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Crises do capitalismo no Brasil
A dinâmica do capitalismo: suas crises e reinvenções no Brasil diante dos grandes cenários de crise
mundial.
Prof. Rodrigo Perez
1. Itens iniciais
Propósito
Reconhecer os impactos das crises do capitalismo mundial no Brasil, permitindo a avaliação de como tais
dinâmicas transformaram a economia, a história e as relações internacionais de nosso país.
Objetivos
Identificar os desdobramentos da crise do capitalismo de 1929 no Brasil.
Analisar os desdobramentos da crise do capitalismo da década 1970 no Brasil.
Reconhecer os desdobramentos da crise do capitalismo de 2008 no Brasil.
Introdução
A bibliografia especializada menciona três momentos de crise global que afetaram a acumulação capitalista no
mundo inteiro. 
O primeiro momento teve em 1929 seu apogeu, sendo impulsionado pela derrocada do liberalismo econômico.
O segundo se deu no início da década de 1970, quando a disparada dos preços internacionais do petróleo
provocou dificuldades para o sistema internacional capitalista, levando o estado de bem-estar social ao
esgotamento e definindo o neoliberalismo como o modelo hegemônico de gestão da acumulação capitalista. O
terceiro ciclo de crise, por fim, começou em 2008, provocado pela explosão da bolha imobiliária nos EUA. 
Todas essas crises aconteceram em um mundo globalizado no qual as economias nacionais estabelecem
relações de interdependência entre si. Desse modo, o Brasil não ficou indiferente a essas experiências de
crise, respondendo à situação internacional de diferentes formas a depender do contexto político do país. 
Nosso objetivo aqui é justamente compreender como se deram os desdobramentos dessas crises globais do
capitalismo no país. Nossa reflexão pretende articular economia, política, teoria social e estratégias
diplomáticas. 
O conteúdo está divido em três partes. No primeiro momento, nos debruçaremos sobre a crise de 1929,
tentando entender como o efeito provocado no Brasil foi substituição das importações por uma
industrialização. Em seguida, estudaremos a crise internacional do petróleo nos anos 1970, a qual, no país,
desgastou politicamente a ditadura militar, que chegou a contar com algum prestígio social nos anos do
“milagre econômico”. Por último, trataremos das respostas do governo brasileiro à crise de 2008 que
colocaram o Brasil entre as nações com os maiores índices de crescimento econômico da época. 
• 
• 
• 
1. Os efeitos da crise do capitalismo de 1929 no Brasil
Consolidação do capitalismo
O capitalismo se consolidou como modo de produção hegemônico no século XIX com a Revolução Industrial e
a afirmação da democracia liberal como regime político dominante na maior parte do mundo ocidental. De lá
para cá, cada vez mais as cidades cresceram em detrimento do campo, havendo um acentuado processo de
urbanização.
A monarquia absolutista foi substituída por governos pautados nas eleições e no princípio da representação
legislativa. Os vínculos tradicionais que sustentavam os privilégios da nobreza sobre o campesinato foram
substituídos pela dominação material da burguesia sobre a massa de trabalhadores urbanos empobrecidos.
O fenômeno da pobreza urbana de massa chamou atenção de muitos intelectuais da época. Podemos
destacar três deles:
Conde de Saint-Simon (1760-1825) Karl Marx (1818-1883)
Alexis de Tocqueville (1805-1859)
Todos esses autores - cada um a seu modo – destacaram a “miséria das multidões nas cidades”, para utilizar
as palavras de Tocqueville, como a grande característica do tipo de sociedade em surgimento. Todos
chamaram a atenção para o potencial de conflito que essa nova organização social carregava.
Os parceiros Engels e Marx.
Exemplo
Milhares de famílias aglomeradas e expostas a jornadas de trabalho que chegavam até 18 horas por dia,
assim como a falta de proteção social para crianças, mulheres e idosos. 
Observe a seguir uma imagem que retrata a realidade da época:
Crianças trabalhando em 1909.
As maiores cidades europeias ainda não contavam com um sistema de tratamento de esgoto ou qualquer
serviço de saúde pública. Além disso, os índices de criminaliade e a violência policial eram altíssimos.
Foi nessa realidade que Marx viveu e escreveu sua interpretação da modernidade burguesa. Para ele, a
constante situação de crise era característica intrínseca do capitalismo, que necessariamente estaria fundado
na exploração e no sofrimento da maioria.
Por mais que o sistema contasse com
mecanismos de dissimulação da realidade e
mascaramento da opressão (que Marx e Engels
definiram como “ideologia”), crises periódicas
eram inevitáveis e a tendência era a de que elas
se tornassem cada vez mais explosivas.
 
Foi esse diagnóstico que sustentou a previsão
de Marx a respeito do fim próximo do
capitalismo. Tratando o desfecho revolucionário
como um fator inexorável do processo histórico,
o filósofo previa que a “revolução dos
trabalhadores” aconteceria no início do século
XX, na Alemanha, país de industrialização mais
avançada na época.
O desenrolar dos acontecimentos mostrou que a previsão de Marx estava parcialmente equivocada, pois ela
não levou em conta a possibilidade de adaptação do capitalismo para atenuar as tensões com aquilo que
posteriormente ficou conhecido como “social-democracia”. Por outro lado, ele acertou ao afirmar que “a
história do capitalismo é a história de suas crises”. Mas pulemos agora para o século XX e para outro
continente:
Queima de café
Em junho de 1931, o Brasil estava envolvido com os festejos juninos.
Getúlio Vargas, que estava em seu primeiro ano de governo, ordenou a
queima de milhares de sacos de café, o qual, na época, era o principal
produto das exportações brasileiros e a grande fonte de receita para a
economia nacional. 
Redução de estoque
Não era a primeira vez que o governo brasileiro ordenava a queima de
café com o objetivo de reduzir os estoques e de manter o preço do
produto no mercado internacional, já que, desde o século XIX, o país
produzia mais café do que o necessário para suprir a demanda
internacional. 
Exportação
No final do século XIX, o Brasil era responsável por 75% das exportações
mundiais do produto. Toda a economia brasileira girava em torno do café.
Contudo, isso alimentava um círculo vicioso, porque o reinvestimento dos lucros se dava na própria
cafeicultura, comprometendo a diversificação da economia brasileira. Quando os preços internacionais do
produto estavam em ascensão, o país experimentava altos índices de crescimento, o que se desdobrava em
emprego, renda e consumo.
O problema é que o contrário era igualmente verdadeiro. Quando os preços estavam em tendência de queda,
a economia brasileira entrava em uma situação de colapso, o que naturalmente gerava grandes
desdobramentos políticos.
Em seu trabalho clássico A formação econômica do Brasil, Celso Furtado demonstra como a agenda cafeeira
conduzia as escolhas macroeconômicas do Estado brasileiro no período.
Durante as primeiras décadas do século XX, todo projeto de desenvolvimento nacional esteve
praticamente limitado às políticas de incentivo à produção cafeeira, o que se explicava por dois fatores:
pelas necessidades práticas do setor que já dominava a economia nacional e pelo fato de os produtores
de café governarem o país, diretamente ou por meio de seus representantes. 
(FURTADO, 1961, p. 32)
Haveria, portanto, a profunda imbricação entre economia e política. O setor economicamente mais forte
produzia lideranças políticas que alimentavam a força desse setor. Tratava-se de um ciclo que, se não fossem
as constantes crises de superprodução de café, parecia tender à eternidade.
A queima de 1931 foi inédita na proporção, o que indica a gravidade da crise que tinha se abatido sobre o
Brasil desde 1929. Analise em seguida qual crise foi essa.
A crise mundial do capitalismo de 1929 
A crise mundial de 1929 teve os EUA como epicentro e representou o maior abalo econômico da história do
capitalismo. O dia 24 de outubro se tornou o símbolo dessa experiência de crise, poisfoi nesse momento que
a Bolsa de Valores de Nova York quebrou. Com o famoso “crack da Bolsa”, suas operações chegaram a zero e
os papéis perderam completamente seu valor.
Na época, o mundo passava por um momento de realinhamento de forças: com o enfraquecimento da Europa,
os EUA se transformaram em uma potência global após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A crise
também evidenciou uma das dificuldades do liberalismo político e econômico forjadas no século XIX: enfrentar
os desafios das modernas sociedades industrializadas de massa que se consolidaram no século seguinte.
