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CONHECIMENTO E MÉTODOS DO CUIDAR EM ENFERMAGEM Alexandra Bulgarelli do Nascimento O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir os pressupostos teóricos do desenvolvimento do conheci- mento em enfermagem. Descrever os conceitos e a aplicabilidade do raciocínio crítico e do julgamento clínico em enfermagem para o desenvolvimento do cui- dado de enfermagem. Descrever a importância do cuidado de enfermagem para os pacientes. Introdução Para que o cuidado de enfermagem se concretize na realidade dos serviços de saúde e impacte o paciente, sua rede de apoio (familiares, conviventes e cuidadores), o grupo social e as coletividades, é fundamental que o en- fermeiro tenha competências profissionais que possibilitem esse resultado. Essas competências envolvem a identificação das necessidades em saúde individuais e coletivas, o que exige a compreensão de que, para a provisão de cuidados seguros e de qualidade, o conceito de integralidade e a humanização devem ser os eixos direcionadores das suas práticas. Para esse alcance, é necessário que o enfermeiro tenha conhecimento crítico sobre a realidade e as condições clínicas do indivíduo. Neste capítulo, você será apresentado à potencialidade do raciocínio crítico e do julgamento clínico, que são os elementos que subsidiam a organização do processo de trabalho em enfermagem, cuja essência é o cuidado prestado ao paciente e às coletividades. Conhecimento em enfermagem A enfermagem tem um escopo de conhecimento que foi desenvolvido ao longo do tempo, principalmente após o marco, no século XIX, da Enfermagem Mo- derna Científi ca, com o registro das intervenções e dos resultados dos cuidados de enfermagem realizados por Florence Nightingale (TAYLOR et al., 2014). Esse conhecimento é produto de aspectos científicos que ocorrem por intermédio da observação da realidade, da proposição de ações, do teste de hipóteses, da consolidação dos resultados e da adoção de práticas que se tra- duzem em melhores resultados. Porém, ele também se dá por meio de aspectos filosóficos relacionados à visão de mundo adotada pelos profissionais para compreender a realidade e propor meios para a condução do que demanda intervenção (MCEWEN; WILLS, 2016). Uma enfermeira de um Centro de Apoio Psicossocial — álcool e drogas (CAPS-AD) está realizando a consulta de enfermagem de admissão de um rapaz de 25 anos, em situação de rua, usuário de cocaína desde os 12 anos de idade, que refere não ter contato com os familiares há pelo menos 10 anos. Ele solicita ajuda especializada para controlar a dependência química. Diante dessa situação, a enfermeira deve utilizar uma compreensão integral e humani- zada do cuidado a esse paciente, o que significa que ela precisará do seu conhecimento técnico sobre os cuidados de enfermagem, no que diz respeito ao exame físico e à proposição de ações voltadas para responder à dimensão biológica desse indivíduo, encaminhando-o para fazer a avaliação médica-psiquiátrica, o acompanhamento da adesão ao tratamento farmacológico, o monitoramento clínico, entre outras ações condizentes com essa abordagem focada no distúrbio biológico. Porém, apenas esse tipo de condução do caso desse paciente não é suficiente para responder às suas necessidades em saúde, na medida em que elas exigem que a enfermeira também atue visando a compreender o contexto social em que esse paciente está inserido para, a partir disso, propor ações, inclusive de cunho intersetoriais, que respondam às suas necessidades — como as relacionadas ao acesso a trabalho e renda, abrigo, educação, assistência social para localizar os familiares (caso seja do seu desejo), entre tantos outros aspectos relevantes para o atendimento da totalidade das suas necessidades em saúde. A prática do enfermeiro exige, desse profissional, uma atuação ancorada em dois pressupostos: conhecimento clínico e compreensão da realidade. O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado2 Conhecimento