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1 Autor: Eduardo Coral Viegas PROPOSTA DE ENUNCIADO: A privatização do saneamento básico é juridicamente possível no Brasil, porém é contrária aos interesses sociais. A água é um bem público e sua gestão deve ser integralmente pública, inclusive a prestação do serviço de saneamento. SÍNTESE DOGMÁTICA DA PROPOSIÇÃO E SUA FUNDAMENTAÇÃO: A privatização do saneamento básico no Brasil fere gravemente os princípios da economicidade, razoabilidade, proporcionalidade e até mesmo o da moralidade. Ora, não é dado ao gestor público, mandatário do povo (art. 1º, parágrafo único, da CF), mal administrar os recursos estatais, que são por demais parcos, como se as políticas públicas pudessem ser alteradas ao bel prazer do governante do momento. Se a política de saneamento nacional teve por parâmetro propulsor a titularidade municipal e a constituição de paraestatais dos Estados-membros para a execução do serviço por delegação, deve seguir nesse rumo, observadas, evidentemente, situações peculiares, como casos em que Municípios maiores têm plenas condições de executar diretamente o serviço em foco ou em que determinada CESB não cumpre definitivamente sua missão legal. PRIVATIZAÇÃO DO SANEAMENTO: um gesto contrário aos interesses sociais Apesar de a Constituição de 1988 ter publicizado integralmente as águas, não agiu assim em relação ao serviço de saneamento básico, possibilitando que seja prestado pelo poder público ou pela iniciativa privada. Muitas vezes há uma confusão entre a dominialidade dos recursos hídricos e a titularidade do fornecimento da água e do tratamento do esgotamento sanitário, mas seu tratamento jurídico-constitucional é distinto. O serviço de fornecimento de água compreende, em linhas gerais, a sua captação em um corpo d’agua - superficial ou subterrâneo -; sua condução na forma bruta, chamada tecnicamente de adução; o tratamento; a adução da água tratada; seu armazenamento; e, por fim, a distribuição aos destinatários. O serviço de esgotamento sanitário abrange a coleta; o transporte; o tratamento; e a disposição final do esgoto e dos resíduos do processo de depuração. Essa é uma apertada síntese do procedimento, uma vez que cada uma dessas etapas ou outras de menor expressão guardam suas especificidades, podendo-se exemplificar que o tratamento do esgoto engloba as fases primária, secundária e terciária, que são implantadas, via de regra, subsequentemente. No sistema pátrio, quem abastece a população com água também deve ser responsável pela destinação dos resíduos líquidos. As redes de fornecimento de água e de coleta de esgoto são diversas, mas a cobrança pelos serviços é vinculada. Como é muito difícil mensurar a quantidade de esgoto despejado na rede geral, estima-se que quem consome mais água produz mais resíduos líquidos, pelo que a remuneração do serviço de saneamento é atrelada à quantidade de água consumida. Daí conclui-se que o uso de fonte alternativa em região dotada de saneamento básico implica enriquecimento ilícito, na medida em que o usuário da rede de esgotamento não está pagando - ao menos na proporção devida - pelo serviço que está utilizando, com isso acarretando prejuízo à 2 coletividade, que acabará suportando esse custo gerado e não remunerado por quem era devedor da obrigação de pagar. (VIEGAS, 2005, p. 108-109). Com o crescimento acelerado e desordenado de ocupação das áreas urbanas, foi necessária a execução de medidas sanitárias prioritárias, até porque nem tudo era possível ser feito com rapidez, tendo em vista, sobretudo, o elevado custo do serviço público em exame. Houve investimento inicial maior no fornecimento de água potável, por rede geral, à população 1 . Agora os prestadores do serviço têm a missão de ampliar a referida rede e trabalhar mais intensamente na coleta e no tratamento do esgoto sanitário, sendo esse um dos grandes desafios que se enfrentará doravante. Para que o saneamento público seja efetivo, é necessário que o prestador do serviço tenha por norte alguns princípios ou diretrizes, dentre as quais podemos destacar a universalidade e equidade: acesso de todos ao saneamento e com o mesmo nível de qualidade, sem discriminação; a integralidade: provimento de todas as diversas naturezas do serviço; a continuidade: por ser essencial, o serviço não pode sofrer interrupções, salvo