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1. Características do Pentateuco
O Pentateuco é uma obra literária complexa composta por narrativas e leis, onde os
personagens principais operam geralmente em vastos contextos temporais e espaciais.
Em muitos casos, esses personagens transcendem esses limites, como ocorre com
Yahvé, que está além do espaço e do tempo. Embora o Pentateuco se assemelhe a outras
obras literárias modernas, ele apresenta características únicas, como sua função
teológica e histórica. O primeiro capítulo discute o origem e significado dos nomes
dados aos cinco livros da Bíblia, além das questões específicas que envolvem a sua
interpretação e importância.
2. Nomes do Pentateuco
Torá e Pentateuco são os dois termos mais utilizados para se referir aos cinco primeiros
livros da Bíblia.
Torá (hebraico): O termo significa “instrução”, mas também se refere a uma coleção de
leis ou livros específicos. Na Bíblia Hebraica, é comumente usado para designar as leis
ou o conjunto de livros (cf. Lv 11,46; Dt 31,26).
Pentateuco (grego): Deriva de penta (cinco) e teuchos (estojo ou rolo para livros), usado
pela primeira vez no século II d.C. para se referir aos cinco livros da Bíblia.
Na tradição judaica, o Pentateuco é também conhecido como "os cinco quintos da
Torá", e é considerado essencial para a religião e a cultura judaica.
Tradução Grega: A Septuaginta (LXX) traduz a palavra Torá por nómos (lei), e também
distingue a "Lei" dos "Profetas" e "Escritos".
3. Nomes dos Livros do Pentateuco
Os nomes dos livros em hebraico são dados com base na primeira palavra significativa
de cada livro:
Génesis: Beresit ("no princípio").
Êxodo: Semot ("nomes").
Levítico: Wayyiqra ("e chamou").
Números: Bemidbar ("no deserto").
Deuteronômio: Debarim ("palavras").
Na tradução grega da Septuaginta, os títulos foram adaptados para refletir o conteúdo de
cada livro:
Génesis: Origens (referente à origem do mundo e do povo de Israel).
Êxodo: Saída (relata a saída de Israel do Egito).
Levítico: Levítico (relativo às leis e ritos levíticos).
Números: Números (baseado nos censos registrados no livro).
Deuteronômio: Segunda Lei (reinterpretação das leis dadas no Sinai).
Versões latinas: Adotaram e adaptaram os nomes gregos para as línguas modernas,
como Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
1. Predomínio dos Géneros Narrativo e Legal
Narrativa:
Predomina na primeira parte do Pentateuco (Génesis 1 até Êxodo 19).
Génesis é o único livro completamente narrativo.
Leis:
A partir de Êxodo 20 até Deuteronómio, as leis se tornam o gênero dominante.
Nos livros que seguem Génesis, narrativas e leis alternam-se, com destaque para a Lei
no Sinai e o Código deuteronômico.
2. Unidade entre Narrativas e Leis
A Torá é vista como uma mistura de narrativa e lei, onde ambos os elementos se
interligam formando uma unidade literária e teológica.
Leis inseridas em narrativas: As leis não existem isoladamente, mas são introduzidas no
contexto histórico e comunitário de Israel, dando-lhes uma função prática e normativa.
3. Interrupção das Narrativas por Leis
A interrupção das narrativas por grandes blocos de leis é algo que desafia a
sensibilidade literária moderna, que normalmente busca fluidez narrativa.
Esse estilo, embora estranho para o leitor contemporâneo, tem um propósito teológico,
pois fortalece a ideia de que a lei divina deve ser parte integrante da vida do povo de
Israel.
4. Origem das Leis
Historicamente, é provável que os códigos legais tenham sido originados
independentemente das seções narrativas, mas foram depois inseridos na narrativa como
forma de dar-lhes legitimidade e permanência.
Isso implica que as leis podem ter sido tradicionalmente transmitidas separadas, mas
mais tarde integradas no contexto das histórias de Israel para formar a estrutura coesa do
Pentateuco.
1. Princípios da Narrativa Bíblica (Sternberg)
De acordo com Sternberg, a narrativa bíblica segue três princípios fundamentais:
Ideológico: Busca estabelecer e transmitir uma visão de mundo específica, refletindo os
valores e crenças do povo de Israel.
Historiográfico: As narrativas estão organizadas de forma a conectar eventos históricos,
criando uma continuidade temporal que, embora não seja uma cronologia exata,
organiza a história de forma significativa.
Estético: A forma como o texto é organizado e estruturado, com atenção ao estilo
narrativo, que vai além do conteúdo e busca transmitir uma mensagem de forma eficaz.
2. Historiografia no Pentateuco
As narrativas do Pentateuco têm um marcado caráter histórico, mas não são uma crônica
estritamente factual. Elas não têm como objetivo apenas relatar os acontecimentos, mas
ensinar lições para o presente e o futuro (não são história no sentido moderno, mas têm
um objetivo pedagógico).
Classificação da História:
História mítica: Relatada em Gn 1-11, trata das origens do mundo e da humanidade.
História legendária: Relacionada aos patriarcas e a fundação de Israel.
História antiga: Relata o tempo de Israel no Egito e o Êxodo.
História contemporânea: Descreve a conquista de Canaã, ocorrendo em tempo real para
os israelitas da época.
3. Definição de Historiografia Israelita Antiga (Van Seters)
Van Seters propôs cinco critérios para definir a historiografia israelita antiga:
Forma literária intencional: A historiografia não é acidental, mas uma forma literária
planejada.
Descrição e interpretação: Não se limita a descrever os eventos, mas também interpreta
e valoriza os acontecimentos.
Causalidade moral: Relaciona eventos com suas causas e consequências morais.
Pertinência nacional ou étnica: A história reflete a perspectiva de uma nação ou grupo
específico.
Função literária: Forma parte das tradições literárias do povo e é central para a
construção da sua identidade nacional.
4. Historiografia no Pentateuco
Historiografia Deuteronomista: Relata a história de Israel desde sua fundação até a
queda de Jerusalém, sendo a principal fonte de uma história estruturada da nação de
Israel.
Historiografia Yahvista e Sacerdotal: Estas narrativas (em Génesis a Números) servem
como complemento e prelúdio da historiografia Deuteronomista, com foco nas origens
do mundo e a história dos patriarcas.
5. Desconfiança sobre a Credibilidade Histórica
Com a tendência moderna de datar os textos do Pentateuco de forma mais tardia, cresce
a desconfiança quanto à sua credibilidade histórica. Os documentos mais tardios se
distanciam dos eventos originais, o que diminui a confiança na precisão dos relatos.
Abordagens neohistoricistas propõem que a literatura bíblica deve ser vista mais como
um reflexo dos tempos em que foi escrita, do que como uma evidência fiel dos eventos
históricos que descreve.