clínico: refere-se ao funcionamento do corpo humano e às intervenções técnicas sobre esse corpo para a restauração da sua condição de normalidade (quando possível), o que exige o uso do racio- cínio clínico e sólido do profissional para nortear a sua prática. Compreensão da realidade: impõe ao enfermeiro a compreensão de que o sucesso do desfecho clínico depende da realidade em que o indivíduo está inserido, uma vez que essa realidade determina as condições de adoecimento e morte das pessoas (MCEWEN; WILLS, 2016). Diante disso, fica evidente que a enfermagem demanda competências pro- fissionais direcionadas para o desenvolvimento do raciocínio clínico, exigindo, desse profisisonal, um consistente conhecimento ancorado em disciplinas das Ciências Biológicas, como Anatomia, Fisiologia, Farmacologia, Patologia, Imunologia, etc., mas também para o desenvolvimento do raciocínio crítico, o que significa que ele fará uso do conhecimento proveniente das Ciências Sociais e Humanas, como Psicologia, Sociologia, Antropologia, Filosofia, entre outras (MCEWEN; WILLS, 2016). Cuidado de enfermagem Ao demonstrar que emerge de múltiplos conhecimentos, o cuidado de enfer- magem é compreendido como uma Ciência, uma área de conhecimento, nesse caso a Ciência da Enfermagem. A Ciência, entretanto, é conduzida pela visão de mundo que os indivíduos têm sobre ela, o que é denominado como marco filosófico (MCEWEN; WILLS, 2016). Dessa forma, o marco filosófico adotado pelo enfermeiro dará a tônica do conhecimento de enfermagem por ele utilizado em sua prática. Na atualidade, existem basicamente duas visões de mundo com maior número de adeptos: a visão de mundo positivista e a visão de mundo realista. A visão de mundo positivista aplicada à saúde se atém a observar a realidade, buscando por problemas relacionados ao funcionamento do corpo biológico, cujo objetivo é intervir sobre ele, principalmente por intermédio do uso de tecnologias duras. A partir dessa prerrogativa, o objeto de análise do enfermeiro é o distúrbio, ou seja, a doença, a qual exige atuação profissional tecnicista amparada por forte raciocínio clínico e atuação focalizada no manejo do agravo, buscando, com isso, um desfecho clínico favorável (MCEWEN; WILLS, 2016). 3O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado Essa forma de atuação do enfermeiro é importante, pois, entre as suas competências profissionais, esse jeito de interagir é mandatório, principalmente nas situações que exigem dele pronta intervenção — como no caso, sobretudo, da atenção hospitalar nas ocorrências de risco iminente de morte, em salas de emergência, centros de terapia intensiva (CTI), centro cirúrgico, entre outros cenários assistenciais (Figura 1). O enfermeiro deve ter a clareza de compreender que, ao atuar utilizando a visão de mundo positivista, ele descola o paciente da sua realidade, importando, naquele momento, apenas a atuação focal sobre o distúrbio que será alvo de mensuração e análise do resultado. Figura 1. Uso das tecnologias duras para responder à atuação do enfermeiro ancorada na visão de mundo positivista. Fonte: Chaikom/Shutterstock.com. A visão de mundo positivista teve a sua ascensão na primeira metade do século XX, até a década de 1960, momento histórico em que o raciocínio estava direcionado para os métodos de mensuração e acompanhamento quantitativo, sem a preocupação inicial de relacioná-los àquilo que diferenciava os indi- víduos, ou seja, sem considerar a singularidade do ser humano (MCEWEN; WILLS, 2016). O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado4 Um paciente deu entrada em um pronto socorro com forte dor no peito há 1 hora. Ele foi levado pelos familiares que referiram a condição de hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia, com déficit para a adesão ao tratamento. Além disso, a família relatouque o paciente está sob forte estresse devido à carga de trabalho exaustiva que está exposto há muito tempo. Durante a avaliação clínica do paciente com