em casos excepcionais; a eficiência e segurança: o usuário deve receber serviço eficiente e seguro, pois está consumindo um produto que pode lhe gerar graves repercussões em sua saúde, vida, finanças; a modicidade dos valores cobrados: necessária para não dificultar o acesso ao serviço, que é, sabidamente, essencial à dignidade da pessoa humana, à preservação e proteção ambiental, bem como ao desenvolvimento sustentável; a participação social: em todo o processo que engloba o saneamento, desde o estabelecimento de políticas para o setor até a execução e controle dos serviços, deve estar presente o acompanhamento efetivo da sociedade, pois é a destinatária do produto do saneamento; o predomínio do valor social sobre o econômico: com base nesse princípio, é possível sustentar a cobrança de valores diferenciados para as populações carentes, garantindo-se até mesmo o serviço modo gratuito para consumos baixos, se a pessoa ou sua família não têm condições de pagar nem o mínimo 2 . Tendo-se em conta a crise da água, que assola o mundo de uma forma global, e que sem água não há vida humana, animal ou vegetal, bem como o estabelecimento do uso prioritário dos recursos hídricos para o consumo humano e a dessedentação de animais em situações de escassez (art. 1º, III, da Lei das Águas), chega-se à ilação de que o Poder Público assumiu a dominialidade exclusiva desse recurso natural como forma de geri-lo visando ao interesse da coletividade. Na medida em que a Constituição disciplina competir privativamente à União instituir diretrizes para o desenvolvimento de saneamento básico (art. 21, XX, da CF) e confere a todos os entes federados competência comum para promover programas de saneamento básico (art. 23, IX, da CF), instituiu um serviço público próprio 3 do 1 Um dos motivos de terem sido privilegiados investimentos em água foram os menores custos em comparação com o serviço de esgotamento sanitário e retornos mais rápidos ante o pagamento de tarifas. 2 Não se pode esquecer que água e saúde estão diretamente relacionados, e que a saúde é direito de todos e dever do Estado (art. 196 da CF), que deve priorizar atividades preventivas (art. 198, II, da CF). 3 Reconhece-se, contudo, que há entendimentos no sentido de que se trata de serviço público impróprio do Estado, consoante decidiu o STJ no julgamento do RESP 525500/AL, 2ª Turma, Relatora Ministra Eliana Calmon, DJ 10/05/2004, p. 235. 3 Estado (MELLO, 1998, p. 435) e de caráter essencial, consoante expressamente já reconheceu o Superior Tribunal de Justiça 4 . Sendo inquestionável a repartição constitucional da propriedade das águas entre a União (art. 20, III) e os Estados (art. 26, I), resta saber de quem é a titularidade pela prestação do serviço de saneamento básico. Para que se possa discorrer acerca da privatização da atividade de saneamento básico, é necessário, antes, que se fixem as premissas em torno de quem detém o direito/dever de prestar o serviço público. A base do estudo será focada no Direito Constitucional positivo, uma vez que, dentre os elementos próprios das constituições, está o de estabelecer normas que regulam a estrutura do Estado e do Poder, as quais estão compreendidas no Título III da CF/88, que trata especificamente “Da organização do Estado”. No plano histórico, a União passou a atuar na área de saneamento básico na década de 1960, quando da criação do BNH e do FGTS, adotando, porém, uma política mais incisiva na década de 1970, época em que foi instituído o PlanoNacional de Saneamento - PLANASA -, como destaca Victor Carvalho Pinto 5 . Segue o autor frisando que o PLANASA, regulamentado pela Lei n. 6.528/78, definiu um modelo até hoje seguido, por meio do qual os Estados-membros criaram empresas públicas ou sociedades de economia mista, as Companhias Estaduais de Saneamento Básico - CESBs -, e por meio delas passaram a prestar o serviço aos municípios, via contratos de concessão. Essa sistemática foi estimulada pela União por intermédio da concessão de financiamentos do FGTS apenas para as paraestatais dos Estados, abrangendo aproximadamente 75% dos municípios. Os contratos eram vagos, havendo inúmeras lacunas de relevo, como a falta de definição dos bens reversíveis ou fórmula para o cálculo de sua amortização. Victor Pinto assenta que, “na prática, o serviço é prestado como se fosse de competência