Mas o que provocou essa crise?
Apesar ter entrado para a memória histórica coletiva como uma guerra mundial, a Primeira Guerra Mundial não
foi tão mundial assim. Tratou-se, na verdade, de um conflito que se desenvolveu quase inteiramente em solo
europeu, ainda que seus efeitos tenham sido sentidos no mundo inteiro. 
A influência estadunidense também se manifestou no campo cultural, com o país ditando modas nas artes e
até mesmo no modo de vida. Foi nesse momento que se difundiu pelo mundo o american way of life (traduzido
em português para: estilo de vida americano), baseado na imagem de que a “sociedade ideal” seria aquela
formada por uma classe média numerosa, com grande poder de consumo e organizada institucionalmente nos
moldes da uma democracia liberal. Na foto a seguir, observamos que a propaganda do estilo de vida
americano é contraditória com a realidade da crise de 1929:
"O melhor padrão de vida do mundo. Não há jeito melhor que o jeito americano". E
em frente ao cartaz vemos uma fila de sopa para desempregados durante a Crise
de 1929.
Europa 
Até o início da guerra, a Europa era o centro
geopolítico e econômico do mundo, sendo
responsável pela maior parte da produção
industrial do planeta. O conflito, no entanto,
destruiu a infraestrutura produtiva europeia,
deixando sem cobertura uma ávida demanda
mundial por produtos industrializados.
Estados Unidos 
Após a guerra, a lacuna europeia foi
preenchida pela indústria dos EUA, que
já vinha se fortalecendo desde o final do
século XIX. Em pouco tempo, o país
norte-americano se tornou o eixo
econômico e político mundial, o que
simbolizou uma das mudanças
geopolíticas mais importantes da
história moderna.
No auge da “década de ouro” da economia norte-americana, entre os anos 1910 e 1920, alguns especialistas
alertavam para a possibilidade de uma crise marcada pela superprodução industrial, como observaremos a
seguir:
John Keynes (1883-1946)
Nos anos 1930, se tornaria um dos economistas
mais influentes do mundo.
Henry Ford (1863-1947)
Na época, se destacou como um empresário do
setor automotivo.
Analise agora, como Henry Ford e John Keynes, desde o início dos anos 1920, ressaltavam a necessidade de
condicionar a produção industrial a uma demanda real:
Visão de Keynes
Keynes dizia que “a euforia produtiva precisa ser compensada com o igual crescimento da demanda,
o que somente é possível de alcançar com o incentivo ao consumo de massa” (KEYNES, 1992, p. 23).
Em um momento de “grande euforia” para as classes produtivas dos EUA, Keynes destacou a
necessidade de incentivos do governo para o estímulo ao consumo de massa, afirmando que a
demanda europeia não seria de longo prazo. Para o economista, um mercado interno de consumo
forte e capaz de absorver a produção industrial doméstica era um requisito básico para a soberania
nacional, uma vez que a demanda internacional poderia ser afetada por diversos motivos, como, por
exemplo, medidas protecionistas dos governos estrangeiros.
Visão de Ford
Ford também demandava investimento em consumo, especialmente por meio da ampliação do crédito
para as famílias das classes mais baixas, por isso, ele afirmava que “as classes industriais da América
não podem ficar reféns da demanda internacional, sempre suscetível a retrações, a depender das
necessidades políticas dos governos estrangeiros. Cada americano é um consumidor e como tal deve
ser tratado, sendo função do governo criar condições para a efetivação do consumo.” (FORD, 2003, p.
32)
As advertências de Keynes e Ford, contudo, não foram ouvidas. Temendo uma explosão inflacionária, os
governos estabelecidos na época optaram pelo controle monetário, sobretudo por meio da contenção do
crédito. No entanto, o que era esperado não se concretizou, como podemos analisar:
A situação se agravou ao longo do ano de 1929, chegando ao momento mais dramático, como já sabemos, em
24 de abril, dia da paralisação dos trabalhos na Bolsa de Valores. Os EUA eram até então a principal economia
do mundo e o mercado de consumo para muitos países especializados na exportação de produtos primários,
caso do Brasil na época. 
Por falar em Brasil, quais foram os efeitos da crise mundial de 1929 na economia brasileira? 
Já apontamos que o efeito imediato da crise foi a histórica queima de café de 1931, a maior que o país já tinha
visto até então.
Os EUA eram o principal consumidor do café brasileiro. Dessa forma, o colapso da economia estadunidense
obviamente impactou as receitas da exportação do produto, colapsando também a economia brasileira. No
entanto, seria equivocado acreditar que os desdobramentos da crise de 1929 no Brasil se resumiram às
queimas de café e ao colapso da economia cafeeira.
Segundo Wilson Cano (2012), a crise precipitou um processo de “reconversão da cadeia produtiva” que já
estava em marcha desde a década de 1910, pois, apesar da hegemonia agroexportadora, o Brasil já contava
com alguma atividade industrial, sobretudo nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Tratou-se, nas palavras
de Cano, da aceleração da transição para o “Brasil moderno”.
O baixo crescimento das exportações na década de 1920, em relação à de 1910, ao manter a produção
em níveis altos ali também gerou lucros suscetíveis de estimular uma expansão da economia, da
urbanização e da indústria. Isso explica, em grande parte, o elevado nível de investimento industrial no
período. O que ocorreu, por outro lado, é que a dinâmica de crescimento de São Paulo foi muito mais
intensa e diversificada do que a do restante do país, consolidando, a partir daí, uma concentração
industrial que só perderia seu ímpeto a partir da década de 1970. 
(CANO, 2012, p. 81)
O “Brasil moderno” do qual Cano nos fala está fundado na industrialização e na urbanização, o que teria sido
inaugurado ainda na década de 1910. O autor revela, em suma, a existência no país de uma situação
econômica mais complexa que a revelada pela simples imagem de uma economia agroexportadora
supostamente desestabilizada pela crise de 1929, dando origem, somente a partir daí, ao processo de
industrialização em substituição às importações. 
A própria dicotomia agroexportação X atividade industrial, segundo Cano, é falsa, porque parte dos lucros
obtidos com a agroexportação eram reinvestida na atividade industrial, o que explica o fato de São Paulo, a
“capital do café”, também ter sido o berço da indústria brasileira. Essa conversão, ainda de acordo com os
estudos de Wilson Cano, já estava em curso desde os anos 1910, pois as elites brasileiras conheciam a
Expectativa 
O temor era de que a expansão de crédito
aumentasse a quantidade de dinheiro
circulante, provocando uma inflação e
elevando o preço dos produtos e o custo de
vida das famílias. A demanda internacional –
sobretudo a europeia – daria conta de
absorver a “euforia produtiva” da indústria
estadunidense. 
Realidade 
O resultado foi exatamente o contrário:
uma explosão deflacionária, com a
produção superando em muito a
demanda. Isso provocou uma queda
vertiginosa nos preços dos bens
industriais, diminuindo o valor de
mercado das empresas do setor que
operavam na Bolsa de Valores de Nova
York. 
Campanha política toma as ruas do Rio de Janeiro em
1929.
necessidade de diversificar a economia e sabiam que o produto era sensível às flutuações do mercado
internacional.
O que a crise de 1929 teria feito, então, foi a 
aceleração desse processo, o que se explica
inclusive pela ascensãode novos grupos
políticos ao poder não diretamente
comprometidos com a pauta da cafeicultura.
 
Na história da economia brasileira, a década de
1930 foi um momento de consolidação de um
projeto político-econômico, que, a despeito de
existir desde o início do século XX, somente se
tornaria hegemônico ao longo dos 1930 e 1940.
Foi nesse momento que se formou uma cultura
política de gestão da economia conhecida
como nacional-desenvolvimentismo.
O nacional-desenvolvimentismo
O nacional-desenvolvimentismo por Simonsen e Furtado
Veremos a seguir dois importantes nomes que foram considerados como os pioneiros para o nacional-
desenvolvimentismo brasileiro:
Roberto Simonsen (1889-1948) Celso Furtado (1920-2004)
O economista e empresário Roberto Simonsen foi a principal liderança da elite empresarial a compartilhar, ao
longo da década de 1930, uma experiência inédita de planificação estatal com a criação de órgãos. Listemos
três deles:
Conselho Federal de Comércio Exterior.
Conselho Nacional do Petróleo.
Conselho Nacional de Águas e Energia.
