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Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Literatura Brasileira II Prof.ª Dra. Yudith Rosenbaum O caráter feminino na obra de Clarice Lispector: o labirinto emocional e o desejo de libertação Fernando Iago de Souza Rodrigues Pereira – 11881262 São Paulo 2022 Apresentação Este estudo tem como objetivo traçar uma análise acerca da obra de Clarice Lispector a fim de evidenciar aspectos relativos às ideias de “labirinto subjetivo” e o desejo de fuga e libertação de personagens femininas. A análise terá como foco principal o conto “O Grande Passeio” (Felicidade Clandestina), e apresentará comentários sobre “A Procura de uma Dignidade” (Onde Estivestes de Noite) e alguns elementos de contos de “Laços de Família” buscando ressaltar os aspectos citados e relacionar as diferentes narrativas. Sobre “O Grande Passeio” Publicado pela autora em dois momentos diferentes, o conto “O Grande Passeio”[footnoteRef:1], também chamado posteriormente de “Viagem a Petrópolis”, nos narra brevemente a história da misteriosa figura de Mocinha, ou Margarida. Pouco se sabe sobre seu passado, apenas que vivia no Maranhão com seu marido, filho e filha, sendo todos já falecidos em momentos distintos. Em uma idade mais avançada e sem contato com mais nenhum familiar, Mocinha é trazida ao Rio de Janeiro por uma senhora com o pretexto de colocá-la em um asilo, mas ao invés disso acaba sendo passada de casa em cada e vivendo de caridade com desconhecidos. No início do conto, a personagem encontra-se morando junto a uma família que percebe estar tomando conta de Mocinha por tempo demais, e, além disso, a personagem já começara a apresentar sinais de um quadro de demência, fazendo com que a família decida mandá-la para a casa de um parente em Petrópolis. A trama narrada concentra-se, majoritariamente, na viagem de mocinha até Petrópolis, na noite antecedente e um pouco do dia seguinte. É durante essa noite que Mocinha, ansiosa com os preparativos da viagem e com dificuldade para dormir, rememora lembranças de sua vida - semelhante a luzes em sua mente se acendendo inesperadamente - acerca de seu marido, da morte de seus filhos, de sua trajetória e de tudo o que a fez chegar no lugar onde está agora. Após a mudança para a nova casa e a tentativa de se reajustar à família que a recebera, em determinado momento, o personagem Arnaldo, incomodado com a presença de Mocinha na casa, dá a ela algum dinheiro para que possa tomar um trem de volta ao Rio de Janeiro, fazendo questão que a senhora não resida mais em sua casa. Ao parir, Mocinha começa a vagar sem rumo pela cidade e inocentemente prestar atenção nos detalhes da paisagem, até que decide se sentar para descansar sob uma arvore em uma praça. O conto, então, se encerra subitamente, de modo a surpreender o leitor com um desfecho quase anticlimático, após a cena em que a personagem falece ao encostar a cabeça no tronco da árvore. [1: “Felicidade Clandestina”, Clarice Lispector] Tendo isso em vista, é necessário constatar que o que está em jogo aqui não é apenas uma trama envolvendo abandono de idosos, ainda que seja a temática mais explícita. O conto nos traz questões que são relativamente frequentes na obra de Clarice, como a dinâmica psíquica de personagens femininas, o sentimento de desamparo, a busca por uma saída do labirinto de emoções, e o embate entre o aprisionamento e a libertação. Em “O Grande Passeio”, a protagonista nos é descrita em um constante estado de ausência, isto é, sua percepção de mundo não aparenta ser igual a dos demais personagens, uma vez que mocinha parece estar sempre alheia aos acontecimentos externos e sem compreendê-los direito, estando imersa e fechada em seu próprio mundo particular revivendo lembranças e levando com inocência as ações que sofre das pessoas a sua volta. A personagem aqui, apesar de ainda não ter perdido seus sonhos e desejos, visto sua euforia em partir para o passeio ao final da narrativa, vive nesse estado de alienação e desorientação como consequência, em uma primeira leitura, da vida que teve no passado; um luto muito forte devido a sequência de perdas em sua família seguido do abandono por parte de seus demais conhecidos, que em nenhum momento do conto são citados. A voz narrativa, desta maneira, da mesma forma que expõe ao leitor com muita crueza a situação da personagem, descrevendo com detalhes as difíceis cenas de abandono e sofrimento e se utilizando de uma focalização interna e externa da personagem por meio do discurso indireto livre, apresenta um tratamento que faz jus a