCC (BRASIL, 2018, p. 13). Observa-se que, no caso da BNCC, não houve uma orientação específica para a Educação de Jovens e Adultos, o que se torna ainda mais preocupante no caso das especificidades da modalidade. Desse modo, destaca-se o que é ressaltado por Silva (2005) a respeito da importância de ir além do aspecto técnico e, no caso da BNCC, incorporar o que nela está previsto como saber fazer cotidiano e dialogar com a realidade social da EJA. A distância entre prescrição curricular e escolhas da prática pedagógica farão diferença no processo de ensino e aprendizagem. É desse modo que formação dos professores, métodos de avaliação, metodologias de ensino diferenciadas com recursos didáticos diversificados e elaboração de atividades específicas para temáticas e conteúdos precisam dialogar com os objetivos de aprendizagem. Especialmente quando pensamentos nas etapas e segmentos da EJA, a inserção de tais características da prática pedagógica à teoria da elaboração curricular será o ponto diferencial no percurso de escolarização dos sujeitos da EJA. 95 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 FIGURA 5 – AS ESCOLHAS DA PRÁTICA PEDAGÓGICA E A PRESCRIÇÃO CURRICULAR FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-gratis/os-executivos-de- negocios-discutir-com-os-seus-colegas-sobre-whiteboa_1005923. htm#page=1&query=planejamento&position=5>. Acesso em: 23 mar. 2021. Os modelos tradicionais de currículo limitaram-se à atividade técnica de como fazer o currículo. As teorias críticas sobre o currículo, em contraste, começam por colocar em questão precisamente os pressupostos dos presentes arranjos sociais e educacionais. Para as teorias críticas, o importante não é desenvolver técnicas de como fazer o currículo, mas desenvolver conceitos que nos permitam compreender o que o currículo faz (SILVA, 2005, p. 32). No filme Fora de Série, de 2017, dirigido por Paulo Carrano, fica perceptível como a forma de se avaliar e pensar o currículo para jovens em situação de descontinuidade de aprendizagem é fundamental. A partir do que é retratado no filme podemos visualizar o que ocorre em diferentes redes de ensino espalhadas pelo país, ou seja, a maneira como professores e gestores precisam adaptar os PPPs de suas escolas, as formas de avaliação tradicionais e planejamento educacional de suas redes de ensino para os sujeitos da EJA. 96 Didática do Educador da EJA Por mais bem elaborada que seja uma proposta curricular, não haverá alcance de seus objetivos de aprendizagem se esta não levar em consideração a realidade vivida e as experiências de aprendizagem dos estudantes da EJA. Na Figura 6 podemos observar um caso comum de distanciamento entre práticas pedagógicas, objetivos de aprendizagem e a teoria da elaboração das propostas curriculares. FIGURA 6 – PRÁTICA PEDAGÓGICA E OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM FONTE: <tirinha+mafalda.+escola.jpg (762×224) (bp. blogspot.com)>. Acesso em: 23 mar. 2021. O que está disposto nas figuras 5 e 6 indica o que é um dos maiores desafios da construção curricular, que é justamente a ligação entre objetivos de aprendizagem com a realidade tanto de professores como estudantes. É nesse sentido que Felício e Possani (2013) elencam elementos que devem fazer parte da ligação entre ação e prática pedagógica com a construção curricular: a) Natureza das práticas curriculares: são identificadas pelas ações que norteiam o currículo em questão. Em uma prática curricular, pode-se perceber quais os parâmetros através dos quais se realiza o trabalho. b) Enquadramento conceitual da prática curricular: a concepção de educação e de currículo presente nas práticas curriculares se expressa nos princípios que norteiam o currículo. A partir daí é possível fazer uma análise da concepção subjacente à prática curricular, possibilitando uma reflexão entre as intenções do currículo e o currículo real. c) Âmbitos específicos da ação curricular: os caminhos que o currículo percorre até chegar ao educando passam necessariamente por estes três âmbitos, ou seja, político- administrativo, de gestão e de sala de aula. Por onde quer que se inicie a análise de prática curricular, provavelmente também se passará por eles, ou seja, elaborar políticas educacionais em nível sistêmico, em níveis de gestão e propriamente em sala de aula (FELÍCIO; POSSANI, 2013, p. 134). As autoras, fazendo uso das reflexões de Gimeno Sacristán ainda elencam elementos fundamentais da elaboração curricular como uma construção social, 97 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 que será parte imprescindível, por exemplo, de uma visão propositiva e crítica para pensarmos e colocarmos em prática um currículo para a EJA: a) O currículo deve ser uma prática sustentada pela reflexão enquanto práxis. Ou seja, é fundamental que o processo circular que envolve o planejamento,a ação e avaliação direcionem o refletir e o atuar no âmbito currículo em ação. b) O currículo deve considerar o mundo real, ou seja, o contexto social que inclui os aspectos políticos, econômicos e sociais de um determinado tempo histórico. Estes interferem na prática de uma instituição e nas escolhas que faz em termos curriculares. c) O currículo deve operar em um contexto de interações sociais e culturais, sobretudo porque o ambiente de aprendizagem é um ambiente social marcado pelas referências do grupo em que se insere a instituição educacional, na qual os sujeitos têm seu modo próprio de olhar e interferir na cultura, seja como consumidor ou produtor desta. d) O currículo deve assumir seu conteúdo como construção social. Nela os educandos se assumem como ativos participantes da elaboração de seu próprio saber, incluindo, também, o saber dos professores. e) Consequência do princípio anterior, o currículo deve assumir o seu processo de criação social e, como tal, é permeado de conflitos causados pelos diferentes sistemas de valores, de crenças e de ideias que sustentam ou servem de base ao sistema curricular (FELÍCIO; POSSANI, 2013, p. 134). O currículo, ou as propostas de construção curricular, como observado, fazem parte da estrutura fundamental da Educação Básica. Em relação à Educação de Jovens e Adultos é preciso que seja reforçado, ao máximo, a questão de como os conteúdos, objetivos de aprendizagem e demais elementos do currículo devem incorporar os elementos do cotidiano, experiência profissional, recursos didáticos e, principalmente, a realidade social presente nas diferentes redes de ensino, especialmente àqueles que possuam o atendimento das etapas e segmentos da EJA. 1) Qual a importância da escolha dos conteúdos e temas em uma construção curricular? 2) Por que é preciso adaptar a prescrição curricular presente na BNCC para a Educação de Jovens e Adultos? 