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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS RURAIS CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA Carla Simone Simon (22250879) Guilherme Rychescki Hass (23150063) Laíne Ferreira (22250870) Laura Livia Arias Avilés (22250869) Laura Knebel de Matos (22250887) Priscila Cristina Machado (22250893) Cólera aviária Curitibanos 2025 INTRODUÇÃO A cólera aviária também conhecida como pasteurelose, é uma doença infecciosa altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres, sendo de grande importância econômica para a avicultura mundial. Acomete aves domésticas, galinhas, patos, codornas, perus, cisneis e diversas aves selvagens. A ocorrência da doença está frequentemente associada a fatores predisponentes como estresse, transporte, mudanças bruscas de temperatura, deficiências nutricionais e coinfecções. Em surtos agudos, as taxas de mortalidade podem ser elevadas, chegando a 60–100% em alguns casos, o que evidencia seu impacto na produção avícola. A bactéria isolada foi uma das primeiras bactérias identificadas como causadoras de doenças. Louis Pasteur, no final do século XIX, estudou essa bactéria em surtos de cólera em aves. Louis também foi responsável pelo desenvolvimento de uma das primeiras vacinas atenuadas com base em uma cepa envelhecida da P. multocida, marcando um avanço na imunologia. A Cólera Aviária apresenta distribuição mundial, e a enfermidade, na sua forma típica, caracteriza-se por desenvolver uma doença septicêmica que resulta em alta morbidade e alta mortalidade. Devido ao seu impacto na produção avícola e ao risco de grandes perdas econômicas, ela é considerada uma doença de notificação obrigatória no Brasil, conforme estabelecido pelo Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA), coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). ETIOLOGIA É causada pela bactéria Pasteurella multocida, um patógeno gram-negativo, cocobacilar, não esporulado e facultativamente anaeróbio. Essa espécie possui subespécies relevantes (como multocida, séptica, gallicida), além de cinco sorogrupos de cápsula (A, B, D, E e F) sendo a do tipo A mais relevante, e cerca de 16 sorotipos somáticos (Souza, 2011). EPIDEMIOLOGIA A cólera aviária possui distribuição mundial, sendo endêmica em muitas regiões e responsável por surtos esporádicos ou epidêmicos, especialmente em sistemas de produção intensiva. Em estudos brasileiros, como o de Pilatti et al. (2018), observou-se que P. multocida causa surtos com alta mortalidade e está associada a fatores como manejo inadequado e transporte. Além disso, Furian et al. (2015) demonstraram que roedores e moscas podem atuar como fontes de disseminação da bactéria no ambiente das granjas brasileiras. A doença pode acometer aves de diferentes idades, mas surtos mais graves geralmente ocorrem em animais adultos. Sua ocorrência está diretamente relacionada a fatores predisponentes, como falhas na biosseguridade, manejo inadequado, estresse ambiental, transporte, deficiências nutricionais e presença de infecções concomitantes. A introdução de aves portadoras assintomáticas em plantéis livres, o contato com aves silvestres infectadas e a movimentação de pessoas e equipamentos entre granjas são aspectos críticos para a disseminação da bactéria. Além disso, a presença de roedores e moscas pode contribuir para a manutenção e disseminação da Pasteurella multocida no ambiente. Em locais onde há má gestão sanitária, a bactéria pode persistir no ambiente por períodos prolongados, facilitando novos episódios infecciosos. TRANSMISSÃO A transmissão da cólera aviária ocorre principalmente por contato direto ou indireto com aves infectadas, além da contaminação ambiental via secreções respiratórias e fezes. Pilatti et al. (2018) reforçam o papel de vetores como utensílios, equipamentos e pessoas na disseminação da bactéria entre plantéis. O contato indireto pode ocorrer por meio de secreções respiratórias, fezes, água, ração e objetos contaminados (fômites). A Pasteurella multocida pode ser eliminada pelas aves doentes através das excreções, contaminando o ambiente e servindo como fonte de infecção para outras aves. Vetores mecânicos como roedores, equipamentos sujos e até trabalhadores da granja também podem atuar na disseminação da bactéria entre lotes e instalações. A transmissão aérea também é possível, especialmente em ambientes com alta densidade populacional e ventilação inadequada. A persistência da bactéria no ambiente e em portadores assintomáticos representa um desafio adicional para o controle da doença, tornando essencial a adoção de medidas rigorosas de biosseguridade. PATOGENIA A patogenia dessa enfermidade envolve múltiplas etapas que se iniciam com a exposição a fatores predisponentes, como estresse, manejo inadequado, má alimentação, parasitismo e infecções concomitantes. Esses fatores levam à quebra do equilíbrio entre o hospedeiro e a microbiota bacteriana, facilitando a multiplicação da bactéria. A principal via de entrada da bactéria é o trato respiratório, onde a Pasteurella multocida inicialmente coloniza a orofaringe e invade o