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COORDENAÇÃO
ESA – OAB/RS
Rosângela Maria Herzer dos Santos
Fernanda Corrêa Osorio
COMISSÃO DA MULHER ADVOGADA DA OAB/RS
Claudia Sobreiro de Oliveira
Alba Elizabeth Pias Coelho
Luceline Teixeira Prado
Fabiana Ribeiro
Maiaja Franken de Freitas
ELAS NA ADVOCACIA II
Porto Alegre
2021
Copyright © 2020 by Ordem dos Advogados do Brasil
Todos os direitos reservados
Presidente da Comissão da Mulher Advogada - CMA-OAB/RS
Claudia Sobreiro de Oliveira
Capa
Carlos Pivetta
Bibliotecária Jovita Cristina Garcia dos Santos – CRB 10/1517
Secção do Rio Grande do Sul
Todos os direitos reservados
Rua Manoelito de Ornellas,55 – Praia de Belas
CEP: 90110-230 Porto Alegre/RS
Telefone: (51) 3287-1838
O conteúdo é de exclusiva responsabilidade dos seus autores.
Elas na advocacia II/, Rosângela Maria Herzer dos Santos e Fernanda
Osorio...[et.al] (Coordenadoras). – Porto Alegre: OAB/RS, 2021. p. 984
ISBN: 978-65-88371-03-9
1. Direito. 2.Advogados I Título.
CDU: 347.965
ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL - CONSELHO FEDERAL
DIRETORIA/GESTÃO 2019/2021
Presidente: Felipe Santa Cruz
Vice-Presidente: Luiz Viana Queiroz
Secretário-Geral: José Alberto Simonetti
Secretário-Geral Adjunto: Ary Raghiant Neto
Diretor Tesoureiro: José Augusto Araújo de Noronha
ESCOLA NACIONAL DE ADVOCACIA – ENA
Diretor-Geral: Ronnie Preuss Duarte
ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL - SECÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL
Presidente: Ricardo Ferreira Breier
Vice-Presidente: Jorge Luiz Dias Fara
Secretária-Geral: Regina Adylles Endler Guimarães
Secretária-Geral Adjunta: Fabiana Azevedo da Cunha Barth
Tesoureiro: André Luis Sonntag
ESCOLA SUPERIOR DE ADVOCACIA
Diretora-Geral: Rosângela Maria Herzer dos Santos
Vice-Diretor: Darci Guimarães Ribeiro
Diretora Administrativa-Financeira: Graziela Cardoso Vanin
Diretora de Cursos Permanentes: Fernanda Corrêa Osório, Maria Cláudia Felten
Diretor de Cursos Especiais: Ricardo Hermany
Diretor de Cursos Não Presenciais: Eduardo Lemos Barbosa
Diretora de Atividades Culturais: Cristiane da Costa Nery
Diretor da Revista Eletrônica da ESA: Alexandre Torres Petry
CONSELHO PEDAGÓGICO
Alexandre Lima Wunderlich
Paulo Antonio Caliendo Velloso da Silveira
Jaqueline Mielke Silva
Vera Maria Jacob de Fradera
CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS ADVOGADOS
Presidente: Pedro ZanetteAlfonsin
Vice-Presidente: Mariana Melara Reis
Secretária-Geral: Neusa Maria Rolim Bastos
Secretária-Geral Adjunta: Claridê Chitolina Taffarel
Tesoureiro: Gustavo Juchem
TRIBUNAL DE ÉTICA E DISCIPLINA
Presidente: Cesar Souza
Vice-Presidente: Gabriel Lopes Moreira
CORREGEDORIA
Corregedora: Maria Helena Camargo Dornelles
Corregedores Adjuntos
Maria ErcíliaHostyn Gralha,
Josana Rosolen Rivoli,
Regina Pereira Soares
OABPrev
Presidente: Jorge Luiz Dias Fara
Diretora Administrativa: Claudia Regina de Souza Bueno
Diretor Financeiro: Ricardo Ehrensperger Ramos
Diretor de Benefícios: Luiz Augusto Gonçalves de Gonçalves
COOABCred-RS
Presidente: Jorge Fernando Estevão Maciel
Vice-Presidente: Márcia Isabel Heinen
6
SUMÁRIO
PALAVRA DO PRESIDENTE – Ricardo Breier ........................................................... 11
MENSAGEM - Daniela Lima de Andrade Borges .......................................................... 12
PREFÁCIO – Rosângela Maria Herzer dos Santos e Fernanda Corrêa Osorio ......... 13
APRESENTAÇÃO – Claudia Sobreiro Oliveira ............................................................ 14
O ENSINO JURÍDICO NO BRASIL E A GRADUAÇÃO À
DISTÂNCIA ADAPTADA AO SÉCULO XXI - Adriana Bitencourt Bertollo ............. 16
A EMENDA CONSTITUCIONAL N.º 103 DE 2019 E A RESTRIÇÃO DOS
DIREITOS DAS MULHERES - Adriana de Góes dos Santos e Natacha Bublitz Camara
............................................................................................................................................. 26
VINGANÇA PORNOGRÁFICA NO DIREITO BRASILEIRO: A
RESPONSABILIZAÇÃO PENAL - Aline Pacheco Batista ........................................... 47
A FRAGILIDADE DA LGPD PERANTE OS HIPERVULNERÁVEIS - Amanda Israel
Fraga e Vitória Bastos Bernardi ........................................................................................ 66
AS MULHERES COMO PROTAGONISTAS, NA TOMADA DE DECISÃO: UMA
ESTRATÉGIA EM BUSCA DA AUTONOMIA, DESENVOLVIMENTO E
SUSTENTABILIDADE - Andréa Marta Vasconcelos Ritter .......................................... 76
A CELERIDADE NA RESOLUÇÃO DE CONFLITOS ENVOLVENDO ENTES
PÚBLICOS E OS JUIZADOs ESPECIAIS - Andréia Atti Simões ................................ 89
A APLICABILIDADE DA SOCIOLOGIA DA DOMINAÇÃO WEBERIANA NA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA: ANÁLISE DOS MODELOS
PATRIMONIALISTA E BUROCRÁTICO - Ariane Faverzani da Luz e Isabela Bohnen
........................................................................................................................................... 109
A ATUAÇÃO DO TERCEIRO SETOR COMO EXERCÍCIO DA CIDADANIA -
Bárbara Bidese ................................................................................................................. 128
PRECEDENTES NO DIREITO BRASILEIRO - Camila Paese Fedrigo .................. 148
7
CONSEQUÊNCIAS DO PRECONCEITO E MARGINALIZAÇÃO SOFRIDA POR
MÃES QUE ENTREGAM SEUS FILHOS PARA ADOÇÃO E O IMPACTO NA
SAÚDE SOCIAL - Carla Alvez Santanna ...................................................................... 164
CONTRATOS AGRÁRIOS: NECESSIDADE DE ATUALIZAÇÃO LEGISLATIVA
- IMPORTÂNCIA DOS PRESCEDENTES E DA GESTÃO DE RISCO DAS
CLÁUSULAS CONTRATUAIS - Carla Alvez Santanna ............................................. 183
O PAPEL DA MODA NA LUTA PELA IGUALDADE DE GÊNERO - Carolina Dutra
Normey e Liane Martins Caon ......................................................................................... 200
A PERCEPÇÃO POPULAR SOBRE A MULHER ADVOGADA: UM ESPAÇO DE
NÃO PERTENCIMENTO - Carolina Höhn Falcão e Ingrid Fagundes Ziebell ........ 215
A IMPORTÂNCIA DA ATUAÇÃO DO ADVOGADO NA MEDIAÇÃO COMO
MEIO DE TRATAMENTO ADEQUADO DO CONFLITO - Cassiana Campos dos
Anjos de Oliveira .............................................................................................................. 227
A MATERNIDADE EM XEQUE COM A CODIV-19 - Cindel Gabriele de Queiroz 249
“INEXECUÇÃO CONTRATUAL POR PARTE DA ADMINISTRAÇÃO –
POSSIBILIDADE DA EXCEPTIO NON ADIMPLETI CONTRACTUS” - Cristina
Dal Sasso .......................................................................................................................... 264
O DIREITO À IMAGEM DA CRIANÇA NA ERA DO FENÔMENO SHARENTING:
UMA PERSPECTIVA PORTUGUESA - Daiane Pompeo Barcelos .......................... 276
A HERANÇA DIGITAL NA SOCIEDADE WEBCONECTADA: A NECESSIDADE
DA MODERNIZAÇÃO DO DIREITO SUCESSÓRIO - Daiane Schneider Leviski 285
IMPACTOS DA ADVOCACIA FEMININA NA SEGURANÇA PÚBLICA - Daniela
Provin ................................................................................................................................ 306
AUTOCOMPOSIÇÃO: A MEDIAÇÃO COMO FORMA DE RESOLUÇÃO DE
CONFLITOS PARA O ALÍVIO DO PODER JUDICIÁRIO - Daniela Salhenaves
Antolini .............................................................................................................................. 317
A OCUPAÇÃO DO ESPAÇO POLÍTICO PELA MULHER E A VIOLÊNCIA
POLÍTICA COMO UMA DAS FACES DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO - Danielli
Zanini ............................................................................................................................... 333
8
UNIÃO ESTÁVEL E A INCONSTITUCIONALIDADE DO ART 1790 DO CC
FRENTE À DECISÃO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL - Delma Silveira Ibias
...........................................................................................................................................346
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA OU INTRAFAMILIAR: CONSEQUÊNCIAS NO
DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA; DESTITUIÇÃO DO PODER FAMILIAR
COMO MEDIDA DE PROTEÇÃO CONTRA A VIOLÊNCIA INFANTIL - Dioneia
Cristina Caron .................................................................................................................. 384
CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS SOBRE OS DIREITOS DA MULHER EM
ATENAS, ESPARTA E NA SOCIEDADE VIKING - Elisângela Sampaio Teixeira e
Cinara Liane Frosi Tedesco ............................................................................................. 402
A NECESSIDADE DE VALORAÇÃO DA PROVA PERICIAL PSICOLÓGICA NOS
CRIMES DE ESTUPRO COM VÍTIMA MULHER - Ellen Souza Martins ............. 415
A FRAGILIDADE DAS PROVAS DEPENDENTES DA MEMÓRIA E O IMPACTO
DAS FALSAS MEMÓRIAS SOBRE ELAS - Érika Streppel Rocha Prates ............... 432
A TELEMEDICINA EM TEMPOS DA PANDEMIA DO COVID-19 À LUZ DO
ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO - Evânia Romanosky ........................ 451
MULHERES, FILHOS E ADOÇÃO: AVANÇOS SOCIOCULTURAIS FEMININOS,
REFLEXOS NA IGUALDADE ENTRE FILHOS E A IMPORTÂNCIA DE UM
OLHAR MAIS EFETIVO AO PROCESSO DE ADOÇÃO - Helena Gil Klein ........ 464
IMPACTOS A.C E D.C NA SAÚDE SUPLEMENTAR X MERCADO
CONSUMIDOR - Jaqueline Wichineski dos Santos ..................................................... 480
TUTELAS PROVISÓRIAS SOB A LUZ DO PROCESSO JUSTO - Jaqueline
Wichineski dos Santos ...................................................................................................... 491
O CUMPRIMENTO PROVISÓRIO DA SENTENÇA E O NOVO CÓDIGO DE
PROCESSO CIVIL - Jennifer dos Santos Carvalho ..................................................... 507
OS EFEITOS DAS MEDIDAS PROTETIVAS E A NECESSIDADE DE POLÍTICAS
PÚBLICAS PARA PROTEÇÃO DA MULHER VÍTIMA DE VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA - Jéssica Teixeira Amaral ....................................................................... 526
A MEDIAÇÃO DE CONFLITOS COMO MÉTODO DE PACIFICAÇÃO E
HUMANIZAÇÃO DAS RELAÇÕES - Joice Raddatz ................................................. 546
9
MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA E A HIPÓTESE CRIMINALIZADORA:
REFLEXÕES NECESSÁRIAS - Josiane Petry Faria e Cátia Conteratto Damo ........ 560
DISCRIMINAÇÃO NO AMBIENTE LABORAL – A ESCRAVIDÃO ESTÉTICA -
Jovana De Cezaro e Maíra Angélica Dal Conte Tonial .................................................. 576
A NECESSÁRIA PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR INFANTIL DIANTE DE SUA
HIPERVULNERABILIDADE NA SOCIEDADE DE CONSUMO - Jovana De Cezaro
........................................................................................................................................... 594
A PROMOÇÃO DAS CIDADES RESILIENTES ENQUANTO INSTRUMENTO DE
EFETIVAÇÃO DO DIRETO À CIDADE - Karina Mombelli Sant'Anna .................. 612
AS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA DA LEI MARIA DA PENHA E SUA
EFICÁCIA - Lauren Hanel Lang Tabolka e Lilian Hanel Lang .................................. 625
OS EFEITOS JURÍDICOS DO RECONHECIMENTO DA FAMÍLIA
ANAPARENTAL - Letícia Alvarez Ucha ..................................................................... 640
A INCIDÊNCIA DA MULTA NOS EMBARGOS DECLARATÓRIOS
MANIFESTAMENTE PROTELATÓRIOS - Letícia Marques Padilha .................... 652
A IMPORTÂNCIA DA TUTELA PROVISÓRIA PARA O ORDENAMENTO
JURÍDICO - Lizandra Duarte Rodrigues ....................................................................... 669
FILIAÇÃO SOCIOAFETIVA E SEUS DESDOBRAMENTOS NAS RELAÇÕES
MULTIPARENTAIS - Lorrayne dos Santos Alves e Marigley Leite da Silva de Araujo
........................................................................................................................................... 689
CADASTRO AMBIENTAL RURAL E DIREITO À INFORMAÇÃO AMBIENTAL:
UMA ANÁLISE À LUZ DA TEORIA DE HABERMAS - Luiza Maria Oliboni ...... 709
UMA BREVE LEITURA CRIMINOLÓGICA A RESPEITO DOS CRIMES DE
COLARINHO BRANCO E DA APLICAÇÃO DO ACORDO DE LENIÊNCIA NO
BRASIL - Luma Costa Minotto Pereira ......................................................................... 726
O SISTEMA DA JUSTIÇA MULTIPORTAS COMO POLÍTICA PÚBLICA DE
TRATAMENTO DOS CONFLITOS FRENTE À CRISE QUANTITATIVA NOS
TRIBUNAIS BRASILEIROS - Marina Finger de Moura ........................................... 743
10
CASO FORTUITO, FORÇA MAIOR E ONEROSIDADE EXCESSIVA: O
PRINCÍPIO DA BOA-FÉ COMO PILAR DA AUTOCOMPOSIÇÃO EM TEMPOS
DE PANDEMIA - Mônica T. Medeiros Lopes Scariot . ................................................ 764
DESPORTO FEMININO: DIREITO DE IGUALDADE E RECONHECIMENTO
DAS DIFERENÇAS - Natália Gehres Trapp ................................................................. 779
A CONCRETIZAÇÃO DO DIVÓRCIO ONLINE EM TEMPOS DE
DISTANCIAMENTO SOCIAL - Natália Lanfredi Pinto da Rocha e Fernanda
Castellano Laguna ............................................................................................................ 798
A AUTONOMIA DO IDOSO FRENTE À ESCOLHA DO TRATAMENTO MÉDICO
- Nathalia Santos .............................................................................................................. 816
A PRÁTICA DA VAQUEJADA: INCONSTITUCIONALIDADE, VEDAÇÃO À
CRUELDADE ANIMAL E O EFEITO BACKLASH - Nicolle Bittencourt Rocha .... 835
HOMO SAPIENS X HOMO TECNOLOGICUS: A QUEM PERTENCEM AS
PROFISSÕES DO FUTURO? - Priscila Gonçalves Krieger e Camile Serraggio Girelli
........................................................................................................................................... 855
A DESIGUALDADE DE GÊNERO NO CAMPO – UM RETRADO DE EXCLUSÃO
DAS TRABALHADORAS NAS COMUNIDADES RURAIS TRADICIONAIS -
Quélen Kopper e Francine Nunes Avila .......................................................................... 886
OS DESAFIOS DAS MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO E NA
ADVOCACIA - Rafaela Berton Bristott e Jeane Taysa Andreolli ............................... 898
MULHERES RURAIS, MULHERES DE DIREITOS: ASPECTOS
PREVIDENCIÁRIOS E A REFORMA DA PREVIDÊNCIA DE 2019 - Rosane
Marizeti Brum Vargas e Diocelia Martins Teixeira ....................................................... 913
EMBARGOS À EXECUÇÃO: A DEFESA DO EXECUTADO NO CÓDIGO DE
PROCESSO CIVIL - Sara Daniela Silva de Souza ....................................................... 932
O DEVER FUNDAMENTAL DE PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE - Sheila
Pegoraro ............................................................................................................................ 949
O CONTRATO DE TRABALHO INTERMITENTE: UMA ANÁLISE SOBRE OS
ASPECTOS PREJUDICIAS AO EMPREGADO - Thaís Vanessa dos Santos da Silva
........................................................................................................................................... 968
11
PALAVRA DO PRESIDENTE
A capacidade de superação da advocacia feminina é uma realidade inquestionável.
Fruto da qualificação, capacitação e liderança, as advogadas conquistaram seus espaços de
forma legítima, e se mostram dispostas a novos desafios.
Ao receber a relação dos artigos do e-book "Elas na Advocacia II", duas situações
imediatamente me chamaram a atenção: a diversidade dos temas propostos e a intensidade
da participação das advogadas. Discriminação, segurança, maternidade, filhos e impactos
profissionais, saúde e desporto feminino, mulheres protagonistas, Direitos Humanos e temas
constitucionais de grande relevância, entre outros, fazem parte da diversidade de assuntos
abordados. É essa riqueza de abordagens que permite afirmar que se trata de uma obra de
leitura obrigatória na realidade atual.
Não bastasse esse leque de ricas e diferentes abordagens, existe um engajamento
salutar. Se na primeira edição do livro havia 50 artigos, o segundo e-book nos brinda com
57 textos, registrando um crescimento merecedor de nosso reconhecimento. Esta é uma
marca da nossa OAB/RS: a crescente participaçãoda advocacia, compreendendo que
existem valiosos espaços para a divulgação de meritórias contribuições.
Estamos passando por um tempo difícil, em razão da pandemia do novo Coronavírus.
Inúmeros obstáculos surgiram para impactar a rotina da advocacia. Mas nem essa complexa
realidade impediu essa maior participação das colegas. Sinal do quanto o comprometimento
com a profissão e com a Ordem é valorizado.