98 Didática do Educador da EJA 2.2 EJA E AVALIAÇÃO DAS APRENDIZAGENS FIGURA 7 – AS ESCOLHAS DA AVALIAÇÃO FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-gratis/avalie-o-conceito-de- avaliacao-do-questionario-das-estatisticas-da-avaliacao_2828743. htm#page=1&query=avalia%C3%A7%C3%A3o&position=21>. Acesso em: 23 mar. 2021. A avaliação das aprendizagens é o elemento que faz com que consigamos acompanhar o alcance dos conhecimentos adquiridos pelos estudantes. Avaliar, portanto, conecta-se diretamente com a construção curricular, na escolha dos conteúdos e os objetivos de aprendizagem, bem como as metodologias de ensino e a maneira como o processo didático-pedagógico irá se desenvolver nas diferentes etapas e modalidades educacionais. Trazer esses questionamentos para o âmbito da EJA é um dos momentos centrais de incorporação do protagonismo da modalidade na Educação Básica. Como apontado por Sacristán e Pérez Gómez (2000), é no ato de avaliar que se consegue acompanhar o que foi disposto na construção do currículo, no acompanhamento do processo de escolarização tendo as habilidades, competências e temas dos conteúdos como referência para a realização da ponte entre currículo e avaliação. Os objetivos de aprendizagem significam, portanto, a “[…] configuração, implantação, concretização e expressão de determinadas práticas pedagógicas e em sua própria avaliação, como resultado das diversas intervenções que nele se operam” (SACRISTÁN; PÉREZ GÓMEZ, 2000, p. 101). No mesmo sentido é que as Diretrizes Curriculares Nacionais da EJA estabelecem importância de situar e contextualizar o que está disposto como objetivo de aprendizagem com o que será avaliado. Equidade, contextualização e proporcionalidade são dimensões que se postam como princípios do que virá a ser a premissa da avaliação das aprendizagens dos sujeitos da EJA: 99 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 Art. 5 º [...] Parágrafo único. Como modalidade destas etapas da Educação Básica, a identidade própria da Educação de Jovens e Adultos considerará as situações, os perfis dos estudantes, as faixas etárias e se pautará pelos princípios de equidade, diferença e proporcionalidade na apropriação e contextualização das diretrizes curriculares nacionais e na proposição de um modelo pedagógico próprio, de modo a assegurar: I- quanto à equidade, a distribuição específica dos componentes curriculares a fim de propiciar um patamar igualitário de formação e restabelecer a igualdade de direitos e de oportunidades face ao direito à educação; II- quanto à diferença, a identificação e o reconhecimento da alteridade própria e inseparável dos jovens e dos adultos em seu processo formativo, da valorização do mérito de cada qual e do desenvolvimento de seus conhecimentos e valores; III- quanto à proporcionalidade, a disposição e alocação adequadas dos componentes curriculares face às necessidades próprias da Educação de Jovens e Adultos com espaços e tempos nos quais as práticas pedagógicas assegurem aos seus estudantes identidade formativa comum aos demais participantes da escolarização básica (BRASIL, 2000, s.p.). O que é colocado nas DCNs da EJA é o mesmo observável na Figura 8. Em linhas gerais, é preciso que os componentes curriculares, conteúdos, habilidades e competências possuam, também, elementos da visualização da vida cotidiana, da experiência e história de vida dos sujeitos da EJA. FIGURA 8 – COMPONENTES CURRICULARES E SIGNIFICAÇÃO DOS MÉTODOS AVALIATIVOS FONTE: <http://pedagogatasegato.blogspot.com/2015/11/a-charge- faz-uma-critica-ao-curriculo.html>. Acesso em: 10 nov. 2020. As reflexões suscitadas pelas DCNs da EJA, juntamente com a imagem anterior, vão ao encontro do que é problematizado por Apple (2006) no que diz respeito ao distanciamento do que é proposto como referência do que é aprendido e ensinado nas escolas: […] como algo distribuído de maneira desigual entre as classes sociais e econômicas, grupos profissionais, diferentes grupos 100 Didática do Educador da EJA etários e grupos com diferentes poderes. Assim, alguns grupos têm acesso ao conhecimento distribuído a eles, e não aos outros grupos. O inverso também é provavelmente verdadeiro. A falta de determinados tipos de conhecimento - o lugar em que determinado grupo se encontra no complexo processo de preservação cultural e de distribuição - se relaciona, sem dúvida, à ausência, no mesmo grupo, de determinados tipos de poder político e econômico na sociedade” (APPLE, 2006, p. 49). Das proposições curriculares, metodologias de ensino e diversidade dos ambientes de aprendizagem partimos para o acompanhamento didático- pedagógico na Educação Básica. Libâneo (2013) reforça a importância de haver o balanço entre as opções quantitativas e qualitativas no processo de avaliação, como presente, por exemplo, nas DCNs para a EJA. A avaliação é uma tarefa complexa que não se resume à realização de provas e atribuição de notas. A mensuração apenas proporciona dados que devem ser submetidos a uma apreciação qualitativa. A avaliação, assim, cumpre funções pedagógico-didáticas, de diagnóstico e de controle em relação as quais se recorrem a instrumentos de verificação do rendimento escolar (LIBÂNEO, 2013, p. 195). Nesse sentido, reitera-se que a avaliação deverá ser dialógica, formativa, processual, contextualizada e específica para cada realidade das etapas, segmento e formas de oferta da EJA. Somente a partir do momento que a avaliação da Educação de Jovens e Adultos possuir tais premissas como pontos de base para sua ocorrência nas redes de ensino é que poderemos ir na direção de uma escolarização integral e crítico-propositiva dos sujeitos da EJA. A ideia de uma avaliação formativa diz respeito a um percurso de aprendizagem entrelaçado à maior quantidade possível de experiências didático-pedagógicas e metodologias de ensino que possam potencializar a aprendizagem dos estudantes. No caso daEJA, pensar uma avaliação formativa deve ir ao encontro da diversidade e singularidades da modalidade, ou seja, considerar cada especificidade de seus segmentos e os sujeitos que fazem parte de seu público-alvo. 101 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 Muitas vezes observa-se, por exemplo, o uso de recursos didáticos como livros, filmes ou atividades em grupo fora do contexto de experiência da EJA. Professores e gestores que atuam com jovens, adultos e idosos possuem uma tarefa desafiadora do ponto de vista didático-pedagógico, como ressaltado por Arroyo (2005) e Soares, Giovanetti e Gomes (2005), que reforçam a importância da modalidade defender o protagonismo de sua singularização na totalidade da Educação Básica. FIGURA 9 – AS AVALIAÇÕES NAS DIFERENTES FORMAS DE OFERTA E HISTÓRIA DE VIDA DOS SUJEITOS DA EJA FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-premium/close-up-alunos- escrevendo-e-lendo-exercicios-de-folhas-de-respostas-de- exame-em-sala-de-aula-da-escola-com-o-estresse_5316950. htm#page=4&query=avalia%C3%A7%C3%A3o&position=33>. Acesso em: 23 mar. 2021. Muitas vezes, o afastamento da avaliação da realidade vivida e cotidiana de professores e estudantes faz com que resultados ou alcance das aprendizagens fiquem aquém do esperado ou planejado. Há sempre um contexto, uma singularização do que está ao redor, um histórico com um sem-número de aspectos de oposição e contradições, continuidades e descontinuidades, ausências e escolhas, planejamentos e planos educacionais. Todos esses elementos e características farão parte do percurso de escolarização, das metodologias de ensino, prática pedagógica dos professores aos métodos de avaliação. O diferencial, incluindo nesse ínterim a Educação de Jovens e Adultos, é transformar óbices em possiblidades, afastamentos em aproximações e ausências de contemplação diferenciada em nuance contextual para práticas pedagógicas. No novo cenário mundial, reconhecer-se