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Dimensionamento da infraestrutura Apresentação É importante compreender que, quando se dimensiona uma ponte, esta não estará apoiada sobre um material rígido e indeformável ou com propriedades rigorosamente conhecidas, mas sobre solo ou rocha, que são materiais naturais e apresentam intrínseca variabilidade na sua resistência e deformabilidade e, ao contrário dos insumos de construção usuais, produzidos e utilizados respeitando rigorosos critérios de qualidade, não escolhemos e não controlamos as propriedades do estrato em que apoiamos uma ponte. No máximo, é possível escolher, dentre os materiais que compõem o subsolo, aquele que possui melhor comportamento mecânico (note que um material melhor não quer dizer que seja um bom material). O que se pode e se deve fazer é investigar adequadamente o subsolo de forma a conhecer tão bem quanto possível o local onde se pretende construir a ponte, para minimizar as incertezas associadas ao projeto. Uma vez conhecidas satisfatoriamente as características resistentes e de deformabilidade dos materiais que compõem o subsolo, dá-se um importante passo para otimizar nosso projeto de fundações. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai conhecer as características fundamentais de fundações de pontes, sejam elas fundações rasas, diretas ou profundas, calcular os esforços resistentes que cada sistema de fundações fornece e configurá-lo para que seja adequado para responder às solicitações impostas pela superestrutura da ponte. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir filosofia de cálculo para consideração das ações nas fundações.• Relacionar métodos de projeto e considerações específicas para fundações de pontes.• Calcular esforços resistentes para fundações rasas e profundas.• Infográfico Tubulões são sistemas de fundações muito usados em pontes. Sua execução, porém, necessita ser realizada com extrema perícia e responsabilidade. Veja neste Infográfico os principais cuidados necessários e riscos associados. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Conteúdo do livro Fundações é sempre um tema que desperta dúvidas, por ser uma área que lida diretamente com o material de propriedades mais variáveis que temos em construções: o solo. Na obra Pontes, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, leia o capítulo Dimensionamento da infraestrutura, onde você aprenderá a desenvolver projetos básicos de fundações para pontes e verá quais são as verificações necessárias para o dimensionamento de sistemas de fundações de pontes, assim como métodos para a determinação da capacidade de carga. PONTES Augusto Bopsin Borges Dimensionamento da infraestrutura de pontes Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir filosofia de cálculo para consideração das ações nas fundações. Relacionar métodos de projeto e considerações específicas para fun- dações de pontes. Calcular esforços resistentes para fundações rasas e profundas. Introdução O que muitas vezes nos surpreende e nos deixa apreensivos quando lidamos com fundações e estudamos o assunto é a aparente subjetividade e o empirismo com que os métodos de dimensionamento nos são apre- sentados, ainda que tudo possa sempre ser mais racional e aprofundado. Chama-se a atenção para essa realidade porque, por trás do aparente empirismo dominante com que muitas vezes nos confrontamos no es- tudo de fundações, está o fato de que os métodos que tradicionalmente são ensinados são fortemente baseados em resultados de performance de fundações em provas de carga e na experiência de profissionais e acadêmicos da área. Assim, esses resultados e experiências tornam-se ferramentas extremamente úteis– não precisamos reinventar a roda. No dimensionamento de fundações, especificamente para pontes, continuam válidos os conceitos e métodos tradicionais, sendo que alguns serão invocados aqui. Porém, chama-se a atenção para as considerações “empíricas” com as quais muitas vezes nos deparamos. Em fundações de pontes, é necessário um maior emprego desse tipo de julgamento de engenharia por parte do projetista e da equipe técnica envolvida. U N I D A D E 4 Neste capítulo, você vai estudar essas particularidades, bem como o dimensionamento de fundações rasas e profundas, pontos que tornam as fundações de pontes um tema diferenciado. Você também vai estudar a filosofia de cálculo para a consideração das ações nas fundações e vai relacionar métodos de projeto e considerações específicas para as fundações de pontes. Generalidades No Brasil, o projeto e a execução de fundações de qualquer tipo são norma- lizados pela NBR 6122, devendo ainda os sistemas de fundações em pontes satisfazerem a norma DNIT 121/2009 – ES. Essa última é uma especifi cação de serviço do órgão federal responsável diretamente por sistemas viários que, apesar de não fornecer praticamente nenhum critério de projeto específi co, dá orientações sobre o aceite ou não de obras de fundações e sobre critérios específi cos para os materiais e métodos construtivos utilizados (escavações, consumo de cimento, concretagem, etc.) (BRASIL, 2009). A norma do DNIT estabelece que são aceitos sistemas de fundações para pontes compostos de blocos, sapatas e radiers, estacas (de madeira, aço, pré-moldadas de concreto, escavadas moldadas in loco, injetadas de pequeno diâmetro), tubulões e caixões. Fundações de pontes são fundações como quaisquer outras; a diferença principal está nos fatores adicionais a serem considerados. As principais considerações para fundações de pontes (Figura 1), além das considerações padrão de projeto para fundações usuais, são: erosão generalizada ou localizada na base de pilares, que pode erodir a camada de suporte de fundações superficiais e expor estacas e/ou grupos de estacas; possibilidade de cargas laterais nas estacas, por carregamentos assi- métricos em fundações