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Pepsico foca na administração de processos 38 - Revista Tecnologística - Março/2007 Há dois anos, a Pepsico do Bra-sil iniciava uma mudança nacondução de suas atividades, partindo para o desenvolvimento de um modelo baseado no conceito de administração de processos. A partir do projeto de redesenho de processos intitulado “Integra”, que envolveu a participação de todas as áreas da com- panhia e contou com a assessoria da Integration Consultoria Empresarial, a empresa promoveu transformações substanciais na sua cadeia de supri- mentos. Após um ano de implan- tação, já surgiram impactos positivos em seus resultados. O nível do serviço foi elevado, alte- rando a configuração do atendimento e oferecendo pacotes adequados ao perfil de clientes – entre eles grandes redes de supermercados, distribuido- PROCESSOS D iv ul ga çã o Pe ps ic o Com enfoque de atuação baseado em processos, a partir de um projeto de redesenho regional, a companhia eleva o nível de serviço aos seus clientes e reduz custos em sua cadeia de abastecimento. Ao mesmo tempo, o amplo entendimento sobre a importância que o supply chain tem nos negócios está colaborando para orientar de maneira mais efetiva suas atividades e investimentos processos.qxp 5/7/2007 9:09 AM Page 38 res e atacadistas –, conquistando indi- cadores bastante favoráveis, como au- mento de 58% para 81% no tempo e na quantidade acordados com o clien- te no momento do pedido (on time in full), para os clientes envolvidos no piloto inicial; e a redução de falta de estoque de 4,3% para 2,4% para o pe- queno varejo. A Pepsico obteve ainda um retorno financeiro da ordem de 4% nos seus custos de transportes com a otimização da distribuição. A necessidade de desenvolver um projeto com esse caráter, foi identifi- cada pela presidência da Pepsico para a América Latina, como explica Mario Morhy, diretor de Supply Chain da Pepsico do Brasil: “Em 2004, a empre- sa decidiu que atacaria alguns pontos mais críticos de sua operação, que pre- cisavam ser aprimorados não apenas do ponto de vista econômico, como também na imagem da companhia”. Para isso, foi reunido todo o staff da região, que definiu a realização de um projeto de redesenho de processos, apontando quais áreas seriam priori- zadas. Ficou decidido que o piloto de supply chain seria desenvolvido na subsidiária brasileira. “Para identificar quais processos eram mais importantes, foi utilizada a metodologia de Michael Hammer, o ‘papa’ da Reengenharia, que define processo como sendo o grupo de ati- vidades que realmente agrega valor para o cliente”, lembra Morhy, com- plementando que foram considerados como processos de valor agregado pa- ra companhia os de inovação (criação de novos produtos) e supply chain. “No final de 2004, a empresa imple- mentou o processo de inovação, rede- senhando todas as atividades desde a idéia, o conceito de um produto, até a efetiva entrega desse produto no pon- to-de-venda”. Daí partiu-se para o redesenho do segundo processo, o de supply chain, inclusive para atender aos objetivos do primeiro. “No momento que ino- vamos, temos uma boa idéia, precisa- mos executá-la e, para isso, precisa- mos ter o entendimento de qual é a demanda, como serão estruturados o planejamento e a operação das fábri- cas responsáveis pela produção, que insumos serão comprados, quem serão os fornecedores, que canais serão atendidos e como vamos trans- portar. Enfim, vimos que a cadeia de abastecimento da companhia como um todo também precisava ser rede- senhada, para somar-se a esse proces- so de inovação”, conta o diretor de Supply Chain e líder desse processo. Contexto Em fevereiro de 2005, começaram então os trabalhos em torno do proje- to de transformação do supply chain, que foram divididos em três fases: re- desenho, com duração de nove meses; planejamento de instalação, de um mês; e implementação para um perío- do previsto de dois anos (de dezembro de 2005 a dezembro de 2007). Mas além das etapas e tempos esta- belecidos pela metodologia desenvol- vida pela Integration, um aspecto bas- tante significativo para o resultado desse trabalho foi a integração de pro- fissionais de diferentes departamentos da Pepsico em torno do redesenho. “Mais importante que o conhecimen- to técnico, é como fazê-lo. O processo não gera impactos somente no supply chain, mas em todas as outras áreas”, enfatiza Francisco Leite, gerente de Supply Chain da Integration. Inicialmente, segundo o diretor da Pepsico, a idéia era formar um grupo de profissionais da empresa para de- senvolver internamente o projeto, pois havia o receio de que, ao contra- tar uma consultoria, o conhecimento