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7 22/03/17 1 COPIADORA Blaco sala 103 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE LETRAS GLC Introdução à Literatura Portuguesa I Seleção de textos LUÍS DE CAMÕES COPIADORA WINI 32 Glosa Primeira a mote alheio. A D. Francisca de Aragão, man- dando-lhe esta regra que lha glosasse: Pag. 23 MAS PORÉM a que cuidados? 111A Tanto maiores tormentos Foram sempre os que sofri, Daquilo que cabe em mi[m]. Que não sei que pensamentos São pera que na[s]ci. de Quando vejo este meu peito A perigos arriscados Inclinado. bem suspeito Que a cuidados sou sujeito. Mas porém a que Glosa Segunda ao mesmo. QUE VINDES em mi[m] buscar, Cuidados, que sou cativo? não tenho que vos dar. prazer der Se vindes a me matar, Já há muito que não vivo. 5 do Se vindes porque me dais Tormentos desesperados, Eu, que sempre sofri mais, Não digo que não venhais. 36 Voltas a mote Mas porém a qué, cuidados? 1 10 do MENINA dos olhos verdes, Por que me não vedes? Glosa Terceira ao mesmo. SE AS PENAS que Amor me deu Vêm por tão suaves meios, Não há que temer receios, Que val um cuidado meu Eles verdes são, 5 Por mil descansos alheios. Ter nuns olhos tão fermosos E têm por usança 5 Na cor, esperança, Os sentidos enlevados, E nas obras, não. Bem sei que em ba[i]xos estados Vossa condição São cuidados perigosos. 10 Não é de olhos verdes, Mas porém, ah! que cuidados! Porque me não vedes. 35 Carta que Autor mandou a D. Francisca de Aragão com as 10 Isenções a molhos glosas acima. Que eles dizem terdes, SENHORA: Deixci-me enterrar no esquecimento de V. Não são de olhos verdes, M., crendo me seria assi[m] mais seguro; mas agora Nem de verdes olhos. que servida de me a ressu[s]citar, por mos- Sirvo de geolhos, trar seus poderes. lembro-lhe que vida trabalhosa 15 E vós não me credes. é menos agradecer que morte descansada. Mas Por que me não vedes? vida. que agora de novo me dá, for pera Haviam de ver,* ma tomar. servindo-se dela, não me fica Por que possa vê-los, mais que desciar que poder acertar com este mote Que uns olhos tão belos de V. M., ao qual dei três entendimentos, segundo 20 Não se hão de esconder. 10 as palavras dele puderam sofrer. Se forem bons, Mas fazeis-me crer mote de V. M.; se maus, são as glosas minhas. Que já não são verdes, Porque me não vedes. Verdes não o são 25 No que alcanço deles; Verdes são aqueles Que esperança dão. Se na condição Está serem verdes, 30 Por que me não vedes?71 Redondilhas de rios que vão Não movereis a espessura, Por Babilônia, me achei, Nem podereis já trazer Onde sentado chorei Atrás vós a fonte pura, As lembranças de Sião Pois não pudestes mover 5 E quanto nela passei. Desconcertos da ventura. Ali, o rio corrente Ficareis oferecida De meus olhos foi manado; À Fama, que sempre vela, E, tudo bem comparado, Frauta de mi[m] tão querida; Babilônia ao mal presente, Porque, mudando-se a vida, 10 Sião ao tempo passado. 15 Se mudam gostos dela. Ali, lembranças contentes Acha a tenra mocidade Na alma se representaram; Prazeres acomodados, E minhas cousas ausentes E logo a maior idade Se fizeram tão presentes Já sente por pouquidade Como se nunca passaram. 90 15 Aqueles gostos passados. Ali, de[s]pois de acordado, Um gosto que hoje se alcança, Co rosto banhado em água, Amanhã já o não vejo: Deste sonho imaginado, Assi[m] nos traz a mudança Vi que todo o bem passado De esperança em esperança Não é gosto, mas é mágoa. 95 20 E de desejo em desejo. E vi que todos danos Mas em vida tão escassa Se causavam das mudanças Que esperança será forte? E as mudanças dos anos; Fraqueza da humana sorte, Onde vi quantos enganos Que quanto da vida passa 25 Faz o tempo às esperanças. 100 Está recitando a morte!* Ali vi o maior bem Mas deixar nesta espessura Quão pouco espaço que dura; O canto da mocidade! O mal quão depressa vem, Não cuide a gente futura E quão triste estado tem Que será obra da idade 30 Quem se fia da ventura. 