Prévia do material em texto
TERMODINÂMICA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar as formas de energia envolvidas em processos termodinâmicos. > Explicar como funcionam as escalas de temperaturas. > Diferenciar sistemas em equilíbrio e não equilíbrio. Introdução O entendimento da termodinâmica começou a se desenvolver de maneira gradual, porém mais significativamente, após o século XVII, sendo alguns dos primeiros con- tribuintes Evangelista Torricelli (1608-1647), Otto von Guericke (1602-1686), Robert Boyle (1627-1691) e Sadi Carnot (1796-1832), entre outros. No entanto, os princípios que fundamentam a termodinâmica moderna, como são concebidos atualmente, foram estabelecidos principalmente após o século XIX, tendo como contribuintes Rudolf Clausius (1822-1888), William Thomson (Lord Kelvin) (1824-1907), James Prescott Joule (1818-1889), entre outros. Esses cientistas conseguiram expressar os conceitos fundamentais de forma precisa e sem ambiguidades utilizando a matemática, a linguagem que possibilitou o desenvolvimento da termodinâmica como um ramo da física que permite abordagens interdisciplinares de uma forma sólida e bem fundamentada (Coelho, 2016). Lei Zero da Termodinâmica Sergio Cordero Calvimontes Com mais de 400 anos de desenvolvimento, não é surpreendente que os conceitos apresentados pela termodinâmica sejam, na maioria das vezes, muito mais abrangentes do que aparentam ser. Um fato que destaca essa caraterística é a existência da Lei Zero da Termodinâmica, a lei mais fundamental da termodi- nâmica, que foi concebida décadas após as três primeiras leis da termodinâmica já estarem estabelecidas. Neste capítulo, você vai explorar o desenvolvimento histórico e o amadu- recimento científico que levaram à formulação da Lei Zero. Você também vai acompanhar conceitos, experimentos e o histórico das primeiras leis da termodi- nâmica e vai poder explorar as interpretações modernas sobre calor, temperatura e equilíbrio térmico. Interpretação termodinâmica Antes do desenvolvimento da teoria moderna da termodinâmica e da com- preensão da natureza molecular das substâncias, quando não havia evidências suficientes da existência de átomos e moléculas como blocos fundamentais da matéria, acreditava-se que o calor era uma substância invisível chamada “calórico”. Esse conceito sugeria que o calor era uma substância que podia ser transferida (Coelho, 2016). O calórico era visto como um fluido imponderável que podia fluir entre corpos em contato, às vezes transportando matéria ou penetrando a estrutura desta, de acordo com as condições e as características do meio. Isso suposta- mente causava mudanças nas propriedades físico-químicas, de acordo com o “nível de temperatura”, cujo entendimento também não estava definido com precisão naquela época. Em algumas teorias anteriores, também se cogitava que o calor poderia estar relacionado ao “éter”, outra substância hipotética que se pensava preencher o espaço e servir como meio para a propagação de várias formas de energia, sem necessidade de contato (Coelho, 2016). Os experimentos de Benjamin Thompson (Conde Rumford) e James Prescott Joule foram fundamentais para desmistificar o conceito do “calórico”. Rumford (1753-1814) demonstrou que o calor pode ser gerado indefinidamente por fricção ou atrito, sugerindo que o calor estava relacionado ao movimento das partículas (blocos fundamentais da matéria), e não a uma substância. Posteriormente, Joule (1818-1889) estabeleceu a equivalência entre trabalho mecânico e fluxo ou transferência de calor, mostrando que o calor é uma manifestação da energia (Coelho, 2016). Lei Zero da Termodinâmica2 A palavra “termodinâmica” tem origem nos termos gregos “therme” (θερμή), que se refere ao “calor”, e “dynamis” (δύναμις), que significa “força” ou “poder” (Coelho, 2016). Assim, “termodinâmica” literalmente significa “o poder do calor”. Uma interpretação menos subjetiva estabelece que a termodinâmica se refere à associação entre um potencial energético que permite a ocorrência de diversos tipos de fenômenos. Dessa forma, o entendimento moderno da termodinâmica estabelece o calor como uma forma de energia transferida ou uma forma de fluxo de energia decorrente da diferença de um potencial definido como “temperatura termodinâmica”, e não como uma substância material (Coelho, 2016). Esse entendimento moderno do calor, embora possa parecer óbvio atual- mente, não esteve evidente por décadas. Foi necessário um longo processo científico, com inúmeras demonstrações experimentais e teóricas, para que essa concepção se consolidasse. Paralelamente, o amadurecimento de outros ramos da física permitiu explicar de forma mais precisa a ocorrência de diversos tipos de fenômenos relacionados à conservação e ao transporte de grandezas físicas. Com o