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<p>CAPÍTULO 2 A filosofia existencial e a analítica da existência nômenos, chega-se ao poder-ser mais próprio, com vistas a atin- gir a totalidade como possibilidade existenciária. Com relação à temporalidade do cuidado, diz Heidegger: A cura não precisa fundar-se em um si- mesmo mas, como constitutivo da cura, a existencialidade propicia a constituição on- tológica da autoconsistência da pre-sença. Em plena correspondência com o sentido estrutural da cura, pertence-lhe, também, o CAPÍTULO 3 estar de fato em de-cadência na consistên- cia do que não é si-mesmo. Concebida ple- namente, a estrutura da cura inclui o Uma proposta de psicoterapia fenômeno de si-mesmo. (Id., p. 117) fenomenológico-existencial A proposta aqui desenvolvida consiste em pensar a psicote- rapia em termos do próprio existir. Não se trata aqui de pensar o homem a partir de formulações teóricas, que postulam o existente em um sistema explicativo e determinista ou como uma filosofia idealista ou Neste percurso, substituíram-se os sistemas científicos e a teorias que consideram o homem a partir de uma construção em si mesmo pelos fundamentos da hermenêutica fe- nomenológica e pela filosofia da existência. homem passa, então, a ser tomado não mais a partir de substancialidade do eu e de sua dicotomização. Assume-se a questão pela via dos modos de ser do homem, retornando assim à ligação originária do homem com o mundo, prescindindo de um aparato psíquico. Parece necessário abrir um espaço de re- flexão, para que possamos propor uma psicologia com bases fe- em que se pensa uma psicologia para um ente dotado de caráter de poder-ser, ou seja, para um ente desprovido de algo assim como o psiquismo. Trata-se de um eu na concepção de Kierkegaard (s/d), que se constitui como movimento, um eterno vir-a-ser, constituindo-se na 100 101</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo relação que a própria relação estabelece consigo mesma e com o Trata-se, então, de estruturar uma prática clínica, fundamen- mundo. Esse existir, implica-se com o real e com o imaginário, com tada em uma ontologia do sentido, na abertura do ser-do-ente e os limites, mas também com as possibilidades; vive no imediato nas reflexões de Kierkegaard, ao sustentar uma relação singular do presente, como no remoto do passado e no vir-a-ser do futuro. de "ajuda", em um sentido particular: psicoterapeuta e cliente Implica-se, enfim, consigo próprio e com o outro, com a razão e em uma situação concreta. com a paixão e, ainda, com o desespero da própria ambiguidade percurso psicoterapêutico, aqui desenvolvido, pauta-se no frente ao fato de existir. Pode assumir posições psicológicas de li- processo de escuta e fala articulados na psicoterapia em uma berdade e de não-liberdade, considerando ainda aspectos como in- abordagem em que escuta e fala não terioridade, ilusão e transparência do eu (KIERKEGAARD, 1968). se dão na relação dicotômica sujeito-objeto. Ocorre pela herme- Fundamentar-se em Kierkegaard é uma tarefa para a qual ele nêutica, desvelando sentidos pela compreensão explicitada, ainda mesmo abriu caminho, ao definir duas de suas obras como des- que ao modo do encobrimento, no discurso. Assim sendo, pode- tinadas à psicologia: conceito de angústia e desespero hu- se atuar de forma a não cair em uma perspectiva sem fundamen- mano. Neste livro são desenvolvidas, além de uma proposta de tos, parecendo, muitas vezes, uma psicologia do senso comum. constituição do eu, considerações sobre a perda do eu. Naquele, Mas, ao mesmo tempo, não se cai em um excesso de proteção da considera a liberdade como um aspecto psicológico, em que a naturalidade das relações, refugiando-se em normas rígidas não-liberdade constitui-se como estado de queda. acerca de como se deve dar a relação psicoterapêutica, pare- Fundamentar uma proposta psicoterapêutica na fenomenolo- cendo, muitas vezes, tratar-se mais de um jogo de forças do que gia hermenêutica de Heidegger abre uma série de discussões de uma relação compreensiva. Trata-se, portanto, de fundamentar acerca da possibilidade cujo caminho o próprio Heidegger apon- uma proposta psicoterapêutica flexível, com princípios filosófi- tou nos Seminários de Zollikon, ao afirmar que o distúrbio, no cos orientadores e não limitadores de uma ação. homem, se caracteriza pela sua dificuldade de flexibilização e da liberdade. À psicoterapia cabe acompanhar aquele que esqueceu 3.1 As reflexões de Kierkegaard e a psicoterapia do seu caráter de poder-ser e, no desvelamento de sua situação, poder resgatar a possibilidade de sua liberdade. A proposta de uma psicoterapia em uma perspectiva fenome- Articula-se uma psicoterapia, considerando o pensamento de nológico-existencial vai procurar, nas reflexões de Kierkegaard, Heidegger acerca da técnica, do método fenomenológico, da her- a possibilidade de se estabelecer uma relação psicoterapêutica e da estrutura do juntamente com as reflexões na busca da transparência do eu, a qual se constitui como reto- de Kierkegaard sobre o modo de acolhimento quando se quer es- mada do movimento do existir. A proposta deste pensador torna tabelecer uma relação que, pretendendo levar o homem a reco- viável uma psicoterapia que consiste em ajudar o outro a reco- nhecer-se a si próprio, desfaz a ilusão de quem acredita ser aquilo nhecer-se em suas escolhas. Vale ressaltar uma discussão de que em ato não é. Kierkegaard (1846) de grande relevância para a psicologia, seja 102 103</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo no âmbito do social, seja do particular. Aliás, a questão do indi- objetivas na singularidade. Manter-se no singular implica não se víduo e da multidão em Kierkegaard já aponta para uma tentativa perder no geral, porém sem abandoná-lo. A singularidade se for- de dissolução desta dicotomia. talece no geral, mantendo a verdade objetiva e assumindo as ne- cessidades. É preciso, no entanto, não confundir a necessidade com a moda ou com o universal. No entanto, quanto mais enfra- 3.1.1.0 indivíduo e a multidão quecida a consciência, mais fácil é perder-se na multidão. Na atua- Kierkegaard em A época presente (2001), texto datado de lidade, através da forte expressão da publicidade, a multidão se 1846, mostrou sua preocupação com o despontar da sociedade de articula de modo que o indivíduo tenda a cauterizar a consciência, massa e a dissolução da tradição europeia. Atualmente, pode-se fortalecendo o impulso inconsciente. E o homem sem consciência assistir