Prévia do material em texto
Universidade Paulista – UNIP Psicodiagnóstico Fenomenológico São José do Rio Preto-SP Capítulo VI Colagem: uma prática no psicodiagnóstico Ligia Corrêa Pinho Lopes Maria Fernanda Mello Ferreira Mary Dolores Ewerton Santiago Imagens são palavras que nos faltaram. Manoel de Barros 1. Introdução A prática da avaliação psicológica de crianças, que, por definição, é um processo que se propõe chegar a uma compreensão de determinado fenômeno, apresentado como “queixa” pelos pais ou responsáveis que buscam ajuda psicológica para seu filho, coloca o psicólogo diante da tarefa de encontrar sentido no conjunto de informações que lhe são apresentadas e organizá-las. Para isso, deve possuir conhecimentos teóricos e dominar procedimentos e práticas com o objetivo último de que, ao entender determinada situação-problema, possa proporcionar, por meio de planejamento e uso de intervenções, benefícios às pessoas envolvidas, criança e seu grupo familiar, promovendo a saúde e o desenvolvimento psíquico. A avaliação psicológica ocupa um lugar de destaque na história da psicologia, na consolidação da profissão como campo de conhecimento e prática, e associou-se, inicialmente, ao trabalho médico, que lhe imprimiu forte influência. Foi: Com o uso de testes, principalmente junto a crianças, que os psicólogos ganharam maior autonomia. Nesse trabalho, esforçavam-se por determinar, através dos testes, a capacidade intelectual das crianças, suas aptidões e dificuldades, assim como sua capacidade escolar (Ancona- Lopez, 1984, p. 5). A utilização de testes psicométricos que, por princípio, visavam identificar, classificar e medir características, foi, e continua sendo, uma prática bastante criticada, uma vez que grande parte das discussões entre os profissionais das ciências humanas no país está voltada para a preocupação com processos de exclusão social, ideia subjacente aos métodos classificatórios. Desde a regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil, na década de 1960, a avaliação psicológica tem sido amplamente debatida, passando por reflexões e modificações no que se refere a instrumentos e recursos utilizados. Mesmo assim, como apontado na revista Diálogos (Ciência e Profissão, n. 3, dez. 2005), há diversidade de compreensões, usos e objetivos. Observamos na experiência e no contato com os supervisores dos Centros de Psicologia Aplicada da Universidade Paulista (Unip), que trabalham com avaliação psicológica, uma postura comum. Apesar de partirem de pressupostos e métodos por vezes diferentes para compreender o homem, configurando uma diversidade de abordagens, prevalece a ideia de que se faz necessária a organização de conhecimentos que se referem à vida biológica, intrapsíquica e social do cliente, como citado por Ancona-Lopez (1984), entre outros. Os encontros e discussões, formais ou informais, visam compartilhar experiências, falar sobre supostas conquistas e dificuldades do dia a dia no atendimento a crianças e pais. Há uma inquietação que se origina da constatação de que nossos recursos, teóricos ou instrumentais, são limitados diante das diferentes demandas psicológicas dos clientes, dadas as múltiplas possibilidades de expressão da subjetividade. Dessa forma, entram em jogo questões a respeito da denominação do que fazemos, de qual seria o melhor termo a empregar: avaliação psicológica, diagnóstico psicológico ou psicodiagnóstico, sendo que, concretamente, o que buscamos nesse atendimento é chegar a uma compreensão da demanda e à possibilidade de propiciar ao cliente uma compreensão e mudança, que por sua vez permitam melhor qualidade de vida aos envolvidos. Os recursos utilizados, tais como entrevistas com pais (entrevista inicial, entrevista de anamnese, entrevistas devolutivas), observações lúdicas, testes, visita à escola e visita domiciliar, têm como objetivo ajudar no processo de investigação e na consequente compreensão da problemática apresentada pelos pais ou responsáveis pela criança. Essa prática passa por reformulações e adaptações constantes, tanto em função da demanda psicológica dos clientes que buscam os Centros de Psicologia Aplicada, quanto em função das modificações pedagógicas pelas quais o curso de Psicologia passa, tendo em vista as diretrizes do MEC para o ensino superior. Além disso, a Resolução n. 002/2003, do Conselho Federal de Psicologia, acerca dos testes psicológicos, trouxe mais um desafio para aqueles que trabalhavam com avaliação psicológica, visto que tais instrumentos não poderiam mais ser utilizados antes de passarem por uma revisão. No artigo 16 da referida Resolução constava: “Será considerada falta ética, conforme disposto na alínea c do art. 1o e na alínea m do art. 2o do Código de Ética Profissional do Psicólogo, a utilização de testes psicológicos que não constam na relação de testes aprovados pelo CFP, salvo os casos de pesquisa”. O reflexo dessa medida na prática clínica pode ser considerado a partir de duas perspectivas. De um lado, a suspensão dos procedimentos que costumávamos utilizar no processo de avaliação psicológica, como, por exemplo, alguns testes projetivos infantis como CAT-A, resultava não somente num empobrecimento de recursos para uma compreensão mais ampla e profunda do cliente, como também na falta de “mediadores” que pudessem facilitar a comunicação devolutiva com a criança. Vale lembrar que, no psicodiagnóstico interventivo, os desenhos e as histórias eram frequentemente utilizados como “facilitadores” do diálogo com a criança. Por outro lado, essa mesma suspensão nos estimulava a revisar nossa prática clínica e a buscar outros procedimentos que pudessem nos oferecer, de alguma forma, a possibilidade de lidar com estas faltas. A atividade de colagem, proposta por Violet Oaklander (1980) como um recurso a ser utilizado no processo psicoterápico de crianças e adolescentes, despertou nossa curiosidade e interesse. Oaklander, que trabalha com referencial teórico da Gestalt, considera que: “A colagem é qualquer desenho ou quadro feito grudando-se ou prendendo-se materiais de qualquer espécie a um fundo plano, tal como um pedaço de pano ou papel” (1980, p. 99). Tal descrição remete a uma atividade simples e ao mesmo tempo significativa, dado que “pode ser utilizado como experiência sensorial, e também como manifestação emocional” (p. 101). É interessante notar que Oaklander refere-se à colagem com diversas denominações: “atividade de colagem”, “exercício de colagem”, “técnica de colagem”, “técnica projetiva”. Contudo, é esta última acepção que subjaz a algumas de suas afirmativas, tais como: “O processo de fazer a colagem ou relato posterior acerca da mesma pode ser o mais significativo” (idem, ibidem, p. 101; grifo nosso). Ainda no mesmo texto, ela acres-centa: “Muita coisa é revelada através da seleção de figuras. O estado de espírito revelado pelo conjunto escolhido pode contar algo sobre o que a criança está sentindo naquele momento, ou na sua vida em geral” (ibidem, p. 102-3). Parece claro que ela trabalha com a ideia de que a colagem é representativa do mundo interno da criança, de seus sentimentos e pensamentos. Ainda segundo a autora, pode se trabalhar com a colagem individual ou em grupo com diferentes temas e de inúmeras maneiras. Dentre os variados tipos de colagem, Oaklander (1980, p. 100) destaca que: “Um bom trabalho de colagem pode ser feito simplesmente com figuras de revistas, uma tesoura, cola, e algum tipo de fundo”. Foi com essas ideias que começamos a propor aos nossos clientes a realização de uma colagem. Nossa pretensão inicial era apenas observar como eles (os clientes) se comportavam diante dessa tarefa, se ficavam motivados ou não, se rejeitavam algumas figuras, quais comentários faziam e qual era sua atitude com relação ao trabalho realizado, isto é, se queriam ou não levar para casa a colagem feita em uma cartolina. Com o decorrer do tempo, percebemos que a atividade de colagem se revelavacada vez mais como um recurso riquíssimo, tanto para o conhecimento do cliente quanto para aplicação de intervenções. 2. Utilização da colagem Descreveremos a seguir o nosso modo de trabalhar com a colagem. Material utilizado: figuras de revistas, tesouras, colas, cartolinas para serem usadas como fundo, incluindo lápis preto e de cor, cane-tinhas e/ou giz de cera, caso haja interesse em complementar a atividade com desenhos ou escrita. As figuras que são oferecidas na ocasião da utilização da colagem são previamente recortadas pelos estagiários e supervisores, e devem abordar diversos temas, como pessoas, situações, animais, objetos, alimentos, transportes, móveis, ambientes etc., em quantidade suficiente para permitir que haja uma escolha por parte do cliente. Por se tratar de figuras recortadas de revistas, deve-se prestar atenção ao verso das figuras selecionadas, pois estas podem apresentar imagens também interessantes e que por vezes acabam sendo escolhidas pelo examinando, ou imagens que podem ter uma conotação imprópria, como nus ou insinuações de sexo. Evita-se usar imagens de artistas e personagens, pois estas podem carregar um significado cultural restrito, limitando a análise e as associações do cliente. Na nossa prática, os estagiários chamam esta parte do trabalho de “recortagem”. Ela costuma ser proveitosa para todos, pois o exercício desenvolve a capacidade de associações entre as imagens que selecionam e as diferentes representações possíveis. A atividade de colagem pode ser proposta em qualquer momento do processo psicodiagnóstico, mas, quando ocorre após alguns atendimentos e procedimentos, deve-se tomar cuidado para que as figuras selecionadas pelos estagiários não sejam apenas de imagens associadas a aspectos já revelados pela criança ou família. Portanto, é preciso verificar a quantidade de figuras selecionadas e a variedade de temas antes de utilizá-las com a criança. Em grupo ou individualmente, é proposto um tema para o trabalho das crianças considerando aspectos a ser avaliados, tais como: autoimagem, percepção de situações internas, pensamentos e sentimentos. Assim, pedimos que façam uma colagem representando aquilo de que gostam ou não gostam em si mesmos, ou escolham figuras que indiquem do que têm medo e quais são as suas preocupações. Outro tema proposto com frequência é o “Álbum de família”, que convida a criança a utilizar o material disponível para representar as pessoas de sua família. Outras vezes, apenas disponibiliza-se o material sem propor um tema. Neste caso, a criança trabalha livremente e ao final dá um título a sua produção. Para a realização da colagem, as figuras recortadas são dispostas de modo aleatório, são escolhidas pelo cliente e coladas em uma cartolina. Durante a escolha, observa-se a forma de exploração, falas, figuras que parecem chamar a atenção, mas não são escolhidas etc. É possível que a criança utilize o material oferecido, por exemplo, canetinhas e tesouras, para complementar ou modificar as figuras. Depois de concluída a colagem, pede-se para que atribua um significado a ela, ou que apresente o seu cartaz o grupo de estagiários e para as outras crianças, o que pode variar, dependendo da relação estabelecida no grupo. Com a prática, notamos que as crianças queriam mostrar para os pais ou para os responsáveis as suas produções. Passamos então a perguntar para as crianças se gostariam que o resultado desta atividade fosse apresentado para eles na presença delas e, em caso afirmativo, ao final do atendimento convidávamos os responsáveis presentes na clínica a entrar na sala para ver os trabalhos. Nessas ocasiões, algumas crianças começaram a sugerir um tipo de “jogo” de adivinhação, que consistia em apresentar aos pais as cartolinas de todas as crianças, questionando-os se identificavam qual era a produção de seus filhos. Nessas situações, os pais se veem diante de uma mensagem simbólica que precisam decifrar, dar um significado, e mostrar ali, diante de todos, o conhecimento que têm do filho. Quando esta estratégia é adotada, muitas vezes são necessárias a discussão e a compreensão conjunta dos “acertos” ou “erros” por parte dos pais e das manifestações de felicidade ou frustração por parte das crianças. Discute-se a compreensão que a atividade lhes proporcionou, observando-se a construção de um significado conjunto, o que permite algumas ressignificações. Nota-se que essa atividade de colagem compartilhada com os pais permite maior aproximação afetiva e reconhecimento por parte dos pais a respeito dos sentimentos e da problemática de seus filhos, além de facilitar a elaboração da avaliação e sua compreensão por parte dos avaliados. A colagem também pode ser proposta para os pais ou responsáveis na presença dos filhos. Neste caso, a instrução dada costuma ser a de representar o “Álbum de família” sem explicitar se devem fazê- lo em conjunto ou individualmente, o que é observado e discutido ao término da atividade. Após o registro (fotos, relatório descritivo e análise) das produções realizadas, as cartolinas são devolvidas para os clientes. Por vezes, ao serem observadas em outro momento, pelos pais e crianças, promovem mais • • • • • • • • • • • • • • reflexões. 3. Análise De modo geral, consideram-se: Tempo de reação. Postura e modo de reação — observação a distância, ou impulsividade, descuido etc. Figuras escolhidas, figuras coladas, figuras abandonadas. Tema preferido. Tamanhos das figuras. Uso do espaço da cartolina. Uso do verso da cartolina. Localização das figuras na cartolina, coladas de forma aleatória ou ligadas, apresentando uma organização ou aglutinação. Sentimentos expressos, impressões que a colagem causa ao ser observada. Figura central e/ou localização Recortar a figura já cortada — para caber na cartolina, ou para separar, excluir elementos. Associações, explicações, falas durante a atividade. Uso do lápis de cor, canetinhas — para molduras, ligações, complementos, abandono da colagem para fazer desenhos. Modo de utilização da cola — em excesso, colocada cuidadosamente, pouca quantidade. Quando a colagem é realizada por pais e filhos, no momento da análise levamos em conta todos os aspectos anteriormente descritos, sendo o mais importante aquele que se refere à interação entre pais e crianças e as significações dadas por eles às figuras escolhidas. Citamos dois exemplos esclarecedores. A colagem de “tema livre” realizada por pai e filho adolescente de 12 anos, que apresentava mau comportamento em casa e na escola, mostrou aspectos significativos da interação entre ambos. Apesar de previamente à realização da tarefa terem combinado que dividiriam igualmente o espaço disponível e que cada um deles realizaria a atividade que quisesse, o pai, no decorrer do trabalho, foi gradativamente ampliando “sua área”, restando ao filho apenas um pequeno espaço na cartolina para colar as suas figuras. A atitude do pai contribuiu para maior compreensão da problemática do adolescente, uma vez que ele não respeitava os limites acordados com o filho. Outra colagem conjunta realizada por mãe e filha também resultou muito interessante. A criança de 8 anos foi levada a atendimento psicológico por apresentar dificuldades de aprendizagem e atitude de dependência em relação à mãe. Durante a colagem com “tema livre” cada escolha da criança era acompanhada de um comentário da mãe: “Não, essa é feia”, “Nossa! Muito triste”, “Não, essa não” etc. Ao final, nenhuma figura inicialmente escolhida pela criança foi incluída, mas somente aquelas aprovadas pela mãe. Desse modo, apesar de a mãe ter mostrado disposição para colaborar com a filha no desempenho da tarefa, ela não permitiu que a criança realmente se expressasse. Ficou evidente que o comportamento da mãe intensificava a atitude de dependência da filha com relação a ela. A observação da qualidade da interação entre pais e filhos possibilita tanto uma maior compreensão diagnóstica das dificuldades de ambos, quanto nos permite fazer intervençõesque ampliem o entendimento que cada integrante do grupo familiar tem sobre elas. A seguir apresentaremos outros exemplos, acompanhados de imagens. Menina, 9 anos de idade Figura 1. Autorretrato. Figura 2. Álbum de família. Os pais, embora separados, compareceram juntos para a primeira entrevista, preocupados com o fato de a filha de 9 anos apresentar falta de apetite. Ela foi encaminhada para o atendimento psicológico pela Unifesp — Ambulatório de Distúrbios do Apetite —, pois fazia acompanhamento no local há um ano. Apesar de não comer adequadamente, o seu desenvolvimento decorreu dentro do que era esperado, em termos de idade, peso e altura. Apresentava somente problemas intestinais. A mãe enfatizou sua preocupação com a alimentação e o pai relatou que observava dificuldades gerais, dando como exemplos a determinação da filha na escolha de roupas, a teimosia e o fato de não ceder facilmente. Ela residia com a mãe e a irmã de 17 anos de idade, e as meninas ficavam com o pai a cada 15 dias. Quanto à alimentação, a mãe contou que costumava oferecer refeições variadas, como torta de ricota com espinafre, berinjela à parmegiana e saladas, buscando todas as formas para que as filhas se alimentassem bem. Acrescentou que a menina não demonstrava interesse por qualquer tipo de alimento, nem mesmo por doces. Na atividade de colagem, pudemos constatar junto com os pais alguns dos desejos e interesses da menina que não eram reconhecidos por eles, como, por exemplo, gosto por doces, preocupação com a aparência, desejo de ver os pais juntos etc. Menina, 11 anos de idade Figura 3. Autorretrato. Figura 4. Álbum de família. Os pais procuraram atendimento psicológico por indicação da escola em função do comportamento da filha descrito por eles, que era diferente do das outras crianças da sua idade. Contaram que ela era muito quieta, introvertida e sem iniciativa. Disseram também que ela apresentou desenvolvimento geral mais lento, quando comparado com o desenvolvimento do filho mais velho, de 17 anos de idade. Na ocasião da atividade de colagem, a menina revelou interesses variados relacionados a artes, pinturas, relação com a mãe, atividades físicas etc. O resultado final, bastante colorido e diversificado, quando apresentado junto com os trabalhos das outras crianças do grupo, com o consentimento delas, foi reconhecido pela mãe, porém não pelo pai, que parecia não conseguir percebê-la com tal capacidade de expressão. Quando solicitamos aos pais e à criança que realizassem a ativi-dade de colagem do “Álbum de família”, a postura da menina chamou atenção. Na presença dos pais, ela mostrou-se assustada, afastando-se deles e se aproximando de uma das estagiárias, como se quisesse evitar ser exposta ou questionada. Percebemos que não houve uma atitude autoritária ou exigente explícita por parte dos pais naquela situação, mas parecia haver um tratamento de cobrança sútil, implícito, como se ela não pudesse “errar” ao responder aos questionamentos deles relativos a quem era quem na família de figuras coladas. Ela se comportava como se tivesse algum tipo de “retardo”. Figura 5. Álbum de família dos pais. Menino, 13 anos de idade Figura 6. Autorretrato. Figura 7. Álbum de família. A mãe procurou atendimento psicológico por encaminhamento da escola, pois o filho apresentava dificuldades de aprendizagem. Apesar de a criança ter feito anteriormente uma avaliação psicopedagógica, os pais não compreendiam o que acontecia em relação à aprendizagem. De acordo com a mãe, o filho não era uma criança agitada ou agressiva, e sim dispersa; não demonstrava interesse e não prestava atenção nas aulas, e também não fazia suas tarefas. Parecia estar sempre “no mundo da lua”, não respondendo aos questionamentos dos professores. A mãe referiu-se a ele como “cabeção”. Na atividade de colagem, o menino mostrou dificuldade para escolher as figuras que o representassem, sendo que o resultado final evidenciava um vazio na cartolina. A figura do avô apareceu como sendo de grande importância para ele, e, na representação da família, projetou a situação para o futuro, indicando desejar crescer logo. Na presença da mãe, permaneceu calado, e ela aparentemente não reconheceu o trabalho realizado por ele, ou por não percebê-lo, ou por não querer aceitá-lo como se mostrava. O menino não expressou sentimentos, demonstrando também uma autoimagem empobrecida, pois não soube falar de si e de suas próprias características. Menino, 12 anos de idade Figura 8. Autorretrato. Figura 9. Álbum de família. A mãe procurou atendimento psicológico por indicação da escola, com a queixa de dificuldade de aprendizagem. Na ocasião, contou que o filho sempre foi uma criança “atrasada em tudo”, que aprendeu a andar no “último prazo”, falou com quase três anos, junto com sua irmã de dois anos. Embora fosse descrito pelos professores como uma criança inteligente, entregava sempre as provas “em branco”, mas em prova oral respondia a tudo. Sua caligrafia era feia e escrevia em letra bastão. Na atividade de colagem com o tema “Autorretrato”, notou-se que o menino representou a si mesmo com uma grande quantidade de figuras de objetos de seu interesse, indicando possivelmente carência afetiva revertida em característica consumista. A única representação humana foi por meio da figura de um exército, que poderia simbolizar a falta de identidade somada a aspectos de repressão e de controle. Fez posteriormente “Álbum de família” utilizando muitas figuras de prédios, que refletia a sua vivência familiar, visto que a mãe como arquiteta desenvolvia seus projetos em casa; além disso, a ausência de figuras humanas remetia, mais uma vez, a dificuldades afetivas. Quando a produção da criança foi apresentada à mãe, o menino ficou aparentemente amedrontado com a decepção que ela mostrou em relação ao seu trabalho. Outras análises Alguns comentários poderiam ser acrescentados com a finalidade de ressaltar a riqueza expressiva da colagem. Como nos referimos anteriormente, o uso do espaço também é um indicador importante. Algumas vezes, a criança utiliza todo o espaço, ou cola as figuras umas sobre as outras, resultando em uma produção caótica que pode refletir tanto aspectos emocionais como comprometimentos de outra ordem. Outras vezes, a imagem escolhida tem maior significado, dependendo da posição que ocupa na cartolina, central ou não, invertida ou não. Um exemplo curioso deste fato ocorreu na colagem de um menino de 8 anos de idade, que apresentou refluxo no início da vida e, por vomitar na perua escolar, foi apelidado de “mister vômito” por seus colegas. A primeira figura escolhida por ele foi de uma mãe amamentando um bebê colocada de ponta-cabeça no centro da cartolina. A escolha de figuras para realização da colagem também pode ser utilizada pela criança para revelação de segredos familiares, tais como situações que envolvem uso de drogas, prisão e alcoolismo por parte de algum membro da família. Tais imagens oferecem a possibilidade de incluir esses assuntos nas intervenções a serem realizadas, tanto com as crianças, quanto com os pais. Outra conduta da criança que merece destaque é a de recortar uma figura já cortada com o objetivo de separar ou excluir alguns de seus elementos ou, simplesmente, para fazê-la caber na cartolina. A imagem fica destituída então de uma parte, o que indica que a criança não quer aceitar o significado a ela atribuído. Por exemplo, excluir um dos membros da figura de uma família, sendo que, no material oferecido, constam diversos tipos de configurações familiares. O ato de recortar, excluindo ou dividindo as partes constitutivas do todo de uma figura, parece obedecer à necessidade da criança de explicitar seu desejo. Raramente ocorre de a criança abandonar a colagem para fazer desenhos utilizando o material gráfico oferecido. Tal comportamento pode ser entendido como uma oposição ao psicólogo ou como uma resistência em realizar a tarefa, que, na concepção de Oaklander (1980), a colagem remete a criança a experiênciassensoriais primitivas baseadas no tato e na visão. Vale lembrar que desenhar ou escrever, como também ocorre às vezes, são habilidades que surgem em etapas posteriores do desenvolvimento da criança. Menos frequente ainda é a criança assinar ou escrever o seu nome ao término da colagem. Exceções ocorrem quando ela teme que sua produção não seja identificada pelos pais no “Jogo de adivinhação”, anteriormente mencionado, ou quando ela tem necessidade de reafirmar sua identidade. Alguns indícios de criatividade podem ser observados quando a criança integra em um todo harmônico o uso dos materiais disponíveis, completando com desenhos as imagens escolhidas. Sakamoto e Bacchereti (2007) abordam a utilização da técnica de recorte-colagem na psicoterapia, orientação profissional e psicodiagnóstico de adolescentes e de adultos, porém não trazem detalhes de suas experiências clínicas. Enfatizam, contudo, sua importância para viabilizar a expressão de pacientes muitos ansiosos ou com dificuldades de comunicação. 