um possível quadro de infarto agudo do miocárdio (IAM), ele apresentou uma parada cardiorrespiratória, a partir da qual as equipes médica e de enfermagem atuaram prontamente para reverter a situação. As equipes de saúde se utilizaram da visão de mundo positivista para a reversão da parada cardiorrespiratória, ou seja, as equipes têm conhecimento tecnocientífico, bem como habilidade técnica para agir com excelência nessa situação, buscando um desfe- cho clínico favorável, o qual é evidenciado pela reversão da parada cardiorrespiratória. No entanto, a família referiu que o paciente não está aderindo ao tratamento das doenças de base e que ele está vivenciando estresse decorrente da jornada de trabalho. Nesse caso, é importante perceber que há outros elementos que influenciam o atendimento efetivo das necessidades de saúde desse paciente, caso ele se recupere do provável IAM. Evidencia-se, portanto, que a visão de mundo positivista não tem a possibilidade de subsidiar a atuação do enfermeiro, o que exigirá, nesse momento, que esse profissional adote a visão de mundo realista. A visão de mundo realista parte da ideia de análise do concreto da reali- dade, visando a identificar, nela, os aspectos que determinam a ocorrência do adoecimento das pessoas (Figura 2). 5O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado Figura 2. As duas diferentes realidades sociais que implicam a forma de adoecimento e morte das pessoas pertencentes a esses dois diferentes grupos sociais. Fonte: Caio Pederneiras/Shutterstock.com. Esses aspectos emergem da forma como as pessoas estão organizadas socialmente, o que, por sua vez, irá determinar os perfis sociais para adoe- cimento e morte e, portanto, implicará as práticas que serão adotadas pelo enfermeiro para responder às necessidades de saúde dessas pessoas inseridas em grupos sociais com diferentes características (MCEWEN; WILLS, 2016). Uma adolescente buscou atendimento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) com suspeita de gravidez. Ela estava muito preocupada, pois teve relação sexual desprote- gida com um ficante em uma festa organizada na comunidade em que mora e citou que a sua mãe, que foi gestante durante a adolescência, já a havia alertado que não toleraria a mesma situação. Esse exemplo demonstra que o evento suspeita de gravidez demanda um manejo diferente do enfermeiro e que depende do contexto social em que a UBS está inserida. O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado6 A visão de mundo realista impõe, ao enfermeiro, a identificação das ne- cessidades em saúde individuais, mas que são compreendidas como uma representação do coletivo, ou seja, do grupo social em que aquele indivíduo está inserido. Isso significa, em última análise, que o enfermeiro, nessa visão de mundo, planeja e implementa o cuidado de enfermagem, tanto em âmbito individual como no coletivo, tendo em vista as vulnerabilidades presentes nos diferentes grupos sociais. As tecnologias duras, presentes principalmente ao compreender o processo saúde- -doença a partir da visão de mundo positivista, referem-se ao uso dos diferentes tipos de medicamentos, vacinas, dietas enterais e parenterais, técnicas cirúrgicas, procedimentais e instrumentais, insumos, órteses, próteses, materiais, equipamentos para monitoramento e intervenção, mobiliários, entre outros. As tecnologias leves, por outro lado, estão presentes como instrumentos para operacionalizar a adoção da visão de mundo realista na enfermagem. Os exemplos de tecnologias leves são aqueles decorrentes principalmente da interação humana e da interação com a organização social, como escuta ativa, comunicação assertiva, empatia, solidariedade, discernimento, atuação em rede e em equipe, mecanismos de referência e contra referência, empoderamento, etc. Necessidade de saúde e o cuidado de enfermagem Para que o cuidado de enfermagem ocorra, o primeiro passo que o enfermeiro precisa tomar é identifi car as necessidades de saúde (Figura 3). Nesse caso, há uma condução clínica de extrema importância, mas que também exige atuação do profissional enfermeiro em âmbito psicológico e social para atender essa família, bem como o grupo social, uma vez que, se não houver intervenção em nível coletivo nessa comunidade, provavelmente surgirão mais casos de gravidez na adolescência. 