Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

A CORRUPÇÃO 
MORAL DA 
HUMANIDADE 
 
A pintura na capa deste e-book é de 
Benjamin West e retrata a expulsão de Adão e Eva 
do Paraíso conforme a revelação registrada por 
Moisés em Gênesis. Alguns detalhes na pintura vão 
além do relato escriturístico, mas ainda assim ela 
preserva a questão crucial: o pecado causou a 
ruptura no relacionamento entre Deus e o ser 
humano. A doutrina do pecado original relata que os 
efeitos do pecado não ficaram restritos ao casal no 
Éden, mas atingiu a toda humanidade. Herdamos 
desde o nascimento a natureza corrupta do primeiro 
Adão e, por conseguinte, também somos 
considerados culpados diante do tribunal divino. E 
antes que alguém replique que isso é injustiça e que 
tal doutrina é uma invenção de Agostinho de 
Hipona, argumentamos que podemos estar seguros 
de sua base bíblica. Sendo assim, veremos como 
essa doutrina está presente na Bíblia e depois como 
ela foi reafirmada pela Reforma protestante, além de 
definir com maior precisão o que vem a ser pecado 
original e depravação total. 
DEFINIÇÕES E BASE BÍBLICA 
O Dr. R. C. Sproul (1939-2017) define 
pecado original da seguinte forma: “Pecado original 
não indica primariamente o primeiro ou original 
pecado cometido por Adão e Eva. O pecado original 
refere-se ao resultado do primeiro pecado – a 
corrupção da raça humana. Pecado original refere-se 
à condição caída em que nascemos”.
1
 O teólogo da 
velha Princeton, A. A. Hodge, por sua vez escreve: 
A expressão pecado original é 
empregada às vezes no sentido de 
incluir tanto a imputação judicial da 
 
1
 SPROUL, R. C. O Pecado Original. Monergismo. Disponivel 
em: 
<http://www.monergismo.com/textos/pecado_original/o-
pecado-original_sproul.pdf>. Acesso em: 7 janeiro 2018. 
 
culpa do pecado de Adão, como 
também a corrupção moral 
hereditária, que é uma das 
consequências dessa imputação. Mais 
restritamente, porém, a expressão 
pecado original designa somente a 
corrupção moral hereditária comum a 
todos os homens desde o seu 
nascimento.
2
 
 
Charles Hodge, também um teólogo 
princetoniano e pai de A. A. Hodge, afirmou: “Os 
efeitos do pecado de Adão sobre sua posteridade são 
declarados em nossos padrões como: (1.) A culpa de 
seu primeiro pecado. (2.) A perda da retidão 
original. (3.) A corrupção de toda a nossa natureza, a 
qual (isto é, a corrupção) recebe comumente o nome 
de pecado original”.
3
 O teólogo holandês Herman 
Bavinck escreveu: “Na verdade, por pecado original 
ou hereditário, só se entende a depravação moral que 
 
2
 HODGE, A. A. Esboços de Teologia. São Paulo: PES, 2001. 445 
p. 
 
3
 HODGE, C. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. 
652 p. 
 
as pessoas levam consigo desde o momento de sua 
concepção e nascimento, proveniente de seus pais 
pecaminosos”.
4
 
Podemos perceber nas citações acima que o 
pecado original é ensinado com base na revelação 
divina que narra em Gênesis 3 a Queda da 
humanidade e a propagação hereditária da corrupção 
moral a partir de Adão e Eva. Apesar de Gênesis 3 
não falar do pecado no Éden em termos de herança 
das gerações futuras, Romanos 5 estabelece os 
contornos dessa doutrina. 
No capítulo 5 da epístola de Paulo aos 
Romanos encontramos dois representantes federais 
de uma raça: Adão é o cabeça federal da raça 
humana e Cristo é o cabeça federal da raça eleita. 
Como cabeça federal da humanidade, Adão foi 
criado originalmente justo: “Eis aqui, o que tão-
somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém 
 
