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Histórico, conceitos e funções dos solos Apresentação Os solos correspondem a um compartimento ambiental que contribui direta e indiretamente para que as atividades humanas possam ser realizadas pela atual e pelas futuras gerações. Dentre as principais preocupações atuais acerca da manutenção da qualidade dos recursos naturais, pode-se destacar a preservação do solo, em especial qualitativamente. Todavia, as funções que tal corpo natural apresenta evidenciam que a preocupação com perdas quantitativas também é válida. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai saber mais sobre a dinâmica que envolve o solo, recurso tão importante para a nossa vida contemporânea. Além disso, vai aprender sobre alguns conceitos básicos e as principais funções que os solos podem desempenhar. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Sintetizar o histórico da ciência do solo.• Definir o solo como um corpo natural.• Listar as funções dos solos na paisagem.• Desafio Atualmente, sabe-se que a degradação de pastagens pode gerar enormes perdas, tanto econômicas quanto ambientais. Esse processo de degradação vem sendo estudado para que se possa reverter o problema, de modo a manter a produtividade dos solos e reduzir o risco de desmatamentos para novas áreas de pastagens. Acompanhe a situação: Responda aos questionamentos a seguir: a) Como você faria para checar o nível de degradação da pastagem? b) Quais seriam as práticas que você recomendaria para recuperar esta área? Infográfico Uma das principais funções que um solo pode apresentar está relacionada à produção de alimentos. Existem inúmeras técnicas de agricultura hoje que permitem que o plantio seja realizado de uma forma mais "responsável", ou seja menos prejudicial ao meio ambiente. Infelizmente, muitas vezes, não há políticas e planos que reforcem a importância do solo e que reduzam impactos que parecem inevitáveis, mas não o são. Neste Infográfico, você conhecerá uma problemática muito discutida acerca da produtividade do solo, bem como conhecer outras medidas que podem ser adotadas para preservar esse recurso natural tão importante. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/9b39e8dd-24f7-44d4-b0a7-81f6b852e830/bfa9a2fe-2a1e-4a11-a119-7c5ef9f23547.jpg Conteúdo do livro A manutenção da vida humana depende, dentre muitos fatores, do uso responsável dos recursos naturais. O solo é um corpo natural que permite que atividades humanas sejam realizadas, tais como a obtençao de alimentos e água. Dessa forma, é evidente a necessidade de se preservar, recuperar e remediar o solo, promovendo práticas mais adequadas. É necessário entender e valorizar os inúmeros processos da pedogênese, uma vez que eles definem a capacidade de suporte de um determinado solo. No capítulo Histórico, conceitos e funções dos solos, da obra Morfologia e gênese do solo, você vai conhecer a história da ciência do solo, alguns conceitos básicos e as principais funções que os solos podem apresentar. Boa leitura. MORFOLOGIA E GÊNESE DO SOLO Natalia de Souza Pelinson Histórico, conceitos e funções dos solos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Sintetizar o histórico da ciência do solo. � Definir o solo como um corpo natural. � Listar as funções dos solos na paisagem. Introdução A sustentabilidade das comunidades humanas depende do uso racional dos recursos naturais do meio que ocupam. Os solos contribuem para que as necessidades humanas básicas sejam viabilizadas, como a produção de alimentos e a explotação de água para múltiplos usos. No mundo globalizado do século XXI, a preservação do solo de- pende não apenas das escolhas de manejo por agricultores, silvicultores e planejadores de terras agrárias, mas também de decisões políticas sobre regras e legislações, valorização fundiária e subsídios. Dessa forma, o conhecimento sobre propriedades desse recurso natural pode, inclusive, garantir a preservação da sua qualidade. Neste capítulo, você vai estudar a história e a importância do uso do solo. Também vai ver os conceitos básicos e as principais funções que os solos podem apresentar. 1 Ciência do solo: histórico e importância Nas últimas décadas, houve grandes avanços na compreensão da importância dos solos para ecossistemas e produção de alimentos. Entretanto, a necessidade de preservação e utilização mais consciente dos recursos naturais, em especial do solo, continua sendo um desafio para a sociedade. Para que os processos de conservação do solo possam ser melhorados e sejam efetivos, precisamos desenvolver uma melhor compreensão dos processos do solo. Observe que o termo “solo” é empregado de forma distinta por profissionais de diferentes formações acadêmicas, que podem considerar modelos e aspectos distintos em cada contexto, adotando, portanto, diferentes conceitos para um mesmo material geológico (PEJON; ZUQUETTE; AUGUSTO FILHO, 2019). Neste material, quando o termo “solo” é utilizado no sentido amplo, estamos nos referindo ao espaço volumétrico, composto por materiais sólidos (minerais e matéria orgânica) e espaços vazios (que podem ser ocupados por água e/ou ar), da superfície terrestre, independentemente de sua profundidade e formação. A importância do solo O solo é uma mistura complexa de sólidos inorgânicos e orgânicos, ar, água, solutos, microrganismos, raízes de plantas e outros tipos de biota. Isso torna os processos que ocorrem nesse ambiente complexos e dinâmicos. Microrganismos catalisam reações de intemperismo do solo, e as raízes das plantas absorvem produtos químicos inorgânicos que alteram a distribuição e a solubilidade dos íons. Embora seja difícil separar os processos do solo, os cientistas que o tomam por objeto de estudo organizaram subdisciplinas que estudam pro- cessos físicos, biológicos e químicos, formação e distribuição do solo. Dessa forma, existem especialistas que estudam tópicos específicos ou aplicados de inúmeras áreas da ciência do solo (STRAWN; BOHN; CONNOR, 2020). De maneira geral, há fatores que agem durante a formação geológica de uma estrutura como o solo. Esses processos podem ser apresentados, basica- mente, como intemperismos químicos e físicos, que propiciam a desagregação de partículas das rochas, bem como a decomposição de outras substâncias. Os solos são cruciais para a manutenção da vida na Terra, e os processos causadores dos impactos ambientais a que são submetidos, com intensas perdas da qualidade tanto dos solos quanto das águas, podem afetar de múltiplas for- mas o que acontece nesse compartimento ambiental. Com a maior