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As dermatoses inflamatórias infecciosas são as dermatoses eritêmato-descamativas e verrucosas, causadas por fungos, protozoários e vírus. 1. DERMATOSES ERITÊMATO-DESCAMATIVAS 1.1. MICOSES SUPERFÍCIAIS • DERMATOFITOSES - TINHAS O termo vem do latin “Tínea” e refere-se à larva de inseto, que era considerada pelos Romanos como agente causal da infecção. São micoses superficiais e compreendem um grupo de afecções causadas por fungos, limitadas às camadas queratinizadas ou semi-queratinizadas da pele e localizadas na superfície da epiderme, pêlos ou unhas. São fungos que utilizam a queratina como fonte de subsistência. Este grupo constitui as dermatofitoses, afecções produzidas por vários gêneros de parasitas, denominados em conjunto de dermatófitos (antropo, zoo e geofílicos). Os gêneros principais que afetam a espécie humana são: Microsporum; Tricophyton e Epidermophyton. Nem todos são patogênicos. Clinicamente podem manifestar-se em distintas regiões da pele. De acordo com a área de acometimento são denominadas: Tinha do couro cabeludo, Tinha da barba, Tinha corporal, Tinha do pé e da mão, Tinha crural (períneo; regiões gluteas e parede abdominal) e Tinha das unhas (onicomicoses). Não são consideradas dermatofitoses: a candidíase (Monília sp) e a pitiríase versicolor (Pityrosporum oovale). → Tinha do Couro Cabeludo: é comum em crianças e raras em adultos. As tinhas com tonsura ou fratura da haste pilosa são causadas Microsporum spp. ou Trichophylon spp. Apresentam os cotos pilosos e descamação do couro cabeludo. Podem ser únicas ou múltiplas e têm evolução crônica. Uma forma aguda, causada geralmente por fungos zoo ou geofílicos, é o quérion. Estes agentes podem produzir grande reação inflamatória que se apresenta como placa elevada, geralmente úmida, bem delimitada e dolorosa, com pústulas e microabcessos que drenam pus à expressão. A tinha favosa é causada pela T. schoenleinii e acontece como microendemias em zonas rurais ou pequenas comunidades. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 2 Pode determinar alopecia cicatricial e, sendo causada por fungo antropofílico, tem caráter muito crônico e não tende à cura expontânea durante a adolescência, como observada na tinha tonsurante. Há também uma forma onde o favo é predominantemente descamativo e outra onde há pústulas foliculares e escamo-crostas. → Tinha da barba: é mais rara, pode apresentar-se com lesões inflamatórias que lembram o quérion ou lesões com contornos cíclicos, eritemato-vesiculosas e descamativas. Outra forma é semelhante à foliculite bacteriana. → Tinha Inguino-crural (Cruris): é comum no homem e rara na mulher. O comprometimento em geral é bilateral e pode estender-se para os glúteos e a parede abdominal, sobretudo nos imunodeficientes. Em geral, tem manifestação clínica como a descrita para as lesões do corpo. Deve ser diferenciada da dermatite seborréica desta região. → Tinha dos pés ou das mãos: A tinha dos pés, onde é mais comum (“pé de atleta”), ou das mãos pode apresentar-se nos interdígitos com prurido, descamação e maceração. Podem ocorrer fissuras ou vesículas. Em outras áreas dos pés/mãos, é, por vezes, mais descamativa e crônica. → Tinha da unha: A tinha da unha é a onicomicose por dermatófitos, inicia-se, geralmente, pela borda distal das unhas e é causada por Trichophyton spp. e Epidermophyton spp. Pode haver evolução com comprometimento de toda a lâmina ungueal de um ou mais dedos. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 3 Outros fungos, como leveduras do gênero Candida, podem também infectar as unhas. Outro diagnóstico diferencial para as unhas distróficas deve ser feito com doenças inflamatórias, como a psoríase. Portanto, é sempre necessário visualizar o dermatófito no exame micológico direto para o diagnóstico de dermatofitose ungueal. Como a sensibilidade do exame é baixa, poderá ser necessário repetir e/ou fazer a cultura do raspado da lâmina. O tratamento de micose da unha é sempre caro e demorado e o diagnóstico correto é imperativo. → Tinha do Corpo: A tinha do corpo (pele glabra) é um modelo para as outras tinhas. São causadas pelo Tricophyton rubrum, Microscoporum canis e Tricophyton mentagrophytes. As