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FILOSOFIA 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Paulo Niccoli Ramirez 
 
 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Direitos humanos e a construção da humanidade 
Nesta aula, estudaremos o processo de construção dos direitos humanos. 
Observaremos que, antes mesmo da adoção, em 1948, da Declaração Universal 
dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU), houve uma 
série de construções filosóficas e eventos históricos políticos inaugurados no 
século XVII que passaram a formular os chamados direitos naturais e individuais. 
Esses elementos envolveram reflexões e lutas em nome de liberdades, direitos 
políticos e o que hoje é conhecido como Estado democrático de direito. 
Para isso, primeiro veremos as influências e heranças dos autores 
contratualistas dos séculos XVII e XVIII, elaboradores do direito natural e base 
para a compreensão dos direitos humanos. No Tema 2, discutiremos o 
Iluminismo do século XVIII e as Revoluções Burguesas; no Tema 3, 
abordaremos aspectos políticos do idealismo alemão de Kant e seu conceito de 
dignidade humana, sendo que todas estas correntes contribuíram em maior ou 
menor grau para a construção do direito moderno e para a elaboração da 
Declaração dos direitos humanos no século XX, que será debatida no Tema 4. 
Por fim, no Tema 5, analisaremos a crítica marxista aos pensamentos iluminista, 
contratualista e idealista alemão, e suas concepções de humanidade e liberdade. 
TEMA 1 – TEORIA CONTRATUALISTA 
A construção moderna do que vem a ser a humanidade e os direitos 
remete primeiro à herança deixada pelo pensamento de Maquiavel (1469-1527) 
no século XVI. Na obra O príncipe, escrita em 1513, porém apenas publicada 
em 1532, após a morte do pensador, Maquiavel deu um contorno mais realista 
à política e à observação do ser humano, tomado como naturalmente avarento, 
individualista e sem interesse pelo bem comum. A novidade do pensamento de 
Maquiavel foi estabelecer a noção de que a política é uma arte humana, que 
independe de qualquer explicação divina ou de determinação da natureza, o que 
veio a influenciar os demais pensadores políticos seguintes, entre eles os 
contratualistas. Maquiavel demonstra que devemos entender a autonomia da 
política, pois ela é resultado do jogo de forças entre os indivíduos, bem como os 
modelos políticos devem ser tomados sempre como construções humanas. 
 
 
3 
Neste Tema 1 estudaremos a formação do pensamento contratualista 
para, mais adiante, compreendermos de que forma ele foi determinante ao lado 
do Iluminismo francês do século XVIII e do idealismo alemão do século XIX para 
a construção do que hoje entendemos como direitos humanos. Mas o que 
caracteriza o contratualismo? Vamos estudar o assunto com maior 
profundidade.. 
1.1 Características do contratualismo 
O contratualismo é também conhecido como jusnaturalismo – ou direito 
natural –, e está relacionado a autores como Thomas Hobbes (1588-1679), John 
Locke (1632-1704) e Rousseau (1712-1778). Estes pensadores apresentam 
interpretações bem diferentes do que vêm a ser os direitos naturais ou mesmo 
os modelos políticos defendidos, conforme veremos mais adiante. O que há de 
comum entre suas ideias é a distinção entre direito e lei. Os direitos têm origem 
e remetem à natureza. Estão presentes universalmente nos indivíduos desde o 
seu nascimento. Por serem naturais, consideram que alguns desses direitos não 
podem ser usurpados ou infringidos. São exemplos desses direitos a liberdade, 
a igualdade e o direito à vida e à segurança. Os direitos correspondem ao que 
se define como estado de natureza, de modo que eles não surgiram da 
sociedade e muito menos das convenções humanas. Já as leis são criadas pelos 
indivíduos, resultado de convenções, acordos ou contratos, e têm como objetivo 
promover a sociabilidade, a segurança e a paz. As leis existem no estado civil, 
caracterizado pela existência de um Estado que organiza a vida social. Portanto, 
o direito é natural; a lei é humana. Os pensadores contratualistas apresentam 
divergências sobre como foi a passagem do estado de natureza (sem leis, reis, 
Estados, governos ou sociedade) para o estado civil, ou seja, sob quais 
condições o contrato que deu origem à sociedade e ao Estado teria sido 
elaborado. 
 