urbanização, passamos a ter menos contato direto com o solo, ainda que apenas com sua utilização responsável seja possível pensar na continuidade da vida humana, uma vez que o nosso grau de dependência a esse recurso tende a aumentar, não a diminuir. Tal afastamento provavelmente se refere ao nosso distanciamento do sentimento de pertencer aos sistemas ecológicos (BRADY; WEIL, 2013). Histórico, conceitos e funções dos solos2 A qualidade desse recurso natural, o solo, pode determinar qual será a capacidade de tamponar efeitos negativos e de manter a vida, seja ela humana, seja de plantas e demais seres vivos. São muitas as funções que o solo apresenta e todas têm sua importância devida, fundamental e inter-relacionada de uma forma ampla. Breve histórico da ciência do solo As atuais análises ambientais nos indicam que, com o aumento populacional e a urbanização, precisamos nos preocupar em proteger, remediar e recuperar nossos recursos naturais, de forma que eles não sejam esgotados em níveis irrecuperáveis técnica e financeiramente. Nesse sentido, Strawn, Bohn e O’Connor (2020) fazem uma curiosa ligação, resgatando um fato histórico interessante: há cerca de 2.500anos, o Senado da Atenas antiga já debateu a produtividade do solo e expressou preocupações em manter e aumentar a sua produtividade. Tal colocação sobre a produtividade é questionada até hoje, em especial porque o risco do esgotamento dos recursos naturais não é desejável e poderia inviabilizar as próximas gerações, não apenas sob o sistema econômico adotado atualmente. Segundo Brevik e Hartemink (2010), os seres humanos sempre apresenta- ram uma íntima relação com o solo, uma vez que, mesmo antes do início da agricultura “sedentária” (quando as sociedades passaram a ser organizar de maneira sedentária, e não mais nômade), os solos eram reconhecidos como fontes importantes para o cultivo de alimentos, fibras e combustíveis. Quando o cultivo dessas culturas começou, foram percebidas diferenças nas propriedades e tipos de solo, o que determinava a maneira como as pessoas cultivavam o solo e as culturas que cultivavam em cada região. O surgimento da ciência do solo se deu a partir das diferenças na per- cepção e no desenvolvimento do pensamento científico, que foi propiciado, inicialmente, seguindo as ciências básicas, como geologia, biologia, física e química. Isso foi intensificado e valorizado na última parte do século XIX, para que a ciência do solo se tornasse uma ciência consolidada e respeitada (BREVIK; HARTEMINK, 2010). A agricultura provavelmente colaborou para o surgimento da definição de propriedades do solo, uma vez que, direta ou indiretamente, isso influencia nas decisões sobre o uso da terra. A evidência mais antiga conhecida de práticas agrícolas vem de um local próximo à vila de Jarmo, no Iraque, onde foram encontrados instrumentos para colheita e lavoura que remontam a 11.000 BP 3Histórico, conceitos e funções dos solos (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004). A abordagem inicial provavelmente era baseada em tentativa e erro para determinar onde as propriedades agrícolas seriam estabelecidas, em locais nos quais os solos eram adequados e as condi- ções eram favoráveis ao crescimento das culturas (BREVIK; HARTEMINK, 2010), talvez considerando a disponibilidade hídrica como fator decisório. Evidências de irrigação foram encontradas no sul do Iraque, datando de 9.500 BP (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004). Vejamos a seguir uma breve evolução da ciência do solo. Oriente Médio A área entre os rios Tigre e Eufrates, no Iraque, tornou-se o lar das civilizações da Mesopotâmia. Tanto os sumérios quanto os babilônios desenvolveram um sistema avançado de canais de irrigação na região. A irrigação poderia estar conectada ao desaparecimento de civilizações mesopotâmicas, no entanto, posteriormente, durante a Idade Média, as sociedades islâmicas foram for- madas e se espalharam da Península Arábica, tendo expoentes mundiais em ciências e tecnologia, incluindo as ciências agrícolas e do solo (BREVIK; HARTEMINK, 2010). Egito, Grécia e Império Romano Importantes observações podem ser tecidas a partir de narrativas aparentemente desconexas. Por exemplo, os egípcios desenvolveram uma civilização ao redor do rio Nilo que durou de cerca de 3.300 a 332 a.C. (BREVIK; HARTEMINK, 2010). A civilização egípcia era baseada na irrigação, e a fertilidade de seus solos agrícolas foi naturalmente mantida por meio das frequentes inundações do rio Nilo (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004). Os fenícios, por sua vez, estiveram no auge entre 1.200 e 800 a.C. e foram os primeiros a construir terraços em encostas íngremes no Líbano e na Síria. Conquistados pelos romanos, os cartagineses eram excelentes agricultores, com sistemas avançados de cultivo e irrigação, porém a erosão causada pelo vento e pela água acabou removendo a camada superior do solo em torno de Cartago. Hoje a região já não pode suportar, em termos de produtividade agrícola, as mesmas populações que antes suportava (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004). Histórico, conceitos e funções dos solos4 Brevik e Hartemink (2010) citam que os celtas, na Grã-Bretanha, cultivavam plantações do outro lado da encosta para diminuir a erosão. Os terraços de bancada, que remontam aos fenícios, eram usados na França moderna, e essa prática possivelmente se iniciou na Polônia por volta de 5.500 a.C. Em geral, as técnicas agrícolas foram aprimoradas na Europa com a ocupa- ção dos romanos, cujo conhecimento agrícola foi desenvolvido, inicialmente, sob a influência dos gregos. Posteriormente, houve incorporações de técni- cas, como uso de esterco e adubo verde; plantio em terraços para reduzir a erosão do solo; e classificação do solo, que incluía tamanho, densidade das partículas, cor e fertilidade (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004; BREVIK; HARTEMINK, 2010). Considerando que o Império Romano ocupou as áreas do Mar Mediterrâneo, suas contribuições para a ciência do solo foram substanciais, incluindo, por exemplo, a descrição dos solos do Império Bizantino (BREVIK; HARTE- MINK, 2010). A agricultura declinou na Europa após a queda do Império Romano; o declínio incluiu tanto a área de terra cultivada quanto a produção agrícola (BREVIK; HARTEMINK, 2010). Por fim, o cultivo de campos na encosta e outras medidas de conservação foram desenvolvidas nas Ilhas Britânicas também bastante cedo (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004). Ásia Na Índia, comunidades agrícolas