lesões são eritemato-descamativas com bordas circinadas (papulosas circulares) com essas características, enquanto o centro é da cor normal da pele pois tende a curar-se. O crescimento é centrífugo, do centro para as bordas. As bordas são a área ativa da lesão! Essas lesões podem se confluir. Caso haja descamação no centro temos que nos atentar pois pode ser que o paciente seja imunossuprimido (diabético, HIV), pois o centro deve ficar limpo. Neles, há lesões papulosas disseminadas pela pele, com muitas hifas no estrato córneo e em folículos pilosos da derme. Alterações Histopatológicas: A biópsia é feita da borda. Nela, a epiderme está muito espessada (acantose psoriasiforme) e o extrato córneo esta espessado (hiperortoceratótico compacto ou paraceratótico). Ausência da camada granulosa (agranulose). Os fungos podem ser vistos , por vêzes, como estrutras na forma de hifas refractáveis, formando espaços claros no estrato córneo (coloração pela H&E). Parece sujeira no estrato córneo, cortadas longitudinal e transversalmente. Para a demonstração adequada do fungo, pode-se utilizar a reação pelo ácido periódico de Schiff (PAS), na qual o fungo cora-se em vermelho profundo ou pelo de Grocott ou Gomori (coloração pela Prata), onde o fungo é corado em preto. Branda Destacar DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 4 Os fungos podem apresentar-se na forma de: hifas filamentosas (semelhantes à linha), artrosporos (esporos formados pela fragmentação de hifas septadas) e pseudohifas (leveduras que crescem isoladamente pelo brotamento em cadeia). ➢ Diagnóstico Microbiológico dos Dermatófitos É feita a coleta do material por raspagem das escamas/unhas ou por biópsia das bordas da lesão. Na unha precisamos colher a intersecção entre a parte saudável e a parte lesionada. No caso de tinea capitis temos que pegar o fio de cabelo com a raíz. Fazemos o exame direto do material coletado ao microscópio óptico para verificar a existência de fungos, mas para diferenciar a espécie temos que fazer cultura (filamentosos). A cultura é feita em ágar Sabouraud e Mycosel. Demora de 30 a 45 dias para crescer, em temperatura ambiente. Com a cultura conseguimos identificar gênero e espécie. Os principais fatores de erros em culturas são artefatos (algodão, talco etc) ou presença de outros fungos não dermatófitos na amostra coletada. O ideal é fazer a cultura sem que o paciente tenha feito uso de drogas antifúngicas. Branda Destacar DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 5 → TINEA CORPORIS Paciente masculino, 37 anos, branco, transplantado renal há 2 meses. Apresenta lesões eritêmato-descamativas difusas na pele. As tinhas são um grupo de micoses superficiais, limitadas às camadas queratinizadas ou semiqueratinizadas da pele (epiderme, pelos e unhas). A epiderme está recoberta por hiperortoceratose lamelar. De permeio ao estrato córneo, e nos infundíbulos foliculares, notam-se estruturas fúngicas, na forma de hifas e esporos. Branda Destacar DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 6 Com PAS, os fungos são visíveis em maior número e melhor detalhe. • CANDIDÍASE É causada por fungos também, leveduras do gênero Candida sp. O substrato deles é o lipídio. Geram lesões muito eritematosas com um pouco de descamação em regiões como inframamária, interdigital, onicomicose (unha) e paroníquia(pele periungueal). • PITIRÍASE VERSICOLOR Ou tínea versicolor, é causada por fungos do gênero Malassezia spp. O substrato deles é o lipídio, o sebo da pele. Formam lesões eritematosas, hipocrômicas ou hipercrômicas. Quando distendemos a pele afetada aparecem escamas finas violáceas e de diferentes tonalidades (por isso o nome versicolor). É chamada de micose de praia ou piscina pois quando tomamos sol na água a nossa pele produz mais sebo, aumentando os fungos já presentes na pele. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 7 2. DERMATOSES VERRUCOSAS As dermatoses verrucosas podem ser infecciosas, inflamatórias apenas ou neoplásicas. Causam verrugas. a) Verruga infecciosa b) Verruga inflamatória c) Verruga neoplásica As verrugas são pápulas (pequenas lesões sólidas e elevadas) hipeceratóticas. Têm superfície dura e áspera determinada pelo aumento da camada córnea e, por vezes, dos ceratinócitos. A maioria das dermatoses verrucosas infecciosas são causadas pelo PLECT (paracoco, leishmaniose, esporotricose, cromomicose e tuberculose). Só leishmania e a TB não são fungos. Esses fungos causas micoses profundas. O comum entre o PLECT é que todos causam infiltrados granulomatosos. 