 
 
4 
1.2 Thomas Hobbes: “O homem é lobo do próprio homem” 
Figura 1 – Hobbes (1588-1679), em sua obra O Leviatã, afirma ser o homem 
lobo do próprio homem 
 
Crédito: Georgios Kollidas/Adobe Stock. 
De acordo com o pensamento político de Hobbes, em sua obra O Leviatã 
(2003), publicada em 1651, o estado de natureza é visto de forma negativa. 
Trata-se de uma condição caótica devido à ausência de Estado, autoridade, leis 
e governo, sendo caracterizada pela guerra de todos contra todos. A natureza 
forneceu aos indivíduos dois direitos: a liberdade (que inclui a possibilidade de 
tudo poder fazer, inclusive empregar violência deliberada contra semelhantes) e 
o direito à autoconservação ou vida, sendo possível agir de todas as formas para 
que os indivíduos se mantenham vivos. Por isso, o filósofo considera que os 
indivíduos se caracterizariam pela expressão “o homem é lobo do próprio 
homem”. Na visão de Hobbes, a liberdade deve ser limitada com a elaboração 
de um contrato social que permita a passagem do estado de natureza em direção 
à sociedade civil, enquanto o direito à vida ou autoconservação deve ser 
protegido quando da constituição do Estado e da sociedade. 
Para Hobbes, no estado civil e com a constituição do Estado, deve-se 
proteger o direito à vida ou à segurança. Esta perspectiva exclui a manutenção 
 
 
5 
da liberdade no estado civil, pois, embora seja um direito natural, pode 
representar um ato deliberado contra o outro, como matar ou usurpar objetos. 
Hobbes considera, desse modo, que o direito natural à liberdade deve ser 
limitado. Defende o absolutismo monárquico como forma de garantir o monopólio 
do soberano (ou do rei) nas decisões políticas, a fim de controlar e usurpar a 
liberdade dos súditos com a intenção de evitar ao máximo o eventual retorno ao 
estado de natureza, ou seja, a guerra de todos contra todos. 
1.3 John Locke: liberdade e propriedade privada 
Figura 2 – John Locke (1632-1704) é o pai do liberalismo político por considerar 
a propriedade privada um direito natural. Além disso, foi pioneiro na reflexão 
sobre a imposição de limites ao Estado, de modo a preservar os direitos naturais, 
como a igualdade, liberdade e propriedade 
 
Crédito: Georgios Kollidas/Adobe Stock. 
Locke considera a propriedade privada um direito natural, ao lado da 
igualdade e da liberdade. Na obra Dois tratados sobre os governos civis, 
publicada no ano de 1689, Locke se opôs à visão de Hobbes sobre o estado de 
natureza, pois, ao invés de observar a guerra de todos contra todos, afirma que 
haveria uma relativa paz. Além disso, enquanto Hobbes avalia a liberdade 
natural como negativa, Locke a tomava como um elemento positivo e relacionado 
 