trato respiratório inferior. Uma via alternativa, embora menos comum, é a gastrointestinal, geralmente por ingestão de água ou alimentos contaminados, seguida da multiplicação da bactéria através da mucosa intestinal. Os fatores de virulência, como a cápsula e o lipopolissacarídeo (LPS), conferem resistência bacteriana ao sistema imune da ave (Debes, 2012; Santos et al., 2018; Tecsa, s.d.). Após penetrar nos tecidos a bactéria pode alcançar a corrente sanguínea, causando bacteremia, se disseminando para diversos órgãos, como fígado, baço, pulmões e rins, onde se multiplica e forma lesões necróticas. Com o aumento da carga bacteriana, ocorre a lise das bactérias, esse processo libera uma grande quantidade de endotoxinas presentes na parede celular das bactérias e desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica intensa. A resposta inflamatória exacerbada leva a danos vasculares, falência orgânica e distúrbios na coagulação, podendo culminar em coagulação intravascular disseminada (Debes, 2012; Santos et al., 2018; Tecsa, s.d.). SINAIS CLÍNICOS A cólera aviária pode provocar diferentes sinais clínicos, a maioria deles sendo inespecíficos. Fatores como idade, raça, estado imunológico, e cronologia da doença influenciam na quantidade e gravidade dos sinais. Baseado nessas diferenças de manifestações, foi definida a classificação de estágios da doença como aguda e crônica. Em sua forma aguda, a doença pode provocar, principalmente, a morte súbita sem a manifestação de outros sinais clínicos (SANTOS, Helton Fernandes dos, 2018) . Contudo, caso isso não ocorra, sinais como letargia (aves se recusando a se moverem ou evidentemente lentas), secreção mucoide ocular e bucal, diarreia verde amarelada, taquipneia e cianose de cristas e barbelas (ambas ocorrem devido a redução da absorção de oxigênio) são sinais comuns de se observar, podendo evoluir para convulsões e morte ( TECSA Laboratórios, 2025 ). A doença em sua forma crônica se manifesta como artrite purulenta, encefalite, osteomielite, peritonite, estes causados pela preferência de deposição da bactéria, causando reações infecciosas e inflamatórias locais (LIGHTY, Megan. 2025). Barbelas cheias de exsudato caseoso são um sinal clínico mais característico desta doença em sua forma crônica. A palidez de crista e barbelas também pode ocorrer. Queda na produção é uma manifestação esperada considerando todos os outros sinais que geram limitações físicas e fisiológicas para a ave, reduzindo por consequência a postura e o ganho de peso quando pensamos em aves comerciais (SANTOS, Helton Fernandes dos, 2018). A doença também pode provocar pneumonia,contudo, ela é mais observada em perus (LIGHTY, Megan. 2025). DIAGNÓSTICO O diagnóstico da cólera aviária envolve uma combinação de métodos clínicos, laboratoriais e de necropsia. O isolamento bacteriano a partir de órgãos como fígado, baço e coração continua sendo o padrão ouro para a confirmação da infecção (Masdooq et al., 2008; Panna et al., 2015). As principais metodologias de isolamento de P. multocida incluem o cultivo em ágar-sangue com 10% de sangue de carneiro, incubado por 24-48 horas a 37°C, com posterior análise de características de colônias, morfologia bacteriana e realização de testes bioquímicos como catalase, oxidase e produção de indol (Masdooq et al., 2008; Emery, 2016). Também se utiliza a prova de patogenicidade em camundongos, nas quais a mortalidade rápida de camundongos após inoculação intraperitoneal com a amostra bacteriana reforça a suspeita diagnóstica de P. multocida (Emery, 2016). Atualmente, o PCR tipo-específico para detecção de genes associados à cápsula e fatores de virulência, como os genes ptfA, oma87, sodA e nanH, tornou-se uma ferramenta diagnóstica altamente sensível e específica (Panna et al., 2015; Almeida, 2015). Além disso, tecnologias como o uso de cartões FTA (Flinders Technology Associates) vêm sendo exploradas para transporte seguro de amostras de DNA bacteriano para análises moleculares futuras (Almeida, 2015). Achados Macroscópicos na Necropsia: as lesões macroscópicas da cólera aviária variam conforme a evolução da doença, sendo mais marcantes nas formas agudas. Os principais achados incluem congestão e hepatomegalia, com o fígado geralmente aumentado, apresentando múltiplos focos de necrose esbranquiçados distribuídos de maneira irregular (lesões multifocais de necrose hepática). Além disso, é comum observar esplenomegalia com o baço aumentado, escuro e congesto. Hemorragias generalizadas são comuns, especialmente nas serosas, epicárdio e tecidos subcutâneos (Santos & Lovato, 2018). Pericardite fibrinosa e pneumonia hemorrágica também são frequentemente observadas, principalmente em casos de septicemia. Os pulmões apresentam-se congestos e hemorrágicos, com áreas de hepatização e edema (El-Demerdash et al., 2023). Em alguns casos, pode-se observar enterite hemorrágica, além de hemorragias em tecido adiposo e musculatura (Santos & Lovato, 2018). Achados Histopatológicos: os achados histopatológicos confirmam as alterações observadas macroscopicamente e revelam as seguintes características principais: No fígado, há