105 O que é força da ventura. Vi aquilo que mais val, Que idade, tempo, o espanto Que então se entende melhor, De ver quão ligeiro passe, Quando mais perdido for; Nunca em mi[m] puderam tanto Vi [a]o bem suceder mal Que, posto que deixe canto, 35 E, [a]o mal, muito pior. 110 A causa dele deixasse. E vi com muito trabalho Comprar arrependimento. Mas em tristezas e nojos, Vi nenhum contentamento, Em gosto e contentamento, E vejo-me a mi[m], que espalho Por sol, por neve, por vento, 40 Tristes palavras ao vento. Terné presente a los ojos 115 Por quien muero tan contento. Bem são rios estas águas Com que banho este papel; Órgãos e frauta deixava, Bem parece ser cruel Despojo meu tão querido, Variedade de mágoas No salgueiro que ali estava, 45 E confusão de Babel. Que pera troféu ficava 120 De quem me tinha vencido. Como homem que, por exemplo Dos transes em que se achou, Mas lembranças da afeição De[s]pois que a guerra deixou, Que ali cativo me tinha, Pelas paredes do templo Me perguntaram então: 50 Suas armas pendurou; Que era da música minha 125 Que eu cantava em Sião? Assi[m], de[s]pois que assentei Que tudo o tempo gastava, Que foi daquele cantar Da tristeza que tomei, Das gentes tão celebrado? Nos salgueiros pendurei Por que o deixava de usar? 55 Os órgãos com que cantava. Pois sempre ajuda a passar 130 Qualquer trabalho passado. Aquele instrumento ledo Canta o caminhante ledo Deixei da vida passada, No caminho trabalhoso, Dizendo: Música amada, Por entre o espesso arvoredo; Deixo-vos neste arvoredo, E de noite o temeroso, 60 memória consagrada. 135 Cantando, refreia medo. Frauta minha que, tangendo, Canta preso docemente, Os montes faz[í]eis vir Os duros grilhões tocando; Pera onde estáveis, correndo, Canta segador contente, E as águas, que iam de[s]cendo, 65 E o trabalhador, cantando, Tornavam logo a subir, 140 O trabalho menos sente. Jamais vos não ouvirão Os tigres, que se amansavam; Eu, que estas cousas senti Na alma, de mágoas tão cheia, E as ovelhas, que pastavam, Como dirá, respondi, Das ervas se fartarão Quem tão alheio está de si :0 Que por vos ouvir deixavam. 145 Doce canto em terra alheia? Já não fareis docemente Como poderá cantar Em rosas tornar abrolhos Quem em choro banha peito? Na ribeira flore[s]cente; Porque, se quem trabalhar Nem poreis freio à corrente, Canta por menos 150 Eu só descansos enjeito. E mais se for dos meus olhos.3 Que não parece razão E os que cá me cativaram Nem seria cousa idônea São poderosos afeitos Por abrandar a paixão, Que corações têm sujeitos; Que cantasse em Babilônia Sofistas que me ensinaram As cantigas de Sião. 230 Maus caminhos por direitos. Que, quando a muita graveza Destes o mando tirano De saudade quebrante Me obriga, com desatino, Esta vital fortaleza, A cantar, ao som do dano, Antes moura de tristeza Cantares de amor profano 150 Que, por abrandá-la, cante. Por versos de amor divino. Que, se o fino pensamento Mas cu, lustrado santo Só na tristeza consiste, Raio, na terra de dor, Não tenho medo ao tormento: De confusões e de espanto, Que morrer de puro triste, Como hei de cantar o canto 165 Que maior contentamento? :4) Que só se deve ao Senhor? Nem na frauta cantarei Tanto pode benefício O que passo e passei já, Da Graça, que dá saúde, Nem menos o escreverei; Que ordena que a vida mude: Porque a pena cansará E o que tomei por vício 170 E eu não descansarei. Me faz grau pera a virtude. Que, se vida tão pequena E faz que este natural Se acre[s]centa em terra estranha, Amor, que tanto se preza, E se Amor assi[m] o ordena, Suba da sombra ao real, Razão é que canse a pena Da particular beleza 175 De escrever pena tamanha. Pera a Beleza geral. Porém se, pera assentar Fique logo pendurada que sente o coração, A frauta com que tangi, pena já me cansar, Hierusalém sagrada, Não canse pera voar E tome a lira dourada 180 A memória em Sião. só cantar de ti; Não cativo ferrolhado Na Babilônia infernal, Terra bem-aventurada, Mas dos vícios desatado Se, por algum movimento, E cá desta a ti levado, Da alma me fores mudada, Pátria minha natural. Minha pena seja dada perpétuo esquecimento. E se eu mais der a cerviz A mundanos acidentes, A pena deste desterro, Duros, tiranos e urgentes, Que eu mais desejo esculpida Risque-se quanto já fiz Em pedra ou em duro ferro, Do grão livro dos viventes. Essa nunca seja ouvida, 190 Em castigo de meu erro. E, tomando já na mão A lira santa e capaz Doutra mais alta invenção, E se eu cantar quiser, Cale-se esta confusão, Em Babilônia sujeito, Cante-se a visão da paz! Hierusalém, sem te ver, A voz, a mover, 195 Se me congele no peito. Ouça-me o pastor e o Rei, A língua se apegue Retumbe este acento santo, Às fauces, pois te perdi, Mova-se no mudo espanto; Se, enquanto viver assi[m], Que do que já mal cantei Houver tempo em que te negue 275 A palinódia já canto. 