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PRIMEIROS SOCORROS PSICOLÓGICOS EM 
EMERGÊNCIAS 
 
1 
 
SUMÁRIO 
 
NOSSA HISTÓRIA ............................................................................. 2 
Introdução ......................................................................................... 3 
Como situações de crise afetam as pessoas?................................... 6 
O que são os PCP? ..................................................................... 7 
Para quem são os PCP? .............................................................. 8 
Quando os PCP são oferecidos? .................................................. 9 
Princípios de ação dos PCP: observar, escutar e aproximar .............. 9 
Intervenções psicossociais em crise, emergência e catástrofe ..........14 
Modelos de Intervenção: o modelo RAPID-PFA............................20 
Aspetos instrumentais e multidisciplinaridade dos Primeiros Socorros 
Psicológicos .........................................................................................23 
Elementos nucleares dos Primeiros Socorros Psicológicos ...........27 
Benefícios da prestação de Primeiros Socorros Psicológicos ............29 
REFERÊNCIAS ................................................................................32 
 
 
 
 
2 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de 
empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de 
Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como 
entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a 
participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua 
formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, 
científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o 
saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
Introdução 
 
 
Os Primeiros Socorros Psicológicos (PSP) são uma resposta de suporte 
às pessoas em situação de sofrimento e com necessidade de apoio. Os PSP 
podem ser realizados por qualquer pessoa que se disponibilize e esteja em 
condições psicológicas e físicas para auxiliar, desde que tenha orientações 
básicas de PSP. Não é algo que apenas profissionais fazem, também não é um 
atendimento psicológico profissional, nem a definição de um tratamento. Os PSP 
abrangem uma infinidade de situações, desde desastres naturais e atentados 
em comunidades, passando por acidentes, perda de entes queridos, violência, 
até crises individuais. 
 Os PSP consistem em oferecer apoio e cuidado práticos não invasivos; 
avaliar necessidades e preocupações; ajudar as pessoas a suprir suas 
necessidades básicas (por exemplo, alimentação, água e informação); escutar 
as pessoas, sem pressioná-las a falar; confortar as pessoas e ajudá-las a se 
sentirem calmas; ajudar as pessoas na busca de informações, serviços e 
suportes sociais; e proteger as pessoas de danos adicionais. 
 Apesar de os PSP serem mais difundidos em situações de eventos 
traumáticos, principalmente desastres, eles também podem ser aplicados em 
 
4 
crises cotidianas. Seja qual for a situação – de catástrofes a uma crise individual 
– os PSP seguem sempre cinco princípios básicos, que devemos ter em mente 
quando estamos diante de alguém em sofrimento psíquico 
SEGURANÇA: este princípio fala de duas seguranças. A primeira delas é 
a sua própria. Para ajudar os outros, tenha certeza de que você e sua família 
estão em segurança. Em segundo lugar, ajude o outro a se sentir seguro e 
garanta que o ambiente a sua volta seja seguro. 
CALMA: Quando estamos diante de alguém em situação de crise, essa 
pessoa está experimentando medo, ansiedade, desorganização, confusão, etc. 
Então, a primeira coisa a fazer é agir com calma e promover um senso de calma. 
Considere como ajudar a pessoa a identificar estratégias de enfrentamento 
efetivas usadas no passado e outras novas que pode ajudá-la a se sentir calma. 
CONEXÃO: Pessoas em crise precisam de orientação de onde buscar 
ajuda, se apoiar em pessoas que confie. Então, ajude a fazer as conexões 
necessárias, seja buscando familiares e amigos, pessoas de confiança, seja 
ajudando a encontrar os recursos necessários para auxílio, tais como grupos de 
apoio, rede de saúde, etc. Lembre-se, ninguém é super-herói sozinho, quanto 
mais conexões com a rede de apoio melhor. 
SENSO DE AUTOEFICÁCIA E EFICÁCIA COMUNITÁRIA: Em uma 
situação de crise, as pessoas se sentem vulneráveis. Mas não devemos tirar a 
autonomia nem o senso de auto-eficácia delas. Novamente, você não é super-
herói e não há uma resposta pronta para uma situação de crise. Ajude as 
pessoas a usar suas próprias forças (todos tem suas qualidades), a aprender 
novas estratégias para enfrentar sua situação e a reconstruir seu caminho dentro 
da própria comunidade. 
ESPERANÇA: Quando alguém está sentindo que “seu mundo está 
falhando”, pense em como promover o senso de esperança. Ajude a pessoa a 
se engajar com proatividade em atividades construtivas e promova expectativas 
positivas quanto ao que vai acontecer na próxima hora, dia ou semanas. 
Pensando nestes cinco princípios, devemos nos perguntar, portanto, o 
que fazer ou não. Segue abaixo um quadro retirado da Organização Mundial da 
 
5 
Saúde. Primeiros Cuidados Psicológicos: guia para trabalhadores de campo. 
OMS: Genebra (2015). 
 
Bem, os PSP não devem ser aplicados quando a pessoa está em risco de 
vida iminente, ferida, ou com dor física. Neste caso, os cuidados médicos são 
prioridade e os PSP ficarão para um segundo momento. De maneira geral, os 
PSP podem ser aplicados em qualquer situação de crise, num período de até 72 
horas após o evento agudo da crise. Entendemos crise como qualquer momento 
de desorganização aguda. Podemos encarar a crise também como um momento 
de perigo e risco, mas que também é uma oportunidade de mudança. Mantenha 
em mente estes dois aspectos da crise, para ficar atento aos cuidados que se 
fazem urgentes, mas também às potencialidades do momento para auxiliar a 
pessoa a construir outros caminhos. 
 