4. Considerações finais Notamos que a realização da colagem é, de modo geral, de fácil aceitação por parte do cliente, seja criança, seja adolescente, ou dos pais. Enfim, pessoas de diferentes faixas etárias e de diferentes condições socioeconômicas costumam realizar tranquilamente a tarefa proposta, por se tratar de uma atividade conhecida por todos que um dia frequentaram a escola. Do ponto de vista psicológico, consideramos que a atividade de colagem tem um caráter projetivo na medida em que expressa sentimentos e conflitos, ou seja, aspectos do mundo interno das crianças e também de seus pais que são desconhecidos para eles. Naquele momento em que nos vimos sem a possibilidade de utilizar os testes projetivos antes usados nos psicodiagnósticos de crianças, a colagem foi introduzida como um novo recurso e tem-se mostrado muito valiosa para a observação e compreensão não só dos aspectos intrapsíquicos, como também das interações familiares quando a tarefa é conjunta. Constatamos com a prática que as intervenções do psicólogo durante o psicodiagnóstico interventivo são facilitadas por meio da colagem. O aspecto lúdico dessa atividade parece também atuar como motivação para sua realização e para compreensão de aspectos subjetivos, expressos de forma simbólica. Concluímos que o uso da colagem como material expressivo na clínica de crianças contribui sobremaneira para a compreensão diagnóstica que ultrapassa a individualidade da criança e oferece efetivamente material de intervenção que está além dos limites de uma comunicação verbal. Referências bibliográficas ANCONA-LOPEZ, M. Contexto geral do diagnóstico psicológico In: TRINCA, Walter (Org.). Diagnóstico psicológico: a prática clínica. São Paulo: EPU, 1984. DIÁLOGOS CIÊNCIA E PROFISSÃO, n. 3, dez. 2005. OAKLANDER, V. Descobrindo crianças: abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. Tradução de George Schlesinger; revisão científica da editora e direção da coleção de Paulo Eliezer Ferri de Barros. São Paulo: Summus, 1980. PSICOLOGIA. Legislação, Resoluções e Recomendações para a Prática Profissional. Publicação do Conselho Federal de Psicologia, 2011/2012. SAKAMOTO, C. K.; BACCHERETI, L. F. A técnica de recorte-colagem e suas aplicações nas práticas psicológicas. In: ______ (Org.). O olhar criativo sobre a prática em psicologia. São Paulo: Mackenzie, 2007. 428 JUREMA ALCIDES CUNHA 29 Desenvolvimentos do Procedimento de Desenhos-Estórias (D-E) Walter Trinca, Leila S.L.P. Cury Tardivo INTRODUÇÃO O Procedimento de Desenhos-Estórias (abrevi- adamente, D-E) é uma técnica de investigação da personalidade que emprega, basicamente, desenhos livres associados a estórias*, no con- texto do diagnóstico psicológico. Foi introdu- zido por Walter Trinca, em 1972, para se pres- tar à exploração da dinâmica inconsciente da personalidade, em setores que outros meios utilizados na época deixavam muito a desejar. Ou seja, necessitava-se de instrumento com sensibilidade bastante para uma exploração inconsciente de tipo vertical e focal, relaciona- da especialmente às queixas e outras angús- tias emergentes em dada situação. Nessa épo- ca, o exame psicológico, como um todo, ocu- pava-se, na clínica psicológica, prioritariamen- te com a horizontalidade e a extensão da per- sonalidade em seus múltiplos aspectos. Havia predominância do uso de testes objetivos, e os psicólogos afiliavam-se, preferencialmente, a modelos médicos e psicométricos. Nesse contexto, o Procedimento de Dese- nhos-Estórias, juntamente com outras técnicas de investigação psicanaliticamente fundamen- tadas, como a Hora de Jogo Diagnóstica (Abe- rastury, 1982) e o Jogo de Rabiscos (Winnicott, 1984), ajudou a consolidar uma nova maneira de se conceber e realizar o diagnóstico psico- lógico. Importante, acreditamos, é sublinhar que o D-E veio se inserir no processo diagnós- tico de tipo compreensivo (Trinca, W., 1984), que trouxe uma abordagem clínica renovado- ra e uma visão humanística integradora dos propósitos do diagnóstico psicológico. Não somente a psicanálise, como também a psico- logia fenomenológico-existencial, a psicologia da Gestalt, o behaviorismo, os estudos sobre a dinâmica familiar, a análise dos processos de desenvolvimento da criança e outras áreas da psicologia lançaram luz sobre o foco da pro- blemática humana que foi incorporada no diag- nóstico compreensivo. Foi, inicialmente, apresentado como tese de doutorado no Instituto de Psicologia da USP (Trinca, W., 1972). Algum tempo depois, essa tese foi transformada em livro (Trinca, W., 1976). Encontram-se hoje, referidos ao D-E, mais de 100 trabalhos publicados, dentre os quais mais de 30 teses de doutorado e disser- tações de mestrado, feitas a seu respeito ou com o seu emprego. Um resumo, ainda que pálido, dessa produção encontra-se em Trinca, W. (1997). * N. dos A. Apesar de alguns autores recomendarem a grafia história, quando se trata de narrativa de ficção, o uso consolidou e justifica a forma estória, já incorpo- rada à língua portuguesa. PSICODIAGNÓSTICO – V 429 NATUREZA E CARACTERÍSTICAS O Procedimento de Desenhos-Estórias é uma técnica de investigação da personalidade que se coloca, no contexto do diagnóstico psicoló- gico, como meio auxiliar de ampliação do co- nhecimento da personalidade, em situações clínicas ou não-clínicas. Tem por base, como afirmamos, a combinação do emprego de de- senhos livres com o recurso de contar estórias. O examinando realiza uma série de desenhos livres, associados às estórias que eles contam, também de modo livre. Por isso, o D-E já foi referido como uma técnica de desenhos livres que servem como estímulos de apercepção te- mática. Nesse caso, ele se constitui em instru- mento com características próprias, que se vale de processos expressivo-motores e apercepti- vo-dinâmicos. Os desenhos livres servem para eliciar as estórias, mas o resultado desse par se compõe em um todo uno e indiviso. Além disso, a inte- gridade do conjunto exige a utilização de “in- quéritos” e títulos para as unidades gráfico- verbais. O examinando realiza um primeiro desenho livre e, a partir deste, inventa uma estória. Responde, em seguida, às perguntas do examinador e dá um título à produção. A unidade gráfico-verbal é normalmente repeti- da, na mesma seqüência, por cinco vezes. Tal reiteração seqüencial não resulta em unidades isoladas, mas em uma comunicação contínua, que serve aos propósitos da constituição de um todo, denominado Procedimento de Desenhos- Estórias. Trata-se de uma técnica que deixa o exami- nando livre para se comunicar; simultaneamen- te, fornece um substrato básico de meios está- veis para os participantes se conduzirem. As informações advindas do emprego do Proce- dimento são habitualmente reunidas a outras para a composição da compreensão clínica. Em particular, o uso conjugado do D-E com as en- trevistas clínicas vem propiciar a obtenção de informações focais e nodais dentrodo setting do diagnóstico psicológico. O D-E é uma técnica de investigação que não se restringe às noções habituais e particu- lares que temos a respeito dos testes psicoló- gicos. Estes, geralmente, se prendem a ques- tões fundamentais de fidedignidade, sensibili- dade e padronização, que não são igualmente consideradas no D-E. Não o são justamente por ser ele uma técnica de exploração livre e am- pla, e por visar a uma compreensão da dinâ- mica psíquica profunda. Podemos sintetizar, dizendo que o Procedi- mento de Desenhos-Estórias tem como carac- terísticas principais: 1) o uso de associações li- vres por parte do examinando; 2) o objetivo de atingir aspectos inconscientes da persona- lidade; 3) o emprego de meios indiretos de expressão; 4) a participação em recursos de investigação próprios das técnicas projetivas; 5) a ampliação das possibilidades da observa- ção livre; 6) a extensão dos processos da en- trevista semi-estruturada e não-estruturada. TÉCNICA DE APLICAÇÃO A administração do Procedimento é individual, devendo ser aplicado por profissionais devida- mente qualificados. Usam-se folhas de papel em branco de tamanho ofício, lápis preto e uma caixa de lápis de cor. Preenchidas as condições requeridas, o sujeito é colocado sentado, tra- balhando em uma mesa, e o examinador sen- ta-se à sua frente. É dada a tarefa após verifi- cação de bom rapport entre examinando e aplicador. Espalham-se os lápis sobre a mesa, ficando o lápis preto (ponta de grafite) locali- zado ao acaso dentre os demais. Coloca-se uma folha de papel na posição horizontal, com o lado maior próximo do su- jeito. Não se menciona a possibilidade de este alterar essa posição, nem se enfatiza a impor- tância do fato. Solicita-se ao examinando que faça um desenho livre: “Você tem essa folha em branco e pode fazer o desenho que quiser, como quiser”. Aguarda-se a conclusão do pri- meiro desenho. Quando estiver concluído, não é retirado da frente do sujeito. O examinador solicita, então, que ele conte uma estória as- sociada ao desenho: “Você, agora, olhando o desenho, pode inventar uma estória, dizendo o que acontece”. Na eventualidade de o exa- minando demonstrar dificuldades de associa- 430 JUREMA ALCIDES CUNHA ção e de elaboração da estória, pode-se intro- duzir recursos auxiliares, dizendo-lhe, por exemplo: “Você pode começar falando a res- peito do desenho que fez”. Concluída, no primeiro desenho, a fase de contar estórias, passa-se ao “inquérito”. Nes- te, podem-se solicitar quaisquer esclarecimen- tos necessários à compreensão e interpretação do material, produzido tanto no desenho quan- to na estória. O “inquérito” tem, também, o propósito de obtenção de novas associações. Ainda com o desenho diante do sujeito, pede- se o título da estória. Chegando a esse ponto, retira-se o desenho da vista do examinando. Com isso, temos concluída a primeira unidade de produção, composta de desenho livre, es- tória, “inquérito”, título e demais elementos relatados. O examinador tomará nota detalhada da estória, da verbalização do sujeito enquanto desenha, da ordem de realização, dos recur- sos auxiliares empregados, das perguntas e respostas da fase de “inquérito”, do título, bem como de todas as reações expressivas, verbali- zações paralelas e outros comportamentos observados durante a aplicação. Pretende-se conseguir uma série de cinco unidades de pro- dução. Assim, concluída a primeira unidade, repetem-se os mesmos procedimentos para as demais. Na eventualidade de não se obterem cinco unidades em uma única sessão de 60 minutos, é recomendável combinar o retorno do sujeito a nova sessão de aplicação. Não se alcançando o número de unidades igual a cin- co, ainda que utilizado o tempo de duas ses- sões, será considerado e avaliado o material que nelas o examinando produziu. Se as asso- ciações verbais forem pobres, convém reapli- car o processo, a partir da fase de contar estó- rias. Não é aconselhável o uso de borracha. Para outros esclarecimentos quanto à aplicação, vide Trinca, W. (1976). O D-E foi introduzido como técnica de ava- liação psicológica individual. Alguns estudos atuais, contudo, consideram a possibilidade de ser aplicado coletivamente (Aiello-Vaisberg, 1997; Gavião & Pinto, 1999). Originalmente, foi apresentado para sujeitos de ambos os se- xos, de cinco a 15 anos de idade. Hoje, esse uso se estendeu a crianças de três e quatro anos, bem como a adultos de todas as idades. Os examinandos podem pertencer a quaisquer níveis mental, socioeconômico e cultural (Trin- ca, A., 1997). FINALIDADES O D-E foi proposto, inicialmente, para o estu- do dos conteúdos psicodinâmicos da persona- lidade, que abrangem especialmente os pro- cessos de natureza inconsciente. Ele é de gran- de valor na detecção de componentes das ex- periências subjetivas. Ultimamente, contudo, tem se enfatizado que se presta, também, ao reconhecimento das características formais e estruturais da personalidade. A produção grá- fica revela, como afirma Grassano (1996), a concepção e os conflitos inerentes ao manejo espacial, às funções e ao interior do próprio corpo, bem como as angústias e fantasias do- minantes com relação ao corpo de outras pes- soas, construídas desde as primitivas relações de objeto. Como, no D-E, os desenhos livres não são somente substitutivos de pranchas destinadas a provocar estórias, mas constituem importantes fatores a serem avaliados de for- ma integrada com os demais elementos pre- sentes, podemos dizer que tal produção gráfi- ca é reveladora de características formais e es- truturais. Hammer (1991), Van Kolck (1981) e a própria Grassano (1996) oferecem indicado- res para interpretá-los desse modo. Tardivo (1985; 1997) enfoca os aspectos formais da produção gráfica no D-E e sua coerência den- tro do conjunto da produção global. De início, essa técnica de investigação da personalidade foi concebida para avaliar sujei- tos normais, neuróticos e psicóticos em situa- ção eminentemente clínica. Com o passar do tempo, verificou-se que, em função de sua ex- trema adaptabilidade, se prestava a diversas outras situações, como, por exemplo, aos con- textos da psicologia escolar, da saúde pública, da psicologia forense, das instituições de aten- dimento a pessoas carentes, deficientes, etc. Temos encontrado uma ampla utilização do D- E na pesquisa, seja dentro, seja fora da clínica PSICODIAGNÓSTICO – V 431 psicológica. Além disso, ele se revela útil em diagnóstico breve, psicoterapia breve, entre- vista devolutiva, follow-up e inúmeras outras áreas. FUNDAMENTAÇÃO O Procedimento de Desenhos-Estórias encon- tra sua fundamentação nas seguintes suposi- ções: 1) O indivíduo pode revelar suas disposi- ções, esforços e conflitos ao estruturar ou com- pletar uma situação incompleta. Essa suposi- ção fundamenta as técnicas projetivas em ge- ral. Ela vem sendo comprovada por meio de pesquisas e de experiência clínica. 2) As associações livres tendem a se dirigir a setores em que o indivíduo é emocionalmen- te mais sensível. Essa hipótese, que fundamen- ta a própria psicanálise, aplica-se ao D-E, que, como vimos, deixa o examinando livre para realizar a tarefa. Nesta, ele tende a exprimir seus impulsos, conflitos, angústias, fantasias inconscientes, etc. 3) Nas técnicas projetivas, quanto menor for a estruturação e a direção do estímulo, tanto maior será a tendência de surgir material emo- cionalmente significativo. Quando são solici- tados livremente desenhos e estórias, e quan- do é minimizada a direção oferecida pelo exa- minador, pode-se esperar que os núcleos sig- nificativos da personalidade tenham a oportu- nidade de se manifestar. 4) No contato inicial, o cliente tende a co- municar seus principais conflitos e fantasias inconscientes sobre a doença e a cura. Aberas- tury (1982) explica, de modo geral, esse fenô- meno, dizendo que, no caso da criança, esta espera que os profissionais que a atendem não reproduzam a conduta de seus objetos origi- nais, que provocaram a doença ou o conflito. Tanto para as crianças quantopara os adultos, têm se verificado nas consultas iniciais evidên- cias empíricas e clínicas para essa hipótese. 5) Crianças e adolescentes preferem co- municar-se por desenhos e fantasias apercep- tivas a se expressar por comunicações ver- bais diretas. A surpresa, para nós, foi cons- tatar que os adultos, muitas vezes, têm essa preferência. 6) Determinada seqüência reiterada de provas gráficas e temáticas tende a produzir um fator ativador dos mecanismos e dina- mismos da personalidade, levando a maior profundidade e clareza na comunicação. A reiteração do par desenho-estória conduz a um processo unitário de comunicação, com início, meio e fim. AVALIAÇÃO O D-E é uma técnica que permite várias moda- lidades de avaliação. Do vértice da análise de conteúdo com fundamentação psicanalítica, temos observado, tanto em pesquisas realiza- das, como na clínica psicológica, o uso do método denominado “livre inspeção do mate- rial”. Essa forma de avaliação se baseia em uma análise globalística. Ou seja, levando-se em conta o conjunto da produção (desenhos, es- tórias, respostas aos “inquéritos” e outras as- sociações), são levantadas hipóteses referen- tes à natureza dos impulsos, das fantasias in- conscientes, das angústias e conflitos predo- minantes, dos vínculos mais significativos, das defesas mais utilizadas, entre outros aspectos. Tenta-se relacionar tudo isso com as queixas. Podemos mencionar, aqui, a profundidade do método, que depende da experiência clínica. Contudo, ao utilizá-lo, o profissional corre o risco de se equivocar, especialmente se não dispõe de muita experiência clínica. Dada a riqueza do material que surge no Procedimento de Desenhos-Estórias, há a pos- sibilidade de se realizar uma análise dos aspec- tos formais e estruturais, como foi menciona- do. Nesse caso, a ênfase é colocada nas quali- dades aparentes dos desenhos (localização, qualidade do grafismo, temas predominantes, uso das cores, significado das cores, etc.). São consideradas, também, as qualidades da ver- balização: adequação ao nível evolutivo do sujeito, grau de coerência entre os desenhos, as estórias e os títulos, além de outros aspec- tos. Por intermédio dessa análise, pode-se ava- liar o grau de organização das funções egói- 432 JUREMA ALCIDES CUNHA cas, como o raciocínio, a memória, a lógica, a estruturação espacial, temporal, etc. Tardivo (1985; 1997) propôs itens para a análise dos aspectos formais. Focalizou, de modo especial, a produção gráfica e a coerência entre os as- pectos que compõem o D-E. Christofi (1995) utilizou esse esquema, comparando os dados de Tardivo (numa amostra de crianças normais) com crianças que apresentavam problemas de aprendizagem. O estudo revelou a utilidade do D-E no diagnóstico psicopedagógico, de acor- do com as características formais. As crianças com dificuldades de aprendizagem apresenta- ram maior imaturidade emocional, incapacida- de de adequação ao meio e baixa tolerância à frustração. Acreditamos ser interessante usar esse tipo de análise em combinação com a análise de conteúdo, pois ambas se comple- mentam. Passemos, agora, aos referenciais de análi- se de conteúdo. Mencionamos, inicialmente, o trabalho de Trinca, W. (1972). Ele propôs um referencial de análise elaborado desde as res- postas de 53 sujeitos que compunham a amos- tra de sua pesquisa. Esse referencial é composto por dez áreas, ou categorias: Atitude Básica, Figuras Significativas, Sentimentos Expressos, Tendências e Desejos, Impulsos, Ansiedades, Mecanismos de Defesa, Sintomas Expressos, Simbolismos e Outras Áreas da Experiência. Tomando por base esse referencial, Tardivo (1985) analisou 80 protocolos de crianças nor- mais, criando um outro referencial de análise. Das dez áreas apresentadas, as sete primeiras foram consideradas relevantes por Tardivo e denominadas Grupos. Estes foram numerados de I a VII, reunindo cada qual certo número de traços, num total de 33. Resumimos, em se- guida, esse referencial de análise. Grupo I – Atitude Básica (traços de 1 a 5): 1. Aceitação (estão incluídas, neste traço, as necessidades e preocupações com aceitação, êxito, crescimento e as atitudes de segurança); 2. Oposição (atitudes de oposição, desprezo, hostilidade, competição, negativismo, etc.); 3. Insegurança (inclui as necessidades de prote- ção, abrigo e ajuda, as atitudes de submissão, inibição, isolamento e bloqueio e as atitudes de insegurança); 4. Identificação Positiva (sen- timentos de autovalorização, auto-imagem e autoconceito reais e positivos; busca de iden- tidade e identificação com o próprio sexo); 5. Identificação Negativa (este traço se opõe ao traço 4 e se refere aos sentimentos de menor valia, menor capacidade, menor importância e identificação com o outro sexo). Grupo II – Figuras Significativas (traços de 6 a 11): 6. Figura Materna Positiva (mãe senti- da como presente, gratificante, boa, afetiva, protetora, facilitadora – objeto bom); 7. Figu- ra Materna Negativa (mãe vivida como ausen- te, omissa, rejeitadora, ameaçadora, controla- dora, exploradora – objeto mau); 8. Figura Pa- terna Positiva (sentida como próxima, presen- te, gratificante, afetiva e protetora); 9. Figura Paterna Negativa (semelhante ao traço 7, aqui em relação ao pai); 10. Figura Fraterna Positiva e/ou Outras Figuras (aspectos de relacionamen- to com irmãos e/ou com outros iguais, compa- nheiros, amigos, etc., ou seja, cooperação, co- laboração, etc.); 11. Figura Fraterna Negativa e/ou Outras Figuras (aspectos negativos do re- lacionamento: competição, rivalidade, confli- to, inveja). Grupo III – Sentimentos Expressos (traços 12 a 14): 12. Sentimentos Derivados do Instin- to de Vida (ou de tipo construtivo: alegria, amor, energia instintiva e sexual); 13. Sentimen- tos Derivados do Instinto de Morte (ou de tipo destrutivo: ódio, raiva, inveja, ciúme persecu- tório); 14. Sentimentos Derivados do Conflito (sentimentos ambivalentes, que surgem da luta entre os Instintos de Vida e de Morte, ou seja, sentimentos de culpa, medos de perda, de abandono, sentimentos de solidão, de triste- za, de desproteção, ciúme depressivo e outros). Grupo IV – Tendências e Desejos (traços 15 a 17): 15. Necessidades de Suprir Faltas Bási- cas (as mais primárias, como desejo de prote- ção e abrigo, necessidades de compreensão, de ser contido, de ser cuidado com afeto, ne- cessidades orais, etc.); 16. Tendências Destru- tivas (as mais hostis, como desejo de vingan- ça, de atacar, de destruir, de separar os pais); 17. Tendências Construtivas (as mais evoluídas, como necessidades de cura, de aquisição, de realização e autonomia, de liberdade e cresci- mento). PSICODIAGNÓSTICO – V 433 Grupo V – Impulsos (traços 18 e 19): 18. Amorosos; 19. Destrutivos. Grupo VI – Ansiedades (traços 20 e 21): 20. Paranóides; 21. Depressivas. Grupo VII – Mecanismos de Defesa (traços 22 a 33): 22. Cisão; 23. Projeção; 24. Repres- são; 25. Negação/Anulação; 26. Repressão ou Fixação a Estágios Primitivos; 27. Racionaliza- ção; 28. Isolamento; 29. Deslocamento; 30. Idealização; 31. Sublimação; 32. Formação Rea- tiva; 33. Negação Maníaca ou Onipotente. Outros autores, também, propuseram re- ferenciais de análise para o D-E. Em especial, indicamos Castro (1990), Mázzaro (1984), Mestriner (1982) e Paiva (1992). Além da orien- tação psicanalítica, o D-E permite outros tipos de avaliação. Já tivemos oportunidade de ofe- recer exemplos de avaliação junguiana, beha- viorística e fenomenológico-existencial, consi- derando-se um caso clínico (vide Tardivo, 1997). ILUSTRAÇÃO CLÍNICA Fabiano tem sete anos de idade. Foi encami- nhado pela professora da escola que freqüen- ta, porque, sem motivos aparentes, passou a ir mal na escola, a não conseguir assimilar as lições. Até o meio do ano, ia bem, depois dei- xou de aprender, tendo sido reprovado. Quem o trouxe à consulta foi Selma, uma tia paterna de Fabiano, que, juntamente com a avó pater- na e dois outros tios, cuidam da criança desde bebê. O pai mora em uma cidade distante, no Nordeste, e vê o filho, no máximo, umavez por ano. Da mãe não se tem notícia, desde que ela abandonou o lar, quando Fabiano era bebê. Ao vir para a casa da avó e dos tios, o bebê estava descuidado e muito doente. Desde cedo, ele se afeiçoou aos parentes, especialmente a Selma, que praticamente foi quem o criou. Ele se mantém desligado do pai e da nova mulher deste. Selma tem um namorado, e, por vezes, Fabiano chama a ambos de mamãe e papai. A criança é sustentada financeiramente por ela e pelos dois tios. Sempre se sentiu bem na famí- lia, que o ama. Nas entrevistas, verificou-se que há um fa- tor encoberto, escondido, de Fabiano pela fa- mília. Selma pretende se casar brevemente. Não contou esse fato ao menino, porque teme uma reação desfavorável da parte dele. Além disso, não sabe quem cuidará dele após seu casamen- to. A avó pensou em enviá-lo ao pai. A preocu- pação de Selma é grande, visto que são muito ligados entre si: o menino a espera todas as noites, antes de ela chegar do trabalho e do curso que faz. Quanto aos tios, é mais ligado a um deles do que ao outro. Tem ciúmes quan- do a avó e a tia dão atenção a outras crianças. Procedimento de Desenhos-Estórias Verbalização: “A menina foi para a casa dela. Ela tava pensando: que casa pequenina, vou ficar logo nessa casa? Que raiva que tem essa casa pequenina, minha mãe foi logo morar nessa casa? Queria morar no castelo, o castelo é tão gostoso, já pensou se eu casasse com o filho do príncipe? Nessa rua deserta não tem ninguém para brincar. Só brincar na rua, só brincar na rua não adianta, nem tem jogo, porque não brinca com ninguém. Posso aca- bar? Ai, tchau gente, vou para minha casa. Acabou”. (Psicólogo: Quem é menina?) “É uma menina, eu não sei o nome dela, não conheço, vou inventar. Renata, eu acho que ela tá certa, numa rua deserta não dá para brincar, o quin- tal é pequeno, não tem muita flor, o castelo é maior.” (Psicólogo: Aconteceu alguma coisa?) “Um dia uma cobra já mordeu, ela tava assim Figura 29.1. 