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PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS EM EMERGÊNCIAS 1 SUMÁRIO NOSSA HISTÓRIA ............................................................................. 2 Introdução ......................................................................................... 3 Como situações de crise afetam as pessoas?................................... 6 O que são os PCP? ..................................................................... 7 Para quem são os PCP? .............................................................. 8 Quando os PCP são oferecidos? .................................................. 9 Princípios de ação dos PCP: observar, escutar e aproximar .............. 9 Intervenções psicossociais em crise, emergência e catástrofe ..........14 Modelos de Intervenção: o modelo RAPID-PFA............................20 Aspetos instrumentais e multidisciplinaridade dos Primeiros Socorros Psicológicos .........................................................................................23 Elementos nucleares dos Primeiros Socorros Psicológicos ...........27 Benefícios da prestação de Primeiros Socorros Psicológicos ............29 REFERÊNCIAS ................................................................................32 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 Introdução Os Primeiros Socorros Psicológicos (PSP) são uma resposta de suporte às pessoas em situação de sofrimento e com necessidade de apoio. Os PSP podem ser realizados por qualquer pessoa que se disponibilize e esteja em condições psicológicas e físicas para auxiliar, desde que tenha orientações básicas de PSP. Não é algo que apenas profissionais fazem, também não é um atendimento psicológico profissional, nem a definição de um tratamento. Os PSP abrangem uma infinidade de situações, desde desastres naturais e atentados em comunidades, passando por acidentes, perda de entes queridos, violência, até crises individuais. Os PSP consistem em oferecer apoio e cuidado práticos não invasivos; avaliar necessidades e preocupações; ajudar as pessoas a suprir suas necessidades básicas (por exemplo, alimentação, água e informação); escutar as pessoas, sem pressioná-las a falar; confortar as pessoas e ajudá-las a se sentirem calmas; ajudar as pessoas na busca de informações, serviços e suportes sociais; e proteger as pessoas de danos adicionais. Apesar de os PSP serem mais difundidos em situações de eventos traumáticos, principalmente desastres, eles também podem ser aplicados em 4 crises cotidianas. Seja qual for a situação – de catástrofes a uma crise individual – os PSP seguem sempre cinco princípios básicos, que devemos ter em mente quando estamos diante de alguém em sofrimento psíquico SEGURANÇA: este princípio fala de duas seguranças. A primeira delas é a sua própria. Para ajudar os outros, tenha certeza de que você e sua família estão em segurança. Em segundo lugar, ajude o outro a se sentir seguro e garanta que o ambiente a sua volta seja seguro. CALMA: Quando estamos diante de alguém em situação de crise, essa pessoa está experimentando medo, ansiedade, desorganização, confusão, etc. Então, a primeira coisa a fazer é agir com calma e promover um senso de calma. Considere como ajudar a pessoa a identificar estratégias de enfrentamento efetivas usadas no passado e outras novas que pode ajudá-la a se sentir calma. CONEXÃO: Pessoas em crise precisam de orientação de onde buscar ajuda, se apoiar em pessoas que confie. Então, ajude a fazer as conexões necessárias, seja buscando familiares e amigos, pessoas de confiança, seja ajudando a encontrar os recursos necessários para auxílio, tais como grupos de apoio, rede de saúde, etc. Lembre-se, ninguém é super-herói sozinho, quanto mais conexões com a rede de apoio melhor. SENSO DE AUTOEFICÁCIA E EFICÁCIA COMUNITÁRIA: Em uma situação de crise, as pessoas se sentem vulneráveis. Mas não devemos tirar a autonomia nem o senso de auto-eficácia delas. Novamente, você não é super- herói e não há uma resposta pronta para uma situação de crise. Ajude as pessoas a usar suas próprias forças (todos tem suas qualidades), a aprender novas estratégias para enfrentar sua situação e a reconstruir seu caminho dentro da própria comunidade. ESPERANÇA: Quando alguém está sentindo que “seu mundo está falhando”, pense em como promover o senso de esperança. Ajude a pessoa a se engajar com proatividade em atividades construtivas e promova expectativas positivas quanto ao que vai acontecer na próxima hora, dia ou semanas. Pensando nestes cinco princípios, devemos nos perguntar, portanto, o que fazer ou não. Segue abaixo um quadro retirado da Organização Mundial da 5 Saúde. Primeiros Cuidados Psicológicos: guia para trabalhadores de campo. OMS: Genebra (2015). Bem, os PSP não devem ser aplicados quando a pessoa está em risco de vida iminente, ferida, ou com dor física. Neste caso, os cuidados médicos são prioridade e os PSP ficarão para um segundo momento. De maneira geral, os PSP podem ser aplicados em qualquer situação de crise, num período de até 72 horas após o evento agudo da crise. Entendemos crise como qualquer momento de desorganização aguda. Podemos encarar a crise também como um momento de perigo e risco, mas que também é uma oportunidade de mudança. Mantenha em mente estes dois aspectos da crise, para ficar atento aos cuidados que se fazem urgentes, mas também às potencialidades do momento para auxiliar a pessoa a construir outros caminhos. 