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<p>Indaial – 2021</p><p>Consumidor</p><p>Prof.ª Aletéia Hummes Thaines</p><p>1a Edição</p><p>direito do</p><p>Impresso por:</p><p>Elaboração:</p><p>Prof.ª Aletéia Hummes Thaines</p><p>Copyright © UNIASSELVI 2021</p><p>Revisão, Diagramação e Produção:</p><p>Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech</p><p>Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI</p><p>Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI</p><p>T364d</p><p>Thaines, Aletéia Hummes</p><p>Direito do consumidor. / Aletéia Hummes Thaines. – Indaial:</p><p>UNIASSELVI, 2021.</p><p>188 p.; il.</p><p>ISBN 978-65-5663-257-5</p><p>ISBN Digital 978-65-5663-253-7</p><p>1. Defesa do consumidor. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da</p><p>Vinci.</p><p>CDD 341.2734</p><p>Prezados acadêmicos! A finalidade do presente livro é proporcionar o estudo do</p><p>Direito do Consumidor, desde a sua evolução histórica até sua efetiva tutela, seja em</p><p>âmbito administrativo ou judicial.</p><p>Como sabemos, a sociedade vem se transformando ao longo do tempo e essas trans-</p><p>formações acarretaram o desenvolvimento de novos hábitos e a necessidade de garantir e tu-</p><p>telar determinados direitos dos seres humanos, especialmente, das pessoas mais vulneráveis.</p><p>Você irá observar que a preocupação com o consumidor não é algo recente, ou</p><p>seja, do direito atual, pois ele remonta à antiguidade. Os povos antigos já se preocupavam</p><p>em proteger, de forma indireta, a figura do consumidor.</p><p>Esse movimento protecionista aumentou com a modificação do sistema de produção,</p><p>a partir da Revolução Industrial, uma vez que os produtos eram produzidos em larga escala.</p><p>Essas transformações não param por aí. Com um mercado globalizado e com o</p><p>avanço da tecnologia criou-se formas de ofertas e contratação, bem como novos produtos e</p><p>serviços lançados diariamente no mercado, estimulando cada vez mais o consumo.</p><p>Isso, consequentemente, impacta na preocupação de se proteger a parte mais</p><p>fraca da relação de consumo, que é o consumidor.</p><p>Você sabe quem é o consumidor?</p><p>Em linhas gerais, consumidores somos todos nós que adquirimos/compramos</p><p>algum produto ou contratamos alguma prestação de serviço como destinatário final.</p><p>Contudo, não se preocupem muito com essa conceituação, pois você estudará</p><p>cada uma delas de forma detalhada.</p><p>Como o consumidor é considerado a parte vulnerável da relação consumerista,</p><p>houve a necessidade de se elaborar legislações específicas que o protegessem. No caso</p><p>brasileiro, essas normas protecionistas são inseridas em nosso ordenamento jurídico,</p><p>a partir da Constituição Federal de 1988, que elevou essa defesa ao patamar de direito</p><p>fundamental e que determinou a criação de um Código de Defesa do Consumidor.</p><p>É por causa dessa vulnerabilidade que se fundamenta o estudo da disciplina de</p><p>Direito do Consumidor e, por via de consequência, o estudo desse livro. Essa obra está</p><p>dividida em três unidades.</p><p>Na Unidade 1, abordaremos os aspectos introdutórios do Direito do Consumidor,</p><p>estudando a sua evolução e os fundamentos constitucionais que o permeiam, além de</p><p>identificar os princípios inseridos no Código de Defesa do Consumidor que norteiam os</p><p>direitos e a defesa do consumidor.</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>GIO</p><p>Você lembra dos UNIs?</p><p>Os UNIs eram blocos com informações adicionais – muitas</p><p>vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico</p><p>como um todo. Agora, você conhecerá a GIO, que ajudará</p><p>você a entender melhor o que são essas informações</p><p>adicionais e por que poderá se beneficiar ao fazer a leitura</p><p>dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará</p><p>informações adicionais e outras fontes de conhecimento que</p><p>complementam o assunto estudado em questão.</p><p>Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os</p><p>acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir</p><p>de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual</p><p>– com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a</p><p>leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que</p><p>você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados</p><p>através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo</p><p>continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada</p><p>com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo</p><p>o espaço da página – o que também contribui para diminuir</p><p>a extração de árvores para produção de folhas de papel, por</p><p>exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto</p><p>de ações sobre o meio ambiente, apresenta também este</p><p>livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a</p><p>possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular,</p><p>tablet ou computador.</p><p>Junto à chegada da GIO, preparamos também um novo</p><p>layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual</p><p>adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de</p><p>relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os</p><p>materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade,</p><p>possa continuar os seus estudos com um material atualizado</p><p>e de qualidade.</p><p>Em seguida, na Unidade 2, estudaremos a diferença entre uma relação jurídica civil</p><p>e a relação jurídica de consumo, analisando os elementos que compõe essa última relação e</p><p>conceituando a figura do fornecedor, consumidor, produto e serviço. Ademais, compreende-</p><p>remos a responsabilidade do fornecedor e do prestador de serviço frente ao consumidor.</p><p>Por fim, na Unidade 3, aprenderemos sobre a proteção do direito do consumidor</p><p>quanto às práticas abusivas, ou seja, os direitos básicos dos consumidores na relação de</p><p>consumo, os abusos cometidos pelos fornecedores e suas consequências, assim como, a</p><p>proteção administrativa do consumidor.</p><p>Bom estudo!</p><p>Aletéia Hummes Thaines</p><p>Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a</p><p>você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, a UNIASSELVI disponibiliza materiais</p><p>que possuem o código QR Code, um código que permite que você acesse um conteúdo</p><p>interativo relacionado ao tema que está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse</p><p>as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar essa facilidade</p><p>para aprimorar os seus estudos.</p><p>QR CODE</p><p>ENADE</p><p>LEMBRETE</p><p>Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma</p><p>disciplina e com ela um novo conhecimento.</p><p>Com o objetivo de enriquecer seu conheci-</p><p>mento, construímos, além do livro que está em</p><p>suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem,</p><p>por meio dela você terá contato com o vídeo</p><p>da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa-</p><p>res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de</p><p>auxiliar seu crescimento.</p><p>Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que</p><p>preparamos para seu estudo.</p><p>Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!</p><p>Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um</p><p>dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de</p><p>educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar</p><p>do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem</p><p>avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo</p><p>para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira,</p><p>acessando o QR Code a seguir. Boa leitura!</p><p>SUMÁRIO</p><p>UNIDADE 1 - ASPECTOS INTRODUTÓRIOS DO DIREITO DO CONSUMIDOR ....................... 1</p><p>TÓPICO 1 - EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS DOS CONSUMIDORES ........................3</p><p>1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3</p><p>2 A EVOLUÇÃO DO DIREITO DO CONSUMIDOR AO LONGO DA HISTÓRIA ..........................3</p><p>3 O MOVIMENTO CONSUMERISTA MUNDIAL .....................................................................10</p><p>4 O MOVIMENTO CONSUMERISTA NO BRASIL .................................................................. 15</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 ......................................................................................................... 17</p><p>AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................18</p><p>TÓPICO 2 - O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E SEUS FUNDAMENTOS</p><p>Como você já deve ter estudado, a aplicação de outra legislação de forma</p><p>complementar se dá quando a lei em questão não está completa. Já, a aplicação</p><p>subsidiária ocorre quando existe lacunas na legislação que está sendo utilizada e</p><p>eu preciso utilizar outra legislação para suprir essas lacunas.</p><p>NOTA</p><p>35</p><p>Marques, Bessa e Benjamin (2017) demonstram a possibilidade de três diálogos</p><p>a partir da teoria do diálogo das fontes.</p><p>a) Quando ocorrer a aplicação simultânea de duas leis. Uma pode servir de base</p><p>conceitual para a outra. Por exemplo, o CDC não traz conceito de contrato, mesmo</p><p>sendo contrato de consumo, então retiramos esse conceito dele do Código Civil.</p><p>b) Quando ocorrer a aplicação coordenada de duas leis. Nesse caso, uma norma poderá</p><p>complementar a outra. Por exemplo, em relação aos contratos de consumo que</p><p>também são contratos de adesão. Quando houver a incidência de cláusulas abusivas</p><p>nesses contratos, poderá ser invocada a proteção do CDC e a proteção do Código Civil.</p><p>Contrato de adesão é uma espécie de contrato que está disciplinado no Código</p><p>Civil. Nesse tipo de contrato, os aderentes não discutem nem modificam os</p><p>deveres e condições, pois essas cláusulas já estão impostas pelo proponente.</p><p>Somente cabe ao aderente aderir ou não ao contrato pré-estabelecido.</p><p>NOTA</p><p>c) Diálogos de influências recíprocas sistemáticas. Ocorrem quando os conceitos</p><p>estruturais de uma determinada lei sofrem influências de outra</p><p>Diante disso, constamos que,o diálogo das fontes está atrelado ao Direito do</p><p>Consumidor, até porque, o próprio dispositivo legal traz essa possibilidade.</p><p>FIGURA 7 – O QUE O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR TEM DE ESPECIAL?</p><p>FONTE: A autora</p><p>3 O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR COMO NORMA</p><p>PRINCIPIOLÓGICA</p><p>36</p><p>Como já conversamos anteriormente, o Código de Defesa do Consumidor</p><p>foi uma inovação trazida pelo legislador brasileiro, uma vez que introduziu em nosso</p><p>ordenamento jurídico uma mudança de paradigma, protegendo a parte vulnerável de</p><p>uma relação privada, isto é, da relação jurídica de consumo.</p><p>Por isso, tal modificação influenciou todo sistema jurídico, acarretando</p><p>mudanças significativas na doutrina e na jurisprudência.</p><p>A partir de sua promulgação, mudamos nosso entendimento do direito</p><p>obrigacional, contratual e outros institutos que originam uma relação consumerista.</p><p>Podemos dizer que, nenhuma outra norma foi tão eficaz e transformadora quanto o</p><p>Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Como será que isso aconteceu? Isso se deu porque os consumidores tomaram</p><p>conhecimento dos seus direitos e passaram a exercê-lo. Os fornecedores, por sua vez,</p><p>investiram em treinamento e tecnologia para melhorar a qualidade de seus produtos e</p><p>serviços e melhor atender os consumidores. Já o judiciário se tornou peça fundamental</p><p>nessa tutela, garantido, assim, a eficácia da legislação (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>No entanto, temos que considerar que nenhum avanço seria possível nessa área</p><p>se o legislador não tivesse baseado o referido Código em cláusulas gerais e princípios,</p><p>tornando-o, dessa forma, uma lei principiológica.</p><p>As normas principiológica são normas que vinculam valores, ou seja, estabelecem</p><p>os fins a serem alcançados. Já as regras, estipulam hipóteses do tipo preceito/</p><p>sanção. O CDC ainda contempla as cláusulas gerais que é uma técnica legislativa</p><p>na qual são utilizados conceitos jurídicos preenchidos pelo intérprete quando</p><p>da análise do caso concreto. Alguns exemplos de cláusulas gerais são: a boa-fé</p><p>objetiva, função social do contrato, entre outros.</p><p>ATENÇÃO</p><p>Para um melhor entendimento do CDC como norma principiológica, faz-</p><p>se necessário relembramos alguns conceitos estudados anteriormente, em outras</p><p>disciplinas, como a diferença entre os princípios e as regras.</p><p>3.1 DIFERENÇA ENTRE PRINCÍPIOS E REGRAS</p><p>As normas jurídicas podem ser divididas em duas grandes categorias: regras e</p><p>princípios. Por esse motivo, para um melhor entendimento do CDC como lei principiológica,</p><p>faz-se necessário realizar a distinção entre regras e princípios. Para essa diferenciação,</p><p>utilizamos a sistematização proposta por Ronald Dworkin.</p><p>37</p><p>Para Dworkin (2002), as regras são aplicáveis baseadas no critério do tudo ou</p><p>nada. Assim, ou a regra é válida e devemos aceitar os seus efeitos jurídicos ou a regra</p><p>não é válida e, por conseguinte, não está fundamentada, provocando a inexigência de</p><p>qualquer consequência jurídica. Desse modo, a regra necessita de uma formulação</p><p>mais completa e adequada, devendo incluir todas as exceções.</p><p>Ao contrário das regras, o critério do tudo ou nada não pode ser aplicado</p><p>aos princípios, pois eles não determinam, no caso concreto, uma decisão categórica</p><p>segundo uma formulação pronta. Nessa seara, os princípios vinculam motivos e por não</p><p>terem caráter concludente, dispensa-se a inclusão de exceções (DWORKIN, 2002).</p><p>A fim de uma melhor compreensão dessa diferença, podemos observar o modo</p><p>como as regras operaram fora da esfera do direito.</p><p>Por exemplo, no futebol a regra prevê que se o juiz, na mesma partida, aplicar</p><p>dois cartões amarelo para um mesmo jogador, este jogador será expulso da partida.</p><p>Observem que não seria coerente que um juiz de direito que reconhecesse que esta</p><p>regra é aplicada no futebol, ao mesmo tempo, admitir que o jogador que tenha levado</p><p>dois cartões amarelo numa mesma partida não devesse ser expulso. Logo, se o julgador</p><p>considera a regra válida, ele deve aplicá-la em todos os casos que as condições estão</p><p>presentes, impondo todas as consequências, porém, se ele a considerar inválida, ela</p><p>será afastada e não produzirá nenhum efeito jurídico.</p><p>Dworkin (2002), por sua vez, estabelece que os princípios somente contêm</p><p>motivos que vão ao encontro de uma decisão, pois, em um caso concreto, quando</p><p>se apresenta um princípios que exige a sua aplicação, podem existir outros princípios</p><p>que, ao ser colocado em posição oposta, pode ter um peso maior sobre aquele primeiro</p><p>princípio.</p><p>Contudo, isso não significa que o princípio desconsiderado, naquele caso</p><p>concreto, não pertença ao sistema jurídico. Ele poderá ser aplicado em outro caso e se</p><p>tornar decisivo para a sua resolução. Em razão disso, é importante o julgador saber qual</p><p>o princípio, uma vez que eles estabelecem diretrizes ou fundamentos que deverão ser</p><p>observados e aplicado pelo julgador no caso concreto, pois cabe a ele essa interpretação.</p><p>Então, devemos considerar que os princípios são enunciações normativas de</p><p>valor genérico, porquanto possuem um maior teor de abstração, não especificando uma</p><p>conduta a ser seguida, mas abarcando uma série indefinida de aplicações, ou seja, uma</p><p>tipicidade aberta.</p><p>38</p><p>4 OS PRINCÍPIOS INSERIDOS NO CÓDIGO DE DEFESA DO</p><p>CONSUMIDOR</p><p>Como já discutimos, o legislador ao elaborar o Código de Defesa do Consumidor</p><p>adotou um sistema aberto de proteção, baseado em conceitos legais indeterminados</p><p>e construções vagas, que possibilitam uma melhor adequação dos preceitos às</p><p>circunstâncias do caso concreto (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>Você já deve ter percebido que, quando o Código de Defesa do Consumidor</p><p>entrou em vigor, estava vigente o Código Civil de 1916.</p><p>O Código Civil de 1916, era uma norma patrimonialista, patriarcalista, agrarista e</p><p>individualista. Ela não protegia as partes vulneráveis de qualquer relação jurídica, muito</p><p>menos das relações de consumo.</p><p>Contudo, essa realidade foi alterada com a vigência do Código Civil de 2002, o</p><p>que acarretou uma forte aproximação principiológica desse Código em relação ao Código</p><p>de Defesa do Consumidor, especialmente no que diz respeito à regulação contratual, eis</p><p>que ambos incorporam uma nova teoria geral dos contratos.</p><p>Onde encontramos os princípios que regem do Código de Defesa do Consumidor?</p><p>Os princípios podem ser extraídos dos Artigos 1º, 4º e 6º, da Lei nº 8.078/1990. Vejamos,</p><p>então, o seu estudo, de forma pontual.</p><p>4.1 PRINCÍPIO DO PROTECIONISMO DO CONSUMIDOR</p><p>O princípio do protecionismo do consumidor é extraído do Art. 1º, da Lei nº</p><p>8.078/1990, em decorrência</p><p>do Art. 5º, XXXII, e do Art. 170, V, da Constituição Federal,</p><p>além do Art. 48 de suas Disposições Transitórias. Tal princípio traz consequências</p><p>práticas. A primeira delas é o não afastamento dessa proteção por convenção entre as</p><p>partes, sob pena de nulidade absoluta. Aqui você pode observar que esse princípio está</p><p>diretamente ligado ao Art. 51, Inc. XV, do CDC, que trata das cláusulas abusivas.</p><p>O estudo das cláusulas abusivas nas relações de consumo será abordado mais</p><p>adiante.</p><p>ESTUDOS FUTUROS</p><p>A segunda consequência está relacionada à intervenção do Ministério Público</p><p>em questões envolvendo problemas de consumo.</p><p>39</p><p>A Lei da Ação Civil Pública (Lei nº 7.347/1985) reconhece a legitimidade do</p><p>Ministério Público para as demandas coletivas envolvendo danos materiais e</p><p>morais aos consumidores (Art. 1º).</p><p>Ademais, o próprio Superior Tribunal de Justiça (STJ) editou, em 2018, a Súmula</p><p>nº 601, que reconhece a legitimidade ativa do Ministério Público para atuar na</p><p>defesa de direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos dos consumidores,</p><p>mesmo que oriundos de prestação de serviço público.</p><p>IMPORTANTE</p><p>4.2 PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE DO CONSUMIDOR</p><p>Esse princípio está fundado no Art. 4º, Inc. I, do CDC. É por meio dele que o</p><p>consumidor sempre será considerado parte vulnerável da relação de consumo,</p><p>independentemente de sua condição financeira, pois se trata de uma característica</p><p>intrínseca à própria condição de destinatário final do produto ou serviço.</p><p>Um exemplo que está relacionado diretamente à vulnerabilidade do consumidor</p><p>é a publicidade e os demais meios de oferecimento do produto ou serviço uma vez</p><p>que deixam o consumidor à mercê das vantagens sedutoras expostas pelos veículos de</p><p>comunicação e informação.</p><p>Claro que você já percebeu que este princípio é a base de todo o Código de</p><p>Defesa do Consumidor e que todos os demais princípios serão decorrentes dele. Até</p><p>porque, o CDC é uma norma protecionista na sua essência.</p><p>4.3 PRINCÍPIO DA HIPOSSUFICIÊNCIA DO CONSUMIDOR</p><p>Você já deve ter ouvido falar no termo “hipossuficiência”, ou seja, aquela expressão,</p><p>muitas vezes utilizada para indicar pessoa pobre ou sem recursos, porém, quando se</p><p>trata do CDC esse conceito não se aplica somente a questões socioeconômicas.</p><p>Ao contrário do que ocorre com a vulnerabilidade, a hipossuficiência é relativa</p><p>e deve ser verificada no caso concreto. Essa hipossuficiência pode ser socioeconômica,</p><p>quando a pessoa não possui condições financeira ou técnica, quando apresenta, por</p><p>exemplo, desconhecimento em relação do produto ou serviço adquirido.</p><p>40</p><p>Esse princípio está disciplinado no Art. 6º, VIII, do CDC e encontra-se diretamente</p><p>ligado à inversão do ônus da prova, no campo processual. Por esse motivo, podemos</p><p>dizer que a hipossuficiência do consumidor constitui um algo a mais, trazendo a ele mais</p><p>um benefício, qual seja a possibilidade de pleitear, no campo judicial, a inversão do ônus</p><p>de provar, conforme estatui o Art. 6º, VIII, do CDC.</p><p>FIGURA 8 – DIFERENÇA ENTRE O PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE E DA HIPOSSUFICIÊNCIA</p><p>FONTE: A autora</p><p>4.4 PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA</p><p>Podemos notar que o conceito de boa-fé contratual, inserido no Código Civil</p><p>de 2002, tem sua raiz na construção consumerista do CDC, uma vez que esse princípio</p><p>está estabelecido no Art. 4°, III, do CDC.</p><p>Ele representa o cerne do CDC, visto que nas relações consumeristas deve</p><p>estar presente o equilíbrio contratual, ou seja, uma harmonia entre o consumidor e o</p><p>fornecedor. Esse equilíbrio precisa ser mantido em todos os momentos pelos quais</p><p>passa o negócio jurídico.</p><p>Além do Art. 4°, o princípio da boa-fé objetiva encontra-se presente em outros</p><p>enunciados, tais como:</p><p>• Art. 9° do CDC – prevê o dever do prestador ou fornecedor de informar o consumidor</p><p>quanto ao perigo e à nocividade do produto ou serviço que coloca no mercado,</p><p>visando à proteção da sua saúde e da sua segurança.</p><p>• Artigos 12, 14 e 18 do CDC – imputação de responsabilidade objetiva, pois, caso ocorra</p><p>o desrespeito a esse mandamento legal, gerará uma ampliação na responsabilização.</p><p>• Art. 31 do CDC – estabelece a necessidade de informações precisas quanto à</p><p>essência, quantidade e qualidade do produto ou do serviço, trazendo sanções ao</p><p>fornecedor ou prestador do serviço que não cumprir a determinação.</p><p>41</p><p>Ao observamos esses dispositivos, evidenciamos que o legislador, ao elaborar</p><p>o CDC, trouxe a exigência de uma conduta leal das partes envolvidas na relação</p><p>consumerista em todas as fases do negócio jurídico.</p><p>4.5 PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA OU DA CONFIANÇA</p><p>É de conhecimento de todos que os fornecedores e prestadores de serviços</p><p>utilizam a informação como elemento de atração aos consumidores para aquisição de</p><p>produtos e serviços.</p><p>Essa informação, quando relacionada ao âmbito jurídico, tem dois aspec-</p><p>tos: o dever de informar e o direito de ser informado, sendo o primeiro relacionado</p><p>com quem oferece o seu produto ou serviço ao mercado, e o segundo com o con-</p><p>sumidor vulnerável.</p><p>O CDC, em seu Art. 6°, III, estabelece como direito básico do consumidor a</p><p>informação clara, adequada e completa de todos os produtos e serviços disponíveis no</p><p>mercado, a fim de possibilitar maior confiança e transparência.</p><p>O Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei n° 13.146/2015), insere um</p><p>parágrafo único, no Art. 6°, do CDC, estabelecendo que as informações</p><p>prestadas aos consumidores devem ser acessíveis às pessoas com</p><p>deficiência, observado o disposto em regulamento específico.</p><p>FONTE: <http://www.punf.uff.br/inclusao/images/leis/lei_13146.pdf>. Acesso em: 30</p><p>nov. 2020.</p><p>IMPORTANTE</p><p>Para fins de efetivar tal princípio, o Superior Tribunal de Justiça se posicionou no</p><p>sentido de que o CDC disciplina um regime próprio em relação aos meios de se propagar</p><p>a informação, assegurando que o fornecedor e/ou prestador de serviço cumpram</p><p>as regras preestabelecidas naquele diploma legal, efetivando, assim, o princípio da</p><p>transparência e da confiança.</p><p>4.6 PRINCÍPIO DA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO</p><p>Os contratos, a partir da promulgação do CDC, ganha novos contornos,</p><p>relativizando, por exemplo, o princípio da pacta sunt servanda.</p><p>42</p><p>A pacta sunt servanda é uma expressão latina que significa que os contratos</p><p>existem para serem cumpridos. Trata do princípio da força obrigatória, segundo</p><p>o qual o contrato faz lei entre as partes.</p><p>NOTA</p><p>Essa mitigação da força obrigatória está relacionada à função social dos contratos,</p><p>que tem por objetivo equilibrar a relação contratual e, em especial, a relação consumerista,</p><p>pois, como já estudamos, o consumidor será sempre a parte vulnerável dessa relação.</p><p>Nesse contexto, Tartuce e Neves (2019) enfatizam que o CDC visa à manutenção da</p><p>confiança depositada na relação de consumo pactuada, ligando o princípio da conservação</p><p>contratual, da boa-fé objetiva e da função social do contrato.</p><p>Para entender um pouco mais da função social do contrato, sugiro o acesso ao site da professora</p><p>Patrícia Donzele Conhecimento além da sala de aula. Site: https://profpatriciadonzele.blogspot.</p><p>com/2011/09/principio-da-funcao-social-do-contrato.html.</p><p>DICAS</p><p>FIGURA – TIRINHA SOBRE A FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/392zKOX>. Acesso em: 23 set. 2020.</p><p>4.7 PRINCÍPIO DA EQUIVALÊNCIA NEGOCIAL</p><p>Por esse princípio é garantida a igualdade de condições no momento da</p><p>contratação ou de aperfeiçoamento da relação jurídica patrimonial. De acordo com</p><p>a norma do Inciso II, Art. 6°, do CDC, fica estabelecido o tratamento igual a todos os</p><p>consumidores, ou seja, a igualdade nas contratações.</p><p>43</p><p>Vamos recordar o que são danos emergentes e lucros cessantes?</p><p>NOTA</p><p>FIGURA – DIFERENÇA ENTRE DANOS EMERGENTES E LUCROS CESSANTES</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2LhUTfX>. Acesso em: 29 set. 2020.</p><p>A concretização dessa igualdade encontra-se fundamentada também no texto</p><p>constitucional. É por essa razão que você já deve ter se deparado com a situação que</p><p>garantem privilégios aos consumidores que necessitem de proteção especial.</p><p>Esses consumidores são chamados de hipervulneráveis. Exemplo disso são</p><p>os idosos, crianças e adolescentes e pessoas com deficiência que, em virtude de uma</p><p>vulnerabilidade maior, merecem maior proteção que os demais consumidores.</p><p>É em decorrência desse princípio que os consumidores têm o direito de conhecer</p><p>o produto ou o serviço que está adquirindo, de acordo com a ideia de plena liberdade de</p><p>escolha e do dever anexo de informar, sendo que a lei veda qualquer discriminação no</p><p>momento de pactuar uma relação de consumo.</p><p>Observem que o princípio da equivalência negocial e a boa-fé objetiva estão</p><p>diretamente conectados, pois ambos exigem condutas de lealdade por parte dos</p><p>fornecedores e prestadores de serviços, em todas as fases da relação, seja pré-</p><p>contratual, contratual ou pós-contratual.</p><p>4.8 PRINCÍPIO DA REPARAÇÃO INTEGRAL DOS DANOS</p><p>Outro princípio que merece destaque é o princípio da reparação integral dos da-</p><p>nos, que garante aos consumidores as efetivas prevenção e reparação de todos os danos</p><p>suportados, sejam eles materiais, morais ou estéticos, individuais, coletivos ou difusos.</p><p>Se houver danos materiais no caso concreto, nas modalidades de danos</p><p>emergentes ou lucros cessantes, o consumidor terá direito à reparação integral.</p><p>44</p><p>Quando o dano atinge os direitos de personalidade do consumidor, este terá</p><p>direito à reparação por danos morais, aqueles que atingem seus direitos da personalidade.</p><p>Direitos de personalidade são direitos inerentes à pessoa, ou seja, direitos</p><p>que o indivíduo tem de controlar, por exemplo, o uso do nome, da imagem,</p><p>do seu corpo, bem como aqueles que constituem a sua identidade. Eles são</p><p>irrenunciáveis e intransferíveis e se encontram disciplinados no Código Civil.</p><p>NOTA</p><p>O dano estético é também um dano extrapatrimonial, porém está representado</p><p>numa terceira modalidade de dano, separado do dano material e do dano moral, cabendo</p><p>indenização por tais prejuízos.</p><p>Será que podemos cumular essas reparações, isto é, podemos ter direito, ao</p><p>mesmo tempo, à indenização por danos materiais, estéticos e morais?</p><p>A resposta é sim. Segundo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça,</p><p>é admissível a cumulação, em uma mesma ação, de pedido de reparação de danos</p><p>materiais e morais, decorrentes do mesmo fato (Súmula n° 37), bem como a cumulação</p><p>de danos estéticos e morais (Súmula n° 387).</p><p>Contudo, não é somente os danos individuais que serão passíveis de reparação, mas</p><p>também os danos morais coletivos e os danos difusos, conforme disciplina o Art. 6°, VI, do CDC.</p><p>O dano moral coletivo atinge, ao mesmo tempo, vários direitos de</p><p>personalidade de pessoas determinadas ou determináveis. A indenização</p><p>é destinada a elas, ou seja, às vítimas do evento danoso (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>Um julgamento emblemático que admitiu a reparação dos danos morais</p><p>coletivos foi proferido pelo STJ no caso das “pílulas de farinha”. No caso em</p><p>discussão, o Tribunal entendeu que a empresa Schering do Brasil, produtora</p><p>da pílula anticoncepcional Microvlar, deveria indenizar as mulheres que</p><p>tomaram essas pílulas e vieram a engravidar. Na decisão, foi analisada a</p><p>extensão do dano em relação às consumidoras (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>O dano difuso, também chamado de dano social, pode gerar repercussões</p><p>materiais ou morais. Esse dano envolve situações em que as vítimas são</p><p>indeterminadas ou indetermináveis. Com o não se pode determinar</p><p>quem são as vítimas do evento danoso, a indenização será destinada a</p><p>um fundo de proteção ou a uma instituição de caridade, a critério do</p><p>julgador (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>NOTA</p><p>45</p><p>QUADRO 1 – DIFERENÇA ENTRE DANO INDIVIDUAL, MORAL COLETIVO E DIFUSO</p><p>FONTE: <https://www.ambito-juridico.com.br/arquivos_sisweb/Image/8611a.gif>. Acesso em: 30 set. 2020.</p><p>Espécie de dano Dano individual Dano moral coletivo Dano social</p><p>Aspecto do Direito</p><p>violado</p><p>Individual</p><p>Individual homogêneo</p><p>em sentido estrito (art.</p><p>81, parágrafo único, II e</p><p>III, CDC).</p><p>Difuso (art. 81, parágrafo</p><p>único, I, CDC).</p><p>Indenização Para vítima Para vítima</p><p>Para Fundo de</p><p>Proteção</p><p>Vítima Determinada</p><p>Determinada ou</p><p>determinável</p><p>Indeterminada ou</p><p>indeterminável</p><p>Não é somente essas categorias de danos que estão ligadas ao princípio da</p><p>reparação integral dos danos.</p><p>Temos também, na esfera das relações consumeristas, a reparação do dano por</p><p>perda de uma chance. Esse dano está caracterizado quando o indivíduo vê frustrada</p><p>uma oportunidade futura que, dentro da lógica do razoável, ocorreria se as coisas</p><p>seguissem seu curso normal (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>Para um melhor entendimento da reparação pela perda de uma chance, sugiro estudar</p><p>a obra de Sérgio Savi, Responsabilidade civil por perda de uma chance. 3 ed. São Paulo:</p><p>Atlas, 2012.</p><p>DICAS</p><p>FIGURA – RESPONSABILIDADE CIVIL POR PERDA DE UMA CHANCE</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3onPkLO>. Acesso em: 30 nov. 2020.</p><p>46</p><p>4.9 PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE</p><p>Esse princípio não é exclusivo do Código de Defesa do Consumidor, mas</p><p>um princípio constitucional encontrados no Art. 170, da Constituição Federal. Tal</p><p>mandamento, estabelece uma orientação solidária do direito e impõe a necessidade</p><p>de se observar os reflexos da atuação individual perante a sociedade (MIRAGEM, 2016).</p><p>Essa solidariedade não fica restrita apenas à proteção da parte vulnerável da</p><p>relação de consumo, ela vai além, pois sua orientação se dá no sentido de dividir os</p><p>riscos estabelecidos pelo Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Como iremos estudar na próxima unidade, a regra inserida no Código de Defesa</p><p>do Consumidor quanto à responsabilidade do fornecedor é objetiva e solidária se</p><p>estendendo a toda cadeia de fornecimento.</p><p>Essa situação se dá em virtude de determinar quem deve arcar com os riscos da</p><p>atividade econômica no mercado de consumo, afastando, nesse aspecto, a imputação</p><p>de culpa.</p><p>Ademais, essa responsabilização solidária não protege somente o consumidor</p><p>adquirente do produto ou serviço que é o elemento subjetivo da relação de consumo,</p><p>mas também aqueles que estavam expostos ou foram vítimas de eventos decorrentes</p><p>do desempenho da atividade econômica do fornecedor.</p><p>Ficou interessado em estudar os elementos que compõem a relação de consumo</p><p>e a responsabilidade civil presente no Código de Defesa do Consumidor? Então continue</p><p>os estudos na próxima unidade do livro.</p><p>Bons estudos!</p><p>47</p><p>DIREITO DO CONSUMIDOR PODE SER CONSIDERADO UM SUCESSO NO BRASIL</p><p>Cláudia Lima Marques</p><p>Em 15 de março de 2018, festejamos o Dia Internacional dos Consumidores,</p><p>com duas manifestações fortes: uma reflexão crítica sobre os resultados do Direito</p><p>do Consumidor e uma denúncia de criação pela lex mercatória dos fornecedores de</p><p>produtos e serviços no Brasil de novo requisito da ação e de ressarcimento de danos</p><p>aos consumidores. Essas manifestações merecem uma reflexão conscienciosa, que</p><p>não pode estar desconectada da realidade estruturalmente desequilibrada de nosso</p><p>mercado e do mandado constitucional de um dever de proteção aos consumidores pelo</p><p>Estado, imposto pelo Artigo 5, XXXII da Constituição Federal de 1988 (DUQUE, 2009).</p><p>Analisando os 30 anos da CF/1988, a professora Amanda Flávio de Oliveira pergun-</p><p>tou, nesta mesma coluna, se a “proteção do consumidor passa, necessariamente, em todos</p><p>os casos, pela ação positiva do Estado na economia ou a experiência – brasileira mesmo –</p><p>pode nos indicar que essa alternativa fracassou em casos pontuais?”. Se subdividirmos essa</p><p>pergunta em duas partes: a primeira parte se refere, na visão da Law and Economics, à “legi-</p><p>timidade” da ação “intervencionista” do Estado na economia, em geral para proteger consu-</p><p>midores no mercado; a segunda é sobre o “fracasso”, que a autora parece retirar das muitas</p><p>ações judiciais oriundas do desrespeito aos direitos dos consumidores no mercado brasileiro</p><p>e do “fracasso” das agências em regularem os mercados, de forma satisfatória para os consu-</p><p>midores e o respeito de seus direitos de forma “voluntária” pelos fornecedores de produtos e</p><p>serviços no Brasil. A segunda parte da manifestação</p><p>merece uma reflexão maior.</p><p>Neste mesmo dia, 15 de março de 2018, a Comissão Especial de Defesa do</p><p>Consumidor do Conselho Federal da OAB – reunida para assinar com todo o movimento</p><p>consumerista um manifesto contra os retrocessos em Direito do Consumidor e pela</p><p>aprovação imediata dos projetos de atualização do Código de Defesa do Consumidor</p><p>(PLs n° 3.514 e n° 3.515/2015) em exame na Câmara de Deputados – aprovou uma</p><p>moção contra a tese da "demanda resistida". Tese, segundo a qual, somente após</p><p>reclamar "administrativamente" no consumidor.gov.br, nos SACs dos fornecedores ou</p><p>nos meios de mediação e conciliação dos próprios fornecedores, os consumidores</p><p>brasileiros "teriam direito" de ação/direito de acesso ao Judiciário (?). A forte moção,</p><p>aprovada por unanimidade pela omissão do Conselho Federal da OAB, é a seguinte:</p><p>A exigência de reclamação administrativa prévia ou uso dos SACs como</p><p>requisito para o recebimento de ação judicial é incompatível com o</p><p>sistema de proteção e defesa do consumidor e com o direito de acesso</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>48</p><p>à Justiça do consumidor lesado, constitucionalmente assegurado.</p><p>Segundo o CDC, a reclamação extrajudicial e a tentativa de conciliação</p><p>com o fornecedor de produtos e serviços não é condição da ação</p><p>ou requisito para o processamento da petição inicial, mas obsta ou</p><p>é causa de suspensão do prazo decadencial (art. 26, parágrafo 2°, I,</p><p>CDC), caracterizando direito potestativo do consumidor, não podendo</p><p>a livre opção do consumidor de não utilizar o 'consumidor.gov' ou</p><p>outros meios alternativos de solução com os fornecedores, influenciar</p><p>o direito de ressarcimento de danos morais e materiais do consumidor</p><p>e o seu acesso direto ao Judiciário.</p><p>Não há dúvida de que o objetivo de ambas as manifestações é a defesa do</p><p>consumidor, forte no Artigo 170, V, da Constituição Federal de 1988. Há uma aparente</p><p>contradição no que se refere aos "instrumentos" ou métodos para alcançar essa defesa</p><p>no Brasil de hoje. A liberal doutrina da Law and Economics vê nas muitas ações judiciais</p><p>uma "comprovação" de que a intervenção do Estado-juiz e Estado-regulador no mercado</p><p>seria falha, tentando fazer acreditar que a existência dessas ações significa um "fracasso"</p><p>do direito (objetivo) do consumidor, e não um fracasso de seu cumprimento voluntário</p><p>pelos fornecedores de produtos e serviços e suas federações, sempre resistentes ao</p><p>Rechtsdurchsetzung desses direitos subjetivos dos consumidores em nosso país.</p><p>Responda-se que não há comprovação que diminuir a intervenção protetiva</p><p>do Estado-juiz e Estado-regulador significa realmente "melhorar a tutela" para</p><p>os consumidores, que seria "suficientemente" feita pelo mercado. Ao contrário,</p><p>empiricamente, o que comprovou a crise financeira dos Estados Unidos de 2008 é que o</p><p>mercado parece tentar aproveita a "brecha" da desregulamentação para tirar vantagem,</p><p>o que levou à crise, com a consequente quebra dos consumidores sub prime, quebra</p><p>generalizada do mercado consumidor do país e a uma crise financeira de proporções</p><p>mundiais (NEFH, 2012). A desregulamentação do Direito do consumidor, pelo menos</p><p>em setores regulados, é, pois, um risco sistêmico, que até mesmo o Banco Mundial</p><p>reconheceu e determinou legislar (MARQUES; LIMA, 2013) sobre superendividamento ou</p><p>insolvência dos consumidores!</p><p>Concordo com os advogados da Comissão Especial de Defesa do Consumidor</p><p>do Conselho Federal da OAB, que consideram que as ações judiciais são a realização</p><p>(Rechtsdurchsetzung) de um direito existente, um sinal de esperança, sinal de sucesso</p><p>e de realização desse direito "vivo" (Law in action). Assim, denunciam com sua moção</p><p>que os meios alternativos de solução de controvérsias pelos próprios fornecedores ou</p><p>organizados por eles, que essa "tutela" opcional dos direitos dos consumidores, está se</p><p>tentando transformar em "obrigatória" pela ajuda dos juízes que não querem mais que os</p><p>consumidores dirijam-se diretamente ao Judiciário para pleitear seus direitos "violados",</p><p>se não "resistidos" por esses meios antes "voluntários", que seriam agora "obrigatórios"</p><p>aos consumidores, cujos direitos foram "resistidos" por violações dos fornecedores!</p><p>Realmente, na nascente tese da "demanda resistida", os fornecedores de</p><p>produtos e serviços aparecem como "cordeiros-amigos" que colocam à disposição dos</p><p>consumidores uma série de canais de "diálogo", de "solução" e de "negociação" direta, e</p><p>49</p><p>os consumidores "aparecem", de outro lado, como radicais "lobos ou Gersons", que não</p><p>querem perder tempo com negociações, e sim "tirar vantagem" dos "cordeiros" recorrendo</p><p>ao Estado-juiz para que diga o direito... direito que – por sinal – os cordeiros obviamente</p><p>sabem exatamente qual é, e não o cumpriram por um simples cálculo de custo-benefício!</p><p>Mister um olhar mais profundo. Trata-se de uma boa ideia como um canal de</p><p>comunicação, uma conciliação possível, que se transforma na prática em "truque" para</p><p>transferir para "seus foros" sigilosos, nos quais não se faz jurisprudência vinculante e o</p><p>silêncio impera sobre os problemas e danos sofridos pelos consumidores, as demandas</p><p>dos consumidores, sem fazer precedentes para os demais casos, sejam precedentes</p><p>administrativos (como no Sindec, em listas de fornecedores do CDC) ou precedentes</p><p>judiciais! Essa nova "teoria" tenta transformar uma "opção" potestativa do consumidor</p><p>(que tinha a ver com obstar o prazo decadencial, ex vi Artigo 26, Parágrafo 2°, I do</p><p>CDC) em uma nova "condição da ação". Tenta transformar uma opção a mais para o</p><p>consumidor conseguir realizar seu direito subjetivo, em um "requisito" para receber</p><p>ressarcimento por danos morais e materiais... Uma benesse que se transforma em grave</p><p>obstáculo ao exercício de um direito fundamental de acesso à Justiça! A moção da</p><p>comissão é de grande importância! Realmente não há base no sistema do Direito do</p><p>Consumidor positivo brasileiro para negar a prestação jurisdicional aos consumidores</p><p>que optaram por buscar seus direitos diretamente ao Poder Judiciário, e a referida teoria</p><p>da "pretensão resistida" não deve prosperar.</p><p>Por fim, quanto ao resultado do Direito do Consumidor, mencione-se que,</p><p>particularmente, acho um sinal de sucesso do Direito do Consumidor no Brasil o fato</p><p>de o consumidor brasileiro ainda acreditar na Justiça e no Judiciário, conhecer e usar o</p><p>Código de Defesa do Consumidor mais de 25 anos depois de sua promulgação! Apesar</p><p>do respeito a outras visões, parece uma conclusão majoritária, que um tempo como o</p><p>nosso, de crise moral e ética, não é o momento de se desregular o Direito do Consumidor.</p><p>Bem ao contrário, necessário valorizar o instrumental de proteção que temos, e</p><p>urgentemente aprovar os PL nº 3.514/2015, sobre o mundo digital, e o PL n° 3.515/2015,</p><p>sobre o crédito ao consumidor e combate ao superendivamento, atualizando o CDC!</p><p>Festejar os 30 anos do ordenamento constitucional, que impõe um dever de</p><p>proteção do Estado-juiz, do Estado-regulador, do Estado-sancionador, do Estado-</p><p>legislador sempre que se fizer necessário a proteção dos consumidores, seja na lide</p><p>individual, ou coletiva, é respeitar essa decisão constitucional. Se algo há que mudar, é</p><p>o fato de as agências considerarem-se imunes ao mandamento do Artigo 5º, XXXII da</p><p>CF/1988 de elas também, como parte do Estado, promoverem a defesa do consumidor</p><p>nos mercados que regulam (Artigo 170, V da CF/1988).</p><p>50</p><p>Melhorar a "realização" do Direito do Consumidor é uma luta constante, que</p><p>passa necessariamente por aprimorar as sanções e incentivos, de forma que não "valha"</p><p>a pena causar danos aos consumidores, e passa por valorizar o dever de proteção</p><p>aos consumidores do Estado-juiz/Estado-regulador. Se o cumprimento do Direito do</p><p>Consumidor no Brasil é ainda "resistido" por alguns fornecedores de serviços e produtos,</p><p>pode ser considerado um sucesso da sociedade brasileira. Um sucesso unânime, apesar</p><p>das várias visões existentes e dos "direitos" e "demandas" ainda resistidos!</p><p>FONTE: MARQUES, C. L. Direito do Consumidor</p><p>pode ser considerado um sucesso no Brasil. Consulto Jurídico</p><p>(Conjur)., mar. 2018. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2018-mar-28/garantias-consumo-direito-</p><p>-consumidor-considerado-sucesso-brasil. Acesso em: 30 set. 2020.</p><p>51</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• O Código de Defesa do Consumidor comporta a utilização de outras fontes do direito</p><p>para a resolução de uma situação envolvendo uma relação de consumo.</p><p>• O Código de Defesa do Consumidor está baseado em cláusulas gerais e princípios,</p><p>por este motivo, é considerado uma norma principiológica.</p><p>• Com o advento do Código Civil de 2002, este ocasionou uma aproximação com os</p><p>princípios inseridos no Código de Defesa do Consumidor, incorporando uma nova</p><p>teoria geral dos contratos.</p><p>• Os princípios inseridos no Código de Defesa do Consumidor podem ser extraídos</p><p>dos Artigos 1°, 4° e 6° da Lei n° 8.078/90. São eles: o princípio do protecionismo</p><p>do consumidor; o princípio da vulnerabilidade do consumidor; o princípio da</p><p>hipossuficiência do consumidor; o princípio da boa-fé objetivo; o princípio da</p><p>transparência ou da confiança; o princípio da função social do contrato; o princípio</p><p>da equivalência negocial; o princípio da reparação integral dos danos; e o princípio</p><p>da solidariedade.</p><p>52</p><p>1 O princípio que pode ser extraído do Art. 1°, do Código de Defesa do Consumidor,</p><p>em virtude do Art. 5°, XXXII e do Art. 170, V, da Constituição Federal, que traz</p><p>consequências práticas, sendo que uma delas é a nulidade absoluta das cláusulas</p><p>que afastam a proteção do consumidor, é:</p><p>a) ( ) Princípio da reparação integral dos danos.</p><p>b) ( ) Princípio da solidariedade.</p><p>c) ( ) Princípio da felicidade.</p><p>d) ( ) Princípio do protecionismo do consumidor.</p><p>2 O Código de Defesa do Consumidor adota um sistema aberto de proteção, baseado</p><p>em conceitos legais indeterminados e construções vagas, que possibilitam uma</p><p>melhor adequação dos preceitos às circunstâncias do caso concreto. Diante dessa</p><p>consideração, avalie as sentenças a seguir:</p><p>I- O princípio da transparência obriga o fornecedor informar ao consumidor de forma</p><p>clara, adequada e completa dos produtos e serviços disponíveis no mercado.</p><p>II- O princípio da equivalência negocial tem por finalidade, mitigar a força obrigatória</p><p>dos contratos.</p><p>III- O princípio da equivalência negocial, garante aos consumidores as efetivas</p><p>prevenção e reparação de todos os danos suportados, sejam eles materiais, morais</p><p>ou estéticos.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Apenas a sentença I está correta.</p><p>b) ( ) Apenas a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) Apenas a sentenças III está correta.</p><p>d) ( ) As sentenças II e III estão corretas.</p><p>3 O Código de Defesa do Consumidor é uma norma inovadora que busca sempre tutelar</p><p>a parte vulnerável da relação consumerista, ou seja, o consumidor. De acordo com</p><p>essas considerações, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:</p><p>( ) O Código de Defesa do Consumidor é um microssistema jurídico que comporta a</p><p>utilização de outras fontes do direito para a resolução de uma situação envolvendo</p><p>uma relação de consumo.</p><p>( ) O legislador quando da elaboração do CDC adotou um sistema aberto de proteção,</p><p>baseado em conceitos legais indeterminados e construções vagas.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>53</p><p>( ) Os principais princípio disciplinados no Código de Defesa do Consumidor podem</p><p>ser extraídos dos Artigos 1°, 4° e 6°.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – F – V.</p><p>b) ( ) F – F – F.</p><p>c) ( ) F – V – F.</p><p>d) ( ) V – V – V.</p><p>4 O termo “hipossuficiente” utilizado no contexto de uma relação de consumo não</p><p>indica somente uma pessoa desprovida de recursos econômicos, nem é sinônimo de</p><p>vulnerabilidade. Diante disso, explique e diferencie os conceitos de vulnerabilidade e</p><p>hipossuficiência decorrentes de uma relação consumerista.</p><p>5 O princípio da reparação integral dos danos garante aos consumidores a efetiva</p><p>prevenção e reparação de todos os danos suportados, sejam eles materiais, morais</p><p>ou estéticos, individuais, coletivos ou difusos. Neste contexto, disserte sobre a</p><p>possibilidade de cumulação dos danos suportados pelo consumidor.</p><p>54</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARISTÓTELES. A constituição de Atenas. 2014. Disponível em: https://abdet.com.</p><p>br/site/wp-content/uploads/2014/12/A-constitui%C3%A7%C3%A3o-de-Atenas.pdf.</p><p>Acesso em: 30 nov. 2020.</p><p>BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário 636.331. Relator Ministro</p><p>Gilmar Mendes, Brasília, 22 de novembro de 2006.</p><p>BRASIL. Lei nº 12.741, de 8 de dezembro de 2012. Dispõe sobre as medidas de</p><p>esclarecimento ao consumidor, de que trata o § 5º do artigo 150 da Constituição Federal;</p><p>altera o inciso III do art. 6º e o inciso IV do art. 106 da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de</p><p>1990 - Código de Defesa do Consumidor. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12741.htm. Acesso em: 24 set. 2020.</p><p>BRASIL, Supremo Tribunal de Justiça. Súmula 387. É lícita a cumulação das indenizações</p><p>de dano estético e dano moral. Brasília, DF: Superior Tribunal de Justiça, [2008]. Disponível</p><p>em: https://scon.stj.jus.br/SCON/sumstj/toc.jsp. Acesso em: 9 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível</p><p>em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em:</p><p>30 nov. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 8.686, de 20 de julho de 1993. Dispõe sobre o reajustamento da pensão</p><p>especial aos deficientes físicos portadores da Síndrome de Talidomida, instituída pela</p><p>Lei nº 7.070, de 20 de dezembro de 1982. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/leis/1989_1994/l8686.htm. Acesso em: 30 nov. 2020.</p><p>BRASIL, Supremo Tribunal de Justiça. Súmula 37. São cumuláveis as indenizações por</p><p>dano material e dano moral oriundos do mesmo fato. Brasília, DF: Superior Tribunal de</p><p>Justiça, [1992]. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/SCON/sumstj/toc.jsp. Acesso em:</p><p>9 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do</p><p>consumidor e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/leis/l8078compilado.htm. Acesso em: 20 set. 2020.</p><p>BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http://</p><p>www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 23 set. 2020.</p><p>55</p><p>BRASIL. Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985. Disciplina a ação civil pública de</p><p>responsabilidade por danos causados ao meio-ambiente, ao consumidor, a bens e</p><p>direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico (VETADO) e dá outras</p><p>providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7347orig.htm.</p><p>Acesso em: 30 nov. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 7.070, de 20 de dezembro de 1982. Dispõe sobre pensão especial para</p><p>os deficientes físicos que especifica e dá outras providencias. Disponível em: http://</p><p>www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1980-1988/l7070.htm. Acesso em: 30 nov. 2020.</p><p>CAVALIERI FILHO, S. Programa de direito do consumidor. 5. ed. São Paulo: Atlas,</p><p>2019.</p><p>DH NET. Código de Hamurabi. 1780. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/</p><p>anthist/hamurabi.htm. Acesso em: 20 set. 2020.</p><p>CONSUMER INTERNATIONAL. About us. London, c2020. Disponível em: https://www.</p><p>consumersinternational.org/. Acesso em: 20 set. 2020.</p><p>DOCSITY. Manusrty: Código de Manu: notas introdutórias. 2011. Disponível em: https://</p><p>www.docsity.com/pt/codigo-de-manu/4758411/. Acesso em: 22 set. 2020.</p><p>DWORKIN, R. Levando os direitos a sério. São Paulo: Martins Fontes, 2002.</p><p>EFING, A. C. Fundamentos do direito das relações de consumo. 2. ed. Curitiba:</p><p>Juruá, 2004.</p><p>FILOMENO, J. G. B. Direitos do consumidor. 15. ed. São Paulo: Atlas, 2018.</p><p>FILOMENO, J. G. B. Curso fundamental de direito do consumidor. 3. ed. São Paulo:</p><p>Atlas, 2014.</p><p>GARCIA, L. M. Código de Defesa do Consumidor Comentado: artigo por artigo. 13. ed.</p><p>Salvador: JusPODIVM, 2016.</p><p>GLÓRIA, D. F. de A. A livre concorrência como garantia</p><p>do consumidor. Belo</p><p>Horizonte: Del Rey; Fumec, 2003.</p><p>KENNEDY, J. F. Discurso de JFK: de 15 de março de 1962. Disponível em: http://www.</p><p>aytojaen.es/portal/RecursosWeb/DOCUMENTOS/1/2_13065_1.pdf. Acesso em: 21 set. 2020.</p><p>MANUSRTI. Código de Manu: nono livro. 200 a.C., 200 d.C. Disponível em: http://www.</p><p>dhnet.org.br/direitos/anthist/manusrti3.htm. Acesso em: 22 set. 2020.</p><p>56</p><p>MARQUES, C. L.; BESSA, L. R.; BENJAMIN, A. H. de V. Manual de Direito do Consumidor.</p><p>8. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017.</p><p>MIRAGEM, B. Curso de direito do consumidor. 6. ed. São Paulo: Editora Revista dos</p><p>Tribunais, 2016.</p><p>NUNES, L. A. R. Curso de direito do consumidor. 12. ed. São Paulo: Saraiva Educação,</p><p>2018.</p><p>NUNES, L. A. R. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. 3. ed. São Paulo:</p><p>Saraiva, 2007.</p><p>SILVA, P. M. da. Considerações sobre a organização civil dos consumidores. Revista</p><p>Jus Navigandi, Teresina, ano 15, n. 2.494, abr. 2010. Disponível em: https://jus.com.br/</p><p>artigos/14780. Acesso em: 24 set. 2020.</p><p>SOUZA, M. de A. A Política legislativa do consumidor no Direito Comparado. Belo</p><p>Horizonte: Edições Ciência Jurídica, 1996.</p><p>TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de Direito do Consumidor: direito material e</p><p>processual. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2019.</p><p>57</p><p>AS RELAÇÕES DE CONSUMO</p><p>E AS RESPONSABILIDADES</p><p>DECORRENTES DESSAS</p><p>RELAÇÕES</p><p>UNIDADE 2 —</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• identificar as diferenças entre as relações sociais e as relações jurídicas;</p><p>• estudar os elementos que compõem as relações jurídicas de consumo;</p><p>• compreender os conceitos de fornecedor, consumidor, produto e serviço;</p><p>• analisar a responsabilidade civil aplicada no Código de Defesa do Consumidor e</p><p>suas consequências.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – AS IMPLICAÇÕES DAS RELAÇÕES SOCIAIS NO MUNDO JURÍDICO</p><p>TÓPICO 2 – OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DAS RELAÇÕES JURÍDICAS DE CONSUMO</p><p>TÓPICO 3 – A RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>58</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 2!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>59</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>AS IMPLICAÇÕES DAS RELAÇÕES SOCIAIS</p><p>NO MUNDO JURÍDICO</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, no Tópico 1, abordaremos a diferença entre a relação social e a</p><p>relação jurídica. As relações sociais possuem diversas naturezas, mas nem todas elas</p><p>possuem relevância jurídica, pois, somente haverá relação jurídica se o vínculo entre as</p><p>pessoas for regulado pela norma jurídica.</p><p>Após, estudaremos as relações jurídicas, mais especificamente, as relações</p><p>jurídicas de consumo, a qual incidirão as normas consumeristas disciplinadas pelo</p><p>Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Para finalizar este tópico, discutiremos algumas relações contemporâneas que</p><p>não são abrangidas pela norma consumerista, tais como: relação entre os condôminos</p><p>e o condomínio edilício, as relações envolvendo as locações urbanas e a prestação de</p><p>serviços notariais e registrais.</p><p>2 RELAÇÃO SOCIAL VERSUS RELAÇÃO JURÍDICA</p><p>Para entendermos a relação jurídica, devemos primeiro entender a atividade</p><p>social do ser humano. Ao vivermos em sociedade, não temos como fugir de nos</p><p>relacionarmos com outras pessoas. Essas relações com os outros dão origem às</p><p>relações sociais.</p><p>Essas relações sociais possuem várias naturezas, tais como: religiosa, cultural,</p><p>afetiva, econômica, pública, familiar, entre outras. Algumas dessas possuirão relevância</p><p>jurídica e outras não.</p><p>As relações que não possuem relevância jurídica, ou seja, que não são reguladas</p><p>pelo direito, são chamadas de relação de fato. Nesse caso, temos como exemplo o</p><p>namoro, uma vez que este não caracteriza a constituição de uma entidade familiar</p><p>(CAVALIERI FILHO, 2019). Já, a relação que possui relevância jurídica, ou seja, aquela</p><p>relação social que é disciplinada pelo Direito, é considerada relação jurídica. Podemos</p><p>também conceituá-la como toda relação social que produz consequências jurídicas,</p><p>como casamento, propriedade, consumidor, entre outros (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>60</p><p>Podemos então afirmar que toda relação jurídica será uma relação social,</p><p>porém nem toda relação social será uma relação jurídica, uma vez que a norma jurídica</p><p>estabelecerá um vínculo entre as pessoas que participam da relação social, concedendo</p><p>a um dos sujeitos da relação o direito e a outro, o dever. Na Figura 1 podemos visualizar</p><p>os elementos de uma relação jurídica.</p><p>FIGURA 1 – RELAÇÃO JURÍDICA</p><p>FONTE: <https://i.pinimg.com/originals/f6/4b/93/f64b932fe354ab36ba2ef24c1c480cef.jpg>. Acesso em:</p><p>1º nov. 2020.</p><p>61</p><p>FIGURA 2 – RELAÇÃO DE CONSUMO</p><p>FONTE: Almeida (2019, p. 62)</p><p>Assim como toda relação jurídica, a relação jurídica de consumo também está</p><p>sujeita à mesma formação.</p><p>3 RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO</p><p>A relação jurídica de consumo é definida como a relação pactuada entre</p><p>o consumidor e o fornecedor, com a finalidade de aquisição de um produto ou a</p><p>contratação de um determinado serviço.</p><p>Apesar do legislador não conceituar a relação jurídica de consumo no Código</p><p>de Defesa do Consumidor, as normas jurídicas consumeristas, incidirão sempre que se</p><p>constatar atos de consumos, como fornecimento de produtos, prestação de serviços,</p><p>abuso na relação consumerista, entre outros. Nessas situações, as normas que</p><p>disciplinam as relações de consumo operarão e surtirão os seus efeitos.</p><p>Observem que nas relações de consumo sempre temos, de um lado o</p><p>consumidor e de outro o fornecedor, que são considerados elementos subjetivos da</p><p>relação de consumo. Além disso, teremos o objeto que são os produtos e os serviços,</p><p>que são considerados os elementos objetivos dessa relação. Para visualizar melhor a</p><p>relação de consumo, observe a Figura 2.</p><p>Tais elementos serão analisados no Tópico 2, desta unidade.</p><p>4 RELAÇÃO JURÍDICA CONTEMPORÂNEAS QUE NÃO SE</p><p>CARACTERIZAM COMO RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO</p><p>Aqui, abordaremos algumas relações jurídicas atuais que não são caracterizadas</p><p>como relação de consumo e, por via de consequência, não estão sujeitas à incidência do</p><p>Código de Defesa do Consumidor.</p><p>62</p><p>A Figura 3 traz outras relações jurídicas que não são consideradas relações</p><p>jurídicas consumeristas.</p><p>FIGURA 3 – RELAÇÕES JURÍDICAS QUE NÃO INCIDEM O CDC.</p><p>FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/615374736553623779/>. Acesso em: 1° nov. 2020.</p><p>4.1 RELAÇÃO JURÍDICA EXISTENTE ENTRE CONDÔMINOS E</p><p>CONDOMÍNIO EDILÍCIO</p><p>As relações jurídicas existentes entre os condôminos e o condomínio edilício</p><p>são disciplinadas pelo Código Civil de 2002, em seu Art. 1.331 e seguintes. Tal relação</p><p>jurídica está pautada entre os bens e não entre as pessoas, por isso são chamadas de</p><p>relações jurídicas dominiais (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Como não existe uma relação direta entre pessoas, ou seja, entre os sujeitos,</p><p>não temos presente os elementos subjetivos e nem objetivos que caracterizam uma</p><p>relação de consumo. Por esse motivo, nessas relações, não temos a incidência do</p><p>Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Observe que o condomínio não pode ser caracterizado como um produto ou</p><p>um serviço, por isso a não aplicação do CDC, pois a sua existência serve para manter a</p><p>organização dos interesses comuns dos condôminos, sendo que as taxas condominiais</p><p>cobradas são necessárias para manutenção das áreas comuns, ou seja, as áreas que</p><p>todos os condôminos podem utilizar.</p><p>63</p><p>FIGURA – CONDOMÍNIO EDILÍCIO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3rQH6xP>. Acesso em: 1° nov. 2020.</p><p>NOTA</p><p>Os tribunais já consolidaram esse posicionamento, afastando a incidência do</p><p>CDC nessas relações. A partir dessa consolidação, o Tribunal da Cidadania, adotou e</p><p>incluiu esse entendimento na ferramenta Jurisprudência em Teses, na premissa n°</p><p>10, constante da Edição nº 68, publicada em 2016</p><p>(BRASIL, 2016), que disciplina nas</p><p>relações jurídicas estabelecidas entre condomínio e condôminos não incide o Código de</p><p>Defesa do Consumidor (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Contudo, é importante ressaltar que esse entendimento se aplica para as relações</p><p>condominiais internas, ou seja, aquelas relações jurídicas mantidas entre os condôminos</p><p>e o condomínio. Se o condomínio assumir a posição de consumidor em relação a um</p><p>terceiro, então teremos uma relação jurídica consumerista e, consequentemente, a</p><p>incidência do CDC.</p><p>4.2 RELAÇÃO JURÍDICA NAS RELAÇÕES ENVOLVENDO OS</p><p>CONTRATOS DE LOCAÇÃO URBANA</p><p>A relação jurídica envolvendo as locações imobiliárias urbanas é disciplinada</p><p>por lei específica, isto é, pela Lei n° 8.245/1991, chamada de Lei das Locações, não</p><p>incidindo, assim, o Código de Defesa do Consumidor.</p><p>64</p><p>O termo locação designa “[...] o contrato cuja causa é proporcionar a alguém</p><p>o uso e gozo temporário de uma coisa restituível, em troca de retribuição</p><p>pecuniária” (GOMES, 2019, p. 329-330).</p><p>Nesse sentido, no contrato de locação, “uma das partes se obriga, mediante</p><p>contraprestação em dinheiro, a conceder à outra, temporiariamente, o uso e</p><p>gozo de coisa não fungível” (GOMES, 2019, p. 332).</p><p>Para um entedimento mais aprofundado sobre os contratos de locações,</p><p>sugiro consultar a obra de Orlando Gomes, Contratos, atualizado por Edvaldo</p><p>Brito e Reginalda Paranhos de Brito.</p><p>FONTE: GOMES, O. Contratos. 27 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.</p><p>NOTA</p><p>Ademais, não podemos caracterizar o locador como fornecedor ou prestador de</p><p>serviço, uma vez que este não exerce atividades exemplificadas pelo Código de Defesa do</p><p>Consumidor. O Superior Tribunal de Justiça já firmou entendimento no sentindo de afastar</p><p>a incidência do Código de Defesa do Consumidor, nos contratos de locações urbanas.</p><p>Em 2017, foi publicada, na ferramenta Jurisprudência em Teses, na edição nº 74,a</p><p>seguinte premissa: “o Código de Defesa do Consumidor não é aplicável aos contratos</p><p>locatícios regidos pela Lei nº 8.245/1991” (BRASIL, 2017, p. 5). No entanto, a temática</p><p>é complexa e a doutrina traz alguns entendimentos no sentido contrário, ou seja, faz</p><p>ressalvas sobre a não aplicação do CDC nos casos de contratos de locação urbana.</p><p>Uma situação é a lição trazida por Marques, Bessa e Benjamin (2017), cujos</p><p>autores entendem que, nas hipóteses em que o locador faz da locação a sua profissão,</p><p>ou seja, quando ele se torna um profissional na atividade locatícia, deveria ser viável</p><p>qualificá-lo como prestador de serviços de moradia, sujeitando-o a aplicação do CDC.</p><p>4.3 RELAÇÃO JURÍDICA NAS RELAÇÕES ENVOLVENDO</p><p>ATIVIDADES NOTARIAIS E REGISTRAIS</p><p>As atividades notariais e registrais são exercidas por delegação do Poder Público,</p><p>conforme disciplina o Art. 236, da Constituição Federal.</p><p>Art. 236. Os serviços notariais e de registro são exercidos em caráter</p><p>privado, por delegação do Poder Público.</p><p>§ 1º Lei regulará as atividades, disciplinará a responsabilidade civil e</p><p>criminal dos notários, dos oficiais de registro e de seus prepostos, e</p><p>definirá a fiscalização de seus atos pelo Poder Judiciário.</p><p>§ 2º Lei federal estabelecerá normas gerais para fixação de</p><p>emolumentos relativos aos atos praticados pelos serviços notariais</p><p>e de registro.</p><p>65</p><p>§ 3º O ingresso na atividade notarial e de registro depende de</p><p>concurso público de provas e títulos, não se permitindo que qualquer</p><p>serventia fique vaga, sem abertura de concurso de provimento ou de</p><p>remoção, por mais de seis meses (BRASIL, 1988).</p><p>Em virtude de ser uma atividade delegada, de estar disciplinada na Constituição</p><p>Federal e em lei especial, não incide a aplicação do CDC, até porque, não é qualificada</p><p>como uma relação de consumo.</p><p>O que é uma atividade delegada? Alexandrino e Paulo (2002) entendem</p><p>que a atividade delegada não se confunde com servidores públicos e nem com os</p><p>representantes do Estado, pois são apenas colaboradores do Poder Público. Nesse</p><p>aspecto, as atividades notariais e registrais, serão delegadas a particulares, que</p><p>a realizarão em seu próprio nome e por sua conta e risco, sob a fiscalização do ente</p><p>público delegante.</p><p>Todavia, alguns autores discordam desse posicionamento, como é o caso de</p><p>Tartuce e Neves (2020) que entendem que a justificativa da atividade ser disciplinada</p><p>pela Constituição Federal e por lei especial não convencem, uma vez que existe a</p><p>possibilidade a aplicação do CDC nos serviços públicos (Art. 22, CDC), bem como a</p><p>utilização da teoria do diálogo das fontes.</p><p>Além disso, o posicionamento quanto à aplicação ou não do CDC, nas atividades</p><p>notariais não é pacífico. Apesar do Superior Tribunal de Justiça já ter decidido por afastar</p><p>a aplicação da legislação consumerista às atividades notariais, julgados recentes dessa</p><p>Corte vão na contramão dessa decisão, entendendo que é possível caracterizar essa</p><p>atividade como sendo uma relação jurídica de consumo.</p><p>66</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• As relações que não possuem relevância jurídica, ou seja, que não são reguladas</p><p>pelo Direito, são chamadas de relação de fato.</p><p>• A relação social disciplinada pelo Direito é considerada uma relação jurídica.</p><p>• Toda relação jurídica será uma relação social, porém, nem toda relação social será</p><p>uma relação jurídica.</p><p>• A relação jurídica de consumo é definida como a relação firmada entre o consumidor</p><p>e o fornecedor, com a finalidade de aquisição de um produto ou a contratação de</p><p>um determinado serviço.</p><p>• As relações jurídicas entre condôminos e o condomínio edilício não são relações de</p><p>consumo.</p><p>• As relações jurídicas que envolvem a locação de imóveis urbanos são consideradas</p><p>relações civis puras e disciplinadas pela Lei nº 8.245/1991.</p><p>• Os serviços notariais e registrais não estão sujeitos às normas do Código de Defesa</p><p>do Consumidor.</p><p>67</p><p>1 A concessionária de veículo Potência Motors adquiriu, da montadora, 20 unidades de</p><p>veículo do mesmo modelo e de cores diversificadas, a fim de guarnecer seu estoque, e</p><p>direcionou dois veículos desse total para uso da própria pessoa jurídica. Ocorre que três</p><p>veículos apresentaram problemas mecânicos decorrentes de falha na fabricação, que</p><p>comprometiam a segurança dos passageiros. Desses automóveis, um fora adquirido</p><p>para uso próprio da concessionária e os outros dois a particulares, que adquiriram o</p><p>bem na concessionária. Nesse caso, com base no que estudamos das relações jurídica</p><p>e no Código de Defesa do Consumidor (CDC), assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Entre os consumidores particulares e a montadora inexiste relação jurídica, posto</p><p>que a aquisição dos veículos se deu na concessionária.</p><p>b) ( ) Entre os consumidores particulares e a montadora, por se tratar de falha na</p><p>fabricação, há relação jurídica protegida pelo CDC; a relação jurídica entre a</p><p>concessionária e a montadora, no que se refere à unidade adquirida pela pessoa</p><p>jurídica para uso próprio, é de direito comum civil.</p><p>c) ( ) Existe, entre a concessionária e a montadora, relação jurídica regida pelo CDC,</p><p>mesmo que ambas sejam pessoas jurídicas, no que diz respeito ao veículo</p><p>adquirido pela concessionária para uso próprio, e não para venda, uma vez que</p><p>ela é a destinatária final do veículo.</p><p>d) ( ) Somente há relação jurídica protegida pelo CDC entre o consumidor e a</p><p>concessionária, a qual deverá ingressar com ação de regresso contra a montadora,</p><p>caso seja condenada em ação judicial, não sendo possível aos consumidores</p><p>demandarem diretamente contra a montadora.</p><p>2 As relações sociais possuem várias naturezas, mas nem todas possuirão uma</p><p>relavância jurídica. Diante disso, analise as sentenças a seguir e classifique V para as</p><p>sentenças verdadeiras e F para as falsas.</p><p>( ) As relações que não possuem relevância jurídica, ou seja, que não são reguladas</p><p>pelo direito, são chamadas de relação de fato.</p><p>( ) Toda relação jurídica será uma relação social, porém, nem toda relação social será</p><p>uma relação jurídica, uma vez que a norma jurídica estabelecerá</p><p>um vínculo entre</p><p>as pessoas que participam da relação social, concedendo a um dos sujeitos da</p><p>relação o direito e a outro, o dever.</p><p>( ) As normas jurídicas consumeristas, incidirão sempre que se constatar atos de</p><p>consumos, como fornecimento de produtos, prestação de serviços, abuso na</p><p>relação consumerista, entre outros.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>68</p><p>( ) Nas relações de consumo sempre teremos, de um lado o consumidor e de</p><p>outro o fornecedor, que são considerados elementos subjetivos da relação de</p><p>consumo. Além disso, teremos o objeto que são os produtos e os serviços, que são</p><p>considerados os elementos objetivos dessa relação.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) V – V – V – V.</p><p>b) ( ) F – F – F – F.</p><p>c) ( ) V – F – V – V.</p><p>d) ( ) F – F – V – V.</p><p>3 As relações sociais que comportam a incidência de normas jurídicas são chamadas</p><p>de relações jurídicas. Já aquelas que possuem incidência do Código de Defesa do</p><p>Consumidor, são denominadas relações jurídicas de consumo ou relações jurídicas</p><p>consumeristas. Nesse sentido e segundo a aplicação do Código de Defesa do</p><p>Consumidor, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- As relações jurídicas existentes entre os condôminos e o condomínio edilício são</p><p>consideradas relação de consumo e, em virtude disso, aplicam-se às regras do CDC.</p><p>II- As relações jurídicas que envolvem as locações urbanas não são caracterizadas como</p><p>relações de consumo e, portanto, não incidem as regras da norma consumerista.</p><p>III- A aquisição de bens ou serviços para implemento ou incremento da atividade</p><p>empresarial do fornecedor não caracteriza uma relação de consumo.</p><p>IV- As atividades notariais são atividades exercidas por delegação do Poder Público e</p><p>não é configurada como relação de consumo.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>b) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>c) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) As sentenças I e IV estão corretas.</p><p>4 O Condomínio Edifício Ellen contratou uma empresa de construção civil para realizar</p><p>a reforma da fachada do prédio e das áreas comuns. No entanto, ocorreram algumas</p><p>falhas na prestação de serviço e o condomínio procura você, advogado, para saber se</p><p>a relação entre ele e a empresa de construção civil se enquadram como uma relação</p><p>jurídica de consumo. Diante da situação hipotética, responda se essa relação jurídica</p><p>é ou não uma relação de consumo, justificando a sua resposta.</p><p>5 Pérsio estava com dificuldades financeiras e resolveu vender o seu veículo, um Ford</p><p>Ka, ano 2018. Cláudio viu o anúncio de Pérsio nas redes sociais e se interessou pelo</p><p>veículo. Entrou em contato com ele, acertaram o preço e as condições de pagamento</p><p>e foi buscar o carro na casa de Pérsio. Diante da situação hipotética, explique se esse</p><p>caso pode ser considerado uma relação de consumo.</p><p>69</p><p>OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DAS</p><p>RELAÇÕES JURÍDICAS DE CONSUMO</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, no Tópico 2, abordaremos os elementos subjetivos e objetivos da</p><p>relação de consumo.</p><p>Um dos elementos subjetivos da relação de consumo, como veremos neste tó-</p><p>pico, é o fornecedor e sua figura, sendo este considerado qualquer pessoa que, indepen-</p><p>dentemente de sua natureza jurídica, forneça produtos ou preste serviços. E ainda, como</p><p>a doutrina e a jurisprudência construíram a ideia da figura do fornecedor equiparado.</p><p>Ademais, também estudaremos, neste tópico, outro elemento subjetivo da</p><p>relação de consumo, ou seja, a figura do consumidor e do consumidor equiparado,</p><p>cujo conceito também se encontra disciplinado no CDC. Para finalizarmos o estudo,</p><p>discutiremos os elementos objetivos da relação de consumo, isto é, o conceito de</p><p>produto e de serviço disciplinado pela legislação consumerista.</p><p>UNIDADE 2 TÓPICO 2 -</p><p>2 ELEMENTOS SUBJETIVOS DA RELAÇÃO DE CONSUMO: O</p><p>FORNECEDOR DE PRODUTOS E O PRESTADO DE SERVIÇOS</p><p>Os elementos subjetivos da relação jurídica de consumo compreendem o</p><p>fornecedor de produtos e o prestador de serviços, bem como o fornecedor equiparado,</p><p>assim como o consumidor e o consumidor equiparado.</p><p>FIGURA 4 – QUEM É O FORNECEDOR?</p><p>FONTE: A autora</p><p>70</p><p>O Art. 3°, caput, da Lei n° 8.078/1990 estabelece que:</p><p>Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada,</p><p>nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados,</p><p>que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação,</p><p>construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou</p><p>comercialização de produtos ou prestação de serviços (BRASIL, 1990).</p><p>Observe que o termo “fornecedor” foi utilizado de forma ampla pelo legislador,</p><p>pois ele se refere tanto ao fornecedor de produtos quanto ao prestador de serviços,</p><p>ampliando, assim, o número de pessoas que podem ser caracterizadas como fornecedoras</p><p>de produtos e prestadora de serviços. Será que somente a pessoa jurídica pode ser</p><p>considerada fornecedora? A resposta é não. O próprio dispositivo legal disciplina que</p><p>tanto a pessoa jurídica quanto a pessoa natural (física) pode ser considerada fornecedora,</p><p>por exemplo, uma pessoa natural que vende docinhos. Nesse exemplo, essa pessoa é</p><p>considerada fornecedora, pois prepara os doces em casa e os vende para outras pessoas,</p><p>com o intuito de lucro direto.</p><p>Contudo, o mais comum é termos as pessoas jurídicas caracterizadas como</p><p>fornecedoras, por exemplo, uma loja que vende roupas para o consumidor final. No entanto,</p><p>o dispositivo legal ainda inclui na categoria de fornecedores os entes despersonalizados,</p><p>também chamados de despersonificados, que é o caso de uma sociedade irregular ou de</p><p>uma sociedade de fato ou, ainda, da massa falida. Nunes (2018) ainda cita como exemplo</p><p>a categoria das pessoas jurídicas de fato, como é o caso dos camelôs.</p><p>Sociedade de fato é aquela sociedade empresarial que não possui um</p><p>ato constitutivo escrito. Já, a sociedade irregular, possui o ato constitutivo</p><p>escrito, mas não levou este a registro no órgão competente.</p><p>A massa falida compreende o acervo de bens e direito do falido, que passa</p><p>a ser administrado e representado pelo administrador judicial.</p><p>NOTA</p><p>Para determinar a relevância ou não da finalidade lucrativa, Tartuce e Neves</p><p>(2019) trazem o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça que entende que:</p><p>Para o fim de aplicação do Código de Defesa do Consumidor, o</p><p>reconhecimento de uma pessoa física ou jurídica ou de um entre</p><p>despersonalizado como fornecedor de serviços atende aos critérios</p><p>puramente objetivos, sendo irrelevantes a sua natureza jurídica, a</p><p>espécie dos serviços que prestam e até mesmo o fato de se tratar</p><p>de uma sociedade civil, sem fins lucrativos, de caráter beneficente e</p><p>filantrópico, bastando que desempenhem determinada atividade no</p><p>mercado de consumo mediante remuneração (STJ – REsp 519.310/</p><p>SP – Terceira Turma – Rel. Min. Nancy Andrighi – j. 20.4.2004).</p><p>71</p><p>A partir dessa decisão, podemos enquadrar as entidades beneficentes como</p><p>fornecedoras ou prestadoras de serviço (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>Observe que poderá ser enquadrado também, como fornecedores, as pessoas</p><p>jurídicas de direito público, ou seja, os órgãos públicos, bem como as concessionárias</p><p>e permissionária, devendo estas prestarem um serviço de qualidade, sob pena de</p><p>responsabilização, conforme disciplina o Art. 22, do CDC.</p><p>Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias,</p><p>permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento,</p><p>são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e,</p><p>quanto aos essenciais, contínuos.</p><p>Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial,</p><p>das obrigações referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas</p><p>compelidas a cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma</p><p>prevista neste código (BRASIL, 1990).</p><p>A discussão sobre a responsabilidade no CDC será vista no Tópico 3, desta</p><p>unidade.</p><p>ESTUDOS FUTUROS</p><p>QUADRO – DIFERENÇA ENTRE CONCESSÃO E PERMISSÃO</p><p>FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/395FaZA>. Acesso em: 1º nov. 2020.</p><p>NOTA</p><p>CONCESSÃO PERMISSÃO</p><p>Caráter mais estável</p><p>Caráter mais precário</p><p>Exige autorização legislativa Não exige autorização legislativa, em regra</p><p>Licitação por concorrência Licitação por qualquer modalidade</p><p>Para pessoas jurídicas ou</p><p>consórcio de empresas</p><p>Para pessoas jurídicas ou físicas</p><p>apesar de todas as diferenças a concessão e a permissão de serviço</p><p>público, ambas tem a mesma natureza jurídica</p><p>STF ADI 1491</p><p>72</p><p>Com relação às pessoas jurídicas de direito privado, essas se constituem na</p><p>maioria dos fornecedores e prestadores de serviços. Note que, pelo que disciplina a</p><p>legislação, elas podem ser, ainda, nacionais ou estrangeiras.</p><p>Como você pode constatar, a caracterização do fornecedor ou do prestador de</p><p>serviço se dará em virtude do desenvolvimento de sua atividade, por esse motivo, aquela</p><p>pessoa que atuar isoladamente, realizando um único ato, não poderá ser enquadrada</p><p>como fornecedor ou prestador de serviço, por exemplo, aquela pessoa que vende seu</p><p>carro para comprar um novo.</p><p>Claro, se essa pessoa tiver vários carros em sua garagem e começar a vendê-</p><p>los, ela será enquadrada como fornecedor e estará sujeito à incidência do Código de</p><p>Defesa do Consumidor.</p><p>Para ser enquadrada como fornecedor ou prestador de serviço, a pessoa</p><p>deverá realizar a atividade de forma habitual e com o intuito de obter lucro.</p><p>ATENÇÃO</p><p>Além disso, a legislação consumerista exemplifica algumas atividades que estarão</p><p>sujeitas às normas consumeristas. São elas: produção, montagem, criação, construção,</p><p>transformação, importação, exportação, distribuição, comercialização, entre outras.</p><p>Visando ampliar ainda mais o alcance do CDC, a doutrina construiu a ideia</p><p>do fornecedor equiparado, que seria aquela pessoa que intermediaria a relação de</p><p>consumo, auxiliando ao lado do fornecedor ou prestador (BESSA, 2007).</p><p>Para melhor visualização da figura do fornecedor equiparado, Marques, Bessa e Ben-</p><p>jamin (2017) trazem como exemplo o empregador dos seguros de vida em grupo, uma vez que</p><p>ele não consta como fornecedor no contrato de consumo, mas intermedia a sua contratação.</p><p>Tartuce e Neves (2020) relatam um importante julgado do Superior Tribunal de</p><p>Justiça, em que ele adota a teoria da aparência para reconhecer a figura do “fornecedor</p><p>aparente”, figura esta que está relacionada ao fornecedor por equiparação.</p><p>A adoção da teoria da aparência pela legislação consumerista conduz</p><p>à conclusão de que o conceito legal do Art. 3º do Código de Defesa do</p><p>Consumidor abrange também a figura do fornecedor aparente, com-</p><p>preendendo aquele que, embora não tendo participado diretamente</p><p>do processo de fabricação, apresenta-se como tal por ostentar nome,</p><p>marca ou outro sinal de identificação em comum com o bem que foi fa-</p><p>bricado por um terceiro, assumindo a posição de real fabricante do pro-</p><p>duto perante o mercado consumidor. O fornecedor aparente em prol das</p><p>vantagens da utilização de marca internacionalmente reconhecida não</p><p>73</p><p>pode se eximir dos ônus daí decorrentes, em atenção à teoria do risco da</p><p>atividade adotada pelo Código de Defesa do Consumidor. Dessa forma,</p><p>reconhece-se a responsabilidade solidária do fornecedor aparente para</p><p>arcar com os danos causados pelos bens comercializados sob a mesma</p><p>identificação (nome/marca), de modo que resta configurada sua legiti-</p><p>midade passiva para a respectiva ação de indenização em razão do fato</p><p>ou vício do produto ou serviço. No presente caso, a empresa recorrente</p><p>deve ser caracterizada como fornecedora aparente para fins de respon-</p><p>sabilização civil pelos danos causados pela comercialização do produto</p><p>defeituoso que ostenta a marca Toshiba, ainda que não tenha sido sua</p><p>fabricante direta, pois ao utilizar marca de expressão global, inclusive</p><p>com a inserção da mesma em sua razão social, beneficia-se da con-</p><p>fiança previamente angariada por essa perante os consumidores. É de</p><p>rigor, portanto, o reconhecimento da legitimidade passiva da empresa ré</p><p>para arcar com os danos pleiteados na exordial” (STJ – REsp 1.580.432/</p><p>SP – Quarta Turma – Rel. Min. Marco Buzzi – j. 6.12.2018 – DJe 4.2.2019).</p><p>Acreditamos que a partir dessa decisão, os tribunais irão ampliar o enquadramento</p><p>referente ao fornecedor e prestador de serviços.</p><p>3 ELEMENTOS SUBJETIVOS DA RELAÇÃO DE CONSUMO:</p><p>O CONSUMIDOR</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2JKB28G>. Acesso em: 13 nov. 2020.</p><p>FIGURA 5 – QUEM É O CONSUMIDOR?</p><p>O conceito de consumidor encontra-se expresso no Art. 2°, da Lei n° 8.078/1990</p><p>que “consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou</p><p>serviço como destinatário final” (BRASIL, 1990).</p><p>Pela redação do dispositivo legal, o consumidor pode ser tanto pessoa natural</p><p>como uma pessoa jurídica, uma vez que a lei não traz nenhuma distinção.</p><p>74</p><p>Claro que a questão da pessoa jurídica ser enquadrada como consumidora pode</p><p>gerar algumas dúvidas.</p><p>No entanto, o que deve ser levado em conta para a qualificação de alguma</p><p>pessoa como consumidor é se ela é ou não destinatária final do produto ou do serviço.</p><p>Ou seja, estando configurados os elementos da relação de consumo e a vulnerabilidade</p><p>do consumidor, não há o que se discutir.</p><p>Nesse aspecto, Tartuce e Neves (2019) entendem que a vulnerabilidade é</p><p>o elemento chave da relação de consumo, sendo que é irrelevante a verificação se a</p><p>pessoa jurídica é ou não “forte” economicamente. Até porque, tal constatação confunde</p><p>a hipossuficiência com a vulnerabilidade.</p><p>No que tange à vulnerabilidade da pessoa jurídica, o Superior Tribunal de Justiça</p><p>já decidiu pela possibilidade de mitigação, afastando, no caso concreto, a aplicação do</p><p>Código de Defesa do Consumidor, conforme o julgado a seguir.</p><p>Processo civil e consumidor. [...]. Relação de consumo. Caracterização.</p><p>Destinação final fática e econômica do produto ou serviço. Atividade</p><p>empresarial. Mitigação da regra. Vulnerabilidade da pessoa jurídica. Pre-</p><p>sunção relativa. [...]. Ao encampar a pessoa jurídica no conceito de con-</p><p>sumidor, a intenção do legislador foi conferir proteção à empresa nas</p><p>hipóteses em que, participando de uma relação jurídica na qualidade de</p><p>consumidora, sua condição ordinária de fornecedora não lhe proporcio-</p><p>ne uma posição de igualdade frente à parte contrária. Em outras pala-</p><p>vras, a pessoa jurídica deve contar com o mesmo grau de vulnerabilidade</p><p>que qualquer pessoa comum se encontraria ao celebrar aquele negócio,</p><p>de sorte a manter o desequilíbrio da relação de consumo. A ‘paridade de</p><p>armas’ entre a empresa-fornecedora e a empresa-consumidora afasta</p><p>a presunção de fragilidade desta. Tal consideração se mostra de extre-</p><p>ma relevância, pois uma mesma pessoa jurídica, enquanto consumido-</p><p>ra, pode se mostrar vulnerável em determinadas relações de consumo e</p><p>em outras não. Recurso provido. (STJ – RMS 27.512/BA – Terceira Turma</p><p>– Rel. Min. Nancy Andrighi – j. 20.8.2009 – DJe 23.9.2009).</p><p>O consumidor pode ainda ser um ente despersonalizado, mesmo que o legislador</p><p>não tenha feito menção expressa a ele no Código de Defesa do Consumidor, pois se eles</p><p>podem ser considerados fornecedores, podem também ser considerados consumidores,</p><p>como é o caso do espólio. Ademais, o consumidor também pode ser pessoa de direito</p><p>privado ou público. No primeiro caso, suponhamos que uma loja adquira um forno de</p><p>micro-ondas em uma loja de departamento para instalar na sua cozinha. No segundo, a</p><p>hipótese de uma prefeitura como consumidora de serviço de telefonia.</p><p>A doutrina e a jurisprudência ainda admitem que o consumidor seja pessoa</p><p>natural ou estrangeira. Com relação à pessoa estrangeira, imaginem, por exemplo, o caso</p><p>de um turista francês, em férias em Balneário Camboriú, que fica intoxicado ao consumir</p><p>um produto em um restaurante local. Nesse caso, o turista pode demandar os agentes do</p><p>dano com base na responsabilidade objetiva prevista no Código de Defesa do Consumidor,</p><p>Lei n° 8.078/1990 (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>75</p><p>FIGURA 6 – CONCEITO DE CONSUMIDOR</p><p>FONTE: Adaptado de <https://cdfconcursos.com.br/uploads/dica-1-direito-do-consumidor-cdf-concursos.</p><p>png>. Acesso em: 13 nov. 2020.</p><p>Agora, você</p><p>já deve ter percebido que para qualificar uma pessoa como</p><p>consumidor, temos que verificar se ele é ou não o destinatário final do produto ou serviço.</p><p>3.1 CORRENTES QUE INTERPRETAM A DEFINICÃO DE</p><p>CONSUMIDOR</p><p>Esse elemento determinante para o enquadramento na condição de consumidor</p><p>gera inúmeras dúvidas e, consequentemente, surge diferentes teorias a respeito desse</p><p>tema. Por esse motivo, vamos ver, a seguir, as teorias existentes a respeito dessa matéria.</p><p>a) Teoria Finalista</p><p>A Teoria Finalista também é chamada de Teoria Subjetiva, sendo que esta foi adota</p><p>na íntegra pelo Art. 2º, do CDC. Como já vimos, o Art. 2º da Lei Consumerista conceitua a</p><p>figura do consumidor e disciplina que, para que ele ser caracterizado como tal, deve ser</p><p>o destinatário final do produto ou do serviço. No Brasil, prevalece o entendimento de que</p><p>o consumidor deve ser o destinatário final fático e econômico (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Marques, Bessa e Benjamin (2017, p. 95) entendem que o “destinatário final” é</p><p>conseituado como:</p><p>[...] aquele destinatário fático e econômico do bem ou serviço, seja</p><p>ele pessoa jurídica ou física. Logo, segundo essa interpretação te-</p><p>leológica, não basta ser destinatário fático do produto, retirá-lo da</p><p>cadeia de produção, levá-lo para o escritório ou residência – é neces-</p><p>sário ser destinatário econômico do bem, não adquiri-lo para reven-</p><p>da, não adquiri-lo para uso profissional, pois o bem seria novamente</p><p>76</p><p>um instrumento de produção, cujo preço será incluído no preço final</p><p>do profissional para adquiri-lo. Nesse caso, não haveria exigida ‘des-</p><p>tinação final’ do produto ou do serviço, ou, como afirma o STJ, have-</p><p>ria consumo intermediário, ainda dentro das cadeias de produção e</p><p>de distribuição. Essa interpretação restringe a figura do consumidor</p><p>àquele que adquire (utiliza) um produto para uso próprio e de sua fa-</p><p>mília, consumidor seria o não profissional, pois o fim do CDC é tutelar</p><p>de maneira especial um grupo da sociedade que é mais vulnerável.</p><p>Baseado nisso, o Quadro 1 resume essa teoria, enfatizando que:</p><p>QUADRO 1 – RESUMO DA TEORIA FINALISTA</p><p>FONTE: Tartuce e Neves (2019, p. 96)</p><p>1° Destinação final fática – o consumidor é o último da cadeia de consumo, ou seja,</p><p>depois dele, não há ninguém na transmissão do produto ou do serviço.</p><p>2° Destinação final econômica – o consumidor não utiliza o produto ou o serviço</p><p>para o lucro, repasse ou transmissão onerosa.</p><p>No entanto, temos também a existência de outras teorias a respeito do conceito</p><p>de consumidor.</p><p>b) Teoria Maximalista</p><p>A Teoria Maximalista, também denominada de Teoria Objetiva, tem por objetivo am-</p><p>pliar o conceito de consumidor e estender a abrangência das relações jurídicas do consumo.</p><p>[...] os maximalistas viam nas normas do CDC o novo regulamento</p><p>do mercado de consumo brasileiro, e não normas orientadas para</p><p>proteger somente o consumidor não profissional. O CDC seria um</p><p>código geral sobre o consumo, um código para a sociedade de</p><p>consumo, que institui normas e princípios para todos os agentes do</p><p>mercado, os quais podem assumir os papéis ora de fornecedores,</p><p>ora de consumidores. A definição do art. 2º deve ser interpretada o</p><p>mais extensivamente possível, segundo esta corrente, para que as</p><p>normas do CDC possam ser aplicadas a um número cada vez maior</p><p>de relações de consumo (MARQUES; BESSA BENJAMIN, 2017, p. 95)</p><p>Contudo, no entendimento de Tartuce e Neves (2020), essa teoria encontra-</p><p>se superada, se considerarmos a aplicação da teoria do diálogo das fontes, pois não</p><p>se pode considerar toda relação contratual como uma relação jurídica de consumo e</p><p>desconsiderar, assim, a existência e aplicação do Código Civil.</p><p>77</p><p>c) Teoria Finalista Mitigada</p><p>Teoria também denominada de Teoria Finalista Aprofundada. Essa teoria foi</p><p>uma construção da doutrinadora Cláudia Lima Marques. Ela visa o reconhecimento</p><p>da relação jurídica de consumo em situações específicas. Como é o caso de micro e</p><p>pequenas empresas que utilizam insumos para a sua produção, mas que não possuem</p><p>um conhecimento técnico adequado daquele produto adquirido ou serviço contratado.</p><p>Por esse motivo, deverá ser constatado a vulnerabilidade da micro ou</p><p>pequena empresa, para que ele possa ser reconhecido como consumidor e, por via de</p><p>consequência, ser amparado pelo Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Com a aplicação dessa teoria, por exemplo, poderia ser considerada consumidora</p><p>uma padaria que adquire gás, uma vez que pode ser constatada a vulnerabilidade desta</p><p>com relação à empresa fornecedora de gás.</p><p>Observe que aqui a palavra-chave é a vulnerabilidade. Ademais, o Superior</p><p>Tribunal de Justiça já confirmou a possibilidade de mitigação da aplicação da teoria</p><p>finalista, isto é, entende ser possível a aplicação da teoria finalista mitigada, autorizando</p><p>a incidência do CDC, nas hipóteses em que a parte não for destinatária final do produto</p><p>ou serviço, mas apresentar situação de vulnerabilidade.</p><p>Tartuce e Neves (2020, p. 107) ilustram um exemplo de possibilidade de aplicação</p><p>dessa teoria: “Quando um advogado adquire insumos para seu escritório, haverá relação</p><p>de consumo, mesmo sendo os bens utilizados para sua pequena produção. Por outra</p><p>via, se um grande escritório adquire tais insumos, não haverá relação de consumo”.</p><p>O que podemos enquadrar como vulnerabilidade? Segundo, Tartuce e Neves</p><p>(2020, p. 107), a doutrina tem pontuado quatro espécies de vulnerabilidade:</p><p>1. Vulnerabilidade técnica – quando constatada a ausência de</p><p>conhecimento específico acerca do produto ou serviço objeto de</p><p>consumo.</p><p>2. Vulnerabilidade jurídica – quando constatada a ausência de</p><p>conhecimento jurídico, contábil ou econômico e de seus reflexos</p><p>na relação de consumo.</p><p>3. Vulnerabilidade fática – quando envolvem situações em que a</p><p>insuficiência econômica, física ou até mesmo psicológica do</p><p>consumidor o coloca em pé de desigualdade frente ao fornecedor.</p><p>4. Vulnerabilidade informacional – quando se constata a insuficiência</p><p>de dados sobre o produto ou serviço capazes de influenciar no</p><p>processo decisório de compra.</p><p>d) Teoria Minimalista</p><p>Essa corrente doutrinária restringe ao máximo o reconhecimento de uma</p><p>relação de consumo, ou seja, ela vê dificuldades de reconhecer a existência de uma</p><p>relação jurídica de consumo mesmo quando esta está claramente evidenciada.</p><p>78</p><p>Os defensores desta teoria, por exemplo, entendem que não haveria relação</p><p>jurídica de consumo entre uma instituição financeira e seus correntistas.</p><p>Contudo, tal entendimento já foi afastado pelo Supremo Tribunal Federal</p><p>confirmando a Súmula nº 297 do Superior Tribunal de Justiça que disciplina que “o</p><p>Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras”. A corrente</p><p>minimalista restou, assim, totalmente derrotada no âmbito dos nossos Tribunais.</p><p>Você pode verificar que, essa teoria ficou completamente sem aplicabilidade</p><p>a partir do entendimento dos nossos tribunais superiores. Para entender, de forma</p><p>resumida, as teorias apresentadas, analise a Figura 7.</p><p>FIGURA 7 – TEORIAS RELACIONADAS AO CONCEITO DE CONSUMIDOR</p><p>FONTE: Silva (2019, p. 20)</p><p>A fim de encerrar a abordagem do conceito de consumidor, vamos estudar, a</p><p>seguir, o conceito de consumidor equiparado ou bystander. Conceito retirado do Art. 2°,</p><p>parágrafo único do CDC.</p><p>3.2 CONSUMIDOR EQUIPARADO OU BYSTANDER</p><p>O conceito e o requisito para definir o consumidor abordados até o momento,</p><p>refere-se ao consumidor padrão, denominado pela doutrina como stander.</p><p>Contudo, a própria legislação consumerista traz uma ampliação natural para esse</p><p>conceito, pois ela considera, também, o consumidor por equiparação ou equiparado. Nesse</p><p>sentido, o CDC estabeleceu três definições de consumidor equiparado, tendo por finalidade</p><p>permitir a aplicação das normas de proteção prevista no Código (MIRAGEM, 2016).</p><p>Encontramos o consumidor equiparado no Art. 2°, Parágrafo único, Art. 17 e Art.</p><p>29, do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>79</p><p>FIGURA 8 – CONSUMIDORES EQUIPARADOS</p><p>FONTE: <https://bit.ly/38gQiUs>. Acesso em: 13 nov. 2020.</p><p>CONSTITUCIONAIS .......................................................................................... 21</p><p>1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 21</p><p>2 FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO DO CONSUMIDOR ........................... 23</p><p>3 O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR COMO NORMA DE ORDEM PÚBLICA</p><p>E INTERESSE SOCIAL ...................................................................................................... 25</p><p>4 O MICROSSISTEMA DO DIREITO DO CONSUMIDOR ........................................................27</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 29</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 30</p><p>TÓPICO 3 - O DIÁLOGO DAS FONTES E OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS QUE</p><p>NORTEIAM O DIREITO DO CONSUMIDOR ....................................................... 33</p><p>1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 33</p><p>2 O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E O DIÁLOGO DAS FONTES ......................... 33</p><p>3 O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR COMO NORMA PRINCIPIOLÓGICA .............. 35</p><p>3.1 DIFERENÇA ENTRE PRINCÍPIOS E REGRAS .................................................................................36</p><p>4 OS PRINCÍPIOS INSERIDOS NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR...................... 38</p><p>4.1 PRINCÍPIO DO PROTECIONISMO DO CONSUMIDOR ...................................................................38</p><p>4.2 PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE DO CONSUMIDOR .............................................................39</p><p>4.3 PRINCÍPIO DA HIPOSSUFICIÊNCIA DO CONSUMIDOR ...............................................................39</p><p>4.4 PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA ................................................................................................ 40</p><p>4.5 PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA OU DA CONFIANÇA .............................................................. 41</p><p>4.6 PRINCÍPIO DA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO ......................................................................... 41</p><p>4.7 PRINCÍPIO DA EQUIVALÊNCIA NEGOCIAL ...................................................................................42</p><p>4.8 PRINCÍPIO DA REPARAÇÃO INTEGRAL DOS DANOS ................................................................43</p><p>4.9 PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE ......................................................................................................46</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................................................47</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 ......................................................................................................... 51</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 52</p><p>REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 54</p><p>UNIDADE 2 — AS RELAÇÕES DE CONSUMO E AS RESPONSABILIDADES</p><p>DECORRENTES DESSAS RELAÇÕES ..........................................................57</p><p>TÓPICO 1 — AS IMPLICAÇÕES DAS RELAÇÕES SOCIAIS NO MUNDO JURÍDICO .............59</p><p>1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................59</p><p>2 RELAÇÃO SOCIAL VERSUS RELAÇÃO JURÍDICA ..........................................................59</p><p>3 RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO ................................................................................. 61</p><p>4 RELAÇÃO JURÍDICA CONTEMPORÂNEAS QUE NÃO SE CARACTERIZAM</p><p>COMO RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO ...................................................................... 61</p><p>4.1 RELAÇÃO JURÍDICA EXISTENTE ENTRE CONDÔMINOS E CONDOMÍNIO EDILÍCIO .............62</p><p>4.2 RELAÇÃO JURÍDICA NAS RELAÇÕES ENVOLVENDO OS CONTRATOS DE</p><p>LOCAÇÃO URBANA ............................................................................................................................63</p><p>4.3 RELAÇÃO JURÍDICA NAS RELAÇÕES ENVOLVENDO ATIVIDADES NOTARIAIS</p><p>E REGISTRAIS .....................................................................................................................................64</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................................ 