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Autor: Eduardo Coral Viegas 
PROPOSTA DE ENUNCIADO: A privatização do saneamento básico é juridicamente possível no Brasil, porém é 
contrária aos interesses sociais. A água é um bem público e sua gestão deve ser integralmente pública, inclusive a 
prestação do serviço de saneamento. 
SÍNTESE DOGMÁTICA DA PROPOSIÇÃO E SUA FUNDAMENTAÇÃO: A privatização do saneamento 
básico no Brasil fere gravemente os princípios da economicidade, razoabilidade, proporcionalidade e até mesmo o da 
moralidade. Ora, não é dado ao gestor público, mandatário do povo (art. 1º, parágrafo único, da CF), mal administrar 
os recursos estatais, que são por demais parcos, como se as políticas públicas pudessem ser alteradas ao bel prazer do 
governante do momento. Se a política de saneamento nacional teve por parâmetro propulsor a titularidade municipal 
e a constituição de paraestatais dos Estados-membros para a execução do serviço por delegação, deve seguir nesse 
rumo, observadas, evidentemente, situações peculiares, como casos em que Municípios maiores têm plenas 
condições de executar diretamente o serviço em foco ou em que determinada CESB não cumpre definitivamente sua 
missão legal. 
PRIVATIZAÇÃO DO SANEAMENTO: 
um gesto contrário aos interesses sociais 
Apesar de a Constituição de 1988 ter publicizado integralmente as águas, não agiu assim em relação ao 
serviço de saneamento básico, possibilitando que seja prestado pelo poder público ou pela iniciativa privada. 
Muitas vezes há uma confusão entre a dominialidade dos recursos hídricos e a titularidade do fornecimento 
da água e do tratamento do esgotamento sanitário, mas seu tratamento jurídico-constitucional é distinto. 
O serviço de fornecimento de água compreende, em linhas gerais, a sua captação em um corpo d’agua - 
superficial ou subterrâneo -; sua condução na forma bruta, chamada tecnicamente de adução; o tratamento; a adução 
da água tratada; seu armazenamento; e, por fim, a distribuição aos destinatários. 
O serviço de esgotamento sanitário abrange a coleta; o transporte; o tratamento; e a disposição final do 
esgoto e dos resíduos do processo de depuração. 
Essa é uma apertada síntese do procedimento, uma vez que cada uma dessas etapas ou outras de menor 
expressão guardam suas especificidades, podendo-se exemplificar que o tratamento do esgoto engloba as fases 
primária, secundária e terciária, que são implantadas, via de regra, subsequentemente. 
No sistema pátrio, quem abastece a população com água também deve ser responsável pela destinação dos 
resíduos líquidos. As redes de fornecimento de água e de coleta de esgoto são diversas, mas a cobrança pelos 
serviços é vinculada. Como é muito difícil mensurar a quantidade de esgoto despejado na rede geral, estima-se que 
quem consome mais água produz mais resíduos líquidos, pelo que a remuneração do serviço de saneamento é 
atrelada à quantidade de água consumida. Daí conclui-se que o uso de fonte alternativa em região dotada de 
saneamento básico implica enriquecimento ilícito, na medida em que o usuário da rede de esgotamento não está 