Em nome da presidente da Comissão da Mulher Advogada (CMA-OAB/RS),
Claudia Sobreiro de Oliveira), parabenizo as advogadas responsáveis pelos artigos do e-book
"Elas na Advocacia II".
Boa leitura!
Ricardo Breier
Presidente da OAB/RS
12
MENSAGEM
A Comissão da Mulher Advogada do Rio Grande do Sul e a Escola Superior da
Advocacia do Rio Grande do Sul entregam à advocacia brasileira valiosa contribuição
acadêmica com a publicação da obra Elas na Advocacia.
Existem muitos fatores que fazem com que as mulheres não encontrem as mesmas
condições que os homens para ocuparem espaços e darem visibilidade a seu trabalho na
advocacia: desigualdades visíveis e invisíveis que, em razão do gênero, impõem às mulheres
desafios e obstáculos a mais.
Atenta a essa realidade na qual historicamente nem sempre é garantido às
mulheres espaços para manifestação de suas ideias e visibilidade de seus trabalhos, esse
extraordinário projeto da CMA RS e ESA RS, já em seu segundo volume, impulsiona as
vozes femininas da advocacia gaúcha.
Artigos que decorrem do conhecimento e experiência das advogadas gaúchas nas
mais diversas áreas de atuação: direitos das mulheres, direito de família, do consumidor,
dos contratos, criminal, trabalhista, tributário, administrativo, empresarial, direitos
humanos.
A Seccional do Rio Grande do Sul mais uma vez valoriza o trabalho das
advogadas gaúchas garantindo a elas o direito de mostrarem sua competência e de
ocuparem espaços de notoriedade. A Comissão da Mulher Advogada e a Escola Superior
da Advocacia da Seccional do Rio Grande do Sul estão de parabéns.
Daniela Lima de Andrade Borges
Presidente da CMA Nacional
13
PREFÁCIO
Apresentar o e-book “Elas na Advocacia II” reveste-se, para nós, de um orgulho
especial. A coletânea de artigos, lançada no mês em que se reafirma a luta pela igualdade de
direitos entre os gêneros, reforça a visibilidade do protagonismo da advocacia exercida pelas
mulheres. Na apresentação desta obra homenageamos as setenta e três autoras que, apesar
das dificuldades inerentes à pandemia e a distribuição desigual das tarefas durante o longo
período de isolamento social, contribuíram para a materialização do conhecimento
produzido através das experiências femininas na advocacia.
Os cinquenta e sete artigos trazidos nesse e-book tratam dos mais diversos temas
relevantes para a advocacia e sobre eles são lançados múltiplos olhares promovendo uma
abordagem interdisciplinar dos fenômenos e da ciência jurídica. A coletânea, nesse sentido,
retrata a relação dialogal que a Escola Superior da Advocacia do Rio Grande do Sul
(ESA/OAB-RS), braço cultural da Ordem dos Advogados do Brasil, mantém com Comissão
da Mulher Advogada da OAB-RS (CMA/OAB-RS), reproduzindo a relação indissociável
entre educação e direitos humanos, tendo a igualdade de gênero como uma das suas metas e
o conhecimento como caminho para a construção de uma sociedade solidária, comprometida
com o respeito pela dignidade de todos.
Aos leitores e às leitoras, desejamos uma boa e profícua leitura e que esta obra sirva
de inspiração para que a advocacia siga combativa na busca pela igualdade entre mulheres e
homens, pela liberdade e autonomia na vida cotidiana, sobretudo, nos espaços de liderança
e de poder.
Porto Alegre, março de 2021.
Rosângela Maria Herzer dos Santos
Diretora Geral da Escola Superior da Advocacia da OAB/RS
Fernanda Corrêa Osorio
Diretora de Cursos Permanentes da Escola Superior da Advocacia da OAB/RS
14
APRESENTAÇÃO
A Comissão da Mulher Advogada da OAB/RS, Gestão 2019/2021 disponibiliza à
comunidade jurídica uma de suas realizações mais importantes, o E-book ELAS NA
ADVOCACIA II.
O intuito da obra foi, uma vez mais, prestigiar o coletivo, propiciando um canal de
divulgação do alto grau de capacitação das advogadas gaúchas, muitas das quais atuam na
CMA.
Na Advocacia, assim como em toda a sociedade brasileira, as mulheres enfrentam
inúmeras barreiras para a real participação em todos os ambientes públicos e privados,
dependendo ainda de legislações diversas, ações afirmativas, dentre outras iniciativas para
ter o devido acolhimento e respeito.
Neste segundo E-book seguimos pensando em ampliar o espaço da atuação das
Advogadas, com reconhecimento técnico pela excelência dos artigos submetidos e
caminhando todas, lado a lado, em busca da igualdade de gênero no mundo jurídico e na
Seccional gaúcha
A igualdade em todas as esferas da OAB vem chegando com a Paridade aprovada no
CFOAB, em sessão histórica de 14.12.2020. Teremos mais mulheres em todos os espaços
da nossa Seccional e no interior do Estado.
Já na esfera política a situação é diversa. Poucas conseguem se eleger, ausência de
verbas e as que chegam, valores irrisórios, chegam uma semana ou duas antes da eleição. O
desrespeito com as mulheres, eleitas ou não, é imenso, chegando a configurar assédio
político ou violência política nos casos mais graves.
Somados a todos estes fatores estamos enfrentando uma pandemia que não ocorria
desde os últimos cem anos, portanto desconhecida de todas nós. Como presidente da CMA,
posso afirmar que foi um grande desafio. Pesquisas nacionais e internacionais mostram que
as mulheres foram as mais atingidas. Houve um decréscimo na produção acadêmica porque
cumularam vários papéis no cenário doméstico, tais como professora, cozinheira, lavadeira,
faxineira e geralmente responsáveis pelas idas ao supermercado. Isto tudo sem abandonar o
trabalho, embora o maior número de desempregadas sejam as mulheres.
Estes acontecimentos me fizeram crer que a adesão ao E-book fosse menor que na
primeira edição e não fiquei insistindo, pois, os entraves eram de grande monta.
Para minha surpresa, o chamado foi tão atendido, que tivemos mais artigos que no
ano passado, o que me enche de orgulho e gratidão a cada uma das autoras. É uma obra que
se consolida cada vez mais contando hoje com cinquenta e nove (59) artigos.
Os temas jurídicos abordados seguem de livre escolha das autoras interessam a
diversas áreas do Direito, como por exemplo, direito ambiental, dir. processual civil, direito
de família, direito penal, mediação de conflitos, direito do consumidor, direito internacional,
desporto feminino, previdenciário, desigualdade de gênero no campo, dentre outros também
muito instigantes.
15
É também o momento de agradecer o trabalho e a dedicação das minhas colegas na
Diretoria da CMA, Alba Elizabeth Pias Coelho, Luceline Teixeira Prado, Elisa Oliveira
Branco, das Coordenadoras do GT de Produção Científica, Fabiana Ribeiro e Maiaja
Franken de Freitas e ao apoio de todas as demais Coordenadoras da Comissão da Mulher
Advogada.
À Escola Superior de Advocacia do RS, na pessoa de sua Diretora-Geral, Rosangela
Herzer dos Santos e toda a Diretoria, especialmente os Diretores Fernanda Correa Osório,
nosso profundo agradecimento pela excelência do trabalho realizado e pelo acolhimento
dispensado à CMA, possibilitando publicação da presente obra.
À Ordem dos Advogados do Brasil -Seccional RS, na pessoa do Ilustre Presidente
Ricardo Breier e toda a sua Diretoria, nossa gratidão pelo apoio incansável à Comissão da
Mulher Advogada e por acreditar na necessidade de maior inserção da Mulher Advogada na
OAB/RS.
A todas as Colegas Autoras registro meu agradecimentoe reconhecimento por
estarem conosco uma vez mais. Vocês servirão sempre de exemplo e inspiração para as
próximas Colegas que assumirem a Comissão da Mulher Advogada da OAB/RS.
Porto Alegre, março de 2021.
Claudia Sobreiro de Oliveira
Presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/RS
16
O ENSINO JURÍDICO NO BRASIL E A GRADUAÇÃO À
DISTÂNCIA ADAPTADA AO SÉCULO XXI
Adriana Bitencourt Bertollo1
Resumo: Esse breve estudo visa refletir sobre a superação das dificuldades que obstam a
proposta de implementação de cursos de graduação em Direito integralmente à distância,
especialmente diante de consequências sociais e profissionais apontadas a partir da
fiscalização implementada pelo Ministério da Educação e pela Ordem dos Advogados do
Brasil, indicativas da má qualidade do ensino, gerando massivas reprovações no Exame de
Ordem e falta de atingimento das metas para obtenção de selo de qualidade pela OAB. O
estudo alerta quanto à necessidade de superação dos antigos métodos de ensino, calcados
num aprendizado tradicional, dogmático, alijado do aluno como centro desse aprendizado e
inibidor de uma visão intercultural e globalizante.
Palavras-chave: Ensino jurídico – Metodologias ativas. Globalização.
INTRODUÇÃO
O ensino jurídico no Brasil vem passando por questionamentos e turbulências, sendo
constantes as propostas legislativas para alteração das regras legais que regulamentam
profissões jurídicas, em especial a advocacia. Seguidamente reverberam manifestações em
desfavor do Exame de Ordem, assim como já houve proposição para criação de cursos
jurídicos que respaldassem a figura do profissional “Paralegal”, entendido como aquele que
pode atuar em um cenário jurídico que dispensa a exigência de aprovação aos quadros da
OAB, espécie de “gestores de escritório de advocacia” (BERTOLLO, 2017, p.
27). Estruturas curriculares são questionadas e, atualmente, a sociedade e a comunidade
jurídica convivem com a possível realidade de cursos jurídicos de graduação integralmente à
distância, proposta que pode vir a ser respaldada pelo atual período de pandemia declarado
pela Organização Mundial de Saúde2.
Desse modo, urge a observação crítica acerca de mais uma onda modificadora do
ensino jurídico, a fim de afastar possíveis consequências nefastas advindas
1 Mestranda em Direito das Relações Internacionais e da Integração na América Latina (UDE-Uy). Especialista
em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho. Especialista em Direito Processual Civil. Professora do
Instituto Brasileiro de Direito (IBIJUS). Advogada Pública - OAB/RS nº 47.576.
2 Em 11 de março de 2020, a OMS declarou pandemia causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2).
17
de eventual deficiência em sua qualidade. Torna-se essencial ao exercício da cidadania, a
reflexão sobre a espécie de profissionais que pretendemos formar e quais as expectativas
desses futuros profissionais frente ao mundo globalizado.
O ensino à distância, sem dúvida, é uma ferramenta da modernidade, da atual era da
Revolução da Informação. Entretanto, é preciso ter cautela e questionar se a derrubada dos
muros das faculdades físicas é realmente uma proposta que atende às demandas de um
mundo globalizado.
A democratização do acesso ao ensino deve ser avaliada à luz dos diversos fatores
sociais, entre eles razões mercadológicas e políticas, a fim de evitar-se grave prejuízo social
futuro e o sentimento de vazio de quem eventualmente venha a buscar navegar em águas
mais tranquilas e, ao final da jornada, não encontre o oásis pretendido.
Esse trabalho adota pesquisa bibliográfica, amparo em buscas legislativas e matérias
jornalísticas, no escopo de propor uma reflexão sobre mais uma etapa do que
convencionamos denominar de onda renovadora do ensino jurídico.
1. BASTA A DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO AO ENSINO
JURÍDICO VIRTUAL?
O direito à educação está elencado no artigo 6º da Constituição da
República, compondo o rol de direitos sociais de segunda geração ou segunda dimensão. A
garantia constitucional da educação, em nosso país, corresponde a uma categoria de direitos
que exigem um agir estatal, dependem da execução de políticas públicas e compõe uma
plêiade de condições para satisfação dos demais direitos básicos, que perfazem a teia apta a
amparar a visada “dignidade da pessoa humana”.
Sobre os direitos de segunda geração ou dimensão, Guilherme Peña de Moraes (2016,
p. 647) leciona acerca da necessidade do agir estatal apto a proporcionar efetivação aos
direitos sociais, como é o caso da educação. Tais garantias dependem de um sistema de
freios e contrapesos que atuem conforme a geração de políticas públicas, a fim de que se
proclame um mínimo existencial, ou seja, um conteúdo de direitos sem o qual “a pessoa
humana não vive, vegeta” (DÜRIG; MAUNZ, 1987, p.43).
18
Esse contexto social conduz à necessária conclusão de que o direito à educação está
ligado a propósitos constitucionais maiores, que cravam pilares no tecido social, visando
o desenvolvimento do país, a ampliação da pesquisa científica e tecnológica.
Com efeito, a finalidade do ensino jurídico é entregar profissionais com capacidade
reflexiva e crítica, capazes de atuar na proteção aos direitos fundamentais, dentro de um
sistema que preste homenagem aos valores e princípios. Não é sem razão que, segundo
o artigo 133 da Constituição da República, “o advogado é essencial à administração da
justiça”.
Nesse contexto, as novas diretrizes curriculares da graduação em Direito, estipuladas
na Resolução CNE/CES nº 5, de 17 de dezembro de 2018 do Ministério da Educação (MEC),
estabelecem que os cursos de Direito devem contribuir com a formação do perfil do
graduando, mediante o atingimento de determinadas competências que perpassam uma
formação geral, humanística, domínio da terminologia jurídica, capacidade de
argumentação, aliado a uma postura reflexiva e cidadã3.
Dessa forma, a implementação de cursos jurídicos integralmente à distância terá de
propiciar ao estudante o desenvolvimento dessas competências necessárias ao exercício
profissional, missão que deve se socorrer do uso de metodologias ativas e de todas as formas
de ensino mais consentâneas com a formação condizente aos estudantes do século XXI.
A partir desse contexto, que exige capacidade crítica e comprometimento social,
pretende-se promover a reflexão a fim de averiguar se basta aos propósitos de
desenvolvimento social no país, o mero acesso ao ensino integralmente à distância, despido
da avaliação de todo o entorno pelo qual trafegam os profissionais do Direito.
Faz-se mister, inclusive, adequar o ensino jurídico dentro desse novo cenário virtual,
concatenando o conteúdo à tecnologia da informação, sem perder de vista as habilidades
comportamentais (soft skills) cada vez mais pertinentes ao bom profissional, habilidades
estas que complementam o perfil técnico do profissional (hard skills).
3 Art. 3º O curso de graduação em Direito deverá assegurar, no perfil do graduando, sólida formação geral,
humanística, capacidade de análise, domínio de conceitos e da terminologia jurídica, capacidade de
argumentação, interpretação e valorização dos fenômenos jurídicos e sociais, além do domínio das formas
consensuais de composição de conflitos, aliado a uma postura reflexiva e de visão crítica que fomente a
capacidade e a aptidão para aprendizagem, autônoma e dinâmica, indispensável ao exercício do Direito,
prestação da justiça e ao desenvolvimento da cidadania.
Parágrafo único. Os planos de ensino do curso devem demonstrar como contribuirão para a adequada formação
do graduando em face do perfilalmejado pelo curso
19
O caminho não é simples pois o acesso ao ensino não pode ser divorciado das suas
finalidades: obtenção de emprego, formação profissional adequada, satisfação pessoal,
preparação ao mercado de trabalho saturado e competitivo, desempenho de um serviço
adequado como propósito de cidadania e, daqui em diante, igualmente adequado às normas
de biossegurança.
Nesse cenário, também pesam os números expressivos de reprovações no Exame de
Ordem, o alto investimento exigido à preparação dos candidatos aos concursos públicos, alta
competividade no mundo do trabalho, inevitáveis frustações e tudo o mais que pese sobre os
ombros quando os sonhos não se sustentam em sólidas bases.
Antes da abertura desordenada das portas do ensino jurídico, merecem destaque
vozes que clamam pela sua urgente melhoria. Nesse sentido a lição de Rafael Fonseca
Ferreira (2016, p. 23-24) acerca da crise no ensino jurídico brasileiro:
O Direito no Brasil sofre de um déficit hermenêutico-constitucional que atravessa
desde a academia até a prestação jurisdicional, inclusive, a própria jurisdição
constitucional. São todos, em regra, reféns de um modelo liberal-individualista-
patrimonialista de Direito baseado em teorias ultrapassadas, recepções
equivocadas, metodologias antiquadas, do modo pragmático de ensino –
concurseiro, calcado em repertório jurisprudencial e ancorado em doutrinas que
repetem verbetes e ementários, uma doutrina que não doutrina.
Portanto, em um mundo globalizado, é interessante questionar em que moldes deverá
ocorrer a democratização do acesso ao ensino jurídico mediante a sua total virtualização, sob
pena de ser confeccionada com elementos frágeis e incompatíveis para resistir às intempéries
do mundo lá fora.
2. A MERCANTILIZAÇÃO DO ENSINO EM UM MUNDO GLOBALIZADO
Dentre os negócios internacionais, cada vez mais presentes em virtude da
globalização, não é diferente a oferta mercadológica atinente aos serviços na área
educacional.
A tese de doutoramento de Lucas da Silva Tasquetto (2014) aborda o tema da
liberalização comercial dos serviços educacionais e sua consequência social quando
inexistente um prudente sistema regulatório:
20
Ao mesmo tempo em que a liberalização do comércio de serviços pode ter efeitos
positivos sobre a dimensão liberal do direito à educação em relação à liberdade de
ensino – o financiamento não discriminatório e o reconhecimento de diplomas, por
exemplo -, a concorrência internacional acentuada pelos compromissos em
serviços educacionais também orienta as políticas educacionais nacionais em
matéria de garantia da qualidade, taxas escolares e pesquisa. Dessa forma,
restringe a margem de manobra do Estado na realização da dimensão
intervencionista do direito à educação, e mais precisamente na implementação de
um direito de acesso em plena igualdade a um ensino superior de qualidade, sob o
risco de acentuar o desenvolvimento de uma educação com níveis cada vez mais
díspares de qualidade.
Não são novidade os estudos que alertam acerca da mercantilização do ensino, a
exemplo da experiência empírica acompanhada por Carlos Eduardo Pereira Siqueira
(2016), com um grupo de estudantes de Direito, que cursavam cadeiras de estágio de prática
jurídica, na Universidade Federal de Sergipe (UFS). A proposta da pesquisa foi analisar o
comprometimento do ensino jurídico superior com a “formação de pessoas autônomas e
capazes de criar e recriar a história”. Para o autor, as universidades prezam mais pela
preparação ao mercado de trabalho, deixando a descontento a reflexão e a produção de
conhecimento científico apto a promover a transformação social (SIQUEIRA, p. 74-75).