próximas a aterros de aproximação de ponte; e recalques excessivos, tanto nas fundações dos pilares das pontes quanto nos aterros de aproximação. Tais fatores, se não adequadamente avaliados e prevenidos, podem com- prometer tanto o desempenho estrutural quanto as condições de serviço da ponte. Este capítulo focará a atenção na capacidade de carga das fundações e na escolha da fundação adequada. Dimensionamento da infraestrutura de pontes2 Figura 1. Fatores específicos a serem considerados no dimensionamento de fundações para pontes. Fonte: Adaptada de Cardoso (2008). Fundo Inicial Recalque no encontro Carregamento lateral Nível Normal Erosão total no encontro Δ�h Erosão localizada em sapata Fundo Final Erosão generalizada devido à cheia Erosão localizada em estacas Nível de Cheia Nível de Cheia Os métodos tradicionalmente utilizados no dimensionamento de fundações continuam válidos para fundações de pontes, e alguns serão apresentados a seguir. O que diferencia as fundações de pontes de fundações usuais de residências e edifícios de uso geral são os fenômenos específicos que merecem nossa atenção, como: cargas laterais nas estacas por carregamento assimétrico, erosão localizada nas vizinhanças dos pilares e recalques excessivos, tanto nas fundações quanto em aterros de aproximação. Definição da filosofia de cálculo para consideração das ações nas fundações De acordo com a norma NBR 6122 para o projeto e execução de fundações, há duas abordagens possíveis para a consideração dos esforços nas fundações – para o projeto das mesmas –, devido às ações e suas combinações de carga, provenientes da superestrutura. Segundo a norma, cabe ao projetista da supe- restrutura (da ponte em si) fornecer o conjunto de esforços (combinações de carga) para verifi cação dos estados-limites últimos (ELU) e dos estados-limites de serviço (ELS). As duas fi losofi as de projeto que a norma possibilita, paraconsideração dos esforços para o projeto de fundações, são: 3Dimensionamento da infraestrutura de pontes Projeto de fundações em termos de fator de segurança global:forma clássica por meio da qual, historicamente, tem-se elaborado projetos de fundações. Projeto de fundações em termos de valores de projeto (fatores de segurança parciais): baseia-se na mesma filosofia de cálculo do projeto estrutural. Ou seja, para essa modalidade tem-se que as ações de projeto devem ser menores ou iguais à carga resistente de projeto (Sd ≤ Rd). Do cálculo estrutural da superestrutura da ponte, tradicionalmente realizado segundo a filosofia de cálculo em termos de coeficientes de segurança parciais, resultam ações e combinações de carga calculadas que já consideram majoração das ações e minoração da resistência dos materiais da superestrutura. Cabe ao engenheiro estrutural, a critério do engenheiro responsável pelo projeto de fundações, informar as combinações críticas de carga em termos de valores de projeto (aqueles que usualmente são acompanhados do subscrito d) ou valores dos coeficientes pelos quais devem ser divididas as ações de projeto para, em cada caso, reduzi-las às solicitações características. A tendência é que cada vez mais se adote, em projetos de fundações, a filosofia de cálculo em termos de fatores de segurança parciais e valores de projeto, como se reflete nas últimas edições das principais normas ao redor do mundo. Porém, no Brasil, é ainda praticamente unânime a utilização de fatores de segurança global, tanto por motivos históricos como por uma possível falta de respaldo de norma para as inúmeras situações de projeto possíveis. Normalmente, mas não por regra, o projeto estrutural dos elementos de fundação é realizado pelo projetista da superestrutura e segue as diretrizes correntes para o dimensionamento de estruturas de concreto, madeira ou aço, devendo atender, respectivamente, às normas NBR 6118, NBR 7190 e NBR 8800, bem como algumas diretrizes específicas listadas na NBR 6122. Dimensionamento da infraestrutura de pontes4 Tradicionalmente, os projetos de fundações e demais projetos geotécnicos são realiza- dos com fator de segurança global (FSglobal), pois as cargas de ruptura são deduzidas por meio de análise limite ou de resultados de inúmeros ensaios e provas de carga. Nessa filosofia, para equilibrar o sistema, são utilizadas as cargas que efetivamente atuam. Na análise limite, por exemplo, observando a ruptura do solo sob uma sapata ou uma ruptura de talude, supõe-se um mecanismo de ruptura que seja parecido com o real e calcula-se, para aquele mecanismo de ruptura específico, a mobilização de esforços que equilibra o sistema, conforme afirma Salençon (2013). Algumas perguntas surgem instantaneamente: esse mecanismo, ou seja, o formato geométrico suposto para a ruptura, corresponde à realidade em todos os casos pos- síveis? Se não corresponde totalmente, pelo menos aproximadamente? O quanto a situação real se desvia da situação idealizada e calculada? Ainda, toda fundação vai romper, como romperam as inúmeras outras semelhantes nas provas de carga? Imagino que a resposta seja quase intuitiva para você: “depende”. Depende da heterogeneidade do solo, depende do tipo de solo, se está seco ou se está saturado, depende das configurações do terreno. Enfim, depende de muitas variáveis, e não poucas vezes a situação real desvia consideravelmente do mecanismo suposto. Na realidade, somos incapazes de modelar todos os fatores que influenciam na ruptura real. Ao longo dos anos e com a experiência acumulada, porém, conseguimos contornar esse desvio entre o real e o idealizado e ter segurança contra a ruptura, minorando a resistência à ruptura, que calculamos por meio de um fator de segurança global adequado. A menor resistência entre essa resistência minorada por FSglobal e o limite de carga para recalque admissível leva o codinome de resistência admissível, e comparamos esse valor com as ações características (Sk≤Radm). Verificações de projeto requeridas A NBR 6122 traz as verifi cações necessárias para o ELU e o ELS. Em resumo, qualquer sistema de fundações deve possuir os requisitos listados a seguir. Segurança à ruptura do solo ou rocha de fundação Requer-se que as tensões atuantes, transmitidas pela superestrutura às fun- dações, não excedam os esforços resistentes admissíveis no solo de fundação. Lembre-se que valores admissíveis são aqueles nos quais a resistência do solo já foi minorada por fator de segurança global e/ou já está limitada por consideração dos recalques admissíveis para a estrutura. 