Por ter morrido precocemente, em 1948, Simonsen não testemunhou o apogeu do desenvolvimentismo, que
aconteceu nos anos 1950. Entretanto, seu legado certamente foi fundamental nesse processo –
especialmente a defesa do protecionismo e da planificação estatal como vetores da industrialização. Nas
palavras de Simonsen:
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O índice de progresso da civilização é o constante aumento de toda sorte de produtos e serviços. Essa
multiplicidade de produtos tem que ser criada pela indústria. A industrialização de um país como o Brasil
é indispensável para que ele possa atingir um estágio de alta civilização. [...] O desenvolvimento
industrial de um país depende, sobretudo, da instalação de indústria de base, constituída,
principalmente, pela metalurgia de primeira fusão e pela grande indústria química. 
(SIMONSEN apud BIELSCHOWSKY, 2000, p. 83)
O núcleo duro do pensamento econômico de Simonsen – e do nacional-desenvolvimentismo como um todo –
afirma a importância do Estado como uma potência de indução do desenvolvimento nacional, entendido,
nesse caso, como sinônimo de industrialização.
Já o economista Celso Furtado tem uma obra muito extensa, na qual se destaca o livro Formação econômica
do Brasil, publicado pela primeira vez em 1959.
O ponto básico nessa obra de Furtado é a ideia de que o subdesenvolvimento não corresponde a uma etapa
histórica comum a todos os países, e sim a uma condição específica da periferia do sistema capitalista e a um
resultado histórico da evolução da economia mundial desde a Revolução Industrial.
Valores fundamentais do nacional-desenvolvimento brasileiro
Segundo Ricardo Bielschowsky, o nacional-desenvolvimento brasileiro teve os seguintes valores
fundamentais:
Gerar a consciência de que é necessário e viável implantar no país um setor industrial integrado, capaz
de produzir internamente os insumos e os bens de capital necessários à produção de bens finais.
 
Criar a consciência da necessidade de se instituir mecanismos de centralização de recursos financeiros
capazes de viabilizar a acumulação industrial pretendida.
 
Paralelamente à formação da ideia de que o Estado é o guardião dos interesses coletivos da nação e o
promotor da unificação nacional, que acompanhou o processo de centralização de poder pós-1930, a
tese de uma intervenção governamental em apoio à iniciativa privada deixa de ser uma manifestação
isolada de alguns industriais e ganha mais legitimação entre as elites empresariais e técnicas do país.
Simultaneamente, a ideia de planejamento começa a se impor como um imperativo diante do quadro de
desordem imposto pela crise internacional, da debilidade da estrutura econômica do país e do próprio
empresariado nacional.
 
O nacionalismo econômico, até então pouco expressivo no país, ganha uma nova dimensão. Em
primeiro lugar, ocorre o acirramento do sentimento anti-imperialista clássico de defesa das barreiras
alfandegárias e do controle nacional sobre os recursos naturais. (BIELSCHOWSKY, 2000, p. 250-252).
Desdobramentos da crise de 1929
Não foram poucos os desdobramentos da crise mundial do capitalismo de 1929 na economia brasileira. O
principal deles foi a reorientação da matriz econômica hegemônica, cujo eixo migrou da agroexportação para a
industrialização.
Certamente, esse processo não foi exatamente inaugurado pela crise, sendo, na verdade, acelerado por ela,
pois as dificuldades geradas tanto para a exportação de café quanto para a importação de produtos
industrializados exigiam soluções mais imediatas.
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Em Washington, Celso Furtado aponta o Nordeste
brasileiro: novo conceito de subdesenvolvimento para
entender a nossa realidade.
Tais soluções incluíam o fortalecimento do
Estado nacional como um centro planejador e
indutor do desenvolvimento daquilo que já na
época ficou conhecido como modelo da
“substituição das importações”. Criava-se,
nesse momento, uma cultura política que teria
vida longa na história brasileira: o nacional-
desenvolvimentismo.
Como a história do capitalismo também é a
história de suas crises, outras crises mundiais
abalariam e impactariam o Brasil. Por isso, no
próximo módulo, estudaremos a crise mundial
de 1970.
Uma breve história do
capitalismo e suas primeiras crises
Vamos relembrar o que vimos até aqui? Professor Rodrigo Perez nos ajuda a entender as fases iniciais do
capitalismo e a crise no Brasil
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Atividade discursiva
A) A consolidação do nacional-desenvolvimentismo foi um dos principais efeitos da crise mundial do
capitalismo de 1929 no Brasil. Discuta a principal característica do nacional-desenvolvimentismo.
 
B) Já no início dos anos 1920, o economista John Keynes alertava para a possibilidade do colapso da
economia norte-americana. Aponte as advertências feitas por Keynes..
Chave de resposta
A) Você precisa saber que a principal característica do nacional-desenvolvimentismo é a definição do
Estado como o centro planejador e indutor do desenvolvimento econômico.
B) Você deve saber que Keynes chamava a atenção para o descompasso entre produção e demanda,
afirmando ainda a necessidade de o Estado fomentar, por meio de políticas públicas, o consumo da
população.
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Consolidando o capitalismo
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A crise mundial do capitalismo de 1929
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O nacional-desenvolvimentismo no Brasil
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Das alternativas a seguir, assinale a que define a causa da crise mundial do capitalismo de 1929.
A
A crise foi provocada pela recuperação dos setores produtivos europeus ao longo da década de 1920,
diminuindo a demanda para a indústria dos EUA, o que gerou uma crise de superprodução.
B
A crise foi provocada pelos investimentos da indústria francesa, que sobreviveu aos abalos da Primeira Guerra
Mundial, conseguindo competir com a indústria estadunidense.
C
A crise foi provocada pelos investimentos da indústria alemã, que sobreviveu aos abalos da Primeira Guerra
Mundial, conseguindo competir com a indústria estadunidense.
D
A crise foi provocada pela expansão do crédito viabilizada pelo governo dos EUA, o que provocou um cenário
inflacionário que aumentou o custo de vida das famílias e a pobreza da população.
E
A crise foi provocada pela carência de carvão, o qual, na época, era a principal fonte de energia para a
atividade industrial, provocando, com isso, a paralisação da indústria dos EUA e gerando desemprego.
A alternativa A está correta.
A crise foi provocada por uma retração do consumo internacional provocada pela recuperação da indústria
europeia, gerando, assim, um cenário de superprodução industrial nos EUA.
Questão 2
A crisemundial do capitalismo de 1929 impactou profundamente a economia brasileira. Marque a alternativa
que elenca tais principais impactos da melhor forma.
A
O principal impacto da crise mundial do capitalismo de 1929 no Brasil foi o fortalecimento da atividade
agroexportadora em virtude da subida dos preços internacionais do café.
B
O principal impacto da crise mundial do capitalismo de 1929 no Brasil foi o fortalecimento da atividade
agroexportadora em virtude da subida dos preços internacionais da borracha.
C
O principal impacto da crise mundial do capitalismo de 1929 no Brasil foi a intensificação do processo de
industrialização, que estava em marcha desde a década de 1910.
D
O principal impacto da crise mundial do capitalismo de 1929 no Brasil foi o retardamento do processo de
industrialização, que estava em marcha desde a década de 1910.
E
O principal impacto da crise mundial do capitalismo de 1929 no Brasil foi a diversificação da agroexportação
entre o café e a borracha, produtos com alto valor no mercado internacional da época.
A alternativa C está correta.
A crise mundial do capitalismo de 1929 reforçou a convicção de setores das elites brasileiras a respeito de
necessidade de diversificar a economia com a produção industrial.
Guerra de Yom Kipur: soldados com a bandeira do
Egito.
2. Os efeitos da crise do capitalismo da década de 1970 no Brasil
A Guerra de Yom Kipur e o choque internacional do
petróleo
Dois episódios marcam o conflito entre judeus e árabes no Oriente Médio. São eles:
Coalizão de estados árabes
Em 6 de outubro de 1973 (feriado de Yom Kipur
no calendário religioso judaico), foi formada
uma coalizão de estados árabes liderada por
Egito.
Invasão das fronteiras israelenses
A Síria invade as fronteiras com o objetivo de
recuperar os territórios tomados pelo país judeu
na Guerra dos Seis Dias, que aconteceu seis
anos antes.