Noam Chomsky (2017, p. 215) também reflete acerca dos perigos da educação
voltada ao mercado, que se opõe aos propósitos maiores da educação superior, gerando mais
desigualdade econômica, menor voz ativa à população, mediante a quase inexistente
regulamentação por governos incompetentes, burocráticos e parasitários (CHOMSKY,
1999, p.3).
Desse modo, o ensino jurídico, na visão competente de Ângela Kretschmann e
Jaqueline Mielke Silva (2014, p. 63), jamais pode ser divorciado ou alheio às exigências
sociais, identificando as autoras que uma das causas da crise contemporânea é o alijamento
acerca da análise de princípios e da própria realidade social.
Com efeito, é preciso orientar a criação de cursos de graduação à distância alinhada
à nova era digital em que vivemos, cuja popularização do conhecimento é notória e,
justamente por isso, demanda que a formação dos profissionais em Direito seja realizada por
professores comprometidos com uma nova proposta pedagógica, consentânea ao ensino no
século XXI.
21
3. A EDUCAÇÃO JURÍDICA NO SÉCULO XXI
Situada a problemática da crise do ensino jurídico superior em um cenário de
globalização, no qual se deu a expansão do acesso ao ensino, especialmente após a facilitação
pelo ingresso de grupos econômicos nesse mercado educacional, além de outros problemas
metodológicos do próprio ensino, torna-se interessante questionar cada vez mais o aspecto
qualitativo, que merece se sobrepor ao viés meramente quantitativo e
supostamente democratizador.
A educação no Brasil tem assento constitucional, especialmente nos artigos 206 e
207 da Constituição da República, que prezam pela adoção de um sistema baseado em
princípios que elejam condições de igualdade de acesso e permanência na escola, mediante
um sistema que valorize os profissionais e a respectiva qualidade do ensino ministrado,
garantindo a autonomia didático-científica às universidades (artigo 207, CR/1988). A partir
das premissas constitucionais, o ensino no Brasil é regulamentado pela Lei das Diretrizes e
Bases da Educação Nacional (LDB), a Lei Federal nº 9.394/1996, além dos decretos e
portarias ministeriais, da lavra do Ministério da Educação (MEC).
Conforme a portaria mais atual, editada no período de pandemia, sob nº 343,
especificamente em 18 de março/2020, houve autorização pelo MEC, em caráter
emergencial, para “substituição das disciplinas presenciais, em andamento, por aulas que
utilizem meios e tecnologias de informação e comunicação, nos limites estabelecidos pela
legislação em vigor (...)”. Entretanto, essa autorização para virtualização de atividades não
inclui os cursos de Medicina, bem como disciplinas que envolvam “práticas profissionais e
de laboratórios nos demais cursos” (art. 1º, § 3º da Portaria 343/2020).
Nesse ponto, é prudente reafirmar a importância da formação profissional, que
hodiernamente se destaca com a preservação do ensino de graduação em Direito no formato
híbrido, ou seja, resguardando o maior percentual para atividades presenciais, que irão
contribuir com o futuro desempenho profissional do aluno.
Nesse compasso, o tema da migração do ensino superior em Direito para a
modalidade integral à distância, ainda é alvo de opiniões divergentes, embora Salum, Gomes
e Ramires (2018, p. 138) destaquem que esse formato de ensino seja realidade em países da
Europa, a exemplo da Inglaterra e Espanha.
Essa comparação é necessária sobretudo quando se pensa em um mundo globalizado,
no qual as oportunidades de interação cultural podem se ampliar. Ademais, um dos objetivos
22
para um plano mundial de desenvolvimento sustentável, formulados pela Organização das
Nações Unidas (ONU) é, justamente, uma proposta de “assegurar uma educação inclusiva e
equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida a
todos e todas” (ODS 4). Esse objetivo de promoção de uma educação de qualidade, também
se conjuga a outros objetivos mundiais de sustentabilidade, a exemplo do alcance do trabalho
decente e crescimento econômico (ODS 8), redução das desigualdades (ODS 10) e,
especialmente,erradicação da pobreza (ODS 1)6, propostas formuladas pela ONU em sede
da Agenda 2030.
Não é de se olvidar, que a República Federativa do Brasil, forte no artigo 4º da
Constituição Federal, preza pelo desenvolvimento das relações internacionais, bem como
das trocas culturais que advém desse contexto, especialmente no âmbito da comunidade
latino-americana. Assim, é imperioso promover o ensino jurídico a um patamar mais
universalizante, mas, antes disso, suprir as deficiências de ensino ultrapassado.
4. PROPOSTA DE UMA METODOLOGIA DE ENSINO INOVADORA
Portanto, foram pautadas as principais dificuldades que emperram o ensino jurídico
superior de qualidade no Brasil, especialmente resultando em instituições que não
oportunizam aos seus alunos uma base sólida para aprovação no exame da OAB, concursos
públicos ou desempenho profissional geral, além de não lograrem êxito como instituições
reconhecidas pela OAB (selo de qualidade)4.
Inobstante isso, a pergunta a ser feita não é “se” a proposta do ensino de graduação
em Direito à distância será efetivada algum dia, mas “quando” esses percalços serão
superados e essa proposta poderá se tornar uma realidade que permita a interculturalidade.
Vozes modernas acenam com inovadoras propostas que questionam a antiga noção
do professor como detentor maior do conhecimento, aquele que distribui “verticalmente” o
saber (BRITO, 2019, p. 109). Na atual quadra da história o professor passa a ser um
orientador do aluno, especialmente na era em que o conhecimento se encontra a um clicar
de dedos.
4 ” Pesquisa realizada pela FGV Projetos mostra que, nos últimos 4 anos, 8 em 10 candidatos são reprovados
no Exame de Ordem da OAB (Ordem de Advogados do Brasil). A taxa de reprovação é de 82,5%”. Disponível
em: <https://www.editoraforum.com.br/noticias/de-cada-10-candidatos-8-sao-reprovados-no-exame-de-
ordem/#:~:text=Pesquisa%20realizada%20pela%20FGV%20Projetos,%C3%A9%20de%2082%2C5%25.>.
Acesso em 03 agosto 2020.
https://www.editoraforum.com.br/noticias/de-cada-10-candidatos-8-sao-reprovados-no-exame-de-ordem/#:~:text=Pesquisa%20realizada%20pela%20FGV%20Projetos,%C3%A9%20de%2082%2C5%25.
https://www.editoraforum.com.br/noticias/de-cada-10-candidatos-8-sao-reprovados-no-exame-de-ordem/#:~:text=Pesquisa%20realizada%20pela%20FGV%20Projetos,%C3%A9%20de%2082%2C5%25.
23
O olhar lançado por Bacich e Moran (2018), no prefácio que inaugura a obra
“Metodologias Ativas para Uma Educação Inovadora” é inspirador nesse sentido:
Os estudantes do século XXI, inseridos em uma sociedade do conhecimento,
demandam um olhar do educador focado na compreensão dos processos de
aprendizagem e na promoção desses processos por meio de uma nova concepção
de como eles ocorrem, independentemente de quem é o sujeito e das suas
condições circundantes. No mundo atual, marcado pela aceleração e pela
transitoriedade das informações, o centro das atenções passa a ser o sujeito que
aprende, a despeito da diversidade e da multiplicidade dos elementos envolvidos
nesse processo.
Portanto, a luta desenvolvida pela OAB no sentido de exigir a transformação de
alunos em cidadãos críticos é mais do que oportuna e salutar em uma era conhecida como a
era do conhecimento. Não se pode desejar menos.
Nesse compasso, é preciso conjugar o programa dado em sala de aula, com toda a
riqueza cultural e vivências que podem ser trazidas pelos alunos. Nesse sentido,
metodologias como a “sala de aula invertida” urgem como propostas importantes.
Segundo Brito (ano, p. 108) “a sala de aula invertida possibilita que os professores
conheçam melhor seus alunos e identifiquem as habilidades e fragilidades de cada um”. É o
aluno protagonizando o saber e proporcionando, ao lado de seus pares, um verdadeiro
compartilhamento das informações, com o professor na condição de bússola e, por que não
dizer, eterno aprendiz.
CONCLUSÃO
Esse breve ensaio, longe de deslindar o caminho da virtualização do ensino jurídico
brasileiro, ou de vislumbrar o cenário pós-pandemia, pautou-se na mera identificação do
ensino à distância como uma das propostas para uma educação globalizante.
A formação de profissionais na área jurídica com capacidade de
raciocinar criticamente e, bem assim, entregar respostas mais efetivas aos anseios sociais em
sua área de atuação, certamente pode exsurgir a partir de qualquer meio de formação, seja
no âmbito presencial ou virtual.
Não há um único caminho a seguir. Há, sim, um futuro antecipado pela pandemia,
exigindo a assimilação de competências imprescindíveis nesse cenário imposto por um
mundo que adoeceu e necessita reinventar-se. Um mundo forjado na rapidez de uma
24
sociedade em rede5, na aventura da inteligência artificial, cuja modernidade desafia cada vez
mais um olhar humanizante.
REFERÊNCIAS
BACICH, Lilian. MORAN, José. Org. Metodologias Ativas para uma Educação
Inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018.
BERTOLLO, Adriana Bitencourt. Reflexão Sobre a Qualidade do Ensino Jurídico no
Brasil a partir da Justificativa ao Projeto de Lei que Cria a Figura Profissional do
“Paralegal” e a Possibilidade de Afronta ao Direito como Integridade na Visão de
Ronald Dworkin. Ensino Jurídico no Brasil: 190 anos de história e desafios/ Petry,
Migliavacca, Osório, Danilevicz, Fuhrmann (Org); Bertollo...[et al.]. 1ª ed. Porto Alegre:
OAB/RS.2017.999p.
BRASIL. Planalto. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em 10 de
junho de 2020.
BRASIL. Planalto. Lei nº 9.394/1996. Dispõe sobre as diretrizes e bases da educação
nacional. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm. Acesso em
08 de Julho de 2020.
BRASIL. Câmara dos Deputados. PL 5749/2013. Altera a Lei 8.906, de 04 de julho de 1994,
dispondo sobre a criação da figura do paralegal. Disponível em:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=580518>.
Acesso em 06 de junho de 2020.
BRITO, Daniel Higa Souza. A Sala de Aula Invertida e o Ensino Jurídico no Brasil:
desafio na incorporação do uso das tecnologias da informação e comunicação como
instrumentos no processo de construção do conhecimento. Educação de Qualidade e
Desenvolvimento na Lusofonia. coord. COUTINHO, Francisco Pereira; OLIVEIRA,
Emillin de. Editora Universidade Nova de Lisboa. Portugal: 2019, p. 103-14. Disponível em:
<https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-
>PT&as_sdt=0%2C5&q=A+Sala+de+Aula+Invertida+e+o+Ensino+Jur%C3%ADdico+no
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ocesso+de+constru%C3%A7%C3%A3o+do+conhecimento&btnG=>. Acesso em 03 de
agosto de 2020.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Tradução Roneide Venancio Majer. 17ª
edição, revista e ampliada. São Paulo: Paz e Terra, 2016.
5 Castells (2016, p. 128), na obra a Sociedade em Rede, refere “o paradigma da tecnologia da informação não
evolui para seu fechamento como um sistema, mas rumo à abertura como uma rede de acessos múltiplos. É
forte e impositivo em sua materialidade, mas adaptável e aberto em seu desenvolvimento histórico.
Abrangência, complexidade e disposição em forma de rede são seus principais atributos”.
25
CHOMSKY, Noam. O Lucro ou as Pessoas. Bertrand Brasil, 2002. Disponível
em: http://bibliotecadigital.puc-campinas.edu.br/services/e-books/Noam%20Chomsky-
1.pdf
___________ Optimismo Contra El Desaliento: sobre el capitalismo, el imperio y el
cambio social. Tradução de Francesc Reyes Camps. 1ª edição. Espanha, 2017.
FERREIRA, Rafael Fonseca. Internacionalizaçãoda Constituição: Diálogo
hermenêutico, perguntas adequadas e bloco de constitucionalidade. 1ª edição. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2016.
FREIRE. Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos.
Apresentação de Ana Maria Araújo Freire. Carta-prefácio de Balduino A. Andreola. São
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INSTITUTO DOS ADVOGADOS DO BRASIL. Parecer nº 01/2014. Comissão de Direito
Administrativo. Disponível em: http://www.iabnacional.org.br/noticias/quatro-pareceres-
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SALUM, Mirella Franchini de Almeida Prado. GOMES, José de Anchieta. RAMIRES,
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26
A EMENDA CONSTITUCIONAL N.º 103 DE 2019 E A RESTRIÇÃO
DOS DIREITOS DAS MULHERES
Adriana de Góes dos Santos1
Natacha Bublitz Camara 2
Resumo: A atualidade do tema foi imprescindível para sua escolha, diante de um quadro de
alterações legislativas previdenciárias constantes, e também pelo fato de os direitos das
mulheres serem alvo de grandes restrições pela Emenda Constitucional n.º 103/19, que
afastam a concretização do princípio da isonomia e promovem ainda mais desigualdade
social. Com enfoque na perspectiva de gênero, o presente artigo analisará a diferença no
acesso a proteção social previdenciária para o risco de velhice entre homens e mulheres, bem
como a ausência de superação das discriminações de gênero no mercado de trabalho que
justifiquem o aumento do critério etário para aposentadoria das mulheres. O objetivo central
deste artigo é demonstrar que as restrições as prestações previdenciárias impostas as
seguradas, ferem vários princípios, de forma ainda mais acentuada o da igualdade material
e isonomia de tratamento. Nesta pesquisa será utilizado o método de abordagem dedutivo,
uma vez que, se partirá de generalidade e premissas relacionadas ao tema proposto, para
sugerir a aplicação das conclusões obtidas em casos particulares.
Palavras-chave: Mulheres. Direitos. Igualdade Material. EC n.º 103/2019
INTRODUÇÃO
O presente artigo intitulado a Emenda Constitucional n.º 103 de 2019 e a restrição
dos direitos das mulheres, tem por objetivo debater acerca do confronto entre as alterações
promovidas em relação a concessão de benefício de aposentadoria para as seguradas e a
ofensa ao princípio da igualdade consagrado em nosso ordenamento jurídico e assegurado
como direitos humanos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Pela nova redação dada ao §7 do artigo 201 da Constituição Federal, o novo benefício
de aposentadoria programada no Regime Geral da Previdência Social, passou a exigir a idade
mínima de 62 anos para a mulher, observado o tempo mínimo de contribuição de 15 anos.
Por outro lado, não se observou mudança da regra em relação ao sexo masculino.
1 Advogada, especialista em Direito Processual Civil pela Faculdade Anhanguera de Passo Fundo, em Direito
do Trabalho e Processo do Trabalho pela Faculdade Meridional IMED, e Direito Previdenciário pela a
Faculdade Damásio de Jesus, OAB/RS 80.684, e-mail: adrianagoesadv@gmail.com.
2 Advogada. Graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Pós Graduanda
em Direitos Humanos e Constitucional pelo Ius Gentium Conimbrigae da Faculdade de Direito da
Universidade de Coimbra. E-mail: natachabublitz@gmail.com.
mailto:natachabublitz@gmail.com
27
A Emenda Constitucional, em atenção ao princípio da confiança legítima, previu uma
regra de transição que estipula um aumento progressivo da idade mínima, aplicáveis as
mulheres que já estiverem filiadas ao Regime Geral da Previdência na data da promulgação
da Emenda Constitucional.
Por meio desta pesquisa primeiramente pretende-se realizar uma reflexão sobre a
inclusão das mulheres no mercado de trabalho, desafios históricos e o tratamento dispensado
pela legislação previdenciária, que visava compensar as discrepâncias existentes entra a
empregabilidade masculina e feminina assegurando uma igualdade formal.
Serão abordadas as dificuldades na participação das mulheres no mercado de trabalho
e a desigualdade de oportunidades face a segregação horizontal e vertical, bem como a
dificuldade de permanência e constância no mercado de trabalho face a economia de
cuidado, em que o trabalho não remunerado e voluntário de cuidado dos filhos, doentes,
idosos e de pessoas com deficiência é realizado majoritariamente realizado pelas mulheres.
Através de um enfoque de perspectiva de gênero, será analisada as diferentes formas
que as mulheres e homens participam do mercado de trabalho e como se dá a desigualdade
estrutural da nossa sociedade que perpetua as desavenças das mulheres no mercado de
trabalho e seus impactos na proteção social previdenciária.
Posteriormente, faremos uma reflexão acerca das restrições impostas pela Emenda
Constitucional n.º 103 de 2019, que limitou drasticamente o acesso da mulher a prestação
previdenciária de aposentadoria por idade, ao aumentar o requisito etário, sem que tenhamos
alçado à igualdade material.
A aplicação do enfoque de perspectiva de gênero reconhecendo que não existe,
atualmente, uma situação neutra de gênero, uma vez que as mulheres possuem dificuldade
no permanência no mercado de trabalho e consequente dificuldade no acesso aos benefícios
previdenciários, demonstra que o aumento progressivo da idade de aposentadoria de
mulheres implica na dificuldade de acesso a proteção social garantida constitucionalmente,
bem como viola os princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade.
A igualdadenos requisitos da aposentadoria é uma das metas propostas pela
Organização Iberoamericana de Seguridade Social para alcançarmos a equidade de gênero,
porém enquanto não tivermos uma sociedade neutra quanto gênero no mercado de trabalho
e consequentemente na cobertura previdenciária, com a efetiva igualdade tanto formal
quanto material, ainda se fará necessário a utilização de regras diferenciadas para mulheres
28
e homens como instrumento de correção das desigualdades, sob pena de perpetuarmos uma
posição desigual entre mulheres e homens nas prestações previdenciárias e na cobertura dos
riscos socias.
1. DESAFIOS DAS MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO
A Lei Áurea modificou as relações de trabalho no Brasil, eliminando o trabalho
escravo, surgindo assim às primeiras relações assalariadas no país. Essa transição do regime
escravista para o empregatício foi feita gradualmente “Trata-se de período em que a relação
empregatícia se apresenta de modo relevante, apenas no seguimento agrícola cafeeiro
avançado de São Paulo e, principalmente, na emergente industrialização experimentada na
capital paulista e no Distrito Federal. ”3
Dessa forma, acredita-se que a origem do tratamento diferenciado dispensado as
mulheres adveio das relações de trabalho escravas, visto que após serem libertadas grande
parte dessa massa de trabalhadoras foi absorvida no campo ou permaneceu laborando para
pessoas e famílias em suas residências.
A Constituição Federal de 1934, pela primeira vez, mencionou o princípio da
igualdade, ao dispor “Todos são iguais perante a lei. Não haverá privilégios, nem distinções,
por motivo de nascimento, sexo, raça, profissões próprias ou dos pais, classe social, riqueza,
crenças religiosas ou ideias políticas”4, sendo proibidas as diferenças de salários para um
mesmo trabalho, por motivo de sexo.