5Dimensionamento da infraestrutura de pontes Se os pilares estão sobre fundações superficiais (sapatas e blocos), a norma NBR 6122 recomenda fator de segurança (FS) parcial de 2,15 ou FSglobal de 3,00 para a pressão da sapata no solo. Quando há duas ou mais provas de carga realizadas ainda na fase de projeto, permite-se a redução do FSparcial para 1,40 e do FSglobal para 2,00, considerando-se os resultados das mesmas. Para o caso de os pilares estarem sobre fundações profundas (estacas ou tubulões), a resistência característica de estacas por métodos semi-empíricos pode ser determinada por Rc, k= Min [(Rc, cal) med / ξ1; (Rc, cal)min / ξ2] (1) em que Rc,ké a resistência característica a ser adotada, (Rc,cal)med é a resistência característica calculada com base nos valores médios dos parâmetros do solo, (R c,cal)min é a resistência característica calculada com base nos valores mínimos dos mesmos e ξ1 e ξ2 são fatores de minoração da resistência (Tabela 1). Fonte: Adaptado de NBR 6122 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2010). na 1 2 3 4 5 6 ≥ 10 ξ1 b 1,42 1,35 1,33 1,31 1,29 1,27 1,27 ξ2 c 1,42 1,27 1,23 1,20 1,15 1,13 1,11 a n é o número de perfis de ensaios por região representativa do terreno. b,c valores podem ser multiplicados por 0,9 caso haja ensaios complementares a SPTs. Tabela 1. Valores de norma para os fatores ξ1 e ξ2 Pode haver a impressão de que os valores calculados de Rc,k na Equação 1 já contêm fatores de segurança pelo uso de ξ1 e ξ2. Na verdade, Rck é a resistência característica, devendo ainda ser minorada por fator de segurança global de, no mínimo, 1,4. A NBR 6122 traz ainda critérios para o cálculo de Rck de estacas e tubulões, obtido por provas de carga executadas na fase de projeto, possibilitando menor FS e, portanto, maior economia. Dimensionamento da infraestrutura de pontes6 A resistência admissível (Radm), tanto em fundações profundas quanto superficiais, é determinada não apenas pela segurança contra ruptura por esgotamento da capacidade de carga do terreno, mas também em função de condições de serviço, como recalque tolerável (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2010). Integridade estrutural do(s) elemento(s) de fundação Elementos de fundação são enterrados, e, por essa razão, garante-se a integri- dade dos elementos com uma execução exemplar dos mesmos, com armaduras locadas corretamente e muita atenção na concretagem. Como recomendação prática, pode-se requerer para o concreto fresco não bombeado um slump mínimo de 12 ± 2 cm, para qualquer elemento de fundação superfi cial ou profunda, e de 20 ± 2 cm, para concreto bombeado. Em fundações profun- das, deve-se atentar particularmente para a limpeza de pontas de estacas e – principalmente – de tubulões. Particularmente para tubulões, que trabalham principalmente por ponta, deve-se prever no alargamento da base calcanhares mínimos de 20 cm (Figura 9a, mais adiante), para garantir que o concreto e a pasta cimentícia não segreguem dos agregados e cubram completamente toda a área de sua base. A verificação da integridade estrutural de elementos de fundação é pres- crita de forma genérica pela NBR 6122 para todas as fundações, tamanha a importância do tema. A “estrangulação” do fuste é um problema frequente, principalmente em estacas escavadas, prejudicando ou até mesmo impedindo atransmissão da carga a ser resistida ao elemento de fundação na sua inteireza. Segurança contra tombamento e deslizamento do conjunto da ponte Aplica-se principalmente para fundações superfi ciais. Em um corte transversal da seção de uma ponte, deve-se garantir o equilíbrio tanto quanto à translação horizontal (deslizamento) quanto ao giro da ponte (tombamento). Quando a verifi cação das solicitações for realizada considerando-se as ações do vento como variável principal, como é o caso de pontes, os valores de tensão ad- missível de sapatas e tubulões e de cargas admissíveis em estacas podem ser majorados em até 30%; nesse caso, deve ser feita a verifi cação estrutural do elemento de fundação (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNI- CAS, 2010). A Figura 2 ilustra as ações do vento e as reações nas fundações para essa consideração. 7Dimensionamento da infraestrutura de pontes Figura 2. Verificação de segurança contra tombamento e deslizamento. Direção do fluxo Direção do fluxo Ação do vento Recalques nos elementos de fundação que não comprometam a segurança estrutural da ponte, sua aparência e seu uso Recalques excessivos, especialmente em pontes, são um grande problema. Na realidade, os recalques diferenciais são especialmente críticos, pois geram fi ssuras mesmo em níveis relativamente pequenos de recalques, dependendo da tecnologia construtiva da ponte e sua concepção estrutural.Além dos cuidados gerais acima comentados, sistemas de fundações de pontes requerem cuidados específi cos adicionais, alguns dos quais serão estudados em detalhes mais adiante. Gusmão Filho (2003) resume os requisitos para as fundações de pontes: Execução segura do elemento de fundação, atentando para procedi- mentos de escavações, construção de ensecadeiras, rebaixamento do nível de água e sistemas de tubulões a ar comprimido. Assentamento das fundações (se fundações diretas), em cota inferior à cota de erosão