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Itdlt'lir sobre 0 pracesso da emancipa~ao politica e sobre a constru~ao
.In Imperio do Brasil significa embrenhar-se em multiplas descri~oes e
IllIrrprcta~oes que tentam, ao longo de quase dois seculos, explicar mo-
vllllciliOSde continuidades e de rupturas no pacto outrara estabelecido
"lItrc as partes da America portuguesa e sua metro pole. Significa anal i-
'ilrscu processo de independencia, em multiplos aspectos, complexidades
r l'ircunstancias historicas especfficas, sem 0 reduzir a uma unica causa
nil data. Significa identificar e compreender 0 novo vocabulario politico
. IIiCcaracteriza as linguagens e a cultura polftica da epoca. Significa, por
!'i'll, revelar identidades e alteridades que pracuraram transformar a in-
d,'pcndencia em urn dos momentos fundadores de uma na~ao que, por-
L.dora de muitos valores e costumes semelhantes aos de Portugal,
prccisava construir-se como ente distinto de tudo 0 que fosse portugues.
Se 0 tema da independencia tern sido recorrente em estudos historio-
grMicos, nao esta, contudo, esgotado, pois ainda suscita opinioes diversas,
dC1110nstrandoque fatos e personagens merecem estudo mais minucioso;
vis6es cristalizadas necessitam de novo olhar; e informa~6es a respeito
das diversas partes que constitufam 0 territorio, naquela epoca, preci-
sam ser coligidas para conhecimento mais denso desse perfodo de cons-
litui~ao de urn pafs chamado Brasil.
Diferenciando-se dos demais movimentos ocorridos na America his-
panica, sobretudo, por seus resultados, a independencia do Brasil deve
ser tambem inserida no processo de transforma~oes do final do seculo XVIII
e infcio do Oitocentos, que provocou 0 come~o do desmoranamento do
Antigo Regime na Penfnsula Iberica, ou seja, um pracesso unico que
possibilitou 0 advento da modernidade em monarquias do Antigo Regime,
97
Cliente
Nota
Conhecer as linhagens historiográficas sobre o tema da independência.nullnullAnalisar a repercussão que o 7 de setembro teve na própria época, principalmente, no âmbito interno, e observar a construção histórica que o tornou data nacional.
..'.1111.11.1101", VIIIIIMI ,
COIllO 1'01"111"'11 e F" 'lId. I ' I \ I ., ,h'"
"
1.1, CV:1JH () a ( (~MIII('gl.n,fiCl desse coujtllllO poll
tlCOcm unldades dlversas e sobcrana." Ikslliln, pOl"lanlo, elll pl"<":lIrlll
apreender como Por (jue . . I
. ...
'
e em nome (c qucm a parte amcricana dll
Impen.o -portugues se separou da antiga IlIctr6pole, adotando novn.
mstltUl~oes, caracterfsticas da politica modern
a I mas .
d '
que convlvera IIIpara oxalmente, com outras, como a escravidao e a exclusao social, llIar'
cando, profundamente, a forma~ao do Estado brasileiro,
VISOES DO PASSADO
o Brasil independente come~ou desde cedo a produzir textos que pro-
curaram exphcar e justificar sua separarao de Portugal E ,., . m vanos casos
os trabal~os. fora~ patrocinados pelo pr6prio governo imperial, como ::
Introdu,ao a h/stona dos principais sucessos po/{ticos do imperio do Brasil
(1825), escnta por Jose da Silva Lisboa, 0 futuro visconde de Cairo. Ao
afIrmar q "GI" d b 'ue a
.
ona e a nr nova carreira de justo Imperio estava re-
servada ao BrasIl" com a declara~ao de sua independencia e Aclama~ao
do Impeno ConstltUClonal do Legftimo Herdei ro da Casa d B
"S'I ' " , e ragan~a,I va L
,
lsboa IIldlcava dOis pontos fundamentai
s que perpa .d . ssaram multasas Interpretn~~es sobre a indepcndencia, ao longo dos tempos. De urn
I,ado,a declara,':lO,Oilseja, 0 7 de setembro, e a aclama~ao de d. Pedro,
COIllOIIln,..:o,flilldadores do imperio do B ' j . d ',
.,'
'"
raSI, e outro, a tentatlva de
eOlISlllllr Il'glllllllliadl' para 0 novo Estado por me ' d " d d dI' '
, 10 a Contmul a e a(1ilasll;l do, IIrap'lIl<;n1111hdo de ca do Atl - t . A' d '" an ICO, 10 a no seculo XIXOlllrn' IlIlIor('~ Iradll'l.irl1ll1 a mesma
Pers pect l' va C Ab L ' ', , omo reu e Ima ou
<
,
.lIrllllll' I.c
'I"" de Mtlllr:I, ao afirmar que a I' ndepend - ' f 'encla 01 0 momento
1111111.111".d" Ilrll,iI r,"di'l.'ah so b 0
,
I .
"
.
,
..
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smgu ar regIme monarqUico de urn
li"rd..I,,,
.I"
""'"
do., 1\l':)l:all~as.l
A Itd, hlIIV" IlIlId'IIIIl"lIal, para a compreensao do papel da heran~a
/'111'"11"1"""111'''1(',',,,, de fonnarao do Brasl' l fo ' , b d F
'
I, po rem, a 0 ra e ran-
I'" II Ad"l!" dc' VIIIIIlial:l'n , Hist6ria geral do BM s/ '1ant d. ~ es e sua separa-
1'/" IIII/,I"I"'I/,I~I/' I" d,' Portugal (2 volumes, aparecidos em 1854 e 1857)
'I"' 11"I/IIII""l'IlIllId('l'IIa e,erita da hl' st ' . ' A ' ', ona no palS. narratJva sobre a
I
98
--. ~
~ . I,.;" I I I., ,; i , I' , ,.' III ,. I ,-. ,.. I" Ii, i"
11111 lit)" d,l ('111.1111.IP;I,'i'll IHd!lll.l, 1ItII'II\.IIII'I. ill',lui ;111.IIIS:1d;\ pt:lo :tutor
11111,."',,';,, d" l"d"!II'"d,'"t'i" c/o /l1,ISiI, r..digid", provavdl1lel1te, el1l
] H76,
",," 'I', pll!llk:ldo elll I'i II>, II 'i'ICS':'" essellci:ll p:lra Varnhagen era dc-
Itlllll"II.I1";1({)[lli1JuidadL' t:lllrt: 0 passado colonial c 0 novo projeto nacio-
11.,1,1'11I.l\il.'"l<lo:l influcl1cia civili'l.:ldora da coloniza,ao portuguesa sobre
I
"'
'v', p,lfs IIOSIr6pieos, A ruptura com 0 7 de setembro, que proclamava
I 11I1I'~rill"br:lsikiro puro", nao abalava os alicerces dessa heran,a, que
11I11I1.lIll'damcnraizados em nossas institui~6es, atraves cia manuten~ao
.I" 1I1"II:lr'iui:le da permanencia da dinastia dos Bragan,a no Brasil. Em
,",\ vi"io, eabia ao herdeiro da coroa 0 merito nao s6 de ter levado a cabo
, .\t. IIl0villlcnto, como tambem de ter organizado "uma s6 na~ao unida e
''''I'', pl'l:luniao desde 0 Amazonas ate ao Rio Grande do SUI".3
A pcrspectiva de Varnbagen come,ou a ser dilufda na obra deJoaquim
~l.lIlod de Macedo, que, para alem de sua "Iiteratura para donzelas",
" "
I'rofessor do Imperial Colegio de Pedro 11e autor de urn dos primei-
""
Ilianuais de hist6ria do Brasil- Li,oes de hist6ria do Brasil para usa
.1", ,illI/lOSdo Imperia! Colegio de Pedro II (1861). Seguindo a tradi,ao
.I" (opoca,em especial do Instituto Hist6rico e Geografico Brasileiro, que
'IITl'ditava que os fatos recentes nao constitufam tema para a hist6ria,
IIt.ll'edo leva seu livro ate a evento que transforma em mita fundador do
Ilr:l,il - a Independencia, A hist6ria do perfodo colonial constitui-se,
1'''1' conseguinte, em narrativa do surgimento e afirma,ao da na,ao.
N:lscia, assim, como assinala Guilherme P.Neves, essa entidade mitol6-
~k:l, 0 Brasil, composto pelas "ra~as" do fndio, do negro e do branco,
,"poliado de suas riquezas pela metr6pole e concebido como uma patria
livre pelos inconfidentes mineiros de 1789.4 Nesse senti do, a trabalho
de Macedo apresentava urn claro objetivo: criar uma na~ao como me-
11I6riacoletiva e idealizada de acontecimentos e personagens excepcio-
lI:lis, organizados em narrativa linear.
A visao do passado portugues enquanto uma bencsse continuou a ser
desconstrufda a partir da de cad a de 1860. 0 meio letrado e politico-
liberais e, mais tarde, adeptos do republicanismo - passou a refletir por
lIleio de uma perspectiva hist6rica sobre a necessidade de se enfatizar a
ruptura do legado de Portugal. Despontava, portanto, uma nova data para
99
a f.:()llIposi,:'io do ililagill:1rio l' dol ~ 1111"'1111\.1111dol IId~~'II, (17 dl' flhril tit
1831 - abdica<;,10 de Pcdl'o 1,0 VC'I'd,ul"II0 .II,' dol IIIdl'pl',ul~IIcia
"
.I"liberdade, uma vez que, doravame, "0 1Ir;"il ,,'ri.1 .II" hr;"ilciros, e livl'!'''
No infcio do seculo XX, as comemol'a,'r,cs do c'clltclI'\l'io da 111.1,'
pendencia levaram a publicac;ao de inumcros textos, cm espccial, p,,,
iniciativas do Instituto Hist6rico e Geognifico Brasileiro. Uma nova .I,
mensao tambem era incorporadaa elabomc;ao da mem6ria nacioll:1l,
.1"
ser proposta por essa instituic;ao a realizac;ao de urn Congresso ImCl"lI,'
cional de Hist6ria da America. Buscava-se urn denominador comum
'"'Brasil e aos demais paises da America Latina, ultrapassando-se a pc,.
pectiva, construida no pr6prio IHGB, de uma identidade nacional bra"
leira mera heranc;a europeia.' Publicada an os mais tarde, porem, ailld"
no rastro das comemorac;6es, encontram-se as obras de Tobias Monteil'.,
,
que seguiram a tradic;ao de estudos pautados em grande numero de fOil
tes documentais.7
Ainda analisando a independencia como urn elo entre 0 pass:1d"
colonial e a nova nac;ao, encontra-se Manuel de Oliveira Lima, urn mona,
quista a servic;o da republica. Para 0 autor, a presenc;a da corte possibilitoll
a criac;ao de urn Estado soberano que forjou peculiar civilizac;ao na AmC,.
rica. A independencia, urn "desquite amigavel", na expressao do auto 1',
construiu urn novo Estado, sem, contudo, destruir as bases desse legado."