à sedimentação da sociedade de massa. Testemunha-se, torna-se presa fácil da Só na singularidade o indivíduo hoje, o início da sociedade globalizada e a dissolução de qualquer torna-se responsável por sua ação, compromete-se com a sua obra, tradição, seja europeia, asiática ou americana. Tem-se, agora, uma assina a sua autoria. Para este, os meios não justificam nenhum sociedade de massa hegemônica. Observa-se, pacificamente, o fim. indivíduo massa é a multidão, em que a verdade torna-se total desaparecimento da tradição: dos valores, da ética, das cren- uma abstração, portanto ninguém é responsável, ninguém assume ças. As essências se perdem e aparece a extrema valorização da a autoria e, ainda, os meios justificam o fim. aparência, tomada como realidade e que consiste nos critérios a A exemplo da Iliada e da Odisséia, tem-se, no político, o serem seguidos. As modificações na cultura engendram mudanças homem da massa, com a valorização da astúcia, da na qual exteriores que, pouco a pouco, vão transformando a interioridade importa a palavra, e não a ação. Não precisa haver comprometi- do homem: o pensar sobre as coisas, os sentimentos, as atitudes. mento, faz-se necessário o convencimento. Frente à astúcia do po- Kierkegaard (Op. cit.), a todo o momento, declarava a sua fé no lítico, o indivíduo singular tem que estar muito preparado para homem, no sentido de resgatar sua individualidade, por dois moti- posicionar-se frente aos argumentos do outro, deve poder contra- vos. Primeiro, já que a multidão é formada por indivíduos, há o argumentar sem recorrer à irritação ou a uma resposta inflamada. poder em cada homem de chegar a ser o que é: o indivíduo singular, No senso comum, costuma-se afirmar que o que diz a multi- exceto se esse homem não desejar assim e preferir escolher excluir- dão é a verdade. Para Kierkegaard, a multidão é a mentira, pois se a si mesmo, e continuar mantendo-se como multidão. Segundo, considera o numérico como critério que decide o que é verdade. por acreditar que a interioridade é possibilidade para todo homem. A multidão atua como instância decisiva segundo os aspectos homem, como indivíduo fiel à singularidade, não precisa se temporal, terrestre e mundano. "Do ponto de vista ético e/ou encaixar em nenhum enquadramento ou reduto. Não precisa, para ético-religioso, a multidão é mentira, se dela se pretende fazer a tanto, atacar nem criticar um determinado grupo, e sim proceder a instância que julga acerca do que é a verdade." (Id., p. 97). A uma análise sincera e poder assumir que não se identifica. A sub- multidão é a verdade em relação ao finito e ao jetividade se constitui incorporando existencialmente as verdades lação ao eterno, um único atinge a meta. 104 105</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia fenomenológico existencial Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo Com relação ao eterno, tem-se uma discussão do filósofo di- de movimento do eu. cliente deverá vir a reconhecer que a sua namarquês em desespero humano. Neste manuscrito, Kierke- existência se estabelece na dialética do finito e infinito, do eterno gaard refere-se ao desespero como doença do eterno, descoberta e do temporal, do necessário e dos possíveis, e mais: da razão e pelo cristianismo ao inserir o eterno na existência. O desespero da paixão, do singular e do universal, do acaso e do autodeter- é a doença do eterno pela impossibilidade do homem de justifi- minado. E que nem ele, nem nenhum homem se constituem como cação da existência no temporal. Doença muito peculiar, pois um eu fechado: existir sempre implica abertura, fechar-se implica afeta o temporal e acontece quando o homem não encontra mais deixar de existir nas palavras de Kierkegaard, em perda do eu. sentido no temporal. Então, o que constitui o homem? É o pró- Na dialética do finito e infinito, a estagnação ocorre quando o prio desesperar, já que este se constitui no jogo do eterno e do eu se perde no finito, e sua ação se torna uma eterna repetição das temporal. Trata-se de uma energia viva, autodeterminante, que realizações do impessoal. O eu se perde no infinito e atua no ima- em abertura ambígua e indeterminada, em total ausência de sín- ginário, que não realiza. Restabelecer o movimento consistiria na teses, no ato de existir, constrói a verdade de sua existência. fluidez finito e infinito que se constitui como realização, no mo- Cabe, então, ao psicólogo acompanhar aquele que o procura no vimento em que o imaginado se faz real e, então, o eu realiza. sentido de saber do que ele desespera. Seria a enfermidade psí- No movimento das necessidades e possibilidades, o homem quica a doença que o cristianismo anuncia? atua em Quando preso ao necessário, este homem não se assume livre e costuma dizer: "A Deus tudo é possível" ou, então, justifica o não-fazer no mundo, nos pais, enfim, na ameaça 3.1.2 A constituição do eu: movimento e queda do externo. Por outro lado, quando preso aos possíveis, acredita Kierkegaard refere-se ao eu como se constituindo em movi- que para ele tudo é possibilidade, esquece-se dos seus limites, mento, movimento do existir. A escassez deste movimento con- pensando que nada no mundo o detém. Reconhecer seus limites siste na perda do eu, que seria o homem em estado de queda. e arriscar nos possíveis constitui-se no eu em liberdade. eu se perde quando se paralisa em uma tentativa de resolver o Na fluidez do eterno e do temporal, a existência se dá em uma inevitável, ou seja, a situação paradoxal da existência humana. síntese entre passado, presente e futuro, em que o imediato se movimento dialético do existir humano, o "ir e vir", é o que constitui como eterno e temporal. O eu que se perde no eterno constitui o eu. O eu é, portanto, atividade, eterno movimento. acredita-se imortal, portanto, é especial: o que ocorre ao outro, A proposta de psicoterapia consistirá em mobilizar os para- por certo não lhe ocorrerá. Aquele que se perde no temporal teme doxos da existência, uma vez que aquele que está em desespero o tempo, se previne de todas as formas possíveis, por acreditar no sentido de lutar para resolver as ambiguidades da existência que, através de uma atitude de proteção extremada, poderá evitar encontra-se paralisado. Debate-se contra si mesmo. Cabe, ou adiar a sua morte. Em movimento, o eu se constitui, justifi- então, ao psicoterapeuta reconhecer a estagnação do cliente e, cando no eterno o existir no temporal. Só assim a existência através do desvelamento, facilitar o reconhecimento da ausência torna-se totalmente justificável. 