máxima, junto aos pilares da ponte, e consideração da possibilidade de erosão parcial do solo no comprimento das estacas, verificando-as quanto à possibilidade de flambagem e prevendo, se metálicas, espessura de sacrifício pela potencial oxidação no caso de variação do nível de água e exposição das estacas. Segurança contra cargas laterais oriundas de carregamentos assi- métricos, especialmente na fundação dos encontros e próximos a eles (efeito Tschebotarioff). Dimensionamento da infraestrutura de pontes8 Ademais, uma questão importante é a variação estratigráfica presente nos solos em leitos de rios e localidades adjacentes. Ao longo das eras, rios mudam seu traçado, sua velocidade de escoamento, sua inclinação e assim por diante. Esse fato resulta em perfis estratigráficos muito variáveis, com alternância entre solos arenosos (transportados por velocidades de fluxo relativamente altas) e solos argilosos (frutos de sedimentação de finos por baixa velocidade de fluxo). Relação de métodos de projeto e considerações de projeto específicas para pontes Consideração da erosão Sendo ou não construída uma ponte sobre um rio, o leito de um rio passa por transformações constantes devido às cheias e secas, que transportam volumes de água com velocidades diferentes em períodos diferentes. As variações de velocidade de escoamento e nível de água de um rio permitem o carreamento de sedimentos para outra localidade, erodindo o leito do rio, ou ainda transpor- tando e sedimentando mais material. Tal processo é natural, mas no que tange às fundações de pontes,deve ser bem tipifi cado. Uma vez que se espera que as fundações estejam assentes sobre solo competente, naturalmente espera-se também que o solo de suporte não seja erodido pela variação natural do leito do rio. Devemos então nos certifi car, em primeiro lugar, que qualquer sistema de fundações de pontes esteja assente abaixo da cota de erosão geral máxima ou erosão generalizada máxima que pode ocorrer. Como estudo preliminar, Gusmão Filho (2003) sugere que se pode estimar a erosão generalizada a partir da equação eg = Ky – y em que y é a profundidade média do rio em enchentes, provinda de estudo hidrológico, e K é um fator de majoração para estimativa da erosão, conforme esquema ilustrado na Figura 3. A dá sugestões da literatura para valores do fator K. 9Dimensionamento da infraestrutura de pontes Figura 3. Erosão geral. Fonte: Gusmão Filho (2003, p. 89). Nível de água estimado na enchente Leito natural nas águas baixas Ky M áx im o er os ão Fonte: Adaptado de Lacey (1958). Locação Fator multiplicativo Trecho reto de rio 1,25 (ou 1,50) Trecho moderadamente curvo de rio 1,50 Trecho severamente curvo de rio 1,75 Trecho de curva de rio em ângulo reto 2,00 Tabela 2. Fatores de majoração para determinação da máxima profundidade de erosão generalizada Junto aos pilares de pontes, devido ao escoamento turbulento do rio in- duzido pelos pilares como obstáculos, desenvolve-se a erosão localizada e progressiva (Figura 4a, b, c e d). Qualquer elemento de fundação deve ter sua capacidade resistente considerada abaixo da cota dada pela soma da erosão generalizada e da erosão localizada, segundo May, Ackers e Kirby (2002). Há vários métodos hidráulicos para determinação da erosão generalizada e da erosão localizada, cabendo um estudo hidrológico completo para a de- terminação dessas profundidades. Cabe ressaltar, porém, que como pilares de pontes transmitem cargas de magnitude maior que as usuais de edifícios de uso geral, é comum os encontros de pilares com sapatas ou blocos terem dimensões alargadas com relação às seções dos pilares. Além disso, quando o Dimensionamento da infraestrutura de pontes10 sistema de fundações é composto por fundações em estacas ou tubulões, grupos de estacas ou tubulões são agrupados por um bloco também de dimensões maiores que os pilares. Deve-se prever a possibilidade de que a seção do bloco ou grupo de estacas seja progressivamente exposta ao escoamento. Para esse caso, considera-se para o cálculo da erosão localizada a maior dimensão entre o bloco e o pilar, o que pode resultar em maior profundidade de erosão total. As Figuras 4c e 4d mostram como, com o passar do tempo, a soma da erosão generalizada e localizada pode vir a provocar falta de suporte para a estrutura e possível ruína da ponte, principalmente para fundações superfi- ciais. Tal fato contribui para que fundações de pontes sejam, normalmente, profundas, dado que, por mais que existam estudos hidrológicos suficiente- mente confiáveis quanto à determinação da profundidade total de erosão, há casos históricos nos quais, mesmo com estudos criteriosos realizados, pontes ruíram por conta da erosão e da consequente falta de capacidade de suporte de fundações superficiais. Figura 4. Erosão localizada junto às fundações de pontes. Fonte: Gusmão Filho (2003, p. 112). (a) Turbilhão Turbilhão Turbilhão (b) (c) (d) Carregamento assimétrico (efeito Tschebotarioff) As margens de rios são, frequentemente, fruto de subsequentes períodos de inundações e secas sucessivas, quando a água pode se depositar nesses locais e permitir a sedimentação de material mais fi no em suspensão. Por esse motivo, é frequente que os encontros de ponte sejam formados por depósitos de argilas moles, altamente compressíveis que, para a construção de pontes, são aterrados 11Dimensionamento da infraestrutura de pontes de forma a proporcionar o greide necessário para a entrada e a saída da ponte. Esses aterros sobre margens, com subsolo de camadas de argila mole, são muitas vezes um ponto crítico no projeto global da ponte, pois além de serem em si uma sobrecarga que causa carregamento assimétrico, sofrem muitas vezes grandes recalques, produzindo os conhecidos desníveis que motoristas experimentam ao trafegar nas entradas e saídas de pontes. Esses aterros são alvo de projetos específi cos. Uma consequência