A partir dos anos 1930, outras interpretac;6es fizeram-se presentcs,
absorvendo novas matrizes metodol6gicas que rompiam, em parte, com
a maneira de escrever a hist6ria no sentido de Varnhagen. Ainda que a
tem:itica da independencia nao fosse contemplada com obms especificas,
muitos trabalhos surgiram procurando explicar a questao nacional, soh
o prisma das forc;as economico-sociais, tambem resultantes do contexto
do desenvolvimento do capitalismo ap6s a Primeira Grande Guerra. Nessa
linha, destacam-se, entre outros, os textos de Caio Prado Junior e dc
Sergio Buarque de Holanda. 0 primeiro, ao aproximar-se de uma abol'-
dagem marxista e ao destacar os elementos economico-sociais, enfatizou
a dimensao da ruptura no processo de independencia do Brasil. Anos
mais tarde, mostrou tambem a "decomposic;ao do sistema colonial" resul-
tante das "forc;as renovadoms" que atuavam em seu interior. Advertia,
100
I
.
!
..
,
.
~
IIIIIIII~IIIHI qlu' "U illdl'IH'IIII~II~ 1111"llfth.l d.II.III<'I'II.I" 11,'11('\lilV:1 "illl;I"
IIlliI~ Ilcl p"'~ado" I.' 11;'11d("IVIIVII de 1I1111'11I1r1lpl'uiclo,"
'H~qJ.ill HII,lrqlll." pOl' Silil ve'/. ('III :ll'ligtl qill.' M':tOl'IIOli refel'cnda 110S
I dlid", .1,1illdl'\1l'nd~lIcia, II hCl'all<;:1colonial- sua des:1gl'egac;50, de-
"1""'" Oil <Jill'
11,10h:1vi:1uma associa<;ao dil'cta entre a emancipac;ao
I" ,iii ili' " 'J scnt imellto n:1cional. Para 0 autor, "0 7 de setembro vai cons-
,ltlill .illlpics epis6dio de uma guerra civil de portugueses, iniciada em
I" .'11'0111a I'cvolu<;ao liberal portuguesa". Nela, os brasileiros envolve-
','"I'~(' "apenas em sua condic;ao de portugueses do aquem-mar". POI'
I ,,"...guinte, foi entre 1808 e 1831 "que se assinala uma fecunda transa-
,,1,," ('litre "0 nosso passado colonial e as nossas instituic;6es nacionais" .10
Nos auosl970, 0 temada independencia ganhou novo desraque
'I,,,",do d:1scomemorac;6es de seu sesquicentenario, na epoca da ditadu-
I" IlIilit:1l'.Em oposic;ao aos festejos publicos, em que se incluiu 0 retor-
I'" ,It" I'estos mortais de Pedro I para 0 Brasil, res salta 0 trabalho de Jose
11"1"~l'ioRodrigues, numa perspectiva nacionalista, em que a indepen-
.I~I" ia constitufa 0 ponto final de urn processo linear, que, desde 0 secu-
I" XVIII e ate do XVII, forjara uma consciencia nacional. Nessa
pl'lspl'ctiva, em que as cortes tin ham 0 objetivo especifico de recolonizar
"
111':lsil,com 0 restabelecimento do exclusivo economico, 1822 signifi-
IilV:lllina revoluc;ao, que rompia os lac;os que prendiam a America por-
1'lglll'Saa antiga metr6pole e punha fim as tradic;6es coloniais."
Dl'sde 0 infcio da decada de 1970, com a crescente produc;ao univer-
'"'\l'i:1 ligada a implantac;ao dos programas de p6s-graduac;ao, ocorre-
I'll1nontras abordagens em relac;ao a independencia, ampliando em muito
'"
est udos hist6ricos sobre a tematica. Em primeiro lugar, inserida a di-
II,IIIIicametr6pole/colonia nos circuitos da acumulac;ao primitiva do ca-
pit:ll, a independencia passou a constituir 0 resultado da crise, nos finais
.I" seculo XVIII, do sistema colonial dos tempos modern os; 0 trabalho
.'"el1cial nesse sentido foi 0 de Fernando Novais e de Carlos Guilherme
Mota. A independencia era 0 momenta inicial de urn longo processo de
'"ptura, resultado da desagregac;ao do sistema colonial c da montagem
do Estado nacionalY Nessa linha, veio a luz a coletanea organizada por
Mota, 1822: dimensoes, que propunha explicar 0 sentido da indepen-
101
.
d,CJ1~i:t:tparllr dt.' lllIl;llwr.'IWlIIV,1 IIlaL, geml, nll'nv(o~ d,lll i.\(' do :lJ\ligt,
slstcllla colonial, c out 1":111I,tlsl'S!H'l:rnca, ell} que M':anal iSiI!';\!!1dlfcl'l:l\ll'~
casas regiol13is, uma inova,:;o na abordagelll da telll:\tica. COlli a parli
cipac;ao de autores brasileiros e portugueses, alguns estudos tornaralll-'"
referencia, como a de Maria Odila Silva Dias. Em sua visao, a separa,:;o
politica nao trouxe em seu bojo qualquer ruptura, mas abriu C3minh"
para uma reelaborac;ao do passado colonial, que pode ser explicada elll
func;ao dos interesses das elites metropolitanas e coloniais, que ganha-
ram maior forc;a com a vinda da corte em 1808.13
Posteriormente, constatadas as muitas permanencias de longa dura-
,ao da formac;ao social brasileira, uma serie de estudos, tanto no Brasil
quanto em Portugal, procuraram inserir a independencia na dinamica
mais profunda do Antigo Regime, destacando os fatores politicos e cui-
turais que provocaram uma disputa pela hegemonia no interior do im-
perio luso-brasileiro e que indicam a presenc;a e 0 confronto de diferentes
modalidades de apreensao do mundo naquele momento, implicando uma
complexidade que nao e estranha ao mundo atua!. Nessa abordagem,
podem ser destacados dois trabalhos pioneiros, os de Maria Beatriz Nizza
da Silva e a do historiador portugues Valentim Alexandre.14
Desse ponto de vista mais recente de estudos, outras preocupac;oes
aflora ram - a participac;ao das camadas populares; 15a independencia e
a formac;ao de identidades nacionais; 160 debate politico e a estudo do
vocabulario politico; 17 a formac;ao de espac;osde sociabilidadels -, en-
riquecendo a qualidade do debate sobre a independencia. Para alem des-
sasquestoes, tambem surgiram trabalhos acerca das varias parres do Brasil,
no momento do processo da emancipac;ao politica, demonstrando as com-
plexidades existentes entre as diversas provincias e a corte fluminense,
como ja apontou com maestria Evaldo Cabral de Mello, ao afirmar que
a "fundac;ao do Imperio e ainda hoje uma hist6ria contada exclusivamente
do ponto de vista do Rio de Janeiro"." Verifica-se, pOI'conseguinte, que
autros caminhos ainda podem ser trilhados, como comprovam as novas
discussoes, que resultaram em trabalhos de folego, trazendo contribui-
,6es diversas de autores nacionais e estrangeiros.20
102
..
1.1,,1111 I j"'lllj.,.. tj.. !Itld 111.1'111' 1;\
NIIV/I\ IN\l11 UI~CI,~ I'Olllltll\ Nil 11M!IHllI I'OHIUC,UESII
AllIlIllIlIl.llil. de Ilrito i\rag~o e Vasconcellos, em Mcm6rias sobre 0 esta-
1.,1,..1111"1110 do imperio do 1!rasil, au 110VOimperio lusital1o, traduzia as
"'"1'1.111,''''' os :1I1seiosde seus contempor:lneos, suscitados pela chegada
.I,ll lilli' portllgnesa ao Rio de Janeiro, em 7 de marc;o de 1808:
() llra,il soberbo por conteI' hoje em si a Imortal Principe, que nele
sc Jignou estabelecer 0 seu Assento, adquire urn tesouro mais pre-
cioso, que 0 aorea metal que desentranha, e os diamantes e rub is
quc () matizam. Ele ja nao sera uma Colonia marftima, isenta do
(omercio das Na,6es como ate agora, mas sim urn poderoso Impe-
rio, que vira a ser 0 moderador da Europa, 0 :irbitro da Asia e a
dominador da Africa.
11l'l'L,,;~o desse grande imperio, tambem sonhado par Luiz Gonc;alves
dos S"ntos, polemista famosa, conhecido como padre Perereca,2I exigia,
"0I'~1II,profunda transformac;ao tanto da capital, a Rio de Janeiro,quanto
d:1S l'ngrenagens administrativas e politicas que faziam mover 0 mundo
IlIs(dlrasileiro, pais fazia-se necessaria, sobretudo, a recriac;ao do apare-
Iho central da coroa portuguesa em terras americanas.
i\ America portuguesa, nesse momenta, caracterizava-se como uma
wcinlade ainda profundamente marcada pelas estruturas do Antigo
l(egi111e.Constituia-se em um mosaico de atribuic;oes e poderes entre as
v~J'ios6rgaos administrativos, muitas vezes, entrelac;ados e superpostos
1111Saos outros, que se distribuiam em tres niveis principais: os vice-reis,
os governadores das capitanias e as camaras municipais. Mantendo rela-
,fJCsentre si, mas tambem com a pr6pria coroa, ainda sediada em Lisboa,
procuravam, principalmente, alem da defesa do territ6rio e da manu-
len,ao da ordem, garantir a eficiencia da administrac;ao coJonial, apesar
do enfrentamento de diversos problemas, da precariedade dos recursos
e da dificil dissociac;ao entre as interesses publicos e privados.
Nesse senti do, se as primeiros atos da regencia joanina no Brasil foram
resultantes da conjuntura do momenta, definida pelas guerras napole6-
103
-
nicas, on s<'ja,a ahcrllIl'n dos pOrlos d.l<,ollllll.I~' 1I.1,'IIr.~IIlnl/{:ls(28 .I,.
janeiro de 18(8),0 govel'no pOrlllglles II~Opodillpl'csdlldil' de esl.d",
Iecer as institui~oes polfticas destinadas ~ adlldnistr:I<;;'o do novo imp"
rio luso-brasileiI'O. Em pl'imeil'O lugar, fazia-se necess~l'io nonll'al'
0'ministros para as secremrias de Estado, que ernm os 61'g50s cel1lmis .I,.
governo. a fato mais significativo nessa quest50 foi a substitui<;;io .I,'
Antonio Araujo de Azevedo (futuro conde da Barca) pOI' Rodrigo .I,.