estadual, inexistindo qualquer regulamentação municipal”. Segue enfatizando que os contratos estão-se vencendo, o que fará com que os municípios celebrem novos contratos. Como a PLANASA entrou em crise na década de 1990, sendo a maior parte das CESBs ineficientes e deficitárias, muitos municípios têm optado por desvincular-se das paraestatais referidas. Alguns entes federados municipais criaram órgãos próprios para o desenvolvimento direto da atividade, na forma de departamentos ou autarquias, recebendo, com esse perfil institucional, imunidade tributária. O autor salienta, ainda, que outros municípios concederam o serviço à iniciativa privada, o que tem gerado frequentes conflitos com as empresas estaduais, que cobram indenizações pelos investimentos realizados. Há, portanto, um inquestionável ponto de conflito entre grande parte dos municípios e os Estados. De um lado, os Estados-membros constituíram paraestatais com a finalidade específica de prestar o serviço de saneamento básico, sendo investidos, via de consequência, vultosos recursos públicos nessa atividade. Por outro, importa saber se, no plano jurídico, os municípios são realmente os titulares do serviço em questão, pois só em caso positivo poderão excluir a participação das CESBs da atividade, assumir sua execução ou concedê-la à iniciativa privada, o que será objeto de análise em seguida. 4 ERESP 337965/MG, 1ª Seção, Relator Ministro Luiz Fux, DJ 08/11/2004, p. 155. 5 “A Privatização do Saneamento Básico”. Disponível na internet em http//www.senado.gov.br. Acesso em 12/04/2005. http://www.senado.gov.br/ 4 Hely Lopes Meirelles (1996) deixa bem claro seu posicionamento no sentido de que: As obras e serviços para fornecimento de água potável e eliminação de detritos sanitários domiciliares, incluindo a captação, condução, tratamento e despejo adequado, são atribuições precípuas do Município, como medida de interesse da saúde pública em geral e dos usuários em particular. (p. 307) No mesmo sentido é o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça: O serviço público de fornecimento de água e de tratamento de esgoto é essencial para a boa saúde da população, e constitui responsabilidade dos municípios (Suspensão de liminar e de sentença n. 1407/RS – 2011-0143001-3, decisão de 22/06/2011, Ministro Ari Pargendler) Não obstante as respeitadas transcrições doutrinária e jurisprudencial, a matéria guarda certas especificidades que merecem detida atenção. Efetivamente, inúmeros são os serviços públicos que vêm enumerados pela Carta Magna, que os reparte entre os entes federados, tais como os de serviço postal e correio aéreo nacional (art. 21, X), telecomunicações (art. 21, XI), instalação de energia elétrica e aproveitamento energético dos cursos de água (art. 21, XII, “a), gás canalizado local (art. 25, § 2º), transporte coletivo local (art. 30, V). Outros estão em zona gris, caso do saneamento básico. A Constituição estabeleceu competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios para cuidar da saúde (art. 23, II), proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas (art. 23, VI) e promover programas de melhoria de condições de saneamento básico (art. 23, IX). Considerando que o fornecimento de água potável à população e o recolhimento e tratamento do esgotamento sanitário têm reflexos na saúde pública e no meio ambiente nacionais, à União compete instituir diretrizes gerais e estimular a execução de políticas públicas no setor, como repassando recursos financeiros aos titulares do serviço. A regra é de que o serviço de saneamento público seja de interesse local, competindo, portanto, sua execução direta ou sob regime de concessão ou permissão 6 aos municípios (art. 30, V, da CF). Esse é o fundamento constitucional que define a titularidade do saneamento básico aos entes municipais. O interesse público, no caso, caracteriza-se pela realização de todas as fases do saneamento nos estritos limites territoriais locais, não se apresentando necessário o compartilhamento de instalações e/ou equipamentos com municípios vizinhos. É o que ocorre na maioria das cidades brasileiras. Todavia, não se pode afirmar ser a referida titularidade exclusiva da municipalidade. Não raras vezes há interesse regional apto a caracterizar como dos Estados a competência material sobre serviços de saneamento básico. Na Constituição, o art. 25, §§ 1º e 3º, dá respaldo ao que se sustentou. É necessário, contudo, que os Estados editem lei complementar para instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas ou microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum. 6 Embora possível, no plano puramente normativo, a delegação do serviço de saneamento básico por permissão, a regra é que seja feita por concessão, já que a permissão, por ser ato unilateral de natureza precária, não se compatibiliza com os investimentos elevados que demandam o setor, implicando relação duradoura, estável e com garantias razoáveis em favor de quem assume a prestação do serviço. 