neolíticas (séculos III a II a.C.) foram encontradas em áreas com solos férteis no planalto de Deccan (BREVIK; HARTEMINK, 2010). O início da agricultura na China se concentrava na fértil planície de inundação do rio Amarelo. Os chineses estabeleceram uma classificação específica baseada em fertilidade, cor, textura, umidade e vege- tação de cobertura, e medidas de conservação do solo começaram na China por volta de 950 a.C., consistindo, principalmente, em terraços de contorno (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004). A agricultura japonesa foi influenciada pelos chineses até o século IX d.C., após o que os japoneses interromperam a imigração. A falta de terras, quantitativa e qualitativamente, levou os japoneses a valorizarem a fertilidade do solo e várias práticas foram incluídas, como a aplicação de esterco e adubo verde, crescimento de leguminosas, rotação de culturas e terraceamento em encostas (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004). 5Histórico, conceitos e funções dos solos Américas No século V a.C., a agricultura mexicana já adotava técnicas de plantio em terraços e irrigação (BREVIK; HARTEMINK, 2010). As três civilizações indígenas principais, Asteca, Maia e Inca, cultivavam terras de vale, em terraços nas encostas das montanhas. Em teoria, são as civilizações antigas mais bem-sucedidas em minimizar a erosão do solo e criar sistemas agrícolas sustentáveis (TROEH; HOBBS; DONAHUE, 2004). Os astecas desenvolveram ainda uma classificação do solo com base nas propriedades do solo (fertilidade, textura, umidade e gênese), localização topográfica, vegetação e práticas dos agricultores (BREVIK; HARTEMINK, 2010). Há pesquisas acerca da formação de um solo escuro na região que, possivelmente, foi influenciada pelo manejo dos povos indígenas do passado. Solos na Revolução Científica: das sombras à independência científica Nas sociedades ocidentais, a Idade Média (entre os séculos V e XIV d.C.) representou um período de repressão à ciência que incluía uma negação, inclusive, ao conhecimento do solo que havia sido adquirido pelos gregos e romanos. Essa não aceitação da ciência se deu paralelamente ao forte domínio da religião na vida ocidental e à ausência de uma próspera comunidade cien- tífica. Certamente, o conhecimento dos solos locais existia na Idade Média, e, em algumas partes do mundo onde a religião teve menos influência, ele pôde ser expandido. Entretanto, somente no Renascimento e no subsequente desenvolvimento das ciências naturais é que o estudo científico dos recursos naturais, incluindo o solo, começou no mundo ocidental efetivamente (BRE- VIK; HARTEMINK, 2010). O século XVI marcou o início do Renascimento na Europa, um período em que a ciênciae o pensamento científico voltaram a ser valorizados e a crescer. Há uma série de eventos significativos que ocorreram no estudo de solos durante esse período. A ciência do solo não era um campo científico distinto oficialmente, mas muitos dos fenômenos investigados ocorrem no solo, como o suprimento de nutrientes das plantas e as mudanças no uso do solo ao longo do tempo. Histórico, conceitos e funções dos solos6 Alguns dos primeiros trabalhos de solos realizados por pesquisas geológicas estadunidenses foram aclamados por historiadores da ciência do solo. A teoria do húmus da nutrição de plantas persistiu no século XIX e gerou um grande número de experimentos, que deram origem ao campo da química do húmus do solo e ao trabalho de cientistas como H. Davy e J. Berzelius (BREVIK; HARTEMINK, 2010). Segundo Brevik e Hartemink (2010), no final da década de 1820, C. Sprengel refutou a teoria do húmus e propôs uma teoria sobre a nutrição mineral de plantas. Em 1840, a teoria do húmus foi oficialmente substituída pela teoria mineral da nutrição de plantas, quando von Liebig (1840) publicou Química como um suplemento à agricultura e fisiologia das plantas. Lepsch (2011) complementa que o húmus foi então considerado apenas um produto transi- tório entre a matéria orgânica e os nutrientes minerais. As teorias dos estudos de Liebig são consideradas revolucionárias e originaram a lei do mínimo, que ainda é usada na agricultura para determinar os fertilizantes minerais a suplementarem solos deficientes (LEPSCH, 2011). Lepsch (2011) apresenta uma das mais figuras esquemáticas mais comuns para ilustrar a lei do mínimo, desenvolvida a partir das discussões de Liebig, que você pode visualizar na Figura 1. De maneira simplificada, a lei do mínimo considera o seguinte: de nada adianta que haja excesso de inúmeros nutrientes no solo se houver a deficiência de algum fator essencial, uma vez que uma quantidade abaixo da requerida pode impedir o bom desenvolvimento vegetal. A alusão à capacidade de armazenamento de água parece ideal: o elemento requerido mais próximo à deficiência deve ser o indicador da intervenção necessária para que um solo se torne mais “saudável”, e é o que “determina” a sua capacidade produtiva para certa cultura vegetal. 7Histórico, conceitos e funções dos solos Figura 1. Lei do mínimo de Leibig. Fonte: Adaptada de Lepsch (2011). Brevik e Hartemink (2010) relatam que geólogos dos Estados Unidos incluíam solos no escopo de seus trabalhos no início do século XIX. Uma das principais contribuições do trabalho das pesquisas geológicas americanas foi a descoberta de que nutrientes poderiam ser obtidos de minerais geológicos. Por exemplo, eles descobriram que o potássio era um nutriente derivado do uso da glauconita — também chamada de “areia verde”, que você pode visualizar na Figura 2 — e que poderia ser utilizado como fertilizante nas plantações. Grandes avanços foram feitos na cartografia e no mapeamento de solos no século XIX. Staszic compilou um mapa de geologia-geomorfologia-solos de várias folhas da Europa Oriental em 1806 e em 1856. A cartografia do solo teve origem na Alemanha, França, Áustria, Holanda e Bélgica nas décadas de 1850 e 1860, com base em ideias e classificações desenvolvidas em agrogeologia (BREVIK; HARTEMINK, 2010). A área de mapeamento e classificação de solos não é universal e pode ser considerada ainda em constante evolução. Histórico, conceitos e funções dos solos8 Figura 2. Mineral glauconita. Fonte: Glauconite (2018, documento on-line). Um importante conceito de ciência do solo que se desenvolveu durante o século XIX foi o perfil do solo. Dokuchaiev figurou entre os principais estu- diosos que possibilitaram o desencadeamento da ciência genética do solo no final do século XIX. Ele sintetizou o conceito de perfil do solo e introduziu os horizontes A, B e C como eles são usados atualmente na ciência do solo. Ele via A + B como constituindo o solo e C como rocha-mãe ou subsolo (BREVIK; HARTEMINK, 2010). Podemos considerar então que os solos ganharam independência científica com a criação e aprofundamento da pedologia ou da pedogênese. Pedologia é a ciência da gênese, morfologia e classificação dos solos. O livro de Charles Darwin, The Formation of Vegetable Mould through the Action of Worms (Formação de Húmus Vegetal pela Ação das Minhocas), de 1881, traz conceitos importantes de biologia do solo, em especial sobre as interações de minhocas e o solo. Como contribuição para o estudo de solos, traz um perfil de solo com as designações A–B–C–D para os horizontes, que você pode visualizar na Figura 3, sendo A a camada vegetal, B o solo superficial, C a linha da pedra e D a rocha (BREVIK; HARTEMINK, 2010). Não é o perfil mais aceito hoje, mas com certeza apresenta a importância do trabalho científico multidisciplinar. 