106 107</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia fenomenológico-existencial Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo À psicoterapia caberia, então, buscar o que afinal justifica Muitas vezes, no entanto, o homem quer obscurecer a sua situação aquela existência em termos de eterno e necessário. apelo para de indeterminação, sua liberdade. Para tanto, dissimula a angústia a justificação no temporal revela a ausência de necessidade o que lhe é constitutiva, assumindo-se, no mundo, como não-liberdade. que também é desespero, doença mortal. Em Migalhas filosófi- Desta forma, justifica-se nas determinações do somático, do divino, cas (1991), Kierkegaard diz que a transformação se dá no ins- do mundo, do acaso. Há, nestes casos, uma falta de interioridade, ou tante logo, no âmbito do eterno da existência temporal e do seja, de obscurecimento da situação que lhe cabe. A psicoterapia exis- necessário da existência frente aos possíveis. tencial desenrola-se de modo a tentar que aquele que se justifica nas determinações exteriores possam ganhar interioridade. Para que aquele que se diz não-livre possa assumir-se em sua liberdade. 3.1.3 A angústia e as posições psicológicas de liberdade A angústia revela o caráter de indeterminação da existência 3.1.4 A psicoterapia e os princípios de uma que abre ao homem o pecado. Daí o homem, saindo do estado de de ignorância, poder reconhecer-se como pecador ou seja, na pos- sibilidade para as possibilidades. se encontra no seu poder es- Tanto Kierkegaard quanto o psicoterapeuta existencial pre- colher-se: Kierkegaard vai descrever as posições psicológicas da tendem facilitar ao homem o encarar sem temor o seu ser em liberdade, dentre elas a da não-liberdade. Na não-liberdade, o abertura e aceitar a condição paradoxal da existência humana. O homem não se reconhece como pecador, aquele que se escolhe. psicólogo pode se valer dos princípios da relação de ajuda, a fim Revela-se, então, como determinado por condições alheias a si de que o homem reconheça a si mesmo, assumindo a responsa- mesmo, de vários modos. Seja pelas queixas psicossomáticas, bilidade de suas escolhas e daquilo que continua a escolher ser, pelas expressões de culpa e de isolamento. Justifica-se no acaso, em cada momento de sua vida, sabendo-se, ao mesmo tempo, no destino e, ainda, deixa que o tempo dê conta daquilo que tem lançado às contingências do mundo. de decidir. Kierkegaard (1988) denomina "ajudante" aquele que pretende A presente proposta psicoterapêutica consiste também na ajudar ao outro a se desembaraçar dos laços da ilusão, a alertar o apropriação da condição de pecador, ou seja, da liberdade line- homem do perigo de se perder nas determinações do impessoal, rente ao homem. A fala e a ação do cliente serão não só a fonte de modo a esquecer-se do caminho de retorno a si mesmo. Afirma reveladora do movimento do seu existir como também a expres- que aquele que quer ajudar deve, antes de tudo, reconhecer que são do modo que ele lida com sua liberdade. A angústia, que de- tem um diferencial em relação ao outro - o que, no mínimo, im- flagra a condição de liberdade, não deve ser amenizada: plica reconhecer o risco de se perder nas orientações demarcadas experimentá-la e nela emergir é o possível da liberdade. pela multidão. E reconhecendo o perigo, pode tentar identificar o homem se constitui como liberdade, a angústia frente ao que ameaça o outro. Aquele que ajuda deve saber dialogar através real e ao futuro, em que se apresenta o mundo como possibilidades. da comunicação indireta, que consiste em uma forma de se fazer 108 109</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia existencial Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo chegar ao outro, sem que este perceba que há aí uma intenção de 5°) Entendendo o que o cliente entende e a forma como confrontá-lo, de questioná-lo ou interceptá-lo em suas ações. entende. Se assim não for, a ajuda de nada lhe valerá. Tudo A fim de organizar a sua estratégia de comunicação indireta, começa quando se pode entender o que o outro entende, e Kierkegaard utiliza-se de pseudônimos para assinar o conteúdo de a forma como entende; suas obras, elaboradas de acordo com critérios estéticos, éticos e 6°) Assumindo uma atitude de humildade e colocando-se, religiosos da existência humana. Estabelece tais critérios de acordo deste modo, na relação. Se orgulhoso do conhecimento, com os referenciais pelos quais o homem estabelece suas escolhas. antes de ajudar o outro, o que se deseja é ser admirado. Daí, ele organiza suas obras, para poder atingir a todos os leitores. autêntico esforço para ajudar começa com uma atitude hu- Com base nos escritos de Kierkegaard em Mi punto de vista, milde. Aquele que ajuda deve colocar-se como desconhe- onde ele descreve de que forma se deve conduzir aquele que pre- cendo mais do que aquele a quem ajuda; tende levar o homem a reconhecer-se, propõe-se uma descrição 7°) Assumindo a responsabilidade pela atuação; de como deve proceder o psicoterapeuta existencial ao estabele- 8°) Utilizando metáforas, quando estas se fizerem neces- cer uma relação libertadora com o seu cliente. Aponta para as di- sárias. Interpretações poéticas, muitas vezes, ajudam ficuldades de destruir uma ilusão por via direta, devendo, então, aquele que fala do seu sofrimento; fazê-lo por meios indiretos, mas como? 9°) Deve-se ser um ouvinte que senta e escuta o que o 1°) Organizando dialética e indiretamente aquilo que pre- outro encontra mais prazer em contar, sem assombro; tende dizer ao cliente para, em seguida, retirar-se; 10°) Apresentando-se com o tipo de paixão do outro homem: 2°) E, assim, não testemunha o autorreconhecimento. alegre para os alegres, em tom menor para os melancólicos; Desta forma, aquele que ajuda não assume para si o reco- 11°) Não temendo fazer tudo isto, mesmo que na verdade nhecimento que o homem faz de si mesmo, por ter vivido não se possa fazer sem medo e temor. uma ilusão; Acredita-se que, pelo processo psicoterapêutico, possa o 3°) Mantendo-se próximo, permanecendo na situação de homem chegar a se reconhecer. Chegar à interioridade, através acompanhar aquele que obscurece a sua condição de liber- da reflexão, significa desembaraçar-se dos laços da própria ilu- dade para as suas ilusões. Quando se pretende ajudar o são, o que também é uma modificação reflexiva. outro, deve-se promover a aproximação, acompanhando Estabelecida a relação compreensiva, o