 
6 
ao direito de ir e vir, à liberdade de pensamento e à posse sobre o próprio corpo, 
não podendo nenhum indivíduo ser escravizado ou usurpado de sua liberdade 
ou integridade física. O filósofo considera ainda que o pacto social que deu 
origem ao Estado e aos governos foi criado pelos indivíduos com o objetivo de 
preservar ainda mais, sob a forma de leis, os direitos fornecidos pela natureza 
(propriedade privada, igualdade e liberdade). 
Por estes motivos, John Locke é considerado pai do liberalismo político, 
corrente que se opõe ao absolutismo monárquico defendido por Hobbes. O 
liberalismo político compreende que o direito natural à liberdade está presente 
na liberdade de expressão (política e religiosa), na autoridade que cada indivíduo 
tem sobre seu corpo (propriedade privada) e ao que permite a manutenção 
desse mesmo corpo, como no caso da propriedade da terra. O liberalismo 
promove limitesao Estado em nome da defesa das liberdades e dos direitos 
individuais. Dessa forma, liberdade, igualdade e propriedade privada constituem 
direitos invioláveis, cuja origem é o estado de natureza. Assim, tais direitos 
devem ser protegidos e mantidos pelo Estado, ou na condição civil. 
1.4 Rousseau e o bom selvagem 
No século XVIII, o pensador iluminista e contratualista francês Jean-
Jacques Rousseau, em suas obras Discurso sobre a origem e os fundamentos 
da desigualdade entre os homens, e O contrato social, respectivamente 
publicados nos anos de 1755 e 1762, defende como direitos naturais a liberdade 
e a igualdade. São elementos positivos e considera que esses direitos devem 
ser preservados no estado civil. Rousseau questiona os pensamentos de 
Hobbes e Locke por meio do argumento que gira em torno da noção de que o 
homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. 
Para Hobbes, conforme vimos, no estado de natureza predomina a guerra 
de todos contra todos e a ideia de que o homem é lobo do próprio homem. Para 
Rousseau, ao contrário, o estado de natureza é considerado um estágio positivo 
da história da humanidade, devido ao fato de que o filósofo francês concebe o 
“bom selvagem”. Nessa perspectiva de Rousseau, os indivíduos nascem livres, 
iguais e vivem felizes no estado de natureza. O que retirou os seres humanos do 
estado de natureza e os conduziu à corrupção em direção ao estado civil foi a 
invenção da propriedade privada. Aqui encontramos a crítica de Rousseau a 
Locke, pois este último considera a propriedade privada um direito natural, 
 
 
7 
enquanto, para Rousseau, a propriedade não é um direito, mas uma elaboração 
humana que perpetuou a desigualdade entre os indivíduos. 
o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo 
cercado o terreno, lembrou-se de dizer “isto é meu”, e encontrou 
pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, 
guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero 
humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, 
tivesse gritado a seus semelhantes: ‘evitai ouvir esse impostor; estareis 
perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não 
pertence a ninguém. (Rousseau, 1997, p. 87) 
Em O contrato social, Rousseau procura realizar um novo contrato que 
seja capaz de afirmar os direitos naturais, a liberdade e a igualdade. Eles seriam 
possíveis no estado civil com o que o filósofo designou como vontade geral. 
Trata-se de uma espécie de democracia direta, da qual todos participam, 
incluindo mulheres, e na qual há a abolição da escravidão. O povo deve estar 
reunido em assembleia, de forma a constituir o poder soberano por meio de seu 
corpo político. Trata-se da ideia de que o governo apenas é legítimo quando o 
povo exerce sua vontade geral. 
No Tema 4 veremos como estas concepções contratualistas colaboraram 
para a elaboração da Declaração Universal do Direito Humanos da ONU, no ano 
de 1948. 
TEMA 2 – A FILOSOFIA ILUMINISTA E AS REVOLUÇÕES BURGUESAS 
Investigaremos, nesse tema, o papel do pensamento burguês e iluminista 
para a consolidação de direitos civis, políticos e econômicos. Sobretudo, durante 
o século XVIII, conhecido como o Século das Luzes, devido ao Iluminismo e à 
Revolução Francesa, foi possível levar ao fim os privilégios do clero e da nobreza 
feudais. Antes disso, com a Revolução Gloriosa (1688), na Inglaterra, ocorreu a 
ascensão da burguesia ao poder por meio da consolidação de sua hegemonia 
no parlamento e limitação dos poderes monárquicos. Em 1776, a Revolução 
Americana e, em 1789, a Revolução Francesa, foram determinantes para o 
processo de constituição de direitos fundamentais baseados no contratualismo 
e em princípios liberais. 
O Iluminismo desenvolveu concepções relevantes e que influenciam a 
cultura ocidental até hoje. Entre os elementos defendidos por essa corrente 
estão a confiança no progresso mediante o desenvolvimento técnico, científico 
e industrial, a separação entre religião e Estado, a defesa de direitos naturais – 
 