6 Como situações de crise afetam as pessoas? Diferentes tipos de situações que causam sofrimento acontecem no mundo, tais como guerras, desastres naturais, acidentes, incêndios e violência pessoal (por exemplo, violência sexual). Indivíduos, famílias e comunidades inteiras podem ser afetadas. As pessoas podem perder suas casas ou entes queridos, serem separadas da família ou da comunidade ou podem testemunhar violência, destruição ou morte. Apesar de cada pessoa ser afetada de alguma forma por esses eventos, existe uma grande variedade de reações e sentimentos que cada pessoa pode sentir. Muitas pessoas podem se sentir sobrecarregadas, confusas ou muito desorientadas sobre o que está acontecendo. Elas podem se sentir amedrontadas, ansiosas, anestesiadas ou insensíveis. Algumas podem ter reações leves, enquanto outras podem ter reações mais severas. O modo como as pessoas reagem depende de muitos fatores, incluindo: » natureza e severidade do(s) evento(s) ao(s) qual(ais) foi/foram exposta(s); » vivência anterior de situações de crise; » apoio que elas recebem de outras pessoas durante a vida; » estado de saúde física; » histórico pessoal e familiar de problemas de saúde mental; » cultura e tradições pessoais;» idade (por exemplo, crianças em diferentes faixas etárias reagem de modo distinto). Toda pessoa tem forças e habilidades para lidar com os desafios da vida. Entretanto, algumas pessoas são particularmente vulneráveis em situações de crise e podem precisar de mais ajuda, incluindo pessoas que podem estar em risco ou que precisem de apoio adicional em virtude de sua idade (crianças e 7 idosos), em razão de problemas físicos ou mentais ou porque pertencem a grupos que podem ser marginalizados ou alvo de violência. O que são os PCP? De acordo com o Projeto Sphere (2011) e o IASC (2007), os primeiros cuidados psicológicos descrevem uma resposta humana e de apoio às pessoas em situação de sofrimento e com necessidade de apoio. Os PCP incluem os seguintes temas: » oferecer apoio e cuidado práticos não invasivos; » avaliar necessidades e preocupações; » ajudar as pessoas a suprir suas necessidades básicas (por exemplo, alimentação, água e informação); » escutar as pessoas, sem pressioná-las a falar; » confortar as pessoas e ajudá-las a se sentirem calmas; » ajudar as pessoas na busca de informações, serviços e suportes sociais; » proteger as pessoas de danos adicionais. Os PCP são uma alternativa ao “debriefing psicológico”, que foi considerado ineficaz. Por outro lado, os PCP envolvem fatores que parecem ser mais úteis à recuperação das pessoas em longo prazo (conforme vários estudos 8 e consenso de muitos profissionais da área de ajuda humanitária). Esses fatores incluem: » sentirem-se seguros, próximos às pessoas, calmos e esperançosos; » terem acesso a apoio social, físico e emocional; e » sentirem-se capazes de ajudar a si mesmas enquanto indivíduos e comunidades. Para quem são os PCP? Os PCP destinam-se a pessoas muito abaladas e que foram recentemente expostas a uma situação de crise grave. Você pode oferecer apoio para crianças e adultos. Entretanto, nem todas as pessoas que passam por situações de crise precisam ou querem ter acesso aos PCP. Não force ajudar a quem não queira, mas esteja inteiramente à disposição daqueles que possam querer apoio. Pode existir situações nas quais as pessoas precisem muito mais de assistência especializada do que apenas PCP. Reconheça seus limites e peça ajuda de outras pessoas, tais como profissionais da área médica (se disponíveis), seus colegas de trabalho ou outras pessoas que estiverem no local, autoridades locais ou líderes comunitários e religiosos. No quadro abaixo, listamos as pessoas que precisam de apoio especializado imediato. Pessoas nestas condições precisam de ajuda médica ou de outro tipo como prioridade para salvar suas vidas. 9 Quando os PCP são oferecidos? Apesar de as pessoas poderem precisar de ajuda e apoio por muito tempo após uma situação de crise, os PCP estão direcionados a pessoas que foram muito recentemente afetadas por um evento de emergência ou crise. Você pode oferecer os PCP no primeiro contato com pessoas muito abaladas. Isso normalmente ocorre durante ou imediatamente após uma situação de emergência. Entretanto, algumas vezes, esse contato pode acontecer dias ou semanas após o ocorrido, dependendo da duração e gravidade da situação. Você pode oferecer os PCP onde for seguro o suficiente para fazê-lo. Costuma ser em ambientes comunitários, tais como no local do acidente ou em lugares em que as pessoas afetadas são atendidas, como centros de saúde, abrigos ou assentamentos, escolas e áreas de distribuição de alimentos ou outros tipos de auxílio. Idealmente, tente oferecer os PCP onde houver alguma privacidade para conversar com a pessoa, quando apropriado. Para pessoas que foram expostas a certos tipos de situações de emergência ou crise, tais como violência sexual, a privacidade é essencial para a confidencialidade e para respeitar a dignidade da pessoa. Princípios de ação dos PCP: observar, escutar e aproximar Os três princípios básicos de ação dos PCP são: observar, escutar e aproximar. Esses princípios de ação servirão de guia para: enxergar e entrar em uma situação de crise com segurança; aproximar-se de pessoas afetadas; entender as necessidades dessas pessoas, bem como encaminhá-las para conseguir ajuda prática e informações disponíveis (ver tabela abaixo). 10 As situações de crise podem mudar rapidamente. O que você encontra na cena pode ser diferente do que você soube antes de entrar na situação de crise. Por essa razão, é importante reservar um tempo – mesmo que seja por um breve momento – para “observar” ao seu redor antes de iniciar sua oferta de ajuda. Se você, de repente, se deparar com uma situação de crise sem ter tido tempo para se preparar, esse olhar pode ser apenas uma verificação rápida. Esses momentos te permitirão manter a calma, estar seguro e pensar antes de agir. Na tabela abaixo estão questões e mensagens importantes a serem consideradas enquanto você “observa” ao seu redor. 