Prévia do material em texto
Processo de institucionalização da profissão O processo de institucionalização do Serviço Social como profissão, inscrita na divisão social e técnica do trabalho, e sua relação com a formação profissional e com os espaços ocupacionais de atuação profissional. Profª. Isabel Cristina Silva Marques Paltrinieri 1. Itens iniciais Propósito Para melhor compreensão da profissão no cenário atual, é imprescindível analisar seu processo de institucionalização, identificando elementos que exercem forte influência no Serviço Social ainda atualmente, especialmente os relacionados à formação de quadros profissionais e aos espaços ocupacionais tradicionalmente ocupados por assistentes sociais. Objetivos Analisar o significado do Serviço Social como profissão inserida na divisão social e técnica do trabalho. Identificar o surgimento das primeiras escolas de Serviço Social e sua relação com o processo de industrialização e urbanização nacional. Reconhecer os estilos de atuação profissional presentes no cenário do Serviço Social: Caso, Grupo e Comunidade, bem como seus espaços de atuação. Introdução Compreender o processo de institucionalização do Serviço Social como profissão, inscrita na divisão social e técnica do trabalho, requer ampliar o olhar para todas as transformações que ocorriam no cenário mundial e, por conseguinte, também no cenário nacional. Tais transformações, expressas principalmente na economia, na política e na cultura, eram fundamentalmente relacionadas ao modo de produção capitalista, em sua fase de expansão para os chamados países "subdesenvolvidos", com ênfase na América Latina. O plano de expansão aqui tratado implicava a industrialização e urbanização desses países, dentre eles o Brasil. Durante esse processo, é registrado o surgimento de várias profissões, necessárias ao atendimento das requisições impostas pela industrialização. É nesse contexto que o Serviço Social se institucionaliza como profissão, havendo não só o surgimento de postos e demandas de trabalho em consonância com os interesses do capital, mas também uma significativa preocupação com a formação profissional de quadros de assistentes sociais. Assim, esse cenário também afetou significativamente as escolas de Serviço Social, que passaram a adotar grades curriculares adaptadas às requisições daquele momento histórico, assim como os espaços ocupacionais do Serviço Social também sofreram alterações decorrentes desse processo. • • • 1. Serviço Social na divisão social e técnica do trabalho Trabalho e modo de produção capitalista Compreendendo o trabalho no modo de produção capitalista O Serviço Social é uma profissão que tem aproximadamente 80 anos, o que, do ponto de vista da história, lhe confere um caráter relativamente recente. Sua gênese acontece no modo de produção capitalista, mais especificamente na chamada idade dos monopólios, que significa a atual fase do capitalismo, cujo início se deu no fim do século XIX e apresenta como principais características a concentração de capital e cada vez maior centralização deste, o que leva a mudanças claramente marcadas e perceptíveis nas formas de trabalho, de produção e até mesmo do Estado e da sociedade. É desta forma que o Serviço Social emerge (IAMAMOTO, 2007) como uma especialização na divisão sociotécnica do trabalho, como um ramo da especialização do trabalho coletivo. Para compreender melhor o que significa essa afirmação, é preciso, anteriormente, estabelecer algumas reflexões sobre trabalho e desvendar como e para que este se realiza. É preciso pensar alguns conceitos sobre o surgimento do Serviço Social como profissão inscrita na divisão social e técnica do trabalho, e refletir sobre o momento histórico em que isso ocorre, também levando em consideração o modo de produção capitalista e seus principais elementos, que determinam uma série de requisições ao conjunto da sociedade. Tais requisições não se dão apenas sobre aspectos meramente econômicos, mas sobre a interligação dos seguintes aspectos: Econômicos Sociais Políticos A partir da interligação desses requisitos, é possível afirmar que: [...] para compreender e reconhecer o Serviço Social como profissão, necessariamente, é preciso analisá-la sob sua vinculação à divisão do trabalho, à influência da Igreja Católica e sob as contradições identificadas na realidade social. (TORRES, 2009, p. 202) Em seguida, faremos algumas considerações sobre trabalho, assentado no modo de produção capitalista. Ao longo da formação profissional, estudantes de Serviço Social vão se deparar com essa questão. Em qual momento o Serviço Social emerge como profissão, como um trabalho. Contudo, o que significa trabalho? • • • Atenção Há várias maneiras de analisar a realidade, diversas correntes teóricas buscam explicar as formas como o mundo e as sociedades se apresentam. Nesse aspecto, não há um certo ou errado, apenas o modo de perceber a realidade que nos parece mais completo e dotado de sentido. Optamos pela ótica de Karl Marx (1818-1883), que exerce forte influência sobre conceituados autores do Serviço Social. Significa olhar a realidade através de uma lente chamada método histórico-dialético, que, de modo muito simplificado, representa um método de compreensão da realidade, que enxerga os seres humanos dentro de um contexto histórico e de acordo com as relações materiais da sociedade. Sociedade essa dividida em classes sociais, são elas: Nessa forma de análise, admite-se as situações como concretas, materiais, mas não como decorrentes do acaso, são “heranças” de condições do passado e da posição que se tenha nas classes sociais. O trabalho apresenta-se como a atividade sobre a qual o ser humano emprega sua força para produzir os meios para o seu sustento: é pelo trabalho que o homem se diferencia e se distancia da natureza, ao submetê-la à sua vontade no ato de transformá-la em produtos necessários à sua vida. Tais produtos são valores de uso, que podem satisfazer diferentes necessidades humanas. É nesse sentido que o Serviço Social pode ser pensado como trabalho. Processo de trabalho Compreendendo o processo de trabalho Imagine que, para se produzir valor de uso, seja necessário que o homem trabalhe. Chama-se essa potencialidade de força de trabalho. Além da sua força de trabalho, para realizar o trabalho em si, o homem precisa também de matéria-prima sobre a qual trabalhar, entendida como o objeto que moldará com seus esforços físicos e mentais para atingir o formato planejado. Para isso, o homem vem ao longo do tempo construindo instrumentos, ferramentas e meios para a concretização do seu trabalho. Assim, os homens, que ao longo do seu processo evolutivo sempre trabalharam, sempre contaram com esses três elementos, que constituem o processo de trabalho. Burguesia/dominantes São o grupo ou classe dominante que compreende o grupo de pessoas detentoras dos meios de produção. Proletariado/dominados São aqueles que vendem sua força de trabalho para a burguesia, produzindo a riqueza com seu trabalho, que deixará os burgueses ainda mais ricos. Força de trabalho Matéria Instrumentos / Meios É verdade que, desde os primórdios da humanidade, os homens sempre trabalharam, modificaram a natureza com uma intencionalidade e concretizaram seus produtos. No entanto, com o surgimento do modo de produção capitalista, ou capitalismo, ocorreram mudanças significativas e que até os dias atuais são identificadas. Com base nesse modo de produção, uma premissa é a de que a sociedade não pode deixar de produzir, assim como não pode deixar de consumir. Esse é um processo interligado, como uma cadeia, e assim é possível constatar que todo processo social de produção é, ao mesmo tempo, um processo de reprodução. Capitalismo O capitalismo, como sistema de produção, surgiu no final do século XIV e início do século XV, e sempre passou por diferentes estágios e crises: capitalismo comercial, ou pré-capitalismo; capitalismo industrial (como o avanço da industrialização eno Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 8. ed. São Paulo: Cortez; Lima, PE: CELATS, 1991. IAMAMOTO, M. V. Os espaços sócio-ocupacionais do assistente social. In: CFESS-ABEPSS. Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília, DF: CEAD/UnB, 2007, p. 342-375. v. 1. NETTO, J. P. Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1996. PIANA, M. C. A construção do perfil do assistente social no cenário educacional [on-line]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. PINTO, T. dos S. O que foi a Era Vargas? Brasil Escola, s. d. Consultado na internet em: 9 jan. 2021. RAICHELLIS, R. As atribuições e competências profissionais à luz da "nova" morfologia do trabalho no Serviço Social. In: CFESS-ABEPSS. Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília, DF: CEAD/ UnB, 2009, p. 11-42. v. 1. TORRES, M. M. As múltiplas dimensões presentes no exercício profissional do assistente social: intervenção e o trabalho socioeducativo. Serviço Social em Revista, v. 12, n. 1, 2009. Processo de institucionalização da profissão 1. Itens iniciais Propósito Objetivos Introdução 1. Serviço Social na divisão social e técnica do trabalho Trabalho e modo de produção capitalista Compreendendo o trabalho no modo de produção capitalista Atenção Processo de trabalho Compreendendo o processo de trabalho Trabalho necessário Trabalho excedente Característica I Característica II Característica III Divisão social e técnica do trabalho A profissão inscrita na divisão social e técnica do trabalho Lei dos Pobres Workhouses Panorama histórico Panorama histórico do Serviço Social no Brasil Reflexão Profissionalização do Serviço Social Profissionalização do Serviço Social no Brasil contemporâneo Comentário Saiba mais O assistente social e o mercado de trabalho Conteúdo interativo Vem que eu te explico! Serviço Social como profissão Conteúdo interativo Caridade, filantropia ou assistência social Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 2. As primeiras escolas de Serviço Social Escolas de Serviço Social e atuação do Estado Bases de surgimento do Serviço Social no Brasil Saiba mais Período entreguerras Um mundo em crise: o entreguerras 1917 1920 1922 1932 Orgãos públicos e paraestatais A formação profissional em Serviço Social no Brasil Comentário Industrialização e urbanização A questão social no processo de industrialização e urbanização do país Comentário 1930 1943 Base religiosa e proletariado Os contornos do Serviço Social no Brasil Ainda a base religiosa da profissão Comentário A definição dos contornos de formação profissional Formação permanente do assistente social Conteúdo interativo Vem que eu te explico! Tecnicismo e Serviço Social Conteúdo interativo I Congresso Brasileiro de Serviço Social Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 3. Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade e nova morfologia do trabalho Influência dos EUA Contextualização histórica da influência dos EUA Comentário 1940 1945 Serviço Social de Caso Mary Richmond Resumindo Por um lado Por outro lado Na Sociologia Na Psicologia Serviço Social de Grupo Serviço Social de Grupo Saiba mais Serviço Social de Comunidade Desenvolvimento de Comunidade Desenvolvimentismo Comentário Nova morfologia do trabalho Os espaços ocupacionais, à luz da nova morfologia do trabalho Os processos de ocupação dos espaços Mercantilização de garantias Refilantropização da assistência O exercício da profissão Reflexão Exemplo A constante evolução do Serviço Social Conteúdo interativo Vem que eu te explico! Serviço Social de Grupo Conteúdo interativo Determinismo socioeconômico e Serviço Social Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Podcast Conteúdo interativo Explore + Referênciasprocessos de produção em larga escala); e capitalismo financeiro ou monopolista. Da mesma maneira que a produção não pode ser pensada sem a reprodução, a produção, no sistema capitalista, também não pode ser pensada sem a circulação e o consumo das mercadorias. Para produzir as mercadorias, numa relação de assalariamento, a jornada de trabalho é composta de dois tipos de trabalho: Trabalho necessário Por trabalho necessário, podemos compreender o tipo de trabalho pago ao trabalhador pelo capitalista, com o qual o primeiro irá adquirir seus meios de subsistência. Trabalho excedente Por trabalho excedente podemos compreender a parte do trabalho realizado cujo custo vai além do que é necessário para custear a subsistência do trabalhador. Esses dois tipos de trabalho são realizados e se encontram na mesma jornada realizada pelo trabalhador. Ao capitalista importa muito mais o trabalho excedente, já que seu desejo é diminuir o tempo do trabalho necessário e aumentar o tempo do trabalho excedente, que é a base de sua riqueza. A esfera em que as mercadorias produzidas são comercializadas chama-se circulação. Nessa zona é que se realiza a mais-valia, anteriormente gerada na produção. No sistema capitalista, na esfera da reprodução, há um importante aspecto dessa interação, que diz respeito a uma sociabilidade para a continuidade dos trabalhadores com suas características importantes para a continuidade do sistema: • • • Máquina de tear industrial. Mais-valia O conceito de mais-valia, que será amplamente explorado em diversos conteúdos, diz respeito à forma em si que a exploração no sistema capitalista assume. Essa exploração é decorrente da força de trabalho produzir mais do que recebe como salário. Isso ocorre com o prolongamento da jornada de trabalho, mediada pela utilização da tecnologia ou não. Característica I Trata-se de garantir que os trabalhadores não tenham outra mercadoria para vender a não ser sua própria força de trabalho. Característica II Como o trabalhador não mais possui os meios de produção, tudo o que é produzido pertence ao capitalista que o contratou. Característica III Em sequência, acontece a alienação desses trabalhadores quanto à não percepção de seu papel na produção da riqueza. Divisão social e técnica do trabalho A profissão inscrita na divisão social e técnica do trabalho A gênese do Serviço Social está intimamente ligada ao desenvolvimento da ajuda aos pobres (caridade e filantropia), ao significativo apoio operacional e material prestado pela Igreja Católica e pelo Estado, e por último, mas não menos importante, ao surgimento do modo de produção capitalista e suas requisições de ampliação e reprodução social. O surgimento e desenvolvimento do Serviço Social como profissão está diretamente relacionado à demanda da sociedade capitalista e suas estratégias e mecanismos, bem como à reprodução da ideologia dominante. Por tal razão, a história do Serviço Social demonstra que sua institucionalização não esteve livre dos condicionantes sociais e econômicos, que materializam os conflitos que têm início na apropriação privada dos meios de produção, condição primordial do modo de produção capitalista. Um marco histórico disso está na segunda metade do século XVIII, na Inglaterra: iniciou-se o processo histórico da Revolução Industrial, responsável pela consolidação do modo de produção capitalista, em substituição ao modo de produção anterior, conhecido como pré- capitalismo ou capitalismo comercial. Trabalhadores do campo, homens, mulheres e crianças. A Revolução Industrial consolidou essa mudança e introduziu o maquinário industrial às produções fabris. Esse fato acelerou a industrialização, mas, por outro lado, gerou a diminuição de postos de trabalho e, com isso, uma grande massa de mão de obra sem ocupação, acirrando a questão social da época. O campo inglês foi devastado pela expropriação de terras dos pequenos camponeses, que tiveram suas culturas e habitações violentamente demolidas pelo Estado. O Estado também foi responsável por uma série de legislações e impostos que empurraram um significativo contingente populacional para a miséria. Assim, o Estado precisava assumir alguma postura no trato da questão social. Cerca de 200 anos antes, a Rainha Elizabeth já havia instituído um imposto para benemerência. Contudo, o acirramento da pobreza, decorrente da implantação do modo de produção capitalista, ocasionou uma revisão legal, que deu forma mais rígida à Poor Law (Lei dos Pobres), em 1834. Sendo assim, vamos aprofundar os conhecimentos a respeito da Lei dos Pobres e seus desdobramentos: Lei dos Pobres Foi a forma que o Estado britânico criou para lidar com a questão social vigente. No início, a finalidade da lei era de reprimir a mendicância e a “vagabundagem”, aliviando parcialmente a pobreza existente. Com as mudanças sociais e econômicas, a lei passa a apresentar um forte viés regulador das relações entre patrões e empregados, relacionando a pobreza às péssimas condições de vida da massa de trabalhadores na Inglaterra. Nesse sentido, a Lei dos Pobres previa, inclusive, internação nas workhouses. Workhouses Eram casas correcionais, que funcionavam como mecanismo da lei para cumprir o seu objetivo de acabar com os pedintes profissionais e, para tanto, obrigava a internação compulsória da camada social alijada da sociedade — homens, mulheres, crianças, doentes, desocupados, criminosos —, de todos aqueles que não tinham como se manter, em instituição que visava lhes atender e formar nos padrões requisitados pelo sistema capitalista, em sua fase de organização, a fim de legitimar e consolidar uma nova sociedade. Dessa forma, a Lei dos Pobres e suas formas de aplicação dão a direção de como a assistência aos mais pobres e marginalizados vinha sendo gerida, com o traço comum da caridade revestida de coerção. Panorama histórico Panorama histórico do Serviço Social no Brasil No caso brasileiro, a história da assistência no país está ligada à caridade e à filantropia, operacionalizadas inicialmente por mecanismos da Igreja Católica e por grupos relacionados à filantropia empresarial, com pouca inserção advinda do Estado. A partir dos anos 1930, tal configuração muda, a partir de condicionantes políticos, econômicos e sociais, como veremos adiante. Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, em Sorocaba, SP. Reflexão A questão social é o centro das contradições que atravessam a sociedade nesse período histórico, no qual surge diretamente relacionada à generalização do trabalho livre, numa sociedade em que a escravidão marca profundamente seu passado recente. A formação social e econômica brasileira diz respeito a um processo recente de “abolição” da escravidão, que dava lugar a uma transição na qual se forma um mercado de trabalho em moldes capitalistas. “Abolição” “Abolição” (entre aspas), uma vez que se trata de uma parte da história do Brasil muitas vezes contada como um processo de libertação, sem contradições e interesses econômicos, e suprimindo a falta de preparo e estrutura para que os escravizados, então “libertos”, pudessem, de fato, obter meios de sustento e de uma vida digna e realmente livre. Nesse sentido, o operário tem diante de si não mais um senhor como proprietário dos meios de produção, mas sim uma classe de capitalistas, para os quais se torna livre para vender sua força de trabalho, inicialmente com quase nenhuma garantia ou proteção relativa ao trabalho. Como vendedor livre de sua força de trabalho, a certa altura do desenvolvimento capitalista no Brasil, esse trabalhador é profundamente afetado pela exploração desmedida do capital, no sentido da acumulação e geração de lucro sobre a mão de obra. Nesse cenário, o empresariado vê a necessidade de controle social sobre a exploração da força de trabalho, por meio de uma regulamentação jurídica estatal. Ocorre que tal regulação foi fortemente marcada pelos valores e princípios que regiam a sociedade burguesa, de modo a conformar o operariado àssuas necessidades e expectativas de exploração, cada vez mais intensas. Assim, percebe-se o deslocamento da regulação dos trabalhadores da esfera apenas mercantil para a esfera legal e estatal. Nesse contexto, as Leis Sociais figuram como parte mais importante dessa regulação. As condições sociais muito precárias do operariado desencadearam movimentos sociais e pressões no sentido da conquista de uma cidadania social. Perceba que as Leis Sociais surgem em conjunturas determinadas, ligadas ao aprofundamento do capitalismo na formação econômica e social brasileira. Até então, as expressões da questão social eram tratadas como a contradição entre abençoados pela fortuna e desassistidos; ricos e pobres; dominantes e dominados. Com o surgimento dos grandes polos industriais, a questão social passa a se concentrar na contradição entre burguesia e proletariado. É justamente neste decurso de processo histórico que o Serviço Social surge como profissão, em seus primeiros contornos. Profissionalização do Serviço Social Profissionalização do Serviço Social no Brasil contemporâneo A perspectiva de enfrentamento e regulação da questão social assume novos contornos a partir da década de 1930, em função das manifestações das expressões da questão social na vida cotidiana da sociedade brasileira e das mudanças sob o ponto de vista político e econômico. Tal cenário atua como um campo fértil para a profissionalização do Serviço Social e para o estabelecimento de uma nova lógica no trato da questão social e da assistência. Comentário É fato que a profissão surge a partir de demandas da sociedade capitalista, contudo, a Igreja Católica se destaca na estruturação dessa profissão emergente no país. Saiba mais Igreja Católica: Essa influência também será explorada por você em diversos conteúdos! Aqui, vale lembrar que advém da Igreja Católica o ideário, os conteúdos e o processo de formação dos primeiros assistentes sociais brasileiros: que associa a questão social à questão moral, compreendendo-a enquanto um conjunto de problemas de responsabilidade individual da população que os vivenciam. Essa visão aponta para o trato da questão social utilizando-se de um enfoque individualista, moralizador e psicologizante, que encontra na profissão condições efetivas de desenvolvimento. No bojo de transformações sociais, econômicas e políticas no Brasil, no período entre 1930 e 1940, o Serviço Social surge como profissão, contando também com o projeto de recristianização da Igreja Católica e ação de grupos e instituições que possibilitaram tais transformações: A industrialização processava-se dentro de um modelo de modernização conservadora, pois era favorecida pelo Estado corporativista, centralizador e autoritário. Assim, a burguesia industrial aliada aos grandes proprietários rurais, buscava apoio principalmente no Estado para seus projetos de classe e, para isso, necessitavam encontrar novas formas de enfrentamento da chamada questão social. (PIANA, 2009, p. 88) A política adotada pelo governo de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo (1937-1945), visava garantir o controle social e sua legitimação, apoiado na classe operária, por meio de uma política de massa, que, simultaneamente, defendia e reprimia os movimentos reivindicatórios de melhores condições de vida e trabalho. Ao mesmo tempo, a Igreja Católica continuava quase exclusivamente desenvolvendo as ações sociais e assistenciais, por intermédio das chamadas obras de caridade, que envolviam substancialmente o segmento feminino da burguesia brasileira daquela época. Essa influência recai sobre a formação profissional dos primeiros assistentes sociais brasileiros, que se dá por influência europeia, mais especificamente do modelo franco-belga: uma formação essencialmente moral e pessoal. A profissão, em tal cenário, era enxergada como uma espécie de vocação, que requeria uma formação profissional doutrinária, para que os assistentes sociais pudessem enfrentar a realidade social com subjetividade. Assim o Serviço Social segue em suas primeiras conformações profissionais até a década de 1940, período no qual se descortina uma série de novas requisições profissionais, apontando para uma maior profissionalização do trato com as questões sociais e com a assistência. Embora seja um novo ciclo, a profissão segue profundamente marcada pela sua origem católica, norteada pela caridade, benevolência e filantropia, próprios do universo neotomista. A diferença, portanto, reside na tomada de espaço do Estado (com apoio do conjunto da sociedade civil) no campo assistencial, materializada pela criação das grandes instituições assistenciais. O assistente social e o mercado de trabalho Neste vídeo, a especialista apresentará as perspectivas da profissão no atual mercado de trabalho. Confira! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Serviço Social como profissão Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Caridade, filantropia ou assistência social Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Sobre o significado do conceito trabalho, assinale a alternativa que oferece a melhor definição: A Ato de produzir articulado, sem modificação da natureza pela força do homem, e sem considerar as dimensões sociais, apenas as dimensões econômicas B Ato de produzir isoladamente, modificando a natureza e gerando valor de uso ou de troca. Para ser considerado como trabalho, é necessário, além de modificar a natureza, ter seu produto palpável, visível e concreto. C Ato de produzir articulado, que considera dimensões sociais e dimensões econômicas, podendo modificar a natureza e gerar produtos que sejam palpáveis ou não. D Ato de produzir que leva em consideração apenas as dimensões sociais, quanto ao valor de uso e troca, sem necessariamente levar em consideração as dimensões econômicas. E Ato de produzir natural ao homem, que, ao empreender quaisquer ações, modifica a natureza e, dessa forma, pode considerar sua ação como um trabalho, independentemente das dimensões sociais e das dimensões econômicas. A alternativa C está correta. O conceito de trabalho considera, além do ato de produzir articulado às dimensões sociais e econômicas, a geração de produtos que, embora não modifiquem a natureza diretamente ou não possam ser enxergados, representam ato humano dotado de valor e utilidade social. Questão 2 Qual alternativa contempla de modo mais abrangente os fatores que caracterizam a inserção do Serviço Social como profissão inscrita na divisão social e técnica do trabalho? A Profissionalização da prática assistencial, como resultado das pressões populares e da organização da classe trabalhadora em formação, sem influência da Igreja Católica, do Estado e do empresariado. B Profissionalização da prática assistencial, motivada exclusivamente pela doutrina social da Igreja Católica. C Profissionalização da prática assistencial, voltada ao trato com as manifestações das questões sociais no país, considerando, essencialmente, as demandas geradas a partir do trabalho rural. D Profissionalização da prática assistencial, como demanda requerida pela Igreja Católica para modernização das ações voluntárias e caritativas. E Profissionalização de prática assistencial, voltada ao trato com as manifestações das questões sociais, no momento de necessidade de maior controle sobre a classe trabalhadora em formação no país. A alternativa E está correta. As expressões das questões sociais no país já eram tratadas antes mesmo da profissionalização do Serviço Social, no entanto, contavam com a diretriz de caridade e forte influência da Igreja Católica, não com a preocupação do Estado e do empresariado em empreender ações de controle sobre a classe trabalhadora em formação naquele momento histórico de industrialização e urbanizaçãonacional. 