desenvolvimento da teoria cinética dos gases e da mecânica estatística e a inclusão de métodos probabilísticos para correla- cionar o comportamento “microscópico” das partículas com as propriedades “macroscópicas” observáveis, o calor passou a ser interpretado como o fluxo de energia associada à dinâmica dos blocos fundamentais de uma substância (Coelho, 2016). Teoria cinética A teoria cinética é um modelo que interpreta as propriedades “macroscópicas” da matéria a partir do comportamento “microscópico” das partículas consti- tuintes. Note que os termos “macro” e “micro” são relativos e pouco precisos fora de um contexto predefinido, mas são frequentemente utilizados para compreender o escopo do sistema e a relação entre as suas propriedades globais e locais (Levenspiel, 2002). Essa relação pode ser entendida como uma hierarquia infinita de escalas, em que as propriedades locais (com limite na escala atômica ou molecular, sem entrar na teoria quântica das substâncias) influenciam as propriedades globais. Essa abordagem permite uma compreensão mais profunda da matéria, do escopo dos sistemas e dos fenômenos e processos físicos que ocorrem considerando-se diferentes escalas (Cremasco, 2016). Lei Zero da Termodinâmica 3 O prefixo “macro” se refere a propriedades em uma escala maior e mais abrangente, envolvendo grandes massas ou volumes de matéria e energia. O prefixo “meso” é intermediário, envolvendo a interação entre componentes de um sistema maior. Já o prefixo “micro” se refere a uma escala relativamente pequena, e não ao fator “10–3”. Em certos contextos, é utilizado o prefixo “nano” como a menor escala possível, e não relativa ao fator “10–9”, envolvendo os constituintes individuais do sistema, como átomos, moléculas ou partículas. Essas escalas são relativas e podem ser pouco precisas. É reco- mendado evitar esses prefixos e especificar as magnitudes das escalas com precisão quando necessário (Cremasco, 2016). A teoria cinética, desenvolvida inicialmente para explicar os princípios básicos do movimento e da colisão de partículas em gases, postula que os gases são compostos de um grande número de pequenas partículas (átomos ou moléculas) em constante movimento aleatório. Essas moléculas se movem em todas as direções, colidindo entre si e com a fronteira do sistema de forma elástica, sem perda de energia cinética total (Cremasco, 2016). Nos líquidos, as partículas estão relativamente mais próximas, e as forças intermoleculares passam a ser mais importantes. Embora o movimento seja aleatório, as colisões não são sempre elásticas, devido às interações de curto alcance. Para aplicar a teoria cinética aos líquidos, é necessário ajustar os modelos para incluir essas interações, resultando em uma descrição mate- mática mais complexa. Essas modificações permitem uma compreensão mais precisa das propriedades dos líquidos, como viscosidade e tensão superficial (Cremasco, 2016). No caso das substâncias mais sólidas, as partículas estão em posições fixas dentro de uma rede cristalina ou amorfa. Em vez de movimento livre, as partículas vibram em torno de suas posições fixas. A teoria cinética se aplica ao estudo dessas vibrações(fônons) e às propriedades térmicas dos sólidos. Modelos como a teoria de Debye e a teoria de Einstein são usados para descrever o calor específico dos sólidos com base nas vibrações atômicas (Cremasco, 2016). A temperatura é a medida da energia cinética média das moléculas de um sistema. Quanto maior a temperatura, maior a energia cinética média. Levando-se em conta as considerações correspondentes, isso é válido para os estados da matéria mais comuns (Cremasco, 2016). Lei Zero da Termodinâmica4 Além dos estados gasoso, líquido e sólido, existem outros estados da matéria, como plasma, condensado de Bose-Einstein, superfluido e cristal líquido, entre outros ainda mais exóticos. A teoria cinética pode ser adaptada para explicar alguns desses estados, mas cada um tem características específicas que requerem considerações adicionais. Por exemplo, a dinâmica das partículas no plasma é descrita por equações como a de Boltzmann e a de Vlasov, que incorporam efeitos de campos elétricos e magnéticos. Cristais líquidos exigem teorias específicas que consideram a anisotropia e a orientação das moléculas. Para muitos desses estados, abordagens teóricas combinam a teoria cinética, a mecânica estatística, a física quântica e outras áreas da física (Cremasco, 2016). Mecânica estatística O presente capítulo limita o escopo à mecânica estatística clássica, que não incorpora os princípios da física quântica. Assim, a abordagem de interesse, baseada na teoria cinética das substâncias, fornece uma base teórica para entender como a energia térmica é distribuída entre as partículas e como essa distribuição, que é o fluxo de