áreas de necrose coagulativa com infiltrado inflamatório predominantemente de heterófilos e mononucleares, além da presença de bactérias gram-negativas visíveis em colorações especiais (Panna et al., 2015; El-Demerdash et al., 2023; Santos & Lovato, 2018). No baço, observa-se extensa congestão, hemorragia e depleção de tecido linfoide com necrose de centros germinativos. Nos pulmões, as alterações incluem pneumonia exsudativa, congestão vascular, edema intersticial e infiltrado de heterófilos e macrófagos, com necrose e hemorragias alveolares em casos mais graves. O coração apresenta hemorragia subepicárdica, necrose miocárdica e infiltrado de células inflamatórias mononucleares e heterofílicas (Panna et al., 2015; El-Demerdash et al., 2023). Estudos imunohistoquímicos demonstram que a presença de antígenos de P. multocida é mais intensa em tecidos de patos e codornas em comparação com galinhas, sugerindo diferenças na patogenicidade entre espécies aviárias (El-Demerdash et al., 2023). O diagnóstico da cólera aviária deve sempre considerar a associação dos dados epidemiológicos, sinais clínicos, lesões macroscópicas e microscópicas de necropsia, além de isolamento bacteriano e técnicas moleculares. A presença de necrose hepática multifocal e esplenomegalia, acompanhada de confirmação laboratorial da presença de P. multocida, constitui-se como um dos principais critérios diagnósticos da doença (Panna et al., 2015; El-Demerdash et al., 2023; Santos & Lovato, 2018). TRATAMENTO E PROFILAXIA O tratamento da cólera aviária, causada pela bactéria Pasteurella multocida, deve ser orientado por antibiograma devido à variabilidade da sensibilidade bacteriana e ao crescente surgimento de resistência aos antimicrobianos (Murer & Lovato, 2018). Em muitos casos, o tratamento precisa ser prolongado para garantir a eliminação da bactéria, uma vez que aves portadoras assintomáticas podem persistir mesmo após a terapia (Andreatti Filho, 2007). Contudo, os altos custos podem limitar a aplicação do tratamento em grandes plantéis. As sulfonamidas, especialmente a sulfaquinoxalina, são eficazes na redução da mortalidade, porém atuam de forma bacteriostática, o que permite a sobrevivência da bactéria em focos crônicos e pode causar toxicidade em tratamentos prolongados (Murer & Lovato, 2018). Outras opções terapêuticas incluem fluoroquinolonas, oxitetraciclinas, eritromicina, estreptomicina, novobiocina, gentamicina e sarafloxacina, sendo a escolha do antimicrobiano dependente do perfil de sensibilidade da cepa isolada (Berchieri Júnior et al., 2009). A interrupção precoce do tratamento não é recomendada, pois pode favorecer a recidiva da doença, a evolução para formas crônicas e o desenvolvimento de resistência bacteriana (Andreatti Filho, 2007). A prevenção da cólera aviária fundamenta-se em um manejo rigoroso, que inclui o controle adequado da lotação das aves, alimentação balanceada e higienização constante do ambiente e dos equipamentos (Murer & Lovato, 2018). Alojar lotes de idade única é uma estratégia importante para reduzir a disseminação do agente, dificultando a transmissão entre aves de diferentes faixas etárias (Berchieri Júnior et al., 2009). É imprescindível adquirir aves de granjas certificadas como livres da doença e restringir o acesso de pessoas, cães e gatos às instalações, evitando a introdução e disseminação da bactéria (Murer & Lovato, 2018). A vacinação é de suma importância na profilaxia da doença. Vacinas vivas atenuadas são amplamente empregadas, embora possam, em aves imunodeprimidas, induzir formas crônicas da doença, reforçando a necessidade de manter um bom status sanitário do plantel antes da aplicação (Andreatti Filho, 2007). A virulência da vacina viva está inversamente relacionada à dose necessária para induzir a imunidade protetora, o que exige atenção para equilibrar eficácia e segurança (Berchieri Júnior et al., 2009). A aplicação inicial ocorre entre a 10ª e 12ª semanas de vida, com reforço entre a 18ª e 20ª semanas, assegurando proteção antes do início da postura (Murer & Lovato, 2018). Sempre que possível, recomenda-se a identificação do sorotipo presente para a escolha da vacina mais adequada; na impossibilidade, utilizam-se vacinas comerciais com sorotipos comuns ou bacterianas autógenas preparadas a partir de cepas locais (Berchieri Júnior et al., 2009). Dessa forma, o controle da cólera aviária requer uma estratégia integrada que associe diagnóstico laboratorial, manejo sanitário rigoroso, vacinação adequada e uso criterioso de antimicrobianos, adaptada à realidade epidemiológica de cada granja, garantindo a saúde e a produtividade das aves. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Camila Neves de. Pesquisa de genes associados à virulência em cepas de Pasteurella multocida isoladas de cólera aviária nos Estados Unidos e avaliação do emprego de cartões FTA para o transporte do DNA bacteriano. 2015. ANDREATTI FILHO, R. L. Pasteurella multocida em aves: aspectos clínicos, diagnóstico e controle. 2007. BERCHIERI JÚNIOR, A. et al. Doenças bacterianas em aves comerciais. 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