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APG 12 - IMUNO ★ Visão geral da imunidade inata O termo imunidade inata se refere aos mecanismos de defesa sempre presentes, prontos para combater microrganismos e outros agentes agressores. O sistema imune inato consiste em muitos tipos de células e moléculas solúveis presentes nos tecidos e no sangue que previnem a invasão e o estabelecimento de infecções. Quando um microrganismo estabelece o foco infeccioso, as respostas imunes inatas fornecem a defesa inicial, antes das respostas imunes adaptativas. ● Funções das respostas imunes inatas A imunidade inata é a primeira linha de defesa contra infecções e exerce várias funções essenciais que nos protegem contra microrganismos e lesão tecidual. Os principais componentes do sistema imune inato são as barreiras epiteliais, que bloqueiam a entrada dos microrganismos; as células-sentinela residentes nos tecidos, incluindo macrófagos, mastócitos e células dendríticas (DCs; do inglês, dendritic cells), os quais detectam microrganismos que conseguem romper os epitélios e iniciam as respostas do hospedeiro; as células brancas do sangue (leucócitos), incluindo neutrófilos, monócitos que se tornam macrófagos nos tecidos, células natural killer (NK) e outras células, que entram nos tecidos vindas do sangue e eliminam os microrganismos que invadiram os epitélios, além de removerem células danificadas do hospedeiro; e diversos tipos de proteínas plasmáticas, as quais combatem os microrganismos dentro e fora da circulação. Os dois principais tipos de reações protetoras do sistema imune inato são a inflamação e a defesa antiviral: A inflamação é o processo pelo qual os leucócitos circulantes e as proteínas plasmáticas são levados aos locais de infecção nos tecidos e são ativados para destruir e eliminar os agentes agressores. A inflamação é também a principal reação às células danificadas ou mortas não relacionadas à infecção e ao acúmulo de substâncias anormais nas células e tecidos. Os mecanismos de defesa antivirais impedem a replicação viral e promovem a morte das células infectadas, eliminando assim os reservatórios da infecção viral na ausência de uma reação inflamatória (embora a inflamação também possa contribuir para a defesa contra os vírus). As funções das respostas imunes inatas têm algumas características gerais importantes: 1. As defesas físicas e químicas nas barreiras epiteliais, como a pele e o revestimento dos tratos gastrintestinal e respiratório, bloqueiam a entrada microbiana. Os microrganismos conseguem colonizar os tecidos somente quando são capazes de atravessar os epitélios. Se essas barreiras forem danificadas ou os microrganismos conseguirem penetrá-las, as respostas imunes inata e adaptativa são ativadas para fornecer as próximas linhas de defesa 2. As respostas imunes inatas são as reações iniciais aos microrganismos que servem para controlar ou eliminar a infecção do hospedeiro por muitos patógenos. Essas respostas são ativadas pelos microrganismos que atravessam as barreiras epiteliais. As respostas são mediadas por células tecido-residentes e outras células e proteínas plasmáticas recrutadas a partir do sangue no processo inflamatório. A importância da imunidade inata na defesa do hospedeiro é ilustrada por observações clínicas e estudos experimentais demonstrando que as deficiências, a inibição ou a eliminação de qualquer dos vários mecanismos de imunidade inata aumentam a suscetibilidade a infecções, mesmo quando o sistema imune adaptativo está intacto e funcional. Muitos microrganismos patogênicos desenvolveram estratégias para resistir à imunidade inata, e essas estratégias são decisivas para a virulência dos microrganismos. As respostas imunes inatas a esses microrganismos podem manter a infecção sob controle até as respostas imunes adaptativas serem ativadas. As respostas imunes adaptativas tipicamente são mais potentes e especializadas, conseguindo assim eliminar os microrganismos que resistem aos mecanismos de defesa da imunidade inata. 3. A imunidade inata elimina células danificadas e inicia o processo de reparo tecidual. Essas funções envolvem o reconhecimento e a resposta a moléculas do hospedeiro produzidas, liberadas ou acumuladas em células estressadas, danificadas e mortas do hospedeiro. A lesão que deflagra essas respostas inatas pode ocorrer como resultado de infecção, ou é possível que se trate de um dano tecidual e celular estéril na ausência de infecção. 