pagando - ao menos na proporção devida - pelo serviço que está utilizando, com isso acarretando prejuízo à 
 2 
coletividade, que acabará suportando esse custo gerado e não remunerado por quem era devedor da obrigação de 
pagar. (VIEGAS, 2005, p. 108-109). 
Com o crescimento acelerado e desordenado de ocupação das áreas urbanas, foi necessária a execução de 
medidas sanitárias prioritárias, até porque nem tudo era possível ser feito com rapidez, tendo em vista, sobretudo, o 
elevado custo do serviço público em exame. Houve investimento inicial maior no fornecimento de água potável, por 
rede geral, à população
1
. Agora os prestadores do serviço têm a missão de ampliar a referida rede e trabalhar mais 
intensamente na coleta e no tratamento do esgoto sanitário, sendo esse um dos grandes desafios que se enfrentará 
doravante. 
Para que o saneamento público seja efetivo, é necessário que o prestador do serviço tenha por norte alguns 
princípios ou diretrizes, dentre as quais podemos destacar a universalidade e equidade: acesso de todos ao 
saneamento e com o mesmo nível de qualidade, sem discriminação; a integralidade: provimento de todas as diversas 
naturezas do serviço; a continuidade: por ser essencial, o serviço não pode sofrer interrupções, salvo em casos 
excepcionais; a eficiência e segurança: o usuário deve receber serviço eficiente e seguro, pois está consumindo um 
produto que pode lhe gerar graves repercussões em sua saúde, vida, finanças; a modicidade dos valores cobrados: 
necessária para não dificultar o acesso ao serviço, que é, sabidamente, essencial à dignidade da pessoa humana, à 
preservação e proteção ambiental, bem como ao desenvolvimento sustentável; a participação social: em todo o 
processo que engloba o saneamento, desde o estabelecimento de políticas para o setor até a execução e controle dos 
serviços, deve estar presente o acompanhamento efetivo da sociedade, pois é a destinatária do produto do 
saneamento; o predomínio do valor social sobre o econômico: com base nesse princípio, é possível sustentar a 
cobrança de valores diferenciados para as populações carentes, garantindo-se até mesmo o serviço modo gratuito 
para consumos baixos, se a pessoa ou sua família não têm condições de pagar nem o mínimo
2
. 
Tendo-se em conta a crise da água, que assola o mundo de uma forma global, e que sem água não há vida 
humana, animal ou vegetal, bem como o estabelecimento do uso prioritário dos recursos hídricos para o consumo 
humano e a dessedentação de animais em situações de escassez (art. 1º, III, da Lei das Águas), chega-se à ilação de 
que o Poder Público assumiu a dominialidade exclusiva desse recurso natural como forma de geri-lo visando ao 
interesse da coletividade. 
Na medida em que a Constituição disciplina competir privativamente à União instituir diretrizes para o 
desenvolvimento de saneamento básico (art. 21, XX, da CF) e confere a todos os entes federados competência 
comum para promover programas de saneamento básico (art. 23, IX, da CF), instituiu um serviço público próprio
3
 do 
 