4
 BAVINCK, H. Dogmática Reformada. São Paulo: Cultura 
Cristã, v. III, 2012. 104 p. 
 
eles buscaram muitas astúcias” (Ec 7:29). Tendo 
sido criado justo, Adão tinha a liberdade volitiva 
para escolher o bem ou mal. A escolha que ele 
fizesse como cabeça federal afetaria todos os seus 
descendentes. Adão foi colocado nessa posição de 
representante da humanidade pelo próprio Deus. 
Como nosso representante Adão caiu do seu estado 
de justiça original e nós caímos juntamente com ele. 
Ou seja, nós herdamos a corrupção moral de Adão, 
não fisicamente, mas por imputação. Deus, o 
soberano Juiz, imputa o pecado de nosso 
representante a nós. Imputar é creditar algo na conta 
de uma pessoa: “Concluindo, da mesma forma como 
o pecado ingressou no mundo por meio de um 
homem, e pelo pecado a morte, assim também a 
morte foi legada a todos os seres humanos, 
porquanto todos pecaram” (Rm 5:12). O paralelismo 
nessa passagem indica que: 1) por um homem 
(Adão) o pecado entrou no mundo; 2) a 
consequência do pecado (a morte) foi imputada a 
todos os homens. É importante ressaltar que quando 
Paulo fala da morte “passando” a todos os homens 
ele introduz a frase com a expressão: “assim 
também” (no grego, καὶ οὕτως). Essa expressão 
indica que a operação da “morte” é análoga a de 
algo já mencionado pelo apóstolo. E o que ele 
menciona anteriormente é o pecado que entrou no 
mundo. Para deixar mais evidente o ensino paulino 
aqui podemos destacar que: a) por meio de Adão o 
pecado foi legado a todos os homens; b) assim 
também a morte foi legada a todos os homens, isto é, 
pela representatividade de Adão. 
Ainda falando da solidariedade da raça 
humana com seu representante federal, Paulo 
escreve: “Pois assim como por uma só ofensa veio o 
juízo sobre todos os homens para condenação...” 
(Rm 5:18). Dessa maneira, Deus estabeleceu Adão 
como cabeça da humanidade e quando ele caiu a 
humanidade caiu. Essa representação é federal, o 
que significa dizer que as consequências da Queda 
de Adão nos atingem não em virtude de nossa 
relação física com ele, mas em virtude de nossa 
relação pactual. Herdamos sua corrupção moral não 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/rm/5/18
por geração física, mas por imputação legal. O 
pecado original é desde a concepção, porém não por 
causa da concepção. Isso significa que a imputação 
do pecado de Adão ocorre num ato judicial perante o 
tribunal divino e não em um ato sexual, como se o 
sexo em si fosse algo pecaminoso. 
Além de Romanos 5:12-19, podemos citar 
outros textos que fundamentam essa doutrina: 
 “Porque assim como a morte veio 
por um homem, também a 
ressurreição dos mortos veio por um 
homem. Porque, assim como todos 
morrem em Adão, assim também 
todos serão vivificados em Cristo” 
(1 Co 15:21,22). 
 “Reconheço que sou pecador desde 
o meu nascimento. Sim, desde que 
me concebeu minha mãe” (Sl 51:5). 
 “Desde o nascimento se rebelaram 
os ímpios e se desviaram do 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/1co/15/21,22
Caminho certo todos aqueles que 
vivem mentindo” (Sl 58:3) 
A doutrina da Depravação Total é uma 
implicação direta da doutrina do Pecado Original. 
Tendo explicado a definição de pecado original 
como a herança proveniente de Adão, por 
imputação, de uma natureza moralmente corrompida 
e tendo demonstrado sua fundamentação 
escriturística, vejamos a definição de Depravação 
Total e sua base bíblica. 
 A expressão “depravação total” (em inglês, 
total depravity) pode ser enganosa e, por isso, 
precisamos entender corretamente aquilo que é 
ensinado por ela. Por essa expressão alguns podem 
entender que se ensina que o ser humano, por causa 
do pecado, é tão mal e corrupto quanto poderia ser, 
sendo incapaz de praticar qualquer ato cuja 
aparência externa é de bondade ou de justiça. 
Todavia, não é esse o conteúdo exato da doutrina. 
Antes, para esboçar corretamente o que se quer dizer 
por “depravação total” faremos um breve esboço da 
antropologia bíblica. 
O termo “antropologia” (gr. ἄνθρωπος, 
anthropos, “homem” e λόγος, logos, “razão”, 
“pensamento”, “discurso”, “estudo”) diz respeito, 
dentre outras coisas, à investigação sobre a natureza 
do ser humano. De acordo comas Escrituras, o ser 
humano é uma unidade psicossomática, ou seja, o 
ser humano é formado por uma parte imaterial 
(denominada alma, espírito, coração, mente, etc.) e 
por uma parte material formada a partir do barro 
(denominada corpo, carne, etc.). Existe na parte 
imaterial do homem, isto é, em sua alma o que é 
frequentemente chamado de faculdades. Apesar de 
haver grande disputa filosófica sobre a quantidade 
de faculdades que há na alma, iremos endossar aqui 
a divisão do reformador João Calvino, pois cremos 
que ela está de acordo com as Escrituras, não 
obstante contrariar a visão de muitos filósofos. Não 
iremos aprofundar essa questão aqui, pois ela não é 
o foco de nosso estudo, embora se relacione com a 
questão. 
Segundo João Calvino as faculdades do 
homem são: 1) inteligência; 2) vontade. Ainda de 
acordo com o reformador genebrino: “A inteligência 
é para discernir entre todas as coisas que nos são 
propostas, e julgar o que devemos aprovar ou 
condenar. A função da vontade é escolher e seguir o 
que o entendimento tiver julgado bom, e, ao 
contrário, rejeitar e evitar o que tiver reprovado”.
5
 
Enquanto a razão é o guia da volição, ambas (razão e 
volição) devem, por sua vez, governar o corpo. 
Tendo feito esse breve resumo sobre a 
antropologia bíblica, agora podemos definir mais 
claramente o que queremos dizer por depravação 
total. Com essa doutrina afirmamos que o pecado 
original, herdado de nossos pais por imputação, afeta 
tanto nossa razão como nossa volição. Por 
 
5
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 2006. 
93 p. Edição Especial. 
 
depravação queremos significar a corrupção moral e 
pelo termo “total” expressamos a abrangência dessa 
corrupção no ser humano. O pecado corrompeu não 
somente a razão, deixando a vontade intacta, como 
se o homem ainda tivesse livre-arbítrio, isto é, a 
capacidade de se inclinar em sua volição tanto para o 
bem como para o mal. Também a corrupção não 
afetou apenas o livre-arbítrio, deixando incólume a 
razão, como se o homem pudesse discernir sozinho o 
conselho e o plano de Deus, independente da 
revelação divina, sendo apenas incapaz de escolher 
seguir por esse caminho. Antes, a corrupção afetou 
todas as faculdades do ser humano, deixando em 
mau funcionamento tanto sua razão como sua 
volição. Steven J. Lawson declarou: 
Toda humanidade nasce 
espiritualmente morta em 
transgressões e pecados. O homem 
caído é totalmente depravado. O 
pecado afetou radicalmente o homem 
total. Quer dizer, cada parte do 
homem – sua mente, suas emoções, e 
sua vontade – está contaminada pelo 
pecado. Sua mente está obscurecida, o 
que o torna incapaz de ver a verdade 
acerca de Deus, de Cristo e de si 
próprio. Seu coração está 
contaminado, e não deseja Deus, mas, 
em vez disso, ama o seu pecado. Sua 
vontade está morta e é incapaz de 
escolher o que é certo. Praguejados 
por essa incapacidade total, os 
pecadores se acham sujeitos ao 
pecado como seus escravos, incapazes 
de mudarem e se tornarem realmente 
bons. Estando espiritualmente morto 
em seu pecado, o homem nem sequer 
consegue buscar o que é certo e justo.
6
 
A doutrina da depravação total, portanto, 
diz respeito à corrupção moral que afeta todas as 
faculdades do ser humano. Essa doutrina não diz que 
o ser humano é tão mal quanto poderia ser, mas que 
o pecado afetou sua natureza por inteiro. Tendo 
definido a doutrina, vejamos sua base bíblica. 
A passagem de Gênesis 3 narra a Queda da 
humanidade de seu estado de justiça original e de 
seu relacionamento correto com o Criador. O 
mandamento de Deus era para que Adão e Eva não 
 