66</p><p>AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................67</p><p>TÓPICO 2 - OS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DAS RELAÇÕES JURÍDICAS DE</p><p>CONSUMO ........................................................................................................ 69</p><p>1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 69</p><p>2 ELEMENTOS SUBJETIVOS DA RELAÇÃO DE CONSUMO: O FORNECEDOR</p><p>DE PRODUTOS E O PRESTADO DE SERVIÇOS ................................................................ 69</p><p>3 ELEMENTOS SUBJETIVOS DA RELAÇÃO DE CONSUMO: O CONSUMIDOR ...................73</p><p>3.1 CORRENTES QUE INTERPRETAM A DEFINICÃO DE CONSUMIDOR ......................................... 75</p><p>3.2 CONSUMIDOR EQUIPARADO OU BYSTANDER ............................................................................78</p><p>4 ELEMENTOS OBJETIVOS DA RELAÇÃO DE CONSUMO: O PRODUTO E O SERVIÇO ........81</p><p>4.1 OS PRODUTOS......................................................................................................................................82</p><p>4.2 OS SERVIÇOS .......................................................................................................................................83</p><p>4.2.1 OS SERVIÇOS PÚBLICOS ........................................................................................................ 84</p><p>4.2.2 ATIVIDADES BANCÁRIAS, FINANCEIRAS E DE CRÉDITO ................................................85</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 86</p><p>AUTOATIVIDADE ..................................................................................................................87</p><p>TÓPICO 3 - A RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO ..................... 89</p><p>1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 89</p><p>2 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR .................. 89</p><p>3 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO PRODUTO ................................................. 92</p><p>4 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO SERVIÇO .................................................. 98</p><p>5 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO PRODUTO (DEFEITO) .............................. 101</p><p>6 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO SERVIÇO (DEFEITO) .............................. 104</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................107</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 113</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 114</p><p>REFERÊNCIAS .....................................................................................................................117</p><p>UNIDADE 3 — PROTEÇÃO DO DIREITO DO CONSUMIDOR QUANTO ÀS</p><p>PRÁTICAS ABUSIVAS ................................................................................. 121</p><p>TÓPICO 1 — PROTEÇÃO CONTRATUAL PELO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR .........123</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................123</p><p>2 A INTERPRETAÇÃO DOS NOVOS</p><p>A principal característica presente no consumidor equiparado é a desnecessi-</p><p>dade da existência de um ato de consumo, isto é, a aquisição ou utilização direta:</p><p>[...] bastando para a incidência da norma, que esteja o sujeito exposto</p><p>às situações previstas no Código, seja na condição de integrante</p><p>de uma coletividade de pessoas [...], como vítima de um acidente</p><p>de consumo [..] ou como destinatário de práticas comerciais [...]</p><p>(MIRAGEM, 2016, p. 159).</p><p>a) A coletividade</p><p>O Art. 2°, Parágrafo único, do CDC, disciplina que: “ Equipara-se a consumidor</p><p>a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações</p><p>de consumo”.</p><p>Com esse dispositivo o legislador garantiu a proteção do CDC, não apenas aos</p><p>consumidores que participam, efetivamente das relações de consumo, mas, também, a</p><p>uma universalidade (coletividade), fundamentando, assim, a tutela coletiva dos direitos</p><p>e interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos estabelecidos no Art. 81 e</p><p>seguintes do CDC (MIRAGEM, 2016).</p><p>Como já podemos constatar, a relação jurídica que vincula os sujeitos no caso</p><p>da equiparação não é a existência da relação de consumo tradicional, mas o simples fato</p><p>do consumidor ser membro da coletividade, uma vez que ele está sujeito aos efeitos das</p><p>ações dos fornecedores no mercado.</p><p>80</p><p>b) Vítimas de acidentes de consumo</p><p>O Art. 17 do CDC determina que: “Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos</p><p>consumidores todas as vítimas do evento”. A seção que trata o dispositivo diz respeito à</p><p>regulação da responsabilidade dos fornecedores pelo fato do produto ou do serviço, isto é,</p><p>por dano à saúde, à integridade ou ao patrimônio do consumidor (acidente de consumo).</p><p>O tema, responsabilidade do fornecedor, será tratado no Tópico 3, desta unidade.</p><p>ESTUDOS FUTUROS</p><p>Observe que aqui o legislador equipara o consumidor a todas as pessoas que</p><p>forem vítimas de um acidente de consumo, não levando em consideração se elas</p><p>participaram da relação jurídica de consumo, ou seja, se foram elas que adquiriram o</p><p>produto ou contrataram o serviço.</p><p>Nesse caso, estende-se para o terceiro, denominado pela doutrina de bystander, a</p><p>proteção e consequente aplicação do CDC, quando este tenha sido vítima de uma dano no</p><p>mercado de consumo, provocado por um fornecedor. Para melhor entendimento, Miragem</p><p>(2016) menciona dois exemplos: o primeiro, o caso de uma pessoa que está passando em</p><p>uma calçada e é atingida pela explosão de um caminhão de gás que faz entregas no local.</p><p>No segundo exemplo, temos uma pessoa que está dentro de um supermercado e é ferida</p><p>por estilhaços de vidros decorrente da explosão de uma garrafa de refrigerante.</p><p>Observem que nessas duas situações hipotéticas, mesmo que as pessoas não</p><p>tenham uma relação de consumo com o fornecedor, equipara-se ao consumidor para</p><p>efeito da aplicação das normas do CDC.</p><p>Essa regra de equiparação parte do pressuposto que a garantia e qualidade do</p><p>fornecedor está vinculada diretamente ao produto ou serviço oferecido. Nesse caso, o</p><p>consumidor equiparado (terceiro atingido pelo dano) deve apresentar provas de que o</p><p>dano sofrido decorreu de um defeito do produto ou do serviço.</p><p>Cavalieri Filho (2019) ressalta que a norma do Art. 17 do CDC só se aplica em</p><p>relação à pessoa física de alguma forma inserida em uma cadeia de consumo</p><p>e que seja vítima de um acidente de consumo, ainda que ela nada tenha</p><p>adquirido do fornecedor, do fabricante ou outro qualquer responsável.</p><p>IMPORTANTE</p><p>81</p><p>c) Expostos às práticas comerciais</p><p>O Art. 29 do CDC menciona que: “Para os fins deste Capítulo e do seguinte,</p><p>equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às</p><p>práticas nele previstas”. Os capítulos mencionados pelo dispositivo legal dizem respeito às</p><p>práticas comerciais pelos fornecedores e à proteção contratual do consumidor.</p><p>Essa definição de consumidor equiparado é a que oferece maiores possibilidades</p><p>para aplicação das normas do CDC a quem não seja qualificado como destinatário final</p><p>do produto ou do serviço.</p><p>A equiparação referida no Art. 29, do CDC tem o intuito de equilibrar as relações</p><p>contratuais. Contudo, somente será aplicada quando estiver presente a vulnerabilidade.</p><p>Para ilustrar, podemos citar o exemplo da relação entre pequenos empresários e</p><p>instituições financeiras (MIRAGEM, 2016).</p><p>Para ser equiparado como consumidor e ser tutelado pelo Art. 29, do CDC, é</p><p>suficiente a pessoa estar exposta a essas práticas comerciais.</p><p>IMPORTANTE</p><p>Como já estudamos os elementos subjetivos que envolvem a relação jurídica de</p><p>consumo, agora é hora de analisarmos os elementos objetivos desta relação, ou seja, a</p><p>definição de produtos e serviços.</p><p>4 ELEMENTOS OBJETIVOS DA RELAÇÃO DE CONSUMO: O</p><p>PRODUTO E O SERVIÇO</p><p>Os elementos objetivos que compõem a relação de consumo estão disciplinados</p><p>nos parágrafos do Art. 3° do Código de Defesa do Consumidor e compreendem os</p><p>produtos e os serviços.</p><p>Fabrício Bolzan (2014, p. 103) entende que o produto e o serviço são “[...] o objeto</p><p>da prestação à qual tem direito o consumidor e à qual está obrigado o fornecedor, em</p><p>razão do vínculo jurídico que os une”.</p><p>Para um melhor entendimento, vamos analisar a conceituação de produto</p><p>82</p><p>4.1 OS PRODUTOS</p><p>O conceito de produto está definido pelo Art. 3, § 1°, que estabelece que “Produto</p><p>é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial”.</p><p>Analisando esse dispositivo legal, podemos concluir que o legislador utilizou o termo</p><p>“produto” para designar aquilo que é resultante do processo de produção ou de fabricação.</p><p>Nesse caso, temos que, todos os bens que resultem de atividade empresarial</p><p>em série de transformação econômica pode ser considerada produto, mesmo aqueles</p><p>oriundos do setor primário, como os de natureza agrícola (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>Observe que a legislação consumerista refere-se, de forma expressa, a produtos</p><p>(bens) móveis, imóveis, materiais e imateriais. Esse conceito de bens é extraído do</p><p>Código Civil Artigos 79 a 86.</p><p>O bem móvel é aquele que pode ser transportado sem prejuízo a sua integridade,</p><p>como é o caso de um smartphone, que pode ser o conteúdo de uma relação jurídica de</p><p>consumo, como a aquisição de um smartphone para uso próprio em uma loja, podendo</p><p>este aparelho ser novo ou usado.</p><p>O bem imóvel é aquele cujo transporte ou remoção implica na destruição ou</p><p>deterioração considerável do bem, por exemplo, um apartamento, que pode ser objeto</p><p>de uma relação de consumo, como é o caso dos contratos de incorporação imobiliária</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>FIGURA 9 – CONCEITO DE BENS MÓVEIS E IMÓVEIS</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3rTXPA9>. Acesso em: 13 nov. 2020.</p><p>Ademais, o produto ainda pode ser um bem corpóreo ou incorpóreo, ou seja,</p><p>material ou imaterial.</p><p>83</p><p>Os bens corpóreos ou materiais são aqueles que podem ser tocados, como é o</p><p>caso de um automóvel, um smartphone, um computador, uma casa, um apartamento etc.</p><p>Isto é, a aquisição de um automóvel, um smartphone, entre outros.</p><p>Os bens incorpóreos ou imateriais são aqueles bens abstrato, como o laser.</p><p>No entanto, essa espécie de bem, muitas vezes, estão relacionados aos serviços,</p><p>por exemplo, pacote turístico, planos de capitalização com sorteio de prêmios etc.</p><p>(CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>Além disso, podemos caracterizar como produto os produtos digitais, uma vez</p><p>que eles estão protegidos pelas normas do CDC, como é o caso de software.</p><p>Mesmo que o §1°, do Art. 3°, do CDC não faça menção aos produtos duráveis e</p><p>não duráveis, esse entendimento é de suma importância, pois eles estão relacionados</p><p>ao prazo para o exercício do direito do consumidor, no caso de vício do produto, item</p><p>esse que iremos estudar no Tópico 3, desta unidade.</p><p>Produtos duráveis são aqueles bens que não se extinguem logo após o seu uso</p><p>regular. Eles foram criados para serem utilizado mais de uma vez, foram feitos para durar,</p><p>como um automóvel, um apartamento, entre outros. Claro, eles não duram para sempre,</p><p>pois sofrem desgastes naturais em decorrência do uso e do tempo (CAVALIERI</p><p>FILHO, 2019).</p><p>Já, os produtos não duráveis são aqueles que acabam com o seu uso regular,</p><p>por exemplo, os alimentos, as bebidas, os sabonetes, entre outros.</p><p>Além dos produtos, a legislação consumerista também conceitua os serviços.</p><p>4.2 OS SERVIÇOS</p><p>O Art. 3°, § 2°, do CDC, designa serviço como “[...] qualquer atividade fornecida</p><p>no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária,</p><p>financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter</p><p>trabalhista”.</p><p>As atividades mencionadas no Art. 3°, §2°, do CDC podem ser de natureza material,</p><p>financeira ou intelectual, podendo estas serem prestadas por pessoas naturais ou pessoas</p><p>jurídicas de direito público ou privado, mediante remuneração direta ou indireta.</p><p>Você deve ter notado que para ser caracterizado como serviço, ele deve ser</p><p>remunerado, salvo, claro, para aquelas prestações decorrentes do contrato de trabalho,</p><p>pois essas relações são regidas pela Consolidação das Leis Trabalhistas e não pelo CDC.</p><p>84</p><p>Diante disso, imagine que um produto explode dentro de uma fábrica e atinge dois</p><p>de seus empregados. Nessa situação hipotética, o empregado demandará o empregador</p><p>e não o fabricante do produto, uma vez que se caracteriza um acidente de trabalho e não</p><p>um acidente de consumo (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>No caso explanado anteriormente, incidirá as regras da Consolidação das Leis</p><p>Trabalhistas e não o Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Uma questão que gera grandes equívocos e interpretações é a remuneração,</p><p>pois muitos entendem que se não há remuneração, não há relação de consumo. No</p><p>entanto, a legislação consumerista menciona a possibilidade de remuneração indireta,</p><p>ou seja, quando proporciona benefícios (ganhos) comerciais indiretos ao fornecedor,</p><p>oriundos da prestação que, aparentemente, é gratuita.</p><p>Observe que, nesse caso, essa remuneração já está embutida em outros custos.</p><p>Exemplo dessas situações são: estacionamentos gratuitos em supermercados, compra</p><p>de produtos com frete grátis, transporte gratuito para pessoa idosa, entre outros.</p><p>4.2.1 OS SERVIÇOS PÚBLICOS</p><p>A prestação de serviços públicos também é abrangida e disciplinada pelo Código</p><p>de Defesa do Consumidor. Em seu Art. 22, o CDC dispõe que: “Os órgãos públicos, por</p><p>si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob qualquer outra forma de</p><p>empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e,</p><p>quanto aos essenciais, contínuos”.</p><p>FIGURA 10 – QUAIS SERVIÇOS PÚBLICOS SÃO ABRANGIDOS PELO CDC?</p><p>FONTE: A autora</p><p>A Constituição Federal disciplina que cabe ao Poder Público a prestação de</p><p>serviços públicos. Esses serviços poderão ser prestados pela Administração Pública ou por</p><p>seus delegados. Nesse caso, o Código de Defesa do Consumidor terá incidência somente</p><p>nos serviços prestados pelo Estado por via de delegação, por parceria com os entes da</p><p>Administração descentralizada ou da iniciativa privada. Esses serviços são remunerados por</p><p>tarifas ou preços públicos (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>85</p><p>Em que pese a clareza da redação do Art. 22 da legislação consumerista, ainda</p><p>temos várias questões que necessitam ser enfrentadas. A primeira delas diz respeito</p><p>à conceituação e caracterização dos serviços essenciais, pois, em nenhum momento</p><p>a norma informa quais seriam esses serviços. Tanto a doutrina como a jurisprudência</p><p>têm utilizado o Art. 10, da Lei nº 7.783/1989, denominada de Lei de Greve, para definir os</p><p>serviços essenciais (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>Outra questão controvertida diz respeito à interrupção do fornecimento do serviço</p><p>público. Diante dessa situação, temos duas correntes doutrinárias. Uma delas entende que</p><p>pela continuidade dos serviços públicos essenciais está diretamente ligada ao princípio</p><p>constitucional da dignidade da pessoa humana e, por esse motivo, tal serviço não pode ser</p><p>interrompido, mesmo em caso de inadimplemento.</p><p>A segunda corrente entende ser possível a interrupção do serviço em caso de</p><p>inadimplemento do consumidor. No entanto, condena a interrupção abrupta, isto é,</p><p>interrupção sem aviso prévio, como meio de pressão para o pagamento das contas</p><p>em atraso. Diante disso, é permitido o corte no fornecimento do serviço, desde que</p><p>precedido de aviso de advertência (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>Cavalieri Filho (2019) adverte que a interrupção da prestação do serviço público</p><p>nas relações de consumo não se constitui num direito absoluto do prestador, pois, o</p><p>prestador deve criar condições para que o consumidor consiga regularizar o pagamento.</p><p>Agora você deve estar pensando: mas qual o posicionamento dos tribunais</p><p>sobre essa discussão?</p><p>O entendimento do Superior Tribunal de Justiça é pela impossibilidade da</p><p>interrupção de serviços essenciais em função da cobrança de débitos de antigos</p><p>proprietários, bem como se tal suspensão afetar o direito à saúde e à integridade física</p><p>do usuário, como é o caso de alguém que necessita da energia elétrica, pois possui um</p><p>respirador em casa.</p><p>4.2.2 ATIVIDADES BANCÁRIAS, FINANCEIRAS E DE CRÉDITO</p><p>O último item a ser abordado referente aos serviços guarda relação com as</p><p>atividades bancárias, financeira e de crédito.</p><p>Nesse sentido, não resta dúvida que essas atividades se enquadram como relação</p><p>jurídica de consumo e estão sujeitas às regras do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>A própria Súmula n° 297, do Superior Tribunal de Justiça, disciplina que o CDC é</p><p>aplicável às instituições financeiras. Além dessa súmula, também foram editadas outras</p><p>corroborando com o entendimento da incidência do CDC nessas relações jurídicas.</p><p>86</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• Os elementos subjetivos que compõem a relação de consumo é o fornecedor e o</p><p>consumidor.</p><p>• O Art. 3°, do CDC, conceitua o fornecedor como sendo toda pessoa física ou jurídica,</p><p>pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados,</p><p>que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção,</p><p>transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de</p><p>produtos ou prestação de serviços</p><p>• Apesar da legislação consumerista não conceituar, a doutrina e a jurisprudência</p><p>construíram a ideia do fornecedor equiparado, que seria aquela pessoa que</p><p>intermediaria a relação de consumo, auxiliando ao lado do fornecedor ou prestador</p><p>de serviço.</p><p>• O Art. 2°, do CDC conceitua a figura do consumidor, expressando que “consumidor</p><p>é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como</p><p>destinatário final” (BRASIL, 1990).</p><p>• A conceituação de consumidor gera inúmeras dúvidas, pois, para o Art. 2°,</p><p>consumidor deverá ser o destinatário final do produto ou serviço. Por esse motivo,</p><p>a doutrina desenvolveu algumas teorias como: teoria finalista, teoria maximalista,</p><p>teoria finalista mitigada, teoria minimalista.</p><p>• Existe a figura do consumidor equiparado que pode ser a coletividade de pessoas,</p><p>as vítimas de acidente de consumo e todas as pessoas, determináveis ou não,</p><p>expostas às práticas comerciais.</p><p>• Produto pode ser qualquer bem móvel ou imóvel, material ou imaterial (Art. 3°, §1°,</p><p>do CDC).</p><p>• Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante</p><p>remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária,</p><p>salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista (Art. 3°, §2°, do CDC).</p><p>87</p><p>1 O Código de Defesa do Consumidor disciplina as relações jurídicas de consumo e</p><p>conceitua os elementos objetivos e subjetivos constantes dessa relação. Diante</p><p>disso, no que concerne a Lei n° 8.078/1990, Código de Defesa do Consumidor, analise</p><p>as sentenças a seguir:</p><p>I- Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço</p><p>como destinatário final.</p><p>II- Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou</p><p>estrangeira, exceto os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de</p><p>produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação,</p><p>distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços.</p><p>III- Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.</p><p>IV- Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante</p><p>remuneração pecuniária, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito,</p><p>securitária e de caráter trabalhista.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As sentenças II e IV estão corretas.</p><p>c) ( ) As sentenças I e II estão corretas.</p><p>d) ( ) Todas as alternativas estão corretas.</p><p>2 A Lei n° 8.078/1990 busca ampliar o conceito de consumidor para proteger o maior</p><p>número possível de pessoas, por esse motivo, ela traz, além do conceito de consumidor,</p><p>a definição de consumidor equiparado. A respeito do conceito de consumidor e dos</p><p>limites de aplicação do Código de Defesa do Consumidor nas relações consumerista,</p><p>assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) O terceiro, a vítima de acidente, atingido em sua integridade física ou segurança,</p><p>em virtude de defeito do produto ou serviço, é equiparado ao consumidor e faz</p><p>jus à tutela do Código de Defesa do Consumidor, apesar de não ser partícipe</p><p>direto da relação de consumo.</p><p>b) ( ) Aqueles que estão expostos à publicidade enganosa ou abusividades contratuais</p><p>são equiparados aos consumidores, desde que determináveis.</p><p>c) ( ) O Código de Defesa do Consumidor abarca expressamente a possibilidade de a</p><p>pessoa física e a pessoa jurídica figurarem como consumidores, sendo irrelevante</p><p>saber se são destinatárias finais do produto ou serviço.</p><p>d) ( ) A coletividade de pessoas, que haja intervindo nas relações de consumo, só pode</p><p>ser equiparada aos consumidores quando for passível de identificação.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>88</p><p>3 O Código de Defesa do Consumidor busca proteger a parte vulnerável da relação</p><p>consumerista que será sempre o consumidor. Diante dessa situação e levando em</p><p>consideração os dispostos na Lei nº 8.078/1990, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço</p><p>como destinatário final.</p><p>II- Equipara-se ao consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis,</p><p>que haja intervindo nas relações de consumo.</p><p>III- É direito do consumidor com deficiência física acesso à informação adequada e</p><p>clara dos diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade,</p><p>características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como os</p><p>riscos que apresente.</p><p>IV- Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos</p><p>à saúde ou segurança dos consumidores, mesmo os considerados normais e</p><p>previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores,</p><p>em qualquer hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas.</p><p>b) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas.</p><p>c) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas.</p><p>4 Duas vizinhas que trabalhavam como confeiteiras resolveram constituir uma</p><p>microempresa para atuar no ramo de confeitaria. Após a constituição da sociedade</p><p>empresária adquiriram vários utensílios, inclusive dois fornos industriais de uma</p><p>indústria multinacional, comprados em 27 de janeiro de 2018. No entanto, em</p><p>outubro de 2018, um dos fornos começou a apresentar problemas no termostato (não</p><p>originado pelo desgaste natural). Em contato com a empresa fabricante do forno, ela</p><p>informou que não poderia fazer nada, pois já havia transcorrido o prazo da garantia.</p><p>Diante do caso hipotético, argumente sobre qual tipo de relação jurídica existente,</p><p>justificando a sua resposta.</p><p>5 Hera é divorciada, tem três filhos para sustentar, trabalha como atendente de uma mer-</p><p>cearia e, para complementar sua renda, no período noturno confecciona tortas, doces e</p><p>salgados por encomenda. Acontece que Hera comprou uma batedeira nova para cum-</p><p>prir uma entrega, mas o eletrodoméstico apresentou, logo no primeiro mês de uso, um</p><p>problema no botão de acionamento do aparelho. Diante do ocorrido, Hera procura você,</p><p>advogado, para saber se pode reclamar o vício com base no CDC, uma vez que soube</p><p>que ela não se enquadraria como destinatária final do produto. Nesse sentido, oriente</p><p>Hera sobre a possibilidade de sua relação jurídica ser uma relação de consumo.</p><p>89</p><p>TÓPICO 3 -</p><p>A RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES</p><p>DE CONSUMO</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, no Tópico 3, abordaremos a responsabilidade civil adotada pelo</p><p>Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Em um primeiro momento, discutiremos a relação entre a responsabilidade</p><p>civil disciplinada no Código Civil e a responsabilidade inserida no Código de Defesa</p><p>do Consumidor. Como você irá constatar, a responsabilidade adotada pela norma</p><p>consumerista é a objetiva e solidária, pois responderão, independente de constatação</p><p>de culpa todos os envolvidos na cadeia de fornecimento.</p><p>Após, estudaremos as quatro modalidades de responsabilidade estabelecidas pelo</p><p>Código de Defesa do Consumidor, ou seja, a responsabilidade pelo vício do produto, pelo</p><p>vício do serviço, pelo fato do produto e pelo fato do serviço.</p><p>UNIDADE 2</p><p>2 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO CÓDIGO DE DEFESA</p><p>DO CONSUMIDOR</p><p>Você sabe o que é a responsabilidade civil? Vamos relembrar esse conceito</p><p>visto em Direito Civil. Melo (2015 apud TARTUCE, 2020) define a responsabilidade civil</p><p>como “[...] a obrigação patrimonial de reparar o dano material ou compensar o dano</p><p>moral causado ao ofendido pela inobservância por parte do ofensor de um dever jurídico</p><p>legal ou convencional”.</p><p>Observe que, é o Código Civil de 2002 que regulamenta a matéria sobre</p><p>responsabilidade civil. Esse tema está disciplinado nos Artigos 927 a 954 (responsabilidade</p><p>civil extracontratual), bem como nos Artigos 186 (menciona o ato ilícito) e 187 (que se refere</p><p>ao abuso de direito). Além disso, aquele Código também disciplina, em seus Artigos 389 a</p><p>420, a responsabilidade contratual, responsabilidade esta decorrente do inadimplemento</p><p>das obrigações.</p><p>Ademais, ele também diferencia a responsabilidade objetiva da responsabilidade</p><p>subjetiva. Sendo que a regra no tocante à relação civil é a responsabilidade subjetiva,</p><p>ou seja, aquela em que temos presente o pressuposto da culpa. Para um melhor</p><p>entendimento, convido você a analisar a figura 11.</p><p>90</p><p>FIGURA 11 – RESPONSABILIDADE CIVIL</p><p>FONTE: Adaptado de <https://slideplayer.com.br/slide/3676768/>. Acesso em: 15 nov. 2020.</p><p>Para um conhecimento mais aprofundado do tema de responsabilidade civil, suge-</p><p>rimos consultar a obra de Sérgio Cavalieri Filho, Programa de responsabilidade civil.</p><p>DICA</p><p>FIGURA – LIVRO PROGRAMA DE RESPONSABILIDADE CIVIL</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2JSGOp2>. Acesso em: 1º dez. 2020.</p><p>FONTE: CAVALIERI FILHO, S. Programa de responsabilidade civil. 14. ed. São</p><p>Paulo: Atlas/Gen, 2020.</p><p>Contudo, o Código de Defesa do Consumidor trouxe a superação desse modelo</p><p>dual e unificou a responsabilidade civil, pois para a legislação consumerista, pouco</p><p>importa o fato gerador da responsabilidade, ou seja, se ela decorre do contrato ou não,</p><p>uma vez que o tratamento diferenciado irá se referir apenas aos produtos e serviços</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>91</p><p>O CDC também consagra a regra da responsabilidade objetiva e solidária dos</p><p>fornecedores de produtos e prestadores de serviços, frente aos consumidores, visando</p><p>garantir o princípio da reparação integral dos danos.</p><p>Você lembra que estudamos esse princípio na Unidade 1? O que acha de revisar</p><p>esse princípio?</p><p>Em decorrência desse princípio o consumidor não necessita, ou seja, não tem o</p><p>ônus de provar a culpa dos fornecedores ou prestadores de serviços nas hipóteses de</p><p>vícios ou defeitos dos produtos e serviços.</p><p>Deve ficar claro que a responsabilidade objetiva expressa no CDC é</p><p>especificada naquela norma, não cabendo o debate sobre a existência ou não</p><p>de uma atividade de risco (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>ATENÇÃO</p><p>Filomeno (2014) apresenta alguns aspectos que justificam a responsabilidade</p><p>objetiva prevista no CDC, são elas:</p><p>• produção em massa;</p><p>• vulnerabilidade do consumidor;</p><p>• insuficiência da responsabilidade subjetiva;</p><p>• a existência de antecedentes legislativos, ainda que limitados a certas atividades;</p><p>• o fato de que o fornecedor tem de responder pelos riscos que seus produtos</p><p>acarretam, já que lucra com a venda.</p><p>Contudo, a regra da responsabilidade objetiva não é absoluta na legislação</p><p>consumerista, uma vez que, para os profissionais liberais que prestam serviços se</p><p>aplica a responsabilidade subjetiva, ou seja, eles somente irão responder pelo fato na</p><p>prestação do serviço mediante à comprovação de sua culpa. Entretanto, essas situações</p><p>estudaremos mais adiante.</p><p>A legislação consumerista traz quatro hipóteses de responsabilidade em rela-</p><p>ção ao produto e ao serviço. São elas: responsabilidade pelo vício do produto; respon-</p><p>sabilidade pelo fato do produto; responsabilidade pelo vício do serviço; responsabilidade</p><p>pelo fato do serviço.</p><p>Analisaremos, agora, todas essas hipóteses de responsabilidade envolvendo os</p><p>produtos e os serviços.</p><p>92</p><p>FIGURA 12 – RESPONSABILIDADE CIVIL NO CDC</p><p>FONTE: <https://cadernodatata.com.br/wp-content/uploads/2019/09/21.png>. Acesso em: 15 nov. 2020.</p><p>FIGURA 13 – O QUE SÃO PRODUTOS IMRÓPRIOS PARA CONSUMO?</p><p>FONTE: a autora</p><p>3 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO PRODUTO</p><p>O Art. 18, do CDC, disciplina a responsabilidade civil pelo vício do produto,</p><p>estabelecendo que, quando ocorre a existência de um problema no produto, seja este</p><p>aparente ou oculto os fornecedores destes respondem solidariamente.</p><p>Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis</p><p>respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem</p><p>impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor,</p><p>assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com a indicações constantes</p><p>do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as</p><p>variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das</p><p>partes viciadas (BRASIL, 1990).</p><p>Nessa situação, o vício fica restrito ao produto, ou seja, não há repercussões</p><p>fora deste. Por esse motivo, não há de se falar em responsabilização por outros danos</p><p>materiais, morais ou estético. Agora, quando esse problema torna o produto impróprio</p><p>para o uso ou lhe diminui o valor, a doutrina o chama de vício por inadequação, incidindo</p><p>também, o Art. 18 e seguintes do CDC.</p><p>93</p><p>Os produtos impróprios para uso e consumo estão disciplinados no Art. 18, §</p><p>6°, do CDC. No entanto, temos que interpretar esse rol de forma exemplificativa, isto é,</p><p>podendo ser incluída outras situações que possam tornar o produto impróprio. São eles:</p><p>• Os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos, o que atinge os produtos</p><p>perecíveis adquiridos em mercados e lojas do gênero.</p><p>• Os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados, corrompidos,</p><p>fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com</p><p>as normas regulamentares de fabricação, distribuição ou apresentação.</p><p>• Os produtos que, por qualquer motivo, revelem-se inadequados ao fim a que se</p><p>destinam. Como exemplo, cite-se um brinquedo que pode causar danos às crianças</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Temos que ter cuidado na constatação desse tipo de vício, uma vez que o vício</p><p>do produto não se confunde com as deteriorações normais decorrentes do uso do bem.</p><p>Por isso, Tartuce e Neves (2020) nos lembram que para constatarmos o vício ou</p><p>não, temos que levar em consideração a vida útil do produto que está sendo adquirido.</p><p>Por exemplo, não pode o comprador de um veículo alegar que o pneu está careca após</p><p>cinco anos de uso. Nesse caso, não há vício do produto.</p><p>Vale ressaltar ainda, a existência de responsabilidade solidária entre todos os</p><p>envolvidos com o fornecimento, ou seja, o fabricante, o produtor e o comerciante.</p><p>No que concerne aos vícios de qualidade do produto, o Art. 18, § 1°, do CDC,</p><p>estabelece prazo máximo de 30 dias, a partir da reclamação do consumidor, para que o</p><p>fornecedor resolva o problema referente ao vício do produto.</p><p>Caso o fornecedor não sane o problema dentro desse prazo, o consumidor</p><p>poderá exigir, alternativamente e a sua escolha:</p><p>• A substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de</p><p>uso (Inc. I, § 1°, Art. 18, CDC).</p><p>• a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de</p><p>eventuais perdas e danos (Inc. II, § 1°, Art. 18, CDC).</p><p>• O abatimento proporcional do preço (Inc. III, § 1°, Art. 18, CDC).</p><p>Observe que essa escolha cabe ao consumidor e não ao fornecedor, ou seja, o</p><p>consumidor que deverá optar por uma das alternativas descritas na legislação.</p><p>Agora, quem deve encaminhar o produto para a assistência técnica para que o</p><p>vício seja sanado dentro do prazo de 30 dias, o consumidor ou o fornecedor?</p><p>94</p><p>Na prática, o fornecedor costuma solicitar para que o consumidor entre em contato</p><p>com a assistência técnica. A jurisprudência superior entende que quem tem a opção é o</p><p>consumidor, isto é, ele pode escolher levar o produto ao comerciante, à assistência técnica</p><p>ou ao fabricante, não cabendo ao fornecedor impor-lhe a opção que mais convém.</p><p>Se acontecer de o fornecedor devolver o produto para o consumidor dentro do</p><p>prazo de 30 dias e o vício não tiver sido sanado, será que iniciará a contagem do prazo</p><p>de 30 dias novamente?</p><p>A resposta é não. O Superior Tribunal de Justiça já se posicionou no sentido de</p><p>que, quando houver sucessivas reclamações do mesmo vício do produto, o prazo de 30</p><p>dias será computado de forma corrida, ou seja, sem que haja reinício da contagem de</p><p>prazo toda vez que o produto for entregue ao fornecedor para a resolução de problema</p><p>idêntico, bem como,não haverá a suspensão desse prazo quando o produto for devolvido</p><p>ao consumidor sem o devido reparo (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>A Figura 14, resume a responsabilidade do fornecedor pelo vício do produto.</p><p>FIGURA 14 – RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DO PRODUTO</p><p>FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/2L87xhL>. Acesso em: 16 nov. 2020.</p><p>O Art. 18, § 2°, estabelece que as partes podem convencionar a redução ou ampliação</p><p>do prazo de 30 dias para o fornecedor resolver a reclamação do consumidor, contudo, também</p><p>disciplina que este prazo não pode ser inferior a sete dias e nem superior a 180 dias.</p><p>Quando se tem um contrato de adesão, a cláusula de prazo deve ser</p><p>convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do consumidor.</p><p>Ademais, em algumas situações, o consumidor não necessitará aguardar</p><p>transcorrer o prazo de 30 dias para proceder a escolha estabelecida nos Incisos do</p><p>§1°, do Art. 18, podendo exercer o seu direito de escolha de forma imediata. Vejamos as</p><p>hipóteses mencionadas no Art. 18, § 3°, do CDC.</p><p>95</p><p>• Quando da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder comprometer</p><p>a qualidade ou características do produto. Exemplo: o problema atinge um</p><p>componente eletrônico do smartphone que somente o fabricante poderá substituir.</p><p>• Quando da extensão do vício, a substituição das partes viciadas gerar diminuição</p><p>substancial do valor do produto. Exemplo: o problema atingiu o smartphone e ele</p><p>não funciona mais, tornando-se um bem inútil.</p><p>• Quando se tratar de um produto essencial. Exemplo: veículo que é utilizado para</p><p>trabalho.</p><p>Se o consumidor optar pela substituição do produto por outro (Inc. I, §1º, Art.</p><p>18) e não for possível essa substituição, poderá ocorrer a substituição por outro bem de</p><p>marca, espécie ou modelo diferente, desde que haja complementação ou restituição de</p><p>eventual diferença de preço (Art. 18, § 4º, do CDC).</p><p>Com relação á responsabilidade do fornecedor pelo vício de qualidade do</p><p>produto, a norma consumerista disciplina que no caso de fornecimento de produto in</p><p>natura, o fornecedor imediato será responsável perante o consumidor, exceto quando</p><p>identificado claramente seu produtor.</p><p>Além do vício de qualidade, a norma consumerista também protege o</p><p>consumidor contra os vícios de quantidade, gerando responsabilidade solidária dos</p><p>fornecedores pelos vícios de quantidade do produto sempre que, respeitadas as</p><p>variações decorrentes de sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações</p><p>constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária, nos</p><p>termos do Art. 19, do CDC.</p><p>Podemos citar como exemplo um chocolate que tem menos conteúdo (peso)</p><p>que consta na embalagem; pacote de rolos de papel higiênico com menor metragem</p><p>que o previsto ou, ainda, a situação de uma máquina de lavar roupas que suporta menos</p><p>do que os dez quilos informados (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>O que fazer se constatarmos vícios de quantidade do produto? Quais os direitos</p><p>do consumidor, nesse caso?</p><p>As respostas a esses questionamentos encontram-se disciplinados nos incisos</p><p>do Art. 19 e são muito parecidas com os direitos que o consumidor pode exercer</p><p>quando constada o vício de qualidade do produto, ou seja, o consumidor pode exigir,</p><p>alternativamente, e de acordo com a sua escolha:</p><p>• O abatimento proporcional do preço.</p><p>• A complementação do peso ou medida.</p><p>96</p><p>• A substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo, sem os</p><p>aludidos vícios. Contudo, se não for possível a substituição do bem, o consumidor</p><p>poderá solicitar a substituição do produto, com vício de quantidade, por outro de</p><p>espécie, marca ou modelo diversos, mediante complementação ou restituição de</p><p>eventual diferença de preço (Art. 19, § 1° que manda aplicar o Art. 18, § 4°, do CDC).</p><p>• A restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo</p><p>de eventuais perdas e danos. Nessa alternativa, temos a hipótese de resolução do</p><p>negócio jurídico com a devolução das quantias pagas mais a indenização referente</p><p>a valores que compõem as perdas e danos.</p><p>Visando proteger o consumidor, o Superior Tribunal de Justiça já se posicionou</p><p>no sentido de responsabilizar o fornecedor pelo vício de quantidade, mesmo ocorrendo</p><p>o abatimento do preço do produto quando o fornecedor reduzir o volume da mercadoria</p><p>para quantidade diversa da que habitualmente fornecia no mercado, sem informar na</p><p>embalagem, de forma clara, precisa e ostensiva, a redução da quantidade do produto. Essa</p><p>responsabilização decorre do direito de informação que corresponde a um dos direitos</p><p>básicos do consumidor (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Todavia, você sabe qual o prazo para reclamar os vícios do produto, tanto de</p><p>qualidade quanto de quantidade?</p><p>O prazo para o consumidor reclamar esses vícios é decadencial e está</p><p>estabelecido no Art. 26, do CDC. Você lembra a diferença da prescrição e da decadência?</p><p>Vamos revisar?</p><p>FIGURA – DIFERENÇA ENTRE PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA</p><p>NOTA</p><p>97</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2Xbf3L9>. Aceso em: 17 nov. 2020.</p><p>Quando o vício atingir o fornecimento de produtos não duráveis, que são aqueles</p><p>produtos que desaparecem facilmente com o consumo, como os gêneros alimentícios,</p><p>o prazo será de 30 dias (Art. 26, I, do CDC).</p><p>Quando o vício atingir o fornecimento de produtos duráveis, que são aqueles que</p><p>não desaparecem facilmente com o consumo, como smartphones, veículos, imóveis, entre</p><p>outros, o prazo decadencial é de 90 dias (Art. 26, II, do CDC).</p><p>O prazo disciplinado no Art. 26 é contato em dias e não em meses.</p><p>IMPORTANTE</p><p>A partir de quando inicia a contagem desse prazo?</p><p>Se for um vício aparente, como um amassado na porta de uma geladeira, a</p><p>contagem do prazo iniciará a partir da entrega efetiva do produto ou da tradição real</p><p>dela (Art. 26, §1°, do CDC).</p><p>Se o vício for oculto, como um barulho no motor de um carro que somente</p><p>poderá ser percebido após rodar vários quilômetros, a contagem do prazo iniciará no</p><p>momento em que for evidenciado o problema (Art. 26, §3°, do CDC).</p><p>Em virtude do § 2°, do Art. 26, do CDC, esses prazos podem ser obstados quando:</p><p>• A reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor ao fornecedor, até a</p><p>respectiva resposta, o que deve ocorrer de forma inequívoca.</p><p>• A instauração do inquérito civil pelo Ministério Público até o seu encerramento.</p><p>98</p><p>Para finalizar o estudo a respeito da responsabilidade sobre o vício do produto,</p><p>deve-se ficar claro o que disciplina o Art. 23, do CDC, que enfatiza que a ignorância do</p><p>fornecedor dos vícios de qualidade por inadequação dos produtos não o exime de ser</p><p>responsabilizado.</p><p>4 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO SERVIÇO</p><p>Aqui, abordaremos a responsabilidade civil do fornecedor/prestador de serviço</p><p>pelo vício do serviço. Como já mencionado anteriormente, o vício corresponde a um</p><p>problema que fica restrito a ele.</p><p>FIGURA – DIFERENÇA ENTE VÍCIO E FATO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/33Ari7H>. Acesso em: 25 nov. 2020.</p><p>NOTA</p><p>A regra, nessa situação, é a responsabilidade solidária entre todos os envolvidos,</p><p>ou seja, se o serviço contratado for mal prestado, responderão todos os envolvidos na</p><p>prestação deste. Por exemplo, responderá o franqueado e o franqueador no caso de</p><p>atraso na entrega de um colchão (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>O caput do Art. 2°, do CDC, estabelece que “o fornecedor de serviços responde</p><p>pelos vícios de qualidade que os tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor,</p><p>assim como por aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da</p><p>oferta ou mensagem publicitária”.</p><p>99</p><p>FIGURA 15 – O QUE SÃO SERVIÇOS IMPRÓPRIOS PARA USO E CONSUMO?</p><p>FONTE: A autora</p><p>Encontramos a resposta a esse questionamento no § 2°, do mesmo dispositivo</p><p>(Art. 20), que disciplina que são considerados “[...] impróprios os serviços que se mostrem</p><p>inadequados para os fins que razoavelmente deles se esperam, bem como aqueles que</p><p>não atendam as normas regulamentares de prestabilidade”.</p><p>Observe que, o vício do serviço engloba, também, problemas decorrentes da</p><p>oferta e da publicidade.</p><p>Com relação a essa responsabilidade, podemos citar, a título de exemplo, os</p><p>serviços prestados por mecânicos, encanadores, médicos, dentistas, advogados, entre</p><p>outros, que são mal prestados, além do próprio bem de consumo.</p><p>Quando ocorrer essa má-prestação de serviço, o consumidor que tiver sido</p><p>prejudicado pode exigir, a sua escolha e, alternativamente:</p><p>• A reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível. Por exemplo,</p><p>se o conserto de uma máquina de lavar foi mal feito, poderá ser pleiteado que o</p><p>serviço seja realizado novamente. Ademais, essa reexecução dos serviços poderá</p><p>ser confiada a terceiros devidamente capacitados, por conta e risco do fornecedor,</p><p>conforme inteligência do §1°, Art. 20, do CDC.</p><p>• A restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de</p><p>eventuais perdas e danos.</p><p>• O abatimento proporcional do preço, nos casos em que do serviço se tem menos do</p><p>que se espera.</p><p>Cabe ressaltar que nos casos de serviços que tenham por objeto a reparação ou</p><p>conserto de qualquer produto, devemos considerar implícita a obrigação do fornecedor</p><p>de empregar componentes de reposição originais adequados e novos ou que mantenham</p><p>as especificações técnicas do fabricante, nos termos do Art. 21, do CDC.</p><p>100</p><p>Nunes (2007) entende que, se o prestador do serviço não atender a essa</p><p>determinação, ficará caracterizada a impropriedade do serviço, respondendo esse pelo</p><p>vício. Contudo, se o consumidor, por medida de economia, autorizar, expressamente, a</p><p>reutilização de componentes, a incidência da norma será afastada e prestador não será</p><p>responsabilizado.</p><p>Ainda, no que tange ao vício do serviço, a ignorância do prestador quanto a</p><p>tais problemas na prestação do serviço não o exime da responsabilidade, conforme o</p><p>Art. 23, do CDC.</p><p>Observe que o prestador de serviço tem o dever de prestar um serviço de boa</p><p>qualidade, sendo que a garantia legal de adequação do serviço independe de termo</p><p>expresso, uma vez que esta decorre da própria lei. Por ser uma disposição de ordem</p><p>pública, é vedada a exoneração contratual do prestador, sob</p><p>pena de nulidade das</p><p>cláusulas eventualmente pactuadas (Art. 24, do CDC).</p><p>Por esse motivo, não serão permitidas cláusulas que impossibilitem, exonerem ou</p><p>atenuem a obrigação de indenizar prevista na norma consumerista. Por exemplo, devem</p><p>ser desconsideradas as advertências comunicadas pelas empresas que prestam serviços</p><p>de guarda e estacionamento de veículos de que não se responsabilizam pelos valores ou</p><p>objetos pessoais deixados no interior dos respectivos veículos.</p><p>Tais advertências são consideradas nulas de pleno direito, nos moldes do Art.</p><p>25, o Código de Defesa do Consumidor.</p><p>FIGURA 16 – RESPONSABILIDADE DO PRESTADOR DO SERVIÇO</p><p>FONTE: <https://folhadolitoral.com.br/uploads/editor/files/ARTE(1).jpg>. Acesso em: 18 nov. 2020.</p><p>Se houver mais de um responsável pelo dano causado, todos responderão de</p><p>forma solidária, nos termos do Art. 25, § 1º, do CDC. Além disso, se o dano for causado</p><p>por um componente ou uma peça incorporada ao produto ou serviço, responderão,</p><p>solidariamente, o seu fabricante, construtor ou importador, bem como aquele que</p><p>realizou a incorporação, conforme Art. 25, §2º, do CDC.</p><p>101</p><p>Você sabe qual o prazo para o consumidor reclamar desses vícios? Os prazos</p><p>para reclamação dos vícios do serviço são os mesmo que para reclamação dos vícios do</p><p>produto. Eles encontram-se disciplinados no Art. 26, do CDC.</p><p>Desse modo, teremos 30 dias, no caso de serviços não duráveis, e 90 dias para</p><p>os serviços considerados duráveis, sendo que a contagem iniciará a partir execução do</p><p>serviço, quando se tratar de vício aparente ou do seu conhecimento, quando se tratar</p><p>de vício oculto.</p><p>No entanto, a maior dificuldade é determinar se um serviço é durável ou</p><p>não. Nessa situação, em não ser identificando um ou outro, recomenda-se aplicar a</p><p>interpretação mais favorável ao consumidor em atenção ao princípio do protecionismo</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Para ilustrar, podemos considerar como serviço durável, o conserto de um</p><p>veículo, de um eletrodoméstico, os serviços de construção civil, entre outros. Já, como</p><p>serviço não durável, serviços de dedetização, lavagem de um carro etc.</p><p>Agora, como o consumidor pode realizar a reclamação? É simples, pois ela pode</p><p>ser realizada por telefone, WhatsApp, por meio eletrônico ou verbalmente, desde que o</p><p>consumidor consiga comprovar a realização dela posteriormente (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Após abordarmos a responsabilidade pelo vício do produto e do serviço,</p><p>estudaremos a responsabilidade civil pelo fato do produto.</p><p>5 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO PRODUTO</p><p>(DEFEITO)</p><p>Segundo Nunes (2007), a responsabilidade civil pelo fato do produto, também</p><p>conhecida como defeito, decorre da propagação do vício de qualidade, alcançando</p><p>o consumidor, inclusive terceiro, vítima do evento e supõe a ocorrência de três</p><p>pressupostos: defeito do produto; eventus damni; e relação de causalidade entre</p><p>o defeito e o evento danoso. Observe que o defeito extrapola os limites do produto,</p><p>atingindo o consumidor ou terceiros.</p><p>Nesse sentido, podemos ilustrar algumas situações que são consideradas fato</p><p>do produto e que geram responsabilidade. Uma delas é o defeito no sistema de freio</p><p>de um veículo que causa danos materiais ou pessoais, podendo esses danos atingirem</p><p>o consumidor ou terceiro. Outra situação diz respeito ao defeito na fabricação ou</p><p>montagem de um smartphone que provoca uma explosão.</p><p>A responsabilidade pelo fato do produto está disciplinada no Art. 12 e seguintes</p><p>do CDC. O Art. 12 disciplina que:</p><p>102</p><p>O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o impor-</p><p>tador respondem, independentemente da existência de culpa, pela repa-</p><p>ração dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes</p><p>de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação,</p><p>apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por</p><p>informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.