4. As respostas imunes inatas estimulam respostas imunes adaptativas e podem influenciar a natureza dessas respostas, para torná-las otimamente efetivas contra diferentes tipos de microrganismos. Portanto, a imunidade inata não só atua como a linha inicial de defesa logo após a infecção, como também fornece os sinais de perigo que alertam o sistema imune adaptativo para responder. Além disso, diferentes componentes do sistema imune inato muitas vezes reagem de modos distintos a microrganismos diferentes (p. ex., bactérias extracelulares vs. vírus intracelulares) e, assim, influenciam o tipo de resposta imune adaptativa que se desenvolve. ● Características comparativas das imunidades inata e adaptativa Para entender como as imunidades inata e adaptativa complementam uma à outra para conferir proteção contra patógenos, é instrutivo destacar suas diferenças relevantes: 1. As respostas imunes inatas a um microrganismo se desenvolvem com rapidez e dispensam exposição prévia ao microrganismo. Em outras palavras, as moléculas e células efetoras imunes inatas estão presentes em quantidades suficientes mesmo antes da infecção e são totalmente funcionais ou se tornam rapidamente ativadas pelos microrganismos para prevenir, controlar ou eliminar as infecções. Em contraste, as respostas imunes adaptativas efetivas a um microrganismo recém-introduzido se desenvolvem no decorrer de vários dias, à medida que os clones de linfócitos antígeno-específicos naive se expandem e se diferenciam em células efetoras funcionais 2. Para a maioria das respostas inatas aos microrganismos, não há alteração considerável na qualidade ou magnitude da resposta após repetidas exposições, ou seja, há pouca ou nenhuma memória. Em contraste, a exposição repetida a um microrganismo intensifica a rapidez, a magnitude e a efetividade das respostas imunes adaptativas. Há evidências crescentes de alguma memória na imunidade inata, em que as respostas dos macrófagos e das células NK a certas infecções são aumentadas em magnitude como consequência de infecções subsequentes. Ainda não está claro o grau de especificidade dessas respostas inatas semelhantes à memória, quais e quantos microrganismos conseguem deflagrá-las, ou se essas respostas contribuem para uma proteção aumentada contra infecções repetidas 3. Os sistemas imunes inato e adaptativo diferem muito na especificidade a estruturas microbianas e na diversidade de seus receptores, conforme discutido mais adiante. ● Evolução da imunidade inata A imunidade inata é filogeneticamente a parte mais antiga do sistema imune. Coevoluiu com os microrganismos para proteger todos os organismos contra infecções. Alguns componentes do sistema imune inato dos mamíferos são notavelmente similares a componentes encontrados em plantas e insetos, sugerindo seu aparecimento em ancestrais comuns há muito tempo, no decorrer da evolução. Exemplificando, peptídeos tóxicos a bactérias e fungos, chamados defensinas, são encontrados em plantas e mamíferos, e compartilham essencialmente a mesma estrutura terciária em ambas as formas de vida. Uma família de receptores, chamada receptores do tipo Toll, reconhecem microrganismos patogênicos e ativam os mecanismos de defesa antimicrobiana. Os receptores do tipo Toll são encontrados em todas as formas de vida na árvore evolutiva, desde os insetos até os mamíferos. A principal via transdutora de sinal que os receptores do tipo Toll engajam para ativar células, chamada via do fator nuclear kappa B (NF-κB; do inglês, nuclear factor kappa B) em mamíferos, também apresenta uma notável conservação evolutiva.★ Reconhecimento de microrganismos e do tecido danificado pelo sistema imune inato As especificidades do reconhecimento imune inato evoluíram para combater os microrganismos, e diferem das especificidades do sistema imune adaptativo com relação a vários aspectos: 1. A resposta imune inata é ativada pelo reconhecimento de um conjunto relativamente limitado de estruturas moleculares que são produtos de microrganismos ou são expressas por células hospedeiras lesionadas ou mortas. Estima-se que o sistema imune inato reconheça apenas cerca de 1.000 produtos de microrganismos e células danificadas. Em contraste, o sistema imune adaptativo pode reconhecer milhões de antígenos microbianos diferentes e também pode reconhecer antígenos ambientais não microbianos e os próprios antígenos que estão normalmente presentes em tecidos saudáveis 2. O sistema imunológico inato usa receptores invariáveis codificados na linha germinativa para reconhecer produtos microbianos e outros. Em contraste, o sistema imune adaptativo usa receptores altamente variáveis e diversos para reconhecer antígenos estranhos. 