2. Ideologia do Pentateuco
A ideologia presente no Pentateuco está profundamente marcada por uma perspectiva
teológica que interpreta a história de Israel como uma história de salvação. Esse
conceito foi um dos avanços mais significativos dos estudos modernos sobre o
Pentateuco, pois ele enfatiza que as narrativas bíblicas não são apenas sobre eventos
históricos, mas sim sobre as gestas de Yahvé atuando na história para salvar e abençoar
o seu povo. Em vez de serem apenas relatos históricos, os livros do Pentateuco mostram
o Deus salvador, atuando na vida de Israel e abençoando a sua história.
O Pentateuco apresenta duas grandes categorias teológicas:
História: Relacionada aos eventos históricos narrados, como o Êxodo e a peregrinação
pelo deserto, que têm um caráter de salvação histórica.
Providência: Refere-se ao ato de Deus abençoar o povo, presente de forma destacada em
Génesis e Deuteronômio, com narrativas de bênçãos e promessas feitas a figuras como
Abraão e Moisés.
Além disso, o Pentateuco também é resultado de um processo espiritual e canônico. Ele
não é apenas uma coleção de textos religiosos,mas uma Escritura normativa, que foi
formada e reconhecida como autoridade dentro da comunidade de fé de Israel, sendo
essencial para a identidade espiritual e prática do povo.
3. Estética no Pentateuco
A estética do Pentateuco é caracterizada pela diversidade de formas literárias e recursos
estilísticos usados pelos autores bíblicos. Os textos foram compostos de maneira
criativa, com a utilização de diferentes estruturas literárias, como diálogos, monólogos
interiores e conselhos, além de simetria e repetição para destacar ideias e temas
importantes.
Pluralidade de Estilos:
O Pentateuco apresenta uma variedade de estilos e línguas, o que reflete a diversidade
de fontes e a riqueza literária do texto.
A mudança de prosa para poesia é um dos recursos estéticos mais marcantes. Isso é
usado para intensificar sentimentos ou realçar ideias importantes.
A poesia, frequentemente inserida ao final de histórias ou seções, serve para dar ênfase
a momentos significativos, como o Cântico de Moisés após o Êxodo (Êxodo 15), ou as
bênçãos de Isaac (Génesis 49) e Moisés (Deuteronômio 32).
Poesia como Culminação:
A poesia serve como uma culminação das narrativas, especialmente nos momentos de
ação de graças ou bênçãos, como no caso do Cântico de Êxodo 15, onde a expressão de
louvor a Yahvé segue a libertação dos israelitas do Egito.
1. Grandes Coleções de Leis
O Pentateuco preserva três grandes coleções de leis:
Código da Aliança (Ex 20,22-23,19):
Relacionado com normas éticas e sociais, regulando a vida comunitária e a justiça.
Lei de Santidade (Lv 17-26):
Enfoca a santidade do povo, com normas sobre pureza e práticas rituais, destacando o
culto a Deus.
Código Deuteronômico (Dt 12-26):
Reinterpretação e ampliação das leis dadas no Sinai, focando na adoração a Deus e na
justiça social.
Além dessas, existem três coleções menores:
Duas versões do Decálogo (Dez Mandamentos): uma em Êxodo 20,2-17 e outra em
Deuteronômio 5,6-21.
O Direito de privilégio de Yahvé (Ex 34,10-26), que inclui leis exclusivas para a
adoração a Yahvé e a aliança com Israel.
2. Áreas Cobertas pelas Leis
As leis do Pentateuco cobrem todos os aspectos da vida e podem ser agrupadas em três
áreas principais:
Jurídica (Jus): Regras relacionadas à justiça e à regulação das relações sociais e
interpessoais.
Ética (Ethos): Normas sobre a moralidade, a conduta e a santidade da comunidade.
Cultual (Cultus): Leis sobre o culto, sacrifícios e práticas religiosas.
3. Origem das Leis
As leis do Pentateuco surgem da história e são temporais e caducas, ou seja, foram
estabelecidas em um contexto específico da história de Israel.
Em culturas antigas como a do Oriente Próximo, as leis eram vistas como originárias de
autoridades humanas, mas a Bíblia as atribui diretamente a Yahvé, que as entrega ao
povo de Israel.
Distinção entre o Decálogo e as outras leis:
O Decálogo foi transmitido diretamente por Deus (Êxodo 20,2; Deuteronômio 5,6).
As outras leis foram transmitidas por Moisés (Êxodo 20,18-22; Deuteronômio 5,22-31).
4. A Legislação e a Comunidade de Israel
As leis foram moldadas dentro da comunidade israelita, um povo livre que
experimentou o poder de Deus, especialmente na libertação do Egito e na ratificação da
aliança no Sinai.
O Pentateuco apresenta as leis não apenas como um dom de Deus, mas também como
uma tarefa para Israel: uma maneira de viver em fidelidade com Yahvé e garantir a
justiça e a santidade no meio da comunidade.
5. Fundamentação das Leis
As leis bíblicas frequentemente recorrem à história de Israel para justificar sua validade
e importância.
O tom parenético (exortativo) é uma característica importante da legislação bíblica, com
"cláusulas motivantes" que buscam persuadir o povo a ser fiel à vontade de Deus. Isso
aparece em muitos relatos como advertências e exortações para manter a aliança e viver
segundo os mandamentos dados.
Personagens Principais do Pentateuco
1. Yahvé (Deus)
Yahvé é o personagem central e principal do Pentateuco, cuja presença é constante e
decisiva. Ele é descrito não apenas como o Criador do mundo no início de Gênesis, mas
também como o salvador e legislador que guia e dá leis a Israel. Seu nome aparece mais
de 1.800 vezes no Pentateuco, refletindo sua importância em todo o texto. Em muitos
momentos cruciais, Yahvé intervém diretamente para moldar o destino de Israel, seja
libertando-os do Egito ou guiando-os no deserto.
Características de Yahvé no Pentateuco:
Deus criador: Em Gênesis 1-2, Yahvé é apresentado como o Criador de todas as coisas,
ordenando o cosmos com sabedoria e propósito.
Deus libertador: Em Êxodo, ele se revela como o salvador de Israel, resgatando-os da
escravidão no Egito e guiando-os para a Terra Prometida.
Deus legislador: Yahvé também assume o papel de legislador, dando a Moisés as leis
para o povo, incluindo o Decálogo (Dez Mandamentos) e outras normas fundamentais.
Deus guerreiro: Durante o Êxodo, Yahvé é descrito como um guerrero, combatendo
contra os inimigos de Israel e garantindo sua vitória, como visto na travessia do Mar
Vermelho.
Yahvé é visto como o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, estabelecendo uma aliança com
os patriarcas e continuando a relação com Israel, seu povo eleito. O nome de Yahvé é
inseparável da história de Israel e suas promessas.
2. Abraão
Abraão é considerado o pai de Israel e o primeiro patriarca da linhagem escolhida por
Deus. Sua história é marcada pela chamada divina (Gn 12), quando Deus o convoca a
deixar sua terra e se lançar em uma jornada de fé. Deus promete fazer dele “uma grande
nação” (Gn 12,2), e essa promessa é o ponto de partida para a história de Israel.