calor, evolui com a interação e a conservação de energia entre sistemas (Cremasco, 2016). A energia térmica e o calor são dois conceitos relacionados, mas diferentes. A energia térmica se refere à energia total que as partícu- las de um sistema têm devido ao seu movimento e às suas interações internas; é uma forma de energia interna do sistema, uma propriedade intrínseca. Já o calor é a transferência de energia térmica entre sistemas ou partes de um sistema, ocorrendo devido a uma diferença de potencial interpretado como “temperatura” (Cremasco, 2016). A mecânica estatística clássica estuda sistemas físicos compostos por um grande número de elementos constituintes, utilizando métodos estatísticos e probabilísticos para relacionar o comportamento das “partículas” com as propriedades globais observáveis, explicando conceitos termodinâmicos (Cremasco, 2016). A mecânica estatística de equilíbrio, também conhecida como termodinâmica estatística, visa a derivar os princípios da termodinâmica clássica a partir das partículas constituintes e suas interações. Isso é feito por meio da aplicação de equações estatísticas, como a equação de Boltzmann, cujo entendimento foge do escopo deste capítulo. Lei Zero da Termodinâmica 5 Quando sistemas com diferentes potenciais entram em contato, a energia flui do sistema mais energético para o menos energético. Note que, em um problema predominantemente térmico, a temperatura é o potencial, como medida direta da energia cinética média das partículas. Nesse caso, o inter- câmbio de energia ocorre por meio de processos de transferência de calor, como condução, convecção e radiação, resultando em uma redistribuição da energia cinética buscando um equilíbrio (Cremasco, 2016). Equilíbrio termodinâmico Para poder ter uma completa noção do equilíbrio em um processo físico, é necessário primeiro compreender o conceito de “estado”. No contexto termo- dinâmico, o conjunto de grandezas físicas que determinam completamente e sem ambiguidades a condição instantânea de um sistema é considerado um estado (Cremasco, 2016). De acordo com a teoria cinética dos gases, para definir o estado termodinâmico de uma substância gasosa, é necessário determinar a temperatura (energia cinética média interna), a pressão, o volume (delimitado por uma fronteira conhecida), a composição química e a proporção (por exemplo, a fração volumétrica) das substâncias constitutivas (Cremasco, 2016). Acompanhando essa perspectiva, é possível perceber que o equilíbrio de um processo físico é uma caraterística de transporte de grandezas físicas mensuráveis, entre dois ou mais estados, associadas com o comportamento das substâncias e as suas relações constitutivas. Portanto, um estado ter- modinâmico é o conjunto mínimo de variáveis de estado que definem as características da substância. Assim, o equilíbrio termodinâmico passa a ser a consequência da conservação de grandezas físicas entre estados. Na natureza, existem leis fundamentais que regem a conservação dessas grandezas (Cremasco, 2016). A mecânica estatística clássica abrange o estudo de sistemas tanto em equilíbrio quanto fora do equilíbrio, fornecendo ferramentas para entender uma vasta gama de fenômenos. O conceito de equilíbrio está associado a processos, que são sequências ordenadas de fenômenos ao longo do tempo. Dependendo do escopo energético do sistema, pode-se considerar quatro cenários possíveis: equilíbrio em estado estacionário, equilíbrio em estado transitório, não equilíbrio em estado estacionário e não equilíbrio em estado transitório (Cremasco, 2016). Lei Zero da Termodinâmica6 Independentemente da escala temporal, seja um regime permanente ou transitório, um sistema está em equilíbrio termodinâmico geral quando atinge simultaneamente o equilíbrio térmico, mecânico e químico. Nesse estado, todas as propriedades globais são constantes e uniformes (distribuição es- pacial homogênea), e não há fluxos de energia ou matéria dentro do sistema ou entre o sistema e o seu entorno (Cremasco, 2016). Diferenças de potenciais com base em ligações atômicas e radioatividade são consideradas fenômenos químicos. As diferenças de potenciais com base em rotação, translação e vibração macroscópicas são consideradas fenômenos mecânicos, enquanto as diferenças de potenciais mecânicos microscópicas são consideradas fenômenos térmicos, na forma de energia interna. A interação de diversos tipos de potencial permite diversos tipos de equilíbrio, que podem ser classificados da seguinte forma (Toma, 2013): � Equilíbrio térmico: dois sistemas (subsistemas) em contato térmico não trocam mais calor, resultando em temperaturas iguais e ausência de gradientes de temperatura. � Equilíbrio mecânico: não há forças não balanceadas dentro do sistema ou entre o sistema e seu ambiente, significando