1
 Um dos motivos de terem sido privilegiados investimentos em água foram os menores custos em comparação com 
o serviço de esgotamento sanitário e retornos mais rápidos ante o pagamento de tarifas. 
2
 Não se pode esquecer que água e saúde estão diretamente relacionados, e que a saúde é direito de todos e dever do 
Estado (art. 196 da CF), que deve priorizar atividades preventivas (art. 198, II, da CF). 
3
 Reconhece-se, contudo, que há entendimentos no sentido de que se trata de serviço público impróprio do Estado, 
consoante decidiu o STJ no julgamento do RESP 525500/AL, 2ª Turma, Relatora Ministra Eliana Calmon, DJ 
10/05/2004, p. 235. 
 3 
Estado (MELLO, 1998, p. 435) e de caráter essencial, consoante expressamente já reconheceu o Superior Tribunal 
de Justiça
4
. 
Sendo inquestionável a repartição constitucional da propriedade das águas entre a União (art. 20, III) e os 
Estados (art. 26, I), resta saber de quem é a titularidade pela prestação do serviço de saneamento básico. 
 Para que se possa discorrer acerca da privatização da atividade de saneamento básico, é necessário, antes, 
que se fixem as premissas em torno de quem detém o direito/dever de prestar o serviço público. A base do estudo 
será focada no Direito Constitucional positivo, uma vez que, dentre os elementos próprios das constituições, está o 
de estabelecer normas que regulam a estrutura do Estado e do Poder, as quais estão compreendidas no Título III da 
CF/88, que trata especificamente “Da organização do Estado”. 
 No plano histórico, a União passou a atuar na área de saneamento básico na década de 1960, quando da 
criação do BNH e do FGTS, adotando, porém, uma política mais incisiva na década de 1970, época em que foi 
instituído o PlanoNacional de Saneamento - PLANASA -, como destaca Victor Carvalho Pinto
5
. Segue o autor 
frisando que o PLANASA, regulamentado pela Lei n. 6.528/78, definiu um modelo até hoje seguido, por meio do 
qual os Estados-membros criaram empresas públicas ou sociedades de economia mista, as Companhias Estaduais de 
Saneamento Básico - CESBs -, e por meio delas passaram a prestar o serviço aos municípios, via contratos de 
concessão. 
Essa sistemática foi estimulada pela União por intermédio da concessão de financiamentos do FGTS apenas 
para as paraestatais dos Estados, abrangendo aproximadamente 75% dos municípios. Os contratos eram vagos, 
havendo inúmeras lacunas de relevo, como a falta de definição dos bens reversíveis ou fórmula para o cálculo de sua 
amortização. 
 Victor Pinto assenta que, “na prática, o serviço é prestado como se fosse de competência estadual, inexistindo 
qualquer regulamentação municipal”. Segue enfatizando que os contratos estão-se vencendo, o que fará com que os 
municípios celebrem novos contratos. Como a PLANASA entrou em crise na década de 1990, sendo a maior parte 
das CESBs ineficientes e deficitárias, muitos municípios têm optado por desvincular-se das paraestatais referidas. 
Alguns entes federados municipais criaram órgãos próprios para o desenvolvimento direto da atividade, na forma de 
departamentos ou autarquias, recebendo, com esse perfil institucional, imunidade tributária. O autor salienta, ainda, 
que outros municípios concederam o serviço à iniciativa privada, o que tem gerado frequentes conflitos com as 
empresas estaduais, que cobram indenizações pelos investimentos realizados. 
 Há, portanto, um inquestionável ponto de conflito entre grande parte dos municípios e os Estados. De um 
lado, os Estados-membros constituíram paraestatais com a finalidade específica de prestar o serviço de saneamento 
básico, sendo investidos, via de consequência, vultosos recursos públicos nessa atividade. Por outro, importa saber 
se, no plano jurídico, os municípios são realmente os titulares do serviço em questão, pois só em caso positivo 
poderão excluir a participação das CESBs da atividade, assumir sua execução ou concedê-la à iniciativa privada, o 
que será objeto de análise em seguida. 
 