fosse perdido ao final do trabalho. Por outro lado, a empresa estava cons- ciente de que não contava com todo o conhecimento e tecnologia exigidos para um projeto como este. Também naquele momento se pen- sou em adquirir uma ferramenta tec- nológica que atendesse àquela neces- sidade, mas foi percebido, até por ex- periências anteriores, que antes de adotar qualquer sistema era necessá- rio ter processos já bem estruturados. “No passado fizemos implementações de sistemas antes dos processos, in- vestimos recursos e efetivamente não tivemos os resultados esperados, por- que os processos não estavam madu- ros. Portanto, chegamos à conclusão de que primeiro tínhamos de estrutu- rar os processos para depois pensar nos sistemas para dar suporte a eles”. Depois de todas essas ponderações, a solução encontrada foi buscar no mercado uma consultoria especializa- da. “Fizemos a licitação, que foi difícil porque não queríamos da consultoria a execução total. Ela deveria trazer a metodologia e o aporte tecnológico, mas trabalhando junto a um grupo nosso, para deixar o conhecimento dentro de casa. E a Integration foi a que demonstrou maior adequação ao que pensávamos conceitualmente. Ela também tinha uma metodologia mui- to mais robusta e um nível de concei- Março/2007 - Revista Tecnologística - 39 Redesenho dos processos de gestão enxuga etapas e promove maior integração na empresa processos.qxp 5/7/2007 9:09 AM Page 39 40 - Revista Tecnologística - Março/2007 to muito elevado em processos”, mani- festa o diretor da Pepsico. Para organizar a participação da Pepsico, foram selecionados oito pro- fissionais, entre gerentes de fábrica, de marketing, de vendas, de compras, da tesouraria e de logística, que formaram o grupo que esteve à frente do projeto e, depois deles, outros funcionários fo- ram integrados. “No total, 147 pessoas participaram do redesenho”, completa Morhy, acres- centando que durante o projeto todos passaram a ter uma visão mais clara das atividades da empresa. “Foi interes- sante o fato de a companhia se redes- cobrir. Nós éramos muito mais funcio- nais, cada um dentro do seu silo, preo- cupados com o seu dia-a-dia, sem en- tender o contexto da organização. Nem todo mundo compreendia o ta- manho dessa cadeia de abastecimento e a importância de otimizá-la, de tra- balhá-la para que ficasse melhor”. Uma situação compreensível para uma em- presa desse porte, que emprega aproxi- madamente sete mil pessoas no país, com a diversidade de produtos que fa- brica e distribui para clientes com ca- racterísticas tão diferentes. Projeto multifunções A Pepsico do Brasil adota três es- tratégias de fluxo operacional. Para aveia, achocolatados e peixes, a ope- ração é centralizada, o que significa que os produtos saem das fábricas di- retamente para os centros de distri- buição e grandes redes de varejo. A marca opera quatro unidades indus- triais – uma em Porto Alegre, que fa- brica aveia; outra em Guarulhos (SP), que produz Toddy e Toddynho; e ou- tras duas em São Gonçalo (RJ) e Itajaí (SC), que respondem pela linha de produtos Coqueiro (sardinha e atum enlatados), além de três CDs, localiza- dos em Sorocaba (SP), Porto Alegre e Recife, que abastecem mais de 2.500 clientes, entre distribuidores, ataca- distas e grande varejo. O segundo grupo de produtos, a linha de salgadinhos Elma Chips, tem uma estratégia de distribuiçãodescen- tralizada, pois das outras quatro plan- tas – Curitiba, Itu (SP), Sete Lagoas (MG) e Recife – a produção vai para 77 centros de distribuição, de onde é dis- tribuída para 220 mil pontos-de-ven- da no país. “A operação é totalmente descentralizada e pulverizada. Entre- gamos os produtos consolidados nes- ses CDs e atendemos os pontos de consumo, onde temos de fazer o ‘por- ta-a-porta’, entregar pacote a pacote, loja a loja”, conta o diretor de Supply Chain da Pepsico, informando que as entregas são feitas com uma frota pró- pria de quase 2 mil vans, assim como parte do transporte das fábricas até os 77 CDs. Neste caso, a empresa mantém seus próprios veículos somente na- quelas rotas que são constantes e com volume. “Quando não é assim, não vale a pena, deixamos para transportadores terceirizados, o que acaba sendo muito mais eficiente”. Já as vans envolvem uma questão de es- tratégia competitiva, como justifica o diretor: “Neste caso, como se trata de venda direta, temos o transporte e o vendedor agregados. O vendedor ofe- rece, vende e já emite a nota fiscal e a cobrança. Então, por enquanto consideramos vantajoso manter a frota própria.” E, para o terceiro grupo de produ- tos, o de bebidas (marcas Pepsi, Gato- rade e Lipton Ice Tea), as operações de produção – a partir de