 
 
 
6 
Como situações de crise afetam as pessoas? 
 
Diferentes tipos de situações que causam sofrimento acontecem no 
mundo, tais como guerras, desastres naturais, acidentes, incêndios e violência 
pessoal (por exemplo, violência sexual). Indivíduos, famílias e comunidades 
inteiras podem ser afetadas. As pessoas podem perder suas casas ou entes 
queridos, serem separadas da família ou da comunidade ou podem testemunhar 
violência, destruição ou morte. 
Apesar de cada pessoa ser afetada de alguma forma por esses eventos, 
existe uma grande variedade de reações e sentimentos que cada pessoa pode 
sentir. Muitas pessoas podem se sentir sobrecarregadas, confusas ou muito 
desorientadas sobre o que está acontecendo. Elas podem se sentir 
amedrontadas, ansiosas, anestesiadas ou insensíveis. Algumas podem ter 
reações leves, enquanto outras podem ter reações mais severas. 
O modo como as pessoas reagem depende de muitos fatores, incluindo: 
» natureza e severidade do(s) evento(s) ao(s) qual(ais) foi/foram 
exposta(s); 
» vivência anterior de situações de crise; 
» apoio que elas recebem de outras pessoas durante a vida; 
» estado de saúde física; 
» histórico pessoal e familiar de problemas de saúde mental; 
» cultura e tradições pessoais;» idade (por exemplo, crianças em diferentes faixas etárias reagem de 
modo distinto). 
Toda pessoa tem forças e habilidades para lidar com os desafios da vida. 
Entretanto, algumas pessoas são particularmente vulneráveis em situações de 
crise e podem precisar de mais ajuda, incluindo pessoas que podem estar em 
risco ou que precisem de apoio adicional em virtude de sua idade (crianças e 
 
7 
idosos), em razão de problemas físicos ou mentais ou porque pertencem a 
grupos que podem ser marginalizados ou alvo de violência. 
 
O que são os PCP? 
 
De acordo com o Projeto Sphere (2011) e o IASC (2007), os primeiros 
cuidados psicológicos descrevem uma resposta humana e de apoio às pessoas 
em situação de sofrimento e com necessidade de apoio. Os PCP incluem os 
seguintes temas: 
» oferecer apoio e cuidado práticos não invasivos; 
» avaliar necessidades e preocupações; 
» ajudar as pessoas a suprir suas necessidades básicas (por exemplo, 
alimentação, água e informação); 
» escutar as pessoas, sem pressioná-las a falar; 
» confortar as pessoas e ajudá-las a se sentirem calmas; 
» ajudar as pessoas na busca de informações, serviços e suportes sociais; 
» proteger as pessoas de danos adicionais. 
 
Os PCP são uma alternativa ao “debriefing psicológico”, que foi 
considerado ineficaz. Por outro lado, os PCP envolvem fatores que parecem ser 
mais úteis à recuperação das pessoas em longo prazo (conforme vários estudos 
 
8 
e consenso de muitos profissionais da área de ajuda humanitária). Esses fatores 
incluem: 
» sentirem-se seguros, próximos às pessoas, calmos e esperançosos; 
» terem acesso a apoio social, físico e emocional; e 
» sentirem-se capazes de ajudar a si mesmas enquanto indivíduos e 
comunidades. 
 
Para quem são os PCP? 
 
Os PCP destinam-se a pessoas muito abaladas e que foram 
recentemente expostas a uma situação de crise grave. Você pode oferecer apoio 
para crianças e adultos. Entretanto, nem todas as pessoas que passam por 
situações de crise precisam ou querem ter acesso aos PCP. Não force ajudar a 
quem não queira, mas esteja inteiramente à disposição daqueles que possam 
querer apoio. 
Pode existir situações nas quais as pessoas precisem muito mais de 
assistência especializada do que apenas PCP. Reconheça seus limites e peça 
ajuda de outras pessoas, tais como profissionais da área médica (se 
disponíveis), seus colegas de trabalho ou outras pessoas que estiverem no local, 
autoridades locais ou líderes comunitários e religiosos. No quadro abaixo, 
listamos as pessoas que precisam de apoio especializado imediato. Pessoas 
nestas condições precisam de ajuda médica ou de outro tipo como prioridade 
para salvar suas vidas. 
 
 
9 
 
Quando os PCP são oferecidos? 
 
Apesar de as pessoas poderem precisar de ajuda e apoio por muito tempo 
após uma situação de crise, os PCP estão direcionados a pessoas que foram 
muito recentemente afetadas por um evento de emergência ou crise. Você pode 
oferecer os PCP no primeiro contato com pessoas muito abaladas. Isso 
normalmente ocorre durante ou imediatamente após uma situação de 
emergência. Entretanto, algumas vezes, esse contato pode acontecer dias ou 
semanas após o ocorrido, dependendo da duração e gravidade da situação. 
Você pode oferecer os PCP onde for seguro o suficiente para fazê-lo. 
Costuma ser em ambientes comunitários, tais como no local do acidente ou em 
lugares em que as pessoas afetadas são atendidas, como centros de saúde, 
abrigos ou assentamentos, escolas e áreas de distribuição de alimentos ou 
outros tipos de auxílio. Idealmente, tente oferecer os PCP onde houver alguma 
privacidade para conversar com a pessoa, quando apropriado. Para pessoas 
que foram expostas a certos tipos de situações de emergência ou crise, tais 
como violência sexual, a privacidade é essencial para a confidencialidade e para 
respeitar a dignidade da pessoa. 
 
 
Princípios de ação dos PCP: observar, escutar e aproximar 
 
Os três princípios básicos de ação dos PCP são: observar, escutar e 
aproximar. Esses princípios de ação servirão de guia para: enxergar e entrar em 
uma situação de crise com segurança; aproximar-se de pessoas afetadas; 
entender as necessidades dessas pessoas, bem como encaminhá-las para 
conseguir ajuda prática e informações disponíveis (ver tabela abaixo). 
 
10 
 
As situações de crise podem mudar rapidamente. O que você encontra na 
cena pode ser diferente do que você soube antes de entrar na situação de crise. 
Por essa razão, é importante reservar um tempo – mesmo que seja por um breve 
momento – para “observar” ao seu redor antes de iniciar sua oferta de ajuda. Se 
você, de repente, se deparar com uma situação de crise sem ter tido tempo para 
se preparar, esse olhar pode ser apenas uma verificação rápida. Esses 
momentos te permitirão manter a calma, estar seguro e pensar antes de agir. Na 
tabela abaixo estão questões e mensagens importantes a serem consideradas 
enquanto você “observa” ao seu redor. 
 