7O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado A identificação das necessidades de saúde inicia com a coleta de informa- ções sobre o indivíduo, no que se refere aos seus dados, à sua história de saúde e ao exame físico, seguida da sua análise, visando a localizar, a partir dos conhecimentos das Ciências Biológicas, distúrbios, agravos e anormalidades, os quais podem ser alvo de intervenção do enfermeiro (CHULAY; BURNS, 2012). Essa prática, portanto, é claramente guiada pela visão de mundo positivista. A partir dos preceitos da integralidade e da humanização do cuidado, o enfermeiro deve avançar no mapeamento das necessidades de saúde, sendo imprescindível o fato de ele ampliar a sua atuação (CHULAY; BURNS, 2012). Para tanto, a visão de mundo realista se apresenta como uma opção po- tente, pois embasa a captação da realidade a partir da coleta de dados sobre a relação do indivíduo com a sua dinâmica familiar, o seu contexto social, as oportunidades que tem para o seu desenvolvimento como cidadão e o seu projeto de vida (KIDD, 2016). Essa investigação visa a elucidar os aspectos que determinam os perfis de adoecimento e morte do indivíduo que está buscando o serviço de saúde, bem como daqueles que ele representa no grupo social a que pertence (KIDD, 2016). Dessa forma, o planejamento e a implementação do cuidado de enfermagem têm, em sua natureza, uma densidade teórico-filosófica e prática, o que impõe, Figura 3. A figura demonstra as necessidades de saúde, as quais exigem, do enfermeiro, discernimento para identificá-las. Fonte: Yes — Royalty Free/Shutterstock.com. Individuais Coletividades Grupos-sociais Familiares O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado8 ao enfermeiro, a obrigatoriedade de compreender que o processo de trabalho em enfermagem pressupõe solidez de conhecimentos clínicos para nortear o seu julgamento no cotidiano das suas atividades. Além disso, é preciso que esse profissional tenha raciocínio crítico-reflexivo sobre a realidade, uma vez que é a partir da combinação desses elementos que a Enfermagem — como Ciência — contribui de forma significativa para agregar valor ao processo de cuidar do indivíduo e da sua rede de apoio, bem como dos grupos sociais que ele representa — coletividades, comunidade e população. CHULAY, M.; BURNS, S. M. Fundamentos de enfermagem em cuidados críticos da AACN. Porto Alegre: AMGH, 2012. E-book. KIDD, M. A contribuição da medicina de família e comunidade para os sistemas de saúde: um guia da Organização Mundial de Médicos de Família (WONCA). Porto Alegre: Artmed, 2016. MCEWEN, M.; WILLS, E. M. Bases teóricas de enfermagem. Porto Alegre: Artmed, 2016. E-book. TAYLOR, C. R. et al. Fundamentos de enfermagem: a arte e a ciência do cuidado de enfermagem. Porto Alegre: Artmed, 2014. E-book. Leituras recomendadas CARVALHO, E. C.; OLIVEIRA-KUMAKURAII, A. R. S.; Morais, S. C. R. V. Raciocínio clínico em enfermagem: estratégias de ensino e instrumentos de avaliação. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, DF, v. 70, n. 3, p. 690-696, maio/jun. 2017. Disponível em: http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672017000300662&lng=e n&tlng=en. Acesso em: 24 maio 2019. OPAS. Ampliação do papel dos enfermeiros na atenção primária à saúde. Washington, D.C.: OPAS, 2018. ZOBOLI, E. L. C. P.; SCHVEITZER, M. C. Valores da enfermagem como prática social: uma metassíntese qualitativa. Revista Latino-Americanade Enfermagem, v. 21, n. 3, maio/jun. 2013. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v21n3/pt_0104-1169-rlae-21-03-0695. pdf. Acesso em: 20. Abr. 2019. 9O conhecimento na enfermagem e sua importância para o cuidado