11 As pessoas podem reagir de várias maneiras a uma situação de crise. Alguns exemplos de reações psicológicas a uma crise estão listadas abaixo: » sintomas físicos (por exemplo: tremores, dores de cabeça, cansaço intenso, perda de apetite, dores); » choro, tristeza, humor deprimido, pesar; » ansiedade, medo; » ficar “na defensiva” ou “agitado”; » preocupação de que algo muito ruim irá acontecer; 12 » insônia, pesadelos; » irritabilidade, raiva; » culpa, vergonha (por exemplo, por ter sobrevivido ou por não ter ajudado ou salvo outros); » confusa, emocionalmente anestesiada ou sentindo que a situação é irreal ou que está delirando; » alheamento ou muito quieta (sem se movimentar); » não responder às pessoas, ficar calada; » desorientação (por exemplo, não saber o próprio nome, de onde é ou o que aconteceu); » não ser capaz de cuidar de si mesma ou dos próprios filhos (por exemplo, não comer ou beber, não ser capaz de tomar decisões simples). Algumas pessoas podem ainda ficar levemente abaladas ou não serem afetadas de forma alguma. A maioria das pessoas se recupera bem com o passar do tempo, especialmente se tiveram as necessidades básicas resgatadas e receberam ajuda, tais como apoio daqueles que os cercam e/ou PCP. No entanto, as pessoas afetadas com reações severas ou de longa duração podem precisar de mais ajuda do que apenas os PCP, particularmente se não puderem manter sua rotina diária ou se representarem perigo para si e para os outros. Assegure-se de que as pessoas severamente afetadas não sejam deixadas sozinhas e tente mantê-las em segurança até o desaparecimento das reações ou até que você encontre auxílio de profissionais da área da saúde, líderes locais ou de outros membros da comunidade. Além disso, dentre a população afetada, procure por pessoas que estejam mais propensas a precisar de atenção especial no que diz respeito à proteção e segurança: 13 Ouvir adequadamente as pessoas que estão sendo auxiliadas é essencial para entender a situação em que estão, bem como do que necessitam, para ajudá-las a se sentirem calmas e para que se lhes possa oferecer a ajuda apropriada. Aprenda a escutar com seu(s): » Olhos ›› proporcionando à pessoa atenção exclusiva para seu caso; » Ouvidos ›› ouvindo verdadeiramente suas preocupações; » Coração ›› com carinho e respeito. 14 Intervenções psicossociais em crise, emergência e catástrofe A intervenção psicossocial em situações de crise, emergência ou catástrofe é atualmente considerada como fundamental na normalização de reações de estresse agudo que podem surgir em resposta a determinados incidentes críticos e para a prevenção dos relacionados com o trauma (e.g., Inter Agency Standing Comittee, 2014; International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies, 2012; 2016; Task Forceon Community Preventive Services, 2008; United Nations Children's' Fund, 2013; World Health Organization, 2011; 2013; 2014). A existência de diferentes modelos de intervenção, as especificidades da formação nesta área e a inexistência de uma rede que possibilite uma articulação eficaz com as entidades responsáveis com vista à implementação de uma resposta rápida e eficiente em situações de crise e catástrofe são, ainda desafios a ultrapassar. A exposição a incidentes críticos, ou seja, a situações pessoais, sociais e/ou ambientais (saúde, vitimização, perdas, exposição à violência, desastres naturais, terrorismo, entre outros) inesperadas, imprevisíveis e sem 15 controlo, pode originar uma crise o que, por sua vez, origina um desequilíbrio emocional, na maior parte dos casos temporário, devido à ineficácia dos recursos internos habitualmente utilizados (Carvalho, 2011). Contextualizada desta forma, uma crise consiste numa reação emocional muito intensa a um incidente crítico ameaçador perante o qual as estratégias habitualmente utilizadas não funcionam, originando um estado de desequilíbrio e desorganização (Everly, & Mitchell, 1999; Jacobs, et al., 2016). Estas reações, que podem apresentar manifestações físicas, cognitivas, comportamentais e emocionais, são expectáveis no período após a ocorrência de um incidente crítico, dependendo da forma como a pessoa o percepciona (em termos de ameaça, relevância e importância). A maior parte das pessoas expostas a um incidente crítico apresenta condições para retornar ao nível prévio de funcionamento no período após a sua ocorrência/resolução (quatro a seis semanas) e não vai necessitar de qualquer tipo de intervenção psicológica posteriormente. No entanto, um número significativo de pessoas mantém os sintomas de estresse agudo ao longo do tempo (dependendo do tipo de incidente crítico, este período pode rondar os dois a cinco anos) os quais, sem uma intervenção adequada, aumentam a probabilidade de desenvolvimento de s relacionados com o trauma, o Transtorno de Estresse Agudo (TSA) e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TSPT) (Birmes et al., 2003; Hagenaars, van Minnen, & Hoogduin, 2007; Yeager & Roberts, 2015). O impacto psicológico de uma crise, emergência ou catástrofe está bem demonstrado na literatura. Estudos realizados após os ataques ao World Trade Centre em Nova Iorque evidenciaram que, cinco a oito semanas após o incidente crítico, entre 7.5% a 20% da população adulta (em função da zona avaliada) cumpria critérios para diagnóstico de TSPT e 9.7% apresentava um Transtorno Depressivo Major (Galea et al., 2002). Um ano depois, em 2002, uma segunda avaliação evidenciou resultados que apontaram para uma taxa de prevalência de 18% para o TSPT tendo, ainda, ficado comprovado um efeito de contágio nas vítimas indiretas (familiares, amigos e pessoas não relacionadas que estiveram expostas ao incidente crítico através de outros meios, informação, comunicação 16 social, etc.) e o papel da percepção de vulnerabilidade a este nível (Neria, DiGrande & Adams, 2011). Numa revisão da literatura acerca das intervenções efetuadas após o 11 de Setembro, Pandya (2013) obteve resultados que mostraram que a maior parte destas intervenções durante o incidente crítico incluiu formas de debriefing, primeiros socorros psicológicos e outro tipo de contatos pontuais. Por outro lado, Boscarino, Adams e Figley (2011) obtiveram resultados que permitiram concluir que as intervenções na crise mostraram uma eficácia superior às intervenções psicoterapêuticas no momento após o incidente crítico, o que pode estar relacionado com os objetivos deste tipo de intervenções, a estabilização emocional. De acordo com os resultados do primeiro estudo efetuado após o 11 de Março em Madrid, um mês depois dos atentados, cerca de 9.5% da população de Madrid (dos quais 5.4% nas zonas afetadas) evidenciou TSPT, com cerca de 