5 Tal interesse afasta a competência dos municípios, como leciona Alaôr Caffé Alves. (1998, p. 32). Assim sendo, se houver compartilhamento de instalações e/ou de equipamentos em região metropolitana instituída por lei complementar estadual, o serviço de saneamento assume interesse predominantemente comum, ficando o Estado- membro respectivo autorizado a desenvolver, como titular, trabalhos de fornecimento de água por rede geral e de esgotamento. Em qualquer caso, é facultado ao titular do serviço promover a sua delegação, se não tiver interesse em prestá- lo diretamente. Quando o delegado é da iniciativa privada, utiliza-se comumente a expressão privatização do serviço de saneamento básico. Ela é empregada não no sentido de que o poder público outorga a titularidade dos serviços ao setor privado, mas a gestão desses serviços 7 , inclusive a execução das respectivas obras de infraestrutura, reservando-se a disciplina regulamentar, o controle e a fiscalização próprios do poder concedente. (ALVES, 1998, p. 23). A delegação deve-se dar por concessão ou por permissão, sempre através de licitação, na forma do art. 175 da CF. Também existe a hipótese de as paraestatais estaduais criadas por ocasião do PLANASA abrirem seu capital para a iniciativa privada. Mesmo assim, a privatização dá-se em relação à empresa pública ou à sociedade de economia mista, e não à titularidade do serviço, que sequer lhes pertence. Outro instrumento de privatização do setor foi recentemente implementado no Brasil, que é a legislação concernente às parcerias público-privadas. Tal arcabouço legal, que teve início com a edição da Lei Federal n. 11.079/2004 e se ampliou com as inúmeras leis estaduais elaboradas, cristaliza a tendência neoliberal que atinge o mundoglobalizado, contrapondo-se ao Estado social, como leciona Paulo Bonavides: Esmaecê-lo [referindo-se ao Estado social] e depois destruí-lo é parte programática das fórmulas neoliberais propagadas em nome da globalização e da economia de mercado, bem como da queda de fronteiras ao capital migratório, cuja expansão e circulação sem freio, numa velocidade imprevisível, contribui irremissivelmente para decretar e perpetuar a dependência dos sistemas nacionais, indefesos e desprotegidos, sistemas que demoram nas esferas do Terceiro Mundo”. (BONAVIDES, 1996, p. 11). As parcerias público-privadas (PPPs) são uma extensão das concessões e permissões de serviços públicos, estas disciplinadas pela Lei n. 8.987/95. A inovação é que as PPPs têm objeto mais amplo. Enquanto nas concessões e permissões o delegado do serviço é remunerado apenas pela tarifa cobrada do usuário, pelas PPPs é possível, além da remuneração por tarifa, a cessão de créditos não-tributários, assim como a outorga de direitos sobre bens públicos dominicais e outros meios admitidos em lei (art. 6º da Lei n. 11.079/2004), tudo devendo constar de cláusula contratual (art. 5º, IV, da Lei das PPPs). Outra vantagem para a iniciativa privada é a possibilidade de contratação por prazo superior a 60 meses, limite imposto pelo art. 57, II, da Lei de Licitações 8 . Aliás, a Lei das PPPs veda a celebração de contratos por tempo inferior a 60 meses (art. 2º, § 4º, II), prevendo que o prazo de vigência será compatível com a amortização dos investimentos realizados, não podendo, contudo, ser superior a 35 anos (art. 5º, I). 7 Continuar-se-á utilizando a expressão privatização dos serviços de saneamento básico, pois é o mais usual e simplificado, sinalando-se, contudo, que a melhor técnica é o uso da privatização da execução dos serviços de saneamento básico. 8 Reconhece-se, contudo, haver posição no sentido de que esse prazo não pode ser considerado como o limite para as concessões. (MELLO, 1998, p. 473). 