4
 ERESP 337965/MG, 1ª Seção, Relator Ministro Luiz Fux, DJ 08/11/2004, p. 155. 
5
 “A Privatização do Saneamento Básico”. Disponível na internet em http//www.senado.gov.br. Acesso em 
12/04/2005. 
http://www.senado.gov.br/
 4 
 Hely Lopes Meirelles (1996) deixa bem claro seu posicionamento no sentido de que: 
As obras e serviços para fornecimento de água potável e eliminação de detritos sanitários 
domiciliares, incluindo a captação, condução, tratamento e despejo adequado, são 
atribuições precípuas do Município, como medida de interesse da saúde pública em geral 
e dos usuários em particular. (p. 307) 
 
 No mesmo sentido é o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça: 
O serviço público de fornecimento de água e de tratamento de esgoto é essencial para a 
boa saúde da população, e constitui responsabilidade dos municípios (Suspensão de 
liminar e de sentença n. 1407/RS – 2011-0143001-3, decisão de 22/06/2011, Ministro 
Ari Pargendler) 
Não obstante as respeitadas transcrições doutrinária e jurisprudencial, a matéria guarda certas especificidades 
que merecem detida atenção. Efetivamente, inúmeros são os serviços públicos que vêm enumerados pela Carta 
Magna, que os reparte entre os entes federados, tais como os de serviço postal e correio aéreo nacional (art. 21, X), 
telecomunicações (art. 21, XI), instalação de energia elétrica e aproveitamento energético dos cursos de água (art. 21, 
XII, “a), gás canalizado local (art. 25, § 2º), transporte coletivo local (art. 30, V). Outros estão em zona gris, caso do 
saneamento básico. 
 A Constituição estabeleceu competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios 
para cuidar da saúde (art. 23, II), proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas (art. 
23, VI) e promover programas de melhoria de condições de saneamento básico (art. 23, IX). Considerando que o 
fornecimento de água potável à população e o recolhimento e tratamento do esgotamento sanitário têm reflexos na 
saúde pública e no meio ambiente nacionais, à União compete instituir diretrizes gerais e estimular a execução de 
políticas públicas no setor, como repassando recursos financeiros aos titulares do serviço. 
 A regra é de que o serviço de saneamento público seja de interesse local, competindo, portanto, sua execução 
direta ou sob regime de concessão ou permissão
6
 aos municípios (art. 30, V, da CF). Esse é o fundamento 
constitucional que define a titularidade do saneamento básico aos entes municipais. O interesse público, no caso, 
caracteriza-se pela realização de todas as fases do saneamento nos estritos limites territoriais locais, não se 
apresentando necessário o compartilhamento de instalações e/ou equipamentos com municípios vizinhos. É o que 
ocorre na maioria das cidades brasileiras. 
 Todavia, não se pode afirmar ser a referida titularidade exclusiva da municipalidade. Não raras vezes há 
interesse regional apto a caracterizar como dos Estados a competência material sobre serviços de saneamento básico. 
Na Constituição, o art. 25, §§ 1º e 3º, dá respaldo ao que se sustentou. É necessário, contudo, que os Estados editem 
lei complementar para instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas ou microrregiões, constituídas por 
agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções 
públicas de interesse comum. 
 
6
 Embora possível, no plano puramente normativo, a delegação do serviço de saneamento básico por permissão, a 
regra é que seja feita por concessão, já que a permissão, por ser ato unilateral de natureza precária, não se 
compatibiliza com os investimentos elevados que demandam o setor, implicando relação duradoura, estável e com 
garantias razoáveis em favor de quem assume a prestação do serviço. 
 5 
Tal interesse afasta a competência dos municípios, como leciona Alaôr Caffé Alves. (1998, p. 32). Assim 
sendo, se houver compartilhamento de instalações e/ou de equipamentos em região metropolitana instituída por lei 
complementar estadual, o serviço de saneamento assume interesse predominantemente comum, ficando o Estado-
membro respectivo autorizado a desenvolver, como titular, trabalhos de fornecimento de água por rede geral e de 
esgotamento. 
 Em qualquer caso, é facultado ao titular do serviço promover a sua delegação, se não tiver interesse em prestá-
lo diretamente. Quando o delegado é da iniciativa privada, utiliza-se comumente a expressão privatização do serviço 
de saneamento básico. Ela é empregada não no sentido de que o poder público outorga a titularidade dos serviços ao 
setor privado, mas a gestão desses serviços
7
, inclusive a execução das respectivas obras de infraestrutura, 
reservando-se a disciplina regulamentar, o controle e a fiscalização próprios do poder concedente. (ALVES, 1998, p. 
23). A delegação deve-se dar por concessão ou por permissão, sempre através de licitação, na forma do art. 175 da 
CF. 
 Também existe a hipótese de as paraestatais estaduais criadas por ocasião do PLANASA abrirem seu capital 
para a iniciativa privada. Mesmo assim, a privatização dá-se em relação à empresa pública ou à sociedade de 
economia mista, e não à titularidade do serviço, que sequer lhes pertence. 
 Outro instrumento de privatização do setor foi recentemente implementado no Brasil, que é a legislação 
concernente às parcerias público-privadas. Tal arcabouço legal, que teve início com a edição da Lei Federal n. 
11.079/2004 e se ampliou com as inúmeras leis estaduais elaboradas, cristaliza a tendência neoliberal que atinge o 
mundoglobalizado, contrapondo-se ao Estado social, como leciona Paulo Bonavides: 
 