essas descrições, o que fica evidente ao observarmos seu nome. Ainda que a personagem tenha um nome próprio, Margarida, a narração se alterna em chamá-la por seu apelido, Mocinha, ou simplesmente “a velha”. A escolha das duas alcunhas cria um jogo de significantes ao denominar a personagem ora de forma irônica, por um nome que faz referência a juventude, e ora pelo adjetivo “velha”, empregado de forma pejorativa e indicando que está é a única maneira em que a personagem pode enxergada pela sociedade e pelas pessoas a sua volta. Este lugar onde Mocinha é colocada, ao ser reduzida com inferioridade apenas por sua idade avançada, leva a personagem a uma posição de desumanização por meio do tratamento objetificado. Em determinada cena, onde é feita uma descrição da personagem se alimentando com um pão, essas ideias ficam bem aparentes: E de súbito – mas que fome furiosa! Alucinada, levantou-se, desamarrou a pequena trouxa, tirou um pedaço de pão com manteiga ressecada que guardava secretamente há dois dias. Comeu o pão como um rato, arranhando até o sangue os lugares da boca onde só havia gengiva. E com a comida, cada vez mais se reanimava. (Lispector, pp. 32) A narração, além de se misturar com as sensações da personagem para evidenciá-las, denuncia o tom em que as descrições são feitas sugerindo uma ideia de animalização, ou seja, a perda de suas características de modo a aproximá-la a um ser não-humano. No seguinte trecho, sem nenhum pesar, Mocinha é comparada a um rato devido a maneira em que se alimenta, criando um paralelo com sua descrição inicial nos primeiros parágrafos do conto: No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. (Lispector, pp. 29) Nesse momento, o foco narrativo constrói uma imagem de Mocinha a partir da maneira em ela é enxergada dentro da própria trama, isto é, do ponto de vista das pessoas com as quais convive. A descrição física da personagem provoca, aqui, no leitor uma sensação angustiante ao construir a imagem da idosa carecendo de cuidados e atenções, e abandonada junto a migalhas e restos de comida, recurso esse também recorrente na obra de Clarice; o uso da sensorialidade para a construção de imagens, utilizando-se da descrição de cheiros, toques e sensações.[footnoteRef:2] Nesse sentido, todo esse cenário nos é aqui exposto para transmitir o olhar com repulsa por parte dos demais personagens, fazendo com que os próprios leitores consigam sentir as nuances de aflição e angústia ao presenciar a cena, sendo esse efeito criado pela narração que nos coloca diante dos atos e sensações da personagem descritos de uma forma completamente desagradável e não enfeitada. Ao termino do conto, a principal dúvida que nos surge, e que é fundamental para explorar os aspectos emocionais e sociais presentes na obra de Clarice, é: depois de tudo que se passou, qual o lugar de Mocinha no mundo? [2: Comentários feitos em aula] Sobre “A Procura de uma Dignidade” Paralelamente, cabe comentar também um pouco acerca de outra narrativa da autora que apresenta elementos em comum e pode ajudar na compreensão das ideias aqui trazidas. Em “A Procura de uma Dignidade”[footnoteRef:3] nos é narrado sobre a Sra. Jorge B. Xavier, uma personagem que, assim comoMocinha, é uma mulher idosa que apresenta um estado de desorientação que advém de sua subjetividade e impressões do mundo externo. No início do conto, a Sra. Xavier se percebe perdida nos labirintos subterrâneos do estádio do Maracanã e tenta de todas as formas buscar uma saída, pois havia entrado lá por engano. Por mais que possa parecer uma cena banal, a aflitiva situação da personagem além de se assemelhar a um pesadelo, devido ao desespero diante da impossibilidade de encontrar uma saída e deixar o local, carrega também alguns simbolismos que dialogam com as questões da subjetividade feminina características da obra de Clarice. De acordo com a análise de Gomes[footnoteRef:4], os elementos presentes no conto remetem e simbolizam a ideia de masculinidade, e a narrativa, por sua vez, se constrói a partir da maneira em que a personagem se relaciona com o ambiente e esses elementos. Após, enfim, conseguir escapar do vasto e vazio estádio de futebol, a Sra. Xavier, ao retornar para sua casa, percebe-se novamente perdida pelas ruas da cidade ao entrar no carro de um taxista – um homem – e se mostrar incapaz de explicar para onde deseja ir. Ao chegar em casa, se depara com a ausência de seu marido, que partira para uma viagem, e se vê novamente em um estado de desorientação. No entanto, essa cena destaca-se do início por apresentar uma espécie de despertar