6 A nova sistemática também oferece garantias mais concretas ao contratado (art. 8º), dando a ele mais tranquilidade de que a Administração Pública honrará seus compromissos. Como o objetivo deste trabalho não é aprofundar o estudo das PPPs, destaca-se que o posto acima são apenas algumas das inovações em relação às tradicionais concessões e permissões de serviço público, havendo outras que, sem dúvida, estimularão a iniciativa privada a investir em setores tipicamente públicos, sendo um dos grandes alvos o saneamento básico. Sinale-se que a privatização do serviço de saneamento depende sempre de lei específica que a autorize e fixe seus termos, sendo inconstitucional o art. 2º da Lei n. 9.074/95 9 ao dispensá-la nos casos de saneamento básico e limpeza urbana, porquanto viola o princípio da legalidade, na forma do entendimento do Tribunal Pleno do Estado do Rio Grande do Sul ao julgar a ADIn n. 70001300904 10 . Outra exigência intransponível e inquestionável em qualquer forma de delegação à iniciativa privada é a licitação pública, como acima visto. A controvérsia surge em relação aos serviços de titularidades dos municípios concedidos às CESBs, que são paraestatais com personalidade jurídica de direito privado criadas por leis estaduais com a finalidade específica de execução do saneamento básico. No plano constitucional, por um lado, o art. 175 da CF obriga sempre a licitação nas hipóteses de concessão ou permissão de serviços públicos; de outro, o art. 37, XXI, da CF possibilita à legislação ordinária ressalvar casos não sujeitos a certame público. A legislação infraconstitucional incidente é a Lei de Licitações (Lei n. 8.666/93), a qual elenca várias hipóteses de dispensa, dispensabilidade e de inexigibilidade de licitação em seus arts. 24 e 25. O art. 24, VIII, da referida Lei está assim redigido: Art. 24. é dispensável a licitação: ... VIII – para a aquisição, por pessoa jurídica de direito público interno, de bens produzidos ou serviços prestados por órgão ou entidade que integre a Administração Pública e que tenha sido criado para esse fim específico em data anterior à vigência desta Lei, desde que o preço contratado seja compatível com o praticado no mercado; Como as CESBs foram criadas na década de 1970, podem renovar indefinidamente com os municípios contratos de concessão de serviço de saneamento básico independentemente de licitação. Quanto à exigência de que o preço seja compatível ao praticado no mercado, bem aponta Alaôr Caffé Alves que deve haver verificação de fato, devendo o valor ser razoável e compatível com a média do mercado. (1998, p. 59). O mesmo autor destaca que, no saneamento, não é possível repartir uma mesma infraestrutura para a prestação do serviço por mais de um ente de modo simultâneo, já que, para tanto, seria necessária a implantação de duas redes paralelas, no mesmo limite territorial, o que considera um absurdo. Por essa razão é que esse tipo de serviço é chamado de monopólio natural. (ALVES, 1998, p. 30). 9 Art. 2º. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios executarem obras e serviços públicos por meio de concessão e permissão de serviço público, sem lei que lhes autorize e fixe os termos, dispensada a lei autorizativa nos casos de saneamento básico e limpeza urbana e nos já referidos na Constituição Federal, nas Constituições Estaduais e nas Leis Orgânicas do Distrito Federal e Municípios, observado, em qualquer caso, os termos da Lei no 8.987, de 1995. 10 “Ação direta de inconstitucionalidade. Autorização do Poder Executivo para licitar a concessão de serviço de águas e esgoto. Tema que deve ser submetido à Câmara de Vereadores. Mesmo nos casos de saneamento e limpeza urbana. Inconstitucionalidade formal por ofensa aos princípios da legalidade e da harmonia e independência dos poderes. Ação julgada procedente”. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8987cons.