Souza CoUtinho, como ministro e secretario de Estado dos Neg6cios I~s
trangeiros e da Guerra. a retorno de d. Rodrigo ao Ministerio justifiCl'
va-se pOI' sua alian~a com os ingleses e sua posi~ao comniria it Fl':1n,'n
napoleonica. As outras duas pastas - a Secretaria de Estado dos Neg,',
cios do Reino e a Secretaria de Estado dos Neg6cios da Marinha e Do
mfnios Ultramarinos-, tambem foram preenchidas pOI'd. Fernando.los~
de Portugal, futuro conde e marques de Aguiar, e pOI'.1050 Rodrigues .I,.
Sa e Melo Menezes e Souto MaioI', visconde (mais tarde conde) de Anadi:l,
respectivamente. Anos mais tarde, uma figura central da administra~;io
POrtuguesa foi a de Tomas Vilanova Portugal, que ocupou as tres pastas,
a partir de 1817, permanecendo mais tempo como ministro dos Neg6cios
do Brasil (1817-1821). Deve-se destacar, no entanto, que as secretal'ias
foram reorganizadas em virtude de funcionar no Brasil e nao mais em
Portugal. Assim, a Secretaria dos Neg6cios do Reino tornou-se dos Ne-
g6cios do Brasil, deixando de pertencer aos Domfnios Ultramarinos.
A Secretaria dos Neg6cios da Fazenda nao foi recriada de forma clara,
cabendo suas fun~oes ao ministro que ocupava a pasta dos Neg6cios do
Brasil, enquanto presidente do Real Erario.2' Ainda em fun~ao da con.
juntura de guerra, cl'iou-se urn Conselho Supremo Militar, em 10 de abl'il
de 1808, responsavel, na parte militar, pelas materias ate entao atribufdas
ao Conselho da Guerra e UItramar.
Assistido pOl' seus ministros, d. Joao passou a estabelecer uma serie
de atos administrativos e de outros 6rgaos governamentais que apoma-
yam para a inversao do estatuto colonial do Brasil. Assim, foram criados
todos os tribunais superiores que tinham sede em Lisboa. POI'alvara de
22 de abril, erigiu-se 0 Tribunal da Mesa do Desembargo do Pa~o e da
Consciencia e Ordens, composto pOl' urn presidente, desembargadores e
104
1lIlI,llIlIilllos, tod", 1\1111\1'1\11""1'1'10I..I, ( :,II""1'011.11,1,lIil realld:lde, a dois
"'II"'" 1I1I'lropolil;1I101,nl.,d", .1.."1.,,, ,~, 1110XVI, "III:al'l'egalido-se, urn,
"
~I"",I .I" Ikselilhal'[\o do 1':1<;0,d01p,'dldos dil'igidos oll'emmente ao
"'''",In'n, como Sllpl'emo dispensadol' da justi<;a,que mamfestava sua.h-
I
'
, tro a Mesa da Consclen-
~I' VOIII:lde pOI' decl'eW" e lIIera gra,a, e, 0 ou,
.,
O d 1. 'osos que cabmm a coroa, I"" ( )I'dens, ocupan o-se os assuntos I'e Igi ,
1'''1 lor<;:1do padroado. A administra~ao judiciaria foi co~pl:mentada
"
1111
'I cleva,50 do tribunal do Rio de Janeiro, a Rela,ao, a Casa .de
'"plica<;~o no Brasil, em maio de 1808,.0~ seja, c~mo tribunal supenor
.I, jllsli,'a, que deliberava os pleitos em ultima lI1stancla,.exercendo s~as
I "II'I1CI~ncias, pelo menos no primeiro ano, sobre 0 Para e
~
Maranha~,
.,,1,,'" a Rela~50 da Bahia, que foi mantida, e, fora do tewrono.brasllel-
I", sobl'e as ilhas dos A,ores e da Madeira. Criaram-se, tambem, du~s
tIIIV;ISI{cla,oes, a do Maranhao (1812) e a de Pernambuco (1.821). Surglll
IIIkal.lunta do Comercio e Agricultura, Fabricas e Naveg:~ao do Estado
do Ill'asii e Domfnios Ultramarinos, absorvendo as fun~oes da Mesa da
III'pe<;50do Rio de Janeiro.
. .
i\inda foram institufdas a Chancelaria-Mor do Estado do Brasil, ana-
I"g:l ~ oe Lisboa, e estabelecido 0 Registro de. M~rc~s, Deve-se de~tacar
'I"e inumeras dignidades e honrarias foram dlsmbUidas pOI'd. Joao aos
I'lII'lugueses do Brasil, como retribui~ao do auxfho fll1ancelro dado pelos
gmlldes comerciantes as precarias finan~as do governo. Regra ;eral, as
digllidades eram distribufdas ap6s as grandes festas da corte, Foram
'Tconstitufdos 0 Conselho da Fazenda e 0 Erario Regio, lI1corp~rados
,'lIluma s6 institui~ao, que devia fazeI' a administra~ao dos bens regIos e
dos fundos publicos do Estado do Brasil e dos domfnios u~tra~annos.
1>eve-se destacar que 0 governo das colonias e daspossesso~s msulares
Vtlube exc\usivamente ao rei e a seus ministros no RI~ de .Ianelw, pwvo-
l'nmlo certo constrangimento aos governadores do Remo, em Lisboa, pms
. I - d t Opas francesas do tern-e"es nao aceitavam que, apos a expu sao as I'
. .
16rio portugues, nao continuassem a tel' 0 direito departlclpar da gover-
IIn~50 da Madeira e dos A~ores, ate porque essas Ilhas estavam mUlto
IIlais pr6ximas de Portugal do que do Brasil.
105
""M'
,
A IlI1elld~lIda-( ;''I'al de !'olkLI, 111',,1,,1.,,1.,
"'''1111'1.,",i"<'lIle cllIl.i,ho'!desde 1760, foi lamhi'm eSlabclecida, I hl!';IIIII' II IIdlllilli'll'a,':'o de !'allio
Fernandes Viana (1808-1821),
aii'm de /Jolid,,,',, cid"de, 110selliido
'I"I'era
°
da epoca, aproximando-a daquilo que se Come,ava a considel'al'
"
civiliza,ao, a Intendencia tinha por missao oUtras fun,6es: "castigar
("perturbadores da ordem civil e das tranquilidades das familias e os
corruptores da moral publica"; exercer tarefas como a de urbaniza,no
do Rio de Janeiro, a de controle dos espet:kulos e festejos publicos e a
de solu,ao dos conflitos conjugais, familiares e de vizinhan,a, assegurad"
pela assinatura dos "termos de bem viver." Dessa forma, embora sua
jurisdi,ao abrangesse todas as capitanias, acabou concentrando suas ati-
vidades na capital. A unica exce,ao, sob esse aspecto, era a preocupa,ao
com a divu]ga,ao das ideias revoluciom'irias, que a colocava em Contato
com 0 pais inteiro.
o pape] essencial desses atos no novo cotidiano da corte fluminense
demonstrava-se atraves dos avisos pub]icados na Gazeta do Rio de janeiro,
que anunciavam, desde seus primeiros numeros, a venda de alvaras e
decretos regios que instituiam esses 6rgaos, nas casas de do is me rcad 0res
de livros - Paulo Martin, distl'ibuidor oficial da Gazeta, estabelecido na
rua da Quilanda e na de Manoel Jorge da Silva."
10do esse al'cabou,o administrativo possibilitou a contrata,ao de
im'lIl1eros fUl1ciollarios para os diferentes niveis de governo. Os cargos
IIlais importan!es ligados as secretarias de Estado permaneceram nas maos
da, pCS.'O:l.'liluladas que acompanharam a familia real. Na maioria, per-
1"lIc'i:1I1Ia lil1hagens decadentes, e moviam-nas interesses pessoais, Na
Il'adi,'no portugl1esa de "inchamento" dos setores improdutivos,2S bus-
,'IIV:11111il'ar proveito da situa,ao extraordinaria em que se encontravam,"l"IIIIII""lIdocargos inexpressivos na burocracia, cujos soldos serviam para
""<'I;lIral' lima existcncia ociosa. Abaixo, havia a multidao de cerca de
IIlilscrvidores do I'a,o, uma vez que cada membro da famnia real e cada
ca,,, lIobre pOs<ufamseus pr6prios criados, bem remunerados e dispondo
dc varia, I'egalias,conforme a condi,ao: "ra,ao", moradias pagas, cava-
lli (' ni:1do acompanhante, e ate mesmo seges.
106
I\IAIIII I rlllli II f4A INIII t'i NllrNI IA
Altlll ,Ii"o, havi,lllt IV'" 11111:11I."11."IIIt:m', cOII.,elhosolilribllll:lis cria-
oIII~Oil ell1 "tividades, nit ('111010de,collhecidas no Rio de Janeiro
""
IIIVOn"I:1,COmOgelll i"holllells d:1dmara-d'el-rei, veadores, camarei-
,," IIIOI"C'S,donas-da-dmara, damas do I'a,o, a,afaras, guarda.roupas,
IIIIIl'dcIIIIOS-mores,guarda-joias, servidores de toalha, mo,os de lavor, cna-
01,,,de qllarto, oficiais da nobreza de armas. Para tais cargos foram nomea.
d,,, prindpalmente os portugueses vindos com a corte, mas novos empregos
IOl'a1l1oferecidos a pessoas nascidas no Brasil, nas varias reparti,6es e ms-
litlli,C)es que se instituiram para atender a burocracia do Estado, co":o.os
d(' mcdicos e cirurgi6es, capelaes e confessores, mo,os da Camara, escnvaes
C'mllilos outros. Tal situa,ao acabou par favorecer as elites burocraticas, a
I'opllla,ao de bachareis e os homens de letras, que, sem condi,6esde so-
hreviver apenas de seus escritos, buscaram ascender na escala socIal par
Mil!habilidade e seu saber. Por conseguinte, esses individuos faram bene-
fidados, em fun,ao da longa permanencia da corte no Brasil, e nao mais
nceiravam perder os privilegios que acabaram por incorporar.
.
A reconstru,ao desse aparelho central e das principais estruturas adml-
lIistrativas da coroa portuguesa, no lado de ca do Atlantico, contribuiu
para urn alargamento da centraliza,ao de poder na cidade do Rio
~e
Janeiro, que passou a figurar, com 0 passar dos an os, como a nova metro-
pole em rela,ao as demais capitanias do Brasil. Possibilitou, aSSlm,a cna.