em seu contexto 102 Didática do Educador da EJA histórico e cultural, comunicar-se, ser criativo, analítico-crítico, participativo, aberto ao novo, colaborativo, resiliente, produtivo e responsável requer muito mais do que o acúmulo de informações. Requer o desenvolvimento de competências para aprender a aprender, saber lidar com a informação cada vez mais disponível, atuar com discernimento e responsabilidade nos contextos das culturas digitais, aplicar conhecimentos para resolver problemas, ter autonomia para tomar decisões, ser proativo para identificar os dados de uma situação e buscar soluções, conviver e aprender com as diferenças e as diversidades (BRASIL, 2018, p. 14). Apple (2006) e Silva (2005) são exemplos de autores que ressaltam a correlação inerente entre objetivos de aprendizagem e processos de avalição. Somando-se a isso, o cenário complexo e único da EJA, como trabalhado por Arroyo (2005), observamos que o desafio posto é ainda mais dinâmico, diversificado e com camadas e singularidades das mais variadas, que podem ser encontrados na BNCC, e levados ao centro da teoria e prática educacional da EJA, de modo a: • garantir a contextualização dos conhecimentos, articulando as dimensões do trabalho, da ciência, da tecnologia e da cultura; • viabilizar o acesso dos estudantes às bases científicas e tecnológicas dos processos de produção do mundo contemporâneo, relacionando teoria e prática – ou o conhecimento teórico à resolução de problemas da realidade social, cultural ou natural; • revelar os contextos nos quais as diferentes formas de produção e de trabalho ocorrem, sua constante modificação e atualização nas sociedades contemporâneas e, em especial, no Brasil; • proporcionar uma cultura favorável ao desenvolvimento de atitudes, capacidades e valores que promovam o empreendedorismo (criatividade, inovação, organização, planejamento, responsabilidade, liderança, colaboração, visão de futuro, assunção de riscos, resiliência e curiosidade científica, entre outros), entendido como competência essencial ao desenvolvimento pessoal, à cidadania ativa, à inclusão social e à empregabilidade; e • prever o suporte aos jovens para que reconheçam suas potencialidades e vocações, identifiquem perspectivas e possibilidades, construam aspirações e metas de formação e inserção profissional presentes e/ou futuras, e desenvolvam uma postura empreendedora, ética e responsável para transitar no mundo do trabalho e na sociedade em geral (BRASIL, 2018, p. 466). Como já ressaltado, mesmo que a BNCC não oriente especificamente os objetivos de aprendizagem, habilidades e competências para a EJA, é possível encontrarmos caminhos para a proposição, conectando o que será ensinado à importância das demais dimensões do processo educacional de ensino e 103 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 aprendizagem, como a individualização da construção curricular nas modalidades da Educação Básica, como é o caso da EJA. Diante desse quadro, as decisões curriculares e didático- pedagógicas das Secretarias de Educação, o planejamento do trabalho anual das instituições escolares e as rotinas e os eventos do cotidiano escolar devem levar em consideração a necessidade de superação dessas desigualdades. Para isso, os sistemas e redes de ensino e as instituições escolares devem se planejar com um claro foco na equidade, que pressupõe reconhecer que as necessidades dos estudantes são diferentes (BRASIL, 2018, p. 15). É possível superar um processo tradicional de avaliação, como reforçado por Behrens (2005). O autor afirma que é possível ir na direção de alternativas avaliativas que contemplem a complexidade, singularidades e diversidade das etapas e modalidades da Educação Básica: Busca respostas prontas, e quando as perguntas são propostas que objetivam respostas pré-determinadas, não possibilitam a formulação de novas perguntas. Este fator impede os alunos de serem criativos, reflexivos e questionadores. A avaliação, de maneira geral, única e bimestral, contempla questões que envolvem a reprodução dos conteúdos propostos, enfatizando e valorizando a memorização, a repetição e a exatidão, perguntas que envolvem reprodução buscam respostas prontas, ela é única e bimestral impede aos alunos ao questionamento, valorizando a memorização (BEHRENS, 2005, p. 46). No caso da EJA é preciso levar em consideração um cenário histórico de desigualdade e descontinuidades no acesso e continuidade do percurso de escolarização. Sem levarmos em consideração as situações específicas de desafios, sequelas históricas e contradições que envolvem estudantes e professores, as proposições de avaliação se tornam ainda mais complexas. FIGURA 10 – EJA E AVALIAÇÃO, A PRÁTICA PEDAGÓGICA COMO AÇÃO SOCIAL FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/conselho-escola- universidade-2853022/>. Acesso em: 23 mar. 2021. 104 Didática do Educador da EJA Behrens (2005, p. 75) vai ainda mais a fundo em sua problematização sobre a avaliação, ressaltando que: “O processo, o crescimento gradativo e o respeito ao aluno como pessoa, contemplando suas inteligências múltiplas com seus limites e qualidades”. E os limites, contextos e realidades tornam-se ainda mais necessários em um: “O processo avaliativo está a serviço da construção do conhecimento, da harmonia, conciliação, da aceitação dos diferentes, tendo como premissa uma melhor qualidade de vida” (BEHRENS, 2005, p. 75). Especialmente no se refere à avaliação somativa, há questionamentos a respeito de sua efetividade na escolarização, no entanto, no âmbito complexo do processo de ensino e aprendizagem é preciso que pensemos de modo dialógico, interdisciplinar e singularizado, a depender da situação didático- pedagógica específica. Cada forma de avaliação possui seu papel formativoe didático específico, que deve ser incorporado de forma interconectada às metodologias de ensino, prática pedagógica dos professores e conhecimentos prévios dos estudantes, valorizando, principalmente no caso da EJA, as histórias de vida e experiências anteriores de aprendizagem dos estudantes. Os mesmos conteúdos presentes em uma construção curricular, metodologias de ensino e avaliações do Ensino Fundamental e Médio não encontrarão alcance didático-pedagógico efetivo na EJA. É preciso conhecer e reconhecer as histórias de vida, narrativas, descontinuidades de aprendizagem, ir a fundo na iniciação aos primeiros passos da alfabetização e letramento nos primeiros anos da EJA, oferecer métodos e oportunidades de inserção das aprendizagens no mundo do trabalho, dentre outras especificidades do ensino para jovens, adultos e idosos. Por essas razões, como afirmado por Behrens (2005), uma escola progressista, crítico-propositiva, deve caminhar na direção de conteúdos abertos às realidades sociais, e avaliações contextuais e formativas dentro dessa perspectiva, muitas vezes ausente de uma visão educacional tradicional nas redes de ensino: Uma escola progressista precisa estabelecer um clima de troca, de enriquecimento mútuo, em que tudo é relacional, transitório, indeterminado e está sempre em processo. Caracteriza-se por ser uma instituição libertadora, democrática, dialógica e 105 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 crítica. Apresentando-se como local de problematização, para a