O que nos interessa, porém, é entender como a Guerra de Yom Kipur serviu como um gatilho para despertar
um ciclo de crise global do capitalismo que durou toda a década de 1970, chegando aos anos 1980 com a
afirmação de um novo modelo de gestão do sistema denominado neoliberalismo. 
Depois de duas semanas de intensa
movimentação militar, com avanços e recuos de
ambos os lados, EUA e URSS, que polarizavam
o mundo na dinâmica da Guerra Fria, se
envolveram diretamente na guerra. Os norte-
americanos apoiavam Israel; os soviéticos, a
coalizão árabe. O conflito, em suma, ganhou
outra proporção.
 
Com isso, a tensão diplomática precisou ser
resolvida com um cessar-fogo negociado pela
ONU e instituído em 25 de outubro de 1973. O
fim do conflito foi benéfico para Israel, dando-
lhe tempo para se recuperar das derrotas
iniciais, firmar posição e manter as fronteiras
desenhadas pela Guerra dos Seis Dias.
Já a coalização árabe foi derrotada militarmente, embora ela tenha deslocado o conflito para a esfera
comercial. Como os países árabes formavam a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), eles
usaram o ritmo de produção e exportação do produto para retaliar os EUA e a Europa Ocidental, que apoiaram
Israel na Guerra de Yom Kipur.
Em apenas dois meses, o preço do barril do petróleo aumentou, em média, 230%, deflagrando uma crise
energética que desestabilizou o capitalismo global ao longo das décadas de 1970 e 1980. Mas o significado
desse ciclo de crise é muito mais amplo que um simples colapso energético.
Na verdade, o que estava em jogo era a total mudança na dinâmica do funcionamento do capitalismo global.
Os “anos dourados do capitalismo”, para utilizarmos as palavras de Eric Hobsbawm, estavam chegando ao fim.
O esgotamento do modelo do estado de bem-estar social
Como vimos no módulo anterior, a crise do capitalismo de 1929 foi provocada pelo excesso de produção em
um momento de retração da demanda por consumo. Isso foi interpretado por alguns economistas como a
prova concreta da falência do princípio liberal do laissez faire laissez passer (pode ser traduzido como “deixe
Presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945).
fazer, deixe passar”) que defendia a total desregulamentação da economia, prometendo que o mercado
“naturalmente” saberia equilibrar demanda e oferta. 
Essa percepção de falência fortaleceu uma proposta alternativa de gestão do capital que vinha sendo
desenvolvida desde os anos 1920 pelo já mencionado economista estadunidense John Keynes. Observe agora
essa proposta, conhecida como “social-democracia”:
Estado como centro planejador
O Estado é defendido como o centro planejador do desenvolvimento econômico, da promoção da
justiça social e da ampliação dos direitos sociais, como alimentação, moradia e proteção laboral aos
trabalhadores.
Taxação progressiva
Os direitos estariam garantidos por intermédio daquilo que alguns economistas chamam de taxação
progressiva da sociedade. Ou seja, as pessoas pagam impostos de acordo com sua riqueza.
Estado garantidor da equidade social
Os ricos pagam mais e financiam os direitos sociais dos mais pobres, que, por causa disso, têm de
arcar com menos impostos. Dessa forma, o Estado funciona como garantidor da equidade social.
Como observamos, a social-democracia partia do princípio de que o capitalismo seria capaz de reformular a si
próprio, tornando-se menos agressivo e conflituoso. A solução para os problemas gerados por esse sistema
econômico seria, segundo os social-democratas, a reforma, e não a revolução. 
A teoria política e econômica de Keynes foi
bastante influente no governo de Franklin
Delano Roosevelt (1882-1945), presidente que
governou os EUA durante a década de 1930,
período no qual os efeitos da crise de 1929
eram intensos. No governo de Roosevelt, foi
idealizado e implementado o famoso New Deal
(em português: novo modelo), um amplo
programa de restruturação da economia
estadunidense cujo objetivo era contornar os
efeitos da crise.
O New Deal impactou o mundo no período
entreguerras, demonstrando os limites práticos
da tese do livre mercado. Fundamental para o repertório liberal desde o século XVIII, essa tese foi sustentada
pelos textos de Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823). 
Atenção
As guerras mundiais e o colapso do sistema capitalista internacional mostraram que, em momentos de
crise aguda, somente o Estado é capaz de promover movimentos anticíclicos e estimular a economia
quando os investidores privados estão assustados e pouco dispostos a correr riscos. 
Construção de blocos de concreto em Nova Jersey. O
projeto New Deal criou uma cooperativa agroindustrial
para trabalhadores.
Segundo Pierre Dardot e Christian Laval, foi a “necessidade prática de intervenção do governo que pôs em
crise o liberalismo dogmático, pautado numa ideia de desregulamentação que nunca se consolidou na prática”
(DARDOT; LAVAL, 2016, p. 38). 
A cultura do New Deal foi fundamental para a
superação da crise catastrófica que se abateu
sobre os EUA entre as décadas de 1930 e 1950.
Para o historiador Eric Hobsbawm, esses foram
os “anos de ouro” da história do capitalismo, já
que, nessa época, o sistema se desenvolveu e
avançou em um cenário de relativa paz social
(pelo menos nos países centrais).
Porém, a partir do final da década de 1960,
ganhavam força os questionamentos ao modelo
rooseveltiano do Estado provedor. O grande
significado da crise do capitalismo dos anos
1970 – deflagrada pela Guerra do Yom Kipur,
reforçamos – foi exatamente este: o colapso da
social-democracia e o fortalecimento de um
outro modelo de gestão do capitalismo global também já citado: o neoliberalismo. 
As principais características do neoliberalismo
Como demonstra Jürgen Habermas, as críticas à social-democracia nos EUA tiveram o resultado de refundar a
direita norte-americana, dando início àquilo que o autor chama de “a nova obscuridade”. Além das críticas à
carga tributária necessária para a manutenção do experimento social-democrata, também ganhou forma um
tipo de crítica cultural que explicava o comportamento considerado desregrado da juventude pelas alegadas
comodidadesque o “Estado assistencialista” possibilitava. Isso teria dado origem a uma geração preguiçosa,
hedonista e pouco afeita ao trabalho. 
Comportamento considerado desregrado da juventude
São exemplos o movimento pelos direitos civis da população negra, o movimento hippie e o festival de
Woodstock, em 1969. 
Segundo os neoliberais, a situação de colapso moral que estaria sendo vivenciada nos EUA nas décadas
de 1960 e 1970 se explicava pela inflação de expectativas e reinvindicações impulsionada pela
concorrência entre os partidos, pelas mídias de massa, pelo pluralismo de associações etc. Essa pressão
das expectativas dos cidadãos “explode” em uma ampliação drástica das tarefas estatais. Os
instrumentos de controle da administração se sobrecarregam com isso. A sobrecarga leva tanto mais às
perdas de legitimidade quanto o espaço de ação estatal é estrangulado por blocos de poder pré-
parlamentares, e quando os cidadãos responsabilizam o governo pelas perdas econômicas perceptíveis.
Isso é tanto mais perigoso quanto mais a lealdade da população depende de compensações materiais. 
(HABERMAS, 2015, p. 67)
Foi nesse clima de acirrado conflito e de intensas disputas entre concepções de Estado diametralmente
opostas que as eleições presidenciais de 1980 transcorreram nos EUA. Todo o debate eleitoral, afinal, girou ao
redor do legado do modelo rooseveltiano. 
A vitória esmagadora de Ronald Reagan (1911-2004) decretou um novo momento na história dos EUA. A
política do país agora estava caracterizada por:
Radicalização da perseguição às
esquerdas.
Enfraquecimento dos sindicatos.
Desmonte da legislação destinada à
proteção social.
Com todo o custo social que tiveram, os governos de Margaret Thatcher (1925-2013) e Reagan conseguiram
diminuir os gastos públicos e garantir um menor rendimento aos setores mais dinâmicos e poderosos do
capitalismo na época, transformando o modelo neoliberal de gestão em um padrão hegemônico. Coroada pelo
Consenso de Washington, em 1989, a força do neoliberalismo parecia inabalável. 
Saiba mais
O “consenso”, como ficou conhecido, foi um fórum internacional comandado pelo Banco Mundial, pelo
Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Departamento de Tesouro dos EUA, que definiram o
receituário neoliberal como o único tecnicamente correto para administrar as economias nacionais. Esse
fórum estabeleceu algumas “regras de ouro” para a boa prática da gestão econômica, como a
desregulamentação dos gastos obrigatórios do Estado, a privatização das empresas públicas e a
diminuição da carga tributária. 