8.4% desta taxa a ser diretamente atribuível aos atentados terroristas. Na segunda avaliação, seis meses após os atentados, 16.9% da população anteriormente avaliada cumpria ainda critérios para diagnóstico de TSPT. Apesar de elevados, estes resultados indicaram que os atentados do 11 de Março em Madrid criaram, no geral, menos sintomatologia psicopatológica que os atentados do 11 de Setembro em Nova Iorque (Cano-Vindel, Dongil- Collado, Iruarrizaga, Salguero-Noguera & Wood, 2011), o que pode estar relacionado com o tipo de estratégias de intervenção de crise implementadas em ambos os contextos. Estes dados demonstram claramente a evolução dos níveis de estresse agudo para estresse traumático em situações de crise e catástrofe em condições em que a normalização destes incidentes críticos e a preparação de um plano de vida futuro, através de estratégias de intervenção psicossocial em crise e intervenção psicoterapêutica posterior (quando necessária) não existiram ou, a terem existido, não contribuíram de forma adequada para o retorno da maior parte das vítimas ao seu nível prévio de funcionamento. Tendo como objetivo geral a contextualização e resolução rápida e eficaz das reações emocionais na situação (ou situações) que a gerou com vista ao 17 retorno ao nível prévio de funcionamento, através da estabilização da crise, da normalização emocional e do foco na identificação e mobilização dos recursos pessoais e sociais disponíveis (Carvalho, 2011), a intervenção psicossocial em situações de crise e catástrofe apresenta especificidades que variam em função do tipo de incidente crítico e do modelo que lhe está subjacente. São diversos os modelos de intervenção psicossocial em situações de crise. Os modelos de intervenção na crise que fornecem informação, conforto, suporte e apoio nas necessidades emocionais e instrumentais desempenham um papel fundamental na forma como as pessoas, no imediato, podem lidar com os incidentes críticos. Um aspeto chave envolvido em todos os modelos de intervenção psicossocial em crise respeita à comunicação e às barreiras e/ou erros nela envolvidos. Enquanto elementos básicos do processo de comunicação em situações de crise, emergência ou catástrofe, a escuta ativa com empatia, clareza, franqueza e cordialidade são fatores chave de uma comunicação eficaz. A capacidade para lidar com os silêncios (que, neste contexto, são necessariamente diferentes dos silêncios de qualquer um dos tipos de intervenção psicoterapêutica), a par da capacidade de gestão do espaço pessoal e da resposta eficaz às necessidades da pessoa em crise funcionam como facilitadores da comunicação. Por outro lado, apesar de não o assumirem como uma das fases em particular, todos os modelos pressupõem a avaliação, no imediato, das condições de segurança (física, emocional, ambiental, etc.) do ponto de vista de todos os envolvidos. Sem garantia destas condições de segurança, as vítimas apresentam risco aumentado, em particular, de exposição ao mesmo ou a outros incidentes críticos e os profissionais designados para o efeito podem, eles próprios, expor-se a situações traumáticas de forma não intencional. Independentemente do modelo, a intervenção psicossocial em situações de crise é rápida e limitada no tempo, baseando-se numa abordagem ativa e diretiva. Sendo importante ter em consideração o tipo de incidente crítico que está na sua base, bem como o significado do mesmo para a(s) pessoa(s) nele envolvida(s), na intervenção psicossocial em crise a ênfase é colocada na reação 18 ao incidente crítico (e não no incidente crítico), e são considerados eventuais fatores de risco atuais e estratégias de coping em situações prévias, os quais podem influenciar as reações individuais à situação. A intervenção psicossocial de continuidade com vista ao retorno às rotinas e ao nível prévio de funcionamento assume a maior relevância no períodoapós a ocorrência do incidente crítico que, dependendo das suas características e das reações psicológicas ao mesmo pode demorar dois a cinco anos. Após um incidente crítico, e perante o desequilíbrio emocional provocado pelo mesmo, pode existir a necessidade de ensinar ou reorientar a pessoa para a utilização de estratégias mais adaptativas com vista à resolução do incidente (se for o caso) ou à sua adaptação e/ou aceitação do mesmo, pelo que a criação de um plano para regressar às rotinas facilita a reorganização e o retorno ao nível prévio de funcionamento. Nesta fase, a resolução instrumental de problemas relacionados (ou não) com o incidente crítico contribui para melhorar a percepção de eficácia para lidar com dificuldades enquadradas nas "novas" rotinas, a par de uma perspectiva orientada para um futuro próximo que permita devolver à pessoa o seu sentido de vida o qual, após um incidente crítico relacionado com perdas (pessoais, afetivas, etc.) pode ser alterado (situação muito frequente perante a morte de filhos ou crianças pequenas, com sobreviventes de acidentes de viação ou desastres naturais). A par desta capacidade, a aceitação do incidente crítico e das consequências com ele associadas é fundamental. Mais do que modificar pensamentos ou crenças a propósito do incidente crítico, o processo de aceitação de uma situação imprevisível e não dependente do controlo pessoal, envolve em si próprio um conjunto de reações emocionais que devem, também, ser normalizadas. A identificação de valores e do compromisso pessoal com esses próprios valores, em conjunto com uma orientação para a (re) atribuição do sentido da vida para a pessoa, em termos pessoais, familiares, ocupacionais e/ou sociais, entre outros, no contexto do incidente crítico, irão contribuir para que a pessoa desenvolva um significado para a sua vida que, podendo ser diferente do que 19 existia até aí, pode, ele próprio, permitir um crescimento pós-traumático (Tedeschi, 1996). Em situações específicas, pode existir necessidade de ajudar a pessoa a enfrentar de forma adequada o incidente e/ou as suas consequências. Neste caso, a utilização de procedimentos para modificação da evitação comportamental e/ou