11 
 
As pessoas podem reagir de várias maneiras a uma situação de crise. 
Alguns exemplos de reações psicológicas a uma crise estão listadas abaixo: 
» sintomas físicos (por exemplo: tremores, dores de cabeça, cansaço 
intenso, perda de apetite, dores); 
» choro, tristeza, humor deprimido, pesar; 
» ansiedade, medo; 
» ficar “na defensiva” ou “agitado”; 
» preocupação de que algo muito ruim irá acontecer; 
 
12 
» insônia, pesadelos; 
» irritabilidade, raiva; 
» culpa, vergonha (por exemplo, por ter sobrevivido ou por não ter ajudado 
ou salvo outros); 
» confusa, emocionalmente anestesiada ou sentindo que a situação é 
irreal ou que está delirando; 
» alheamento ou muito quieta (sem se movimentar); 
» não responder às pessoas, ficar calada; 
» desorientação (por exemplo, não saber o próprio nome, de onde é ou o 
que aconteceu); 
» não ser capaz de cuidar de si mesma ou dos próprios filhos (por 
exemplo, não comer ou beber, não ser capaz de tomar decisões simples). 
Algumas pessoas podem ainda ficar levemente abaladas ou não serem 
afetadas de forma alguma. A maioria das pessoas se recupera bem com o 
passar do tempo, especialmente se tiveram as necessidades básicas resgatadas 
e receberam ajuda, tais como apoio daqueles que os cercam e/ou PCP. 
No entanto, as pessoas afetadas com reações severas ou de longa 
duração podem precisar de mais ajuda do que apenas os PCP, particularmente 
se não puderem manter sua rotina diária ou se representarem perigo para si e 
para os outros. 
Assegure-se de que as pessoas severamente afetadas não sejam 
deixadas sozinhas e tente mantê-las em segurança até o desaparecimento das 
reações ou até que você encontre auxílio de profissionais da área da saúde, 
líderes locais ou de outros membros da comunidade. Além disso, dentre a 
população afetada, procure por pessoas que estejam mais propensas a precisar 
de atenção especial no que diz respeito à proteção e segurança: 
 
13 
 
Ouvir adequadamente as pessoas que estão sendo auxiliadas é essencial 
para entender a situação em que estão, bem como do que necessitam, para 
ajudá-las a se sentirem calmas e para que se lhes possa oferecer a ajuda 
apropriada. 
Aprenda a escutar com seu(s): 
» Olhos ›› proporcionando à pessoa atenção exclusiva para seu caso; 
» Ouvidos ›› ouvindo verdadeiramente suas preocupações; 
» Coração ›› com carinho e respeito. 
 
 
 
 
 
 
 
14 
Intervenções psicossociais em crise, emergência e 
catástrofe 
 
 
A intervenção psicossocial em situações de crise, emergência ou 
catástrofe é atualmente considerada como fundamental na normalização de 
reações de estresse agudo que podem surgir em resposta a determinados 
incidentes críticos e para a prevenção dos relacionados com o trauma (e.g., Inter 
Agency Standing Comittee, 2014; International Federation of Red Cross and Red 
Crescent Societies, 2012; 2016; Task Forceon Community Preventive Services, 
2008; United Nations Children's' Fund, 2013; World Health Organization, 2011; 
2013; 2014). 
A existência de diferentes modelos de intervenção, as especificidades da 
formação nesta área e a inexistência de uma rede que possibilite uma articulação 
eficaz com as entidades responsáveis com vista à implementação de uma 
resposta rápida e eficiente em situações de crise e catástrofe são, ainda desafios 
a ultrapassar. A exposição a incidentes críticos, ou seja, a situações pessoais, 
sociais e/ou ambientais (saúde, vitimização, perdas, exposição à violência, 
desastres naturais, terrorismo, entre outros) inesperadas, imprevisíveis e sem 
 
15 
controlo, pode originar uma crise o que, por sua vez, origina um desequilíbrio 
emocional, na maior parte dos casos temporário, devido à ineficácia dos recursos 
internos habitualmente utilizados (Carvalho, 2011). 
Contextualizada desta forma, uma crise consiste numa reação emocional 
muito intensa a um incidente crítico ameaçador perante o qual as estratégias 
habitualmente utilizadas não funcionam, originando um estado de desequilíbrio 
e desorganização (Everly, & Mitchell, 1999; Jacobs, et al., 2016). Estas reações, 
que podem apresentar manifestações físicas, cognitivas, comportamentais e 
emocionais, são expectáveis no período após a ocorrência de um incidente 
crítico, dependendo da forma como a pessoa o percepciona (em termos de 
ameaça, relevância e importância). 
A maior parte das pessoas expostas a um incidente crítico apresenta 
condições para retornar ao nível prévio de funcionamento no período após a sua 
ocorrência/resolução (quatro a seis semanas) e não vai necessitar de qualquer 
tipo de intervenção psicológica posteriormente. No entanto, um número 
significativo de pessoas mantém os sintomas de estresse agudo ao longo do 
tempo (dependendo do tipo de incidente crítico, este período pode rondar os dois 
a cinco anos) os quais, sem uma intervenção adequada, aumentam a 
probabilidade de desenvolvimento de s relacionados com o trauma, o Transtorno 
de Estresse Agudo (TSA) e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TSPT) 
(Birmes et al., 2003; Hagenaars, van Minnen, & Hoogduin, 2007; Yeager & 
Roberts, 2015). 
O impacto psicológico de uma crise, emergência ou catástrofe está bem 
demonstrado na literatura. Estudos realizados após os ataques ao World Trade 
Centre em Nova Iorque evidenciaram que, cinco a oito semanas após o incidente 
crítico, entre 7.5% a 20% da população adulta (em função da zona avaliada) 
cumpria critérios para diagnóstico de TSPT e 9.7% apresentava um Transtorno 
Depressivo Major (Galea et al., 2002). Um ano depois, em 2002, uma segunda 
avaliação evidenciou resultados que apontaram para uma taxa de prevalência 
de 18% para o TSPT tendo, ainda, ficado comprovado um efeito de contágio nas 
vítimas indiretas (familiares, amigos e pessoas não relacionadas que estiveram 
expostas ao incidente crítico através de outros meios, informação, comunicação 
 