compreensão do real no qual se defende a importância dos conteúdos abertos as realidades sociais (BEHRENS, 2005, p. 80). No livro La educación Intercultural en la Educación, a autora Catherine Walsh trabalha questões sobre a temática decolonial no âmbito educacional. Um dos pontos trabalhados por Walsh diz respeito a como as singularidades socioculturais latino-americanas estiveram apartadas do planejamento e prática educacionais desses países. Com inspiração em autores como Paulo Freire e Frantz Fenon, a autora realiza profundos questionamentos a respeito de como a educação precisa se conectar às histórias realidades socais, culturais e complexidades das populações da América Latina. Como observado nas figuras 10 e 11, pensar a educação vai ao encontro de admitir sua complexidade, e o reflexo de uma realidade permeada por contradições e descontinuidades. A Educação de Jovens e Adultos possui uma relação reparadora do percurso de escolarização e, em um patamar mais elevado, do direito à Educação de jovens, adultos e idosos. A avaliação dialógica, contextual, crítica e interligada à realidade social e histórias de vida desses sujeitos fará com que a EJA se ressignifique no interior de seus próprios desafios e possibilidades, permitindo não apenas a entrada ou início na escola, mas a continuidade dos estudos e possiblidade de galgar, pela educação, o direito a uma formação integral, crítica e cidadã. 106 Didática do Educador da EJA FIGURA 11 – CONTEÚDOS, APRENDIZAGENS E REALIDADE SOCIAL FONTE: <https://br.freepik.com/vetores-gratis/modelo-de-escola-infografico_710565. htm#query=conhecimento&position=0>. Acesso em: 23 mar. 2021. Pensando-se no campo específico de ação da EJA em seus diferentes segmentos e formas de oferta, a avaliação das aprendizagens deve preponderar muito mais como um diagnóstico contínuo do que um efeito corretivo. A formação, e interconexão entre os pontos das aprendizagens em descontinuidade pelos jovens, adultos e idosos vai ao encontro do que é trabalhado por Luckesi (2005), ao afirmar a importância do caráter processual das avaliações no processo de ensino e aprendizagem: [...], o elemento essencial, para que se dê à avaliação educacional escolar um rumo diverso ao que vem sendo exercitado, é o resgate de sua função diagnóstica. Para não ser autoritária e conservadora, a avaliação tem que ser diagnóstica, ou seja, deverá ser um instrumento dialético do avanço, terá de ser um instrumento da identificação de novos rumos. Enfim, terá de ser o instrumento do reconhecimento dos caminhos percorridos e da identificação dos caminhos a serem perseguidos (LUCKESI, 2005 p. 43). O que o autor coloca também vai ao encontro do que é previsto pela LDB, ou seja, que os “§ 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames” (BRASIL, 1996, s.p.). Em outras palavras, a EJA exige um esforço conjunto de direcionamento das dimensões e aspectos do processo de ensino e aprendizagem à miríade de singularizações de histórias de vida, metodologias de ensino, objetivos de aprendizagem e conteúdos e formas de oferta da modalidade. 107 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 Além da difícil tarefa de mobilização de jovens e adultos para retorno à escola, do desafio de fazê-los permanecer no sistema escolar, há ainda um elemento fundamental que a EJA precisa enfrentar: como fazer para que conhecimentos produzidos sejam significativos, tenham qualidade e permitam aos educandos maior autonomia para serem sujeitos da própria história? Retornar à escola, participar de um processo em que a certificação é um fim em si mesma não parece ser o caminho apropriado para a EJA. Em âmbito nacional, registra- se a necessidade de avaliação mais cuidadosa do processo de certificação de conhecimentos que o país utiliza há mais de 30 anos: o exame supletivo. Cabe aos estados a oferta de exames, sendo destes a responsabilidade por sua elaboração e aplicação e não ao Ministério da Educação. Igualmente, urge discutir a questão da certificação de conhecimentos, na perspectiva da avaliação do sistema e da construção de políticas públicas mais adequadas. A análise dessa questão é imprescindível para garantir a qualidade de todo o processo educacional da EJA e não é possível adiar mais as definições sobre o tema. A maioria dos estudiosos aponta para a avaliação em contexto processual, em cursos presenciais, como aquela que pode produzir melhores resultados, desde que parte integrante de um sistema nacional de educação básica (BRASIL, 2016, p. 40). A avaliação para a EJA precisa estar estruturada a partir da diversidade das formas de oferta que fazem parte dessa modalidade. Em outras palavras, os mesmos conteúdos ou temáticas avaliadas em turmas presenciais convencionais em uma escola de funcionamento noturno, por exemplo, deverá passar por uma reelaboração para que seja utilizado em uma realidade de ambiente prisional ou de educação ambiental. Nas proposições a respeito da aprendizagem por competências e habilidades, Perrenoud (1990) elabora um caminho de aproximação, diálogo e implementação da prática pedagógica a partir do referencial curricular e das estratégias de avaliação. Segundo o autor, uma prática didático-pedagógica integral e complexa necessita contemplar propostas avaliativas que contemplem estratégias de ensino e aprendizagem para além dos padrões somatórios e quantificáveis, primando por caminhos múltiplas de avaliação: Não existem medidas automáticas, avaliações sem avaliar nem avaliado, nem se pode produzir um estado de instrumento e o outro ao de objeto. Trata-se de atores que desenvolvem determinadas estratégicas, para qual a avaliação encerra uma aposta, sua carreira, sua formação. O professor e o aluno se envolvem num jogo complexo cujas regras não estão definidas em sua totalidade, que se estende ao longo de um curso escolar e no qual a avaliação restringe-se a um momento (PERRENOUD, 1990. p. 18). 108 Didática do Educador da EJA “Uma avaliação a serviçoda ação não tem por objetivo a verificação e registro de dados do desempenho escolar, mas a observação permanente das modificações de aprendizagem para proceder a uma ação educativa que otimize os percursos individuais” (HOFFMANN, 2002, p. 21). Do mesmo modo, na EJA serão encontradas situações de aprendizagens das mais singulares. Em uma mesma etapa inicial observaremos estudantes em ritmos distintos de alfabetização e letramento, demandando a adaptação de recursos didáticos e metodologias de ensino para tais situações. No mesmo sentido, questões como a formação técnica e profissional da EJA Integrada ou a complexidade da juvenilização devem estar presentes da construção curricular à utilização dos objetivos de aprendizagem do currículo como referência para as avaliações no processo de ensino e aprendizagem. Vejamos, nesse sentido, a perspectiva teórica dessa diversidade didático-pedagógica, com vistas a uma avaliação educacional que contemple as contradições da realidade social, nas palavras de Luckesi (2005, p. 42): Para que a avaliação educacional assuma o seu verdadeiro papel de instrumento dialético de diagnóstico para o crescimento, terá que se situar e estar a serviço de uma pedagogia que esteja preocupada com a transformação social e não com a sua conservação. A avaliação deixará de ser autoritária se o modelo social e a