Aspectos significativos da vida de Abraão:
A fé e obediência: Abraão se destaca pela sua fé inabalável em Deus, que é testada
diversas vezes, como no sacrifício de Isaac (Gn 22), onde ele demonstra estar disposto a
obedecer a Deus, mesmo em situações extremas.
O pacto com Deus: A aliança de Deus com Abraão estabelece a base teológica para a
história de Israel. A promessa de uma descendência numerosa e a terra de Canaã como
herança do povo de Israel são centrais para toda a narrativa.
Figura mítica e teológica: Abraão não é apenas uma figura histórica, mas também
teológica. As narrativas sobre ele são mais do que biográficas; elas têm um caráter
paradigmático, ensinando aos israelitas sobre a fé, a obediência e a confiança nas
promessas de Deus.
3. Jacob / Israel
Jacob, mais tarde renomeado Israel, é o patriarca que dá origem às doze tribos de Israel.
Sua história, contada principalmente em Gênesis 25-50, é uma das mais complexas do
Pentateuco, refletindo o caráter ambíguo e as lutas internas do povo de Israel.
Elementos importantes sobre Jacob / Israel:
Transformação de Jacob em Israel: Jacob recebe o nome de Israel em Gn 32,28, após
uma luta com um ser divino. Essa mudança de nome simboliza sua transformação de
um homem enganador para o líder escolhido por Deus para fundar o povo de Israel.
A luta e a bênção: A vida de Jacob é marcada por lutas (tanto internas quanto externas),
mas também por bênçãos. Sua jornada inclui engano (como na relação com seu irmão
Esaú) e reconciliação (com Esaú e com Deus).
A história das doze tribos: Jacob é o patriarca das doze tribos de Israel, representando a
totalidade do povo de Israel. As tribos são formadas pelos filhos de Jacob, sendo sua
história profundamente conectada à história de Israel.
O Deus de Jacob: Ele é frequentemente descrito como o "Deus de Jacob", enfatizando
sua relação especial com o patriarca, mas também refletindo a tensão entre a fraqueza
humana e a força divina.
4. Moisés
Moisés é indiscutivelmente o personagem mais importante no Pentateuco, sendo o líder
que libertou Israel da escravidão no Egito e mediador entre Deus e o povo escolhido.
Suamissão divina começa em Êxodo 3, quando ele é chamado por Deus na sarça
ardente para conduzir o povo de Israel à liberdade.
Características de Moisés:
Líder e profeta: Moisés é descrito tanto como líder quanto como profeta, sendo
escolhido por Deus para ser o mediador da aliança e das leis entre Deus e Israel.
O mediador da aliança: Em Êxodo 19-24, Moisés intercede pelo povo de Israel, recebe
as Dez Leis e estabelece a aliança entre Deus e Israel.
Mediador e intercessor: Moisés desempenha um papel central como intercessor entre
Deus e o povo, especialmente quando este se rebela ou se queixa durante a peregrinação
no deserto (Ex 15,22-25; Nm 11).
A relação com Deus: Moisés tem uma relação singular com Deus, sendo descrito como
"o servo de Deus" (Ex 14,31), com quem Deus fala face a face (Nm 12,6-8).
A vida de Moisés é mais do que uma biografia; é uma seudobiografia ligada ao destino
de Israel. Sua jornada espiritual reflete a missão de Deus de salvar e conduzir o povo
escolhido, com ele sendo o instrumento principal de Deus para essa tarefa.
Dimensão Temporal no Pentateuco
O tempo desempenha um papel essencial na estrutura do Pentateuco, com duas
dimensões principais que organizam as narrativas:
Tempo narrado: Refere-se à duração dos eventos relatados, medidos em dias, anos ou
até séculos. Por exemplo, no Gênesis, o tempo narrado abrange eventos que acontecem
ao longo de milênios, como a criação e os relatos de Adão, Noé e os patriarcas. Já no
Êxodo, os eventos ocorrem ao longo de um período de 40 anos, o tempo da
peregrinação no deserto.
Tempo de narrar: Relaciona-se ao tempo que o narrador leva para contar esses eventos,
que é medido pela quantidade de palavras, versículos ou capítulos. Por exemplo, a
narrativa sobre a saída do Egito pode se estender por vários capítulos, mas o tempo
efetivo que passou durante essa jornada é bem mais curto.
O tempo narrado no Pentateuco mostra uma grande variação:
No Gênesis, o tempo abrange 2.666 anos, representando dois terços do tempo total de
4.000 anos do mundo, o que reflete a natureza mitológica e legendária de seus relatos.
Antes do dilúvio, os patriarcas vivem centenas de anos, e após ele, essa longevidade
diminui progressivamente, até que figuras como Abraão e seus descendentes têm vidas
de 200-100 anos.
Por outro lado, a seção de Deuteronômio cobre apenas um único dia, o último dia da
vida de Moisés.
Essa disparidade temporal tem uma função teológica e narrativa importante, pois as
longas durações no Gênesis refletem o caráter mítico e fundacional da história humana,
enquanto os eventos mais recentes, como a jornada no deserto, refletem uma história
mais próxima e histórica para o povo de Israel.
2. Dimensão Espacial no Pentateuco
O espaço também é crucial para a narrativa do Pentateuco, especialmente em relação
aos movimentos e à itinerância do povo de Israel:
Itinerância dos Patriarcas: Desde Ur dos Caldeus, passando por Harán, Canaã, e até
Egito, os patriarcas como Abraão, Isaac, e Jacob vivem uma vida nômade, movendo-se
constantemente de um lugar para outro. Esses movimentos refletem o caráter itinerante
e peregrino do povo de Israel antes de se estabelecer na terra prometida.
Jornada do Povo de Israel: Após a libertação do Egito, os israelitas atravessam o deserto
do Sinai até chegar a Canaã. Esta jornada é marcada por constantes mudanças de
localização, como registrado em Números 33, com uma lista das estações de
acampamento do povo. O objetivo final dessa peregrinação é chegar à terra prometida,
que é repetidamente destacada como um tema dominante desde Gênesis 12 até
Deuteronômio 34.
A terra de Canaã é a meta final dos dois grandes itinerários que atravessam o
Pentateuco: primeiro, os patriarcas saem da Mesopotâmia até Canaã e, mais tarde, os
israelitas percorrem o deserto até alcançar a terra prometida. Assim, o Pentateuco é
envolto em movimentos e promessas de lugar, com Canaã sendo a meta final das
viagens, representando a aliança divina e a bênção prometida a Israel.
Problemas Especiais no Pentateuco
1. Duplicados e Repetições
O Pentateuco apresenta uma característica literária única com a presença de duplicados
e repetições em várias seções. Esses elementos ajudam a dar ao texto uma fisonomia
peculiar, refletindo a complexidade e a diversidade das fontes que compõem a obra.