</p><p>Em virtude do fato do produto ou defeito extrapolar os limites do bem, gera-se a</p><p>responsabilidade objetiva direta e imediata do fabricante. Nessa situação, não teremos a</p><p>responsabilidade do comerciante, que somente responderá quando o fabricante, o construtor,</p><p>o produtor ou o importador não puderem ser identificados; quando o produto for fornecido</p><p>sem identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou importador; ou quando este</p><p>não conservar adequadamente os produtos perecíveis, nos termos do Art. 13, do CDC.</p><p>Todavia, a legislação consumerista irá assegurar o direito de regresso daquele</p><p>que ressarciu o dano contra o culpado ou de acordo com as participações para o evento</p><p>danoso (Art. 13, Parágrafo único, do CDC).</p><p>FIGURA 17 – MAPA MENTAL DA RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO PRODUTO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2VpBKuo>. Acesso em: 18 nov. 2020.</p><p>O produto será considerado defeituoso, nos termos do § 1º, Art. 12, quando o</p><p>bem de consumo não oferecer a segurança que dele legitimamente se espera, levando-</p><p>se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais: a sua apresentação;</p><p>o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam; a época em que foi colocado em</p><p>circulação (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Nunes (2007, p. 160, grifos do autor) ainda extrai do caput do Art. 12, três</p><p>modalidades de defeitos dos produtos:</p><p>103</p><p>a) Defeito de concepção, também designado de criação, envolvendo</p><p>os vícios de projeto, formulação, inclusive desing dos produtos.</p><p>b) Defeito de produção, também denominado de fabricação, envol-</p><p>vendo os vícios de fabricação, construção, montagem, manipula-</p><p>ção e acondicionamento dos produtos.</p><p>c) Defeito de informação ou de comercialização, que envolve a</p><p>apresentação, informação insuficiente ou inadequada, inclusive a</p><p>publicidade, elemento faltante do elenco do Art. 12.</p><p>Contudo, o produto não será considerado defeituoso pelo fato de outro de</p><p>melhor qualidade ter sido colocado no mercado (Art. 12, §2º, do CDC), o que ocorre,</p><p>muitas vezes, em virtude das inovações tecnológicas. Por exemplo, o caso de uma</p><p>montadora de automóveis lançar no mercado um veículo com um novo desing não</p><p>significa dizer que o modelo anterior era defeituoso.</p><p>Caso se evidencie o fato do produto ou defeito, o consumidor prejudicado pode</p><p>pleitear uma ação de reparação de danos contra o fornecedor, ou seja, contra o agente</p><p>causador do dano.</p><p>Tal demanda estará sujeira ao prazo prescricional de cinco anos, conforme previsto</p><p>no Art. 27, da norma consumerista. O prazo será contado a partir da ocorrência do evento</p><p>danoso ou do conhecimento de sua autoria, o que por último ocorrer.</p><p>Todavia, apesar da legislação consumerista prever a responsabilidade objetiva,</p><p>esta não deixou de estabelecer algumas hipóteses que mitigam aquela responsabilidade,</p><p>denominadas de excludentes.</p><p>Então, nos termos do § 3°, Art. 12, “o fabricante, produtor, construtor ou</p><p>importador eximir-se-á de responsabilidade quando provar: I - que não colocou o</p><p>produto no mercado; II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito</p><p>inexiste; III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros”.</p><p>Diante dessas hipóteses, podemos mencionar alguns exemplos de causas</p><p>excludentes. Um deles é aquele relacionado ao furto ou ao roubo de produtos defeituosos</p><p>estocados no estabelecimento do fornecedor, onde este é inserido no mercado de</p><p>consumo à revelia do fornecedor.</p><p>Outra situação está relacionada à usurpação do nome, marca ou signo distintivo,</p><p>isto é, com a falsificação do produto. Nesse caso, o fornecedor também será eximido da</p><p>responsabilidade.</p><p>Uma terceira hipótese diz respeito à ausência de defeito, pois se o produto não</p><p>apresentar vício de qualidade, ocorrerá uma ruptura da relação causal que determina o</p><p>dano, ficando, assim, afastada a responsabilidade do fornecedor.</p><p>É importante ressaltar que se o produto for introduzido no mercado de forma</p><p>gratuita, a título de donativos para uma instituição filantrópica ou com objetivos publicitários,</p><p>não exclui a responsabilidade do fornecedor (NUNES, 2007).</p><p>104</p><p>O Inc.</p><p>III, § 3°, do Art. 12, ainda exclui a responsabilidade do fornecedor quando</p><p>a culpa for exclusiva do consumidor ou de terceiros. Assim como nas demais situações,</p><p>cabe ao fornecedor provar essa culpa. Nesse sentido, temos a concessionária que,</p><p>indevidamente, substitui peça de veículo novo sem consultar a montadora.</p><p>Após o estudo dos aspectos relativos ao fato do produto, abordaremos os</p><p>aspectos relativos à responsabilidade civil pelo fato do serviço.</p><p>6 RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO SERVIÇO</p><p>(DEFEITO)</p><p>A responsabilidade civil pelo fato ou defeito do serviço será tratada no Art. 14, da</p><p>norma protetiva. A ocorrência do fato do serviço gerará a responsabilidade civil objetiva</p><p>e solidária entre todos os envolvidos com a prestação, em virtude da presença de outros</p><p>danos além do próprio serviço.</p><p>Em outras palavras, podemos dizer que o fato do serviço extrapola os limites da</p><p>prestação do serviço acarretando outros danos ao consumidor, ou seja, causando um</p><p>acidente de consumo.</p><p>Contudo, para termos a responsabilidade pelo fato ou defeito do serviço,</p><p>temos de observar três pressupostos: defeito do serviço; evento danoso; e relação de</p><p>causalidade entre o defeito do serviço e o dano (NUNES, 2007).</p><p>No que tange ao fato do serviço, ilustramos alguns acidentes de consumo mais</p><p>frequentes, tais como: defeito nos serviços referentes a veículos automotores; defeitos</p><p>nos serviços de guarda e estacionamento de veículos, entre outros.</p><p>Nunes (2007) adverte ainda que o Art. 14, do CDC, também considera defeito</p><p>do serviço e responsabiliza o prestador deste quando os respectivos contratos de</p><p>prestação de serviços ou os meios publicitários não prestarem informações claras e</p><p>precisas a respeito da fruição.</p><p>Da mesma forma, como ocorre com o produto, o serviço será considerado</p><p>defeituoso quando não fornecer a segurança que o consumidor dele pode esperar,</p><p>sempre levando em consideração o modo de seu fornecimento; o resultado e os riscos</p><p>que razoavelmente dele se esperam e a época em que foi fornecido, nos moldes do Art.</p><p>14, § 1°, do CDC.</p><p>Por outro lado, o serviço não será considerado defeituoso pela adoção de novas</p><p>técnicas. Assim, se uma empresa passa a utilizar uma nova técnica para o polimento</p><p>de veículos, isso não quer dizer que há o reconhecimento de que as técnicas utilizadas</p><p>anteriormente eram ruins ou defeituosas (Art. 14, § 2°, do CDC). Da mesma maneira que</p><p>105</p><p>no fato do produto, no defeito do serviço poderá ocorrer causas excludentes. Nesse</p><p>sentido, cabe ressaltar que as causas excludentes de responsabilidade do prestador de</p><p>serviços são as mesmas previstas na hipótese de fornecimento de bens, ou seja, quando</p><p>tendo prestado o serviço, o defeito inexiste ou que a culpa é exclusiva do usuário ou de</p><p>terceiro, conforme disciplina o Art. 14, § 3°, do CDC.</p><p>Nesse caso, um hospital poderá “[...] se eximir da responsabilidade pelo fato do</p><p>serviço, alegando corte de energia elétrica ocorrido durante ou após o ato operatório”,</p><p>porém, jamais quando forem anteriores à prestação do serviço (NUNES, 2007, p. 172).</p><p>No entanto, a responsabilização objetiva é relativizada quando temos a</p><p>prestação de serviço realizada por profissionais liberais, pois o Art. 14, § 4°, do CDC,</p><p>determina que “a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada</p><p>mediante a verificação de culpa”.</p><p>Assim, os profissionais liberais somente serão responsabilizados por danos</p><p>quando ficar demonstrada a ocorrência de culpa subjetiva, ou seja, constatando,</p><p>imperícia, negligência ou imprudência. Observe que essa é a única exceção ao sistema</p><p>da responsabilidade civil objetiva instituída pelo CDC.</p><p>Essa exceção no tratamento está diretamente ligada ao motivo desses serviços</p><p>serem contratados com a natureza intuitu personae, isto é, natureza pessoal, pautados</p><p>na confiança que esses profissionais passam para os seus clientes (GARCIA, 2016). Nery</p><p>Júnior (1999 apud GARCIA, 2016, p. 184) caracteriza o profissional liberal como sendo:</p><p>O não empregado, aquele que trabalha por conta própria, seja em</p><p>profissão de nível universitário ou não, exercendo atividade científica</p><p>ou artística. É geralmente autônomo, exercendo sua atividade por livre</p><p>opção e havendo faculdade na sua escolha pelo cliente. Para que o</p><p>profissional seja considerado liberal, não deve exercer sua atividade</p><p>mediante vínculo empregatício, com subordinação hierárquica. Não são</p><p>profissionais liberais as empresas ou pessoas jurídicas em geral, ainda</p><p>que explorem serviços de procuração judicial, medicina, engenharia</p><p>etc., como hospitais, casas de saúde, empreiteiras, construtoras,</p><p>escolas etc. A relação de consumo é celebrada com profissional liberal,</p><p>para efeitos do CDC, Art. 14, § 4°, se o for intuitu personae.</p><p>Por esse motivo, se o consumidor buscar a empresa onde esse profissional</p><p>liberal presta o serviço, a responsabilidade pelos danos, que porventura vierem a ser</p><p>causados ao consumidor, será objetiva, não incidindo, nessa situação, a regra do § 4°,</p><p>do Art. 14, do CDC (GARCIA, 2016).</p><p>106</p><p>FIGURA 18 – RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO SERVIÇO</p><p>FONTE: Adaptada de Silva (2019, p. 8)</p><p>O prazo prescricional para o exercício da pretensão reparatória por danos</p><p>causados aos consumidores decorrentes do defeito na prestação do serviço é de cinco</p><p>anos, segundo estabelece o Art. 27, da norma consumerista.</p><p>Finalizando o estudo das situações específicas de responsabilidade civil</p><p>nas relações de consumo, abordaremos, na Unidade 3, a vinculação do fornecedor</p><p>quanto a oferta; as práticas e cláusulas abusivas; os bancos de dados e cadastro de</p><p>consumidores, bem como as sanções administrativas disciplinadas pelo Código de</p><p>Defesa do Consumidor.</p><p>107</p><p>O DANO PELO TEMPO PERDIDO PELO CONSUMIDOR: CARACTERIZAÇÃO,</p><p>CRITÉRIOS DE REPARAÇÃO E AS POSIÇÕES DO STJ</p><p>Laís Gomes Bergstein</p><p>Cláudia Lima Marques</p><p>Aos consumidores por vezes se impõe uma verdadeira via crucis para a resolução</p><p>de problemas resultantes de uma relação de consumo. Em algum momento as "idas e</p><p>vindas" do consumidor extrapolam o limite do razoável, justificando o deferimento da</p><p>verba indenizatória pelo tempo perdido.</p><p>A reparação por dano moral não se destina a confortar os percalços da vida</p><p>comum. É natural que surjam problemas nas relações entre consumidores e fornecedores,</p><p>pois a técnica e a tecnologia não alcançam a perfeição. Para a caracterização do</p><p>dever de indenizar, sobretudo os danos extrapatrimoniais, é preciso que seja feito um</p><p>juízo de ponderação, analisando-se a legislação vigente, as circunstâncias de fato e,</p><p>principalmente, a conduta do fornecedor.</p><p>Ao estabelecer, no país, uma teoria da qualidade e da segurança dos produtos e</p><p>serviços, o Código de Defesa do Consumidor estipulou critérios claros para a resolução de</p><p>problemas de consumo. Cite-se, por exemplo, o prazo de 30 dias concedido ao fornecedor</p><p>para sanar o vício (Art. 18, § 1°, CDC), aplicável sempre que não se tratar de produto</p><p>essencial e quando a substituição das partes viciadas não comprometer a qualidade e as</p><p>características do produto ou não lhe diminuir o valor.</p><p>Primando pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de</p><p>qualidade, segurança, durabilidade e desempenho (Art. 4º, II, d, CDC), a legislação</p><p>estabelece como princípios da Política Nacional das Relações de Consumo a</p><p>harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo com base na</p><p>boa-fé e no equilíbrio e atribui ao consumidor os direitos básicos à efetiva prevenção e</p><p>à reparação integral de danos (Art. 6º, VI, CDC).</p><p>No entanto, a despeito dos padrões estabelecidos pela legislação, o que se</p><p>observa em inúmeras situações é um abuso do direito por parte do fornecedor, que procura</p><p>transferir integralmente ao consumidor o ônus da sua atividade econômica. Não são</p><p>poucas, lamentavelmente, as infrações ao Decreto do SAC, por exemplo, ou as negativas de</p><p>resolução dos defeitos de produtos ou serviços em tempo razoável.</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>108</p><p>Aos consumidores por vezes se impõe uma</p><p>verdadeira via crucis para a resolução</p><p>de problemas resultantes de uma relação de consumo. Em algum momento as "idas e</p><p>vindas" do consumidor extrapolam o limite do razoável, justificando o deferimento da</p><p>verba indenizatória pelo tempo perdido. Essa avaliação é necessariamente casuística e</p><p>deve ser pautada nas regras de experiência.</p><p>Pouco depois de se multiplicarem as leis municipais e estaduais estabelecendo</p><p>um limite de tempo para espera nas agências bancárias, o STJ firmou o entendimento</p><p>de que "a espera por atendimento em fila de banco quando excessiva ou associada a</p><p>outros constrangimentos, e reconhecida faticamente como provocadora de sofrimento</p><p>moral, enseja condenação por dano moral." Rapidamente, percebeu-se que a espera</p><p>excessiva também pode ser entendida como um desses elementos ensejadores do</p><p>dever de indenizar pelas consequências naturais de um elevado tempo de espera.</p><p>Desde então a preocupação do Tribunal da Cidadania com a proteção do</p><p>tempo do consumidor cresceu, tendência que destacamos por ocasião da mudança</p><p>do entendimento do STJ acerca da responsabilidade do comerciante. Nesse cenário,</p><p>duas recentes decisões do Superior Tribunal de Justiça se destacaram ao discutirem,</p><p>novamente, os danos resultantes da longa espera em filas bancárias.</p><p>A primeira delas foi o julgamento realizado pela Terceira Turma em 5/2/2019, de</p><p>relatoria da ministra Nancy Andrighi, no qual se reconheceu que o "máximo aproveita-</p><p>mento do tempo" é um interesse coletivo tutelado pelo ordenamento jurídico e que "a per-</p><p>da injusta e intolerável do tempo do consumidor", que ocorre "pelo desrespeito voluntário</p><p>das garantias legais [...] com o nítido intuito de otimizar o lucro em prejuízo da qualidade</p><p>do serviço" constitui "ofensa aos deveres anexos ao princípio da boa-fé" e enseja a conde-</p><p>nação em danos morais coletivos. Trata-se da primeira decisão colegiada reconhecendo</p><p>expressamente o cabimento da Teoria do Desvio Produtivo do Consumidor, que no Tribu-</p><p>nal de Justiça de São Paulo tem sido bem denominada de Teoria do Tempo Perdido.</p><p>Reconheceu-se, no caso, que a violação aos deveres de qualidade no atendi-</p><p>mento impostos pela legislação "infringe valores essenciais da sociedade e possui [...] os</p><p>atributos da gravidade e intolerabilidade, não configurando mera infringência à lei ou ao</p><p>contrato". Merece destaque a passagem da decisão que visa proteger o consumidor com</p><p>menor grau de instrução, sensível à realidade de que "a prestação inadequada dos servi-</p><p>ços de atendimento em caixas presenciais, com qualidade e desempenho insatisfatórios,</p><p>não é suprimida pelo oferecimento de meios virtuais de autoatendimento bancário (inter-</p><p>net e caixas eletrônicos), pois, como reconhecido pelo próprio recorrido, 'quase todos os</p><p>atos da vida civil dependem de alguma forma do serviço bancário' [...], e, somente, em</p><p>sua maioria, 'os que possuem maior grau de instrução optam pelo autoatendimento' [...]".</p><p>A tutela coletiva não se confunde, não afasta e não obsta o exercício da tutela</p><p>individual, pois ambas adotam enfoques necessariamente diferentes. Por meio da tutela</p><p>coletiva o alcance da proteção é maior porque se difunde nos mercados, especialmente</p><p>109</p><p>quando a decisão é revestida de uma natureza estrutural, com perspectiva de futuro,</p><p>que impõe obrigações de fazer visando ao aperfeiçoamento das práticas comerciais e</p><p>do atendimento aos consumidores.</p><p>Poucos dias depois da publicação do acórdão, a Quarta Turma do STJ (que</p><p>também tem um importante histórico de defesa dos consumidores, a exemplo do caso-</p><p>líder Panasonic ou do reconhecimento da nulidade da cláusula que limitava a cobertura</p><p>securitária ao furto qualificado) analisou a mesma questão da espera excessiva em filas</p><p>bancárias, mas sob a perspectiva individual.</p><p>O recente julgado, de relatoria do Min. Luis Felipe Salomão, repetiu o já conhecido</p><p>entendimento de que a simples invocação de legislação municipal que estabelece tempo</p><p>máximo de espera em fila de banco não é suficiente para ensejar o direito à indenização.</p><p>A notícia do julgamento (o acórdão ainda não foi publicado) revela, todavia, o pensamento</p><p>compartilhado pelo relator durante a seção de que "no exame de causas que compõem</p><p>o fenômeno processual da denominada litigância frívola, o magistrado deve tomar em</p><p>consideração que, assim como o direito, o próprio Judiciário pode afetar de forma clara</p><p>os custos das atividades econômicas, ao não apreciar detidamente todas as razões e os</p><p>fatos da causa". Essa reflexão considera um ponto relevante na defesa dos consumidores,</p><p>que é o efeito de repasse ou de diluição dos custos correspondentes a determinado direito</p><p>ou entendimento jurisprudencial por meio dos preços. Por outro lado, a fala gerou certa</p><p>insegurança devido à aparente sinalização de que a Quarta Turma, diferentemente do que</p><p>fez a Terceira, não reconheceria que o tempo é, hoje, um bem jurídico digno de tutela.</p><p>O Direito não é um produto pronto e acabado, não é dado, certo e delimitado,</p><p>mas um constante construir e reconstruir sobre novas bases, pois os valores sociais</p><p>alteram-se com o tempo. E chegou o momento de se reconhecer que o tempo é um</p><p>novo valor, digno de tutela jurídica.</p><p>Comparativamente, lembra-se que o mesmo tipo de resistência enfrentou</p><p>o instituto da perda de uma chance e até mesmo o dano moral, até a sua expressa</p><p>inscrição no texto constitucional, em 1988. Como conclui René Ariel Dotti, ao citar o</p><p>que chama de barreira togada, "não é mais possível a indefinição judicante para negar</p><p>o direito à indenização pela perda do tempo provocada ilicitamente pelo fornecedor,</p><p>assim como ocorria antes da Constituição de 1988 relativamente ao reconhecimento do</p><p>dano moral e sua indenização.</p><p>O Código de Defesa do Consumidor estabelece como princípio da Política</p><p>Nacional das Relações de Consumo o incentivo à criação pelos fornecedores de meios</p><p>eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços (Art. 4, V, do</p><p>CDC), buscando assegurar aos consumidores o respeito a sua dignidade, saúde e</p><p>segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de</p><p>vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo. Busca-se, com</p><p>isso, o equilíbrio entre as partes nas relações de consumo, inclusive no que concerne</p><p>110</p><p>à distribuição do tempo. Além disso, conforme já mencionamos, o Art. 6º, VI, do CDC</p><p>institui como direito básico dos consumidores a efetiva prevenção e a efetiva reparação</p><p>dos danos causados pelos fornecedores de produtos e serviços.</p><p>A natureza e o papel da cultura de massas ignoram o indivíduo na medida em que</p><p>buscam moldá-lo a um papel pré-formatado, à revelia das suas características particula-</p><p>res. A massificação da oferta de produtos e serviços, ainda que aparentemente persona-</p><p>lizada, na verdade segue sempre um mesmo roteiro. Como afirma Edgar Morin, "a técnica</p><p>transforma as relações entre os homens e as relações entre o homem e o mundo; ela</p><p>objetiva, racionaliza, despersonaliza". Impera, nesse contexto, uma cultura de menospre-</p><p>zo aos interesses pessoais em favor do aumento dos resultados nos mercados, por vezes</p><p>contrariamente à legislação. O menosprezo ao consumidor é observado nos casos de</p><p>fornecedores que ignoram as reclamações ou não lhe prestam informações adequadas,</p><p>claras e tempestivas, seja por uma padronização excessiva do modelo de atendimento ou</p><p>pela falta de investimentos na ampliação e na qualificação dos SACs.</p><p>O menosprezo reside na desvalorização, no desrespeito, na falta de consideração,</p><p>no menoscabo do tempo e dos esforços travados pelo consumidor dentro de uma relação</p><p>jurídica de consumo, em qualquer de suas fases, seja para resolução de um vício do</p><p>produto ou do serviço, seja para compreender as instruções técnicas inadequadamente</p><p>apresentadas, por exemplo. O desrespeito voluntário às garantias legais revela-se,</p><p>igualmente, quando o tempo utilizado pelo fornecedor para a adoção de uma diligência</p><p>é desproporcional em relação a sua complexidade.</p><p>E o efeito</p><p>dessa prática, que caracteriza o abuso do direito pelo fornecedor, é</p><p>perverso nos mercados. Não são raros os casos de consumidores que simplesmente</p><p>desistem de reivindicar direitos resultantes de contratações malsucedidas em face dos</p><p>enormes obstáculos para contatar os fornecedores. Sopesando custo e benefício do</p><p>tempo e do esforço necessários para a resolução do problema enfrentado, o consumidor</p><p>por vezes desiste da reivindicação não atendida. E ao fazer a escolha de valorizar o</p><p>seu próprio tempo, o consumidor assume um prejuízo patrimonial que competiria ao</p><p>fornecedor, ou seja, um risco inerente à sua própria atividade econômica.</p><p>Para a aferição do dano pelo tempo perdido nas relações de consumo é preciso ob-</p><p>servar o controle pelo fornecedor do planejamento na cadeira produtiva. Os investimentos</p><p>na cadeia produtiva são sempre planejados, controlados pelo fornecedor. E a falta de inves-</p><p>timentos também é planejada. Entre as diferenças entre o tempo do consumidor e o tempo</p><p>do fornecedor está a constatação de que "a 'perda' ou o desvio do tempo do fornecedor é</p><p>valorado como custo ou ônus econômico", de tal forma que "informar detalhadamente o</p><p>consumidor é 'custo', cooperar com o consumidor durante a execução dos contratos é 'ônus</p><p>profissional', elaborar um sistema pós-contratual que evite danos ao consumidor, organi-</p><p>zando um SAC efetivo, uma rede de assistência técnica capilarizada, é 'custo'”.</p><p>111</p><p>O menosprezo ao tempo do consumidor não é um aborrecimento tolerável, o</p><p>pedido de compensação pelo tempo indevidamente perdido não constitui "litigância</p><p>frívola", mas sim uma reação à abusiva e planejada estratégia comercial de desobediência</p><p>aos padrões de qualidade impostos pela legislação para maximizar o lucro e os</p><p>resultados. Opera-se com as falhas do sistema, com a falta de fiscalização e com as</p><p>enormes dificuldades impostas ao consumidor para a efetividade do seu direito: os</p><p>pequenos danos aos consumidores tornam-se grandes ganhos para os fornecedores. E</p><p>com esse tipo de estratégia o Poder Judiciário não pode compactuar!</p><p>A postura recalcitrante das instituições bancárias em face da excessiva demora</p><p>no atendimento ao consumidor (como bem reconheceu o Min. Herman Benjamin)</p><p>não pode ser premiada com a conclusão de que gera mero aborrecimento individual</p><p>ou desconforto que não enseja o dever de indenizar o consumidor individualmente</p><p>atingido. A reparação dos danos morais nessa hipótese não é um desvirtuamento da</p><p>finalidade do instituto, tampouco gera enriquecimento sem causa ao consumidor (posto</p><p>que foi, de fato, vítima de uma má prestação dos serviços), mas um remédio à violação</p><p>dos deveres legais de garantia da qualidade impostos pelo CDC.</p><p>A passagem do tempo deveria ser favorável ao consumidor, sujeito vulnerável e</p><p>constitucionalmente protegido em suas relações com os fornecedores, mas a sociedade</p><p>de massas muitas vezes traz como efeito o fato de o tempo perdido pelo outro ser</p><p>menosprezado, considerado um aborrecimento que deve ser tolerado. Certamente</p><p>não é isso! O tempo é tema de suma importância para a pessoa humana, o seu dano</p><p>é juridicamente valorável e economicamente quantificável, o tempo do consumidor</p><p>compõe o dano ressarcível nas relações jurídicas de consumo, assim como os danos</p><p>psicológicos e os contratempos (plenamente evitáveis) de nossa sociedade atual.</p><p>Se o consumidor foi menosprezado, desrespeitado, se teve a sua legítima</p><p>expectativa de bom atendimento frustrada, e o fornecedor poderia ter evitado o dano</p><p>com a implementação de mecanismos para aumentar a segurança ou a agilidade no</p><p>atendimento, mas incorreu no "desrespeito voluntário das garantias legais", é imputável</p><p>a responsabilidade pelo prejuízo resultante do tempo indevidamente perdido.</p><p>Isso não ocorrerá, por outro lado, se o fornecedor conseguir comprovar a</p><p>incidência no caso de uma das excludentes de responsabilidade previstas nos Artigos 12,</p><p>§ 3º, e 14, § 3º, do CDC. Por exemplo, ainda que tenha havido um atraso inesperado no</p><p>cumprimento da solicitação do consumidor, se não houve falta de diligência ou de atenção</p><p>do fornecedor à pontual demanda (não se trata, portanto, de uma forma ou estratégia de</p><p>atuação) ou se não havia outra conduta possível para o fornecedor no caso concreto,</p><p>devido à comprovada inexistência de mecanismos para aprimorar o atendimento naquela</p><p>circunstância, não restará caracterizada a falha do fornecedor. Citem-se, como exemplo,</p><p>os episódios de desastres naturais ou outras catástrofes, os deslizamentos massivos de</p><p>terra ou as grandes enchentes com danos a unidades residenciais e comerciais – em tais</p><p>situações o atraso da prestação é inevitável e dá ensejo à exclusão de responsabilidade</p><p>pela inexigibilidade de conduta diversa do fornecedor.</p><p>112</p><p>A doutrina recomenda que "o ideal, para efeito de reparação integral do dano,</p><p>é que cada uma das modalidades de prejuízo extrapatrimonial seja indenizada de</p><p>forma autônoma. Não apenas alcança-se um ressarcimento mais completo do dano</p><p>efetivamente sofrido, como também se estabelece, com maior precisão, a avaliação</p><p>concreta dos prejuízos”. A individualização de cada modalidade de dano extrapatrimonial</p><p>na construção do valor indenizatório – dentre elas o dano pelo tempo perdido –, além</p><p>de dar maior concretude ao direito à efetiva reparação de danos, pode contribuir</p><p>significativamente para a prevenção de novos danos, na medida em que o ofensor</p><p>teria, com o mapeamento realizado na decisão judicial, condições reais de investir na</p><p>reestruturação da sua cadeia produtiva, a fim de evitar a repetição de uma ou várias</p><p>falhas que tenham sido apontadas pelo julgador.</p><p>O Superior Tribunal de Justiça tem a importante missão de zelar pela efetividade</p><p>dos direitos à efetiva prevenção e à efetiva reparação de danos, pela tutela dos agentes</p><p>vulneráveis e pelo equilíbrio nas relações de consumo. A interpretação a ser dada à lei não</p><p>deve servir para "redesequilibrar" a relação de consumo impondo direitos que obstem o</p><p>exercício da atividade econômica, mas para assegurar a harmonização dos interesses</p><p>de todos os seus partícipes, até mesmo porque se sabe que "todo custo da proteção ao</p><p>consumidor pode ser, em última instância, transferido ao próprio consumidor”.</p><p>É preciso lembrar que as "regras do jogo não são para acabar com ele, mas</p><p>para permitir que se desenvolva, a partir do movimento dos envolvidos" e que o</p><p>investimento em qualidade nos atendimentos reverte-se em boa reputação e na</p><p>fidelização da clientela, algo que as melhores empresas atuantes nos mercados já</p><p>perceberam há muito tempo.</p><p>A jurisprudência que pouco a pouco se forma em prol da garantia dos produtos e</p><p>serviços com padrões adequados de qualidade, segurança, durabilidade e desempenho</p><p>– tal como prevê o Art. 4º, II, d, do CDC – contribui para a incorporação do papel do Direito</p><p>do Consumidor ao comportamento empresarial. A concentração não é apenas no valor</p><p>(quantificação) "do tempo do consumidor", mas na programação, no planejamento, no</p><p>controle exercido pelos fornecedores que permite não cumprir com seus deveres de boa-</p><p>fé de prevenir, cooperar e reparar os danos causados aos consumidores (fundamento</p><p>do dever de reparar, Haftungsgrundlage). É preciso superar definitivamente a cultura do</p><p>menosprezo e da desconsideração do tempo do outro, iniciar um novo ciclo de respeito</p><p>pelos interesses essenciais e existenciais dos agentes vulneráveis nos mercados por</p><p>meio da evolução das práticas comerciais.</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3FEDBS9>. Acesso em: 1° dez. 2020.</p><p>113</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A responsabilidade civil do Código de Defesa do Consumidor é diferente da</p><p>responsabilidade civil inserida no Código Civil.</p><p>• O Código de Defesa do Consumidor estabelece quatro tipos de responsabilidade:</p><p>a responsabilidade pelo vício do produto; a responsabilidade pelo vício do serviço;</p><p>a responsabilidade pelo fato do produto; e a responsabilidade pelo fato do serviço.</p><p>• A responsabilidade pelo</p><p>vício fica restrita a problemas com o produto ou serviço. Já,</p><p>a responsabilidade pelo fato, também chamada de defeito, extrapola os limites do</p><p>produto ou do serviço contratado, gerando, muitas vezes, um acidente de consumo.</p><p>• Em regra, a responsabilidade civil disciplinada pelo Código de Defesa do Consumidor</p><p>será solidária e objetiva.</p><p>• A exceção à regra da responsabilidade objetiva será a responsabilidade do</p><p>profissional liberal pelo fato (defeito) do serviço, uma vez que esta será subjetiva, ou</p><p>seja, mediante apuração de culpa.</p><p>• O prazo para reclamar os vícios do produto ou do serviço é de 90 dias para bens</p><p>duráveis e 30 dias para bens não duráveis.</p><p>• O prazo para ingressar com ação de reparação pelos danos causados pelo fato do</p><p>produto ou do serviço prescreve em cinco anos.</p><p>114</p><p>1 Visconde de Sabugosa colidiu com seu veículo e necessitou de reparos na lataria e na</p><p>pintura. Para tanto, procurou, por indicação de Emília, os serviços da Oficina Mecânica</p><p>Sítio do Pica-Pau Amarelo, oportunidade na qual lhe foi ofertado orçamento escrito,</p><p>válido por 15 dias, com o valor da mão de obra e dos materiais a serem utilizados</p><p>na realização do conserto do automóvel. Visconde de Sabugosa, na certeza da boa</p><p>indicação, contratou pela primeira vez a Oficina. Diante da situação hipotética,</p><p>considerando as regras do Código de Proteção e Defesa do Consumidor, assinale a</p><p>afirmativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Segundo a lei do consumidor, o orçamento tem prazo de validade obrigatório de dez</p><p>dias, contados do seu recebimento pelo consumidor Visconde de Sabugosa. Logo,</p><p>no caso, somente durante esse período a Oficina Mecânica Sítio do Pica-Pau Amarelo</p><p>estará vinculada ao valor orçado.</p><p>b) ( ) A lei consumerista considera prática abusiva a execução de serviços sem a prévia</p><p>elaboração de orçamento, o que pode ser feito por qualquer meio, oral ou escrito,</p><p>exigindo-se, para sua validade, o consentimento expresso ou tácito do consumidor.</p><p>c) ( ) Uma vez aprovado o orçamento pelo consumidor, os contraentes estarão</p><p>vinculados, sendo correto afirmar que Visconde de Sabugosa não responderá por</p><p>quaisquer ônus ou acréscimos no valor dos materiais orçados; contudo, ele poderá</p><p>vir a responder pela necessidade de contratação de terceiros não previstos no</p><p>orçamento prévio.</p><p>d) ( ) Se o serviço de pintura contratado por Visconde de Sabugosa apresentar vícios</p><p>de qualidade, é correto afirmar que ele terá tríplice opção, a sua escolha, de exigir</p><p>da oficina mecânica: a reexecução do serviço sem custo adicional; a devolução de</p><p>eventual quantia já paga, corrigida monetariamente ou o abatimento do preço de</p><p>forma proporcional.</p><p>2 Ares adquiriu um veículo fabricado pela Olimpo Motors S.A. e vendido pela concessionária</p><p>local, Atenas Concessionária de Veículos Ltda. Quando já decorrido seis meses da</p><p>aquisição, houve sério problema (oculto) no sistema de freios, problema este decorrente</p><p>da fabricação do veículo, ocasionando o capotamento do veículo em rodovia, causando</p><p>lesões a dois passageiros do veículo e ao adquirente, que era condutor na ocasião.</p><p>Diante da situação hipotética, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- Para a pretensão de reparação de danos causados às vítimas do acidente, aplica-se o</p><p>prazo decadencial de 90 dias, mas este prazo somente se inicia no momento em que</p><p>ficou evidenciado o defeito, ou seja, na data do acidente.</p><p>II- Aplica-se o prazo prescricional de cinco anos para a pretensão de reparação pelos</p><p>danos causados no acidente.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>115</p><p>III- Para os efeitos e aplicação do Código de Defesa do Consumidor, na situação hipotética</p><p>descrita, são considerados consumidores, além do adquirente do veículo, todas as</p><p>vítimas do evento (consumidores por equiparação).</p><p>IV- A concessionária de veículos, Atenas Concessionária de Veículos Ltda., é solidariamente</p><p>responsável com o fabricante Olimpo Motors S.A. pelos danos causados às vítimas da</p><p>situação hipotética, por se configurar a responsabilidade por fato do produto.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As sentenças III e IV estão corretas.</p><p>c) ( ) As sentenças II e III estão corretas.</p><p>d) ( ) As sentenças I e IV estão corretas.</p><p>3 No caso das relações consumeristas, a decadência atinge o direito de reclamar, ante</p><p>o fornecedor, quanto ao defeito do produto ou do serviço. Já a prescrição afeta a</p><p>pretensão de ingressar em juízo buscando uma reparação oriunda de danos causados</p><p>pelo fato do produto ou do serviço. Diante disso, assinale a alternativa CORRETA,</p><p>quanto à decadência e à prescrição nas relações de consumo.</p><p>a) ( ) Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial não está sujeito à caducidade.</p><p>b) ( ) A contagem do prazo decadencial inicia-se sempre a partir da aquisição do</p><p>produto.</p><p>c) ( ) Obsta a decadência a instauração de inquérito civil, com termo final no pedido</p><p>inicial de diligências realizado pelo Ministério Público.</p><p>d) ( ) O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em</p><p>90 dias, tratando-se de produtos ou serviços de qualquer natureza.</p><p>e) ( ) Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por</p><p>fato do produto ou do serviço, iniciando-se a contagem do prazo a partir do</p><p>conhecimento do dano e de sua autoria.</p><p>4 Perséfone adquiriu diretamente pelo site da fabricante o creme depilatório “Pelos</p><p>nunca mais”, da empresa Olimpo Cosméticos Ltda. Antes de iniciar o uso, Perséfone leu</p><p>atentamente o rótulo e as instruções. Assim que iniciou a aplicação, Perséfone sentiu</p><p>queimação na pele e removeu imediatamente o produto, mas, ainda assim, sofreu</p><p>lesões nos locais de aplicação. Diante disso, Perséfone procura você, advogado, para</p><p>saber como deverá proceder. Em virtude da situação hipotética, informe à Perséfone</p><p>qual o tipo de responsabilidade, bem como quem é responsável pelo dano causado e</p><p>quais os direitos dela.</p><p>116</p><p>5 Selene adquiriu um aparelho de televisão da loja Atenas Eletrodomésticos Ltda. A</p><p>televisão foi entregue no mesmo dia. Ao receber o aparelho, Selene constatou que</p><p>ele não ligava. Ocorre que, no mesmo dia da constatação do problema, sua mãe</p><p>foi internada e Selene somente entrou em contato com a loja para reclamar quatro</p><p>meses após a constatação do problema. Ao entrar em contato com a loja, ela informou</p><p>que decaiu o direito de Selene reclamar. Diante dessa informação, Selene procura</p><p>você, advogado, para saber se a informação da loja procede e o que ela poderá</p><p>fazer a respeito. Nesse sentido, oriente Selene sobre os seus questionamentos,</p><p>argumentando e fundamentando a sua resposta no dispositivo legal.</p><p>117</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALEXANDRINO, M.; PAULO, V. Direito administrativo. 3. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2020.</p><p>ALMEIDA, F. B. Direito do consumidor esquematizado. 7. ed. São Paulo: Saraiva</p><p>Educação, 2019.</p><p>BESSA, L. Fornecedor equiparado. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo, v. 16, n.</p><p>61, p. 126-141, jan./mar. 2007.</p><p>BOLZAN, F. Direito do consumidor esquematizado. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2014.</p><p>BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso especial 1.580.432. Relator Ministro</p><p>Marco Buzzi, Brasília, 4 fev. 2019. Disponível em: https://stj.jusbrasil.com.br/</p><p>jurisprudencia/671909396/recurso-especial-resp-1580432-sp-2012-0177028-0/</p><p>relatorio-e-voto-671909443. Acesso em: 9 dez. 2020.</p><p>BRASIL, Supremo Tribunal de Justiça. Jurisprudência em teses: ed. nº 74. Brasília,</p><p>DF: Superior Tribunal de Justiça, [2017]. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/docs_</p><p>internet/jurisprudencia/jurisprudenciaemteses/Jurisprudencia%20em%20Teses%20</p><p>74%20-%20Direito%20do%20Consumidor%20III.pdf. Acesso em: 9 dez. 2020.</p><p>BRASIL, Supremo Tribunal de Justiça. Jurisprudência em teses: ed. nº 68. Brasília,</p><p>DF: Superior Tribunal de Justiça, [2016]. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/docs_</p><p>internet/jurisprudencia/jurisprudenciaemteses/Jurisprudencia%20em%20Teses%20</p><p>74%20-%20Direito%20do%20Consumidor%20III.pdf. Acesso em: 9 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso ordinário em</p><p>FENÔMENOS CONTRATUAIS: UMA VISÃO</p><p>MAIS FAVORÁVEL AO CONSUMIDOR .............................................................................123</p><p>3 O DIREITO DE ARREPENDIMENTO NAS RELAÇÕES DE CONSUMO .............................128</p><p>4 GARANTIA LEGAL E GARANTIA CONTRATUAL ............................................................132</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................................136</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 137</p><p>TÓPICO 2 - ABUSOS NA RELAÇÃO CONSUMERISTA E SUAS CONSEQUÊNCIAS ..........139</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................139</p><p>2 PROTEÇÃO QUANTO A OFERTA NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ..............139</p><p>3 A PUBLICIDADE NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ...................................... 144</p><p>4 PRÁTICAS ABUSIVAS E CLÁUSULAS ABUSIVAS NA LEGISLAÇÃO CONSUMERISTA .........150</p><p>4.1 AS PRÁTICAS ABUSIVAS NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR..................................150</p><p>4.2 AS CLÁUSULAS ABUSIVAS NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ............................ 156</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................159</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................160</p><p>TÓPICO 3 - AS COBRANÇA DE DÍVIDAS E A PROTEÇÃO ADMINISTRATIVA DO</p><p>DIREITO DO CONSUMIDOR ............................................................................163</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................163</p><p>2 COBRANÇA DE DÍVIDAS E REPETIÇÃO DE INDÉBITO .................................................163</p><p>3 BANCO DE DADOS E CADASTRO DE CONSUMIDORES ................................................166</p><p>3.1 CADASTRO DE FORNECEDORES E PRESTADORES DE SERVIÇO: UMA ANÁLISE</p><p>DO ART. 44 DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ........................................................... 170</p><p>3.2 CADASTRO POSITIVO ...................................................................................................................... 170</p><p>4 SANÇÕES ADMINISTRATIVAS IMPOSTAS PELO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ....171</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................... 175</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 181</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................182</p><p>REFERÊNCIAS ....................................................................................................................185</p><p>1</p><p>UNIDADE 1 -</p><p>ASPECTOS</p><p>INTRODUTÓRIOS DO</p><p>DIREITO DO CONSUMIDOR</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• compreender a evolução histórica da proteção ao consumidor;</p><p>• discutir o movimento consumerista mundial e nacional;</p><p>• identificar os fundamentos constitucionais do direito do Consumidor e do Código de</p><p>Defesa do Consumidor;</p><p>• refletir sobre a aplicação da Teoria do Diálogo das Fontes e o Código de Defesa do</p><p>Consumidor;</p><p>• identificar os princípios presentes no Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS DOS CONSUMIDORES</p><p>TÓPICO 2 – O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E SEUS FUNDAMENTOS</p><p>CONSTITUCIONAIS</p><p>TÓPICO 3 – O DIÁLOGO DAS FONTES E OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS QUE</p><p>NORTEIAM O DIREITO DO CONSUMIDOR</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>2</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 1!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>3</p><p>EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS</p><p>DOS CONSUMIDORES</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Ao longo do tempo, observamos uma preocupação em garantir os direitos</p><p>dos consumidores por serem a parte fraca da relação de consumo, uma vez que se</p><p>encontram à mercê dos fornecedores e do mercado.</p><p>Com a modificação do sistema produtivo, a partir da Revolução Industrial,</p><p>ocorrida na Europa, nos séculos XVIII e XIX, as indústrias massificaram a sua produção e,</p><p>consequentemente, deixaram de lado a preocupação com a qualidade e com a divulgação/</p><p>publicidade dos produtos, expondo o consumidor à vários riscos.</p><p>Tal situação, nos levam a refletir sobre essas mudanças e a suas consequências</p><p>na vida da sociedade, pois a sociedade de consumo, ao contrário do que se pregava</p><p>com a Revolução Industrial, não trouxe apenas benefícios para os seus atores.</p><p>Por esse motivo, acadêmico, no Tópico 1, abordaremos a evolução da proteção</p><p>do consumidor ao longo da história da humanidade, bem como o desenvolvimento dos</p><p>movimentos consumeristas, tanto mundial quanto nacional, uma vez que estes tinham</p><p>em comum objetivo de lutar pela efetivação da proteção ao consumidor de forma ampla.</p><p>TÓPICO 1 - UNIDADE 1</p><p>2 A EVOLUÇÃO DO DIREITO DO CONSUMIDOR AO LONGO</p><p>DA HISTÓRIA</p><p>A preocupação com a proteção do consumidor não é algo novo, pois ela vem</p><p>sendo garantida ao longo da história.</p><p>No Código de Hamurabi, escrito por volta de 1.780 a. C., na dinastia do rei Hamurabi,</p><p>por exemplo, já encontrávamos essa proteção de forma indireta, responsabilizando</p><p>certos prestadores de serviços, como arquitetos, médicos e construtores de barcos, por</p><p>vícios ou acidentes decorrentes dos serviços.</p><p>4</p><p>O rei Hamurabi, foi o sexto rei da Babilônia (atual Iraque) e fundador do 1º Império da</p><p>Babilônia. Seu reinado foi importante, pois unificou o mundo mesopotâmico, unindo os</p><p>sumérios e os semitas. E seu nome está diretamente ligado a um dos códigos jurídicos mais</p><p>antigos da humanidade, o Código de Hamurabi, escrito por volta de 1.780 a. C.</p><p>NOTA</p><p>FIGURA – MAPA DA BABILÔNIA NO TEMPO DO REI HAMURABI</p><p>FONTE: <https://bit.ly/35aaqW7>. Acesso em: 20 set. 2020.</p><p>FIGURA – CÓDIGO DE HAMURABI EXPOSTO NO MUSEU DO LOUVRE</p><p>FONTE: <https://bit.ly/38aY3ek>. Acesso em: 20 set. 2020.</p><p>O Código de Hamurabi possui 282 leis que foram talhadas em uma rocha de diorito negro,</p><p>com 2,25 metros de altura e, atualmente, está exposto no Museu do Louvre, em Paris.</p><p>As leis talhadas no Código de Hamurabi disciplinavam a sociedade da época, pois</p><p>tratavam de diversos assuntos, tais como: classes sociais, responsabilidade,</p><p>comércio, propriedade, família, pena de morte, entre outros. No entanto, não</p><p>eram leis equitativas, pois sua aplicação variava se o indivíduo era libre, homem ou</p><p>mulher, servo ou escravo.</p><p>5</p><p>FIGURA 1 – LEIS ESCRITAS NO CÓDIGO DE HAMURABI</p><p>FONTE: <http://www.ebanataw.com.br/roberto/pericias/codigohamurabi01.jpg>. Acesso em: 20 set. 2020.</p><p>A responsabilização inserida no Código de Hamurabi implicava em punições</p><p>severas, como a pena de morte para o responsável ou uma pena capital. A título de</p><p>exemplo, tem-se o Art. 233, do Código, que mencionava que se um determinado arquiteto</p><p>se compromete a construir uma casa e não entregava a obra ou esta possuía algum vício,</p><p>ele deveria reparar os danos causados a sua custa.</p><p>Além disso, ele também era responsabilizado com sua vida, ou seja, com a pena</p><p>de morte, caso ocorresse o desabamento da obra e esse acidente causasse a morte do</p><p>proprietário (Art. 229), ou pagava com a morte de seu filho, caso o acidente vitimasse o</p><p>filho do proprietário (Art. 230).</p><p>Da mesma forma, temos relatos de regras protecionistas indiretas no Código</p><p>de Manu, no século XIII, a. C., na Índia. O sagrado código previa multa e punição, bem</p><p>como indenização por meio de ressarcimento para aqueles que adulterassem gêneros</p><p>ou entregassem coisa de espécie inferior daquelas pactuadas</p><p>mandado de segurança</p><p>27.512. Relator Ministra Nancy Andrighi, Brasília, 23 set. 2009. Disponível em: https://stj.</p><p>jusbrasil.com.br/jurisprudencia/6031597/recurso-ordinario-em-mandado-de-seguranca-</p><p>rms-27512-ba-2008-0157919-0/inteiro-teor-12160609. Acesso em: 9 dez. 2020.</p><p>BRASIL, Supremo Tribunal de Justiça. Súmula nº 297. O Código de Defesa do Consumidor</p><p>é aplicável às instituições financeiras. Brasília, DF: Superior Tribunal de Justiça, [2004].</p><p>Disponível em: https://scon.stj.jus.br/SCON/sumstj/toc.jsp. Acesso em: 9 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso especial 519.310. Relator Ministra</p><p>Nancy Andrighi, Brasília, 24 maio 2004. Disponível em: https://stj.jusbrasil.com.br/</p><p>jurisprudencia/19618527/recurso-especial-resp-519310-sp-2003-0058088-5-stj.</p><p>Acesso em: 9 dez. 2020</p><p>118</p><p>BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível</p><p>em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em:</p><p>1º dez. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 8.245, de 18 de outubro de 1991. Dispõe sobre as locações dos imóveis</p><p>urbanos e os procedimentos a elas pertinentes. Disponível em: http://www.planalto.gov.</p><p>br/ccivil_03/leis/l8245.htm. Acesso em: 1º dez. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do</p><p>consumidor e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/leis/l8078compilado.htm. Acesso em: 20 set. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 7.783, de 28 de junho de 1989. Dispõe sobre o exercício do direito de</p><p>greve, define as atividades essenciais, regula o atendimento das necessidades inadiáveis</p><p>da comunidade, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/leis/l7783.HTM. Acesso em: 14 nov. 2020.</p><p>BRASIL [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de</p><p>1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: http://www.planalto.</p><p>gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 1º dez. 2020.</p><p>CAVALIERI FILHO, S. Programa de direito do consumidor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2019.</p><p>FILOMENO, J. G. B. Curso fundamental de direito do consumidor. 3. ed. São Paulo: Atlas,</p><p>2014.</p><p>GARCIA, L. M. Código de defesa do consumidor comentado: artigo por artigo. 13. ed.</p><p>Salvador: JusPODIVM, 2016.</p><p>GOMES, O. Contratos. 27 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.</p><p>MARQUES, C. L.; BESSA, L. R.; BENJAMIN, A. H. de V. Manual de direito do consumidor.</p><p>8. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017.</p><p>MIRAGEM, B. Curso de direito do consumidor. 6. ed. São Paulo: Editora Revista dos</p><p>Tribunais, 2016.</p><p>NUNES, L. A. R. Curso de direito do consumidor. 12 ed. São Paulo: Saraiva Educação,</p><p>2018.</p><p>NUNES, L. A. R. Comentários ao código de defesa do consumidor. 3. ed. São Paulo:</p><p>Saraiva, 2007.</p><p>119</p><p>SILVA, A. C. S. L. da. Revisão 360º OAB. Salvador: Brasil Jurídico, 2019. (Apostila). Disponível</p><p>em: https://anaclarasuzart.com.br/wp-content/uploads/2019/10/ REVIS% C3%83O-360-</p><p>XXX-OAB-DIREITO-DO-CONSUMIDOR.pdf. Acesso em: 1º dez. 2020.