,ao de uma nova engrenagem, ampliando a interven,aoda coroa na
maquina administrativa e fiscal das diversas partes do ternt6no amencano.
o DIALOGO DA CORTE NO RIO DE JANEIRO E AS DEMAIS PARTES DO IMPERIO
o "novo imperio do Brasil" que se estruturava no lado de c:1do atlantico,
a partir da instala,ao da corte portuguesa no Rio de Janeiro, na visao de
epoca, longe de vislumbrar iI ideia de separa,ao, pretendla benehclar-s.e
com uma serie de reformas - defendidas pelos ilustrados luso-brastlel-
ros, como Hip6lito da Costa, que, em seu Correia Braziliense, argume~-
tava a necessidade de "mudan,as graduais e melhoramentos nas leIs,
'07
'\Jitndas pclilS l'i"t.:IIIISI;'III..'ias dtJ, 11'1111""'" t." qllt~
"C IIIIIHl11llilili "Pl'll'"progrcssos dc civiliza"io"!"
Em primeiro lugar, lornava-sc illlprcsdlldfVl'l, (r"llic
,) lIova silll'I~.l"
politica, atingir urn equilibrio entre as direrellies partes do imp6rio <11111.
de que se cumprisse aquela premissa levantada por Rod/'igo de S,",,,,
Coutinho, em 1803, em que 0 portugues, "nascido nas quntro
part'" d,.
mundo", se senti sse unicamente e nao mais do que portugues.27 I lenl"l
ro dessa tradi<;:aodas Luzes, em que se dava conta do papel que podlo'
adquirir uma ideologia, antecipando-se it concep,ao de forma,iio
d"ona,6es no seculo XIX, uma vez mais, Hip61ito da Costa chamava al"11
,ao em seu peri6dico para essa situa,ao.
Urn Monarca, que possui tao extensos dominios, como e 0 SobeL I
no de Portugal, nao deve fazer distin<;:aoentre provincia, e prov(1I
cia de seus Estados, resida a corte onde residir. A Beira, 0 Algarv.,.
o Brasil, a india devem todos ser considerados como partes ;111<'
grantes do Imperio, devem evitar-se as odiosas diferen<;:as de nOllll',
de Capitanias e Provincias, e ainda mais se devem evitar as pernicio.
sas consequencias que desses erraclos nomes se seguem.28
Todas as regi6es, sem exce,ao, deveriam constituir-se em partes integran-
tes do imperio, em condi,6es de igualdade social e politica e liberadas,
enEim, da maior parte dos entraves caracterfsticos do sistema colonial.
Para 0 autor, a corte na America representava 0 caminho para se remediar
tais problemas it medida que se consolidassem todos os domfnios por-
tugueses em urn s6 imperio, que usufrufsse as mesmas leis e a mesma
administra,ao. Nao devia haver mais "conquistadores" nem "povos con-
quistados", pois todos os portugueses d'aquem e d'alem-mar partilha-
Yam la,os comuns de religiao, lingua e lei. Afinal, 0 desenvolvimento "das
rela,6es de famflia entre 0 Brasil e Portugal" prometia "aos dois Reinos
irmaos uma serie de prosperidades".29
Em segundo lugar, era necessario tambem fornecer ao carl'O politico
da monarquia no territ6rio americano urn novo sistema de organiza,ao
interna, substituindo 0 despotismo dos governos militares das capitanias
108
- ...
I 'IAlln I 111111111 A. NA. Ifjllll'l Nllt WI"
I'''' 11111f\ovnllo dvil bt'II' 1t'I\III'lIlo, HI''' pll"d~o l'II,lIb6111pilI'
(jm a~)s
,,1'""'0 d,' lIIinisll'tls e a pnvl"l.slIl.ld,' dos Itlllclon,lnos da 1110narqUIa.
N" rlll,IIIIO, as IIIcdidas adlllinislr"liv"s e polfticas niio lograram alc~n-
\ ,II I,d objclivo. Dc UIII lado, aillda que os governadores das capltamas
1,,1.,llv,','elll diminufdo seu poder, a centraliza,ao governamental a parur
01" 1(10 dc laneiro Icvou a urn declfnio da autonomia local, ongmando,
,
h d '" t' "30 De outro as,,'oorllllillenios e conflltos nas c ama as pa nas .
"I ''I"I,lIli"s passavam a vel' com olhos de ressentimento a centrahdade do
It10d,' '"neiro. Demonstrando tais rivalidades e dlsputas de poder den-
I<0 d,l 'hierarquia administrativa, a Camara da cidade da BahIa fIzera,
"III IHOH,uma suplica ao prfncipe regente para que a ,corte ah Fosse
""..bdecida. Justificava tal pedido por sua posi,ao geografIca, malS van-
1001"S<1para 0 comercio e expedi,ao de todos os neg6cios internos e ex-
IrlllllS, e por ser "incomparavelmente mais rica que a Cldade do RIO de
1.IIIt'il'O",porem, sobretudo, pelo "carater sensfvel e externamente afe-
I<IOSO,que distingue seus habitantes".31
.,.,
Decorridos os primeiros anos da administra,ao Joanma e fmd~ a m-
Vil,nodo territ6rio portugues pelas tropas francesas, algumas prov,mclas,
101110come,avam a ser denominadas as capitanias, voltavam a hgar-~e
di !'elamente a Lisboa, em fun<;:ao,sobretudo, de seus mteresses econo-
'lIiws e comerciais, como era 0 caso do Para, do Maranhao e mesmo
~a
Itlhia. Suas redes comerciais distinguiam-se daquelas do Cent:o-Su] do paiS,
r,specialmente dos "mercadores de grosso trato" que se dedlcavam a~ co-
1I16rciode importa<;:ao e exporta,ao no atacado, ao papel-:- na ausencla
tI" illstitui,6es bancarias - de prestamistas, ao trafico negrelro e a outras
. 'pem,6es que exigiam elevados capitais, mas permltlam avultados lucras,
willa a arrecada,ao dos impostos, efetuada pOI' meio de urn sistema de
wlltratos arrematados it coroa. Esses negociantes, com 0 estabeleCl~nento
da corte no Rio de Janeiro, consolidaram sua posi,ao, com uma sene de
Llvores que obtiveram do soberano. Ao mesmo tempo, passaram a dlspor
d" influencia, por meio das rela,6es pessoais que de,senvolveram ou dos
casamentos que contrafram. Recorrendo as mesmas tat/cas, mlsturaram-:~
wm as elites agrarias, cujos valores de vida amblcl,ona;am, pelo ~ue r
..
pr"sentavam de nobreza, manifestando urn curioso ' proJeto de arCalsmo,
109
-
'"I- J
Irpko do Alii il:II 1("l\illl", qll~
,/""" Ilirs Fragoso e Mallolo Fiorelli ill"
d,:sra('al':lIlI," 1)"'''III''lIIeira, a,'nb,ll':1l1!pOr cOllslituir 11111grupo bastnll
I,' hOlllog~II<'oe podcroso, solidanlellte enraizado no Centro-Sill, ('IIi..
"llIa~,io scria dc('isivana independencia, de forma distinta daqlleles quo
habitavalll 0 Nul'le e 0 Nordeste, ainda dependentes em muito das cas;"
('omerciais pol'luguesas. Segundo Sierra y Mariscal, a passagem de SII;IMajestalk p;II'a0 Brasil fez da corte do Rio de Janeiro 0 "receptaculo d,:
tll<LISas riqlleZl1sdo Imperio Portugues", atraindo nao s6 urn grand,'
movimenlo CIII1!eJ'cialpara seus portOS,como tambem colhendo urn grall-
dc m'nllero dc impostos das demais provincias, especialmente as do Nor-
IC, que pa","',"n a obter menos vantagens do que a sede da nova Corte,
A"im,o I(io de Jalleiro transformou-se no "parasito do Imperio portu-
glles" acab;lI!do pOI'atrair "0 6dio de lOdas as provincias".3J
Desse 1110.10,em alguns momentas de tensao do jogo politico, as di-
versas provrlld;IS, que compunham esse imenso territ6rio do Brasil, ado-
I;n"l1l1postlll':1Sque evidenciaram urn conflito entre 0 centralismo da corte
Ihuninense e 0 seu desejo de urn autogoverno provincial. Acabaram,
muilas vezes, porter que escolher entre Lisboa e 0 Rio de Janeiro, como
'I\;onteceu quando da eelosao do movimento constitucionalista portugues
c, posteriOrIllente, quando das guerras de independencia. Os pr6prios
representantes do Brasil nas cortes de Lisboa afirmavam que, para "alem
de representarem os interesses da Na~iio inteira", tinham "uma obrigaqao
particular com os interesses de seu pais e necessidades de sua provin-
cia",H Ern verdade, a ideia de Brasil, como "uma peqa Majestosa e inteiriqa
de arquitetura social desde 0 Prata ate ao Amazonas", nas palavras de
Jose Bonif,\cio de Andrade e Silva, ainda nao se consolidara.J5
Um exemplo desses conflitos de interesses pode ser encontrado na
l(cvolu,iio l'ernambucana de 1817, que teve infcio em 6 de marqo no
I(ccife, motivada pela prisao de alguns militares, denunciados pela orga-
Itiza~iio de jantares e Assembleias em que se emitiam principios sedicio-
"IS, amea,ando a tranquilidade publica. 0 motim alastrou-se pelas ruas,
,'OUIquebra-quebras e tumultos, dirigidos em especial contra os naturais
.I" Portugal, e culminou, no dia seguinte, com a precipitada fuga do go-
Vl'l'I1adorpara 0 Rio de Janeiro, sern esbo,ar rea,iio. Os revoltosos ins-
110
1""\1'" I "11111 I'
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I" .,
11111(111111 UIII fJ,OV('1'I1O pr()Vi~~111I ~ tlllll)1,..111 pol' l't'prCSl'lIlantcs da ;\gri~
,11111111\, do (olllrn,:io, d;1 IIlilldMnlll1l';l, d;1 IfOp:! C do dcro, GO qual se
," ,,"''''lllon 11111cOllselho, fOl'lllado pOI' nOl:\veis locais. De imedialO,
,
'Oil<('I"'II-se allmento de soldo aos militares e aboliram-se alguns impos-
I'''. I>iVl'rsasproclama,6cs procuraram, entiio, conteI' 0 antilusitanismo
01,\IIILli'l-millda, assegurar a adesiio da populaqao ao movirnento e re-
to
'I~rtl' () uniiio com as provincias de Alagoas, Paraiba e Rio Grande do
NII!!(', que tin ham espontaneamente aderido. Urn pouco mms tarde,
, IlI'gou-se a rcdigir uma Lei Orgdnica, esbo,o de Constitui,ao,
o movimento enfraqueceu-se devido as discordancias internas e ao
I j'( "io dos proprietarios de terra ern vel' abolida a escravidiio. Alem dis-
,", os insurretos nao obtiveram exito na busca de apoio realizada junto
II, :lIlIoridades de Washington e de Londres. Contidos pelo bloqueio
III;lrftimo, os rebel des niio resistiram as for,as enviadas porterra da Bahia,
!<'I1I.Iendo-seem 19 de maio. Seguiu-se uma impiedosa devassa que con-
d"nou mais de 200 implicados as pris6es na Bahia, onde permaneceram
,III'0 indulto das cortes de Lisboa de 1821, e determinou a execu,ao dos
I'l'incipais lideres do movimento, entre os quais, 0 conhecido pa~re
Miguelinho (Miguel Joaquim de Almeida e Castro), professor de reton-
,';I do Seminario de Olinda e secretario do governo, e 0 celebre padre
J(oma Qose Inacio Ribeiro de Abreu e Lima), pai do ja citado Abreu e
I.ima, oriundo de familia nobre e abastada.