9Histórico, conceitos e funções dos solos Figura 3. Perfil de dolo proposto por Darwin em 1881. Fonte: Adaptada de Brevik e Hartemink (2010). Solos no Brasil A preocupação inicial do russo Dokuchaiev, ao que concerne à pedologia, corrobora para a criação das ciências do solo atual, que tem por objetivos explicar a formação e estabelecer um sistema de classificação de solos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística associa tal fato à necessidade dos seguintes pontos (IBGE, 2015): � correção da fertilidade natural dos solos; � elevação da fertilidade dos solos; � neutralização da acidez do solo; � agrupamento e indicações de solos apropriados para determinadas culturas; � preservação dos solos (por exemplo, contra a erosão). Histórico, conceitos e funções dos solos10 No Brasil, em 1887, foi criada a Estação Agronômica de Campinas, que, mais tarde, receberia o nome de Instituto Agronômico de Campinas (IAC) (IBGE, 2015). Algumas instituições antigas são a Imperial Escola de Medicina Veterinária e de Agricultura Prática, fundada em Pelotas (1883), e a Escola Agrícola Prática São João da Montanha, fundada em Piracicaba (1901), hoje internacionalmente conhecida como Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ), da Universidade de São Paulo (USP). Ainda segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2015), podemos observar três marcos históricos brasileiros importantes: � Em 1947, foi criada a Comissão de Solos, do Centro Nacional de Ensino e Pesquisas Agronômicas (antigo CNEPA) do Ministério da Agricultura. � Em 1970, o Departamento Nacional da Produção Mineral (antigo DNPM) começou a execução de projetos de sensoriamento remoto e geoprocessamento para análise dos recursos naturais da Amazônia (RADAM). � Em 1976, o Projeto Radam — Radar na Amazônia foi estendido para todo o território nacional e passou a ser chamado de Projeto Radam- -Brasil; por isso, hoje todo o território nacional tem mapas de solos na escala de, no mínimo, 1:1 000 000. No Brasil, é evidente a importância da universidade pública na manutenção de pes- quisas sobre as ciências de solos, desde a ESALQ até universidades federais como as de Lavras, Viçosa, Pelotas e muitas outras, que mantêm um alto nível em muitas linhas de pesquisa diferentes, em um esforço conjunto com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o IBGE e outros órgãos governamentais. 11Histórico, conceitos e funções dos solos Duas formas de obtenção de dados brasileiros muito facilitadas são o site do IBGE e o da Embrapa. � O IBGE tem uma página voltada à pedologia, com disponibilização de informa- ções acerca da cartografia temática de solos, como mapas, arquivos vetoriais e documentos. Pesquise “IBGE pedologia” no seu navegador da internet, que você encontrará rapidamente o link para a página. � A Embrapa tem uma unidade de pesquisa específica para solos e disponibiliza informações e publicações específicas sobre a temática. Pesquise “Embrapa solos” no seu navegador da internet e encontre o link para a página. Esta foi uma breve introdução à longa eimportante da história da ciência do solo, sem os aprofundamentos que sistemas agrários florestais poderiam conferir à análise. Nas próximas seções, você vai ver que as funções múltiplas serão evidenciadas; é imprescindível entendermos os solos para que possamos estabelecer critérios de uso e ocupação mantendo a conservação, sempre com ênfase na real relevância desse recurso natural não renovável para a manutenção da vida humana na Terra, bem como na preservação dos meios bióticos e na qualidade dos meios abióticos. 2 O solo como um corpo natural O solo da Terra consiste, na verdade, em numerosos indivíduos de solo, e cada um pode ser descrito como um corpo tridimensional natural na paisa- gem (STRAWN; BOHN; O’CONNOR, 2020). A concepção de o solo ser um corpo natural se origina da análise de que o solo, em ambientes complexos e produtivos, estabelece relações interfaciais entre as rochas (litosfera), o ar (atmosfera), a água (hidrosfera) e os seres vivos (biosfera) (BRADY; WEIL, 2013; WEIL, BRADY, 2017). O produto dessa interface pode ser chamado de pedosfera, que pode ser definida como a camada mais externa da Terra (“composta por solo e sujeita a processos de formação”) ou como o conjunto de solos em nível mundial (LEPSCH, 2011). Um quinto componente da Terra é a antroposfera, que descreve a interação e a influência humana no meio ambiente (STRAWN; BOHN; O’CONNOR, 2020). Essas relações podem ser observadas na Figura 4. Histórico, conceitos e funções dos solos12 Figura 4. Relações entre as diferentes esferas da Terra. Fonte: Perez, Brefin e Polidoro (2016, p. iii). Strawn, Bohn e O’Connor (2020) destacam que, independentemente de como o ambiente é compartimentado para a análise, os processos químicos que ocorrem no solo são aspectos importantes que afetam ambientes saudáveis e ambientalmente mais adequados (sustentáveis). A forma como ocorre essa interface do solo com os outros quatro compartimentos podem apresentar variações conforme a escala analisada (WEIL; BRADY, 2017): � Em uma escala de quilômetros: o solo concentra e direciona a água da chuva para os rios e transfere os elementos, dos minerais das rochas para os oceanos (exutório da bacia hidrográfica). Ainda nessa escala, o solo também pode remover e adicionar significativas quantidades de gases atmosféricos, o que poderia causar alterações no balanço de gases como o dióxido de carbono e o metano. � Em uma escala de metros: o solo poderia ser considerado uma zona de transição entre a rocha-base e a superfície terrestre (atmosfera), favorecendo o armazenamento da água e do oxigênio a serem disponi- bilizados às plantas. De uma forma genérica, o solo pode disponibilizar minerais provenientes das rochas para as plantas, bem como realizar a decomposição e o armazenamento de restos orgânicos de plantas e animais. 