Por outro lado, a Constituição de 1946, representou um grande retrocesso para as
mulheres, pois retirou a expressão "sem distinção de sexo" quando dizia que todos eram
iguais perante a lei:
Art 141 - A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, a segurança
individual e à propriedade, nos termos seguintes:
§ 1º Todos são iguais perante a lei. 5
3 DELGADO, Maurício Godinho. Princípios de direito individual e coletivo do trabalho. 7. ed. São Paulo:
LTR, 2001, p 107.
4BRASIL. Constituição Federal de 1934. Disponível em
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm >, acesso em 06 de janeiro de 2020.
5BRASIL. Constituição Federal de 1946. Disponível em <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao46.htm >, acesso em 07 de janeiro de 2020.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao46.htm
29
No entanto, somente com o advento da Constituição Federal de 1988 que homens e
mulheres foram tratados de forma igual, extinguiu-se a figura do “chefe da família”, tendo
ambos os cônjuges obrigações e responsabilidades igualitárias no que tange ao sustento do
lar, art. 5º, I: 6
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes:
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta
Constituição;
Em relação a proteção previdenciária, merece ser referida a posição de Berwanger:
A partir do texto da Constituição Federal de 1988, houve equidade de gênero em
relação aos direitos previdenciários, notada principalmente na possibilidade de os
homens, mesmo não sendo considerados inválidos, receberem pensão por morte
de seu cônjuge. Essa modificação no sistema previdenciário foi um
reconhecimento da importância do labor da mulher para as famílias e para a
sociedade, em detrimento da visão do trabalho feminino como subalterno ao do
homem.7
Relativamente às mulheres trabalhadoras rurais, a Constituição de 1988 ao instituir a
categoria de “segurados especiais” promoveu sua inclusão:
Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta
e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes
contribuições sociais:
§ 8º O produtor, o parceiro, o meeiro e o arrendatário rurais e o pescador artesanal,
bem como os respectivos cônjuges, que exerçam suas atividades em regime de
economia familiar, sem empregados permanentes, contribuirão para a seguridade
social mediante a aplicação de uma alíquota sobre o resultado da comercialização
da produção e farão jus aos benefícios nos termos da lei.8
Diante da necessidade de efetivar e regulamentar os direitos reconhecidos aos
empregados domésticos9 pela Emenda Constitucional de n.º 72/2013, foi sancionada a Lei
6BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>, acesso em 06 de janeiro de
2020.
7 BERWANGER, Jane L. W; VERONESE, Oscar. Constituição: Um Olhar sobre Minorias Vinculadas à
\fyucSeguridade Social. Curitiba: Juruá, 2014.
8BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>
9 Art. 1º da Lei 5.859/72, revogada pela LC 150/2015 - Ao empregado doméstico, assim considerado aquele
que presta serviços de natureza contínua e de finalidade não lucrativa à pessoa ou à família no âmbito
residencial destas, aplica-se o disposto nesta lei.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm
30
Complementar n.º 150/2015, representando um grande avanço também no que tange aos
direitos previdenciários, pois estendeu ao segmento as prestações de salário família e auxílio
acidente.
A evolução legislativa foi significativa em relação aos direitos das mulheres, uma
vez que a categoria de empregados domésticos era – e ainda é – ocupada majoritariamente
por mulheres.10
As dificuldades de inserção e manutenção das mulheres no mercado de trabalho são
históricas. No ano de 1979 ocorreu a Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas)
sobre Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, que objetivou o
combate à discriminação contra a mulher por razões de casamento ou maternidade, também
englobando a necessidade de a remuneração ser igual entre homens e mulheres para trabalho
de igual valor.11
A quarta Conferência sobre a Mulher das Nações Unidas, realizada em Pequim em
1995, identificou os problemas relacionados à igualdade de gênero e os dividiu em doze
áreas críticas, entre elas a desigualdade quanto à participação nas estruturas econômicas, nas
atividades produtivas e no acesso a recursos. Entre as inovações consubstanciadas na
Conferência, a conceituação de gênero como “um produto de padrões determinados social e
culturalmente e, portanto, passiveis de modificação veio juntar-se a ênfase no tratamento da
situação da mulher sob a perspectiva de direitos, o que implica reconhecer que a
desigualdade entre homens e mulheres é uma questão de direitos humanos, e não apenas uma
situação decorrente de problemas econômicos e sociais a serem superados. ” 12
Em 2010, ocorreu a chamada Pequim mais 15, oportunidade em que foi apresentado
entre os principais avanços a revogação de leis discriminatórias. No mesmo ano, foi criada
a ONU Mulher, tendo em seus objetivos promover a igualdade de gênero e empoderamento
das mulheres.
Apesar de as reivindicações referentes às condições de trabalho equânimes entrehomens e mulheres surgirem há muito tempo, permanecem atuais as situações de
10 MATIJASCIC, Milko. Previdência para as Mulheres no Brasil: reflexos da inserção no mercado de trabalho.
Texto para Discussão, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 2016, acesso em 07 de janeiro de
2020.
11 BERWANGER, Jane L. W.; VERONESE, Osmar. Constituição: Um Olhar sobre Minorias Vinculadas à
Seguridade Social. Curitiba: Juruá, 2014.
12 Declaração e Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial sobre a mulher – Pequim, 1995 – Disponível
em < http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2013/03/declaracao_beijing.pdf> Acesso em 24 de
maio de 2020.
http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2013/03/declaracao_beijing.pdf
31
desigualdade. É o que se depreende, por exemplo, dos dados divulgados pela ONU
(Organização das Nações Unidas) em 2019, no relatório “Progresso das Mulheres no Mundo
2019-2020: Famílias em um mundo em mudança” ao analisar como as mulheres são afetadas
pelas mudanças que estão ocorrendo nas famílias:
A incorporação das mulheres no mercado de trabalho continua a crescer
significativamente, mas o casamento e a maternidade reduzem as taxas de
participação no mercado de trabalho e, portanto, de renda e benefícios associados
à participação. No mundo inteiro, pouco mais da metade das mulheres com idades
entre 25 e 54 anos são economicamente ativas, proporção que sobe para dois em
cada três no caso de mulheres solteiras. Por sua vez, 96% dos homens casados
estão economicamente ativos, de acordo com os dados do novo relatório. Uma das
principais causas destas desigualdades é que as mulheres continuam a realizar
trabalho doméstico triplo e cuidados não remunerados do que os homens, na
ausência de cuidados acessíveis. 13
No âmbito regional a redução da participação da mulher no mercado de trabalho
mostra-se alarmante. É o que se verifica na pesquisa intitulada Inserção da Mulher no
Mercado de Trabalho da Região Metropolitana de Porto Alegre, realizada pelo
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, relativa a março de
2018:
A taxa de desemprego total das mulheres aumentou pelo terceiro ano consecutivo,
passando de 11,2% em 2016 para 12,4% da PEA em 2017. A taxa de desemprego
aberto subiu de 10,2% para 11,4%, e a taxa de desemprego oculto manteve-se
estável em 1,0% no último ano. Para os homens, a taxa de desemprego total
permaneceu estável em 10,2% em 2017. Destaca-se que a desigualdade entre as
taxas de desemprego total feminina e masculina passou de 1,0 p.p em 2016, para
2,2 p.p em 2017, mais que dobrando (Gráfico A). 14
Além, das dificuldades em se manter no mercado de emprego, atualmente as
mulheres continuam ganhando salários inferiores aos homens para as mesmas ocupações.
Em 2018, o rendimento médio das mulheres ocupadas com entre 25 e 49 anos de idade (R$
2.050) equivalia a 79,5% do recebido pelos homens (R$ 2.579) nesse mesmo grupo etário.
Considerando-se a cor ou raça, a proporção de rendimento médio da mulher branca ocupada
13 ONU – ORGANIZAÇAO DAS NAÇÕES UNIDAS. Progresso das Mulheres no Mundo 2019-2020:
Famílias em um mundo em mudança, disponível em <http://www.onumulheres.org.br/noticias/novo-relatorio-
da-onu-mulheres-apresenta-uma-agenda-politica-para-acabar-com-a-desigualdade-de-genero-nas-familias/>.
Acesso em 07 de janeiro de 2020.
14DIEESE – DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS
SOCIOECONÔMICOS. A Inserção da Mulher no Mercado de Trabalho da Região Metropolitana de Porto
Alegre. Disponível em < https://www.dieese.org.br/analiseped/2018/2018pedmulherpoa.html >, acesso em 07
de janeiro de 2019.
http://www.onumulheres.org.br/noticias/novo-relatorio-da-onu-mulheres-apresenta-uma-agenda-politica-para-acabar-com-a-desigualdade-de-genero-nas-familias/
http://www.onumulheres.org.br/noticias/novo-relatorio-da-onu-mulheres-apresenta-uma-agenda-politica-para-acabar-com-a-desigualdade-de-genero-nas-familias/
https://www.dieese.org.br/analiseped/2018/2018pedmulherpoa.html
32
em relação ao do homem branco ocupado (76,2%) era menor que essa razão entre mulher e
homem de cor preta ou parda (80,1%), segundo pesquisa elaborado pelo IBGE.15
No que toca aos motivos do menor nível de participação feminina no mercado de
trabalho, Flaviano Nicodemos de Andrade Lima demonstra que um dos principias motivo
da dificuldade de permanência no mercado de trabalho é a divisão sexual das tarefas:
Segundo o IBGE, entre as mulheres, na força de trabalho potencial, que estavam
disponíveis para trabalhar, mas que não procuraram trabalho, 20,7% afirmaram
que não tomaram providência para conseguir uma ocupação por ter que cuidar de
afazeres domésticos, de filho ou de outro parente. O mesmo motivo representou
apenas 1,1% das respostas dos homens. Já entre as mulheres na força de trabalho
potencial indisponíveis para começar a trabalhar, a maioria apresentou como
principal motivo para a indisponibilidade ter que cuidar de afazeres domésticos,
de filho ou outro parente. Os dados da PNAD 2017 mostram ainda que as mulheres
dedicam 20,9 horas semanais aos afazeres domésticos, enquanto os homens
dedicam 10,8 horas. 16
Percebe-se que vários são os motivos que afastam as mulheres em idade ativa do
mercado de trabalho, seja pela discriminação histórica, que oferece melhores condições de
empregabilidade aos homens, seja pela maternidade, casamento ou cuidados com o lar, o
fato é que há grande dificuldade para que a segurada atinja os requisitos a concessão das
prestações previdenciárias.
Ainda que a participação da mulher no mercado de trabalho tenha aumentado nos
últimos anos e que a discriminação por razão de sexo seja proibida pela legislação,
configurando uma igualdade formal, percebe-se que os homens e as mulheres possuem uma
posição desigual na sociedade, bem como que ascendem de forma diferenciada aos recursos,
não possuindo uma igualdade material.
A participação das mulheres em atribuições de liderança e comando das organizações
encontra barreiras sutis discriminatórias e perceptíveis que influenciam em oportunidades
de carreiras ao gênero feminino e progressão profissional, caracterizando o fenômeno
denominado teto de vidro.
15 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Mulheres no mercado de
trabalho. Disponível em < https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-
noticias/releases/23923-em-2018-mulher-recebia-79-5-do-rendimento-do-homem>, acesso em 08 de janeiro
de 2019.
16 Lima, Flaviano Nicodemos de Andrade; Kertzman, Ivan (Org.); Amado, Frederico (org). O fim da
aposentadoria por tempo de Contribuição. In: Estudos Aprofundados sobre a Reforma da Previdência:
Salvador: Editora JusPodivm, 2020.
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/23923-em-2018-mulher-recebia-79-5-do-rendimento-do-homem
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/23923-em-2018-mulher-recebia-79-5-do-rendimento-do-homem
33
A fenômeno teto de vidro corresponde a existência de uma quantidade menor de
mulheres em cargos de maior remuneração e de tomada de decisões, configurando uma
discriminação vertical. A ausência de uma participação no mercado de trabalho em
igualdade de oportunidades nos cargos de liderança impacta diretamente em contribuições
previdenciárias menores e consequente no valor das prestações mensais percebidas pelas
mulheres. De modo que a desigualdade na atividade econômica influência no nível da
contribuição das mulheres e na futura renda dos benefícios previdenciários.
A discriminação também ocorre de forma horizontal, através da concentração de
mulherese homens entres os setores econômicos. Tradicionalmente, as mulheres têm se
concentrado nos setores e empregos menos valorizados economicamente, implicando em
menor prestígio, valoração social e menor média salarial, configurando o “piso pegajoso”.
Enquanto as mulheres tendem a se concentrar no setor terciário, os homens concentram-se,
preferencialmente, nos setores primário e secundário, percebendo remunerações elevadas e
desfrutando de melhores condições de trabalho. De modo que o chamado “piso pegajoso”,
espécie de discriminação horizontal das mulheres gera reflexo no valor da contribuição
social e futura renda nos benefícios previdenciários.
Tanto na segregação horizontal, onde mulheres tendem a laboral em trabalhos menos
valorizados, dando ensejo à fenômeno “piso pegajoso”, quanto na segregação vertical,
através do fenômeno conhecido como teto de vidro, no qual barreiras sutis dificultam a
ascensão profissional, fica evidente que tratam-se de fatores determinantes para que os
salários de mulheres e homens permaneçam em patamares distinto e repercutam na
seguridade social. Tais fenômenos demonstram que a sociedade não é neutra relativamente
ao gênero e ainda possui um longo caminho a percorrer para alcançarmos uma equidade de
gênero.
2. DIREITOS PREVIDENCIÁRIOS E AS ALTERAÇÕES PROMOVIDAS PELA EC
103/19
A edição da Constituição Federal de 1988, foi um marco da inclusão previdenciária
para as mulheres, uma vez que além da previsão de redução de cinco anos na aposentadoria
34
por idade em relação ao homem, também previu a diminuição de cinco anos no tempo de
trabalho, na sua modalidade integral ou proporcional17:
Art. 202. É assegurada aposentadoria, nos termos da lei, calculando-se o benefício
sobre a média dos trinta e seis últimos salários de contribuição, corrigidos
monetariamente mês a mês, e comprovada a regularidade dos reajustes dos salários
de contribuição de modo a preservar seus valores reais e obedecidas as seguintes
condições:
I - aos sessenta e cinco anos de idade, para o homem, e aos sessenta, para a
mulher, reduzido em cinco anos o limite de idade para os trabalhadores rurais de
ambos os sexos e para os que exerçam suas atividades em regime de economia
familiar, neste incluídos o produtor rural, o garimpeiro e o pescador artesanal;
II - após trinta e cinco anos de trabalho, ao homem, e, após trinta, à mulher, ou
em tempo inferior, se sujeitos a trabalho sob condições especiais, que prejudiquem
a saúde ou a integridade física, definidas em lei;
III - após trinta anos, ao professor, e após vinte e cinco, à professora, por efetivo
exercício de função de magistério.
§ 1º É facultada aposentadoria proporcional, após trinta anos de trabalho, ao
homem, e após vinte e cinco, à mulher.18
Pelas regras atuais todos as prestações previdenciárias são extensíveis as mulheres.
Ressalta-se como benefício previdenciário de grande relevância para a manutenção da
mulher no mercado de trabalho o salário-maternidade, previsto pela Lei 8.213/91 e contando
atualmente com a redação dada pela Lei nº 10.710, de 2003, e alterações feitas pela Lei n.º
12.873, de 2013:
Art. 71. O salário-maternidade é devido à segurada da Previdência Social, durante
120 (cento e vinte) dias, com início no período entre 28 (vinte e oito) dias antes do
parto e a data de ocorrência deste, observadas as situações e condições previstas
na legislação no que concerne à proteção à maternidade.
Art. 71-A. Ao segurado ou segurada da Previdência Social que adotar ou obtiver
guarda judicial para fins de adoção de criança é devido salário-maternidade pelo
período de 120 (cento e vinte) dias.
Art. 71-B. No caso de falecimento da segurada ou segurado que fizer jus ao
recebimento do salário-maternidade, o benefício será pago, por todo o período ou
pelo tempo restante a que teria direito, ao cônjuge ou companheiro sobrevivente
que tenha a qualidade de segurado, exceto no caso do falecimento do filho ou de
seu abandono, observadas as normas aplicáveis ao salário-maternidade.19
Ainda, sobre a maternidade e a manutenção da segurada no mercado de trabalho,
deve ser mencionada a decisão recentemente prolatada pelo Juiz Guilherme Maines Caon,
17 A modalidade de aposentadoria proporcional não estava disponível para as mulheres por ocasião da edição
da Lei Orgânica de Previdência Social - Lei 3.807/60.
18BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em <
https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_202_.asp>, acesso em 08 de
janeiro de 2020.
19BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Disponível em <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm>, acesso em 08 de janeiro de 2020.
https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_202_.asp
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm
35
da 2ª Vara Federal de Carazinho/RS (29.07.2019), em que este concedeu o benefício de
auxílio doença parental, possibilitando a uma mãe afastar-se do atual emprego, com o fim
de cuidar da filha que possuí uma doença rara20.
O auxílio doença é o benefício devido ao segurado que, havendo cumprido, quando
for o caso, o período de carência21 exigido pela lei, ficar incapacitado para o seu trabalho ou
para a sua atividade habitual por mais de 15 (quinze) dias consecutivos, art. 59 da Lei
8.213/91.22
O auxílio doença parental é um benefício devido ao cuidador de uma pessoa enferma,
permitindo seu afastamento de suas atividades laborativas, inspirado na “licença por motivo
de doença em pessoa da família” da Lei 8.112/90 (art. 83), que trata do Regime Jurídico dos
servidores públicos federais.23 Não existe previsão para esta prestação no Regime Geral de
Previdência social.
A decisão judicial que concedeu o auxílio doença parental foi pautada nos princípios
constitucionais e direitos fundamentais, entre eles o direito à vida e ao trabalho, isonomia e
dignidade da pessoa humana, mostrando-se uma grande evolução ao permitir que a segurada
pudesse se afastar do trabalho para realizar o tratamento de saúde de sua filha, sem que isso
implicasse no seu desemprego.
O Juiz ao conceder o auxílio doença parental aplicou a teoria pentadimensional do
direito, eis que a partir da norma utilizou os princípios normatizados como ferramenta para
incluir atores sociais excluídos e nova relações sociais que não foram amparadas pela norma,
prestigiando os princípios constitucionais e assegurando um direito e garantia fundamental.