experiencial, com base nos princípios da aprendizagem, numa fase em que a pessoa possui ferramentas para normalizar as suas reações emocionais, tem rotinas e objetivos, a par de uma perspectiva contextualizada do próprio incidente crítico, pode também contribuir para a prevenção de grande parte da sintomatologia pós-traumática de estresse . A intervenção psicossocial em crise levanta um conjunto de questões éticas e limitações que devem ser tidas em consideração. É crucial que a seleção dos técnicos para intervir de forma psicossocial em crise tenha em consideração este aspeto, independentemente do número de vítimas direta e indiretamente afetadas e da gravidade dos sintomas que apresentam. Como foi anteriormente referido, as condições de segurança devem estar, à partida, garantidas. A formação e experiência neste âmbito constituem, nesse sentido, uma das condições de segurança. Por outro lado, se o apoio psicológico deve ser prestado exclusivamente por Psicólogos, a intervenção psicossocial em crise pode, e deve, ser prestada por outros profissionais na área da saúde, segurança e, mesmo, educação, com formação e experiência neste âmbito. Ainda, o cuidado na transmissão de informação, em particular pela comunicação social, deve também ser uma questão a considerar. Para além da possibilidade de contribuir para o surgimento de transtornos relacionados com o trauma em pessoas que não estiveram expostas, nem tiveram ninguém significativo exposto, ao incidente crítico, a informação pode induzir respostas de stress agudo pelo aumento da percepção de ameaça e vulnerabilidade. 20 Modelos de Intervenção: o modelo RAPID-PFA Uma miríade de modelos de Primeiros Socorros Psicológicos, desenhados e estruturados com base numa variedade de critérios e pontos de referência, encontra-se disponível, sendo que, em boa medida, a diferenciação de tais modelos resulta da diferente valorização dos elementos nucleares apresentados anteriormente (Hobfoll et al., 2007; Shultz & Forbes, 2014). Para além disso, cada modelo é detentor de um conjunto de linhas orientadoras e de ações principais que norteiam a intervenção propriamente dita (Shultz & Forbes, 2014). Everly et al. (2012) contribuíram para o desenvolvimento de um dos modelos mais relevantes de Primeiros Socorros Psicológicos intitulado RAPID- PFA (isto é, Reflective Listening, Assessment, Prioritization, Intervention and Disposition – Psychological First Aid). Este modelo contempla cinco estádios primordiais de atuação: o estabelecimento da relação, a avaliação, a priorização, a intervenção e, por fim, a monitorização do progresso ou acompanhamento. Segundo Everly e Flynn (2005), o RAPID-PFA apresenta oito objetivos fundamentais: (1) ampliar a capacidade de compreensão de uma situação problemática e ouvir ativamente; (2) avaliar e priorizar as necessidades básicas das pessoas; (3) reconhecer reações comportamentais e psicológicas benignas em circunstâncias de crise; (4) reconhecer reações comportamentais e psicológicas severas, potencialmente desestabilizadoras e incapacitantes; (5) mitigar o stress agudo com recurso a determinados tipos de intervenções; (6) reconhecer quando é necessário facultar e/ou facilitar o acesso a apoio suplementar ao nível da saúde mental; (7) reduzir potenciais riscos adversos advindos da intervenção e 21 (8) promover a autopreservação. O estabelecimento de uma relação empática e harmoniosa entre o técnico de Primeiros Socorros Psicológicos e o sobrevivente, por via da escuta reflexiva e ativa da narrativa do indivíduo afetado, é fundamental na medida em que permitirá a identificação dos aspetos mais relevantes da experiência traumática do indivíduo (McCabe et al., 2014). Assim, o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos deve, num primeiro momento, procurar colocar questões abertas e exploratórias que conduzam à compreensão do sucedido e do estado atual do indivíduo (reações associadas) e parafrasear o que é verbalizado pela vítima, de modo a validar e normalizar as suas reações, sentimentos e emoções mais imediatas após o episódio (Everly, McCabe, Semon, Thompson & Links, 2014). A avaliação, por sua vez, consiste na identificação das necessidades idiossincráticas do indivíduo, na análise das reações pós-traumáticas expressas, na averiguação da sua natureza funcional ou disfuncional e no apaziguamento do sofrimento e dor aguda. É nesta fase que o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos reúne informações pertinentes a respeito dos fatores que podem facilitar ou obstaculizar a recuperação e restabelecimento de um funcionamento adaptativo, como por exemplo as capacidades do indivíduo para compreender e seguir orientações, expressar emoções de um modo saudável e construtivo, adaptar-se ao contexto e aceder a recursos interpessoais (Everly et al., 2014). Importa referir que, para que tal seja possível, o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos deverá colocar questões diretivas e específicas por forma a clarificar potenciais ambiguidades e, deste modo, moldar a sua atuação em virtude das particularidades do indivíduo (McCabe et al., 2014). A priorização afigura-se como uma extensão da avaliação, reportando-se à triagem e hierarquização dos indivíduos mais vulneráveis e que devem ser intervencionados com maior prontidão. De um modo geral, trata-se de uma forma de identificar e distinguir as reações benignas e naturais de eventuais reações disfuncionais e mal adaptativas. Esta priorização é realizada com base numa multiplicidade de indícios, expressos pela vítima, ao nível da sua capacidadecognitiva (dificuldade 22 em recordar os eventos e resolver problemas), comportamental (incapacidade de discernir as consequências dos seus atos e agir impulsivamente, isto é, autoflagelando-se ou causando dano a outrem), expressão emocional e afetiva, adaptabilidade social, recursos interpessoais (competência para funcionar no quotidiano e realizar tarefas elementares, como tratar da higiene e alimentar-se, cuidar de si e daqueles que dependem de si, trabalhar) e a sua disponibilidade e consentimento