200 Ou que me de ti! A vós só me quero ir, Mas, ó tu, terra de Glória, Senhor e grão Capitão Se eu nunca vi tua essência, Da alta torre de Sião, Como me lembras na ausência? À qual não posso subir, Não me lembras na memória, 280 Se me vós não dais a mão. 205 Senão na reminiscência. No grão dia singular Que a alma é tábua rasa Que na lira douto som Que com a escrita doutrina Celeste tanto imagina, Hierusalém celebrar, Que voa da própria casa Lembrai-vos de castigar 285 210 Os ruins filhos de Edom. E sobe à pátria divina. Não é logo a saudade Aqueles que tintos vão Das terras onde na[s]ceu No pobre sangue inocente, A carne, é do Soberbos CO poder vão; Daquela santa Cidade Arrasai-os igualmente, 215 Donde esta alma descendeu. 290 Conheçam que humanos são. E aquela humana figura, E aquele poder tão duro Que cá me pode alterar, Dos afeitos com que venho, Não é quem se há de buscar: Que incendem alma e engenho; É raio da Fermosura Que já me entraram o muro 220 Que só se deve de amar. 295 Do livre arbítrio que tenho; Que os olhos e a luz que ateia Estes, que tão furiosos O fogo que cá sujeita, Gritando vêm a escalar-me, Não do sol, mas da candeia, Maus espíritos danosos, É sombra daquela ideia Que querem como forçosos 225 Que em Deus está mais perfeita. 300 Do alicerce derrubar-me;Derrubai-os, fiquem sós, De forças fracos, imbeles; Porque não podemos nós Nem com eles ir a Vós, 305 Nem sem Vós tirar-nos deles. Não basta minha fraqueza Pera me dar defensão, Se Vós, santo Capitão, Nesta minha fortaleza 310 Não puserdes guarnição. E tu, ó carne que encantas, Filha de Babel tão feia, Toda de misérias cheia, Que mil vezes te levantas 315 Contra quem te senhoreia, Beato só pode ser Quem coa ajuda celeste Contra ti prevalecer, 75 Trovas. A uma dama que lhe mandou pedir obras E te vier a fazer 1 SENHORA, se eu alcançasse, 320 O mal que lhe tu fizeste; No tempo que ler quereis, Quem com disciplina crua Que a dita dos meus papéis Se fere mais que üa vez, Pela minha se trocasse; Cuja alma, de vícios nua, 5 E por ver Faz nód[o]as na carne sua, Tudo o que posso escrever Que já a carne na alma fez. Em mais breve relação, Indo eu onde eles vão. E beato quem tomar Por mi[m] só quisésseis ler; Seus pensamentos recentes E em na[s]cendo afogar, 10 De[s]pois de ver um cuidado Por não virem a parar Tão contente de seu mal, 330 Em vícios graves e urgentes; Ver[í]eis natural Do que aqui vedes pintado; Quem com eles logo der Que o perfeito Na pedra do furor santo 15 Amor de que sujeito, E, batendo, os desfizer Vereis áspero e cruel: Na Pedra, que veio a ser Aqui, com tinta e papel; 335 Enfim cabeça do Canto; Em mi[m], com sangue no peito. Quem logo, quando imagina Nos vícios da carne má, Que um contín[u]o 20 Os pensamentos declina Naquilo que Amor carne divina É pena que, enfim, pena 340 Que na Cruz esteve já; Se não pode declarar: Que, se eu levo Quem do vil contentamento Dentro na alma quanto devo Cá deste mundo visível, 25 De trasladar em papéis. Quanto ao homem for possível, Vede que melhor lereis: Passar logo o entendimento Se a mi[m], aquilo que escrevo. 345 Pera o mundo inteligível: Ali achará alegria L, Ele um Em tudo perfeita e cheia De tão suave harmonia, com Que, nem por pouca, recreia," 350 Nem, por sobeja, enfastia. Ali verá tão profundo Mistério na suma Alteza, Que, vencida a Natureza, Os mores faustos do Mundo Julgue por maior ba[i]xeza. tu, divino apo[u]sento, Minha pátria singular, Se só com te imaginar Tanto sobe o entendimento, 360 Que fará, se em ti se achar? Ditoso quem se partir Pera ti, terra excelente, Tão justo e tão penitente, Que, de[s]pois de a ti subir, 365 Lá descanse eternamente! 