pressão uniforme e ausência de movimento de massa em resposta a gradientes de pressão. � Equilíbrio químico: reações químicas no sistema não resultam em mudanças na composição dos reagentes e produtos ao longo do tempo, com concentrações constantes dos componentes químicos e taxas de reações iguais. O equilíbrio termodinâmico ocorre quando o sistema atinge o equilíbrio mecânico e térmico e, se estiver dentro do escopo, também o equilíbrio químico (Coelho, 2016). A seguir, vamos explorar mais a fundo as diferentes manifestações de energia. Manifestações da energia A conservação de energia é uma consequência da simetria temporal em sis- temas físicos. O teorema de Noether afirma que toda simetria de uma teoria física tem uma quantidade mensurável e conservada associada, e a simetria temporal é associada à conservação da energia, independentemente de sua natureza (Borgnakke; Sonntag, 2018). Lei Zero da Termodinâmica 7 As grandezas mensuráveis massa, energia, momentos linear e angular e carga elétrica são conservadas, pois a soma das suas respectivas magnitudes é igual antes e após uma transformação entre estados. Essas gran- dezas estão relacionadas às leis de conservação, obtidas por meio de relações matemáticas intrínsecas a um sistema físico. Por exemplo, a conservação da energia está ligada à simetria temporal, a conservação do momento linear está associada à simetria translacional, e a conservação do momento angular está relacionada à simetria rotacional.Essas leis fundamentais formam a base para muitas análises em física, permitindo prever o comportamento de sistemas isolados e explicar fenômenos naturais com precisão (Borgnakke; Sonntag, 2018). Existem diferentes manifestações energéticas que se tornam evidentes quando o equilíbrio termodinâmico não é satisfeito, como mencionado na seção anterior. Assim, a energia, potencializada pelo não equilíbrio, é definida como a capacidade de um sistema para realizar mudanças. As diferentes formas de energia podem se transformar umas nas outras conforme as con- dições e os princípios da conservação, mas a quantidade total de energia no universo permanece constante (Borgnakke; Sonntag, 2018). Em um sistema em equilíbrio termodinâmico, não há fluxos líquidos de matéria ou energia dentro do sistema ou entre ele e o ambiente externo (fluxos de fronteira). Isso implica que as taxas de transferência de calor são iguais entre diferentes partes do sistema e que não há movimento líquido macroscópico em resposta a gradientes de pressão. Esse estado de equilíbrio é alcançado quando o sistema atinge o equilíbrio térmico (uniformidade de temperatura) e mecânico (ausência de forças não balanceadas), resultando em propriedades macroscópicas estáveis ao longo do tempo (Borgnakke; Sonntag, 2018). Transporte e conservação O transporte de energia se refere aos mecanismos que governam a transfe- rência de diferentes formas de energia dentro de sistemas físicos. Embora a energia não possa ser criada nem destruída, apenas transformada, o trans- porte envolve mecanismos como a transferência de calor. A conservação e o transporte de energia são conceitos fundamentais na termodinâmica e na física, explicando como a energia é distribuída e transformada em diversos tipos de sistemas; no entanto, o escopo deste capítulo abrange apenas o transporte de energia em sistemas predominantemente térmicos. Isso implica que gradientes de potencial químicos e predominantemente Lei Zero da Termodinâmica8 mecânicos, a partir desta seção, não serão contemplados (Borgnakke; Sonntag, 2018). Os mecanismos de transferência de calor incluem a condução, a convecção e a radiação. A condução ocorre dentro de uma substância ou entre substâncias em contato físico direto, transferindo calor por colisões entre átomos e moléculas. A convecção ocorre em líquidos e gases, transferindo calor por meio do movimento do próprio fluido como resultado de diferenças de densidade. Já a radiação envolve ondas eletromagnéticas, permitindo a transferência de calor sem contato direto entre as partículas. Esses mecanismos são fundamentais para entender como a energia térmica se move dentro de sistemas físicos e como é distribuída e transformada em diferentes contextos (Cremasco, 2016). Calor e transferência de energia térmica Em um contexto termodinâmico, o calor é entendido como a transferência de energia térmica entre sistemas devido a uma diferença de temperatura. Quando calor é adicionado a um sistema, ele pode aumentar a energia cinética média das partículas, resultando em um aumento de temperatura, ou causar uma mudança de fase. O calor é fundamental para entender como a energia se move dentro de sistemas físicos e como é distribuída e transformada em diferentes contextos (Levenspiel, 2002). Trabalho e transferência de energia mecânica O