Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

REFORMA (CONTRARREFORMA) DO ESTADO: reflexos na política de saúde1 
 
Sergiane Maia Maciel2 
 
Resumo 
 
Este artigo objetiva apresentar as interpretações da Reforma 
(contrarreforma) do Estado, desvelando suas singularidades 
diante da mundialização do capital financeiro. Destacam-se os 
dois grandes projetos em disputa no campo da política de 
saúde: o Projeto da Reforma Sanitária e o Projeto Privatista. 
Abordam-se os reflexos dessas medidas reformistas na Política 
de Saúde representada pelo Sistema Único de Saúde. Conclui-
se que nesta reconfiguração do Estado expressa na Reforma, 
o processo neoliberal fortalece-se, ressaltando a perspectiva 
mercadorizante da saúde no atendimento de interesses 
privados, contrariando o princípio da universalidade. 
Palavras-chave: Reforma; Política de saúde; Capital 
 
 
 
Abstract 
 
This article aims to present the interpretations of the 
Reformation (counter reformation) of the State, unveiling its 
singularities in the face of the globalization of financial capital. 
The two major projects in dispute in the field of health policy are 
highlighted: the Sanitary Reform Project and the Privatista 
Project. It is concluded that in this reconfiguration of the State 
expressed in the Reform, the neoliberal process strengthens, 
highlighting the merchandising perspective of health in the 
service of private interests, contrary to the principle of 
universality. 
Keywords: Reform; Health policy; Capital 
 
 
 
 
 
1
 Artigo apresentado a Disciplina Políticas Sociais, Descentralização, Participação e Controle social 
do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Maranhão 
(UFMA) ministrada pela professora Dra. Marina Maciel Abreu. Trata-se de um recorte dos estudos 
sistematizados para a tese de doutorado intitulada “Processo de Reestruturação na Saúde Pública no 
Estado do Maranhão: um estudo do Programa Saúde é Vida”. Pesquisa financiada pela Fundação de 
Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), sob 
orientação da professora Dra. Salviana de Maria Pastor Sousa Santos. 
2
 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do 
Maranhão (UFMA). Enfermeira. Mestre em Saúde Coletiva. Professora do Curso de Enfermagem da 
UFMA – Campus Imperatriz. 
 
 
I. INTRODUÇÃO 
 
A partir da crise estrutural do capital mundial, em 1970, tem-se que a Reforma 
do Estado atingiu a dimensão de garantia de governabilidade. Assim, em 1989, na América 
Latina, no bojo da crise da dívida externa, o Consenso de Washington, arquitetado pelo 
Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, e outras instituições financeiras 
multilaterais recomendaram os países a realizar uma rigorosa disciplina fiscal, privatização, 
redução dos gastos públicos, reformas, liberalização comercial, desregulação da economia 
e flexibilização das relações trabalhistas, ou seja, medidas destinadas a mundialização do 
capital financeiro (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2011). 
A mundialização do capital é resultado de dois movimentos conjuntos, 
estreitamente interligados, mas distintos. Segundo Chesnais (2006, p. 25): 
O primeiro pode ser caracterizado como a mais longa fase de acumulação 
ininterrupta do capital que o capitalismo conheceu desde 1914. O segundo diz 
respeito às políticas de liberalização, de privatização, de desregulamentação e de 
desmantelamento de conquistas sociais e democráticas, que foram aplicadas desde 
o início da década de 1980, sob o impulso dos governos Thatcher e Reagan. 
De acordo com Behring e Boschetti (2011), o período pós-1990 pode ser 
considerado no país, como de contrarreforma do Estado, posto que a denominada Reforma 
do Estado idealizada por Bresser Pereira (1998) marcou retrocesso nas conquistas 
demarcadas na Carta de 1988, sobretudo, nas políticas públicas de previdência, de 
assistência social e de saúde. 
As autoras Behring e Boschetti (2011, p. 148) acrescentam que: 
Reformando-se o Estado, com ênfase especial nas privatizações e na previdência 
social, e, acima de tudo, desprezando as conquistas de 1998 no terreno da 
seguridade social e outros – a carta constitucional era vista como perdulária e 
atrasada -, estaria aberto o caminho para o novo “projeto de modernidade”. O 
principal documento orientador dessa projeção foi o Plano Diretor da Reforma do 
Estado (PDRE/MARE, 1995), amplamente afinado com as formulações de Bresser 
Pereira, então à frente do Ministério da Administração e da Reforma do Estado 
(MARE). 
Em tempos de crise e neoliberalismo, vive-se um ambiente contrarreformista e, 
tomando como emprestada o termo de Bering e Boschetti (2011), e por que não dizer 
contrarrevolucionário? A partir deste questionamento, o artigo objetiva apresentar as 
interpretações da Reforma (contrarreforma) do Estado, desvelando suas singularidades 
diante da mundialização do capital financeiro. 
Para tanto, o texto está organizado em duas seções. A primeira seção evidencia 
as características desse processo no Brasil, mediante as interpretações presentes na 
literatura. A segunda seção do texto apresenta os dois grandes projetos em disputa no 
campo da política de saúde: o Projeto da Reforma Sanitária e o Projeto Privatista, 
Igor
Retângulo
Igor
Marcador de texto
 