4Da 1 6 Enquanto quis Fortuna que tivesse Eu cantarei de amor tão docemente, Esperança de algum contentamento, gosto de um suave pensamento que um Por uns termos em si tão concertados, Que dous mil acidentes namorados Me fez que seus efeitos escrevesse. Faça sentir ao peito que não sente. Porém, temendo Amor que aviso desse Farei que amor a todos avivente, Minha escritura a algum juízo isento, Escureceu-me o engenho CO tormento, Pintando mil segredos delicados, do Brandas iras, suspiros magoados, do Para que seus enganos não dissesse. Temerosa ousadia e pena ausente. vós que Amor obriga a ser sujeitos D que Também, Senhora, do desprezo honesto A diversas vontades! Quando lerdes De nossa vista branda e rigorosa, Num breve livro casos tão diversos, Contentar-me-ei dizendo a menor parte. Verdades puras são e não defeitos; Porém, pera cantar de gesto E sabei que, segundo o amor tiverdes, A composição alta e milagrosa, Tereis entendimento de meus versos. Aqui falta saber, engenho e arte. 2 40 Sete anos de pastor Jacob servia Suspiros inflamados, que cantais Labão, pai de Raquel, serrana bela; A tristeza com que eu vivi tão ledo, Eu mouro e não vos levo, porque hei medo Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prémio pretendia. Que ao passar do Lete vos percais. Os dias, na esperança de um só dia, Escritos para sempre já ficais Passava, contentando-se com vê-la; Onde vos mostrarão todos CC dedo, Porém pai, de cautela, Como exemplo de males; que eu concedo Em lugar de Raquel dava Lia. Que para aviso de outros estejais. Vendo triste pastor que com enganos Em quem, pois, virdes falsas esperanças Lhe fora assi negada a sua pastora, De Amor e da Fortuna, cujos danos Como se a não tivera merecida, Alguns terão por bem-aventuranças, Começa de servir outros sete anos, Dizei-lhe que os servistes muitos anos, Dizendo: Mais servira, se não fora E que em Fortuna tudo são mudanças, Para tão longo amor tão curta a vida! E que em Amor não há senão enganos. 3 41 Depois que quis Amor que eu só passasse cisne, quando sente ser chegada Quanto mal já por muitos repartiu, A hora que põe termo a sua vida, Entregou-me à Fortuna, porque viu Música com alta e mui subida Que não tinha mais mal que em mim mostrasse. Levanta pela praia inabitada. Ela, por que do Amor se avantajasse Deseja ter a vida prolongada, No tormento que Céu me permitiu, Chorando do viver a despedida; que para ninguém se consentiu, Com grande saudade da partida, Para mim só mandou que se inventasse. Celebra 0 triste fim desta jornada. Eis-me aqui com vário som gritando, Assi, Senhora minha, quando via Copioso exemplário pera a gente triste fim que davam meus amores, Que destes dois tiranos é sujeita, Estando posto já no extremo fio, Desvarios em versos concertando. Com mais suave canto e harmonia Triste quem seu descanso tanto estreita, Descantei pelos vossos disfavores Que deste tão pequeno está contente! La vuestra falsa fé, Y el amor mio.42 go 102 Se as penas com que Amor tão mal me trata Aquela triste e leda madrugada, Permitirem que tanto viva delas, Cheia toda de mágoa e de piedade, Que veja escuro lume das estrelas Enquanto houver no mundo saudade Em cuja vista meu SP. acende e mata; Quero que seja sempre celebrada. E se tempo, que tudo desbarata, Ela só, quando amena e marchetada Secar as frescas rosas sem colhê-las, Saia, dando ao mundo claridade, Mostrando a linda cor das tranças belas Viu apartar-se de ama outra vontade, Mudada de ouro fino em bela prata; Que nunca poderá ver-se apartada. presents Vereis, Senhora, então também mudado Ela só viu as lágrimas em fio. 0 pensamento e aspereza vossa, do Que de uns e de outros olhos derivadas, Quando não sirve já sua mudança. Se acrescentaram em grande e largo rio. Suspirareis então pelo passado, Ela ouviu as palavras Em tempo quando executar-se possa Que puderam tornar fogo frio Em vosso arrepender minha vingança, E dar descanso às almas condenadas. se pelo 43 amade 120 Nos braços de um silvano adormecendo Se estava aquela ninfa que eu adoro, Pagando com a boca doce foro, Alma minha gentil, que te partiste Com que meus foi escurecendo. Tão cedo desta vida, descontente, Repousa lá no Céu eternamente bela Vénus! porque estás sofrendo E viva eu cá na terra sempre triste. Que a maior formosura do teu coro Em um poder tão vil perca decoro Se lá no assento etéreo, onde subiste, Que mérito maior está devendo? Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente Eu levarei daqui por pressuposto, Que já nos olhos meus tão puro viste. Desta nova estranheza que fizeste, Que em ti não pode haver cousa segura. E se vires que pode merecer-te Alguma cousa a dor que me ficou Que, pois claro lume, belo rosto Da mágoa, sem remédio, de perder-te. monstro tão disforme deste, Não creio que haja Amor, senão Ventura. Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou. 101 Composição sobre um soneto de Petrarca. Tem-se discutido muito sobre 0 que nele exista de original. Forme 0 leitor a sua opinião comparando a versão camoniana com a tradução literal De vós me aparto, ó Vida! Em tal mudança do italiano, isto é, a forma que ele tem em português sem qual- Sinto vivo da morte sentimento. quer reelaboração poética: Não sei para que é ter contentamento, Alma bela, liberta daquele Se mais há-de perder quem mais alcança. Mais belo entre todos que Natureza soube Pensa, lá no Céu, na minha vida Mas dou-vos esta firme segurança: De tão alegres pensamentos agora Que posto que me mate meu tormento, Pelas águas do eterno esquecimento Abandonou meu coração falsa Que antes me fez e dura Segura passará minha lembrança. A tua doce agora, já segura, Volve para mim os e escuta CS meus suspiros. Antes sem vós meus olhos se entristeçam, Que com qualquer cousa outra se contentem; Olha a grande penha onde nasce Sorgo Antes esqueçais, que vos esqueçam; E verás que, por entre as ervas e as águas, Da tua memória e dor se apascenta. Antes nesta lembrança se 10 lugar) onde jaz a tua morada e onde nasceu Que com esquecimento desmereçam nosso amor queres que abandone e A glória que em sofrer tal pena sentem. Para não ver nos leus que te130 121 Quem diz que Amor é falso ou enganoso, Ah! minha Dinamene! assim deixaste Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido. Quem não deixara nunca de querer-te! Sem falta lhe terá bem merecido Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te! Que seja cruel ou rigoroso. Tão asinha esta vida desprezaste! Amor é brando, é doce e é piedoso. Como já para sempre te apartaste Quem o contrário diz não seja crido; De quem tão longe estava de perder-te? Seja por cego e apaixonado tido, Puderam estas ondas defender-te E aos homens, e inda aos deuses, odioso. Que não visses quem tanto magoaste? Se males faz Amor, em mi se Nem falar-te somente a dura Morte Em mi mostrando todo seu rigor, Me deixou, que tão cedo negro manto Ao mundo quis mostrar quanto podia. Em teus olhos deitado consentiste! Mas todas suas iras são de Amor; Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte! Todos estes seus males são um bem, Que pena sentirei que valha tanto, Que eu por todo outro bem não trocaria. Que inda tenha por pouco viver triste? 131 122 Tanto de meu estado me acho incerto, Quando de minhas mágoas a comprida Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Maginação os olhos me adormece, Em sonhos aquela alma me aparece Sem causa, juntamente choro e rio; Que para mim foi sonho nesta vida. Mundo todo abarco e nada aperto. Lá numa soidade, onde estendida É tudo quanto sinto um A vista pelo campo desfalece, Da alma um fogo me sai, da vida um rio; Corro para ela; e ela então parece Agora espero, agora desconfio, Que mais de mim se aionga, compelida. Agora desvario, agora acerto. Brado: Não me fujais, sombra benina! Estando em terra, chego ao céu voando; Ela, olhos em mim cum brando pejo, Numa hora acho mil anos, e é de jeito Como quem diz que já não pode ser, Que em mil anos não posso achar uma hora. Torna a fugir-me. E eu gritando: Dina... Se me pergunta alguém porque assim ando, Antes que diga: mene, acordo, e vejo Respondo que não sei; porém suspeito Que nem um breve engano posso ter. Que só porque vos vi, minha Senhora. 129 133 Amor é fogo que arde sem se ver; Muciam-se as tempos, mudam-se as vontades, É ferida que dói e não se sente; Muda-se 0 ser, muda-se a confiança; É um contentamento descontente; Todo 0 mundo é composto de mudança. É dor que desatina sem doer; Tomando sempre novas qualidades. É um não querer mais que bem querer; Continuamente vemos É solitário andar por entre a gente; Diferentes em tudo da nunca contentar-se de contente; Do mal ficam as mágoas na lembrança, É cuidar que se ganha em se perder; E do bem, se algum houve, as saudades. É querer estar preso por vontade; 0 tempo cobre chão de verde manto. É servir a quem vence, 0 vencedor; Que já