trabalho é a energia mecânica transferida para ou de um sistema quando uma força é aplicada sobre ele, resultando em deslocamento. No contexto de um sistema termodinâmico, o trabalho pode ser realizado, por exemplo, pela expansão de um gás contra um pistão, em que a energia interna do gás é convertida em energia mecânica. A energia térmica e o trabalho são inter- conectados por meio da energia interna do sistema (Cremasco; Bertan, 2023). O equilíbrio entre energia térmica e trabalho pode ser observado em diferentes situações. Por exemplo, durante a expansão adiabática de um gás ideal, em que não há troca de calor com o ambiente, a energia interna do gás muda devido ao trabalho realizado pelo gás contra o pistão. Nesse caso, a variação da energia interna do gás está diretamente relacionada ao trabalho realizado pelo gás (Cremasco; Bertan, 2023). Lei Zero da Termodinâmica 9 Em sistemas mais complexos, como motores térmicos ou máquinas, o equilíbrio entre energia térmica e trabalho é crucial para entender a eficiência e o desempenho desses sistemas. A Primeira Lei da Termodinâmica, que expressa a conservação da energia, permite a análise quantitativa da relação entre energia térmica e trabalho em diferentes processos termodinâmicos (Cremasco; Bertan, 2023). Portanto, o equilíbrio entre energia térmica e trabalho não significa que eles sejam iguais em magnitude, mas sim que a troca de energia entre essas formas é conservativa, governada pelas leis da termodinâmica. Isso garante que a energia total do sistema permaneça constante em um processo adia- bático (Cremasco, 2016). No contexto da termodinâmica, no português do Brasil, é correto usar “não equilíbrio” como sinônimo de “desequilíbrio”. Ambos os termos descrevem situações em que um sistema não está em equilíbrio ter- modinâmico. “Não equilíbrio” é um termo técnico mais preciso, destacando a ausência de equilíbrio, enquanto “desequilíbrio” é um termo mais geral que pode ser aplicado em outros contextos além da termodinâmica. Apesar disso, ambos são compreendidos e usados na literatura científica, com “não equilíbrio” sendo preferível em contextos técnicos específicos para enfatizar a condição fora do equilíbrio. Processos termodinâmicos Um processo termodinâmico é um conjunto de mudanças de estado, ou uma sequência ordenada de fenômenos que ocorrem em um sistema. Durante esse processo, podem ocorrer alterações nas variáveis macroscópicas do sistema, como temperatura, pressão, volume e energia interna (Cremasco, 2016). Essas mudanças são geralmente descritas em termos das leis consti- tutivas da termodinâmica e envolvem conversão e transferência de energia na forma de calor e/ou trabalho entre o sistema e seu ambiente. Os principais tipos de processos termodinâmicos são descritos a seguir, com base em Levenspiel (2002): � Processos isobáricos (à pressão constante): ■ A pressão do sistema permanece constante durante todo o processo. ■ A variação de volume e temperatura é permitida. Lei Zero da Termodinâmica10 ■ Exemplo: aquecimento de um gás em um cilindro com um pistão móvel. À medida que o gás é aquecido, ele se expande, empur- rando o pistão para cima. A pressão exercida pelo pistão mantém a pressão do gás constante, enquanto seu volume e sua temperatura aumentam. � Processos isocóricos (a volume constante): ■ O volume do sistema permanece constante durante todo o processo. ■ Não ocorre trabalho mecânico, pois o volume não se altera. ■ A variação de pressão e temperatura é permitida. ■ Exemplo: aquecimento de um gás em um recipiente rígido e fechado. Logo, o aumento da temperatura resulta em um aumento da pressão. � Processos isotérmicos (à temperatura constante): ■ A temperatura do sistema permanece constante durante todo o processo. ■ A variação de pressão e volume é permitida. ■ Exemplo: compressão lenta de um gás ideal em um pistão man- tido em um banho térmico. A temperatura constante implica que a energia interna do gás permanece constante. Qualquer trabalho realizado pelo gás é exatamente equilibrado pelo calor absorvido do banho térmico. � Processos adiabáticos (sem troca de calor com o ambiente): ■ Não há troca de calor entre o sistema e seu ambiente. ■ As variações de pressão, volume e temperatura são permitidas. ■ As transformações são rápidas, ou o sistema é bem isolado termicamente. ■ Exemplo: expansão rápida de um gás em um cilindro isolado ter- micamente. A energia interna do gás diminui à medida que ele realiza trabalho sobre o pistão, resultando em uma diminuição de temperatura. � Processos isentálpicos (à entalpia constante): ■ Aentalpia do sistema permanece constante durante todo o processo. ■ Ocorre frequentemente em processos em que a expansão ocorre sem troca de calor e sem realização de trabalho. ■ Exemplo: a válvula de estrangulamento em um processo