destacando os principais reflexos da Reforma (contrarreforma) na Política de Saúde 
representada pelo Sistema Único de Saúde. 
 
II. O PROCESSO DA REFORMA (CONTRARREFORMA) DO ESTADO: as interpretações 
 
Sobre a crise do “Estado de Bem-Estar Social”, Montanõ e Duriguetto (2011) 
apontam que há diversas interpretações que a concebem como uma crise particular, onde 
citam os seguintes autores: para Habermas (1980) é uma “crise de legitimidade do 
capitalismo tardio”; para Rosanvallon (1997) é uma “crise do Estado-providência”; no Brasil, 
Pereira (1998) a entende como “crise fiscal”, “crise de governança” e “crise no modo de 
administração estatal”. Conforme Mandel (1980), Mészáros (2009), Harvey (2004, 2005) e 
O’Connor (1977), a crise do Welfare State ou Keynesianismo só pode ser entendida como 
desdobramento da crise estrutural do capitalismo. 
Para Pereira (1996 apud BEHRING, 2003, p. 172), “o Brasil foi atingido por uma 
dura crise fiscal nos anos 1980, acirrada pela crise da dívida externa e pelas práticas do 
populismo econômico, dessa forma exigindo de forma imperiosa, a disciplina fiscal, a 
privatização e a liberação comercial”. 
Na verdade, em uma análise mais profunda, o fundamento da crise fiscal do 
Estado tem a ver com o uso político e econômico que as autoridades, representantes de 
classe, têm historicamente feito em favor do capital: pagamento de dívida pública, renúncia 
fiscal, hiperfaturamento de obras, resgate de empresas falidas, vendas subvencionadas de 
empresas estatais subavaliadas, clientelismo político, corrupção, compras superavaliadas 
sem licitação, taxas elevadíssimas de juros ao capital financeiro especulativo, dentre outros 
(MONTANÕ, 2003). 
Segundo Bresser Pereira (1996 apud BEHRING, 2003, p. 17), “não se pretende 
atingir o Estado Mínimo, mas reconstruir um Estado que mantém suas responsabilidades na 
área social, acreditando no mercado, do qual contrata a realização de serviços, inclusive na 
própria área social”. 
De acordo com Silva (2003, p. 76-74): 
[...] vale ressaltar que a proposta social-liberal já havia sido apresentada por Collor, 
sendo divulgada por intermédio de uma série de artigos e discursos. Recuperada do 
governo Collor, Bresser Pereira reapresentou-a em um momento politicamente mais 
favorável, obscurecendo os traços neoliberais e realçando o chamado aspecto 
social. 
Na proposta do Ministério da Administração e Reforma do Estado, o Estado 
social-liberal tem o poder de legislar, de punir e de tributar, para assegurar a ordem interna, 
ou seja, garantir a propriedade e os contratos, e defender o país contra o inimigoexterno, 
promovendo o desenvolvimento econômico e social. Esse modelo almejaria ser social e 
 