 
8 
sobretudo a liberdade (principalmente a de expressão e econômica) –, a 
igualdade e a propriedade privada (com exceção de Rousseau, conforme vimos). 
Dessa forma, foram desenvolvidos os direitos naturais nas legislações 
desses países. A Independência (ou Revolução) estadunidense, em 1776, 
consolidou a Constituição e a Declaração de Direitos, de 1787, a qual entrou em 
vigor em 1791. A Declaração de Direitos passou a limitar o poder do governo 
federal, de modo que sua principal função passou a ser garantir e proteger 
direitos como igualdade jurídica, as liberdades econômicas e políticas, a 
propriedade privada, assim como a privacidade dos cidadãos. Na França, a 
revolução de 1789 deu origem à Declaração dos Direitos do Homem e do 
Cidadão, que estabeleceu como universais e invioláveis os direitos individuais, 
que tiveram como base os debates dos pensadores contratualistas, conforme 
abordamos no tema anterior. 
TEMA 3 – KANT, O IDEALISMO ALEMÃO E A DIGNIDADE HUMANA 
Investigaremos, nesse momento, a contribuição de Kant (1724-1804) para 
a futura construção dos direitos humanos. Kant foi um pensador alemão 
contemporâneo à Revolução Francesa, que herdou, desse movimento filosófico 
francês do século XVIII, o otimismo em relação ao progresso da razão e da 
consolidação dos direitos civis e políticos. 
Kant pertence à corrente denominada como idealismo alemão. 
Influenciado pelo Iluminismo, o idealismo alemão se refere à tentativa de 
promover a razão na história e na moralidade, buscando o aperfeiçoamento da 
humanidade. Será diante dessa perspectiva que Kant desenvolverá o conceito 
de dignidade humana, conforme veremos adiante. Entre os séculos XVI e XVIII, 
a ciência e a filosofia modernas procuraram dominar a natureza e livrar os 
indivíduos do obscurantismo e ignorância; o pensamento filosófico político, 
sobretudo com os contratualistas e a filosofia iluminista, procuraram constituir 
racionalmente o Estado e a sociedade. Restava um aspecto: dominar 
racionalmente a moralidade, tarefa que seria realizada principalmente por Kant. 
Trata-se de promover a razão na história e na moralidade; Kant foi um dos 
primeiros pensadores alemães a se declarar iluminista. 
Em sua obra Fundamentação metafísica dos costumes, publicada em 
1785, Kant apresenta a valorização da razão moderna aplicada ao direito, à 
indústria e à ciência. Seu raciocínio objetiva estabelecer como dever moral a 
 
 
9 
adoção de princípios racionais que devem ser difundidos de forma universal à 
humanidade. Esses princípios são sintetizados na seguinte máxima kantiana: 
“Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, 
uma lei universal” (Kant, 2009, p. 245). 
Assim como os iluministas, Kant possui convicção dos benefícios da razão 
humana. Compreendeu que não é preciso medir as consequências do uso da 
razão no campo moral e jurídico, tendo em vista que a própria racionalidade por 
si só promoveria o bem-comum, ou seja, ele se refere à noção de que tudo o que 
emana da razão é, necessariamente, benéfico aos seres humanos. 
A formulação do conceito de dignidade humana por Kant, presente em 
sua obra Fundamentação da metafísica dos costumes, representa a síntese de 
construções anteriores e herdadas dos pensadores liberais e contratualistas 
inglese – principalmente Locke –, e dos iluministas na França, sobretudo 
Rousseau. Vimos que esses pensadores desenvolveram as noções de liberdade 
e igualdade naturais. Para Kant, a dignidade humana está atrelada ao problema 
do que é um valor, de modo que ela pode ser negociada ou mesmo substituída 
por qualquer outra coisa. 
A dignidade humana expressa o direito de viver e pensar livremente, 
assim como o respeito pela liberdade alheia. Kant toma a dignidade como um 
fim em si mesmo, pois fornece a autonomia e fortalece a vida em sociedade. 
Kantanseia uma forma de comportamento universal e fraterna, que encontra na 
dignidade humana o exercício do bom uso da razão em público e politicamente. 
No reino dos fins tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando 
uma coisa tem um preço, pode-se pôr em vez dela qualquer outra como 
equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e, 
portanto, não permite equivalente, então ela tem dignidade. (Kant, 
2009, p. 82) 
A concepção moral kantiana de dignidade diz respeito à autonomia do 
sujeito, pois ele é visto como dotado de consciência e liberdade; zela pela 
igualdade jurídica e o aprimoramento da humanidade. Porém, a análise dessa 
premissa de Kant poderia conduzir a vários questionamentos, como: O que se 
entende de fato como sendo a dignidade humana? Ela seria igualmente válida 
em todas as épocas e sociedades? Não seria apenas um ponto de vista europeu, 
idealista e iluminista? Seria realmente um valor universal, ou meramente 
burguês? Essas perguntas também aparecerão no pensamento de Karl Marx, e 
serão estudados no Tema 5. 
 