6
 LAWSON, S. J. Fundamentos da Graça: longa linha de vultos 
piedosos. São José dos Campos: Fiel, 2012. 48 p. 
 
comessem do fruto da árvore do conhecimento do 
bem e do mal. A sanção para a desobediência a esse 
mandamento era a morte. Ainda assim, quando 
tentados pela Serpente, Adão e Eva comeram do 
fruto que lhes fora proibido comer. A morte física 
não foi uma consequência imediata dessa 
desobediência, porém a morte espiritual ocorreu no 
dia em que eles comeram. Por morte espiritual 
queremos dizer a separação do Criador, bem como a 
corrupção das faculdades discutidas acima. Isso não 
significa que Adão e Eva e seus descendentes 
perderam a alma, assim como suas faculdades. Eles 
ainda eram constituídos de corpo e alma, sendo as 
faculdades da alma o intelecto e a volição. No 
entanto, o relacionamento correto que eles tinham 
com o Criador foi rompido e as faculdades da alma 
foram manchadas. 
Alguns dos pais da igreja falaram do 
orgulho como a raiz de todos os pecados. O monge 
agostiniano Martinho Lutero identificou o motivo 
básico desse ato pecaminoso como a incredulidade. 
Adão e Eva duvidaram da Palavra de Deus e isso foi 
a ruína da humanidade. O teólogo reformado 
François Turretini acompanha Lutero, mostrando 
que a incredulidade antecede o orgulho, mas 
insistindo que ambos caminham juntos: 
Mas a incredulidade não podia ter 
lugar no homem, a menos que antes, 
por irreflexão, ele cessasse de levar 
em conta a proibição de Deus, sua 
verdade e bondade. Se ele tivesse 
continuamente direcionado seriamente 
sua mente para ela (especialmente no 
momento da tentação), nunca poderia 
ter sido demovido de sua fé nem dado 
ouvidos ao tentador. Por isso, pois, 
surgiu primeiro a incredulidade ou 
desconfiança. Por isso o homem não 
exerceu fé na palavra de Deus, à qual 
ele estava obrigado, mas a princípio 
livrou-se dela, pondo-a em dúvida, e 
em seguida a negou, deixando de crer 
que o fruto lhe era proibido ou que 
morreria.
7
 
Aqui Turretini demonstra com clareza que a 
origem do pecado reside na interioridade e os atos 
 
7
 TURRETINI, F. Compêndio de Teologia Apologética. São 
Paulo: Cultura Cristã, v. I, 2011. 752 p. 
 
pecaminosos físicos são precedidos por atos 
pecaminosos no pensamento. Esse ensino está de 
acordo com as palavras de Jesus: “Porque do 
coração procedem os maus pensamentos, mortes, 
adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e 
blasfêmias” (Mt 15:19). O coração (gr. Καρδία) nas 
Escrituras é o centro interior da vida do ser humano: 
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu 
coração, porque dele procedem as fontes da vida” 
(Pv 4:23). Ele é a sede da vida espiritual e a fonte 
dos pensamentos, das afeições, dos propósitos, etc. 
Ainda na terminologia bíblica o coração pode ser 
chamado de alma, mente, espírito. Esse coração é, 
segundo as Escrituras, tremendamente corrupto: 
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, 
e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” 
(Jr 17:9). Estando o ser humano contaminado em sua 
raiz ele não pode dar bons frutos. 
Paulo descreve esse estado de 
pecaminosidade da seguinte forma: 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/15/19
https://www.bibliaonline.com.br/acf/pv/4/23
 Em que noutro tempo andastes 
segundo o curso deste mundo, 
segundo o príncipe das potestades do 
ar, do espírito que agora opera nos 
filhos da desobediência; Entre os 
quais todos nós também antes 
andávamos nos desejos da nossa 
carne, fazendo a vontade da carne e 
dos pensamentos; e éramos por 
natureza filhos da ira, como os outros 
também (Ef 2:2-3). 
 
O termo grego σάρξ (sarx = carne) pode 
descrever a parte material do homem, mas também 
pode ser usado como um termo que expressa a 
disposição moral que permanece ativa na escravidão 
ao pecado. Quando usado da primeira maneira, a 
carne ou o corpo não carrega nenhuma conotação 
má. O cristianismo não pode ser confundido com 
maniqueísmo ou com gnosticismo. Essas duas 
filosofias pagãs identificam o mal com a 
materialidade. Na visão gnóstica a matériaé 
inerentemente má. Não é essa a cosmovisão cristã. 
Se a matéria fosse inerentemente má, a Bíblia não 
ensinaria a ressurreição do corpo. No entanto, o 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/ef/2/2,3
termo “carne” pode aparecer na Bíblia com o 
segundo sentido mencionado acima. Se essa for a 
conotação, então geralmente estará associada ao 
pecado. Paulo diz que, atuando sob a depravação 
total, nós andávamos nos desejos da carne, fazendo a 
vontade da carne e dos pensamentos. Descrevendo 
em outro lugar nossa inabilidade moral, Paulo 
afirma: 
Porque os que se inclinam para a 
carne cogitam das coisas da carne; 
mas os que se inclinam para o 
Espírito, das coisas do Espírito. 
Porque o pendor da carne dá para a 
morte, mas o do Espírito, para a vida e 
paz. Por isso, o pendor da carne é 
inimizade contra Deus, pois não está 
sujeito à lei de Deus, nem mesmo 
pode estar. Portanto, os que estão na 
carne não podem agradar a Deus (Rm 
8:5-8). 
 