liberal democrático e submetido ao controle social. Nesse sentido, fala-se da participação 
dos cidadãos no controle direto da administração pública, especialmente no nível local, mas 
sem explicitar como ela se daria (BEHRING, 2003). 
Segundo Behring (2003, p.173): 
Para Bresser Pereira (1996), esse é um Estado social-liberal porque está 
comprometido com a defesa e a implementação dos direitos sociais definidos no 
século XIX, mas é também liberal porque acredita no mercado, porque se integra no 
processo de globalização em curso, com o qual a competição internacional ganhou 
uma amplitude e uma intensidade historicamente novas, porque é resultado de 
reformas orientadas para o mercado. 
Portanto, observa-se que o aparato ideológico montado no molde de um Estado 
social-liberal para divulgar a reforma foi que o maior sucesso dessas medidas seria a 
universalização do acesso aos serviços. Isto poderia supor que o governo priorizaria os 
investimentos na área social, mas o que se observou foi o contrário. Particularmente, na 
saúde pública, o principal paradoxo é que o Sistema Único de Saúde, fundado nos 
princípios de universalidade, equidade, integralidade das ações, regionalização, 
hierarquização, descentralização, participação dos cidadãos e complementaridade do setor 
privado, vem sendo minado pela péssima qualidade dos serviços, pela falta de recursos, 
pela ampliação dos esquemas privados que sugam os recursos públicos e pela instabilidade 
no financiamento. A proposta de saúde pública e universal parece estar na prática, sofrendo 
um processo de privatização passiva (SILVA, 2003; BEHRING; BOSCHETTI, 2011). 
Embora, o termo reforma tenha sido largamente utilizado pelo projeto em curso 
no país nos anos 1990 para se autodesignar, na verdade tem-se segundo Behring e 
Boschetti (2011), que se esteve diante de uma apropriação indébita e fortemente ideológica 
da idéia reformista, a qual é destituída de seu conteúdo redistributivo de viés social-
democrata, sendo submetida ao uso pragmático, como qualquer mudança significasse uma 
reforma, não importando seu sentido, suas consequências sociais e sua direção sócio-
histórica. 
Para Coutinho (1989 apud BEHRING; BOSCHETT, 2011) entende-se que não 
houve reformas no sentido social-democrata, mas processos de modernização 
conservadora ou de revolução passiva. Tais processos promoveram mudanças objetivas 
nas condições de vida e de trabalho dos “de baixo”, o que incluiu o desenvolvimento de um 
Estado social, mas sempre contidas e limitadas diante das possibilidades, e sempre sob 
controle das classes dominantes. 
Houve o desmonte e a destruição numa espécie de reformatação do Estado 
brasileiro para a adaptação passiva à lógica do capital. A chamada “Reforma do Estado” 
funda-se na necessidade do grande capital de liberalizar, desimpedir, desregulamentar os 
mercados. Dessa forma, tal reforma deixa claro que seu caráter não é um “ajuste positivo” 
de caráter meramente administrativo-institucional, apenas no plano político-burocrático, mas 
Igor
Retângulo
Igor
Marcador de texto
 