16 
social, etc.) e o papel da percepção de vulnerabilidade a este nível (Neria, 
DiGrande & Adams, 2011). 
Numa revisão da literatura acerca das intervenções efetuadas após o 11 
de Setembro, Pandya (2013) obteve resultados que mostraram que a maior parte 
destas intervenções durante o incidente crítico incluiu formas de debriefing, 
primeiros socorros psicológicos e outro tipo de contatos pontuais. Por outro lado, 
Boscarino, Adams e Figley (2011) obtiveram resultados que permitiram concluir 
que as intervenções na crise mostraram uma eficácia superior às intervenções 
psicoterapêuticas no momento após o incidente crítico, o que pode estar 
relacionado com os objetivos deste tipo de intervenções, a estabilização 
emocional. 
De acordo com os resultados do primeiro estudo efetuado após o 11 de 
Março em Madrid, um mês depois dos atentados, cerca de 9.5% da população 
de Madrid (dos quais 5.4% nas zonas afetadas) evidenciou TSPT, com cerca de 
8.4% desta taxa a ser diretamente atribuível aos atentados terroristas. Na 
segunda avaliação, seis meses após os atentados, 16.9% da população 
anteriormente avaliada cumpria ainda critérios para diagnóstico de TSPT. 
Apesar de elevados, estes resultados indicaram que os atentados do 11 
de Março em Madrid criaram, no geral, menos sintomatologia psicopatológica 
que os atentados do 11 de Setembro em Nova Iorque (Cano-Vindel, Dongil-
Collado, Iruarrizaga, Salguero-Noguera & Wood, 2011), o que pode estar 
relacionado com o tipo de estratégias de intervenção de crise implementadas em 
ambos os contextos. 
Estes dados demonstram claramente a evolução dos níveis de estresse 
agudo para estresse traumático em situações de crise e catástrofe em condições 
em que a normalização destes incidentes críticos e a preparação de um plano 
de vida futuro, através de estratégias de intervenção psicossocial em crise e 
intervenção psicoterapêutica posterior (quando necessária) não existiram ou, a 
terem existido, não contribuíram de forma adequada para o retorno da maior 
parte das vítimas ao seu nível prévio de funcionamento. 
Tendo como objetivo geral a contextualização e resolução rápida e eficaz 
das reações emocionais na situação (ou situações) que a gerou com vista ao 
 
17 
retorno ao nível prévio de funcionamento, através da estabilização da crise, da 
normalização emocional e do foco na identificação e mobilização dos recursos 
pessoais e sociais disponíveis (Carvalho, 2011), a intervenção psicossocial em 
situações de crise e catástrofe apresenta especificidades que variam em função 
do tipo de incidente crítico e do modelo que lhe está subjacente. 
São diversos os modelos de intervenção psicossocial em situações de 
crise. Os modelos de intervenção na crise que fornecem informação, conforto, 
suporte e apoio nas necessidades emocionais e instrumentais desempenham 
um papel fundamental na forma como as pessoas, no imediato, podem lidar com 
os incidentes críticos. 
Um aspeto chave envolvido em todos os modelos de intervenção 
psicossocial em crise respeita à comunicação e às barreiras e/ou erros nela 
envolvidos. Enquanto elementos básicos do processo de comunicação em 
situações de crise, emergência ou catástrofe, a escuta ativa com empatia, 
clareza, franqueza e cordialidade são fatores chave de uma comunicação eficaz. 
A capacidade para lidar com os silêncios (que, neste contexto, são 
necessariamente diferentes dos silêncios de qualquer um dos tipos de 
intervenção psicoterapêutica), a par da capacidade de gestão do espaço pessoal 
e da resposta eficaz às necessidades da pessoa em crise funcionam como 
facilitadores da comunicação. 
Por outro lado, apesar de não o assumirem como uma das fases em 
particular, todos os modelos pressupõem a avaliação, no imediato, das 
condições de segurança (física, emocional, ambiental, etc.) do ponto de vista de 
todos os envolvidos. Sem garantia destas condições de segurança, as vítimas 
apresentam risco aumentado, em particular, de exposição ao mesmo ou a outros 
incidentes críticos e os profissionais designados para o efeito podem, eles 
próprios, expor-se a situações traumáticas de forma não intencional. 
Independentemente do modelo, a intervenção psicossocial em situações de crise 
é rápida e limitada no tempo, baseando-se numa abordagem ativa e diretiva. 
Sendo importante ter em consideração o tipo de incidente crítico que está 
na sua base, bem como o significado do mesmo para a(s) pessoa(s) nele 
envolvida(s), na intervenção psicossocial em crise a ênfase é colocada na reação 
 
18 
ao incidente crítico (e não no incidente crítico), e são considerados eventuais 
fatores de risco atuais e estratégias de coping em situações prévias, os quais 
podem influenciar as reações individuais à situação. 
A intervenção psicossocial de continuidade com vista ao retorno às rotinas 
e ao nível prévio de funcionamento assume a maior relevância no períodoapós 
a ocorrência do incidente crítico que, dependendo das suas características e das 
reações psicológicas ao mesmo pode demorar dois a cinco anos. 
Após um incidente crítico, e perante o desequilíbrio emocional provocado 
pelo mesmo, pode existir a necessidade de ensinar ou reorientar a pessoa para 
a utilização de estratégias mais adaptativas com vista à resolução do incidente 
(se for o caso) ou à sua adaptação e/ou aceitação do mesmo, pelo que a criação 
de um plano para regressar às rotinas facilita a reorganização e o retorno ao 
nível prévio de funcionamento. 
Nesta fase, a resolução instrumental de problemas relacionados (ou não) 
com o incidente crítico contribui para melhorar a percepção de eficácia para lidar 
com dificuldades enquadradas nas "novas" rotinas, a par de uma perspectiva 
orientada para um futuro próximo que permita devolver à pessoa o seu sentido 
de vida o qual, após um incidente crítico relacionado com perdas (pessoais, 
afetivas, etc.) pode ser alterado (situação muito frequente perante a morte de 
filhos ou crianças pequenas, com sobreviventes de acidentes de viação ou 
desastres naturais). A par desta capacidade, a aceitação do incidente crítico e 
das consequências com ele associadas é fundamental. 
Mais do que modificar pensamentos ou crenças a propósito do incidente 
crítico, o processo de aceitação de uma situação imprevisível e não dependente 
do controlo pessoal, envolve em si próprio um conjunto de reações emocionais 
que devem, também, ser normalizadas. 
A identificação de valores e do compromisso pessoal com esses próprios 
valores, em conjunto com uma orientação para a (re) atribuição do sentido da 
vida para a pessoa, em termos pessoais, familiares, ocupacionais e/ou sociais, 
entre outros, no contexto do incidente crítico, irão contribuir para que a pessoa 
desenvolva um significado para a sua vida que, podendo ser diferente do que 
 
