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UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA CURSO DE GRADUAÇÃO DIREITO DISCIPLINA: Direito das Sucessões Professora Cinthia Reis. Revisão para 2ª avaliação Direito Real de Habitação No momento que falece o “de cujus”, ocorre o que chamamos de princípio do saisine, ou seja, de acordo com o art. 1.784 do Código Civil, é neste momento que é aberta a sucessão, e a herança transmite-se desde logo aos herdeiros legítimos e testamentários. Importante não confundir a abertura da sucessão, que é o momento da morte, com a abertura de inventario, que é o procedimento legal que regulariza a sucessão de bens deixados por uma pessoa. Com a abertura do inventário, seja judicial ou extrajudicial, os sucessores devem elaborar o plano de partilha dos bens com a divisão do monte mor. A dúvida que fica é, o cônjuge sobrevivente tem direito real de habitação sobre algum bem? Esse direito se estende ao companheiro? Para entendermos esse direito, o art. 1.831 do Código Civil nos ensina que “Ao cônjuge sobrevivente, qualquer que seja o regime de bens, será assegurado, sem prejuízo da participação que lhe caiba na herança, o direito real de habitação relativamente ao imóvel destinado à residência da família, desde que seja o único daquela natureza a inventariar.”. Portanto, seja qual for o regime de bens, o cônjuge sobrevivente terá direito real de habitação, em bem de patrimônio particular ou comum do falecido, desde que seja do imóvel destinado à residência da família, independente de quantos bens possuía ou seus valores. Importante saber que, o direito real de habitação não pode gerar algum benefício financeiro como por exemplo, o cônjuge ou companheiro sobrevivente estar alugando um quarto do imóvel ou a garagem à terceiro, também no caso de comodato à terceiro, essas ações poderão gerar a perca do direito real de habitação. Vejamos a REsp 1.654.060/RJ: “4 - A interpretação sistemática do art. 7º, parágrafo único, da lei 9.278/96, em sintonia com as regras do CC/1916 que regem a concessão do direito real de habitação, conduzem à conclusão de que ao companheiro sobrevivente é igualmente vedada a celebração de contrato de locação ou de comodato, não havendo justificativa teórica para, nesse particular, estabelecer-se distinção em relação à disciplina do direito real de habitação a que faz jus o cônjuge sobrevivente, especialmente quando o acórdão recorrido, soberano no exame dos fatos, concluiu inexistir prova de que a titular do direito ainda reside no imóvel que serviu de moradia com o companheiro falecido.” O direito real de habitação se estende ao companheiro, vejamos o enunciado 117 do CJF – “o direito real de habitação deve ser estendido ao companheiro, seja por não ter sido revogada a previsão da lei 9.278/96, seja em razão da interpretação analógica do art. 1831, informado pelo art 6º, caput, da CF/88.”. Também, verifica-se a REsp. 1.846167/SP, “5. O direito real de habitação é ex lege (art. 1.831 do CC/15 e art. 7º da lei 9.272), vitalício e personalíssimo, o que significa que o cônjuge ou companheiro sobrevivente pode permanecer no imóvel até o momento do falecimento. Sua finalidade é assegurar que o viúvo ou viúva permaneça no local em que antes residia com sua família, garantindo-lhe uma moradia digna. 6. O advento do CC/02 deu ensejo à discussão acerca da subsistência do direito real de habitação ao companheiro sobrevivente. Essa questão chegou a este Tribunal Superior, que firmou orientação no sentido da não revogação da lei 9.278/96 pelo CC/02 e, consequentemente, pela manutenção do direito real de habitação ao companheiro supérstite.” Esse direito proporciona ao cônjuge ou companheiro sobrevivente, o direito vitalício sobre o imóvel, não podendo os demais herdeiros requerer ação de cobrança de aluguel, despejo, imissão da posse ou extinção de condomínio, porém o cônjuge ou companheiro sobrevivente pode requerer a renúncia e sair do imóvel, pois o direito real de habitação é considerado um direito disponível, conforme enunciado 271 da III Jornada de Direito Civil (CJF – STJ): “O cônjuge pode renunciar ao direito real de habitação, nos autos do inventário ou por escritura pública, sem prejuízo de sua participação na herança”. Vejamos o acórdão 1172494, 07049104020178070009, relator: NÍDIA CORRÊA LIMA, 8ª turma Cível, data de julgamento: 15/5/19, publicado no DJE: 13/6/19: “1. O cônjuge sobrevivente possui o direito real de habitação relativamente ao imóvel habitado pela família, desde que seja o único dessa natureza a ser inventariado, nos termos do art. 1.831 do Código Civil. 