434 JUREMA ALCIDES CUNHA passeando nos matos, tropeçou na pedra e a cobra mordeu. Ela deu um grito, o pai dela veio, já tinha mordido, foi na esquina pegou um táxi, foi para o Pronto-Socorro.” (Psicólogo: E de- pois?) “Vai dar uma tempestade, a casa dela vai cair, a mãe dela e ela vão morrer, menos o pai dela, porque a casa tá um pouco torta, por isso que eu fiz torta.” (Psicólogo: E com o cas- telo, o que aconteceu?) “Caiu os tijolos, o rei morreu, ficou o príncipe e o filho dele. O prín- cipe foi ser o rei, ele tinha muito dinheiro, moravam cinco pessoas, o dinheiro era dele. O pai dele falava que quando ele morresse podia fazer o que quisesse com o castelo, podia pe- gar empregada. Cinco empregadas. Aí ele pe- gou, fez outro castelo.” Título: A casa pequenina. Interpretação: Oposição entre uma situação favorável e outra desfavorável. Angústia de que tenha de se haver com restrições e frustrações. Mais ainda: angústia de ficar só. Receia passar por mudanças e sofrimentos traumáticos, com perdas relacionadas à figura materna. de sol quente’. Eu coleciono borboletas”. (Psi- cólogo: Por que queriam ser gente?) “Porque quando chovia elas não tinham lugar, elas caí- am com as asas pesadas e os meninos que co- lecionavam pegavam elas. Eu tenho uma bor- boleta tão bonita, mas por trás tá toda feia. Quando tiver muitas eu jogo essa fora, vou fa- zer umas árvores e colo as borboletas com cola tenaz.” (Psicólogo: Como termina?) “Um dia as pedras começaram a rolar, mataram todas as plantas, a semente caiu e nasceram outras.” (Psicólogo: Vai acontecer mais alguma coisa?) “Vai dar uma grande chuva, vai passar aqueles ratos, e as plantas, as borboletas vão morrer, as águas vão levar as sementes para outro jar- dim, vai ficar florido e esse vai ficar seco, me- nos a flor amarela porque ela tem semente.” Título: Jardim florido. Interpretação: Receios de perdas e de trans- formações ameaçadoras, destruidoras dos vín- culos amorosos. Por detrás da aparente segu- rança, esconde-se a angústia de abandono e o medo de uma grande catástrofe. Insegurança quanto à manutenção da própria identidade. Figura 29.2. Verbalização: “Um jardim, aí as borboletas falavam: bem que a gente podia ser gente, para morar numa casa, gente bem bonita. Tinha muitos rubim em ouro, mas mesmo assim a gente se transformava em borboleta para nin- guém roubar. Acabou.” (Psicólogo: O que acon- teceu ao jardim?) “Um dia esse jardim ficou muito seco, faz de conta, porque era um dia verão, ficou muito seco, queimava e a borbo- leta falava: ‘que pena que minha irmã morreu Figura 29.3. Verbalização: “O que eu desenho?” (Psicó- logo: O que você quiser.) “Queria fazer uma locomotiva.” Tenta fazer mas não consegue. Rabisca a folha, diz que errou, devolve o pa- pel. Verbalização: “Era uma vez um zoológico. Aí deu uma tempestade, os bichos entrou tudo para a casinha. Aí o dono, a casa do dono caiu. Era muito forte, o dono abandonou o zoológi- PSICODIAGNÓSTICO – V 435 co. Tinha muitos animais, mas os animais foi jogado pela chuva. Tinha onça, tinha mais ca- melo, tinha jacaré, tinha patos, tinha mais pei- xe, tinha um monte de jaula maior, assim com tubarão. Tinha tigre, tinha serpente, tinha águia, tinha rinoceronte e tinha hipopótamo. Eu tenho um jogo de zoológico, com vários bichos. Acabou. Só ficou esses bichos. Esse zoológico era numa ilha que ninguém sabia onde ficava. Quando eu crescer, eu vou achar ossos antigos nas cavernas. Assim, vou estu- dar muito, vou ser isso, vou viajar para Paris, para achar bichos antigos, ir no espaço.” (Psi- cólogo: Vai acontecer alguma coisa?) “Não vai acontecer, a tempestade já aconteceu. Eu vejo muitos monstros em desenhos. Gosto do fil- me de trem fantasma, assisto ‘Sexto Sentido’. Eu queria ter 18 anos para assistir filmes de fantasma, de mistério.” Interpretação: A reviravolta, que ele teme, pode atingir as bases de sustentação de sua personalidade. Uma poderosa força destruido- ra ameaça levar tudo de roldão. Ele tem de buscar forças no fundo de si próprio para en- frentar os males, que já aconteceram. Em face dos medos pelos quais passa, gostaria de ser adulto a fim de desvendar os mistérios que são dele escondidos. Verbalização: “O que eu vou desenhar?” (Psicólogo: O que você quiser.) “Pode ser algo simples?” (Psicólogo: Como quiser.) “Não te- nho mais vontade de desenhar.” Desenha ra- pidamente. “Esse daqui não tem estória. Nes- se jardim deu uma seca muito forte. As folhas entortaram todas. Só.” (Psicólogo: Vai aconte- cer mais alguma coisa?) “Vai dar uma chuva bem forte e as plantas vão sair bem bonitas.” Título: Jardim horroroso. Deu uma risada, olhou para o psicólogo e disse: “Não tá feio mesmo? Não é melhor o título buquê horroro- so? Eu tou com uma preguiça de fazer dese- nho, não quero mais!” Interpretação: Apesar da angústia e da re- sistência que a situação provoca, pela reitera- ção do tema principal da iminência de uma catástrofe afetiva, ainda resta uma vaga espe- rança de recomposição (“as plantas vão sair bem bonitas”). Discussões: A queixa escolar em relação a Fabiano representa apenas o aspecto visível de um drama vivido inconscientemente por ele, quando o ambiente familiar lhe esconde a ameaça de abandono e de subtração de víncu- los essenciais. Ele capta essa situação e a ex- pressa claramente no Procedimento de De- senhos-Estórias. Permanece, porém, a ques- tão de saber se a situação atual não corres- ponderia à reativação de um conflito primi- tivo, de natureza mais profunda, relacionado ao abandono. Avaliação segundo o referencial de Tardivo Como Atitude Básica, há o predomínio da In- segurança, já que se evidencia a percepção que Fabiano tem do mundo e de sua realidade atual como desproteção. Encontramos conteúdos de abandono e perda em quatro unidades de pro- Figura 29.3. Figura 29.4. 436 JUREMA ALCIDES CUNHA dução. Na terceira (que ele não conseguiu con- cluir), há um “trem que não pôde andar”. Pai e Mãe surgem como Figuras Significativas, mas não são capazes de oferecer contenção às an- gústias de Fabiano. Ele sente que perdeessas figuras, sendo abandonado por elas (na ter- ceira unidade, o dono abandona os animais). Outras figuras (borboletas, na segunda unida- de) perdem-se e morrem. Em relação aos Sen- timentos Expressos, temos a presença domi- nante de sentimentos derivados do conflito, embora estejam presentes, também, os deri- vados do Instinto de Vida. Há tentativas de rea- lizar a construtividade (chuva para o jardim, o castelo para morar), mas elas se mostram in- suficientes e ineficazes. O que prevalece é a sensação geral de perda dos bons objetos: sen- timentos de abandono e extrema desproteção. O menino torna-se muito ameaçado por esses sentimentos, mas vem se equilibrando. Pode não suportar e, então, corre o risco de desmo- ronamentos no self. Assim, no Grupo IV (Ten- dências e Desejos), notamos o predomínio de Necessidades de Suprir Faltas Básicas. São cla- ros seus pedidos de abrigo, proteção e a ne- cessidade de ser acolhido. Estão presentes os Impulsos amorosos (nos pedidos de ajuda e proteção), mas também os destrutivos (nas casas que caem, nos incêndios que queimam os jardins e matam as borboletas). Parece que sobressaem as Ansiedades Depressivas, mas não se descartam, de modo algum, as Para- nóides. Fabiano refere-se aos monstros que gosta de ver, aos filmes de terror, aos trens fan- tasmas, provavelmente como projeções de fi- guras ameaçadoras. Mas o que predomina, acreditamos, são as intensas ansiedades de perda, portanto, de natureza depressiva. Nos Mecanismos de Defesa, há a dificuldade de Fabiano poder utilizá-los eficazmente. Tenta se controlar, mas está presente, sempre, o perigo de cair, de ruir, de se desmoronar; e assim, fa- lhando as defesas, o próprio self pode se des- moronar. O D-E foi bastante eficaz para fazer ressal- tar angústias que Fabiano vivencia nesse mo- mento de sua vida. Tendo sido já abandonado numa primeira vez, vê-se novamente ameaça- do de perder laços afetivos, sendo reeditadas suas angústias primitivas. Poderá ser devolvi- do a um pai que ele não conhece direito. A mãe que ele conhece, e que o criou, deverá se casar, não pretendendo levá-lo consigo. Pelo D-E, nota-se que Fabiano percebe, inconsci- entemente, essa situação e se vê muito amea- çado. São claros, também, seus pedidos de ajuda e proteção. PROCEDIMENTO DE DESENHOS DE FAMÍLIA COM ESTÓRIAS (DF-E) Desde 1978, tem sido divulgada uma técnica de investigação psicológica introduzida, tam- bém, por Trinca, W. (1989) e denominada Pro- cedimento de Desenhos de Família com Estó- rias (abreviadamente, DF-E). Esse instrumento de avaliação se origina, igualmente, das técni- cas gráficas e temáticas, sendo um desdobra- mento relativamente recente da técnica de desenhos de família (Trinca, W., et alii, 1991). Consiste na realização de uma série de quatro desenhos de família, na ordem corresponden- te às seguintes instruções: 1) “Desenhe uma família qualquer”; 2) “Desenhe uma família que você gostaria de ter”; 3) “Desenhe uma família em que alguém não está bem”; 4) “Desenhe a sua família”. Após a realização de cada dese- nho, é solicitado ao examinado que conte li- vremente uma estória, tomando por base o desenho. Faz-se, a seguir, o “inquérito” e, fi- nalmente, pede-se o título da produção. As- sim como o D-E, o DF-E é composto por unida- des de produção gráfico-verbais, cada qual contendo desenho, estória, “inquérito” e títu- lo. A reiteração seqüencial de quatro unidades de produção, com a anotação completa das reações do examinado, constitui a base da téc- nica. Esse conjunto passa a ter características unitárias e indivisas. A administração é individual, podendo ser aplicado indistintamente a ambos os sexos e a todas as idades, quando o examinando conse- gue desenhar e verbalizar. As condições de aplicação e o material necessário são os mes- mos descritos para o Procedimento de Dese- nhos-Estórias. Ou seja, há oferecimento de lá- pis preto e coloridos, livre utilização das cores, PSICODIAGNÓSTICO – V 437 impedimento do uso de borracha e recomen- dação do retorno do examinando, caso não seja possível a obtenção das quatro unidades em uma única sessão de aplicação. Informações mais detalhadas encontram-se em Trinca, W. (1997). O DF-E tem por finalidade a detecção de processos e conteúdos psíquicos de natureza consciente e inconsciente, relacionados aos objetos internos e externos que dizem respei- to à dinâmica da família. É empregado com vistas a ampliar o conhecimento das relações intrapsíquicas e intrafamiliares do examinan- do. Por isso, espera-se que sejam postos em evidência, relativamente a essas relações, con- flitos psíquicos, fantasias inconscientes, angús- tias atuais e pregressas, defesas e outros mo- vimentos das forças emocionais. Sua aplicação é recomendada quando o profissional percebe ou intui que as dificuldades emocionais têm relação com conflitos e fatores familiares pre- sentes no mundo interno e/ou no mundo ex- terno do examinando. A fundamentação do Procedimento de De- senhos de Família com Estórias sustenta-se, mutatis mutandis, nos pressupostos que ser- vem de base para o Procedimento de Desenhos- Estórias. Em particular, funda-se em conheci- mentos sobre a dinâmica inconsciente da per- sonalidade, a regra da associação livre, a dinâ- mica da família, os princípios gerais das técni- cas projetivas, os princípios de condução das entrevistas clínicas não-estruturadas e semi- estruturadas, etc. Para um roteiro de avaliação, Trinca, W (1997) sugere alguns itens: a) características peculiares das figuras paterna e/ou materna; b) tipos de vínculo e formas de interação com as figuras parentais; c) trocas sexuais e afeti- vas entre as figuras parentais; d) relacionamen- tos com figuras fraternas e outras figuras do meio familiar; e) determinantes da estrutura e da dinâmica familiar; f) forças psicopatológi- cas e psicopatogênicas existentes na família; g) eventos familiares reveladores de conflitos e dificuldades; h) pontos centralizados de con- flitos e dificuldades no examinando; i) descri- ção que o examinando faz de si próprio; j) ati- tudes para com a vida e a sociedade; l) ten- dências, necessidades e desejos; m) tonalida- des das angústias e das fantasias inconscien- tes predominantes; n) características das for- ças de vida e de destrutividade; o) mecanis- mos de defesa; p) fatores de aquisição da indi- vidualidade e de integração do self; q) outras áreas de experiência emocional. Lima (1997c), por sua vez, acrescenta ou- tros aspectos de avaliação, como, por exem- plo, o modo pelo qual o examinando concei- tua a família, o valor atribuído a esta no con- texto de vida, a vivência das funções paren- tais, o grau de maturidade do examinando em relação às figuras parentais, as expectativas sobre cada membro do grupo familiar, o grau de contato do examinando em relação a si mesmo e aos membros da família, a relação entre os sintomas e a dinâmica familiar, etc. O DF-E tem se verificado eficaz no diagnós- tico individual e de casal, na utilização cruza- da entre a criança e os pais e na avaliação da dinâmica da família como um todo. Além dis- so, é empregado com sucesso nos processos de psicoterapia de casal e de família. PROCEDIMENTO DE DESENHOS-ESTÓRIAS COM TEMA Trata-se de uma extensão do D-E para estudos específicos de determinados temas, propostos de maneira explícita. O examinando é convi- dado a desenhar algum tema, que o examina- dor indica de antemão. Depois, pede-se que conte uma estória associada livremente ao de- senho. Seguem-se as mesmas recomendações que se fazem para a aplicação do D-E comum, ou seja, mantém-se o “inquérito”, o título, as cinco unidades de produção, a oportunidade do uso das cores, etc. Há grandes benefícios na utilização do D-E temático, quando o set- ting, por si só, não ofereça indicações a respei- to da estruturação da tarefa, e o examinando tenha dúvidas sobre o que se espera de suas realizações. Tem-se verificado que essa forma de apre- sentação do D-E é válida para a pesquisa, para as práticas na escola, na empresa, em institui- ções públicas,etc. Possui sobre o D-E comum 438 JUREMA ALCIDES CUNHA a vantagem de poder ser facilmente aplicado, também de modo coletivo. Aiello-Vaisberg (1997) diz que o D-E com Tema é uma alterna- tiva fecunda para pesquisa da representação social. Ela costuma fazer a aplicação em gru- po, pedindo aos sujeitos para criar uma estó- ria, que eles mesmos registram no verso da folha desenhada. A técnica permite, assim, o estudo de temas, como o doente mental, o deficiente físico, a situação escolar, a pessoa gorda, o hospital, a casa, a velhice, a equipe de trabalho, etc. CONSIDERAÇÕES FINAIS Temos, assim, uma técnica de investigação da personalidade que permite um amplo le- que de possibilidades de uso. Em relação a muitas outras técnicas, é de fácil manejo, e os custos são baixos. Para a realização do diagnóstico breve, pode ser comodamente associada às entrevistas não-estruturadas. No caso do exame epidemiológico das popula- ções carentes, seu valor é inestimável. Além disso, trata-se de um tipo de exame que tem sido descrito como altamente motivador para os seus participantes. Pela liberdade e espon- taneidade de sua penetração psíquica, opõe- se aos métodos invasivos e insere-se no espí- rito de uma nova forma de se conceber a ciên- cia (por contraste com a ciência dita “clássi- ca”). A validação dessa técnica tem sido perse- guida com afinco, seja pelo método estatístico (vide Mestriner, 1982), seja pelo método clíni- co (vide Amiralian, 1997). Como não dispomos de espaço suficiente para descrever os estudos de validação já realizados, remetemos o leitor aos trabalhos dessas autoras, que fizeram re- sumos detalhados dos mesmos, bem como à bibliografia sobre o assunto. Capítulo VII Interlocuções entre a clínica psicológica e a escola no psicodiagnóstico interventivo Lucia Ghiringhello Suzana Lange P. Borges Grande parte das queixas apresentadas no encaminhamento das crianças para atendimento psicológico está relacionada a dificuldades/ problemas na aprendizagem. São queixas que, independentemente de surgirem na escola — a partir das avaliações dos professores, orientadores etc. — ou em casa — em relação à frustração da expectativa dos pais, por exemplo —, aparecem relacionadas com o ambiente escolar. O psicodiagnóstico interventivo tem como pressuposto compreender a criança no seu contexto, do qual faz parte a escola. Propomos a inclusão desse contexto não só como parte do processo de avaliação, mas também como objeto de nossa intervenção, através de devolutivas e orientações em relação à queixa apresentada. Entendemos por escola uma instituição cujas funções são o ensino e a formação dos alunos, sendo ao mesmo tempo um espaço físico e um campo relacional que envolve professores, alunos, funcionários e direção. Essa concepção de escola aproxima-se do conceito de microssistema tal como definido por Brofenbrenner: “Um contexto no qual há um padrão de atividades, papéis sociais e relações interpessoais que são experienciados pela pessoa em desenvolvimento”. A ênfase no termo experienciado indica “a maneira como a pessoa percebe e dá significado ao que vivencia no ambiente, o que vai bem além das características físicas” (apud Koller, 2004, p. 57). Soma-se a esse trabalho compreender a forma como a família se relaciona com a escola da criança e quais as expectativas em relação ao papel que esta deve cumprir. Dessa maneira, é importante conhecer os projetos de futuro que os pais tecem para o filho, que incluem, frequentemente, os sonhos de uma vida melhor como resultado de maior escolaridade. É comum os pais falarem da esperança de que o filho consiga atingir um grau de • • • • escolaridade para além do deles, “para que não tenha que passar pelo que passei”. A escola aparece nesse sentido como possibilidade de mudança e oferta de oportunidade: é lá que a criança faz conquistas, descobre amigos, adquire autonomia e se exercita para ser um futuro adulto e cidadão. Por outro lado, lá a criança é avaliada e, muitas vezes, julgada; poderá ser humilhada (Gonçalves Filho, 2007), ou sofrer preconceitos (Souza, 2007). Para compreender a criança nesse contexto, será necessário conhecer o significado que ela atribui ao processo de aprendizagem, à escolarização e ao seu relacionamento com os educadores e os colegas. No processo do psicodiagnóstico inter-ventivo, independentemente de qual seja a queixa trazida pelos pais, realizamos uma visita à escola, pois esta pode abrir novas possibilidades para a compreensão de como a criança está relacionada à queixa, quais significados atribui processo de aprendizagem e como se relaciona com o contexto escolar. Pensamos que a visita escolar pode ser considerada obrigatória quando a queixa se refere à escola e ao processo de ensino-aprendizagem. A realização de uma visita escolar no decorrer do processo do psicodiagnóstico é proposta também por Avoglia (2006), Maichin (2006) e Souza (2007). As autoras partem de referenciais teóricos diversos, mas concordam que a visita escolar tem contribuições importantes a oferecer ao processo do psicodiagnóstico, especialmente quando essa avaliação aborda a queixa escolar. A visita contribui também para aproximar o psicólogo clínico da escola e para desmistificar a sua atuação (que há alguns anos se restringia ao trabalho no consultório, fato que impedia uma visão mais global das queixas apresentadas) e, ao mesmo tempo, reduz os riscos de toda a problemática infantil ser atribuída apenas a problemas intrapsíquicos, culpabilizando a criança por suas dificuldades. Para que a visita escolar contribua efetivamente para uma melhor compreensão da criança, é preciso tomar alguns cuidados: ela deve ser marcada após o primeiro contato com a criança, e tanto ela como seus pais e a escola precisam ser esclarecidos quanto aos seus objetivos, além de concordarem com a sua realização. Avoglia (2006) propõe que na visita escolar observem-se os seguintes aspectos: Espaço físico: considerando o espaço por onde as crianças transitam; como está organizado para recebê-las; quais os brinquedos/equipamentos disponíveis; orientações se há presença de inspetores etc. Higiene ambiental. A disposição do espaço e do mobiliário, avaliando se favorece atividades em grupo, contato com os professores fora da sala de aula, acesso à direção etc. A merenda, a qualidade dos materiais pedagógicos, os livros e recursos audiovisuais disponíveis. O conhecimento sobre esses aspectos contribuirá para contextualizar a queixa escolar. Além disso, Maichin (2006) recomenda que o foco da visita escolar se volte para as relações sociais que a criança estabelece com os colegas e professores e como é percebida por eles. Souza (2007) relata como procede para que a interlocução com a escola seja efetiva. Ela descreve que inicia seu contato com a escola solicitando um relatório e, para tanto, envia um roteiro por meio dos pais. Caso a escola elabore o relatório, este se constituirá no ponto de partida para a visita escolar. No entanto, a não elaboração do relatório não constitui um impeditivo para a visita. A autora ressalta que, ao programar a visita, tem o cuidado de procurar garantir a presença da professora e de um membro das instâncias decisórias, como o coordenador ou diretor. Segundo a autora, com esse procedimento ela sinaliza que o processo de aprendizagem de uma criança é da responsabilidade não só da professora que está com ela no dia a dia, mas também de toda a escola. Da nossa parte, consideramos importante que na visita escolar sejam observados: o espaço físico (construção e entorno), cuidados com higiene e manutenção, procurando identificar os recursos que oferece, tais como, espaço para brincadeiras, sala de informática, biblioteca, playground para que as crianças possam se desenvolver de forma global. É oportuno lembrar que, durante a visita, é preciso tomar o máximo cuidado para que a criança não fique exposta diante dos colegas e seja identificada como aquela que está sendo observada, ou como uma criança problemática. Se nestasituação a professora comentar o desempenho da criança ou seus problemas, sem que se possa impedi-la ou interferir, recomenda-se abreviar a duração deste procedimento. Além da observação, é importante que o psicólogo entreviste a professora para conhecê-la e poder apreender como percebe o aluno. Avoglia (2006) propõe fazer uma entrevista com a professora para saber como a criança se comporta na sala de aula e como é o seu relacionamento com ela e com os colegas. Sugere também que se procure compreender, na perspectiva da professora, como os pais acompanham a escolaridade do filho, se e como participam de festividades e reuniões pedagógicas. Nessa entrevista o psicólogo investigará também como a professora se conduz diante das dificuldades apresentadas pela criança. A opção de fazer ou não uma observação da criança em sala de aula deve ser adotada criteriosamente, considerando a queixa e as características da criança. Quando nos decidimos por ela, sugerimos que a criança seja observada em sala de aula e em atividades mais livres, atividades semiestruturadas ou não estruturadas (merenda, recreio), procurando compreender como se relaciona com os professores e colegas, como se organiza para a realização das tarefas que lhe são propostas, como se relaciona com a aprendizagem, seu envolvimento e interesse. Na