2.1. MICOSES PROFUNDAS • PARACOCOCCIDIOIDOMICOSE Ou Blastomicose Sul-Ameriana. Infecção de evolução subaguda ou crônica, causada pelo fungo Paracoccidioides brasiliensis ou lutzii. É muito comum na américa latina, sendo a micose profunda mais prevalente do Brasil, acometendo mais indivíduos da área rural e, principalmente, homens (9:1). A via de penetração é respiratória, são inalados esporos que formam um complexo primário e se disseminam. O envolvimento cutâneo é geralmente secundário à disseminação hematogênica nas formas clínicas generalizadas (exemplo comum, a forma tegumento-pulmonar) ou por propagação das lesões mucosas e de gânglios linfáticos através de fístulas. Muito menos freqüentemente podem ocorrer formas cutâneo-mucosas isoladas, secundárias à inoculação direta do fungo na pele ou mucosas (forma unifocal tegumentar). Há várias classificações da paracoco: paracococcidioidomicose infecção (só infectado mas sem doença); paracoco doença (pode ser aguda/subaguda, crônica unifocal, crônica multifocal, forma do imunodeficiente); forma residual (sequelas). - Paracoco Doença forma Aguda: tem curso rápido, acometendo principalmente crianças e jovens. Além das lesões cutâneas há sintomas e sinais gerais como Branda Destacar Branda Destacar Branda Destacar Branda Destacar DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 8 inapetência, febre e mal estar. O paracoco pode acometer gânglios, baço, fígado e medula óssea. As lesões cutâneas são muito variadas, constituídas por pápulas verrucosas, nódulos e úlceras, vegetações e abscessos, mais comuns na face e no tronco. Tem grande quantidade fungos pois a resposta imune celular é deficiente (usa resposta humoral). Os granulomas são incompetentes. - Paracoco Doença forma Crônica: tem curso mais lento e acomete principalmente adultos. Tem sintomas associados ao órgão infectado, como falta de ar quando acomete pulmões. Pode afetar órgãos únicos ou múltiplos. Na pele, a forma crônica vai depois dos pulmões, por via hematogênica. Depois migra para gânglios, articulações, ossos, TGI, suprarrenal e SNC. As lesões cutâneas são polimórficas: podem ser pápulo-nodulares e/ou ulceradas; gomosas (nódulos com necrose central e drenagem); vegetantes ou verrucosas; ou ainda sarcoides (no peito, duras e aspecto róseo que lembra carne). Branda Destacar Branda Destacar Branda Destacar Branda Destacar DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 9 Quando verrucosa pode ser confundida com psoríase ou outra lesão verrucosa pois tem placa acizentada (queratina). As lesões crônicas tem poucos fungos pois a resposta imune celular é eficiente (baixa humoral) e os granulomas são competentes. Pode gaver ainda lesões eritemato-infiltrativas exuberantes com centros de ulceração, ocorrendo principalmente na face (nariz). Essa forma acomete muito a mucosa também, principalmente a mucosa oral. Alterações histopatológicas: Observa-se processo inflamatório crônico granulomatoso com células gigantes, e abscessos com hiperplasia epitelial (acantose), dando aspecto pseudocarcinomatoso (isto é, simulando neoplasia pois vai invadindo a derme). Na derme subjacente encontramos granulomas com gigancócitos multinucleados e infiltrado inflamatório crônico ao redor. Os fungos ficam dentro das células gigantes. Em H&E vemos bolas branquinhas com membrana dentro das celulas gigantes, para confirmar temos que fazer PAS ou Grocott. O número de fungos é variável. Estes são arredondados, de dupla parede refringente (membrana de duplo contorno), sem ou com gemulação simples ou múltipla, podendo atingir de 1 a 30 m no seu maior diâmetro. Branda Destacar DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 10 A gemulação ou esporulação múltipla é patognomônica e se faz através de formação de cromídios (massas de cromatina na periferia do citoplasma), que depois atravessam pertuitos (poros) da parede celular, arrastando consigo porção de