coberto foi de neve fria, É ter com quem nos mata lealdade. E em mim converte em choro e doce canto. Mas como causar pode seu favor E, afora este mudar-se cada dia, Nos corações humanos amizade, Outra mudança faz de mor espanto, Se tão contrário a si é mesmo Que não se muda já como soia.132 Coitado! que em um tempo choro e rio; Transforma-se amador na cousa amada, Espero e temo, quero e aborreço; Por virtude do muito imaginar; Juntamente me alegro e entristeço; Não tenho logo mais que desejar, De uma cousa confio e desconfio. Pois em mim tenho a parte desejada. Avoo sem asas; estou cego e guio; Se nela está minha alma transformada, E no que valho mais menos mereço Que mais deseja 0 corpo de alcançar? Calo e dou vozes, falo e Em si somente pode descansar, Nada me contradiz, e eu aporfio. Pois consigo tal alma está Qu'ria, se ser pudesse, o impossível; Mas esta linda e pura semideia, Qu'ria poder mudar-me, e estar quedo; Que, como acidente em seu sujeito, Usar de liberdade, e ser cativo; Assim a alma minha se conforma, Queria que visto fosse, e invisivel; Está no pensamento como ideia; Qu'ria desenredar-me, e mais me enredo: vivo e puro amor de que sou feito, Tais os extremos em que triste vivo! Como a matéria simples busca a forma. mas Tem amr come 136 151 Vós outros, que buscais repouso certo Pede 0 desejo, Dama, que vos veja. Na vida, com diversos exercícios; Não entende 0 que pede; está enganado. A quem, vendo do mundo os É este amor tão fino e tão delgado, regimento seu está encoberto; Que quem tem não sabe que deseja. Dedicai, se quereis, ao Desconcerto Não há cousa a qual natural seja Novas honras e cegos sacrificios; Que não queira perpétuo seu estado. Que, por castigo igual de antigos Não quer logo desejo desejado, Quer Deus que andem as coisas por acerto Por que não falte nunca onde sobeja. Não caiu neste modo de castigo Mas este puro afeito em mim se dana; Quem pôs culpa à Fortuna, quem somente Que, como a grave pedra tem por arte Crê que acontecimentos há no Mundo. 0 centro desejar da Natureza, A grande experiência é grão perigo; Assi pensamento, pela parte Mas que a Deus é justo e evidente Que vai tomar de mim, terrestre, humana, Parece injusto aos homens, e profundo. Foi, Senhora, pedir esta baixeza. 137 160 Verdade, amor, razão, merecimento Qualquer alma farão segura e forte, Erros meus, má fortuna, amor ardente Porém, fortuna, caso, tempo e sorte Em minha perdição se conjuraram; do confuso mundo regimento Os erros e a fortuna sobejaram, Que para mim bastava amor somente. Efeitos mil resolve o pensamento, E não sabe a que causa se reporte; Tudo passei; mas tenho tão presente Mas sabe que que é mais vida e morte A grande dor das cousas que passaram, Que não o alcança humano entendimento. Que as magoadas iras me ensinaram A não querer já nunca ser contente. Doutos varões darão razões subidas, Mas são experiências mais provadas, Errei todo discurso de meus anos; E por isto é melhor ter muito visto. Dei causa que a Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças. Cousas há i que passam sem ser cridas, E cousas cridas há sem ser passadas. De amor não vi senão breves enganos... Mas melhor de tudo é crer em Cristo. Oh! quem tanto pudesse, que fartasse Este meu duro Génio de vinganças! 8COPIADORA Bloco B sala 103 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE LETRAS GLC Introdução à Literatura Portuguesa I Seleção de textos MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE (176 1805) Ó tranças de que Amor prisões me tece, Marília, nos teus olhos buliçosos mãos de neve, que regeis meu fado! Os Amores gentis seu facho acendem; Ó tesoiro! mistério! par sagrado, A teus lábios, voando, ares fendem Onde o menino alígero adormece! Terníssimos desejos ledos olhos, cuja luz parece Teus cabelos sutis e luminosos Tênue raio de sol! Ó gesto amado, Mil vistas cegam, mil vontades prendem; De rosas e açucenas semeado, E em arte aos de Minerva se não rendem Por quem morrera esta alma, se pudesse! Teus alvos, curtos dedos melindrosos. lábios, cujo riso a paz me tira, Reside em teus costumes a candura, E por cujos dulcíssimos favores Mora a firmeza no teu peito amante, Talvez o próprio Júpiter suspira! A razão com teus risos se mistura. perfeições! Ó dons