1. Sistema complemento e a primeira etapa de ativação a. Via lectina A via da lectina é deflagrada por uma proteína plasmática chamada lectina ligante de manose (MBL; do inglês, mannose-binding lectin), a qual reconhece resíduos de manose terminais em glicolipídios e glicoproteínas microbianas, de modo similar ao receptor de manose presentes nos fagócitos descrito anteriormente. A MBL é um membro da família das colectinas e tem uma estrutura hexamérica semelhante à do componente C1q do sistema complemento. Depois que a MBL se liga aos microrganismos, dois zimogênios chamados serina protease 1 associada à manose (MASP1; do inglês, mannose-associated serine protease 1 ou mannan-binding lectin-associated serine protease) e MASP2, com funções similares às de C1r e C1s, associam-se à MBL e iniciam etapas proteolíticas downstream idênticas às da via clássica. Tanto as cadeias leves quanto as cadeias pesadas contêm uma série de unidades estruturais homólogas repetidas, cada uma com cerca de 110 resíduos de aminoácidos de comprimento, que se dobram independentemente em um motivo globular chamado domínio Ig. Um domínio Ig contém duas camadas de folhas ß pregueadas, cada uma composta de três a cinco fitas de cadeia polipeptídica antiparalelas. As duas camadas são mantidas unidas por uma ponte dissulfeto e as fitas adjacentes de cada folha ß são conectadas por pequenas Um domínio Ig contém duas camadas de folhas ß pregueadas, cada uma composta de três a cinco fitas de cadeia polipeptídica antiparalelas. As duas camadas são mantidas unidas por uma ponte dissulfeto e as fitas adjacentes de cada folha ß são conectadas por pequenas alças. Os aminoácidos localizados em algumas dessas alças são os mais variáveis e críticos para o reconhecimento do antígeno. ↠ Tanto as cadeias leves quanto as cadeias pesadas consistem em regiões aminoterminais variáveis (V) que participam no reconhecimento do antígeno e regiões carboxiterminais constantes (C); as regiões C das cadeias pesadas ajudam a mediar algumas das funções protetoras e efetoras dos anticorpos. Nas cadeias pesadas, a região V é composta de um domínio Ig e a região C é composta de três ou quatro domínios Ig Cada cadeia leve é composta de uma região V de domínio Ig e uma região C de domínio Ig. ↠ As regiões variáveis são assim chamadas porque suas sequências de aminoácidos variam entre os anticorpos produzidos por diferentes clones de células B. A região V de uma cadeia pesada (VH) e a região V adjacente de uma cadeia leve (VL) formam um sítio de ligação ao antígeno Como a unidade estrutural central de cada molécula de anticorpo contém duas cadeias pesadas e duas cadeias leves, cada molécula de anticorpo possui pelo menos dois sítios de ligação antigênica. Os domínios Ig da região C estão espacialmente separados dos sítios de ligação ao antígeno e não participam do reconhecimento antigênico. As regiões C da cadeia pesada interagem com outras moléculas e células do sistema imune e, dessa forma, medeiam a maior parte das funções biológicas dos anticorpos, algumas vezes chamadas de funções “efetoras”. Além disso, as cadeias pesadas existem em duas formas que diferem nas terminações carboxiterminais: uma forma de cadeia pesada ancora os anticorpos ligados à membrana nas membranas plasmáticas dos linfócitos B, e a outra forma é encontrada somente nos anticorpos secretados. (ABBAS, 9ª ed.) ↠ As regiões C das cadeias leves não participam das funções efetoras e não estão diretamente ligadas às membranas celulares. (ABBAS, 9ª ed.) ↠ As cadeias pesadas e leves estão covalentemente ligadas por ligações dissulfeto formadas entre os resíduos de cisteína na porção carboxiterminal da cadeia leve e do domínio CH1 da cadeia pesada. (ABBAS, 9ª ed.) ↠ A porção de ligação ao antígeno de uma molécula de anticorpo é a região Fab, e a extremidade C terminal que está envolvida nas funções efetoras é a região Fc. (ABBAS, 9ª ed.)