Nesse contexto, Hélio Gustavo Alves preleciona, acerca da aplicação da sua teoria
pentadimensional:
Portanto, pela teoria pentadimensional, jamais um juiz poderá e conseguirá aplicar
somente sua vontade, pelo contrário, terá que, na decisão judicial (ao incluir atores
sociais ou nova relação social em normas omissas) fundamentar em
20 Disponível em <https://www2.jfrs.jus.br/noticias/jf-em-carazinho-concede-auxilio-doenca-parental-para-
mae-cuidar-da-filha-com-grave-enfermidade/>, acesso em 08 de janeiro de 2020.
21 Período de carência é o número mínimo de contribuições mensais indispensáveis para que o beneficiário
faça jus ao benefício, consideradas a partir do transcurso do primeiro dia dos meses de suas competências, (art.
24 da Lei 8.213/91).
Art. 25. Da Lei 8.213/91 - A concessão das prestações pecuniárias do Regime Geral de Previdência Social
depende dos seguintes períodos de carência, ressalvado o disposto no art. 26:
I - auxílio-doença e aposentadoria por invalidez: 12 (doze) contribuições mensais; [...]
22BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Disponível em <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm>, acesso em 08 de janeiro de 2020.
23BRASIL. Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990. Disponível em <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8112cons.htm>,acesso em 08 de janeiro de 2020.
https://www2.jfrs.jus.br/noticias/jf-em-carazinho-concede-auxilio-doenca-parental-para-mae-cuidar-da-filha-com-grave-enfermidade/
https://www2.jfrs.jus.br/noticias/jf-em-carazinho-concede-auxilio-doenca-parental-para-mae-cuidar-da-filha-com-grave-enfermidade/
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8112cons.htm
36
princípios ou como o diálogo das fontes existentes, pois não há como aplicar a
teoria pentadimensional sem demonstrar no mínimo a isonomia afetada ou outras
ilegalidades que há na norma julgada. 24
Considerando que desempenho das atividades de cuidado são majoritariamente
exercidos pelas mulheres, gerando a necessidade de afastamento do mercado de trabalho, a
concessão do auxílio doença parental possibilitou a manutenção do vínculo previdenciário,
consistindo em um grande progresso na equidade de gênero.
Se por um lado, a concessão do auxílio doença parental está em consonância com os
princípios constitucionais e ordem social, através da cobertura do novos riscos sociais, por
outro, em total ofensa aos direitos sociais, a Emenda Constitucional n.º 103/2019, restringiu
a prestação de aposentadoria por idade concedida as mulheres, elevando o requisito etário
de sessenta para sessenta e dois anos, art. 201, § 7º:
§ 7º É assegurada aposentadoria no regime geral de previdência social, nos termos
da lei, obedecidas as seguintes condições:
I - 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, e 62 (sessenta e dois) anos de
idade, se mulher, observado tempo mínimo de contribuição; (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 103, de 2019)
II - 60 (sessenta) anos de idade, se homem, e 55 (cinquenta e cinco) anos de idade,
se mulher, para os trabalhadores rurais e para os que exerçam suas atividades em
regime de economia familiar, nestes incluídos o produtor rural, o garimpeiro e o
pescador artesanal. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 103, de 2019)25
Registre-se que ao menos em relação a idade da mulher trabalhadora rural nada foi
alterado, que continua a aposentar-se aos 55 anos. Por outro lado, a aposentadoria por idade
“híbrida”, em que o Segurado pode somar períodos de trabalho rurais e urbanos para
preencher a carência de 180 contribuições, deverá observar o requisito etário de 62 anos após
a alteração do texto constitucional.
A mulher professora, além do tempo mínimo de 25 anos na função de magistério,
passou a ser exigida a idade mínima de 57 anos, requisito inexistente na legislação anterior.
Destaca-se que em relação ao homem professor o tempo na atividade de magistério passou
de 30 para 25 anos, o que até poderia ser considerado um benefício, não fosse a limitação de
60 anos imposta.
24 Alves, Hélio Gustavo. Teoria Pentadimensional do Direito. São Paulo: LTr, 2019.
25BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>, acesso em 08 de janeiro de
2020.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc103.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc103.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc103.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm
37
Paras as servidoras que ingressaram no serviço público até a publicação da EC
nº 20/98, não havia limite de idade para aposentadoria, no entanto, as que entraram até a
edição da EC 41/03, precisavam cumprir o requisito etário de 55 anos, agora serão
necessários 57 anos, além do preenchimento dos demais requisitos:
Art. 4º O servidor público federal que tenha ingressado no serviço público em
cargo efetivo até a data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional poderá
aposentar-se voluntariamente quando preencher, cumulativamente, os seguintes
requisitos:
I - 56 (cinquenta e seis) anos de idade, se mulher, e 61 (sessenta e um) anos de
idade, se homem, observado o disposto no § 1º;
II - 30 (trinta) anos de contribuição, se mulher, e 35 (trinta e cinco) anos de
contribuição, se homem;
III - 20 (vinte) anos de efetivo exercício no serviço público;
IV - 5 (cinco) anos no cargo efetivo em que se der a aposentadoria;
§ 1º A partir de 1º de janeiro de 2022, a idade mínima a que se refere o inciso I
do caput será de 57 (cinquenta e sete) anos de idade, se mulher, e 62 (sessenta e
dois) anos de idade, se homem.26
As policiais civis do Distrito Federal, legislativa federal, policial federal, rodoviárias
e ferroviárias, e as agentes federais penitenciárias ou socioeducativas, precisam atingir a
idade mínima de 55 anos, da mesma forma que os homens.
E ainda a mulher, que laborou exposta a agentes nocivos e prejudiciais a sua saúde
que poderia obter a concessão da aposentadoria especial aos 15, 20 ou 25 anos, sem limitação
de idade, deverá agora possuir respectivamente 55, 58 ou 60 anos.
Após minimamente apresentarmos algumas alterações em relação ao requisito etário
para as mulheres, registrando que todas acompanham regras de transição, que não foram
mencionadas neste momento, eis que não são objetos do presente artigo, passaremos a
analisar essas modificações a luz dos princípios constitucionais.
3. PRINCÍPIOS
Os princípios são à base do ordenamento jurídico, ou seja, o ponto de partida para as
demais normas que deverão estar em harmonia com estas linhas diretivas, as quais deveriam
nortear a produção legislativa.
Sobre o conceito de princípios, cabe referir à definição apresentada por Robert Alexy:
26BRASIL,Emenda Constitucional n.º 103/2019, em <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc103.htm>, acesso em 08 de janeiro de
2020.
http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/103849/emenda-constitucional-20-98
http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/103864/emenda-constitucional-41-03
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc103.htm
38
Princípios são, por conseguinte, mandamentos de otimização, que são
caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados e pelo fato de que a
medida devida de sua satisfação não depende somente das possibilidades fáticas,
mas também das possibilidades jurídicas. O âmbito das possibilidades jurídicas é
determinado pelos princípios e regras colidentes. 27
A cerca da natureza jurídica dos princípios cabe referir que:
A função fundamentadora dos princípios (ou função normativa própria) passa,
necessariamente, pelo reconhecimento doutrinário de sua natureza de norma
jurídica efetiva e não simples enunciado programático não vinculante. Isso
significa que o caráter normativo contido nas regras jurídicas integrantes dos
clássicos diplomas jurídicos (constituições, leis e diplomas correlatos) estaria
também presente nos princípios gerais do direito. Ambos seriam, pois, norma
jurídica, dotados da mesma natureza normativa.28.
No mesmo sentido, sobre a força normativa dos princípios, Canotilho afirma que “A
teoria da metodologia jurídica tradicional distinguia entre normas e princípios [...]
Abandonar-se-á aqui essa distinção para, em sua substituição, se sugerir: (1) as regras e
princípios são duas espécies de normas; (2) a distinção entre regras e princípios é uma
distinção entre duas espécies de normas. ”29
No caso em apresso estar-se-á a analisar a violação não somente de princípios, mas
de direitos fundamentais das mulheres, porquanto ao analisar o tratamento dispensado a
segurada aspira-se a cidadãs, que possuem garantias mínimas.
Merece ainda, ser referido o princípio do não retrocesso social, que consiste na
proteção conferida aos direitos sociais conquistados, que sob nenhuma hipótese poderão ser
suprimidos ou diminuídos,neste sentido cabe referir José Joaquim Canotilho, pois segundo
o autor:
Com isto quer dizer-se que os direitos sociais e econômicos (ex.: direito dos
trabalhadores, direito à assistência, direito à educação), uma vez obtido um
determinado grau de realização, passam a constituir, simultaneamente, uma
garantia institucional e um direito subjectivo. A “proibição do retrocesso social”
nada pode fazer contra as recessões e crises econômicas (reversibilidade fáctica),
mas o princípio em análise limita a reversibilidade dos direitos adquiridos (ex.:
segurança social, subsídio de desemprego, prestações de saúde), em clara violação
do principio da proteção da confiança e da segurança dos cidadãos no âmbito
27 ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. Trad. Virgilio Afonso da Silva. São Paulo: alheiros,
2008, p. 90.
28 DELGADO, Maurício Godinho. Princípios de direito individual e coletivo do trabalho. 7. ed. São Paulo:
LTR, 2001, p 20.
29 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e teoria da constituição. 7. Ed. Coimbra:
Almedina, 2003, p.1160.
39
econômico, social e cultural, e do núcleo essencial da existência mínima inerente
ao respeito pela dignidade da pessoa humana.30 (Grifo nosso)
Nesta seara, o princípio da vedação ao retrocesso social não significa a manutenção
das normas, mas a garantia do seu núcleo essencial mínimo.
No ano de 1995, o Decreto Legislativo n. 56, aprovou os textos do Protocolo sobre
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Protocolo de São Salvador), adotando no
ordenamento jurídico a proibição do retrocesso, bem como vedando a retirada, restrição ou
diminuição por parte do Estado, dos direitos fundamentais sociais já reconhecidos,
implementados e positivados no ordenamento jurídico de um país.31
Assim, o princípio da vedação ao retrocesso social adotado pelo nosso ordenamento
jurídico deve nortear as mudanças legislativas, de modo a não esvaziar o núcleo essencial
que ordenamento jurídico visa proteger.
O princípio da igualdade está previsto nos artigos 3º, IV e 5º, caput da Constituição
Federal, e também em seu Preâmbulo.32 Impera o artigo 5°: “todos são iguais perante a lei,
sem distinção de qualquer natureza”. Certo é que a antiga máxima de Aristóteles, “tratar
desigualmente os desiguais na medida de suas desigualdades”, não pode ser ignorada, pois
constitui requisito essencial à consecução da igualdade material, mas não serve de desculpa
para a promoção de iniquidades.
No entanto, não se deve olvidar que o princípio da igualdade como é
formalmente expresso em lei, sem diferenciação entre homem e mulher, envolve
30 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e teoria da constituição. 7. Ed. Coimbra:
Almedina, 2003, p.1298.
31 Brasil, Decreto nº 56 de 1995. Disponível em
<https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decleg/1995/decretolegislativo-56-19-abril-1995-358490-norma-
pl.html> Acesso em 24 de maio de 2020.
32 PREÂMBULO
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado
Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o
bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna,
pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional,
com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO
DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. [...]
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: [...]
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas
de discriminação.
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade. (grifo nosso)BRASIL. Constituição Federal de 1988. Disponível em
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>, acesso em 06.01.2020.
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decleg/1995/decretolegislativo-56-19-abril-1995-358490-norma-pl.html
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decleg/1995/decretolegislativo-56-19-abril-1995-358490-norma-pl.html
40
frequentemente uma discriminação oculta entre as mulheres, assegurando tão somente uma
igualdade formal e a vedação a não discriminação.
O princípio da igualdade, é subdividido em duas vertentes, a saber: a) a igualdade
formal, que garante tratamento igualitário para todos; e b) a igualdade material, que verifica
o tratamento igual ou desigual, dependendo das situações.
Portanto, a igualdade material pressupõe a eficácia do tratamento isonômico.
Assim, em que pese a melhora na participação das mulheres no mercado de trabalho,
o aumento da exigência etária para as mulheres, sem a efetiva constatação de redução de
desigualdade social, demonstra um retrocesso social incompatível com a ordem
constitucional vigente. Vejamos, não se pretende defender que o princípio da vedação ao
retrocesso social impede a alteração da legislação diante da evolução natural da sociedade,
mas que a mitigação dos direitos sociais deve levar em consideração o núcleo essencial da
norma e, somente alterar quando não houver ofensa ou violação ao seu núcleo essencial, sob
pena de retrocesso social.
A diferenciação no critério etário tem sua origem quanto a participação desigual das
mulheres no mercado de trabalho, de modo que o núcleo essencial da norma consiste na
efetivação do principio da igualdade visando compensar a desigualdade histórica no mercado
de trabalho em consonância com o principio da dignidade da pessoa humana.
A eliminação da diferença na idade de aposentadoria entre mulheres e homens
consiste em um dos objetivos da equidade de gênero, de modo que alteração da legislação
igualando as regras de idade entre mulheres e homens, mesmo que de forma progressiva,
somente não será um retrocesso social quando não houver desigualdade entre gêneros na
sociedade brasileira.
Desta forma, a Emenda Constitucional n.º 103/2019, feriu vários princípios, entre
eles o da igualdade material e a dignidade da pessoa humana, ignorando a luta histórica das
mulheres para obter o mesmo tratamento do que os homens, enquanto buscam conciliar a
vida profissional e os cuidados com a família e a maternidade.
CONCLUSÃO
Tecemos algumas considerações, acerca dos desafios enfrentados pelas mulheres no
mercado de trabalho, sendo que pesquisas apontam que elas apresentam dificuldades para
41
ingressar neste ambiente e ainda ganham salários mais baixos em relação aos homens, em
que pese, exercerem as mesmas atividades. Ainda, foi verificado a desigualdade tanto no
nível de participação das mulheres no mercado de trabalho quanto no menor nível
remuneratório.
O acesso a previdência social é desigual para as mulheres em virtude da desigualdade
de gênero na permanência no mercado de trabalho gerado pela economia de cuidado. Além
disso, em relação ao valor dos benefícios previdenciários, que possuem como sua base de
cálculo a renda auferida com o trabalho, o menor rendimento das mulheres no mercado de
trabalho resulta em uma menor contribuição previdenciária e, consequentemente, em uma
aposentadoria de valor médio inferior aquelas auferidas pelos homens.
Diante de uma perspectiva de gênero, restou demonstrada a ausência de isonomia
entre homens e mulheres para acesso a proteção social do risco de velhice, bem como a
ausência de superação das discriminações de gênero no mercado de trabalho que justifiquem
o aumento do critério etário para aposentadoria das mulheres.
Esclarecemos,alguns direitos previdenciários das mulheres e em breve síntese as
alterações promovidas pela promulgação da Emenda constitucional n.º 103 de 2019, em
relação ao requisito etário dispensado as seguradas. Por fim, confrontamos estas mudanças
com alguns princípios consagrados no nosso ordenamento jurídico. Verificamos que os
critérios atuais, além de limitarem direitos consagrados historicamente distanciam o alcance
da prestação previdenciária da realidade social das beneficiárias.
A desigualdade de gênero foi utilizada como base para a diferenciação da idade entre
mulheres e homens para atingir o requisito etário de aposentadoria. No entanto, apesar das
grandes mudanças ocorridas nas últimas décadas, persiste a desigualdade no mercado de
trabalho, sendo necessária a adoção de medidas para reconfiguração da sociedade no que
tange a modificação da segregação horizontal denominada piso pegajoso e da segregação
vertical conhecida como teto de vidro. Da mesma forma, é necessária a adoção de política
pública de cuidado, estimulando uma corresponsabilidade nas atividades de cuidados de
filhos, idosos e deficientes.
Assim, a equalização dos requisitos de aposentadoria entre homens e mulheres, deve
ser considerada com norte a seguir, porém sem perder de vista como pressuposto para sua
implementação a efetivação do princípio da igualdade material.
42
Somente quando nossa sociedade for neutra, bem como quando através da promoção
de medidas de fortalecimento das regulações no mercado de trabalho obtivermos a igualdade
material, a igualdade progressiva da idade de aposentadoria de mulheres e homens será uma
medida de reforço de equidade de gênero na previdência social.
Nesse sentido sob a ótica de análise e função dos direitos fundamentais e princípios,
em especial o da isonomia de tratamento e dignidade da pessoa humana consagrado pela
Carta Constitucional, constata-se que as seguradas receberam tamanha discriminação a
ponto de ser elevado o requisito etário, sem a correspondente alteração em relação aos
segurados homens, afastando da valorização do trabalho da mulher e efetivação dos direitos
previdenciários.
Joana Mostafa e Outros na Nota Técnica DISOC nº 35/2017 propõe que a medida
que os indicadores da redução da desigualdade de gênero fossem alterando, poderia ocorrer
uma redução do diferencial de idade, levando em consideração a diferença na quantidade de
horas gastas tanto em trabalho produtivo quanto reprodutivo entre homens em mulheres.
Ainda, propõe que deva ser considerado o percentual de homens nos cuidados, diferencial
nas taxas de desemprego e de rendimentos entre os sexos, bem como a taxa de participação
feminina no mercado de trabalho.
Na mesma senda, a adoção de um conjunto de medidas na economia de cuidado
estimulando a corresponsabilidade e adoção de políticas públicas que auxiliem na
diminuição do afastamento da mulher do mercado de trabalho podem ser medidas positivas
para alcançar a equidade de gênero.
Conclui-se que o aumento da idade mínima, apesar de ser meta para eficácia da
equidade de gênero, diante das problemáticas no mercado de trabalho, demonstram que o
aumento da idade mínima fere os princípios da igualdade e dignidade da pessoa humana.
Verifica-se que atualmente somente alcançamos igualdade formal, para tanto a
adoção de políticas de igualdade material são o caminho para fazer prevalecer a equidade de
gênero, oportunidade em que a igualdade da idade para fins de aposentadoria efetivará o
principio da igualdade tanto formal quanto material.
Enquanto não tivermos uma igualdade material, restrições pela Emenda
Constitucional n.º 103/19 dos direitos das mulheres afastam a concretização do princípio da
isonomia, promovendo ainda mais desigualdade social.