Esmaecê-lo [referindo-se ao Estado social] e depois destruí-lo é parte programática das 
fórmulas neoliberais propagadas em nome da globalização e da economia de mercado, 
bem como da queda de fronteiras ao capital migratório, cuja expansão e circulação sem 
freio, numa velocidade imprevisível, contribui irremissivelmente para decretar e 
perpetuar a dependência dos sistemas nacionais, indefesos e desprotegidos, sistemas que 
demoram nas esferas do Terceiro Mundo”. (BONAVIDES, 1996, p. 11). 
 
 As parcerias público-privadas (PPPs) são uma extensão das concessões e permissões de serviços públicos, 
estas disciplinadas pela Lei n. 8.987/95. A inovação é que as PPPs têm objeto mais amplo. Enquanto nas concessões 
e permissões o delegado do serviço é remunerado apenas pela tarifa cobrada do usuário, pelas PPPs é possível, além 
da remuneração por tarifa, a cessão de créditos não-tributários, assim como a outorga de direitos sobre bens públicos 
dominicais e outros meios admitidos em lei (art. 6º da Lei n. 11.079/2004), tudo devendo constar de cláusula 
contratual (art. 5º, IV, da Lei das PPPs). Outra vantagem para a iniciativa privada é a possibilidade de contratação 
por prazo superior a 60 meses, limite imposto pelo art. 57, II, da Lei de Licitações
8
. Aliás, a Lei das PPPs veda a 
celebração de contratos por tempo inferior a 60 meses (art. 2º, § 4º, II), prevendo que o prazo de vigência será 
compatível com a amortização dos investimentos realizados, não podendo, contudo, ser superior a 35 anos (art. 5º, I). 
 
7
 Continuar-se-á utilizando a expressão privatização dos serviços de saneamento básico, pois é o mais usual e 
simplificado, sinalando-se, contudo, que a melhor técnica é o uso da privatização da execução dos serviços de 
saneamento básico. 
8
 Reconhece-se, contudo, haver posição no sentido de que esse prazo não pode ser considerado como o limite para as 
concessões. (MELLO, 1998, p. 473). 
 6 
A nova sistemática também oferece garantias mais concretas ao contratado (art. 8º), dando a ele mais 
tranquilidade de que a Administração Pública honrará seus compromissos. Como o objetivo deste trabalho não é 
aprofundar o estudo das PPPs, destaca-se que o posto acima são apenas algumas das inovações em relação às 
tradicionais concessões e permissões de serviço público, havendo outras que, sem dúvida, estimularão a iniciativa 
privada a investir em setores tipicamente públicos, sendo um dos grandes alvos o saneamento básico. 
 Sinale-se que a privatização do serviço de saneamento depende sempre de lei específica que a autorize e fixe 
seus termos, sendo inconstitucional o art. 2º da Lei n. 9.074/95
9
 ao dispensá-la nos casos de saneamento básico e 
limpeza urbana, porquanto viola o princípio da legalidade, na forma do entendimento do Tribunal Pleno do Estado 
do Rio Grande do Sul ao julgar a ADIn n. 70001300904
10
. 
 Outra exigência intransponível e inquestionável em qualquer forma de delegação à iniciativa privada é a 
licitação pública, como acima visto. A controvérsia surge em relação aos serviços de titularidades dos municípios 
concedidos às CESBs, que são paraestatais com personalidade jurídica de direito privado criadas por leis estaduais 
com a finalidade específica de execução do saneamento básico. No plano constitucional, por um lado, o art. 175 da 
CF obriga sempre a licitação nas hipóteses de concessão ou permissão de serviços públicos; de outro, o art. 37, XXI, 
da CF possibilita à legislação ordinária ressalvar casos não sujeitos a certame público. A legislação 
infraconstitucional incidente é a Lei de Licitações (Lei n. 8.666/93), a qual elenca várias hipóteses de dispensa, 
dispensabilidade e de inexigibilidade de licitação em seus arts. 24 e 25. O art. 24, VIII, da referida Lei está assim 
redigido: 
Art. 24. é dispensável a licitação: 
... 
VIII – para a aquisição, por pessoa jurídica de direito público interno, de bens 
produzidos ou serviços prestados por órgão ou entidade que integre a Administração 
Pública e que tenha sido criado para esse fim específico em data anterior à vigência desta 
Lei, desde que o preço contratado seja compatível com o praticado no mercado; 
 