direta da sobrecarga assimétrica e dos recalques nos aterros de encontronas fundações de pontes sobre estaqueamentos é o carre- gamento lateral induzido. Tais carregamentos laterais devem ser diretamente considerados nas verificações estruturais de estacas sujeitas aos mesmos. Por essa razão, a seção transversal de estacas de encontro de pontes e viadutos é, muitas vezes, maior que a seção de estacas de edifícios convencionais, não necessariamente devido ao carregamento vertical a ser suportado, mas para que possa resistir a tais esforços assimétricos. As Figuras 5a e 5b mostram o efeito Tschebotarioff em muros de arrimos sobre estacas, típico de encontro de pontes, e o acréscimo assimétrico de carregamento lateral diretamente no estaqueamento, respectivamente. Figura 5. Exemplos do efeito Tschebotarioff. Fonte: Adaptada de Velloso e Lopes (2010, p. 469). Argila Mole Aterro Aterro (a) (b) Argila Mole∆�h Esse carregamento assimétrico é chamado de efeito Tschebotarioff jus- tamente porque Tschebotarioff (1962) foi o primeiro a descrever e abordar metodologicamente o caso. Por seu método, pode-se estimar o momento fletor ao qual as estacas estarão sujeitas, a partir de um carregamento lateral Dimensionamento da infraestrutura de pontes12 triangular nas estacas com valor máximo ph no centro da camada compressível (Figura 6). O valor de ph (TSCHEBOTARIOFF, 1967) pode ser calculado por: Ph = DKγH em que K é o coeficiente de empuxo para um depósito argiloso normalmente adensado (em torno de 0,45) e γH é a sobrecarga devido ao aterro de altura H. Figura 6. Carregamento lateral assimétrico. ph D �H As estacas, portanto, podem ser estruturalmente dimensionadas para o mo- mento fletor máximo, como vigas engastadas no bloco e rotuladas na sua ponta, com vão igual à espessura da camada de argila mole. Embora normalmente não seja o caso para fundações de encontros de ponte em estacas, estacas muito esbeltas (trilhos e perfis I, por exemplo), que atravessam grandes espessuras de argila mole, devem ser verificadas estruturalmente quanto à possibilidade de flambagem, considerando-se a contenção lateral do solo. Da Costa (2016) exemplifica o cálculo completo por um método existente específico, mas há outros métodos na literatura, conforme Velloso e Lopes (2010). É uma situação rara, mas de simples avaliação e prevenção. 13Dimensionamento da infraestrutura de pontes Capacidade de carga de fundações superficiais O projeto de fundações superfi ciais, segundo a NBR 6122, é realizado de tal forma que as ações características e suas combinações não sejam superiores à pressão admissível no solo de fundação.Essa pressão admissível, integrada à área de contato da fundação com o solo, fornece a capacidade de carga da fundação superfi cial e pode ser determinada a partir das seguintes aborda- gens: a) por métodos teóricos; b) por meio de prova de carga sobre placa; c) por métodos semi-empíricos; d) por métodos empíricos. No Brasil, é comum estimar-se a pressão admissível com base em correla- ções com ensaios SPT. Tal prática é a base de praticamente todos os métodos empíricos e semi-empíricos para determinação de capacidade de carga tanto de fundações superficiais como de fundações profundas. A versão da NBR 6122 de 1996 trazia no seu texto uma versão da Tabela 3, com valores básicos para estimativa das pressões admissíveis nas fundações em contato direto com o solo. Tais valores são considerados apenas como uma ordem de grandeza para a etapa de concepção das fundações de pontes. Quando da etapa de projeto executivo, estudos mais detalhados devem ser realizados e, preferivelmente, em número exigido por norma, levando-se em conta os resultados de provas de carga executados ainda na etapa de concepção do projeto. Para o projeto final, deve-se avaliar criteriosamente a capacidade de carga e os parâmetros de resistência do solo utilizados, solicitando ensaios de campo e/ou laboratório que tragam informações adicionais e mais ade- quadas à situação da obra do que as sondagens de simples reconhecimento. Essas solicitações devem ser feitas sempre que necessário, como para o caso de argilas moles, ensaios de piezocone (CPTu) e de palheta. Ainda, pode-se solicitar a coleta de amostras indeformadas de solo para a realização de ensaios de laboratório, como cisalhamento direto, compressão simples, triaxial tipo UU e ensaios oedométricos, para estimativa de recalques. A capacidade de carga deve ser avaliada sempre por diferentes métodos, levando-se em conta o contexto de formulação dos mesmos e sua aplicabilidade. Deve-se ter sempre em mente que o solo não é um material industrializado, como o concreto ou o aço de construção, e apresenta complexidades que não somos capazes de prever sem investigações geotécnicas abrangentes. Dimensionamento da infraestrutura de pontes14 Descrição NSPT Valores (MPa) Rocha sã, maciça, sem laminação ou sinal de decomposição – 3,0 Rochas laminadas, com pequenas fissuras, estratificadas – 1,5 Solos granulares concrecionados – conglomerados – 1,0 Solos pedregulhosos compactos a muito compactos – 0,6 Solos pedregulhososfofos – 0,3 Areias muito compactas NSPT> 40 0,5 Areias compactas 19 ≤NSPT≤ 40 0,4 Areias medianamente compactas 9 ≤NSPT 40 0,4 Areias argilosas compactas 19 ≤NSPT≤ 40 0,3 Areias argilosas medianamente compactas 9 ≤NSPT 40 0,4 Areias silto-argilosas compactas 19 ≤NSPT≤ 40 0,3 Areias silto-argilosas medianamente compactas 9 ≤NSPT 40 0,4 Siltes arenosos compactos 19 ≤NSPT≤ 40 0,3 Siltes arenosos medianamentecompactos 9 ≤NSPTa resistência de ponta. Tendo em vista que a magnitude de cargas transmitidas a fundações em pontes é elevada, geralmente há necessidade de grupos de tubulões ou estacas para suporte de cada um dos pilares. Porém, mesmo que estejam em grupo, o dimensionamento da carga última de cada estaca ou tubulão é calculado individualmente. A NBR 6122 prescreve que a carga