</p><p>TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito material e</p><p>processual. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2020.</p><p>TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito material e</p><p>processual. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2019.</p><p>120</p><p>121</p><p>PROTEÇÃO DO DIREITO DO</p><p>CONSUMIDOR QUANTO ÀS</p><p>PRÁTICAS ABUSIVAS</p><p>UNIDADE 3 —</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• analisar a proteção contratual nas relações de consumo;</p><p>• diferenciar a garantia legal da garantia contratual;</p><p>• compreender a proteção quanto à oferta e à publicidade nas relações consumerista;</p><p>• estudar as cláusulas e práticas abusivas disciplinadas no Código de Defesa do</p><p>Consumidor;</p><p>• analisar a proteção administrativa do Direito do Consumido.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – PROTEÇÃO CONTRATUAL PELO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR</p><p>TÓPICO 2 – ABUSOS NA RELAÇÃO CONSUMERISTA E SUAS CONSEQUÊNCIAS</p><p>TÓPICO 3 – AS COBRANÇA DE DÍVIDAS E A PROTEÇÃO ADMINISTRATIVA DO DIREITO DO</p><p>CONSUMIDOR</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>122</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 3!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>123</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>PROTEÇÃO CONTRATUAL PELO CÓDIGO</p><p>DE DEFESA DO CONSUMIDOR</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, no Tópico 1, analisaremos a interpretação dos contratos à luz do</p><p>Código de Defesa do Consumidor, pois, com a transformação da sociedade, temos</p><p>uma mudança nas relações jurídicas que geram fenômenos complexos necessitando</p><p>proteger a parte vulnerável da relação de consumo que, nesse caso, é o consumidor.</p><p>Após, discutiremos o direito que o consumidor possui de refletir melhor sobre</p><p>as compras realizadas fora do estabelecimento empresarial, denominado de direito de</p><p>arrependimento, cabendo ao consumidor, decidir se quer continuar com o contrato de</p><p>consumo ou se quer rescindi-lo.</p><p>Para finalizar este tópico, discutiremos a diferença entre a garantia legal e</p><p>a garantia contratual também denominada de garantia convencional, bem como</p><p>analisaremos seus elementos, requisitos e prazos.</p><p>2 A INTERPRETAÇÃO DOS NOVOS FENÔMENOS</p><p>CONTRATUAIS: UMA VISÃO MAIS FAVORÁVEL AO</p><p>CONSUMIDOR</p><p>Podemos afirmar que o contrato é o instituto mais importante do Direito Privado,</p><p>uma vez que possui grande repercussão no meio social. Por esse motivo, a interpretação</p><p>do contrato deve sempre respeitar a sua função social, visando garantir o equilíbrio das</p><p>relações contratuais, em especial, as consumeristas.</p><p>À medida que a sociedade se transforma, as relações jurídicas também mudam,</p><p>em especial, as contratuais, dando origem a fenômenos complexos, tais como: conexão</p><p>contratual, contratos eletrônicos, contratos de longa duração, entre outros, sendo que,</p><p>a maioria deles, convergem para uma relação de consumo, incidindo, assim, o Código de</p><p>Defesa do Consumidor (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Com relação aos contratos conexos, estes refletem a nova realidade social.</p><p>Entende-se por contratos conexos aqueles que são interligados por um ponto de</p><p>convergência, isto é, por um ponto comum, podendo ser direto ou indireto.</p><p>124</p><p>Essa nova modalidade contratual estará presente, por exemplo, quando ocorre a</p><p>rescisão contratual de um contrato de compra e venda de automóvel firmado entre o con-</p><p>sumidor e a concessionária, em virtude de um vício na qualidade do produto. Digamos que</p><p>esse consumidor, no momento da aquisição do veículo, firmou contrato de arrendamento</p><p>mercantil. Nessa situação, diante do vício de qualidade do produto (veículo) deverá ser</p><p>rescindido, também, o contrato de arrendamento mercantil do veículo defeituoso entabu-</p><p>lado com a instituição financeira pertencente ao mesmo grupo econômico da montadora,</p><p>ou seja, o banco da montadora de veículo. Tal entendimento foi publicado no Informativo</p><p>nº 554, do Superior Tribunal de Justiça (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Nesse caso, entende-se que a instituição financeira não atua somente como</p><p>entidade que concede financiamento ao consumidor para aquisição de um determinado</p><p>bem, mas ela atua como banco da montadora, ou seja, integra o mesmo grupo</p><p>econômico que lucra com a venda do bem, fazendo parte da cadeia de fornecimento</p><p>e, automaticamente, sendo responsável solidária por qualquer vício de qualidade do</p><p>produto, conforme dispõe o Art. 18 do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Devemos observar que os contratos conexos ou coligados devem ser interpretados,</p><p>levando em consideração a sua finalidade e, em especial, o princípio da função social dos</p><p>contratos, conforme estabelece o Enunciado nº 621, da VIII Jornada de Direito Civil, realizada</p><p>em 2018, em que consta que “Os contratos coligados devem ser interpretados a partir do</p><p>exame do conjunto das cláusulas contratuais,</p><p>de forma a privilegiar a finalidade negocial</p><p>que lhes é comum” (BRASIL, 2018).</p><p>Os contratos digitais ou eletrônicos são celebrados, em sua maioria, através</p><p>da rede mundial de computadores. A maioria deles versam sobre relações de consumo</p><p>e, por esse motivo, incidem o Código de Defesa do Consumidor. Com a pandemia da</p><p>Covid-19, o comércio eletrônico cresceu significativamente, aumentando, na mesma</p><p>proporção, os contratos digitais. Tais contratos podem ser realizados por qualquer meio</p><p>digital, sendo o mais comum, a utilização de aplicativos de celulares.</p><p>Outra espécie de contrato que vem ganhando relevo são os contratos de</p><p>longa duração. Essa relação contratual se consolida com o tempo, em decorrência da</p><p>fidelidade estabelecida.</p><p>Tartuce e Neves (2020) entendem que essas relações contratuais são</p><p>oriundas da contratação de massa, por meio de contratos de adesão. São exemplos</p><p>dessa nova modalidade de contrato, os contratos entre as instituições financeiras e</p><p>os correntistas mantidos há muito tempo, os contratos de telefonia, os contratos de</p><p>energia elétrica, entre outros.</p><p>Observem que esses contratos envolvendo relações consumeristas trazem à</p><p>tona situações existenciais das partes contratantes e, por essa razão, devem ser in-</p><p>terpretados de maneira mais favorável a parte vulnerável da relação de consumo, ou</p><p>125</p><p>seja, dos consumidores, visando proteger, de forma individual, a dignidade humana</p><p>e, de modo coletivo, os interesses difusos e coletivos, efetivando, assim, a função</p><p>social do contrato.</p><p>Vamos recapitular o que é a função social do contrato?</p><p>FIGURA – FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO</p><p>FONTE: <https://player.slideplayer.com.br/1/290281/data/images/img33.png>.</p><p>Acesso em: 12 dez. 2020.</p><p>NOTA</p><p>Diante disso, a I Jornada de Direito Civil, aprovou o Enunciado n° 23, dispondo</p><p>que “a função social do contrato, prevista no Art. 421 do novo Código Civil, não elimina</p><p>o princípio da autonomia contratual, mas atenua ou reduz o alcance desse princípio</p><p>quando presentes interesses metaindividuais ou interesse individual relativo à dignidade</p><p>da pessoa humana” (BRASIL, 2002).</p><p>Para que essa efetivação da função social dos contratos se consolide nas relações</p><p>consumerista, é necessário a manutenção do equilíbrio contratual, vedando a onerosidade</p><p>excessiva e o enriquecimento sem causa, pois uma relação contratual que onera a parte</p><p>vulnerável da relação descumpre o seu papel social, necessitando a intervenção estatal</p><p>para restabelecer o equilíbrio (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>Observem que, um dos direitos básicos do consumidor é a revisão contratual</p><p>por fato superveniente, que se encontra disciplinado pelo Art. 6°, V do Código de Defesa</p><p>do Consumidor, “Art. 6º São direitos básicos do consumidor: [...] V – a modificação das</p><p>cláusulas contratuais que estabelecem prestações desproporcionais ou sua revisão em</p><p>razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas” (BRASIL, 1990).</p><p>126</p><p>O que é fato superveniente? É um fato que não estava presente na relação</p><p>contratual original, ou seja, um fato novo que se estabeleceu na relação</p><p>consumerista.</p><p>NOTA</p><p>Além disso, a legislação consumerista mitiga, ou seja, torna mais branda, a força</p><p>obrigatória dos contratos, ou seja, a pacta sunt servanda.</p><p>FIGURA – CONCEITO DE PACTA SUNT SERVANDA</p><p>FONTE: <https://slideplayer.com.br/slide/344802/>. Acesso em: 12 dez. 2020</p><p>NOTA</p><p>A própria legislação de consumo disciplina que os contratos consumeristas não</p><p>obrigam os consumidores. O Art. 46, da Lei n° 8.078/1990, estabelece que:</p><p>Os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão</p><p>os consumidores, se não lhes for dada a oportunidade de tomar</p><p>conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos</p><p>instrumentos forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de</p><p>seu sentido e alcance (BRASIL, 1990).</p><p>Tartuce e Neves (2020) entendem que a interpretação desse dispositivo deve</p><p>se dar em conjunto com o Art. 51, XV, do CDC, que estabelece como abusiva qualquer</p><p>cláusula contratual que infrinja o sistema de proteção do consumidor. Para ilustrar,</p><p>podemos citar o exemplo de um consumidor que contrata um determinado empréstimo</p><p>bancário com uma instituição financeira. Se a instituição financeira não deixar claro para</p><p>o consumidor a respectiva taxa de juros estipulada no contrato bancário, essa cláusula</p><p>não obrigará o consumidor, ou seja, ela não terá incidência.</p><p>Ademais, pode ocorrer a não vinculação do consumidor nas cláusulas</p><p>incompreensíveis, isto é, aquelas que possuem problemas sérios de reação, muitas</p><p>vezes, visando ludibriar o consumidor.</p><p>127</p><p>Por esse motivo, as cláusulas devem ser elaboradas e redigidas para que qualquer</p><p>pessoa (brasileiro médio) possa compreender o que está escrito e, consequentemente,</p><p>o que está contratando.</p><p>Ainda, no que tange a interpretação dos contratos de forma favorável ao consu-</p><p>midor, a legislação consumerista é clara, consagrando a máxima in dubio pro consumidor.</p><p>O Art. 47 do Código de Defesa do Consumidor preconiza que “as cláusulas contratuais</p><p>serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor” (BRASIL, 1990). Tal man-</p><p>damento busca proteger o consumidor que é a parte vulnerável da relação de consumo.</p><p>FIGURA 1 – NA PRÁTICA, COMO ISSO ACONTECE?</p><p>FONTE: A autora</p><p>Para ilustrar, imaginemos que você contrata um serviço de reparo elétrico, em</p><p>que o contrato traz expressamente dois preços, um valor fixo e outro de acordo com</p><p>a complexidade do trabalho do eletricista. Diante do princípio da vulnerabilidade do</p><p>consumidor, na relação de consumo, valerá a menor renumeração, não comportando</p><p>qualquer discussão para afastar essa proteção.</p><p>Na jurisprudência, vários são os exemplos de aplicação da regra do Art. 47, do</p><p>CDC, ou seja, da premissa mais favorável ao consumidor. Muitos desses casos dizem</p><p>respeito à contratação de planos de saúde, cujo ente estatal (judiciário) determina</p><p>coberturas negadas injustificadamente pelas prestadoras de serviço de seguro</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>Além do princípio da função do contrato utilizado na interpretação dos contratos de</p><p>consumo, visando a proteção do consumidor, também temos a boa-fé objetiva, que constitui</p><p>outro pular fundamental do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>O Art. 48, da legislação protecionista preconiza que “As declarações de vontade</p><p>constantes de escritos particulares, recibos e pré-contratos relativos às relações de</p><p>consumo vinculam o fornecedor, ensejando inclusive execução específica, nos termos</p><p>do Art. 84 e parágrafos” (BRASIL, 1990). Observem que, o legislador inclui o respeito ao</p><p>princípio da boa-fé objetiva em todas as fases contratuais, isto é, nas fases pré-contratual,</p><p>contratual e pós-contratual.</p><p>128</p><p>Até porque, o desrespeito a esse princípio ensejará aplicação de medidas de</p><p>tutela específicas que se encontram disciplinadas no Art. 84 do Código de Defesa do</p><p>Consumidor, inclusive com a possibilidade de fixação de astreintes.</p><p>FIGURA – ASTREINTES</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2LoSPCV>. Acesso em: 13 dez. 2020.</p><p>NOTA</p><p>Após analisar a interpretação dos contratos de consumo voltada à proteção</p><p>do consumidor. Iremos discutir o direito de arrependimento nos contratos de consumo</p><p>estabelecido pelo Art. 49, da Lei n° 8.078/1990.</p><p>3 O DIREITO DE ARREPENDIMENTO NAS RELAÇÕES DE</p><p>CONSUMO</p><p>O direito de arrependimento nas relações de consumo está disciplina no Art. 49</p><p>do Código de Defesa do Consumidor, que preconiza:</p><p>Art. 49 – o consumidor pode desistir do contrato, no prazo de sete</p><p>dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto</p><p>ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e</p><p>serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por</p><p>telefone ou em domicílio.</p><p>Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento</p><p>previsto neste artigo, os valores eventualmente pagos, a qualquer</p><p>título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato,</p><p>monetariamente atualizados (BRASIL, 1990).</p><p>129</p><p>Esse prazo estabelecido pela legislação consumerista</p><p>para que o consumidor</p><p>reflita sobre sua aquisição, constitui-se em um direito potestativo. Vamos relembrar a</p><p>conceituação de direito potestativo?</p><p>O direito potestativo é um direito que não enseja contestação. É a prerrogativa</p><p>jurídica de impor a outra pessoa o exercício de um direito legítimo.</p><p>NOTA</p><p>Será que para exercer esse direito o consumidor deve justificar o seu</p><p>arrependimento? A resposta é não. Como é um exercício de um direito legítimo, resta</p><p>ao fornecedor ou prestador do serviço acatar a vontade do consumidor. Tal exercício</p><p>não enseja qualquer direito de indenização por perdas e danos a favor do fornecedor</p><p>(CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>Observe que a finalidade da norma é a proteção do consumidor sempre que</p><p>este realizar uma compra/aquisição fora do estabelecimento empresarial. Atualmente,</p><p>houve uma modificação na forma de aquisição de produtos e contratação de serviços,</p><p>uma vez que o consumidor não necessita mais sair de casa para realizar as suas compras</p><p>ou contratar os serviços. Como menciona Cavalieri Filho (2019), hoje os produtos é que</p><p>se deslocam para os locais onde o consumidor se encontra e não o contrário.</p><p>Temos que levar em conta que a menção feita no final do Art. 49, do CDC,</p><p>sobre as vendas via telefone, é meramente exemplificativa. Nesse sentido, o direito de</p><p>arrependimento abrange todo o sistema de vendas externas, independente do meio</p><p>utilizado, podendo ser realizada por um vendedor externo que vai até a residência do</p><p>consumidor ou via internet, via aplicativo, entre outros.</p><p>Até porque, devemos considerar que quando o Código de Defesa do Consumidor</p><p>foi editado, lá nos anos 1990, a internet, no Brasil, estava em estágio inicial. Hoje, ela é</p><p>a responsável pelo desenvolvimento tecnológico e científico em nível mundial. Com a</p><p>facilidade oferecida pela internet, podemos adquirir produtos de várias partes do mundo,</p><p>com apenas um “click”. Por esse motivo, a internet se tornou o principal meio de vendas</p><p>fora do estabelecimento empresarial, conforme podemos visualizar no Gráfico 1.</p><p>130</p><p>GRÁFICO 1 – EVOLUÇÃO DO E-COMMERCE DE 2011 A 2019</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3hZjDGc>. Acesso em: 13 dez. 2020.</p><p>Cavalieri Filho (2019) pontua que o marketing digital que busca atingir o maior</p><p>número de consumidores nas vendas fora do estabelecimento empresarial é muito</p><p>agressivo e cria necessidades artificiais de algo que, muitas vezes, o consumidor não</p><p>precisa, tanto assim que ele não saiu de casa para adquirir o produto ou contratar o</p><p>serviço. Diante desses fatos, o direito de arrependimento nas relações de consumo é de</p><p>suma importância.</p><p>Ele dá uma oportunidade para o consumidor refletir, calmamente, sobre a sua</p><p>compra ou a contratação de um determinado serviço, podendo este ficar com o bem</p><p>adquirido ou com o serviço contratado ou desistir da compra ou contratação por impulso</p><p>independentemente de qualquer justificativa (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>Tartuce e Neves (2020) pontuam que o debate ao exercício do direito de</p><p>arrependimento e a aplicação do Art. 49 do Código de Defesa do Consumidor, não é</p><p>unânime na jurisprudência, pois algumas decisões têm afastado a incidência da legislação</p><p>consumerista para as compras de passagens aéreas pela internet ou por qualquer outro</p><p>meio de comunicação a distância, pautado no entendimento de que o consumidor, ao</p><p>adquirir essas passagens, possui consciência do que está adquirindo.</p><p>Com relação ao direito de arrependimento, devemos atentar para o fato de que</p><p>a norma consumerista somente se aplica as vendas realizadas fora o estabelecimento</p><p>empresarial, não tendo subsunção o Art. 49, do CDC, para as situações de venda realizada</p><p>no estabelecimento comercial, com a presença física do consumidor. Contudo, na prática,</p><p>constatamos que há um costume das empresas trocarem produtos, especialmente</p><p>quando o consumidor adquire um produto para dar de presente a outrem ou quando</p><p>compram determinado produto e este não lhe serve. Essa prática, no entanto, consiste</p><p>em uma mera gentileza por parte do fornecedor, visando manter o bom relacionamento</p><p>com a clientela fidelizando, assim, o cliente.</p><p>131</p><p>FIGURA 2 – TROCA DE PRODUTOS</p><p>FONTE: <https://bit.ly/35AShkP>. Acesso em: 14 dez. 2020.</p><p>Uma questão muito importante do direito de arrependimento diz respeito ao</p><p>início da contagem do prazo, ou seja, quando inicia a contagem do prazo para essa</p><p>reflexão?</p><p>O Código de Defesa do Consumidor disciplina que o prazo começa a contar a partir</p><p>da assinatura do contrato ou do ato de recebimento do produto ou serviço, dependendo do</p><p>caso concreto. Entende-se então que, quando se tratar de um contrato que não importe</p><p>a entrega posterior do produto ou do serviço, como é o caso de uma assinatura de TV a</p><p>cabo, esta contagem inicia a partir da assinatura do contrato. Já, para aqueles contratos</p><p>que dependem de entrega posterior do produto ou serviço, como é o caso da compra de</p><p>um aparelho celular pela internet, a contagem do prazo começa a correr a partir do efetivo</p><p>recebimento deste produto.</p><p>Como nós, consumidores, exercemos esse direito de arrependimento? Segundo</p><p>Cavalieri Filho (2019), a manifestação do arrependimento, no prazo legal, pode ser</p><p>realizada por qualquer meio, porém, o consumidor deve ter a cautela de poder provar</p><p>esse exercício, caso se faça necessário. O consumidor poderá se valer dos mesmos</p><p>meios que utilizou para a contratação.</p><p>Após exercido o direito de arrependimento, o Parágrafo único, do Art. 49, do CDC,</p><p>estabelece que o consumidor será restituído, imediatamente, de todos os valores pagos,</p><p>atualizados monetariamente, incluindo todas as despesas que dispendeu para a devolução</p><p>do produto.</p><p>Então você pode estar se perguntando, mas como fica o fornecedor do produto ou</p><p>o prestador do serviço nessa situação? Tais prejuízos serão suportados pelo fornecedor</p><p>ou prestador do serviço, uma vez que essa situação faz parte do seu negócio.</p><p>132</p><p>Contudo, temos que deixar claro que a boa-fé objetiva deve estar presente para</p><p>o exercício do direito de arrependimento por parte do consumidor, uma vez que este</p><p>não pode agir no exercício deste direito em abuso, desrespeito a boa-fé objetiva e a</p><p>função social do contrato (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Vamos recapitular o que é boa-fé objetiva? A boa-fé objetiva, nas relações de</p><p>consumo, impõem o dever de agir com lealdade e cooperação, abstendo-se</p><p>de qualquer conduta desleal.</p><p>NOTA</p><p>Após concluída a abordagem do direito de arrependimento a favor do</p><p>consumidor, estudaremos a garantia legal e a garantia contratual estabelecidas pelo</p><p>Código de Defesa do Consumidor.</p><p>4 GARANTIA LEGAL E GARANTIA CONTRATUAL</p><p>Outro instrumento que visa proteger o consumidor é a chamada garantia de</p><p>adequação do produto ou serviço que está disciplinada no Art. 24 do Código de Defesa do</p><p>Consumidor, “A garantia legal de adequação do produto ou serviço independe de termo</p><p>expresso, vedada a exoneração contratual do fornecedor” (BRASIL, 1990).</p><p>FIGURA 3 – O QUE SE ENTENDE POR GARANTIA LEGAL DE ADEQUAÇÃO</p><p>FONTE: A autora</p><p>Para responder a esse questionamento, Cavalieri Filho (2019) argumenta que é</p><p>necessário levar em consideração outras questões que estão diretamente relacionadas,</p><p>como: a) distinção entre prazo de garantia, prazo prescricional e prazo decadencial; b)</p><p>responsabilidade sobre o fato e vício do produto e do serviço; c) distinção entre vício aparente</p><p>e vício oculto; e d) distinção entre produto e serviço não durável e produto e serviço durável.</p><p>133</p><p>Primeiro, vamos conceituar a garantia de adequação. Garantia de adequação</p><p>está relacionada à qualidade esperada de um determinado produto ou serviço para</p><p>atingir o fim a que se destina. Essa qualidade é medida pela durabilidade, desempenho</p><p>e segurança apresentado pelo produto ou serviço (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>O prazo da garantia de adequação visa proteger o consumidor contra os defeitos</p><p>relacionados aos vícios do produto ou serviço, quer sejam aparentes ou ocultos. Não</p><p>podemos confundir o prazo da garantia de adequação com o prazo decadencial</p><p>(prazo</p><p>que o consumidor tem para reclamar os vícios) ou prescricional, uma vez que estes</p><p>prazos são distintos e com finalidades diferentes (CAVALIERI FILHO, 2019). O prazo legal</p><p>de garantia inicia-se com a entrega do bem de consumo e tem por limite a vida útil do</p><p>produto ou do serviço, ou seja, o tempo razoável de durabilidade do bem, considerando</p><p>a sua qualidade, durabilidade e tempo de utilização (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>Como os produtos e serviços possuem uma durabilidade variada e nem duram</p><p>eternamente, o reconhecimento da vida útil de cada produto ou serviço deverá ser</p><p>verificada no caso concreto, contudo, o fator tempo sempre será determinante.</p><p>Em virtude de a lei não determinar expressamente os prazos para a garantia</p><p>legal, utilizou-se, de forma interpretativa, os prazos descritos no Art. 26, do CDC, ou</p><p>seja, no caso de produtos duráveis, o prazo será de 90 dias e o prazo para produtos não</p><p>duráveis será de 30 dias (TARTUCE; NUNES, 2020).</p><p>A garantia legal é obrigatória, uma vez que decorre do Código de Defesa do</p><p>Consumidor, ela não precisa ser expressa, bem como é vedada a sua exoneração por</p><p>parte do fornecedor ou do prestador de serviço. Além da garantia legal, a legislação</p><p>consumerista também estabelece a possibilidade de o fornecedor oferecer a garantia</p><p>convencional ou contratual. A garantia contratual está disciplinada no Art. 50, do Lei nº</p><p>8.078/1990 que estabelece:</p><p>Art. 50 – A garantia contratual é complementar à legal e será conferida</p><p>mediante termo escrito.</p><p>Parágrafo único. O termo de garantia ou equivalente deve ser</p><p>padronizado e esclarecer, de maneira adequada em que consiste a</p><p>mesma garantia, bem como a forma, o prazo e o lugar em que pode ser</p><p>exercitada e os ônus a cargo do consumidor, devendo ser-lhe entregue,</p><p>devidamente preenchido pelo fornecedor, no ato do fornecimento,</p><p>acompanhado de manual de instrução, de instalação e uso do produto</p><p>em linguagem didática, com ilustrações (BRASIL, 1990).</p><p>Ao contrário da garantia legal que é obrigatória, a garantia convencional é uma</p><p>faculdade do fornecedor ou prestador de serviços, ou seja, ela pode ser fornecida ou não</p><p>pelo fornecedor ou prestador. A garantia contratual será complementar à garantia legal,</p><p>isto é, será um “plus”, um acréscimo, para o consumidor.</p><p>134</p><p>A garantia convencional, quando fornecida, deverá ser concedida, por escrito, em</p><p>termo expresso, que é denominado como termo de garantia. Seu prazo será estipulado</p><p>pelo fornecedor ou prestador de serviço, sendo que ela, muitas vezes, será fator de</p><p>competitividade do produto ou serviço no mercado. Um exemplo de garantia convencional</p><p>é a garantia concedida por uma determinada montadora de veículos que determina que</p><p>seus automóveis terão garantia de cinco anos.</p><p>O termo de garantia deve ser padronizado, completo e preciso, bem como</p><p>informar, de maneira adequada, o consumidor do que consiste a garantia, o prazo, a forma</p><p>e o lugar em que pode ser exercitada e os ônus que serão suportados pelo consumidor,</p><p>respeitando o princípio da transparência e da informação (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Nunes (2018) pontua o caráter complementar da garantia contratual em relação</p><p>à legal, sendo que interpretação indica a soma dos prazos (garantia legal + garantia</p><p>convencional).</p><p>O Superior Tribunal de Justiça publicou na ferramenta Jurisprudência em Teses,</p><p>em setembro de 2015, “o início da contagem do prazo de decadência para a reclamação</p><p>de vícios do produto (Art. 26 do CDC) se dá após o encerramento da garantia contratual”</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Ademais, o termo de garantia deve ser preenchido pelo fornecedor e entregue</p><p>ao consumidor, no ato da entrega do produto ou fornecimento do serviço, acompanhado</p><p>de manual de instrução, de instalação e uso do produto em linguagem didática, com</p><p>ilustrações, conforme preconiza o Art. 50, Parágrafo único do Código de Defesa do</p><p>Consumidor. O desrespeito a essas orientações gerará a responsabilidade do fornecedor</p><p>ou prestador de serviço.</p><p>FIGURA 4 – TERMO DE GARANTIA</p><p>FONTE: <https://bit.ly/38jUVNs>. Acesso em: 14 dez. 2020.</p><p>135</p><p>Outra questão que merece destaque, é a prática usual da garantia estendida,</p><p>que também é uma garantia convencional. Tal garantia somente poderá ser cobrada do</p><p>consumidor se ele efetivamente a contratar, sendo que tal contratação não poderá ser</p><p>presumida, sob pena de responsabilização civil do fornecedor.</p><p>FIGURA 5 – PRAZOS DE GARANTIA</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3hLXPgZ>. Acesso em: 14 dez. 2020.</p><p>136</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A interpretação do contrato deve sempre respeitar a sua função social, visando</p><p>garantir o equilíbrio das relações de consumo.</p><p>• Os contratos de consumo sempre serão interpretados observando a regra mais</p><p>favorável ao consumidor.</p><p>• O consumidor pode desistir de um contrato de consumo firmado fora do</p><p>estabelecimento comercial do consumidor até sete dias após o recebimento a</p><p>contar da assinatura do contrato ou do ato de recebimento do produto ou serviço,</p><p>dependendo do caso concreto.</p><p>• Existe diferença entre a garantia legal e a garantia contratual. A garantia legal</p><p>decorre do Código de Defesa do Consumidor, já a contratual, origina-se da vontade</p><p>das partes.</p><p>• A garantia legal é obrigatória e visa proteger o consumidor contra os defeitos</p><p>relacionados aos vícios do produto ou serviço, quer sejam eles aparentem ou ocultos.</p><p>• O prazo da garantia legal é de 90 dias para bens duráveis e 30 dias para bens não</p><p>duráveis.</p><p>• A garantia contratual é uma faculdade conferida ao fornecedor e se constitui em</p><p>uma garantia complementar à garantia legal.</p><p>• O termo de garantia deve ser preenchido pelo fornecedor e entregue ao consumidor,</p><p>no ato da entrega do produto ou fornecimento do serviço, acompanhado de manual</p><p>de instrução, de instalação e uso do produto em linguagem didática, com ilustrações.</p><p>137</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>1 Mônica adquiriu um vestido na loja “Turma da Mónica Fashion”, após tê-lo experimen-</p><p>tado. Arrepende-se da compra um dia depois, ao descobrir que a modelagem e a cor</p><p>do vestido estavam fora de moda e procura a loja para devolvê-lo, alegando o direito</p><p>de arrependimento previsto no Código de Defesa do Consumidor. O dono da loja, Sr.</p><p>Cebola, não aceita o argumento de Mônica. Nesse caso:</p><p>a) ( ) Mônica está certa, pois a legislação consumerista prevê o prazo de sete dias a</p><p>contar da aquisição do produto, em qualquer situação, para exercer o direito de</p><p>arrependimento.</p><p>b) ( ) Mônica está certa, pois o prazo de garantia do vestido é de pelo menos 30 dias,</p><p>por sua natureza de bem durável.</p><p>c) ( ) Sr. Cebola está certo, pois o consumidor só pode exercer seu direito de arrepen-</p><p>dimento, em sete dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do</p><p>produto, se a aquisição ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmen-</p><p>te por telefone ou em domicílio.</p><p>d) ( ) Mônica está certa, por estar no prazo de reflexão, mas Sr. Cebola pode impor</p><p>multa compensatória em razão da devolução imotivada.</p><p>2 A garantia contratual é mera faculdade, que pode ser concedida por liberalidade do</p><p>fornecedor. Portanto, os termos e o prazo dessa garantia ficam ao alvedrio exclusivo do</p><p>fornecedor, que os estipulará de acordo com a sua conveniência. A respeito da proteção</p><p>contratual estabelecida no Código de Defesa do Consumidor, julgue o item a seguir:</p><p>a) ( ) Certo.</p><p>b) ( ) Errado.</p><p>3 Dona Benta adquiriu uma batedeira planetária na loja de eletrodomésticos Sítio do</p><p>Picapau Amarelo, com o manual de instruções, foi-lhe entregue o termo de garantia</p><p>do produto, que assegurava ao consumidor um ano de garantia, a contar da efetiva</p><p>entrega do produto. Cerca de um ano e dois mês após a data da compra, a batedeira</p><p>planetária apresentou comprovadamente um defeito de fabricação. Diante dessa si-</p><p>tuação hipotética, assinale a alternativa CORRETA acerca dos direitos de Dona Benta:</p><p>a) ( ) Após o prazo de um ano de garantia conferida pelo fornecedor, Dona Benta não</p><p>poderá alegar a existência</p><p>de qualquer defeito de fabricação.</p><p>b) ( ) Dona Benta poderá reclamar eventuais defeitos de fabricação até o prazo de noventa</p><p>dias após o final da garantia contratual conferida pelo fornecedor.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>138</p><p>c) ( ) O prazo para Dona Benta reclamar dos vícios do produto é de apenas noventa dias,</p><p>a partir da entrega efetiva do produto, independentemente de prazo de garantia.</p><p>d) ( ) A lei garante a Dona Benta a possibilidade de reclamar de eventuais defeitos de</p><p>fabricação a qualquer tempo, desde que devidamente comprovados.</p><p>4 Hera adquiriu no site, www.sapatosolimpoonline.com.br, da loja Olimpo Comércio de</p><p>Calçados Ltda., três pares de tênis, ao receber os produtos, que não apresentavam</p><p>qualquer tipo de vício ou defeito, entendeu que não deveria ficar com eles pois os</p><p>modelos não lhe agradaram. Com base nessa situação hipotética, informe a Hera o que</p><p>ela poderá fazer a respeito dos produtos adquiridos, argumentando e fundamentando</p><p>a sua resposta nos dispositivos legais.</p><p>5 Zeus adquire uma camisa dentro da loja de um shopping center e, ao chegar em</p><p>casa, não gosta da cor. A vendedora, no ato da compra, avisou Zeus que, por se tratar</p><p>de peça de promoção, não haveria direito à troca do produto, a não ser por vício no</p><p>produto. No entanto, Zeus sabe que o Código de Defesa do Consumidor disciplina</p><p>o direito de arrependimento e volta à loja para realizar a troca do produto. Diante</p><p>da situação hipotética, argumente se Zeus possui ou não direito ao arrependimento,</p><p>fundamentando a sua resposta no dispositivo legal.</p><p>139</p><p>ABUSOS NA RELAÇÃO CONSUMERISTA E SUAS</p><p>CONSEQUÊNCIAS</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, no Tópico 2, abordaremos a proteção da oferta na legislação</p><p>consumerista, esclarecendo a força vinculante desta nos contratos de consumo, bem</p><p>como a responsabilidade do fornecedor ou prestador de serviço caso descumpra essa</p><p>oferta. Até porque, ela, assim como a publicidade, faz parte da formação dos contratos de</p><p>consumo, guardando relação com a boa-fé objetiva e com a função social do contrato.</p><p>Em um segundo momento, estudaremos a publicidade no Código de Defesa</p><p>do Consumidor e a sua vinculação com a formação do contrato de consumo. A norma</p><p>consumerista, veda qualquer tipo de publicidade abusiva ou enganosa, responsabilizando</p><p>o fornecedor ou o prestador de serviços, caso ocorra violação do direito do consumidor.</p><p>Para finalizar este tópico, analisaremos a vedação da Lei nº 8.078/1990 sobre as</p><p>práticas e as cláusulas abusivas e discutiremos todas as possibilidades elencadas no Art.</p><p>39 e 51 da norma, devendo tais dispositivos serem interpretados de forma harmônica.</p><p>UNIDADE 3 TÓPICO 2 -</p><p>2 PROTEÇÃO QUANTO A OFERTA NO CÓDIGO DE DEFESA</p><p>DO CONSUMIDOR</p><p>Como já estudamos, o Código de Defesa do Consumidor garante a boa-fé</p><p>objetiva nos contratos consumeristas, guardando esta desde a sua formação até a</p><p>conclusão deles. Por esse motivo, a legislação consumerista traz uma seção específica</p><p>que trata da oferta nas relações de consumo.</p><p>Essa Seção, que compreende os artigos 30 a 35, serve para proteger a parte</p><p>vulnerável da relação de consumo que acaba sendo exposta aos artifícios de sedução</p><p>utilizada pelos fornecedores para atraírem os consumidores à aquisição de produtos ou</p><p>contratação de serviços.</p><p>Tartuce e Neves (2020) esclarecem que o termo oferta é genérico e deve ser</p><p>interpretado em sentido amplo, a fim de abarcar qualquer forma de comunicação ou</p><p>transmissão da vontade, visando atrair o consumidor para a aquisição de produtos ou</p><p>serviços. A oferta poderá se dar por meio de jornais, revistas, sites, televisão, entre outros.</p><p>140</p><p>O Art. 30, da Lei n 8.078/1990, estabelece a força vinculativa da oferta,</p><p>preceituando que:</p><p>Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada</p><p>por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos</p><p>e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a</p><p>fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser</p><p>celebrado (BRASIL, 1990).</p><p>Tal dispositivo vincula o produto, serviço e o contrato à proposta ofertada</p><p>pelo fornecedor ou prestador de serviço, devendo ser respeitado o princípio da boa-fé</p><p>objetiva em todas as fases contratuais.</p><p>FIGURA 6 – OFERTA NO CDC</p><p>FONTE: <https://bit.ly/38nalR2>. Acesso em: 14 dez. 2020.</p><p>Marques, Bessa e Benjamin (2017) entendem que o Art. 30, do CDC, traz um novo</p><p>princípio, o da vinculação, atuando de duas formas. A primeira, obrigando o fornecedor,</p><p>mesmo diante de sua negativa de contratar. A segunda, introduzindo a vinculação no</p><p>contrato eventualmente celebrado. Assim, para que essa vinculação seja efetivada,</p><p>cabem as medidas de tutela específica que estão previstas no Art. 84, do CDC.</p><p>Podemos observar que, o Art. 30, da legislação consumerista tem o intuito de</p><p>fazer prevalecer a oferta com relação às demais cláusulas contratuais. Nesse sentido,</p><p>todos os elementos que compõem a oferta passam a integrar, automaticamente o</p><p>contrato consumerista.</p><p>Tartuce e Neves (2020) trazem um exemplo, na jurisprudência, da força</p><p>vinculativa da oferta disciplinada no Art. 30, da Lei nº 8.078/1990, envolvendo a</p><p>hipótese em que as empresas de plano de saúde são obrigadas a cumprir o informado</p><p>na publicidade quanto à ausência de prazo de carência para a prestação de serviços, o</p><p>chamado plano de carência zero.</p><p>141</p><p>FIGURA 7 – DIREITO DO CONSUMIDOR EM CASO DE RECUSA NO CUMPRIMENTO DA OFERTA POR PARTE</p><p>DO FORNECEDOR</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3hYuYGn>. Acesso em: 14 dez. 2020.</p><p>Já, o art. 35, do CDC, estabelece que, caso o fornecedor de produtos ou serviços</p><p>se recusar cumprir a oferta, o consumidor poderá exigir, alternativamente e a sua livre</p><p>escolha:</p><p>• o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta;</p><p>• aceitar ouro produto ou prestação de serviço equivalente; e</p><p>• rescindir o contrato com direito à restituição dos valores eventualmente antecipado,</p><p>monetariamente atualizada, sem prejuízos a perdas e danos.</p><p>Contudo, a força vinculativa da oferta não é absoluta. Marques, Bessa e Benjamin</p><p>(2017) preceituam que o Art. 30 do Código de Defesa do Consumidor, não incidem em</p><p>situações de simples exagero, ou seja, expressões como: “o melhor sabor do mundo”,</p><p>“o mais bonito”, uma vez que tais adjetivos são utilizados para atrair o consumidor, não</p><p>tendo como mensurar que o produto seja o melhor sabor do mundo.</p><p>Outra situação que não incide o Art. 30, da legislação consumerista, diz respeito ao</p><p>erro crasso, por exemplo, um notebook que é anunciado nos jornais por preço muito inferior</p><p>ao praticado no mercado, preço este correspondente a 10% do seu valor de mercado.</p><p>O conteúdo da oferta e a manutenção de sua integralidade também é objeto</p><p>de tutela pela legislação consumerista. O Art. 31 do Código de Defesa do Consumidor</p><p>(1990), disciplina que:</p><p>Art. 31 – A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem</p><p>assegurar informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em</p><p>língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade,</p><p>142</p><p>composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre</p><p>outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e</p><p>segurança dos consumidores.</p><p>Parágrafo único. As informações de que trata este artigo, nos</p><p>produtos refrigerados oferecidos ao consumidor, serão gravadas de</p><p>forma indelével (BRASIL, 1990).</p><p>Esse dispositivo, garante que o consumidor seja devidamente informado a</p><p>respeito do produto ou serviço que está adquirindo. Contudo, devemos lembrar que o rol</p><p>preconizado no Art. 31 é meramente exemplificativo, sendo complementado, ainda, pelo</p><p>disposto no Art. 33, do CDC, que estabelece que “Em caso de oferta ou venda por telefone</p><p>ou reembolso postal, deve constar o nome do fabricante e endereço na embalagem,</p><p>publicidade e em todos os impressos utilizados na transação comercial” (BRASIL, 1990).</p><p>Tal artigo, veda, inclusive, a publicidade de bens e serviços por telefone, quando</p><p>a chamada for onerosa ao consumidor que a origina, afastando, assim, a atuação</p><p>desenfreada</p><p>das empresas de telemarketing, que em vários casos abusam do seu</p><p>direito de fornecer seus produtos e serviços. Ainda, no que diz respeito à apresentação</p><p>de produtos e serviços, temos a Lei nº 10.962, de 11 de outubro de 2004, que dispõe da</p><p>oferta e as formas de afixação de preços de produtos e serviços para o consumidor.</p><p>Conforme o Art. 2º, da referida Lei, são admitidas as seguintes formas de afixação de</p><p>preços em vendas a varejo para o consumidor:</p><p>I- no comércio em geral, por meio de etiquetas ou similares afixados</p><p>diretamente nos bens expostos à venda, e em vitrines, mediante</p><p>divulgação do preço à vista em caracteres legíveis;</p><p>II- em autosserviços, supermercados, hipermercados, mercearias ou</p><p>estabelecimentos comerciais onde o consumidor tenha acesso</p><p>direto ao produto, sem intervenção do comerciante, mediante a</p><p>impressão ou afixação do preço do produto na embalagem, ou a</p><p>afixação de código referencial, ou ainda, com a afixação de código</p><p>de barras; e</p><p>III- no comércio eletrônico, mediante divulgação ostensiva do preço</p><p>à vista, junto à imagem do produto ou descrição do serviço, em</p><p>caracteres facilmente legíveis com tamanho de fonte não inferior</p><p>a doze (BRASIL, 2004).</p><p>A norma, em seu Art. 2°, Parágrafo único, também prevê que, nos casos de</p><p>utilização de código referencial ou de barras, o comerciante deverá apresentar, de modo</p><p>claro e legível, com os itens expostos, informação relativa ao preço à vista do produto,</p><p>suas características e código. Já, na venda a varejo de produtos fracionados em</p><p>pequenas quantidades, o comerciante deverá informar, na etiqueta, contendo o preço</p><p>ou junto aos itens expostos, além do preço do produto à vista, o preço correspondente</p><p>a uma das seguintes unidades fundamentais de medida: capacidade, massa, volume,</p><p>comprimento ou área, de acordo com a forma habitual de comercialização de cada</p><p>tipo de produto (Art. 2°-A, da Lei n° 10.962/2004). Não se aplicando esse dispositivo, a</p><p>comercialização de medicamentos (Parágrafo único, do Art. 2°-A, da Lei n° 10.962/2004).</p><p>143</p><p>FIGURA – PREÇOS DIFERENTES</p><p>Qual o preço deve prevalecer quando estão afixados preços diferentes em um mesmo</p><p>produto?</p><p>FONTE: <http://msda.com.br/wp-content/uploads/2019/04/Pre%C3%A7o-diferen-</p><p>te-do-produto.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2020.</p><p>NOTA</p><p>A não observância desses mandamentos legais acarreta responsabilização civil</p><p>do fornecedor ou prestador de serviço, além da imposição de sanções administrativas,</p><p>disciplinadas pelo Art. 55 do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Complementando a temática do conteúdo das informações prestadas ao</p><p>consumidor, o Art. 32, da legislação protecionista, estabelece que “Os fabricantes</p><p>e importadores deverão assegurar a oferta de componentes e peças de reposição</p><p>enquanto não cessar a fabricação ou importação do produto”, sendo que “Cessadas a</p><p>produção ou importação, a oferta deverá ser mantida por período razoável de tempo, na</p><p>forma da lei” (BRASIL, 1990).</p><p>Qual seria o período razoável? A resposta deve levar em consideração a vida</p><p>útil do produto. A não observância do Art. 32, poderá caracterizar vício de qualidade</p><p>do produto, responsabilizando de forma solidária a cadeia de fornecedores, conforme</p><p>estabelecido no Art. 18, do CDC.</p><p>No que concerne à responsabilidade civil objetiva e solidária decorrente da oferta,</p><p>o Art. 34, do CDC, menciona que “O fornecedor do produto ou serviço é solidariamente</p><p>responsável pelos atos de seus prepostos ou representantes autônomos” (BRASIL,</p><p>1990). Contudo, o teor desse dispositivo é visto com cautela tanto pela jurisprudência</p><p>como pela doutrina.</p><p>144</p><p>Marques, Bessa e Benjamin (2017) ressaltam que, em regra, o consumidor</p><p>somente poderá demandar o anunciante da oferta e não a agência ou o veículo de</p><p>comunicação que veiculou ela, isso porque, a contratação desses são efetuados pelo</p><p>próprio anunciante acarretando a responsabilidade do fornecedor.</p><p>Como mencionado, a doutrina não é unânime nesse entendimento. Tartuce</p><p>e Neves (2020) entendem que a impossibilidade do consumidor de responsabilizar</p><p>a agência ou o veículo fere o sistema de proteção consumerista e o princípio da</p><p>responsabilidade objetiva, trazido pelo CDC.</p><p>Os autores argumentam pela possibilidade de responsabilização de todos os</p><p>envolvidos na cadeia publicitária, aplicando, assim, o conceito de fornecedor equiparado.</p><p>Nesse sentido, ocorrendo danos aos consumidores causados pela oferta ou publicidade,</p><p>devem responder o veículo de comunicação, a empresa que a patrocinou e todos os</p><p>responsáveis pelo seu conteúdo (agência de publicidade e seus profissionais).</p><p>Outro debate relacionado a esse assunto é a responsabilização dos sites ou</p><p>provedores de buscas de produtos à venda on-line, que realizam, muitas vezes, a</p><p>intermediação direta entre o consumidor e o fornecedor (vendedor).</p><p>O entendimento do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de ausência de</p><p>responsabilidade quanto ao vício do produto, desvinculando, assim, a oferta (TARTUCE;</p><p>NEVES, 2020).</p><p>Será que você sabe qual o prazo que o consumidor possui para pleitear os danos</p><p>decorrentes da oferta? Os danos decorrentes da oferta podem ser equiparados ao fato</p><p>do serviço e, nesse sentido, aplicamos o Art. 27 do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Assim, o prazo para a reparação será de cinco anos, a contar da ocorrência do dano ou</p><p>do conhecimento de sua autoria.</p><p>3 A PUBLICIDADE NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR</p><p>Apesar da maioria dos doutrinadores entenderem a publicidade e a propaganda</p><p>como sinônimos, como é o caso de Nunes (2007; 2018). Tartuce e Neves (2020) fazem</p><p>uma divisão conceitual entre esses dois termos. Para esses autores, a publicidade tem</p><p>a finalidade consumo, ou seja, de circulação de riquezas. Já a propaganda possui cunho</p><p>político, ideológico ou social.</p><p>Marques, Bessa e Benjamin (2017) argumentam que, no Brasil, os termos</p><p>publicidade e propaganda são utilizados indistintamente. Contudo, esse não foi o</p><p>caminho adotado pelo Código de Defesa do Consumidor.</p><p>A legislação consumerista traz o termo publicidade para fins de responsabilização</p><p>e de vinculação com a oferta, pois ela possui um caráter comercial. Para melhor ilustrar a</p><p>questão, traremos um quadro elaborado por Tartuce e Neves (2020).</p><p>145</p><p>QUADRO 1 – DIFERENÇA ENTRE PUBLICIDADE E PROPAGANDA</p><p>FONTE: Tartuce e Neves (2020)</p><p>FIGURA 8 – VOCÊ SABE O QUE É PUBLICIDADE?</p><p>FONTE: A autora</p><p>Publicidade Propaganda</p><p>Tem fins comerciais, de consumo e circu-</p><p>lação de riquezas.</p><p>Tem fins políticos, sociais, culturais e</p><p>ideológicos.</p><p>Envolve uma remuneração direta, diante</p><p>de seu intuito de lucro.</p><p>Não tem intuito de lucro.</p><p>Tem sempre um patrocinador. Nem sempre tem um patrocinador.</p><p>Exemplo: anúncio publicitário de uma loja</p><p>de eletrodomésticos ou de uma monta-</p><p>dora de veículos.</p><p>Exemplo: propaganda do governo para uso</p><p>de preservativo no carnaval.</p><p>Assim como a oferta, a publicidade está relacionada à fase pré-contratual e en-</p><p>volve a formação do contrato de consumo. Podemos constatar que, ao contrário do Có-</p><p>digo Civil, o Código de Defesa do Consumidor não especifica a formação do contrato de</p><p>consumo, por esse motivo, quando houver dúvidas, teremos que aplicar a Teoria do Diálo-</p><p>go das Fontes e buscar na legislação civil elementos para solucionar eventuais problemas.</p><p>Ela é conceituada como a qualquer forma de transmissão difusa de dados e</p><p>informações com o intuito de motivar a aquisição de produtos ou serviços no mercado</p><p>de consumo (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>O direito à informação constitui um direito básico do consumidor e encontra-</p><p>se disciplinada no Art. 6º, III do Código de Defesa do Consumidor, que preconiza “a</p><p>informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação</p><p>correta de quantidade, características, composição, qualidade e preço, bem como sobre</p><p>os riscos que apresentem” (BRASIL, 1990).</p><p>146</p><p>FIGURA 9 – DIREITO À INFORMAÇÃO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3pWS2YJ>. Acesso em: 17 dez. 2020.</p><p>Ademais, o mesmo artigo, em seu inciso IV, estabelece que o consumidor</p><p>goza de “[...] proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais</p><p>coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no</p><p>fornecimento de produtos e serviços” (BRASIL, 1990).</p><p>Observe que a publicidade também deve respeitar alguns princípios, como</p><p>discorre Miragem (2016). O autor apresenta três princípios fundamentais:</p><p>• princípio da identificação;</p><p>• princípio da veracidade; e</p><p>• princípio da vinculação.</p><p>O Código de Defesa do Consumidor, em seus artigos 36 a 38, disciplina a matéria</p><p>sobre a publicidade, vedando, inclusive, algumas práticas tidas como ilícitas pelo legislador.</p><p>O caput do Art. 36, estabelece que “A publicidade deve ser veiculada de tal</p><p>forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal” (BRASIL, 1990).</p><p>Tal dispositivo veda a publicidade mascarada, clandestina, simulada ou dissimulada.</p><p>Tartuce e Neves (2020) argumentam que esse tipo de publicidade, num primeiro</p><p>momento, parece que não é publicidade, mas que, na verdade, é.</p><p>Essa situação procura ocultar o caráter publicitário, como a inserção em</p><p>jornais de propaganda com aparência de reportagem. Tal mensagem é captada pelo</p><p>inconsciente, mas é imperceptível ao consciente.