2. As primeiras escolas de Serviço Social Escolas de Serviço Social e atuação do Estado Bases de surgimento do Serviço Social no Brasil O surgimento das escolas de Serviço Social deve ser compreendido pelo aparecimento da demanda de uma ação especializada e profissionalizada pelo movimento mais amplo de desenvolvimento do capitalismo em todo o mundo. De modo geral, os países latino-americanos contaram, para criação de suas escolas, com alguma assistente social de origem europeia ou, se não fosse possível, ao menos com uma escola local, que tivesse em sua formação a base europeia. Nesse período, a formação europeia assume um protagonismo nas escolas da América Latina. Posteriormente, os EUA assumem tal protagonismo, fundamentado, por um lado, pela consequente penetração norte-americana na América Latina (por questões de alianças políticas e econômicas), e por outro, pelos textos e visitas de professores ou mesmo de enviados de organismos internacionais. A partir daí que o tecnicismo é apontado como estratégia do Serviço Social para enfrentar as novas requisições colocadas à profissão. A política assistencial começa a ser gerida prioritariamente pelo Estado, sendo efetivada direta ou indiretamente pelas instituições do próprio aparelho estatal ou associadas ao Estado. Assim, a assistência deixa de ser um serviço prestado exclusivamente pelas instituições assistenciais privadas, tendo como novos protagonistas o Estado e o empresariado. Mais que isso: A demanda de trabalho posta ao Serviço Social se dá não pela população usuária, mas por requisições apresentadas, por intermédio do empresariado e do Estado. As características da população atendida pela malha assistencial também passam por mudanças. Anteriormente, uma pequena parcela da população era atendida por meio das obras assistenciais privadas, e nesse novo período, um maior número de proletários tem acesso às poucas políticas sociais criadas pelo Estado naquela ocasião. Saiba mais Por proletários, compreende-se a classe de operários assalariados modernos, que não possuem meios próprios de produção e precisam, necessariamente, vender sua força de trabalho para sobreviver. Essa mudança também altera o vínculo profissional, uma vez que o empresariado e o Estado passam a ser os principais empregadores de assistentes sociais. Isso dá um contorno diferente ao exercício da profissão, pois cada segmento empregador tem suas próprias lógicas, interesses, objetivos e expectativas em relação à prática profissional. É preciso lembrar que, naquela fase, a atuação profissional ainda se dava sob a égide do pensamento da Igreja, por meio da doutrina social católica, dotada, principalmente, da ideia de prática do bem. Dessa maneira, o pensamento conservador e a influência da doutrina católica traçaram um perfil de ação para os profissionais de Serviço Social atrelado ao pensamento burguês. Sob tal olhar, eram atribuídas ao Serviço Social tarefas como: Amenizar conflitos Preservar a ordem vigente Promover equilíbrio nas relações sociais Contudo, eram desconsideradas as relações de desigualdade que, necessariamente, dizem respeito ao modo de produção capitalista. A profissão, portanto, possuía uma frágil consciência política, visto que não conseguia perceber as contradições do exercício profissional, centrando suas forças e pensamento na questão da ajuda ao próximo. Tais características profissionais facilitaram a aceitação da profissão não só pela Igreja Católica, mas também pelo Estado e pela sociedade burguesa. Período entreguerras Um mundo em crise: o entreguerras Após o fim da Primeira Guerra Mundial, surgem diversas obras e instituições assistenciais, fato que está correlacionado às protoformas do Serviço Social no Brasil. Internacionalmente, registra-se o surgimento da primeira nação socialista e a expansão do movimento operário por toda a Europa. As primeiras escolas de Serviço Social começam a surgir pela Europa, muito estimuladas pelo preceito do Tratado de Versalhes quanto ao trabalho, que versa sobre condições internacionais de maior cuidado, sob o ponto de vista do trabalho, com a classe operária. Já no âmbito nacional, podemos destacar o surgimento de alguns movimentos e instituições nos seguintes períodos: 1 1917 Os grandes movimentos operários de 1917 a 1921 evidenciaram para a sociedade a existência da questão social e promoveram um chamamento para sua resolução ou, ao menos, para minimizá-la. 2 1920 É nesse contexto brasileiro que surgem as primeiras instituições assistenciais, como a Associação das Senhoras Brasileiras (1920) no Rio de Janeiro e a Liga das Senhoras Católicas (1923) em São Paulo. Paralelamente ao surgimento dessas instituições, ocorre um movimento denominado “reação católica”, que significava a divulgação do pensamento social da Igreja e da formação das bases de organização e doutrinas do apostolado laico. 3 1922 É fundada a Confederação Católica, que precede a Ação Católica, sendo a responsável pela centralização política e pelo fomento do apostolado laico. Assim, são registradas instituições destinadas a organizar a juventude católica para a ação social voltada ao operariado e suas famílias: a Juventude Operária Católica (JOC), a Juventude Estudantil Católica (JEC), a Juventude Universitária Católica (JUC), entre outras. • • • 41932 Com o andamento dessa estratégia, tais grupos perceberam a necessidade de melhor especialização técnica, e em 1932 surge o Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo (CEAS), como condensação da necessidade sentida por setores da Ação Social e da Ação Católica, em otimizar as iniciativas assistenciais promovidas pelas frações da classe dominante paulista, sob patrocínio da Igreja Católica e mobilizada pelo laicato. Vejamos um pouco mais sobre o CEAS: o marco inicial do Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo foi o Curso Intensivo de Formação Social para Moças, promovido pelas Cônegas de Santo Agostinho, tendo a representante da Escola Católica de Serviço Social de Bruxelas, Adèle Loneux, como convidada. As participantes do curso, jovens oriundas das famílias que compunham as classes dominantes e setores abastados da sociedade, tinham como expectativa se esclarecer e estabelecer um julgamento acertado sobre os problemas sociais daquela época. A nova ação social empreendida por tais grupos visava intervir diretamente junto ao proletariado, afastando-o de influências subversivas. Os centros ofereceriam vantagens para um desenvolvimento mais amplo de intervenções, a saber: Constituíam campos de observação e de prática para a trabalhadora social, como um laboratório de seus estudos teóricos. Apresentavam um espaço de educação familiar, no qual se buscava estimular nas jovens operárias o amor ao lar e prepará-las para o cumprimento de seus deveres. Estabeleciam núcleos de formação de elites que irão, depois, agir na massa operária, a partir de seus próprios princípios e valores (cristãos e capitalistas, reforçando a preservação da ordem moral e social, sobretudo do “papel da mulher”). Nesse contexto, é fundada em 1936 a Escola de Serviço Social de São Paulo, a primeira desse gênero a existir no Brasil. Orgãos públicos e paraestatais A formação profissional em Serviço Social no Brasil Apesar da grande influência da Igreja Católica e do laicato, o Estado também se constitui como força significativa na primeira escola de Serviço Social, uma vez que já existia uma demanda de atuação que, a partir do Estado, assimilará a formação doutrinária própria do apostolado social. Os principais patrocinadores de bolsas de estudo da escola em questão serão as prefeituras municipais, órgãos públicos e paraestatais: Sesi, Senai, diversos institutos e caixas de pensão, LBA e a Previdência Social da época. • • • Comentário É certo que as pioneiras do Serviço Social, constituídas pelos primeiros quadros profissionais formados e especializados, têm uma grande importância na história da profissão, visto que foram responsáveispela divulgação e institucionalização da profissão, incentivando e concretizando a demanda por seus serviços. No Rio de Janeiro, então capital da República, a experiência de formação de quadros por meio de Escola de Serviço Social se dá de modo diverso. Há pouco tempo, o Rio de Janeiro havia perdido para São Paulo a posição de principal conglomerado industrial e passou a ser um grande centro de serviços, como transportes e portos, contando com uma significativa massa proletária. No Rio de Janeiro se concentravam, ainda, a administração federal; a capital federal era a maior cidade do país e detinha os maiores aparatos da Igreja Católica e dos grandes bancos, constituindo-se como o grande centro nervoso da política e da economia no Brasil. À diferença de São Paulo, no Rio de Janeiro as instituições assistenciais apresentavam uma participação mais intensa de órgãos públicos, expressa pelo Juízo de Menores e por personalidades do setor público nas áreas de saúde, assistência e sanitária, acompanhadas pela forte influência da cúpula hierárquica da Igreja e do movimento católico laico. Em 1936, foi registrado um importante marco, a Primeira Semana de Ação Social do Rio de Janeiro, formada por iniciativa da hierarquia e cúpula do movimento laico, do Grupo de Ação Social (GAS), que teve por objetivo fazer um balanço da ação social desenvolvida até aquele momento, com foco no problema da formação e recrutamento de quadros de atuação profissional e nos problemas de habitação popular e legislação social. Ainda em 1936, foi realizado no Rio de Janeiro o primeiro curso intensivo de Serviço Social, com duração de três meses, formado por palestras sobre temas sociais, legais, educacionais e médicos, focado na questão da infância abandonada. Em caráter complementar, foi realizado um curso prático de Serviço Social, ministrado pelas duas assistentes sociais recém-formadas na Bélgica. Após 1936, foram criados algumas escolas e cursos que devem ser destacados de forma cronológica: 1937: Foi criado o Instituto de Educação Familiar e Social. 