Quando o apóstolo diz que os que andam 
segundo a carne não podem estar sujeito à lei de 
Deus ele não está falando de uma barreira exterior 
ao homem que impede aqueles que tentam se 
aproximar de Deus de alcançá-lo. Na realidade, esse 
“não pode” expressa a inabilidade moral que flui do 
interior do ser humano. Essa corrupção faz com que 
o homem se incline para as coisas da carne e o 
impede de se sujeitar à lei de Deus. Por isso 
ninguém será justificado por obras da lei. 
Cogitar das coisas da carne é fazer do 
pecado objeto do pensamento. Pudemos ver que o 
intelecto dirige a volição. Tendo feito do pecado 
objeto do pensamento, o intelecto pode dirigir a 
vontade na direção da carne. Essa direção, contudo, 
é diametralmente oposta àquela do caminho de 
Deus. Se inclinar em direção à carne é se separar 
cada vez mais de Deus. E a separação de Deus já é 
um tipo de morte: “no dia em que dela comeres, 
certamente morrerás” (Gn 2:17). Por causa disso, 
Paulo diz que o pendor da carne, ou seja, a 
inclinação em direção ao pecado dá para a morte. 
Esse não é o único lugar em que Paulo fala 
da inclinação para o pecado e da consequente 
separação do Criador como morte. Quando escreveu 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/2/17
aos Efésios ele disse: “E vos vivificou, estando vós 
mortos em delitos e pecados” (Ef 2:1). E uma vez 
que “toda Escritura é divinamente inspirada” (2Tm 
3:16) não há antítese entre o ensino de Paulo e o 
ensino de Jesus como alguns querem propor. Jesus 
também fala dos pecadores como estando mortos: 
“Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa os 
mortos sepultar os seus mortos” (Mt 8:22). 
Uma das formas em que essa morte se 
expressa, conforme vimos, é a incredulidade. A 
incredulidade é primariamente concebida no 
intelecto. Turretini demonstrou isso quando disse 
que a incredulidade é precedida por irreflexão. A 
irreflexão, assim como a reflexão, tem seu lugar na 
mente. Quando a mente deixa de considerar a 
Palavra de Deus e em seguida passa a negá-la, a 
incredulidade começa a tomar forma. Essa 
incredulidade causa uma ruptura no relacionamento 
correto com Deus, pois o homem afastado da 
Palavra se inclinará para as coisas da carne. Paulo 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/ef/2/1
diz: “... tudo o que não provém da fé é pecado” (Rm 
14:23). 
Dentre as consequências dessa ruptura de 
relacionamento entre a criatura e o Criador está a 
inimizade. A criatura começa a reger sua vida de 
uma maneira que o Criador desaprova. Essa maneira 
de conduzir a vida pode ser descrita como 
transgressão da lei. A lei é o padrão para a 
conformidade da mente, da vontade e do 
comportamento corporal. O pecado, portanto, é a 
transgressão voluntária ou qualquer falta de 
conformidade à lei. Embora muitos possam estar 
familiarizados com a primeira definição, a segunda é 
tão importante quanto à primeira. Se restringirmos a 
definição de pecado à transgressão voluntária da lei 
então a doutrina bíblica do pecado original será 
esmaecida. Agora a segunda definição é mais 
abrangente, podendo compreender a primeira. Por 
isso usaremos a segunda definição doravante. 
A falta de conformidade à lei de Deus 
suscita a Sua ira, pois, nas palavras do profeta, “Tu 
és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a 
opressão não podes contemplar” (Hc 1:13). Sendo 
Deus eternamente santo e justo, o desvio de Seu 
padrão moral não pode ser visto com indiferença. 
Ele se ira perante cada injustiça cometida na terra. O 
cálice do Seu furor se enche diante da maldade da 
humanidade: “E viu o Senhor que a maldade do 
homem se multiplicara sobre a terra e que toda a 
imaginação dos pensamentos de seu coração era só 
má continuamente” (Gn 6:5). Essa maldade contínua 
do ser humano, fruto da incredulidade, coloca o ser 
humano em oposição a Deus. É isso que a Bíblia 
chama de inimizade: “Adúlteros, não sabeis que a 
amizade do mundo é inimizade contra Deus? 
Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, 
constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4:4). A amizade 
brota do amor e da confiança. Não é possível haver 
amizade aonde a desconfiança predomina e o amor 
está ausente. Ser amigo do mundo é confiar em suas 
promessas e amar os seus prazeres. No entanto, 
esses prazeres são fugazes e tais promessas são 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/hc/1/13
https://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/6/5
https://www.bibliaonline.com.br/tb/tg/4/4
falaciosas. A pessoa que é amiga do mundo perde o 
prazer verdadeiro e duradouro: 
Não ameis o mundo, nem as coisas 
que há no mundo. Se alguém ama o 
mundo, o amor do Pai não está nele; 
porque tudo o que há no mundo, a 
cobiça da carne, a cobiça dos olhos e 
a vaidade da vida, não vem do Pai, 
mas sim do mundo. Ora o mundo 
passa e a sua cobiça; mas aquele que 
faz a vontade de Deus, permanece 
para sempre. (1 João 2:15-17). 
 
O amor, sendo uma afeição que expressa 
apreço e valor por seu objeto, é um ato da volição. A 
volição, contudo, é guiada pelo intelecto. Estando o 
intelecto corrompido pelo pecado, ele fará do mundo 
e não do Criador seu objeto de consideração, 
guiando a vontade a escolher o mundo e a rejeitar o 
Criador. Esse é o pendor da carne, o estado de morte 
espiritual em que jaz o ser humano após a Queda. 
Suas afeições estão desordenadas. 
O estado caótico das afeições faz com que o 
ser humano inverta seus valores e suas prioridades. 
https://www.bibliaonline.com.br/tb/1jo/2/15-17
Paulo fala acerca disso em Romanos 1: “Porquanto, 
tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como 
Deus, nem lhe deram graças, antes em seus 
discursos se desvaneceram, e o seu coração 
insensato se obscureceu” (v. 21). O estado de 
pecaminosidade é descrito pelo apóstolo como 
disposição insensata e condição de loucura. 
Desprezar Jesus Cristo é insanidade mental. Essa 
insensatez leva o homem à idolatria: “E mudaram a 
glória do Deus incorruptível em semelhança da 
imagem de homem corruptível, e de aves, e de 
quadrúpedes, e de répteis” (Rm 1:23). É importante 
notar que a idolatria não é apenas adorar imagens ao 
invés de dar glórias somente a Deus. Antes, idolatria 
é colocar qualquer coisa no lugar do Criador: “Pois 
mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram 
e serviram mais a criatura do que o Criador, que é 
bendito eternamente. Amém” (Rm 1:25). 
Novamente, a Bíblia narra o movimento do 
pecado do interior para o exterior. Os homens, sendo 
totalmente depravados, transformaram a verdade de 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/rm/1/23
https://www.bibliaonline.com.br/acf/rm/1/25
Deus em mentira. Esse é um ato pecaminoso do 
intelecto. Quando esse ato pecaminoso foi cometido 
na mente, eles prosseguiram e honraram mais a 
criatura do que o Criador. Todo pecado físico é 
precedido por um pecado na mente e ainda que 
muitos pecados não se expressem na dimensão física 
isso não significa que a pessoa é sem pecado, pois o 
que ela articula em seu coraçãotambém é 
considerado pecado por Deus: “Vocês ouviram o 
que foi dito: ‘Não adulterarás’. 
Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma 
mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela 
no seu coração (Mt 5:27-28). Aqui Jesus diz que o 
adultério não ocorre somente na esfera física. O 
desejo impuro é um pecado cometido na mente, isto 
é, no coração. 
Essa descrição bíblica não reflete a perdição 
apenas de algumas pessoas. Na verdade, a Bíblia 
descreve a situação de corrupção moral da 
humanidade como um todo, com exceção de Jesus. 
A essa realidade chamamos universalidade do 
https://www.bibliaonline.com.br/nvi/mt/5/27,28
pecado. Isso significa que toda humanidade está na 
condição de perdição e de escravidão ao pecado. 
Esse caráter universal da depravação total é relatado 
em Romanos 3:10-18: 
Como está escrito: “Não há nenhum 
justo, nem um sequer; não há 
ninguém que entenda, ninguém que 
busque a Deus. Todos se desviaram, 
tornaram-se juntamente inúteis; não 
há ninguém que faça o bem, não há 
nem um sequer”. “Suas gargantas são 
um túmulo aberto; com suas línguas 
enganam”. “Veneno de serpentes está 
em seus lábios”. “Suas bocas estão 
cheias de maldição e amargura”. 
“Seus pés são ágeis para derramar 
sangue; ruína e desgraça marcam os 
seus caminhos, e não conhecem o 
caminho da paz”. “Aos seus olhos é 
inútil temer a Deus”. 
 