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8987cons.htm 7 Chegou-se a um ponto no qual faz-se mister uma conclusão: a privatização do saneamento básico no Brasil fere gravemente os princípios da economicidade, da razoabilidade, da proporcionalidade e até mesmo o da moralidade. Ora, não é dado ao gestor público, mandatário do povo (art. 1º, parágrafo único, da CF), mal administrar os recursos estatais, que são por demais parcos, como se as políticas públicas pudessem ser alteradas ao bel prazer do governante do momento. Se a política de saneamento nacional teve por parâmetro propulsor a titularidade municipal e a constituição de paraestatais dos Estados-membros para a execução do serviço por delegação, deve seguir nesse rumo, observadas, evidentemente, situações peculiares, como casos em que municípios maiores têm plenas condições de executar diretamente o serviço em foco ou em que determinada CESB não cumpre definitivamente sua missão legal. Além da motivação acima declinada, entendemos que o tempo demonstrou que o Brasil agiu com acerto ao estabelecer a política de criação das CESBs, pois só com elas foi possível a efetivação do subsídio cruzado, consistente em estabelecer um equilíbrio global de prestação do serviço, importando mais o conjunto de municípios alcançados pela rede de saneamento do que um ou outro especificamente. Assim, se alguns municípios pequenos não são auto-sustentáveis, outros superavitários fazem com que a empresa estadual consiga se equilibrar financeiramente. Agora, se os municípios com boas condições econômicas resolverem executar diretamente o saneamento ou privatizá-lo, como ficarão, de um modo geral, aqueles mais pobres e sua população? Será que as empresas privadas investirão em áreas carentes de recursos financeiros ou com outras dificuldades importantes, como a deficiência de recursos hídricos?Dada a relevância do saneamento, sua execução direta pelo poder público é uma necessidade se o Brasil tiver como meta a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; o desenvolvimento nacional; a erradicação da pobreza e da marginalização; a redução das desigualdades sociais e regionais; e a promoção do bem de todos (art. 3º da CF). Só assim o governo estaria efetivando políticas sociais sérias, conforme os ditames da justiça social (art. 170 da CF). Contudo, a política neoliberal privatista com que se depara, coincidentemente ou não, está distante desses ideais e, ao mesmo tempo, em plena harmonia com os interesses de grandes corporações transnacionais, que, “apoiadas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), estão ofensivamente assumindo a administração dos serviços públicos de água, enquanto aumentam drasticamente o preço dela para os residentes locais, lucram, especialmente, com a busca desesperada do Terceiro Mundo por soluções de combate à crise de água”. (BARLOW; CLARKE, 2003, xxv). Não se precisa ir muito longe para perceber a realidade do aumento das tarifas a partir da privatização de serviços públicos, bastando que se atente para os valores cobrados pelas empresas de telefonia e de energia elétrica que hoje dominam o mercado nacional. E, lembre-se, no tocante ao saneamento tem-se uma situação agravante: falta de competitividade em razão do monopólio natural do serviço. A água é um dos recursos naturais mais importantes para a vida, pois, ao lado do ar que se respira, é fundamental em toda a trajetória delimitada entre o nascimento e a morte. Um bem dessa envergadura não pode estar nas mãos da exploração privada. Pertence a todos, devendo ser administrado pelo poder público, ente abstrato que tem como missão a satisfação do interesse social. O Estado tem a incumbência de proteger e de preservar a água para 8 a atual e para as futuras gerações, na medida em que, com o auxílio da sociedade que representa, exerce os encargos de seu depositário e guardião. O saneamento básico é condição mínima de reconhecimento da dignidade da pessoa humana. Sem água tratada e escoamento do esgoto sanitário, nenhuma família pode-se constituir adequadamente, nenhuma criança tem assegurado seu direito a um desenvolvimento integral, em condições dignas e de liberdade. A falta ou deficiência significativa na prestação desse serviço público essencial gera doenças evitáveis, morte, baixo padrão de qualidade de vida; enfim, sem o ser humano ao menos poder sair de casa de banho tomado e com sua sede saciada, que oportunidades de vida terá nos grupamentos sociais? Quem iniciou a privatização do saneamento foi a França, na década de 1980. Porém, pouco mais de 20 anos após a delegação ao setor privado, Paris percebeu o problema criado e, em 2010, concluiu o processo de reestatização, iniciativa vista como uma “queda do sistema”. Assim, as megacorporações, símbolos da privatização, deixaram