1938: Foi criada a Escola Técnica de Serviço Sociale. 1940: Foi criado o curso de Preparação em Trabalho Social, no interior da Escola de Enfermagem Ana Nery. 1944: Foi criada, finalmente, a Escola de Serviço Social do Rio de Janeiro. Com as devidas evoluções, no decorrer da década de 1940, surgem diversas escolas de Serviço Social nas capitais dos estados, e no I Congresso Brasileiro de Serviço Social (1947), 14 escolas enviam representações, o que tornou evidente que a maioria das profissionais se formará sob influência da origem católica e contando com bolsas de estudo. Nas escolas instituídas após as de São Paulo e do Rio de Janeiro, observa-se que as demais regiões do país passam a ter subsídio da LBA – Legião Brasileira de Assistência. Industrialização e urbanização A questão social no processo de industrialização e urbanização do país • • • • Em sua origem, o Serviço Social era composto, basicamente, por frações da elite da sociedade, predominantemente feminina. Após o término da Segunda Guerra Mundial, a profissão passa a receber membros da pequena burguesia, que tinham como interesse não mais a questão vocacional religiosa, mas sim a possibilidade de ingresso no mercado de trabalho e a obtenção da qualificação profissional que garantiria tal acesso. O estreitamento das relações entre o Brasil e os EUA se solidificou na Era Vargas, a partir de 1930, mais especificamente em 1942, em função do objetivo comum de fortalecer o capitalismo na América Latina, privilegiando determinados interesses econômicos e políticos e, ainda, combatendo a ameaça comunista. Comentário Uma das principais características da Era Vargas foi o esforço empreendido para o enquadramento da sociedade brasileira aos moldes capitalistas, em especial quanto ao investimento para a industrialização da economia nacional. Para que houvesse o fortalecimento do capitalismo, o Estado deveria ser o ente que detinha o potencial econômico, capaz de levar adiante tal missão, visto que a burguesia brasileira ainda era bastante incipiente considerando a carga necessária de investimentos. Assim, o Estado seguiu seu plano de criação de condições gerais de produção para a industrialização brasileira, abarcando representantes da burguesia em seus cargos gestores e compondo um projeto comum de expansão das atividades produtivas, de acumulação e de dominação. Contudo, para o sucesso desse conjunto de estratégias de governo, era necessário atribuir uma falsa noção de harmonia social, que foi construída com a adoção de legislações que garantiam alguns direitos à classe trabalhadora e, ainda, com o controle da ação sindical pelo Estado (buscando conter a luta de classes). Os principais marcos da época, que ilustram a estratégia de garantias de direitos à classe trabalhadora em formação no Brasil foram: 1930 Criação do Ministério do Trabalho. 1943 Consolidação das Leis do Trabalho - CLT. Eis, portanto, o resumo do período que se configurou como o Estado Corporativista de Vargas. Embora o cerne da questão fosse econômico, a relação entre o Brasil e os EUA iria além dessa fronteira, implicando um processo forte de ideologização norte-americana no país. Assim, os EUA passaram a obter o status de grande referência de ideias e ações, nos campos econômico, financeiro, cultural e, especialmente, das políticas públicas. Como profissão inserida nesse contexto social, o Serviço Social é permeado por tais influências e absorve o modelo norte-americano em seus pressupostos filosóficos, teóricos e científicos, que serviam como bases de resposta na atuação profissional. A ideologia dominante naquele período histórico apontava para a necessidade de uma intervenção técnica forte, organizada e planejada. Com isso, o Serviço Social desencadeou uma busca por recursos técnicos, a fim de superar ações filantrópicas e espontâneas: Estado Corporativista de Vargas Duas instituições somam-se a esse processo, fortalecendo ainda mais a concentração de poder de Vargas: o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), criado para formar quadros de funcionários públicos, e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela garantia da censura à imprensa e à expressão artística. As exigências de tecnificação do Serviço Social são atendidas, mantendo-se a mesma razão instrumental: busca-se uma maior qualificação dos procedimentos interventivos, utilizando-se, inclusive, fundamentos advindos da Psicologia, na expectativa de que os profissionais Assistentes Sociais fossem capazes de executar programas sociais com soluções consideradas modernizantes para o modelo desenvolvimentista adotado pelo Brasil. (PIANA, 2009, p. 92) Base religiosa e proletariado Os contornos do Serviço Social no Brasil Ainda a base religiosa da profissão No campo assistencial e do Serviço Social, o conservadorismo se mantém presente no universo ideológico, passando a conceber uma política técnico-burocrática, período no qual a profissão traduz sua ação por meio de uma ética vinculada à moral conservadora e dogmática, segundo a base ideológica neotomista. De acordo com tal ideologia, os problemas sociais são enxergados como um conjunto de disfunções sociais, avaliados moralmente de acordo com uma concepção do que é ou não normal, segundo o esquema valorativo do cristianismo. Há uma clara tendência ao ajustamento social, a visualizar a questão social como advinda de desajustes individuais e de cunho psicológico, e, portanto, a reduzir as demandas por direitos sociais a uma forma de adoecimento. Comentário Notem que tal esfera é completamente deslocada da discussão por efetivação de direitos sociais para ajustamento de necessidade dos usuários. Com o desenvolvimento do modo de produção capitalista e da industrialização, surge, na Europa do final do século XIX, a necessidade de um reposicionamento da Igreja Católica, que apontava a crise e a decadência morais dos princípios cristãos. Assim, a Igrejavê no ressurgimento das ideias tomistas uma via de enfrentamento de tal realidade. No mesmo contexto, o Serviço Social se profissionaliza e tais influências recaem sobre os primeiros profissionais, tanto em suas formações quanto no cotidiano de suas atuações profissionais. Criança em fábrica têxtil. A definição dos contornos de formação profissional A adoção de políticas de cunho social demarca os limites de surgimento e atuação do Serviço Social como profissão, alternando caridade e repressão/controle. As condições insalubres de vida e trabalho do operariado e de suas famílias estão diretamente relacionadas à voracidade do capital por trabalho excedente. A situação do proletariado urbano nesse período configurava condições precárias quanto a moradia, água, esgoto e luz. Nos espaços de trabalho, também era significativa a falta de condições minimamente adequadas, quanto a higiene, segurança e renda obtida no trabalho, ainda com as jornadas e horários desumanos, sem respeito sequer à questão do trabalho infantil (permitido, sem regulação e com registros até de castigos físicos aplicados aos aprendizes) e feminino (sem o mínimo amparo à condição da mulher, à maternidade e ao aleitamento, por exemplo). Diante dessas expressões da questão social, o operariado inicia o processo de organização para sua defesa, na luta contra o trabalho excessivo e mutilador, preservando seu único patrimônio, que consiste na sua força de trabalho. Essa forma de organização é a única via possível de participação ativa na sociedade e muda de acordo com os diferentes estágios do desenvolvimento do modo de produção capitalista. As medidas quanto à integração do proletariado, apesar de incipientes, não podem ser totalmente desconsideradas. A precária aplicação da legislação do trabalho abrange somente a parcela de trabalhadores urbanos, ficando os trabalhadores rurais (que representavam a maioria) alijados da parca proteção possível na época. Para o desenvolvimento dos estágios seguintes do modo de produção capitalista, era necessária a dominação burguesa sobre a organização do proletariado, impedindo, inclusive, a sua própria organização como classe. Para atingir esse objetivo, a hegemonia burguesa não poderia usar como recurso somente a coerção, buscando gerir mecanismos de controle e integração (consenso). Nessa relação, se pode observar a interação entre Estado, burguesia e Igreja, bem como os reflexos sofridos pelo Serviço Social e sua constituição inicial. Formação permanente do assistente social Veja, no vídeo a seguir, uma apresentação das possibilidades de formação permanente para o pleno exercício da profissão. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Tecnicismo e Serviço Social Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. I Congresso Brasileiro de Serviço Social Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Assinale a alternativa que esclarece corretamente a ordem cronológica do surgimento das primeiras escolas de Serviço Social no Brasil: A 1936 em São Paulo e 1944 no Rio de Janeiro. B 1936 no Rio de Janeiro e 1944 em São Paulo. C 1940 em São Paulo e 1944 no Rio de Janeiro. D 1938 no Rio de Janeiro e 1940 em São Paulo. E 1938 em São Paulo e 1943 no Rio de Janeiro. A alternativa A está correta. Embora o Rio de Janeiro fosse a capital do país naquele momento, recentemente, havia perdido posição para São Paulo quanto ao número de indústrias, passando a ter mais centralidade nos serviços (economia, transportes e comércio). Em São Paulo, a primeira escola se desenvolve a partir da experiência do CEAS, e no Rio de Janeiro, a partir da experiência do Instituto de Educação Familiar. Questão 2 Assinale a alternativa que relaciona corretamente o surgimento das primeiras escolas de Serviço Social no Brasil com o processo de industrialização e urbanização: A Na década de 1930, iniciam-se profundas transformações políticas e sociais no país, exigindo estratégias ideológicas e práticas para lidar e controlar o proletariado industrial em constituição. Nesse contexto, há necessidade de formação técnica especializada, que possibilita o surgimento das primeiras escolas de Serviço Social em território nacional. B Para estabelecimento de uma política internacional de industrialização no Brasil, era uma exigência que se criassem escolas de Serviço Social, com o objetivo de formar quadros especializados de profissionais capazes de lidar com as práticas de caridade e filantropia. C A Igreja Católica, por meio de sua doutrina social, estimulou o processo de industrialização nacional, desenvolvendo centros de formação profissional, que deram origem às primeiras escolas de Serviço Social em território nacional. D O empresariado brasileiro fomentou a criação de escolas de Serviço Social com o objetivo de aprimorar as práticas assistenciais e de caridade desenvolvidas pelas damas da alta sociedade. E O Estado instituiu por lei e isoladamente a criação de escolas de Serviço Social com o objetivo de formar quadros especializados de assistentes sociais aptos a lidar com as questões sociais, cedendo à pressão norte-americana. A alternativa A está correta. As transformações políticas e sociais têm centralidade nesse processo, em função da necessidade de controle e consenso por parte do Estado e do empresariado perante a classe trabalhadora em formação. Contudo, não se pode desprezar a influência da Igreja Católica na dimensão formativa da profissão, com forte viés moralizador. 3. Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade e nova morfologia do trabalho Influência dos EUA Contextualização histórica da influência dos EUA Ao examinarmos a trajetória histórica do Serviço Social no Brasil, sempre será preciso fazer referência ao contexto social e econômico da profissão naquele momento. A expansão da produção industrial é acompanhada pela intensificação da exploração da força de trabalho, disponível em larga escala na população brasileira. Naquele momento de constituição de um proletariado urbano, já era possível perceber não só sua organização, mas também a pressão exercida sobre o Estado. Esse foi um dos fatores que contribuiu para a queda da República Velha e legitimação do Estado Novo. Comentário A legitimação do Estado Novo se relaciona com a sua estrutura corporativa, que necessitava incorporar reivindicações dos diferentes setores da sociedade, inclusive os populares, para que atuassem no sentido de sua validação. É necessário ao Estado Novo absorver e controlar os setores populares, que cresciam significativamente durante o processo de industrialização crescente no país. A ditadura de Getúlio Vargas neutralizou os componentes revolucionários dos setores populares, ao mesmo tempo em que absorvia parte de suas reivindicações, buscando seu consenso. Exemplo disso foram as respostas às necessidades do processo de industrialização e de enquadramento da população urbana, com a criação e desenvolvimento de instituições assistenciais e previdenciárias, que objetivavam propiciar benefícios assistenciais aos trabalhadores. Veja a seguir alguns marcos nesse sentido, em relação ao Serviço Social: 1940 O surgimento de grandes instituições assistenciais na década de 1940 coincidiu com o momento de legitimação e institucionalização do Serviço Social. Esse período foi marcado pelo rompimento da profissão com sua origem de formação católica e apostolar, e pela inserção no mercado de trabalho, nas instituições assistenciais, consolidando-se como categoria assalariada, atrelada diretamente às políticas sociais implementadas pelo Estado. 1945 A partir de 1945, é possível perceber a preocupação, no seio da profissão, com a definição de uma elaboração teórica própria, pautada em critérios técnicos e científicos, que imprimisse eficácia à ação. Naquele período histórico,a relação entre o Brasil e os EUA extrapolava o nível econômico, alcançando diversos segmentos da vida latino-americana e figurando como uma referência importante no campo das ideias e ações, inclusive quanto ao sistema de bem-estar social. Esse fato atingiu também o Serviço Social brasileiro, que buscou na matriz norte-americana um suporte filosófico, capaz de responder às necessidades teóricas, bem como um suporte técnico-científico voltado para a prática profissional. A relação entre o Brasil e os EUA era tão amistosa que assistentes sociais brasileiros passaram a contar com bolsas de estudo e participar de congressos interamericanos de Serviço Social. O marco mais significativo foi o Congresso Interamericano de Serviço Social, realizado em Atlantic City, em 1941. Nesse congresso, foram estabelecidos laços estreitos entre as principais escolas de Serviço Social no Brasil e as grandes instituições e centros de formação e de bem-estar social norte-americanos. Serviço Social de Caso Como vimos, os intercâmbios entre o Brasil e os EUA facilitaram a penetração de conhecimentos já bastante elaborados pelos assistentes sociais norte-americanos. Quanto ao chamado Serviço Social de Caso, Mary Richmond foi a grande precursora desse conceito. Mary Richmond Em 1917, publicou a obra Case Social Work, apontando uma série de medidas para uma prática profissional séria e sistematizada, com bases técnicas e formas de trabalhar nas quais os assistentes sociais se reconheceram. Responsável pela secularização da profissão (passagem do regime de cunho religioso para o cunho leigo), em suas ideias estava clara a influência da sociologia norte-americana, que concebia a sociedade de modo funcional. Essa perspectiva funcionalista, de modo muito resumido, pode ser entendida como a teoria do campo da Sociologia que compreende cada parte da sociedade com suas especificidades e funções, tendo responsabilidade sobre o funcionamento e a coesão social, como se fossem pequenas partes de uma grande engrenagem. No entanto, a crítica a essa perspectiva diz respeito ao fato de conceder muito mais ênfase ao estudo superficial dos processos sociais do que ao aprofundamento de suas causas, problemas e determinações históricas e sociais. Além de Mary Richmond, demais autoras como Gordon Hamilton, Helen Pearlman e Florence Hollis, entre outras, também conferiram uma autoridade advinda do saber fazer específico, à diferença do senso comum, que influenciou significativamente o fazer profissional de assistentes sociais brasileiros naquele período. A influência teórica da Sociologia sobre o Serviço Social, portanto, explicava a desigualdade social relacionando-a à estratificação social. Resumindo Significa desconsiderar que os problemas sociais estavam estruturalmente ligados à lógica de exploração capitalista, afirmando que as desigualdades institucionalizadas eram criadas por indivíduos e grupos considerados "desajustados", fora do padrão social e comportamental esperado. Nesse sentido, as instituições tinham uma dupla função: Por um lado Garantir a reprodução das posições sociais e a preparação de sujeitos para ocupar tais posições. Por outro lado Tinham também a função de tornar funcionais os conflitos, ou seja, era função delas administrar os conflitos de forma que mantivessem o funcionamento das redes de relações sociais. Para que isso acontecesse, era necessária uma forte racionalidade e organização técnica, daí a grande aceitação metodológica por parte dos assistentes sociais. Os assistentes sociais figuravam como parte dos agentes das instituições, sendo os responsáveis pelo trabalho junto aos sujeitos sociais, com o objetivo de fazer com que estes, numa situação de conflito, retornassem aos seus papéis no sistema, numa perspectiva de enquadramento, e não de emancipação. Assim, o assistente social, seu papel e seu saber profissional são legitimados pela instituição e devem estar inteiramente ao seu serviço. Nessa fase, grande parte do saber profissional do assistente social estava ligado à metodologia utilizada para o trabalho. Quanto ao Serviço Social de Caso, que compõe a tríade metodológica junto com o Serviço Social de Grupo e o Desenvolvimento de Comunidade, buscava a integração do homem ao meio social. Esse trabalho era realizado, basicamente, com o apoio que o Serviço Social buscou junto à Sociologia e à Psicologia a fim de racionalizar sua ação profissional: Na Sociologia O Serviço Social se utilizava da Sociologia no que diz respeito à interdependência entre personalidade e o meio social (família e estrutura socioeconômica). Na Psicologia Já na Psicologia, esse apoio estava em teorias que explicassem melhor o comportamento dos "clientes" (assim eram chamados os usuários do Serviço Social) e na implementação de um método de tratamento, que poderia ser uma sugestão, aconselhamento, educação etc. Enfim, o objeto central da ação era o sujeito, que deveria ser modificado e adequado. Ainda sob o ponto de vista