As palavras “não há nenhum justo, nem um 
sequer... não há quem entenda, ninguém que busque 
a Deus” demonstram que a corrupção atingiu a 
humanidade em sua totalidade. Esse desvio no 
entendimento – não há quem entenda – tem reflexo 
nas ações: a língua enganadora, os lábios venenosos, 
os pés que se dirigem para o mal. 
Há muitas outras passagens nas Escrituras 
que estabelecem essa doutrina, mas cremos que 
essas são suficientes para esse estudo introdutório. 
Passemos agora a uma breve análise dessa doutrina 
nos escritos dos reformadores e nas Confissões. 
A REFORMA PROTESTANTE E A 
DEPRAVAÇÃO TOTAL 
Um dos textos mais evidentes de Lutero foi 
escrito na sua controvérsia com o humanista Erasmo 
de Roterdã acerca do livre-arbítrio, a saber: De 
Servo Arbitrio. Talvez seja anacronismo dar a 
alcunha pós-moderno a Erasmo, mas seu espírito é 
anti-dogmático. Isso se faz claro na abertura de seu 
texto, quando diz que não se deleita com 
“asserções”.
8
 Além disso, Erasmo parece discutir 
 
8
 ERASMO. Livre-Arbítrio e Salvação. São Paulo: Reflexão, 
2014. 64 p. 
 
esse assunto como se fosse algo trivial.
9
 Após breve 
introdução, na qual discute a presença do Espírito 
Santo e a autoridade dos concílios e dos pais da 
igreja, Erasmo fornece sua definição de “livre-
arbítrio”: “Entendemos aqui por livre escolha um 
força da vontade humana que capacita o ser humano 
a dedicar-se às coisas que levam à salvação eterna 
ou voltar as costas a ela”.
10
 Embora a definição de 
Erasmo não deixe antever sua visão sobre a graça, o 
humanista católico romano acreditava que a graça e 
a voluntas trabalhavam juntas para produzir a 
salvação (sinergismo). 
A resposta de Lutero foi um ataque 
contundente a tal visão. Para Lutero a vontade não 
poderia cooperar com a graça, pois seu estado era de 
escravidão ao pecado. Lutero retoma o ensino 
bíblico do pecado original para argumentar acerca da 
vontade cativa. Sendo o pecado uma realidade 
 
9
 Ibid, p. 77. 
 
10
 ERASMO. Livre-Arbítrio e Salvação. São Paulo: Reflexão, 
2014. 79 p. 
 
universal, o homem não pode voltar por si mesmo a 
Deus e tampouco cooperar com a graça. O poder do 
evangelho sozinho vence a ignorância do pecador e 
lhe convence da verdade (monergismo). Lutero 
afirmou: 
A conversão de qualquer pessoa 
acontece quando Deus vem até ela e 
vence-lhe a ignorância ao revelar-lhe 
a verdade do evangelho. Sem isso, 
ninguém jamais poderia ser salvo. 
Ninguém, durante toda a história 
humana, concebeu por si mesmo a 
realidade da ira de Deus, conforme ela 
nos é ensinada nas Escrituras. 
Ninguém jamais sonhou em 
estabelecer a paz com Deus por 
intermédio da vida e da obra de um 
Salvador singular, o Homem-Deus, 
Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é 
que os judeus rejeitaram a Cristo, 
apesar de todo ensino que lhes foi 
ministrado por seus profetas. Parece 
que a justiça própria alcançada por 
alguns judeus ou gentios os levou a 
deixarem de buscar a justiça divina 
através da fé, para fazerem as coisas à 
sua própria maneira. Portanto, quanto 
mais o “livre-arbítrio” se esforça, 
tanto piores tornam-se as coisas.
11
 
 
O argumento de Lutero é devastador! O ser 
humano mal consegue conceber seu estado de 
perdição, quanto mais o caminho para restabelecer a 
paz com Deus sem a graça! Ele é dependente da 
graça até mesmo para saber que há um caminho de 
reconciliação em Cristo. Ele continua seu ataque ao 
livre-arbítrio apelando para a culpabilidade universal 
da humanidade: 
Não somente são todos os homens, 
sem qualquer exceção, considerados 
culpados à vista de Deus, como 
também são escravos desse mesmo 
pecado que os torna culpados. Isso 
inclui os judeus, os quais pensavam 
que não eram escravos do pecado 
porque tinham a lei de Deus. Mas, 
visto que nem judeus nem gentios têm 
se mostrado capazes de 
desvencilharem-se dessa servidão, 
torna-se evidente que no homem não 
há poder que o capacite a praticar o 
 
11
 LUTERO, M. Nascido Escravo. 2ª. ed. São José dos Campos: 
Fiel, 2007. 20 p. 
 
bem. Esta escravidão universal ao 
pecado inclui até mesmo aqueles que 
parecem ser os melhores e mais retos. 
Não importa o grau de bondade que 
um homem possa alcançar; isso não é 
a mesma coisa que possuir 
conhecimento de Deus. O que há de 
mais admirável é sua razão e sua 
vontade, contudo, é forçoso 
reconhecer que esta mais nobre 
porção dos homens está corrompida.
12
 
 
A profundidade exegética e argumentativa 
de Lutero no debate com Erasmo pode ser explicada, 
em parte, pelo seu entendimento acerca da 
importância desse tema. Para Lutero, a questão do 
livre-arbítrio não é uma questão trivial, mas de 
magnitude vital, conforme expressa Jean-Marc 
Berthoud: 
De fato, para Erasmo, a questão da 
capacidade ou incapacidade humana 
de se salvar (i.e., a de seu “livre” ou 
“servo” arbítrio), se encontrava entre 
as questões inúteis, secundárias que 
poderíamos ignorar ou deixar de lado. 
 