2. Reconhecido o direito real de habitação ao cônjuge supérstite, incabível sua condenação ao pagamento de aluguéis aos seus herdeiros, que formam o núcleo familiar. 3. No caso em exame, incabível se mostra a cobrança de aluguel do herdeiro que ocupa o imóvel deixado pelo falecido, quando ocupa, em unidade familiar com o cônjuge sobrevivente titular de direito real de habitação. Inteligência do art. 1.414 do Código Civil.” Destarte, o direito real de habitação, é um direito é ex lege, vitalício e personalíssimo, a qual permite que o cônjuge ou companheiro sobrevivente, independente do regime de bens, possa permanecer no imóvel até o momento do falecimento, desde que seja destinado à residência da família. EQUIPARAÇÃO DA SUCESSÃO LEGÍTIMA Depois de declarada a inconstitucionalidade do art. 1790 do CC que tratava dos direitos sucessórios do companheiro, de forma distinta da prevista para os cônjuges, impõe-se uma nova questão: o projeto de novo CC manterá essa equiparação? A discussão acerca da inconstitucionalidade do art. 1790 do CC que tratou dos direitos sucessórios do companheiro, declarada, pelo STF, perderá o objeto, por conta da reforma do CC, em vias de ser implementada, porque o direito sucessório dos cônjuges poderá ser alterado, e, consequentemente, o dos companheiros. A declaração de inconstitucionalidade do art. 1.790 do CC: Com a declaração de inconstitucionalidade do art. 1.790 do CC, no julgamento dos Recursos Extraordinários 878.694/MG e 646.721/RS, tendo como relator o ministro Luís Roberto Barroso, o STF, em repercussão geral, fixou a seguinte tese: tel:1172494 “É inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges e companheiros, prevista no art. 1790 do CC /02, devendo ser aplicado, tanto nas hipóteses de casamento quanto nas de união estável, o regime do art.1829 do CC /02.” "No sistema constitucional vigente é inconstitucional a diferenciação de regime sucessório entre cônjuges e companheiros devendo ser aplicado em ambos os casos o regime estabelecido no art. 1.829 do Código Civil." O referido Recurso Extraordinário discutiu a constitucionalidade do art. 1.790, do CC, por atribuir ao companheiro direitos sucessórios distintos daqueles outorgados ao cônjuge, pelo art. 1.829, I, II e III do CC, contrariando os arts. 5º, I, e 226, § 3º, da CF/88. A teor do inciso III do art. 1790 do CC, na falta de descendentes e ascendentes, o companheiro faz jus tão somente a um terço dos bens adquiridos onerosamente na constância da união estável, a título de herança, no caso em que concorre com os colaterais até o quarto grau. Por outro lado, o art. 1829, I, II e III do CC, que trata da ordem de sucessão hereditária, reconhece o direito sucessório ao cônjuge sobrevivente, concorrendo com os descendentes, na falta deles com os ascendentes, e ainda de forma plena, na falta dos demais. Não admitida tal distinção de tratamento entre companheiros e cônjuges, foi declarado inconstitucional tratar desigualmente dos respectivos direitos sucessórios, previstos nos dispositivos acima, devendo, o regime do art. 1.829 do CC, ser aplicado, tanto nas hipóteses de casamento (para os cônjuges) quanto nas de união estável (para os companheiros). Assim, o art. 1829, I, II e III do CC (que dispõem sobre a ordem de direito de herança), deveria ser aplicado tanto paraos cônjuges, como para os companheiros. Tendo em vista a fixação da tese para o Tema 809, com repercussão geral, pelo STF, envolvendo a declaração de inconstitucionalidade do art. 1790, do CC, automaticamente, foi concedida nova interpretação para o art. 1829 , I, II e II do CC, de modo que os regimes sucessórios dos companheiros e dos cônjuges fossem equiparados. Assim, o art. 1829, I, II e III do CC (que dispõem sobre a ordem de direito de herança), deveria ser aplicado tanto para os cônjuges, como para os companheiros. INVENTÁRIO Um inventário nada mais é do que um procedimento legal utilizado para identificar, avaliar e partilhar os bens, direitos e dívidas deixados por uma pessoa falecida aos seus herdeiros. Esse processo é crucial para garantir a transparência e correta transferência do patrimônio do falecido, garantindo que todos os herdeiros recebam sua devida parte de acordo com a legislação vigente, evitando também conflitos futuros entre eles. Inventário