psicoterapeuta já pode aquele que está sob a ilusão, mas jamais escolhendo por ele; arriscar mais no processo de comprometimento com sua própria 4°) Sendo cuidadoso e paciente para chegar onde o cliente existência. É o momento de não tentar obscurecer a inquietação se encontra e começar por aí. A fim de desfazer a ilusão, própria da condição de reconhecimento de sua indeterminação deve-se chegar até ele, para, então, poderem caminhar jun- existencial: a angústia. E, assim, tentar manter uma atmosfera tos; mas, no momento da decisão, o psicoterapeuta dá um para que o outro possa reconhecer o seu caráter de pecador passo atrás; logo, aberto para possibilidades. É o momento de mobilizar o 110 111</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia fenomenológico-existencial Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo desfazer da ilusão de que se é determinado quando se é liberdade; acerca de tal possibilidade ocorre uma vez que este filósofo nega de que as justificativas da existência se encontram no temporal totalmente a existência de um psiquismo. Ele questiona, também, esquecendo-se da justificação no eterno; de que, no mundo, tudo a pretensão de uma atuação modificadora do comportamento hu- é possibilidade obscurecendo o necessário; de que a verdade se mano a partir de um posicionamento que toma o homem como encontra naquilo que se diz e que, na ação, não se faz. E tudo algo da ordem do natural, logo passível de uma modificação pela isto vai se dar no discurso psicoterapeuta-cliente. ação direta. É o próprio filósofo da daseinsanálise, contudo, que aponta para a possibilidade de uma clínica psicológica com bases 3.2 0 pensamento de Heidegger e a psicoterapia na fenomenologia hermenêutica; e isso em seus Seminários de Uma proposta psicoterapêutica em uma perspectiva fenome- Zollikon (1987/2001). Heidegger, em Ser e tempo (1927; 1989), nológico-existencial articulou-se aqui, tomando em Heidegger refere-se à analítica do Dasein como a análise ontológica das es- os seus fundamentos, como bem esclarece Sá (1995, p. 47): "Um truturas da existência humana. Os psiquiatras Ludwig Binswan- diálogo criterioso com a obra de Heidegger muito tem a contri- ger e Medard Boss, inspirados no filósofo, vão denominar de buir para que a clínica alcance uma compreensão mais profunda daseinsanálise o exercício desta analítica em uma perspectiva ôn- de seus próprios fundamentos." tica ou seja, na relação com problemas materiais. Uma do Dasein tal como designada por Heidegger abre, por sua vez, a possibilidade de uma clínica psicológica que 3.2.1.1 0 método fenomenológico trabalhe com as bases ontológico-existenciais a partir da proposta Husserl apresenta a atitude antinatural, própria à fenomenologia, de uma psicologia sem psiquismo e da tese fundamental presente como possibilidade de uma visada não comprometida com a postura na fenomenologia heideggeriana de que os problemas psíquicos ingênua que se deixa levar pela opinião já marcada por um modo não são problemas da interioridade, nem do orgânico, nem da se- de ver presente no senso comum. Nessa atitude antinatural, ao invés mântica interna enfim, não são problemas do eu. São problemas de se imergir em atos superpostos uns aos outros e de pressupor os do projeto existencial, da relação ser-ai e mundo. A própria da- objetos como dotados em si mesmos de sentidos e determinações seinsanálise, tal como assumida por Boss, consiste em uma ten- essenciais acessíveis na pesquisa, o importante seria retornar ao tativa de pensar todos os problemas ditos psíquicos como ponto de gênese dos atos e ao caráter intencional de sua realização. problemas da articulação ser-ai/mundo. A atitude antinatural tal como assumida pela fenomenologia com seu lema fundamental "rumo às coisas mesmas" pode 3.2.1 0 desvelamento das possibilidades dar a impressão de que o que está em questão é o empírico, ou do e a psicoterapia seja, é deixar-se tomar pelas coisas da maneira como elas apare- Uma questão muito presente no âmbito da psicologia versa cem. No entanto, a questão aí implica a superação de todas as sobre a real possibilidade de se articular uma clínica psicológica tendências metafísicas que criam teorias acerca dos entes, esque- a partir da fenomenologia hermenêutica de Heidegger. A dúvida cendo-se do sentido originário do ser. A orientação fenomenoló- 112 113</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo gica exige que se saia do campo empírico, que posiciona os ob- Evidência, tal como tomada na acepção de Heidegger jetos no espaço e no tempo, o que envolve a necessidade de se nos Seminários de Zollikon: deixar o campo emergir num gesto não-teorizante. Para tanto, é Evidente (Offenbar) significa, se tomarmos preciso que, uma vez diante do fenômeno, se dê um passo atrás seu significado mais claro e o desdobrar- e se retorne ao seu correlato cooriginário. mos, algo como notório, evidente, que vem de evideri, deixar-se ver, em grego eva- Husserl propõe o abandono da atitude natural por uma atitude pyns, iluminar brilhantemente, mostrar-se antinatural: temos aqui a noção de epoché a suspensão desta a si mesmo. (HEIDEGGER, 1987, p. 12) atitude natural. O que ele nos ensina é que precisamos deixar de tomar a verdade com referenciais e categorias hipostasiantes, fenômeno: o psicoterapeuta vai buscar o que se mos- como se as coisas fossem estruturadas naturalmente, dando a tra, sem nenhuma perspectiva de demonstração. idéia falsa de que se conhece a verdade. As estruturas da experiência: explicitam-se e são com- Heidegger, inspirado por Husserl, adota o método fenomeno- preendidas, portanto não se explicam, nem se comprovam. lógico como atitude de investigação do fenômeno. "Método", A transparência: o psicoterapeuta facilitando que o ser aqui, é entendido no sentido grego, como a busca daquilo que transpareça e não o deduzindo segundo uma perspectiva vem depois do caminho. Na ciência moderna, entende-se como teórica, vai deixar que o sentido se mostre. representação; na fenomenologia é o sentido. A investigação fe- A compreensão da existência: a existência, enquanto fe- nomenológica em Heidegger propõe-se a buscar o fenômeno nos nômeno, é captada indiretamente, mas não por um mundo seus modos de explicitação seja na aparência, na manifestação interno desconhecido, porém pelo seu modo próprio de ou, ainda, no entulhamento. mostrar-se. O "ser em si" não se esconde atrás de aparên- Este método também vai consistir no modo de investigação cias, o fenômeno é apreendido através de