observação da professora durante a aula, procuramos compreender sua didática, seu relacionamento com as crianças e o que deixa transparecer de sua relação com a profissão. Para Souza (2007), ao conhecer a escola e seus atores, o psicólogo deve buscar uma relação horizontal e a suspensão de crenças, juízos de valores e preconceitos, abrindo-se para a experiência direta com a escola concreta e com pessoas singulares. É importante que o psicólogo ouça a versão da escola a respeito da queixa, que levante questões, apresente informações pertinentes e, ao mesmo tempo, reconheça e valorize os esforços e recursos da escola quanto às dificuldades da criança. Concordamos com Souza a respeito da necessidade de o psicólogo adotar essa postura, pois só assim ele poderá entrar em contato com a realidade escolar na perspectiva dos educadores e buscar apreender como a criança é vista nesse contexto. A realidade é múltipla, pode ser interpretada a partir de diferentes perspectivas, possibilitando inúmeras versões. As várias interpretações a respeito da criança compõem uma visão caleidoscópica da qual emergem concordâncias, divergências, zonas de harmonia e de conflito, fraturas e configurações que nos permitirão avançar na compreensão da queixa trazida pelos pais e fazer intervenções. Para que o contato com a escola se constitua efetivamente como elemento importante do psicodiagnóstico, é necessário que os aspectos escolares façam parte da devolutiva aos pais, e às crianças. Por essa razão, na perspectiva do psicodiagnóstico interventivo, concluída a visita preparamos uma sessão para os pais na qual expomos nossas impressões sobre o papel da escola na etapa do processo de aprendizagem em que a criança se encontra, as relações pessoais que ela estabelece no ambiente escolar, abordando a estrutura, recursos e condições da escola. Sabemos que é relevante a maneira como o aluno percebe e vivencia a situação que encontra na escola. O caderno escolar, como instrumento utilizado no cotidiano e como material da criança, oferece o registro de fragmentos do dia a dia escolar e permite apreender as relações que se estabelecem nesse contexto, no que tange às questões de ensino-aprendizagem (Santos e Souza, 2005). É importante atentarmos aos diversos significados e usos que foram e são atribuídos a esse instrumento na e pela escola, para podermos entender de que forma analisar os cadernos escolares durante o diagnóstico interventivo. Desde que se instituiu o ensino formal com a criação das escolas, os cadernos estão ligados à ideia de educação, aprendizagem e processo de escolarização. Hébrad (2001, p. 118) relata que “o caderno é um instrumento comum do aluno de colégio desde o século XVI” e situa a generalização do uso do caderno escolar na França no primeiro terço do século XIX. Antes desse período, as informações eram registradas em pequenas lousas. No século XX, o uso dos cadernos escolares se difundiu e passou a ser amplamente adotado pelas escolas, sendo visto como um instrumento de controle. O caderno escolar é, entre os instrumentos didáticos, um dos mais tradicionais nos diferentes níveis do sistema educacional. Possui inúmeras funções e adquiriu vários significados tanto para os professores quanto para os alunos. Os cadernos registram o conteúdo das matérias ministradas, são meios de comunicação entre pais e docentes, facilitam o acompanhamento das atividades realizadas pelos professores e pela coordenação da escola. Além disso, são uma fonte de informações que amplia a visão dos professores em relação às possíveis dificuldades de aprendizagem e fornece pistas de como as crianças se relacionam com a escola e como vivenciam o processo ensino-aprendizagem. Os cadernos pertencem às crianças e são utilizados por elas, mas são também uma forma de controlar o que o professor ensina e acompanhar a maneira como o aluno realiza as atividades propostas. Os cadernos expressam as relações entre o professor e o aluno. As anotações e bilhetes redigidos pelo professor permitem observar a relação que se estabelece entre ele e a criança. As relações com os cadernos escolares não representam a totalidade das relações vividas no cotidiano escolar. Mas, especialmente na etapa inicial de escolarização, estes são instrumentos didáticos que medeiam decisivamente muitas das experiências vividas na escola (Santos, 2002, p. 136). A maneira como o professor se dirige ao aluno expressa muitas vezes não apenas uma avaliação dos conteúdos ministrados, mas também suas expectativas em relação ao estudante. O professor espera que o aluno perceba e dê sentido a estas mensagens e tente atendê-las. Cada criança, no entanto, fará isso a seu modo, imprimindo a sua singularidade, o que, muitas vezes, poderá não corresponder às expectativas dos professores ou dos pais e acarretar conflitos. Santos (2002) mostra que os cadernos escolares são como um retrato da criança e que a análise deste material permite compreender melhor a sua capacidade de entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os objetos que nela se encontram e fazer uma avaliação das funções cognitivas, tais como memória, linguagem, percepção, habilidades visuais e espaciais. Outro aspecto importante a ser verificado nos cadernos escolares é como a criança expressa o grau de desenvolvimento das funções executivas (Luria, 1981): lógica, estratégia, planejamento, resolução de problemas, raciocínio hipotético- dedutivo, organização, manejo de tempo, memória de trabalho (habilidade de manter informações na mente, enquanto executa uma tarefa), atenção sustentada e inibição de impulsos. As funções cognitivas e executivas são a base para a criança poder planejar e executar as atividades escolares. Detectar possíveis dificuldades nestas áreas permite que pais e professores as auxiliem através de estratégias específicas, possibilitando, desta maneira, o melhor desenvolvimento de suas capacidades. Sadalla (1999, p. 171) aponta que precisamos estar bastante atentos a alguns aspectos importantes antes de analisar os cadernos escolares: “É fundamental olhar o material da criança como um todo, do começo ao fim, folheando-o de forma cuidadosa para que se tenha uma ideia de sua completude antes de se realizar uma análise pontual”. Para a autora, o ideal é pedir à própria criança que “apresente” seu material, solicitando que vá “explicando” algumas situações, tais como atividades repetitivas; atividades não realizadas ou realizadas parcialmente e os “bilhetes” da professora. Pedir que conte o que pensa sobre o seu caderno, sobre as atividades em que se sente competente, de que gosta e de que não gosta (Sadalla, 1999, p. 172). Com esta prática, possibilitaremos às criançase adolescentes a oportunidade de se expressarem em situações que foram vivenciadas na execução destas tarefas, valorizando a sua vivência. Sadalla salienta que, sempre que possível, convém pedir aos professores que mostram a produção de outros alunos da mesma série, o que permite uma análise comparativa. Esta estratégia possibilita compreender melhor como este professor percebe seu aluno no que se refere aos progressos e retrocessos que apresenta na aquisição de determinados conhecimentos. Santos e Souza (2005) apontam que muitas escolas, ao analisar a produção do material escrito pelos alunos, tendem a supervalorizar aspectos como capricho, limpeza, organização, linearidade e demais elementos que envolvem o preparo para alfabetização. Não levam em consideração, no entanto, fatores que são indicadores do desenvolvimento cognitivo, como linguagem verbal, habilidades gráficas, entre outros. De acordo com Santos (2002, p. 138): avaliar o nível de letramento em que se encontra o aluno; sempre que possível buscar, junto ao aluno, aos pais e aos professores, informações complementares a fim de que aquilo que está registrado nos cadernos, provas, fichários e folhas avulsas possa ser compreendido. No exame dos cadernos, devemos estar atentos a: tamanho e legibilidade da letra; uso da borracha; organização; atenção aos erros cometidos; correções feitas pelos professores; identificar de que modo uma produção foi realizada (cópia da lousa, produção individual, em grupo, qual o auxílio dado pelo professor); observar a diferença de desempenho nestas situações, além do cuidado com o material escolar. O exame dos cadernos deve ser contextualizado no ambiente em que foi produzido e à situação global da criança. Segundo Santos (2002), as crianças que iniciam o processo de escolarização precisam de algum tempo para se familiarizar com as regras para a utilização dos cadernos e para que estas se consolidem. Necessitam adquirir o domínio de algumas normas bastante específicas, como, por exemplo, escrever da esquerda para a direita, de cima para baixo, respeitar as linhas de margem à esquerda e à direita, que delimitam o espaço para a escrita do aluno, e saber que nada deve ser escrito ultrapassando as margens. O aluno aprenderá também que o preenchimento das folhas deve obedecer à sequência cronológica das tarefas, que os títulos enunciam as atividades, quando usar letras maiúsculas e minúsculas, pular linhas, organizar os itens registrados e reproduzir conteúdos apresentados na lousa. É preciso observar como os conhecimentos anteriores foram interiorizados, e a etapa em que a criança se encontra poderá ser identificada através de seus cadernos. Espera-se que, no período inicial de escolarização, a criança seja orientada pelos professores de maneira adequada para que aprenda a usar o caderno e como manuseá-lo, pois estes são hábitos que ela precisa desenvolver. Os professores devem transmitir a ela que nos cadernos terão os registros de suas conquistas no campo dos conhecimentos adquiridos. Segundo a mesma autora, somente nas séries mais avançadas, a partir do 4o ano do ensino fundamental, a criança começa a conquistar um espaço próprio no uso do caderno, utilizando-o de uma forma mais livre, não somente para registro dos conteúdos das disciplinas. Passa a ser um lugar de expressão de sua singularidade e, no qual a criança nele pode registrar desenhos, caricaturas, poemas, versos, mensagens de colegas de classe. A análise dos cadernos escolares mostra-se um instrumento útil na compreensão de crianças que são encaminhadas para avaliação psicológica, mesmo quando não há uma queixa escolar, uma vez que traduzem sua maneira de ser no mundo. No processo de psicodiagnóstico interventivo, a análise do material escolar e das visitas à escola fornece indicadores que auxiliam a pensar em vários aspectos que poderão ser abordados com os professores, pais e crianças. Pode ajudar a mediar situações de conflito familiares ou escolares, que se estabelecem diante das dificuldades, e a descobrir novas estratégias para lidar com estas situações. No entanto, após o contato com esse material, é necessário trabalhar com a criança e com os pais para concluirmos nossa avaliação e investigação sobre a queixa apresentada e podermos melhor intervir junto à criança, sua família e a escola. Para tanto, realizamos com a criança um trabalho no consultório. Em nossa prática clínica, notamos que muitos pais que procuram atendimento psicológico para seus filhos apresentam a queixa em termos absolutos: dizem que a criança não lê e não escreve; ou escreve, mas não lê; ou só copia. É necessário, então, investigar o desenvolvimento da criança na escrita e leitura de modo bem específico. A sondagem inicial pode ser feita por meio de jogos diversos (disponíveis em lojas especializadas em materiais educativos) que utilizam palavras, sílabas e letras, através dos quais podemos verificar se as crianças conhecem as letras, como associam as palavras e suas iniciais, se juntam desenhos e descobrem como se formam as palavras, se são capazes de associar a figura à letra, e como aprendem a formar e soletrar palavras. Em um segundo momento, realiza-se uma avaliação formal com o objetivo de verificar o nível conceitual da escrita, tomando como referência os níveis identificados por Emilia Ferreiro (1999). Nessa avaliação, solicita-se que a criança escreva seu nome e, em seguida, ditam-se cinco palavras relacionadas ao universo de cada criança. Começa-se com palavras polissílabas, depois trissílabas, dissílabas e monossílabas, e por último, pede-se que escreva uma pequena frase. Concluída essa escrita, solicitamos à criança que leia tudo o que escreveu. Ficamos ao lado dela e pedimos que leia devagar e vá indicando, • • • • • com o dedo apoiado no papel, a palavra que está lendo enquanto fazemos um registro de suas respostas. Essa investigação possibilita identificar em que fase de aquisição de escrita e leitura a criança se encontra: Nível pré-silábico — nesta fase a criança começa a diferenciar letras de números, desenhos ou símbolos. Este nível é subdividido em duas fases: fase pictórica, na qual a criança registra garatujas e desenhos, e fase gráfica primitiva, em que a criança registra símbolos ou letras misturadas com números. Exemplos: TRAQ (casa); AIVNOAXE (abacaxi). Nível silábico — nesta etapa a criança conta os “pedaços sonoros”, isto é, as sílabas, e coloca um símbolo (letra) para cada pedaço. A noção de que cada sílaba corresponde a uma letra que pode acontecer com ou sem valor sonoro convencional. Exemplos: AO (gato) ou GT (gato) com valor sonoro; LI (gato) ou EI (gato) sem valor sonoro. Nível silábico-alfabético — verificamos que este é um momento conflitante para a criança, pois ela precisa negar a lógica do nível silábico. Nesta etapa o valor sonoro torna-se imperioso, e a criança começa a acrescentar letras principalmente na primeira sílaba. Exemplo: TOAT (tomate). Nível alfabético — a criança reconstrói o sistema linguístico e compreende a sua organização. Exemplo: A criança sabe que os sons L e A são grafados LA, que T e A são grafados TA e que, juntos, significam LATA. Nível ortográfico — nesta etapa dos níveis conceptuais linguísticos, a criança apresenta-se na fase alfabética e necessita de intervenção do professor na ortografia. Exemplos: conheceno, convesa, lipesa, vamus, pasarino etc. No caso das crianças alfabetizadas, podemos utilizar testes psicopedagógicos específicos para avaliação da leitura e da escrita. No final do processo do psicodiagnóstico interventivo, elaboramos um relatório que sintetiza e organiza o que foi compreendido, focalizando a criança no seu todo a partir da queixa inicial. Incluímos no relatório orientações e recomendações para os pais e professores no sentido de favorecer o processo de aprendizagem. O relatório é apresentado inicialmente aos pais e, obtida sua autorização, será enviado à escola. Em seguida, agendamos uma segunda entrevista com a escola para a entrega e discussão dorelatório. Nessa visita procuramos envolver o professor e motivá-lo a colaborar com os ajustes possíveis para atender às dificuldades da criança. Na devolutiva, cabe ao psicólogo estabelecer um diálogo com o professor para, juntos, buscar estratégias de ensino que se mostrem adequadas ou não para aquela criança. Nesse sentido, o psicólogo pode contribuir propondo alternativas para reorientação da prática pedagógica utilizada pelo professor até o momento, sugerindo situações capazes de gerar novos avanços na aprendizagem dos seus alunos, que sirvam também de material de pesquisa para definir as possíveis intervenções e obter dados sobre o processo de aprendizagem de cada criança. Para ilustrar como utilizamos a visita escolar, a análise dos cadernos escolares, as devolutivas aos pais e a interlocução com a escola no processo do psicodiagnóstico interventivo, descreveremos um caso de uma criança, a quem chamaremos de Pedro, que tinha dez de anos de idade quando foi encaminhada pela escola para avaliação psicológica. O menino cursava a 4a série (atual 5o ano) do ensino fundamental I e apresentava dificuldades nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. Segundo a professora, o aluno não estava alfabetizado, tinha problemas de comportamento e era muito quieto. Seus pais relataram dificuldades em seu relacionamento e, no transcorrer do psicodiagnóstico, decidiram separar-se, embora tenham continuado a comparecer juntos aos atendimentos do filho. Disseram perceber as dificuldades escolares de Pedro, mas não tinham muito como ajudá-lo, pois haviam frequentado a escola por pouco tempo, cursando somente até a segunda série (atual 3o ano) do ensino fundamental I. No decorrer das sessões lúdicas e de jogos psicopedagógicos com Pedro, verificamos que ele tinha muita dificuldade para expressar seus sentimentos e emoções. Por outro lado, possuía capacidade de abstração, efetuava operações matemáticas, reconhecia letras e sílabas e construía palavras simples com certa facilidade. Podia-se dizer que se encontrava no nível alfabético, embora ainda cometesse erros ortográficos em consequência de um processo de alfabetização deficitário, possivelmente decorrente das constantes mudanças de professores nas séries iniciais. Pedro mostrava o desejo de aprender e sentia-se envergonhado por se perceber como alguém incapaz, o que era reforçado pelos bilhetes da professora em seu caderno: “Não fez a lição”, “Lição incompleta”, “Preste atenção”, “Veja os erros que cometeu!”. Em nenhum momento encontramos alguma anotação que valorizasse sua produção. Este aspecto foi trabalhado com ele, procurando restabelecer sua autoestima; aos poucos, Pedro começou a se expressar mais, já que até então era um menino muito contido. Em visita à escola, conversamos sobre o que havíamos observado com as duas coordenadoras e a professora. Esta se mostrou descrente dos resultados da avaliação e firmou sua posição no sentido de que Pedro não estava alfabetizado, que todas as suas dificuldades eram decorrentes de problemas familiares e pouco havia a fazer. Já as coordenadoras revelaram-se educadoras mais sensíveis e dispostas a ajudar não somente Pedro, mas também outros alunos que apresentavam dificuldades semelhantes. As coordenadoras solicitaram uma ação psicológica junto ao corpo docente, buscando sensibilizá-lo a desenvolver um novo olhar e criar novas estratégias para as dificuldades escolares dos alunos. Os professores foram convidados a participar de um grupo de reflexão sobre as dificuldades que encontravam no seu dia a dia com alguns alunos que não vinham apresentando progresso em seu processo de alfabetização. Poucos foram os que aderiram a esta proposta, e a professora de Pedro optou por não participar. Ela se considerava uma profissional experiente, estava prestes a se aposentar e acreditava que não tinha mais como contribuir para o aprendizado do aluno. Ao longo do trabalho realizado nesta escola, os educadores que participaram do grupo relataram o quanto foi significativo, pois puderam trocar experiências e compartilhar suas angústias buscando, com a ajuda dos psicólogos, novas formas de atuação com seus alunos. Mencionaram que a professora de Pedro passou a se queixar de que ele estava um “menino mais danado”, que começou a fazer perguntas quando não compreendia a matéria e a interagir com os colegas de maneira mais espontânea. Do ponto de vista das coordenadoras e dos demais educadores, este comportamento de Pedro era extremamente construtivo para seu processo de aprendizagem. O caso descrito mostra que, quando uma criança ou adolescente apresenta dificuldades de aprendizagem, é possível através do psicodiagnóstico interventivo procurar maneiras de ajudar alunos e professores a resolver essas questões. Nessa medida, o psicodiagnóstico interventivo permite às pessoas envolvidas abrir-se ao outro, deixando de lado preconceitos, na tentativa de penetrar de maneira espontânea nas intuições, compartilhar percepções, sentimentos e sensações, que possibilitam melhor compreender a vivência da criança em relação às questões escolares. É importante formar uma compreensão que englobe as percepções de cada um dos envolvidos no processo, alunos, pais e escola, fazendo com que as questões possam circular e ser compartilhadas, realizando intervenções e construindo novas formas de atuação para o psicólogo. Cabe ressaltar que o alcance e a abrangência dessa interlocução dependerão dos diversos personagens envolvidos nesse processo. Referências bibliográficas AVOGLIA, Hila Rosa Capelão. Avaliação psicológica: a perspectiva sócio-familiar nas estratégias complementares à prática clínica infantil. Tese (Doutorado em Psicologia) — Universidade de São Paulo, Programa de Pós-graduação Escolar e do Desenvolvimento Humano do Instituto de Psicologia, São Paulo, 2006. FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artmed, 1999. GONÇALVES FILHO, José Moura. Humilhação social: humilhação política. In: SOUZA, Beatriz de Paula (Org.). Orientação à queixa escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007. HÉBRAD, Jean. Por uma biografia matéria das escritas ordinárias: o espaço gráfico do caderno escolar (França — séculos XIX-XX). Revista Brasileira de História da Educação, n. 1, p. 115-41, jan./jun. 2001. KOLLER, Silvia Helena (Org.). Ecologia do desenvolvimento humano: pesquisa e intervenção no Brasil. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004. LAURENTI, Roseli Bacili. Psicopedagogia: um modelo fenomenológico. São Paulo: Vetor, 2004. LURIA, Aleksander Romanovich. Fundamentos de Neuropsicologia. São Paulo: Edusp; 1981. MAICHIN, Vanessa. Visita escolar: um recurso do psicodiagnóstico interventivo na abordagem fenomenológico-existencial. Dissertação (Mestrado em Psicologia) — Pontifícia Universidade Católica, Programa de Pós-graduação. Área de Concentração: Práticas Clínicas, São Paulo, 2006. SADALLA, Ana Maria Falcão de Aragão et al. Roteiro de observação e análise de material escrito. Psicologia Escolar e Educacional, v. 3, n. 3, p. 171-74, 1999. SANTOS, Anabela Almeida Costa e. Cadernos escolares na primeira série do ensino fundamental: funções e significados. Dissertação (Mestrado) — Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, São Paulo, 2002. ______; SOUZA, Marilene Proença Rebello de. Cadernos escolares: como e o que se registra no contexto escolar. Psicologia Escolar e Educacional, Campinas, v. 9, n. 2, dez. 2005. SOUZA, Beatriz de Paula (Org.). Orientação à queixa escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007. Capítulo VIII Visita domiciliar: a dimensão psicológica do espaço habitado Ligia Corrêa Pinho Lopes “Nós vos pedimos com insistência não digam nunca isso é natural! Sob o familiar descubram o insólito sob o cotidiano desvelem o inexplicável que tudo o que é considerado habitual provoque inquietação na regra descubram o abuso e sempre que o abuso for encontrado encontrem o remédio.” Bertold Brecht Encontra-se disponível na literatura uma gama variada de referências à visita domiciliar.Grande parte dessas referências coloca a necessidade das visitas em face das diversas impossibilidades de o paciente comparecer ao consultório, como no caso de consultas médicas, de reabilitação fisioterápica ou de pacientes que tiveram a sua mobilidade física comprometida após acidentes traumáticos, ou ainda que, diante destes, passaram a necessitar de acompanhamento psicoterápico: Padilha, Carvalho, Silva e Pinto (1994); Mazza (1994); Colacique (1996); Barbosa (1998); Oliveira (1999); Palma, Barros e Macieira (2000); Parra, Palau, Barrueco, Amilibia, León, Oltra e Escarrabill (2001); Burns, Cain e Husaini (2001); Darden, Ector, Moran e Quattlebaum (2001). No âmbito da Psicologia, também encontramos relatos de psicoterapeutas que vão ao encontro de seus pacientes em hospitais ou nas residências destes, em função de suas dificuldades para se dirigir ao consultório. No entanto, apesar de estas situações apresentarem-se como excepcionais para a reflexão da prática clínica, tornam-se casos isolados, em que o profissional que se vê no exercício desta prática deixa de registrar o seu atendimento na literatura da área, até mesmo por receio de críticas da sua classe profissional, principalmente por tratar-se de prática clínica diferente da comumente adotada por aqueles que trabalham em consultórios, com alterações do setting terapêutico. Alguns psicólogos que atuam na área de terapia familiar consideram o espaço residencial um elemento a mais para a compreensão da dinâmica da família que está em processo psicoterapêutico. Dentre eles destaco Berenstein (1988), Vidal (1999), Muxel (1999), Aubertel (1999), Darchis (1999). Para eles, a casa é o primeiro nicho da identidade, e o espaço residencial da família reflete, através de suas configurações, disposição, orientações, divisões e organização, um psiquismo grupal. Ressaltam ainda que o espaço negociado na coexistência das relações familiares revela a experiência afetiva daqueles que o habitam. O ambiente familiar concretiza, de certa maneira, o corpo familiar e a organização das ocupações cotidianas, e atualiza o modo de estar em família. Outra crítica comum se refere à alteração dos comportamentos habituais da família em razão da presença de um estranho, mascarando informações que seriam importantes para a compreensão da dinâmica. A ela, Ackerman (1986, p. 137) responde que as mudanças se dão apenas em grau, e não na qualidade. Podemos não ver a mãe perder a paciência com o filho em casa nem no consultório, mas, seja seu comportamento estritamente típico ou não, podemos observar a qualidade de suas atitudes e relações com o filho. Ainda segundo Ackerman (1986), os psicoterapeutas resistem à visita em razão da sua insegurança e, consequentemente, tendem a considerá-la uma invasão e uma ameaça à família, o que pode acarretar complicações no processo psicoterápico. A prática da visita domiciliar foi descrita por Ramos (1966) ao abordar a avaliação da criança portadora de “retardo mental”.