A revoluqiio de 1817, apresentando, sem duvida, sentimentos autOno-
mistas e ideais republican os, hoje em dia, niio e considerada, em sua es-
sencia, simples prenuncio da independencia de 1822. Ela resultou de uma
combina,iio de fatores. Em primeiro lugar, em decorrencia da partlclpa-
,iio nas lutas para a expulsiio dos holandeses, como mostrou Evaldo
Cabral de Mello," Pernambuco distinguia-se pol' original imaginario, que
valorizava a ideia de uma nobreza da terra, alicerqada nas gl6rias passa-
das, e que justificava a reivindicaqao de tratamento diferenciado para a
provincia. Tal reivindicaqiio, apesar de inumeras rivalidades local~~con-
tribula para acentuar, de forma mais intensa que ern outras reglOes, a
oposiqiio entre naturais do Brasil e de Portugal. Nessa perspect~v~,.oes-
tabelecimento da corte no Rio de Janeiro, ern vez de regalias e prlVlleglos,
111
It 11111"11 IMI'I "IAI VIIIIIMI I I . I ..
j.
"
I ,." ~j j" . jj.. 1/ji" I ,. Ii "I IjI ,,,
trouxe UI11 exeesso de cobran\'as e il11posi<;';es, que cull11inar'lIn COI11m
tributos exigidos para custear a C3mpanha militar na Cisplalina, IlIlIn
momento em que a seca de 1816 agravava ainda mais os crOllico,
problemas de abastecimento das cidades nordestinas, provocando 0 des.
contentamento da popula<;ao miuda. Finalmente, e preciso niio esqlle-
eer que Pernambuco possuia urna institui<;ao de ensino unica na colOnia
- a Seminario
~~
Olinda (1800) - capaz de formar rada urna gera<;,io,
sobretudo de clengos, afmada com os ideais do reformismo ilustrado ,.
queganhou, na segunda decada do seculo XIX, espa<;o proprio de sod.
ablhdade com 0 aparecimento da ma<;onaria.
Dessa mane ira, a revolu<;ao de 1817 denunciou a polftica da corte
no Ri,o de Ja~eiro de transformar-se em nova metro pole em rela<;iio as
demms provmCI3S, revel an do as tens6es que ja dividiam 0 Brasil. Peb
repercussiio que alcan<;ou na Europa, enfraqueceu a imagem de estabili-
dade que 0 pais gozava frente as agita<;6es da America espanhola di '., I '
, ml
nU111<0 Igualmente 0 prestigio da monarquia luso-brasileira perante os
descontentamentos portugueses. Esses, alias tambem se manifestaram
quando, el11 maio do mesmo ano, uma conspira<;ao de cunho liberal
eclodiu em Lisboa. Idealizada pela sociedade secreta e ma<;6nica - Suo
prel110 Consclho Regenerador de Portugal, Brasil e Algarves -, tinha no
1\('n('I',1IGOl11es Freire de Andrade seu principal mentor. 0 objetivo cen-
Il'al el':1 0 de afastar os ingleses e outros estrangeiros do controle militar
do pars e prom over "a salva<;ao e a independencia de Portu gal" com,
I '
alTl:l\',io , e um governo constitucional. 0 movimento foi abafado antes
qlle irrol11pessee, depois de urn rapido processo, Gomes Freire e mais
I,' presos - 113maioria, militares que tinham prestado servi<;ono exer-
Clio napoleOnico - foram condenados a morte e executadosem omu-
I)!'ode, 1817. Tais medidas de repressao, tipicas do Antigo Regime, nao
lIupe,hram, porem, 0 fortalecimento em Portugal de um sentimento na-
clonal e antibritanico, que se afirmaria na regenera<;aode 1820.
"IIII'IOMIIC.III: 0 IMI'(ruO I Nilil II IIMr 1111II I II I.lJHOI'II
1'111 I (, de dC'l.clnbl'Odc I II 15, 0 111'0,;1 foi clevado a ReinoUnidode Por-
IIIH.d
"
Algarves, por sugesl~odo rcpresentante frances Talleyrand, com
II obit'l ivo de rcfor<;ara posi<;iiode Portugal nas negocia<;6esem Viena,
1'111vl'l'dade, porem, tal fato assegurou a permanencia da corte no Rio
.1,-.I'lneiro e soou, inicialmente, como certa op<;aopela parte americana
do Irnpcrio luso-brasileiro. Para 0 Senado da Camara do Rio de Janeiro
11.lIava-sede "ilustrada politica" e "preeminencia" que 0 Brasil merecia
pllr "slla vastidiio, fertilidade e riqueza". Mirmava ainda que 0 ato desta
IIn;~o contribuiria para a prosperidade geral das partes constituintes da
1IIIIII:lrquiaportuguesaY
Desse modo, se 0 Brasil se transformava na sede de direito do imperio
11I",.brasileiro, vivendo 0 poderoso influxo de sua recem-abertura ao
nllilldo, num momenta de guerras, que valorizava as materias-primas que
produzia, e, sobrerudo, com acesso ao drculo de poder a volta de d. Joao,
IIilnliga metro pole encontrava-se desgastada pelo virtual dominio ingles,
I,'ssentida com a perda desuas anteriores fun<;6ese desprovida da pro-
ximidade de um soberano, que, nos quadros mentais do Antigo Regime,
fl'presentava a possibilidade de corre<;aodas injusti<;as,A coroa, no en-
1.11110,para compatibilizar os interesses das duas partes do imperio nao
podia deixar de tornar-se, na expressao de Valentim Alexandre, "bi-
fronte". Ou, como apontava, em 1819, com grande lucidez, Pedro de
Sousa e Holstein (1781-1850), conde de Palmela: "Nao podemos deixar
de considerar que a Monarquia Portuguesa tern dais interesses distintos,
o Europeu e 0 Americano, os quais nem sempre se pod em prom over
jllntamente, mas que nao devem em caso nenhum sacrificar um ou omro",
Vislumbrava-se, nessa perspectiva, a politica formulada pela coroa entre
a paz europeia de 1814 e 0 retorno de d, Joao VI a Europa em 1821.38
De urn lado, d. Joao procurou tirar proveito da nova situa<;ao interna-
cional, apos a denota de Napoleao Bonaparte, procurando aproximar-se
da Fran<;a,a fim de evitar a dependencia exclusiva da Inglaterra. De outro
lado, buscava tambem uma alian<;a com outras casas europeias, atraves
da tradicional polftica de casamentos entre membros das familias rea is,
112 113
C'II':ll'I<,rfslic:I
.I" dipllllll.,da .III Alllljj" 11'1111110('''"1<' flli II C:lSII
.I"CaSall1Cllto de d. Pedro,hCl'dcirodo 11011t11 ~tlllill prill(CS;1 Leopold!II.!1
da casa de AlIslria, realizado por proCII1':I,:'""111 Viella, 110allo de IHII,
e de Olltros dois, vinculnlldo a monarquia pOrlllgllesa It espanhula.
'
,
A fragilidade portuguesa, no entanto, ficava evidente frente ao 11IIVII
s'slema de poder 1I1ternacional, implementado pelo Congresso de Viell,',
No lugar da ~uperada politica de alianps entre pequenos Estados, qll"
vlgorou no seculo XVIII, como especie de contrapeso It preponder:lllcia
de uma casa real, imp6s-se a supremacia dos gran des - Inglaterra Ails
Iria, Prussia, Russia e Pran~a. Isso sob a forma de um equilibrio di:15111i
co elltre ell'S,apresentado Como "concerto" europeu, que definia as area,
de illflllcncias respectivas e relegava os demais paises It condi~50 de sale-
liles de 11111ou outro.
,
Essa vulnerabilidade de Portugal no novo tabuleiro diplomatico fico 11
('v"I~lIle nas negocia~6es que se implementaram ao longo do Congressll
de V,ella, dcmonstrando ainda, apesar das circunstfmcias, 0 reapareci.
11,,"110dos 1I1teressescontinentais portugueses, em oposi~ao aos ameri-
eal~os, 110interior do imperio. Para os diplomatas lusos, a preocupa~ao
111:1101'era a recupera~ao de Oliven~a, territ6rio ocupado pela Espanha
<'III180 I. Para os brasileiros, 0 ponto nodal era a questao do trMico de
escravos, que a Inglaterra pretendia restringir, mas que era considerado
illdispensavellt prosperidade da parte americana do imperio.
