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Mormo Introdução O mormo (ou glanders) é uma doença infectocontagiosa grave que afeta principalmente equídeos (cavalos, muares e asininos), mas também pode acometer humanos, sendo classificada como uma zoonose. A doença é causada pela bactéria Burkholderia mallei, que provoca lesões características no sistema respiratório, linfático e na pele. O mormo é conhecido popularmente como "doença de burro", "lamparão" ou "cancro nasal. ➢ É uma doença de notificação obrigatória, o que significa que qualquer caso suspeito deve ser comunicado às autoridades sanitárias para evitar a disseminação da doença. Histórico ➢ O mormo é uma das doenças mais antigas já relatadas, com registros que remontam a Hipócrates (450-425 a.C.). Durante séculos, os equinos foram amplamente utilizados como montaria em tropas militares, e há relatos de que a doença vitimou animais de tropas inteiras durante a Primeira Guerra Mundial. ➢ O isolamento da bactéria causadora do mormo ocorreu em 1862, mas apenas na última década a bactéria recebeu o nome de Burkholderia mallei, após estudos genéticos e taxonômicos mais aprofundados. Etiologia ➢ A Burkholderia mallei é uma bactéria Gram-negativa, com forma de coco ou cocobacilo irregular, que pode aparecer isolada ou em pequenas cadeias. É uma bactéria imóvel e não forma esporos, o que a torna pouco resistente no ambiente. É um patógeno intracelular facultativo, o que significa que pode sobreviver tanto dentro quanto fora das células do hospedeiro. ➢ Várias espécies do gênero Burkholderia são conhecidas por causar doenças em humanos, como a Burkholderia pseudomallei, que causa o melioidose. Epidemiologia ➢ O mormo afeta principalmente equídeos, com muares e asininos sendo os mais susceptíveis. No entanto, outros animais domésticos e humanos também podem ser infectados. Aves são consideradas resistentes à doença. ➢ A doença pode afetar animais de qualquer idade, mas animais mais velhos (acima de 10 anos) e com deficiência alimentar têm maior propensão a desenvolver a doença. O mormo é responsável por uma alta taxa de mortalidade em equídeos e ocorre em diversas partes do mundo, incluindo Iraque, Egito, África, Itália, Índia, China e Rússia. ➢ No Brasil, a doença vem sendo notificada oficialmente em várias regiões, como Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Ceará, Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pará e, mais recentemente, na região Sul. Patogenia A entrada da bactéria no organismo pode ocorrer por: ✓ Via oral: ingestão de água e alimentos contaminados. ✓ Via respiratória: inalação de aerossóis em locais secos e com alta concentração de animais. ✓ Via cutânea: através de ferimentos e lesões na pele (menos comum). ➢ Uma vez no organismo, as células de defesa capturam a bactéria, mas ela consegue sobreviver e se multiplicar, levando a um processo piogranulomatoso. Esse processo é caracterizado pela produção de secreção mucopurulenta (pus) e necrose no centro das lesões. Transmissão A transmissão do mormo ocorre principalmente por: Contato direto com exsudatos contaminados (secreções respiratórias, pus de lesões cutâneas) de animais infectados. Ingestão de água ou alimentos contaminados. Aerossóis: a bactéria pode ser disseminada pelo ar, especialmente em ambientes com alta concentração de animais. Ferimentos na pele: a bactéria pode penetrar através de abrasões ou lesões cutâneas. A perpetuação da doença está diretamente ligada a condições de manejo inadequadas, como: ➢ Clima quente e úmido. ➢ Aglomeração de animais. ➢ Sobrecarga de trabalho. ➢ Estresse e deficiência nutricional. ➢ Animais infectados e portadores assintomáticos são fontes importantes de infecção. Clínica O mormo pode se manifestar de três formas clínicas: ✓ Hiperaguda: o animal morre em até 72 horas. ✓ Aguda: a doença evolui em cerca de 2 semanas. ✓ Crônica: a doença pode persistir por anos, especialmente em equinos. Equinos, geralmente, apresentam a crônica Principais sinais clínicos: ➢ Febre, lesões nas mucosas, secreção nasal, dificuldade respiratória e diarreia Tipos de manifestação da doença: Nasal: secreção nasal, estrias de sangue, secreção ocular e dificuldade respiratória Pulmonar: febre, tosse, dificuldade respiratória, ruído respiratório, inapetência e emagrecimento progressivo Cutânea: Múltiplos abscessos, úlceras na pele e alopecia. Nódulos ao longo dos vasos linfáticos (rosário) Diagnóstico O diagnóstico do mormo é baseado em: ➢ Epidemiologia: histórico de contato com animais infectados ou áreas endêmicas. ➢ Sinais clínicos: lesões características no sistema respiratório, linfático e cutâneo. ➢ Testes laboratoriais: ✓ Sorológicos: detecção de anticorpos através de testes como Fixação de Complemento (FC), ELISA e Western Blot (WB). ✓ Microbiológicos: isolamento da bactéria a partir de amostras de secreções ou tecidos. ✓ Histológicos: análise de tecidos para identificar lesões piogranulomatosas. ✓ PCR: detecção do DNA da bactéria. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) define os testes de diagnóstico a serem adotados pelos Serviços Veterinários Oficiais (SVO). Tratamento O tratamento do mormo não é recomendado, pois há uma grande possibilidade de que os animais tratados se tornem portadores assintomáticos, servindo como reservatórios da doença e representando um risco para outros animais e seres humanos. O MAPA recomenda a eutanásia dos animais positivos para evitar a disseminação da doença. Profilaxia Atualmente, não existe vacina acessível no mercado para o mormo. A prevenção da doença envolve: ➢ Identificação e eutanásia dos animais infectados. ➢ Medidas gerais de manejo: ✓ Evitar o uso de cochos e bebedouros coletivos. ✓ Evitar a aglomeração de animais. ✓ Evitar o trabalho excessivo. ✓ Fornecer alimentação adequada. ✓ Implementar quarentena para animais recém-chegados. Outros critérios: ➢ Não existe nenhuma vacina animal ou humana eficiente contra a infecção da B. mallei. ➢ A prevenção da doença em seres humanos baseia-se no manejo do ambiente e controle animal que envolve: ✓ A eliminação de animais com diagnóstico laboratorial positivo ✓ Controle rigoroso de trânsito interestadual com prova sorológica de FC negativa (validade de 60 dias). ✓ Quarentena e interdição da fazenda, ✓ Limpeza e desinfecção das áreas de foco. ✓ Incineração e destino apropriado de carcaças de animais infectados (assim como de todos os materiais utilizados nas instalações de propriedades epizoóticas)." ✓ Desinfecção de veículos e equipamentos (cabrestos, arreios e outros) ✓ Abolição de cochos coletivos; ✓ Aquisição de animais de áreas livres e com diagnóstico laboratorial negativo ✓ Utilização de equipamentos de proteção individual, como luvas, máscara, óculos e avental, por parte de médicos veterinários, magarefes, tratadores de animais, laboratoristas e pessoas que têm contato com animais suspeitos ou com equipamentos contaminados. ✓ A interdição da propriedade somente será suspensa pelo serviço veterinário oficial após a eutanásia dos animais positivos e a realização de dois exames de FC sucessivos de todo plantel, com intervalos de 45 a 90 dias, com resultados negativos no teste de diagnóstico.