Nas narrativas, é comum encontrar duas ou mais versões de um mesmo evento. Por
exemplo:
Gênesis 1,1-2,3 e Gênesis 2,4-3,24 oferecem dois relatos da criação.
Êxodo 16 e Números 11,4-35 repetem episódios sobre o maná e as codornizes.
O episódio do mar Vermelho tem duas versões em Êxodo 14 e outras fontes.
Nas leis, também aparecem duplicações, como:
O Decálogo (Dez Mandamentos) é repetido em Êxodo 20,2-17 e Deuteronômio 5,6-21.
Leis sobre escravos e préstimos a juros também são repetidas em diferentes livros
(Êxodo 21,2-11; Levítico 25,39-55; Deuteronômio 15,12-18).
Esses duplicados refletem a natureza das fontes que foram reunidas ao longo do tempo
para compor o Pentateuco, com diferentes tradições e perspectivas sendo sobrepostas ou
repetidas para destacar sua importância.
2. Linguagem, Estilo e Teologia
O Deuteronômio apresenta um estilo e vocabulário próprios, com várias expressões que
não aparecem em outros livros do Pentateuco. O uso de certos termos e frases distingue
este livro dos demais:
"Amar a Yahvé" e "com todo o coração e alma" são expressões frequentemente usadas
em Deuteronômio, com um tom exortativo e teológico.
A frase "fazer o que é reto aos olhos de Yahvé" é uma instrução central.
A ênfase na centralização do culto é evidente com expressões como "o lugar que Yahvé
escolher" para o templo, algo característico da teologia deuteronômica.
Por outro lado, Gênesis a Números utilizam termos que não aparecem em
Deuteronômio, como "aliança eterna" e "glória de Yahvé", que são típicos da teologia
sacerdotal. Este contraste reflete a diferente ênfase teológica entre o Deuteronômio e os
outros livros, sendo que o primeiro foca mais na aliança bilateral e nas obrigações
humanas (pode ser rompida), enquanto a aliança sacerdotal é unilateral e eterna.
3. Tetrateuco, Pentateuco, Hexateuco e Enneateuco
Existem diferentes teorias sobre como classificar os livros do Pentateuco e seus textos
associados, com algumas propostas que incluem ou excluem certos livros, com base em
critérios literários, teológicos e cronológicos:
Tetrateuco: A ideia de separar o Pentateuco em dois blocos – o Tetrateuco (os primeiros
quatro livros) e Deuteronômio – sugere que Deuteronômio tem um estilo e teologia
distintos, com uma ênfase especial em ensinamentos sobre a fidelidade a Deus e a
centralização do culto.
Hexateuco: Considera-se o conceito de Hexateuco, que incluiria Gênesis a Josué, pois o
Pentateuco termina com a morte de Moisés e não inclui a entrada de Israel em Canaã. A
ideia de que Josué originalmente fazia parte de um único bloco com os cinco primeiros
livros sugere uma continuidade narrativa entre a promessa de Deus e o cumprimento da
promessa com a conquista de Canaã.
Enneateuco: Para alguns estudiosos, seria mais adequado falar de Enneateuco (Gênesis
a Reis), dado que o Pentateuco não é o fim da história de Israel. A narrativa de Josué a
Reis está diretamente conectada aos eventos do Pentateuco, formando uma narrativa
contínua que abrange desde a criação do mundo até o exílio babilônico.
Capítulo II: A Interpretação do Pentateuco
O estudo do Pentateuco tem evoluído ao longo dos séculos, refletindo as correntes
intelectuais de cada época. Desde os primeiros estudos humanísticos do Renascimento
até os métodos mais modernos, como a crítica literária, a forma de interpretar as
Escrituras tem mudado significativamente. Este capítulo oferece uma visão geral dos
métodos utilizados na interpretação do Pentateuco,destacando a crítica histórica e a
crítica literária, e como esses métodos têm levado a uma maior compreensão do texto.
1. Período Pré-crítico
Durante o período pré-crítico, a tradição judaica e a cristã sempre atribuíram a Moisés a
autoria do Pentateuco, incluindo relatos de sua morte (Deuteronômio 34:5-12). Filão de
Alexandria e Josefo também afirmaram que Moisés teria escrito sobre sua própria
morte. Esta visão teve grande apoio por séculos, baseada em passagens como:
Êxodo 17,14: Yahvé ordena que Moisés escreva sobre a vitória de Israel sobre os
amalequitas.
Êxodo 24,4: Moisés teria escrito o Código da Aliança.
Êxodo 34,27: Moisés seria o autor do Direito de Privilegio de Yahvé.
Números 33,2: Moisés teria registrado, como em um diário, as etapas da jornada pelo
deserto.
Contudo, alguns textos sugerem que Moisés não pode ter escrito tudo o que é atribuído
ao Pentateuco. Por exemplo, em Deuteronômio 31,9, Moisés é referido na terceira
pessoa (“Moisés escreveu”), o que é peculiar, pois o texto normalmente usaria a
primeira pessoa se Moisés fosse o autor. Além disso, Josefo e Filão de Alexandria
afirmaram que Moisés escreveu sobre sua própria morte, o que indica dúvidas quanto à
autoria de todo o Pentateuco. O Talmud também questiona essa autoria, sugerindo que
Josué adicionou o capítulo final de Deuteronômio (34,5-12).
Apesar das dúvidas, a tradição mosaica do Pentateuco foi amplamente aceita, e até
comentaristas medievais como Ibn Ezra concordaram com a ideia de que Moisés
poderia ter sido o autor principal, mas com acréscimos posteriores por outros autores.
2. Exegese Pré-crítica
A exegese pré-crítica é caracterizada por uma abordagem ahistórica, focando mais nas
ideias teológicas subjacentes aos textos do que nas questões históricas ou autorais. Esse
tipo de interpretação não se aprofundava nas discussões sobre quem foi o autor, mas
aceitava a tradição mosaica sem grandes questionamentos.
Estudos Histórico-Críticos Clássicos do Pentateuco
A crítica histórico-crítica surge como um método sistemático para analisar o processo
de formação dos textos bíblicos. Essa abordagem se caracteriza por utilizar métodos
científicos com o objetivo de examinar os textos de maneira empírica e objetiva, assim
como ocorre com outros textos antigos. Durante o Iluminismo, houve uma mudança de
perspectiva: os textos bíblicos passaram a ser vistos mais como documentos históricos
do que como textos inspirados diretamente por Deus.
1. Crítica Literária e Suas Primeiras Contribuições
A crítica literária tem como um dos seus principais objetivos determinar se um texto é
homogêneo ou se possui múltiplos autores. A literatura bíblica, em comparação com a
literatura moderna, apresenta textos que nem sempre são coerentes ou concluídos de
forma unificada. Em muitas partes do Pentateuco, há sinais claros de que diferentes
fontes e autores foram envolvidos na sua composição.