O principal efeito ideológico do Consenso de Washington foi transformar o que era uma orientação ideológica
em uma obrigação técnica, conseguindo, dessa maneira, pautar o debate econômico mundial. O Brasil, por
sua vez, se viu diretamente afetado pelos seguintes fatores: 
Crise da década de 1970.
Afirmação do neoliberalismo.
Diretrizes do Consenso de Washington. 
Juscelino Kubitschek (1902-1976).
A hegemonia do neoliberalismo no Brasil
O efeito imediato do ciclo de crises dos anos 1970 no Brasil se manifestou no campo da diplomacia. Como
demonstra Carlos Ribeiro Santana, o colapso energético provocado pelo conflito árabe-israelense de 1973
exigiu a reorientação na estratégia da diplomacia brasileira, porque, diante da alta do preço do petróleo,
estreitar relações comerciais e políticas com o os países da OPEP passou a ser fundamental para evitar a
carestia energética. 
Como já apontamos, o processo de industrialização do Brasil se acelerou na década de 1930, chegando ao
apogeu nos anos 1950 e 1960, o que aumentava a demanda do país por energia, especialmente por petróleo.
Era de se esperar, portanto, que a diplomacia brasileira priorizasse o Oriente Médio e os países da OPEP.
O grande líder responsável por essa reorientação na política externa brasileira foi o diplomata Mário Gibson
Barbosa, que chefiou o Itamarati durante o governo do ditador Médice, entre 1969 e 1974. A nova estratégia
buscava estabelecer relações bilaterais com os países mais fracos, principalmente os do Oriente Médio. Os
acenos diplomáticos em relação aos países da OPEP não poderiam ser mais amistosos. Segundo Paulo
Vizentini: 
A primeira, a partir de 1973, era pautada pela condenação da expansão territorial de Israel por meio de
conflitos armados com seus vizinhos. A segunda, após a Guerra do Yom Kipur, dizia respeito ao apoio à
criação do Estado palestino. A nova orientação da diplomacia abandonava a retórica anterior da política
de equidistância entre as partes para assumir caráter de maior realismo, nacionalismo e pragmatismo,
posição condizente com as transformações do cenário internacional, mormente a crise do petróleo. 
(VIZENTINI, 1998, p. 42)
Mas os principais efeitos do ciclo global de crises da década de 1970 se fizeram sentir no Brasil ao longo dos
anos 1990 com o esvaziamento da influência da ideologia do nacional-desenvolvimentismo, o que levou à
profunda reorientação do papel atribuído ao Estado brasileiro na administração do capitalismo nacional: de
gerente do desenvolvimento para a posição de “Estado mínimo”. Tratava-se de um claro reflexo daquilo que
estava acontecendo no mundo desde os anos 1970: o esgotamento da social-democracia e a afirmação do
modelo neoliberal. 
Desde a década de 1950, o Brasil e a América latina como um todo respiraram parte da atmosfera social-
democrata (até então hegemônica na Europa). A Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (CEPAL)
estimulou ideias políticas e práticas governamentais para fortalecer a presença do Estado como gestor do
capitalismo periférico latino-americano.
No Brasil, o governo de Juscelino Kubistchek
(JK), nos anos 1950, foi o que mais
implementou os princípios da CEPAL. A gestão
JK definiu que o Estado deveria priorizar o setor
industrial nas áreas automobilística e de
eletrodomésticos, além de elaborar novas
estratégias para o financiamento da
industrialização brasileira, internacionalizando-
a.
De acordo com Brum (2003, p. 82), o governo
JK ampliou a atividade do Estado na área
econômica, defendendo a entrada de
investimentos externos, oferecendo estímulos e
facilidades. Estimulava o ingresso desses investimentos nos setores produtivos de bens de consumo duráveis
(automóveis, eletrodomésticos etc.), atraindo empresas multinacionais. A política econômica de JK estava
voltada para a consolidação da industrialização brasileira. Para tanto, o governo buscava congregar a iniciativa
privada aliada ao capital e à tecnologia externa, com a intervenção do Estado, atuando como planejador,
orientando os investimentos. 
Essa tendência de protagonismo do Estado como potência indutora do desenvolvimento econômico nacional
se manteve ao longo da década de 1960. Nem mesmo o golpe de 1964, que inaugurou a ditadura militar,
conseguiu romper completamente com essa tendência. Analise a seguir a afirmação de Reis (2014, p. 23)
sobre tal tendência ao decorrer dos anos seguintes com diferentes governantes:
Castelo Branco
O fervor antiestadista foi abandonado. O Estado
não definhou, ao contrário, criaram-se novas
agências e modernizaram-se outras. Foi
conservada a estrutura sindical corporativista
urbana, “cavalo de batalha” em oposição às
denúncias da “herança varguista”, devidamente
depurada, assim como os sindicatos rurais, que
continuaram vivos e em franca expansão.
Arthur da Costa e Silva
O governo ditatorial chefiado pelo general com
o apoio das lideranças industriais, sob o
comando de Delfim Neto, novo czar da
economia, a “ortodoxia monetarista” seria
superada. O Estado não podia ser apenas
guardião dos equilíbrios macroeconômicos, mas
devia também ativar-se como agente
fundamental do desenvolvimento.
Emílio Garrastazu Médici
O governo presidido por outro general, fez com
que essa tendência fosse consolidada e
exacerbada.Esses foram os tempos mais
repressivos do período ditatorial, “os anos de
chumbo”. No entanto, também foram os mais
gloriosos da ditadura e os de maior
desenvolvimento econômico, “os anos de ouro”.
Acultura do nacional-desenvolvimentismo seria abalada mesmo nos anos 1990 sob as diretrizes do Consenso
de Washington. O início da crise do Estado desenvolvimentista brasileiro, portanto, pode ser situado na
década de 1970. 
O preço pago pelo Brasil por sua política desenvolvimentista foi o endividamento externo, o que
acabou comprometendo a capacidade do Estado em continuar fomentando desenvolvimento
econômico. Soma-se a isso o fortalecimento da agenda neoliberal na década de 1980, fator que
obrigou diversos governos latino-americanos a reduzir drasticamente sua capacidade de
investimentos produtivos.
Estava em marcha a consolidação de outro modelo de gestão política do capitalismo. Segundo Batista (1995,
p. 32), as propostas do Consenso [de Washington] foram disseminadas por toda a América Latina e tornaram-
se, por parte dos políticos, empresariado e intelectuais regionais, sinônimo de modernidade. Houve, assim, a
inversão da causa da grave crise econômica que a América Latina enfrentava, ou seja: a alta dos preços do
petróleo, as altas taxas internacionais de juros e a deterioração dos termos de intercâmbio eram resultantes
de problemas internos (políticas nacionalistas equivocadas, autoritarismo etc.), e não de fatores externos.
Dessa forma, as propostas apresentadas pelo Consenso de Washington eram vistas como a “solução
modernizadora” para o anacronismo de nossas estruturas econômicas e políticas.
Responsável pela tese de que o Estado deveria conter seus gastos, diminuir seu tamanho por meio da
privatização de empresas públicas e interferir o mínimo possível na atividade econômica, essa cultura político-
administrativa conduziu os governos brasileiros ao longo dos anos 1990. No Brasil, portanto, a década de
1990 cristalizou o momento do desfecho da crise global do capitalismo que havia começado na Europa nos
anos 1970. 
Entretanto, tal crise, de forma alguma, foi a última. Como veremos no próximo módulo, o país voltaria a ser
afetado por um ciclo global de crise do capitalismo no século XXI – mais precisamente, a partir de 2008. 
Crise do petróleo e o Brasil
Veja a seguir um panorama sobre a crise do petróleo e o Brasil. 
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Atividade discursiva
A) Entre a social-democracia e o neoliberalismo, existem diferenças drásticas no que se refere ao lugar
atribuído ao Estado na gestão do capitalismo. Desenvolva essa reflexão.
 
B) O efeito imediato da crise da década de 1970 sobre o Brasil se fez sentir no campo diplomático. Desenvolva
essa reflexão.
Chave de resposta
A) Você tem de apontar que, no modelo social-democrata, o Estado é interventor no processo econômico a
fim de garantir a justiça social e mediar o conflito entre as classes. Já no modelo neoliberal, ele se
apresenta como “mínimo”, adotando o princípio da autonomia do processo econômico.