 
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Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) é outro pensador idealista 
alemão a avaliar com otimismo o estabelecimento dos direitos à liberdade, 
igualdade e propriedade privada, além do Estado burguês. Na obra 
Fenomenologia do espírito (1807), ele concebe que a Revolução Francesa e as 
expansões napoleônicas teriam conduzido a humanidade ao que definiu como 
sendo o “fim da história”. Hegel, ao ver Napoleão Bonaparte invadir sua cidade 
na Alemanha, teria percebido “o espírito absoluto montado num cavalo". 
Para este pensador, o fim da história se dá com a realização do espírito 
absoluto no mundo. Trata-se do fim dos conflitos entre os seres humanos (Hegel 
dirá que é o fim da dialética entre o senhor e o escravo), pois, a partir de então, 
com a Revolução Francesa e as expansões napoleônicas pela Europa, todos os 
seres humanos passariam a gozar de liberdades individuais e igualdade jurídica, 
não havendo mais margem para a tirania dos reis ou a superstição das religiões. 
O raciocínio de Hegel revela não somente o otimismo diante de sua época e dos 
progressos racionais; remete também a uma concepção na qual o mundo 
ocidental teria alcançado seu apogeu. Esta concepção será igualmente 
questionada por Karl Marx (estudaremos esta crítica no Tema 5). 
TEMA 4 – A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS 
Figura 3 – No ano de 1948, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou 
a Declaração Universal do Direitos Humanos, cujo objetivo principal é defender 
a dignidade humana e os chamados direitos individuais 
 
Crédito: nmann77/Adobe Stock. 
 
 
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Estudaremos agora a Declaração Universal do Direitos Humanos, 
formulada pela ONU em 1948, após a Segunda Guerra Mundial. Identificaremos 
também as influências de princípios contratualistas, iluministas e kantianos por 
meio de uma análise detalhada de alguns dos artigos da declaração. 
Logo no art. 1º da Declaração..., é possível avaliar a influência do conceito 
de dignidade humana de Kant. O primeiro artigo refere-se à percepção de que, 
por meio da razão, deve-se estabelecer o bem-estar e coletivo, com a intenção 
de produzir universalmente princípios fraternos entre os seres humanos, 
independentemente de sua cultura, país ou etnia: 
Artigo 1º - Todos os seres humanos nascem livres e iguais em 
dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem 
agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. (ONU, 1948) 
O art. 3º da Declaração... foi inspirado no contratualismo de Hobbes, 
especificamente o direito natural à vida ou autoconservação (estudado no Tema 
1 dessa aula). O mesmo artigo inclui as concepções do direito natural à liberdade 
estabelecidos por Locke e Rousseau: “Artigo 3º - Todo indivíduo tem direito à 
vida, à liberdade e à segurança pessoal” (ONU, 1948). 
O caráter universal da Declaração... está também relacionado às visões 
iluministas e do idealismo alemão. Podemos perceber este caráter no art. 2º do 
documento, quando revela a adoção dos direitos humanos a todos os indivíduos, 
seja qual for o gênero, credo, posição ideológica, condição econômica ou origem 
cultural. 
Artigo 2º - Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as 
liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção 
alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, 
de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, 
de nascimento ou de qualquer outra situação (ONU, 1948) 
Os princípios do direito natural à igualdade proferidos pelas filosofias 
contratualistas de Locke e Rousseau são o fundamento dos arts. 7º e 10º da 
Declaração... Tais artigos revelam que, perante a lei, todos devem ser tratados 
da mesma forma, assim como obter proteção legal que garanta a todos os 
indivíduos os mesmos direitos: 
Artigo 7º - Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito 
a igual proteção da lei. Todos têm direito a proteção igual contra 
qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra 
qualquer incitamento a tal discriminação. 
[...] 
Artigo 10º - Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a 
sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal 
 