13Histórico, conceitos e funções dos solos � Em uma escala milimétrica: o solo favorece a produção de diversos ecossistemas para microrganismos diversos que atuam no solo, con- duzindo a água e outros nutrientes para as raízes das plantas. O solo fornece superfícies e condutos para soluções mesmo com inúmeras reações bioquímicas sendo processadas simultaneamente. � Em escala de micrômetros ou até menor: o solo fornece superfícies ordenadas e complexas, minerais ou orgânicas, que atuam como meio suporte para a ocorrência de reações químicas de interação da água com os seus solutos. O conceito de solo como corpos naturais organizados a partir de sua pró- pria gênese — ou seja, os solos são mais do que materiais não consolidados localizados na superfície da Terra (PEREIRA et al., 2019) — e sua formação envolve fatores ainda mais complexos do que puramente os intemperismos (químicos e físicos). Dessa forma, as características e a distribuição geográfica dos solos na paisagem apresentam relação com as condições ambientais em um determinado local ao longo do tempo, como ilustra a Figura 5. Figura 5. Fatores interferentes da dinâmica da formação do solo. Fonte: Adaptada de Pereira et al. (2019, p. 5). Histórico, conceitos e funções dos solos14 Como os solos têm um impacto significativo nas condições ambientais, existe uma ligação direta entre processos evolutivos e os diferentes tipos de solos. Segundo Strawn, Bohn e O’Connor (2020), alguns pesquisadores até teorizam que as primeiras formas de vida evoluíram das interações de carbono e nitrogênio com minerais argilosos, que é um tipo comumente observado nos solos; supõe-se que as argilas catalisam os primeiros polímeros prebióticos orgânicos. Embora não haja consenso absoluto para essa teoria, o papel dos solos na manutenção da vida e do meio ambiente se mantém óbvio. Classificar um solo quanto à sua origem (considerando materiais geológicos originais, possíveis ciclos e processos de formação) nos permite entender as propriedades atuais de um solo. Os processos de formação de solos ocorrem de maneira contínua ao longo do tempo geológico e viabilizam a formação de incontáveis tipos de solos, como podemos facilmente perceber observando as paisagens terrestres. Nesse contexto de formação pedológica, os constantes intemperismo possibilitam alterações significativas em cenários regionais, que tornam os solos, muitas vezes, indivíduos únicos (PEREIRA et al., 2019). Ao considerarmos a influência da infiltração da água no solo e o escoamento superficial em topos e encostas, por exemplo, podemos afirmar que a infil- tração e o escoamento superficial aceleram, respectivamente, os processos de intemperismo químico e de erosão (desagregação e carreamento de partículas). De maneira geral, quanto mais inclinado um terreno, menor será a infiltração e maior será o escoamento superficial da água. Um exemplo seriam os solos aluviares, aluvionares ou aluviões, que são solos transportados e depositados pela água, sendo pouco desenvolvidos e de pequena espessura (na Figura 4, anterior, corresponde à zona de “alúvio”). Desta forma, percebemos que a espessura e o desenvolvimento das camadas e/ou horizontes estão diretamente relacionados aos materiais originais e aos fatores de formação do solo (WEIL; BRADY, 2017). O perfil do solo e suas camadas (horizontes genéticos) A pedologia busca compreender a interação entre os fatores e processos de formação do solo e sua influência nos atributos morfológicos, físicos, químicos e mineralógicos do solo. Conforme a intensidade dos processos pedogenéti- cos, eles poderiam explicar a variabilidade dos tipos de solo que podem ser observados na paisagem (PEREIRA et al., 2019). 15Histórico, conceitos e funções dos solos Para que os perfis de solos possam ser observados, os pedólogos abriram verdadeiras trincheiras, expondo as camadas da seção vertical a serem avaliadas, como o exemplo mostrado na Figura 6. Pejon, Zuquette e Augusto Filho (2019) explicitam que o material que, em geral, é localizado entre a superfície terrestre e o substrato rochoso pode receber diversos nomes, como regolito, materiais não consolidados, solos, depósitos superficiais e/ou materiais superficiais. O regolito, de uma forma geral, interliga os diferentes compartimentos: atmosfera, rocha, água e seres vivos. Diante disso, podemos considerar que os quatro principais componentes do solo são o ar, a água, os minerais e a matéria orgânica (BRADY; WEIL, 2013). Dessa forma, o solo pode segu- ramente ser definido como um ecossistema e, considerando que há muitos solos, um ecossistema extremamente diverso. Cada tipo de solo poderia ser caracterizado por um conjunto único de horizontes (WEIL; BRADY, 2017), apesar de podermos usar esquemas simplificados a partir da definição bá- sica de horizontes genéticos. A proporção entre os componentes (minerais, matéria orgânica, água e ar), bem como as espessuras de cada horizonte que o solo pode apresentar, têm relação com as múltiplas funções que podem ser desempenhadas. Figura 6. Trincheira de observação de um solo escuro. Imagem capturada no Chiledurante uma reunião científica de pedólogos, em 1984. Fonte: Adaptada de Lepsch (2011). Histórico, conceitos e funções dos solos16 De maneira genérica, um solo é o resultado de processos sintetizadores tanto construtivos quanto destrutivos. Weil e Brady (2017) descrevem que o intemperismo das rochas e a decomposição de resíduos orgânicos são exemplos de processos destrutivos, enquanto a formação de novos minerais, como argilas e “novos compostos orgânicos estáveis”, podem ser considerados exemplos de síntese ou adição. Um dos resultados desses processos de síntese e reorganização de matérias resulta na formação das camadas contrastantes, chamadas de horizontes do solo. O desenvolvimento desses horizontes na parte superior do regolito é uma característica particular de cada solo, que o diferencia da sua porção mais inferior (BRADY; WEIL, 2013 WEIL; BRADY, 2017). Embora os horizontes do solo sejam camadas, nem toda camada de solo é, necessa- riamente, um horizonte genético. Um exemplo de modelo esquemático de horizontes pode ser visualizado na Figura 7. Cada solo em particular é caracterizado por um conjunto único de propriedades e horizontes, expressos no seu perfil e na natureza das