citoplasma e a membrana envolvente. O aspecto resultante é a figura típica em roda de leme, em mickey ou brotamento único. ➢ Diagnóstico Microbiológico da Paracoccidioidomicose Colhemos a amostra por raspado da lesão, pus aspirado ou biópsia. Visualizamos os paracocos já em exame micológico direto e fazemos cultura quando não dá para ver o fungo ou quando precisamos da espécie. Há ainda o exame histopatológico e sorologia. Só com o exame direto não sabemos a espécie, falamos que é um fungo do complexo paracococcidioides. Para confirmar a espécie devemos fazer a cultura e observar a levedura a 37ºC. Um teste de Elisa modificado, o EIA, tem alta sensibilidade pela gp43 (uma glicoproteína de 43kDa, antígeno exocelular imunodominante e específico do P. brasiliensis). Esta técnica é um instrumento valioso no acompanhamento do paciente sob tratamento. → PARACOCCIDIOIDOMICOSE A.J.M., 50 a., masc., lavrador, apresenta lesões pápulo-nodulares e placas vegetantes disseminadas a face e tronco. Mucosa oral de aspecto moriforme. Biópsia da pele da face. Imagem panorâmica, mostrando epiderme com forte acantose. Na metade direita da foto, a acantose chega a constituir uma hiperplasia pseudocarcinomatosa (ou pseudoepiteliomatosa), ou seja, imita carcinoma. Na derme há intenso infiltrado inflamatório crônico misto, tanto inespecífico como granulomatoso, com gigantócitos contendo fungos. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 11 A hiperplasia da epiderme é reacional ao processo inflamatório na derme, causado pelo Paracoccidioides brasiliensis. Na região com hiperplasia pseudocarcinomatosa observam-se microabscessos nas papilas dérmicas, envolvidos por epiderme hiperplásica, vários dos quais contêm o agente etiológico. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 12 Na derme temos reação inflamatória crônica, tanto inespecífica (linfócitos e plasmócitos) como granulomatosa (predominando gigantócitos), com numerosos fungos fagocitados ou livres. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 13 O método de Grocott é simples, e cora a parede celular do fungo em marrom. Isto permite visualizar mais detalhes que em HE, especialmente o processo de reprodução do fungo, por brotamento múltiplo ou criptoesporulação, patognomônico da espécie. No início do processo de criptoesporulação ou brotamento múltiplo, a cromatinacondensa-se em pequenas massas chamadas cromídios na periferia do citoplasma da célula mãe. Na superfície externa notam-se pequenas projeções onde se formarão as células filhas. Os cromídios atravessam pertuitos (poros) na parede celular arrastando consigo parte do citoplasma e da membrana da célula mãe. As células filhas (esporos) brotam como pequenas saliências arredondadas a toda volta, dando o aspecto clássico em roda de DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 14 leme. Dependendo dos planos de incidência e de foco, é possível observar os minúsculos poros por onde os cromídios passam. Após o destacamento das células filhas, resta a parede da célula mãe com os poros. • BLASTOMICOSE QUELOIDIANA Ou blastomicose de Jorge Lobo. Micose puramente cutânea, de distribuição geográfica limitada à região amazônica. Caracteriza-se por lesões nodulares queloideanas (isto é, com aspecto semelhante a quelóide), distribuídas em áreas expostas da pele, preferencialmente no pavilhão auricular. Histologicamente, a reação inflamatória é de caráter produtivo, rica em histiócitos e células gigantes distribuídas difusamente, sem separação em granulomas, com estroma fibroso de permeio. Os fungos são semelhantes ao P. brasiliensis, numerosos, e se reproduzem por gemulação ou brotamento simples. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 15 → BLASTOMICOSE DE JORGE LOBO A.S., 30 a., masc., cor branca, natural e procedente do estado do Amazonas, em bom estado geral, com queixa de lesão irregularmente nodular, endurecida, não ulcerada, localizada no pavilhão auricular D., com evolução de 2 anos. A característica desta micose da região amazônica é a intensa reação granulomatosa na derme, que afeta quase toda a espessura do fragmento. É importante salientar a fibrose do estroma, que dá o aspecto clínico de quelóide (cicatriz hipertrófica) à lesão. Chama a atenção o grande número de parasitas (Paracoccidioides loboi), dispostos em cachos ou em rosário, grande parte dos quais estão fagocitados por macrófagos ou por gigantócitos. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 16 Alguns gigantócitos apresentam no citoplasma inclusões com prolongamentos radiados conhecidas como corpos asteróides. Tratam-se de aglomerados de proteínas filamentosas e são inespecíficos, sendo observados em várias outras doenças granulomatosas, como a esquistossomose, a esporotricose e a sarcoidose. • CROMOBLASTOMICOSE Ou cromomicose, ela tem sido observada nas zonas rurais em quase todos os estados do Brasil e mais em homens pois o fungo fica no solo. O gênero mais comum aqui no sudeste principalmente é o Fonsecaea pedrosoi. Só causa lesões cutâneas. Caracteriza-se por lesões vegetantes, papilomatosas e hiperceratóticas de caráter verrucoso, que comprometem as regiões expostas, sobretudo os pés e pernas, através de soluções de continuidade, limitando-se à pele e tecido subcutâneo. São unilaterais, ou seja, só um pé por exemplo. Têm lenta evolução (crônica) e muito resistente ao tratamento. Não afeta o estado geral do paciente, mas pode ter infecções secundárias. Histologicamente, observa-se hiperceratose e acantose pronunciadas, às vezes com hiperplasia pseudocarcinomatosa, ou seja, todo irregular e que adentra e abraça a derme. Na derme formam-se granulomas, encontrando- se o fungo nas células gigantes do tipo Langhans ou soltos em meio a microabscessos. Os fungos são arredondados, com membrana de duplo contorno, cor pardacenta (cromo) ou castanho-escura mesmo em H&E, com um septo dentro e se dividem por cissiparidade ou bipartição simples. Os gêneros principais são Phialophora e Cladosporium. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 17 ➢ Diagnóstico Microbiológico da Cromoblastomicose O principal tipo é a Fonsecaeae pedrosoi, não dimórfico (não são leveduras). Podemos ver bem no exame micológico direto. Eles formam corpos escleróticos, fumagoídes (amontoados). Para identificar o tipo de cromomicose temos que fazer a cultura, mas não precisa pois o tratamento pode ser o mesmo para qualquer espécie. → CROMOMICOSE J.R.A., 53 a., masc., cor branca, lavrador, apresenta lesões verrucosas extensas no dorso do pé E., com forte odor, há 5 meses. Os fragmentos de pele obtidos por curetagem estão cortados em vários planos. Há grande espessamento da epiderme por maior quantidade de células na camada de Malpighi (ou camada espinhosa), a que se chama acantose. A camada granulosa, que vem logo acima da camada de Malpighi e também está espessada, destaca-se pelos grânulos de queratohialina, basófilos, no citoplasma dos queratinócitos. A camada córnea é grossa e contém numerosos estratos de queratinócitos anucleados. A isto se chama hiperqueratose ortoceratótica. Em certos casos estas alterações hiperplásicas da epiderme tornam-se tão intensas que simulam um carcinoma epidermóide. Por isso são, às vezes referidas como hiperplasia pseudocarcinomatosa ou pseudoepiteliomatosa. Devem-se ao processo inflamatório crônico desencadeado pela micose profunda, no caso, uma cromomicose. Tanto na camada córnea como na derme, há vários microabscessos, em alguns dos quais é possível observar o agente etiológico. Microabscessos na derme são comuns na cromomicose e são engolfados ou abraçados pela epiderme hiperplásica. Os microabscessos contêm gigantócitos, e podem ser considerados granulomas de centro abscedido. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 18 DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 19 O agente etiológico da cromomicose é um fungo arredondado (portanto, uma levedura), que tem a peculiaridade de ter cor pardacenta própria, dispensando colorações especiais para sua observação. Tem diâmetro entre 8 e 12 mm e divide-se por cissiparidade ou bipartição simples, notada em vários espécimes através de um sulco equatorial que às vezes dá à célula o aspecto de um grão de café. É comum encontrar o fungo aos pares ou em cachos, devido à cissiparidade. Os gêneros mais comuns são Phialophora e Cladosporium. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 20 • ESPOROTRICOSE É uma micose profunda muito comum, de evolução subaguda ou crônica, causada pelo Sporotrichum schencki (principal é o braziliensis). O fungo vive saprofitamente na natureza e introduz-se, no organismo humano, por inoculação direta da pele e eventualmente nas mucosas, através de ferimento com material contaminado (particularmente arranhadura de gatos ou espinhos). Por isso é chamada Doença do Jardineiro. Afeta, na maioria das vezes, apenas a pele dos membros superiores e a face. Nos imunossuprimidos pode disseminar para outros órgãos. A forma clínica linfangítica é a mais comum, com lesão pápulo-nodular, às vezes ulcerada no local da inoculação (cancro esporotricótico) e cordão de linfangite a partir deste ponto (acompanha o trajeto dos linfáticos), ao longo qual encontram-se nódulos ou gomas, com aspecto comparável a um rosário. As lesões podem ser também muito verrucosas, com placas esbranquiçadas que acompanham o linfático. Histopatologia: O mais característico é a formação de infiltrado inflamatório granulomatoso em três zonas, que incluem: 1. Área central “supurativa” (abcessos) composta por neutrófilos. Esta é envolta por: 2. Zona “tuberculóide” granulomatosa, composta por células histiocíticas- macrofágicas epitelióides e gigantes multinucleadas. 3. Zona periférica (mais externa), contituida por elementos inflamatórios monucleados, principalmente linfócitos e plasmócitos (orla linfoplasmocitária). Na maioria dos casos não épossível reconhecer o fungo S. schenckii nos cortes histológicos, mesmo através de colorações especiais. Quando presentes (situação rara), os espóros do S. schenckii aparecem como corpos arredondados, medindo: 4 a 6 m. Estes se coram mais fortemente na periferia do que no centro (mesmo na H&E). Ocasionalmente esporo simples ou múltiplo pode estar presente, ou mesmo formas mais alongadas em formas de cigarro (> 8m). Corpos asteróides podem ser vistos envolvendo o fungo. Trata-se de uma reação de hipersensibilidade, que forma DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 21 prolongamentos radiados, semelhante à “estrela” (asteróide) compostos por um material homogêneo e fortemente acidófilo. Esses corpos asteróides ficam bem no centro do abcesso e não são o fungo. Acredita- se que este fenômeno dos corpos celulares represente a deposição de complexo antígeno-anticorpo e “debris” celulares (fragmentação de elementos inflamatórios do hospedeiro). ➢ Diagnóstico Microbiológico da Esporotricose O fungo é melhor visualizado na forma filamentosa, através da cultura. Tem formato de margaridas. Na pele fica na forma de levedura e não distinguimos (difícil visualização no exame direto). É o único fungo dimórfico que não causa doença sistêmica típica. Fazemos a cultura para diferenciar e demora de 10 a 15 dias para crescer. 2.2. DERMATOSES VERRUCOSAS CAUSADAS POR PROTOZOÁRIOS • LEISHMANIOSE TEGUMENTAR AMERICANA Doença infecciosa crônica, não contagiosa, causada pelo protozoário Leishmania brasiliensis, cuja transmissão é feita pela picada de mosquitos do gênero Phlebotomus (mosquito palha, birigui). Ocorre muito na América latina e Brasil (úlcera de Bauru). DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 22 As lesões se localizam nas áreas descobertas do corpo (MMII e face), bem onde tem a picada e caracterizam-se por erupções eritêmato-papulosas que evoluem para úlceras de contornos circulares, bordas altas e infiltradas, conhecidas como "em moldura de quadro". O centro da úlcera pode estar verrucoso ou infiltrado, sangrante (mais típico). Essa lesão inicial pode cicatrizar e desaparecer (“cura”) ou disseminar para mucosas e cartilagens. As lesões mucosas e cartilagens são secundárias, aparecem em 70% dos casos dentro dos primeiros 5 anos após a lesão cutânea inicial não tratada e com "cura" espontânea, ou em conseqüência da ineficácia do esquema terapêutico utilizado. A propagação ocorre através da via hematogênica, sendo acometida preferencialmente a mucosa nasal. Leva à destruição da mucosa do intróito e o septo nasal, conferindo-lhe o aspecto de nariz de anta ou tapir. Aqui vemos lesão eritematosa infiltrada. Histologicamente, caracteriza-se inicialmente por aglomerados difusos de células mononucleadas linfoplasmocitárias por toda a derme e granulomas com macrófagos de coloração