concepção teórico-prática da educação também não forem autoritários. E, ao encontro do que evidencia o autor, e apoiando suas ideias ao âmbito da Educação de Jovens e Adultos, há a orientação da Resolução nº 3 de 2010 do Ministério da Educação sobre a EJA, que vai ao encontro dessas colocações, quando prevê que cabe as instituições do poder público: VI- realizar avaliação das aprendizagens dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos, integrada às avaliações já existentes para o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, capaz de oferecer dados e informações para subsidiar o estabelecimento de políticas públicas nacionais compatíveis com a realidade, sem o objetivo de certificar o desempenho de estudantes (BRASIL, 2010, p. 2). E no mesmo documento há ainda a questão diagnóstica, de continuidade dos estudos e permanência dos estudantes da EJA na escola, valorando o papel protagonista das avaliações das aprendizagens nesse processo: Art. 8º O poder público deve inserir a EJA no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica e ampliar sua ação para além das avaliações que visam identificar desempenhos cognitivos e fluxo escolar, incluindo, também, a avaliação de outros indicadores institucionais das redes públicas e 109 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 privadas que possibilitam a universalização e a qualidade do processo educativo, tais como parâmetros de infraestrutura, gestão, formação e valorização dos profissionais da educação, financiamento, jornada escolar e organização pedagógica (BRASIL, 2010, p. 3). Como observado, ainda há um grande caminho de desenvolvimento das estratégias de avaliação para a Educação de Jovens e Adultos. Jovens, crianças e adultos estão no ínterim dos desafios educacionais. O passo mais importante para que os sujeitos da EJA sejam contemplados em suas singularidades de aprendizagem é incorporar os elementos, seja do início ou continuidade de seus estudos, especialmente com a consideração de que é preciso objetivos de aprendizagem e avaliação estarem relacionadas às metodologias de ensino e prática pedagógica das redes de ensino. 1) Leia a citação a seguir e responda à questão: “A ideia de avaliação formativa sistematiza o funcionamento, levando o professor a observar mais metodicamente os alunos, a compreender melhor seus funcionamentos, de modo a ajustar de maneira mais sistemática e individualizada suas intervenções pedagógicas e as situações didáticas que propõe, tudo isso na expectativa de otimizar as aprendizagens: “A avaliação formativa está portanto centrada essencial, direta e imediatamente sobre a gestão das aprendizagens dos alunos (pelo professor e pelos interessados)”. Essa concepção se situa abertamente na perspectiva de uma regulação intencional, cuja intenção seria determinar ao mesmo tempo o caminho já percorrido por cada um e aquele que resta a percorrer com vistas a intervir para otimizar os processos de aprendizagem em curso” (PERRENOUD, 1998. p. 89). Por que a avaliação formativa é fundamental para o aspecto de descontinuidade da escolarização comum aos sujeitos da EJA? 110 Didática do Educador da EJA 2.3 FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA PARA A EJA FIGURA 12 – A FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA DE PROFESSORES FONTE: <https://stock.adobe.com/pt/images/id/100388883?as_campaign=Freepik&as_ content=api&as_audience=idp&as_camptype=test-bannerbigger-b&t duid=b2b53dfc1aedf7d14fc3f6b2ead11d61&as_channel=affiliate&as_ campclass=redirect&as_source=arvato>. Acesso em: 23 mar. 2021. A formação de professores é um dos pilares da Educação. Seja em cursos iniciais de magistério, para alfabetização e letramento ou atividade docente em disciplinas específicas, até os cursos de formação continuada, haverá sempre uma demanda por atualização e conhecimento por novas metodologias de ensino, proposições teórico-pedagógicas e tendências que estão sendo utilizadas nas salas de aula. Colocar a EJA no cerne do debate da formação de professores é permitir que a modalidade leve às pautas de formação inicial e continuada o seu desenvolvimento, singularidades, complexidade e desafios. Atualmente, há uma gama considerável de formas de oferta da EJA, indo desde a escolarização de pessoas em privação de liberdade a projetos de alfabetização e letramento de populações que vivem no campo. Atender à demanda de formação inicial e continuada a essa diversidade de oferta da modalidade é um dos campos mais profícuos da EJA atualmente. Como ressaltado por Di Pierro (2005), há uma grande mudança em curso na EJA, que vai do avanço das redes de ensino em cidades de pequeno e médio porte a transformações no público-alvo da modalidade, incorporando jovens e necessidade de formação técnica-profissional, por exemplo: O período de transição do milênio foi marcado, em todo o mundo, pelo crescimento das aspirações e da participação 111 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 dos jovens e adultos em programas educacionais. Dentre as motivações para a busca de maiores níveis de escolarização após a infância e adolescência, destacam-se as múltiplas necessidades de conhecimento ligadas ao acesso aos meios de informação e comunicação, à afirmação de identidades singulares em sociedades complexas e multiculturais, assim como às crescentes exigências de qualificação de um mundo do trabalho cada vez mais competitivo e excludente. No caso brasileiro, esses fatores favoreceram a expressão de parcela da extensa demanda potencial acumulada ao longo de uma história de negação de direitos e limitado acesso à educação escolar, que legou ao presente grandes contingentes de jovens e adultos analfabetos, com reduzida escolaridade e escasso preparo profissional (DI PIERRO, 2005, p. 1122). Nas palavras de Saviani (2009), há um dilema intrínseco à forma de professores. O autor considera que é preciso encontrar um meio-termo entre a prescrição das aprendizagens curriculares, que primam pela questão cultural- cognitiva. Por outro lado, há a questão de como as faculdades de educação e centros de formação de professores farão a ponte entre o que é ensinado em suas atividades com a prática pedagógica, realidade social e cotidiano dos docentes: O dilema se expressa do seguinte modo: admite-se que os dois aspectos – os conteúdos de conhecimento e os procedimentos didático-pedagógicos – devam integrar o processo de formação de professores. Como, porém, articulá-los adequadamente?A ênfase nos conhecimentos que constituem a matéria dos currículos escolares leva a dar precedência ao modelo dos conteúdos culturais-cognitivos. Nesse caso, na organização institucional, seríamos levados a situar a questão da formação de professores no âmbito dos institutos ou faculdades específicos. Inversamente, se nosso ponto de partida for o modelo pedagógico didático, tenderemos a situar os cursos no âmbito das faculdades de educação (SAVIANI, 2009, p. 151). A solução proposta pelo autor vai ao encontro do que observamos, por exemplo, nas formações continuadas das modalidades educacionais. Em outras palavras, é preciso que forma e conteúdo se associem mutuamente, ou seja, que o que se destina a reforçar como formação aos professores esteja diretamente relacionado a sua prática pedagógica, elementos de sua rotina, metodologias