 
12 
independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou 
das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja 
deduzida. (ONU, 1948) 
O direito natural à liberdade presente nas reflexões de Locke e Rousseau 
estão presentes no 18º art.. Lembremos que, segundo Locke, as leis e o Estado 
devem zelar pela proteção à liberdade de pensamento. A Declaração... da ONU 
compreende que essa liberdade está inserida no direito individual de escolher 
posicionamentos políticos e religiosos. 
Artigo 18º - Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de 
consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de 
religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a 
religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como 
em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos. (ONU, 
1948) 
Outro conceito de Locke relacionado ao direito natural e que influenciou a 
elaboração da Declaração Universal do Direitos Humanos diz respeito à 
propriedade privada. A filosofia de Locke parte do princípio de que o direito ao 
próprio corpo representa a primeira propriedade natural de cada indivíduo. Tudo 
aquilo que é empregado com a intenção de garantir a existência desse corpo, 
como a terra em que se trabalha ou a casa onde se vive, passam a ser 
considerados extensões da propriedade privada. O art. 17º do documento da 
ONU explicitamente demonstra a influência do pensamento de Locke: 
Artigo 17º - Toda a pessoa, individual ou coletiva, tem direito à 
propriedade [...] Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua 
propriedade. (ONU, 1948) 
No 21º art. do documento, é possível perceber a influência do conceito de 
vontade geral elaborado por Rousseau. A ONU e parte considerável de cientistas 
políticos reconhecem, hoje, a impossibilidade da prática de uma democracia 
direta, ou seja, observa a inviabilidade de necessariamente todos os cidadãos e 
habitantes de um país participarem efetivamente de todas as decisões políticas 
e elaborações de leis. 
Por isso, reconhecendo a necessidade de democracias indiretas, 
caracterizadas por eleições de representantes, como presidente e 
parlamentares, a Declaração Universal dos Direitos Humanos promove uma 
adaptação do conceito de vontade geral de Rousseau em direção à noção de 
vontade do povo. Preserva-se, dessa forma, um princípio iluminista e 
contratualista de Rousseau em torno da universalidade do direito de participar 
das decisões políticas, porém por meio da eleição de representantes. Assim, 
 