da sensualidade no momento em que a senhora estranha o próprio corpo, ao perceber-se nua em seu quarto, e ver-se ainda capaz de desempenhar desejo sexual. O conto, por fim, termina com a personagem debruçada sobre a pia do banheiro como se estivesse vomitando enquanto grita algumas palavras: [3: “Onde Estivestes de Noite”, Clarice Lispector] [4: “Errâncias, Labirintos e Mistérios”, Renato Cordeiro Gomes] Foi então que a Sra. Jorge B. Xavier bruscamente dobrou-se sobre a pia como se fosse vomitar as vísceras e interrompeu sua vida com uma mudez estraçalhante: tem! que! haver! uma! porta! de saííííííída! (Lispector, pp. 20) Visto isso, portanto, o conto nos revela, conforme exposto, três situações chave acerca do caráter da personagem: a fuga do estádio, a viagem de taxi, e a ausência do marido. O labirinto emocional em que a personagem se encontra, aparece, inicialmente, como uma labirinto físico, porém, analisando a simbologia dos elementos, a narrativa do conto nos conduz a interpretação de que este labirinto emocional é uma consequência da dominação masculina que a personagem sofre. O estádio de futebol aqui, representa, segundo Gomes, justamente essa dominação, por se tratar de um objeto associado a figura masculina e seu tamanho e poder que exerce sobre a personagem, na qual, diante dessa opressão, não vê outra solução se não buscar a qualquer custo sua libertação. Em um segundo momento, já na cena do taxi, a senhora, diante do personagem masculino, demonstra por um instante uma incapacidade de guiar o caminho, denunciando uma inversão de papeis nas relações entre o masculino e o feminino que a personagem estaria acostumada e indicando uma possível falta de hábito em exercer tal tarefa por estar comumente delegada aos homens, e não a ela própria. Por fim, na cena do quarto, a senhora mais uma vez se vê no estado de desorientação mas dessa vez por perceber sua libido na ausência de seu marido, isto é, consequência de perceber-se pela primeira vez como dona de seu próprio desejo, e não como se esse fosse um objeto de satisfação alheia, mas unicamente seu. Clarice e o feminino Conforme constatado, os dois contos trazidos aqui dialogam entre si por abordarem questões semelhantes; ambos apresentam narrativas que giram em torno de mulheres mais velhas que se percebem, de alguma forma, alheias ao mundo onde vivem, sendo isso um efeito causado pela estrutura social na qual estão inseridas. Enquanto Mocinha, como já dito, é referida por nomes que rementem a idade, como se esse fator fosse algo determinante para sua ter sua dignidade enquanto pessoa ou a reduzi-la com inferioridade, em relação a protagonista de “A Procura de uma Dignidade”, em nenhum momento chegamos sequer a conhecer seu verdadeiro nome, estando completamente associada a seu marido, por meio do “nome de casada” passando a sensação de uma ausência de identidade própria que independa da figura masculina. Ao relacionar os dois contos, é possível até mesmo imaginar que Mocinha pode vir a representar o futuro que se aproxima da Sra. Jorge B. Xavier, ambas compartilhando o mesmo destino. Ainda nesse sentido, cabe citar também as ideias de Peixoto acerca dessa temática, visto que “A psicanálise nos diz que a família impõe o próprio gênero” [footnoteRef:5]. Isso significa que os papeis retratos na obra como um todo, tanto homens quanto mulheres, advém da estrutura familiar que os molda dessa maneira para atender as demandas do patriarcado. Gotlib[footnoteRef:6] reforça essa ideia ao expor as protagonistas de “Laços de Família” como mulheres presas a rotina dos afazeres domésticos sem uma possibilidade de libertação, à medida que as narrações transmitem o estado de espirito das personagem que tiveram seus sonhos e desejos alienados em nome da vida doméstica ambientada nos anos 50, mas, tal qual Mocinha, sem perder a esperança de uma perspectiva feliz. Em contos como “Amor” ou “A Imitação da Rosa”[footnoteRef:7], as respectivas protagonistas, Ana e Laura, são exemplos nítidos dessa estrutura, pois ambas são esposas que cuidam do lar, enquanto seus maridos trabalham fora, e que são apresentadas em uma imersão tão profunda nessa rotina que o momento de virada das narrativas se dá no exato momento em que as personagens tomam consciência de sua posição nessa dinâmica. Ana vive seu estado de graça no jardim botânico ao contemplar a possibilidade de não ser intrinsicamente uma engrenagem do sistema patriarcal, enquanto Laura vive um longo monologo interior diante da possibilidade de possuir para si as flores permitindo-se pensar em si própria com prioridade, pelo