encantadores! És dos Céus o composto mais brilhante; De quem sois? Sois de Vênus? É mentira; Deram-se as mãos Virtude e Formosura, Sois de Marília, sois dos meus amores. Para criar tua alma e teu semblante. Marília, se em teus olhos atentara, Já se afastou de nós Inverno agreste, Do estelífero sólio reluzente, Envolto nos seus úmidos vapores; Ao vil mundo outra vez onipotente, A fértil Primavera, a mãe das flores, fulminante Júpiter baixara. O prado ameno de boninas veste. Se o deus que assanha as Fúrias, te avistara Varrendo os ares, sutil Nordeste As mãos de neve, o colo transparente, Os torna azuis; as aves de mil cores Suspirando por ti, do caos ardente Adejam entre Zéfiros e Amores, Surgira à luz do dia e te roubara. E toma fresco Tejo a cor celeste. Se a ver-te de mais perto o Sol descera, Vem, ó Marília, vem lograr comigo No áureo carro veloz dando-te assento, Destes alegres campos a beleza, Até da esquiva Dafne se esquecera. Destas copadas árvores o abrigo. E se a força igualasse o pensamento, Deixa louvar da corte a vã grandeza: alma da minh'alma, eu te of'recera Quanto me agrada mais estar contigo, Com ela a Terra, Mar e o Notando as perfeições da Natureza! Olha, Marília, as flautas dos pastores, Grato silêncio, trêmulo arvoredo, Que bem que soam, como estão cadentes! Sombra propícia aos crimes aos amores, Olha Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes Hoje serei feliz! Longe, temores, Os Zéfiros brincar por entre as flores? Longe, fantasmas, ilusões do medo. Vê como ali, beijando-se, os Amores Sabei, amigos Zéfiros, que cedo Incitam nossos ósculos ardentes! Entre os braços de Nise, entre estas flores, Ei-las de planta em planta as inocentes, Furtivas glórias, tácitos favores As vagas borboletas de mil cores! Hei-de enfim possuir. Porém, segredo! Naquele arbusto o rouxinol suspira; Nas asas frouxos ais, brandos queixumes Ora nas folhas a abelhinha pára. Não leveis, não façais isto patente, OΓa nos ares, sussurrando, gira. Que nem quero que o saiba o Pai dos numes. Que alegre campo! Que manhã tão clara! Cale-se caso a Jove onipotente; Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira, Mais tristeza que noite me causara. Porque, se ele o souber, terá ciúmes, Vibrará contra mim seu raio ardente.Incultas produções da mocidade Negra fera que a tudo as garras lanças, Exponho a vossos olhos, ó leitores. Já murchaste, insensível a clamores, Vede-as com mágoa, vede-as com piedade, Nas faces de Tirsália as rubras flores, Que elas buscam piedade e não louvores. Em meu peito as viçosas esperanças. Ponderai da Fortuna a variedade Monstro, que nunca em teus estragos cansas, Nos meus suspiros, lágrimas e amores; Vê as três Graças, vê os nus Amores Notai dos males seus a imensidade, Como praguejam teus cruéis furores, A curta duração dos seus favores. Ferindo rostos, arrancando as tranças. E se entre versos mil de sentimento Domicílio da Noite, horror sagrado, Encontrardes alguns, cuja aparência Onde jaz destruída a formosura, Indique festival contentamento, Abre-te, dá lugar a um desgraçado. Crede, ó mortais, que foram com violência Eis desço, eis cinzas palpo Ah, Morte dura! Escritos pela mão do Fingimento, Ah, Tirsália! Ah, meu bem, resto adorado! Cantados pela voz da Dependência. Torna, torna a fechar-te, ó sepultura! Chorosos versos meus desentoados, Sem arte, sem beleza e sem brandura, Sobre estas duras, cavernosas fragas, Urdidos pela mão da Desventura, Que o marinho furor vai carcomendo, Pela baça Tristeza envenenados: Me estão negras paixões n'alma fervendo Como fervem no pego as crespas vagas. Vede a luz, não busqueis, desesperados, No mudo esquecimento a sepultura; Razão feroz, coração me indagas, Se ditosos vos lerem sem ternura, De meus erros a sombra esclarecendo, Ler-vos-ão com ternura desgraçados. E vás nele (ai de mim!) palpando e vendo De agudas ânsias venenosas chagas. Não vos inspire, ó versos, cobardia Da sátira mordaz furor louco, Cego a meus males, surdo a teu reclamo, Da maldizente voz a tirania. Mil objetos de horror co'a idéia eu corro, Solto gemidos, lágrimas derramo. Desculpa tendes, se valeis tão pouco; Que não pode cantar com melodia Razão, de que me serve teu socorro? Um peito, de gemer cansado e rouco. Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo; Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro. Temo que a minha ausência e desventura Vão na tua alma, docemente acesa, Que idéia horrenda te possui, Elmano? Apoucando os excessos da firmeza, Que ardente frenesi teu peito inflama? Rebatendo os assaltos da ternura. A razão te alumie! Apaga a chama, Reprime a raiva do Ciúme insano! Temo que a tua singular candura Leve Tempo, fugaz, nas asas presa, Esperanças consome, ou vive ufano. Que é quase sempre vício da beleza Ah!, foge, ou cinge da vitória a rama. Gênio mudável, condição perjura. Ama-te a bela Armia, ou te não ama, Seus ais são da ternura, ou são do engano. Temo; e se o fado mau, fado inimigo, Confirmar impiamente este receio, Se te não consternem teus queixumes 'Spectro perseguidor que anda comigo, Os olhos de que estás enfeitiçado, Do puro céu de Amor benignos lumes. Com rosto alguma vez de mágoa cheio, Recorda-te de mim, dize contigo: Se outro n'alma de Armia anda gravado, "Era fiel, amava-me, e deixei-o." Que fruto hás-de colher dos vãos ciúmes? Ser odioso, além de desgraçado. 12Do cárcere materno em hora escura, A frouxidão no amor é uma ofensa, Em momento infeliz, triste, agoirado, Ofensa que se eleva a grau supremo; Me desaferrolhou terrível Fado, Paixão requer paixão; fervor e extremo Meus dias cometendo à Desventura. Com extremo e fervor se recompensa. Vê qual sou, qual és, vê que Perigosas sementes de ternura Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo; Havia o deus feroz em mim lançado, Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo; Que mil azedos frutos têm brotado, Em sombras a Razão se me condensa. Regadas pelos prantos da amargura. Tu só tens gratidão, só tens brandura, Escravo da despótica beleza, E antes que um coração pouco amoroso, Remir-me de ímpia que me domina, Quisera ver-te uma alma ingrata e dura. Tento e desmaio, ao começar a empresa. Talvez me enfadaria aspecto iroso, Oh, poder da paixão, que me alucina! Mas de teu peito a lânguida ternura Oh, cego Amor! Oh, frágil Natureza! Tem-me cativo, e não me faz ditoso. N'alma busco a razão, e encontro Já Bocage não sou!... À cova escura Meu ser evaporei na lida insana Meu estro vai parar desfeito em vento... Do tropel de paixões, que me arrastava; Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhava Leve me torne sempre a terra dura. Em mim quase imortal a essência humana. Conheço agora já quão vã figura De que inúmeros sóis a mente ufana Em prosa e verso fez meu louco intento. Existência falaz me não doirava! Musa!... Tivera algum merecimento, Mas eis sucumbe a Natureza escrava Se um raio da razão seguisse, pura! Ao mal que a vida em sua origem dana. Eu me arrependo; a língua quase fria Prazeres, sócios meus e meus tiranos! Brade em alto pregão à mocidade, Esta alma, que sedenta em si não coube, Que atrás do som fantástico corria: No abismo vos sumiu dos desenganos. "Outro Aretino fui... A santidade Deus, ó Deus! Quando a morte à luz me roube, Manchei... Oh!, se me creste, gente impia, Ganhe um momento,o que perderam anos, Rasga meus versos, crê na Eternidade!" Saiba morrer que viver não soube. Pouco a pouco a letífera Doença Não mais, ó Tejo meu, formoso e brando, Dirige para mim trêmulos passos, Eis seus caídos, macilentos braços, A margem fértil de gentis verdores, Eis a sua terrífica presença. Terás d'alta Ulisséia um dos cantores, Suspiros no áureo metro modulando. Virá pronunciar final sentença, Rindo não mais verás, não mais brincando, Em meu rosto cravando olhos baços, Por entre as ninfas e por entre as flores, Virá romper-me à vida tênues laços O coro divinal dos nus Amores, A fouce, contra a qual não há defensa. Dos Zéfiros azuis o afável bando. Oh!, vem, deidade horrenda, irma da Morte, Co'a fronte já sem mirto e já sem loiro, Vem, que esta alma, avezada a mil conflitos, O arrebata de rojo a mão da Sorte Não se assombra do teu, bem que mais forte. Ao clima salutar e à margem de oiro: Mas ah!, mandando ao Céu meus ais contritos, Ei-lo em fragas de horror, sem luz, sem norte, Espero que primeiro que teu corte Soa daqui, dali piado agoiro; Me acabe viva dor dos meus delitos. Sois vós, desterro eterno, ermos da Morte! 13

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