B) Você precisa frisar que, sob a liderança de Mário Gibson Barbosa, o Brasil buscou estreitar relações com
os países da OPEP, defendendo a criação de um Estado palestino e condenando as pretensões
geopolíticas de Israel na região.
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Choque internacional do petróleo
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Crises do neoliberalismo e o Brasil
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O colapso do nacional-desenvolvimento no Brasil
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Marque a alternativa que contém o significado do ciclo de crises do capitalismo global ao longo da década de
1970.
A
O grande significado da crise do capitalismo da década de 1970 foi a percepção da incapacidade do sistema
em competir com o comunismo soviético naquilo que se refere à inovação tecnológica.
B
O grande significado da crise do capitalismo da década de 1970 foi a percepção da incapacidade de o sistema
gerir os recursos naturais, perdendo para o comunismo soviético o controle da agenda ambientalista.
C
O grande significado da crise do capitalismo da década de 1970 foi o colapso da social-democracia e a
afirmação da gestão neoliberal, que tensionou as relações sociais nos países ocidentais.
D
O grande significado da crise do capitalismo da década de 1970 foi o colapso do neoliberalismo e a afirmação
da gestão social-democrata, o que tensionou as relações sociais nos países ocidentais.
E
O grande significado da crise do capitalismo da década de 1970 foi o colapso do capitalismo industrial e a
reabilitação das relações mercantis tais como elas existiam no século XVI.
A alternativa D está correta.
A crise da década de 1970 foi marcada pelo esgotamento da social-democracia e pela afirmação do
neoliberalismo, o que significa uma reorientação drástica do papel atribuído ao Estado na gestão
capitalismo.
Questão 2
Aponte a alternativa que define os efeitos da crise do capitalismo global da década de 1970 no Brasil.
A
O principal efeito no Brasil foi o fortalecimento do ideário nacional-desenvolvimentista, caracterizado pela
centralidade do Estado como potência indutora do desenvolvimento econômico.
B
O principal efeito no Brasil foi o colapso do ideário nacional-desenvolvimentista e a afirmação dos valores
neoliberais sob as orientações do Consenso de Washington.
C
O principal efeito no Brasil foi o fortalecimento do ideário nacional-desenvolvimentista, caracterizado pela tese
do Estado mínimo.
D
O principal efeito no Brasil foi o fortalecimento do ideário neoliberal, caracterizado pela centralidade do Estado
como potência indutora do desenvolvimento econômico.
E
O principal efeito no Brasil foi o fortalecimento do socialismo, caracterizado pela tese do Estado mínimo.
A alternativa B está correta.
Entre os principais efeitos da crise do capitalismo dos anos 1970 no Brasil, destacam-se o colapso do
ideário nacional-desenvolvimentista e a afirmação do neoliberalismo fundado na tese do Estado mínimo.
3. A crise do capitalismo de 2008
As causas da crise global do capitalismo de 2008
Em 15 de setembro de 2008, as bolsas de valores de todos os países do mundo acordam assustadas e
nervosas com a notícia do falecimento do banco Lehman Brothers, o mais importante do sistema bancário
estadunidense. O capitalismo mundial novamente estava afundado em uma crise de proporções globais, a
maior desde 1929, segundo diversos economistas. 
Mais uma vez, o epicentro do colapso foram os EUA, embora, dessa vez, os motivos para tal não tivessem
relação com o descompasso entre a produção industrial e a demanda por consumo. Bastante diferentes, as
causas da crise de 2008 traduzem o dinâmica do capitalismo financeiro-especulativo, que é bem distinto do
capitalismo fordista-industrial da primeira metade do século XX.
No capitalismo financeiro, os bancos e as bolsas de valores ocupam o lugar até então ocupado pela indústria
como principal espaço de produção da riqueza. Essa diferença faz com que essas crises também sejam
distintas.
Mas o que explica a crise de 2008?
A expansão do crédito foi um dos principais resultados da financeirização da acumulação capitalista que se
acentuou ao longo da segunda metade do século XX. Os bancos passaram a ser estratégicos para o
funcionamento do sistema, uma vez que, com suas reservas, eram capazes de emprestar dinheiro, cobrando
para isso, naturalmente, por meio dos juros. 
Na prática, o sistema bancário vende dinheiro para famílias, para empresas e até para governos, lucrando com
a operação. Para que tal engrenagem funcione, é necessário que o número de inadimplentes não seja grande
suficiente para comprometer as reservas bancárias e impedir que os bancos continuem a realizar as seguintes
atividades:
Inadimplentes
São os clientes que deixam de pagar os empréstimos bancários.
emprestar dinheiro cobrar juros
lucrar
A crise global de 2008 começou exatamente quando a inadimplência saiu do controle. Desde o final dadécada de 1990, o sistema bancário dos EUA fez do crédito imobiliário sua principal estratégia de
investimento. 
Placa de alugel em frente à casa.
Bolsa de valores em Nova York.
Exemplo
Dados oficiais indicam que os juros para esse tipo de financiamentos eram 35% mais baratos em 2004
do que em 1987. 
Esse fator provocou o aumento de pessoas interessadas em contratar essas linhas de crédito, causando a
formação de uma bolha imobiliária. Com muita gente comprando imóveis, houve, pela lei da oferta e da
procura, um aumento de 327% dos preços das unidades habitacionais em comparação com os índices da
década anterior. 
Esse aumento não foi resultado de
investimentos concretos nos bairros, como
melhoria da mobilidade urbana ou do
paisagismo. Ele tampouco se deu por causa de
investimentos nas próprias unidades
habitacionais, como modernização do sistema
elétrico e de esgoto. Tratou-se, na verdade, do
chamado aumento especulativo, provocado
única e exclusivamente pelo crescimento da
demanda.
Com os imóveis mais caros, os consumidores
precisavam de mais empréstimos – e com
maiores taxas de juros. Seduzido pela
possibilidade da ampliação de contratos, o sistema bancário foi negligente na avaliação de riscos. Resultado: a
inadimplência chegou ao ponto de comprometer o funcionamento do sistema.
As reservas bancárias não mais eram suficientes para fomentar investimentos, o que afetou não apenas o
mercado imobiliário, mas também todo o sistema produtivo. A crise provocada pela especulação, portanto,
impactou a produção de riqueza real, pois os bancos não conseguiam mais financiar, por exemplo, novos
empreendimentos industriais.
A reação foi em cascata e cíclica: as empresas quebraram,
havendo um aumento do desemprego e, obviamente, o
crescimento da inadimplência. Como os bancos
estadunidenses são os mais fortes do mundo e
responsáveis por investimentos em diversos lugares do
planeta, os efeitos dessa crise foram planetários.
Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho
(2010), o número de desempregados em todo o mundo
saltou de 20 para 50 milhões entre meados de 2008 e o fim
de 2009. Agência da ONU responsável por monitorar a
miséria no mundo, a FAO (Organização das Nações Unidas
para a Alimentação e a Agricultura) aponta que, com a
queda da renda dos pobres devido à crise e à manutenção dos preços internacionais de mercadorias
alimentares em níveis elevados, o número de desnutridos no planeta aumentou em 11% em 2009, atingindo,
pela primeira vez, um bilhão de pessoas (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2010). 
Para o economista brasileiro Luíz Carlos Bresser-Pereira, a crise de 2008 foi o resultado da consolidação do
modelo neoliberal, o qual, como frisamos, se tornou hegemônico após a crise da década de 1970, conforme
analisaremos nas afirmações dele a seguir:
Luiz Inácio Lula da Silva anuncia o Programa de
Aceleração de Crescimento (PAC).
Disfunção do arranjo financeiro
Bresser-Pereira (2020, p. 5) afirma que a crise foi provocada pela disfunção do arranjo financeiro
formado depois da crise da década de 1970, caracterizado pela criação de riqueza financeira artificial,
ou seja, riqueza financeira desligada da riqueza real ou da produção de bens e serviços. O
neoliberalismo, por sua vez, não deve ser compreendido apenas como um liberalismo econômico
radical, mas também como uma ideologia hostil aos pobres, aos trabalhadores e ao estado de bem-
estar social. Sustentarei que esses desdobramentos perversos e a desregulação do sistema
financeiro, combinados com a recusa de se regular inovações financeiras posteriores, foram os novos
fatos históricos responsáveis pela crise.