perspectivas, na que se dará na própria relação psicoterapêutica. Parte-se do prin- medida em que se desvela. cípio de que não é o método com seus parâmetros que conduz: Heidegger, atento ao modo de investigação, não pretende ca- aquele que se investiga é que traça o caminho da investigação. racterizar o objeto, mas buscar o seu modo de expressão. Pre- psicoterapeuta, pautado na proposta da fenomenologia, vai tende, ainda, apreender o sentido via interrogação e, então, proceder à investigação do homem em relação deixando que o desvelar o ser-do-ente, que permaneceria oculto, quanto mais a que se mostra, faça-o a seu modo próprio, e a partir de si mesmo. preocupação consistisse em aprisioná-lo para conhecê-lo. Este método, em psicoterapia, vai seguir os seguintes aspectos, A clínica psicológica, nesta proposta, recorre à investigação propostos por Husserl e adotados por Heidegger: do modo de ser do homem, o considerando não como uma coisas em si mesmas": o psicoterapeuta vai se dire- unidade fechada, com algumas características que a definam. A cionar àquilo que se mostra em si mesmo, que se deixa ver, busca se dará na forma do se mostrar do ente, podendo até mos- a própria revelação do ser. As coisas que se deixam ver. trar-se como não é: aparência. Pode mostrar-se, ainda, através de 114 115</p><p>CAPÍTULO Uma proposta de psicoterapia Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo indicações de coisas que, em si mesmas, não se mostram, apenas 3.2.1.2 A hermenêutica e o círculo hermenêutico se anunciam: manifestação. Pode, ainda, mostrar-se e ao mesmo A hermenêutica, em uma perspectiva metateórica, tomada tempo esconder-se o que Heidegger denomina "entulhamento". como processo de compreensão, constitui-se no círculo herme- Heidegger propõe que, na investigação do ser, se parta da- nêutico tal como proposto por Heidegger, em que o próprio su- quilo que é evidente rumo à fundamentação. Assim procede o jeito da compreensão está inserido no círculo, por sua condição psicoterapeuta, quando tenta elucidar o dito do cliente. Este, em originária de pré-compreensão. sua fala, traz evidências do seu sentido e, somente quando tais Heidegger (1990) concorda que a hermenêutica, convenien- evidências são aceitas por ele próprio, o psicoterapeuta pode pro- temente ampliada, pode designar a teoria e metodologia de qual- ceder às suposições. Pode-se, porém, levantar a seguinte questão: quer gênero de interpretação. Afirma, ainda, que emprega o como explicitar o sentido, para que ele possa ser aceito como termo hermenêutica em Ser e tempo numa tentativa de determi- evidente? Heidegger propõe que se deixe transparecer o sentido nar a sua interpretação a partir do que é hermenêutico. Continua: do ser através de seus momentos constitutivos: o questionado, o [...] a denominação 'hermenêutica' é empre- perguntado e o interrogado. gada em Ser e tempo em um sentido mais Em psicoterapia, busca-se o sentido daquele que se apresenta amplo; porém, mais amplo não significa pura e simplesmente ampliação do mesmo em estado de queda, tomando-se como algo que é determinado significado a um âmbito de validade ainda apenas pelo impessoal: o interrogado. Quanto ao questionado, maior. 'Mais amplo' significa: procedente daquela amplitude que brota da essência ori- ou seja, este homem que se perde de si mesmo, aí se dá a procura. ginária. (HEIDEGGER, 1990, p. 89) analista desta orientação deve buscar o modo próprio de acesso No que se refere à hermenêutica, em cena a noção ao ser questionado, pela forma tal qual ele se mostra e indica o de círculo hermenêutico tal como discutido de forma radical por caminho. Cabe ao analista reconhecer que ele e o analisando Heidegger. Essa noção é aqui introduzida como princípio funda- estão inseridos no horizonte histórico em que se encontram. mental de uma clínica psicológica. círculo hermenêutico é a ideia Logo, partem de visões e posturas prévias, naquilo que consiste de que nunca há a possibilidade interpretativa da existência que não os seus modos de ser. Interroga-se o próprio ente em seu ser; aqui seja a partir de um horizonte fático sedimentado, no qual sempre se dá a estrutura escuta e fala, assegurando-se um modo propício há uma visão prévia, uma concepção prévia e uma posição prévia. de acesso ao sentido articulado pelo analisando. Este modo de Na análise existencial, o que está em discussão é o como romper o investigação jamais passa por um processo dedutivo, porém des- círculo hermenêutico que aprisiona o em comportamentos critivo. Ao partir da dedução, considera-se o não-evidente e o ser sedimentados no impessoal. Rompimento que consiste na possibi- será conhecido por características escondidas. Ao se mostrar, será lidade de, diante de uma experiência-limite, suspender o poder conhecido apenas o que se mostra, sem nada existir por trás. prescritivo do horizonte hermenêutico em que estamos inseridos. 116 117</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia fenomenológico-existencial Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo Desta forma, pode, então, a hermenêutica ser utilizada em psi- bilita o emergir do ser-do-ente, de forma que a fala se dê em li- coterapia, substituindo a interpretação psicodinâmica da psica- berdade, como possibilidade do ente. nálise e a explicação behaviorista. Nas palavras de Sá: No caso da clínica, apesar de muitos prin- 3.2.1.3 A questão da técnica cípios da hermenêutica terem aplicação di- reta, isto não significa que ela deva A psicoterapia, entendida em uma perspectiva prática, na qual constituir-se em uma nova teoria clínica ao lado de outras. Seu papel deve ser, antes de as pessoas que buscam esta modalidade de tratamento acreditam tudo, fornecer um apoio metateórico para dele extrair resultados, não poderia ser tomada como técnica, no que o psicoterapeuta tenha uma relação sentido moderno? "Sim" e "não". mais livre, isto é, mais crítica e transdisci- plinar com seu campo propriamente teó- "Sim", quando a psicoterapia se pauta em uma perspectiva rico. 1998, p. 31) positivista, humanista, subjetivista, que consiste em técnicas, cujos resultados visam à produtividade, à adequação com a exi- Na própria afirmativa de Heidegger (1990, p. 113), "é a fala gência da "public-idade", do impessoal. "Sim", quando a psico- que dá à E ainda: "A fala é o traço fundamental terapia se pauta na extração dos recursos de que o homem dispõe da relação hermenêutica do homem com a duplicidade do e para atingir o sucesso socialmente determinado como tal. E do que é presente." processo de escuta e fala em psicoterapia "sim" com a psicoterapia estruturada como utilidade prática. vai tomar a hermenêutica como modalidade de compreensão. "Não", quando se trata da técnica em uma perspectiva de Compreensão como originariamente constitutiva da existência hu- apreensão daquilo que se produz a si mesmo, deixando que o ser- mana e que precede qualquer interpretação. "Interpretar é elaborar aí venha à presença tal como se constitui no seu modo de ser. e tematizar o previamente compreendido." 