admissível de um grupo de estacas ou tubulões, porém, não pode ser maior que a carga admissível de uma sapata hipotética de mesmo contorno que o do grupo, assentada a uma profundidade acima da ponta das estacas ou tubulões igual a 1/3 do comprimento de penetração na camada de suporte (Figura 7). Atendidas essas condições, o espaçamento mínimo entre estacas ou tubulões deve considerar o modo como a carga é transmitida ao solo de fundação e o efeito da instalação das estacas adjacentes do mesmo grupo. Figura 7. Grupo de elementos de fundação profunda. Fonte: NBR 6122 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2010, p. 29).. Corte A-A Contorno da sapata hipotéticaf = embutimento na camada de suporte A A f f/ 3 17Dimensionamento da infraestrutura de pontes Cálculo dos esforços resistentes para fundações rasas e profundas Para fundações de pontes, sejam elas fundações rasas ou profundas, deve- -se considerar para o cálculo dos esforços resistentes as combinações de carga provindas do dimensionamento da superestrutura. A norma NBR 6122 prescreve que a segurança das fundações deve contemplar verifi cações dos estados-limites últimos e verifi cações dos estados-limites de serviço, além de outras solicitações conhecidas e previsíveis e da sensibilidade da estrutura a recalques. Sapatas e blocos Para o cálculo da capacidade de carga de sapatas e blocos, ou seja, de seus esforços resistentes, pode ser utilizada a formulação teórica proposta por Terzaghi (1943), pela qual pode ser determinada a pressão última do solo por meio da equação qult = c′ · Nc· Sc + γ · D · Nq · Sq + ½ · γP·B·Nγ·Sγ em que c′ é o intercepto coesivo efetivo do solo; γP é o peso específico médio entre a profundidade da base da fundação e uma vez a dimensão da seção da mesma; γ é o peso específico médio do solo entre a superfície e a profundidade da base da fundação; Nc, Nq e Nγ são fatores de capacidade de carga adimensionais e função do ângulo de atrito (Tabela 4) e Sc, Sq e Sγ são fatores que consideram o formato da fundação superficial (Tabela5). Demais parâmetros geométricos são mostrados na Figura 8. Devido às hipóteses assumidas (estado plano de deformações), Terzaghi (1943) sugere ainda a adoção de valores reduzidos de c′ e ϕ′, tomando c* = 2/3c′ e tan(ϕ*) = 2/3 tan(ϕ′). Quando o solo é de baixa resistência, substituem-se Nc, Nq e Nγpor N′c, N′q e N′γ(Tabela 4). As dimensões da base da fundação superficial (sapata, caixão ou bloco) ou, mais precisamente, a área resistente necessária em contato com o solo, pode ser calculada de forma que A = Sk/qadm em que A é a área resistente necessária, qadm é a pressão admissível (qadm= qult / FSglobal) e Sk são as ações a serem resistidas. Dimensionamento da infraestrutura de pontes18 A principal diferença entre sapatas e blocos é que sapatas são dimensio- nadas em concreto armado, de forma que as tensões de tração resultantes são resistidas pela armadura, enquanto blocos são dimensionados de forma que as tensões de tração sejam resistidas pelo concreto. Segundo a NBR 6122 blocos de fundação devem ser dimensionados de forma que o ângulo β (Figura 9b) satisfaça à desigualdade (tan β) / β ≥ qadm/ fct + 1 para a qual, na ausência de ensaios de tração no concreto, pode-se utilizar fct = 0,084 e fck 2/3 ≤ 0,8 MPa (valores de fck em megapascal). β é expresso em radianos e o fck máximo do concreto para projeto é de 20 MPa. A norma NBR 6122 prescreve que a altura máxima para tubulões a céu aberto seja menor que 1,80 m (tubulões a céu aberto somente em solo coesivo e acima do nível de água), e até 3,00 m para tubulões a ar comprimido, com medidas de esta- bilização, caso necessário. Fonte: Adaptada de Terzaghi (1943). Φ(°) Nc Nq Nγ N ć N q́ N γ́ 0 5,7 1,0 0,0 5,7 1,0 0,0 5 7,3 1,6 0,5 6,7 1,4 0,2 10 9,6 2,7 1,2 8,0 1,9 0,5 15 12,9 4,4 2,5 9,7 2,7 0,9 20 17,7 7,4 5,0 11,8 3,9 1,7 25 25,1 12,7 9,7 14,8 5,6 3,2 30 37,2 22,5 19,7 19,0 8,3 5,7 35 57,8 41,4 42,4 25,2 12,6 10,1 40 95,7 81,3 100,4 34,9 20,5 18,8 45 172,3 173,3 297,5 51,2 35,1 37,7 Tabela 4. Fatores adimensionais de capacidade de carga 19Dimensionamento da infraestrutura de pontes Fonte: Adaptada de Terzaghi (1943). Forma da fundação Fatores de forma Sc Sq Sγ Corrida 1,0 1,0 1,0 Quadrada 1,3 0,8 1,0 Circular 1,3 0,6 1,0 Retangular 1,1 0,9 1,0 Tabela 5. Fatores de forma para formulação teórica de Terzaghi para capacidade de carga de fundações superficiais Figura 8. Fundação superficial idealizada. Solo � • D B D N.T. Figura 9. Ângulo β nos (a) tubulões e (b) blocos. Fonte: NBR 6122 (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2010). 20 cm (a) � � (b) Dimensionamento da infraestrutura de pontes20 Estacas Para o cálculo da capacidade de carga de estacas, ou seja, de seus esforços resistentes, pode ser utilizado o método Décourt e Quaresma (DÉCOURT, QUARESMA, 1978, 1982; DÉCOURT, 1982), baseado em ensaios SPT. Pelo método, é possível calcular a resistência última (Rult) de uma estaca, em [tf], por meioda seguinte relação: em que RP é a resistência de ponta [tf],RL é a resistência lateral [tf], C[tf/m2] é um coeficiente empírico cujos valores são fornecidos na Tabela 6, NP é o valor NSPT, considerando um diâmetro de estaca acima e abaixo da sua ponta, AP [m2] é a área da ponta da estaca, U [m] é o perímetro do fuste da estaca, L [m] é o comprimento total da estaca e é a média dos valores NSPTao longo do fuste (se NSPT 50, considerar NSPT = 50). Por consideração de momentos na cabeça das estacas, sugere-se que estacas em pontes sejam agrupadas em estaqueamentos de, no mínimo, quatro estacas. Fonte: Adaptada de Décourt e Quaresma (1978); Décourt (1986). Tipo de solo Estacas escavadas Demais estacas C[tf/m2] Argilas 10 12 Solo argiloso residual 12 20 Solo arenoso residual 14 25 Areias 20 40 Tabela 6. Valores de C Para a carga admissível, considerando-se evitar recalques excessivos, variações devidas aos parâmetros do solo, formulação