19 
existia até aí, pode, ele próprio, permitir um crescimento pós-traumático 
(Tedeschi, 1996). 
Em situações específicas, pode existir necessidade de ajudar a pessoa a 
enfrentar de forma adequada o incidente e/ou as suas consequências. Neste 
caso, a utilização de procedimentos para modificação da evitação 
comportamental e/ou experiencial, com base nos princípios da aprendizagem, 
numa fase em que a pessoa possui ferramentas para normalizar as suas reações 
emocionais, tem rotinas e objetivos, a par de uma perspectiva contextualizada 
do próprio incidente crítico, pode também contribuir para a prevenção de grande 
parte da sintomatologia pós-traumática de estresse . 
A intervenção psicossocial em crise levanta um conjunto de questões 
éticas e limitações que devem ser tidas em consideração. É crucial que a seleção 
dos técnicos para intervir de forma psicossocial em crise tenha em consideração 
este aspeto, independentemente do número de vítimas direta e indiretamente 
afetadas e da gravidade dos sintomas que apresentam. Como foi anteriormente 
referido, as condições de segurança devem estar, à partida, garantidas. A 
formação e experiência neste âmbito constituem, nesse sentido, uma das 
condições de segurança. 
Por outro lado, se o apoio psicológico deve ser prestado exclusivamente 
por Psicólogos, a intervenção psicossocial em crise pode, e deve, ser prestada 
por outros profissionais na área da saúde, segurança e, mesmo, educação, com 
formação e experiência neste âmbito. Ainda, o cuidado na transmissão de 
informação, em particular pela comunicação social, deve também ser uma 
questão a considerar. Para além da possibilidade de contribuir para o surgimento 
de transtornos relacionados com o trauma em pessoas que não estiveram 
expostas, nem tiveram ninguém significativo exposto, ao incidente crítico, a 
informação pode induzir respostas de stress agudo pelo aumento da percepção 
de ameaça e vulnerabilidade. 
 
 
 
20 
Modelos de Intervenção: o modelo RAPID-PFA 
 
Uma miríade de modelos de Primeiros Socorros Psicológicos, 
desenhados e estruturados com base numa variedade de critérios e pontos de 
referência, encontra-se disponível, sendo que, em boa medida, a diferenciação 
de tais modelos resulta da diferente valorização dos elementos nucleares 
apresentados anteriormente (Hobfoll et al., 2007; Shultz & Forbes, 2014). Para 
além disso, cada modelo é detentor de um conjunto de linhas orientadoras e de 
ações principais que norteiam a intervenção propriamente dita (Shultz & Forbes, 
2014). 
Everly et al. (2012) contribuíram para o desenvolvimento de um dos 
modelos mais relevantes de Primeiros Socorros Psicológicos intitulado RAPID-
PFA (isto é, Reflective Listening, Assessment, Prioritization, Intervention and 
Disposition – Psychological First Aid). Este modelo contempla cinco estádios 
primordiais de atuação: o estabelecimento da relação, a avaliação, a priorização, 
a intervenção e, por fim, a monitorização do progresso ou acompanhamento. 
Segundo Everly e Flynn (2005), o RAPID-PFA apresenta oito objetivos 
fundamentais: 
(1) ampliar a capacidade de compreensão de uma situação problemática 
e ouvir ativamente; 
(2) avaliar e priorizar as necessidades básicas das pessoas; 
(3) reconhecer reações comportamentais e psicológicas benignas em 
circunstâncias de crise; 
(4) reconhecer reações comportamentais e psicológicas severas, 
potencialmente desestabilizadoras e incapacitantes; 
(5) mitigar o stress agudo com recurso a determinados tipos de 
intervenções; 
(6) reconhecer quando é necessário facultar e/ou facilitar o acesso a apoio 
suplementar ao nível da saúde mental; 
(7) reduzir potenciais riscos adversos advindos da intervenção e 
 
21 
(8) promover a autopreservação. 
O estabelecimento de uma relação empática e harmoniosa entre o técnico 
de Primeiros Socorros Psicológicos e o sobrevivente, por via da escuta reflexiva 
e ativa da narrativa do indivíduo afetado, é fundamental na medida em que 
permitirá a identificação dos aspetos mais relevantes da experiência traumática 
do indivíduo (McCabe et al., 2014). 
Assim, o prestador de Primeiros Socorros Psicológicos deve, num 
primeiro momento, procurar colocar questões abertas e exploratórias que 
conduzam à compreensão do sucedido e do estado atual do indivíduo (reações 
associadas) e parafrasear o que é verbalizado pela vítima, de modo a validar e 
normalizar as suas reações, sentimentos e emoções mais imediatas após o 
episódio (Everly, McCabe, Semon, Thompson & Links, 2014). 
A avaliação, por sua vez, consiste na identificação das necessidades 
idiossincráticas do indivíduo, na análise das reações pós-traumáticas expressas, 
na averiguação da sua natureza funcional ou disfuncional e no apaziguamento 
do sofrimento e dor aguda. É nesta fase que o prestador de Primeiros Socorros 
Psicológicos reúne informações pertinentes a respeito dos fatores que podem 
facilitar ou obstaculizar a recuperação e restabelecimento de um funcionamento 
adaptativo, como por exemplo as capacidades do indivíduo para compreender e 
seguir orientações, expressar emoções de um modo saudável e construtivo, 
adaptar-se ao contexto e aceder a recursos interpessoais (Everly et al., 2014). 
Importa referir que, para que tal seja possível, o prestador de Primeiros 
Socorros Psicológicos deverá colocar questões diretivas e específicas por forma 
a clarificar potenciais ambiguidades e, deste modo, moldar a sua atuação em 
virtude das particularidades do indivíduo (McCabe et al., 2014). A priorização 
afigura-se como uma extensão da avaliação, reportando-se à triagem e 
hierarquização dos indivíduos mais vulneráveis e que devem ser 
intervencionados com maior prontidão. 
De um modo geral, trata-se de uma forma de identificar e distinguir as 
reações benignas e naturais de eventuais reações disfuncionais e mal 
adaptativas. Esta priorização é realizada com base numa multiplicidade de 
indícios, expressos pela vítima, ao nível da sua capacidadecognitiva (dificuldade 
 