Primeiros Passos na Crítica Literária:
No século XV, Alfonso de Madrigal (El Tostado) já questionava se Moisés seria o único
autor do Pentateuco ou se Esdras teria tido um papel na compilação dos textos. Esse
questionamento se tornaria um tema central para os estudiosos no futuro, especialmente
nos séculos seguintes.
Richard Simon (1638-1712), considerado o fundador da crítica bíblica moderna,
observou no Pentateuco duplicações, tensões e mudanças de estilo que sugeriam que
Moisés não seria o único responsável pela sua autoria. Simon postulou que o Pentateuco
resultava de fontes diferentes, com adicionamentos ocorrendo ao longo do tempo, sendo
Esdras o compilador final.
2. Hipóteses Documentárias
O surgimento das hipóteses documentárias foi uma tentativa de explicar a
multiplicidade de fontes que compõem o Pentateuco:
Hipótese de Witter e Astruc:
Witter e Astruc observaram que em alguns trechos do Pentateuco, Deus é chamado por
Elohim em algumas passagens e Yahvé em outras. Isso os levou a sugerir que o
Pentateuco poderia ter duas fontes principais: a Elohista (que usa Elohim) e a Yahvista
(que usa Yahvé). Astruc expandiu a pesquisa para todo o Gênesis e o início do Êxodo,
sugerindo que o Pentateuco era composto por diferentes fontes.
Hipótese dos Fragmentos (Geddes e Vater):
No final do século XVIII, Geddes e Vater propuseram que o Pentateuco era uma
coleção de fragmentos independentes, não contínuos. Esses fragmentos teriam sido
agrupados por diferentes recopiladores (Elohista e Yahvista). Embora explicasse
algumas questões, essa teoria não dava conta de todas as complexidades do texto,
especialmente nas seções narrativas.
Hipótese dos Complementos (Kelle e Ewald):
Ao contrário da hipótese anterior, Kelle e Ewald acreditavam que o Pentateuco tinha
uma unidade narrativa central, mas que foi completado e adicionado por outras fontes
ao longo do tempo. Eles sugeriram que o Elohista seria o texto original, completado
posteriormente por outros textos.
3. Datando o Pentateuco: De Wette
De Wette foi um estudioso chave que utilizou a reforma de Josias (622 a.C.) como base
para datar o Pentateuco, especialmente os textos relacionados à centralização do culto.
Ele sugeriu que as leis deuteronômicas (como as encontradas em Deuteronômio) foram
introduzidas nessa época. Esse estudo ajudou a estabelecer uma datagem mais precisa
dos textos, associando-os a eventos históricos específicos.
4. A Nova Hipótese Documentária: Hupfeld, Graf e Wellhausen
A teoria mais refinada da crítica literária veio com Hupfeld, Graf, e Wellhausen. Em
suas análises, eles sugeriram a existência de quatro fontes principais no Pentateuco:
J (Yahvista): A mais antiga das fontes, com uma teologia focada em uma visão
antropomórfica de Deus.
E (Elohista): Outra fonte importante, com foco no uso do nome Elohim para Deus.
D (Deuteronômio): Uma fonte mais recente, relacionada à reforma religiosa de Josias.
P (Sacerdotal): A fonte sacerdotal, que reflete uma visão mais formal e centrada no
culto e nas leis do templo.
Wellhausen sintetizou essas ideias, mostrando como essas fontes foram unidas ao longo
do tempo, com a fonte sacerdotal sendo a mais recente. Ele também destacou a evolução
histórica do culto e das instituições de Israel, o que teve um impacto significativo na
compreensão da evolução da religião de Israel e suas práticas.
A Crítica de Forma e a Crítica da Tradição: Gunkel, Von Rad e Noth
1. Crítica de Forma
Objetivo da Crítica de Forma: O estudo da forma (ou form criticism) tem como
principal objetivo identificar e analisar as unidades literárias que compõem um texto,
com foco nas situações e circunstâncias em que esses textos surgiram. A crítica de
forma busca determinar como essas unidades, muitas vezes de natureza independente,
foram agrupadas e modificadas ao longo do tempo. A forma se refere ao texto
individual e concreto, enquanto o gênero é mais abstrato, refletindo o tipo ideal ou
típico de texto.
Distinção entre Forma e Gênero: A crítica de forma não deve ser confundida com a
classificação por gênero literário, que é uma abstração teórica. Ao analisar a literatura
bíblica, percebe-se que muitos textos, especialmente os do Antigo Testamento, foram
compostos originalmente para ocasiões específicas (por exemplo, orações, cânticos ou
relatos de eventos significativos). A crítica de forma investiga a situação vital (ou Sitz
im Leben) que deu origem a esses textos. Gunkel, um dos principais pioneiros,
acreditava que o estudo da forma poderia revelar muito sobre a história das tradições
por trás dos textos e como elas foram transmitidas oralmente antes de serem registradas.
A Contribuição de Gunkel: Hermann Gunkel é considerado o fundador da crítica de
forma. Ele introduziu o conceito de que a literatura do Antigo Israel deveria ser vista
dentro de seu contexto cultural e histórico. Gunkel sugeriu que textos comoGênesis
eram compostos por "lendas" (Sagen), pequenas narrativas populares que, inicialmente
independentes, foram agrupadas e passadas oralmente antes de serem formalmente
registradas. Para ele, a unidade de estudo não estava nas fontes literárias tradicionais,
mas sim nas unidades literárias pequenas que compõem os textos.
2. Crítica da Tradição
Objetivo da Crítica da Tradição: A crítica da tradição (ou tradition criticism) busca
estudar a transmissão das tradições orais e escritas ao longo do tempo, desde sua
formulação original até sua finalização nas Escrituras. Ela foca na expansão,
combinação e reestruturação de unidades literárias, como narrativas, códigos legais,
oráculos e provérbios. O estudo da tradição investiga como essas unidades se
transformaram e foram reinterpretadas em diferentes contextos históricos e teológicos.
Von Rad e a Crítica da Tradição: Gerhard von Rad ampliou a ideia de Gunkel ao focar
na história da tradição do Pentateuco. Von Rad propôs que a origem do Hexateuco
(Gênesis a Josué) estava em um "pequeno credo histórico" encontrado em
Deuteronômio 26,5b-9, um resumo da história de salvação, que servia como profissão
de fé em momentos de celebração da aliança em Siquém. Ele argumentava que a
tradição Yahvista foi a responsável por unir e dar forma a essas narrativas e traduzi-las
para um texto coeso, inserindo as tradições de Sinaí e outros relatos de forma
sistemática.
O Papel do Yahvista: Para Von Rad, o Yahvista foi o principal autor que deu coerência
literária ao Hexateuco. Ele reuniu tradições dispersas, incorporou a história do Sinaí e
construiu uma narrativa contínua a partir de diferentes mitos e relatos. Von Rad sugeriu
que o Elohista e o Sacerdotal desempenharam um papel menor, sendo fontes
secundárias que contribuíram para o desenvolvimento posterior do texto.