 
13 
governos apenas são reconhecidos como legítimos pela ONU se referendados 
democraticamente por sua população. Caso contrário,veremos governos 
tirânicos ou ditatoriais que agem contra os chamados direitos humanos, pondo 
em risco a liberdade política e a igualdade jurídica: 
Artigo 21º - A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos 
poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a 
realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto 
ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto. 
(ONU, 1948) 
Foi possível observar, com esta breve explanação, a relevância de se 
estudar o contratualismo, os princípios universais iluministas e o pensamento 
kantiano, para o entendimento da construção dos direitos humanos elaborados 
pela ONU por meio dessa Declaração de 1948. 
TEMA 5 – CRÍTICA MARXISTA À SOCIEDADE BURGUESA 
Neste Tema vamos nos dedicar à análise da crítica que Marx (1818-1883) 
faz aos princípios universais do contratualismo, Iluminismo e idealismo alemão. 
Marx é um pensador anterior à elaboração da Declaração Universal dos Direitos 
Humanos, de modo que não se trata de realizar a oposição entre marxismo e 
direitos humanos, senão a certos princípios defendidos no interior das correntes 
filosóficas desenvolvidas entre os séculos XVII e XVIII. Vale dizer que muitos 
marxistas hoje defendem os direitos humanos, porém com ressalvas, 
essencialmente, ao princípio de Locke em torno do direito à propriedade privada. 
Vamos aprofundar estas questões a partir de agora. 
As obras Crítica da filosofia do direito de Hegel (1843); Manifesto do 
Partido Comunista (1848), escrita em parceria com seu amigo Engels; e O 
Capital (1867), demonstram contradições do discurso universalista das correntes 
filosóficas contratualistas, iluminista e do idealismo alemão, além do 
questionamento do também caráter universal da revoluções burguesas. A 
contradição diz respeito ao fato de Marx não considerar que estas revoluções 
tenham sido de fato universais, senão meramente burguesas e em favor 
unicamente dessa classe. 
A constatação de Marx se deve ao fato de que com as revoluções 
burguesas, a ascensão do capitalismo e a implementação dos direitos individuais 
não significaram o fim dos conflitos e dos problemas sociais. Durante o século 
XIX, Marx verificou que trabalhadores viviam em condições de pauperismo. Seus 
 
 
14 
salários eram suficientes para garantir condições adequadas de existência. Além 
disso, havia um exército de desempregados e condições indignas de trabalho 
nas fábricas. A igualdade jurídica (que privilegiava apenas a classe 
economicamente dominante, a burguesia) jamais havia promovido igualdade 
social. 
A pobreza generalizada da classe trabalhadora fez com que Marx 
desmitificasse os discursos otimistas frente aos logros das revoluções burguesas 
e do Iluminismo. Exemplos disso são as críticas a afirmações como as de Kant, 
que julgava que havíamos alcançado a “paz perpétua” e “a dignidade humana”, 
ou a Hegel, fiel à ideia de que havia sido promovido o “fim da história” com o fim 
dos conflitos humanos, sobretudo entre senhores e escravos. Essas visões 
acabavam por deturpar a realidade. Marx designa com o conceito de ideologia 
essas formas de interpretação da realidade. 
A ideologia se caracteriza em Marx como o mascaramento da realidade, 
com falsas ideias que sistematicamente apresentam visões distorcidas do 
mundo. A ideologia ocorre também quando os oprimidos ou explorados passam 
a incorporar, como se fossem seus, os preconceitos, os pontos de vista, visões 
de mundo ou a moral dos dominadores, incorporando-os em suas subjetividades 
como se fossem naturais ou normais. 
Segundo Marx, o Iluminismo e as revolução burguesas não puseram fim 
aos conflitos no interior das relações humanas. Na visão marxista, a sociedade 
liberal e capitalista deu origem às lutas de classes entre burgueses e 
proletariado. A burguesia é definida com base na propriedade privada dos meios 
de produção (terras, máquinas, fábrica, ferramentas, ou seja, tudo o que é 
necessário para garantir o processo de produção); o proletariado, por sua vez, é 
caracterizado pela venda da força de trabalho (que pode ser braçal ou 
intelectual), correspondendo, portanto, à classe trabalhadora. 
A crítica de Marx à concepção de propriedade privada de John Locke (que 
acreditava ser ela um direito natural) está fundada na avaliação de que a referida 
propriedade está concentrada e sob o domínio hegemônico da classe burguesa. 
Contraditoriamente, leia-se dialeticamente, os trabalhadores são explorados 
com salários baixos, fortalecendo o acúmulo de propriedades e riquezas nas 
mãos da própria burguesia. Esses elementos revelam o caráter conflituoso 
presente na sociedade burguesa. Por isso, Marx, ao defender o socialismo, 
propõe o fim da propriedade privada, de modo a torná-la coletiva ou de posse 
 