22 
em recordar os eventos e resolver problemas), comportamental (incapacidade 
de discernir as consequências dos seus atos e agir impulsivamente, isto é, 
autoflagelando-se ou causando dano a outrem), expressão emocional e afetiva, 
adaptabilidade social, recursos interpessoais (competência para funcionar no 
quotidiano e realizar tarefas elementares, como tratar da higiene e alimentar-se, 
cuidar de si e daqueles que dependem de si, trabalhar) e a sua disponibilidade 
e consentimento para ser intervencionada (Everly et al., 2012; McCabe et al., 
2014). 
No que concerne à intervenção, o prestador de Primeiros Socorros 
Psicológicos deve mitigar o stress agudo, tentar restabelecer as capacidades 
funcionais do indivíduo por via da adoção de estratégias de coping adaptativas 
(e.g., técnicas de relaxamento, de respiração, de controlo da raiva e de outras 
emoções negativas) e da promoção da resiliência, do suporte da sua rede de 
apoio social e do esclarecimento e antecipação das emoções e sentimentos que 
o indivíduo irá experienciar nos dias subsequentes ao evento limite. Afirma-se 
igualmente crucial infundir esperança e uma perspectiva temporal de futuro nos 
indivíduos afetados, uma vez que em circunstâncias de catástrofe existe uma 
tendência para agir impulsivamente e tomar decisões precipitadas. 
De acordo com Everly e Lating (2002, citados por Everly et al., 2012), as 
metodologias de intervenção cognitivo-comportamentais parecem ter um 
impacto positivo na diminuição do stress agudo e no restabelecimento da calma. 
Os autores adiantam que modelos educacionais e exploratórios, como por 
exemplo o modelo de Cannon designado ‘Fight – Flight’, contribuem para 
diminuir o impacto nefasto das catástrofes. 
McCabe et al. (2014) acrescentam que o prestador de Primeiros Socorros 
Psicológicos pode recorrer a técnicas simples para reduzir o stress agudo, tais 
como aconselhar, distrair e orientar o indivíduo, e que em função do nível de 
disfuncionalidade podem ser adotadas abordagens de autorregulação 
psicofisiológica (isto é, respiração diafragmática) e de reenquadramento 
cognitivo. Tal permite ao indivíduo estar mais apto a reaver o controlo sobre a 
sua vida e retomar os seus hábitos quotidianos (Everly et al., 2008; Everly et 
al., 2014). 
 
23 
Finalmente, para estes autores, a monitorização ou acompanhamento 
afigura-se central para elucidar o técnico de Primeiros Socorros Psicológicos a 
respeito do quão bem sucedida foi a sua atuação. Uma das formas de avaliar 
algum do progresso do indivíduo intervencionado consiste no estabelecimento 
de um contato posterior e análise do seu funcionamento básico, direcionado para 
a avaliação da sua capacidade e disponibilidade para levar a cabo as tarefas 
diárias mais elementares, prosseguir a sua atividade laboral e estabelecer 
contato assíduo com os seus amigos e familiares. Se o indivíduo retomar a sua 
vida de forma bem sucedida, a intervenção do técnico termina (Everly et al. 2012; 
McCabe et al., 2014). 
Porém, se o funcionamento do indivíduo continuar a manifestar-se 
inadaptativo, poder-se-á seguir um segundo follow-up, sendo que a partir do 
terceiro deverá ser disponibilizado outro tipo de cuidados mais particularizados 
e que redefinam a abordagem à vítima (Everly et al., 2014). 
 
 
Aspetos instrumentais e multidisciplinaridade dos Primeiros 
Socorros Psicológicos 
 
 
 
24 
Os Primeiros Socorros Psicológicos representam uma abordagem de 
apoio psicossocial dirigida a grupos de indivíduos e/ou comunidades afetadas 
por situações de catástrofe, de origem natural ou humana (National Child 
Traumatic Stress Network, 2006). Pretende-se que a atuação, ao nível dos 
Primeiros Socorros Psicológicos junto das vítimas, seja o mais precoce possível, 
no sentido de reduzir o stress causado pelos eventos traumáticos e, assim, 
promover um funcionamento adaptativo a curto e a longo prazo (National Child 
Traumatic Stress Network, 2006). 
Os Primeiros Socorros Psicológicos incluem a recolha de informação 
básica, que permita a realização de avaliações rápidas sobre as necessidades e 
preocupações imediatas dos sobreviventes; compreendem o conjunto de 
estratégias de sinalização precoce de indícios reveladores de disfunção 
despoletados pelo episódio crítico, tendo por objetivo a inviabilização ou, pelo 
menos, a mitigação da progressão de tais indícios para condições crónicas; 
consistem, ainda, numa resposta de cariz humanitário, marcada pela compaixão 
e solidariedade, cujo enfoque reside na prestação de auxílio e suporte 
psicossocial não intrusivo e consentido (Australian Psychological Society, 2013; 
Bradel & Bell, 2014; National Child Traumatic Stress Network, 2006; The Sphere 
Project, 2011; World Health Organization, 2013). 
De fato, os Primeiros Socorros Psicológicos mobilizam aspetos básicos e 
fundamentais da experiência humana, podendo ser concetualizados como uma 
forma de operacionalização do “bom senso comum” (Shultz & Forbes, 2014). 
Os Primeiros Socorros Psicológicos não constituem um método de 
diagnóstico, uma intervenção psicoterapêutica, uma forma de tratamento, nem 
tão pouco um modo de debriefing psicológico ou alguma espécie de 
interrogatório de caráter mais invasivo; em suma, não almejam substituir a 
intervenção terapêutica. Por isso mesmo, não se colocam exigências rígidas 
quanto à seleção dos agentes que procedem à aplicação dos Primeiros Socorros 
Psicológicos, pelo que esta pode ser realizada tanto por equipas de profissionais 
que intervêm em situações de crise, como por indivíduos com formações de base 
variadas, desde que devidamente treinados (Ohio Mental Health & Addiction 
Services, 2013; World Health Organization, World Vision International & The 
United Nations Children’s Fund, 2014). 
 