43
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47
VINGANÇA PORNOGRÁFICA NO DIREITO BRASILEIRO: A
RESPONSABILIZAÇÃO PENAL
Aline Pacheco Batista1
RESUMO: este estudo trata sobre os danos decorrentes da Reveng Porn, também conhecida
como vingança pornográfica, à luz da legislação brasileira. Analisa os conceitos dessa
conduta que tem ganhado espaço no Brasil, tendo em vista o avanço das tecnologias e acesso
à rede mundial de computadores,que afeta principalmente pessoas do sexo feminino,
baseando-se na atual legislação, como Constituição Federal de 1988, Código Penal, Lei
Maria da Penha (Lei 11.340/06), Lei Carolina Dieckmann (Lei 12.737/2012), Marco Civil
da Internet (Lei 12.965/14), Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90). Tendo
como objetivo identificar o que é a pornografia por vingança e como ocorre, diferencia dos
outros crimes que também tratam de divulgação de fotos íntimas sem consentimento, mas
com outro objetivo que não seja a vingança. Busca expor as consequências e os problemas
decorrentes da divulgação dessas imagens para as vítimas, além das dificuldades enfrentadas
para remoção e punição de quem divulgou o conteúdo. O método de abordagem é o dedutivo
e o método de pesquisa utilizado foi o bibliográfico feito através de livros, artigos, teses,
legislações, bem como a jurisprudência. O artigo está vinculado à linha de pesquisa
Criminologia, Violência e Direitos Fundamentais, sendo a área temática o Direito Penal.
PALAVRAS-CHAVE: Vingança Pornográfica; Responsabilização Penal; Imagem;
Alteração Legislativa.
INTRODUÇÃO
O tema deste artigo é vingança pornográfica e como delimitação do tema tem-se a
vingança pornográfica no direito brasileiro: a responsabilização penal.
Com advento da tecnologia surgiram inúmeros meios de comunicação, dentre eles a
internet, a qual, além de outras funções, facilita compras, troca de mensagens, pesquisas,
compartilhamento de conteúdos, como de fotos e vídeos em geral, que podem ser acessados
1Pós-graduada em Direito e Processo Civil, inscrita na OAB/RS sob nº 116.883, e-mail:
adv.alinepacheco@gmail.com
48
de forma rápida e prática. No entanto, há casos em que a praticidade é utilizada com fins de
vingança, como nos casos de divulgação de fotos íntimas (nudes ou durante o sexo) sem
consentimento, principalmente praticadas por cônjuges ou ex-companheiros, que podem
gerar inúmeros transtornos à vítima, que são na maioria dos casos do sexo feminino.
Portanto, questiona-se como o direito brasileiro responsabiliza o autor da chamada
“vingança pornográfica”.
Como hipóteses estabeleceu-se que a primeira delas é de que a vingança pornográfica
ou “revenge porn” é um novo comportamento social ligado às relações sociais/virtuais em
que é necessária a divulgação de imagens íntimas através dos meios de comunicação e
pesquisas virtuais, fato que alguns anos atrás não era comum no mundo forense, uma vez
que a internet não fazia parte do dia a dia das pessoas. A legislação brasileira, diante desse
novo comportamento social, fruto do avanço tecnológico, bem como resultado das recentes
atualizações legislativas, está apta para proteger a vítima da “vingança pornográfica”, pois
trouxe benefícios à vítima e punição para o autor da pornografia por vingança.
Como objetivo geral para o desenvolvimento da presente pesquisa buscar-se-á
identificar na legislação nacional as possibilidades de punição para a vingança pornográfica,
e como objetivos específicos: a) conceituar a vingança pornográfica e identificar como o
direito brasileiro tutela os direitos da vítima; b) verificar como era a punição antes da
atualização legislativa; c) demonstrar como está sendo a punição após a tipificação do crime,
com as leis que alteraram o Código Penal e a Lei Maria da Penha.
Justifica-se, portanto, a importância desse tema tendo em vista o progresso da
informática que mudou expressamente o comportamento das pessoas, principalmente
quando se trata dos meios de comunicação, trazendo um novo comportamento social através
das relações sociais virtuais. Nessa esteira, é possível observar que ocorreu uma mudança
significativa, principalmente no que se refere à troca de mensagens, tendo em vista a
agilidade através do avanço da internet, fato inimaginável antes do advento da informática.
Assim, considerando essa transformação, se faz necessário analisar se há malefícios.
Considerando o avanço apresentado, se faz importante como meio de pesquisa para
os operadores do direito, uma vez que essa mudança de comportamento social gerou a
alteração de duas legislações, o Código Penal, com a inclusão de artigo que tipifica como
crime a exposição de imagens íntimas na internet por motivo de vingança (vingança
49
pornográfica), bem como na Lei Maria da Penha considerando como forma de violência a
violação da privacidade.
Assim, tendo em vista que a alteração da legislação é recente (ano de 2018), se faz
necessário analisar como os casos de pornografia por vingança eram juridicamente punidos,
uma vez que, analisados os casos concretos através de julgados, verifica-se que havia forte
divergência quanto a classificação do crime, pois alternava, principalmente, entre injúria e
difamação, ambos os crimes com penas inferiores frente a nova tipificação.
Por fim, serão utilizadas técnicas de pesquisas bibliográficas que se fará por meio de
livros, artigos, teses e legislações. Ainda, será empregada a técnica de pesquisa
jurisprudencial, tendo em vista a necessidade de analisar como eram julgados os casos de
vingança pornográfica no país.
EVOLUÇÃO HISTÓRICA E CONCEITO DA VINGANÇA PORNOGRÁFICA
Por volta de 1946 foi criado o primeiro computador eletrônico, sendo assim foi dado
o primeiro passo para o avanço tecnológico que, com o passar dos anos, foi ganhando força
através das inúmeras facilidades, principalmente de comunicação, conquistando assim os
adeptos às novas tecnologias2. Além disso, estudos realizados no ano de 2018 mostraram
que, no Brasil, em torno de 74,7% da população tem acesso à internet3, ou seja, haviam
aproximadamente 134 milhões de internautas espalhados pelo país4. Segundo pesquisa
realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da
Informação (TIC Domicílios 2019, cetic.br), entre os meios disponíveis para acesso, 99%
das pessoas pesquisadas utilizam o celular para se conectar, 42% os computadores, seguidos
das TVs (37%) e por último os videogames, com 9%5.
Em vista disso, os avanços relativos aos meios de comunicação são notórios e,
inclusive, já são reconhecidos nas decisões prolatadas pelos Tribunais. Em 2016, por
exemplo, em pronunciamento no Supremo Tribunal Federal, o Ministro Edison Fachin
afirmou que, em vista do atual cenário brasileiro, principalmente quanto à modernidade, a
2João Brunelli Moreno, Tecnoblog, https://tecnoblog.net/56910/eniac-primeiro-computador-do-mundo-
completa-65-anos (acesso 06 mai. 2018).
3EBC, Agência Brasil, https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-04/um-em-cada-quatro-
brasileiros-nao-tem-acesso-internet (acesso 20 ago. 2020).
4EBC, Agência Brasil, https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-05/brasil-tem-134-milhoes-de-
usuarios-de-internet-aponta-pesquisa (acesso 20 ago. 2020).
5Idem
https://tecnoblog.net/56910/eniac-primeiro-computador-do-mundo-completa-65-anos
https://tecnoblog.net/56910/eniac-primeiro-computador-do-mundo-completa-65-anos
https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-04/um-em-cada-quatro-brasileiros-nao-tem-acesso-internet
https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-04/um-em-cada-quatro-brasileiros-nao-tem-acesso-internet
https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-05/brasil-tem-134-milhoes-de-usuarios-de-internet-aponta-pesquisa
https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-05/brasil-tem-134-milhoes-de-usuarios-de-internet-aponta-pesquisa
50
internet se tornou o meio mais abrangente de comunicação além de ser “[...] objeto de
diversos estudos acadêmicos pela importância que tem como instrumento democrático de
acesso à informação e difusão de dados de toda a natureza”6.
Esse entendimento também já se faz presente no Senado Federal, pois foi divulgado
na Revista de InformaçãoLegislativa do mês de março 2017 um dos posicionamentos de
como a internet e a divulgação de imagens é entendida. Ademais, considerando que a internet
avança a passos largos, é necessário que haja mecanismos que evitem possíveis danos a
terceiros. Nesse sentido:
A Internet permite que pessoas de lugares diferentes e com graus diversos de
educação possam ter acesso ao mesmo conteúdo, bem como propicia o incremento
de mecanismos que facilitam a participação popular na própria elaboração dos
conteúdos divulgados, ampliando o rol de atores envolvidos na construção da rede.
Entretanto, ainda que a Internet seja o espaço por excelência da liberdade, nem
toda informação será digna de proteção jurídica, podendo circular de forma ampla
e livre; por vezes, será necessário avaliar, entre outros fatores, o interesse público
e a utilidade socialmente apreciável de sua divulgação. 7(TEFFÉ, 2017, p. 173)
Por isso, pode-se observar que a internet está presente na vida dos brasileiros e está
sendo utilizada para os mais diversos fins. No entanto, considerando que há uma facilidade
no acesso aos mais variados conteúdos e há também uma agilidade na troca de mensagens
com os mais diversos teores, surgem novos meios de comunicação, que podem se dar de
maneira positiva ou negativa. Deve-se observar as possíveis formas de danos através da
internet, que variam de acordo com a complexidade do caso, como por exemplo:
[…] a divulgação não autorizada de imagens íntimas e/ou de cenas de nudez em
aplicativos e sites de compartilhamento de conteúdo; a criação de perfis falsos em
redes sociais virtuais; a indexação por provedores de pesquisa de conteúdo em
desacordo com as características atuais do indivíduo; a criação de página com
mensagens ofensivas a determinada pessoa ou com atribuição de características
em desacordo com a atual personalidade do retratado; e a exposição abusiva da
imagem de uma determinada pessoa em notícia jornalística ou em quadro de
humor. Atreladas ao uso indevido de imagem encontram-se também práticas de
intimidação e de agressão a terceiros na internet, como o cyberbullying e a
chamada pornografia de vingança8. (TEFFÉ, 2017, p. 173)
6BRASIL. Superior Tribunal de Justiça,
http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=%28ADPF+403%29&base=baseInfor
mativo&url=http://tinyurl.com/yyx44huo (acesso 16 mar. 2018).
7 Chiara Antonia Spadaccini de Teffé. Senado Federal,
https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/54/213/ril_v54_n213_p173 (acesso 21 abr. 2018).
8 Idem
http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=%28ADPF+403%29&base=baseInformativo&url=http://tinyurl.com/yyx44huo
http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=%28ADPF+403%29&base=baseInformativo&url=http://tinyurl.com/yyx44huo
https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/54/213/ril_v54_n213_p173
51
A internet, portanto, é capaz de tornar-se um mal se usada de forma incorreta como,
por exemplo, para a divulgação de imagens íntimas, os chamados nudes ou similares ou para
a divulgação de imagens feitas durante o ato sexual de um casal que, em determinados
momentos, podem ser usadas na internet como forma de vingança pelos ex-companheiros.
Na maioria dos casos, essas imagens são divulgadas pelo (ex) parceiro e essa vingança é
motivada geralmente pela não aceitação do término de um relacionamento, ou seja, vingança
esta ocasionada pela separação do casal que podemos denominá-la como “vingança
pornográfica” ou “revenge porn”9.
A pornografia por vingança consiste “[...] em divulgar em sites e redes sociais fotos
e vídeos com cenas de intimidade, nudez, sexo [...]10 ou coisas similares”, cujo objetivo é a
humilhação da vítima como forma de vingança, que geralmente ocorre após o fim de um
relacionamento11. Ou seja, a vítima, durante o relacionamento produz ou compartilha o
arquivo (fotográfico ou audiovisual) com seu parceiro ou parceira, tendo consentimento, isto
é, por livre e espontânea vontade, porém após o fim do relacionamento esse conteúdo é
divulgado sem a sua devida autorização com intuito de vingança12. Neste sentido, é
importante salientar que, mesmo que o relacionamento tenha acabado, as imagens
produzidas durante esse período podem ainda existir e serem usadas sem consentimento,
uma vez que foi autorizada apenas a produção do conteúdo e não a divulgação. Com isso, o
ex-parceiro se aproveita do teor do conteúdo e utiliza para consumar a vingança
pornográfica.
Assim, conceitua Barreto (2016):
A vingança pornô não surgiu com a internet, apenas foi facilitada com ela. Antes,
as imagens ou vídeos que eram compartilhados apenas por SMS, e-mail ou por
meio físico agora são postadas em redes sociais ou em grupos de apps de troca de
mensagens e em pouco tempo tornam-se virais, chegando ao conhecimento da
vítima e de todos de seu convívio social13.
9BRASIL, Senado Federal, http://legis.senado.leg.br/sdleg-
getter/documento?dm=6459378&disposition=inline (acesso 20 ago. 2020).
10Fátima Burégio, Jusbrasil, https://ftimaburegio.jusbrasil.com.br/artigos/178802845/pornografia-da-
vinganca-voce-sabe-o-que-e-isto (acesso 20 abr. 2018).
11Idem
12BRASIL, Senado Federal, http://legis.senado.leg.br/sdleg-
getter/documento?dm=6459378&disposition=inline (acesso 20 ago. 2020).
13BARRETO, Alessandro Gonçalves; BRASIL, Beatriz Silveira. Manual de investigação cibernética à luz do
marco civil da internet – Rio de Janeiro: Brasport, 2016. p. 162
http://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=6459378&disposition=inline
http://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=6459378&disposition=inline
https://ftimaburegio.jusbrasil.com.br/artigos/178802845/pornografia-da-vinganca-voce-sabe-o-que-e-isto
https://ftimaburegio.jusbrasil.com.br/artigos/178802845/pornografia-da-vinganca-voce-sabe-o-que-e-isto
http://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=6459378&disposition=inline
http://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=6459378&disposition=inline
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Nesse sentido, percebe-se a gravidade e os transtornos que a vingança pornográfica
pode causar à vítima, uma vez que são avassaladores e pode motivar muitos traumas. Além
do mais, pode-se analisar que os casos de divulgação de fotos íntimas independem de idade,
ou seja, as vítimas podem ter idades variadas. Esses casos originam grande constrangimento,
vexame e humilhação, tendo em vista que o conteúdo pode ser acessado por um público
inimaginável, uma vez que poderá ser divulgado tanto por redes sociais ou até mesmo em
sites de teor pornográfico e, muitas das vezes, jamais poderão ser deletados14.
Para melhor entender a vingança pornográfica é de suma importância ter
conhecimento de sexting, sextorsão e estupro virtual, uma vez que, apesar das semelhanças,
não podem ser confundidos. Entende-se sexting como:
[…] um termo de origem anglo-saxônica resultante das palavras sex e texting,
utilizado inicialmente para denominar a prática segundo a qual se enviavam
mensagens de textos por meio de telefone móvel (texting) com conteúdo “picante”
ou excitante (sex). Hoje o sexting passou a incluir fotografias (ou vídeos) de alto
conteúdo erótico e inclusive pornográfico que são enviadas por meio de telefones
celulares e smartphones. Como ocorria originalmente com a mensagem, a imagem
é produzida pelo remetente fotografando (ou filmando) seu próprio corpo.15
(FERNÁNDEZ, 2013, p. 72)
Dessa maneira, obtendo o conteúdo do sexting, o indivíduo, conhecido da vítima ou
não, passa a ameaçá-la alegando que tornará a imagem pública se ela não oferecer favores
sexuais (virtuais ou reais) ou até mesmo passa a exigir valores em dinheiro, assim estamos
diante da sextorsão16. Observa-se que a sextorsão possui diferentes formas de
constrangimento, que pode sermoral ou patrimonial.
Caso o possuidor das imagens exigir vantagem patrimonial o delito será enquadrado
como crime de extorsão, previsto no artigo 158 do Código Penal. No entanto, se a vantagem
for sexual, sem a exigência de vantagem pecuniária, o indivíduo cometerá crime de estupro
prescrito no artigo 213 do Código Penal, que pode ser tentado ou consumado, que também
pode ser denominado como estupro virtual. Além disso, se o autor passar a constrangem a
14BRASIL, Senado Federal, https://legis.senado.leg.br/sdleg-
getter/documento?dm=6459378&disposition=inline (acesso 20 ago. 2020).
15FERNÁNDEZ, Jorge Flores. Sexting, Sextorsão e Grooming. In: ABREU, Cristiano Nabuco;
EISENSTEIN, Evelyn; ESTEFENON, Susana Graciela Bruno. Vivendo esse mundo digital: Impactos na
Saúde, na Educação e nos Comportamentos Sociais. 1ed. São Paulo: Artmed, 2013. p. 72
16DE ABREU, Cristino Nabuco; EISENSTEIN, Evelyn; ESTEFONON, Susana Graciela Bruno. Vivendo esse
mundo digital: impactos na saúde, na educação e nos comportamentos sociais. Porto Alegre: Artmed, 2013. p
72-75.
https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=6459378&disposition=inline
https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=6459378&disposition=inline
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vítima a fazer algo que a lei não permite ou não a obriga, poderá ser acusado como autor do
delito de constrangimento ilegal, conforme dispõe o artigo 146 do Código Penal. Assim, a
punição da sextorsão vai depender do caso concreto, ou seja, quando não há intenção de
constranger a honra que alguém17.
Por fim, verifica-se que a vingança pornográfica não se enquadra nos casos frutos do
sexting, tendo em vista que o autor não busca da vítima nenhum tipo de recompensa, seja
ela qual for, pois pretende divulgar a imagem apenas como forma de vingança. O principal
objetivo da pornô vingança é “[...] colocar a pessoa em uma situação constrangedora diante
de amigos, da família, de colegas de trabalho ou mesmo de um grupo indeterminado de
pessoas [...]”18 e fará isso para vingar-se da vítima, o que geralmente ocorre em virtude do
fim do relacionamento.
2. A TUTELA DAS VÍTIMAS DA VINGANÇA PORNOGRÁFICA NO DIREITO
BRASILEIRO ANTES DA ATUALIZAÇÃO LEGISLATIVA
A mudança de comportamento social que surgiu com o avanço da internet foi capaz
de modificar tudo, inclusive a forma de vingança, como no caso de divulgação de fotos
íntimas sem consentimento, ou seja, a vingança pornográfica. No entanto, a legislação
brasileira só acompanhou essa modificação de comportamento em 2018. Antes desse
período não havia entendimento consolidado, tampouco tipificação que enquadrasse tal
conduta, por isso a grande divergência doutrinária e jurisprudencial quanto a qual tipo penal
a ser aplicado nos casos de pornô vingança, mesmo que o direito à imagem e à segurança da
integridade da mulher estejam garantidos em lei específica e na Constituição Federal.
Primeiramente, o direito da imagem é garantia fundamental elencada no artigo 5º,
inciso X da Constituição Federal de 1988, já que considera como inviolável a imagem das
pessoas, bem como “[…] intimidade, vida privada e a honra”19. Importante salientar que
17Spencer Toth Sydow; Ana Lara Camargo de Castro, Revista dos Tribunais,
http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bib
li_servicos_produtos/bibli_boletim/bibli_bol_2006/RTrib_n.959.09.PDF (acesso14 out. 2017).