[1] Esta visita consistia em uma observação da criança em sua casa, mantendo-se o observador o mais neutro possível. Em alguns casos, a visita não era realizada pelo profissional que fazia o psicodiagnóstico, mas por alguém indicado por ele, visando manter a distância necessária para proceder a uma boa avaliação. Na literatura pesquisada, só foi encontrado um autor, Ackerman (1986), que realiza a visita domiciliar em diagnóstico. Trata-se, no entanto, de um diagnóstico familiar, cujos procedimentos diferem daqueles adotados no psicodiagnóstico interventivo de base fenomenológico-existencial. Sendo assim, a visita domiciliar tem funções diferentes nos dois contextos. Passo, então, a apresentar alguns dos principais pontos de vista deste autor. Em relação ao diagnóstico familiar, Ackerman (1986, p. 134) acredita que a primeira dificuldade que o profissional da área de saúde mental encontra […] é a obtenção de dados suficientes e seguros que o capacitem a fazer diagnósticos corretos e agir inteligentemente para o sucesso do tratamento. Neste sentido, acrescenta que […] na tentativa de explorar os problemas de saúde mental da vida familiar, com o objetivo de relacionar o comportamento da família como um grupo com o comportamento de um membro da família, a visita aos lares torna-se um instrumento valioso (idem, ibidem, p. 135). A função da visita é basicamente observar os padrões de interação familiar e a adaptação ao papel familiar. Tem ainda um interesse especial no clima emocional da casa, na identidade psicossocial da família e na sua expressão em um ambiente definido. Ela “é apenas um meio de avaliar a família e deve ser integrada a outros achados” (idem, ibidem, p. 137). Apesar de apontar as vantagens do conhecimento prévio da demanda, acredita que as visitas também podem ser feitas “[…] sem o conhecimento prévio do problema ou antecedentes familiares” (idem, ibidem, p. 136). Sem que apresente detalhes de como é acordada essa visita preliminar, Ackerman (1986, p. 136) afirma que: “Uma certa neutralidade emocional, falta de seletividade e evitação de preconceito é atingida quando a história clínica não é conhecida” (p. 136). Ackerman propõe que a visita a casa deve ser informal e pode durar de duas a três horas. O profissional que realiza tal visita deve fazer seu relatório de memória, uma vez que fazer anotações na hora poderia prejudicar a espontaneidade da experiência; porém, ela deve ter em mente os dados que compõem um roteiro com direcionamentos para as observações a serem realizadas, o que, neste caso, configuraria uma visita semiestruturada. As reações da família ao visitante podem ser bastante interessantes. Algumas vezes o visitante é visto como aliado; sua aprovação é necessária e sua atenção disputada. Outras vezes, ele é visivelmente excluído. Em muitas famílias o visitante torna-se um vetor ou catalisador de interações familiares (Ackerman,1986, p. 137). A visita domiciliar, no psicodiagnóstico que faço, tem outra forma de ser realizada e comporta objetivos diferentes dos apresentados até agora. Mas nem sempre ela foi realizada da mesma forma. As mudanças aconteceram no decorrer do tempo e da aquisição de maior experiência profissional. Passo a contar, então, de que maneira isto se deu. Meu contato inicial com esta prática se deu quando eu ainda era estudante. O objetivo principal da visita domiciliar era o de ampliar a compreensão das relações que se estabeleciam na família. Na ocasião, o uso desse procedimento no psicodiagnóstico de base fenomenológico-existencial se justificava pela necessidade de compreender a criança a partir da rede de relações na qual ela se encontrava inserida. Mas, mesmo com esse argumento, dúvidas me assaltavam: qual era então a diferença da visita domiciliar para a entrevista familiar? Por que ir à casa do cliente, se poderíamos chamar a família toda para uma ou mais sessões? A essas perguntas seguiam-se respostas explicativas: a proposta não era apenas conhecer as pessoas da família que não participavam do processo psicodiagnóstico, não era somente ampliar a compreensão das relações estabelecidas, mas também tinha como objetivo entrar em contato com o espaço da casa da criança, ou seja, não só com quem ela vivia, mas como vivia. Essas explicações me aquietavam temporariamente, mas não impediam que novas questões me assediassem e, a partir delas, novos esclarecimentos fossem acrescentados, antes mesmo que eu pudesse vivenciar esse modo tão diferente de entrar em contato com os aspectos da criança e tão diferente dos demais recursos comumente propostos no psicodiagnóstico. Então, após as entrevistas iniciais, de anamnese e as sessões com a criança, agendavam-se as visitas (escolar e domiciliar) com os pais, que já tinham conhecimento delas, pois eram acordadas com eles e seus filhos por ocasião do contrato. A visita domiciliar deveria ser marcada quando todos ou a maioria dos familiares ou a maioria deles estivessem presentes. É importante destacar, ainda, que essa visita só se realizava mediante a concordânciada criança e dos pais. Ela não era obrigatória, isto é, não era parte imprescindível do processo. Só íamos quando achávamos que ela poderia confirmar as nossas hipóteses ou acrescentar-lhes algo. Para a sua realização, recebíamos várias orientações. Dentre elas, a de permanecer por uma hora na casa do cliente. Nem mais nem menos. Por que uma hora? Por que não cinquenta minutos? Ou uma hora e quinze? Porque este seria o tempo necessário e suficiente para a ocorrência das observações sem cansar o cliente — pais e criança — ou a família. Novas respostas para novos questionamentos. Também éramos orientados a observar cada membro da família e as suas interações; observar os aspectos da casa que mais chamavam a atenção; deixar que a visita ocorresse na parte da casa escolhida pelos familiares. As devolutivas acerca de nossas observações e compreensões deveriam ser feitas somente no setting terapêutico. Apenas observávamos, percebíamos, mas não fazíamos qualquer tipo de intervenção. Não questionávamos os motivos desta orientação, mas acredito que um deles fosse o próprio objetivo — a observação, e não a intervenção — e, provavelmente, outro fosse um receio acerca da atuação de estagiários inexperientes. Enfatizavam-se orientações gerais em relação à postura e atitude ética, já que, como estagiários, contávamos com “pouca” experiência (na verdade, não tínhamos experiência alguma). Além do mais, esta não era uma atividade das mais comuns dentro da prática psicológica, como já disse. Sentia-me motivada para fazer algo totalmente diferente, mas ao mesmo tempo insegura. Acreditava que o setting terapêutico de certa forma me abrigava, me acolhia, me protegia da minha pouca experiência. Apesar da recomendação aos estagiários para observar particularidades da casa, eu percebia que o ponto principal de nossas observações, durante a visita, deveria, sem dúvida, girar em torno dos membros da família: como se relacionavam, qual a dinâmica que se estabelecia etc. E este era o meu foco. Entretanto, depois de algum tempo na casa, com a atenção toda voltada para os movimentos relacionais da família, às vezes, sobravam-me alguns minutos. E o que fazer com eles, já que não deveria encerrar a visita antes de uma hora? Ou, pelo menos, era assim que eu entendia. Na ausência de uma direção específica, o olhar vagava ao redor, registrando pequenos detalhes que serviam mais para ocupar o tempo, sem que eu pudesse reconhecer a sua importância. É claro que nos registros das observações e, consequentemente, nas devolutivas para os pais e criança apareciam esses outros aspectos da casa; entretanto, eles acabavam ficando “soltos”, relegados a um segundo plano. Algumas visitas, contudo, começaram a ser reveladoras; ou, quem sabe, meu olhar passara a captar detalhes que me remetiam, de alguma forma, à história da criança já contada por ela própria ou por seus pais, ou seja, faziam sentido. Só para permitir ao leitor que me acompanhe, conto algumas histórias, sem pretender, no entanto, relatar aqui os procedimentos adotados, as análises e as conclusões dos psicodiagnósticos realizados. Os pais de um garoto de três anos trouxeram a queixa da agressividade do filho e a sua dificuldade para acatar os limites que lhe eram impostos. Nas entrevistas iniciais e de anamnese, contaram que a criança não havia sido planejada, pois nenhum deles possuía o desejo de ter filhos. Acreditavam que uma criança atrapalharia os planos profissionais de ambos. Por ocasião da visita domiciliar, a fala desses pais foi confirmada (e aparentemente apenas confirmada) pelo que o ambiente apresentava. O apartamento pequeno era bastante organizado. Na sala, havia muitos enfeites, e todos os móveis eram claros e muito limpos. Havia dois sofás de dois lugares, um de frente para o outro, e entre eles, uma poltrona. Os estofados, da cor marfim, mantinham-se muito bem conservados. Por ali, nenhum sinal de mãozinhas sujas ou pezinhos travessos; por ali, nenhum vestígio de criança. Entre os sofás, estava uma mesinha de centro repleta de pequenos animais de cristal e um cinzeiro. Na mesinha de canto, localizada entre a poltrona e um dos sofás e encostada na parede, havia dois porta- retratos, um com a foto do casal e outro com a foto do menino, quando ainda era bebê, além de um pequeno vaso de planta. Tudo na mais absoluta ordem; nenhum bichinho de cristal quebrado, sem uma pata, com um meio rabo, uma única orelha, enfim… Era preciso algum esforço para não me esquecer de que ali, naquele lugar, também morava uma criança. De apenas três anos. Havia ainda dois quartos: um do casal e o outro, que continuava sendo um escritório adaptado para o filho. Permaneciam, no ambiente, estantes de escritório; de um lado da parede, livros de pedagogia da mãe e do outro lado, os de direito do pai e, no centro, acima da cama do menino, três prateleiras com seus brinquedos. Eu estava diante de um quarto-escritório ou de um escritório-quarto de uma criança de apenas três anos. A organização do espaço, a cor clara dos móveis preservados, os enfeites de cristal, tudo causava certa estranheza. Principalmente, quando eu pensava na queixa: dificuldade de aceitar os limites impostos e agressividade. Como uma casa tão atraente para uma criança de três anos se mantinha tão arrumada, se o garoto não tinha limites? Por outro lado, a fala dos pais, nas primeiras entrevistas, sobre a falta de espaço dentro deles para receber um filho se ratificava naquele apartamento arrumado para um casal. O quarto-escritório do menino deixava claro que ele entrou no meio das carreiras profissionais de ambos. Literalmente concretizado no espaço físico: a sua estante de brinquedos situava-se entre as estantes de livros de seus pais. O único espaço que tinha, portanto, ainda era dividido com eles. Parecia-me então que o garoto tinha limites. A organização da casa era reveladora disto. Tudo tinha o seu lugar. Talvez esses pais não soubessem onde colocar esse menino sem que desarrumasse a ordem do casal. Neste contexto, a agressividade foi entendida como uma reação a esta situação. Vamos a outra história. Uma menina de sete anos, que também foi atendida na mesma ocasião, havia sido encaminhada pela diretora da escola em que estudava por apresentar-se apática, sem vontade, muito calada e com dificuldade para se relacionar com os colegas. Os pais, durante as entrevistas, diziam não compreender o motivo do que traduziam por uma grande tristeza, já que faziam tudo que estava ao alcance deles para agradar a única filha. Mas tinham a impressão de que nada lhe agradava efetivamente. Ressaltavam o fato de ser uma criança que não gostava de sair de casa sem os pais, por medo de carro, de cachorro, entre outros. Quando saía com o pai, exigia que a mãe fosse junto e, quando saía com a mãe, solicitava igualmente a presença do pai. Eram pais batalhadores que trabalhavam excessivamente para conseguir manter o sustento da casa. Mas não se mostravam queixosos da vida; ao contrário, enfrentavam-na com vigor. Na sessão da anamnese, a mãe, que compareceu sozinha, passou boa parte do tempo contando a sua história de vida. Relatou ter perdido a mãe de forma inesperada e brutal, aos sete anos. Ficou morando com o pai e suas duas irmãs mais novas. Dois anos após o acidente de sua mãe, seu pai casou-se novamente, tendo mais duas filhas, frutos desta nova união. Em relação à filha, dizia que tinha muito medo de morrer e deixar a filha sozinha e desamparada. Foi perguntado à mãe se, de alguma forma, a menina tinha conhecimento de seu medo, ao que respondeu que conversava muito com a filha sobre este assunto. Também a ensinava a cozinhar, costurar e cuidar da casa, para que pudesse sair-se bem caso a mãe viesse a lhe faltar. As sessões lúdicas confirmavam a fala dos pais; a menina apresentava uma feição triste, sem vida; não se interessava pelos brinquedos da caixa lúdica, passando as sessões quieta e de cabeça baixa. Quando alguma pergunta lhe era direcionada, respondia com boa vontade, mas de forma sucinta. Na visitadomiciliar, encontrei uma casa bastante simples que ficava localizada nos fundos da residência da avó paterna da criança. Ao subir uma escada, entrávamos em uma cozinha que, em seu centro, tinha uma mesa redonda com quatro cadeiras. A mãe pediu à criança que me mostrasse seu quarto. Saindo da cozinha, um pequeno corredor levava aos dois quartos (do casal e da garota) e a um banheiro. A menina mostrou primeiro o quarto dos pais, que possuía uma cama de casal e um móvel onde ficavam a televisão, um aparelho de som e o vídeo. Ao sair do quarto, ela nos apontou o banheiro com a porta entreaberta e, por fim, seu quarto. Ao entrar no quarto, fui surpreendida. Eu jamais poderia imaginar ver aquilo que via. Ele parecia pertencer a outra casa. As paredes eram todas pintadas com cachorros dálmatas, e nelas havia muitas prateleiras com bonecas de todos os tipos e tamanhos. No canto, embaixo da janela e encostada em uma das paredes, situava-se uma cama com colcha cor-de-rosa e, sobre ela, uma infinidade de bichos de pelúcia. Na frente, um móvel com uma televisão na parte superior e muitas fitas de vídeo na parte inferior. Todos os espaços eram preenchidos por brinquedos muito bem cuidados e organizados. Logo após a apresentação, a mãe adentrou o quarto solicitando à filha que abrisse o armário para mostrar mais brinquedos ali guardados. Na parte superior, havia muitas caixas de bonecas, bolas e panelinhas; embaixo, muitas roupas penduradas em cabides, gavetas que guardavam mais algumas e vários pares de sapatos. Era um quarto muito diferente dos outros cômodos da casa. Estes últimos combinavam perfeitamente com o discurso dos pais. Aquele quarto tão colorido, com tantos estímulos, provocava uma sensação de que nada faltava ali para uma menina de sete anos. Ao contrário, havia tantas coisas que chegavam a sufocar. Dois mundos distintos compunham aquela casa. De um lado, a falta, a escassez, a luta pela sobrevivência entranhadas em um espaço habitado por pessoas batalhadoras pela vida e, de outro, a abundância, a fartura, o vivaz, criando um ambiente contrastante com a ausência de vitalidade de sua dona. Em ambos, o medo da morte rondando e produzindo esses paradoxos. Não deve ser difícil imaginar o impacto e o encantamento provocados pelas visitas domiciliares dos dois casos apresentados anteriormente. Para uma estagiária inexperiente, aquilo beirava a magia. Descobrir que a casa contava uma história, a de seus moradores, foi uma grata surpresa. Essas experiências iniciais, somadas a outras que foram se sucedendo me trouxeram também inquietude em relação a esses fenômenos. Havia mais para ser feito, para ser compreendido. Era sim importante compreender as relações que a família estabelecia, conhecer as pessoas que conviviam com a criança, mas tinha algo que também se revelava no ambiente, que dizia sobre seus habitantes. Contudo, a falta de experiência não me permitia arriscar nada além disto. Mesmo depois de formada, passei a adotar esse procedimento da visita domiciliar no processo psicodiagnóstico. Entretanto, esta prática foi se modificando em relação ao modelo que me fora originalmente apresentado. Alguns aspectos foram mantidos; muitos, alterados. À medida que exercitava esse fazer, fui surpreendendo-me com suas possibilidades e seus resultados, e as perguntas que surgiam foram sendo respondidas. As primeiras visitas domiciliares foram utilizadas como um recurso a mais. Hoje, no entanto, considero-as como parte do processo psicodiagnóstico. Partindo do ponto de vista de que é fundamental compreender a criança na rede das relações familiares, estratégias que permitam ampliar esta compreensão serão, sem dúvida, enriquecedoras. É neste contexto que se insere a visita domiciliar, que, no meu entender, ultrapassa a mera noção de estratégia ou técnica, podendo se constituir em um momento de grandes possibilidades interventivas e de favorecimento para consistência diagnóstica. Ela é acordada logo nas entrevistas iniciais, quando se fecham os contratos — com os pais e a criança — e, se houver a concordância da família, ela é marcada em data previamente combinada. Caso haja recusa, o processo psicodiagnóstico prossegue, contudo, os aspectos que seriam observados na visita domiciliar não o serão, uma vez que não há possibilidades de substituí-la por relatos. A recusa será explorada de tal maneira que o seu entendimento fará parte da compreensão global. A data da visita é sempre posterior ao conhecimento da história de vida da criança e o estabelecimento de um vínculo mais significativo com os clientes. Minha experiência aponta que se torna mais confortável, para pais e crianças, quando a visita é realizada no momento em que há maior grau de “intimidade” e confiabilidade, evitando a fantasia de que o psicólogo deseja “investigar” sua casa e as pessoas de sua família. Todavia, a visita não pode perder o cunho de um trabalho profissional e assumir um caráter de visita social, embora a sociabilidade da ação deva ser preservada, o que faz com que certa informalidade seja esperada. Por outro lado, acredito que a presença de um “estranho” na casa não deve ser desconsiderada, mesmo que seja alguém com quem algumas pessoas da família já têm (criança, pai e mãe) contato anterior. Penso que qualquer tipo de reação por parte dos clientes é mais um elemento para a compreensão da dinâmica estabelecida. O tempo de permanência não pode ser previsto ao certo, pois a duração, assim como o tom da visita, dependerão da interação mútua de visitante e família. Apesar de não se esgotar o que pode ser observado e compreendido em um espaço que é cenário das relações humanas, é preciso estabelecer um limite para a realização da visita. O seu término será, então, determinado por uma avaliação do profissional em relação à suficiência de elementos para o aprofundamento da compreensão diagnóstica. A decisão quanto à parte da casa em que a visita deve se dar é sempre dos familiares; ficam livres e à vontade para conduzir o visitante em seu espaço. Indico apenas que as visitas sejam realizadas quando todos, ou a maioria dos moradores, estejam presentes, o que facilita a compreensão das relações que lá se estabelecem. Não utilizo questionários e roteiros de observação por acreditar que o “clima emocional” do lar vai dirigindo minhas observações. Não que as observações e os relatos dos pais no setting terapêutico não ofereçam subsídios para um trabalho consistente na busca de compreensão e intervenção, mas a observação direta, in loco, permite a visão das relações familiares em situações naturais da sua dinâmica. Retomo a ideia de que a visita domiciliar não tem um caráter apenas investigativo e de observação, ela possibilita a compreensão da estrutura e da dinâmica familiar e das relações que nela se estabelecem e, mais do que isto, permite entrar em contato com o ambiente físico, que revela aspectos fundamentais, como já pudemos vislumbrar nas histórias citadas. Nestas ocasiões, a observação e a compreensão servem de base para as intervenções pertinentes à situação. Estas possibilitam à família maior entendimento do interjogo das relações e do ambiente físico como mais um elemento facilitador ou não do desenvolvimento familiar. De minha parte, acredito ser o psicólogo um participante ativo que faz intervenções à medida que experimenta as situações, situações estas que vão sendo apresentadas pelos clientes durante a visita. O fato de as intervenções serem feitas na casa, durante a visita, ou nas sessões devolutivas dependerá das condições de compreensão do psicólogo e de sua possibilidade de avaliar a prontidão do paciente para recebê-las e assim produzir seus efeitos terapêuticos. A dinâmica familiar, somada à forma como se é recebido na casa, fornece dicas da propriedade ou não da intervenção. As intervenções podem se reportar às situações concretas vividas na casa, produzindo efeitos no cliente. Conto agora outra história que evidencia as modificações que foram feitas na visita domiciliar. Generosa[2] procurou atendimentopsicológico encaminhada pela escola de sua filha Sílvia, de 8 anos. Era uma mulher bonita e apresentava-se bem-vestida, bem cuidada, parecendo ser bastante vaidosa. Na primeira entrevista contou que a professora e a diretora estavam preocupadas com o comportamento de Sílvia, que, segundo elas, destoava das outras meninas de sua idade. Na ocasião em que solicitaram a presença da mãe na escola, comentaram que Sílvia, além de falar constantemente sobre beijos, namoros etc., havia pedido para um colega que mostrasse seu pênis a ela. Comentaram também que, recentemente, fora vista no banheiro dos meninos espiando pela fresta da porta. Interrogada, Sílvia justificou-se dizendo que queria saber “como os meninos faziam xixi” (sic). A mãe alegou não perceber tais comportamentos na filha, ressaltando que era uma menina que brincava bastante, não revelando interesse por meninos ou namorados. Acrescentou apenas que, por ser sua única filha, convivia muito com adultos, participava das conversas e sempre se mostrou muito curiosa. Generosa comentou ter ficado muito irritada com a atitude da escola, porque, provavelmente, esses comportamentos de Sílvia deveriam estar acontecendo há mais tempo sem que lhe tivessem informado anteriormente. Entendia que se tratava de uma “perseguição” (sic), uma vez que ela e seu marido não participavam das atividades e das convocações feitas pela escola por “serem pessoas muito reservadas” (sic). Em relação às entrevistas de anamnese, todas as informações dadas correspondiam ao esperado para as fases de desenvolvimento infantil. Destacava-se apenas a informação sobre a curiosidade permanente (desde pequena) de Sílvia em relação ao nascimento dos bebês. Nestes casos, a mãe sempre fornecia as explicações que julgava necessárias. Do meu ponto de vista, elas excediam o que havia sido perguntado pela criança. Por exemplo, ao explicar sobre o nascimento dos bebês, ela acrescentava como eles eram feitos, mesmo quando Sílvia ainda não havia revelado essa curiosidade. No meu primeiro contato com Sílvia, me