3. Noth e a Crítica da Tradição
Noth e a Tradição Pan-Israelita: Norman Noth aprofundou a crítica da tradição ao
enfatizar que as tradições do Pentateuco têm uma orientação pan-israelita, refletindo um
processo coletivo de construção e transmissão. Ele observou que essas tradições foram
formadas ao redor de cinco temas fundamentais:
A saída do Egito.
A entrada em Palestina.
A promessa a Abraão.
A marcha pelo deserto.
O Sinaí.
Esses temas, inicialmente independentes, foram unidos ao longo do tempo, com a
integração de tradições secundárias (como as pragas do Egito, a Páscoa, os episódios da
conquista de Canaã e as histórias de Isaac e Jacó).
Tradições Orais e Cultuais: Noth acreditava que as tradições fundamentais do
Pentateuco provinham de tradições orais, em grande parte cultuais e populares, que
foram fixadas por escrito pelos autores das fontes do Pentateuco. Cada uma dessas
fontes impôs suas próprias interpretações teológicas e traços literários. A fonte
sacerdotal (P), por exemplo, teve um papel significativo na estruturação final do
Pentateuco, especialmente nas seções legais e narrativas.
Estudos Histórico-Críticos Recentes do Pentateuco
Nos últimos anos, a crítica histórico-crítica do Pentateuco passou por uma evolução
significativa. O método tradicional, particularmente a teoria documentária de
Wellhausen, começou a ser questionado por vários estudiosos a partir da década de
1960. O próprio Winnett, em 1965, pediu uma revisão dos fundamentos da teoria
documentária, e em 1969, Rendtorff criticou fortemente essa abordagem no V
Congresso Mundial de Estudos Judaicos. Isso marcou o início de um período de
distanciamento e até mesmo ruptura com as abordagens tradicionais, com novos
modelos emergindo, incluindo hipóteses fragmentárias e complementares.
a) Novo Modelo de Hipótese Fragmentária: Rendtorff e Blum
Rendtorff questionou fortemente a teoria documentária, negando a existência da fonte J
(Yahvista) e propondo um modelo diferente de interpretação, baseado na história da
tradição. Ele acreditava que o Pentateuco não era composto por fontes independentes,
mas por "grandes unidades" que representavam temas e tradições distintas que se
uniram progressivamente para formar o texto final. Essas grandes unidades incluem
temas como a História dos Origens, as Histórias Patriarcais, o Êxodo, o Sinaí, e a
Conquista da Terra.
Blum, discípulo de Rendtorff, expandiu essa ideia e aplicou-a detalhadamente aos
capítulos de Gênesis e Êxodo-Números, argumentando que o Pentateuco foi composto
em duas grandes composições tardias: uma de natureza deuteronômica e outra
sacerdotal, ambas elaboradas com base em tradições mais antigas. Ele datou essas
composições como pós-exílicas, refletindo um processo longo de formação e
reinterpretação das tradições orais e escritas.
b) Novo Modelo de Hipótese Complementária: Schmid, Rose e Van Seters
Schmid e outros estudiosos, como Rose e Van Seters, propuseram um novo modelo que,
embora reconheça a existência da fonte J (Yahvista), sugere que essa fonte não remonta
à época de Salomão, como defendido por Von Rad, mas seria uma obra composta no
exílio. Eles argumentam que a obra de J não era uma grande narrativa de um único
autor, mas sim uma corrente teológica que se baseava nas tradições proféticas e nas
ideias do Deuteronômio.
Van Seters sustentou que o Pentateuco não deveria ser visto como a história fundacional
de Israel, mas sim como uma expansão da História Deuteronomista, que abrange a
história de Israel desde a conquista até a perda da terra. Ele sugeriu que o Pentateuco foi
composto posteriormente para preencher as lacunas históricas da história que se inicia
com Josué.
c) Combinação das Hipóteses Documentária, Fragmentária e Complementária: Zenger
Zenger propôs um modelo mais híbrido, que combina a teoria documentária com
elementos das hipóteses de fragmentos e complementos. Ele argumentou que o
Pentateuco foi formado a partir de três grandes conjuntos de textos preexistentes:
A história jerosolimitana (relacionada aos patriarcas e ao Êxodo), que remonta a 690
a.C..
A obra sacerdotal (com seu núcleo central, incluindo o Código de Santidade e outras
adições), datada da época pós-exílica.
O Deuteronômio, com sua reforma cultual e jurídica associada à época de Josias.
Ele sugeriu que esses conjuntos se fundiram em uma obra complexa, realizada
principalmente sob o impulso de Esdras, com o apoio das autoridades persas, para ser
usada como um documento oficial para a comunidade judaica pós-exílica.
d) Códigos Legais e Estratos Narrativos: Otto
Otto, por sua vez, se concentrou na relação entre os códigos legais e as seções narrativas
no Pentateuco. Ele argumentou que a Lei da Aliança (Êxodo 20,24-23,12) é o mais
antigo dos três grandes códigos legais, enquanto o Deuteronômio (século VII a.C.)
reflete uma reforma cultual que reinterpretou o Código de Aliança dentro do contexto
da centralização do culto. A Lei de Santidade (Levítico 17-26) seria uma compilação
mais recente, baseada em elementos dos códigos anteriores, mas voltada para a criação
de um novo Israel pós-exílico.
Otto propôs que a evolução dessas coleções legais reflete uma história contínua de
interpretação e reformulação dos textos legais, começando com o Código de Aliança,
passando pelo Deuteronômio e chegando à Lei de Santidade, que finalmente consolidou
a revelação dada no Sinaí.
Estudos Literários no Pentateuco
Nos últimos tempos, a análise literária do Pentateuco se distanciou da crítica histórico-
crítica tradicional, adotando métodos mais focados no texto em si e não em suas origens
históricas ou autorais. A principal mudança foi a transição de uma abordagem ahistórica
e sincrônica, que vê o texto como um “monumento” literário a ser interpretado por seu
valor estético, ao invés de ser considerado apenas um documento histórico. Os estudos
literários no Pentateuco se concentraram principalmente no texto final e seu efeito sobre
os leitores,priorizando os aspectos estéticos e as estruturas literárias.
a) Análise Retórica
A análise retórica foi revitalizada como método de estudo do Pentateuco, especialmente
após o discurso de Muilenburg em 1968, que convidou os estudiosos a aplicar a crítica
retórica para complementar os estudos bíblicos. A retórica bíblica possui características
próprias, como o uso de paralelismo (típico da poesia hebraica) e estruturas
concêntricas. Esses recursos ajudam a construir unidades literárias que possuem
coerência interna, sendo essenciais para uma melhor compreensão do texto como um
todo.