12
 LUTERO, M. Nascido Escravo. 2ª. ed. São José dos Campos: 
Fiel, 2007. 21 p. 
 
Mas para Lutero tratava-se de uma 
questão relacionada à vida ou morte 
eterna; para ele era absolutamente 
capital saber se a presciência de Deus 
era contingente, isto é, dependente de 
eventos futuros variáveis, ou se era 
absoluta, necessária, imutável.
13
 
 
Para Lutero a Queda não erradicou a 
vontade, mas a tornou cativa ao pecado. A vontade 
ainda é uma faculdade da alma, mas sua inclinação é 
para os ídolos. O luterano Robert Kolb resume bem 
a visão de Lutero: “A vontade humana permanece 
ativa, mas é movida pela própria recusa de olhar 
para Deus a fim de encontrar a fonte de identidade 
fundamental e, em vez disso, busca abrigo seguro 
nas criaturas de Deus, recriadas como ídolos por 
esses pecadores”.
14
 
 
13
 BERTHOUD, J.-M. O Combate Central da Reforma. Brasília: 
Monergismo, 2017. 40 p. 
 
14
 KOLB, R.; TRUEMAN, C. R. Entre Wittenberg e Genebra. 
Brasília: Monergismo, 2017. 121 p. 
 
Na mesma linha de Lutero, João Calvino, o 
reformador de Genebra, afirma a depravação de 
nossa natureza. Ele define assim o pecado original: 
“Diremos, então, que o pecado original é uma 
corrupção e perversidade na nossa natureza, que nos 
faz culpados,primeiramente, da ira de Deus, tendo a 
seguir produzido em nós as obras que a Escritura 
chama ‘obras da carne’”.
15
 Vê-se aqui que para o 
reformador genebrino os pecados que cometemos 
são em virtude da corrupção da nossa natureza. Em 
outras palavras, pecamos porque somos pecadores 
ao invés de sermos pecadores porque pecamos. 
Após definir a expressão “pecado original” 
como a corrupção de nossa natureza, Calvino se 
propõe a analisar a questão do livre-arbítrio. Ele nota 
com perspicácia que, embora essa expressão fosse 
comumente utilizada, poucos definiam o que queria 
dizer por livre-arbítrio. Dentre esses poucos que 
apresentavam alguma definição, Calvino constatou 
 
15
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 87 p. Edição Especial. 
 
que a definição nem sempre era clara, encerrando 
ambiguidades, e nem sempre correspondia à 
verdade. 
O que queremos destacar aqui, entretanto, é 
sua concordância com Lutero acerca da escravidão 
da vontade. Em um trecho das Institutas Calvino diz: 
“Um coisa fica resolvida – que o homem não tem 
livre-arbítrio para praticar o bem, a não ser que seja 
ajudado pela graça de Deus, e pela graça espiritual 
ou especial, dada tão somente aos eleitos, mediante a 
regeneração”.
16
 Aqui Calvino fala de uma graça 
geral, que foi denominada posteriormente como 
graça comum, e de uma graça especial. A graça 
comum explica porque os homens, mesmo que não 
tenham sido regenerados, são capazes de demonstrar 
algumas atitudes moralmente boas, tais como 
honestidade, obediência civil, etc. Isso não significa 
que essa bondade moral corrobore a bondade da 
natureza humana. Antes, Calvino atribui isso à graça 
 
16
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 97 p. Edição Especial. 
 
comum de Deus. Por graça comum podemos 
entender as dádivas imerecidas que são dispensadas 
por Deus tanto a crentes como a incrédulos. A graça 
comum não é salvífica. A graça especial, por outro 
lado, é dispensada apenas aos eleitos, mediante a 
regeneração, e é, consequentemente, salvífica. 
Contudo, a parte da graça de Deus, seja a 
graça comum ou especial, Calvino diz que o homem 
é incapaz de qualquer bem em virtude de sua 
natureza corrupta. Isso pode ser reforçado com essa 
citação: 
Se a carne é tão perversa que toda a 
sua inclinação a leva a exercer 
“inimizade contra Deus”; se ela não 
pode consentir com a justiça divina; 
em suma, se ela não pode produzir 
coisa alguma senão morte, agora, 
sendo pressuposto que na natureza 
humana não há outra coisa que não 
seja carne, como poderemos tirar dela 
sequer uma gota de bem?
17
 
 
 
17
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 117 p. Edição Especial. 
 
Quando fala de nossa natureza como 
marcada pela “carne” Calvino não fala do corpo, 
mas da própria alma no estado de perdição: “... a 
alma, submersa como está no abismo da iniquidade, 
não somente é defeituosa e má, mas também é vazia 
de todo bem”.
18
 Embora já tenhamos alertado, faz-se 
mister ressaltar que a doutrina aqui exposta afirma 
que o pecado afeta todas as faculdades da alma e 
esse é o sentido de total em “depravação total”. 
Todavia, isso não significa que a natureza humana 
seja “totalmente” má, incapaz até mesmo de 
bondades naturais. O próprio Jesus nos impede de 
concluir isso: “Se vós, pois, que sois maus, sabeis 
dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso 
Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem” 
(Mt 7:11). O que Jesus diz é que, a despeito da 
natureza do ser humano, ele ainda é capaz de dar 
boas dádivas aos seus filhos. Se quisermos ir 
adiante, lembremos que o apóstolo Tiago identificou 
 
18
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 119 p. Edição Especial. 
 