deparei com uma menina que era a miniatura de sua mãe: usava batom, esmalte vermelho nas unhas; carregava uma bolsa a tiracolo; calçava um sapato com saltinho anabela e se vestia como uma mocinha. Nas sessões lúdicas, sempre abria sua bolsa para me mostrar o que ela continha: escova de cabelo, perfume, batom, enfim, coisas de mulher. Era uma menina inteligente, comunicativa, esperta e curiosa. Suas brincadeiras giravam em torno de casais de namorados, a rotina de um casal, atividades domésticas em que encarnava o papel de uma dona de casa ou de uma mulher. Não raramente colocava os bonecos da família mantendo relação sexual, explicando que “estavam namorando” (sic). Suas produções gráficas retratavam figuras de homem e mulher que não eram identificadas por adereços, cabelos ou vestimentas, mas por seus órgãos genitais. Essas observações ratificavam claramente a queixa da escola. E o que chamava a minha atenção era o fato de Generosa não reconhecer esses aspectos sexuais nas brincadeiras de Sílvia. Na visita domiciliar, fui recebida pela empregada e, assim que entrei, Generosa e Sílvia vieram em minha direção. A mãe comentou que estava ajudando Sílvia em suas tarefas escolares. O apartamento era espaçoso, claro e com móveis clássicos. Fui convidada a conhecer o restante da casa. Entramos primeiramente na sala de almoço e cozinha. Tudo era branco: mesas, cadeiras, azulejos, eletrodomésticos. Tudo muito bem cuidado, muito limpo e bem equipado. Quebravam a alvura do ambiente as flores miúdas do tecido do estofado das cadeiras, que se repetiam em um barrado na parede. Em seguida passamos por um hall de distribuição que fora transformado em sala íntima e entramos no quarto de Sílvia. Um verdadeiro quarto de menina: repleto de bonecas, carrinho de boneca, bichinhos, minicozinha etc. Predominava a cor verde-água. Não permanecemos muito tempo nele, apenas suficiente para que Sílvia me mostrasse alguns brinquedos. Parecia ansiosa para me levar ao quarto de sua mãe: “Você tem que conhecer o quarto da minha mãe” (sic). A mãe, ao escutar a filham comentou: “Ah! Ela adora ficar lá” (sic). Sílvia saiu do seu quarto com uma boneca na mão, encaminhando-nos para o quarto do casal. Ao entrar, largou imediatamente a boneca, subiu na cama dos pais e começou a pular. “Olha isto aqui”, disse ela. “Está ouvindo o barulho? É água” (sic). No meio do quarto, sobre uma alvenaria, havia um enorme colchão de água redondo. De cada lado, um criado-mudo de ferro preto com detalhes em dourado. Sobre o tampo de vidro de um deles, vários controles remotos. Todo o teto do quarto era de espelho, assim como uma parede lateral. Em frente à cama, uma enorme estante embutida, também de ferro preto e com detalhes dourados, acomodava equipamentos eletrônicos: televisão, vídeo, aparelho de som, CDs e fitas de vídeo. Sílvia parou de pular e disse: “Vem ver que aqui tem uma piscina” (sic). Entramos no banheiro, que, de fato, possuía uma enorme banheira de hidromassagem redonda. A mãe comentou: “Você já percebeu que aqui é o parque de diversões dela” (sic). Neste momento, o pai, Francisco, entrou no quarto e chegando à porta do banheiro, ele perguntou: “Vocês estão aqui?” (sic). Ambas, mulher e filha, cumprimentaram Francisco da mesma forma: com um beijo na boca. Generosa justificou assim a nossa presença no banheiro do casal: “Você conhece a sua filha!” (sic). Apresentou-me em seguida ao marido. Ele era um homem alto, bem-apessoado, vestido com sobriedade e tinha um semblante sério. Voltamos para o quarto e, novamente, Sílvia pegou sua boneca, sentou-se no centro da cama e me convidou para sentar-me ao seu lado. Após a insistência da mãe e da filha, sentei-me constrangida na beirada da cama. Pude então reparar que entre as fitas de vídeo havia filmes pornográficos. Enquanto isto, Sílvia se balançava de maneira a chacoalhar o colchão de água. O pai permanecia em pé e a mãe sentada em uma poltrona. Depois de alguns minutos, Generosa ofereceu-nos um suco com bolo. Imediatamente, Francisco insistiu para que ocupássemos a sala de visitas. Pai e filha saíram na frente, em direção à sala de visitas, enquanto a mãe me levava ao escritório. Ao entrarmos, ela disparou: “Você viu como ela é bobinha? Ela não tem maldade. Eu não entendo por que ela faz isto na escola” (sic). Diante desta fala e da oportunidade de estar sozinha com a mãe, uma vez que tinha acabado de conhecer o pai, optei por intervir, apontando-lhe que havia naquela casa, mais especificamente em seu quarto, um ambiente extremamente excitante e sexualizado que incitava este comportamento de sua filha. Comentei sobre as fitas de vídeo, tentando confirmar a minha percepção. Generosa afirmou que de fato eram fitas pornográficas, mas que Sílvia não as assistia. Insisti nesta possibilidade, tendo em vista a idade e o acesso facilitado de Sílvia ao quarto e às fitas. Sobre a probabilidade de a menina ver ou escutar o casal mantendo relações sexuais, a mãe negou enfaticamente. Entretanto, pareceu preocupar-se, pois perguntou se os comportamentos de sua filha poderiam estar correlacionados com aspectos do casal. Respondi que sim. Fomos interrompidas por Sílvia, que veio nos chamar para comermos o bolo na sala de visitas. Disse então a Generosa que retomaríamos o assunto na próxima sessão. Enquanto lá estávamos, conversei com o pai, que se mostrou curioso com o meu trabalho, e foi quando o convidei para comparecer à sessão com sua esposa. Em seguida, retornei com Sílvia ao seu quarto, onde permanecemos brincando por algum tempo até que decidi encerrar a visita. É fácil perceber, neste relato, que a queixa apresentada pela escola já se confirmava nas sessões lúdicas. As produções de Sílvia revelavam explicitamente uma exacerbação de sua sexualidade. O que parecia insólito era a impossibilidade de sua mãe ver o que estava tão claro. A partir da visita domiciliar, pude entender que havia naquela família e na casa um jogo de aparências. Por exemplo, enquanto a partemais acessível da casa — sala, cozinha, sala de almoço — era toda clara e branca, insinuando determinada compreensão daquela família, outra parte, mais oculta — quarto e banheiro do casal — me mostrava outra dimensão familiar. A sexualidade não estava apenas nas pessoas; estava entranhada no espaço habitado, e dele exalava seus próprios odores e impregnava o espaço psíquico de Sílvia. O seu movimento corporal no colchão, somado àquele ambiente sexualizado, era tão familiar às pessoas da casa que não lhes provocavam estranhamento. As pessoas da família também apresentavam este contraste. Enquanto o pai, que se mostrava mais contido, encarnava a figura sóbria de um executivo, sua esposa, mais solta, personificava certa licenciosidade. A questão a ser enfocada não era o relacionamento do casal em si, mas como essa relação e essa forma de ser de ambos extrapolavam determinados limites, perdiam seus contornos e resvalavam em Sílvia, produzindo “efeitos colaterais”. A mistura de papéis também apareceu na cena em que mãe e filha, de modo similar, recepcionaram o pai. O beijo na boca, acompanhado de atitudes de uma mocinha, perdia qualquer sinal de inocência. O “parque de diversão” de Sílvia — como dito pela mãe — era um parque de diversão para adultos, e não para uma criança. Dentre todas as alterações que fui fazendo no decorrer da minha experiência profissional, o destaque cabe à dimensão reveladora do espaço físico. Um espaço físico banal pela familiaridade e obviedade com que geralmente o vemos. Quando entramos em uma cozinha, em um quarto ou em uma sala, por mais diferentes que sejam, sabemos de antemão o que podemos encontrar. Escapa-nos assim a complexidade daqueles espaços e a possibilidade de retirá-los do seu sentido mais comum. A habitação, então, de forma geral, pode ser considerada a transformação do espaço em lugar, um centro identitário, relacional e histórico, proveniente de sua apropriação como produção de sentido, tanto para quem o habita como para quem o observa. A casa, além de contemplar um grupo familiar, contempla também seus animais, coisas, histórias, acontecimentos que são indissociáveis desse espaço. O homem organiza sua vida nos espaços aos quais dá forma e sentido. Hertzberger (1996) afirma que todos os objetos têm funções próprias para as quais foram projetados, entretanto carregam em si um valor adicional, que ele denomina de competência, que é a possibilidade de abrigar significados. Ele acredita que a arquitetura tem a capacidade de revelar o que não é da ordem da aparência e nos tornar conscientes daquilo que se mantinha invisível aos nossos olhos. O que está visível, portanto, é uma marca de uma operação invisível que, ao ser produzida, já caiu no esquecimento de seus autores. Essa dimensão simbólica da casa diz respeito ao tecido da própria vida, com seus sentimentos, ritmos, paixões, alegrias, frivolidades e medos. Ela nos possibilita imaginar coisas a respeito das possíveis redes de significação que cada habitante associa e imprime em seus espaços cotidianos. Esses espaços cotidianos da vida são modelados e modificados de acordo com a imagem do mundo que cada um carrega dentro de si e que é, por sua vez, constituída por pessoas, lugares, valores, experiências, acontecimentos associados a sentimentos. Esse mundo interno é projetado sobre os espaços e sobre os objetos, o que produz uma configuração que provoca associações, estabelecendo uma via de mão dupla entre o mundo interior — eu — e o espaço exterior — mundo. Ou seja, essa ligação entre o espaço — mundo concreto — e a subjetividade — mundo abstrato — estabelece uma relação de similaridade entre eles. Penso que não apenas os objetos refletem uma história; ela também é contada nos movimentos de seus habitantes. Os passos também moldam os espaços e fazem história. Os movimentos, ora mais leves, ora mais densos, criam e recriam as trajetórias e a história de cada um. No espaço real, assim como no corpo, se acumulam recordações e experiências que possuem caráter de sentimentos autênticos. Então, entre homens e casas algo se passa, sim. Há uma relação afetiva, positiva ou negativa, que é balizada por várias situações, associações vinculadas a experiências corporais primordiais, a lembranças de acontecimentos, épocas e concepções de mundo. As casas exalam odores próprios. Se nós produzimos o espaço da casa e ele nos reflete, também somos “produzidos” por ele. […] se por um lado a casa é resultado dessa combinação de elementos tão díspares entre si, nos quais nós, seus “produtores”, estamos incluídos, por sua vez, somos impensáveis sem as casas que nos acolheram, nos coproduziram e seguem, a seu modo, engendrando-nos. […] dizer de uma casa aquilo que encontramos além ou aquém de suas configurações espaciais visíveis, mas que também a compõe com a mesma importância. Flagrar esse espaço-casa emergindo, em sua singularidade, de uma conjunção ímpar de elementos heterogêneos. Flagrar subjetividades sendo produzidas nesse acontecimento doméstico específico (Brandão, 2002, p. 16). É isto que permite afirmar que, a seu modo, as casas produzem homens. Ela pode ser considerada à semelhança de uma ostra como a relação indissolúvel entre a casca e seu molusco, onde a casa é a materialidade fixa, enquanto o molusco é a vida cotidiana que a casca abriga e constrange. Ainda de acordo com Hertzberger (1996), as percepções do espaço não se restringem ao que vemos; incluem também o que ouvimos, sentimos e as associações que nos despertam. É com essa lente que proponho olhar a casa, para podermos ampliar seus significados e compreender melhor os contextos que a constituem. Na organização racional do espaço da casa, se escondem as histórias singulares de seus moradores, que se entrelaçam em uma composição que se abre para os olhos do psicólogo. Acredito que o ambiente revela nosso modo de estar no mundo. A forma como organizamos nosso espaço externo está intimamente ligada com a nossa subjetividade. Mundo interno e externo se comunicam por todo o tempo, diluindo a fronteira que separaria um do outro. A preocupação mais comum que geralmente surge é de que a família não se porte de maneira natural, já que a presença do profissional pode acarretar uma situação artificial e atípica. Penso que mesmo essa possibilidade revela algo da dinâmica pessoal ou familiar. É comum nos prepararmos para receber uma visita. Arrumamos, faxinamos, organizamos na intenção de sermos bem-vistos, de acolher o outro da melhor forma possível, enfim, de nos apresentarmos da maneira mais aprazível aos olhos dos outros e aos nossos. Esta situação também é frequente quando marco a visita na casa dos clientes. Eles se preocupam em ajeitar a casa da melhor maneira que lhes é possível, podendo criar até o que chamamos de situação artificial. É claro que sabemos que no dia a dia nem sempre é assim, mas, mesmo com todo este cenário preparado para o evento, percebemos marcas daquele cotidiano, marcas que estão impregnadas nas paredes, pelos cantos, nos detalhes que, de alguma forma, vão se revelar: os objetos, móveis e adornos da casa; o modo como são escolhidos e organizados; as lembranças como são guardadas, outros tantos detalhes espalhados, aqui e ali, revelam um modo de ser daquele que habita aquela casa. O que está escrito na casa não há como apagar: faz parte daquilo que imprimimos, dia após dia, naquele lugar. Em última instância, a maneira pela qual recebo o outro em minha casa é a mesma que o recebo dentro de mim. Referências bibliográficas ACKERMAN, N. W. Diagnóstico e tratamento das relações familiares. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986. AUBERTEL, F. Les modifications de l’habitat comme révélateur du fonctionnement familial. In: CUYNET, P.; MIJOLLA-MELLOR, S. (Orgs.). Le divan familial. La maison familiale. Revue de Thérapie Familiale Psychanalytique, n. 3, p. 73-82, 1999. BARBOSA, L. P. A vivência de crises no ciclo gravídico-puerperal. Dissertação (Mestrado) — Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 1998. BERENSTEIN, I. Famíliae doença mental. São Paulo: Escuta, 1988. BRECHT, B. Poemas e canções. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. BRANDÃO, L. L. A casa subjetiva: matérias, afetos e espaços domésticos. São Paulo: Perspectiva, 2002. BURNS, M. J.; CAIN, V. A.; HUSAINI, B. A. Depression, service utilization, and treatment costs among medicare elderly: gender differences. Home Health Care, v. 19, n. 3, p. 35-44, 2001. COLACIQUE, M. A. M. Psicoterapia domiciliar com paciente e orientação à família. In: CATAFESTA, I. (Org). D. W. Winnicott na USP. São Paulo: Lemos, 1996. DARCHIS, E. Maison et parentalité: faire son nid. In: CUYNET, P.; MI-JOLLA-MELLOR, S. (Orgs.). Le divan familial: la maison familiale. Revue de Thérapie Familiale Psychanalytique, n. 3, p. 83-94, 1999. DARDEN, P. M.; ECTOR, W.; MORAN, C.; QUATTLEBAUM, T. G. Comparison of continuity in a resident versus private practice. Pediatrics, v. 108, n. 6, p. 1263-8, dez. 2001. HERTZBERGER, H. Lições de arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 1996. HILL, J.At home in the world. The Journal of Analytical Psychology, v. 41, n. 4, p. 575-98, Oct. 1996. MAZZA, M. M. P. R. A visita domiciliar como instrumento de assistência de saúde. Rev. Bras. de Crescimento e Desenvolvimento Humano, v. 2, n. 4, p. 60-8, jul./dez. 1994. MUXEL, A. La mémoire de la maison. In: CUYNET, P.; MIJOLLA-MELLOR, S. (Orgs.). Le divan familial: la maison familiale. Revue de Thérapie Familiale Psychanalytique, n. 3, 31-41, 1999. NORBERG-SCHULZ, C. Existence, space and architecture. Londres: Frances Lincoln, 1971. OLIVEIRA, L. E. P. Vue d’ensemble sur dês signes psychotiques: damien dans ses lieux. In: CUYNET, P.; MIJOLLA-MELLOR, S. (Orgs.). Le divan familial: la maison familiale. Revue de Thérapie Familiale Psychanalytique, n. 3, p. 95-108, 1999. PADILHA, M. I. C. S.; CARVALHO, M. T. C. de; SILVA, M. O. da; PINTO, V. T. Visita domiciliar: uma alternativa assistencial. Rev. Enfermagem, UERJ, v. 2, n. 1, p. 83-90, maio 1994. PALMA, M.; BARROS, J. V.; MACIEIRA, M. S. Visita domiciliar: um instrumento na assistência de enfermagem ao paciente alcoolista. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 8, n. 49, p. 287-92, ago. 2000. PARRA, O. et al. Efectos de la visita domiciliaria (VD) en el cumplimiento de la prescripción de la oxigenoterapia domiciliaria (OD). Estudio multicéntrico. Arch Bronconeumo, ano l, v. 37, n. 4, p. 206-11, abr. 2001. PÔSTER, M. Teoria crítica da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. RAMOS, A. M. de R. P. Diagnóstico psicológico: implicações psicossociais na área do retardo mental. São Paulo: Cortez, 1966. RIBEIRO, C.R.V. A dimensão simbólica da arquitetura: parâmetros inatingíveis do espaço concreto. Belo Horizonte: Tumec-Face, C/Arte, 2003. RYBCZYNSKI, W. [1986]. La casa. Historia de una idea. Madrid: Ed. Cast. Editorial Nerea, 1999. VIDAL, J.-P. L’habitat familial et sés rapports avec l’espace psychique. In: CUYNET, P.; MIJOLLA- MELLOR, S. (Orgs.). Le divan familial: la maison familiale. Revue de Thérapie Familiale Psychanalytique, n. 3, 13-30, 1999. 1. Conforme terminologia da autora. 2. Os nomes citados neste relato são fictícios visando à preservação da identidade dos clientes. CDI - INVENTÁRIO DE DEPRESSÃO PARA CRIANÇAS Nome:......................................................................... Idade: ........................... Data aplicação: ......................................................... Pontos: ......................... 1) 0 ( ) Não me sinto triste. 1 ( ) Sinto me triste. 2 ( ) Sinto-me triste o tempo todo. 2) 0 ( ) As coisas dão certo para mim. 1 ( ) Às vezes as coisas não dão certo para mim. 2 ( ) Nada dá certo para mim. 3) 0 ( ) Eu faço as coisas direito. 1 ( ) Às vezes faço coisas erradas. 2 ( ) Faço tudo errado. 4) 0 ( ) Eu me divirto. 1 ( ) Às vezes eu me divirto. 2 ( ) Eu acho que nada tem graça. 5) 0 ( ) Eu sou bom (boa). 1 ( ) Às vezes não sou bom (boa). 2 ( ) Eu sou sempre mau (má). 6) 0 ( ) Eu não penso que coisas ruins podem acontecer. 1 ( ) Eu penso que coisas ruins podem acontecer. 2 ( ) Eu tenho certeza de que coisas ruins vão me acontecer. 7) 0 ( ) Eu gosto do meu jeito de ser. 1 ( ) Às vezes eu não gosto do meu jeito de ser. 2 ( ) Eu detesto meu jeito de ser e gostaria de ser outra pessoa. 8) 0 ( ) Coisas ruins podem acontecer, mas não por culpa minha. 1 ( ) Às vezes eu tenho culpa das coisas ruins que acontecem. 2 ( ) Tudo de ruim que acontece é culpa minha. 9) 0 ( ) Eu gosto da minha vida. 1 ( ) Às vezes eu não gosto da minha vida. 2 ( ) Eu não tenho vontade de viver. 10) 0 ( ) Não sinto vontade de chorar. 1 ( ) Às vezes sinto vontade de chorar. 2 ( ) Estou sempre com vontade de chorar. 11) 0 ( ) Sinto que está tudo bem. 1 ( ) Às vezes sinto que as coisas não vão bem. 2 ( ) Sinto que tem sempre alguma coisa me incomodando. 12) 0 ( ) Eu gosto de ficar perto das pessoas. 1 ( ) Às vezes não tenho vontade de ficar perto das pessoas. 2 ( ) Nunca tenho vontade de ficar perto das pessoas. 13) 0 ( ) Eu consigo resolver minhas dificuldades. 1 ( ) Às vezes não consigo resolver minhas dificuldades. 2 ( ) Nunca consigo resolver minhas dificuldades. 14) 0 ( ) Eu me sinto bonito (bonita). 1 ( ) Às vezes não me sinto bonito (bonita). 2 ( ) Eu sou feio ( feia ). 15) 0 ( ) Eu consigo fazer as tarefas da escola sem dificuldade. 1 ( ) Às vezes tenho dificuldade para fazer as tarefas da escola. 2 ( ) Tenho que me esforçar demais para fazer as tarefas da escola. 16) 0 ( ) Eu durmo bem. 1 ( ) Tem noite que eu tenho dificuldade para dormir. 2 ( ) Toda noite eu tenho dificuldade para dormir. 17) 0 ( ) Não me sinto mais cansado (a) que o normal. 1 ( ) Tenho me cansado com mais facilidade do que antigamente. 2 ( ) Estou sempre cansado (a). 18) 0 ( ) Eu como bem. 1 ( ) Meu apetite está pior do que antes. 2 ( ) Não sinto vontade de comer. 19) 0 ( ) Não estou preocupado (a) com minha vida. 1 ( ) Eu me preocupo com problemas de saúde. 2 ( ) Estou sempre preocupado (a) com alguma dor. 20) 0 ( ) Não me sinto sozinho (a). 1 ( ) Às vezes me sinto sozinho (a). 2 ( ) Eu me sinto sempre sozinho (a). 21) 0 ( ) Eu gosto da escola. 1 ( ) Ultimamente não tenho gostado muito da escola. 2 ( ) Nunca me divirto na escola. 22) 0 ( ) Eu tenho amigos. 1 ( ) Eu quase não tenho amigos. 2 ( ) Eu não tenho amigos. 23) 0 ( ) Eu estou indo bem na escola. 1 ( ) Não estou indo bem em algumas matérias que sempre achei difíceis. 2 ( ) Estou indo mal em matérias que antes ia bem. 24) 0 ( ) Eu me dou bem com as outras crianças. 1( )Estou com dificuldade para me relacionar com as outras crianças. 2 ( ) Nunca consigo ser tão legal como as outras crianças. 25) 0 ( ) Eu me sinto amado (a). 1 ( ) Às vezes não me sinto amado (a). 2 ( ) Sinto que ninguém me ama de verdade. 26) 0 ( ) Sou obediente. 1 ( ) Às vezes eu desobedeço. 2 ( ) Nunca faço o que mandam. 27) 0 ( ) Não me meto em brigas. 1 ( ) Às vezes eu brigo. 2 ( ) Estou sempre me metendo em brigas. “O QUE PENSO E SINTO” “What I Think and Feel (RCMAS)” marca registrada por Western Psychological Services. Traduzido e impresso por Maria Angela M. Gorayeb para fins específicos de pesquisa com permissão dos editores. Western Psychological Services, 12031 Wilshire Boulevard, Los Angeles, California 90025- 1251, U.S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma reprodução, integral ou em parte, pode ser feita sem a prévia autorização escrita da Western Psychological Services. Nome: ________________________________________________________ Data de Nascimento:____________/_____________/_______________ 01 - Eu acho difícil tomar decisões ........................................................... Sim Não 02 - Eu fico nervoso quando as coisas não dão certo para mim ........ Sim Não 03 - Parece que os outros fazem as coisas com mais facilidade que eu ................................................................................................................. Sim Não 04 - Eu gosto de todo mundo que conheço .......................................... Sim Não 05 - Muitas vezes tenho falta de ar .......................................................... Sim Não 06 - Eu fico preocupado a maior parte do tempo ................................ Sim Não 07 - Eu tenho medo de muitas coisas ...................................................... Sim Não 08 - Eu sou sempre legal ............................................................................ Sim Não 09 - Fico bravo por qualquer coisa .......................................................... Sim Não 10 - Fico preocupado com o que meus pais vão dizer para mim ...... Sim Não 11 - Sinto que os outros não gostam do jeito que eu faço as coisas .. Sim Não 12 - Sou sempre bem-educado ............................................................... Sim Não 13 - É difícil para mim ir para a cama à noite......................................... Sim Não 14 - Eu me preocupo com o que os outros pensam de mim ............... Sim Não 15 - Eu me sinto sozinho mesmo quando há pessoas comigo ............. Sim Não 16 - Sou sempre bom ................................................................................. Sim Não 17 - Muitas vezes, sinto problemas no estômago ................................... Sim Não 18 - Fico triste com qualquer coisa .......................................................... Sim Não 19 - Minhas mãos ficam suadas ............................................................... Sim Não 20 - Sou legal com todo mundo ............................................................... Sim Não 21 - Estou bastante cansado .................................................................... Sim Não 22 - Eu me preocupo com o que vai acontecer .................................. Sim Não 23 - As outras crianças são mais felizes que eu ...................................... Sim Não 24 - Sempre falo a verdade ...................................................................... Sim Não 25 - Tenho sonhos ruins .............................................................................. Sim Não 26 - Fico triste quando estou com problemas ........................................ Sim Não 27 - Sinto que alguém vai dizer que faço as coisas do jeito errado .... Sim Não 28 - Nunca fico bravo ................................................................................ Sim Não 29 - Algumas vezes acordo assustado .................................................... Sim Não 30 - Eu me preocupo quando vou para a cama à noite .................... Sim Não 31 - É difícil para mim prestar atenção no trabalho da escola ........... Sim Não 32 - Nunca digo coisas que não deveria ................................................ Sim Não 33 - Eu me mexo bastante na carteira ................................................... Sim Não 34 - Sou nervoso .......................................................................................... Sim Não 35 - Muitas pessoas estão contra mim ..................................................... Sim Não 36 - Nunca minto ........................................................................................ Sim Não 37 - Em geral, acho que alguma coisa ruim vai acontecer para mim Sim Não O QUE PENSO E SINTO CORREÇÃO Agrupamento de itens da Escala de Ansiedade Infantil “O que penso e sinto” em 8 fatores e suas cargas fatoriais Fator 1 - "Insegurança ou Ansiedade Antecipatória” 11 - Sinto que os outros não gostam do 15 - Eu me sinto sozinho mesmo quando há pessoas comigo ( ) jeito que eu faço as coisas ( ) 27 - Sinto que alguém vai me dizer que eu faço as coisas de maneira errada ( ) 35 - Muitas pessoas estão contra mim ( ) 37 - Em geral acho que alguma coisa ruim vai acontecer para mim ( ) TOTAL ____ Fator 2 - "Preocupação" 10 - Fico preocupado com o que meus pais vão dizer para mim ( ) 14 - Eu me preocupo com o que os outros pensam de mim ( ) 22 - Eu me preocupo com o que vai acontecer ( ) 26 - Fico triste quando estou com problemas ( ) TOTAL _____ Fator 3 - "Problemas Relacionados Com o Sono" 13 - É difícil para mim ir para a cama à noite( ) 29 - Algumas vezes acordo assustado ( ) 30 - Eu me preocupo quando vou para a cama à noite ( ) TOTAL _____ Fator 4 - "Sintomas Orgânicos" 05 - Muitas vezes tenho falta de ar ( ) 17 - Muitas vezes sinto problemas no meu estômago ( ) 25 - Tenho sonhos ruins ( ) TOTAL _____ Fator 5 - "Sensibilidade" 09 - Fico bravo por qualquer coisa ( ) 18 - Fico triste com qualquer coisa ( ) 34 - Sou nervoso ( ) TOTAL _____ Fator 6 - "Ansiedade Generalizada” 01 - Eu acho difícil tomar decisões ( ) 06 - Eu fico preocupado a maior parte do tempo ( ) 21 - Estou bastante cansado ( ) TOTAL _____ Fator 7 – “Concentração” 02 – Eu fico nervoso quando as coisas não dão certo para mim ( ) 31 – É difícil para mim prestar atenção no trabalho da escola ( ) 33 – Eu me mexo bastante na carteira ( ) TOTAL _____ Fator 8 – “Medo ou Sentimento de Inferioridade” 03 – Parece que os outros fazem as coisas com mais facilidade que eu ( ) 07 – Eu tenho medo de muitas coisas ( ) 19 – Minhas mãos ficam suadas ( ) 23 – As outras crianças são mais felizes do que eu( ) TOTAL _____ Escala de Mentira 04- Eu gosto de todo mundo que eu conheço ( ) 08 - Eu sou sempre legal ( ) 12 - Eu sou sempre bem educado ( ) 16 - Sou sempre bom ( ) 20 - Sou sempre legal com todo mundo ( ) 24 – Sempre falo a verdade ( ) 28 - Nunca fico bravo ( ) 32 - Nunca digo coisas que não deveria ( ) 36 - Nunca minto ( ) TOTAL ________ PERCENTIL_________ ESCORE TOTAL_________ PERCENTIL________ O QUE PENSO E SINTO Resultados cm Pcrccntis parn a Escalu de Ansiedade SEXO MASCULINO SEXO FEMININO SCORE PERCENT/L SCOI/E l'EI/CENT//, 1 2, 17 1 1,05 2 2,99 2 1,58 3 5,43 3 2,63 4 11,14 4 4, 21 5 15,76 5 5,26 6 20,38 6 6,84 7 26,63 7 10.00 8 33,69 8 14,21 9 42,12 9 18,95 10 49,18 10 25,26 li 55,44 li 31,84 12 63,04 12 37.63 13 69,84 13 43,42 14 74,73 14 51 ,05 15 78,26 15 57,63 16 83,15 16 61 ,58 17 88,04 17 66,84 18 89,40 18 73,68 19 90,76 19 79,2 1 20 93,50 20 83,68 21 95,38 21 88,68 22 96,74 22 92,10 23 98,10 23 95,26 24 98,64 24 97,63 25 99,18 25 98,68 26 99,46 26 99,74 27 99,46 28 99,73 Resultados em Percenhs para a Escala de Mentira SEXO MASCULINO SEXO FEMININO SCORE PERCENT/l SCORE PERCENT/L 1 1,63 1 1,05 2 4,08 2 5,26 3 8,69 3 12,37 4 16,85 4 19,74 5 30,16 5 30,00 6 54,62 6 46,84 7 79,08 7 61,84 8 92,93 8 89,47 9 99,18 9 98,42 ESCALAS DE QUALIDADE NA INTERAÇÃO FAMILIAR (EQIF) (Weber, Prado Viezzer & Brandenburg, 2008) à Responda as seguintes questões sobre como você age com seu filho. Numere de 1 a 5 de acordo com os seguintes itens: (1) = Nunca (2) = Quase nunca (3) = Às vezes (4) = Quase sempre (5) = Sempre 1. Eu costumo dizer o quanto meu filho é importante para mim. (___) 2. Eu brigo com meu filho por coisas sem importância. ( ) 3. Eu costumo xingar meu esposo(a). ( ) 4. Meu filho costuma me contar as coisas boas que acontecem com ele. (___) 5. Eu costumofalar alto ou gritar com meu filho. ( ) 6. Eu faço carinho em meu esposo(a). (___) 7. O que eu ensino de bom para meu filho eu também faço. ( ) 8. Meu filho pensa que sou o melhor pai ou a melhor mãe que ele conhece. (___) 9. Eu fico feliz quando estou com meu filho. (___) 10. Eu costumo descarregar no meu filho quando estou com problemas. ( ) 11. Eu falo mal de meu esposo(a). (___) 12. Meu filho costuma me contar as coisas ruins que acontecem com ele. (___) 13. Eu costumo xingar ou falar palavrões para meu filho. (___) 14. Eu faço elogios para meu esposo(a). (___) 15. Eu também cumpro com as obrigações que ensino para meu filho. (___) 16. Meu filho se sente amado por mim. (___) 17. Eu procuro saber o que aconteceu com o meu filho quando ele está triste. (___) 18. Eu sei onde está meu filho quando ele não está em casa. (___) 19. Quando meu filho me ajuda, eu agradeço para ele. (___) 20. Quando meu filho faz alguma coisa errada, ele sabe que eu vou lhe bater. (___) 21. Eu costumo estar brabo com meu esposo(a). (___) 22. Meu filho costuma falar sobre seus sentimentos para mim. (___) 23. Eu costumo abraçar meu esposo(a). (___) 24. Eu faço coisas que meu filho acha legais. (___) 25. Penso que sou um bom exemplo para meu filho. (___) 26. Eu costumo mostrar que me preocupo com meu filho. (___) 27. Eu demonstro orgulho do meu filho. (___) 28. Eu sei o que meu filho faz com seu tempo livre. (___) 29. Meu filho costuma ouvir eu e meu esposo(a) brigar. (___) 30. Eu costumo fazer carinhos no meu filho quando ele se comporta bem. (___) 31. Eu costumo bater no meu filho sem ele ter feito nada de errado. (___) 32. Eu costumo criticar meu filho. (___) 33. Eu falo bem do meu esposo(a). (___) 34. O meu filho sente orgulho de mim. (___) 35. Eu costumo dar beijos, abraços ou outros carinhos no meu filho. (___) 36. Eu costumo dar conselhos para meu filho. (___) 37. Eu costumo bater no meu filho por coisas sem importância. (___) 38. Eu tenho um bom relacionamento com meu esposo(a). (___) 39. Eu peço para meu filho dizer para onde está indo. (___) 40. Qual a nota que você dá para você mesmo como mãe ou pai (nota de 1 a 5)? (___) Se quiser escrever alguma coisa sobre seus filhos, pode escrever o que quiser neste espaço! ESCALAS DE QUALIDADE NA INTERAÇÃO FAMILIAR (EQIF) (Weber, Salvador & Brandenburg, 2009) - Gabarito de correção ** Dimensão ENVOLVIMENTO mínimo = 8 máximo = 40 (média + = 32) Questões 1 9 17 19 26 27 30 35 total MÃE PAI ** Dimensão REGRAS E MONITORIA mínimo = 4 máximo = 20 (média+ = 16) Questões 18 28 36 39 total MÃE PAI ** Dimensão COMUNICAÇÃO POSITIVA DOS FILHOS mínimo = 3 máximo = 15 (media + = 12 ou mais) Questões 4 12 22 total MÃE PAI ** Dimensão CLIMA CONJUGAL POSITIVO mínimo = 5 máximo = 25 (média + = 20 ou mais) Questões 6 14 23 33 38 total MÃE PAI ** Dimensão MODELO PARENTAL mínimo = 3 máximo = 15 (média + = 12 ou mais) Questões 7 15 24 total MÃE PAI ** Dimensão SENTIMENTO DOS FILHOS mínimo = 5 máximo = 25 (media + = 20 ou mais) Questões 8 16 25 34 40 total MÃE PAI # Dimensão PUNIÇÃO FÍSICA mínimo = 3 máximo = 15 (média + = 06 ou menos) Questões 20 31 37 total MÃE PAI # Dimensão COMUNICAÇÃO NEGATIVA DOS PAIS mínimo = 5 máximo = 25 (média + = 10 ou menos) Questões 2 5 10 13 32 total MÃE PAI # Dimensão CLIMA CONJUGAL NEGATIVO mínimo = 4 máximo = 20 (média + = 08 ou menos) Questões 3 11 21 29 total MÃE PAI ** TOTAL POSITIVO (MÍNIMO = 23 E MÁXIMO = 129) # TOTAL NEGATIVO (MÍNIMO -= 12 MÁXIMO = 60) Envolvimento, regras, comunicação +, clima conjugal positivo, modelo, sentimento Punição física, comunicação, clima conjugal negativo MÃE PAI ESCALAS DE QUALIDADE NA INTERAÇÃO FAMILIAR (EQIF) – para filhos Weber, L.N.D., Salvador, A.P.V & Brandenburg, O. J. (2009). Escalas de qualidade na interação familiar. In L.N.D. Weber & M.A. Dessen (Orgs.), Pesquisando a família: instrumentos para coleta e análise de dados. Curitiba: Juruá. Responda as seguintes questões sobre o seu pai e sobre a sua mãe (ou sobre as pessoas por quem foi educado, por exemplo: madrasta, padrasto, avô, avó, tio, tia, e outros). Numere de 1 a 5 de acordo com a seguinte notação: (1) = Nunca (2) = Quase nunca (3) = Às vezes (4) = Quase sempre (5) = Sempre N PERCEPÇÃO DOS COMPORTAMENTOS DOS PAIS MÃE PAI 1. Meus pais costumam dizer o quanto eu sou importante para eles Mãe ( ) Pai ( ) 2. Meus pais brigam comigo por qualquer coisa Mãe ( ) Pai ( ) 3. Meus pais costumam xingar um ao outro Mãe ( ) Pai ( ) 4. Eu costumo contar as coisas boas que me acontecem para meu pai/minha mãe Mãe ( ) Pai ( ) 5. Meus pais costumam falar alto ou gritar comigo Mãe ( ) Pai ( ) 6. Meus pais fazem carinho um no outro Mãe ( ) Pai ( ) 7. O que meus pais me ensinam de bom eles também fazem Mãe ( ) Pai ( ) 8. Eu penso que meu pai/minha mãe são os melhores pais que eu conheço Mãe ( ) Pai ( ) 9. Meus pais ficam felizes quando estão comigo Mãe ( ) Pai ( ) 10. Meus pais costumam descontar em mim quando estão com problemas Mãe ( ) Pai ( ) 11. Meus pais falam mal um do outro Mãe ( ) Pai ( ) 12. Eu costumo contar as coisas ruins que me acontecem para meu pai/minha mãe Mãe ( ) Pai ( ) 13. Meus pais costumam me xingar ou falar palavrões para mim Mãe ( ) Pai ( ) 14. Meus pais fazem elogios um para o outro Mãe ( ) Pai ( ) 15. Meus pais também fazem as obrigações que me ensinam Mãe ( ) Pai ( ) 16. Eu me sinto amado pelos meus pais Mãe ( ) Pai ( ) 17. Meus pais procuram saber o que aconteceu comigo quando estou triste Mãe ( ) Pai ( ) 18. Meus pais sabem onde eu estou quando não estou em casa Mãe ( ) Pai ( ) 19. Quando ajudo meus pais, eles me agradecem. Mãe ( ) Pai ( ) 20. Meus pais costumam me bater quando faço alguma coisa errada Mãe ( ) Pai ( ) 21. Meus pais costumam estar brabos um com o outro Mãe ( ) Pai ( ) 22. Eu costumo falar sobre meus sentimentos para meu pai/minha mãe Mãe ( ) Pai ( ) 23. Meus pais costumam se abraçar Mãe e Pai ( ) 24. Eu acho legais as coisas que meus pais fazem Mãe ( ) Pai ( ) 25. Meus pais são um bom exemplo para mim Mãe ( ) Pai ( ) 26. Meus pais costumam mostrar que se preocupam comigo Mãe ( ) Pai ( ) 27. Meus pais demonstram orgulho de mim Mãe ( ) Pai ( ) 28. Meus pais sabem o que eu faço com o meu tempo livre Mãe ( ) Pai ( ) 29. Meus pais brigam um com o outro Mãe ( ) Pai ( ) 30. Meus pais costumam me fazer carinhos quando eu me comporto bem Mãe ( ) Pai ( ) 31. Meus pais costumam me bater sem eu ter feito nada de errado Mãe ( ) Pai ( ) 32. Meus pais costumam me criticar de forma negativa Mãe ( ) Pai ( ) 33. Meus pais falam bem um do outro Mãe ( ) Pai ( ) 34. Sinto orgulho de meus pais Mãe ( ) Pai ( ) 35. Meus pais costumam me dar beijos, abraços ou outros carinhos Mãe ( ) Pai ( ) 36. Meus pais costumam me dar conselhos Mãe ( ) Pai ( ) 37. Meus pais costumam me bater por coisas sem importância Mãe ( ) Pai ( ) 38. Meus pais têm bom relacionamento entre eles Mãe e Pai ( ) 39. Meus pais pedem para eu dizer para onde eu estou indo Mãe ( ) Pai ( ) 40. Qual a nota que você dá para seus pais, de um a cinco Mãe ( ) Pai ( ) Este espaço é para você escrever o que quiser sobre seus pais! ___________________________________ _______________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________ ESCALAS DE QUALIDADE NA INTERAÇÃO FAMILIAR (EQIF) (Weber, Salvador & Brandenburg,2009) Gabarito de correção ** Dimensão ENVOLVIMENTO mínimo = 8 máximo = 40 (média + = 32) Questões 1 9 17 19 26 27 30 35 total MÃE PAI ** Dimensão REGRAS E MONITORIA mínimo = 4 máximo = 20 (média+ = 16) Questões 18 28 36 39 total MÃE PAI ** Dimensão COMUNICAÇÃO POSITIVA DOS FILHOS mínimo = 3 máximo = 15 (media + = 12 ou mais) Questões 4 12 22 total MÃE PAI ** Dimensão CLIMA CONJUGAL POSITIVO mínimo = 5 máximo = 25 (média + = 20 ou mais) Questões 6 14 23 33 38 total MÃE PAI ** Dimensão MODELO PARENTAL mínimo = 3 máximo = 15 (média + = 12 ou mais) Questões 7 15 24 total MÃE PAI ** Dimensão SENTIMENTO DOS FILHOS mínimo = 5 máximo = 25 (media + = 20 ou mais) Questões 8 16 25 34 40 total MÃE PAI # Dimensão PUNIÇÃO FÍSICA mínimo = 3 máximo = 15 (média + = 06 ou menos) Questões 20 31 37 total MÃE PAI # Dimensão COMUNICAÇÃO NEGATIVA DOS PAIS mínimo = 5 máximo = 25 (média + = 10 ou menos) Questões 2 5 10 13 32 total MÃE PAI # Dimensão CLIMA CONJUGAL NEGATIVO mínimo = 4 máximo = 20 (média + = 08 ou menos) Questões 3 11 21 29 total MÃE PAI ** TOTAL POSITIVO (MÍNIMO = 23 E MÁXIMO = 129) # TOTAL NEGATIVO (MÍNIMO -= 12 MÁXIMO = 60) Envolvimento, regras, comunicação +, clima conjugal positivo, modelo, sentimento Punição física, comunicação, clima conjugal negativo MÃE PAI Método de histórias para completar (Madeleine Thomas) Nome : ................................................................................................................. Data: ............................/........................./....................... 1. Um(a) menino(a) está na escola na hora do recreio; ele(a) não brinca com as outras crianças, fica sozinho(a). Por quê? 2. Um(a) menino(a) briga com o(a) irmão(ã), a mãe chega, o que acontece? 3. Um(a) menino(a) está jantando com o pai e a mãe. O pai fica bravo. Por quê? 4. Um dia o pai briga com a mãe, eles discutem um com o outro. Por quê? 5. Às vezes esse(a) menino(a) gosta de contar coisas engraçadas. A quem ele mais gosta de contar, aos amigos(as), ao pai ou à mãe? 6. Um(a) menino(a) tirou notas baixas na escola. Quando ele(a) chega em casa, para quem ele(a) mostra o boletim? 7. Quem fica mais bravo(a)? 8. Um(a) menino(a) foi passear com o pai e com a mãe no domingo. Quando voltaram do passeio, à tarde, a mãe estava muito triste. Por quê? 9. Um(a) menino(a) tem um(a) amiguinho(a) de quem ele(a) gosta muito. Um dia, o(a) amigo(a) chega perto dele(a) e diz: vem cá que eu vou te mostrar uma coisa, só que você não pode contar nada pra ninguém. Que é que o(a) amiguinho(a) mostrou ao(a) menino(a)? 10.O(A) amiguinho(a) disse ainda ao(a) menino(a): escute, eu vou dizer a você uma coisa que é segredo, é preciso não repetir, que disse o(a) amiguinho(a) ao(a) menino(a)? 11. É noite, o(a) menino(a) foi dormir, o dia acabou e a luz está apagada. Que faz o(a) menino(a) se não tem sono? 12.Em que ficou pensando o(a) menino(a)? 13.Uma noite o(a) menino(a) acorda, ele(a) está triste. Por quê? 14.Depois o(a) menino(a) dorme. Com que ele(a) sonha? 15.O(A) menino(a) acorda tarde da noite, ele(a) ficou com muito medo. Por quê? 16.O(A) menino(a) torna a dormir, e dessa vez ele(a) tem um lindo sonho. Você sabia o que é uma fada? Você já leu histórias de fada? Fada é uma moça boa que faz milagres. O sonho que ele(a) teve foi assim: Uma Fada apareceu e disse ao(a) menino(a): - eu posso fazer tudo o que você quiser. Diga o que quer ser, porque eu darei em você com minha varinha e tudo o que você pedir acontecerá. Que é que o(a) menino(a) pediu? 17.Um(a) menino(a) está crescendo. Que é que ele(a) prefere, ficar logo grande ou ficar pequeno(a) por mais algum tempo? Por quê? “MASC” – Escala Multidimensional de Ansiedade para Crianças Validada pela Psic. Michelle Moreira Nunes e ainda aguardando publicação Nome:_______________________________________________ Idade:________ Data:______/_______/________ Série escolar:_______________________ Este questionário pergunta a você como você vem se sentindo, o que você tem pensado, tem sentido ou como tem agido recentemente. Para cada item, por favor faça um círculo ao redor do número que indica com que frequência a afirmativa é verdadeira para você. Se o que a sentença diz é verdade sobre você muitas vezes, circule 3. Se ela é verdade sobre você algumas vezes, circule 2. Se a sentença é verdade sobre você uma vez ou outra, circule 1. Se dificilmente ou nunca a sentença é verdade sobre você, circule 0. Lembre-se, não há respostas certas ou erradas, responda apenas como você vem se sentindo recentemente. 1. Eu me sinto tenso ou nervoso 0 1 2 3 2. Eu costumo pedir permissão para fazer as coisas 0 1 2 3 3. Eu me preocupo que as outras pessoas dêem risada de mim 0 1 2 3 4. Eu fico com medo quando os meus pais saem 0 1 2 3 5. Sinto falta de ar 0 1 2 3 6. Eu fico atento se há algum perigo 0 1 2 3 7. A idéia de ficar longe de casa me assusta 0 1 2 3 8. Eu fico tremendo ou inquieto 0 1 2 3 9. Eu me esforço para obedecer meus pais e professores 0 1 2 3 10. Eu tenho medo que os outros meninos (ou meninas) gozem de mim 0 1 2 3 11. Eu tento ficar perto da minha mãe ou meu pai 0 1 2 3 12. Eu tenho tontura ou sensação de desmaio 0 1 2 3 13. Eu verifico as coisas antes de fazê-las 0 1 2 3 14. Eu me preocupo em ser chamado na classe 0 1 2 3 15. Eu me sinto desassossegado (sobressaltado) 0 1 2 3 16. Eu tenho medo que os outros achem que eu sou bobo 0 1 2 3 17. Eu deixo as luzes acesas à noite 0 1 2 3 18. Eu sinto dores no peito 0 1 2 3 19. Eu evito sair sem minha família 0 1 2 3 20. Eu me sinto estranho, esquisito, ou fora da realidade 0 1 2 3 21. Eu tento fazer coisas que vão agradar aos outros 0 1 2 3 22. Eu me preocupo com o que os outros pensam de mim 0 1 2 3 23. Eu evito assistir filmes ou programas de TV que assustam 0 1 2 3 24. Meu coração dispara ou “falha” 0 1 2 3 25. Eu evito as coisas que me aborrecem 0 1 2 3 26. Eu durmo junto de alguém da minha família 0 1 2 3 27. Eu me sinto inquieto e nervoso 0 1 2 3 28. Eu tento fazer tudo exatamente do jeito certo 0 1 2 3 29. Eu me preocupo em fazer alguma coisa boba ou que me deixe sem graça 0 1 2 3 30. Eu fico com medo quando ando de carro ou de ônibus 0 1 2 3 31. Eu sinto mal estar no estômago 0 1 2 3 32. Se eu fico aborrecido ou com medo, eu conto logo para alguém 0 1 2 3 33. Eu fico nervoso se eu tenho que fazer alguma coisa em público 0 1 2 3 34. Tenho medo de tempo ruim, escuridão, altura, animais ou insetos 0 1 2 3 35. Minhas mãos tremem 0 1 2 3 36. Eu preciso ter certeza que as coisas estão Seguras 0 1 2 3 37. Eu tenho dificuldade em chamar outros meninos (ou meninas) para brincar comigo 0 1 2 3 38. Minhas mãos ficam suadas ou frias 0 1 2 3 39. Eu sinto vergonha 0 1 2 3 Somático Ansiedade Social 1 3 5 10 8 14 12 16 15 20 18 21 24 22 27 29 28 33 31 37 35 39 38 Total Total Comportamento Evitativo Ansiedade de separação 2 4 6 7 9 11 13 17 25 19 28 23 32 26 36 30 34 Total Total Capítulo X Metáfora e devolução: o livro de história no processo de psicodiagnóstico interventivo Elisabeth Becker Marizilda Fleury Donatelli Mary Dolores Ewerton Santiago I. Introdução O atendimento de crianças na área de psicodiagnóstico no Centro de Psicologia Aplicada da UniversidadePaulista, onde trabalhamos como supervisoras de estágio do curso de Psicologia, possibilita uma constante reflexão sobre as questões que permeiam essa prática clínica. Uma delas é relativa à devolução das informações psicodiagnósticas à criança. A experiência mostra que a devolução para os pais, em geral, é mais fácil do que para a criança, por termos em comum a comunicação mediada por palavras. Com as crianças há dificuldades peculiares para transmitir e compartilhar a compreensão resultante do psicodiagnóstico. Como alternativa à tradicional forma de comunicação verbal com utilização de caixa de brinquedos ou de material resultante de procedimentos de avaliação, sugerimos construir uma narrativa sobre os aspectos mais relevantes observados no psicodiagnóstico, apresentando-a à criança sob a forma de livro de história infantil. Diversos autores com distintos enfoques teóricos reconhecem as narrativas como vitais para a evolução da humanidade e para a formação da identidade do ser humano, na medida em que espelham conteúdos intrínsecos ao próprio ser. As narrativas na forma de mitos, fábulas e contos de fada têm sua origem em épocas remotas. Provavelmente, são as primeiras formas de literatura de que se tem notícia. Existem diferenças e semelhanças entre as três formas de narrativas. Os mitos e as fábulas são derivados dos contos, sendo estes considerados como a forma mais primitiva de contar histórias. Segundo Souza (2003), o mito e a fábula são narrativas que têm frequentemente uma origem anônima e popular, mas divergem quanto a seus propósitos. O que diferencia o mito da fábula é seu caráter coletivo e sua origem, fundamentada em questões espirituais e acontecimentos históricos. Essas experiências foram dramatizadas, romanceadas, fantasiadas pela imaginação humana, que também buscou dar sentido aos fenômenos inusitados, de natureza espiritual ou sobrenatural, que carecem de explicação. Desse modo, os mitos não obedecem ao princípio da razão, transmitindo um conhecimento, uma realidade não racional. Nas palavras do autor citado: […] de acordo com o conceito mais generalizado, o mito é um tipo de narrativa alegórica e/ou simbólica, de origens remotas e caráter coletivo, que pretende transmitir uma realidade não racional, mas sempre tida como verdadeira. Em nível de narrativa, o mito possui uma estrutura própria, com princípio, meio e fim, constituindo-se em uma forma de transmissão de alguma experiência vital, diluída no tempo e geralmente ligada ao sobrenatural. Com o passar dos séculos, muitos desses relatos míticos perderam seu primitivo caráter sagrado, devido ao desaparecimento da noção de que todo o mito nasce (num determinado momento histórico-cultural) ligado às crenças de uma comunidade, pressupondo portanto um ato de fé (Souza, 2003, p. xxx). A importância dos mitos enquanto narrativa foi focalizada por Eliade (1986), que os considera uma forma de transmissão oral de conhecimentos relativos a uma cosmogonia, possibilitando, desse modo, ao homem conhecer sua origem e a origem do mundo, inserindo-se neste. “O mito designa […] uma ‘história verdadeira’ e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo” (ibidem, p. 7). As fábulas, diferentemente dos mitos, são histórias construídas por determinado autor e seu objetivo é transmitir uma ideia moral, um valor. Relatam situações do cotidiano, a maneira de as pessoas se comportarem no dia a dia. Para Souza […] a fábula costuma ser conceituada como uma breve narrativa alegórica, de caráter individual, moralizante e didático, independentemente de qualquer ligação com o sobrenatural. Nela, os personagens apresentam situações do dia a dia, de onde podem ser extraídos paradigmas de comportamento social, com base no bom-senso popular. Seres irracionais e, às vezes, até mesmo coisas e objetos, contracenam entre si, ou com as pessoas, ou com deuses mitológicos. Tais cenas simbolizam situações, comportamentos, interesses, paixões e sentimentos, humanos ou não, que nem sempre podem ser focalizados explicitamente (2003, p. xxx e xxxi). Os contos de fada, por sua vez, também são criações bastante antigas. Transmitem conhecimento sobre questões humanas universais, colocando em foco as questões-limite da existência, como nascimento, vida e morte. Para Bettelheim (1980), os contos de fada trazem à luz comportamentos latentes e manifestos, oferecem mensagens de desenvolvimento e encorajamento, falando à criança muito mais que qualquer outro tipo de literatura. O caráter mágico dos contos de fada tem proximidade com o universo psíquico da criança, atingindo-o em suas diferentes nuances, possibilitando que ela entre em contato com suas lutas internas e problemas existenciais, bem como com outras batalhas que a aguardam no decorrer de sua vida. Nos contos de fada o mal e o bem existem, mas estão separados, e há um caráter moral em cada história. Assim, nas palavras desse autor: As figuras dos contos de fadas não são ambivalentes — não são boas e más ao mesmo tempo, como somos todos na realidade. Mas dado que a polarização domina a mente da criança, também domina os contos de fada (Bettelheim, 1980, p. 17). Essas narrativas são úteis aos psicólogos tanto na compreensão do psiquismo quanto no atendimento a clientes. Freud recorreu aos mitos de Édipo e de Narciso para explicar certos fenômenos psicológicos relativos ao desenvolvimento humano. Outros autores descrevem os benefícios dos contos quando são utilizados como técnica nos processos psicoterapêuticos, de modo geral (Oaklander, 1980; Gardner, 1993; Coelho, 2003; Gutfreind, 