1998, p. 30) Trata-se, aqui, da psicoterapia como um tornar manifesto o que O psicoterapeuta, assim como Hermes na mitologia grega, é presente. Não importam, nesta perspectiva, os resultados, em- atuará como mensageiro da palavra. Da mesma forma que Her- bora se pense em consequências, pelo modo de articular o mundo mes, o psicoterapeuta não vai ocupar a casa do outro, morada do em liberdade, assumindo suas próprias escolhas, seu caráter de ser, mas vai habitá-la para, então, poder entender o que o outro poder-ser. psicoterapeuta vai atuar como um facilitador, cuja entende. Acompanhará aquilo que o cliente revela na sua fala, produção vai consistir em deixar aparecer o que se oculta, tal mesmo quando silenciar. Direcionar-se-á de acordo com aquilo como um escultor no mármore deixa aparecer uma forma, que lhe é dado, agindo em um espaço de expressão livre. psi- constituindo a arte de desvelar o oculto. coterapeuta compreende o outro e isto consiste em captar a in- A psicologia clínica em uma perspectiva fenomenológico- terpretação de mundo que o outro é. Abre, então, possibilidades existencial possibilita um pensamento meditante, abrindo a pos- para o próprio se questionar em seu ser mais próprio. O psicote- sibilidade àquele que, em angústia, clama pelo seu poder-ser rapeuta, ao se permitir pensar sobre o "modo do diálogo", possi- mais próprio, de reconhecer-se como ser-para-a-morte pois, ao 118 119</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo encontrar-se perdido no impróprio, obscurece a sua possibilidade e impessoal, porém sempre como abertura para possibilidades de mais própria. Neste querer-ter-consciência, pode descobrir-se em outras formas de expressão, quais sejam pessoais, próprias e sin- sua liberdade, tanto no que se refere à utilização das coisas, como gulares. Ser-aí constitui-se em um ente aberto às possibilidades no seu próprio fazer-se no mundo. Pode, ainda, descobrir sua se- logo, em liberdade em seu modo de ser. Constitui-se, então, no jogo renidade no "inútil", e não ansiar para se tornar um objeto de uti- do impróprio e do próprio. Na verdade, nada se estrutura como de- lidade, para adequar-se às exigências do mundo do das Man finitivo, pois é o próprio caráter de abertura, que abre sempre às Nesta perspectiva, a psicoterapia como pensamento medi- possibilidades tanto em direção à autenticidade como à inauten- tante e não-calculante seria ela própria uma meditação, mesmo ticidade. Ao modo da impessoalidade e da inautenticidade, o ser-aí sendo apontada pela sociedade atual como um processo "inútil". tende ao fechamento. Os limites de sua abertura para o mundo res- psicoterapeuta, no lugar de artesão, atuaria como tal na criação tringem suas possibilidades. Em fechamento, o homem esquece-se de um discurso libertador, no qual residiria sua criação, permitindo do seu poder-ser e reconhece-se como presença à vista. que aquele que deseje se reencontrar dê-se a conhecer. Na duplicidade "ente ser", pode esquecer-se do ser e tomar-se como ente. Perdido no ente, escolhe o modo como o im- 3.2.2 A ontologia de Heidegger e os fundamentos de pessoal determina que deva escolher. No mundo do das Man, uma proposta em psicoterapia perde-se no impessoal, no impróprio e no inautêntico. Esquece- se de sua liberdade de escolha das possibilidades e passa a viver Trata-se de uma psicoterapia como um remeter-se a uma aná- no "É". "É" apenas as propriedades que o mundo lhe atribui. "É", lise do existir na dimensão da analítica da existência. A proposta apenas no conformismo da massa, mais uma "ovelha no rebanho." consiste, então, em trazer a ontologia de Heidegger para uma re- Ser-aí, no movimento do ser e ente, clama, tomado pela an- lação dialogal. Em Zollikonner Seminaire, que resultou de semi- gústia por ser si próprio, pessoal e autêntico, que implica, em úl- nários coordenados por Medard Boss, Heidegger permite pensar tima instância, reconhecer-se como um poder-ser que ruma na possibilidade de trazer sua filosofia para a psicoterapia: sempre para a finitude. Tal clamor ocorre, mesmo que na forma Empregamos a psicologia, a sociologia e a de estorvo e inquietude, mesmo que silencioso ou disfarçado nos psicoterapia para ajudar o homem a ganhar afazeres cotidianos. Incomoda, mas abre a possibilidade de uma adaptação e liberdade em seu sentido mais amplo. Isso diz respeito à medicina e à so- escolha singular. Muitas vezes, ainda esquecido de sua liberdade, ciologia, porque todo o distúrbio socioló- o homem justifica-se pelas situações exteriores: o governo, os gico e patológico é um distúrbio da pais, o inconsciente, enfim. Outras vezes, no entanto, o incômodo adaptação e da liberdade do homem singu- lar. (HEIDEGGER, 1987, p. 199) o mobiliza, e aí vai em busca de sua possibilidade mais própria: seu poder-ser. Em Ser e tempo, Heidegger refere-se ao ser-aí como uma tota- Na busca de cuidado, pode-se procurar um médico, um feiti- lidade estrutural que se mostra na cotidianidade mediana, imprópria ceiro ou um psicólogo. médico, normalmente, confere o mal 120 121</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia fenomenológico-existencial Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo ao corpo, exime o que o procura da responsabilidade e dele se Em uma postura hermenêutica, consideramos os horizontes preocupa no modo substitutivo. feiticeiro também vai se preo- hermenêuticos que estarão sempre presentes na situação clínica, cupar deste mesmo modo. O psicólogo, por sua vez, pode modi- e o que de fato se interpreta são os encontros de horizontes, que ficar as contingências e o comportamento, ou ainda atrelar a consistem precisamente no que se fala e se escuta. Este choque questão trazida aos motivos inconscientes. Pode também, na an- de horizontes é o horizonte mesmo de apreciação do que acon- gústia, buscar a questão que ali se encontra. Nas duas primeiras tece no encontro clínico, ou seja, da aparição da coisa. modalidades de atuação, ocorre sob a tutela do psicólogo, que