está articulada à reestruturação produtiva, à retomada das elevadas taxas de lucro, da 
ampliação da hegemonia política e ideológica do grande capital, no interior da 
reestruturação do capital que em geral tem um caráter político, econômico e ideológico que 
visa alterar as bases do “Estado de Bem-Estar Social”, tendo como objetivo esvaziar 
diversas conquistas sociais, trabalhistas, políticas e econômicas desenvolvidas ao longo do 
século XX e, portanto, no lugar de uma reforma, configura um verdadeiro processo de 
contrarreforma do Estado (BEHRING, 2003; MONTANÕ; DURIGUETTO, 2011). 
Assim, tem-se início à contrarreforma do Estado: um conjunto de medidas 
neoliberais e destruição das conquistas democráticas. Nessa perspectiva, floresce a crença 
de que a Reforma do Estado deve-se dar-se no âmbito quantitativo, fiscal, financeiro e 
gerenciador, em detrimento do político, participativo e democrático, ou seja, o Estado estaria 
submetido aos ditames de uma nova era histórica e universal, a globalização, que por meio 
da desregulamentação, reduziria consideravelmente o papel político e participativo do 
próprio Estado e da sociedade. Destaca-se, aqui que é preciso ter consciência que a 
Reforma do Estado não pode ser reduzida as reformas administrativas, mas sim é preciso 
olhar para “fora do estado”, para a relação entre o Estado e a sociedade, para a prática 
política. A Reforma do Estado, nesse sentido, é o prolongamento de uma reforma da própria 
sociedade, tanto quanto é a remodelação da relação entre o Estado e a sociedade civil 
(BORLINI, 2010). 
Em Gramsci (2002, p. 244), entende-se que “na noção geral de Estado entram 
elementos que devem ser remetidos à noção de sociedade civil (no sentido, seria possível 
dizer, de que Estado = sociedade política + sociedade civil, isto é, hegemonia couraçada de 
coerção)”. O Estado abrange a sociedade política e a sociedade civil, para manter a 
hegemonia de uma determinada classe sobre a outra. 
Ao se utilizar do referencial de Gramsci para o entendimento da relação entre o 
Estado e a sociedade civil, tem que se considerar que a sociedade civil é um momento do 
Estado; a sociedade civil não é homogênea, nela circulam interesses das classes 
antagônicas que compõem a estrutura social; a concepção de Estado que, na sua função de 
mantenedor do domínio da classe dominante, incorpora interesses das classes subalternas. 
Nesta percepção que a sociedade civil não é homogênea, mas espaço de lutas de 
interesses contraditórios, pensando nisso que temos as organizações das classes presentes 
na sociedade civil que de alguma forma controlam as ações do Estado e, 
consequentemente podem influenciar no direcionamento das políticas universais, como a 
política de saúde (GRAMSCI, 2002). 
Concorda-se com Soares (2013), que a política social, e a política de saúde, 
integrante do conjunto de políticas sociais do sistema de seguridade social, é o espaço 
Igor
Marcador de texto
Igor
Marcador de texto
 
dialético de projetos contraditórios em confronto, constituindo-se em expressão da luta de 
classes e das racionalidades em disputa no âmbito do Estado e da sociedade civil. 
Para Soares (2013), especialmente a política de saúde tornou-se espaço de 
grande tensionamento e alvo de grande ofensiva do ajuste neoliberal do Estado. As 
contradições originadas nesse processo interferem diretamente na qualidade dos serviços 
prestados aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). 
 