Esvaziamento do poder diretivo do Estado
Segundo Bresser-Pereira (2020, p. 52), a causa da crise teria sido o esvaziamento do poder diretivo
do Estado em nome do princípio – mentiroso na avaliação do autor – de um mercado autorregulado.
Essa crise poderia ter sido evitada “se o estado democrático tivesse sido capaz de resistir à
desregulação dos mercados financeiros”.
E o Brasil? Observaremos em diante como o país reagiu à crise especulativa norte-americana.
Os desdobramentos da crise de 2008 no Brasil
No começo de 2009, a presidência da República brasileira, então comandada por Luiz Inácio Lula da Silva,
publicou um comunicado oficial com o título Crise dos subprime (crédito de risco) que abordava o tema da
crise mundial de 2008. Segundo o texto oficial, o impacto imediato da crise nos países de economia em
desenvolvimento foi a redução de liquidez internacional e a consequente escassez das linhas de crédito. Em
outras palavras: os bancos não tinham mais dinheiro para emprestar.
Ficou famosa na época a entrevista do
presidente Lula dizendo que “o tsunami da crise
mundial no Brasil não passou de uma
marolinha” (GALHARDO, 2008). De fato, o país
sentiu menos os efeitos da crise que a média
das outras nações em virtude da estratégia
adotada pelo governo brasileiro da época.
De acordo com dados levantados por Fernando
Giambiagi, entre 2004 e 2008, o Produto
Interno Bruto (PIB) brasileiro teve um
expressivo aumento. De forma igual, a
diminuição da taxa de desemprego contribuiu
para aumentar consumo das famílias em 21,5%.
Além disso, a taxa de investimento teve uma
elevação de 44,8%, seguida do aumento das exportações de bens e serviços. 
O que o governo brasileiro fez de diferente para atenuar os efeitos da crise no país? 
De acordo com as economistas Thais Silva e Larissa Deus, ao contrário de outros governos, a equipe
econômica de Lula não acompanhou o movimento natural da crise: permitir o apagão do crédito privado. 
Em vez disso, o governo brasileiro fez um movimento anticíclico, utilizando os bancos públicos: Banco do
Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco Nacional do Desenvolvimento econômico e Social (BNDES), e o próprio
Tesouro Nacional para garantir a manutenção da oferta de créditos.
Na conjuntura da crise mundial de 2008, é possível perceber na economia brasileira e expansão da
liquidez, a adoção de políticas macroeconômicas expansionistas e controle do câmbio. Quanto à
expansão da liquidez, houve maior disponibilidade de recursos de empréstimos para agentes financeiros,
empresas exportadoras e construtoras, e envolveu, principalmente, a flexibilização do redesconto, a
redução dos depósitos compulsórios, a expansão do crédito para o agronegócio e a ampliação do
financiamento do setor exportador em geral. 
(DEUS; SILVA, 2013, p. 7)
A avaliação da economista Maria Cristina Penido de Freitas é semelhante. Para ela, a grande novidade do
governo brasileiro foi ter negado a ideia de que emitir crédito era uma operação de risco. 
Segundo Freitas (2009, p. 129), os bancos identificaram na ampliação do crédito às pessoas físicas um
enorme potencial de ganho diante das expectativas otimistas quanto à recuperação do emprego e da renda
sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para as instituições financeiras, o crédito às famílias é
muito mais fácil de ser avaliado do que o crédito empresarial, que exige maior conhecimento dos negócios,
análise financeira e monitoramento das atividades das corporações. Ao mesmo tempo, como as taxas de juros
praticadas no segmento de pessoas físicas são mais altas, as operações de crédito pessoal são também
muito rentáveis. 
O êxito da estratégia adotada pelo governo brasileiro foi internacionalmente reconhecido. O símbolo desse
reconhecimento foi a capa de novembro de 2009 do prestigiado jornal inglês The economist, que representou
o Cristo Redentor como um foguete decolando, numa alegoria que sugeria o sucesso da economia brasileira,
como observaremos a seguir:
Estímulo à liquidez 
O Brasil estimulou a liquidez em sua
economia utilizando a estabilidade inerente
ao Tesouro Nacional, isto é, a disponibilidade
de dinheiro para emprestar às famílias e aos
agentes econômicos, como empresas e
indústrias.
Ciclo virtuoso 
O resultado foi a manutenção do
consumo familiar e da atividade
produtiva em níveis altos, o que
aumentou a arrecadação de impostos,compensando os investimentos
públicos em um verdadeiro “ciclo
virtuoso” (para utilizar as palavras de
Penido de Freitas).
“O Brasil decola” na capa do jornal The economist.
De acordo com Bresser-Pereira, analise as medidas que fizeram o Brasil contornar a crise: 
Rejeitar a tese neoliberal do Estado mínimo e da economia autorregulada.
Afirmar a importância do estado democrático como organizador da atividade econômica e defensor
dos interesses da sociedade.
Efeitos de longo prazo
Como vimos, a crise de 2008 teve efeitos contínuos e desdobramentos no mundo inteiro. Quatro anos depois,
porém, outra já se avizinhava.
A crise da zona do euro e seus efeitos chegaram de forma avassaladora ao Brasil na segunda metade de 2013
e, principalmente, em 2014. As medidas tomadas naquele momento, contudo, apontavam uma contradição
crítica:
Manutenção dos fundamentos neoliberais.
Mudança da política cambial.
Lidar com a pressão inflacionária.
De um lado, tais medidas mantinham a competitividade industrial; de outro, os fomentos, o que gerava a
fragilização dos fundamentos.
De acordo com Cagnin et al. (2013, p. 10), assim, pode-se afirmar que a deterioração do ambiente financeiro
internacional ampliou a eficácia da política cambial para atingir sua nova meta, conduzindo a taxa de câmbio
para um patamar mais competitivo. Ao mesmo tempo, o efeito deflacionário dessa deterioração sobre os
preços das commodities atenuou o impacto da desvalorização cambial sobre a inflação interna, reduzindo o
conflito entre os objetivos "controle da inflação" e "competitividade externa". Já a manutenção da estabilidade
financeira não foi ameaçada por essa desvalorização, tal como ocorreu no último trimestre de 2008, devido à
forte redução do risco cambial das empresas e de contraparte dos bancos nas operações com derivativos
cambiais desde 2009.
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Em 2013, entretanto, o resultado foi bem diferente. No final de agosto do ano anterior, além da redução da
taxa de juros cobrada (que levou o país para patamares reais negativos), foram anunciadas a prorrogação e a
definição de novas renúncias fiscais. No total, R$5,5 bilhões seriam divididos entre os anos de 2012 (R$1,6
bilhão) e de 2013 (R$3,9 bilhões).
A intervenção do governo na economia era criticada pelo mercado internacional, mas a pressão interna de
uma melhoria da economia gerava uma queda de braço que tornava sua manutenção cada vez mais difícil.
Exemplo
A redução do IPI do setor automotivo foi prolongada até o final do mês de outubro de 2012, enquanto,
para outros setores, como o de móveis e de linha branca, a cobrança de alíquotas reduzidas foi
garantida até o final daquele ano. Já no caso dos setores de materiais de construção e de bens de
capital, essa cobrança se estendeu até o final de 2013. 
A política de renúncias impactava os cofres, mas os resultados não vinham. Com isso, o resultado primário da
União obtido em 2012 (na ordem de R$86,1 bilhões) contou com a ajuda de operações contábeis atípicas, que
ficaram conhecidas na imprensa especializada como "contabilidade criativa". Era o início de uma crítica que
levaria o governo ao seu fim... Essas operações envolveram a: 
Troca de ativos financeiros públicos e privados entre Secretaria do Tesouro Nacional, BNDES, Caixa
Econômica Federal e Fundo Soberano do Brasil.
 
Antecipação do pagamento de dividendos ao governo para reforçar contabilmente seu resultado
primário.
A crise de 2008 no Brasil
Veja a seguir um panorama sobre a crise de 2008 no Brasil.
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Atividade discursiva
A) As dinâmicas de funcionamento dos capitalismos fordista-industrial e financeiro-especulativo são bastante
diferentes. Desenvolva essa afirmação, discutindo seus principais pontos.
 
B) No contexto da crise econômica de 2008, o governo brasileiro adotou medidas diferentes das adotadas
pela maioria dos países. Discuta essa afirmação, desenvolvendo seus principais pontos.