para ser intervencionada (Everly et al., 2012; McCabe et al., 2014). No que concerne à intervenção, o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos deve mitigar o stress agudo, tentar restabelecer as capacidades funcionais do indivíduo por via da adoção de estratégias de coping adaptativas (e.g., técnicas de relaxamento, de respiração, de controlo da raiva e de outras emoções negativas) e da promoção da resiliência, do suporte da sua rede de apoio social e do esclarecimento e antecipação das emoções e sentimentos que o indivíduo irá experienciar nos dias subsequentes ao evento limite. Afirma-se igualmente crucial infundir esperança e uma perspectiva temporal de futuro nos indivíduos afetados, uma vez que em circunstâncias de catástrofe existe uma tendência para agir impulsivamente e tomar decisões precipitadas. De acordo com Everly e Lating (2002, citados por Everly et al., 2012), as metodologias de intervenção cognitivo-comportamentais parecem ter um impacto positivo na diminuição do stress agudo e no restabelecimento da calma. Os autores adiantam que modelos educacionais e exploratórios, como por exemplo o modelo de Cannon designado ‘Fight – Flight’, contribuem para diminuir o impacto nefasto das catástrofes. McCabe et al. (2014) acrescentam que o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos pode recorrer a técnicas simples para reduzir o stress agudo, tais como aconselhar, distrair e orientar o indivíduo, e que em função do nível de disfuncionalidade podem ser adotadas abordagens de autorregulação psicofisiológica (isto é, respiração diafragmática) e de reenquadramento cognitivo. Tal permite ao indivíduo estar mais apto a reaver o controlo sobre a sua vida e retomar os seus hábitos quotidianos (Everly et al., 2008; Everly et al., 2014). 23 Finalmente, para estes autores, a monitorização ou acompanhamento afigura-se central para elucidar o técnico de Primeiros Socorros Psicológicos a respeito do quão bem sucedida foi a sua atuação. Uma das formas de avaliar algum do progresso do indivíduo intervencionado consiste no estabelecimento de um contato posterior e análise do seu funcionamento básico, direcionado para a avaliação da sua capacidade e disponibilidade para levar a cabo as tarefas diárias mais elementares, prosseguir a sua atividade laboral e estabelecer contato assíduo com os seus amigos e familiares. Se o indivíduo retomar a sua vida de forma bem sucedida, a intervenção do técnico termina (Everly et al. 2012; McCabe et al., 2014). Porém, se o funcionamento do indivíduo continuar a manifestar-se inadaptativo, poder-se-á seguir um segundo follow-up, sendo que a partir do terceiro deverá ser disponibilizado outro tipo de cuidados mais particularizados e que redefinam a abordagem à vítima (Everly et al., 2014). Aspetos instrumentais e multidisciplinaridade dos Primeiros Socorros Psicológicos 24 Os Primeiros Socorros Psicológicos representam uma abordagem de apoio psicossocial dirigida a grupos de indivíduos e/ou comunidades afetadas por situações de catástrofe, de origem natural ou humana (National Child Traumatic Stress Network, 2006). Pretende-se que a atuação, ao nível dos Primeiros Socorros Psicológicos junto das vítimas, seja o mais precoce possível, no sentido de reduzir o stress causado pelos eventos traumáticos e, assim, promover um funcionamento adaptativo a curto e a longo prazo (National Child Traumatic Stress Network, 2006). Os Primeiros Socorros Psicológicos incluem a recolha de informação básica, que permita a realização de avaliações rápidas sobre as necessidades e preocupações imediatas dos sobreviventes; compreendem o conjunto de estratégias de sinalização precoce de indícios reveladores de disfunção despoletados pelo episódio crítico, tendo por objetivo a inviabilização ou, pelo menos, a mitigação da progressão de tais indícios para condições crónicas; consistem, ainda, numa resposta de cariz humanitário, marcada pela compaixão e solidariedade, cujo enfoque reside na prestação de auxílio e suporte psicossocial não intrusivo e consentido (Australian Psychological Society, 2013; Bradel & Bell, 2014; National Child Traumatic Stress Network, 2006; The Sphere Project, 2011; World Health Organization, 2013). De fato, os Primeiros Socorros Psicológicos mobilizam aspetos básicos e fundamentais da experiência humana, podendo ser concetualizados como uma forma de operacionalização do “bom senso comum” (Shultz & Forbes, 2014). Os Primeiros Socorros Psicológicos não constituem um método de diagnóstico, uma intervenção psicoterapêutica, uma forma de tratamento, nem tão pouco um modo de debriefing psicológico ou alguma espécie de interrogatório de caráter mais invasivo; em suma, não almejam substituir a intervenção terapêutica. Por isso mesmo, não se colocam exigências rígidas quanto à seleção dos agentes que procedem à aplicação dos Primeiros Socorros Psicológicos, pelo que esta pode ser realizada tanto por equipas de profissionais que intervêm em situações de crise, como por indivíduos com formações de base variadas, desde que devidamente treinados (Ohio Mental Health & Addiction Services, 2013; World Health Organization, World Vision International & The United Nations Children’s Fund, 2014). 