menos uma vez, e satisfazendo seus desejos reprimidos pela rotina. [5: “Ficções Apaixonadas”, Marta Peixoto. Pp. 76.] [6: “Os difíceis laços de família”, Nádia Battella Gotlib.] [7: “Laços de Família”, Clarice Lispector.] Essa dinâmica aqui exposta, dialoga diretamente com o drama psicológico da Sra. Jorge B. Xavier, pois a personagem encontra-se num estado de desorientação tão mais elevado, devido ao maior tempo de vida em passou dentro desse aprisionamento, que nos indica que este labirinto emocional, em que todas as personagens citadas se encontram, é a própria estrutura patriarcal e a dominação masculina. A Sra. Xavier, neste contexto, aparece como um intermediário entre extremos; Enquanto em “Laços de Família” as mulheres mais jovens começam a questionar suas posições, em “O Grande Passeio” a mulher já idosa é retratada já no final da vida retratando o desfecho após todos os anos de opressão. Voltando agora para a personagem Mocinha, sua história, em contrapartida das demais, nos levanta uma importante questão: qual o seu papel depois que cumpre sua função como mulher no patriarcado? A personagem idosa é, em diversos momentos, colocada de lado e ignorada, de uma forma totalmente desumanizada, tal qual um objeto que apenas atrapalha e que é um fardo a aqueles para quem demanda atenção. Mocinha nos apresenta uma perspectiva posterior a essa dinâmica, pois, a senhora, não apenas foi mais uma vítima como as demais personagens, mas encontra-se agora no estágio final dessa dominação em que é simplesmente descartada pela sociedade por não cumprir mais sua função social imposta pelo patriarcado. Conforme foi dito, Mocinha, apesar de tudo, ainda busca esperançosamente seu lugar no mundo mesmo que tenha sido renegado a ela. O tal grande passeio, que dá nome ao conto, alude a esse sentimento de busca pelo lugar de pertencimento onde ela encontraria a felicidade, isto é, o mesmo sentimento que acomete a Sra. Xavier, porém encarado com um maior otimismo, o que não anula a ideia de que todas essas personagens buscam um objetivoem comum, ainda que cada uma de sua forma: a libertação da desorientação emocional causada pela posição social opressiva em que elas ocupam. A fuga do labirinto subjetivo é retratada na obra não apenas como uma fuga física e literal, mas está presente em pequenos atos, como a ânsia por mudar-se de cidade para viver um recomeço, o explorar da sexualidade, a tomada de controle do próprio destino e a rejeição a dependência emocional, ou até mesmo o ato de refletir sobre a própria vida e questionar e desafiar as amarras sociais com os recursos disponíveis. Considerações finais Ainda que Clarice Lispector não tenha se declarado de fato uma autora feminista, mas uma autora feminina[footnoteRef:8], fica claro, ao concluir essa análise, que os temas abordados em sua obra permitem uma leitura com enfoque mais social. O principal aspecto, e o mais característico de sua produção literária, forma-se a parir da detalhada focalização para o interior dos personagens a fim de explorar seus mais profundos e inconscientes sentimentos e tentar compreender sua subjetividade enquanto indivíduos que ocupam uma posição no mundo. [8: Comentários feitos em aula.] No entanto, ainda que esse intimismo seja a mais notável marca estilística, de nenhuma forma a questão social abordada nas obras fica reduzida a um segundo plano. Clarice, a partir disso, consegue criar uma narração que simultaneamente dialoga com o intimo e o social, como dois elementos que se complementam e justificam um ao outro. A questão feminina, apresentada e desenvolvida aqui, trazem à tona esses dois elementos primordiais ao mesclar tanto as impressões de mundo e sociedade da própria autora, quanto suas vivencias pessoais que se refletem em sua literatura, convidando, assim, o leitor a embarcar no desbravamento na dinâmica psíquica humana dentro das relações sociais e laços familiares. Referências bibliográficas GOMES, Renato Cordeiro. “Errâncias, Labirintos e Mistérios”, in “Onde Estivestes de Noite” - Clarice Lispector. Francisco Alves Editora. Rio de Janeiro, 1980. GOTLIB, Nádia Battella .“Os difíceis laços de família”. in Cadernos de pesquisa. Fundação Carlos Chagas, n. 91, São Paulo, Nov. de 1994.nnb LISPECTOR, Clarice. “Felicidade Clandestina”. Rocco. Rio de Janeiro, 2009. “Laços de Família”. Rocco. Rio de Janeiro, 2009. ”Onde Estivestes de Noite”. Francisco Alves Editora. Rio de Janeiro, 1980. PEIXOTO, Marta. “Poder feminino em Laços de Família”, in “Ficções Apaixonadas”. Trad. de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2004.