concentrados líquidos produzidos na fábrica da Pep- sico em Manaus – e distribuição são realizadas pela Ambev (Companhia de Bebidas das Américas). Em razão desse cenário, o diretor da Pepsico en- fatiza o significado da participação de um grupo de pessoas com diferentes funções dentro da empresa para o de- senvolvimento do projeto, trazendo indicativos importantes ao longo do trabalho. Um exemplo marcante para ele foi o que aconteceu ao tratarem do ciclo do pedido. “Quando as pessoas que estão envolvidas no dia a dia des- se processo se reuniram, perceberam que, desde o recebimento do pedido até a entrega efetiva, quase 30% das PROCESSOS Ao todo, 147 profissionais participaram do projeto processos.qxp 5/7/2007 9:09 AM Page 40 41 - Revista Tecnologística - Março/2007 atividades realizadas eram desnecessá- rias e foram cortadas”. Arquitetura e implementações Para o redesenho, os processos fo- ram divididos por células da seguinte forma: planejamento de vendas e ope- rações; planejamento de insumos e serviços de fornecedores; gestão de re- lacionamento com o cliente; e gestão de armazenagem e transportes. “Tudo o que se pensar de atividade física de suprimento – desde a pesca do peixe, a colheita da batata ou o chocolate da Costa do Marfim até a entrega no es- tabelecimento próximo ao consumi- dor ou no grande supermercado – é tratado através desses quatro princí- pios. E, não necessariamente envol- vem apenas as áreas de operações”, afirma o diretor da Pepsico. À medida que as propostas de novo desenho dos processos surgiam, eram avaliadas e aprovadas, primeiro pela própria célula, que fazia os ajustes e as devolviam para o grupo, depois eram validadas com as gerências e com as diretorias, até a aprovação final pela presidência da companhia. Dessa fase também participou um grupo de pro- fissionais de outras operações da Pep- sico na América Latina. “Ficou defini- do que, até certo nível de detalhe, o processo poderia ser o mesmo em vá- rios países. Então, mais importante do que validarem o que estava sendo fei- to no Brasil era entender como o pro- cesso estava sendo construído e o que poderia ser aplicado em seus respecti- vos países”, acrescenta Francisco Lei- te, da Integration. Para Morhy, entre os processos des- sas quatro células de redesenho, os mais significativos foram o planeja- mento da demanda e a gestão de rela- cionamento com o cliente. O primei- ro porque não só trouxe maior visibi- lidade da cadeia, mas também porque fez com que a empresa como um to- do passasse a entender a importância de administrar bem a cadeia de abas- tecimento. “Tanto que, hoje, quando as pessoas pensam no processo de supply chain, a primeira coisa que lembram é do planejamento de de- manda, porque sabem dos benefícios que a empresa teve e continua tendo por administrar melhor esta ativida- de. Ninguém fica de fora desse proces- so. Todos participam, desde o presi- dente até o gerente regional, porque sabem que seu desempenho será im- pactado por isso”. Já na gestão de relacionamento com o cliente o projeto demonstrou que, para cada grupo de clientes, seria ne- PROCESSOS A PepsiCo teve origem em1898, nos Estados Unidos, quando o farmacêutico Caleb Bradham formulou a Pepsi-Cola. Hoje, a companhia está presente em 200 países, com diferentes marcas que lhe garantem uma re- ceita liquida total de US$ 30 bilhões, sendo a terceira maior empresa de alimentos e bebidas do mundo. Possui 700 fábricas e três mil centros de distribuição nos cinco continentes, empregan- do mais de 130 mil pessoas. No Brasil desde 1953, quando o refrigerante carro-chefe chegou ao país, atua com marcas de for- te presença no mercado como, Elma Chips, Quaker, Coqueiro, Toddy, Toddynho e Gatorade – além da própria Pepsi-Cola. O faturamento anual é de R$ 2 bi- lhões e a empresa conta com se- te mil funcionários, que atuam em nove unidades industriais e cem filiais de vendas e centros de distribuição. Para abastecer sua variada li- nha de produção, a empresa con- some anualmente 65 mil tonela- das de batata, 52 mil t de milho, 14 mil t de aveia, 6 mil t de fari- nha de trigo e 22,5 milhões de li- tros de óleo de palma, além de outras matérias-primas como ca- cau, leite em pó e açúcar. Marcas sólidas A linha de salgadinhos é distibuída para 220 mil pontos do país processos.qxp 5/7/2007 9:09 AM Page 41 cessário um pacote de serviços diferen- te, o que já vem sendo realizado com sucesso. O atendimento foi então seg- mentado por células de atendimento que tratam do ciclo do pedido por per- fil de cliente. Para isso, um grupo for- mado por pessoal de finanças, crédito, vendas e logística trabalha numa mes- ma sala, com funções integradas. Des- sa