camadas de solo, visto que, nesta situação, ele pode estar relacionado à natureza das condições ambientais locais (STRAWN; BOHN; O’CONNOR, 2020). Note, na Figura 7, que o solo nesse perfil representativo pode ser definido como sendo composto pelos horizontes O, A, B e C, sendo que o horizonte R é o próprio material rochoso consolidado, ou seja, a base rochosa da região do perfil, não necessariamente do material intemperizado que compõe o solo localizado acima dele. O horizonte O é a camada exposta do solo. Em geral, apresenta maior concentração de materiais orgânicos, podendo incluir a turfa e a camada de folhas mortas (serrapilheira). O horizonte A pode apresentar matéria orgânica, porém já é uma camada com sinais de intemperismo, que são percebidos de uma forma mais evidente no horizonte B. O horizonte B, portanto, é a camada mais intemperizada, conhecida como a máxima expressão da gênese do solo. O horizonte C é uma camada composta por rochas decom- postas — que não necessariamente correspondem ao material do horizonte R. 17Histórico, conceitos e funções dos solos Figura 7. Perfil de solo com representação de horizontes genéticos. Fonte: Adaptada de Weil e Brady (2017). Os horizontes de transição podem ser apresentados como mesclas entre essas termi- nologias (AB, BA, BC, CB). Nesse caso, a primeira letra indicaria a aproximação maior. Por exemplo, se dizemos que um horizonte é BC, queremos dizer que ele é uma camada de transição entre os horizontes B e C, mas que se aproxima mais do horizonte B do que do C. Histórico, conceitos e funções dos solos18 3 Funções dos solos na paisagem Os ecossistemas fornecem bens e serviços que podem ser valorados econo- micamente (serviços ecossistêmicos monetizados), mas apresentam um valor inestimável, como os listados a seguir (WEIL; BRADY, 2017): � aprovisionamento e fornecimento de bens (por exemplo, água, alimentos e princípios ativos medicinais); � regulação e processos de tratamento dos recursos naturais (purificação de águas, decomposição de resíduos, controle de pragas e modificações de gases atmosféricos); � suporte e auxílio quanto à ciclagem de nutrientes, dispersão de sementes e produção primária de biomassa; � promoção de oportunidades de lazer ao ar livre. A capacidade de um solo executar suas funções ecológicas reflete a com- binação de propriedades físicas, químicas e biológicas, que pode ser gene- ricamente chamada de qualidade do solo (BRADY; WEIL, 2013). Entre as principais funções que os solos podem desempenhar, ilustradas na Figura 8, podemos destacar as seguintes (LEPSCH, 2011; BRADY; WEIL, 2013; WEIL; BRADY, 2017): � Suporte: apoio ao crescimento das plantas, fornecendo suporte físico para as raízes e elementos nutricionais para as plantas. A capacidade de suporte de um solo varia de acordo com os nutrientes, animais e vegetações; portanto, a capacidade de suporte varia de acordo com o ecossistema analisado. � Fornecimento de água: os solos podem regular a disponibilidade hídrica. A perda, utilização, contaminação e purificação da água são afetadas pelo solo. � Sistema de tratamento da natureza: o solo funciona como um com- partimento para tratamento de resíduos e ciclagem de nutrientes (bio- disponilização e redisponibilização de nutrientes provenientes dos materiais decompostos). 19Histórico, conceitos e funções dos solos Figura 8. Funções básicas que um solo pode desempenhar. Fonte: Adaptada de Weil e Brady (2017). � Habitat para animais: a diversidade de animais e microrganismos é muito vasta e será mais ampla quanto mais saudável for o solo. � Equilíbrio gás-solo: os solos podem ajudar no controle da qualidade do ar, absorvendo ou liberando gases, muitas vezes utilizando como facilitadores os microrganismo que ali estão armazenados. O equilíbrio térmico também pode ser considerado e, nesse caso, os solos exercem uma função de isolamento da temperatura; � Meio de engenharia: o solo desempenha um papel importante ao propiciar a execução de obras de engenharia para que os ambientes sejam adaptados à vida humana (fornecendo a base para a construção, mas também insumos para isso). Histórico, conceitos e funções dos solos20 Podemos observar algumas peculiaridades dessas seis principais funções do solo. Sobre o solo atuando como suporte físico, quando o consideramos um meio para crescimento de plantas, não é desejável que ele seja muito compactado, principalmente porque a zona radicular precisa se estabelecer e a estrutura das raízes pode variar grandemente de acordo com as culturas vegetais. De uma forma geral, esse ambiente onde as raízes crescem apresentam muitos microrganismos, que contam com mecanismos como a capacidade catiônica do solo (CTC) para realizar a retenção de nutrientes, que podem ser biodisponibilizados no meio. O solo é um ambiente que “mantém” uma riqueza de organismos com diversas atividades e funções (VAN ELSAS, 2019). Entre esses organismos, os microrganismos têm um papel de relevante importância, pois desempe- nham atividades essenciais nos principais processos do solo. No entanto, um problema-chave em qualquer discussão sobre o solo como habitat microbio- lógico é nossa visualização conceitual do solo. O solo consiste em frações inorgânicas e orgânicas. As partículas inor- gânicas do solo são classificadas em três grupos principais, de acordo com seu tamanho: areia, silte e argila. As proporções desses grupos em qualquer solo determinam a textura do solo, bem como a possibilidade de interação entre microrganismos, partículas do meio e fluidos do solo. A fração de argila pode ser correlacionada à função, por exemplo, de suporte para atividades de engenharia em obras de fundamentos e estruturas de base, que demandam solos mais estruturados e estáveis geotecnicamente. Além disso, as argilas podem também ser correlacionadas à CTC do solo, uma vez que permitem que íons sejam aderidos à superfície do meio poroso do solo (FETTER; BOVING; KREAMER, 2018). Um solo mais poroso permite uma condutividade hidráulica de fluidos em seu meio, porém retém menos os elementos que o atravessam. Na caracterização geotécnica de um solo, é desejável que conheçamos seu compor- tamento no estado natural e indeformado (IBGE, 2015). 