</p><p>Nunes (2018) utiliza o termo publicidade clandestina para definir o caput do</p><p>Art. 36. O autor menciona, como exemplo mais comum dessa prática, o merchandising,</p><p>técnica constantemente praticada em programas de televisão ou via internet e filmes.</p><p>147</p><p>A técnica de merchandising se refere a veiculação de produtos e serviços,</p><p>de uma determinada marca, de forma indireta, por meio da inserção em</p><p>produtos e filmes. Por exemplo, quando em um determinado filme, o ator</p><p>consome produtos da Coca-Cola.</p><p>NOTA</p><p>Por fim, o Parágrafo único, do Art. 36, do CDC, disciplina que “O fornecedor, na</p><p>publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para informação dos</p><p>legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à</p><p>mensagem” (BRASIL, 1990).</p><p>Já, o Art. 37, da legislação consumerista, proíbe a publicidade enganosa ou</p><p>abusiva, trazendo, em seu Parágrafo 1º, a conceituação do que pode ser considerada</p><p>uma publicidade enganosa.</p><p>Art. 37 [...] § 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou</p><p>comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou,</p><p>por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em</p><p>erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade,</p><p>quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados</p><p>sobre produtos e serviços (BRASIL, 1990).</p><p>FIGURA – EXEMPLO DE PUBLICIDADE ENGANOSA</p><p>Para não incorrer nessa prática ilícita e não ser responsabilizado por</p><p>realizar publicidade enganosa, os fornecedores inserem em seus anúncios</p><p>publicitários informações de que a imagem utilizada no encarte, cardápio,</p><p>outdoor, entre outros, corresponde a uma imagem meramente ilustrativa.</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3osncXC>. Acesso em: 18 dez. 2020.</p><p>INTERESSANTE</p><p>148</p><p>Podemos observar que, a publicidade enganosa é praticada no intuito de</p><p>enganar o consumidor e tirar benefício próprio. Tartuce e Neves (2020) trazem duas</p><p>espécies de publicidade enganosa, uma por ação e outra por omissão.</p><p>Na publicidade enganosa por ação, existe uma atuação comissiva do agente,</p><p>por exemplo, quando o consumidor adquire uma câmera capaz de gravar vídeos com</p><p>áudio, mas que, na realidade, tal produto não possuía esta função.</p><p>Na publicidade enganosa por omissão, existe uma atuação omissiva do agente.</p><p>Nesse sentido, o Parágrafo 3°, do Art. 37, conceitua que ela será “[...] enganosa por</p><p>omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço”.</p><p>Podemos citar como exemplo as publicidades veiculadas na televisão que</p><p>omitem o preço e a forma de pagamento do produto, condicionando essa informação à</p><p>realização de ligação telefônica, muitas vezes tarifadas.</p><p>A publicidade também não pode fazer promessas que não poderão ser</p><p>cumpridas, sob pena do fornecedor ou prestador de serviços ser responsabilizado por</p><p>tal prática.</p><p>Uma interessante decisão a respeito desse assunto foi proferida pelo Tribunal</p><p>do Estado do Rio Grande do Sul, onde ocorreu a condenação do prestador de serviço</p><p>que veiculou anúncio que seu curso de leitura dinâmica traria resultados inatingíveis ao</p><p>consumidor, pois este teria condições de ler 2.000 palavras por minuto, com 100% de</p><p>compreensão e memorização (TJRS – Recurso Cível n. 71002758332. Terceira Turma</p><p>Recursal Cível. Rel. Des. Leandro Raul Klippel. Julgado 27.01.2011).</p><p>No que concerne à publicidade enganosa, Tartuce e Neves (2019) ressaltam que</p><p>ela deve ser analisada no caso concreto, pois se a conduta publicitária causar qualquer</p><p>tipo de prejuízo, mesmo que indireto, ao consumidor, estaremos diante de um ilícito,</p><p>ou seja, de uma publicidade enganosa. Se por outro lado essa publicidade não gerar</p><p>nenhum tipo de prejuízo ao consumidor, não há de se falar em publicidade enganosa.</p><p>Outra prática vedada pelo Código de Defesa do Consumidor é a publicidade</p><p>discriminatória, que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveita</p><p>da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais,</p><p>levando o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa, colocando em</p><p>risco a sua saúde ou segurança (BRASIL, 1990, Art. 37, §2°).</p><p>149</p><p>FIGURA 10 – PUBLICIDADE INFANTIL</p><p>FONTE: <https://www.ma.gov.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/10/unnamed-39.jpg>.</p><p>Acesso em: 18 dez. 2020.</p><p>Analisando esse dispositivo legal, podemos concluir que é considerada</p><p>publicidade abusiva toda aquela que agride os valores de uma sociedade, acarretando</p><p>uma conduta socialmente reprovável. Um exemplo desse tipo de publicidade, vedada</p><p>pelo CDC, são os anúncios publicitários de cunho racistas e homofóbicos.</p><p>Caso o fornecedor ou prestador de serviço veiculem anúncios publicitários</p><p>abusivos, violando o que disciplina a legislação consumerista, será responsabilizado</p><p>civilmente, além de lhe serem impostas penalidades administrativas, como multas e a</p><p>necessidade do fornecedor ou prestador fazer a contrapublicidade, disciplinada no Art.</p><p>60 do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Uma questão que muitas vezes gera dúvidas é com relação à publicidade</p><p>comparativa. Será que esse tipo de publicidade é considerado abusiva? Em regra, não.</p><p>O entendimento da jurisprudência é no sentido de que ela pode ser praticada, mas que</p><p>deve observar as regras e princípios da legislação consumerista.</p><p>Publicidade comparativa é aquela que analisa as características e qualidade</p><p>de produtos e serviços diferentes (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>NOTA</p><p>Visando encerrar a discussão sobre a publicidade na legislação consumerista,</p><p>vamos abordar a inversão do ônus da prova em relação à veracidade da informação</p><p>publicitária.</p><p>150</p><p>O Art. 38 do Código de Defesa do Consumidor, estabelece que “O ônus da prova</p><p>da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as</p><p>patrocina” BRASIL, 1990). Vale ressaltar que o teor do dispositivo legal deixa claro que</p><p>a inversão do ônus da prova, nessa situação, será automática, não necessitando ser</p><p>requerido pelo consumidor.</p><p>Por esse motivo, não podemos confundir com a inversão do ônus da prova</p><p>disciplinado pelo Art. 6°, VIII, do CDC, que estabelece requisitos mínimos necessários</p><p>para a concessão desse benefício.</p><p>Devemos observar que a inversão preconizada pelo Art. 38, do CDC, não atinge a</p><p>agência ou o veículo de comunicação que veiculou a publicidade, uma vez que, como já</p><p>estudamos, a jurisprudência entende que essas pessoas não possuem responsabilidade</p><p>solidária. Diante disso, somente o fornecedor será responsabilizado.</p><p>A título de exemplo, não poderá ser responsabilizada a emissora de televisão que</p><p>veiculou uma propaganda a respeito de um medicamento que não possui comprovação</p><p>científica referente aos seus efeitos terapêuticos. Até porque, a fiscalização dos efeitos</p><p>desse medicamento cabe ao Poder Público.</p><p>Após encerrarmos o estudo da publicidade disciplinada na legislação</p><p>consumerista, iniciaremos a análise das práticas abusivas estabelecidas no Código de</p><p>Defesa do Consumidor.</p><p>4 PRÁTICAS ABUSIVAS E CLÁUSULAS ABUSIVAS NA</p><p>LEGISLAÇÃO CONSUMERISTA</p><p>As práticas abusivas estão elencadas no Art. 39 do Código de Defesa do</p><p>Consumidor, enquanto as cláusulas abusivas estão enumeradas no Art. 51 a 53, da Lei</p><p>n° 8.078/1990.</p><p>O rol do Art. 39, do CDC, deve ser interpretado e relacionado com o Art. 51, da</p><p>mesma legislação, pois se a prática descrita no Art. 39, estiver estipulada dentro de um</p><p>contrato, teremos presente uma cláusula abusiva.</p><p>4.1 AS PRÁTICAS ABUSIVAS NO CÓDIGO DE DEFESA DO</p><p>CONSUMIDOR</p><p>As práticas abusivas enumeradas no Art. 39, da legislação consumerista,</p><p>constituem em um rol meramente exemplificativo, por esse motivo, não há como</p><p>excluir outras práticas que porventura venham a surgir com a evolução das relações</p><p>consumeristas.</p><p>151</p><p>Devemos considerar como prática abusiva toda e qualquer conduta que viole</p><p>a legislação consumerista. Por esse motivo, faz-se necessário a análise de todos os</p><p>incisos do Art. 39, da Lei nº 8.078/1990.</p><p>O inciso I, do Art. 39, do CDC, proíbe o condicionamento do fornecimento de</p><p>produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como sem</p><p>justa causa e a limites quantitativos.</p><p>Em suma, esse mandamento legal veda a chamada “venda casada” de produtos e</p><p>serviços, ou seja, busca evitar que o consumidor, para adquirir um produto, tenha que adquirir</p><p>outro que não desejava. Além disso, tal dispositivo afasta a limitação de fornecimento sem</p><p>que haja justa causa. Contudo, essa situação deverá ser analisada caso a caso.</p><p>Você deve lembrar que era corriqueira essa prática dentro dos cinemas, uma</p><p>vez que o consumidor somente podia entrar nesse estabelecimento com alimentos e</p><p>bebidas adquiridos em suas dependências.</p><p>Outra situação disciplinada pelo Art. 39, I e que gera grande discussão é a limitação</p><p>mínima de produtos. Nunes (2018) ressalta que esse dispositivo deve ser interpretado com</p><p>cautela e diante do fato. Para ilustrar isso, o autor traz como exemplo promoções realizadas</p><p>por lojistas do tipo “compre 3, pague 2”. Essa prática é válida desde que o consumidor possa</p><p>também adquirir apenas uma peça, mesmo que tenha que pagar mais caro por ela.</p><p>FIGURA 11 – EXEMPLO DE VENDAS CASADAS</p><p>FONTE: <http://abdecon.com.br/wp-content/uploads/2016/11/venda-casadaa.png>.</p><p>Acesso em: 18 dez. 2020.</p><p>152</p><p>O Inciso II, do Art. 39, do CDC, menciona que “recusar atendimento às demandas</p><p>dos consumidores, na exata medida de suas disponibilidades de estoque e, ainda, de</p><p>conformidade com os usos e costumes” consiste em prática abusiva.</p><p>Esse dispositivo leva em consideração as limitações para aquisição de produtos,</p><p>especialmente, em dias de promoção. No entanto, Tartuce e Neves (2020) argumentam</p><p>que essa restrição é possível desde que o consumidor seja previamente comunicado e</p><p>que estejam dentro do limite razoável. O Superior Tribunal de Justiça já se posicionou</p><p>no sentido de que o consumidor não pode exigir o produto promocional em quantidades</p><p>incompatíveis com o consumo pessoal ou familiar.</p><p>Por exemplo, nós, consumidores, não podemos exigir que o supermercado nos</p><p>venda 50 litros de óleo de soja que está com preço promocional, uma vez que, essa</p><p>quantidade é incompatível com o nosso consumo pessoal ou familiar.</p><p>O Inciso III, do Art. 39, estabelece como prática abusiva o envio ou entrega ao</p><p>consumidor, sem prévia solicitação, de qualquer produto ou o fornecimento de qualquer</p><p>serviço. Ainda, o Parágrafo único, do Art. 39, disciplina que “Os serviços prestados e</p><p>os produtos remetidos ou entregues ao consumidor, na hipótese prevista no inciso III,</p><p>equiparam-se às amostras grátis, inexistindo obrigação de pagamento” (BRASIL, 1990).</p><p>Essa hipótese se faz presente, na maioria das vezes, no envio de cartão de crédito</p><p>sem que ele tenha sido solicitado pelo consumidor. Nesse caso, temos presente uma</p><p>conduta ilícita por parte do fornecedor, gerando a obrigação de reparar o dano.</p><p>O Superior Tribunal de Justiça já pacificou o entendimento, por meio da Súmula</p><p>n° 532, que “constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de crédito sem prévia</p><p>e expressa solicitação do consumidor, configurando-se ato ilícito indenizável e sujeito à</p><p>aplicação de multa administrativa”.</p><p>FIGURA 12 – ENVIO DE CARTÃO DE CRÉDITO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/35jpPDw>. Acesso em: 18 dez. 2020.</p><p>153</p><p>O Inciso IV, do Art. 39, do CDC (1990), preconiza que “prevalecer-se da fraqueza</p><p>ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou</p><p>condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços”, constitui prática abusiva.</p><p>O comando legal busca afastar que o fornecedor se aproveite da condição de</p><p>hipervulnerabilidade de determinados consumidores, como é o caso dos idosos. Tartuce</p><p>e Neves (2020), entendem que esse dispositivo coíbe a chamada venda por impulso.</p><p>Para ilustrar tal prática, trago o exemplo de oferecimento de empréstimos</p><p>consignados a aposentados. Muitos desses idosos que celebram esse contrato de</p><p>financiamento, mal entendem o teor dos instrumentos que estão assinando.</p><p>O Art. 39, V, do CDC considera prática abusiva, “exigir do consumidor vantagem</p><p>manifestamente excessiva”. O teor desse dispositivo proíbe tanto a vantagem excessiva</p><p>concretizada como a mera exigência. Tartuce e Neves (2019) exemplificam a aplicação</p><p>desse inciso, na exigência de cheque-caução, nos casos de emergência médica ou</p><p>quando ausente justo motivo para a negativa de cobertura, quando o consumidor já</p><p>possui plano de saúde.</p><p>O Inciso VI, do Art. 39, do CDC, menciona que “executar serviços sem a prévia</p><p>elaboração de orçamento e autorização expressa do consumidor, ressalvadas as</p><p>decorrentes de práticas anteriores entre as partes”. Este dispositivo está diretamente</p><p>relacionado com o Art. 40, do CDC, que estabelece que</p><p>Art. 40 O fornecedor de serviço será obrigado a entregar ao</p><p>consumidor orçamento prévio discriminando o valor da mão de obra,</p><p>dos materiais e equipamentos a serem empregados, as condições</p><p>de pagamento, bem como as datas de início e término dos serviços.</p><p>§ 1º Salvo estipulação em contrário, o valor orçado terá validade pelo</p><p>prazo de dez dias, contado de seu recebimento pelo consumidor.</p><p>§ 2° Uma vez aprovado pelo consumidor, o orçamento obriga os</p><p>contraentes e somente pode ser alterado mediante livre negociação</p><p>das partes.</p><p>§ 3° O consumidor não responde por quaisquer ônus ou acréscimos</p><p>decorrentes da contratação de serviços de terceiros não previstos no</p><p>orçamento prévio.</p><p>A jurisprudência já concluiu que, se os serviços forem prestados sem o</p><p>orçamento prévio, eles não poderão ser cobrados, sendo tratados como amostras grátis.</p><p>154</p><p>FIGURA 13 – EXECUTAR SERVIÇO SEM AUTORIZAÇÃO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/35jrdpI>. Acesso em: 18 dez. 2020.</p><p>Já, o Art. 39, VII, do CDC, veda o repasse de informações depreciativas referente</p><p>a ato praticado pelo consumidor no exercício de seus direitos. A norma proíbe as</p><p>chamadas “listas internas de maus consumidores”.</p><p>Contudo, cuidado, você não pode confundir esse dispositivo com o estabelecido</p><p>no Art. 43, do CDC, que trata do banco de dados e cadastro de consumidores. Essa</p><p>temática será estudada no Tópico 3.</p><p>A título de ilustração, imagine que você ingressou com uma ação de revisão</p><p>de taxas de juros contra uma determinada instituição financeira e a ação foi julgada</p><p>procedente. Anos depois, você vai até uma concessionária de veículos e encaminha</p><p>a documentação para o financiamento deste e seu pedido é negado com base na</p><p>informação de que você, anos atras, demandou contra outra instituição financeira. Essa</p><p>prática, apesar de ser corriqueira é ilícita, pois constitui em prática abusiva. O inciso VIII,</p><p>do Art. 39, do CDC, preconiza que constitui prática abusiva:</p><p>Colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em de-</p><p>sacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes</p><p>ou, se normas específicas não existirem, pela Associação Brasileira de</p><p>Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Na-</p><p>cional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro).</p><p>Tal dispositivo visa padronizar as condutas, evitando que os produtos lançados</p><p>no mercado de consumo exponham os consumidores a risco a sua saúde. Caso consta-</p><p>tada a violação desse dispositivo, o fornecedor ou prestador de serviço estará sujeito às</p><p>sanções administrativas previstas no CDC, com a possibilidade de apreensão de produ-</p><p>tos, sem prejuízo da responsabilização civil correspondente (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>155</p><p>FIGURA 14 – RECUSA A VENDA DE BENS OU A PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3nk4bWd>. Acesso em: 19 dez. 2020.</p><p>Em seu Inciso IX, do Art. 39, do CDC, o legislador estabeleceu que a recusa a</p><p>venda de bens ou a prestação de serviços, a quem se disponha adquiri-los mediante</p><p>pagamento imediato, ressalvados os casos de intermediação regulados em lei especial,</p><p>caracteriza prática abusiva. Um exemplo de violação a esse dispositivo é a recusa pura</p><p>e simples de contratação de seguro de vida.</p><p>Outra prática abusiva, mencionada no Art. 39, X, do CDC (1990) é “elevar sem justa</p><p>causa o preço de produtos ou serviços”. Esse dispositivo possui relação direta com o Art. 51, X,</p><p>da legislação consumerista, que considera abusiva a cláusula de variação unilateral de preço.</p><p>Outro dispositivo importante, é o Inciso, XII, do Art. 39, do CDC, que menciona</p><p>que “deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar a fixação</p><p>de seu termo inicial a seu exclusivo critério”. Essa estipulação protege as partes da</p><p>relação de consumo contra a instabilidade negocial.</p><p>De outra banda, o Art. 39, XIII, do CDC ressalta que é prática abusiva aplicar</p><p>fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente estabelecido.</p><p>Marques, Bessa e Benjamin (2017) argumentam que é prática comum e que devem</p><p>ser coibidas, pois não se pode admitir a modificação unilateral dos índices de reajustes</p><p>nos contratos de consumo, por exemplo, os contratos de plano de saúde, contratos de</p><p>prestação e serviços educacionais, entre outros.</p><p>O Art. 39, XIV, do CDC, disciplina que “permitir o ingresso em estabelecimentos co-</p><p>merciais ou de serviços de um número maior de consumidores que o fixado pela autoridade</p><p>administrativa como máximo”. O mandamento legal foi incluído na legislação consumerista</p><p>por força da Lei nº 13.425/2017, conhecida como Lei Boate Kiss. A norma visa estabelecer</p><p>diretrizes gerais das medidas de prevenção e combate a incêndio e a desastres em estabe-</p><p>lecimentos, edificações e áreas de reunião de público (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>156</p><p>O caso da Boate Kiss ficou conhecido nacional e internacionalmente, em</p><p>virtude de um incêndio provocado pela utilização de instrumento pirotécnico</p><p>que provocou a queima da espuma que revestia o teto da casa noturna,</p><p>durante um show musical da Banda Gurizada Fandangueira na boate,</p><p>localizada no município de Santa Maria, no RS. O incêndio ocorreu na</p><p>madrugada do dia 27 de janeiro de 2013 causando a morte de 242 pessoas</p><p>e deixando mais de 600 pessoas feridas (RIO GRANDE DO SUL, 2020).</p><p>INTERESSANTE</p><p>4.2 AS CLÁUSULAS ABUSIVAS NO CÓDIGO DE DEFESA DO</p><p>CONSUMIDOR</p><p>Como já comentado, as cláusulas abusivas estão elencadas no Art. 51 do Código</p><p>de Defesa do Consumidor e consagram um rol exemplificativo. Quando presente essa</p><p>abusividade, tais cláusulas presentes nos contratos de consumo, serão consideradas</p><p>nulas de pleno direito. Essa ilicitude é causada pela identificação de um abuso de direito</p><p>contratual (TARTUCE; NEVES, 2020). Para entender melhor essas cláusulas abusivas,</p><p>vamos analisar os incisos do Art. 51, do CDC.</p><p>• Cláusulas que impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do</p><p>fornecedor por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem</p><p>renúncia ou disposição de direitos (Art. 51, I, do CDC) – um exemplo da afronta a</p><p>esse dispositivo são as placas afixadas nos estacionamentos que informam ao</p><p>consumidor que a empresa não se responsabiliza pela reparação de danos ou furtos</p><p>de veículos ocorridos em seu estacionamento. Nesse sentido, o Superior Tribunal de</p><p>Justiça já pacificou entendimento, por meio da Súmula nº 130, que estabelece que</p><p>“a empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo</p><p>ocorridos em seu estacionamento”.</p><p>• Cláusulas que subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga,</p><p>nos casos previstos na legislação consumerista (Art. 51, II, do CDC) – os tribunais</p><p>têm determinado o reembolso de despesas dispendidas pelo consumidor relativo</p><p>a exames, medicamentos e atendimento de urgência ou emergência coberto pelos</p><p>planos de saúde e realizado por estabelecimento não credenciado.</p><p>• Cláusulas que transfiram responsabilidades a terceiros (Art. 51, III, do CDC) – a</p><p>existência dessas cláusulas afronta o princípio da solidariedade e da responsabilidade</p><p>objetiva adotado pela legislação consumerista.</p><p>• Cláusulas que estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que</p><p>coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou que sejam incompatíveis</p><p>com a boa-fé ou a equidade (Art. 51, IV, do CDC). Nesse caso, o mero desequilíbrio</p><p>contratual oriundo da quebra da boa-fé e da função social, configura a abusividade</p><p>dessa cláusula. Esse dispositivo protege o consumidor que, no caso concreto,</p><p>encontra-se em situação de desigualdade. Em exemplo, são as decisões que</p><p>157</p><p>reconhecem a abusividade da cláusula, em contratos de plano de saúde, que</p><p>suspendem o atendimento em razão do atraso de pagamento de uma única parcela</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>• Cláusulas que estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor</p><p>(Art. 51, VI, do CDC) – a presença de cláusula que transfere o ônus da prova para o</p><p>consumidor, constitui um abuso de direito.</p><p>• Cláusulas que determinem a utilização compulsória de arbitragem (Art. 51, VII, do CDC)</p><p>– a arbitragem somente pode resolver conflitos patrimoniais e disponíveis e o sistema</p><p>consumerista está relacionado a proteção da pessoa, ou da dignidade da pessoa, o</p><p>que seria incompatível com o instituto da arbitragem. Como bem ressalta Tartuce e</p><p>Neves (2020), não podemos confundir o instituto da arbitragem com o instituto da</p><p>mediação, pois, na mediação, os mediadores buscar o restabelecimento do diálogo</p><p>entre as partes, sendo eles os protagonistas da resolução do conflito.</p><p>A Arbitragem é um meio privado de resolução de conflitos. Somente podem</p><p>ser submetidos à arbitragem direitos patrimoniais e disponíveis. A resolução</p><p>do conflito ocorre por meio de uma sentença arbitral que vincula e obriga as</p><p>partes, constituindo um título executivo judicial. O instituto da arbitragem é</p><p>disciplinado pela Lei nº 9.307/1996 (SCAVONE JÚNIOR, 2019).</p><p>NOTA</p><p>• Cláusulas que imponham representante para concluir ou realizar outro negócio</p><p>jurídico pelo consumidor (Art. 51, VIII, do CDC) – a jurisprudência tem reconhecida a</p><p>ilegalidade e a abusividade da cláusula, nos contratos de financiamento habitacional,</p><p>cujos mutuários conferem mandato à Caixa Econômica Federal para ratificar e aditar o</p><p>contrato de mútuo, receber indenização da seguradora, assinar escritura de retificação,</p><p>entre outros (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>• Cláusulas que deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora</p><p>obrigando o consumidor (Art. 51, IX, do CDC) – a título de exemplo, podemos imaginar</p><p>a situação em que você solicita um orçamento para algum prestador de serviço e o</p><p>orçamento constar uma cláusula onde o prestador pode optar por celebrar ou não o</p><p>contrato definitivo. Diante dessa situação hipotética, teremos uma cláusula abusiva,</p><p>uma vez que ela afronta a força vinculativa do orçamento (TARTUCE; NEVES, 2019).</p><p>• Cláusulas que permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço</p><p>de maneira unilateral (Art. 51, X, do CDC) – esse dispositivo guarda relação com a</p><p>proibição do enriquecimento sem</p><p>causa. Para ilustrar tal situação, podemos citar que</p><p>uma Universidade não pode se valer de cláusula, disciplinada no contrato de prestação</p><p>de serviços educacionais, para aumentar, sem qualquer justificativa, a mensalidade</p><p>inicialmente contratada (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>158</p><p>• Cláusulas que autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente,</p><p>sem que igual direito seja conferido ao consumidor (Art. 51, XI, do CDC) – a título</p><p>de exemplo, temos o entendimento dos tribunais no sentido de reconhecer a</p><p>abusividade da cláusula que cancela unilateralmente a apólice de seguro, uma</p><p>vez que a seguradora não pode impor ao segurado esse cancelamento unilateral</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>• Cláusulas que obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obri-</p><p>gação, sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor (Art. 51, XII, do CDC).</p><p>• Cláusulas que autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a</p><p>qualidade do contrato, após sua celebração (Art. 51, XIII, do CDC).</p><p>• Cláusulas que infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais (Art. 51, XIV,</p><p>do CDC) – tal dispositivo dialoga com as normas de Direito Ambiental. Diante disso,</p><p>os contratos que violam valores ambientais são nulos, uma vez que desrespeitam a</p><p>função social do contrato.</p><p>• Cláusulas que estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor</p><p>(Art. 51, XV, do CDC) – tal norma consagra o sistema aberto de proteção da legislação</p><p>consumerista.</p><p>• Cláusulas que possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias</p><p>necessárias (Art. 51, XVI, do CDC) – esse dispositivo é amplamente utilizado nos</p><p>casos referentes aos compromissos de compra e venda de imóveis celebrados com</p><p>incorporadoras ou outros profissionais que são inadimplidos pelos consumidores,</p><p>sendo forçoso reconhecer o direito a tais benfeitorias (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>As benfeitorias são consideradas bens acessórios, introduzidos em um</p><p>bem principal, classificadas quanto à essencialidade em necessárias, úteis</p><p>e voluptuárias. Nos termos do Art. 96, do Código Civil, as benfeitorias</p><p>necessárias visam à conservação do bem principal e são tidas como</p><p>essenciais. As benfeitorias úteis são aquelas que aumentam ou facilitam</p><p>o uso do bem principal. As voluptuárias são as de mero deleite ou recreio,</p><p>que não aumentam o uso habitual do bem, ainda que o tornem mais</p><p>agradável ou sejam de elevado valor.</p><p>NOTA</p><p>Você deve estar se perguntando, como o consumidor pode fazer valer o seu</p><p>direito? A resposta é simples, porém devemos ter cuidado, pois quando estiver presente</p><p>cláusulas abusivas nos contratos de consumo, cabe ao consumidor, ingressar com uma</p><p>ação de revisão e não de nulidade contratual, uma vez que, o juiz irá analisar o caso</p><p>concreto e determinar ou não a nulidade da cláusula (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Finalizamos aqui a discussão das cláusulas abusivas. Contudo, estudaremos no</p><p>Tópico 3 a cobrança de dívida, banco de dados e cadastro de consumidores, além das</p><p>sanções administrativas impostas pelo Código de Defesa do Consumidor.</p><p>159</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• O Art. 30 do Código de Defesa do Consumidor estabelece a força vinculativa</p><p>da oferta, vinculando o produto, serviço e o contrato à proposta ofertada pelo</p><p>fornecedor ou prestador de serviço, devendo ser respeitado o princípio da boa-fé</p><p>objetiva em todas as fases contratuais.</p><p>• A não observância dessa vinculação acarreta a responsabilização civil do fornecedor</p><p>ou prestador de serviço, além da imposição de sanções administrativas, disciplinadas</p><p>pelo Art. 55 do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>• Os danos decorrentes da oferta podem ser equiparados ao fato do serviço e, nesse</p><p>sentido, será aplicado o Art. 27 do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>• O prazo para a reparação será de cinco anos, a contar da ocorrência do dano ou do</p><p>conhecimento de sua autoria.</p><p>• A publicidade enganosa é praticada no intuito de enganar o consumidor e tirar</p><p>benefício próprio, podendo ser por ação ou omissão.</p><p>• É considerada publicidade abusiva toda aquela que agride os valores de uma</p><p>sociedade, acarretando uma conduta socialmente reprovável.</p><p>• As práticas abusivas estão elencadas no Art. 39 do Código de Defesa do Consumidor.</p><p>• As cláusulas abusivas estão enumeradas no Art. 51 do Código de Defesa do</p><p>Consumidor e consagram um rol exemplificativo.</p><p>• Quando presente essa abusividade, tais cláusulas presentes nos contratos de</p><p>consumo, serão consideradas nulas de pleno direito.</p><p>160</p><p>1 Hércules colidiu com seu veículo e necessitou de reparos na lataria e na pintura. Para</p><p>tanto, procurou, por indicação de um amigo, os serviços da Oficina Mecânica Olimpo,</p><p>oportunidade na qual lhe foi ofertado orçamento escrito, válido por 15 dias, com o valor da</p><p>mão de obra e dos materiais a serem utilizados na realização do conserto do automóvel.</p><p>Hércules, na certeza da boa indicação, contratou pela primeira vez a oficina. Considerando</p><p>as regras do Código de Proteção e Defesa do Consumidor, assinale a alternativa CORRETA.</p><p>a) ( ) Se o serviço de pintura contratado por Hércules apresentar vícios de qualidade,</p><p>é correto afirmar que ele terá tríplice opção, a sua escolha, de exigir da oficina</p><p>mecânica: a reexecução do serviço sem custo adicional; a devolução de eventual</p><p>quantia já paga, corrigida monetariamente, ou o abatimento do preço de forma</p><p>proporcional.</p><p>b) ( ) Segundo a legislação consumerista, o orçamento tem prazo de validade</p><p>obrigatório de dez dias, contados do seu recebimento pelo consumidor Hércules.</p><p>Logo, no caso, somente durante esse período a Oficina Mecânica Olimpo estará</p><p>vinculada ao valor orçado.</p><p>c) ( ) Uma vez aprovado o orçamento pelo consumidor, os contraentes estarão</p><p>vinculados, sendo correto afirmar que Hércules não responderá por quaisquer</p><p>ônus ou acréscimos no valor dos materiais orçados; contudo, ele poderá vir a</p><p>responder pela necessidade de contratação de terceiros não previstos no</p><p>orçamento prévio.</p><p>d) ( ) O Código de Defesa do Consumidor não considera prática abusiva a execução de</p><p>serviços sem a prévia elaboração de orçamento, o que pode ser feito por qualquer</p><p>meio, oral ou escrito, exigindo-se, para sua validade, o consentimento expresso</p><p>ou tácito do consumidor.</p><p>2 A Construtora Sitio do Picapau Amarelo instalou um estande de vendas em um</p><p>shopping center da cidade, apresentando fôlder de empreendimento imobiliário</p><p>de cinco edifícios residenciais com área comum que incluía churrasqueira, espaço</p><p>gourmet, salão de festas, parquinho infantil, academia e piscina. A proposta fez tanto</p><p>sucesso que, em apenas dois meses, foram firmados contratos de compra e venda da</p><p>integralidade das unidades. A Construtora Sítio do Picapau Amarelo somente realizou</p><p>a entrega dois anos após o prazo originário de entrega dos imóveis e sem pagamento</p><p>de qualquer verba pela mora, visto que o contrato previa exclusão de cláusula penal e</p><p>deixou de entregar a área comum de lazer que constava do fôlder. Neste caso, à luz</p><p>do Código de Defesa do Consumidor, cabe:</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>161</p><p>a) ( ) Ação individual ou coletiva em busca de ressarcimento decorrente da demora</p><p>na entrega; contudo, não se configura, na hipótese, propaganda enganosa, mas</p><p>apenas inadimplemento contratual, sendo viável a exclusão da cláusula penal.</p><p>b) ( ) Ação individual ou coletiva em razão da propaganda enganosa evidenciada pela</p><p>ausência da entrega da parte comum indicada no fôlder de venda.</p><p>c) ( ) Ação coletiva, somente, haja vista que cada adquirente, individualmente, não</p><p>possui interesse processual decorrente da propaganda enganosa.</p><p>d) ( ) Ação individual ou coletiva a fim de buscar tutela declaratória de nulidade</p><p>do contrato, inválido de pleno direito por conter cláusula abusiva que fixou</p><p>impedimento de qualquer cláusula penal.</p><p>3 Cebolinha solicitou a emissão de um cartão de débito em seu nome, mas, para sua</p><p>surpresa, recebeu um cartão de débito e crédito. Em contato com a administradora</p><p>ou vendessem bens de</p><p>mesma natureza por preços diferentes.</p><p>O livro nono do Código de Manu em seu Art. 702, estabelecida que os fornecedores</p><p>“por ter misturado mercadorias de má qualidade com outras de boa espécie, por ter</p><p>furado pedras preciosas e por ter perfurado desastradamente pérolas, deve sofrer a</p><p>multa no primeiro grau e pagar o dano” (CÓDIGO DE MANU, 200 a. C., 200 d. C.).</p><p>Já, o Art. 703, previa que “aquele que dá aos compradores pagando o mesmo</p><p>preço, coisas de qualidade diferentes, umas boas, outras más, e aquele que vende a</p><p>mesma coisa a preços diferentes, deve, segundo as circunstâncias, pagar a primeira</p><p>multa ou a multa média” (CÓDIGO DE MANU, 200 a. C., 200 d. C.).</p><p>6</p><p>Segundo a lenda, Sarasvati foi a primeira mulher, criada por Brahma de</p><p>sua própria essência. Brahma a desposou e dessa união nasceu Manu,</p><p>o pai da humanidade, a quem se atribui o mais popular código de leis</p><p>reguladoras da convivência social.</p><p>Manu é um personagem mítico e considerado, pela tradição indiana, não só</p><p>um sumo legislador, mas também um sábio, um rei e o único que sobreviveu</p><p>ao dilúvio (DOCSITY, 2011).</p><p>INTERESSANTE</p><p>FIGURA 2 – CÓDIGO DE MANU (200 A.C., 200 D.C)</p><p>FONTE: <https://i.pinimg.com/originals/ba/cc/3b/bacc3bc0d1a04f53baba3785a79c90fe.gif>. Acesso em:</p><p>22 set. 2020.</p><p>Outros vestígios da proteção ao consumidor encontramos na Grécia Antiga, com</p><p>a Constituição de Atenas (aproximadamente no século IV). Nela, por exemplo, havia uma</p><p>preocupação com a qualidade e com os pesos dos produtos comercializados. Por isso,</p><p>existia a figura dos comissários de mercado e dos comissários de pesos e medidas, sendo</p><p>que essas funções eram designadas por sorteio.</p><p>A função dos comissários de mercado era “[....] zelar para que todos os artigos</p><p>oferecidos à venda no mercado, sejam puros e sem adulteração” (ARISTÓTELES, 2014, p. 23).</p><p>Já, a função dos comissários de pesos e medidas visava “[...] garantir a qualidade</p><p>e o peso dos produtos comercializados” (ARISTÓTELES, 2014, p. 23).</p><p>Outra figura importante eram os comissários do trigo que tinham a atribuição de</p><p>fiscalizar se os produtores de trigo praticavam preços razoáveis para a venda do produto no</p><p>mercado, bem como controlavam se os padeiros vendiam “[...] o pão em preço proporcional</p><p>ao do trigo e de peso conforme o indicado pelos Comissários [...]” (ARISTÓTELES, 2014, p.</p><p>24), visto que a legislação fixava um peso padrão para o produto.</p><p>7</p><p>A Constituição de Atenas, escrita por Aristóteles, descreve a história</p><p>de Atenas e o sistema político que vigorou a partir da restauração da</p><p>Constituição democrática após a queda dos Trinta Tiranos (403 a.C.). Ela</p><p>foi descoberta apenas em 1880, em sua forma original, no Egito.</p><p>Pesquise mais sobre a Constituição de Atenas, no site: http://dagobah.</p><p>com.br/a-constituicao-de-atenas-atribuida-a-aristoteles/.</p><p>INTERESSANTE</p><p>Em Roma, no século I a. C., podemos, da mesma forma, encontrar sinais de</p><p>defesa aos direitos dos consumidores, especialmente nas defesas de Cícero, uma vez</p><p>que ele sempre deixava claro nas causas que defendia, a responsabilidade do alienante</p><p>de produtos de consumo durável quanto aos vícios ocultos, garantindo ao adquirente o</p><p>direito de ter possíveis vícios sanados, caso não houvesse possibilidade de saná-los o</p><p>contrato poderia ser resolvido (FILOMENO, 2018).</p><p>No site <https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/marco-tulio-cicero/> você</p><p>encontra uma breve narrativa da vida e obra de Marcus Tullius Cícero (106 a.C. a 43 a.C.). A</p><p>figura a seguir reproduz a imagem de Cícero. Pesquise sobre ele! Será enriquecedor!</p><p>DICAS</p><p>FIGURA – ESCULTURA REPRESENTANDO CICERO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3rN7o41>. Acesso em: 22 de set. 2020.</p><p>Na Europa medieval, também se protegia o direito dos consumidores, em</p><p>especial, daqueles que consumiam manteiga e leite, uma vez que Luís XI, em 1481,</p><p>baixou um decreto que punia com banho escaldante aqueles que adulterassem</p><p>esses produtos (FILOMENO, 2018). No entanto, a figura do consumidor ganha relevo</p><p>com a Revolução Industrial.</p><p>8</p><p>A Revolução Industrial corresponde a um conjunto de mudanças que ocorreram na Europa</p><p>nos séculos XVIII e XIX, tendo como principal característica a substituição do trabalho artesanal</p><p>pelo trabalho assalariado desenvolvido nas grandes fábricas que começaram a se instalar</p><p>pela Europa, especialmente na Inglaterra, berço da primeira fase da Revolução Industrial.</p><p>Pesquise mais sobre a Revolução Industrial no site: http://aulasonlinedehistoria.</p><p>blogspot.com/2015/11/cidades-industriais-e-vida-operaria.html. Você irá ampliar seus</p><p>conhecimentos!</p><p>A figura a seguir retrata as atividades industriais com a Revolução Industrial.</p><p>NOTA</p><p>FIGURA – ATIVIDADES INDUSTRIAIS</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2KTJ6EW>. Acesso em: 22 de set. de 2020.</p><p>Apesar da produção no final do século XVII ser ainda predominantemente</p><p>artesanal, países como a Inglaterra já possuíam manufaturas. Vamos recordar o que</p><p>significa manufatura?</p><p>As manufaturas eram grandes oficinas onde os artesãos realizavam seu trabalho de</p><p>forma manual, porém, subordinados aos proprietários das manufaturas. A figura a seguir</p><p>representa uma manufatura</p><p>NOTA</p><p>9</p><p>FIGURA – MANUFATURA</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3ofTepI>. Acesso em: 23 set. 2020.</p><p>No período da Revolução Industrial ocorreu a migração de grande parte da</p><p>população que vivia na área rural para os grandes centros urbanos, especialmente, para</p><p>trabalhar nas indústrias modernas, cujas máquinas eram movidas pela energia a vapor.</p><p>Essa mudança de cenário significou a adoção de novos hábitos. Os equipamentos</p><p>movidos pela máquina a vapor substituíram, em grande parte, o trabalho humano,</p><p>acarretando a produção de produtos em série e a organização da mão de obra em</p><p>funções especializadas e em longas jornadas de trabalho.</p><p>Essa transformação da sociedade leva as pessoas a adquirirem cada vez mais</p><p>produtos e serviços e o consumidor começa a ficar em evidência pois, “[...] para o sistema</p><p>econômico, o indivíduo – o consumidor – é senhor de si mesmo” (GALBRAITH 1997 apud</p><p>GLÓRIA, 2003, p. 6).</p><p>Em virtude da ampliação industrial, o fabricante necessitava escoar a sua</p><p>produção e muitas vezes apelava para práticas enganosas e abusivas. Além disso, o avanço</p><p>tecnológico e a crescente variedade de produtos colocados no mercado à disposição do</p><p>consumidor levaram estes a criar necessidades artificiais para aquisição de determinados</p><p>produtos em sua vida cotidiana.</p><p>A partir disso, temos o que Thierry Bourgoignie, denominou de “norma social de</p><p>consumo”. Essa norma social, por sua vez, “[...] faz com que o consumidor perca o controle</p><p>individual das decisões de consumo e passe a ser parte de uma classe, a ‘consommariat’,</p><p>conferindo claramente uma dimensão social ao consumido e ao ato de consumir”</p><p>(BOURGOIGNIE 1993 apud SOUZA, 1996. p. 48).</p><p>Consequentemente, o consumidor é manipulado, dirigido e controlado pelos</p><p>fornecedores e pela sociedade consumerista que pauta os seus valores nos bens materiais</p><p>(GLÓRIA, 2003). Por esse motivo, nasce a necessidade de se proteger e tutelar os direitos</p><p>dos consumidores, originando, assim, o chamado movimento consumerista.</p><p>10</p><p>3 O MOVIMENTO CONSUMERISTA MUNDIAL</p><p>Conforme relata Filomeno (2014), o movimento consumerista nasceu e se</p><p>desenvolveu a partir da metade do século XIX, nos Estados Unidos, com a luta trabalhista</p><p>por melhores condições de trabalhos nos frigoríficos de Chicago.</p><p>Podemos considerar que o marco inicial da defesa do consumidor e,</p><p>consequentemente, do movimento consumerista dos Estados Unidos, foi resultado</p><p>da união de reivindicações trabalhistas, decorrente da exploração e da alta jornada</p><p>de trabalho, com as reivindicações pela melhor conservação dos produtos oriundos</p><p>daqueles frigoríficos.</p><p>No entanto, essa união entre a luta por melhores condições de trabalho e</p><p>pelo reconhecimento do direito dos consumidores não durou muito, logo esses dois</p><p>movimentos se cindiram.</p><p>Mesmo com a cisão, o movimento consumerista americano ganhou força e, em</p><p>1872, o governo norte-americano</p><p>de cartões, foi informado que a função de cartão de crédito estava inativa, que a</p><p>anuidade somente seria cobrada se este fosse utilizado, e que a taxa de juro para o</p><p>pagamento de parcelas mínimas seria de 150% ao ano. Considerando a posição atual</p><p>dos tribunais superiores, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de crédito sem prévia e</p><p>expressa solicitação do consumidor, mesmo que a função esteja inativa.</p><p>b) ( ) A administradora de crédito poderá ser responsabilizada por dano patrimonial por</p><p>cobrança indevida, não sendo cabível dano moral.</p><p>c) ( ) O envio do cartão de crédito, ainda que não tenha sido solicitado, não é uma prática</p><p>abusiva, pois não implica em cobrança automática de anuidade.</p><p>d) ( ) O envio do cartão de crédito bloqueado equipara-se à amostra grátis, não</p><p>configurando prática abusiva.</p><p>4 Chico Bento resolve contratar o serviço de internet por fibra de determinada operadora de</p><p>telefonia. Antes da contratação, é informado que, para contratar o serviço de internet por</p><p>fibra, também terá que adquirir o pacote de TV a cabo e telefonia fixa da mesma operadora.</p><p>Chico Bento, como necessitava do serviço, resolve adquirir todos os serviços, porém,</p><p>não necessita de TV a cabo e nem de telefonia fixa. A partir desta situação, Chico Bento</p><p>procura você, advogado, para saber se a empresa pode exigir a contratação de outros</p><p>serviços para efetivar o contrato do serviço de internet por fibra. Diante do fato hipotético,</p><p>oriente Chico Bento da conduta da empresa disciplinada no CDC, fundamentando a sua</p><p>resposta no dispositivo legal. Lembre-se de que a mera menção ou citação do dispositivo</p><p>legal não é considerada resposta válida</p><p>5 Dona Benta, assistindo ao canal de TV fechada, Sítio do Picapau Amarelo, interessou-</p><p>se por um colchão magnetizado que prometia acabar com as dores na coluna.</p><p>Acompanhando a exposição das imagens, sentiu-se atraída pela forma de “pagamento</p><p>sem juros, podendo ser parcelado em até 24 vezes”. Ao telefonar para a loja virtual,</p><p>Arraial dos Tucanos, foi informada de que o parcelamento sem juros estava limitado</p><p>a quatro prestações. Além disso, a ligação tarifada foi a única forma de Dona Benta</p><p>162</p><p>obter as informações a respeito do valor do produto, já que o site da loja, Arraial dos</p><p>Tucanos, limitava-se a indicar o que já estava sendo veiculado no anúncio de TV.</p><p>Sentindo-se enganada por ter sido obrigada a telefonar pagando a tarifa, bem como</p><p>por ter sido induzida a acreditar que o pagamento poderia ser parcelado em 24 vezes</p><p>sem juros, Dona Benta procurou um advogado para que lhe orientasse quanto à</p><p>situação relatada. Nesse sentido, oriente Dona Benta da conduta da empresa, Arraial</p><p>dos Tucanos, à luz do CDC, fundamentando a sua resposta nos dispositivos legais.</p><p>163</p><p>TÓPICO 3 -</p><p>AS COBRANÇA DE DÍVIDAS E A PROTEÇÃO</p><p>ADMINISTRATIVA DO DIREITO DO CONSUMIDOR</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Acadêmico, no Tópico 3, abordaremos a cobrança de dívidas e a repetição de</p><p>indébito. Apesar da cobrança de débito ser um direito do fornecedor ou prestador de</p><p>serviços, este não poderá abusar desse direto, ou seja, ela não pode ser realizada de forma</p><p>desmedida ou em excesso, devendo respeitar o princípio da dignidade da pessoa humana.</p><p>Posteriormente, estudaremos o banco de dados e o cadastro de consumidores.</p><p>Apesar da natureza pública desses bancos de dados, eles poderão ser mantidos por</p><p>instituições públicas ou privadas. Além disso, analisaremos o banco de dados referente</p><p>aos fornecedores ou prestadores de serviços e, também, o cadastro positivo, criado pela</p><p>Lei nº 12.414/2011.</p><p>Para finalizar este tópico, analisaremos as sanções oriundas do processo</p><p>administrativo de defesa do consumidor, assim como os seus critérios de aplicação.</p><p>Discutiremos também as espécies de sanções que são divididas em: sanções objetivas,</p><p>sanções subjetivas e sanções pecuniárias.</p><p>UNIDADE 3</p><p>2 COBRANÇA DE DÍVIDAS E REPETIÇÃO DE INDÉBITO</p><p>A vedação ao abuso de direito na cobrança de dívidas está disciplinada no</p><p>Art. 42, do CDC. O caput do referido artigo, preconiza que “Na cobrança de débitos, o</p><p>consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem será submetido a qualquer</p><p>tipo de constrangimento ou ameaça” (BRASIL, 1990).</p><p>Garcia (2016) ressalta que a cobrança de débitos é um exercício regular de direito</p><p>do fornecedor ou do prestador de serviço, contudo, deve ser realizada de forma comedida e</p><p>sem excessos, respeitando o princípio da dignidade da pessoa humana.</p><p>Caso ocorra abuso no exercício desse direito, restará caracterizado um ilícito em</p><p>âmbito penal, uma vez que o Art. 71, do CDC (1990), estabelece que:</p><p>Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimen-</p><p>to físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou enganosas ou de</p><p>qualquer outro procedimento que exponha o consumidor, injustifica-</p><p>damente, a ridículo ou interfira com seu trabalho, descanso ou lazer:</p><p>Pena Detenção de três meses a um ano e multa (BRASIL, 1990).</p><p>164</p><p>Dessa forma, é vedado ao fornecedor ligar inúmeras vezes para o consumidor/</p><p>devedor em seu local de trabalho exigindo o pagamento ou ameaçando tornar pública</p><p>uma lista de devedores onde seu nome estará incluso.</p><p>Contudo, tal exposição, constrangimento ou ameaça deverão ser analisada no caso</p><p>concreto, tendo como parâmetro os padrões de conduta social. Por exemplo, o Superior</p><p>Tribunal de Justiça, já considerou como cobrança vexatória uma situação de cárcere privado</p><p>em loja, decorrente de suposto furto de mercadoria, acarretando ao fornecedor (proprietário</p><p>do estabelecimento) o dever de indenizar a vítima (consumidor) (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Outra situação já decidida pelos Tribunais e que constitui cobrança vexatória é</p><p>a prática de casas noturnas de impedir a saída do consumidor enquanto não for paga a</p><p>dívida de consumação. Ademais, os Tribunais também já entenderam que a entrega de</p><p>correspondência de cobrança aberta em portaria de prédio constitui cobrança vexatória,</p><p>passível de indenização por danos morais.</p><p>FIGURA 15 – COBRANÇA DE DÉBITO NO DIREITO DO CONSUMIDOR</p><p>FONTE: <https://pbs.twimg.com/media/DGaY5_kXUAE33-u?format=jpg&name=small>.</p><p>Acesso em: 21 dez. 2020.</p><p>Não há abuso do direito do credor que faz uso de ligações telefônicas e envio</p><p>de cartas de cobrança dentro da razoabilidade que se espera, bem como ir ao encontro</p><p>do devedor para exigir o crédito. Assim como não há abuso de direito se o credor</p><p>condicionar a não inscrição do consumidor nos bancos de dados de proteção ao crédito</p><p>ao pagamento da dívida (MIRAGEM, 2016).</p><p>Contudo, a exigência do crédito deve se dar de forma discreta e formal, sem</p><p>expor a situação a terceiros e nem constranger o consumidor. Ademais, é vedado</p><p>ao credor realizar ameaças físicas ou adotar medidas que não estejam previstas no</p><p>contrato de consumo (MIRAGEM, 2016).</p><p>165</p><p>FIGURA 16 – REPETIÇÃO DE INDÉBITO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3s9d8Fw>. Acesso em: 21 dez. 2020.</p><p>Outro dispositivo de grande valia para a proteção do direito do consumidor é</p><p>o disposto no Art. 42, Parágrafo único, do CDC, que trata da repetição de indébito no</p><p>caso de cobrança abusiva. Tal dispositivo estabelece que “O consumidor cobrado em</p><p>quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que</p><p>pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de</p><p>engano justificável” (BRASIL, 1990).</p><p>A norma incide nas hipóteses em que o consumidor é cobrado por dívida indevida.</p><p>Contudo, Nunes (2018) enfatiza que para ser caracterizada a repetição de indébito deve</p><p>ser preenchido dois requisitos. O primeiro, deve haver a cobrança indevida. O segundo,</p><p>a ocorrência de pagamento, pelo consumidor, do valor indevidamente cobrado.