https://www.bibliaonline.com.br/vc/mt/7/11
a origem de toda boa dádiva no Pai das luzes (Tg 
1:17). Ou seja, mesmo os pais que têm uma natureza 
má só dão boas dádivas aos seus filhos por causa da 
graça comum de Deus. 
Dissemos acima que a graça comum pode 
ser entendida como as dádivas imerecidas que são 
dispensadas por Deus tantos aos incrédulos quanto 
aos crentes (veja Mt 5:45). Essa definição está 
incompleta, pois demonstra apenas os aspectos 
positivos da graça comum. Há um aspecto negativo 
dessa graça deveras relevante, isto é, a restrição do 
pecado. Isso explica porque o ser humano não 
demonstra nessa vida todo o potencial de sua 
maldade. Calvino afirmou: “Cabe-nos, porém, 
considerar que, na corrupção universal de que 
falamos, a graça de Deus tem seu lugar, não para 
corrigir a perversidade da natureza, mas para 
reprimi-la e restringi-la no íntimo”.
19
 
 
19
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 119 p. Edição Especial. 
 
Sendo assim, é preciso ter em mente que 
Calvino distingue entre dois modos de operação da 
graça de Deus. Na graça comum, a qual Calvino às 
vezes chama de especial ou de natural, Deus atua 
sobre o ser humano corrupto, seja ele um eleito ou 
um réprobo, dando dádivas naturais ou restringindo 
sua corrupção. Já na graça espiritual, que Calvino 
também chama de especial, podendo confundir o 
leitor desatento, Deus atua apenas sobre os eleitos 
dando-lhes vida, mediante a regeneração ou novo 
nascimento, e expurgando-lhes a maldade e não 
apenas restringindo-a. 
Também na ordem do intelecto Calvino faz 
duas distinções: há o entendimento das coisas 
terrenas e há o entendimento das coisas celestiais. 
Essas duas espécies de entendimento, segundo 
Calvino, estão dispostas em níveis, sendo o 
entendimento das coisas celestiais de nível superior. 
Na primeira espécie – o entendimento das coisas 
terrenas – contam-se: “a doutrina política, a maneira 
de governar bem a casa, as artes mecânicas, a 
filosofia e todas as disciplinas chamadas liberais”. À 
segunda espécie, por sua vez, “pertencem o 
conhecimento de Deus e da sua vontade, e as normas 
pelas quais o homem pode conformar a sua vida à 
vontade de Deus”.
20
 
Tendo feito essa distinção, Calvino 
reconhece que o pecado não afetou totalmente as 
capacidades naturais do intelecto para compreender 
as coisas terrenas. Ele afirma que está presente no 
homem uma lei natural, bem como noções gerais 
acerca da política. Além desses princípios éticos e 
políticos, Calvino reconhece “que há uma 
apercepção universal da razão impressa 
naturalmente em todos os homens”. Essa apercepção 
universal da razão tem sido chamada de 
conhecimento inato e Calvino afirma que tal 
propensão que há na natureza caída do homem em 
buscar a verdade é um ornamento da graça divina. 
Essa luz que ilumina o intelecto, dando certa 
 
20
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 104 p. Edição Especial. 
 
compreensão das coisas terrenas, “é dada 
naturalmente a todos como um benefício gratuito da 
sua [de Deus] generosidade para com cada um dos 
seres humanos”.
21
 
Essa faculdade do entendimento, sendo um 
dom da graça comum a todos os homens, permite a 
compreensão das coisas terrenas. No entanto, essa 
faculdade do entendimento e da inteligência, tendo a 
capacidade de entender certas coisas no mundo 
corruptível, “é coisa frívola e sem nenhuma 
importância perante Deus, quando lhe falta o firme 
fundamento da verdade”.
22
 Como diz o apóstolo: 
“Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos 
sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes” 
(1 Co 1:19). E acrescenta: “Visto como na sabedoria 
de Deus o mundo não conheceu a Deus pelasua 
 
21
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 105 p. Edição Especial. 
 
22
CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 107 p. Edição Especial. 
 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/1co/1/19
sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela 
loucura da pregação” (1 Co 1:21). 
Calvino prossegue então e mostra que, se o 
pecado não teve tanto impacto no intelecto no que 
diz respeito ao entendimento das coisas terrenas, a 
corrupção da natureza humana arruinou de tal modo 
o intelecto no que tange ao entendimento das coisas 
celestiais que os melhores dos homens não passam 
de cegos nesse assunto quando prosseguem sem o 
auxílio da revelação divina. No máximo, eles têm 
alguns lampejos da verdade por causa do 
conhecimento inato de Deus e por causa da luz da 
natureza, que revela os atributos de Deus. Esses 
lampejos, todavia, não são suficientes para tirar o 
homem de sua ignorância e cegueira espirituais. 
Para não nos delongarmos nesse ponto, faz-
se mister dizer que Calvino, após considerar de que 
modo o pecado afetou o intelecto, obscurecendo o 
entendimento das coisas celestiais, ele considera de 
que modo o pecado afetou a vontade, aniquilando 
sua liberdade. Ao comentar o texto de João 8:34, que 
https://www.bibliaonline.com.br/acf/1co/1/21
diz que “todo aquele que comete pecado é escravo 
do pecado”, Calvino afirma: “Ora, como todos nós 
somos pecadores por natureza, segue-se que estamos 
sob o jugo do pecado. E mais, se todos os homens 
estão presos à servidão do pecado, é necessário que 
a vontade, que é a principal parte da constituição do 
seu ser, seja apertada e amarrada com laços 
firmes”.
23
 Em outras palavras, Calvino concorda 
com Lutero: a vontade não é livre, mas está cativa ao 
pecado, a menos que Cristo nos liberte! E em seu 
comentário a Efésios 2:1, Calvino diz que “Como a 
morte espiritual não é outra coisa senão o estado de 
alienação em que a alma subsiste em relação a Deus, 
já nascemos todos mortos, bem como vivemos 
mortos, até que nos tornamos participantes da vida 
de Cristo...”.
24
 
Antes de passar as Confissões, vejamos 
ainda como o teólogo reformado François Turretini 
 