18Chiara Antonia Spadaccini de Teffé, Senado Federal,
https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/54/213/ril_v54_n213_p173.pdf (acesso 21 abr. 2018).
19BRASIL, Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm
(acesso16 abr. 2018).
http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/bibli_boletim/bibli_bol_2006/RTrib_n.959.09.PDF
http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/bibli_boletim/bibli_bol_2006/RTrib_n.959.09.PDF
https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/54/213/ril_v54_n213_p173.pdf
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm
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quando se fala de intimidade, deve-se observar, como por exemplo, “[…] suas relações
familiares e de amizade, enquanto vida privada envolve todos os demais relacionamentos
humanos, inclusive os objetivos, tais como relações comerciais, de trabalho, de estudo
etc.”20. Por esse ângulo, há entendimento de que a garantia constitucional pode ser analisada
de forma ampla onde:
O direito à privacidade teria por objeto os comportamentos pessoais em geral, às
relações comerciais e profissionais que o indivíduo não deseja que se espalhem ao
conhecimento público. O objeto do direito à intimidade seriam as conversações e
os episódios mais íntimos, envolvendo relações familiares e amizades mais
próximas21. (MORAES, 2003, p. 53)
Ademais, a dilatação dos meios de comunicação atingiu fortemente a intimidade do
indivíduo, uma vez que a imagem atribuída através da internet pode ser usada de maneira
diversa da pretendida. Isso é o que ocorre com a divulgação das fotos íntimas na internet,
pois, a intenção da produção da imagem é apenas a intimidade do casal. No entanto, a
vingança pornográfica, além da falta de consentimento, está ligada à intimidade da vítima22.
A Lei 12.737, de 30 de novembro de 2012 (Lei Carolina Dieckmann) foi uma das
atualizações legislativas desenvolvidas para acompanhar o avanço tecnológico, tendo em
vista o crime envolvendo divulgação de fotos íntimas da atriz. A lei incluiu no Código Penal
a tipificação criminal quanto aos delitos informáticos, ou também conhecidos como “crimes
cibernéticos próprios” e está disposta no artigo 154-A. O artigo dispõe que é crime a invasão
de dispositivo de informática, de forma indevida e sem autorização com pena de detenção
de 3 (três) meses a um ano cumulado com multa. Ainda, a pena aumenta em um terço se
praticado contra membros da administração pública23. Portanto, deve-se observar que a lei
12.737/2012 pune o indivíduo que invade dispositivo, além de alterar ou destruir dados, sem
nenhum tipo de autorização, e com o objetivo de obter vantagem. Esse indivíduo é
popularmente conhecido como hacker24.
Além disso, foi criado o Marco Civil da Internet (Lei 12.965, de 23 de abril de 2014)
que tem o objetivo de estabelecer o controle do uso da Internet no Brasil, indicando
20MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. 13º. ed. - São Paulo: Atlas, 2003. p 53.
21MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional – 12 ed. rev.
e atual. – São Paulo: Saraiva, 2017. p. 280
22SOUZA, Carlos Affonso Pereira de. Contornos do direito à imagem. Revista trimestral de direito civil:
RTDC, v. 4, n. 13, p. 33–71, jan./mar. 2003. p. 44
23BRASIL, Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm (acesso 16
abr. 2018).
24Deivid Pimentel Barbosa de Siena, Jus, https://jus.com.br/artigos/24406/lei-carolina-dieckmann-e-a-
definicao-de-crimes-virtuais (acesso 08 mai. 2018).
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm
https://jus.com.br/artigos/24406/lei-carolina-dieckmann-e-a-definicao-de-crimes-virtuais
https://jus.com.br/artigos/24406/lei-carolina-dieckmann-e-a-definicao-de-crimes-virtuais
55
princípios, direitos e deveres, ou seja, “[...] é uma espécie de "constituição" que vai reger o
uso da rede no Brasil definindo direitos e deveres de usuários e provedores da web no país”25.
Além de reger como deve ser o uso da internet no território brasileiro, e lei também indica
mecanismos e regras para remoção de imagens íntimas que foram divulgadas sem
autorização, sem a necessidade de ordem judicial, com a responsabilizaçãosubsidiária do
provedor26.
Importante salientar que o STJ já decidiu com base no Marco Civil da Internet temas
relacionados à pornografia por vingança. Em 19 de maio de 2020, a Terceira Turma do
Supremo Tribunal Federal considerou que:
[…] A "exposição pornográfica não consentida", da qual a "pornografia de
vingança" é uma espécie, constituiu uma grave lesão aos direitos de personalidade
da pessoa exposta indevidamente, além de configurar uma grave forma de
violência de gênero que deve ser combatida de forma contundente pelos meios
jurídicos disponíveis. 5. Não há como descaracterizar um material pornográfica
apenas pela ausência de nudez total. Na hipótese, a recorrente encontra-se
sumariamente vestida, em posições com forte apelo sexual. 6. O fato de o rosto da
vítima não estar evidenciado nas fotos de maneira flagrante é irrelevante para a
configuração dos danos morais na hipótese, uma vez que a mulher vítima da
pornografia de vingança sabe que sua intimidade foi indevidamente desrespeitada
e, igualmente, sua exposição não autorizada lhe é humilhante e viola
flagrantemente seus direitos de personalidade. 7. O art. 21 do Marco Civil da
Internet não abarca somente a nudez total e completa da vítima, tampouco os "atos
sexuais" devem ser interpretados como somente aqueles que envolvam conjunção
carnal. Isso porque o combate à exposição pornográfica não consentida - que é a
finalidade deste dispositivo legal - pode envolver situações distintas e não tão
óbvias, mas que geral igualmente dano à personalidade da vítima. 8. Recurso
conhecido e provido.27
Com isso, para atender a essa determinação legislativa, bem como evitar a divulgação
de imagens íntimas sem consentimento (vingança pornográfica), a conhecida rede social
“Facebook”, no ano de 2019, anunciou que usaria de inteligência artificial para combater a
pornografia por vingança. Tal mecanismo prevê a seguinte forma de atuação:
“[…] usando o aprendizado de máquina e a inteligência artificial, agora podemos
detectar proativamente imagens ou vídeos íntimos que são compartilhados sem
permissão”, disse a gigante das redes sociais em um post no blog. “isso significa
fizer que podemos encontrar este conteúdo antes que alguém o denuncie”. Um
membro da equipe de operações da comunidade do Facebook iré rever o conteúdo
encontrado pela nova tecnologia, e se for considerado uma imagem ofensiva, irá
25BBC, BBD News Brasil,
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140219_marco_civil_internet_mm (acesso 30 ago. 2020).
26BRASIL, Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm#art21
(acesso 30 ago. 2020).
27STJ - REsp: 1735712 SP 2018/0042899-4, Relator: Ministra NANCY ANDRIGHI, Data de Julgamento:
19/05/2020, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 27/05/2020.
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140219_marco_civil_internet_mm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm#art21
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removê-la ou desativar a conta do responsável por espalhá-la, acrescentou a
imprensa28. (MARQUES, 2019)
Além disso, desde 2017, o site conta com um sistema que busca, através de denúncia
dos próprios usuários da rede, para impedir o compartilhamento das imagens. Essa
ferramenta também poderá ser usada nos aplicativos Messenger e Instagram:
Um software de análise de imagens vai manter as fotos fora da rede social, bem
como do serviço de fotos Instagram e do bate-papo Messenger. Os usuários que
compartilharem imagens de vingança pornográfica poderão até ter suas contas
suspensas na rede social, afirmou a companhia29. (REUTERS, 2017)
Assim como as redes sociais, os sites de pesquisas também estão aderindo a não
proliferação da pornô vingança. Por isso, a empresa Google, conhecida como plataforma de
pesquisa na internet, divulgou uma nota que as imagens relacionadas a este tipo de vingança
poderiam ser retiradas independente de pedidos legais, uma vez que não faz parte do objetivo
da empresa. Segundo o vice-presidente da empresa Amit Singhal “[…] as imagens
relacionadas à pornografia de vingança são intensamente pessoais e emocionalmente
prejudiciais, e servem apenas para degradar as vítimas - predominantemente mulheres”30.
No entanto, é importante lembrar que a empresa não consegue retirar as imagens de sites.
Através dessa análise, percebe-se que as principais redes sociais e sites relacionados
à pesquisa estavam se adaptando ao novo comportamento social, através da criação de
mecanismos para proteger a vítima da pornografia por vingança, principalmente no que se
refere à retirada das imagens da rede mundial de computadores. No entanto, se tratando da
responsabilização penal do indivíduo que divulgou as imagens, até o ano de 2018 não havia
punição específica no ordenamento jurídico, o que gerava grande divergência quanto à
punição a ser aplicada.
O Código Penal apenas elencava os crimes contra honra, como difamação e injúria,
que estão devidamente tipificados nos seus artigos 139 e 140. Assim, verifica-se que o valor
protegido pelo artigo 139 (difamação) é o da honra objetiva e na injúria busca proteger a
honra subjetiva, bem como:
28Pablo Marques, Notícias R7, https://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/facebook-usara-tecnologia-para-
limitar-a-pornografia-de-vinganca-15032019 (acesso 20 ago. 2020).
29Reuters, Globo.com, https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/facebook-anuncia-sistema-para-barrar-
vinganca-porno-na-rede-social-instagram-e-messenger.ghtml (acesso 15 mai. 2018).
30João Kurtz, Techtudo, https://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2015/06/google-comeca-a-remover-
links-sobre-pornografia-de-vinganca-das-buscas.html (acesso 20 abr. 2018).
https://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/facebook-usara-tecnologia-para-limitar-a-pornografia-de-vinganca-15032019
https://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/facebook-usara-tecnologia-para-limitar-a-pornografia-de-vinganca-15032019
https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/facebook-anuncia-sistema-para-barrar-vinganca-porno-na-rede-social-instagram-e-messenger.ghtml
https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/facebook-anuncia-sistema-para-barrar-vinganca-porno-na-rede-social-instagram-e-messenger.ghtml
https://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2015/06/google-comeca-a-remover-links-sobre-pornografia-de-vinganca-das-buscas.html
https://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2015/06/google-comeca-a-remover-links-sobre-pornografia-de-vinganca-das-buscas.html
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Uma das críticas enfrentadas pela imagem-atributo é a de que esse conceito se
confundiria com o de honra objetiva. Todavia, é pacífico o entendimento de que a
honra objetiva se encontra ligada à consideração que terceiros têm em relação a
determinada pessoa. A honra objetiva estaria, portanto, vinculada à reputação e às
qualidades atribuídas a um indivíduo. Nesse sentido, verifica-se que eventual
ofensa à imagem-atributo não atingirá, necessariamente, a honra objetiva, visto
que a falsa representação das características do indivíduo nem sempre conterá
conteúdo negativo31. (TEFFÉ, 2017, p. 173)
A revenge porn podia ser tipificada como injúria, pois a intenção é ofender a
dignidade e o decoro da vítima, uma vez que quem divulga os arquivos busca denegrir a
imagem da(o) ex-companheira(o) e transmitir a mensagem que ela(e) é desonrada(o), tendo
em vista que criou e compartilhou fotos e/ou vídeos eróticos. Isto é, a conduta “consiste na
imputação (atribuição) de fato determinado, que embora sem revestir de caráter criminoso é
ofensivo à reputação da pessoa que se atribui”32.
Vale lembrar que a pena do crime de injúria é de 1 (um) ano a 6 (seis) meses e multa,
ou seja, se enquadra como crime de menor potencial ofensivo (até 2 anos) o que possibilita
a aplicação das medidas despenalizadoras do JuizadoEspecial Criminal, regidos pela Lei
9.099/95, que busca maior agilidade e possível conciliação entre as partes33, além de
procederem mediante queixa.
Divergiu do entendimento doutrinário a 16ª Vara Criminal de Belo Horizonte, uma
vez que entendeu ser difamação a conduta do pron revenge. O caso aconteceu após o fim de
um relacionamento que durou cerca de 04 anos onde o ex-companheiro não aceitou o fim e
passou a ameaçar a vítima “[…] dizendo que divulgaria imagens dela nua se ela não reatasse
o namoro ou se relacionasse com outra pessoa”34. Consequentemente a vítima se recusou a
reatar o relacionamento e teve suas fotos divulgadas através dos aplicativos WhatsApp e
Instagram. Na sentença, a juíza afirmou que:
As contradições apresentadas nos interrogatórios do réu decorrem de um só
motivo, ele não consegue explicar o inexplicável. Tentou por todos os meios negar
a autoria da divulgação das fotos e vídeos íntimos, através de desculpas
contraditórias muito pouco convincentes. […] além de atingir gravemente a honra
31Chiara Antonia Spadaccini de Teffé, Senado Federal,
https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/54/213/ril_v54_n213_p173.pdf (acesso 21 abr. 2018).
32CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte especial (arts. 121 ao 361). 9º ed. rev. ampl. e
atual. Salvador: JusPODIVM, 2017. p. 188-191
33Idem
34Fernanda Valente; Hysa Conrado, Justificando, http://justificando.cartacapital.com.br/2016/07/11/juiza-
condena-ex-namorado-que-praticou-porn-revenge-como-difamacao/ (acesso 08 mai. 2018).
https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/54/213/ril_v54_n213_p173.pdf
http://justificando.cartacapital.com.br/2016/07/11/juiza-condena-ex-namorado-que-praticou-porn-revenge-como-difamacao/
http://justificando.cartacapital.com.br/2016/07/11/juiza-condena-ex-namorado-que-praticou-porn-revenge-como-difamacao/
58
da vítima, com a exposição da intimidade desta, devastou a vida dos seus pais que
com ela sofreram a cruel e covarde exposição35. (VALENTE; CONRADO, 2016)
Outrossim, já houve entendimento jurisprudencial no sentido de que quem divulga o
material pornográfico sem consentimento comete crime de injúria e difamação. O Tribunal
de Justiça do Estado do Paraná em sede de apelação entendeu que a divulgação de fotos
íntimas de ex-namorada sem consentimento na internet com intuito de “[…] retratá-la como
prostituta expondo-se para angariar clientes e programas” está praticando os crimes contidos
nos artigos 139 e 140 do Código Penal. No caso em tela, foi comprovado que as imagens
estavam guardadas no computador do agente que as divulgou e, além do mais, que ele criou
e estava administrando um blog “[…] com o nome da vítima. Conduta essa que visava
destruir a reputação e denegrir a dignidade da vítima”36.
Ademais, não pode passar desapercebido os casos envolvendo menores de idade,
uma vez que o Estatuto da Criança e Adolescente também não tipifica a divulgação das fotos
íntimas como crimes frutos da vingança pornográfica, tendo em vista o disposto nos artigos
240 e 241 do Estatuto. Observa-se pelo que aconteceu na cidade de Vacaria (Rio Grande do
Sul) onde foi verificado um caso de vingança pornográfica contra adolescente de 15 (quinze)
anos. A vítima teve um relacionamento íntimo com o acusado que durou aproximadamente
1 (um) ano e 8 (oito) meses, inconformado com o término do relacionamento, ele passou a
ameaçá-la de forma contínua “[…] prometendo, por palavras, divulgar arquivos digitais
(fotografias e vídeos), nos quais apareceria em situações íntimas, de nudez e em situações
com conotação sexual”37.
Através de acesso indevido ao celular da vítima, o acusado passou a divulgar fotos
íntimas através de aplicativos de troca de mensagens, além de perturbá-la através de ligações
e mensagens em horários diversos. Após a instrução do feito, a sentença em primeiro grau
(16.05.2016), julgou parcialmente procedente a denúncia, condenando o réu por ameaça
(artigo. 147, caput, do Código Penal “[…] e artigo 65 do Decreto-Lei nº 3.688/41, (...), cada
um combinado com o art. 71, caput, do CP, e artigos 241-A e 241-B, ambos do ECA, todos
35Idem
36Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, Jusbrasil, https://tj-
pr.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/20132845/apelacao-crime-acr-7563673-pr-0756367-3?ref=juris-tabs
(acesso: 01 abr. 2018).
37RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Apelação Crime nº
70072018161. 2017. Des. José Antônio Deltoé Cezar (Presidente e Revisor) e Desª Lizete Andreis Sebben. DJ:
07 fev. 2017.
https://tj-pr.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/20132845/apelacao-crime-acr-7563673-pr-0756367-3?ref=juris-tabs
https://tj-pr.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/20132845/apelacao-crime-acr-7563673-pr-0756367-3?ref=juris-tabs
59
na forma do artigo. 69, caput, do CP, à pena de 01 mês e 20 dias de detenção; 25 dias de
prisão simples e 04 anos de reclusão.”38. Por fim, em sede de apelação, a pena de reclusão
foi alterada para restritiva de direitos, sendo revogada a prisão39.
Com isso, é possível perceber a dificuldade que existia para a tipificação desse crime,
uma vez que não havia uma posição doutrinária nem jurisprudencial pacífica quanto a qual
crime cometia o divulgador das imagens íntimas sem consentimento. Nesse sentido lastimou
a juíza Marixa Rodrigues pois, “lamentavelmente, no Brasil ainda não existe o tipo penal
específico de pornografia de vingança”40. Ademais, a falta de tipificação quanto ao tipo penal
dificultava principalmente a punição do autor do fato, o que aumentava a insegurança da
vítima do reveng pron.
AS PRINCIPAIS MUDANÇAS LEGISLATIVAS COM O ADVENTO DAS LEIS
13.178/2018 E 13.772/2018
Como já mencionado, a mudança de comportamento social que surgiu com o avanço
da internet foi capaz de modificar tudo, inclusive a forma de vingança, como no caso de
divulgação de fotos íntimas sem consentimento, ou seja, a vingança pornográfica. No
entanto, a legislação brasileira apenas acompanhou tal mudança no ano de 2018, com o
advento das Leis 13.718, de 24 de setembro de 2018 e da Lei 13.772, de 19 de dezembro de
2018, com a modificação do Código Penal e Lei Maria da Penha.
A Lei 13.718, de 24 de setembro de 2018 acrescentou o art. 218-C no Código Penal,
incluindo o crime de divulgação de cena de estupro ou cena de estupro de vulnerável, de
cena de sexo ou de pornografia. O artigo tem a seguinte redação:
Art. 218-C. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor à venda,
distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio - inclusive por meio de
comunicação de massa ou sistema de informática ou telemática -, fotografia, vídeo
ou outro registro audiovisual que contenha cena de estupro ou de estupro de
vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua prática, ou, sem o consentimento
da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia: Pena - reclusão, de 1 (um) a 5
(cinco) anos, se o fato não constitui crime mais grave.41
38Idem
39Idem
40Gabriel Reis Cheves, Ipecont, http://www.ipecont.com.br/blog/wp-content/uploads/2016/07/Pressclipping-
em-18-julho-2016.pdf (acesso em 26 mai. 2018).