metodológico, a forma de trabalho no Serviço Social de Caso se caracterizava pela primazia dada à observação e à informação, sendo adotado um método clínico, que considera o sujeito como quadro de referência e é composto pelas seguintes fases: Estudo Diagnóstico Tratamento A grande preocupação do Serviço Social de Caso era com a personalidade do cliente. O trabalho orientado por essa teoria buscava promover mudanças no indivíduo, expressas por novas atividades e comportamentos. O indivíduo era visto como elemento que deveria ser trabalhado, para que se ajustasse ao meio social e pudesse, finalmente, cumprir seu papel devido no sistema vigente. • • • Serviço Social de Grupo A herança positivista do funcionalismo aparece na forte busca do Serviço Social por cientificidade, aliada à busca por suporte junto às Ciências Sociais. Os dois fatores demonstram a importância dada ao método e à instrumentalização, adequando os conhecimentos de matriz norte-americana, importados e adaptados à nossa realidade institucional. Não por acaso, em 1947 todas as Escolas de Serviço Social do Brasil passaram a ensinar um novo método de intervenção social, que passou também a integrar a grade curricular dos cursos — o Serviço Social de Grupo. Serviço Social de Grupo O Serviço Social de Grupo apresentava uma perspectiva educacional, pois procurava fortalecer a personalidade individual, contudo, com ênfase à capacidade de liderança, à tomada de decisão e ao aspecto psicossocial. Nessa perspectiva, apreende-se que o Serviço Social de Grupo ajudava os indivíduos a se autodesenvolverem e a se ajustarem aos valores e normas vigentes no contexto social daquele momento. Dentre outros autores, os nomes de maior expressão nessa vertente foram, principalmente, Gisela Konopka, Robert Vinter e Natalio Kisnermam. A centralidade no discurso de tais autores está no fato de explicitarem como principal objetivo do Serviço Social de Grupo a capacitação do indivíduo para um correto funcionamento social (portanto, grupal). Havia uma base diretamente ligada aos movimentos de autoajuda, com enfoque terapêutico e disciplinador, aplicado aos sujeitos, mas em grupo. Saiba mais Gisela Konopka definiu o Serviço Social de Grupo como um método do Serviço Social que ajuda os indivíduos a aumentarem o seu funcionamento social, por intermédio de experiências de grupo, com vistas ao enfrentamento eficaz de seus problemas pessoais, em grupo ou em comunidade. A estruturação científica é advinda do apoio nas teorias sociológicas de Durkheim, Weber e Simmel, além das teorias de Psicologia Social e Pedagogia, expressas no caráter formativo e educativo presente nas ações do Serviço Social de Grupo. Serviço Social de Comunidade Desenvolvimento de Comunidade Originalmente, o Desenvolvimento de Comunidade era chamado de Organização de Comunidade. Esse método apresenta uma grande influência de determinantes de crescimento econômico e industrialização. Também apresenta características comuns ao Serviço Socialde Caso e ao Serviço Social de Grupo, uma vez que seus objetivos giram em torno do ajustamento social do indivíduo, ao mesmo tempo em que se realizava um trabalho assistencial junto às comunidades. O trabalho assistencial desenvolvido, além de ter como princípio que o problema ou desajuste apresentado pelos indivíduos eram de sua própria responsabilidade, desconsiderando os determinantes socioeconômicos, apresentava uma característica marcante: O trabalho assistencial era parte de um processo incorporado à política de aceleração econômica e industrial do país. Bandeira da ONU. Durante a década de 1950 e início da década de 1960, o Serviço Social incorpora, no ensino e em diversos segmentos de atuação profissional, a política desenvolvimentista. Sendo assim, vamos compreender melhor o desenvolvimentismo. Desenvolvimentismo No país, foi uma fase que se caracterizava pela influência dos EUA nos campos econômico, político e cultural, com ênfase no desenvolvimento industrial brasileiro. Ao Serviço Social caberia, nessa engrenagem, contribuir para o aprimoramento do ser humano, mesmo que o Brasil possuísse setores sociais subdesenvolvidos. Para tanto, era necessário ter um arsenal metodológico e técnico que possibilitasse atingir esse intento. O Desenvolvimento de Comunidade foi uma estratégia utilizada para garantir a prosperidade, o progresso social e a hegemonia ideológica norte-americana, ligada ao modo de produção capitalista. Considerando que os países pobres teriam mais receptividade às ideias socialistas, o Desenvolvimento de Comunidade foi utilizado como estratégia política e social para melhorar e ampliar o capitalismo. A Organização das Nações Unidas (ONU), durante os anos 1950, sistematiza e divulga o Desenvolvimento de Comunidade como uma medida para solucionar o problema de integrar a população aos planos regionais e nacionais de desenvolvimento. Encampando esforços conjuntos com a ONU, a Organização dos Estados Americanos (OEA) define uma política de assistência técnica a programas de Desenvolvimento de Comunidade para as Américas e cria, junto à Divisão de Assuntos Sociais, uma divisão responsável pela disseminação desses programas. Na década de 1950, registra-se ainda a preocupação da ONU com a potencialidade do Serviço Social nesse processo, uma vez que realiza três pesquisas de caráter internacional sobre a formação profissional de assistentes sociais, considerando os níveis auxiliar, de graduação e pós-graduação. A partir de tais informações, podemos compreender que a preocupação do Serviço Social brasileiro com o Desenvolvimento de Comunidade faz parte de um movimento de âmbito internacional, deflagrado oficialmente pela ONU e referendado por inúmeros organismos interessados na expansão da ideologia e do modo de produção capitalista, especialmente o Estado. Diante de todos esses estímulos, a ação do Serviço Social, gradualmente, vai incorporar tais concepções e ações. O próprio Estado brasileiro se reconhece, no método do Serviço Social de Comunidade, como um instrumento que pode contribuir para o desenvolvimento da nação. Comentário Ao profissional, cabia o papel de líder indireto da comunidade, estimulador de mudança social, promovida com a participação popular e com a utilização das técnicas próprias da profissão. Todos esses acontecimentos e fatos históricos nesse período profissional vão permear e delimitar a construção do Serviço Social brasileiro, exercendo influência sobre a organização da categoria bem como sobre a expansão do ensino e da própria profissão. Nova morfologia do trabalho Os espaços ocupacionais, à luz da nova morfologia do trabalho Os processos de ocupação dos espaços Há uma relação direta entre as expressões das questões sociais, matéria de atuação de assistentes sociais perante a população usuária, as demandas postas ao Serviço Social e os espaços ocupacionais de atuação profissional. Nessa cadeia, há também uma forte e direta influência do modo de produção capitalista, em sua fase mais atual, que, habitualmente, conta com crises de acumulação e reconfigurações. A atual fase do capitalismo implica a financeirização do capital e superexploração do trabalho. Tais questões têm afetado profundamente o trabalho, que se encontra cada vez mais desprotegido do ponto de vista de direitos e garantias. Assim, o cenário atual, de mundialização do capital e de acirramento da exploração da classe trabalhadora, vai possibilitar à categoria profissional duas novas formas de pensar seus espaços ocupacionais, são elas: Mercantilização de garantias Implica considerar o acesso a saúde, habitação, educação, por exemplo, sob uma perspectiva privada, deslocando sua lógica de direito fundamental para mercadoria, que é adquirida financeiramente por quem dispõe de recursos financeiros para tanto. Refilantropização da assistência Considera que é de responsabilidade da sociedade civil organizada, ou do chamado terceiro setor, o provimento de necessidades básicas, da população mais vulnerável do ponto de vista social. Implica refilantropizar a assistência, deslocando a perspectiva de direito para a de caridade, voltada à pobreza extrema. Sob tal perspectiva, se considera a desresponsabilização do Estado, retirando-se a sua centralidade como principal gestor e financiador das políticas públicas de assistência. É certo que o Serviço Social é compreendido como profissão uma vez que figura como expressão do trabalho coletivo no âmbito das políticas sociais. Essa afirmação equivale a dizer que o Serviço Social, como profissão, possui uma mediação privilegiada no trato das expressões das questões sociais, porém, note-se que não é uma interação exclusiva do Serviço Social. Há também outras profissões recrutadas para isso, tornando-as também historicamente necessárias para ocupar lugares específicos na divisão social, técnica, sexual e étnico-racial do trabalho. Todo esse conjunto de profissões, inclusive o Serviço Social, responde a requisições ditadas pela dinâmica da luta de classes, com o Estado, e se insere no movimento de regulação e formulação de respostas institucionais às demandas postas pelas contradições da questão social. O exercício da profissão Quanto à forma de exercer a profissão, embora o Serviço Social tenha sido regulamentado como profissão liberal no país, assistentes sociais exercem seu trabalho, majoritariamente, como assalariados de