adotada e segurança com relação à carga de trabalho, Décourt e Quaresma (1978) sugerem FSglobal de 4,0 para RP e 1,3 para RL, ou seja: Radm = RP / 4,0 + RL / 1,3 21Dimensionamento da infraestrutura de pontes Para estacas escavadas como uso de lama bentonítica, o autor sugere a desconsideração da resistência de ponta. A Radm calculada com os FSglobal do método deve ser comparada com a Radm com fatores da NBR 6122, tomando-se a menor dentre essas duas. Uma vez calculada a capacidade de carga de uma estaca isoladamente, calcula-se quantas são as estacas necessárias para prover carga resistente admissível, de modo que n = Sk / Radm Dessa forma, podemos calcular o número n de estacas (com o diâmetro e profundidade escolhidos) que comporá o estaqueamento. Tubulões Para o cálculo da capacidade de carga de tubulões, ou seja, de seus esforços resistentes, podem ser utilizados também métodos semi-empíricos estatísticos ou métodos empíricos, como o da NBR 6122. Opta-se por fundações profun- das tipo tubulão quando o solo competente, capaz de fornecer capacidade de carga compatível com as cargas a serem resistidas, está a profundidades que exigem fundações profundas. Tubulões geralmente fornecem alta capacidade de carga e, por isso, são e, principalmente no passado, eram muito utilizados em fundações de pontes. As dimensões da base do tubulão ou, mais precisamente, a área resistente necessária em contato com o solo, pode ser calculada de forma que A = qadm / Sk em que A é a área resistente necessária, qadm é a pressão admissível (qadm= qult / FSglobal) e Sk são as açõesa serem resistidas. Tubulões normalmente são armados apenas na sua ligação com o bloco de coroamento (trecho inicial de 3 m com As,mín = 0,005 ∙ Afuste), de forma a prover confinamento adequado na transmissão da carga. O fuste mínimo do tubulão – não encamisado – é dimensionado de tal forma que seja possível a descida de operários para o alargamento da base e que a tensão no concreto, no fuste, não ultrapasse 5,0 MP. Considera-se fck = 20 MPa como valor máximo de projeto para resistência característica do concreto, independentemente de terem sidos utilizados concretos de maior resistência. Dimensionamento da infraestrutura de pontes22 Há casos onde um único tubulão resiste às ações de um único pilar e é ligado diretamente ao pilar, sem bloco de coroamento. Quando esse foro caso, o comprimento acima da superfície do solo será dimensionado normalmente como pilar. Opta-se por tubulões quando solo competente não está disponível a peque- nas profundidades. Para que o custo e o risco adicional por conta da execução do tubulão sejam minimamente justificáveis, deve-se assentar a base do tubulão em solos com NSPT não menores que 15 golpes.Um esquema típico de um tubulão a ar comprimido pode ser visto na Figura 10. A inclinação da base do tubulão é calculada de forma análoga ao cálculo para blocos (Figura 9a). Para descida de operários para escavação e alargamento da base, recomenda-se, como boa prática, diâmetro do fuste mínimo de 70 cm. Figura 10. Esquema de tubulão a ar comprimido. Fonte: Alonso (2010). “Cachimbo” para colocar armação Registros “Cachimbo” de concretagem “Cachimbo” de saída de terra Anel Câmara de trabalho Seção transversalVista geral “Faca” Armação Tubulão d ≥ 70 cm20 cm NA Ar comprimido Balde Guincho Manômetro Porta de entrada de operários 23Dimensionamento da infraestrutura de pontes Apesar de tubulões serem capazes de prover altas capacidades de carga, sua execução é ainda hoje praticamente “artesanal”. Operários ou máquinas escavam o fuste do tubulão, mas para o alargamento de sua base e garantia de qualidade na sua execução e limpeza, ainda hoje é necessário que eles desçam e realizem o procedimento manualmente. Tubulões submersos, utilizados quando se deve executar tubulões dentro de rios e em locais com nível freático próximo à superfície, são executados, igualmente, com descida de operários para a escavação da base. Para tanto, trabalha-se com tubulões a ar comprimido, nos quais gera-se pressão suficiente para equilibrar a pressão hidrostática no fundo da escavação, a fim de não permitir a entrada de água. Esse tipo de tubulão requer utilização de camisas de aço ou anéis de concreto ao longo do seu fuste, propriamente dimensionados (considerando-se como 1,5 a pressão de trabalho, desprezando empuxos externos de solo e água). Obviamente este é um serviço com altíssimos riscos e fatal em caso de acidentes, motivo pelo qual tubulões têm sido cada vez menos utilizados e até mesmo abolidos em certas regiões. Quando utilizado, a descompressão da campânula deve ser realizada de forma gradual, para evitar que o operário sofra de embolia gasosa, decorrente da expansão do ar em seus pulmões pela variação instantânea de pressão (como ocorre como mergulhador que sobe de grandes profundidades à superfície de forma muito rápida). Na teoria, o engenheiro responsável pela execução das fundações deve sempre descer no tubulão para conferência do mesmo e liberação da concretagem. Você topa esse tipo de “engenharia raiz”? Dimensionamento da infraestrutura de pontes24 1. Um pilar de seção quadrada, 60 x 60 cm, descarrega sobre uma sapata apoiada sobre o solo, cuja tensão de ruptura é 3 kg/cm2, uma carga vertical de projeto de 3.500 kN. Qual a dimensão ótima para o lado de uma sapata de base quadrada para esse caso? Considere que a tensão de ruptura foi determinada por meio de métodos semi-empíricos, que a abordagem de cálculo da fundação é em termos de valores admissíveis e que o projetista estrutural forneceu o coeficiente de 1,65 para a conversão das ações de projeto em ações características. Considere também que, nesse nível de carga, o recalque da fundação é tolerável. Por motivos construtivos, o lado da base da sapata deve ser expresso com precisão de 5 cm. a) 2,70 m. b) 3,45 m. c) 4,65 m. d) 5,95 m. e) 7,60 m. 2. Você deve