III. OS REFLEXOS DA REFORMA (CONTRARREFORMA) DO ESTADO NA POLÍTICA DE 
SAÚDE 
 
A partir da Constituição Federal de 1988, a saúde passou a ser direito de todos e 
dever do Estado, integrando os serviços de forma regionalizada e hierarquizada, sendo 
criado o SUS, amparado pelas leis 8.080/90 e 8.142/90, que tem por preocupação central a 
democratização do acesso, a universalização dos direitos, melhoria da qualidade dos 
serviços prestados, a integralidade e a equidade das ações (SILVA et al., 2013). 
Neste projeto político, a relação entre o Estado e a sociedade civil acontece por 
mecanismos democráticos e inovadores na gestão, como os Conselhos e as Conferências 
de Saúde, o que viabiliza, em sua proposta, maior transparência no uso e destino dos 
recursos públicos. No entanto, sabe-se que as tensões por recursos financeiros para 
assegurar a política universal da saúde sempre foram uma constante realidade desde a 
criação do SUS em 1988, e que ao longo dos anos de existência de SUS ainda persistem, 
acentuando-se principalmente diante do domínio do capital contemporâneo, sob comando 
do capital portador de juros (capital financeiro) forçando o incremento das despesas com 
juros da dívida pública no orçamento federal (BORLINI, 2010; MENDES, 2012). 
Além disso, osserviços de saúde tornaram-se cada vez mais espaços de 
supercapitalização e relevante fonte de investimento e lucratividade capitalista. As diversas 
formas de capital, em tempos de dominância financeira, conectam a cadeia de mercadorias 
e serviços desde o espaço da produção e comercialização até as finanças: indústrias de 
medicamentos, equipamentos médico-hospitalares e insumos, sistemas públicos de saúde, 
redes de hospitais, clínicas, planos privados, entre outros (SOARES, 2013). 
Percebe-se que com as necessidades de supercapitalização e expansão do 
capital portador de juros, a intervenção sobre o processo saúde-doença vem se tornando 
um espaço de lucratividade e hegemonia política do grande capital, e para isso, é 
necessário precarizar a política de saúde, torná-la cada vez mais uma política para os 
pobres, deixando amplo espaço para o mercado, desconstruindo num movimento de 
contrarreforma o referencial de saúde pública conquistado nos anos 1980 (SOARES, 2013). 
Igor
Retângulo
 
Desse modo, configura-se um duplo movimento pendular e contraditório entre as 
forças em torno da área da saúde, ou seja, o alcance de uma política universal e a 
contenção de gastos públicos com a saúde. Destaca-se, ainda o processo de relação de 
forças entre os projetos políticos existentes: o Projeto Privatista e o Projeto da Reforma 
Sanitária que perpetuam as disputas de interesses na política de saúde brasileira (BORLINI, 
2010; MENDES, 2012; BRAVO; MARQUES, 2013; BRAVO; MENEZES, 2013, SOARES, 
2013). 
Sobre esse processo de relação de forças entre os dois projetos políticos 
existentes, Bravo e Marques (2013) descrevem que o Projeto da Reforma Sanitária 
compreende a saúde como direito social e dever do Estado e o Projeto Privatista como 
prática mercantilista, visto no avanço da privatização através de organizações sociais e 
fundações estatais de direito privado, na defesa do Estado mínimo para as questões sociais, 
e máximas para o capital. 
As autoras mencionam ainda que nesse confronto, o SUS vem se efetivando 
como espaço de disputa política para os dois projetos. Por um lado, é nele que se 
materializa a luta por uma política de acesso universal. Por outro, na medida em que a 
dotação de verba pública para a saúde vem sendo restringida ano após ano, é reduzida a 
sua capacidade em promover o acesso universal. Salientam que por sua característica, o 
SUS se conforma como a única alternativa das classes pauperizadas para ter acesso à 
saúde. O que se infere é que o Projeto Privatista, em articulação ao Estado, vem se 
sobrepondo ao Projeto da Reforma Sanitária, e garantindo sua hegemonia a partir da 
década de 90. 
Bravo e Marques (2013) prosseguem que o projeto saúde articulado ao mercado 
ou projeto privatista está pautado na Política de Ajuste que tem como principais tendências 
a contenção dos gastos com racionalização da oferta e descentralização com isenção de 
responsabilidade do poder central. A tarefa do Estado, nesse projeto, consiste em garantir 
um mínimo aos que não podem pagar, ficando para o setor privado o atendimento dos que 
têm acesso ao mercado. 
Portanto, a privatização gera uma dualidade discriminatória entre os que podem 
e os que não podem pagar pelos serviços, no mesmo passo em que propicia um nicho 
lucrativo para o capital, em especial para segmentos do capital nacional que perderam 
espaços com a abertura comercial. É o caso da política de saúde, sendo esse aspecto 
designado como universalização excludente, que quebra a uniformização e a gratuidade dos 
serviços. Na verdade, a privatização no campo das políticas sociais públicas compõe um 
movimento de transferências patrimoniais, além de expressar o processo mais profundo da 
 