Igualmente, para os portugueses tornava-se imprescindivel 0 retorno
de d. Jo50 a Portugal, argumentando que faltavam ao Novo Mundo ca-
r:1I:leristicas adequadas para sede da monarquia, em fun~50 das enormes
eXlensoes despovoadas, faceis de serem invadidas por mar e de diffcil
defesa diante da impossibilidade de organizar Um exercito suficientemente
1IlllIIeros~, Para t~nto, contavam COm0 apoio da Inglaterra, uma vez que,
<:slahcleclda em Lisboa, a corte estaria mais vulneravel diante do tradicio-
11:,1inimigo espanhol, mostrando-se, por conseguinte, menos inclinada a
al:1Slar~seda 6rbita de influencia inglesa. Em senti do oposto, aqueles que
dd~ndl:1m a permanencia do rei no Brasillembravam 0 exemplo das co-
11\1II:~sespanholas, atraidas para a independencia e para 0 separatismo, e
clIlISIderavam ser preferivel conservar-se como um grande poder no Novo
~11111d\l n M"" "\ljt.It,11 ~ ltIlUIl,lit' tll' 11111\rllll dt.IC'lu'il'n 1111 qlLlrl:l (lnll'lIl
.1,1 IlIf:lalnl':1l1a EIII'I'!,,"
A <,"'va,~11 dllllrnsil ,,1(,,111,,1 1111.111aliada:) recllsa ded. .JoaoaretOr-
11,11 :l Li!\hoa, dcix:1vn 1:1.11';1:l IWlIl'lr:H;~()que os illieresscs amencanos
Ill1h'lIlI :1<lqlllrido jlllliO It corle. COlllra esse pano de fundo, no inicio de
IHIH, a acl:1l11a~aodo principe regeme como 0 monarca d. Joao VI, do
I(,'illll lJl1ido de Portugal, Brasil e Aigarves, emprestou nova dimensao a
IIp,~O cada vez mais nitida peln via american a da monarquia portugue-
~iI. COI11a morte da mae, dona Maria I, em 1816, d. Joao ocupou 0 po-
.In, qlle j5 exercia como regente, mas, em fun~ao do lulO, ~ecret:do por
"'"
:1110,e da Revolu~ao Pernambucana de 1817, a cenmol1la so velo a
,,'r realizada no ano seguinte. Nas palavras do padre Luis Gon~alves dos
S,IIIIOS chegara para 0 Brasil "0 dia da sua gl6ria com a exalta~ao ao,
"
N M d"39PtIrOl1odo primeiro soberano, que C1l1gIUa coroa no ovo un o. a 0
illcdito na America, a aclama~ao de d. Joao VI, em6 de fevereiro de 1818,
I'cfor~ava 0 peso politico da parte brasileira no interior do imper:o por-
IlIgUCSe a ascendencia do Rio de Janeiro sobre 0 restante do ~als, mas
I:llllbem nao podia deixar de melindrar os sentimentos dos sudltos no
,olltinente europeu, cujo jornal 0 Portugues passou a denomtnar a cor-
le 110Brasil de "governo Tupinamba". ,
Medidas paliativas foram ensaiadas, como 0 alvara de 25 de abnl de
1818, em que se estabeleciam taxas mais favodveis para 0 vinho e a aguar-
dente vindos de Portugal; e 0 aviso de 30 de maio de 1820, que dava
IIOVOSfavores ao vinho e ao sal, e isenrava de direitos de entrada 0 peixe
c alguns tecidos portugueses, como 0 pano de linho, nos portos brasilei-
ros. Entretanto, elas se mostraram insuficientes. Em 24 de agosto de 1820,
o movimento conhecido como regenera~ao vintista propunha, a partIr
do Porto, mas logo ganhando Lisboa e 0 restante do territ6rio portu_gues,
o fim do Antigo Regime, a convoca~ao de cortes para a elabora~ao de
lima Constitui~ao e 0 restabelecimento do lugar merecido por Portugal
110interior do imperio luso-brasileiro. Era tambem 0 come~o do proces-
so de emancipa~ao politica do Brasil.
114 115
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1'1,,".11 II." ";1;.,1 '0-111 HI~H I
o MOVIMENTO CONSIIIUCIONI\LlSII\ LUSO.UHI\SIlUHO
Em 9 de novembro de 1820, a edi~50 extraordill:\ria da Gaze/a do !<ill
deJaneiro ofereda a seus leitares as primeiras noticias sobre 0 movimellill
constitucional portugues.
o espirito de inquieta\ao, e 0 desatinado desvario, que tern .Hal':!
do 0 meio-dia da Europa desgra~adamente soprou sabre uma <la,
mais belas cidades de Portugal e, corrompendo animas ambiciosos
e indiscretamente amigos da novidade, causou tumultos eferner()~1
que a prudencia do governo se apressou a atalhar e a extinguir.
A noticia tinha como objetivo convencer 0 publico leitor do Novo MUlldo
de que a rebeliiio estava debelada, gra~as it a~iio dos governadores do rei-
no, cuja prodama~iio a Gaze/a tambem transcrevia, comentando sobre "0
horrendo crime de rebeliiio contra 0 poder e a autoridade legitima do nosso
Augusto Soberano", que acabava de ser cometido na cidade do Porto.40
Em verdade, nesse momento, apesar das medidas de emergencia
adotadas pelo governo do reino, na tentativa de salvar 0 Antigo Regime
a revolu~iio, insuflada pelas noticias da vit6ria constitucionalista n~
Espanha, ja ganhara a ades50 das provincias do norte e de Lisboa, em
nome da Constitui~iio, da na~iio, do rei e da religiiio cat6lica. Em atitude
de provoca~iio, inumeros pasquins eram afixados nas mas de Lisboa, co-
lados nos muros e paredes da cidade por sobre as prodama~6es do go-
verno do remo, ao qual, ironicamente, chamavam de papiio:
Viva a Constitui~iio
e tam hem
Viva a reJigiiio! Viva el rei!
Lisbonenses: nao temais
As iras deste papao
Pois nao e mais que urn burro
Com a pele de leao
Gritai, pais, seiscentas vezes
Viva a Constitui~ao!4I
116
~
..
1'1"110 I t'lllltliA flA IfIPIr'INIIINfll\
A dilll'lIIil'n do IllOvillll'llIu Villti~111{'xplknva-:-il' pdo :ll1seio de IlI\H.lan-
,.,. ,\11"0 d,'sco'II"III:IIII"llio j.\"I1",'"lil.adoCOlli0 ./II/U5quopol(lico, eco-
ntnllko,' social de Portllj.\al dcspertal'a, COIIIOj:\ apontado. Visava retirar
",'111ij.\a,,,'dc do illlperio Illso da opressiva sitlla~50 em que jazia, despro-
vldo ,\lIe eslava da rresell~a de seu sobcrano, asfixiado pelo marasmo
",
1I11()lIIico,sllbordinado 1\autoridade dos inoperantes governadores do
,,'11111e slljeito 1\arrogiincia do marechal Beresford e das tropas inglesas
d" oCllpa~50, Seus dirigentes, no entanto, preocupavam-se muito mais
""I ni'il'lIIar que se tratava de regenera~iio politica, que previa "uma re-
1III'IIIade abusos e uma nova ordem de coisas", substituindo as praticas
do Allligo Regime pelas do liberalismo, embora sob a perspectiva das
lIIiligadas LlIzes ibericas. Desse modo, evitavam-se "os perigosos tumul-
lo~ i'ilhos da anarquia", tfpicos de uma revolw,iio, como convinha a uma
,nllilllllllra dominada pela polftica conservadora da Santa Alian~a.42Num
plallo mais amplo, cumpria ainda conquistar as demais regi6es do impe-
Iio, sobretudo 0 Brasil, com a promessa de desterrar 0 despotismo, con-
.idl'l'ado responsavel por todas as opress6es,
o nudeo dos insurgentes do Porto era constitufdo, em sua maior
1\;II'le,por militares, comerciantes e magistrados filiados ao Sinedrio,
",ciedade secreta constitufda em 1818, ao redor de Manuel Fernandes
'I'imu\s, 0 lider do movimento, que serviu de instiincia de sociabilidade
para a discussiio das ideias que forneceram as bases do vintismo. Mode-
rados, s6 desejavam transformar Portugal em uma monarquia constitu-
cional, com 0 retorno do soberano e 0 fim da tutela inglesa. No entanto,
II adesiio da burguesia mercantil e manufatureira, descontente com os
prcjufzos decorrentes da transferencia da coroa para 0 Rio de Janeiro e
com a perda da hegemonia de Portugal no imperio, trouxe it luz outro
ohjctivo: a reformula~ao das rela~6es comerciais luso-brasileiras.
A propaga~ao do movimento por todo 0 pafs anulou a tentativa das
IllItoridades de Lisboa, que procuraram inutilmente deter seu fmpeto com
a convoca~iio das "antigas Cortes do Reino". Assim, em 27 de setembro,
houve a instala~iio da junta Provisional do Governo Supremo do Reino
c da junta Provisional Preparat6ria das Cortes, assegurando significati-
va vit6ria politica: as cortes consultivas do Antigo Regime transforma-
117
.
v:tIl1-SC <:111 t,;ortc.'t dl'lilH'I'UI iv;,,~, ('Ill II I I ('p.,ltLI., de prl'p;!!';!!' IIllIa (;()llsl i
tuic;50, que subonlillasse 0 11'0110:10 I'od" I' L"gisl'lIivo.
No Brasil, as notkias da Revollll.,10 do 1'01'10pl'opagal':1m-se I'apida.
mente, n50 s6 atraves de cartas particulares e offcios dos gove!'lladol'es
do rei no, mas tambem pelas respostas positivas com a ades50 de divc'!'-
sas provincias do territ6rio americano. No dia 10 de janeiro de ] 821, 0Gr50-Para aderiu ao movimento liberal. Em 10 de fevereiro, a Bahia, a
oUtra regi50 mais ligada a Portugal, jurou a Constituic;50 a ser elaborada
do oUtro lado do Atlantico. POI'fim, em 26 de fevereiro, a press50 das
tropas portuguesas no Rio de Janeiro garantiu a incorporar;ao da cidade
a regenerac;ao.
o ano de 1821 converteu-se, entao, dos dois lados do Atlantico, na-
quell' da pregac;ao liberal e do constitucionalismo, definindo-se uma nova
cultura politica, cuja dinamica, porem, acompanhou 0 ritmo do proces-
so hist6rico mais amplo. Inauguravam-se pdticas politicas ineditas, esti-
muladas pela circulac;ao cada vez mais intensa de escritos de circunstancias
-folhetos politicos, panfletos e peri6dicos
- impressos no Rio de Ja-
neiro e na Bahia ou vindos de Lisboa. Essas obras faziam cbegar notfcias
e informac;aes a uma plateia mais amp la, gerando dima febril em diversas
provincias, como Para, Maranhao, Pernambuco e Sao Paulo, regiaes em
que, posteriormente, se instalaram oficinas impressoras, aumentando ain-
da mais a circulac;ao desses escritos.
De infcio, essa literatura politica produziu a quase unanimidade tran-
satlantica de critica aos "corcundas", partidarios do Antigo Regime, sem
que ainda se questionasse, nesse momento, a unidade do imperio luso-
brasileiro. Os folhetos e panfletos politicos, de carateI' didatico e polemi-
co, escritos sob a forma de comentarios aos fatos recentes ou de discussaes
sobre as gran des questaes de epoca, procuravam traduzir em linguagem
acessivel os temas fundamentais do constitucionalismo. POI'sua vez, os
peri6dicos nao deixavam de constituir 0 reflexo de inedita preocupac;ao
coletiva em relac;ao ao politico, com seus artigos sendo discutidos, como
indicam as inumeraveis cartas de particulares que os redatores divulgavam
semanalmente, na esfera publica dos novos espac;os de sociabilidade re-
presentados pelos cafes, academias, livrarias e sociedades secretas, como
118
..
'1111I1,1111I1I11I1~llk''4f1III1II1.I, (I" dl'l"II('fIIll'llIlitlIlIICIVidadl:~ 11.10 lIIais res.
1111,":10dOll1(lIio pl'iv'lIlo, 111:"Vl'kllJ.ld.":l1I dOlllrllio pt'lhlko e que se
I'OI,'lldialll para al~m do p"qllc'lIo dl'llllolell':1do das cidades, abrangen-
.III t 11111os .!torl's, como pcql1l'110S propril't,~rios rurais, artcs50s,comcr-
,1,11111'5mi,hlos, caixeiros, soldados, a massa de livres e libertos vivendo
01,('xp"diell!es nas ruas das cidades e atc escravos, que viram nas lutas
'I"" ". sc'guiram uma oportunidade de obter sua alforria.