de Joule- -Thomson, em que um gás se expande através de uma válvula sem fazer trabalho externo e sem troca de calor, mantendo a entalpia constante. Lei Zero da Termodinâmica 11 A entalpia é uma grandeza termodinâmica que representa a soma da energia interna de um sistema com o produto da pressão pelo volume desse sistema. No contexto termodinâmico, a entalpia representa a quantidade total de energia de um sistema, incluindo tanto a energia interna quanto o trabalho realizado pelo sistema devido à expansão ou à compressão. A entalpia é uma propriedade importante para analisar processos que ocorrem à pressão constante, pois sua variação indica a quantidade de calor trocada entre o sistema e o ambiente durante uma transformação (Borgnakke; Sonntag, 2018). � Processos isentrópicos (à entropia constante): ■ A entropia do sistema permanece constante durante todo o processo. ■ Ocorre frequentemente em processos adiabáticos reversíveis. ■ Exemplo: expansão adiabática reversível de um gás ideal. Aqui não há troca de calor com o ambiente, e o processo é realizado de forma suficientemente lenta para ser considerado reversível, mantendo a entropia constante. A entropia é uma grandeza termodinâmica que mede a desordem ou a falta de organização de um sistema. Ela é definida como a razão entre a quantidade de calor transferida para um sistema e a temperatura desse sistema. Sempre que calor é adicionado, a entropia aumenta, indicando uma maior desordem. Em sistemas isolados, a entropia tende a aumentar com o tempo, levando a um estado de equilíbrio termodinâmico. Relacionada à Segunda Lei da Termodinâmica, a entropia de um sistema isolado nunca diminui, apenas aumenta ou permanece constante, refletindo a tendência natural do universo de evoluir da ordem para a desordem (Coelho, 2016; Levenspiel, 2002). Cada tipo de processo termodinâmico oferece uma maneira única de analisar e compreender como a energia é transferida e transformada em sistemas físicos. Compreender esses processos é fundamental para o estudo da termodinâmica e suas aplicações em diversas áreas, desde motores tér- micos até a climatização e a engenharia de processos industriais (Borgnakke; Sonntag, 2018). A seguir, vamos estudar mais a fundo a energia térmica e as condições de equilíbrio e não equilíbrio. Lei Zero da Termodinâmica12 Energia térmica A energia térmica é a energia associada ao movimento aleatório das partículas (átomos e moléculas) em um sistema. Ela está relacionada à temperatura do sistema, pois, quanto maior a temperatura, maior a energia cinética média das partículas (Cremasco, 2016). A equação que relaciona a energia térmica Q e a distribuição espacial e temporal da temperatura T para uma substância pode ser expressa de várias maneiras, dependendo do contexto e das condições. Uma das formas mais comuns é a equação da capacidade calorífica para um caso contínuo multifásico (Cremasco, 2016): (1) onde: � Q(x, t) é a distribuição da quantidade de calor transferido, medido em joules [J]; � m(x, t) é a distribuição da massa, medida em quilogramas [kg]; � é a variação da temperatura, medida de acordo com a escala kelvin [K]; e � C(x, t)é a distribuição da capacidade calorífica específica, medida em [J kg–1 K–1]. O calor transferido pode ser interpretado utilizando-se o modelo de uma perturbação térmica ao sistema e a equação do fluxo de calor de Fourier. Adicionalmente, no caso de uma distribuição de massa uniforme por segmen- tos, como na junção de n ≥ 1 substâncias homogêneas, é possível substituir a integral por um somatório (Cremasco, 2016): (2) onde a distribuição da condutividade térmica Ki(x, t), da substância , é medida em [J kg–1 m–1], e o termo fonte/sumidouro Gi(x, t) é medido em joules [J] e depende das propriedades termomecânicas da substância . Em muitos contextos, é útil expressar a quantidade de substância em função da fração volumétrica ou densidade ρi(x, t). No caso de um sistema constituído por uma única fase, tem-se (Cremasco, 2016): (3) Lei Zero da Termodinâmica 13 onde κ(x, t) é a condutividade térmica por unidade de volume, e g(x, t) é o termo fonte por unidade de volume. Por outro lado, assumindo-se que as propriedades termomecânicas da substância (κ, ρ e c) são transitórias e uniformes com relação à distribuição espacial, e que existe geração e distribuição de calor em regime permanente, tem-se (Cremasco, 2016): (4) Essa última expressão pode ser interpretada como a equação da con- dutividade ou difusão de calor, com uma distribuição de termo fonte não necessariamente uniforme. Calculando o coeficiente de difusão de calor em regime permanente, utilizando como o operador de Laplace e como simplificação simbólica do gradiente temporal de temperatura e, finalmente, eliminando o termo fonte, a Equação 4 se torna a conhecida equação