supercapitalização. Outro aspecto, destacado é a seletividade associada à focalização que 
assegura acesso apenas aos extremamente pobres (BEHRING; BOSCHETTI, 2011). 
Segundo Faveret Filho e Oliveira (1989 apud BRAVO, 2011, p. 317), destacam 
que “esse processo de universalização tem sido excludente, em decorrência dos 
mecanismos de racionamento (queda na qualidade dos serviços, filas) que expulsa do 
sistema diversos segmentos sociais, entre eles, as camadas médias urbanas”. 
A focalização revela-se pelo duplo significado (“dar pouco a quem tem pouco”) e 
pela sua aplicação restrita à esfera da distribuição dos serviços, uma proposta de mitigar a 
pobreza com recursos retirados dos próprios trabalhadores, e não uma proposta de 
distribuição da renda que visaria erradicar a pobreza. Tudo bem considerado, e se 
quisermos manter o estilo não muito adequado das fórmulas rápidas, diríamos que o 
princípio neoliberal da focalização não significa, ao contrário do que pretendem os 
ideólogos, “dar mais a quem tem menos”, mas sim “devolver pouco àqueles que os 
governos neoliberais tiram mais” (BOITO JÚNIOR, 1999). 
Particularmente, no governo Fernando Henrique Cardoso, a contrarreforma do 
Estado realiza-se de maneira ainda mais ofensiva e estruturada, com a criação do MARE, 
conduzida por Bresser Pereira. O projeto de Reforma Administrativa do Estado foi aprovado 
em quase sua totalidade, situando a saúde como área não exclusiva do Estado e, portanto, 
sendo passível de ter seus serviços prestados por organizações sociais, ou seja, sociedades 
de direito privado, sem fins lucrativos, que administrariam com uso dos cofres públicos 
(SOARES, 2013). 
Inicia-se, então, o processo de “publicização do Estado”, com a transformação 
dos serviços não exclusivos de Estado em propriedade pública não estatal e sua declaração 
como organização social. Registra-se que as organizações, por não estarem sujeitas às 
normas do Direito Administrativo, estão livres da obrigação de concurso público, de 
controles formais por parte do Estado, ficando sujeitas apenas a avaliação dos resultados. 
Bresser Pereira “engenhosamente”, utilizou o termo publicização em seu plano de reforma, 
ao indicar a convocação da sociedade à participação e controle social, bem como à gestão 
de serviços sociais e científicos, o que culminaria na ampliação dos ideais democráticos e 
de cidadania. Contudo, o que ocorreu foi uma denominação ideológica dada à transferência 
das questões públicas de responsabilidade do Estado ao terceiro setor e o repasse de 
recursos públicos para o setor privado (MONTAÑO, 2003; SILVA, 2003; BORLINI, 2010). 
Ainda, pode ser apontada, dentro da reforma da saúde a Norma Operacional 
Básica de 1996 (NOB/96), que regula os planos e seguros privados de saúde, bem como a 
desarticulação da atenção básica, da secundária e terciária, dividindo o SUS em dois 
blocos: o hospitalar que possui vários convênios com a rede privada e assistência básica 
 