2003). O livro de história elaborado com a finalidade de devolução diagnóstica à criança, tal como temos feito em nossa prática clínica e usado como metáfora no psicodiagnóstico, aproxima-se dos contos de fada em alguns aspectos e difere em outros. Quanto às semelhanças, os contos de fada e o livro de história como devolutiva têm por objetivo a transmissão de algum conhecimento, como o conhecimento de si, da sua história, de seus conflitos, ou o conhecimento de alguma situação peculiar ao existir humano. Os contos de fada atingem diferentes camadas da psique e o livro de história também, na medida em que contempla a trajetória de vida e os conflitos da criança através de metáforas, analogias e imagens visuais que favorecem uma apreensão adequada às suas possibilidades de consciência. Em ambos, a verdade é apresentada, não é omitida. Nos contos de fada, não raramente há a morte ou enfraquecimento de alguma figura parental e, de algum modo, a criança é colocada em contato com essas questões-limite da existência. Muitas crianças trazidas para um psicodiagnóstico têm histórias de vida trágica e estas farão parte do livro, embora de forma metafórica. Com relação às diferenças, os contos de fada têm um caráter moral, o que não ocorre com o livro de história. Além disso, os contos de fada promovem a interiorização de certos valores, e este também não é o propósito do livro de história. Ao contrário, seus objetivos contemplam as possibilidades criativas da criança, cabendo sempre a ela os julgamentos e, principalmente, as possíveis soluções para os conflitos centrais. II. Fundamentos da devolução psicodiagnóstica Há três décadas, surgiram em nosso meio os primeiros trabalhos sistematizados acerca dos fundamentos teóricos, da técnica de devolução de informação psicodiagnóstica ao paciente. Tais trabalhos foram desenvolvidos na Argentina por Ocampo e Arzeno (1974). De acordo com elas, a devolução é realizada em uma ou duas entrevistas no final do processo psicodiagnóstico, e é necessária para que o paciente possa integrar aspectos de sua identidade que estão dissociados. A devolutiva funciona, portanto, como mecanismo de reintrojeção, sobretudo da identidade latente do paciente, contribuindo também para diminuir fantasias de doença, incurabilidade e loucura, possibilitando perceber-se com critérios mais próximos da realidade, com menos distorções idealizadoras ou depreciativas. Isso é possívelna medida em que o paciente pode resgatar aspectos próprios que ele depositou no psicólogo durante o processo, tanto aqueles desvalorizados e temidos, como outros, enriquecedores e adaptativos. Para essas autoras, o objetivo essencial da devolutiva deve ser, portanto, auxiliar o paciente a realizar uma integração psíquica daqueles aspectos de sua personalidade que estão dissociados, contribuindo, desse modo, para a preservação de sua identidade. Se isto é conseguido, a devolução terá para ele um caráter terapêutico. Vale lembrar a complexidade dessa tarefa, considerando-se as peculiaridades do desenvolvimento da criança. Também para Verthelyi (1989), o conceito de devolução está baseado na ideia de projeção e posterior reintrojeção de aspectos que o paciente revelou durante o processo psicodiagnóstico. Esta autora, entretanto, junto a Friedenthal (1976), sinaliza que um único momento devolutivo, ao término do processo, talvez não seja o modo mais adequado para que isso seja obtido. Considerando a importância desse tipo de trabalho, ambas propuseram realizar devoluções parciais durante todo o processo psicodiagnóstico, o que permitiria explorar melhor as hipóteses levantadas e aumentar os seus possíveis efeitos terapêuticos. Argumentam ser mais apropriado, nessas devoluções, incluir aspectos acessíveis e aceitáveis ao ego do paciente do que fazer interpretações. Assim, se as devoluções parciais são feitas ao longo do processo, pode ocorrer que, ao final deste, não seja necessário comunicar algo novo e que a entrevista de encerramento se destine mais a resumir tudo o que foi visto e despedir-se do paciente. III. A técnica de devolução e suas possibilidades Quanto à questão de como realizar a devolução, Ocampo e Arzeno (1974, p. 402) consideram “recomendável utilizar o material de testes, no qual geralmente aparece condensado ou expressado plasticamente o que podemos dizer” começando sempre pelos aspectos mais adaptativos para depois abordar aqueles que são menos adaptativos, fazendo uso de uma linguagem simples e apropriada à criança para que ela possa compreender nossa comunicação. Opinião semelhante tem Verthelyi (1989), para quem as técnicas projetivas, especialmente os testes gráficos e os relatos, podem ser o material mais adequado para mostrar ao paciente aspectos de si mesmo observáveis em sua produção. Uma análise cuidadosa da totalidade do material permitirá privilegiar aqueles aspectos revelados cuja temática seja mais facilmente reconhecível pelo sujeito e cujos conteúdos estejam mais próximos de sua consciência, a fim de facilitar a sua assimilação. Como supervisoras de psicodiagnóstico e psicólogas clínicas, trabalhando em uma concepção de psicodiagnóstico interventivo, também temos utilizado devoluções parciais durante todo o processo, bem como focalizado a questão de que esse processo pode e deve ter um caráter terapêutico. Em um trabalho anterior, Santiago (2001) comenta que a utilização de material de técnicas projetivas, como o CAT-A, enquanto mediador na devolução à criança, mostrou-se limitada quanto às possibilidades de contribuir efetivamente para que ela pudesse integrar alguns aspectos de seu próprio funcionamento psíquico, assim como de obter uma compreensão daquelas situações familiares, escolares ou sociais que estavam relacionadas à manifestação de seus sintomas. Frequentemente, eram observadas reações de desinteresse ou atitudes passivas, de aparente aceitação de tudo que lhe era dito, até expressões diretas de intolerância à devolução que lhe estava sendo dada, por exemplo, tentando impedir o psicólogo de prosseguir na sua comunicação. Estas dificuldades vivenciadas nos levaram a pesquisar a possibilidade de utilizar novos procedimentos que se mostrassem mais eficazes no sentido de alcançarmos nossos objetivos no encerramento do psicodiagnóstico interventivo da criança. Tais objetivos seriam possibilitar à criança apropriar-se da própria história, bem como de seus conflitos, defesas, desejos e maneira de se relacionar com o ambiente de modo geral, o que inclui retomar a relação estabelecida com o psicólogo, podendo despedir-se dele e da situação de um atendimento de uma forma mais autônoma e integrada do que quando se iniciou o processo. Na literatura pesquisada, encontramos referências ao uso de histórias como forma de interpretação na psicoterapia de crianças. IV. O uso de histórias na psicoterapia de crianças Um trabalho pioneiro sobre o uso de histórias em psicoterapia para comunicar à criança o significado psicodinâmico de seus sintomas foi realizado por Gardner (1993). Considerando que contar histórias é um dos modos favoritos de as crianças se comunicarem e que elas gostam tanto de contá-las como de escutá-las, Gardner criou a “técnica de relato mútuo de histórias”, propondo-a para crianças de 5 a 11 anos. Nesta técnica, o psicoterapeuta estimula a criança a criar uma história, apreender seu tema psicodinâmico, tomando-a como uma projeção; então, formula e narra outra história para a criança com as mesmas características presentes na dela, mas introduzindo soluções de conflitos mais saudáveis do que aquelas originalmente propostas pela criança. Para este autor, o psicoterapeuta tem mais chance de ser escutado quando fala a linguagem própria da criança — a linguagem da alegoria. Com esta técnica, as interpretações são recebidas pelo inconsciente da criança, não havendo confrontações diretas que suscitem ansiedade. O uso de histórias na psicoterapia de crianças também é relatado por Oaklander (1980). Baseando- se nas concepções da Gestalt e tendo como objetivo ajudar a criança a tomar consciência de si mesma e de sua existência no mundo, a autora faz um amplo uso de histórias: conta, lê, escreve, estimula a criação de histórias através de figuras, bonecos e, ainda, registra as no gravador e aparelho de vídeo para serem posteriormente vistas pela criança. Os objetivos da utilização desta técnica se assemelham, em alguns aspectos, aos de Gardner. No Brasil, Safra (1984) pesquisou um método de consulta que se utiliza das histórias infantis como meio de intervenção. De orientação teórica winnicottiana, esse autor considera a narrativa de uma história uma forma lúdica de expressão compatível com a vida mental da criança, que, em seus termos, “por favorecer o aparecimento do espaço transicional, é elemento importante para que a criança introjete a intervenção sem se sentir invadida” (idem ibidem, p. 10). Nesta proposta, o terapeuta obtém um conhecimento da criança através de um contato com ela na hora de jogo e do uma entrevista com os pais. Depois, junto a estes, constrói uma história que revela uma compreensão dos problemas da criança e que deve ser lida para ela, pelos pais, durante certo tempo. Os resultados a que o autor chegou em sua pesquisa mostraram a diminuição ou desaparecimento do sintoma. Também no Brasil foi publicado um interessante e extenso trabalho em que, aliando pesquisa à atividade clínica de analista de crianças, Gutfreind (2003) propõe a utilização de contos no processo psicoterapêutico. Para esse autor, contar o conto é o aspecto essencial, sendo isso mais relevante que a necessidade de investigação das teorias subjacentes, pois para ele “oferecer histórias a uma criança é promover um programa eficiente de saúde mental” (idem ibidem, p. 12). Gutfreind assume como sendo extremamente relevantes as múltiplas alternativas de leituras e atribuição de significados à história, na medida em que estas remetem a criança a um mundo de infinitas possibilidades de contar, ouvir e imaginar. “Contar e ouvir. E contando e ouvindo entrar em interação com o outro e, a partir desses conteúdos e dessa troca, construir-se como ser humano capaz de ter uma identidade (feito uma personagem), de sentir, pensar, imaginar” (Gutfreind, 2003, p. 146). V. A utilização do livro de história como procedimento devolutivo no psicodiagnóstico interventivo de crianças As referências à utilização de narrativa de história como encerramento do processo psicodiagnósticointerventivo de crianças aparecem em nosso meio inicialmente como trabalho (pôster) apresentado em um encontro de supervisores de clínicas-escola (Becker, 1999). Seguiram-se várias outras apresentações de trabalhos e publicações sobre essa proposta realizadas por esse grupo de supervisores (Becker, 2001, 2002; Becker et al., 2002; Donatelli, 2001; Santiago, 2001; Santiago et al., 2001a, 2001b; Santiago et al., 2003). Mas foi Constance Fischer, psicóloga norte-americana, a pessoa a nos inspirar e incentivar para desenvolvêssemos essa nova técnica para devolutivas infantis, por meio de seu texto sobre psicodiagnóstico e em trabalho desenvolvido com supervisores de estágio na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.[1] Nesta ocasião, relatou-nos suas experiências com a criação de poemas, músicas e cartas como possibilidades de informações psicodiagnósticas transmitidas a crianças e adolescentes. Em suas publicações anteriores, Fischer (1970, 1989, 1994) expôs sua proposta de um psicodiagnóstico centrado na vida, o que confere particular importância no modo como são transmitidas pelo psicólogo as compreensões advindas de um psicodiagnóstico. Para essa autora, partindo de um enfoque existencial, o cliente é um participante informado e, desde o início, envolvido em papel ativo, transformando-se assim em um co-assessor do psicólogo com quem desenvolve um trabalho interventivo contextualizado e compartilhado. Dessa forma, embora ainda estejam presentes nas devolutivas com as crianças as alternativas mais tradicionais de usar os brinquedos, bem como os estímulos à atividade expressiva gráfica e verbal das técnicas projetivas, assumimos, como essa autora, a importância de oferecer à criança alternativas, entre as quais o livro de história tem sido o melhor expoente. Consideramos que o livro de história é o resultado da compreensão de todo o trabalho realizado no psicodiagnóstico. Ele contém aspectos significativos do desenvolvimento da criança e de suas relações com o meio em que vive, assim como uma compreensão de seus sintomas. Supomos que, desse modo, é possível dar a ela um entendimento melhor de seu problema, contextualizando-o em sua história familiar e pessoal, incluindo também seus recursos para lidar com as dificuldades apresentadas. Em nossa experiência, a criação de uma história devolutiva exclusiva para a criança permite-lhe uma vivência psicológica também única. Utilizando recursos analógicos propiciados pelas identificações com personagens, a criança parece obter uma percepção do seu sintoma, bem como a expressão dos sentimentos envolvidos. Pudemos observar diferentes reações das crianças durante e após a apresentação do livro de história: reconhecimento de que a história dizia respeito a ela, interesse e atenção durante a leitura (até nas crianças muito agitadas), disponibilidade para interagir na situação, querer compartilhar a história • • • □ □ □ □ □ • com a professora, com colegas, com avós, pedir aos pais insistentemente a releitura da narrativa ou, ao contrário, guardá-la, “esquecê-la” até um momento de retomada. Consideramos que a elaboração do livro de histórias como devolutiva supõe alguns elementos norteadores: O livro de histórias é uma metáfora que expressa a compreensão do psicodiagnóstico. É uma síntese que contempla a história vital da criança e suas vivências durante o psicodiagnóstico, suas dificuldades e recursos internos, em uma linguagem acessível à sua compreensão. A história e os personagens devem ser escolhidos em função das afinidades e analogias com os conteúdos evidenciados no psicodiagnóstico. Por exemplo, pulgas e macaquinhos como personagens para crianças com condutas hiperativas, pássaros e peixes como personagens para famílias migrantes. Deve-se dar especial atenção ao emprego de personagens que têm, culturalmente, sentidos conotativos. No Brasil, veados, burros, urubus e gatos pretos podem ligar-se a sentidos pejorativos. Quanto ao conteúdo formal, é fundamental que o livro de história traduza: a história de vida (familiar e da criança); o sintoma; a busca de atendimento e a relação com o psicólogo; a explicitação dos sentimentos do personagem de identificação; a integração dos diferentes aspectos observados através da hora de jogo, testes, visitas etc. O final da história ainda é um tema controverso, entretanto é muito importante que a criança tenha a chance de expressar sua própria solução final quanto ao encaminhamento dado. Supomos também que o trabalho de elaboração psíquica pode prosseguir após o encerramento do psicodiagnóstico, visto que o livro é entregue a ela no final do processo e o texto e as gravuras podem servir de estímulos para que, gradativamente, ela se aproprie mais das analogias. Dessa compreensão e apropriação resulta um “encontro” da criança com o trabalho do psicólogo de forma mais intensa do que já vinha ocorrendo durante o processo. Este procedimento tem se mostrado satisfatório em termos das reações das crianças e comentários dos pais ou responsáveis no encerramento do processo psicodiagnóstico interventivo ou início da psicoterapia, parecendo favorecer e fortalecer o estabelecimento de uma área de intersecção entre estes e o psicólogo, necessária à continuidade do trabalho. Sendo assim, a devolutiva dada através do livro de história tem se mostrado mais do que a etapa final de um processo de psicodiagnóstico. Ela remete, entre outras, às possibilidades de pesquisa quanto ao seu caráter terapêutico, às especificidades das histórias em função do momento evolutivo da criança e às ressonâncias na família. Para ilustrar essa prática, relatamos a seguir um resumo do atendimento em Psicodiagnóstico Interventivo com o respectivo livro de história. O nome dos clientes, assim como alguns dados, foram modificados para preservar suas identidades. Trata-se de uma menina de 8 anos de idade, que chamaremos de Maria. Ela foi encaminhada pela escola com a queixa de falta de atenção e dificuldade de aprendizagem. Os dados colhidos sobre a história de vida da criança mostravam que a família era constituída pela mãe e cinco filhos, sendo a primeira filha adotiva, a segunda e a terceira do sexo feminino e biológicas, o quarto de sexo masculino, também biológico, e a última, que era a cliente em questão, do sexo feminino. Os pais casaram-se e em seguida adotaram a primeira criança, que foi muito bem recebida por eles. Todos os filhos foram desejados, embora, segundo a mãe, a gravidez de Maria tenha ocorrido num período tumultuado de sua vida. A mãe comentou que ela e o marido viviam bem e em perfeita harmonia até o momento em que ele soube que tinha uma doença grave. Ficou muito revoltado, recusou qualquer tipo de tratamento e passou a beber. A vida familiar mudou, e os conflitos entre o casal tornaram-se rotina. Foi neste momento que a mãe engravidou de Maria, fato que gerou muitos temores e preocupações no âmbito familiar. Apesar de tudo, Maria nasceu saudável, o pai diminuiu um pouco a bebida, tratou-se e melhorou um pouco. Contudo, algum tempo depois faleceu, sendo que seu contato com a menina deu-se por um curto período de tempo, de aproximadamente 3 anos. A família teve que reorganizar sua vida. O desenvolvimento de Maria deu-se sem nenhuma intercorrência. Durante o processo psicodiagnóstico foi possível perceber que Maria é uma garota inteligente, com recursos para resolver problemas do cotidiano. É capaz de reter informações oferecidas pelo ambiente, denotando boa capacidade de abstração e generalização de conceitos. Apresenta boa coordenação viso- motora fina, adequada percepção visual e coordenação têmporo-espacial. É extrovertida, sociável, estabelecendo relações cordiais e afetivas com as pessoas. A menina, entretanto, é insegura, bastante competitiva, comparando-se ao outro com a finalidade de assegurar-se de que suas produções são melhores que as de seus colegas. Sente-se insatisfeita com aquilo que faz e busca compensação de suas insatisfações comparando e desqualificando o trabalho de seus colegas.Investe muita energia nisto, o que a faz dispersar-se das tarefas escolares, denotando pouca atenção/ concentração. Percebe que sua mãe ainda lamenta a ausência do marido e sente-se culpada por isso. Procura agradá-la no sentido de suprir a lacuna deixada pela morte do pai, mas nota que seus esforços são insuficientes. Isto faz com que se sinta ainda mais ansiosa, desamparada e insegura. Durante o psicodiagnóstico foi trabalhado com a mãe o fato de que o luto pela perda do companheiro ainda era vivido pela família, embora isto tivesse acontecido havia bastante tempo. Também foram feitas intervenções no sentido de que Maria precisava de mais atenção e estímulo, precisava ser vista e atendida em suas necessidades. No final do processo, tanto a mãe quanto a criança tinham tido algum progresso, mas foi decidido em comum acordo que Maria deveria continuar o atendimento, sendo encaminhada para psicoterapia infantil. A seguir mostramos algumas das situações que foram focalizadas no livro de história, a adoção da primeira filha, a doença do pai e a sua morte. Logo que se casaram, uma peixinha ainda pequena foi morar com eles, essa peixinha se chamava NANI. Nani foi tratada pelo casal com muito amor, como se tivesse nascido da barriguinha da mamãe Fifi. Acontece que quando todos estavam comemorando, papai Lino começou a se sentir fraco, tão fraco que sabia que a qualquer momento poderia ser levado por uma correnteza mais forte. Sua tristeza foi tanta que Lino começou a procurar algas distantes que possuíam um néctar especial que o faziam esquecer disso. Depois de tomar esse néctar, papai Lino voltava para casa irritado e brigava com a mamãe Fifi. PRIKA ainda era pequena quando chegou uma correnteza mais forte e levou embora o papai Lino, que já não tinha mais força para nadar. Já faz tempo que isso aconteceu, mas a tristeza ainda é grande no coral dos peixinhos. Referências bibliográficas BECKER, E. Contando histórias para crianças: uma aproximação entre a prática do psicodiagnóstico e a psicoterapia breve. In: ENCONTRO ESTADUAL DE CLÍNICAS-ESCOLA, 7., Pôster. Unimep- Piracicaba, São Paulo, 1999. ______. A criança, as histórias e a sua história: Uma especificidade da devolução no psicodiagnóstico interventivo. In: CONGRESSO DE PSICOLOGIA CLÍNICA, 1., Programas e resumos. Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2001. ______. Os bastidores de uma história: a expressão criativa de estagiários na prática do psicodiagnóstico interventivo. Tese (Doutorado) — Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, São Paulo, 2002. ______ et al. Interventive assessment with children and their parents in group meetings: professional training and storybook feedback. The Humanistic Psychologist, v. 30, n. 1-2, p. 114-24, primavera-verão 2002. BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. COELHO, N. N. O conto de fadas: símbolos, mitos e arquétipos. São Paulo: Difusão Cultural do Livro, 2003. DONATELLI, M. F. Devolutiva através de livro de história no psicodiagnóstico infantil: possibilidade de encontro. In: CONGRESSO DE PSICOLOGIA CLÍNICA, 1., Programas e resumos. Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2001. ELIADE, M. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1986. FISCHER, C. The testee as co-evaluator. Journal of Counseling Psychology, v. 17, p. 70-6, 1970. ______. A life-centered approach to psychodiagnostics: attending a lifeworld, ambiguity and possibility. Person-Centered Rewiew, v. 4, n. 2, p. 163-70, 1989. ______. Individualizing psychological assessment. Mahwah, N.J.: Erlbaum, 1994. FRIEDENTHAL, H. Interrogatorio, test de límites y señalamientos en el test de relaciones objetales. In: VERTHELY, R. F. (Org.). El test de relaciones objetales de H. Phillipson. Buenos Aires: Nueva Visión, 1976. GARDNER, R. A. Storytelling in psychotherapy with children. New Jersey: Jason Aronson, 1993. GUTFREIND, C. O terapeuta e o lobo: a utilização do conto na psicoterapia da criança. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003. OAKLANDER, V. Descobrindo crianças: a abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. São Paulo: Summus, 1980. OCAMPO, M. L. S. et al. Las técnicas proyectivas y el proceso psicodiagnóstico. Buenos Aires: Nueva Visión, 1974. SAFRA, G. Um método de consulta terapêutica através do uso de histórias infantis. Dissertação (Mestrado) — Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia, São Paulo, 1984. SANTIAGO, M. D. E. Fundamentos e questões implicadas na devolução psicodiagnóstica às crianças. In: CONGRESSO DE PSICOLOGIA CLÍNICA, 1., Programas e resumos. Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2001. ______ et al. A devolutiva com história para a criança: narrativa de uma singularidade. In: CONGRESO LATINOAMERICANO DE RORSCHACH Y OTRAS TÉCNICAS PROYECTIVAS, 12., Atas…, Montevideo, Uruguay, p. 439-44. ______; BECKER, E.; DONATELLI, M. F. Elaboração de histórias na devolução do psicodiagnóstico às crianças: uma modalidade de intervenção. In: CONGRESSO INTERAMERICANO DE PSICOLOGIA, 28., Santiago de Chile, Chile, 2001a. ______; BECKER, E.; DONATELLI, M. F. O processo devolutivo com livros de história no psicodiagnóstico de crianças. In: CONGRESSO INTERAMERICANO DE PSICOLOGIA, 28., Santiago de Chile, Chile, 2001b. SOUZA, M. A. Interpretando algumas fábulas de Esopo. Rio de Janeiro: Thex, 2003. VERTHELY, R. F. Temas em evaluación psicológica. Buenos Aires: Lugar Editorial, 1989. 454d44b372befde864917e09ea5b358cc780808a458370d130f26badba86f21a.pdf 454d44b372befde864917e09ea5b358cc780808a458370d130f26badba86f21a.pdf 454d44b372befde864917e09ea5b358cc780808a458370d130f26badba86f21a.pdf VI. Colagem: uma prática no psicodiagnóstico Cap_29 VII. Interlocuções entre a clínica psicológica e a escola no psicodiagnóstico interventivo VIII. Visita domiciliar: a dimensão psicológica do espaço habitado X. Metáfora e devolução: O livro de história no processo de psicodiagnóstico interventivo