 Como as CESBs foram criadas na década de 1970, podem renovar indefinidamente com os municípios 
contratos de concessão de serviço de saneamento básico independentemente de licitação. Quanto à exigência de que 
o preço seja compatível ao praticado no mercado, bem aponta Alaôr Caffé Alves que deve haver verificação de fato, 
devendo o valor ser razoável e compatível com a média do mercado. (1998, p. 59). O mesmo autor destaca que, no 
saneamento, não é possível repartir uma mesma infraestrutura para a prestação do serviço por mais de um ente de 
modo simultâneo, já que, para tanto, seria necessária a implantação de duas redes paralelas, no mesmo limite 
territorial, o que considera um absurdo. Por essa razão é que esse tipo de serviço é chamado de monopólio natural. 
(ALVES, 1998, p. 30). 
 
9
 Art. 2º. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios executarem obras e serviços públicos 
por meio de concessão e permissão de serviço público, sem lei que lhes autorize e fixe os termos, dispensada a lei 
autorizativa nos casos de saneamento básico e limpeza urbana e nos já referidos na Constituição Federal, nas 
Constituições Estaduais e nas Leis Orgânicas do Distrito Federal e Municípios, observado, em qualquer caso, os 
termos da Lei no 8.987, de 1995. 
10
 “Ação direta de inconstitucionalidade. Autorização do Poder Executivo para licitar a concessão de serviço de 
águas e esgoto. Tema que deve ser submetido à Câmara de Vereadores. Mesmo nos casos de saneamento e limpeza 
urbana. Inconstitucionalidade formal por ofensa aos princípios da legalidade e da harmonia e independência dos 
poderes. Ação julgada procedente”. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8987cons.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8987cons.htm
 7 
 Chegou-se a um ponto no qual faz-se mister uma conclusão: a privatização do saneamento básico no Brasil 
fere gravemente os princípios da economicidade, da razoabilidade, da proporcionalidade e até mesmo o da 
moralidade. Ora, não é dado ao gestor público, mandatário do povo (art. 1º, parágrafo único, da CF), mal administrar 
os recursos estatais, que são por demais parcos, como se as políticas públicas pudessem ser alteradas ao bel prazer do 
governante do momento. Se a política de saneamento nacional teve por parâmetro propulsor a titularidade municipal 
e a constituição de paraestatais dos Estados-membros para a execução do serviço por delegação, deve seguir nesse 
rumo, observadas, evidentemente, situações peculiares, como casos em que municípios maiores têm plenas 
condições de executar diretamente o serviço em foco ou em que determinada CESB não cumpre definitivamente sua 
missão legal. 
 Além da motivação acima declinada, entendemos que o tempo demonstrou que o Brasil agiu com acerto ao 
estabelecer a política de criação das CESBs, pois só com elas foi possível a efetivação do subsídio cruzado, 
consistente em estabelecer um equilíbrio global de prestação do serviço, importando mais o conjunto de municípios 
alcançados pela rede de saneamento do que um ou outro especificamente. Assim, se alguns municípios pequenos não 
são auto-sustentáveis, outros superavitários fazem com que a empresa estadual consiga se equilibrar financeiramente. 
Agora, se os municípios com boas condições econômicas resolverem executar diretamente o saneamento ou 
privatizá-lo, como ficarão, de um modo geral, aqueles mais pobres e sua população? Será que as empresas privadas 
investirão em áreas carentes de recursos financeiros ou com outras dificuldades importantes, como a deficiência de 
recursos hídricos?Dada a relevância do saneamento, sua execução direta pelo poder público é uma necessidade se o Brasil 
tiver como meta a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; o desenvolvimento nacional; a erradicação da 
pobreza e da marginalização; a redução das desigualdades sociais e regionais; e a promoção do bem de todos (art. 3º 
da CF). Só assim o governo estaria efetivando políticas sociais sérias, conforme os ditames da justiça social (art. 170 
da CF). 
 Contudo, a política neoliberal privatista com que se depara, coincidentemente ou não, está distante desses 
ideais e, ao mesmo tempo, em plena harmonia com os interesses de grandes corporações transnacionais, que, 
“apoiadas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), estão ofensivamente assumindo a 
administração dos serviços públicos de água, enquanto aumentam drasticamente o preço dela para os residentes 