diferencial parcial parabólica de Laplace: (Cremasco, 2016). Temperatura A temperatura é uma variável de estado global fundamental, estreitamente relacionada à constante de Boltzmann, que desempenha um papel essencial em fenômenos de transporte e conservação de grandezas físicas em processos termodinâmicos, especialmente no contexto da termodinâmica estatística (Cremasco, 2016). � Radiação de corpo negro: a constante de Boltzmann aparece na Lei de Planck, que descreve a intensidade da radiação emitida por um corpo negro em função do comprimento de onda e da temperatura (Schmidt; Henderson; Wolgemuth, 1996). � Entropia: a constante de Boltzmann relaciona a entropia de um sistema com o número de microestados acessíveis por meio da equação de Boltzmann. � Equação de estado: a constante de Boltzmann compõe a constante universal dos gases que aparece, por exemplo, na equação de estado dos gases ideais. Lei Zero da Termodinâmica14 Existem diversos entendimentos de “temperatura” além da tempe- ratura termodinâmica. Existe a “temperatura de brilho”, utilizada em astronomia para medir a temperatura de corpos celestes, e a “temperatura de cor”, utilizada para descrever a aparência de uma fonte de luz branca. Também há a “temperatura de Fermi”, conceito da mecânica quântica que representa a energia média dos elétrons em um metal ou gás de elétrons (Borgnakke; Sonntag, 2018). Escalas A temperatura é medida em diferentes escalas – Kelvin [K], Celsius [°C], Fahre- nheit [°F] e Rankine [°R] –; contudo, estas são apenas diferentes interpretações da mesma informação. As escalas de temperatura têm uma história rica e evolutiva, influenciada pelo desenvolvimento da física e da tecnologia ao longo dos séculos (Cremasco, 2016). Uma das primeiras escalas de temperatura foi desenvolvida pelo italiano Santorio Santorio no início do século XVII. Ele desenvolveu o “termoscópio” para medir a temperatura do corpo humano. No entanto, essa escala não tinha uma unidade de medida padronizada. No final do século XVII, o físico alemão Daniel Gabriel Fahrenheit criou uma escala baseada em três pontos fixos: o ponto de fusão do gelo, a temperatura do corpo humano e o ponto de ebulição da água. Ele definiu a escala Fahrenheit em 1724, atribuindo 32 graus para o ponto de fusão do gelo e 212 graus para o ponto de ebulição da água ao nível do mar (Cremasco, 2016). Em 1742, o físico sueco Anders Celsius propôs uma escala centígrada, em que o ponto de fusão do gelo era definido como zero graus, e o ponto de ebulição da água, como cem graus. Essa escala foi posteriormente invertida, tornando-se a escala Celsius amplamente usada hoje. Outras escalas de temperatura foram desenvolvidas ao longo do tempo, como a escala Kelvin, introduzida pelo físico britânico William Thomson (Lord Kelvin) no século XIX. A escala Kelvin é baseada na termodinâmica,em que o zero absoluto representa a ausência total de movimento molecular (Cremasco, 2016). A Figura 1 exemplifica um domínio de temperatura medida na escala Kelvin, entre 0 e 1.500 , associado com referências em temperaturas aproximadas. As escalas Kelvin e Rankine são escalas absolutas que consideram um limite inferior teórico (Cremasco, 2016). Lei Zero da Termodinâmica 15 Figura 1. Referência aproximada de pontos de fusão e ebulição, frente a uma régua escalada, mostrando as escalas Kelvin, Rankine, Celsius e Fahrenheit. As equações para converter entre as escalas de temperatura Kelvin, Rankine, Celsius e Fahrenheit são apenas quatro, porém são bidirecionais e podem ser combinadas (Cremasco, 2016), conforme apresentado a seguir: � Entre as escalas Kelvin e Celsius: (5) � Entre as escalas Kelvin e Rankine: (6) � Entre as escalas Celsius e Fahrenheit: (7) � Entre as escalas Rankine e Fahrenheit: (8) Lei Zero da Termodinâmica16 Lei Zero A Lei Zero da Termodinâmica foi formulada para estabelecer um fundamento essencial na medição e na compreensão da temperatura. Antes de sua for- mulação, houve um período de desenvolvimento conceitual sobre calor, temperatura e equilíbrio térmico (Coelho, 2016). No século XVIII, cientistas como Joseph Black e Antoine Lavoisier investiga- ram o calor e a calorimetria, contribuindo para a compreensão do transporte e da conservação de calor entre substâncias. Black, por exemplo, foi um dos primeiros a propor que diferentes substâncias podiam ter diferentes capaci- dades de armazenamento de calor. No início do século XIX, os experimentos de Joule sobre a equivalência – no sentido de equilíbrio termodinâmico – entre calor e trabalho mecânico começaram a estabelecer uma relação quantitativa entre energia térmica e outras formas de energia (Coelho, 2016). A Lei Zero da Termodinâmica foi formalizada no século XX como resul- tado dos avanços teóricos e experimentais na compreensão do conceito de