representadas pelos diversos programas do Ministério da Saúde, que na verdade são 
programas com caráter público, mas destinados aos pobres (SOARES, 2013). 
Tomando como referência o uso dos recursos públicos para os dois blocos de 
assistência do SUS: o hospitalar e a assistência básica, tem-se que no ano de 2015, a 
Atenção Básica recebeu R$ 19,2 bilhões, indicando um esvaziamento da promoção à 
Saúde. Observa-se que mesmo com a expansão da Atenção Básica, onde estão as equipes 
de Saúde da Família, laboratórios para exames, e outros pontos de entrada dos usuários no 
SUS, que os valores executados não são suficientes para um atendimento resolutivo e 
universal (ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS AUDITORES-FISCAIS DA RECEITA FEDERAL 
DO BRASIL; FUNDAÇÃO ANFIP DE ESTUDOS DA SEGURIDADE SOCIAL E 
TRIBUTÁRIO, 2016; VASCONCELOS; COSTA, 2014). 
Em contrapartida, a assistência hospitalar e ambulatorial com R$ 48,3 bilhões foi 
a programação que mais recebeu recursos, sendo que a maior parte destas ações são de 
alto custo, incluindo procedimentos e exames complexos prestados por convênios e 
prestadores privados. Isso demostra que a privatização e mercadorização da saúde se dão 
tanto no meio dos Planos Privados de Saúde, como nointerior do setor público, através da 
compra destes serviços no setor privado, uma vez que, historicamente, não houve no 
Estado em construção a manutenção de uma rede hospitalar pública de qualidade e auto-
suficiente. Permite-se sinalizar uma contradição entre o discurso do Ministério da Saúde da 
reorganização do sistema e a busca de um modelo de saúde que supere a lógica 
hospitalocêntrica e medicalizante (ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS AUDITORES-FISCAIS 
DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL; FUNDAÇÃO ANFIP DE ESTUDOS DA 
SEGURIDADE SOCIAL E TRIBUTÁRIO, 2016; VASCONCELOS; COSTA, 2014). 
Enfim, segundo Bravo (2006 apud SOARES, 2013, p. 98), “há a continuidade de 
uma política que se efetiva de forma focalizada, precarizada, com ênfase na Estratégia 
Saúde da Família e na assistência emergencial, bem como na fragmentação da concepção 
da seguridade social”. 
 
IV. CONCLUSÃO 
 
O artigo revelou que mudanças nas relações entre o Estado e a sociedade civil 
têm se processado, orientadas pelo neoliberalismo, traduzidas nas políticas de ajuste 
recomendadas pelos organismos multilaterais nos marcos do “Consenso de “Washington”. 
Nesse sentido, iniciou-se um processo neoliberal, estratégia hegemônica de reestruturação 
geral do capital e que se desdobra na contrarreforma do Estado. 
 
Conforme visto, nos discursos de Bresser Pereira, idealizador da Reforma do 
Estado, o Estado é responsabilizado pela ineficiência em sua capacidade de 
governabilidade, e o mercado e a iniciativa privada são postos como esfera da eficiência. 
Assim, tem-se como resultado um processo de privatização da coisa pública, com o Estado 
cada vez mais submetido aos interesses econômicos e políticos no cenário internacional e 
nacional, em nome das exigências do grande capital financeiro. 
Conclui-se, a partir das análises realizadas que as prioridades dadas ao capital 
sustentam a permanência de uma política neoliberal, pautada em políticas 
macroeconômicas que levam a diminuição de gastos públicos como os direitos sociais, em 
destaque à saúde, portanto, observa-se um estado de afastamento da efetivação da política 
de direitos universais, que vem determinando as difíceis condições dos serviços de saúde 
conveniados do SUS. 
A opção do governo em direcionar o uso do recurso público para o mercado 
deixa claro que o Estado tem priorizado a política econômica com seus interesses privados 
do capital, em detrimento da política social e das demandas do trabalho, motivo pelo qual 
direciona as políticas da seguridade social para a direção da privatização, focalização e 
monetarização da proteção social. 
É incontestável que o SUS é resultado de uma longa trajetória de luta 
empenhada pela classe trabalhadora, porém o prosseguimento do SUS universal e público é 
sem dúvida um desafio político, pois supõem a garantia: do financiamento do subsistema 
público, a redefinição da articulação público-privada, a redução das desigualdades de renda, 
poder e saúde, e, sobretudo o rompimento com o modelo hegemônico de saúde 
hospitalocêntrico, medicalizante e curativo, que beneficia o setor privado e a perspectiva 
mercadorizante da saúde mediante aos atendimentos privados em hospitais, clínicas e 
laboratórios. 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS AUDITORES-FISCAIS DA RECEITA FEDERAL DO 
BRASIL; FUNDAÇÃO ANFIP DE ESTUDOS DA SEGURIDADE SOCIAL E TRIBUTÁRIO. 
Análise da seguridade social 2014. Brasília, DF, 2016. 
BEHRING, Elaine Rossetti. Brasil em contra-reforma: desestruturação do Estado e perda 
de direitos. São Paulo: Cortez, 2003. 
BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política social: fundamentos e história. 9. 
ed. São Paulo: Cortez, 2011. 
 