locais, lucram, especialmente, com a busca desesperada do Terceiro Mundo por soluções de combate à crise de 
água”. (BARLOW; CLARKE, 2003, xxv). 
Não se precisa ir muito longe para perceber a realidade do aumento das tarifas a partir da privatização de 
serviços públicos, bastando que se atente para os valores cobrados pelas empresas de telefonia e de energia elétrica 
que hoje dominam o mercado nacional. E, lembre-se, no tocante ao saneamento tem-se uma situação agravante: falta 
de competitividade em razão do monopólio natural do serviço. 
A água é um dos recursos naturais mais importantes para a vida, pois, ao lado do ar que se respira, é 
fundamental em toda a trajetória delimitada entre o nascimento e a morte. Um bem dessa envergadura não pode estar 
nas mãos da exploração privada. Pertence a todos, devendo ser administrado pelo poder público, ente abstrato que 
tem como missão a satisfação do interesse social. O Estado tem a incumbência de proteger e de preservar a água para 
 8 
a atual e para as futuras gerações, na medida em que, com o auxílio da sociedade que representa, exerce os encargos 
de seu depositário e guardião. 
 O saneamento básico é condição mínima de reconhecimento da dignidade da pessoa humana. Sem água 
tratada e escoamento do esgoto sanitário, nenhuma família pode-se constituir adequadamente, nenhuma criança tem 
assegurado seu direito a um desenvolvimento integral, em condições dignas e de liberdade. A falta ou deficiência 
significativa na prestação desse serviço público essencial gera doenças evitáveis, morte, baixo padrão de qualidade 
de vida; enfim, sem o ser humano ao menos poder sair de casa de banho tomado e com sua sede saciada, que 
oportunidades de vida terá nos grupamentos sociais? 
Quem iniciou a privatização do saneamento foi a França, na década de 1980. Porém, pouco mais de 20 anos 
após a delegação ao setor privado, Paris percebeu o problema criado e, em 2010, concluiu o processo de 
reestatização, iniciativa vista como uma “queda do sistema”. Assim, as megacorporações, símbolos da privatização, 
deixaram a capital francesa, perdendo mercado e, sobretudo, a imagem de sucesso que vendiam ao mundo. 
Na mesma esteira, a Itália submeteu sua legislação que tratava da privatização do saneamento a um 
referendo popular, que ocorreu em junho de 2011, tendo a população rejeitado o novo sistema com aproximadamente 
95% dos votos mantendo a água como um bem público e gerido pelo Estado. 
 O vizinho Uruguai também deu demonstração de como o assunto deve ser enfrentado. Em 31 de outubro de 
2004, paralelamente à eleição do novo presidente da república, o povo uruguaio foi às urnas para ser consultado 
acerca dos rumos que seu País deveria dar à água. O resultado é uma emenda constitucional que reconheceu a água 
como de domínio público estatal, dispondo ainda que o serviço público de saneamento e o serviço de abastecimento 
de água
11
 para o consumo humano serão prestados exclusiva e diretamente por pessoas jurídicas estatais. 
 Traçando-se um paralelo com nossa legislação, pode-se afirmar que o Uruguai avançou muito. Isso porque, 
apesar de o Brasil ter declarado por lei que toda a água é pública, não vedou a possibilidade de privatização do 
serviço de saneamento público. Em verdade, os governos de todos os níveis federativos sofrem pressão interna para 
implementar um efetivo serviço de saneamento e, para darem vazão a esse anseio social, preferem transferir a 
responsabilidade à iniciativa privada, fazendo-o como forma de se livrar de um “grande problema”, ainda que, assim 
agindo, estejam gerando danos irreparáveis ou de difícil reparação ao interesse público. 
 A mercantilização e a privatização da água também são estimuladas por virem ao encontro dos interesses de 
“parceiros” do Brasil de grande expressão internacional, que não solicitam; ao revés, ditam as políticas que devem 
ser desenvolvidas pelos países de Terceiro Mundo, os quais se encontram, mais do que nunca, escravizados pela 
dependência econômica. Assim, embora a gestão democrática interna da água seja reconhecida em nosso sistema 
jurídico-normativo, na realidade não tem proteção efetiva, prática. 
 Exemplo de participação concreta da sociedade na solução das controvérsias envolvendo os recursos hídricos 
nos dá o Tribunal das Águas de Valencia, que há mais de mil anos reúne na Espanha um grupo de camponeses, com 
mandato temporário, para solver conflitos que lhe são trazidos por outros agricultores. Os fundamentos desse 
 