25 
Um aspeto fulcral a ter em consideração é o local e as características das 
infraestruturas onde os Primeiros Socorros Psicológicos são providenciados. 
Idealmente, estas devem ser seguras, minimamente confortáveis, espaçosas e 
resguardadas, i.e., distantes de quaisquer estímulos visuais ou sonoros 
provenientes do episódio crítico (Australian Psychological Society, 2013). Se 
nem sempre for possível reunir as condições enunciadas, devem ser 
ressalvados pelo menos os atributos da segurança e da distância mínima em 
relação ao local afetado. 
Alguns dos locais mais recorrentes para a prestação dos Primeiros 
Socorros Psicológicos são os centros comunitários, centros de saúde, escolas e 
outras instituições (World Health Organization, War Trauma Foundation & World 
Vision International, 2011). Um dos pressupostos subjacentes aos Primeiros 
Socorros Psicológicos é o de que todos os seres humanos são detentores de 
aptidões intrínsecas de coping que lhes permitem fazer face às adversidades, 
bem como superar os desafios impostos pelos eventos iminentemente 
traumáticos. Assim, a existência de um contexto favorável que reúna as 
condições requeridas para a satisfação das necessidades elementares do 
indivíduo, consonante com as suas especificidades, acaba por revelar-se como 
condição indispensável para o fomento e o desenvolvimento de tais capacidades 
(Snider, Chehil, & Walker, 2012; World Health Organization, 2013). 
No contexto específico da intervenção psicológica em circunstâncias de 
catástrofe, Erra e Mouro (2014) reforçam a importância de um compromisso 
entre as diferentes entidades públicas e privadas, assim como a necessidade de 
elaboração de um plano nacional de atuação especificamente concebido para 
fazer face a situações desta natureza. As autoras consideram fulcral que haja 
uma intervenção sistémica e articulada entre os diferentes organismos, 
nomeadamente a proteção civil, os bombeiros, as forças policiais e de 
segurança, as equipas médicas e psicossociais e a segurança social (Autoridade 
Nacional de Proteção Civil, 2013; Erra& Mouro, 2014). 
A intervenção multidisciplinar, pautada pela interdependência e 
complementaridade, conduz à edificação de uma resposta consolidada e eficaz 
no domínio das situações-limite. Suplementarmente, a definição e planeamento 
de uma resposta de emergência que compreenda estas particularidades requer 
 
26 
um conhecimento prévio dos recursos locais preexistentes, aliado à aferição da 
sua acessibilidade por parte dos elementos integrantes da comunidade 
envolvente (Erra & Mouro, 2014). 
Deste modo, na sequência de uma catástrofe é necessário adotar como 
ponto de referência um conjunto de procedimentos operacionais padronizados 
que conste de um plano nacional de emergência que, por sua vez, contemple 
seis estádios de intervenção indispensáveis, designadamente: a mobilização de 
equipas médicas e de apoio psicossocial para os locais afetados; a prestação de 
suporte socio emocional individualizado a par da administração de Primeiros 
Socorros Psicológicos (às vítimas primárias, secundárias e terciárias); a 
evacuação da população de risco e de especial vulnerabilidade, mais 
concretamente crianças, adolescentes, grávidas, idosos, pessoas com 
necessidades especiais e doentes; a disponibilização de apoio logístico à 
população-alvo por via da distribuição de bens de primeira necessidade 
(mantimentos, agasalhos, abrigo) e do suprimento das suas necessidades 
elementares (fisiológicas e de segurança) e, se necessário, da prestação de 
cuidados médicos imediatos; a realização de operações de busca e/ou de 
reencaminhamento de pessoas desaparecidas para os seus familiares; e, por 
fim, o reconhecimento de vítimas mortais e subsequente prestação de suporte 
psicológico particularizado aos familiares das vítimas (Autoridade Nacional de 
Proteção Civil, 2013; Erra & Mouro, 2014; IASC, 2007; World Health 
Organization, War Trauma Foundation & World Vision International, 2011). 
Em suma, podemos constatar que os Primeiros Socorros Psicológicos se 
traduzem num processo complexo, multifacetado e transdisciplinar de resposta 
em situações de catástrofe em que se torna fundamental a articulação da 
intervenção estritamente psicológica com as demais vertentes disciplinares e 
operacionais, quer no cenário pós-catástrofe, quer no domínio da prevenção 
(Autoridade Nacional de Proteção Civil, 2013). 
 
 
 
 
27 
Elementos nucleares dos Primeiros Socorros Psicológicos 
 
Segundo Uhernik e Huson (2009) e Allen et al. (2010), os princípios e 
técnicas que subjazem aos diversos modelos de Primeiros Socorros 
Psicológicos atendem a quatro pré-requisitos centrais: 
(a) serem consistentes com as evidências empíricas em matéria de risco 
e resiliência no seguimento de experiências traumáticas; 
(b) serem passíveis de implementação em contextos distintos; 
(c) adequarem-se a diversas faixas etárias; 
(d) e, finalmente, incorporarem na sua intervenção as especificidades 
culturais por forma a serem administrados de modo flexível. 
Foram identificados por Hobfoll et al. (2007) cinco elementos nucleares 
dos Primeiros Socorros Psicológicos: segurança, estabilização emocional, união, 
auto eficácia e esperança. No que concerne à segurança, é fulcral minimizar ou 
evitar a exposição a ameaças de natureza diversa daquela que deu azo à 
situação crítica, intervindo aqui as componentes da assistência logística, médica 
e psicológica, referidas anteriormente. Relativamente à estabilização emocional, 
esta poderá ser atingida através da disponibilidade para ouvir a história singular 
de cada indivíduo afetado e para compreender as emoções que o episódio crítico 
desencadeou, sendo importante que a partilha seja voluntária e não forçada. 
Quanto à união, é necessário ajudar as vítimas a entrarem em contato 
com o seu núcleo familiar e amigos próximos, fornecer informações precisas e 
pertinentes, além de direcionar as vítimas para os serviços de apoio disponíveis. 
O técnico de Primeiros Socorros Psicológicos deve, também, promover as 
competências de auto eficácia do sobrevivente, envolvendo-o ativamente na 
tomada de decisão e na definição de prioridades ao nível da resolução imediata 
dos problemas. Por fim, os prestadores de Primeiros Socorros Psicológicos 
devem transmitir uma perspectiva positiva, otimista e realista sobre a 
recuperação pós-evento traumático (Hobfoll et al., 2007). 
A administração dos Primeiros Socorros Psicológicos deve reger-se por 
oito princípios centrais aos quais subjazem três componentes basilares da 
 