de ensino, formas de avalição, desafios cotidianos etc. Tudo indica que na raiz desse dilema está a dissociação entre os dois aspectos indissociáveis da função docente: a forma e o conteúdo. Considerando o modo como estão constituídas as especializações universitárias, dir-se-ia que os estudantes, que vivenciaram na educação básica a unidade dos dois aspectos, ao ingressar no ensino superior terão adquirido o direito de se fixar apenas em um deles. Em consequência, os que foram aprovados no vestibular de Pedagogia não precisam mais se preocupar com os conteúdos. E os que foram aprovados 112 Didática do Educador da EJA nos vestibulares das diferentes disciplinas de licenciatura se concentram apenas nos respectivos conteúdos específicos, despreocupando-se com as formas a eles correspondentes. Em decorrência, constata-se que as faculdades de Educação tendem a reunir os especialistas das formas abstraídas dos conteúdos, enquanto os institutos e faculdades correspondentes às disciplinas que compõem os currículos escolares reúnem os especialistas nos conteúdos abstraídos das formas que os veiculam. Ora, se na raiz do dilema está a dissociação entre os dois aspectos que caracterizam a função docente, compreende-se que ambos os modelos desemboquem em saídas embaraçosas, isto é, que não resolvem o dilema em que eles próprios se constituem. Segue-se, pois, que as duas vias propostas constituem os elementos do próprio problema cuja solução se busca, não podendo ser, pois, alternativas para resolvê-lo (SAVIANI, 2009, p. 151). Como observado, no processo de ensino e aprendizagem, como teoria e prática, precisa ter como prioridade o diferencial entre a EJA e as etapas da Educação Básica, especialmente os conteúdos específicos do Ensino Fundamental e Médio. Algumas dessas dificuldades da elaboração do percurso formativo de docentes é levantado por Almeida (2008) quando o autor reafirma como a realidade social é fundamental para a estruturação dos percursos formativos dos professores: 1. A justaposição dos conhecimentos específicos aos conhecimentos pedagógicos: nas instituições que oferecem bacharelado, o curso de formação técnico-científica não se articula com os departamentos ou faculdades de educação que tratam das disciplinas educacionais, quando estas são responsabilizadas pela formação de professores, muitas vezes oferecendo apenas seis disciplinas e os estágios supervisionados, o que dificulta a formação qualificada dos professores no contexto em que atuam ou vão atuar. 2. A desvinculação existente entre as próprias disciplinas pedagógicas e as atividades de estágio não favorece a apropriação da formação docente, a construção de observações sólidas, bem fundamentadas, e a reflexão das práticas de que o estagiário participou na escola de ensino fundamental e médio. Isso pode resultar em deficiência na interação entre a teoria e a prática, pela compartimentação processada no ensino superior. 3. As inúmeras dificuldades postas aos professores, em todos os níveis de trabalho na escola, no âmbito da organização, dos sistemas e das transformações sociais na vida dos alunos e dos professores em nosso país, onde as desigualdades são flagrantes. 4. As dificuldades que os educadores encontram para ter acesso aos avanços disponibilizados pelas pesquisas, estudos, reflexões e elaboração teórica a respeito da formação, do ensino, da profissão docente e do universo da prática educativa escolarizada. Aqui estão colocadas as condições de trabalho e de salário dos professores em todos os níveis da escolarização. 113 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 É nesse universo tenso, complexo e contraditório que temos de nos movimentar e tentar melhorar a formação do professor (ALMEIDA, 2008, p. 39). Um dos pontos que deve ser levado em conta atualmente nas avaliações da Educação Básica são as orientações presentes na BNCC. Como a base é organizada por habilidades e competências, então é importante que as redes de ensino façam formações com seus professores para que estes passem a utilizar tais prerrogativas em suas avaliações de aprendizagens na Educação de Jovens e Adultos: Ao adotar esse enfoque, a BNCC indica que as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desenvolvimento de competências. Por meio da indicação clara do que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) e, sobretudo, do que devem “saber fazer” (considerando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho), a explicitação das competências oferece referências para o fortalecimento de ações que assegurem as aprendizagens essenciais definidas na BNCC (BRASIL, 2018, p. 13). Nesse sentido, mesmo que não haja uma correlação direta entre o que prescreve a BNCC e a EJA parte-se do princípio que é preciso correlacionar a modalidade ao que está vigente para toda a Educação Básica. A formação continuada dos professores, nesse caso, fará a diferença na atualização desses recursos formativos na teoria e prática. 1. Desenvolver discussão ampla e aprofundada para viabilizar a formação inicial em EJA, considerando particularidades da área, práticas pedagógicas desenvolvidas na atualidade, conhecimento e divulgação de pesquisas acadêmicas. 2. Fomentar, junto aos sistemas públicos de ensino, através de convênios, políticas públicas de formação de educadores de EJA alicerçadas em concepções filosóficas emancipatórias e com metodologias integrantes dos currículos das licenciaturas, considerando dentre outros aspectos a diversidade regional/ local e cultural. 3. Produzir estudos aprofundados sobre necessidades e expectativas da EJA, com o intuito de subsidiar normatizações elaboradas pelos Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação que venham atender a especificidade dessa modalidade. 4. Fomentar linha de pesquisa em EJA na pós-graduação stricto sensu. 5. Considerar a demanda social por formação específica para EJA na definição dos editais de contratação de professores para atuar nos cursos de licenciatura. 6. Fomentar, nas Instituições de Ensino Superior, a assunção do compromisso de realização de pesquisa nacional para conhecer a população carcerária, incluída a sua escolarização, nos termos das deliberações do 114 Didática do Educador da EJA Encontro Nacional de Educação nas Prisões (BRASIL, 2016, p. 58). Ainda de acordo com o documento norteador do último CONFINTEA, os recursos humanos, ou seja, o corpo de professores que atuam na EJA, deve fazer parte das principais ações do planejamento educacional de médio e longo prazo das redes de ensino. O investimento na formação dos professores que atuam na EJA fará a diferença no alcance das aprendizagens pelos sujeitos que compõem o público-alvo da modalidade: No que tange a recursos humanos, ainda há um grande desafio no Brasil em relaçãoà formação de professores e gestores que atuam na EJA. É tímido o esforço de alguns sistemas na formação e o resultado desse investimento tem pouca visibilidade. São insuficientes as iniciativas dos sistemas na formação continuada de educadores de redes públicas. […] Cumpre ainda reconhecer as iniciativas pontuais e crescentes de vários desses cursos ao incluir disciplinas que abordam a EJA e/ou ao criar núcleos que dinamizam a prática e a formação específica desse educador. As universidades têm, ainda, como desafio, a partir da graduação, a proposição de currículos que contemplem estudos sobre a EJA, e as instituições e o sistema de ensino federal, estaduais e municipais o desafio de estabelecer compromisso com a formação continuada de educadores para esta modalidade educativa (BRASIL, 2016, p. 43). A formação inicial e continuada é essencial nesse processo e contexto, especialmente quando há realidades sociais específicas, como é o caso da EJA em suas diferentes formas de oferta, história de vida de seus sujeitos. Se em um ambiente do ensino regular da Educação Básica já há complexidades relacionadas à construção curricular e avaliação, na Educação de Jovens e Adultos há ainda mais complexidades a serem consideradas. FIGURA 13 – PENSANDO A FORMAÇÃO DOCENTE FONTE: <https://br.freepik.com/fotos-gratis/professor-de-retratos-escrevendo-no-quadro- negro_10058693.htm#page=1&query=teachers&position=6>. Acesso em: 24 mar. 2021. 