11
 A terminologia foi empregada pela Constituição Uruguaia, podendo parecer redundante, já que se sustenta que o 
serviço de saneamento compreende o de abastecimento de água. 
 9 
Tribunal espanhol evidenciam importantes lições em torno da relevância da água e com que seriedade ela deve ser 
tratada, democraticamente. Dentre elas, pode-se extrair o ensinamento de que a água ou os conflitos que a cercam 
devem ser administrados por quem está próximo, jamais por grandes corporações transnacionais ou por organismos 
internacionais, que visam, sobretudo, ao lucro. 
 O Brasil somente assegurará justiça social se vier a estabelecer uma política em torno dos recursos hídricos 
que se concretize na prática. Ela deve ter como norteadora a diretriz de que a água é integralmente pública, e que, 
como tal, deve ser gerida com vistas à satisfação prioritária do interesse coletivo. Com essa postura, estará 
resguardando um direito fundamental do homem e outorgando-lhe melhores níveis de qualidade de vida. No plano 
externo, a postura ora preconizada reforçará a soberania nacional, que muitas vezes tem sido violada sem que haja 
respostas adequadas de parte de nossa República Federativa. 
Referências 
ALVES, Alaôr Caffé. Saneamento básico – concessões, permissões e convênios públicos. São Paulo: EDIPRO, 
1998. 
 
BARLOW, Maude; CLARKE, Tony. Ouro Azul. São Paulo: M. Books, 2003. 
 
BONAVIDES, Paulo. Do estado liberal ao estado social. 6. ed. rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 1996. 
 
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito municipal brasileiro. 8. ed., atual. São Paulo: Malheiros, 1996. 
 
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 10. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: 
Malheiros, 1998. 
 
PINTO, Victor Carvalho Pinto. “A privatização do saneamento básico”. Disponível na internet em 
http//www.senado.gov.br. Acessado em 12/04/2005. 
 
VIEGAS, Eduardo Coral. Visão jurídica da água. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2005.

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