 
15 
estatal. O objetivo desse procedimento seria compartilhar entre todos os 
trabalhadores as riquezas oriundas dos processos produtivos, agrícolas e 
industriais, no interior das propriedades, agora socializadas. 
Segundo Marx, enquanto houver a exploração de um indivíduo sobre o 
outro jamais abandonaremos a pré-história da humanidade. Para este filósofo, o 
motor da história são as lutas de classes. Ao lado de Engels, Marx afirma, em 
seu Manifesto do Partido Comunista “A história de toda sociedade existente até 
hoje tem sido a história das lutas de classes” (Marx; Engels, 1977, p. 25). A 
verdadeira história da humanidade (ou o fim da história da exploração) será 
originada a partir da promoção da emancipação do gênero humano por meio de 
uma revolução promovida pela classe trabalhadora. Seria, na visão de Marx, o 
fim dos dominadores e dos dominados e a realização da liberdade humana. 
NA PRÁTICA 
Pesquise em jornais, revistas e sites de defesa de direitos individuais 
textos, matérias ou artigos que permitam identificar casos de violações contra os 
direitos humanos, sobretudo de segmentos sociais minoritários. Nos últimos 
anos, temos visto problemas de discriminação e violência em relação aos direitos 
da população LGBTQIA+, da população negra, dos indígenas, pessoas com 
deficiências (PcDs), mulheres, entre outros. 
Depois de realizar a pesquisa, procure debater em grupo quais são as 
situações mais comuns e arbitrárias. Elabore um relatório, observando quais 
direitos presentes na Declaração Universal do Direitos Humanos da ONU foram 
infringidos. Em seguida, reflita sobre quais medidas ou políticas poderiam ser 
adotadas para que os direitos humanos dos grupos sociais investigados sejam 
respeitados. 
FINALIZANDO 
No Tema 1 estudamos a corrente filosófica desenvolvida entre os séculos 
XVII e XVIII, conhecida como contratualista ou jusnaturalista. Observamos a 
defesa dos chamados direitos naturais e a forma com que autores como Hobbes, 
Locke e Rousseau analisam quais direitos naturais devem ser preservados e 
protegidos pelo Estado na condição civil. 
 
 
16 
Em seguida, no Tema 2, estudamos as intenções universalistas presentes 
no Iluminismo e revoluções burguesas no que diz respeito ao emprego da razão 
e aplicação dos direitos individuais. Foi possível observar como esses 
movimentos históricos contribuíram também na constituição do idealismo 
alemão, estudado no Tema 3, sobretudo com as filosofias de Kant e Hegel. 
Evidenciou-se a herança iluminista na construção, por exemplo, do conceito de 
dignidade humana de Kant. 
O Tema 4 foi dedicado à análise da presença e influência de princípios 
contratualistas, iluministas e kantianos no interior da Declaração Universal dos 
Direitos Humanos, elaborada pela ONU no ano de 1948. Constatamos as raízes 
filosóficas do que hoje é conhecido como um dos principais documentos 
produzidos no decorrer da história da humanidade, à medida que a Declaração... 
estabelece direitos como liberdade, igualdade, propriedade privada, segurança, 
entre outros. 
O Tema 5 permitiu a compreensão da crítica marxistaao pensamento 
iluminista e burguês, e conhecemos o entendimento de Marx sobre o que 
significa a emancipação humana por meio da superação da luta de classes. 
 
 
 
17 
REFERÊNCIAS 
HEGEL, G. W. F. A fenomenologia do espírito. In: Os pensadores: vol. XXX. 
São Paulo: Abril, Cultural, 1974. 
HOBBES, T. O Leviatã. São Paulo Martins Fontes, 2003. 
KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 
2009. 
LOCKE, J. Dois tratados sobre o governo civil. São Paulo: Martins Fontes, 
2001. 
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os 
Pensadores). 
MARX, K. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005. 
MARX, K. El capital: Livro 1. México: Fondo de Cultura Económica, 1995. 
MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Grijalbo, 
1977. 
ONU – Organização das Nações Unidas. Declaração Universal dos Direitos 
Humanos, 1948. Disponível em: 
. Acesso 
em: 3 jan. 2022. 
ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos 
da desigualdade entre os homens. São Paulo: Nova Cultural, 1997. 
ROUSSEAU, J.-J. O contrato social. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção 
Os Pensadores, v. 1).

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