115 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 A formação de professores possui como objetivo principal valorar a prática pedagógica, a profissão docente. Como mencionado na Figura 14, há uma questão de colocar em protagonismo do diferencial do trabalho docente nas escolas. FIGURA 14 – O PAPEL PROTAGONISTA E DIFERENCIAL DOS PROFESSORES FONTE: <Profissão professor - Blog do Ari Cunha (correiobraziliense.com.br)>. Acesso em: 24 mar. 2021. COMERLATO, Denise Maria. Formação de professores em EJA. Aprendendo Com Jovens e Adultos. Revista do Pefjat, Porto Alegre- RS, v. 2, n.1, p. 21-26, 2001. Neste artigo é possível encontrar diferentes reflexões a respeito da importância da formação de professores, e a maneira como o acompanhamento do que é pensado, proposto e implantado na educação é fundamental para o trabalho no magistério. Por meio de proposições sobre metodologias de ensino, conceitos e exemplos situacionais, a autora realiza amplo estudo sobre o protagonismo da formação docente, inicial e continuada. Paiva (2005) trabalha no âmbito da EJA na mesma linha das colocações de Libâneo (2001). Em outras palavras, é somente a partir do domínio teórico, prático e metodológico pelos educadores, somente a partir de uma sólida formação inicial e continuada é que poderemos propor desenvolvimentos próprios e protagonistas para os aspectos didático-pedagógicos para cada singularidade de etapa ou modalidade. A atividade essencial de uma escola é assegurar a relação cognitiva do aluno com a matéria, ou seja, a aprendizagem dos alunos, com a ajuda pedagógica do professor. O professor 116 Didática do Educador da EJA é o mediador desse encontro do aluno com os objetos de conhecimento. O professor introduz os alunos no mundo da ciência, da linguagem, para ajudar o aluno a desenvolver seu pensamento, suas habilidades, suas atitudes. Sem professor competente no domínio das matérias que ensina, nos métodos, nos procedimentos de ensino, não é possível a existência de aprendizagens duradouras. Se é preciso que o aluno domine solidamente os conteúdos, o professor precisa ter, ele próprio, esse domínio. Se os alunos precisam desenvolver o hábito do raciocínio científico, que tenham autonomia de pensamento, o mesmo se requer do professor. Se queremos alunos capazes de fazer uma leitura crítica da realidade, o mesmo se exige do professor. Se quisermos lutar pela qualidade da oferta dos serviços escolares e pela qualidade dos resultados do ensino, é preciso investir mais na pesquisa sobre formação de professores (LIBÂNEO, 2001, p. 22). Especificamente no caso da EJA, o que mais chama a atenção é a presença de aspectos didáticos do Ensino Fundamental e Médio para jovens, adultos e idosos. Aplicar características distantes da realidade dos sujeitos da EJA apenas dificultará o trabalho docente, seja nas dimensões curriculares, avaliativas ou metodológicas. O alinhamento dessas dimensões à Educação de Jovens e Adultos é um dos principais objetivos da formação inicial e continuada de professores. Tanto formação inicial como continuada passa por renovações nos programas curriculares desses cursos. É necessário interligar o que é aprendido e debatido na academia com a realidade social das redes de ensino e experiência cotidiana dos professores. A formação inicial e continuada de educadores é um dos temas abordados com prioridade pelos fóruns que, convencidos de que a educação de jovens e adultos guarda especificidades relacionadas às identidades e características sociais, psicológicas e culturais dos sujeitos de aprendizagem, há longa data reivindicam espaços e processos próprios de qualificação (DI PIERRO, 2005, p. 1132). Atualmente, há uma gama considerável de cursos presenciais de formação docente, que incorporam elementos tanto do que foi aprendido na fase inicial como elementos mais contemporâneos, em cursos de média e curta duração em aperfeiçoamentos e especializações. 117 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 FIGURA 15 – FORMAÇÃO DOCENTE ACADÊMICA E A EXPERIÊNCIA DA REALIDADE SOCIAL NA PRÁTICA PEDAGÓGICA FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/universidade-palestra- campus-105709/>. Acesso em: 24 mar. 2021. Também é por meio dos cursos presenciais que a maior parte das formações de mestrado e doutorado em educação ocorrem, como observa igualmente no caso da EJA. A busca por tais formações também é uma crescente, especialmente após os primeiros anos de atuação dos professores nas redes de ensino. De forma concomitante aos cursos presenciais assiste-se a um aumento considerável na oferta de cursos a distância, seja de forma integral ou na mobilidade de ensino híbrido. Nesse caso, há a preponderância dos cursos de especialização, com algumas experiências exitosas de EaD incorporadas às atividades e temáticas específicas de cursos de mestrado e doutorado. FIGURA 16 – DIFERENTES FORMAS E ACESSOS À FORMAÇÃO DE PROFESSORES FONTE: <https://pixabay.com/pt/photos/notebook-local-de-trabalho- recep%C3%A7%C3%A3o-336634/>. Acesso em: 24 mar. 2021. 118 Didática do Educador da EJA A formação continuada de professores pode ser tanto Stricto Sensu como Lato Sensu, ou seja, cursos de aperfeiçoamento e especialização no segundo e as formações de mestrado e doutorado, no primeiro caso. Muitas redes de ensino promovem formações Lato Sensu em centros de estudos ou aperfeiçoamento de seus professores, ou então oferecem a possibilidade de afastamento para que profissionais da educação possam realizar seus cursos de mestrado e doutorado, ou seja, formação Stricto Sensu. Incorporar os elementos contextuais e situacionais da EJA na formação docente é, desse modo, um ponto fundamental e necessário tanto no formato presencial como a distância. Da elaboração das propostas curriculares, metodologias de ensino, recursos didáticos e avaliações para a modalidade, há uma quantidade e complexidade de dimensões e aspectos da modalidade que precisam fazer parte dos programas e propostas de formação docente, como previsto nas DCNs da EJA: Com maior razão, pode-se dizer que o preparo de um docente voltado para a EJA deve incluir, além das exigências formativas para todo e qualquer professor, aquelas relativas à complexidade diferencial desta modalidade de ensino. Jamais um professor aligeirado oumotivado apenas pela boa vontade ou por um voluntariado idealista e sim um docente que se nutra do geral e também das