A retórica bíblica, em comparação com a retórica grecolatina, se destaca por seu foco
em mostrar (ao invés de convencer logicamente), guiando os leitores a uma
compreensão mais profunda dos textos. A análise se concentra em entender como os
discursos são construídos para gerar impacto, e como as estratégias persuasivas se
aplicam nas narrativas e nos discursos teológicos presentes no Pentateuco.
b) Análise Narrativa
A análise narrativa se concentra em examinar as narrativas bíblicas como piezas
literarias em si mesmas, focando em elementos como a trama, os personagens e o ponto
de vista do narrador. Esse método foi popularizado pela Nova Crítica Literária e destaca
a importância de entender como a história é contada ao invés de apenas focar no
conteúdo histórico.
Um conceito central na análise narrativa é a distinção entre autor implícito e leitor
implícito. O autor implícito se refere à visão de mundo e às decisões narrativas
refletidas no texto, enquanto o leitor implícito é o público ideal para o qual a narrativa
foi construída. Este método também se preocupa em estudar o uso do narrador
onisciente, que transmite informações essenciais que não seriam acessíveis aos leitores
de outra forma.
c) Análise Semiótica
A análise semiótica (ou estruturalista) foca na identificação das estruturas subjacentes
ao texto, buscando entender como as categorias lógicas e os sistemas de significação
moldam a narrativa. Com raízes no formalismo russo de V. Propp e nos estudos
linguísticos de F. de Saussure, esse método visa revelar a gramática do relato, ou seja,
os padrões e estruturas fundamentais que regem o texto.
Embora a análise semiótica tenha encontrado certa resistência devido ao seu
vocabulário complexo, ela tem contribuído significativamente para a compreensão das
relações entre diferentes elementos narrativos e o significado global dos textos bíblicos.
Estudos como os de Leach e Barthes exploraram como as estruturas narrativas podem
ser lidas de maneira a revelar significados mais profundos.
Balance e Tarefa
Após vários séculos de discussão sobre os problemas levantados pelo Pentateuco, os
exegetas ainda não conseguiram chegar a uma solução satisfatória para as questões
colocadas. Isso reflete não apenas a complexidade dos temas, mas também as limitações
dos métodos e a fragilidade das hipóteses. Nenhum método foi capaz até agora de
explicar adequadamente a diversidade de dados que o Pentateuco contém. Contudo, os
estudos bíblicos recentes ajudaram a perceber essas limitações, revisando os
fundamentos, critérios e conclusões anteriores.
Pontos Principais:
Centralidade do Texto: Um consenso crescente aponta para a necessidade de iniciar a
análise com o texto final, sem recorrer inicialmente a fontes ou divisões
preestabelecidas. A leitura sincrônica deve preceder qualquer operação diacrônica. Isso
não significa que as camadas anteriores do texto não tenham importância, mas que a
leitura final deve ser o ponto de partida para compreender melhor a totalidade do texto.
Integração dos Métodos: Para responder adequadamente aos problemas do Pentateuco, é
necessário integrar os métodos históricos e literários, considerando tanto os aspectos
sincrônicos quanto diacrônicos. O estudo dos textos literários pode enriquecer a análise
histórica, e os estudos históricos podem esclarecer certos aspectos que os métodos
literários não conseguem resolver.
Leitura Teológica: O Pentateuco não deve ser lido apenas como um documento
histórico ou uma obra literária, mas também como uma composição espiritual. A obra
não só reflete uma história e uma estética, mas também carrega um profundo mensagem
teológica e ética. Essa abordagem integral é necessária para entender a profundidade da
Palavra Bíblica, que deve ser interpretada com base nos pilares literários e históricos,
mas também religiosos.
Questões Abertas: Muitos problemas da exegese do Pentateuco continuam sendo
debatidos e não serão resolvidos tão cedo. Não se deve simplesmente ignorá-los ou
aceitá-los como certos, mas apresentá-los como questões abertas, aguardando mais
tempo e reflexão para um esclarecimento mais profundo.
Capítulo III - O Livro do Génesis
I. Introdução
O Génesis ocupa uma posição central nos estudos bíblicos e tem sido uma fonte de
interesse desde os primeiros dias da crítica histórica. De facto, as discussões sobre a sua
autoria e composição remontam a nomes-chave como Witter, Astruc, Hupfeld e Gunkel,
figuras fundadoras das hipóteses documentária e da crítica de forma. Mais
recentemente, estudiosos como Van Seters, Rendtorff, Blum e Carr continuaram a
expandir essas discussões, abordando temas que vão da análise literária ao estudo
histórico do livro.
Por ser um livro narrativo que contém algumas das passagens mais primordiais na
tradição literária, o Génesis tem atraído a atenção de estudiosos também na área da
crítica literária moderna, como demonstram as obras de Fokkelman, Prewit e White.
Com os avanços da crítica literária e a multiplicação de estudos utilizando diferentes
métodos, é possível afirmar que o Génesis continua a ser uma obra de grande
importância para os estudiosos da Bíblia, seja do ponto de vista histórico, teológico ou
literário. No entanto, apesar do grande número de abordagens, há pouca unanimidade
quanto a muitas das questões que o Génesis levanta, especialmente no que diz respeito à
sua composição e estrutura.
1. Narrativas, Genealogias e Fórmulas Toledot
O Génesis é composto principalmente por duas grandes formas literárias: narrativas e
genealogias. As narrativas são imprevisíveis e frequentemente surpreendentes, enquanto
as genealogias fornecem uma estrutura ordenada e lógica para o texto. As genealogias
são particularmente importantes, pois ajudam a estabelecer uma ligação entre as
diversas figuras e famílias que surgem ao longo do livro.
As Fórmulas Toledot
O termo toledot (do verbo hebraico yalad, que significa “engendrar”) é fundamental
para entender a estruturação do Génesis. As fórmulas toledot são usadas para indicar a
descendência de uma figura central, e surgem dez vezes ao longo do livro. A função
destas fórmulas é estruturar o Génesis, organizando-o em unidades narrativas e
genealógicas. Abaixo, são apresentados os exemplos dessas fórmulas:
2,4: “Estes são os descendentes do céu e da terra.”
5,1: “Este é o livro da descendência de Adão.”
6,9: “Estes são os descendentes de Noé.”
10,1: “Estes são os descendentes dos filhos de Noé, Sem, Cam e Jafé.”
11,10: “Estes são os descendentes de Sem.”
11,27: “Estes são os descendentes de Terá.”
25,12: “Estes são os descendentes de Ismael.”
25,19: “Estes são os descendentes de Isaac.”
36,1: “Estes são os descendentes de Esaú, que é Edom.”
37,2: “Estes são os descendentes de Jacó.”
Estas fórmulas funcionam como marcos estruturantes, ligando as genealogias às
narrativas e permitindo que o texto se organize de forma mais coerente.
Tipos de Genealogias
Dentro das genealogias do Génesis, podemos distinguir dois tipos principais:
Genealogias verticais (ou lineares): Apresentam uma única linha de descendência, como
a genealogia de Adão até Noé (capítulo 5) e de Sem até Terá (capítulo 11).