Judicial O inventário judicial é realizado por meio do Poder Judiciário e se torna obrigatório em algumas situações específicas, como quando há herdeiros menores de idade, pessoas incapazes, testamento ou conflitos entre os herdeiros. Nesses casos, o processo é conduzido por um juiz e segue uma série de etapas formais, o que geralmente resulta em um trâmite mais longo e complexo. A atuação de um advogado especialista em inventário é indispensável para garantir que os direitos dos envolvidos sejam resguardados durante toda a tramitação. Inventário Extrajudicial Já o inventário extrajudicial é uma alternativa mais rápida e menos burocrática, realizada em cartório, por meio de escritura pública. Para que essa modalidade seja possível, é necessário que todos os herdeiros sejam maiores, capazes, estejam de acordo com a divisão dos bens e não exista testamento. Mesmo sendo um procedimento em cartório, a presença de um advogado é obrigatória, sendo ele o responsável por conduzir o processo com segurança jurídica, orientar sobre a documentação necessária e agilizar os trâmites legais. HERANÇA DIGITAL Herança digital é o conjunto de ativos digitais, como contas de e-mail, perfis em redes sociais, arquivos na nuvem, sites, fotos digitais e outros conteúdos criados e armazenados em formato digital, que são deixados por uma pessoa após sua morte PARTILHA EM VIDA . No planejamento sucessório, existem vários mecanismos para se distribuir o patrimônio. Entre eles encontramos a partilha em vida e a doação. Para conseguirmos diferenciá-los, precisamos entender primeiramente cada instituto. O art. 2018 do CC/02 dispõe que “É válida a partilha feita por ascendente, por ato entre vivos ou de última vontade, contanto que não prejudique a legítima dos herdeiros necessários”. O artigo aponta a possibilidade da partilha em vida, desde que não prejudique a legítima, ou seja, os 50% pertencentes aos herdeiros necessários, isto é, descendentes, ascendentes e ao cônjuge ou companheiro. Pressupõe-se doação de todo o seu patrimônio, destinado aos seus descendentes, respeitando à legítima dos herdeiros necessários, a impossibilidade de renúncia prévia à herança e a reserva de recursos suficientes para a sua subsistência. Essa reserva pode ser feita através do instituto do usufruto, por exemplo. A partilha em vida dispensa a colação, conforme art. 2005 do CC/02. Vejamos a REsp 1.523.552-PR, aduz que “na hipótese em que o autor da herança tenha promovido em vida a partilha da integralidade de seus bens em favor de todos seus descendentes e herdeiros necessários, por meio de escrituras públicas de doação nas quais ficou consignado o consentimento de todos eles e, ainda, a dispensa de colação futura, a alegação de eventual prejuízo à legítima em decorrência da referida partilha deve ser pleiteada pela via anulatória apropriada, e não por meio de ação de inventário”.(rel. min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 3/11/15, DJe 13/11/15). A partilha em vida é irrevogável, não é possível desfazê-la após a sua formalização. Por fim, a partilha em vida também dispensa a abertura de inventário, com exceção se o disponente adquirir novos bens após a realização da partilha em vida, (caso post mortem). A doação é amparada pelos arts. 538 a 564 do CC/02. Trata-se de contrato em que uma pessoa, por liberalidade, transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra. Portanto, é um ato de disposição gratuita da coisa em vida. Na doação há a necessidade de ser respeitada a legítima, podendo doar somente a parte disponível; também pode ser realizada sem a presença de todos os herdeiros, incluir pessoa que não seja herdeiro necessário na parte disponível e; incluir cláusula de reversão, condição, termo ou encargo. A doação poderá ser formal ou consensual, conforme Felipe Quintela e Elpídio Donizetti, onde será consensual a doação de imóveis de pequeno valor, através da tradição e; formal os demais bens, na forma de escritura pública ou particular, observando o art. 108 do CC/02. As características da doação são: a) o aceite de quem recebe a doação; b) o animus donandi que é a intenção do doador de praticar as liberalidades e; c) a transferência do bem ou vantagem à terceiro. O bem doado deve ser colacionado, porém, conforme o art. 2006 do CC/02, a dispensa da colação pode ser outorgada pelo doador em testamento, ou no próprio título de liberalidade. A doação é revogável, conforme art. 555 do CC/02.