23
 CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 
2006. 116 p. Edição Especial. 
 
24
 CALVINO, J. Efésios. São José dos Campos: Fiel, 40 p. 
 
(1623-1687) expôs essa doutrina da depravação 
total. Ao investigar se o pecado original, herdado de 
Adão, constitui mera privação ou uma certa 
qualidade positiva, Turretini evitou os papistas que 
tratam dos efeitos do pecado como mera privação. 
Para o romanismo, a justiça original era um dom 
sobrenatural acrescentado à natureza humana 
(donum superadditum). Quando o homem pecou, 
esse dom da justiça original foi perdido, mas suas 
faculdades naturais, como o intelecto e a vontade, 
permaneceram intactas. Nesse sentido, o pecado 
original era visto como privação da justiça original, 
não afetando, contudo, as demais faculdades do 
homem. Turretini, por outro lado, apela para as 
Escrituras no intuito de demonstrar que o pecado 
não se constitui apenas de privação, mas de 
qualidade má presente de modo inerente ao homem. 
Ao definir o pecado como qualidade, Turretini quer 
mostrar que ele é distinto da substância a qual se 
liga, isto é, distinto da essência do ser humano. Ele 
corrompe a essência, mas não é em si a essência do 
ser humano. E como qualidade que corrompe a 
natureza humana, o pecado não apenas priva o ser 
humano da retidão original, mas condiciona o 
homem em sua inclinação para a injustiça: 
Os homens não são somente 
destituídos de retidão, mas também 
são saturados de injustiça; não 
somente apostatados de Deus, como o 
bem imutável e eterno, mas também 
voltados para a criatura e inclinados a 
todo vício... Ele [o pecado] introduz 
uma desordem universal (ataxian) na 
natureza e em todas as suas 
faculdades, e geralmente é descrito 
como loucura, cegueira e ignorância 
na mente; perversidade e contumácia 
ou rebelião na vontade; e desordem ou 
dureza (pōrōsin) nas afeições, pelas 
quais o homem é não somente avesso 
a todo bem, mas também propenso a 
todo mal.
25
 
 
Turretini, assim como Calvino, distingue 
entre assuntos terrenos e assuntos celestiais nessa 
questão. Para ele, os pecadores ainda são capazes, 
com o auxílio da graça comum, de virtudes cívicas e 
 
25
 TURRETINI, F. Compêndio de Teologia Apologética. São 
Paulo: Cultura Cristã, v. I, 2011. 791 p. 
 
do bem externamente moral. Todavia, o homem 
pecador, espiritualmente morto, foi afetado por uma 
inabilidade moral para o bem “espiritual e 
sobrenatural, agradável e aceitável a Deus”. A 
vontade do pecado não-regenerado não se inclina 
para esse segundo bem, pois está escravizada ao 
pecado. 
CITAÇÕES DAS CONFISSÕES 
Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 
VI: 
II. Por este pecado eles decaíram da sua retidão 
original e da comunhão com Deus, e assim se 
tornaram mortos em pecado e inteiramente 
corrompidos em todas as suas faculdades e partes do 
corpo e da alma. 
Gen. 3:6-8; Rom. 3:23; Gen. 2:17; Ef. 2:1-3; Rom. 
5:12; Gen. 6:5; Jer. 17:9; Tito 1:15; Rom.3:10-18. 
III. Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o 
delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e 
a mesma morte em pecado, bem como a sua 
natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua 
posteridade, que deles procede por geração 
ordinária. 
At. 17:26; Gen. 2:17; Rom. 5:17, 15-19; I Cor. 
15:21-22,45, 49; Sal.51:5; Gen.5:3; João3:6. 
IV. Desta corrupção original pela qual ficamos 
totalmente indispostos, adversos a todo o bem e 
inteiramente inclinados a todo o mal, é que 
procedem todas as transgressões atuais. 
Rom. 5:6, 7:18 e 5:7; Col. 1:21; Gen. 6:5 e 8:21; 
Rom. 3:10-12; Tiago 1:14-15; Ef. 2:2-3; Mat. 15-19. 
Confissão Belga, Artigo 14 (trechos): 
Tornando-se ímpio, perverso e corrupto em 
todas as suas práticas, ele perdeu todos os dons 
excelentes5, que tinha recebido de Deus. Nada lhe 
sobrou destes dons, senão pequenos traços, que são 
suficientes para deixar o homem sem desculpa6. 
Pois toda a luz em nós se tornou em trevas7 como 
nos ensina a Escritura: "A luz resplandece nas 
trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela" 
(João 1:5). Aqui o apóstolo João chama os homens 
"trevas". Por isso, rejeitamos todo o ensino 
contrário, sobre o livre arbítrio do homem, porque o 
homem somente é escravo do pecado e "não pode 
receber coisa alguma se do céu não lhe for dada" 
(João 3:27). 
Confissão Belga, Artigo 15: 
Cremos que, pela desobediência de Adão, o 
pecado original se estendeu por todo o gênero 
humano
1
. Este pecado é uma depravação de toda a 
natureza humana
2
 e um mal hereditário, com que até 
as crianças no ventre de suas mães estão 
contaminadas
3
. É a raiz que produz no homem todo 
tipo de pecado. por isso, é tão repugnante e 
abominável diante de Deus que é suficiente para 
condenar o gênero humano
4
. Nem pelo batismo o 
pecado original é totalmente anulado ou destruído, 
porque o pecado sempre jorra desta depravação 
como água corrente de uma fonte contaminada
5
. O 
pecado original, porém, não é atribuído aos filhos de 
Deus para condená-los, mas é perdoado pela graça e 
misericórdia de Deus
6
. Isto não quer dizer que eles 
podem continuar descuidadamente numa vida 
pecaminosa. Pelo contrário, os fiéis, conscientes 
desta depravação, devem aspirar a livrar-se do corpo 
dominado pela morte (Romanos 7:24). Neste ponto 
rejeitamos o erro do pelagianismo, que diz que o 
pecado é somente uma questão de imitação. 
1 Rm 5:12-14,19. 2 Rm 3:10. 3 Jó 14:4; Sl 
51:5; Jo 3:6. 4 Ef 2:3. 5 Rm 7:18,19. 6 Ef 2:4,5. 
Cânones de Dort, Capítulos3 e 4: 
3. Portanto, todos os homens são 
concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, 
incapazes de qualquer ação que o salve, inclinados 
para o mal, mortos em pecados e escravos do 
pecado. Sem a graça do Espírito Santo regenerador 
nem desejam nem tampouco podem retornar a Deus, 
corrigir suas naturezas corrompidas ou ao menos 
estar dispostos para esta correção.

Mais conteúdos dessa disciplina