especificidades que a habilitação como formação sistemática requer (BRASIL, 2000, s.p.). Conforme disposto na citação anterior, quanto mais os aspectos formativos incorporarem os elementos diferenciadores da EJA, maiores serão as possibilidades de alcance, interesse e retorno prático-pedagógico nas salas de aula pelos professores. Na mesma linha de raciocínio é que Libâneo (2001) reflete sobre como a educação deve ser como prática social. Em outros termos, a história de vida dos sujeitos da EJA deve pautar, como ponto de partida e chegada, as estratégias educacionais, metodológicas e avaliativas voltadas à modalidade: Mas há, ainda, um elemento importante do conceito de educação a ser destacado. A educação é uma prática social que busca realizar nos sujeitos humanos as características de humanização plena. Todavia, toda educação se dá em meio a relações sociais. Numa sociedade em que essas relações se dão entre grupos sociais antagônicos, com diferentes interesses, em relações de exploração de uns sobre outros, 119 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 a educação só pode ser crítica, pois a humanização plena implica a transformação dessas relações. Isso significa que a Pedagogia lida com o fenômeno educativo enquanto expressão de interesses sociais em conflito na sociedade em que vivemos. É por isso que a Pedagogia expressa finalidades sociopolíticas, ou seja, uma direção explícita da ação educativa relacionada com um projeto de gestão social e política da sociedade. Dizer do caráter pedagógico, da prática educativa, é dizer que a Pedagogia, a par de sua característica de cuidar dos objetivos e formas metodológicas e organizativas de transmissão de saberes e modos de ação em função da construção humana, implica, explicitamente, em objetivos éticos e em projetos políticos de gestão social (LIBÂNEO, 2001, p. 8-9). Portanto, a formação dos profissionais da educação deve contemplar a preparação daqueles profissionais da área educacional demandados pela sociedade brasileira, em sua configuração atual, para atuarem na organização e na gestão de todos os segmentos do sistema nacional de ensino. Com igual insistência, é também necessária a formação de estudiosos que se dediquem à construção do conhecimento científico na área, uma vez que a educação também é considerada como um campo teórico-investigativo e que a produção desse conhecimento é requisito fundante de toda formação técnica e docente. Assim, a formação do profissional da educação é vista sob uma tríplice perspectiva: visa formar um profissional que possa atuar como docente (atual licenciado), como especialista (detentor das atuais habilitações) e como pesquisador (o atual bacharel, como essa modalidade tem sido mantida) (LIBÂNEO, 2001, p. 15). A capacitação dos educadores se impõe também pela multiplicidade de agentes sociais envolvidos nos programas de alfabetização e educação de jovens e adultos, muitos dos quais são voluntários ou recrutados nos movimentos populares, sem habilitação profissional formal. As dificuldades de instituição e consolidação de espaços de formação decorrem de múltiplos fatores, como a persistência da visão equivocada que concebe a educação de jovens e adultos como território provisório sempre aberto à improvisação; a precariedade do mercado de trabalho, que não proporciona a construção de carreiras profissionais; e o escasso envolvimento das instituições de ensino superior com um campo educativo de pouco prestígio e baixo grau de formalização (DI PIERRO, 2005, p. 1132). Di Pierro (2005) conclui suas colocações sobre a formação profissional docente para a EJA com o levantamento de aspectos estruturais, formativos e dos desafios de compreensão das características específicas das histórias de vida dos jovens, adultos e idosos. Em conclusão, o caminho a ser percorrido pela formação inicial e continuada de professores que atuam na EJA ainda é um campo complexo e diversificado. 120 Didática do Educador da EJA Muitas redes de ensino oferecem atendimento educacional para os segmentos da EJA, suas formas de oferta diferenciadas possuam dificuldades e realidades estruturais das mais variadas, ou seja, mesmo que a formação docente seja implementada, ainda é preciso ir em direção do que ressalta Libâneo (2001): a prática social, as realidades locais, as características específicas dos sujeitos da EJA, a compreensão da realidade proximal, da comunidade escolar, entre outros. Somente a partir da integração entre esses elementos é que poderemos contemplar uma maturação e desenvolvimento da formação profissional docente para a Educação de Jovens e Adultos. 1) Cite dois aspectos fundamentais do papel da formação continuada na atuação dos professores da EJA. 3 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A Educação Básica é um desafio do direito à escolarização no Brasil, iniciado desde a Constituição Federal de 1988, passando pela Lei de Diretrizes e Bases de 1996 e os documentos de orientação e regulação das etapas e modalidades educacionais. É preciso que façamos a apropriação teórica, prática e metodológica do processo de ensino e aprendizagem Especialmente no caso da Educação de Jovens e Adultos é preciso que haja uma relação direta dos elementos constitutivos das estratégias didático- pedagógicas com as dimensões do processo educacional como um todo. Construção curricular, formas de avaliação, metodologias de ensino, formação inicial e continuada de professores, dentre outras esferas e questões que fazem parte de uma totalidade maior, mais ampla e permeada por especificidades da EJA. A realidade social e histórias da vida dos sujeitos da EJA são os aspectos preponderantes no pensamento, reflexão e prática educacional para a modalidade. Somente a partir da consideração de tais premissas é que poderemos avançar para uma compreensão mais profunda, integral, dialógica, crítica, propositiva e de desenvolvimento da atuação profissional docente, e do processo educacional como um todo para a Educação de Jovens e Adultos. 121 EJA: Currículo, Avaliação E Formação De ProfessoresEJA: Currículo, Avaliação E Formação De Professores Capítulo 3 Não há uma fórmula fechada para se pensar, por exemplo, propostas curriculares, estratégias didático-pedagógicas ou formações continuadas para professoras da EJA. É nesse sentido que contexto e realidade social fazem a diferença. Tanto para estudantes, professores como gestores é preciso ir ao encontro do cotidiano do ambiente proximal das escolas, em seus detalhes socioculturais. Como no caso da EJA há uma presença maior de dificuldade em continuidade dos estudos ou afastamento da escola para que seja possível, por exemplo, iniciar a alfabetização e letramento, também a partir de tais aspectos é possível não apenas adequar ou adaptar, mas pensar a prática pedagógica da EJA a partir de suas próprias características. A Educação de Jovens e Adultos vai ao encontro das aproximações de suas formas de oferta com os elementos e dimensões da construção curricular, formação docente, estratégias de avaliação etc. Nesse sentido, é preciso alocar a EJA ao centro do debate, associando as singularidades da modalidade nas principais discussões teóricas e metodológicas da prática pedagógica na Educação Básica. REFERÊNCIAS ALMEIDA. M. I. 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