28 
atuação, nomeadamente, a observação, a escuta e a aproximação (Uhernik & 
Husson, 2009; World Health Organization, War Trauma Foundation & World 
Vision International, 2011), Assim, o prestador de Primeiros Socorros 
Psicológicos deve, em primeira instância, identificar os indivíduos que 
experienciaram o evento traumático e iniciar o contato de forma compassiva e 
não invasiva, considerando que alguns indivíduos poderão não procurar ou 
consentir este tipo de ajuda. 
Neste primeiro contato, o provedor de Primeiros Socorros Psicológicos 
deve fazer uma nota introdutória sucinta acerca do seu papel e funções de que 
está incumbido. Em seguida, afigura-se crucial prover segurança e conforto 
físico e estabilizar as emoções do sobrevivente, por via da sinalização das 
necessidades que requerem satisfação prioritária e da normalização do seu 
sofrimento (explicitação da inevitabilidade das reações e comportamentos 
despoletados pelo episódio crítico), algo que contribui para o decréscimo dos 
níveis de stress e preocupação e pode auxiliar em termos da adoção de algumas 
estratégias de coping. 
A recolha de informação permite que seja possível priorizar, ou seja, triar 
e hierarquizar a população que se encontra mais vulnerável, por forma a ser 
possível intervir com prontidão. A assistência prática consiste na delineação de 
um plano de ação que faculte ferramentas ao indivíduo para lidar com o 
acontecimento potencialmente traumático. Através da conexão com a rede social 
de suporte, é possível auxiliar o indivíduo a estabelecer contato com os seus 
familiares e grupo de pares. 
Em virtude das situações de crise terem um caráter confuso e 
desorientador passível de obstaculizar as competências que permitem que o 
indivíduo enfrente as dificuldades, os técnicos que aplicam os Primeiros 
Socorros Psicológicos devem facultar informação verbal e escrita acerca das 
estratégias de coping, por forma a munir o indivíduo de ferramentas que lhe 
permitam lidar com o problema, fomentar um processo resiliente e predispor para 
um funcionamento adaptativo e integrativo. Se eventualmente as informações 
partilhadas pelo técnico de Primeiros Socorros Psicológicos forem insuficientes, 
urge reencaminhar o indivíduo para serviços que lhe facultem um suporte mais 
especializado (Bradel & Bell, 2014; Uhernik & Husson, 2009). 
 
29 
 
Benefícios da prestação de Primeiros Socorros 
Psicológicos 
 
 
Inúmeras investigações científicas têm vindo a sublinhar o relevo e os 
benefícios dos Primeiros Socorros Psicológicos nas etapas iniciais da resposta 
psicossocial a episódios de catástrofe (McCabe et al., 2014). 
De fato, segundo Bradel e Bell (2014), os indivíduos expostos a 
catástrofes naturais (e.g., terramotos, furacões, inundações, deslizamentos de 
terra) e humanas (e.g., atentados terroristas) estão mais suscetíveis de 
desenvolver determinados quadros psicopatológicos, sendo os mais recorrentes 
a Perturbação Depressiva Major e as Perturbações de Ansiedade. 
Além disso, existem outros fatores que precipitam a manifestação destes 
e outros quadros psicopatológicos, nomeadamente o grau de exposição e 
magnitude (severidade) do evento traumático, a necessidade de evacuação e 
deslocação para um local desconhecido, a perda de um ente querido ou de 
indivíduos conhecidos (luto que se pode tornar complicado), a ausência de uma 
 
30 
rede social de apoio,a presença de problemas de saúde pré-existentes, algumas 
variáveis sociodemográficas específicas (e.g., género e nível socioeconómico), 
determinados traços de personalidade (e.g., neuroticismo) e mecanismos de 
atribuição de significado ao acontecimento traumático menos adaptativos 
(Bradel & Bell, 2014; Franco, 2012). 
 Paralelamente, Bradel e Bell (2014) realçam que os incidentes críticos de 
caráter ansiógeno e stressante desencadeiam frequentemente alterações 
bioquímicas singulares, por exemplo, o aceleramento do ritmo cardíaco e a 
libertação de adrenalina após a estimulação do sistema nervoso simpático, que 
predispõem o ser humano para a reação profícua ( fight), ou para a fuga ( f light). 
As circunstâncias propiciadoras de stress agudo podem induzir reações 
de índole fisiológica (e.g., espasmos e dores musculares, comprometimento do 
sistema imunitário), comportamental (e.g., perturbações alimentares e do sono, 
fobias) cognitiva (e.g., declínio da atenção seletiva, estados de confusão, 
incapacidade de resolução de problemas), emocional (e.g., tristeza, raiva, 
medo), e espiritual (e.g., emergência de questões existenciais multitemáticas: o 
significado da vida, a intervenção de entidades superiores, o destino) que, por 
vezes, obstaculizam o desempenho do indivíduo na sua vida quotidiana (Bradel 
& Bell, 2014; National Child Traumatic Stress Network, 2006). 
Neste sentido, e para colmatar toda esta diversidade de impactos 
potenciais do episódio crítico, os Primeiros Socorros Psicológicos têm como 
finalidade munir o indivíduo de competências úteis que lhe permitam aprender e 
desenvolver padrões de resposta adaptativos perante circunstâncias 
stressantes, por forma a fomentar a resiliência e a perseverança (Autoridade 
Nacional de Proteção Civil, 2013; Chan, Chan, & Kee, 2012). 
Neste sentido, o constructo de autoeficácia, proposto por Bandura, 
desempenha um papel central no que diz respeito à eficácia das intervenções. 
Trata-se de um constructo microanalítico referente às crenças e percepções que 
um indivíduo tem a respeito das suas competências para desempenhar 
eficientemente uma tarefa e, por conseguinte, atingir o resultado ambicionado 
independentemente dos obstáculos que possam surgir. As crenças de auto 
eficácia revelam-se cruciais para a manutenção da continuidade do esforço e da 
 
31 
perseverança em circunstâncias funestas e, como tal, são determinantes na 
gestão pessoal das consequências da situação traumática (Graham & Weiner, 
1996). 
Com efeito, segundo a Australian Psychological Society (2013), as 
crenças de autoeficácia predizem desfechos mais favoráveis, sendo que os 
indivíduos mais otimistas, detentores de pensamentos mais positivos, que creem 
ser capazes de ultrapassar as contrariedades que se interpõem na sua jornada, 
estão aptos a recuperar mais facilmente das repercussões nefastas advindas da 
situação traumática. A promoção da auto eficácia de cada indivíduo afigura-se, 
então, como uma tarefa central para a potenciação da intervenção (Hobfoll et al., 
2007). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
32 
 
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