BOITO JÚNIOR, Armando. Política neoliberal e sindicalismo no Brasil. São Paulo: 
Editora Xamã, 1999. 
BORLINI, Leandra Maria. Há pedras no meio caminho do SUS: os impactos do 
neoliberalismo na saúde do Brasil. Textos & Contextos, Porto Alegre, v. 9, n. 2, p. 321-333, 
ago./dez. 2010. 
BRAVO, Maria Inês Souza. Serviço social e reforma sanitária: lutas sociais e práticas 
profissionais. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2011. 
BRAVO, Maria Inês Souza; MARQUES, Morena Gomes. Saúde e luta sindical: entre a 
reforma sanitária e o projeto de saúde privatista. In: BRAVO, Maria Inês Souza; MENEZES, 
Juliana Souza Bravo de (Orgs.). Saúde, serviço social, movimentos sociais e conselhos: 
desafios atuais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2013. p. 197-227. 
BRAVO, Maria Inês Souza; MENEZES, Juliana Souza Bravo de (Orgs.). Saúde, serviço 
social, movimentos sociais e conselhos: desafios atuais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2013. 
BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Reforma do Estado para a cidadania: a reforma 
gerencial brasileira na perspectiva internacional. São Paulo: Editora 34; Brasília: ENAP, 1 
ed. 1998; 1ª reimpressão, 2002. 
 
CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996. 
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere: Maquiavel: notas sobre o estado e a política. 
Edição e Tradução Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. v. 
3. 
MENDES, Áquilas. Tempos turbulentos na saúde pública brasileira: impasses do 
financiamento no capitalismo financeirizado. São Paulo: Hucitec, 2012. 
MONTAÑO, Carlos. Terceiro setor e questão social: crítica ao padrão emergente de 
intervenção social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2003. 
MONTAÑO, Carlos; DURIGUETTO, Maria Lúcia. Estado, classe e movimento social. 3. 
ed. São Paulo: Cortez, 2011. v. 5. 
SILVA, Ilse Gomes. Democracia e participação na “Reforma do Estado”. São Paulo: 
Cortez, 2003. 
SILVA, Silvio Fernandes da et al. Redes de atenção: desafios da regionalização no SUS. 2. 
ed. Campinas: Saberes Editora, 2013. 
SOARES, Raquel Cavalcante. A racionalidade da contrarreforma na política de saúde e o 
serviço social. In: BRAVO, Maria Inês Souza; MENEZES, Juliana Souza Bravo de (Orgs.). 
Saúde, serviço social, movimentos sociais e conselhos: desafios atuais. 2. ed. São 
Paulo: Cortez, 2013. p. 91-114. 
VASCONCELOS, Kathleen Elane Leal; COSTA, Maria Dalva Horácio (Orgs.). Por uma 
crítica da promoção da saúde: contradições e potencialidades no contexto do SUS. São 
Paulo: Hucitec, 2014.

Mais conteúdos dessa disciplina