A tarefa de uma clínica "daseinsanalítica" consiste, primeira- substitui o cliente decidindo por ele; na última, a relação se es- mente, no fato de que o analisando precisa ser o mais preciso tabelece de modo que o psicólogo dê um passo atrás e devolva possível em suas descrições e o analista deve, incessantemente, ao cliente o cuidado de si. atentar para as interpretações do paciente, tentando, assim, al- cançar uma compreensão daquilo que está em jogo na descrição 3.2.2.1 0 ser-em: a escuta e a fala em psicoterapia do analisando. Em continuidade a esta tarefa, precisamos, tam- bém, quebrar ou destruir os comportamentos ontológicos presen- Nos Seminários de Zollikon, Heidegger refere-se à psicologia tes nas descrições do analisando. Esta clínica consiste em abrir como uma proposta para ajudar o homem a ganhar sua liberdade. um espaço para que o outro se conquiste em sua alteridade. Abrir Diz, ainda, que é a angústia que lança o frente a frente com espaço, sem conduzir; traduzir, sem mapear um caminho que leve sua liberdade e responsabilidade, tentando romper com o circulo a algo como uma conscientização. hermenêutico em que este se encontra. Em uma visada o problema Ao se tomar o eu como abertura, ausência dinâmica em jogo consiste no aprisionamento em nossas histórias, nos modos como com o mundo, e ao se assumir a fenomenologia hermenêutica vamos sufocando não o problema que temos, mas o problema como atitude interpretativa frente ao fenômeno, passa-se a esta- que "nós" somos. A tarefa de uma clínica fenomenológica con- belecer uma outra articulação para a psicologia a partir da feno- siste em quebrar o aglomerado de que se dão na mis- menologia e da hermenêutica. Inaugura-se, então, uma outra tura de campos intencionais e que provocam a quebra do fluxo atuação clínica, ou seja, um novo comportamento clínico que, do tempo do eu. E, assim, possibilitar que o instante e lugar do inspirado em Heidegger, recebe a denominação de daseinsaná- acontecimento se deem. Levamos o analisando a aperceber-se lise. Para se proceder a uma clínica fenomenológica, parte-se do das suas vivências próprias e a colocar-se diante do campo in- pressuposto de que toda e qualquer teoria acerca da existência tencional em que o fenômeno se constituiu. O caminho da feno- humana deve ser suspensa para que, assim, seja possível se apro- menologia, como atitude de investigação dos modos de ser do ximar do fenômeno no caso, a questão trazida pelo paciente, homem, na hermenêutica de Heidegger, busca o modo como este atendo-se a todo o detalhamento de como se dá o acontecimento homem articula sentidos, que se mostram em sua fala. A escuta em questão. do psicoterapeuta vai se dar no desvelar desses sentidos, atuando 122 123</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo de forma a captar a expressão do ser-em em seu falatório, curio- Convém lembrar que, na psicologia, a fala é considerada o sidade e instrumento fundamental na tarefa do psicólogo. Alguns teóricos A investigação de si por si mesmo pode ocorrer na relação desta área do saber enfatizam a importância daquilo que é ver- psicoterapêutica, em que o psicoterapeuta vai assumir o lugar de balizado. Monique Augras afirma ser a linguagem o instrumento mensageiro do discurso do cliente, em um processo mútuo de de que o homem dispõe para explicitar sua situação. Diz, ainda: corresponder e "des-prender", tal como entendidos por Heideg- A fala, pelo seu caráter físico e abstrato, in- ger (1990) em sua perspectiva ontológica. No corresponder, a terpretativo e manipulador, concentra em fala se desprende quando escuta. No des-prender, a escuta se dá si todas as modalidades de formulação e atuação do ser no mundo. Para atender ao simultaneamente com o responder. Compreende-se que é assim objetivo inicialmente proposto, qual seja o que se dá o processo de "escutas e falas" do psicoterapeuta e do de encontrar na situação existencial subsi- cliente. dios para estabelecer uma compreensão in- dividual, o questionamento da linguagem Em uma psicoterapia na perspectiva ora proposta, a articula- afirma-se como meio necessário à investi- ção se dá na busca do sentido do homem que se mostra em sua gação. (AUGRAS, 1981, p. 146) fala. Na escuta do psicoterapeuta, vai se dar a investigação desse 3.2.2.2 Testemunho, débito. angústia e ser-para-a- sentido, atuando de forma a captar a expressão do ser-em em seu morte falatório, curiosidade e ambiguidade. Ao modo da disposição, da Constitui-se como próprio do o estar-em-débito. A de- compreensão e do discurso, em sua impropriedade revela- cisão antecipadora reconhece o estar-em-débito como algo que se como ambiguidade, curiosidade e falatório. Através da articu- a constitui, quando se reconhece na transparência e na lação do processo psicoterapêutico, o psicoterapeuta poderá abertura do seu ser mais próprio. então, através de sua fala, facilitar o reconhecimento do poder- Ser-aí, na decisão antecipadora, responde ao clamor da cons- ser. O processo psicoterapêutico consiste no tecer das palavras ciência do seu "poder estar-em-débito" como mais próprio e irre- (CANCELLO, 1991), segundo um corresponder, como entendido missível. Na fuga desta situação, de si mesma, frente ao caráter por Heidegger: um falar que se des-prende quando escuta, e em ameaçador daquilo de que se foge, cai no impessoal, no um des-prender escuta, ao mesmo tempo em que responde mundo das ocupações. Foge da estranheza de si mesmo que, no (HEIDEGGER, 1990). entanto, não se firma pois na estranheza, no modo de angústia, Heidegger diz em Ser e tempo que a conexão do discurso com singulariza-se, retirando-se da de-cadência, alerta para o a compreensão e sua compreensibilidade torna-se a partir impróprio e clama para o mais próprio. Ser-aí, no entanto, precisa de uma possibilidade existencial iminente ao próprio discurso, do testemunho de um "poder-ser-si-mesma" que, enquanto pos- qual seja, a escuta. Discurso e escuta se fundem na compreensão sibilidade, é sempre si mesma. A consciência pode tornar-se tes- e o homem se mostra como ente que é no discurso. temunho de si mesma, e assim se faz no seu clamor "voz da 124 125</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia fenomenológico-existencial Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo consciência", abrindo a possibilidade de escuta. Tem-se o querer- tir. cuidado como processo de constituição do se dá no ter-consciência, onde transparece a totalidade acontecer, isto é, no tempo. Cuidar constitui-se no exercício da