I'n'lIle a essa situar;50 inusitada, d. Joao VI hesitou, inicialmente, entre
1"'lllIallecer no Brasil ou partir para Portugal, premido pOl' duas tenden-
, 101'opostas de seus ministros. 0 conde de Palmela preconizava 0 imediato
Ir!O!'110do soberano a Lisboa para conteI' os excessos da revoluc;ao, ainda
'I,"'correndo 0 risco de emprestar legitimidade aos revoltosos; e Vilanova
1'''rllIgal preferia a permanencia no Brasil, arriscando-se a perder 0 tro-
1111dos Ikaganc;a na Europa, a fim de preservar na America a essencia do
""tigo Regime.
Os acontecimentos de 26 de janeiro, na corte do Rio, exigindo do
."hcrano 0 juramento imediato das bases da futura Constiruic;ao portu-
H''''sa, a demissao de alguns membros do governo e a adoc;ao temporaria
01,1Constituic;ao espanhola de 1812, ate a elaborac;ao da nova Carta pe-
L,s cortes de Lisboa, apressaram a decisao, embora contornados com
Itahilidade 1'01'd. Pedro. De qualquer forma, em 7 de marc;o, 0 rei comu-
lIicou a decisao de partir e determinou a eleic;ao dos deputados brasilei-
IllS para 0 Congresso de Lisboa, conforme estabelecia a Constiruic;ao de
(:,\diz, que, pOl' decreto de 21 de abril, tambem passaria a vigorar provi-
M,riamente. Esse ultimo ato, porem, ap6s os tumultos ocorridos durante
II Assembleia reunida na prac;a do Comercio,44 acabou anulado no dia
,,'guinte, partin do d. Joao VI para Portugal em 26 de abril e deixando
110Brasil, como regente, 0 principe d. Pedro, que passou a deter amplos
poderes. Cabia-lhe a administrac;iio da justic;a e da fazenda; a resoluc;iio
de todas as consultas relativas a administrar;ao publica; 0 provimento dos
Illgares de letras, dos oUcios de justic;a e fazenda, dos empregos civis e
militares, e das dignidades edesiasticas, a excec;iio dos bispos. Era-lhe
igualmente atribuido 0 direito de comutar ou perdoar a pena de morte
aos reus e de conferir grar;as honorificas. Competia-lhe, 1'01'fim, fazeI'
119
.
..
""'''"
1MI'I
"1"1 VIIIIIMI I
gucr~a, ofcl1siva 00 dcll'usivlI, UHlII°n qllillqlll.'1' il1illligo quc :1Il1l'n~a'M'1I
BrasIl, no caso de il1lpossihilidade d,' esperar as (miens do rei. Esses
1'''der~s seriam exercidos por d, Pedro el1l 11111conscillo, formado pOI'dolO
mInlst~os de Est~do (do Reino e Neg6cios Estrangeiros e da Fazcnd.,) ,
por dOls secreta nos de Estado (da Guerra e da Marinlla), Assegurava'M',
dessa forma, em tese, a permanencia no Brasil de uma autoridade cenlrnl,
com sede no Rio de Janeiro, encarregada de articular as demais provlncia.s,
o infcio da regencia de d. Pedro transcorreu em meio aos preparal i
vos para as elei<;aesdos deputados as cortes de Lisboa -situa<;ao incdiln
que despertou enorme interesse e revestiu-se de significado extraordi-
nario, absorvendo grande parte do simbolismo dos valores do homel1l
liberal. As elei<;aes, embora utilizassem metodo indireto, nao estabeleci-
am censo algum, podendo ser votante todo cidadao com mais de 25 anos,
Envolviam, no entanto, mecanismo bastante complexo, com quatro nf.
veis sucessivos de sele<;iio,a partir dos cidadiios domiciliados numa fre.
guesia: 0 dos chamados compromissarios; 0 dos eleitores da par6quia; e
o dos elenores da comarca, que escolhiam, enfim, os deputados. Ex.
duiam-se da vota<;iio mulheres; men ores de 25 anos, a menos que fos-
sem casados; oficiais militares da mesma faixa de idade; derigos regulares.
os filho-familias que vivessem com os pais; os criados de servir, com ex:
ce<;iiodos feitores, com casa separada de seus amos; os vadios, os ocio-
sos e os escravos. Para ser eleito deputado, exigia-se ter mais de 25 an os
niio pertencer as ordens regulares e ser natural da provincia ha mais d~
sete an os, Nessas condi<;aes, era a condusiio 16gica, todo cidadiio preci-
sava adquirir conhecimento para bem servir a na<;iio.Assim sendo 0 voto
direito que cada cidadiio exercia individualmente, adquiriu imp~rtanci~
fundamental que pode ser aquilatada pelo testemunho do compromissario
da freguesia da Candelaria do Rio de Janeiro, 0 bacharel Basilio Perreira
Goulart, ao descrever as elei<;aes realizadas em abril de 1821, nessa cida-
de: "N6s niio temos outra arma, seniio 0 nosso volo: isto e, com que de-
fenderemos nossos direilOs, nossos foros pel os nossos representantes. "45
Em termos polfticos e financeiros, no entanto, 0 infcio da regencia
de d. Pedro foi bastante diffcil. Os cofres publicos estavam desfalcados de
numerario, conduzido para Lisboa, e as receitas previstas cessaram com
120
J
1'11\1111 trill 1111" tHo 111101 1.1 1110111' 1/\
"1""' id" dt' d. ,Io~o, As pI<IVrll' ",. .I" Nc" Ir IIlalliles(,lram SIlO',clara ade.
I,'" ~s ,'orles e reCUS:lr'lIlI qll.dqlll'l' ~lIh"ldilla<;~o, tanl<> polrnca quanto
,'c IIIi'>mica, ao Ilio de .Ialleil'O. As do Sui, embora prestassem lealdade ao
I" Illdpe regente, tambcm se reOlSanlm a apoia-Io financei~amente, Sem
,,', IIrsos, d. Pedro ficou reduzido a quase-impotencia e mms de pendente
.1" (:onwesso de Lisboa, que ele niio deixava de ver com desconfian<;a.
I). Pedro enfrentou ainda a Bernarda de 5 de junho - bernardas, na
111If\1I:If\empolftica da epoca, eram "novidades e mudan<;as", que se faziam
IIII Ilossio, isto e, na pra<;a central da cidade (a atual pra<;aTiradentes),
"jlllllando-se tropas e povo", Nessa ocasiiio, obrigou-,se d. Pedro a jurar
I'. hases da Constitui<;iio portuguesa, chegadas de L!sboa em fInms de
IlIlIio,e a demitir os ministros nomeados por seu pai." Paralelamente, as
drmais provincias brasileiras, ao longo de 1821, formavam governos
I'I'Ovis6rios ou juntas governativas, eleitas e reconhecidas pelas cortes de
I.i.sboa, refor<;ando seu pr6prio poder, em oposi<;ao ao controle central
do Ilio exercido pel a regencia de d. Pedro. Transformavam-se no altcer-
,',' do ~rasil constitucional, como demonstravam alguns jornais, como 0
l{c'11I!rbero Constitucional Fluminense (1821-1822), de Joaquim Gon<;al-
ves Ledo e Januario da Cunha Barbosa: "A instala<;ao dos governos pro-
vis6rios, autorizados pelas Cortes [...] era, depois de jurada a Constitui<;iio
c suas bases, urn ato necessario, como de adesiio e de identifica<;ao as
ideias gerais e a reforma constituciona! do governo da na<;ao," Essas jun-
las governativas foram confirmadas por novo decreto das cortes, em 29
clesetembro do mesmo ano, mas subordinando-as exclusIVamente a LIs-
hoa, Compostas pelas elites locais, organizaram-se com amp!a autonomia
nos neg6cios internos e se transformaram, na expressao j:i citada de R,
Ilarman, no governo de "pequenas p:itrias", encontrando-se na o,ngem
da inAuencia local na administra<;iio e nos assuntos fiscals das provInc!as,
que caracterizaria a estrutura polftica do Brasil no imperio.47
-
Prente a tais dificuldades, 0 prfncipe regente aproxlmou-se da fac<;ao
mais conservadora e experiente da elite brasileira, aquela formada por
indivfduos que tinham, majoritariamente, frequentado a Universidade
de Coimbra e exercido fun<;aes na administra<;ao, partilhando a ideia de
urn imperio luso-brasileiro - a elite coimbrii. Ao longo do segundo se-
121
-J
IIleslre de IHoll,
1'"1~III,
'"
111.,1',i,,, da., di""II,.,I\,,~ lIil~"IIII('s de 1.j,11I
,"tornHvam t.:ada vcz IlJai.'II.:laro...;os ohjcl ivo.'iprilllordLds do lIIovilllrllll'
submeter 0 rei ao cOlllmle do cOllgresso e reSiaheiccer a sllpr('III,',
'"
europeia sobre 0 restal1te do il11p~rio. Ao cOl1ldrio do qlle, el11g('"d,
suste~ta a historiografia, as cortes n50 foram il1staladas com 0
oh"'l iv"especlflco de recolonizar 0 Brasil. as focos prioritarios da atel1"io d".
revolucionarios portugueses eram a preserva,50 e a recupera,50 de Pili
tugal, abandonado pela coroa em 1807,48
Posteriormente, outra perspectiva ganhou corpo nas cortes, servilld, I
para. encobrir 0 desejo, mais ou men os consciente, de retomar a hegt'.
moma portuguesa no interior do imperio. Era a ideia de uma politic"
IIItegradora,49 em que 0 Reino Unido deixasse de significar a ul1i50 d,.
dois rein os distintos, para compreender uma s6 entidade polrtica, da qual
o Congresso se tornava 0 simbolo, substituindo a figura do rei. Mal1uel
Fernandes Tomas, agora deputado, afirmava: "Nao ha distin,ao entre 0
Brasil e Portugal; tudo e 0 mesmo: e estas Cortes nem fazem, nem devem
fazeI' diferen,a de interesses desta ou daquela provfncia." E arrematava:
"A soberania e igual para todos, e para todos sao iguais os beneffcios. "50
Mais tarde, 0 mesmo deputado afirmava que a legisla,ao devia ser apli.
cada a todas as provincias tanto de Portugal, quanto do Brasil. Este de.
via ser visto como uma parte da monarquia, apenas "uma Continua,ao
de Portugal"," Sob esse angulo, portanto, nao fazia sentido a autoridade
centralizada de que se revestira a regencia do Rio de Janeiro.