25 Um aspeto fulcral a ter em consideração é o local e as características das infraestruturas onde os Primeiros Socorros Psicológicos são providenciados. Idealmente, estas devem ser seguras, minimamente confortáveis, espaçosas e resguardadas, i.e., distantes de quaisquer estímulos visuais ou sonoros provenientes do episódio crítico (Australian Psychological Society, 2013). Se nem sempre for possível reunir as condições enunciadas, devem ser ressalvados pelo menos os atributos da segurança e da distância mínima em relação ao local afetado. Alguns dos locais mais recorrentes para a prestação dos Primeiros Socorros Psicológicos são os centros comunitários, centros de saúde, escolas e outras instituições (World Health Organization, War Trauma Foundation & World Vision International, 2011). Um dos pressupostos subjacentes aos Primeiros Socorros Psicológicos é o de que todos os seres humanos são detentores de aptidões intrínsecas de coping que lhes permitem fazer face às adversidades, bem como superar os desafios impostos pelos eventos iminentemente traumáticos. Assim, a existência de um contexto favorável que reúna as condições requeridas para a satisfação das necessidades elementares do indivíduo, consonante com as suas especificidades, acaba por revelar-se como condição indispensável para o fomento e o desenvolvimento de tais capacidades (Snider, Chehil, & Walker, 2012; World Health Organization, 2013). No contexto específico da intervenção psicológica em circunstâncias de catástrofe, Erra e Mouro (2014) reforçam a importância de um compromisso entre as diferentes entidades públicas e privadas, assim como a necessidade de elaboração de um plano nacional de atuação especificamente concebido para fazer face a situações desta natureza. As autoras consideram fulcral que haja uma intervenção sistémica e articulada entre os diferentes organismos, nomeadamente a proteção civil, os bombeiros, as forças policiais e de segurança, as equipas médicas e psicossociais e a segurança social (Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2013; Erra& Mouro, 2014). A intervenção multidisciplinar, pautada pela interdependência e complementaridade, conduz à edificação de uma resposta consolidada e eficaz no domínio das situações-limite. Suplementarmente, a definição e planeamento de uma resposta de emergência que compreenda estas particularidades requer 26 um conhecimento prévio dos recursos locais preexistentes, aliado à aferição da sua acessibilidade por parte dos elementos integrantes da comunidade envolvente (Erra & Mouro, 2014). Deste modo, na sequência de uma catástrofe é necessário adotar como ponto de referência um conjunto de procedimentos operacionais padronizados que conste de um plano nacional de emergência que, por sua vez, contemple seis estádios de intervenção indispensáveis, designadamente: a mobilização de equipas médicas e de apoio psicossocial para os locais afetados; a prestação de suporte socio emocional individualizado a par da administração de Primeiros Socorros Psicológicos (às vítimas primárias, secundárias e terciárias); a evacuação da população de risco e de especial vulnerabilidade, mais concretamente crianças, adolescentes, grávidas, idosos, pessoas com necessidades especiais e doentes; a disponibilização de apoio logístico à população-alvo por via da distribuição de bens de primeira necessidade (mantimentos, agasalhos, abrigo) e do suprimento das suas necessidades elementares (fisiológicas e de segurança) e, se necessário, da prestação de cuidados médicos imediatos; a realização de operações de busca e/ou de reencaminhamento de pessoas desaparecidas para os seus familiares; e, por fim, o reconhecimento de vítimas mortais e subsequente prestação de suporte psicológico particularizado aos familiares das vítimas (Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2013; Erra & Mouro, 2014; IASC, 2007; World Health Organization, War Trauma Foundation & World Vision International, 2011). Em suma, podemos constatar que os Primeiros Socorros Psicológicos se traduzem num processo complexo, multifacetado e transdisciplinar de resposta em situações de catástrofe em que se torna fundamental a articulação da intervenção estritamente psicológica com as demais vertentes disciplinares e operacionais, quer no cenário pós-catástrofe, quer no domínio da prevenção (Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2013). 27 Elementos nucleares dos Primeiros Socorros Psicológicos Segundo Uhernik e Huson (2009) e Allen et al. (2010), os princípios e técnicas que subjazem aos diversos modelos de Primeiros Socorros Psicológicos atendem a quatro pré-requisitos centrais: (a) serem consistentes com as evidências empíricas em matéria de risco e resiliência no seguimento de experiências traumáticas; (b) serem passíveis de implementação em contextos distintos; (c) adequarem-se a diversas faixas etárias; (d) e, finalmente, incorporarem na sua intervenção as especificidades culturais por forma a serem administrados de modo flexível. Foram identificados por Hobfoll et al. (2007) cinco elementos nucleares dos Primeiros Socorros Psicológicos: segurança, estabilização emocional, união, auto eficácia e esperança. No que concerne à segurança, é fulcral minimizar ou evitar a exposição a ameaças de natureza diversa daquela que deu azo à situação crítica, intervindo aqui as componentes da assistência logística, médica e psicológica, referidas anteriormente. Relativamente à estabilização emocional, esta poderá ser atingida através da disponibilidade para ouvir a história singular de cada indivíduo afetado e para compreender as emoções que o episódio crítico desencadeou, sendo importante que a partilha seja voluntária e não forçada. Quanto à união, é necessário ajudar as vítimas a entrarem em contato com o seu núcleo familiar e amigos próximos, fornecer informações precisas e pertinentes, além de direcionar as vítimas para os serviços de apoio disponíveis. O técnico de Primeiros Socorros Psicológicos deve, também, promover as competências de auto eficácia do sobrevivente, envolvendo-o ativamente na tomada de decisão e na definição de prioridades ao nível da resolução imediata dos problemas. Por fim, os prestadores de Primeiros Socorros Psicológicos devem transmitir uma perspectiva positiva, otimista e realista sobre a recuperação pós-evento traumático (Hobfoll et al., 2007). A administração dos Primeiros Socorros Psicológicos deve reger-se por oito princípios centrais aos quais subjazem três componentes basilares da 28 atuação, nomeadamente, a observação, a escuta e a aproximação (Uhernik & Husson, 2009; World Health Organization, War Trauma Foundation & World Vision International, 2011), Assim, o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos deve, em primeira instância, identificar os indivíduos que experienciaram o evento traumático e iniciar o contato de forma compassiva e não invasiva, considerando que alguns indivíduos poderão não procurar ou consentir