</p><p>Observe que a repetição em dobro representa uma punição contra o fornecedor</p><p>ou prestador, porém, não afasta o direito do consumidor de pleitear outros prejuízos</p><p>decorrentes do pagamento indevido, respeitando o princípio da reparação integral dos</p><p>danos, disciplinado no Art. 6º, VI, do CDC.</p><p>Um exemplo recorrente da aplicação do Art. 42, parágrafo único, diz respeito à co-</p><p>brança e pagamento indevido de tarifa de água e esgoto quando o serviço não é efetiva-</p><p>mente prestado. Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça já firmou entendimento de</p><p>que caracteriza cobrança abusiva, ensejando a repetição de indébito, a cobrança de taxa de</p><p>esgoto quando inexiste a rede de esgotamento sanitário (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Você deve estar se perguntando o prazo que o consumidor tem de exercer seu</p><p>direito de repetição de indébito. Será que aplicamos o prazo prescricional disciplina no</p><p>Código de Defesa do Consumidor ou o prazo estabelecido pela legislação civil?</p><p>166</p><p>O Superior Tribunal de Justiça enfrentou essa discussão e concluiu pela</p><p>aplicação do prazo prescricional previsto no Código Civil que é de dez anos, uma vez</p><p>que esse prazo é mais favorável para o consumidor que o prazo previsto no Código de</p><p>Defesa do Consumidor, que seria de cinco anos, conforme disciplinado no Art. 27, da</p><p>legislação consumerista (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Ainda, no que concerne à cobrança de dívidas, resta enfatizar que a Lei n° 12.039/2009</p><p>incluiu o Art. 42-A, do CDC, estabelecendo a exigência do nome, endereço e número de inscri-</p><p>ção no Cadastro de Pessoas Física ou no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica do fornecedor</p><p>do produto ou serviço correspondente, em todos os documentos de cobrança de débitos</p><p>apresentados ao consumidor. Tal mandamento legal visa afastar a falta de comunicação pre-</p><p>cisa e completa nos documentos de cobrança de dívidas (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>3 BANCO DE DADOS E CADASTRO DE CONSUMIDORES</p><p>Os órgãos de proteção ao crédito desempenham um papel fundamental no</p><p>mercado de consumo (CAVALIERI FILHO, 2019), pois não existiria concessão de crédito</p><p>sem que o fornecedor tivesse informações do consumidor e tivesse condições de avaliar</p><p>os riscos de uma possível inadimplência (GARCIA, 2016).</p><p>Dessa forma, quando o fornecedor sabe que o consumidor cumpre suas</p><p>obrigações em dia e que não é um mau pagador, a concessão do crédito é efetivada. Por</p><p>esse motivo, é tão importante a existência de bancos de dados de proteção ao crédito.</p><p>Por isso, o Código de Defesa do Consumidor os considera entidades de caráter público,</p><p>conforme estabelecido no Art. 43, §4°, do CDC.</p><p>Marques, Bessa e Benjamin (2017) enfatizam que apesar dos bancos de dados</p><p>terem natureza pública, eles podem ser mantidos por entidades públicas (BACEN/</p><p>CADIN) ou privadas (SPC), chamadas de arquivistas.</p><p>Visando dar ênfase ao caráter coletivo dos bancos de dados dos consumidores,</p><p>a Lei n° 13.146/2015, que instituiu o Estatuto da Pessoa com Deficiência, inclui, no Art.</p><p>43, do CDC (1990), o §6°, disciplinado que “Todas as informações de que trata o caput</p><p>deste artigo devem ser disponibilizadas em formatos acessíveis, inclusive para a pessoa</p><p>com deficiência, mediante solicitação do consumidor”.</p><p>Ademais, o Superior Tribunal de Justiça já se posicionou que os cadastros gozam</p><p>de presunção de veracidade, especialmente quando produzem o que é informado pelos</p><p>Cartórios de protestos (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Observe que, apesar dos bancos de dados exercerem um papel relevante e</p><p>essencial, quando utilizados de forma abusiva, podem acarretar danos aos consumi-</p><p>dores. Por isso, o Art. 43 e seus parágrafos, estabelecem as atividades que podem ser</p><p>exercidas por eles.</p><p>167</p><p>O que disciplina o Art. 43 do Código de Defesa do Consumidor? O referido</p><p>artigo preconiza que “O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às</p><p>informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo</p><p>arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas fontes” (BRASIL, 1990).</p><p>Tartuce e Neves (2020) argumentam que podem ser extraídas três situações</p><p>do Art. 43, do CDC. A primeira diz respeito à inscrição ou registro no banco de dados</p><p>dos consumidores. A segunda refere-se à retificação ou correção das informações</p><p>constantes nesses bancos de dados. A terceira disciplina o cancelamento da inscrição.</p><p>Já o §1°, do Art. 43, estabelece que “Os cadastros e dados de consumidores</p><p>devem ser objetivos, claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não</p><p>podendo conter informações negativas referentes a período superior a cinco anos”</p><p>(BRASIL, 1990).</p><p>O §2°, do Art. 43, da legislação consumerista trata da abertura de cadastro,</p><p>ficha, registro e dados pessoais e de consumo que deverá ser comunicada por escrito</p><p>ao consumidor, quando não solicitada por ele.</p><p>Diante dessa norma, Nunes (2018) extrai alguns requisitos para a negativa do</p><p>nome do consumidor:</p><p>• existência da dívida;</p><p>• vencimento da dívida;</p><p>• a dívida há de ser líquida (certa quanto à existência, determinada quanto ao valor);</p><p>• não pode haver oposição por parte do consumidor com relação à dívida. Contudo, a</p><p>jurisprudência superior tem entendido que a simples oposição pelo consumidor não é</p><p>motivo para a não inscrição (TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>A respeito da comunicação da inscrição, o Superior Tribunal de Justiça editou a</p><p>Súmula n° 359, estabelecendo que “cabe ao órgão que mantém o cadastro de proteção</p><p>ao crédito a notificação do devedor antes de proceder à inscrição”.</p><p>Cabe ressaltar que o STJ editou a Súmula nº 404, cujo teor dispensa o aviso</p><p>de recebimento (A.R.), nas cartas de comunicação ao consumidor de sua negativação.</p><p>Diante disso, é suficiente que o órgão que detém o cadastro comprove que enviou a</p><p>comunica por carta ao endereço fornecido pelo devedor, não necessitando comprovar</p><p>que o consumidor recebeu tal comunicação.</p><p>Essa mesma linha de raciocínio levou o Tribunal da Cidadania editar a Súmula</p><p>n° 572, estabelecendo que o Banco do Brasil, na condição de gestor do Cadastro de</p><p>Emitentes de Cheques sem Fundos (CCF), não tem a responsabilidade de notificar</p><p>previamente o consumidor/devedor sobre a sua inscrição naquele cadastro (TARTU-</p><p>CE; NEVES, 2020).</p><p>168</p><p>Seguindo a análise dos parágrafos do Art. 43, temos a inteligência do §3º,</p><p>garantindo ao consumidor que sempre que ele “[...] encontrar inexatidão nos seus dados</p><p>e cadastros, poderá exigir sua imediata correção, devendo o arquivista, no prazo de</p><p>cinco dias úteis, comunicar a alteração aos eventuais destinatários das informações</p><p>incorretas”. Observe que essa norma traz a possibilidade de retificação dos dados</p><p>cadastrais. Diante disso, o órgão, onde seus dados estão inseridos, possui cinco dias</p><p>úteis para realizar tal correção.</p><p>No que tange ao prazo, o Superior Tribunal de Justiça, por meio da Súmula n°</p><p>548, já se posicionou no sentido de que este é o prazo que o credor possui para excluir</p><p>o nome do devedor do cadastro negativo. Nesse caso, ele será contado a partir da</p><p>quitação da dívida.</p><p>Quanto ao cancelamento da inscrição, o Art. 43, §1°, parte final determina que</p><p>não podem os cadastros conter informações negativas referentes a período superior a</p><p>cinco anos.</p><p>Vejam que, após cinco anos de inscrição esta caducará, devendo o órgão onde</p><p>estiver inserido esses dados, excluir eles, mesmo que o devedor não tenha quitada a</p><p>dívida com o fornecedor.</p><p>O Superior Tribunal de Justiça, por meio da Súmula n° 323, já pacificou esse</p><p>entendimento, no sentido de que “a inscrição do nome do devedor pode ser mantida nos</p><p>serviços de proteção ao crédito até o prazo máximo de cinco anos, independentemente</p><p>da prescrição da execução”.</p><p>Chamamos a atenção para a parte final da referida súmula que trata da prescrição,</p><p>pois essa referência guarda relação com o §5°, do Art. 43, do CDC (1990), estabelecendo</p><p>que “Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do consumidor, não serão</p><p>fornecidas, pelos respectivos Sistemas de Proteção ao Crédito, quaisquer informações</p><p>que possam impedir ou dificultar novo acesso ao crédito junto aos fornecedores”.</p><p>Por isso, quando ocorre a prescrição da dívida, o nome do consumidor/devedor</p><p>deve ser retirado imediatamente do cadastro. Caso esse cancelamento não ocorra,</p><p>acarretará uma manutenção indevida e gerará o dever do fornecedor</p><p>de reparar o dano</p><p>causado ao consumidor.</p><p>169</p><p>FIGURA 17 – RESPONSABILIDADE DO FORNECEDOR QUANTO AOS CADASTROS DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2MLyuII>. Acesso em: 23 dez. 2020.</p><p>Quanto à responsabilização do fornecedor, podemos observar a Figura 17 e pontuar</p><p>que não só a inscrição indevida, ou seja, nas hipóteses em que a dívida inexiste ou é inválida,</p><p>mas também quando não há comunicação prévia por parte do órgão que mantém cadastro,</p><p>gera do dever de o fornecedor indenizar o consumidor.</p><p>Contudo, o dever de indenizar também restará configurar quando ocorrer</p><p>a manutenção indevida da inscrição do nome do consumidor nesses cadastros de</p><p>proteção ao crédito, isto é, quando a dívida é paga ou quando expirado o prazo máximo</p><p>de conservação do nome por cinco anos, conforme antes estudado.</p><p>CUIDADO! A Súmula n° 385, do Superior Tribunal de Justiça enfatiza</p><p>que “da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe</p><p>indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado</p><p>o direito ao cancelamento”. Apresentamos, aqui, um exemplo para ilustrar a</p><p>aplicabilidade dessa súmula. Imagine que um determinado consumidor adquiriu</p><p>um determinado produto em uma loja e, por problemas financeiros, não teve</p><p>condições de quitar sua dívida, acarretando a sua legítima inscrição no cadastro</p><p>de proteção ao crédito. Então, uma instituição financeira, a qual o consumidor</p><p>nunca teve qualquer relação jurídica, realiza milhares de inscrições ilegítimas.</p><p>Pela Súmula n° 358, do STJ, o consumidor não terá direito a qualquer reparação</p><p>por parte do fornecedor (instituição financeira), uma vez que, quando ocorreu</p><p>a inscrição indevida ele já possuía uma legítima inscrição.</p><p>ATENÇÃO</p><p>170</p><p>3.1 CADASTRO DE FORNECEDORES E PRESTADORES DE</p><p>SERVIÇO: UMA ANÁLISE DO ART. 44 DO CÓDIGO DE DEFESA</p><p>DO CONSUMIDOR</p><p>A Lei n° 8.078/1990 não disciplina somente o cadastro e banco de dados dos</p><p>consumidores, mas também menciona o cadastro de fornecedores de produtos e</p><p>prestadores de serviços. O caput do Art. 44, do CDC preconiza que:</p><p>Art. 44 Os órgãos públicos de defesa do consumidor manterão ca-</p><p>dastros atualizados de reclamações fundamentadas contra fornece-</p><p>dores de produtos e serviços, devendo divulgá-lo pública e anual-</p><p>mente. A divulgação indicará se a reclamação foi atendida ou não</p><p>pelo fornecedor (BRASIL, 1990).</p><p>Exemplos desse tipo de cadastros são os mantidos pelos PROCONs estaduais,</p><p>que trazem o ranking das empresas mais reclamadas/demandadas pelos consumidores.</p><p>Esse direito de informação dos consumidores é confirmado pelo §1°, do Art. 44, do CDC,</p><p>estabelecendo que “É facultado o acesso às informações lá constantes para orientação</p><p>e consulta por qualquer interessado”.</p><p>Já, o §2°, do Art. 44, do CDC menciona que “Aplicam-se a este artigo, no que</p><p>couber, as mesmas regras enunciadas no artigo anterior e as do Parágrafo único do Art.</p><p>22 deste código”. Nesse sentido, aqui também cabe a retificação dos dados cadastrais</p><p>constantes nos referidos cadastros de fornecedores ou prestadores de serviço, uma vez</p><p>que esses cadastros também possuem natureza de serviço público.</p><p>3.2 CADASTRO POSITIVO</p><p>Visando encerrar esse título, cumpre trazer algumas considerações a respeito</p><p>do Cadastro Positivo, criado pela Lei nº 12.414/2011. Essa legislação foi editada sob a</p><p>justificativa de facilitar o crédito a favor do consumidor e trazer, posteriormente, uma</p><p>redução da taxa de juros no Brasil.</p><p>Tal legislação não afronta o Código de Defesa do Consumidor, apesar de alguns</p><p>entendimentos em contrário, justificados pela utilização indevida e sem autorização dos</p><p>dados dos consumidores. Nesses bancos de dados, serão armazenadas informações</p><p>objetivas, claras, verdadeiras e de fácil compreensão, que sejam necessárias para avaliar</p><p>a situação econômica do cadastro, conforme disciplina o Art. 3º, §1º, da Lei nº 12.414/2011.</p><p>Observe que esse cadastro diz respeito às informações positivas do consumidor,</p><p>ou seja, deve conter o histórico de adimplemento deste, por esse motivo, são proibidas</p><p>as anotações negativas.</p><p>171</p><p>Essas informações positivas servirão para a analisar o risco de crédito do consumidor</p><p>cadastrado ou, então, para subsidiar a concessão de crédito e a realização de venda a</p><p>prazo ou outras transações comerciais e empresariais que impliquem em risco financeiro</p><p>(TARTUCE; NEVES, 2020).</p><p>Como já vimos, o cadastro positivo não pode gerar violação de direitos do</p><p>consumidor. Caso ocorra desrespeito a esse direito, haverá a responsabilização de</p><p>quem causar o dano, uma vez que esse cadastro está sujeito ao regime do Código de</p><p>Defesa do Consumidor.</p><p>Quem será responsabilizado? A Lei n° 12.414/2011, em seu Art. 16, consagra a</p><p>responsabilidade objetiva e solidária do banco de dados, da fonte e do consulente, pelos</p><p>danos materiais e morais que causarem ao cadastrado.</p><p>Qual o prazo para esses bancos de dados manterem esse cadastro positivo? A</p><p>Lei n° 12.414/2011, em seu Art. 14, estabelece que “As informações de adimplemento não</p><p>poderão constar de bancos de dados por período superior a 15 anos. Ou seja, o prazo</p><p>máximo para a manutenção das informações positivas é de quinze anos.</p><p>Esse dispositivo gerou muitas críticas, pois alguns doutrinadores entendem que</p><p>esse prazo deveria estar harmonizado com o prazo de cinco anos previsto no Art. 43 do</p><p>Código de Defesa do Consumidor ou com o prazo prescricional de dez anos disciplinado</p><p>na codificação civil (MARQUES; BESSA; BENJAMIN, 2017).</p><p>4 SANÇÕES ADMINISTRATIVAS IMPOSTAS PELO CÓDIGO</p><p>DE DEFESA DO CONSUMIDOR</p><p>As sanções oriundas do processo administrativo de defesa do consumidor estão</p><p>elencadas, em rol taxativo em virtude do princípio da legalidade, no Art. 56, da legislação</p><p>consumerista e tem por finalidade assegurar a efetivação do direito do consumidor.</p><p>Segundo Miragem (2016), elas se constituem de forma pecuniária, com a</p><p>imposição de multas e podem ser relativas aos produtos ou serviços e, ainda, à atividade</p><p>do fornecedor.</p><p>A sua aplicação deve observar o devido processo administrativo, sempre</p><p>oportunizando o contraditório e a ampla defesa do fornecedor ou prestador de serviço</p><p>acusado da infração contra os direitos do consumidor.</p><p>Não podemos confundir as atribuições de controle e fiscalização realizados</p><p>por órgãos públicos, por exemplo, as agências reguladoras, com a competência para</p><p>a defesa dos direitos e interesses dos consumidores, que surge com a inserção do</p><p>produto ou serviço no mercado de consumo (MIRAGEM, 2016).</p><p>172</p><p>FIGURA 18 – MULTAS ORIUNDAS DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR</p><p>FONTE: <https://bit.ly/38o8yeo>. Acesso em: 23 dez. 2020.</p><p>Ademais, as sanções administrativas previstas no Código de Defesa do</p><p>Consumidor são decorrentes da violação às normas de proteção do consumidor, não</p><p>se confundindo, também, com a indenização devida aos consumidores lesados em</p><p>decorrência da violação aos seus direitos.</p><p>Por esse motivo, a existência de composição entre as partes, via judicial ou</p><p>extrajudicial, bem como decisão em ação indenizatória, não elimina a possibilidade de</p><p>os órgãos de defesa dos consumidores aplicarem sanções administrativas, uma vez que</p><p>tal penalidade não se confunde com o ressarcimento de eventuais vítimas da infração</p><p>(MIRAGEM, 2016).</p><p>As sanções administrativas pecuniárias são impostas ao infrator por meio do</p><p>recolhimento de multa e está disciplinada no Art. 56, I, do CDC. A sua graduação está</p><p>disciplinada no Art. 57, da Lei ° 8.078/1990, sendo que ela será imposta de acordo com</p><p>a gravidade da infração, a vantagem auferida e a condição econômica do fornecedor.</p><p>As sanções poderão ser aplicadas a todas as situações de violação dos direitos</p><p>dos consumidores. Contudo, Miragem (2016, p. 855) esclarece que “[...] os órgãos</p><p>de defesa do consumidor enfrentam dificuldades na aplicação segura dos critérios</p><p>estabelecidos em lei, devidamente embasado em dados técnicos”.</p><p>173</p><p>Muitas infrações cometidas não permitem a quantificação no que tange às</p><p>vantagens auferida pelo fornecedor, assim</p><p>como a mensuração da gravidade da</p><p>infração e da condição econômica do fornecedor, ficando a critério da autoridade essa</p><p>estipulação (MIRAGEM, 2016).</p><p>Após a aplicação da multa, o seu não pagamento no prazo fixado pela autoridade</p><p>competente enseja a inscrição do infrator em dívida ativa e a consequente execução,</p><p>observando as regras próprias da execução fiscal.</p><p>Contudo, tal valor arrecadado não será revertido individualmente para o</p><p>consumidor, como é o caso das indenizações. Os valores recolhidos a título de multa,</p><p>quando no âmbito federal, são destinados, nos termos do Art. 57, do CDC, ao Fundo de</p><p>Defesa dos Direitos Difusos, previstos na Lei n° 7.347/1985.</p><p>Quando as multas por infração ao direito do consumidor forem aplicadas por</p><p>órgãos de defesa do consumidor na esfera estadual ou municipal, cabe a esses entes a</p><p>criação de fundos próprios de proteção ao consumidor no âmbito de suas respectivas</p><p>competências. Quando não houver fundos municipais os recursos oriundos dessas</p><p>sanções serão revertidos em favor dos estados e na falta destes, ao Fundo Federal</p><p>(GARCIA, 2016).</p><p>Com relação ao valor aplicado, o Parágrafo único, do Art. 57, do CDC, disciplina</p><p>que a multa será em montante não inferior a 200 e não superior a três milhões de</p><p>vezes o valor da Unidade Fiscal de Referência (Ufir) ou índice equivalente que venha a</p><p>substituí-la.</p><p>Outra espécie de sanção administração são as objetivas que consistem em</p><p>providências concretas com relação ao produto ou serviço colocados no mercado de</p><p>consumo. Elas estão estabelecidas nos Incisos II, III, IV, V e VI, do Art. 57, da legislação</p><p>consumerista, são elas: apreensão, inutilização, cassação do registro, proibição de</p><p>fabricação, suspensão do fornecimento de produtos ou serviços.</p><p>A sua aplicação será determinada pela natureza do direito violado. O Art. 58, do</p><p>CDC, prevê as sanções que serão aplicadas aos fornecedores quando constatados os vícios</p><p>de quantidade ou qualidade por inadequação ou insegurança do produto ou do serviço.</p><p>De quem será a decisão da sanção a ser aplicada? Essa decisão cabe a</p><p>autoridade administrativa competente que verificará qual a sanção mais adequada para</p><p>a preservação dos direitos dos consumidores.</p><p>A legislação consumerista ainda traz outra espécie de sanção administrativa,</p><p>ou seja, as sanções subjetivas, que incidem diretamente na atividade do fornecedor</p><p>ou prestador de serviços e são aplicadas nas hipóteses de reincidência do fornecedor</p><p>infrator, nos termos do Art. 59, do CDC.</p><p>174</p><p>São consideradas sanções subjetivas, previstas no Art. 56, do CDC, a suspensão</p><p>temporária da atividade (Inciso VII); revogação da concessão ou permissão de uso (Inciso</p><p>VIII); cassação da licença do estabelecimento ou de atividade (Inciso IX); interdição</p><p>total ou parcial, de estabelecimento, de obra ou de atividade (Inciso X); intervenção</p><p>administrativa (Inciso XI); e imposição de contrapropaganda (Inciso XII).</p><p>Como vimos no Art. 59, da legislação consumerista, a reincidência do fornecedor</p><p>constitui elemento necessário para aplicação da sanção subjetiva. Contudo, o que seria</p><p>reincidência para fins de aplicação dessas sanções? A resposta é dada pelo Decreto nº</p><p>2.181/1997, Art. 27, que dispõe:</p><p>Art. 27 Considera-se reincidência a repetição de prática infrativa, de</p><p>qualquer natureza, às normas de defesa do consumidor, punida por</p><p>decisão administrativa irrecorrível.</p><p>Parágrafo único. Para efeito de reincidência, não prevalece a san-</p><p>ção anterior, se entre a data da decisão administrativa definitiva e</p><p>aquela da prática posterior houver decorrido período superior a cin-</p><p>co anos (BRASIL, 1997).</p><p>O prazo de cinco anos estabelecido pelo Decreto nº 2.181/1997 deve ser contato</p><p>da data da decisão administrativa definitiva da primeira infração até a decisão da</p><p>segunda, como período máximo para caracterização da reincidência.</p><p>Não basta a mera reincidência, pois, para ser caracterizada esta, a segunda infração</p><p>deve ser mais grave que a primeira. Ademais, o Art. 59, §3º, do CDC (1990), estabelece que</p><p>“Pendendo ação judicial na qual se discuta a imposição de penalidade administrativa, não</p><p>haverá reincidência até o trânsito em julgado da sentença”.</p><p>No que concerne à aplicação de pena de intervenção administrativa, disciplinada</p><p>no Art. 59, §2°, do CDC, deve ser vista com cautela. A norma jurídica disciplina que “Art. 59</p><p>[...], § 2° A pena de intervenção administrativa será aplicada sempre que as circunstâncias</p><p>de fato desaconselharem a cassação de licença, a interdição ou suspensão da atividade”</p><p>(BRASIL, 1990). Tal penalidade é medida extrema.</p><p>O Art. 59, §1º, do CDC, estabelece que “A pena de cassação da concessão será</p><p>aplicada à concessionária de serviço público, quando violar obrigação legal ou contratual</p><p>(BRASIL, 1990)”. Observa-se que tal medida também será em caráter extremo.</p><p>Ainda, no que diz respeito às sanções administrativas, o Art. 59, XII, do CDC, traz</p><p>a possibilidade de contrapropaganda. O conteúdo dessa sanção é determinado pelo Art.</p><p>60, do CDC e será caracterizado pelo dever imposto ao fornecedor infrator de divulgar</p><p>na “[...] mesma forma, frequência e dimensão e, preferencialmente no mesmo veículo,</p><p>local, espaço e horário, de forma capaz de desfazer o malefício da publicidade enganosa</p><p>ou abusiva” (BRASIL, 1990).</p><p>175</p><p>A RESPONSABILIDADE CIVIL NA LEI GERAL DE PROTEÇÃO DE DADOS</p><p>Walter Aranha Capanema</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>O legislador brasileiro, com o seu costumeiro atraso em acompanhar os</p><p>avanços da sociedade e da tecnologia, somente, em 2018, preocupou-se em regular</p><p>com efetividade a proteção de dados pessoais, o que ocorreu com a edição da Lei nº</p><p>13.709/2018, a denominada Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).</p><p>É verdade que já existiam outras leis que tratavam, de alguma forma, sobre</p><p>o tema, como o Código de Defesa do Consumidor, o Marco Civil da Internet (Lei nº</p><p>12.965/2014), a Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), a Lei do Cadastro</p><p>Positivo (Lei nº 12.414/2011), dentre outras.</p><p>A LGPD coloca o indivíduo (a quem denomina de “titular”) como protagonista</p><p>das relações jurídicas que envolvam o tratamento de dados, não só porque regula a</p><p>proteção de dados pessoais, mas, principalmente, elege como fundamento em seu Art.</p><p>2º, II, a “autodeterminação informativa”, que consiste no direito de escolher quais dados</p><p>serão usados, bem como os limites e o prazo dessa utilização.</p><p>A autodeterminação, portanto, é garantida pela previsão de vários direitos</p><p>no Capítulo III, especialmente no Art. 18, como o de informação (I), de acesso (II), de</p><p>correção (III), de portabilidade (V), de eliminação (VI), dentre outros.</p><p>Por sua vez, esses direitos correspondem a um rol de deveres voltados a quem</p><p>exerce a atividade de tratamento de dados. A LGPD diferencia esses deveres conforme</p><p>a relação destes com o tratamento, denominando aquele que exerce a decisão sobre o</p><p>tratamento de controlador, enquanto aquele que executa o tratamento, sob as ordens</p><p>do controlador, de operador. Juntos, eles são os “agentes de tratamento”.</p><p>Sob uma visão civilista, o controlador seria o mandante, e o operador, o mandatário.</p><p>Talvez possa se aventar a hipótese de que a relação controlador-operador constitua modali-</p><p>dade especial de mandato, própria das relações que envolvam tratamento de dados pessoais.</p><p>Há, ainda, nessa relação jurídica, um outro ator: o encarregado, pessoa natural ou</p><p>jurídica, integrante ou não dos quadros do controlador ou do operador, que exerça, dentre</p><p>outras funções, a intermediação entre os demais atores, especialmente a Autoridade Nacional</p><p>de Proteção de Dados (ANPD) e, ainda, orienta a aplicação das normas de proteção de dados.</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>176</p><p>Essa complexa relação de múltiplos atores e deveres aqui relatada, em resumo,</p><p>evidencia o desafio que as empresas privadas e órgãos públicos encontrarão para estar</p><p>em conformidade com a LGPD. Os efeitos do não atendimento passam não só pelas</p><p>sanções administrativas que podem ser eventualmente impostas pela ANPD, mas em</p><p>maior escala, por</p><p>ações de responsabilidade civil.</p><p>A questão da responsabilidade civil, por estar relacionada necessariamente a</p><p>ações judiciais, é talvez o aspecto da LGPD que mais interessa ao Poder Judiciário e,</p><p>portanto, será analisada neste artigo.</p><p>1 A RESPONSABILIDADE CIVIL NA LGPD</p><p>A responsabilidade civil está regulamentada na Seção III do Capítulo VI da LGPD, inti-</p><p>tulada de “Da Responsabilidade e do Ressarcimento de Danos”. É importante ressaltar que tais</p><p>normas não serão aplicáveis em todos os casos envolvendo responsabilidade civil, podendo,</p><p>dependendo da relação jurídica, ceder espaço a normas específicas, como o Código de Defe-</p><p>sa do Consumidor, o que, inclusive, é expressamente reconhecido pela LGPD em seu Art. 45.</p><p>A responsabilidade surge do exercício da atividade de proteção de dados que</p><p>viole a “legislação de proteção de dados”. Por essa expressão, o legislador reconhece</p><p>que a proteção de dados é um microssistema, com normas previstas em diversas leis,</p><p>sendo a LGPD a sua base estrutural. Deve-se aqui fazer uma analogia com o conceito</p><p>de “legislação tributária” do Art. 96 do CTN, para incluir não apenas as leis que versem</p><p>sobre a proteção de dados, mas as normas administrativas regulamentares que serão</p><p>expedidas pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados ou por outras entidades.</p><p>A responsabilidade civil na LGPD não surge apenas da violação do microssistema</p><p>jurídico de proteção de dados. É preciso interpretar o Art. 42, caput em conjunto com o</p><p>Art. 44, Parágrafo único, que assim dispõe:</p><p>Parágrafo único. Responde pelos danos decorrentes da violação da segu-</p><p>rança dos dados o controlador ou o operador que, ao deixar de adotar as</p><p>medidas de segurança previstas no Art. 46 desta Lei, der causa ao dano.</p><p>O Art. 46, por sua vez, estabelece que os agentes de tratamento deverão</p><p>adotar medidas de segurança, técnicas e administrativas visando a proteção de dados</p><p>pessoais. Tais normas podem ser editadas, inclusive, pela ANPD.</p><p>Pela complexidade da atividade de segurança da informação, devem ser</p><p>consideradas apenas aquelas medidas previstas em padrões devidamente reconhecidos,</p><p>como as denominadas normas ISO. Dessa forma, é possível identificar duas situações</p><p>de responsabilidade civil na LGPD:</p><p>a) violação de normas jurídicas, do microssistema de proteção de dados;</p><p>b) violação de normas técnicas, voltadas à segurança e proteção de dados pessoais.</p><p>177</p><p>E, evidentemente, só caracterizará a responsabilidade civil se a violação de</p><p>norma jurídica ou técnica ocasionar dano material ou moral a um titular ou a uma</p><p>coletividade. O Art. 42 restringe a responsabilidade civil ao controlador ou ao operador. A</p><p>presença da conjunção alternativa “ou” estabelece a alternância entre um (controlador)</p><p>ou o outro (operador). Obviamente, se a relação jurídica do titular com o controlador e o</p><p>operador for de natureza consumerista, serão aplicadas as normas de responsabilidade</p><p>solidária dos Arts. 12 e 18 do CDC.</p><p>O § 1° excepciona a regra de alternância do caput, permitindo a solidariedade em</p><p>dois casos específicos, com vistas a “assegurar a efetiva indenização ao titular dos dados”.</p><p>No Inciso I, o operador responderá solidariamente em duas situações: caso</p><p>descumpra a legislação de proteção de dados ou se não seguir “as instruções lícitas</p><p>do controlador, hipótese em que o operador equipara-se ao controlador”. É muito</p><p>semelhante, nesse caso, na situação do mandatário que descumpre as instruções do</p><p>mandante, conforme o Art. 679, CC..</p><p>Já, no Inciso II, ocorrerá a solidariedade entre “os controladores que estiverem</p><p>diretamente envolvidos no tratamento”, ou seja, aqueles que estabelecerem, em</p><p>conjunto, decisões que violem o microssistema da proteção de dados ou às normas</p><p>técnicas cabíveis.</p><p>Tais hipóteses de solidariedade estarão afastadas caso presentes as hipóteses</p><p>de exclusão de responsabilidade, previstas no Art. 43.</p><p>A LGPD não fala na responsabilidade civil do encarregado, contudo ela poderá</p><p>surgir, por exemplo, quando essa função for exercida por uma pessoa natural ou jurídica</p><p>destacada do controlador e do operador em uma relação consumerista. Por se estar</p><p>diante de alguém que está na cadeia de produção, poderá ser responsabilizado de</p><p>forma solidária pelo dano causado.</p><p>O § 2º admite a inversão do ônus da prova, a critério do juiz, a favor do titular</p><p>de dados, desde que verossímil a alegação, haja hipossuficiência para fins de produção</p><p>de prova ou quando a produção de prova pelo titular for excessivamente onerosa. Há</p><p>normas sobre a redistribuição/inversão do ônus da prova em outras leis: uma muito</p><p>semelhante no Art. 373, § 1º do CPC e outra no Art. 6º, VIII do CDC, aplicável nas ações</p><p>de natureza consumerista, exigindo menos requisitos.</p><p>Além da inversão do ônus probatório, o reconhecimento da hipossuficiência</p><p>do titular também se verifica no fato de que a responsabilidade civil da LGPD ser da</p><p>modalidade objetiva, na qual não há discussão sobre a culpa do agente.</p><p>178</p><p>2 EXCLUSÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL</p><p>2.1 HIPÓTESES DE EXCLUSÃO</p><p>As hipóteses de exclusão da responsabilidade civil estão previstas no art. 43 da</p><p>LGPD. O Inciso I trata da situação em que o agente não realizou o tratamento de dados</p><p>a que lhe foi atribuído, ou seja, houve um tratamento de dados, mas o réu não tem</p><p>qualquer vínculo com ele. Aproxima-se muito da figura da ilegitimidade passiva, que a</p><p>LGPD trata como matéria de mérito.</p><p>Já o Inciso II exclui a responsabilidade na situação em que o agente realizou o</p><p>tratamento, mas “não houve violação à legislação de proteção de dados”. Aqui, o dano</p><p>ocorreu por um ato lícito.</p><p>Seria o caso, por exemplo, de uma decisão automatizada, baseada em critérios</p><p>trans- parentes, informados (presentes em termos de uso) e sem viés, que negue um</p><p>empréstimo a um possível consumidor. O presente inciso prevê expressamente apenas a</p><p>situação em que não houve violação à proteção de dados. Deve-se interpretar este artigo</p><p>em conjunto com os Arts. 42, 44, 46 e Parágrafo único, conforme as razões já apresen-</p><p>tadas, de modo a admitir, também a alegação de ausência de violação de norma técnica.</p><p>A alegação de culpa exclusiva do titular ou de terceiro está prevista no Inciso</p><p>III do Art. 43. Serão os casos em que o dano for causado por exclusiva ingerência do</p><p>titular, por terceiro, ou por uma atuação conjunta do titular com o terceiro. Ainda assim,</p><p>caberão alguns questionamentos.</p><p>Imagine a situação em que houve a invasão da conta de e-mail de um usuário,</p><p>com a destruição de todas as suas mensagens. Tal fato só ocorreu porque a senha</p><p>utilizada pelo titular era fraca, com apenas quatro caracteres e foi facilmente descoberta.</p><p>Poder-se-ia aqui falar em culpa exclusiva do titular? Caberia aos agentes de tratamento</p><p>verificar a segurança da senha criada pelo usuário e impedir o uso daquelas que fossem</p><p>frágeis? Existe norma técnica estabelecendo essa obrigação?</p><p>2.2 VULNERABILIDADES E 0-DAY</p><p>Vale a pena trazer para a discussão um tema relacionado à segurança da</p><p>informação e que certamente repercutirá na aplicação da lei: a vulnerabilidade, um</p><p>conceito da tecnologia, entendido como a “condição que, quando explorada por um</p><p>atacante, pode resultar em uma violação de segurança”.</p><p>As vulnerabilidades, quando eventualmente descobertas, são documentadas e</p><p>catalogadas em sites como o Common Vulnerabilities and Exposures (CVE), permitindo</p><p>que os responsáveis pela segurança da informação das empresas e órgãos públicos</p><p>adotem medidas técnicas para prevenir tais incidentes.</p><p>179</p><p>Dessa forma, se houve um dano a dados pessoais decorrentes do não</p><p>atendimento de uma norma técnica, relativa a uma vulnerabilidade já conhecida e</p><p>documentada, fica, assim, evidenciada a negligência do agente de tratamento.</p><p>Contudo, é possível que o dano seja causado pelo emprego das chamadas</p><p>“vulnerabilidades não documentadas”, também conhecidas como 0-day. Nesse caso,</p><p>seria incabível a responsabilização civil, afinal, se não se sabe ainda da sua existência,</p><p>não tem como exigir o dever de segurança.</p><p>Logo, não é possível se atribuir aos agentes de tratamento o dever de segurança/</p><p>proteção dos dados pessoais em toda e qualquer hipótese, mas apenas no estado da</p><p>arte/técnica existente à época.</p><p>E mais, deve-se entender que a obrigação de segurança é de meio e não de</p><p>resultado. É impossível ao agente de tratamento garantir, com 100% de certeza, que os dados</p><p>dos titulares estarão seguros contra qualquer incidente. É preciso, portanto, razoabilidade.</p><p>3 CRITÉRIOS PARA A DEFINIÇÃO DO QUANTUM INDENIZATÓRIO</p><p>O Art. 944 do Código Civil dispõe que “A indenização mede-se pela extensão</p><p>do dano”. E a extensão de um dano relativo à proteção de dados poderá levar em</p><p>consideração os seguintes critérios:</p><p>a) a quantidade de dados pessoais afetados;</p><p>b) a natureza dos dados pessoais afetados: o vazamento de dados pessoais sensíveis,</p><p>por exemplo, determinará uma indenização maior, especialmente se se tratar de</p><p>dados biométricos, que não podem ser substituídos;</p><p>c) a reincidência da conduta;</p><p>d) a omissão em tomar medidas de segurança e técnicas para minorar o dano ou em</p><p>colaborar com a Autoridade Nacional de Proteção de Dados;</p><p>e) a ausência de notificação dos usuários da ocorrência do incidente;</p><p>f) a comprovada utilização dos dados pessoais vazados de titulares por terceiros.</p><p>4 EXEMPLOS PONTUAIS DE RESPONSABILIDADE CIVIL NA LGPD</p><p>Embora a LGPD ainda não esteja em vigor, é possível pensar em alguns exemplos</p><p>de responsabilidade civil.</p><p>4.1 VAZAMENTOS/DATA LEAKS</p><p>Um dos maiores pesadelos da modernidade consiste no vazamento de dados,</p><p>normalmente por falhas de segurança. São relatados, todos os dias, diversos casos, desde</p><p>abrangendo dados bancários, logins e senhas do Netflix, redes sociais e biométricos.</p><p>180</p><p>O dano poderá ser potencializado com o posterior uso dos dados pessoais por</p><p>criminosos, para a criação de identidades falsas, exploração de logins e acesso aos</p><p>dados das vítimas.</p><p>4.2 O NÃO ATENDIMENTO DOS DIREITOS DO TITULAR</p><p>O Capítulo III, como já foi dito, estabelece um rol de direitos para o titular.</p><p>O não atendimento a esses direitos poderá ensejar, a princípio, a configuração de um</p><p>dano moral, sendo possível, inclusive, cumulá-lo com um dano patrimonial, caso a</p><p>impossibilidade de exercício do direito tenha trazido lucro cessante ou dano emergente.</p><p>4.3 O SPAM E O TRATAMENTO ILEGAL</p><p>O spam, entendido como o envio de publicidade ou propaganda eletrônica</p><p>não autorizada, não era expressamente vedado pela legislação. O Superior Tribunal de</p><p>Justiça, em precedente de 2009, entendeu que não se constitui ilícito, “por ausência de</p><p>previsão legal”, e que há métodos de evitá-lo. Com a vigência da LGPD, tal entendimento</p><p>necessitará ser revisto.</p><p>O envio de mensagem, portanto, constitui hipótese de tratamento de dados,</p><p>pois precisa de dados pessoais para ser efetivado (normalmente, endereço de e-mail ou</p><p>número telefônico, no caso do WhatsApp).</p><p>E, assim, necessitará do consentimento do titular-destinatário ou alguma outra</p><p>base legal.</p><p>Logo, o tratamento de dados pessoais sem o consentimento do titular ou fora</p><p>das previsões legais poderá configurar dano moral.</p><p>CONCLUSÃO</p><p>É fundamental que os operadores do Direito conheçam as regras da LGPD. A</p><p>complexidade dessas normas é um desafio, mas é necessária a sua compreensão da</p><p>parte do titular, para defender seus direitos em juízo e, por parte dos agentes, para a</p><p>prevenção e minimização dos riscos de eventuais ações judiciais.</p><p>É preciso, portanto, conjugar a adequação à lei com uma mudança de cultura nas</p><p>empresas e órgãos públicos. Os titulares e os seus dados merecem respeito.</p><p>FONTE: Adaptado de <https://core.ac.uk/reader/322682320>. Acesso em: 23 dez. 2020.</p><p>181</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A legislação consumerista veda o abuso de direito na cobrança de dívidas,</p><p>determinando que o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem será</p><p>submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça.</p><p>• Não há abuso do direito do credor que faz uso de ligações telefônicas e envio de</p><p>cartas de cobrança dentro da razoabilidade que se espera.</p><p>• O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por</p><p>valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e</p><p>juros legais, salvo hipótese de engano justificável.</p><p>• Os bancos de dados e cadastro de consumidores têm natureza pública, porém</p><p>podem ser mantidos por entidades públicas (BACEN/CADIN) ou privadas (SPC),</p><p>chamadas de arquivistas.</p><p>• Cabe ao órgão que mantém o cadastro de proteção ao crédito a notificação do</p><p>devedor antes de proceder à inscrição, dispensando o aviso de recebimento (A.R.).</p><p>• O credor/fornecedor tem prazo de cinco dias para solicitar a exclusão do nome do</p><p>consumidor/devedor do cadastro negativo. Esse prazo será contado a partir da</p><p>quitação da dívida.</p><p>• Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização</p><p>por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao</p><p>cancelamento.</p><p>• Os cadastros de fornecedores ou prestadores de serviços são os mantidos pelos</p><p>PROCONs estaduais, que trazem o ranking das empresas mais reclamadas/deman-</p><p>dadas pelos consumidores.</p><p>• O cadastro positivo diz respeito às informações positivas do consumidor, devendo</p><p>conter o histórico de adimplemento deste, sendo vedada as anotações negativas.</p><p>• As sanções oriundas do processo administrativo de defesa do consumidor estão</p><p>elencadas, no Art. 56, da legislação consumerista e tem por finalidade assegurar a</p><p>efetivação do direito do consumidor.</p><p>182</p><p>1 O Banco Turma da Mônica enviou um cartão de crédito para Franjinha, com limite de</p><p>R$ 15.000,00 reais, para uso em território nacional e no exterior, incluindo seguro de</p><p>vida e acidentes pessoais, bem como seguro contra roubo e furto, no importe total</p><p>de R$ 5,00 reais na fatura mensal, além da anuidade de R$ 400,00, parcelada em</p><p>cinco vezes. Franjinha recebeu a correspondência contendo um cartão bloqueado, o</p><p>contrato e o informativo de benefícios e ônus. Ocorre que Franjinha não é cliente do</p><p>Banco Turma da Mônica e sequer solicitou o cartão de crédito. Sobre a conduta da</p><p>instituição bancária, Banco Turma da Mónica, considerando a situação narrada e o</p><p>entendimento do STJ expresso em súmula, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Foi abusiva e constitui ilícito indenizável em favor de Franjinha, mesmo sem</p><p>prejuízo comprovado, em razão da configuração de dano moral, podendo ainda</p><p>ser cumulada com a aplicação de multa administrativa, que não será fixada em</p><p>favor do consumidor.</p><p>b) ( ) Foi abusiva, sujeitando-se à aplicação de multa administrativa, que não se</p><p>destina ao consumidor, mas não há ilícito civil indenizável, tratando-se de mero</p><p>aborrecimento, sob pena de se permitir o enriquecimento ilícito de Franjinha.</p><p>c) ( ) Foi abusiva, sujeita à advertência e não à multa administrativa, salvo caso de</p><p>reincidência, bem como não gera ilícito indenizável, por não ter havido dano</p><p>moral in re ipsa na hipótese, salvo se houvesse extravio do cartão antes de ser</p><p>entregue a Franjinha.</p><p>d) ( ) Não foi abusiva, pois não houve prejuízo ao consumidor a justificar multa administra-</p><p>tiva e nem constitui ilícito indenizável, na medida em que o destinatário pode des-</p><p>considerar a correspondência, não desbloquear o cartão e não aderir ao contrato.</p><p>2 Com relação às sanções administrativas estabelecidas pela Lei nº 8.078/1990 para infra-</p><p>ções das normas de defesa do consumidor, associe os itens, utilizando o código a seguir:</p><p>I- Multa.</p><p>II- Intervenção administrativa.</p><p>III- Inutilização do produto.</p><p>IV- Cassação de concessão.</p><p>( ) Aplicada sempre que as circunstâncias de fato desaconselharem a cassação de</p><p>licença, a interdição ou suspensão da atividade.</p><p>( ) Pena aplicável quando forem constatados vícios de quantidade ou de qualidade</p><p>por inadequação ou insegurança do produto.</p><p>( ) Deve ser graduada de acordo com a gravidade da infração, a vantagem auferida e</p><p>a condição econômica do fornecedor.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>183</p><p>( ) Pena cabível para os casos de violação legal ou contratual na prestação de serviços</p><p>delegados pelo poder público.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) III – I – IV – II.</p><p>b) ( ) IV – III – I – II.</p><p>c) ( ) II – I – III – IV.</p><p>d) ( ) II – III – I – IV.</p><p>3 Visconde de Sabugosa, atraído pela propaganda de veículos zero quilômetro,</p><p>compareceu até uma concessionária a fim de conhecer as condições de financiamento.</p><p>Verificando que o valor das prestações cabia no seu orçamento mensal e que as taxas</p><p>e os custos lhe pareciam justos, Visconde de Sabugosa iniciou junto ao vendedor</p><p>os procedimentos para a aquisição do veículo. Para sua surpresa, entretanto, a</p><p>financeira negou-lhe o crédito, ao argumento de que havia negativação do nome de</p><p>Visconde de Sabugosa nos cadastros de proteção ao crédito. Indignado e buscando</p><p>esclarecimentos, Visconde Sabugosa procurou o Banco de Dados e Cadastro que</p><p>havia informado à concessionária acerca da suposta existência de negativação,</p><p>sendo informado por um dos empregados que as informações que Visconde de</p><p>Sabugosa buscava somente poderiam ser dadas mediante ordem judicial. Sobre o</p><p>procedimento do empregado do Banco, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) O empregado do Banco de Dados e Cadastros agiu no legítimo exercício de</p><p>direito ao negar a prestação das informações, já que o solicitado pelo consumidor</p><p>somente deve ser dado pelo fornecedor que solicitou a negativação, cabendo a</p><p>Visconde de Sabugosa buscar uma ordem judicial mandamental, autorizando a</p><p>divulgação dos dados para ele diretamente.</p><p>b) ( ) O procedimento do empregado, ao negar as informações que constam no Banco de</p><p>Dados e Cadastros sobre o consumidor, configura infração penal punível com pena</p><p>de detenção ou multa, nos termos tipificados no Código de Defesa do Consumidor.</p><p>c) ( ) A negativa no fornecimento das informações foi indevida, mas configura mera</p><p>infração administrativa punível com advertência e, em caso de reincidência,</p><p>pena de multa a ser aplicada ao órgão, não ao empregado que negou a presta-</p><p>ção de informações.</p><p>d) ( ) Cuida-se de infração administrativa e, somente se cometido em operações que</p><p>envolvessem alimentos, medicamentos ou serviços essenciais, configuraria infra-</p><p>ção penal, para fins de incidência da norma consumerista em seu aspecto penal.</p><p>4 Poseidon comprou um forno elétrico em dez parcelas, na data de 15 de maio de 2016,</p><p>na loja Olimpo Eletrodomésticos, sendo que a última parcela do seu crediário deveria</p><p>ter sido paga em 15 de fevereiro de 2017. No mês seguinte, ou seja, em junho de 2016,</p><p>Poseidon realizou a compra de um sofá na loja Móveis Gregos Ltda., parcelando em</p><p>dez vezes, sendo que a última parcela do seu crediário deveria ter sido paga em 10</p><p>de março de 2017. Nesse período, Poseidon enfrentou grandes dificuldades financeira</p><p>184</p><p>levando-o a inadimplir as obrigações assumidas com as lojas Olimpo Eletrodomésticos</p><p>e Móveis Gregos Ltda. Por esse motivo, não quitou nenhuma das parcelas em dia, o</p><p>que acarretou a inscrição de seu nome no cadastro de inadimplentes, por ambas as</p><p>empresas. Em janeiro de 2019, Poseidon quita, integralmente, o seu débito junto à loja</p><p>Olimpo Eletrodomésticos, com juros e correção monetária, informando a referida loja</p><p>desse pagamento. A loja, Olimpo Eletrodomésticos, confirmou, via e-mail, que estava</p><p>tudo quitado e que solicitaria a exclusão do seu nome do cadastro de inadimplentes</p><p>na mesma ocasião. Entretanto, ao consultar sua situação junto ao Serviço de Proteção</p><p>ao Crédito (SPC), na data de 2 maio de 2019, descobriu que seu nome ainda estava</p><p>negativado pela loja Olimpo Eletrodomésticos, pela dívida já quitada. Diante dessa</p><p>situação, Poseidon procura um advogado (você) para saber o que poderá ser feito a</p><p>respeito e se, nesse caso, ele poderá pleitear uma indenização, uma vez que a dívida</p><p>junto à loja já fora quitada. Nesse sentido, oriente Poseidon fundamentando a sua</p><p>resposta, nos dispositivos legais.</p><p>5 Magali firmou contrato com empresa Doces e Mais Doces Ltda. para o fornecimento</p><p>de produtos para a sua festa de 25 anos. O pagamento deveria ter sido feito por</p><p>meio de boleto, mas a obrigação foi inadimplida e a empresa Doces e Mais Doces</p><p>Ltda., observando todas as regras positivadas e sumulares cabíveis, procedeu com</p><p>a anotação legítima e regular do nome de Magali no cadastro negativo de crédito.</p><p>Passados alguns dias, Magali tentou adquirir um produto numa loja de departamentos</p><p>mediante financiamento, mas o crédito lhe foi negado, motivo pelo qual a devedora</p><p>providenciou o imediato pagamento dos valores devidos à empresa Doces e Mais</p><p>Doces Ltda. Superada a condição de inadimplente, Magali quer saber como deve</p><p>proceder a fim de que seu nome seja excluído do cadastro negativo. Diante da</p><p>situação hipotética, oriente Magali sobre como ela deve proceder, fundamentando a</p><p>sua resposta no dispositivo legal.</p><p>185</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BRASIL. Lei nº 13.425, de 30 de março de 2017. Estabelece diretrizes gerais sobre</p><p>medidas de prevenção e combate a incêndio e a desastres em estabelecimentos,</p><p>edificações e áreas de reunião de público; altera as Leis nº s 8.078, de 11 de setembro</p><p>de 1990, e 10.406, de 10 de janeiro de 2002 – Código Civil; e dá outras providências.</p><p>Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13425.</p><p>htm. Acesso em: 6 jan. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da</p><p>Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em: http://www.</p><p>planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 6 jan. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 12.414, de 9 de junho de 2011. Disciplina a formação e consulta a</p><p>bancos de dados com informações de adimplemento, de pessoas naturais ou de pessoas</p><p>jurídicas, para formação de histórico de crédito. Disponível em: http://www.planalto.gov.</p><p>br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12414.htm. Acesso em: 23 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 12.039, de 1º de outubro de 2009. Inclui dispositivo na Lei nº 8.078, de</p><p>11 de setembro de 1990, para determinar que constem, nos documentos de cobrança</p><p>de dívida encaminhados ao consumidor, o nome, o endereço e o número de inscrição</p><p>no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica –</p><p>CNPJ do fornecedor do produto ou serviço. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12039.htm. Acesso em: 6 jan. 2021.</p><p>BRASIL. Lei nº 10.962, de 11 de outubro de 2004. Dispõe sobre a oferta e as formas</p><p>de afixação de preços de produtos e serviços para o consumidor. Disponível em: http://</p><p>www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l10.962.htm. Acesso em: 15</p><p>de dez. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível</p><p>em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em:</p><p>1º dez. 2020.</p><p>BRASIL. Decreto nº 2.181, de 20 de março de 1997. Dispõe sobre a organização do</p><p>Sistema Nacional de Defesa do Consumidor - SNDC, estabelece as normas gerais de</p><p>aplicação das sanções administrativas previstas na Lei nº 8.078, de 11 de setembro de</p><p>1990, revoga o Decreto Nº 861, de 9 julho de 1993, e dá outras providências. Disponível</p><p>em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d2181.htm. Acesso em: 6 jan. 2021.</p><p>186</p><p>BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do</p><p>consumidor e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/leis/l8078compilado.htm. Acesso em: 23 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985. Disciplina a ação civil pública de</p><p>responsabilidade por danos causados ao meio-ambiente, ao consumidor, a bens e</p><p>direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico (VETADO) e dá outras</p><p>providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7347orig.htm.</p><p>Acesso em: 6 jan. 2021.</p><p>BRASIL. Conselho da Justiça Federal. Enunciado nº 621. 8. Jornada</p><p>de Direito Civil,</p><p>2018. Disponível em: https://www.cjf.jus.br/enunciados/enunciado/1201. Acesso em:</p><p>12 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Conselho da Justiça Federal. Enunciado nº 23. 1. Jornada de Direito Civil,</p><p>2002. Disponível em: https://www.cjf.jus.br/enunciados/enunciado/669. Acesso em:</p><p>12 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 532. Constitui prática comercial</p><p>abusiva o envio de cartão de crédito sem prévia e expressa solicitação do consumidor,</p><p>configurando-se ato ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa administrativa.</p><p>Brasília, DF: Superior Tribunal de Justiça, [2015]. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/</p><p>SCON/sumulas/doc.jsp?livre=@num=%27532%27. Acesso em: 18 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 548. Da anotação irregular em cadastro</p><p>de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente</p><p>legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento. Brasília, DF: Superior Tribunal</p><p>de Justiça, [2015]. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/SCON/sumulas/doc.jsp?livre=@</p><p>num=%27548%27. Acesso em: 22 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 385. Da anotação irregular em cadastro</p><p>de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente</p><p>legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento. Brasília, DF: Superior Tribunal de</p><p>Justiça, [2009]. Disponível em: https://www.stj.jus.br/docs_internet/revista/eletronica/</p><p>stj-revista-sumulas-2013_35_capSumula385.pdf. Acesso em: 23 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 404. É dispensável o aviso de</p><p>recebimento (AR) na carta de comunicação ao consumidor sobre a negativação de seu</p><p>nome em bancos de dados e cadastros. Brasília, DF: Superior Tribunal de Justiça, [2009].</p><p>Disponível em: https://ww2.stj.jus.br/publicacaoinstitucional/index.php/sumstj/article/</p><p>download/5337/5461. Acesso em: 22 dez. 2020.</p><p>187</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 359. Cabe ao órgão mantenedor do</p><p>Cadastro de Proteção ao Crédito a notificação do devedor antes de proceder à inscrição.</p><p>Brasília, DF: Superior Tribunal de Justiça, [2008]. Disponível em: https://www.stj.jus.br/</p><p>docs_internet/revista/eletronica/stj-revista-sumulas-2012_31_capSumula359.pdf.</p><p>Acesso em: 22 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 323. A inscrição do nome do devedor</p><p>pode ser mantida nos serviços de proteção ao crédito até o prazo máximo de cinco</p><p>anos, independentemente da prescrição da execução. Brasília, DF: Superior Tribunal de</p><p>Justiça, [2004]. Disponível em: https://www.stj.jus.br/docs_internet/revista/eletronica/</p><p>stj-revista-sumulas-2011_26_capSumula323.pdf. Acesso em: 23 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 130. A empresa responde, perante o</p><p>cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento.</p><p>Brasília, DF: Superior Tribunal de Justiça, [1995]. Disponível em: https://www.stj.jus.br/</p><p>docs_internet/revista/eletronica/stj-revista-sumulas-2010_9_capSumula130.pdf.</p><p>Acesso em: 20 dez. 2020.</p><p>CAVALIERI FILHO, S. Programa de direito do consumidor. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2019.</p><p>GARCIA, L. M. Código de Defesa do Consumidor Comentado: artigo por artigo. 13.</p><p>Salvador: JusPODIVM, 2016.</p><p>MARQUES, C. L.; BESSA, L. R.; BENJAMIN, A. H. de V. Manual de direito do consumidor.</p><p>8. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017.</p><p>MIRAGEM, B. Curso de direito do consumidor. 6. ed. São Paulo: Editora Revista dos</p><p>Tribunais, 2016.</p><p>NUNES, L. A. R. Curso de direito do consumidor. 12. ed. São Paulo: Saraiva Educação,</p><p>2018.</p><p>NUNES, L. A. R. Comentários ao código de defesa do consumidor. 3. ed. São Paulo:</p><p>Saraiva, 2007.</p><p>RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Caso Kiss.</p><p>Porto Alegre, 2020c. Disponível em: https://www.tjrs.jus.br/novo/caso-kiss/. Acesso</p><p>em: 19 dez. 2020.</p><p>RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Recurso</p><p>Cível Nº 71002758332, Terceira Turma Recursal Cível. Turmas Recursais. Relator: Des.</p><p>Leandro Raul Klippel. Julgado em 27 jan. 2011. Disponível em: https://bit.ly/3l4LerW.</p><p>Acesso em: 18 dez. 2020.</p><p>188</p><p>SCAVONE JÚNIOR, L. A. Arbitragem: mediação, conciliação e negociação. Rio de</p><p>Janeiro: Forense, 2019.</p><p>TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito material e</p><p>processual. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2020.</p><p>TARTUCE, F.; NEVES, D. A. A. Manual de direito do consumidor: direito material e</p><p>processual. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2019.</p><p>promulgou a primeira lei que protegia o direito dos</p><p>consumidores, no intuito de reprimir os atos fraudulentos praticados pelo comércio.</p><p>A luta por melhores condições de trabalho que originou o movimento consumerista norte-</p><p>americano, deu origem à homenagem à luta dos trabalhadores, comemorada em vários</p><p>países, no dia 1º de maio.</p><p>No dia 1º de maio de 1886, milhares de trabalhadores saíram as ruas de Chicago para</p><p>reivindicar redução na jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias, além de melhores</p><p>condições de trabalho. Essa manifestação causou a ira dos poderosos que reprimiram</p><p>duramente o movimento.</p><p>Houve confronto nas ruas entre os operários e a polícia, ocasionando várias pessoas</p><p>feridas, presas e até mesmo trabalhadores mortos.</p><p>Em memória dos operários mortos no confronto, nas ruas de Chicago, estabeleceu-se o dia</p><p>1º de maio, como Dia Mundial do Trabalhador.</p><p>Ficou interessado? Pesquisa mais sobre esse tema no site: <http://www.mundodigital.</p><p>net.br/index.php/destaque/13165-a-maioria-ignora-a-historia-sobre-a-origem-do-dia-do-</p><p>trabalho-1-de-maio>.</p><p>INTERESSANTE</p><p>11</p><p>FIGURA – CONFRONTO ENTRE OS OPERÁRIOS E A POLÍCIA EM CHICAGO</p><p>FONTE: <http://www.mundodigital.net.br/images/artigos/destaque/01_maio.jpg>.</p><p>Acesso em: 23 set. 2020.</p><p>A figura anterior representa o confronto entre a polícia e os trabalhadores,</p><p>nas ruas de Chicago, no dia 1º de maio de 1886.</p><p>Em decorrência do movimento consumerista que vinha ganhando força e com o</p><p>surgimento de grandes monopólios, em vários segmentos da economia, que abusavam</p><p>do seu poder de mercado, controlando a produção de determinados bens e fixando os</p><p>respectivos preços e, consequentemente, prejudicando os consumidores, os Estados</p><p>Unidos editaram, em 1890, a Lei Antitruste, conhecida como a “Lei Shermann”.</p><p>Observem que esta lei foi promulgada há aproximadamente um século antes do nosso</p><p>Código de Defesa do Consumidor e a respeito disso, Nunes (2018, p. 40) destaca que:</p><p>Nos Estados Unidos, que hodiernamente é o país que domina o</p><p>planeta do ponto de vista do capitalismo contemporâneo, que</p><p>capitaneia o controle econômico mundial (cujo modelo de con-</p><p>trole tem agora o nome de globalização), a proteção ao consu-</p><p>midor havia começado em 1890 com a Lei Shermann, que é a lei</p><p>antitruste americana. Isto é, exatamente um século antes do nos-</p><p>so CDC, numa sociedade que se construía como sociedade capi-</p><p>talista de massa, já existia uma lei de proteção ao consumidor.</p><p>INTERESSANTE</p><p>Em 1891, ano seguinte a edição da Lei Shermann, foi criada a primeira entidade</p><p>civil, a Consumer’s League, cujo objetivo era defender os interesses dos consumidores</p><p>(FILOMENO, 2018). Podemos observar uma estreita relação entre o movimento</p><p>consumerista e a luta dos trabalhadores, pois estes sabiam que a melhor pressão era</p><p>aquela que atacassem seus lucros (SILVA, 2010).</p><p>12</p><p>No entanto, no século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, esse</p><p>movimento se fortaleceu nos Estados Unidos e se espalhou para o Canadá e para a</p><p>Europa. Organizações civis que lutavam pela defesa dos direitos dos consumidores</p><p>foram criadas na Dinamarca, na Inglaterra, na Alemanha, na França, na Bélgica, na</p><p>Áustria, na Austrália e no Japão (SILVA, 2010).</p><p>Foi na década de 1960 que o movimento consumerista repercutiu publicamente.</p><p>Ralf Nader, advogado americano, foi o primeiro a enfrentar a indústria automobilística,</p><p>quando ajuizou uma ação contra um fabricante de automóveis, após um defeito no</p><p>sistema elétrico ter causado uma explosão e vitimado uma família.</p><p>Nader conseguiu uma indenização milionária e uma determinação judicial para o</p><p>recall dos veículos defeituosos. Essa foi a primeira vez que um advogado trouxe a público</p><p>a despreocupação da indústria automobilística com a segurança dos consumidores e</p><p>que uma decisão judicial obrigava ao fornecedor a retirada do mercado dos produtos</p><p>defeituosos para reparo.</p><p>Ainda, no início da década de 1960, foi fundada por um grupo de cinco</p><p>organizações de Consumidores dos Estados Unidos, Europa Ocidental e Austrália, a</p><p>Internacional Organization of Consumers Unions (IOCU), atualmente conhecida como</p><p>Consumers International, cujo objetivo era a troca de informações entre o número</p><p>crescente de organizações de testes de produtos de consumo que surgiam nos anos</p><p>do pós-guerra (CONSUMER INTERNATIONAL, 2020).</p><p>Hoje, esta organização reúne mais de duzentas organizações membros, atuando</p><p>em mais de cem países, visando capacitar e defender os direitos dos consumidores</p><p>(CONSUMER INTERNATIONAL, 2020).</p><p>Outro marco importante para o direito do consumidor foi o discurso enviado ao</p><p>Congresso americano pelo então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em</p><p>15 de março de 1962. Nessa mensagem, Kennedy inicia o seu discurso enfatizando que</p><p>“Consumidores, por definição, somos todos nós”.</p><p>Essa frase causou grande repercussão uma vez que o próprio presidente dos Estados</p><p>Unidos, considerado um dos homens mais poderosos do mundo, colocou-se na qualidade de</p><p>consumidor, indicando a importância da discussão e de se tutelar esses direitos.</p><p>O presidente, alertou ainda para a necessidade de o Estado proteger, de</p><p>forma efetiva, os consumidores, além disso, ressaltou que o avanço da tecnologia foi</p><p>responsável pelo aumento da oferta de produtos e pela sua complexidade.</p><p>Enfatizou, ainda, que os consumidores estão à mercê das publicidades</p><p>praticadas pelo mercado e que a escolha de produtos está pautada, muitas vezes, na</p><p>persuasão e não a efetiva necessidade (MIRAGEM, 2016).</p><p>13</p><p>Ademais, na mesma oportunidade, Kennedy aponta alguns direitos básicos dos</p><p>consumidores que devem ser observados pelos fornecedores, pois, segundo Kennedy</p><p>(1962 apud GLÓRIA, 2003, p. 11):</p><p>[... ] Os bens e serviços colocados no mercado devem ser sadios e se-</p><p>guros para o uso; promovidos e apresentados de maneira que permita</p><p>ao consumidor fazer uma escolha satisfatória; que a voz do consumi-</p><p>dor seja ouvida no processo de tomada de decisão governamental que</p><p>determina o tipo, a qualidade e o preço de bens e serviços colocados</p><p>no mercado; tenha o consumidor o direito de ser informado sobre as</p><p>condições de bens e serviços e ainda o direito a preços justos.</p><p>Nesse sentido, esses direitos básicos elencados pelo presidente americano</p><p>dizem respeito ao:</p><p>1. Direito à segurança, a ser protegido contra comercialização de</p><p>produtos perigosos para a saúde ou a vida.</p><p>2. Direito à informação, a ser protegido contra a informação, publici-</p><p>dade, rotulagem ou qualquer outra prática fraudulenta, enganosa</p><p>ou basicamente confusa, e que seja fornecido a ele todas as infor-</p><p>mações das quais necessita para uma escolha adequada.</p><p>3. Direito de escolher, ser assegurado, sempre que possível, o acesso a</p><p>uma variedade de produtos e serviços a preços competitivos; e em</p><p>setores em que a concorrência não é viável que a regulamentação</p><p>governamental seja efetiva, garantindo a qualidade e serviços</p><p>satisfatórios com os melhores preços.</p><p>4. Direito de ser ouvido, para ter certeza de que os interesses de os con-</p><p>sumidores serão total e amplamente levados em consideração para a</p><p>elaboração de políticas governamentais, e tratamento adequado e ágil</p><p>nos tribunais administrativos (KENNEDY, 1962, s.p., tradução nossa).</p><p>FIGURA 3 – DISCURSO DE JONH F. KENNEDY</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3nb4SAV>. Acesso em: 20 set. 2020.</p><p>A partir desse discurso, ainda nos anos 60, diversas normas de proteção aos</p><p>consumidores americanos foram aprovadas nos Estados Unidos.</p><p>14</p><p>Consulte o discurso do presidente americano, John F. Kennedy, na íntegra, dis-</p><p>ponível em: https://bit.ly/3ygA6jd.</p><p>O dia 15 de março é comemorado o “Dia Mundial do Consumidor”.</p><p>DICAS</p><p>INTERESSANTE</p><p>Esse movimento protecionista não se limita à sociedade norte-americana, mas</p><p>ela avança em nível mundial. Na década de 1970, foi a vez da Europa se manifestar</p><p>acerca dos direitos do consumidor.</p><p>Em 1972, foi realizada a Conferência Mundial do Consumidor, em Estocolmo e, no</p><p>ano seguinte, a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações</p><p>Unidas (ONU),</p><p>reconheceu como direitos básicos do consumidor, os mesmos direitos enumerados pelo</p><p>presidente americano, John Kennedy, em 1962.</p><p>Ainda, em 1972, a Assembleia Consultiva da Comunidade Europeia aprovou a</p><p>Resolução nº 543, norma esta que originou a Carta Europeia de Proteção ao Consumidor</p><p>(MIRAGEM, 2016). A partir desse momento, vários países deram início a elaboração de</p><p>leis com a finalidade de proteger o consumidor.</p><p>No ano de 1985, a Organização das Nações Unidas estabeleceu diretrizes para a</p><p>proteção do consumidor, por meio da Resolução nº 39/248, de 9 de abril de 1985, sendo</p><p>esta revisada, pela primeira vez, em 1999.</p><p>Essa resolução, além de estabelecer proteção aos consumidores, uma vez que</p><p>a relação consumerista é por si só desigual, regulou a matéria para garantir a efetivação</p><p>dos seguintes objetivos:</p><p>• Acesso do consumidor a bens e serviços essenciais, bem como à adequada</p><p>informação para que eles possam realizar escolhas adequadas as suas necessidades.</p><p>• Proteção dos consumidores, considerados parte vulnerável da relação de consumo,</p><p>especialmente, frente aos riscos para a sua saúde e segurança.</p><p>• Promoção e proteção dos interesses econômicos dos consumidores.</p><p>15</p><p>• Educação para o consumo, levando em consideração as consequências ambientais,</p><p>sociais e econômicas da escolha dos consumidores, bem como promoção do</p><p>consumo sustentável.</p><p>• Resolução de conflitos oriundos da relação de consumo e reparação integral dos danos.</p><p>• Liberdade para formação de grupos e/ou entidades que lutem para garantir e</p><p>promover os direitos dos consumidores.</p><p>• Proteção da privacidade dos dados e informações dos consumidores. Ademais, a</p><p>regulamentação conclama os países-membros da ONU a promoverem legislações</p><p>que protejam efetivamente o consumidor (MIRAGEM, 2016).</p><p>A proposta de nova revisão foi coordenada pela Conferência das Nações Unidas</p><p>para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e aprovada em 22 de novembro de 2015.</p><p>Essa revisão, em um primeiro momento, adicionou provisões com relação a serviços</p><p>financeiros e comércio eletrônico. E num segundo momento, foram incluídos outros</p><p>temas pertinentes, tais como turismo e proteção de dados.</p><p>Todas estas mudanças legislativas decorrentes do movimento consumerista</p><p>mundial influenciaram o movimento consumerista nacional e a discussão no Brasil sobre</p><p>a proteção dos direitos do consumidor, bem como a elaboração do Código de Defesa do</p><p>Consumidor, a partir dos ditames da Constituição Federal de 1988.</p><p>4 O MOVIMENTO CONSUMERISTA NO BRASIL</p><p>No Brasil, grande parte das entidades civis que defendiam os direitos dos</p><p>consumidores surgiram o período da redemocratização, na década de 1980. Contudo, isso</p><p>não significa que o movimento consumerista teve início nesse período.</p><p>Na década de 1930 já existiam, porém, de forma tímida, mobilizações sociais,</p><p>conforme registro no Guia da Mobilização para o consumidor-cidadão, publicado pelo</p><p>Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) (SILVA, 2010).</p><p>Um movimento importante que expôs a vulnerabilidade do consumidor frente</p><p>ao poder econômico das grandes indústrias de medicamentos, foi a fundação em 1973,</p><p>da Associação Brasileira das Vítimas da Talidomida (ABVT).</p><p>Essa entidade foi criada, a partir de uma tragédia causada pelo uso do</p><p>medicamento, chamado de Talidomida, indicado para o tratamento de náuseas e</p><p>vômitos em gestantes e que apresentou efeitos teratogênicos.</p><p>16</p><p>A talidomida, também conhecida como “amida nftálica do ácido glutâmico” é</p><p>uma substância utilizada como sedativo e anti-inflamatório. Ela foi desenvolvida</p><p>em 1954, na Alemanha, com o objetivo de controlar a ansiedade.</p><p>No entanto, seu uso durante a gestação causou má-formação do feto, resultan-</p><p>do no nascimento de bebês inúmeros problemas, tais como: braços e pernas</p><p>encurtados, ficando junto ao tronco; problemas visuais; problemas na coluna</p><p>vertebral, entre outros.</p><p>INTERESSANTE</p><p>Os graves efeitos colaterais provocados por essa droga foram constatados em</p><p>1960, na Alemanha, porém, no Brasil, ela somente foi retirada do mercado em 1965,</p><p>após inúmeras mortes e nascimento de crianças com deficiências físicas. A atuação</p><p>da ABVT, conseguiu a edição da Lei nº 7.070/1982 que autorizou o poder executivo a</p><p>conceder pensão especial, mensal, vitalícia e intransferível, aos portadores da síndrome</p><p>da talidomida. Em 1993, a Lei Federal nº 8.686 reajustou o valor da referida pensão</p><p>especial (SILVA, 2010).</p><p>Silva (2010) ainda menciona que, na década de 1970, outras entidades</p><p>de defesa do consumidor surgiram no Brasil, entre elas a Associação de Defesa</p><p>e Orientação do Consumidor de Curitiba (ADOC) e a Associação de Proteção ao</p><p>Consumidor de Porto Alegre (APC).</p><p>Mesmo em pleno período da Ditadura Militar, ocorreu a instalação de uma</p><p>Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara dos Deputados, provocando</p><p>repercussão nacional e levantando novamente a discussão sobre a necessidade de</p><p>reestruturação da defesa do consumidor no Brasil, debate esse que culminou com a</p><p>proteção do direito do consumidor na Constituição Federal de 1988.</p><p>17</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A preocupação com o consumidor não é algo recente, uma vez que o Código</p><p>de Hamurabi, mesmo que de forma indireta, já apresentava tal proteção. Ele</p><p>responsabilizava alguns prestadores de serviços por vícios e acidentes decorrentes</p><p>dos serviços prestados, sendo que esta responsabilização implicava em punições</p><p>severas, não somente pecuniárias, mas, em alguns casos, pagando o prestador com</p><p>a própria vida ou de seus familiares.</p><p>• O consumidor ganha relevância com a Revolução Industrial em decorrência da</p><p>alteração do processo produtivo. Num primeiro momento, o consumidor é valorizado,</p><p>pois fomenta a economia e decide o que comprar e quanto pagar por determinado</p><p>produto e/ou serviço.</p><p>• Essa situação de empoderamento não dura muito, especialmente, com o avanço</p><p>tecnológico e com o surgimento das grandes corporações, sendo que o consumidor</p><p>passa a ser manipulado. A partir desse momento, nasce a necessidade de se</p><p>proteger os direitos dos consumidores, surgindo o movimento consumerista.</p><p>• O movimento consumerista inicia e se desenvolve em meados do século XIX, nos</p><p>Estados Unidos e, posteriormente, espalha-se por outros países, levando a criação</p><p>de inúmeras legislações que visam proteger os consumidores.</p><p>• Foi na década de 1960 que esse movimento repercutiu publicamente, primeiro com</p><p>o advogado americano Ralf Nader, quando este enfrentou a empresa automobilística</p><p>e conseguiu uma indenização milionária, além de uma determinação judicial para a</p><p>retiradas dos veículos com defeito para reparo, acarretando o primeiro recall da história.</p><p>• Outro marco importante foi o discurso do então presidente dos Estados Unidos,</p><p>John F. Kennedy (1962), ao Congresso americano. No pronunciamento, Kennedy</p><p>elenca quatro direitos básicos do consumidor: o direito à segurança; o direito à</p><p>informação; o direito de escolha; e o direito de ser ouvido.</p><p>• O movimento consumerista no Brasil destaca-se nos anos 1980, com a</p><p>redemocratização e com a pressão exercida pelas entidades civis que lutavam</p><p>pelos direitos dos consumidores.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>18</p><p>1 Para que possamos compreender o Direito do Consumidor é necessário conhecer</p><p>a história desse instituto. Apesar de ele ser considerado um ramo recente do</p><p>nosso direito, sempre esteve presente, mesmo que de forma indireta, nos sistemas</p><p>normativos da antiguidade. Mesmo com a variação dessa proteção entre as</p><p>civilizações, existia uma preocupação com o consumidor. Considerando a evolução</p><p>dos direitos dos consumidores ao longo da história, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- O Código de Hamurabi, escrito por volta de 1.780 a.C., disciplinava de forma indireta</p><p>a proteção do consumidor, responsabilizando certos prestadores de serviços por</p><p>acidentes ou vícios no serviço.</p><p>II- A responsabilização dos prestadores de serviços, inseridas no Código de Hamurabi,</p><p>eram muito brandas se comparado</p><p>às leis que temos hoje.</p><p>III- Na Grécia Antiga, encontramos vestígios da proteção ao direito do consumidor,</p><p>quando Cícero defendia a responsabilização do vendedor pelos vícios ocultos.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Somente a sentença I está correta.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>d) ( ) As sentenças II e III estão corretas.</p><p>2 Com a Revolução Industrial, tem-se uma mudança nos hábitos da população, pois,</p><p>antigamente, o comprador estabelecia uma negociação diretamente com o artesão,</p><p>que era, ao mesmo tempo, o produtor do produto que estava sendo vendido. Já, com</p><p>a industrialização surgiu a massificação da produção, sendo que o consumidor passa</p><p>a ser desconhecido para o produtor. Com base na evolução do direito do consumidor</p><p>no período da Revolução Industrial, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- Os equipamentos movidos pela máquina a vapor substituíram, em grande parte, o</p><p>trabalho humano, acarretando a produção de produtos em série e a organização da</p><p>mão de obra em funções especializadas e em longas jornadas de trabalho.</p><p>II- Em virtude da massificação da produção, consumidor e produtor ficaram mais próximos.</p><p>III- A transformação da sociedade, em virtude da Revolução Industrial, leva as pessoas</p><p>a adquirirem cada vez mais produtos e serviços.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>19</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Somente a sentença I está correta.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta.</p><p>c) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>d) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>3 O movimento consumerista mundial teve seu berço a partir da metade do século</p><p>XIX, nos Estados Unidos, com a luta trabalhista por melhores condições de trabalhos</p><p>nos frigoríficos de Chicago. De acordo com esse movimento, classifique V para as</p><p>sentenças verdadeiras e F para as falsas:</p><p>( ) Em um primeiro momento, o movimento consumerista mundial se uniu à luta</p><p>trabalhista. Eles reivindicavam melhores condições de trabalho para os operários</p><p>dos frigoríficos de Chicago e melhor conservação dos produtos produzidos</p><p>naqueles frigoríficos.</p><p>( ) O movimento consumerista americano ganhou força e em 1872, o governo norte-</p><p>americano promulgou a primeira lei que protegia o direito dos consumidores, no</p><p>intuito de reprimir os atos fraudulentos praticados pelo comércio.</p><p>( ) O movimento consumerista e o movimento trabalhista, surgidos nos Estados</p><p>Unidos, lutam juntos até os dias de hoje.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) F – F – F.</p><p>b) ( ) V – V – F.</p><p>c) ( ) V – V – V.</p><p>d) ( ) F – F – V.</p><p>4 O movimento consumerista foi importante para o reconhecimento e para a tutela</p><p>jurídica dos direitos dos consumidores. Ele tem início no final do século XIX, nos</p><p>Estados Unidos, e no século XX se espalha por diversos países, incluindo o Brasil.</p><p>Um marco importante da defesa desses direitos foi o discurso enviado ao Congresso</p><p>americano pelo então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em 15 de</p><p>março de 1962. Na mensagem, Kennedy, aponta alguns direitos básicos que devem</p><p>ser observados. Diante disso, elenque esses direitos e explique cada um deles.</p><p>5 O movimento consumerista brasileiro ganha ênfase a partir dos anos 1970, com a</p><p>fundação em 1973, da Associação Brasileira das Vítimas da Talidomida (ABVT).</p><p>Nesse sentido, explique sobre o objetivo da associação e, consequentemente, a sua</p><p>contribuição para o movimento consumerista brasileiro.</p><p>20</p><p>21</p><p>CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E</p><p>SEUS FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>O termo “direito do consumidor” está relacionado ao surgimento de uma nova</p><p>relação jurídica vinculada diretamente à realização de um ato de consumo. Nesse aspecto,</p><p>ao longo do tempo, houve a necessidade de regulação dos comportamentos das partes</p><p>da relação de consumo, visando a proteção da parte vulnerável, ou seja, do consumidor.</p><p>O nosso legislador constituinte originário, ao elaborar a Constituição Federal de 1988,</p><p>incorporou em seu texto uma tendência mundial de influência do direito público sobre o di-</p><p>reito privado, incluindo no Art. 5º, XXXII, a defesa do consumidor, como direito fundamental.</p><p>No entanto, as discussões sobre as iniciativas de tutela desse direito não iniciam</p><p>com a Assembleia Constituinte, pois tal direito já estava em pauta desde a década de</p><p>1970, conforme podemos observar na Figura 4.</p><p>UNIDADE 1 TÓPICO 2 - O</p><p>FIGURA 4 – LINHA DO TEMPO DAS DISCUSSÕES ACERCA DA TUTELA DOS DIREITOS DOS CONSUMIDORES</p><p>NO BRASIL</p><p>22</p><p>FONTE: <https://br.pinterest.com/pin/9429480446273096/>. Acesso em: 30 set. 2020.</p><p>Foi somente a partir de 1988 que ocorreu a vinculação do ente estatal e de</p><p>todos os demais atores na aplicação e efetivação da defesa dessa parte vulnerável.</p><p>Não bastasse essa vinculação do Estado, o constituinte ainda inseriu esta defesa como</p><p>23</p><p>princípio geral de toda atividade econômica, bem como determinou a elaboração de um</p><p>código para essa defesa, o Código de Defesa do Consumidor (CDC), editado em 11 de</p><p>setembro de 1990.</p><p>Ao analisarmos a estrutura do CDC, podemos observar um verdadeiro</p><p>microssistema jurídico, uma vez que abrange, além da eficácia da norma, temas</p><p>envolvendo aspectos do direito material civil, direito processual, direito administrativo</p><p>e direito penal. Por isso, no Tópico 2, abordaremos os fundamentos constitucionais do</p><p>Código de defesa do Consumidor, bem como a particularidade dessa legislação.</p><p>2 FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO DO</p><p>CONSUMIDOR</p><p>A defesa do consumidor, no ordenamento jurídico brasileiro, foi uma novidade</p><p>trazida pela Constituição Federal de 1988. Essa proteção constitucional tem o</p><p>objetivo de promover a defesa dos consumidores, assegurar a tutela do consumidor</p><p>como princípio geral da ordem econômica e sistematizar esta proteção especial por</p><p>meio de uma codificação.</p><p>O legislador constituinte originário elevou o direito do consumidor ao patamar</p><p>de direito fundamental, ao inseri-lo na Carta Magna, no título “Direitos e Garantias</p><p>Fundamentais”, em que obriga o Estado a promover a defesa do consumidor, conforme</p><p>disciplina o “art. 5º, [...], XXXII – O Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do</p><p>consumidor”. Analisando esse dispositivo podemos constatar que o legislador</p><p>constituinte não recomendou simplesmente a defesa do consumidor, mas ordenou que</p><p>o Estado o protegesse, ou seja, a defesa do consumidor não é uma mera faculdade,</p><p>mas um dever do Estado. “O constituinte originário, portanto, instituiu a defesa do</p><p>consumidor como um imperativo constitucional do Estado e um direito fundamental</p><p>do consumidor (CAVALIERI FILHO, 2019, p. 23). Além disso, o constituinte também</p><p>determinou, especificamente, que a defesa deve se dar na forma da lei, estabelecendo</p><p>a necessidade de se detalhar essa proteção, por meio de uma legislação específica,</p><p>evidenciando que “[...] o Código do Consumidor, diferentemente das leis ordinárias em</p><p>geral, tem origem em imperativo constitucional” (CAVALIERI FILHO, 2019, p. 23).</p><p>O Ministro Cezar Peluso, quando Presidente do Supremo Tribunal Federal,</p><p>concluiu o seu voto no Recurso Extraordinário nº 351.750, que discutia a responsabilidade</p><p>da companhia aérea em atraso de voo internacional, ressaltando que “A defesa do</p><p>consumidor, além de objeto de norma constitucional, é direito fundamental (Art. 5º,</p><p>XXXII), de modo que não pode ser restringida por regra subalterna, nem sequer por</p><p>Emenda Constitucional, enquanto inserta em cláusula pétrea (Art. 60, § 4º, Inc. IV)”</p><p>(CAVALIERI FILHO, 2019, p. 23).</p><p>24</p><p>Ademais, essa inserção constitucional está em consonância com a função do</p><p>Estado de reestabelecer o equilíbrio social, até porque, os direitos e garantias fundamentais</p><p>assumem posição hierárquica superior em relação às demais espécies normativas (EFING,</p><p>2004). Assim, reconhece-se os consumidores como novos sujeitos de direitos, tanto no</p><p>âmbito individual como coletivo, pois esse reconhecimento:</p><p>[...] é antes de tudo, o reconhecimento de uma posição jurídica</p><p>da</p><p>pessoa numa determinada relação de consumo, e a proteção do mais</p><p>fraco (princípio do favor debilis). A rigor, todas as pessoas são em algum</p><p>tempo, ou em um dado número de relações jurídicas, consumidoras.</p><p>Nesta perspectiva, a caracterização dos direitos do consumidor</p><p>como direitos humanos, revela o reconhecimento jurídico de uma</p><p>necessidade humana essencial, que é a necessidade de consumo</p><p>(MIRAGEM, 2016, p. 62, grifo nosso).</p><p>Essa proteção busca garantir a equidade por meio de normas que visam</p><p>reequilibrar uma relação faticamente desigual, isto é, tratando desigualmente os</p><p>desiguais na medida de suas desigualdades.</p><p>Além da defesa do consumidor como direito fundamental, o legislador</p><p>constituinte o elencou como um dos princípios gerais da ordem econômica nacional</p><p>com os princípios da soberania nacional, propriedade privada, livre concorrência,</p><p>defesa do meio ambiente, redução das desigualdades e tratamento diferenciado para</p><p>empresas de pequeno porte, conforme disciplinado na Carta Magna (1988): “Art. 170.</p><p>A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa,</p><p>tem por fim assegurar a todos, existência digna, conforme os ditames da justiça social,</p><p>observados os seguintes princípios: [...] V- defesa do consumidor”.</p><p>Observamos que esse ditame constitucional resguarda a economia de mercado</p><p>e ao mesmo tempo determina quais os princípios ela deve seguir para efetivar a</p><p>dignidade humana. Por esse motivo, não se pode considerar a liberdade econômica</p><p>como absoluta, pois ela deve estar em conformidade, entre outros princípios, com a</p><p>defesa do consumidor.</p><p>O Art. 150, da CF/1988, impõe uma proteção aos consumidores, uma vez que</p><p>determina que estes sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre</p><p>mercadorias e serviços.</p><p>Para efetivar esse mandamento constitucional, foi editada, em 2012, a Lei nº</p><p>12.741, que exatamente, “dispõe sobre as medidas de esclarecimento ao consumidor,</p><p>de que trata o § 5º do Artigo 150 da Constituição Federal; altera o Inciso III do Art. 6º e o</p><p>inciso IV do Art. 106 da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 – Código de Defesa do</p><p>Consumidor”. Tal legislação prevê a informação do valor aproximado do ICMS, IPI, ISS,</p><p>PIS/Cofins, entre outros.</p><p>25</p><p>FIGURA 5 – NOTA FISCAL INFORMANDO O VALOR DOS TRIBUTOS</p><p>FONTE: <https://bit.ly/3oikDHQ>. Acesso em: 21 set. 2020.</p><p>Ainda, no âmbito da nossa Carta Magna, o Art. 48, dos Atos das Disposições</p><p>Constitucionais Transitórias (ADCT), disciplina que “O Congresso Nacional, dentro de</p><p>cento e vinte dias da promulgação da Constituição, elaborará código de defesa do</p><p>consumidor” (BRASIL, 1988). Para cumprir o ditame constitucional, foi promulgado o</p><p>Código de Defesa do Consumidor (CDC).</p><p>Em que pese o CDC ter sido aprovado na forma de lei ordinária, ele possui todas</p><p>as características de um Código, pois estrutura as normas de proteção do consumidor</p><p>brasileiro (MIRAGEM, 2016).</p><p>3 O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR COMO NORMA</p><p>DE ORDEM PÚBLICA E INTERESSE SOCIAL</p><p>O Código de Defesa do Consumidor é uma lei especial, no que se refere aos</p><p>sujeitos, uma vez que se aplica somente aos fornecedores e consumidores, mas, lei</p><p>geral, no que tange ao seu objeto.</p><p>O Art. 1º, do CDC, estabelece que “O presente código estabelece normas de</p><p>proteção e defesa do consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos do</p><p>Art. 5°, Inciso XXXII, 170, Inciso V, da Constituição Federal e Art. 48 de suas Disposições</p><p>Transitórias” (BRASIL, 1990).</p><p>Por esse motivo, ela é “[...] norma de ordem pública e de interesse social, geral</p><p>e principiológica, o que significa dizer que é prevalente sobre todas as demais normas</p><p>especiais anteriores que com ela colidirem” (NUNES, 2007, p. 91).</p><p>26</p><p>Por serem normas cogentes, nas relações de consumo, elas são inderrogáveis</p><p>mesmo que por vontade dos interessados, como se pode constatar das referências</p><p>sobre as práticas abusivas, constantes nos Artigos 39, 40 e 41, do CDC e nas hipóteses</p><p>de nulidade das cláusulas abusivas, disciplinadas nos Artigos 51, 52 e 53, do respectivo</p><p>diploma legal. Assim sendo, tem-se a limitação da autonomia da vontade das partes e a</p><p>sua liberdade de contratar, a fim de proteger a parte vulnerável dessa relação jurídica, que</p><p>é o consumidor. Em que pese essa normativa ter caráter cogente, a legislação admite, em</p><p>alguns casos, a livre disposição de alguns interesses de caráter patrimonial como é o caso</p><p>das convenções coletivas de consumo, disciplinada pelo Art. 107, do CDC (NUNES, 2007).</p><p>Art. 107. As entidades civis de consumidores e as associações de</p><p>fornecedores ou sindicatos de categoria econômica podem regular,</p><p>por convenção escrita, relações de consumo que tenham por objeto</p><p>estabelecer condições relativas ao preço, à qualidade, à quantidade,</p><p>à garantia e características de produtos e serviços, bem como à</p><p>reclamação e composição do conflito de consumo (BRASIL, 1990).</p><p>O conteúdo de ordem pública vincula-se aos princípios superiores e fundantes</p><p>do ordenamento jurídico, ou seja, seu núcleo está relacionado aos direitos fundamentais</p><p>estabelecidos na Constituição Federal. Por esse motivo, o atributo de ordem pública</p><p>terá, geralmente, aplicação concreta, quando ocorrer conflitos entre leis (MIRAGEM,</p><p>2016). Um exemplo dessa situação, é a discussão travada sobre a responsabilidade civil</p><p>do transportador aéreo, em contratos de transporte internacional, matéria disciplinada</p><p>pela Convenção de Varsóvia, que dentre outras disposições estabelece a limitação do</p><p>valor da indenização por extravio de bagagens, lesão e morte de passageiros.</p><p>O entendimento jurisprudencial era no sentido de que a Convenção de Varsóvia</p><p>(alterada pela Convenção de Montreal de 2003), vigente no Brasil a partir de 2006, quando</p><p>em conflito com as disposições do CDC, prevaleceria a legislação consumerista interna.</p><p>No entanto, em recente decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento</p><p>do Recurso Extraordinário 636.331/RJ (Tema 210 da Repercussão Geral), este fixou a tese</p><p>de que “Nos termos do Art. 178 da Constituição da República, as normas e os tratados</p><p>internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de passageiros,</p><p>especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm prevalência em relação ao</p><p>Código de Defesa do Consumidor” (BRASIL, 2017).</p><p>Assenta-se que, em se tratando de transporte aéreo internacional, a reparação</p><p>pelos danos materiais deve ocorrer de acordo com as normas estabelecidas nas</p><p>Convenções de Varsóvia e Montreal nas hipóteses em que haja conflito com o CDC, no</p><p>entanto, tal situação não se aplica às indenizações por danos morais, uma vez que estas</p><p>continuam sendo reguladas pelo Código de Defesa do Consumidor.</p><p>Outrossim, o CDC é também uma norma de interesse social, pois disciplinam</p><p>as relações sociais marcadas pela desigualdade, motivo pelo qual o interesse coletivo é</p><p>colocado acima do interesse individual (CAVALIERI FILHO, 2019).</p><p>27</p><p>4 O MICROSSISTEMA DO DIREITO DO CONSUMIDOR</p><p>O Código Brasileiro de Defesa do Consumidor, conhecido e denominado pelas</p><p>iniciais CDC, foi instituído pela Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, por determinação</p><p>da ordem constante do Art. 48 das Disposições Finais e Transitórias da Constituição</p><p>Federal de 1988, que estabeleceu a obrigatoriedade de elaboração de um Código do</p><p>Consumidor no prazo de 120 dias.</p><p>O CDC veio para proteger a parte vulnerável das relações de consumo, ou seja, o</p><p>consumidor e, por esse motivo, ele foi pensado na forma de um microssistema jurídico.</p><p>O que é um microssistema jurídico? São leis que regulamentam matérias extensas</p><p>e complexas e que possuem, inserido em seus textos, não só normas de direito</p><p>material, mas também de direito processual, administrativo, penal, entre outros,</p><p>apresentando um caráter interdisciplinar.</p><p>NOTA</p><p>Como podemos observar na Figura 6, em seu texto, o CDC engloba várias matérias.</p><p>FIGURA 6 – TOPOGRAFIA DO CDC</p><p>FONTE: Garcia (2016, p. 22)</p><p>Nesse aspecto, o Código de Defesa do Consumidor possui</p><p>um caráter</p><p>interdisciplinar, pois outorga tutelas específicas ao consumidor na área do Direito Civil</p><p>(Artigos 8º a 54), Direito Administrativo (Artigos 55 a 60; 105 e 106), Direito Penal (Artigos</p><p>61 a 80) e Jurisdicional (81 a 104), configurando um microssistema jurídico (GARCIA, 2016).</p><p>Ademais, o Art. 7º, do CDC determina que “os direitos previstos neste código</p><p>não excluem outros decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que o</p><p>Brasil seja signatário, da legislação interna ordinária, de regulamentos expedidos pelas</p><p>autoridades administrativas competentes, bem como dos que derivem dos princípios</p><p>gerais do direito, analogia, costumes e equidade”.</p><p>28</p><p>Portanto, esse dispositivo legal estabelece que as situações envolvendo relação</p><p>de consumo podem ser resolvidas, não somente pelo CDC, mas também por outros</p><p>diplomas legais.</p><p>29</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A Constituição Federal de 1988 inova e traz em seu texto a proteção dos direitos dos</p><p>consumidores como direito fundamental disciplinado no art. 5º, XXXII.</p><p>• O legislador constituinte a elencou como um dos princípios da ordem econômica</p><p>nacional, conforme Art. 170, da CF/1988, bem como determinou uma proteção</p><p>específica, por meio da elaboração do Código de Defesa do Consumidor (1990) (Art.</p><p>48, ADCT).</p><p>• O Código de Defesa do Consumidor é norma de ordem pública e interesse social,</p><p>conforme disciplina em seu Art. 1º, “O presente código estabelece normas de</p><p>proteção e defesa do consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos</p><p>do Artigo 5°, Inciso XXXII, 170, Inciso V, da Constituição Federal e Art. 48 de suas</p><p>Disposições Transitórias” (BRASIL, 1990).</p><p>• O Código de Defesa do Consumidor é considerado um microssistema jurídico, pois</p><p>traz em seu texto normas de direito civil, direito administrativo, direito penal e direito</p><p>processual.</p><p>30</p><p>1 A tutela dos direitos do consumidor foi uma novidade inserida na Constituição</p><p>Federal de 1988 pelo legislador constituinte originários. Essa tutela visa proteger</p><p>os consumidores, bem como sistematizar esta proteção especial por meio de uma</p><p>codificação. De acordo com essas considerações, classifique V para as sentenças</p><p>verdadeiras e F para as falsas:</p><p>( ) Na Constituição Federal de 1988, o legislador constituinte originário elevou a defesa</p><p>do direito do consumidor ao patamar de direito fundamental.</p><p>( ) A proteção do consumidor, pelo Estado, não é uma faculdade deste, mas um dever</p><p>legal.</p><p>( ) O Art. 48, dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias, determinou a</p><p>promulgação de um Código de Defesa do Consumidor dentro do prazo de cento e</p><p>vinte dias a partir da promulgação da Constituição Federal.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>a) ( ) F – F – F.</p><p>b) ( ) F – V – V.</p><p>c) ( ) V – V – V.</p><p>d) ( ) V – V – F.</p><p>2 O Código de Defesa do Consumidor é uma norma cogente, imperativa, ou seja, de</p><p>ordem pública, pois tutela direitos indisponíveis das pessoas, de relevante interesse</p><p>social. Seu art. 1º, disciplina que: “O presente código estabelece normas de proteção</p><p>e defesa do consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos do Art.</p><p>5°, Inciso XXXII, 170, Inciso V, da Constituição Federal e Art. 48 de suas Disposições</p><p>Transitórias” (BRASIL, 1990). Nesse aspecto, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) O Código de Defesa do Consumidor por se tratar de norma de ordem pública,</p><p>prevalecerá sobre as demais normas especiais anteriormente promulgadas que</p><p>com ela colidirem.</p><p>b) ( ) Mesmo em se tratando de norma cogente, o CDC não admite, em nenhuma</p><p>situação, a livre disposição de interesses de caráter patrimonial.</p><p>c) ( ) O CDC, por ser uma norma de ordem púbica, não terá aplicação concreta quando</p><p>ocorrer conflitos entre leis.</p><p>d) ( ) O Código de Defesa do Consumidor, além de ser uma norma de ordem pública,</p><p>como disciplinado em seu Art. 5º, também é uma norma de interesse social, pois</p><p>disciplinam as relações sociais marcadas pela desigualdade.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>31</p><p>3 O Código de Defesa do Consumidor, instituído pela Lei nº 8.078, de 11 de setembro</p><p>de 1990, foi elaborado com o objetivo de proteger a parte vulnerável da relação</p><p>de consumo, ou seja, o consumidor. Com base nessas considerações, analise as</p><p>sentenças a seguir:</p><p>I- O Código de Defesa do Consumidor foi criado para proteger a parte vulnerável da</p><p>relação consumerista, isto é, o consumidor.</p><p>II- O Código de Defesa do Consumidor é considerado um microssistema jurídico,</p><p>pois somente disciplina o contrato de compra e venda em que uma das partes é</p><p>caracterizada como consumidor.</p><p>III- O Código de Defesa do Consumidor possui um caráter interdisciplinar, pois outorga</p><p>tutelas específicas ao consumidor na área do direito civil, direito administrativo,</p><p>direito penal e direito processual, o que caracteriza como um microssistema jurídico.</p><p>Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Somente a sentença I está correta.</p><p>b) ( ) Somente a sentença II está correta</p><p>c) ( ) Somente a sentença III está correta.</p><p>d) ( ) As sentenças I e III estão corretas.</p><p>4 A defesa do consumidor constitui norma de direito fundamental inserida no Art.</p><p>5º, XXXII, da Constituição Federal. Além disso, também está estabelecido como</p><p>princípio da ordem econômica, inserido no Art. 170, V, da Carta Magna. Diante dessa</p><p>constatação, disserte sobre a incompatibilidade do princípio da defesa do consumidor</p><p>com a livre iniciativa.</p><p>5 Os microssistemas jurídicos são caracterizados por serem leis que regulamentam</p><p>matérias extensas e complexas e que possuem, inseridos em seus textos, não só</p><p>normas de direito material, mas também de outras matérias. Por esse motivo, o Código</p><p>de Defesa do Consumidor é considerado, pela doutrina, um microssistema jurídico.</p><p>Diante de tal afirmação, explique os motivos que levam o CDC ser considerado um</p><p>microssistema jurídico:</p><p>32</p><p>33</p><p>TÓPICO 3 -</p><p>O DIÁLOGO DAS FONTES E OS PRINCÍPIOS</p><p>FUNDAMENTAIS QUE NORTEIAM O DIREITO DO</p><p>CONSUMIDOR</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Caro acadêmico, no Tópico 3, analisaremos a Lei nº 8.078/1990, denominado de Có-</p><p>digo de Defesa do Consumidor, e a sua relação com a Teoria do Diálogo das Fonte. Estuda-</p><p>remos, também, essa codificação como norma principiológica e os princípios nela inseridos.</p><p>O Código de Defesa do Consumidor não exclui nenhuma norma que protege os</p><p>interesses dos consumidores, muito pelo contrário, ele as recepciona. Essa recepção</p><p>abre o sistema para outras fontes do direito, tais como: tratados, legislações versando</p><p>outra matéria, mas que possuem, em seu teor, normas protecionistas, entre outras.</p><p>Procurando harmonizar essa abertura, adotou-se a Teoria do Diálogo das Fontes</p><p>que busca propiciar a eficiência funcional desse sistema plural e complexo que é o</p><p>Direito. Nesse sentido, o diálogo das fontes permitirá a conexão existente entre o Código</p><p>de Defesa do Consumidor e outros diplomas legais, especialmente, o Código Civil.</p><p>Ademais, o Código de Defesa do Consumidor, por ser um sistema aberto, foi elabo-</p><p>rado e pautado em princípios, isso é, veiculação de valores que estabelecem os fins a serem</p><p>alcançados e, cláusulas gerais, sendo considerado uma verdadeira lei principiológica.</p><p>UNIDADE 1</p><p>2 O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR E O DIÁLOGO</p><p>DAS FONTES</p><p>Como já estudamos anteriormente, o Código de Defesa do Consumidor é um</p><p>microssistema jurídico e plural, pois comporta a utilização de outras fontes do direito</p><p>para a resolução de uma situação envolvendo uma relação de consumo.</p><p>Por esse motivo, falamos em diálogo entre as fontes de direito, porque ela</p><p>busca a aplicação simultânea, coerente e coordenada de várias fontes legislativas</p><p>convergentes.</p><p>34</p><p>Vamos recordar o que são fontes do direito?</p><p>GIO</p><p>FIGURA – FONTES FORMAIS DO DIREITO</p><p>FONTE: <https://bit.ly/2KQUhyb>. Acesso em: 22 set. 2020.</p><p>Então, esse diálogo entre as mais variadas fontes do direito se dá de forma</p><p>conjunta com duas normas ao mesmo tempo e no mesmo caso, seja de forma</p><p>complementar ou subsidiária.</p>

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