• 
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Chave de resposta
A) Você deve destacar que, no capitalismo fordista-industrial, a riqueza é resultado da atividade produtiva
diretamente desenvolvida pelas indústrias. Já no financeiro-especulativo, a maior parte dela provém de
uma ação especulativa nas bolsas de valores.
B) Em sua resposta, você deve destacar que o governo brasileiro adotou medidas anticíclicas, utilizando os
bancos públicos e o próprio Tesouro Nacional para manter a oferta de crédito e não paralisar a atividade
econômica.
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
As causas da crise global do capitalismo em 2008
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Os desdobramentos da crise de 2008 no Brasil
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Efeitos de longo prazo da crise no Brasil
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Questão 1
Marque a alternativa que define a principal consequência do processo de financeirização da acumulação
capitalista que se acentuou ao longo do século XX.
A
A principal consequência foi o fortalecimento da indústria automobilística em virtude da demanda criada pelo
crescimento da classe média.
B
A principal consequência foi o fortalecimento do sistema bancário como principal ator econômico no que se
refere à produção e à circulação da riqueza.
C
A principal consequência foi o fortalecimento da agricultura, provocado pelo crescimento da população e pelo
aumento da demanda por alimentos.
D
A principal consequência foi o fortalecimento da indústria da informação, provocado pela tecnologização do
capitalismo.
E
A principal consequência foi o fortalecimento da indústria farmacêutica devido ao envelhecimento da
população e ao aumento da demanda por serviços de saúde.
A alternativa B está correta.
A financeirização fortaleceu o sistema bancário, que passou a ocupar o espaço que antes era do complexo
industrial como principal atividade de produção da riqueza.
Questão 2
O que explica a crise do capitalismo global em 2008?
A
Tratou-se de uma crise muito semelhante à de 1929, sendo provocada pela superprodução industrial, o que
gerou a quebra do setor produtivo estadunidense.
B
Tratou-se de uma crise muito semelhante à da década de 1970, sendo provocada pelo aumento do preço
internacional do petróleo devido ao acirramento das tensões entre árabes e israelenses no Oriente Médio.
C
Tratou-se de uma crise provocada pela especulação imobiliária, o que mostra as particularidades do
capitalismo financeiro, em que o sistema bancário ocupa a posição de principal atividade geradora de riqueza.
D
Tratou-se de uma crise provocada pelo fracasso da safra de soja devido às mudanças climáticas, o que gerou
uma grande onda inflacionária no setor alimentício, aumentando os índices mundiais de pobreza.
E
Tratou-se de uma crise provocada pela onda imigratória graças às guerras civis em países da América Central,
o que sobrecarregou o sistema social estadunidense, tendo desdobramentos em diversos países do mundo.
A alternativa C está correta.
A crise de 2008 foi provocada pela especulação imobiliária, que teve como causa o fortalecimento do
sistema bancário (característica principal da fase financeira do capitalismo).
4. Conclusão
Considerações finais
Geralmente, quando falamos em “crise do capitalismo”, pensamos nas crises econômicas, cujas principais
marcas costumam ser a inflação, o desemprego e o aumento da pobreza. Porém, na vida social concreta, a
economia não se manifesta de maneira separada das outras esferas da existência humana, como a cultura, a
política e a diplomacia. 
Neste conteúdo, nosso interesse foi exatamente o de estudar os efeitos das crises do capitalismo moderno no
Brasil a partir dessa conexão entre política, economia e cultura. Por isso, vimos como a crise de 1929
estimulou no país a formação do nacional-desenvolvimentismo, corrente do pensamento políticoe econômico
que influenciaria vários governos brasileiros nas décadas seguintes. 
Entendemos como a crise da década de 1970 levou à reorientação da política externa brasileira, sendo um
aceno até então inédito aos países do Oriente Médio. Apontamos também que, na esteira das diretrizes do
Consenso de Washington, houve uma reorientação total do papel então atribuído ao Estado brasileiro na
dinâmica do capitalismo: de tutor do desenvolvimento nacional a mero gestor do processo produtivo com
interferência e presença mínima na atividade econômica. 
Demonstramos ainda que foi exatamente a crença neoliberal na capacidade autorreguladora do mercado que
acabou provocando uma nova crise global, em 2008, com o colapso do sistema bancário estadunidense por
causa da bolha imobiliária. O Brasil foi um dos países do mundo que menos sentiu os efeitos dessa crise
justamente por se encontrar em em um momento de fortalecimento da capacidade diretiva do Estado.
Todos esses temas mostram que, quando falamos em economia e capitalismo, estamos tratando
obrigatoriamente de disputas pelo poder de controlar a sociedade. Desse modo, a economia nunca é pura ou
apenas técnica: ela, afinal, sempre é uma parte das disputas políticas que atravessam toda a coletividade
humana.
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BAR & CAFÉ CONVENIÊNCIA. Arte Café #39 – pai dos pobres (em 1 minuto). Publicado em: 14 ago. 2017. Este
vídeo fala sobre o motivo que levou Getúlio Vargas a ordenar a queima de 80 milhões de sacas de café.
 
TV SENADO. Histórias do Brasil – a Revolução de 30. Publicado em: 8 fev. 2017.
Referências
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VIZENTINI, P. A política externa do regime militar brasileiro: multilateralização, desenvolvimento e a construção
de uma potência média (1964-1985). Porto Alegre: Editora da Universidade, 1998.
	Crises do capitalismo no Brasil
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Objetivos
	Introdução
	1. Os efeitos da crise do capitalismo de 1929 no Brasil
	Consolidação do capitalismo
	Conde de Saint-Simon (1760-1825)
	Karl Marx (1818-1883)
	Alexis de Tocqueville (1805-1859)
	Exemplo
	Queima de café
	Redução de estoque
	Exportação
	A crise mundial do capitalismo de 1929
	John Keynes (1883-1946)
	Henry Ford (1863-1947)
	Visão de Keynes
	Visão de Ford
	O nacional-desenvolvimentismo
	O nacional-desenvolvimentismo por Simonsen e Furtado
	Roberto Simonsen (1889-1948)
	Celso Furtado (1920-2004)
	Valores fundamentais do nacional-desenvolvimento brasileiro
	Desdobramentos da crise de 1929
	Uma breve história do capitalismo e suas primeiras crises
	Conteúdo interativo
	Atividade discursiva
	Vem que eu te explico!
	Consolidando o capitalismo
	Conteúdo interativo
	A crise mundial do capitalismo de 1929
	Conteúdo interativo
	O nacional-desenvolvimentismo no Brasil
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	2. Os efeitos da crise do capitalismo da década de 1970 no Brasil
	A Guerra de Yom Kipur e o choque internacional do petróleo
	Coalizão de estados árabes
	Invasão das fronteiras israelenses
	O esgotamento do modelo do estado de bem-estar social
	Estado como centro planejador
	Taxação progressiva
	Estado garantidor da equidade social
	Atenção
	As principais características do neoliberalismo
	Radicalização da perseguição às esquerdas.
	Enfraquecimento dos sindicatos.
	Desmonte da legislação destinada à proteção social.
	Saiba mais
	Crise da década de 1970.
	Afirmação do neoliberalismo.
	Diretrizes do Consenso de Washington.
	A hegemonia do neoliberalismo no Brasil
	Castelo Branco
	Arthur da Costa e Silva
	Emílio Garrastazu Médici
	Crise do petróleo e o Brasil
	Conteúdo interativo
	Atividade discursiva
	Vem que eu te explico!
	Choque internacional do petróleo
	Conteúdo interativo
	Crises do neoliberalismo e o Brasil
	Conteúdo interativo
	O colapso do nacional-desenvolvimento no Brasil
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. A crise do capitalismo de 2008
	As causas da crise global do capitalismo de 2008
	emprestar dinheiro
	cobrar juros
	lucrar
	Exemplo
	Disfunção do arranjo financeiro
	Esvaziamento do poder diretivo do Estado
	Os desdobramentos da crise de 2008 no Brasil
	Efeitos de longo prazo
	Exemplo
	A crise de 2008 no Brasil
	Conteúdo interativo
	Atividade discursiva
	Vem que eu te explico!
	As causas da crise global do capitalismo em 2008
	Conteúdo interativo
	Os desdobramentos da crise de 2008 no Brasil
	Conteúdo interativo
	Efeitos de longo prazo da crise no Brasil
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	4. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
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	Referências

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