temperatura. A necessidade de uma definição precisa de temperatura e uma base sólida para a medição levou à formulação dessa lei. A Lei Zero da Termodinâmica foi um marco importante na consolidação da termodinâmica como uma ciência precisa, estabelecendo os princípios básicos que governam o conceito de temperatura e sua medição em diversos contextos (Coelho, 2016). Axiomaticamente, porém não historicamente, a partir da Lei Zero, as outras três leis da termodinâmica foram formuladas. Elas são descritas a seguir (Borgnakke; Sonntag, 2018; Coelho, 2016): � Lei Zero da Termodinâmica: afirma que, se dois sistemas estão em equi- líbrio térmico com um terceiro sistema, então eles estão em equilíbrio térmico entre si. Se A está em equilíbrio térmico com B e também com C, então B e C estão em equilíbrio térmico um com o outro. � Primeira Lei da Termodinâmica: também conhecida como Lei da Con- servação de Energia, afirma que a energia total de um sistema isolado (em que não há troca de matéria com o ambiente) permanece constante. Essa lei surge do reconhecimento de que a energia pode mudar de forma (por exemplo, de calor para trabalho), mas não pode ser criada nem destruída. � Segunda Lei da Termodinâmica: descreve a direção do fluxo de energia em sistemas termodinâmicos. Ela estabelece que o calor flui natural- mente de um objeto quente para um objeto frio, e não ao contrário, a menos que trabalho seja realizado. Além disso, a Segunda Lei da Lei Zero da Termodinâmica 17 Termodinâmica afirma que a entropia (uma medida da dispersão de energia) de um sistema isolado sempre aumenta ou permanece cons- tante em processos naturais. � Terceira Lei da Termodinâmica: estabelece que é impossível atingir a temperatura de zero absoluto em um número finito de etapas termo- dinâmicas. Define a entropia de um sistema puro e cristalino no zero absoluto como sendo zero, o que implica que a quantidade de energia térmica é a mínima possível, e a ordem é máxima. Essas leis fornecem um conjunto de princípios fundamentais que regem o comportamento dos sistemas termodinâmicos e permitem uma compreensão detalhada dos fenômenos relacionados à energia, ao calor, ao trabalho e às transformações de estados da matéria. Considerações finais Neste capítulo, a termodinâmica foi abordada de uma perspectiva abrangente, destacando a importância da ausência de equilíbrio energético como requisito para a ocorrência de qualquer processo físico. Foram mencionadas brevemente a teoria cinética e a mecânica estatística, fornecendo uma fundamentação didática para a compreensão das interpretações contemporâneas das diversas manifestações energéticas em processos termodinâmicos, como fenômenos de transporte e transferência de calor ou trabalho. Por fim, no contexto tér- mico, foram apresentadas as escalas de temperatura como ferramentas para a mensuração e a interpretação quantitativa da Lei Zero da Termodinâmica. Compreender esses conceitos é fundamental para estudantes da área, pois proporciona uma sistematização reducionista de problemas complexos, servindo como base para a análise de sistemas termodinâmicos e a aplicação prática desses princípios em diversas situações reais. Referências BORGNAKKE, C.; SONNTAG, R. E. Fundamentos da termodinâmica. 2. ed. São Paulo: Blucher, 2018. COELHO, J. C. M. Energia e fluidos: termodinâmica. São Paulo: Blucher, 2016. v. 1. CREMASCO, M. A. Fundamentos de transferência de massa. 3. ed. São Paulo: Blucher, 2016. CREMASCO, M. A.; BERTAN, A. S. Transferência de massa: difusão mássica em meios convencionais. São Paulo: Blucher, 2023. v. 1. LEVENSPIEL, O. Termodinâmica amistosa para engenheiros. São Paulo: Blucher, 2002. Lei Zero da Termodinâmica18 SCHMIDT, F. W.; HENDERSON, R. E.; WOLGEMUTH, C. H. Introdução às ciências térmicas: termodinâmica, mecânica dos fluidos e transferência de calor. São Paulo: Blucher, 1996. TOMA, H. E. Energia, estados e transformações químicas. São Paulo: Blucher, 2013. v. 2. Leituras recomendadas ASHRAFIZADEH, S. A.; TAN, Z. Mass and energy balances: basic principles for calculation, design, and optimization of macro/nano systems. Cham: Springer, 2018. BELAADI, S. Thermodynamic processes 1: systems without physical state change. London: ISTE; Hoboken: Wiley, 2020. BELAADI, S. Thermodynamic processes 2: state and energy change systems. London: ISTE; Hoboken: Wiley, 2020. MORRIS, A. E.; GEIGER, G.; FINE, H. A. Handbook on material and energy balance calcu- lations in materials processing. 3. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2011. SCHLESINGER, M. A. Mass and energy balances in materials engineering. Upper Saddle River: Prentice-Hall, 1996. SONNTAG, R. E.; VAN WYLEN, G. J. Introduction to thermodynamics, classical and sta- tistical. 3. ed. Toronto: John Wiley & Sons, 1991. Lei Zero da Termodinâmica 19