querer-ter-consciência, como modo de abertura, se constitui pre-ocupação com o acontecer. Portanto, pode-se falar do ocu- na disposição, compreensão e discurso. A psicoterapia deve, no par-se do acontecer no seu sentido mais próprio do "pre" ou mínimo, não atuar para dissipar esta tonalidade afetiva para que, seja, do ser como cuidado. uma vez o analisando se abrindo para sua estranheza, possa per- A psicoterapia aqui proposta se dá no sentido do acompanhar mitir o surgimento de uma escolha singular, retirando-se, nem que esse acontecer. Trata-se de uma psicoterapia em que o psicotera- seja por um momento, da compreensão ditada pelo "impessoal" peuta participa do acontecer do cliente. ser do se constitui que, obscurecendo as possibilidades, dá-se ao modo do es- como um ser-com. Neste modo de ser, já está presente a condição paçamento, medianidade e Modos pelos quais ser- de compreensão dos outros. modo originário de ser-com possibi- se encontra no início e na maioria das vezes. No espaçamento, lita ao o conhecimento e o reconhecimento do outro. E é este o ser-com se constitui com os outros; na medianidade, o ser-com mundo compartilhado que abre espaço para a psicoterapia. Encon- desconhece a si e aos outros; no nivelamento, suas possibilidades tra-se o círculo hermenêutico consiste na idéia de que nunca há nivelam-se com as de todos. Em uma narrativa fenomenológica, a possibilidade interpretativa da existência que não seja a partir de importa o modo como uma vai se um horizonte fático sedimentado, no qual sempre há uma visão pré- dando, em um horizonte fundido, abrindo espaço para que o ana- via, uma concepção prévia e uma posição prévia. Na daseinsanálise, lisando apareça para si mesmo. Ao se abrir para o ser-para-a- o que está em discussão é o como romper o círculo hermenêutico morte, suas possibilidades mais próprias são assumidas. Desta que aprisiona o em comportamentos sedimentados no impes- forma, não encobre nem foge da morte, porém compreende sua soal. Rompimento que consiste na possibilidade de, diante de uma própria possibilidade, como certeza de seu ser-para-o-fim. experiência-limite, suspender o poder prescritivo do horizonte her- A compreensão que projeta o para as pos- em que estamos inseridos. A questão que se impõe é: sibilidades cada vez mais próprias do como se dá a relação psicoterapêutica na perspectiva fenomenoló- constitui-se no humor da estranheza de sua singularidade. É o gico-existencial? Toda e qualquer relação é cuidado. E, à relação na disposição da angústia, que se abre que o estabelece com outros providos do mesmo caráter de para o discurso originário. O silêncio, retirando a palavra do fa- abertura, Heidegger denomina preocupação. A pre-ocupação se latório, mostra o estar-em-débito, conduzindo o si-mesmo à com- apresenta também em duas possibilidades: pre-ocupação substitu- preensão, afastando-o da curiosidade do impessoal. tiva e anteposição libertadora. Sá (1999) refere-se a essas duas for- mas de pre-ocupação como possíveis na atuação psicoterapêutica. 3.2.2.3 0 cuidado: a relação psicoterapêutica Na pre-ocupação substitutiva ou substituição dominadora, a psi- cuidado constitui-se como a totalidade da unidade estrutu- coterapia se daria através do domínio do outro. As técnicas, ral do ser-aí, constitui-se no pôr-se para fora, movimento do exis- caso, visariam a resultados, e o cliente seria dominado e submisso 126 127</p><p>CAPÍTULO 3 Uma proposta de psicoterapia fenomenológico-existencial à técnica, no sentido moderno de recursos a serem explorados. Neste modo de o psicoterapeuta assume a tutela do outro, onera-se do cuidado do outro e lhe diz o que deve fazer. Na pre-ocu- pação de anteposição ou antecipação libertadora, a relação psicote- rapêutica se funda na liberdade de escolha por parte daquele que clama pelo seu ser mais próprio, ou seja, pelo seu caráter de poder- ser. Segundo Heidegger (1986, p. 174), "ajuda o outro a tornar-se em sua cura, transparente em si mesmo e livre para ele." Aqui, a re- CAPÍTULO 4 lação se constitui como técnica, no sentido originário de desvela- mento, e o psicoterapeuta desonera-se do cuidado que sempre é do Metodologia outro e dá um passo atrás, deixando o outro sob a sua própria tutela. mundo próprio constitui-se com suas próprias possibilida- des e limites. A psicoterapia, nesta perspectiva, não pensa em ter- A investigação acerca da estrutura da escuta e fala em psico- mos de realidade, mas de possibilidades. psicoterapeuta terapia ocorreu em duas etapas. Na primeira, foi utilizada a fe- prossegue no cuidado com o cliente na abertura de caminhos, nomenologia como modalidade de investigação, em que a coleta restabelecendo o movimento como acontecer. e análise das informações obtidas deram-se de forma qualitativa. A clínica "daseinsanalítica" se estabelece muito mais em uma A partir do estudo atento de diferentes sessões psicoterapêuticas negatividade do que propriamente de uma identidade positiva. realizadas por quatro que atuam com base nos que, marcado pela nadidade e pela fragilidade ontológica, pressupostos fenomenológico-existenciais, averiguaram-se as es- busca a estabilidade do mundo que se constitui em um apoio, truturas fundamentais subjacentes na relação psicoterapêutica. suporte e tutela. Mas é exatamente esta busca que o coloca na ca- A segunda etapa da investigação consistiu em uma investiga- dência do mundo: esquecendo-se do seu próprio ritmo, acaba obs- ção fenomenológica de um diálogo clínico. Foram cuidadosa- curecendo o seu caráter de poder-ser. São as situações-limite que, mente estudadas cada "fala e escuta" do psicoterapeuta e do ao entrarem na articulação do e mundo, rompem com os cliente. A partir de uma leitura detalhada, pôde-se acompanhar o sentidos sedimentados no círculo hermenêutico e o vazio aparece, modo como se dá uma psicoterapia pautada na fenomenologia e no nada padece. A angústia emerge como um mobilizador exis- hermenêutica como modalidade de compreensão, esclarecendo tencial que, imediatamente, abre duas na tentativa as estruturas fundamentais obtidas na primeira etapa e articu- de livrar-se da angústia, o ser-aí ou bem retoma a tutela do mundo lando-as com a fundamentação filosófica. e volta àquilo que lhe é familiar, ou bem concretiza-se no poder- ser, singulariza-se o que consiste na perda, nem que seja por um 4 instante, da tutela do mundo. Os psicoterapeutas colaboradores desta pesquisa foram: Myriam Protasio, Ber- nadete Medeiros Lessa, Luciana Oliveira e Rita Luzia Nielsen. 128 129</p>