instituitções públicas ou privadas, que viabilizam políticas sociais à população. Entretanto, como profissão que realiza sua ação na prestação de serviços sociais, incorpora algumas características de profissões liberais. Tais características conferem aos profissionais uma relativa autonomia para exercer seu trabalho, pois servem como apoio para o rompimento de visões deterministas ou voluntaristas, de cunho conservador e moralizador, para se apropriarem da dinâmica contraditória dos espaços ocupacionais. Assim como no âmbito da profissão, no âmbito do Estado tais contradições também podem ser observadas. Ao mesmo tempo em que o Estado capitalista precisa contemplar interesses gerais da burguesia, também precisa, em certa medida, incluir alguns dos interesses das classes dominadas. É justamente nesse contexto que as expressões das questões sociais se transformam em objeto de uma intervenção contínua e organizada pelo Estado, por meio das políticas sociais. Esse fato possibilita o estabelecimento do Serviço Social como profissão e a constituição dos seus agentes profissionais como trabalhadores assalariados, além das configurações de seus espaços ocupacionais. Como profissionais assalariados, assistentes sociais ocupam, em sua maior parte, postos de trabalho em instituições estatais nas três esferas de poder, em especial na esfera municipal, mas as Organizações Não Governamentais (ONGs) e empresas também figuram como espaços ocupacionais relevantes para assistentes sociais. Reflexão Para efetivar seu exercício profissional, é preciso que assistentes sociais transformem em mercadoriasua força de trabalho, o que só é possível por meio de recursos e instrumentos de trabalho que não são de suas propriedades, disponibilizados pelos seus empregadores institucionais, públicos ou privados. Esse processo subordina o exercício profissional às requisições institucionais nos diferentes espaços ocupacionais, que demandam o trabalho especializado de assistentes sociais. Diante do que foi exposto até aqui, relacionando a profissionalização do Serviço Social e sua relação com as questões sociais, com as políticas públicas e com os seus espaços ocupacionais, podemos perceber que a cada fase da profissão são colocadas novas configurações e requisições, as quais a categoria profissional precisa responder efetivamente. Exemplo As competências profissionais exigidas dos assistentes sociais pelo mercado são diferentes daquelas tradicionalmente realizadas pela categoria. No caso das ONGs e demais entidades de responsabilidade social, há um forte apelo por profissionais capazes de elaborar projetos, orçamentos, avaliações e captações de recursos e financiamentos para projetos sociais. O Serviço Social como profissão está em constante evolução e mudança, impulsionado pelas configurações históricas, políticas, econômicas e sociais. Esse cenário promoverá necessidades de readequação de modo abrangente no Serviço Social, inclusive em seus espaços ocupacionais. A constante evolução do Serviço Social Neste vídeo, a especialista apresentará elementos que demonstram a atual situação em que se encontra o Serviço Social no país, bem como as perspectivas futuras. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Serviço Social de Grupo Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Determinismo socioeconômico e Serviço Social Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Qual é a égide que melhor expressa características comuns ao Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade? A Influência norte-americana sobre a profissão, tanto do ponto de vista da formação quanto do ponto de vista operativo, do exercício profissional em si, com metodologias que consideram o sujeito como único responsável pelo seu desajuste social. B As metodologias de atuação profissional em questão foram todas formatadas por profissionais norte- americanos e levavam em consideração determinantes sociais, econômicos e históricos para explicar e tratar as expressões das questões sociais. C As metodologias de atuação profissional em questão foram adaptadas da doutrina social da Igreja Católica, com objetivo de melhorar o aspecto operativo das ações sociais já desenvolvidas pelas pioneiras do Serviço Social. D Influência europeia sobre a profissão, especialmente franco-belga, de produção de conhecimento de autoras deste continente, apoiadas na Sociologia positivista. E As três metodologias foram produções de conhecimento de Serviço Social nacionais, fruto da exigência do Estado e empresariado para formação de quadros de assistentes sociais aptos a responder às expressões das questões sociais apresentadas pelo proletariado urbano naquele contexto histórico. A alternativa A está correta. Na fase de profissionalização do Serviço Social, houve forte influência norte-americana, a fim de atribuir um referencial teórico, metodológico e operativo para a profissão. Tais metodologias tinham como ponto comum referências positivistas da Sociologia, que consideravam uma perspectiva de "tratamento" do sujeito social, com vistas à sua adequação ao sistema vigente. Questão 2 Assinale a alternativa que expressa o fator preponderante para as reconfigurações nos espaços ocupacionais do Serviço Social na atualidade. A Determinações legais empreendidas pelo Estado. B Mudanças no mundo do trabalho e, consequentemente, nas expressões das questões sociais e políticas sociais, que alteram o perfil e as requisições aos espaços ocupacionais da profissão. C Novas tendências teóricas, metodológicas e operativas nas produções acadêmicas em Serviço Social. D Determinações legais empreendidas pelos órgãos fiscalizadores, disciplinadores e defensores da prática profissional. E Tendências geradas por demandas da sociedade civil organizada, de acordo com a opinião do empresariado. A alternativa B está correta. Os espaços de atuação profissional são reconfigurados considerando os determinantes históricos, econômicos e políticos postos à sociedade em determinado contexto, para enfrentamento das expressões das questões sociais. 4. Conclusão Considerações finais O percurso de reflexões feitas até aqui teve uma intencionalidade, relacionada à profissionalização do Serviço Social, às primeiras requisições à profissão do ponto de vista formativo — as primeiras escolas de Serviço Social — e aos seus espaços de atuação e exercício profissional. A intenção central a ser destacada diz respeito à necessidade de compreender a profissão em sua totalidade histórica. Para que isso aconteça, é preciso levar em consideração que a inscrição do Serviço Social como profissão na divisão social e técnica do trabalho ocorreu não de forma espontânea, ao acaso, mas para obedecer ao atendimento de requisições de controle da classe trabalhadora em formação. A categoria profissional necessita, ainda, analisar seus campos de atuação profissional, levando em conta as questões estruturais (relativas e próprias do modo de produção capitalista, que pressupõe a existência de contradições, exploração e crises) e as questões conjunturais (aquelas relativas ao cenário mais ampliado, naquele momento histórico, sob o ponto de vista social, político e econômico). Em tempos de profundos ataques aos direitos sociais e às políticas socioassistenciais, algumas das vias ao alcance do Serviço Social dizem respeito à sua dimensão pedagógica junto aos usuários, no sentido do estímulo à reflexão sobre a perspectiva de direitos, e não de concessões dos mínimos programas sociais, bem como estímulo à organização da classe trabalhadora para a defesa de seus interesses e direitos. Trata-se de um caminho longo e contínuo a ser percorrido, mas também um campo fecundo de possibilidades e transformações sociais. Podcast Neste podcast, a especialista responderá a algumas perguntas sobre os desafios contemporâneos da profissão. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore + Assista ao vídeo Serviço Social no Brasil ‒ 80 anos de história, ousadia e lutas, no canal do YouTube da Cortez Editora, que, além de contar a história do Serviço Social no Brasil, mostra os rostos de importantes autoras e autores que, até então, eram conhecidos apenas por seus nomes. Leia o artigo A Era Vargas: desenvolvimentismo, economia e sociedade, de Hermógenes Saviani Filho, disponível na plataforma SciELO. Leia o famoso livro Revolução dos Bichos, de George Orwell. Escrito em 1945, continua atual ao trazer provocações muito bem elaboradas às propostas totalitárias de poder, temática abordada em nosso tema. Você pode encontrar versões digitais do livro, já que se encontra em Domínio Público. Referências AMMANN, S. B. Ideologia do desenvolvimento de comunidade no Brasil. 8. ed. São Paulo: Cortez, 1992. ANDRADE, M. A. R. A. de. O metodologismo e o desenvolvimentismo no Serviço Social Brasileiro ‒ 1947 a 1961. Serviço Social & Realidade, n. 1, p. 268-299, 2008. CARVALHO, L. Governo Juscelino Kubitschek (JK). Brasil Escola, s. d. Consultado na internet em: 9 jan. 2021. FALEIROS, V. P. Estratégias em Serviço Social. 10 ed. São Paulo: Cortez, 2011. GRANEMANN, S. Processos de trabalho e Serviço Social. In: CFESS-ABEPSSCEAD/UNB. Reprodução Social, Trabalho e Serviço Social. Módulo I. Capacitação em Serviço Social e Política Social. Brasília, CEAD, 1999, p. 153-166. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. Relações sociais e Serviço Social