mais clara (Clareira Macrofágica). Nos granulomas fica róseo claro pois tem mais macrófagos, que tem citoplasma abundante comparados aos linfócitos. Dentro desses macrófagos dos granulomas encontramos as leishmanias. Eles estão vacuolados com muitas leishmanias dentro, bem pequenas (forma amastigota). DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 23 As leishmanias são raras ou ausentes nas lesões ricas em granulomas e nos casos mais antigos (somem depois de 1 ou 2 meses de lesão). Achá-las nos granulomas é o diagnóstico padrão ouro, mas muitas vezes não conseguimos. Quando não há o parasita verificamos a morfologia do granuloma (histológico compatível), reação intradérmica de Montenegro e sorologias positivas para leishmania (pode ter falsos negativos). → LEISHMANIOSE CUTÂNEA L.A.A., 25 a., masc., cor branca, lavrador, com lesão ulcerada de 1,5 cm. de diâmetro na face lateral do pescoço, de fundo granuloso e bordas infiltradas “em moldura de quadro”. Fragmento de pele mostrando na derme intenso processo inflamatório crônico granulomatoso. A epiderme está preservada. Os granulomas são constituídos por células epitelióides e praticamente não há gigantócitos. Em algumas áreas é possivel observar-se macrófagos contendo leishmânias em vacúolos citoplasmáticos. Proliferam na derme no interior de macrófagos com citoplasma claro. Os conjuntos de macrófagos são muitas vezes denominados clareiras macrofágicas. Podem causar extensa ulceração da pele com bordas salientes "em moldura de quadro" e destruição de tecidos próximos, como a cartilagem nasal, dando o aspecto conhecido como nariz de anta. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 24 As leishmânias são minúsculas, da ordem de 2 A 4 mm de diâmetro e só bem visualizadas com objetiva de imersão. Em algumas é possível identificar o núcleo excêntrico, dando ao parasita o aspecto de um diminuto plasmócito. 2.3. DERMATOSES VERRUCOSAS VIRAIS São muito mais frequentes que as verrugas de qualquer outra causa. • VERRUGAS POR HPV Lesões contagiosas da pele e regiões muco-cutâneas, produzidas por pelo Papilomavirus humano ou HPV, um vírus DNA do grupo dos papovavirus. A transmissão da doença envolve contato direto entre os indivíduos ou auto-inoculação. Inclui algumas DSTs. De modo geral, são lesões papilares ou tumorais com muita queratinização. Geralmente são autolimitadas e regridem espontaneamente dentro de 6 meses a 2 anos. São classificadas segundo a localização, aspecto histológico e pelos diferentes genomas do HPV (mais de 70 subtipos até hoje identificados). DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 25 - Verruga Vulgar: é a mais comum e ocorre em qualquer local da pele (pele ou mucosas). É causada pelos subtipos HPV 2, 4 e 7. Tem aspeto mais papilomatoso. É comum apresentar pontos pretos na superfície, que são tromboses de vasos. Elas ocorrem em qualquer idade, por contágio direto com a verruga de outra pessoa ou contato indireto (objetos, chão). É comum em crianças que encostam em outras crianças com a lesão. Podem sumir e ficar em latência, reaparecendo depois de anos. Histologicamente, possui papilomatose e acantose pronunciadas, com convergência dos cones epiteliais acantóticos para a região central da lesão. Tem hiperqueratose em cima, dando o aspecto áspero. O HPV fica no DNA do queratinócito, comandando hiperplasia e acantose da epiderme. Aparece um halo claro no citoplasma deles que está sem organelas (coilocitose). Há grânulos de queratohialina grosseiros pois eles ficam na camada granulosa logo abaixo da córnea. - Verruga Filiforme: são finas projeções perpendiculares ou pedunculadas, com papilas muito ceratóticas, ocorrem principalmente na face, ao redor da boca, vestíbulo nasal e periorbital. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 26 - Verruga Plana: ocorre mais na face palmar e dorsal das mãos. Causada pelo subtipo HPV 3. A pápula é mais achatada e com menos queratinização, ou seja, menos áspera e verrucosa. Na histologia vemos coilocitose (típico de HPV) mas com pouca camada córnea. Podem ser normocrômicas, hipocrômicas ou eritematosas. São, em geral, numerosas e ocorrem principalmente na face e dorso das mãos. - Verruga Palmo-Plantar: profundas ou mirmécias, são causadas pelo HPV 1, 2 ou 4. As verrugas plantares, chamadas de olhos-de-peixe, são pouco salientes. Em geral têm borda mais ceratótica e o centro mais deprimido. Há tendência à proliferação epitelial invaginando para a derme, o que pode torná-las muito dolorosas. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 27 - Verruga Genital (Condiloma Acuminado): podem ser causadas pelo HPV 6 e 11(baixo risco de câncer, mais comuns) ou HPV 16, 18 (oncogênicos, alto risco). É a DST mais prevalente, principalmente em universitários. As lesões podem evoluir espontaneamente e reaparecer mesmo depois de tratadas. A lesão é bem vegerante e sem muita queratinização (pouco verrucosa), pois acomete mucosa ou semi-mucosa (pápulo-vegerantes). Acomete bastante a região perianal (aspecto em couve-flor) e o prepúcio (crista de galo). Histologicamente tem acantose exuberante convergente e a coilocitose nas porções mais altas do epitélio. - Papulose Bowenóide: causada pelos subtipos HPV 16 e 18, os mais malignos. Também é DST. Formam lesões papulares normo ou hipercrômicas (amarronzadas tipo manchas). Em geral são múltiplas, no corpo do pênis, região perianal e vulva. São pouco queratóticas (pouco verrucosas), mas tem presença de maceração próximo à glande (maceração é a camada córnea embebida em água). Mesmas características histológicas, papilomatose, acantose, coilocitose e pouca córnea. As lesões são menos perceptíveis que as outras verrugas virais, mas precisam ser bem estudadas pois são malignas. A forma em mancha amarronzada pouco papulosa é mais típica. Podem ter múltiplas lesões papulosas rosadas também. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 28 - Condiloma gigante de Buschke-Lowenstein: causada pelos subtipos HIV 6 e 11. É um condiloma gigante mas pouco oncogênico. Na foto temos papulose bowenóide também no corpo do pênis, então o indivíduo está infectado com subtipos de HIV oncogênicos e não oncogênicos. Histologicamente, as características comuns às verrugas incluem: papilomatose com proliferação epitelial (acantose e hiperceratose) e vacuolização citoplasmática (coilocitose), que compromete preferencialmente as camadas epidérmicas mais superficiais. A microscopia eletrônica destas áreas revela numerosas partículas virais no interior dos núcleos. As células infectadas podem também demonstrar grânulos de queratohialina proeminentes e aparentemente condensados, formando agregados grosseiros intracitoplasmáticos em conseqüência dos efeitos citopáticos virais. Essas alterações celulares são especialmente proeminentes nas verrugas palmo- plantares profundas. A imunohistoquímica ajuda muito no diagnóstico do HPV e dos subtipos. Os núcleos dos queratinócitos da camada granulosa principalmente ficam marcados, bem da camada superficial da epiderme. A subtipagem do vírus é feita pela hibridização in situ. → VERRUGA VULGAR P.L., 12 a., fem., cor branca, com aparecimento de lesão verrucosa de aproximadamente 0,6 cm. de diâmetro na pele da região do joelho D, de crescimento progressivo há 30 dias. A lesão, causada comumente pelo HPV tipo 2, caracteriza-se por intensa papilomatose da derme. As papilas dérmicas são DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 29 muito alongadas, formando eixos conjuntivo-vasculares recobertos por epiderme acantótica e hiperceratótica. Nota-se convergência dos cones epiteliais para a base da lesão, em forma de leque. Nos aumentos maiores, nota-se espessamento da epiderme (acantose) e grande proeminência da camada granulosa, onde os grânulos de queratohialina são excepcionalmente irregulares e grosseiros (alteração esta causada pelo vírus HPV). Os espaços claros perinucleares são chamados coilocitose (do grego koilos, buraco) e também próprios da infecção por este virus. Estes 'buracos' correspondem, em microscopia eletrônica, a uma zona pobre em organelas celulares. DERMATOPATOLOGIA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp 30 A atividade mitótica é mais intensa que na epiderme normal. Algumas mitoses são suprabasais (normalmente as mitoses limitam-se à camada basal). Contudo, não se observam mitoses atípicas. Na derme abaixo da lesão há leve a moderado infiltrado inflamatório inespecífico focal, próximo a vasos e anexos.