21Histórico, conceitos e funções dos solos Sobre a produção e/ou filtração da água, podemos correlacionar tal fun- ção com as recargas dos aquíferos e mesmo com os próprios reservatórios subterrâneos. A água pode ser armazenada subsuperficialmente em zonas distintas do perfil geológico, dependendo da proporção relativa do espaço poroso ocupado pela água, como ilustrado na Figura 9. A zona saturada tem os poros preenchidos com água; já em uma zona de aeração sobreposta, os poros contêm gases (principalmente,ar e vapor de água) e água (BEAR, 1972). A zona de saturação pode se estender a certa distância acima do lençol freático, dependendo do tipo de solo. De maneira geral, um aquífero é uma formação geológica que contém água e permite que a água flua através de seu meio poroso em condições de campo (BEAR, 1972; FETTER, 2014; FET- TER; BOVING; KREAMER, 2018). Sendo assim, os componentes químicos presentes na água podem indicar a qualidade da água, mas também algumas informações sobre a geologia local, devido à interação água–rocha. Mesmo um aquífero podendo ser uma camada geológica não alterada, a interação entre as zonas saturadas e não saturadas é muito importante para a manutenção da qualidade ambiental. A contaminação de um solo com substâncias oriundas de atividades an- trópicas pode prejudicar amplamente a sua capacidade de fornecer habitat para os seus seres vivos, além dos riscos de contaminação das plantas que poderiam ser direcionadas à alimentação humana ou ainda de contaminação das águas (superficiais e subterrâneas). A CTC de um solo pode atuar retendo ou retardando a contaminação, em conjunto com atividades microbiológicas que promovem a redução desses contaminantes no meio. Entretanto, tais processos de depuração, degradação e biorremediação podem ser muito demorados e, quando aplicadas técnicas de engenharia, apresentar altos custos econômicos. Dessa forma, Strawn, Bohn e O’Connor (2020) lembram que, embora o uso sustentável do solo, que proteja a qualidade do meio, deva ser prioridade, muitas vezes é necessário, em primeiro lugar, recuperar a qualidade daqueles solos que já foram degradados. Histórico, conceitos e funções dos solos22 Figura 9. Perfil de solo com representação das zonas saturada (com água) e não saturada. Fonte: Grotzinger e Jordan (2013, p. 485). Com base nos conceitos aqui apresentados e discutidos, você pode perceber que a sustentabilidade das comunidades humanas tem relação direta com a preservação dos recursos naturais, em especial do solo. A formação e a di- nâmica de tal recurso estão, por sua vez, ligadas ao manejo da agricultura, à exploração mineral e à explotação de recursos hídricos, entre outras atividades humanas. Sendo assim, tais análises e estudos corroboram para a correta gestão dos solos, que só pode ser executada de forma segura conforme entendemos as múltiplas funções que o solo apresenta e como esse corpo natural se relaciona com outros compartimentos ambientais. 23Histórico, conceitos e funções dos solos BEAR, J. Dynamics of fluids in porous media. New York: Prentice-Hall, 1972. BRADY, N. C.; WEIL, R. R. Elementos da Natureza e Propriedades dos Solos. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2013. BREVIK, E. C.; HARTEMINK, A. E. Early soil knowledge and the birth and development of soil science. CATENA, v. 83, n. 1, p. 23–33, 2010. FETTER, C. W. Applied hydrogeology. 4. ed. New York: Pearson Education, 2014. FETTER, C. W.; BOVING, T.; KREAMER, D. Contaminant hydrogeology. 3. ed. Illinois: Waveland Press, 2018. GLAUCONITE. In: ENCYCLOPÆDIA Britannica. [S. l.]: Encyclopædia Britannica, 2018. Dis- ponível em: https://www.britannica.com/science/glauconite. Acesso em: 13 maio 2020. GROTZINGER, J.; JORDAN, T. Para entender a Terra. 6. ed. Porto Alegre: Bookman, 2013. IBGE. Manual técnico de pedologia. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2015. (Manuais técnicos em geociências, n. 4). Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/ liv95017.pdf. Acesso em: 13 maio 2020. LEPSCH, I. F. 19 lições de pedologia. São Paulo: Oficina de Textos, 2011. PEJON, O. J.; ZUQUETTE, L. V.; AUGUSTO FILHO, O. Geologia e solos. In: CALIJURI, M. C.; CUNHA, D. G. F. Engenharia ambiental: conceitos, tecnologia e gestão. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019. p. 551–566. PEREIRA, M. G. et al. Formação e caracterização de solos. In: TULLIO, L. (org.). Forma- ção, classificação e cartografia dos solos. Ponta Grossa: Atena, 2019. p. 1–20. Disponível em: http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/202369/1/Formacao-e- -caracterizacao-de-solos-2019.pdf. Acesso em: 13 maio 2020. PEREZ, D. V.; BREFIN, M. L. M.; POLIDORO, J. C. Solo, da origem da vida ao alicerce das civilizações: uso, manejo e gestão. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 51, n. 9, p. i–iv, 2016. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/pab/v51n9/0100-204X-pab-51-09-000i. pdf. Acesso em: 13 maio 2020. STRAWN, D.; BOHN, H. L.; O’CONNOR, G. A. Soil chemistry. 5. ed. Nova Jersey: Wiley- -Blackwell, 2020. TROEH, F. R.; HOBBS, J. A.; DONAHUE, R. L. Soil and water conservation for productivity and environmental protection. 4. ed. Upper Saddle River: Prentice Hall, 2004. VAN ELSAS, D. J. The soil environment. In: VAN ELSAS, D. J. et al. Modern soil microbiology. 3. ed. Boca Raton: CRC Press, 2019. p. 3–20. Histórico, conceitos e funções dos solos24 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. VON LIEBIG, J. Die organische Chemie in ihrer Anwendung auf Agrikultur und Physiologie. Braunschweig: F. Vieweg, 1840. Documento on-line: https://ia800902.us.archive.org/31/ items/dieorganischeche00lieb/dieorganischeche00lieb.pdf. Acesso em: 13 maio 2020. WEIL, R. R.; BRADY, N. C. The nature and properties of soils. 15. ed. Londres: Pearson Education Limited, 2017. Leitura recomendada FREEZE, R. A.; CHERRY, J. A. Groundwater. Nova Jersey: Prentice-Hall, 1979. 25Histórico, conceitos e funções dos solos Dica do professor Dentre as funções que um solo pode desempenhar, algumas atividades são interligadas. Por exemplo, o suporte ao desenvolvimento das plantas está intimamente relacionado à capacidade que um solo apresenta ao realizar a ciclagem dos nutrientes. Na Dica do Professor, você vai entender a conexão entre as funções do solo, em especial do crescimento das plantas, assim como os procedimentos que podem preservar esse importante recurso. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/c93b0f9bddaf04ce3837978fbd706bd6 Exercícios 1) O solo pode ser definido como a camada superior da superfície terrestre, onde as plantas e parte dos animais estão localizados. Um perfil de solo é representado tipicamente por camadas que diferem conforme a sua formação. Sobre as possíveis camadas de um perfil, é correto afirmar que: A) o horizonte B apresenta pouco desenvolvimento do solo, sendo mais próximo à rocha consolidada do que à camada ou horizonte C. B) o horizonte O é a camada com maior quantidade de matéria orgânica, incluindo as coberturas superficiais, como serapilheira. C) o horizonte C ou CB é a camada de transição entre rocha e solo, possuindo alta concentração de matéria orgânica. D) o horizonte B corresponde ao mais intemperizado, sendo o mais profundo e com maior quantidade de matéria orgânica. E) o horizonte A pode ser considerado a camada com mais matéria orgânica, podendo ser ainda a serapilheira. 