este tipo de ajuda. Neste primeiro contato, o provedor de Primeiros Socorros Psicológicos deve fazer uma nota introdutória sucinta acerca do seu papel e funções de que está incumbido. Em seguida, afigura-se crucial prover segurança e conforto físico e estabilizar as emoções do sobrevivente, por via da sinalização das necessidades que requerem satisfação prioritária e da normalização do seu sofrimento (explicitação da inevitabilidade das reações e comportamentos despoletados pelo episódio crítico), algo que contribui para o decréscimo dos níveis de stress e preocupação e pode auxiliar em termos da adoção de algumas estratégias de coping. A recolha de informação permite que seja possível priorizar, ou seja, triar e hierarquizar a população que se encontra mais vulnerável, por forma a ser possível intervir com prontidão. A assistência prática consiste na delineação de um plano de ação que faculte ferramentas ao indivíduo para lidar com o acontecimento potencialmente traumático. Através da conexão com a rede social de suporte, é possível auxiliar o indivíduo a estabelecer contato com os seus familiares e grupo de pares. Em virtude das situações de crise terem um caráter confuso e desorientador passível de obstaculizar as competências que permitem que o indivíduo enfrente as dificuldades, os técnicos que aplicam os Primeiros Socorros Psicológicos devem facultar informação verbal e escrita acerca das estratégias de coping, por forma a munir o indivíduo de ferramentas que lhe permitam lidar com o problema, fomentar um processo resiliente e predispor para um funcionamento adaptativo e integrativo. Se eventualmente as informações partilhadas pelo técnico de Primeiros Socorros Psicológicos forem insuficientes, urge reencaminhar o indivíduo para serviços que lhe facultem um suporte mais especializado (Bradel & Bell, 2014; Uhernik & Husson, 2009). 29 Benefícios da prestação de Primeiros Socorros Psicológicos Inúmeras investigações científicas têm vindo a sublinhar o relevo e os benefícios dos Primeiros Socorros Psicológicos nas etapas iniciais da resposta psicossocial a episódios de catástrofe (McCabe et al., 2014). De fato, segundo Bradel e Bell (2014), os indivíduos expostos a catástrofes naturais (e.g., terramotos, furacões, inundações, deslizamentos de terra) e humanas (e.g., atentados terroristas) estão mais suscetíveis de desenvolver determinados quadros psicopatológicos, sendo os mais recorrentes a Perturbação Depressiva Major e as Perturbações de Ansiedade. Além disso, existem outros fatores que precipitam a manifestação destes e outros quadros psicopatológicos, nomeadamente o grau de exposição e magnitude (severidade) do evento traumático, a necessidade de evacuação e deslocação para um local desconhecido, a perda de um ente querido ou de indivíduos conhecidos (luto que se pode tornar complicado), a ausência de uma 30 rede social de apoio,a presença de problemas de saúde pré-existentes, algumas variáveis sociodemográficas específicas (e.g., género e nível socioeconómico), determinados traços de personalidade (e.g., neuroticismo) e mecanismos de atribuição de significado ao acontecimento traumático menos adaptativos (Bradel & Bell, 2014; Franco, 2012). Paralelamente, Bradel e Bell (2014) realçam que os incidentes críticos de caráter ansiógeno e stressante desencadeiam frequentemente alterações bioquímicas singulares, por exemplo, o aceleramento do ritmo cardíaco e a libertação de adrenalina após a estimulação do sistema nervoso simpático, que predispõem o ser humano para a reação profícua ( fight), ou para a fuga ( f light). As circunstâncias propiciadoras de stress agudo podem induzir reações de índole fisiológica (e.g., espasmos e dores musculares, comprometimento do sistema imunitário), comportamental (e.g., perturbações alimentares e do sono, fobias) cognitiva (e.g., declínio da atenção seletiva, estados de confusão, incapacidade de resolução de problemas), emocional (e.g., tristeza, raiva, medo), e espiritual (e.g., emergência de questões existenciais multitemáticas: o significado da vida, a intervenção de entidades superiores, o destino) que, por vezes, obstaculizam o desempenho do indivíduo na sua vida quotidiana (Bradel & Bell, 2014; National Child Traumatic Stress Network, 2006). Neste sentido, e para colmatar toda esta diversidade de impactos potenciais do episódio crítico, os Primeiros Socorros Psicológicos têm como finalidade munir o indivíduo de competências úteis que lhe permitam aprender e desenvolver padrões de resposta adaptativos perante circunstâncias stressantes, por forma a fomentar a resiliência e a perseverança (Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2013; Chan, Chan, & Kee, 2012). Neste sentido, o constructo de autoeficácia, proposto por Bandura, desempenha um papel central no que diz respeito à eficácia das intervenções. Trata-se de um constructo microanalítico referente às crenças e percepções que um indivíduo tem a respeito das suas competências para desempenhar eficientemente uma tarefa e, por conseguinte, atingir o resultado ambicionado independentemente dos obstáculos que possam surgir. As crenças de auto eficácia revelam-se cruciais para a manutenção da continuidade do esforço e da 31 perseverança em circunstâncias funestas e, como tal, são determinantes na gestão pessoal das consequências da situação traumática (Graham & Weiner, 1996). Com efeito, segundo a Australian Psychological Society (2013), as crenças de autoeficácia predizem desfechos mais favoráveis, sendo que os indivíduos mais otimistas, detentores de pensamentos mais positivos, que creem ser capazes de ultrapassar as contrariedades que se interpõem na sua jornada, estão aptos a recuperar mais facilmente das repercussões nefastas advindas da situação traumática. A promoção da auto eficácia de cada indivíduo afigura-se, então, como uma tarefa central para a potenciação da intervenção (Hobfoll et al., 2007). 32 REFERÊNCIAS Allen, B., Brymer, M. J., Steinberg, A. M., Vernberg, E. M., Jacobs, A., Speier, A. H., & Pynoos, R. S. (2010). 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