a capital francesa, perdendo mercado e, sobretudo, a imagem de sucesso que vendiam ao mundo. Na mesma esteira, a Itália submeteu sua legislação que tratava da privatização do saneamento a um referendo popular, que ocorreu em junho de 2011, tendo a população rejeitado o novo sistema com aproximadamente 95% dos votos mantendo a água como um bem público e gerido pelo Estado. O vizinho Uruguai também deu demonstração de como o assunto deve ser enfrentado. Em 31 de outubro de 2004, paralelamente à eleição do novo presidente da república, o povo uruguaio foi às urnas para ser consultado acerca dos rumos que seu País deveria dar à água. O resultado é uma emenda constitucional que reconheceu a água como de domínio público estatal, dispondo ainda que o serviço público de saneamento e o serviço de abastecimento de água 11 para o consumo humano serão prestados exclusiva e diretamente por pessoas jurídicas estatais. Traçando-se um paralelo com nossa legislação, pode-se afirmar que o Uruguai avançou muito. Isso porque, apesar de o Brasil ter declarado por lei que toda a água é pública, não vedou a possibilidade de privatização do serviço de saneamento público. Em verdade, os governos de todos os níveis federativos sofrem pressão interna para implementar um efetivo serviço de saneamento e, para darem vazão a esse anseio social, preferem transferir a responsabilidade à iniciativa privada, fazendo-o como forma de se livrar de um “grande problema”, ainda que, assim agindo, estejam gerando danos irreparáveis ou de difícil reparação ao interesse público. A mercantilização e a privatização da água também são estimuladas por virem ao encontro dos interesses de “parceiros” do Brasil de grande expressão internacional, que não solicitam; ao revés, ditam as políticas que devem ser desenvolvidas pelos países de Terceiro Mundo, os quais se encontram, mais do que nunca, escravizados pela dependência econômica. Assim, embora a gestão democrática interna da água seja reconhecida em nosso sistema jurídico-normativo, na realidade não tem proteção efetiva, prática. Exemplo de participação concreta da sociedade na solução das controvérsias envolvendo os recursos hídricos nos dá o Tribunal das Águas de Valencia, que há mais de mil anos reúne na Espanha um grupo de camponeses, com mandato temporário, para solver conflitos que lhe são trazidos por outros agricultores. Os fundamentos desse 11 A terminologia foi empregada pela Constituição Uruguaia, podendo parecer redundante, já que se sustenta que o serviço de saneamento compreende o de abastecimento de água. 9 Tribunal espanhol evidenciam importantes lições em torno da relevância da água e com que seriedade ela deve ser tratada, democraticamente. Dentre elas, pode-se extrair o ensinamento de que a água ou os conflitos que a cercam devem ser administrados por quem está próximo, jamais por grandes corporações transnacionais ou por organismos internacionais, que visam, sobretudo, ao lucro. O Brasil somente assegurará justiça social se vier a estabelecer uma política em torno dos recursos hídricos que se concretize na prática. Ela deve ter como norteadora a diretriz de que a água é integralmente pública, e que, como tal, deve ser gerida com vistas à satisfação prioritária do interesse coletivo. Com essa postura, estará resguardando um direito fundamental do homem e outorgando-lhe melhores níveis de qualidade de vida. No plano externo, a postura ora preconizada reforçará a soberania nacional, que muitas vezes tem sido violada sem que haja respostas adequadas de parte de nossa República Federativa. Referências ALVES, Alaôr Caffé. Saneamento básico – concessões, permissões e convênios públicos. São Paulo: EDIPRO, 1998. BARLOW, Maude; CLARKE, Tony. Ouro Azul. São Paulo: M. Books, 2003. BONAVIDES, Paulo. Do estado liberal ao estado social. 6. ed. rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 1996. MEIRELLES, Hely Lopes. Direito municipal brasileiro. 8. ed., atual. São Paulo: Malheiros, 1996. MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 10. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Malheiros, 1998. PINTO, Victor Carvalho Pinto. “A privatização do saneamento básico”. Disponível na internet em http//www.senado.gov.br. Acessado em 12/04/2005. VIEGAS, Eduardo Coral. Visão jurídica da água. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2005.