2) Fatores e condições climáticas tais como temperatura, tempo geológico, declividade dos terrenos, infiltração de água, desprendimento de partículas e presença de microrganismos podem interferir em como será a formação do solo de uma região. Sobre os aspectos locais na formação dos solos, é possível afirmar que: A) nas áreas de menor declividade, os solos são mais profundos, já que a velocidade de escoamento superficial propicia a infiltração da água. B) nas áreas de maior declividade, os solos são mais rasos, já que a baixa velocidade de escoamento superficial diminui a infiltração da água. C) os materiais intemperizados geradosa partir de materiais originais são depositados e formam horizontes genéticos de alta profundidade. D) nas áreas com altas declividades, a água permanece um alto tempo em contato com as rochas, aumentando a intensidade do intemperismo. E) os materiais originários (horizontes R) são materiais rochosos que não foram ainda submetidos a intemperismos físicos ou químicos. 3) Leia o excerto a seguir: “Enquanto os cientistas dos pequenos países da Europa estudavam, dentro de laboratórios, o solo como um pequeno barril onde nutrientes retirados pelas plantas tinham que ser compensados pela sua reposição com fertilizantes, os da Rússia o estudavam examinando-o no campo. Em 1877, um naturalista russo de nome Vasily V. Dokuchaev (1846-1903) foi convocado pelo Tzar da Rússia para estudar os efeitos de uma grande seca que havia ocorrido nos campos, ou estepes, da província da Ucrânia, onde o clima era muito frio e relativamente seco.” (LEPSCH, 2019, p. 51) Considerando o trecho apresentado e os aprendizados acerca da importância da ciência do solo, assinale a afirmativa correta: A) Os estudos dos solos em laboratórios podem ser ignorados, pois não são efetivos. B) Os estudos iniciados por Dokuchaev propiciaram a criação da área de estudo de Geologia. C) Os solos podem apresentar diferentes perfis, e isso pode definir seus comportamentos. D) Os estudos de solos em climas temperados são idênticos aos estudos de climas tropicais. E) Os microrganismos precisam que o solo esteja seco para poder atuar mais eficientemente. Normalmente, são atribuídas seis possíveis funções básicas a um solo. Elas podem ser de natureza técnica, ecológica ou sociocultural e ainda podem ocorrer concomitantemente. Leia as assertivas a seguir: I - O solo pode ser tóxico a inúmeros organismos, impossibilitando a permanência futura destes animais na Terra. II - O solo pode funcionar como um reator de tratamento, acelerando a decomposição de matéria orgânica presente. III - O solo é essencial para a construção civil, em especial por suas propriedades mecânicas de suporte às obras. IV - O solo pode favorecer a disponibilidade hídrica, propiciando a recarga de aquíferos e a captação desse recurso. 4) V - O solo é o meio propício para que haja a deposição de materiais orgânicos como fármacos, por ser um filtro com capacidade ilimitada. Considerando as funções que um solo pode desempenhar, assinale a alternativa que apresenta as afirmativas corretas: A) I e III. B) II e V. C) III e V. D) I, II e III. E) II, III e IV. 5) O solo é um corpo natural, apresentando uma estrutura tridimensional que em geral é caracterizada por horizontes genéticos ou pedogenéticos bem definidos, originados por meio de processos complexos de formação desse substrato. Com base nisso, é correto afirmar que o solo é um corpo natural porque: A) apresenta alterações por meio de ação externa dos fatores climáticos e/ou outros abióticos da natureza. B) define o potencial de produção agrícola, permitindo a obtenção de alimentos acima do limite máximo para a segurança alimentar. C) é definido em sua formação como sendo um material composto por camadas. D) estabelece a possibilidade de conexão entre a pedosfera, a atmosfera, a biosfera, a antroposfera e a litosfera. E) E estabelece uma interface entre os solos e as pessoas que têm interesse em, a partir de métodos mais naturais, extrair suas riquezas. Na prática Muitas comunidades rurais brasileiras não dispõem dos serviços e das infraestruturas de saneamento básico. Essa demanda acaba sendo resolvida parcialmente por projetos locais, organizados pelos próprios moradores, com subsídios dos governos regionais e de organizações não governamentais. O solo representa, nesse contexto, uma importante interface com as águas, principalmente se levarmos em conta sua função de concentrar, filtrar e permitir a coleta de água de qualidade. A proteção e o fornecimento de água é uma função muito importante do solo e que apresenta um valor enorme para a qualidade de vida das pessoas. Veja, Na Prática, o trabalho da agrônoma Marielle e descubra um pouco mais sobre como as funções do solo podem apresentar interface com outras funções ecossistêmicas fundamentais à manutenção da vida humana. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja a seguir as sugestões do professor: Porosidade do solo nas lavouras de soja No vídeo a seguir, você vai perceber como a escolha correta de plantas a serem cultivadas ajuda o solo a melhorar sua estrutura e, assim, favorece que esse recurso natural continue a desempenhar uma das suas funções: a de funcionar como um suporte para o desenvolvimento das plantas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Recuperação de voçorocas Hoje sabemos que a erosão é uma das causas da degradação e deterioração da qualidade do solo, podendo ainda acarretar prejuízos sociais e econômicos, bem como redução da qualidade de corpos hídricos do entorno. No artigo a seguir, você terá acesso a informações acerca do manejo da erosão, em especial em sua expressão máxima, as voçorocas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Vamos falar sobre o solo O ano de 2015 foi marcado como o Ano do Solo. No vídeo a seguir, você vai conhecer a explicação simplificada de muitos conceitos importantes para o entendimento dos processos de formação e manutenção de um solo. https://www.youtube.com/embed/dJggDzxPBo8 https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/130802/1/25736.pdf Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/e8uqY0Aqcf0