maneira, o cliente passa a ter um único ponto de contato, sem ter de passar por várias áreas funcionais du- rante o processo de seu pedido. “Na célula de atendimento, pessoas de diversas áreas resolvem os proble- mas dos clientes em qualquer mo- mento. Quando espalhadas pela em- presa, a cada problema ou necessidade surgida, o cliente tinha de contatar al- guém de uma área específica, ficando o atendimento fragmentado e sem a dimensão do que estava acontecendo. Por isso, trabalhar com todo mundo cara a cara, dentro de uma mesma cé- lula, traz uma série de vantagens. O cliente faz o contato com um único funcionário, que na hora esclarece tu- do, porque tem à sua frente os res- ponsáveis das diferentes áreas”, desta- ca Leite, da Integration. Serviços diferenciados Desde março de 2006 há duas cé- lulas operando nesse modelo, uma para atender ao que internamente é chamado de comércio organizado, que são as grandes redes de super- mercado, e outra para os distribuido- res. No primeiro caso, o piloto foi com o maior cliente da Pepsico e por- que o nível de serviço precisava ser aprimorado. “Na métrica de fill rate de nível de serviço, não chegávamos a 70% do que eles queriam e hoje es- tamos acima de 95%”, justifica Morhy. Nessa célula, o pacote de ser- viços inclui recebimento de pedidos Atendimento ao cliente integrado por setorialistas garante a fidelização processos.qxp 5/7/2007 9:09 AM Page 42 via EDI e agendamento da entrega até o monitoramento do que está na gôndola. Na outra célula está o aten- dimento do ciclo de pedido dos cin- co maiores distribuidores, seleciona- dos entre os cerca de 200 que compõem a carteira da Pepsico. A idéia é, em 2007, expandir esse modelo para toda a base de clientes do auto-serviço e para os distribuido- res, e começar a medir e a comparti- lhar os ganhos de eficiência logistica. “Quando a cadeia é eficiente, todos ganham mesmo e há muitas oportu- nidades, especialmente na etapa de entrega” conta Morhy. Segundo ele, há oportunidades de backhaull,cen- tralizações e muitos formatos que po- dem atender a clientes ou regiões com realidades diferentes. “Neste iní- cio, tivemos também a chance de tes- tar alguns modelos, que serão imple- mentados neste ano”. Outro aspecto importante na Gestão do Relacionamento com o Cliente é o entendimento das suas diferentes necessidades para a cons- trução de pacotes de serviço adequa- dos. “Na Pepsico aprendemos que os pacotes de serviço começam na faci- lidade de colocação de pedidos, pas- sam pela visibilidade dos pedidos, pelo apoio, pelas diferentes formas de unitização, pelo transporte con- tratado e permeiam todo o processo. Aprendemos também que a expecta- tiva mais rigorosa dos nossos clientes está na consistência do atendimento aos pedidos: completos e pontuais. Esse tem sido nosso foco”. Porém, está no status do pedido, segundo Morhy, uma das mudanças mais significativas. “É o que traz mais resultado porque permite ações pró-ativas, tratando melhor o pedi- do. Antes, o cliente ligava e perdía- mos tempo localizando-o; hoje, te- mos sua posição antecipada. Por isso, acho que esta foi para nós a mudança de maior impacto.” A companhia fo- ca com maior intensidade as causas dos problemas. Outra característica que foi acen- tuada a partir dos resultados obtidos com o projeto é que o direcionamen- to de recursos e novos investimentos foram alinhados à importância da ca- deia de abastecimento para o negó- cio da empresa, como afirma o dire- tor da Pepsico. “Qualquer investi- mento da companhia tem um trata- mento muito mais forte no aspecto do supply chain, avaliando-se todos os custos e benefícios financeiros que se pode ter com a logística. Antes, is- so já era considerado, mas hoje há um documento formal, um anexo mandatório, que serve de base para qualquer aprovação de iniciativas de investimento no Brasil”. Com base nisso foi que a empresa recentemente tomou a decisão de ampliar a capacidade produtiva da unidade de Sete Lagoas, para otimi- zar a distribuição da batata Ruffles, e construir uma fábrica de salgadinhos no estado da Bahia. “É uma região onde identificamos uma demanda potencial e para a qual o custo de dis- tribuição na configuração atual é muito alto. Então, valerá a pena fazer uma fábrica na região para um deter- minado grupo de produtos”, conclui Mario Morhy.“É uma região onde identificamos uma demanda poten- cial e para a qual o custo de distri- buição na configuração atual é muito alto. Então, valerá a pena fazer uma fábrica na região para um determina- do grupo de produtos”, conclui Ma- rio Morhy. Sônia Monfil Cardona Integration: (11) 3078-1144 Pepsico: (11) 5188-7169 processos.qxp 5/7/2007 9:09 AM Page 43