Genealogias horizontais (ousegmentadas): Apresentam várias linhas de descendência
ao mesmo tempo, como as genealogias dos filhos de Noé (capítulo 10), de Ismael
(capítulo 25) e de Esaú (capítulo 36).
As genealogias verticais são fundamentais para o desenvolvimento da narrativa, pois
criam um quadro no qual as narrativas podem ser inseridas. Por exemplo, a genealogia
de Adão em Gn 5 estabelece o quadro para a narrativa sobre Noé e a inundação, e a
genealogia de Sem em Gn 11 estabelece o contexto para a história de Terá e Abrahão.
As genealogias horizontais, embora também importantes, têm um papel mais secundário
e marginal, ao apresentar múltiplas linhagens ao mesmo tempo, como as descendências
de Ismael ou de Esaú.
A Função Social e Política das Genealogias
As genealogias no Génesis não são apenas uma forma literária, mas também
desempenham uma função sócio-política. Na antiguidade, as genealogias eram usadas
para legitimar dinastias reais e estabelecer a posição social das famílias. No contexto
bíblico, as genealogias ajudam a legitimar a linha de Adão a Jacó, ligando o povo de
Israel aos seus antepassados, como Abrahão, Isaac, Jacó e seus filhos, que seriam as
doze tribos de Israel.
O Texto de Gn 2,4
Uma das fórmulas toledot mais debatidas é Gn 2,4, que serve como uma transição entre
as narrativas da criação do mundo e a história de Adão e Eva. Alguns estudiosos
sugerem que Gn 2,4 funciona como um ponte entre as narrativas de Gn 1,1-2,3 e Gn
2,4b-3,24, ligando a criação e os eventos seguintes, como a origem da humanidade e a
queda do homem.
2. Contexto histórico e social
Historicidade das Escrituras Sagradas:
Durante muito tempo, acreditou-se que a inspiração divina garantia a historicidade dos
textos bíblicos, fazendo com que livros como o Gênesis fossem lidos quase como
documentos históricos. Essa leitura mais literal tratava os textos como registros
inquestionáveis da história, sem considerar tanto a sua artisticidade ou as formas
narrativas que os compõem. No entanto, esse ponto de vista foi desafiado,
especialmente a partir do século XVII, quando surgiram os primeiros questionamentos
sobre a precisão histórica dos relatos bíblicos.
História dos Origens (Gn 1-11):
A questão da historicidade da História dos Origens foi colocada em evidência já no
século XVII, quando de la Peyrère sugeriu a ideia de uma humanidade pré-adâmica,
devido às discrepâncias entre o relato bíblico e o conhecimento das antigas civilizações
como a caldeia, egípcia e chinesa.
No século XVIII, estudiosos como Eichhorn e Gabler introduziram o conceito de mito
ao debater o relato da criação, questionando se as histórias contadas no Gênesis 1-11
são mitológicas ou representam realidades históricas. A visão moderna tende a ver esses
capítulos como mitos fundacionais de uma tradição monoteísta, diferenciando-se das
mitologias do Antigo Oriente Próximo, mas com algumas semelhanças estruturais.
Histórias Patriarcais (Gn 12-50):
A questão da historicidade das Histórias patriarcais continuou a ser debatida,
especialmente no século XX. Inicialmente, muitos estudiosos acreditavam que os
relatos sobre Abrahão, Isaac, Jacó e José tinham um valor histórico significativo, dado
que paralelos com documentos extrabíblicos do segundo milénio a.C. eram encontrados
(por exemplo, documentos de Mari, Nuzi e Ugarit). No entanto, estudos mais recentes
têm questionado essa visão, apontando que os relatos patriarcais provavelmente
refletem a época de sua redação (primeiro milénio a.C.), particularmente durante o
período monárquico ou até exílico e pós-exílico. As informações presentes nesses textos
não podem ser usadas para datar os patriarcas historicamente, mas sim para entender
melhor o contexto da redação do Pentateuco.
3. Teologia
Deus Criador:
O Deus do Gênesis é apresentado como o Criador absoluto e sem genealogia, o que o
distancia radicalmente de todos os outros personagens do livro. Ele não entra em cena
como os demais, mas começa a ação criando o mundo e estabelecendo a ordem do
universo. Sua posição de Criador e Senhor absoluto de toda a criação é um tema central,
reforçando sua soberania sobre o cosmos e os seres vivos.
Deus da Bênção e da Promessa:
O tema da bênção divina percorre o livro do Gênesis e está intimamente ligado às
promessas que Deus faz aos homens, como visto em passagens como Gn 12,1-3, onde
Deus promete a Abrahão que ele será pai de uma grande nação. A bênção de Adão
(1,28) é transmitida aos seus descendentes, e a genealogia de Adão (Gn 5) enfatiza a
transmissão da imagem e da bênção divina através das gerações, com especial destaque
para a linhagem que chega até Noé e, em seguida, a de Abrahão. Este último recebe a
promessa de que sua descendência será uma bênção para toda a humanidade, refletindo
a continuidade do plano de Deus para a criação e para seu povo.
Deus da Aliança:
A aliança divina é outro pilar teológico fundamental no Gênesis, evidenciada pela
aliança com Noé (Gn 9,8-17) e com Abrahão (Gn 15 e 17). Em ambos os casos, Deus
faz promessas irrevogáveis que moldam a história de seu povo. As promessas de terras e
descendentes são características de sua aliança com Abrahão, e essas promessas são
continuadas ao longo das gerações.
4. Estrutura e Divisões
Evolução da Narrativa:
O estudo de Cohn sobre a estrutura narrativa do Gênesis revela uma evolução
significativa no livro. Inicialmente, em Gn 1-11, Deus aparece de forma constante,
intervindo diretamente nos acontecimentos. A medida que o livro avança,
principalmente a partir de Gn 12, Deus passa a se comunicar de forma mais distante
com os personagens, aparecendo principalmente a Abrahão, ocasionalmente a Jacó e
nunca mais diretamente a José. Ao mesmo tempo, os personagens humanos começam a
ganhar mais autonomia, refletindo uma mudança na forma de narrar a história, que se
torna mais coesa e centrada nas ações humanas.
Divisão do Gênesis:
A estrutura do Gênesis pode ser dividida em quatro grandes seções narrativas:
História dos Origens (Gn 1-11) — onde são narrados os primeiros eventos da criação e
o início da humanidade.
História de Abrahão (Gn 11-25) — centrada em Abrahão e na formação da promessa
divina.
História de Jacó (Gn 25-36) — que foca nas vidas de Jacó e seus filhos, especialmente
os conflitos familiares.
História de José (Gn 37-50) — onde a história de José é contada e culmina com a
reconciliação com seus irmãos e o estabelecimento do povo de Israel no Egito.
Essas divisões coincidem com a estrutura apresentada pelas fórmulas toledot, que são
encontradas ao longo do Gênesis e servem como uma espécie de marcador para a
transição de uma narrativa para outra, ligando as diferentes seções e fornecendo coesão
ao livro.