As notfcias, no entanto, acumulavam-se, chegando com defasagem de
cerca de dois a tres meses ao Brasil. Portanto, somente no infcio de dezem.
bro os decretos de 29 de setembro tornaram.se publicos no Rio de Janei.
1'0. Decretos que nao s6 referendavam as juntas provinciais diretamente
suhordinadas a Lisboa, como exigiam a volta incontinenti do principe
regel1te a Portugal.
Nesse dima de desconfian,a, entre aceitar a exigencia das Cortes para
qll~ rt'lorl1asse a Portugal ou tentar cOl1struir 110Brasil uma monarquia
ilia" 1'''''>SII11''de suas c0l1cep,6es de urn absolutismo ilustrado, d. Pedro,
('III 1"1II1.''',1,1llci" com a elite coimbr5, escolheu a segunda op,50, proda-
111,111.1",1111di" do Fico, 9 de jal1eiro de 1822, a intel1,ao de permanecer
122
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1\1.1"11.1)llj" dl.IS dc-pI)i", .1\ tllll"" ptlIIIIHw'sa\ :lllal,1 prot.:lIraram
.101I.",' hi n ('lIIh,IU::II' p.lrn I .i!\hn,l, 111:1\lornlll (0111idas por ,lIIovimCllt::H;5?
,I"I'''V'' (' d,' ",Iditdo, hrasile;ros. Ikss<: 1110111<:1110em d~al1te, a velocl'
,I,d, d,,~ d"ci,!",s (uilladas de UI11lado e de Dulro do AtlantIco, contra.
1'"'' ,',\ 1"111id~o das comunica,6es atmv.:s do oceano~ s6 fez aprofundar
"
",", "111('Il1al.el1lel1dido entre as duas partes do relllO.
nIIIlN\mUINDO A INDEPENDENCIA
1\" IOllgo do primeiro semestre de 1822, as decis6es arbitrarias aprov.a-
,I... I'd os deputados nas cortes de Lisboa acabaram pOl'promover a u~lao
01,,.('!ites do !ado de ca do Atlantico. Elas passaram a esbo,ar opOSl,ao a
"Ii- Illedidas, que feriam os interesses dos habitantes da parte americana
d" Reillo Unido. Essa oposi,ao foi explicitada tanto pOl' melo de escn.
I'" ,'01110pOl' atos oficiais. !niciou-se, assim, uma guerra de palavras,
1',,1~l\\icatravada entreescritores brasileiros e portugue_ses d'~lel11-mar.
I:d polemica, no entanto, nao chegou a apontar a separa,ao po!ttlca como
.. d11,50, embora as cartas e os artigos lusitanos exaltasse~ a supenon-
dolde de Portugal sobre a antiga eolonia, levando ao acmamento dos
~lIimos dos dois [ados do Atlantico.A campanha foi iniciada pela Carta
do compadre de Lisboa em resposta a outra do compadre de ~elem ao
miatord"Astro da Lusitania'. Apesar de defender alguns prlllClplOS!tbe-
mis, 0 panfleto, sem qualquer tipo de assinatura, concentrava.se em dis-
emir 0 lugar da sede da monarquia, dando preferencia a Portugal, que,
St:assim nao ocorresse, permaneceria como colonia do BrasIl. Aflrmava
1'01'meio de uma compara,ao ffsica, a superioridade lusitana, ofend en do
o Brasil reduzido a "urn gigante em verdade, mas sem bra,os, nem per-
nas; na~ falando de seu dima ardente e poueo sadio, 0 Brasil esta hoje
reduzido a umas poucas de hordas de negrinhos, pescados nas eostas da
Africa". Em eompensa,ao, Portugal era 0 "Jardim das Hesperides, os
Elfsios, deste pequeno mundo chamado Europa", que concentrava em SI
todos os prazeres e as delfcias da terra. Assim sendo, onde devena ftxar-se
o monarca? Na "terra dos macacos, dos pretos e das serpentes, OU[no]
123
"
"!\I\~H !f.II. 1'1.'1 . ,,.IIMi .
pars d~ g~lIt~ brallf.:n, d()~ pllVtI."i I..!Vdllll\ 111111 L'"illlldlll~" de" M'II ~()hentll()"?',�
Indignada, a elite 11Iso-brnsile;":I l'eSpllllll.'l1
'"'11 11111:1s(ol'iede esnil"',
iniciando uma guerra "mais de pell:l,
'i"" dt' Ifllgll:l Oll de espada","Outra conjuntura se delineava..p em 16 de jalleiro, aillda sem sal"'1
da decisiio de Lisboa de abolir os tribunais esrabclecidos no Brasil, d. Pedl'II
organizou urn novo Ministerio, dirigido pOI'Jose Bonifacio de Andrad:l
e Silva, 0 mais destacado elemento do grupo coimbriio. Urn mes depois,
convocou urn Conselho de Procuradores, com 0 objetivo de estreitar m
la~os das provincias com 0 governo do Rio de Janeiro. Em 30 de abril,
denunciando a incapacidade das cortes para 0 dialogo, Gon~alves Ledo,
lider dos "brasilienses", a outra fac~iio das elites, levantou em seu jornal,
o Reverbero Constitucional Fluminense, a proposta da emancipa~50
politica do Brasil, e em 23 de maio, 0 portugues Jose Clemente Pereira,
presidente do Senado da Camara, entregou ao principe regente uma re-
presenta~iio solicitando a convoca~iio de uma Assembleia Brasflica, de-
cidida em 3 de junho. Essa Assembleia, contudo, apresentava-se como
instrumento que visava evitar 0 esfacelamento do Brasil, assegurando urn
centro comum de poder que conservasse os la~os de fraternidade entre
os irmiios da na~iio portuguesa. Em uma carta, 0 sacristiio de Tambi pro-
clamava a necessidade de urn Poder Legislativo que pudesse afastar a
"sombra do despotismo no Rio de Janeiro" que ainda amedrontava as
provincias do Norte. A reuniiio desse "corpo legislativo brasiliense" iria
"derramar sobre suas feridas urn balsamo consolador e vivificante", Da
mesma forma, para Hip61ito da Costa, a representa~iio nacional era 0 "oni-
co meio de salvar" 0 Brasil do "perigo iminente, a que os erros das Cortes
de Lisboa, sem dovida, 0 conduziriam", Os representantes escolbidos ex-
primiriam "os sentimentos de todo 0 Brasil", comunicados "oficialmentc"
as cortes de Portugal pelo principe regente, possibilitando uma "s6lida uniiio
dos dois Reinos, se e que ela tern de continual' de algum modo",'4
Ate esse momento, no entanto, embora a ideia de independencia ja
se manifestasse em algumas obras de circunstancia, nenhum dos peri6-
dicos ou panfletos mencionara tradi~6es brasileiras anteriores para sus-
tenta-la, e raros foram os escriras que fizeram rcferencia a alguma
tentativa das cortes de restabelecer 0 exclusivo economico colonial como
124
I
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1.11'II dt'dsivII p:ll'll II S"P,ll'lItiSlllli 'I"C d..klldi.IIIl, N., 1'<':llid:lde, 110 COil-
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() Brasil e
I',,, IlIfllli, IlIlIpl:lm"llle disclil id" 11:1'M:ssi'>es ellire abril e julho de 1822,
1'1 lit IImv:! I:olu.:iliar :\ s:\tisfa~':'\() dus illtcrcsscs prodlltivos e comerciais
,1.I"llligilllleI1'6pole com a ex-colollia, prelendendo fazeI' do Reino Unido
11111"Illiw mercado, fortelllente integrado e protegido do exterior, mas
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ill" ," :lballdonado, sem nunca tel' sido completamente aprovado,
I >. :IIos do governo de d, Pedro no Rio de Janeiro, embora buscas-
"III rlfil'mar um centro de poder que evitasse 0 esfacelamento do territ6-
1111,i,illda n50 pretendiam quebrar os la~os entre Brasil e Portugal. POI'
01"'11'10.Ie 1° de agosto, 0 principe regente declarava inimigas radas as
III'P,IS portuguesas que desembarcassem sem seu consentimenra, ainda
'lilt' t'llidasse de precisar que tomava a independencia no sentido exclu-
_IVII.Ie alltonomia politica, sem implicar rompimento formal. Igualmente,
".
1II:lIlifestosdo mesmo mes -Manifesto aos povos do Brasil, de auto-
rI" de C.on~alves Ledo, e o Manifesto as naqi5esamigas, redigido pOl'Jose
IIIIllif:\cio - ja assumiam a separa~iio como fato consumado. Apesar
di"o, se ambos culpavam 0 despotismo das cortes pelo rumo dos acon-
It',illlentos e se 0 primeiro a considerava irreversive!, apelando para os
_1'111imentos populares com 0 objetivo de garantir a integridade territorial
I1IIpais, 0 segundo, no entanto, continuava hesitando em descartar com-
plc!:11nente a proposta de urn imperio luso-brasileiro, reiteraIldo aim-
plII'l:lncia das rela~6es de cornercio e amizade entre os dois reinos para
"t'onserva~iio da uniiio polftica",
Do outro lado, em PortUgal, as estrondosas novidades que chegavam
do I\rasil provocaram rea~6es imediatas de oposi~50, tanto das cortes,
qllanto da imprensa portuguesa, 0 Brasil transformava-se no filho ingrato
qne recusava os beneffcios da regenera~iio polftica. Urn Parecer da Co-
IIIiss50 Especial dos Neg6cios Polfticos do Brasil, apresentado em 18 de
lI1:1r~ode 1822, procurava solu~iio de compromisso com a antiga colonia,
permitindo a permanencia de d, Pedro no Brasil ate ficaI' pronta a Cons-
lillli~iio, desde que se sub mete sse as ordens das cortes e de seu pai. No
entanto, as notfcias sobre a Representa~iio de Siio Paulo ao Regente (ja-
neiro de 1822), em que as cortes eram denunciadas como urn pequeno
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	o DIALOGO DA CORTE NO RIO DE JANEIRO E AS DEMAIS PARTES DO IMPERIO 
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	da casa de AlIslria, realizado por proCII1':I,:'""111 Viella, 110 allo de I H I I, 
	liles de 11111 ou outro. 
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	'0-111 HI~H I 
	o MOVIMENTO CONSIIIUCIONI\LlSII\ LUSO.UHI\SIlUHO 
	o espirito de inquieta\ao, e 0 desatinado desvario, que tern .Hal':! 
	Viva a Constitui~iio 
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	1'1"110 I t'lllltliA flA IfIPIr'INIIINfll\ 
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	a regenerac;ao. 
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	tugal, abandonado pela coroa em 1807,48 
	regel1te a Portugal. 
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	" II\I'f' I '-fJII' 'I " NI\ INIII "I NIII Nt '" 
	nIIIlN\mUINDO A INDEPENDENCIA 
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