dimensionar as fundações para um pilar circular de um encontro de ponte com seção transversal de área igual a 0,385 m2, que transmite uma carga vertical característica de 900 kN. Para tanto, você decidiu que uma opção viável seria um tubulão único suportando toda a carga do pilar. Para evitar recalques excessivos, a melhor profundidade para assentar a base do seu tubulão, levando em conta o ensaio SPT abaixo? Desconsidere qualquer carregamento assimétrico e considere que, no perfil do ensaio SPT apresentado, os valores de NSPT correspondem a profundidades de cota cheia (1m, 2m, 3m, ...). No boletim de ensaio, em profundidades maiores que 20m,se considera que foi alcançado o impenetrável à percussão. a) 17 m. b) 18 m. c) 19 m. d) 20 m. e) 21 m. 3. Para uma carga vertical característica de 900 kN (mesma ação do 25Dimensionamento da infraestrutura de pontes exercício anterior), qual deve ser o diâmetro do fuste do tubulão para respeitar, respectivamente, os requisitos de norma e o diâmetro mínimo prático para possibilitar a descida de operários para alargamento da base? (valores com precisão de 5 cm). a) 47 cm e 50 cm. b) 48 cm e 50 cm. c) 48 cm e 70 cm. d) 50 cm e 50 cm. e) 50 cm e 70 cm. 4. Considerando que a tensão admissível da camada de suporte da base do tubulão seja de 0,4 MPa, que o concreto utilizado possua fck = 35 MPa e que deve ser suportada uma carga vertical característica de 900 kN, qual é o diâmetro necessário para a base alargada do tubulão de base circular, que estará em contato com o solo? Qual é a dimensão mínima do calcanhar do tubulão? Qual é a altura da base escavada (definida pelo valor do ângulo β)? Considere o ângulo β com precisão de 0,5° e a altura com precisão de 5 cm. 5. Caso você opte solucionar as fundações para uma carga vertical característica de 900 kN, perfil de solo conforme o boletim de ensaio fornecido, com uso de estacas cravadas de seção quadrada (16 x 16) até a profundidade de 20 m, o estaqueamento deverá ser composto por, no mínimo, qual número de estacas? Utilize o método semi- empírico de determinação de capacidade de carga de Décourt e Quaresma, considerando solo inteiramente argiloso, e despreze considerações de atrito negativo. a) 1 estaca. b) 2 estacas. c) 3 estacas. d) 4 estacas. e) 5 estacas. Dimensionamento da infraestrutura de pontes26 ALONSO, U. R. Exercícios de fundações. São Paulo: Blücher, 2010. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6118: projetos de estruturas de concreto: procedimento. Rio de Janeiro, 2014. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6122: projeto e execução de fundações. Rio de Janeiro, 1996. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6122: projeto e execução de fundações. Rio de Janeiro, 2010. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 7190: projeto de estruturas de madeira. Rio de Janeiro, 1997. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 8800: projeto de estruturas de aço e de estruturas mistas de aço e concreto de edifícios. Rio de Janeiro, 2008. BERBERIAN, D. Engenharia de fundações. Brasilia: UnB/Infrasolo-Geotechpress, 2010. v. 1. BRASIL. Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. DNIT 121 – ES: pontes e viadutos rodoviários: fundações: especificação de serviço. Rio de Janeiro: IPR, 2009. CARDOSO, R. A. F. Infraescavação em pilares de pontes. 2008. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil) - Universidade de Aveiro, Portugal, 2008. DÉCOURT, L. Prediction of the bearing capacity of piles based exclusively on N values of the SPT. In: EUROPEAN SYMPOSIUM ON PENETRATION TESTING, 2., 1982. Procee-dings... Amsterdam, 1982. DÉCOURT, L. Previsão da capacidade de estacas com base nos ensaios SPT e CPT. 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Nesta Dica do Professor, você entenderá o porquê dessa diferença, o modo como se dá a conversão entre os valores calculados para a superestrutura e os valores considerados no projeto de fundações e por que essa questão é fundamental no projeto de pontes. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Na prática Um problema importante a ser resolvido em fundações de pontes é o carregamento lateral em estacas próximas a encontros de pontes ou viadutos. A priori o solo desses locais é o que é (frequentemente argilas moles), e a abordagem direta é lidar com esses carregamentos e dimensionar o estaqueamento para resistir a esses esforços. No entanto, e se fosse possível (e se valesse a pena) achar uma solução na qual esses carregamentos, que muitas vezes são significativos, fossem reduzidos e causassem menores preocupações? Confira, neste Na Prática, uma solução nova e muito eficaz! Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Ponte Rio-Niterói II: construção das fundações do vão central Nesta Unidade de Aprendizagem, vimos os principais pontos a serem considerados em fundações de pontes. Veja neste vídeo um belo comentário de um dos engenheiros envolvidos no projeto de fundações de uma das maiores obras já realizadas no Brasil, a ponte Rio-Niterói. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Estudo de estacas de madeira para fundações de pontes de madeira Nem todas as pontes são grandes, com grandes cargas e grandes vãos. Quase noventa por cento da malha viária do Brasil é composta de estradas não pavimentadas que escoam a produção agrícola desde os pontos de produção até as grandes rodovias. Nessas estradas vicinais, há pontes de madeira que têm um papel fundamental na cadeia produtiva do país. Veja esta tese que trata de estacas de madeira para pontes de madeira. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Curso de fundações Assista a um curso de fundações, aplicável também a pontes, disponibilizado diretamente pelo Prof. Eng. Dickran Berberia, que possui vasta experiência em projeto, execução e perícia de fundações. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.