41BRASIL, Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm (acesso 20 de
ago. 2020).
http://www.ipecont.com.br/blog/wp-content/uploads/2016/07/Pressclipping-em-18-julho-2016.pdf
http://www.ipecont.com.br/blog/wp-content/uploads/2016/07/Pressclipping-em-18-julho-2016.pdf
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm
60
Considerando que na maioria dos casos o crime ocorre por vingança de atuais ou ex-
companheiros por problemas do relacionamento, como eventuais brigas, o artigo inclui o
seguinte aumento de pena “§ 1º A pena é aumentada de 1/3 (um terço) a 2/3 (doisterços) se
o crime é praticado por agente que mantém ou tenha mantido relação íntima de afeto com a
vítima ou com o fim de vingança ou humilhação”. Ademais, no parágrafo 2º, houve a devida
ressalva quanto a exclusão da ilicitude do crime, como nos casos de publicação de natureza
jornalística, científica, cultural ou acadêmica com a adoção de recurso que impossibilite a
identificação da vítima, sendo necessária a prévia autorização nos casos de maior de 18 anos.
Ainda, foi acrescido o art. 225, o qual determina que a prática de qualquer ação descrita no
caput se procede mediante ação penal pública incondicionada.
A Lei 13.772, de 19 de dezembro de 2018 reconheceu a violação da intimidade da
mulher como violência doméstica e familiar, bem como criminalizou o registro não
autorizado de conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e
privado. Tal lei alterou o art. 7º da Lei Maria da Penha, que enumera as formas de violência
doméstica e familiar contra a mulher, especificadamente o inciso II, incluindo no rol das
ações que configuram violência psicológica a violação da intimidade. Ou seja, a violência
física, psicológica, sexual, patrimonial e moral são algumas das formas de violências, que
estão dispostas nos incisos do artigo42.
O direito da mulher também está protegido através da Lei Maria da Penha que, como
elencado no artigo 6º desse diploma legal, considera violência doméstica contra a mulher
casos de sofrimento psicológico e dano moral, bem como trata como violação dos direitos
humanos. O artigo 5º da lei 11.340/2006 conceitua a violência contra a mulher da seguinte
maneira: “[…] qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão,
sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial [...]” (BRASIL,
2006)43. Assim, Cunha (2017) complementa que:
Se a conduta é cometida contra a mulher na forma de um dos incisos do art. 5º da
lei nº 11.340/06, aplica-se o sistema de proteção especial em decorrência de
violência doméstica e familiar, pois, como estabelece o caput do mesmo art. 5º,
caracteriza-se esta espécie de violência inclusive nas situações em que da conduta
resulta sofrimento psicológico.
44
42BRASIL, Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm (acesso 20
ago. 2020).
43Idem
44CUNHA, Rogério Sanches. Manual de Direito Penal: parte especial (arts. 121 ao 361). 9º ed. rev. ampl. e
atual. Salvador: JusPODIVM, 2017. p. 191.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm
61
Além disso, acrescentou o Capítulo I-A no Código Penal que trata da exposição da
intimidade sexual, incluindo o art. 216-B que considera crime o registro não autorizado da
intimidade sexual. O artigo diz:
Art. 216-B. Produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, conteúdo
com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e privado sem
autorização dos participantes: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e
multa. Parágrafo único. Na mesma pena incorre quem realiza montagem em
fotografia, vídeo, áudio ou qualquer outro registro com o fim de incluir pessoa em
cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo”45.
Portando, consolidada essa nova dinâmica das relações sociais e dos meios de
comunicação, foi necessário modificar a legislação brasileira, pois os comportamentos vistos
hoje jamais seriam imagináveis a poucos anos atrás. A vingança pornográfica surgiu através
dessa mudança, mesmo que recente, que gera situações constrangedoras e até traumáticas
para a pessoa que tem sua intimidade compartilhada sem consentimento através da internet.
Ademais, verifica-se que esse tipo de vingança, além de ser uma grave violação a direitos
fundamentais (dignidade da pessoa humana, honra e privacidade), é uma violência de
gênero, pois, como anteriormente mencionado, a maioria das vítimas são do sexo feminino.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por meio do presente estudo, se pôde notar que o avanço da internet modificou os
comportamentos sociais em geral. A nova dinâmica dos meios de comunicação facilitou o
acesso aos mais diversificados conteúdos disponíveis na rede mundial de computadores,
possibilitando que qualquer pessoa em qualquer lugar acesse, salve e compartilhe qualquer
tipo de conteúdo, independentemente do teor, de forma rápida, prática e eficiente.
Com isso, essa facilidade também deu origem à vingança pornográfica, que pode ser
qualificada como uma forma de vingança que utiliza dos meios de comunicação virtual para
divulgar conteúdo íntimo. A produção do conteúdo pode ser, inclusive, consensual, porém,
a divulgação não. Esses fatos geralmente ocorrem com vítimas do sexo feminino e geram
situações constrangedoras, violadoras de direitos fundamentais como o princípio da
45BRASIL, Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm (acesso 20 de
ago. 2020).
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm
62
dignidade da pessoa humana, a inviolabilidade da honra e o direito à privacidade, uma vez
que a intimidade da vítima é divulgada para um número inimaginável de pessoas.
Nesse sentido, foi possível observar a dificuldade da punição de quem divulgava os
materiais pornográficos, uma vez que essa conduta ainda não era tipificada como crime no
ordenamento jurídico brasileiro. Percebeu-se que, em que pese os avanços que já estão
ocorrendo para controle dos conteúdos divulgados na internet, como o Marco Civil da
Internet, o Brasil somente se adaptou aos novos comportamentos sociais em 2018, com o
advento das Leis 13.178/2018 e 13.772/2018, que abarcou as novas formas de vingança, a
fim de garantir proteção jurídica às vítimas da vingança pornográfica.
Ademais, as Leis 13.178/2018 e 13.772/2018 alteraram o Código Penal, com a
inclusão dos artigos 216-B e 218-C. Além disso, a Lei 13.772/2018 alterou o art. 7º, inciso
II da Lei Maria da Pena, considerando violência psicológica a violação de sua intimidade da
mulher com o objetivo de proteger a vítima que teve suas fotos íntimas compartilhadas sem
consentimento. Assim, pôde-se verificar que a alteração legislativa trouxe benefícios à
vítima, uma vez que o art. 216-B trouxe pena de detenção, de 06 meses a um ano, e multa,
bem como o art. 218-C a pena de reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o fato não constitui
crime mais grave, com aumento de 1/3 se o crime for praticado por agente que mantém ou
tenha mantido relação íntima de afeto com a vítima ou com o intuito de vingança ou
humilhação.
Por fim, a vingança pornográfica não é oriunda do avanço tecnológico, apenas foi
facilitada por ele, uma vez que a internet não fazia parte do dia a dia das pessoas, inclusive
do mundo forense e hoje auxilia a concretização do objetivo do agente, ou seja, se vingar da
vítima. Assim, a legislação brasileira precisou acompanhar o desenvolvimento da sociedade
de modo geral, pois a internet alterou o comportamento social, principalmente no que diz
respeito à comunicação, o que se não observado, gera situações negativas com efeitos muitas
vezes devastadores e de graves violações a direitos fundamentais.
63
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66
A FRAGILIDADE DA LGPD PERANTE OS HIPERVULNERÁVEIS
Amanda Israel Fraga1
Vitória Bastos Bernardi2
Resumo: A instituição da LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais no Brasil criou
demandas ainda não tratadas – nem mesmo internacionalmente. A partir de um conceito e
analogia da hipervulnerabilidade do consumidor com o titular de dado pessoal, faz-se um
paralelo quando a lacuna encontrada na nova legislação e a necessidade de normatização e
jurisprudência a fim de ver protegida e garantida aquela parte mais fraca na relação jurídica.
Palavras chave: Hipervulnerabilidade, Lei Geral de Proteção de Dados – LGPD, Direito
INTRODUÇÃO
A Lei Geral de Proteção de Dados, promulgada no Brasil em 2018 e com entrada em
vigor prevista para 2020, apresenta mudanças de paradigmas nas relações atuais,
especialmente na lógica da economia digital, empoderando o titular de dados pessoais, para
que tenha autonomia de decisão e conhecimento profundo quanto ao tratamento de seus
dados por todo aquele, pessoa física ou jurídica, com finalidade comercial.
A lei reconheceu, ainda que de forma tácita, a vulnerabilidade do titular de dados, tal
qual àquela apresentada pelo Código de Defesa do Consumidor visto que, aquele que trata
dado de outrem com finalidade comercial, muitas vezes pode o fazer sem o devido cuidado
ou até mesmo, em alguns casos, ultrapassar limites mínimos da boa-fé na relação.
A norma apresentou condições especiais para o tratamento de dados pessoais de
crianças e adolescentes, visto suas condições peculiares de discernimento para consentir com
a disposição de seus dados de forma independente. No entanto, deixou desamparados outros
1 Graduada em Direito pelo Centro Universitário Ritter dos Reis – Uniritter. Especialista em Direito Civil e
Processual Civil pelo Centro Universitário Ritter dos Reis. MBA em Auditoria e Compliance pela Universidade
La Salle. Membro da Comissão Especial de Proteção de Dados e Privacidade da OAB/RS. Advogada –
OAB/RS 98.818. <amandaif92@gmail.com>
2 Graduada em Direito pelo Centro Universitário Ritter dos Reis – Uniritter.Especialista em Direito Civil e
Processual Civil pelo Centro Universitário Ritter dos Reis. MBA em Gestão Estratégica de Negócios pela
Unopar, MBA em Auditoria e Compliance pela Universidade La Salle. Membro da Comissão Especial de
Proteção de Dados e Privacidade da OAB/RS. Membro da Comissão de Direito Tecnologia e Inovação da
OAB/RS. Advogada – OAB/RS 93.589. <vitoria.bernardi@gmail.com>
67
sujeitos de direito, que são considerados hipervulneráveis, diante de suas próprias condições
especiais, tais como os idosos, os deficientes e os iletrados.
Nesse sentido, tem-se que, os titulares de dados pessoais, o que inclui os
hipervulneráveis, são dotados de autodeterminação informativa, ou seja, munidos de
elemento volitivo quanto aos tratamento de seus dados pessoais. A lei, inclusive apresentou
a autodeterminação informacional como um fundamento, especialmente porque vivemos na
era da economia digital, com dados pessoais sendo uma moeda de troca para bens de
consumo.
A disparidade das relações jurídicas é tratada pelo Direito com sensibilidade há
certo tempo. O Direito do Consumidor, por exemplo, tem por objetivo equilibrar as relações,
buscando corrigir as desigualdades. No mesmo cenário, desenvolve-se a Lei Geral de
Proteção de Dados, com o intuito de proteger a parte mais vulnerável da relação,
empoderando-a para que disponha de seus dados com qualidade, transparência, segurança e
livre acesso.
O SER HUMANO COMO FONTE DE ESCOLHAS A SEREM
RESPEITADAS
O Direito reconhece, cada vez mais, o ser humano como fonte de escolhas
íntimas que devem ser respeitadas, sejam por pessoas públicas, sejam privadas,
garantindo a autonomia moral, racional e existencial. As liberdades existenciais e a
autodeterminação crescem e ficam mais fortes neste século3.
A autodeterminação, um dos princípios fundamentais dos direitos humanos
– que significa autonomia através da auto regulação, está presente nos mais variados
campos e se mostra como um projeto de vida aos considerados incapazes pelo Direito
Civil. Neste contexto, tem-se a recente legislação de proteção de dados no Brasil (Lei
13.709/2018), que vem como forte evidência de que vivenciamos o despertar para a
proteção de novos interesses e direitos, cuidando dos mais vulneráveis.
Martins-Costa4 pontua que o termo vulnerabilidade surgiu, inicialmente, para
tratar discussões bioéticas, no Belmont Report, desenvolvido pela Comissão
3 FARIAS, Cristiano Chaves de. NETTO, Felipe Braga. ROSENVALD, Nelson. Manual de Direito Civil, 4ª
Ed., Editora Juspodivm, Salvador, 2019. p.328
4 MARTINS-COSTA, Judith. A boa fé no Direito Privado: critérios para a sua aplicação. São Paulo: Marcial Pons, 2015, p. 300.
68
Nacional de Proteção às Pessoas Sujeitas à Pesquisa Biomédica e Comportamental,
criada para o Congresso Americano. Contudo, desde então, foi adotado por diversas
áreas do Direito mas, principalmente, nas relações de consumo.
Além disso, o Superior Tribunal de Justiça tem entendimento ainda mais
abrangente, em especial se destaca o dito pelo Ministro Herman Benjamin em
Recurso Especial nº 586.316, quando afirma:
Ao Estado Social importam não apenas os vulneráveis, mas sobretudo os
hipervulneráveis, pois são esses que, exatamente por serem minoritários
mais sofrem com a massificação do consumo e a “pasteurização” das
diferenças que caracterizam e enriquecem a sociedade moderna.Ser
diferente ou minoria, por doença ou qualquer outra razão, não é ser
menos consumidor, nem menos cidadão, tampouco merecer direitos de
segunda classe ou proteção apenas retórica do legislador.
A capacidade civil pode ser considerada um direito fundamental, na medida
em que tem relação direta com a autodeterminação, na escolha de seus próprios
caminhos, na tomada de decisão em todos os aspectos da vida, sejam eles existenciais
ou patrimoniais5. Dessa forma, mais do que vislumbrar as pessoas como incapazes,
é necessário enxergá-las como vulneráveis, detentoras de um regime diferenciado de
proteção, que busque promover a autonomia, visto que, a expressão vulnerável
expressa duas ideias: tanto aquele que se encontra ferido, como também aquele que
corre o risco de se ferir6.
Com a consciência de que é dever do Direito a proteção daqueles que correm
maior risco – são mais vulneráveis em uma relação, a Lei Geral de Proteção de Dados
vem com destaque, em sua Seção III, para o tratamento de dados pessoais de crianças
e adolescentes. Da mesma forma que o Estatuto da Criança e do Adolescente também
visa a proteger pessoas consideradas pela sociedade como vulneráveis. As crianças e
adolescentes gozam dos mesmos direitos da pessoa humana que um adulto e, os
adolescentes não são tão incapazes quanto a lei gostaria de demonstrar. Percebe-se a
possibilidade de valorização do discernimento. Nesse contexto, a atuação dos pais ou
responsáveis será necessária de forma mais abrangente, quanto menor for o
5 FARIAS, Cristiano Chaves de. NETTO, Felipe Braga. ROSENVALD, Nelson. Manual de Direito Civil, 4ª Ed., Editora Juspodivm,
Salvador, 2019. p. 331.
6 MARTINS-COSTA, Judith. A boa fé no Direito Privado: critérios para a sua aplicação. São Paulo: Marcial
Pons, 2015, p. 300.
69
discernimento. Contudo, sua ingerência deve diminuir, incentivando o exercício
autônomo de escolhas existenciais7.
Inclusive, ao dispor sobre o tema, a Lei Geral de Proteção de Dados refere,
em seu art. 14, § 6º, que as informações sobre o tratamento de dados pessoais de
crianças e adolescentes, deverão ser fornecidas de forma simples, clara, acessível,
levando-se em conta as características físico-motoras, perceptivas, sensoriais,
intelectuais e mentais do usuário, de forma a proporcionar o adequado entendimento
da criança. Nota-se também que o Regulamento Europeu e demais legislações
internacionais de proteção de dados demonstraram grande preocupação quanto ao
tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes.
Contudo, a Lei Geral de Proteção de Dados, assim como os demais
regulamentos sobre o tema ao redor do mundo, apresenta latente lacuna ao deixar de
legislar quanto à proteção de demais personagens civis que se encaixam nessa
categoria de hipervulnerabilidade.
Nessa linha, temos a mudança de paradigmas quanto aos curatelados e o
instituto da incapacidade civil, o Estatuto do Idoso e o Estatuto da Pessoa com
Deficiência, legislações que visam a demonstrar essas pessoas como sujeitos de
direitos, capazes de gerir seus atos, mas que demandam proteções extraordinárias.
A Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (CDPD), que
entrou em vigor no Brasil em 2009, através do Decreto n. 6.949/09, tem como
objetivo promover, proteger e assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os
direitos humanos e liberdades fundamentais das pessoas com deficiência,
promovendo o respeito e a dignidade inerente. Com isso, surge o Estatuto da Pessoa
com Deficiência (Lei n. 13.146/2015), que visa à inclusão das pessoas portadoras de
deficiências, com garantia da cidadania.
O Estatuto da Pessoa com Deficiência permitiu a reformulação do instituto
da incapacidade civil. Pessoas que antes eram consideradas incapazes (absoluta ou
relativamente) passam a ser dotadas de capacidade8, exceto nos casos em que, por
causa transitória ou permanente, não possam exprimir sua vontade. Inclusive, criou-
7 FARIAS, Cristiano Chaves de. NETTO, Felipe Braga. ROSENVALD, Nelson. Manual de Direito Civil, 4ª Ed., Editora Juspodivm,
Salvador, 2019. p.341.
8 ROSA, Conrado Paulino da. Curso de Direito de Família Contemporâneo. 1ªEd. Editora Juspodivm, Salvador,
2016. p. 461-462.
70
se a regra da Tomada de Decisão Apoiada9, visando a que as pessoas com deficiênciausufruam de sua capacidade de exercício, com igualdade real, conforme as
possibilidades do caso concreto.
O Estatuto do Idoso, por sua vez, dispõe no artigo 2º que: “O idoso goza de
todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção
integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhe, por lei ou por outros meios, todas
as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu
aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e
dignidade.”. Referida legislação também se destina a proteger pessoas que se
encontram em situação de vulnerabilidade, perante a sociedade. O artigo 10, § 2º
inclusive destaca a necessidade de garantia da autonomia do idoso.
Nesse tópico, ainda, importante pontuar sobre o analfabeto, pessoa que não
detém habilidade para se comunicar através do alfabeto e que, portanto, em muitas
situações estará enquadrado também na condição de hipervulnerável.
Atualmente, o acesso à informação se dá em maioria das vezes através de
escritos, especialmente quando se fala em ambiente tecnológico, como sites e
aplicativos. Contudo, o analfabeto – conforme INAF (Índice de Analfabetismo
Funcional), aquele que não preenche requisitos mínimos de instrução necessários
para assinar seu nome e escrever pequenos bilhetes10 – não atingirá a devida
compreensão daquilo que não está expresso oralmente. Dessa forma, vê-se
impossibilitados de realmente entender a extensão das responsabilidade que estão
avocando.
A Lei Geral de Proteção de dados apresenta, como uma das hipótese de
tratamento de dados pessoais, o fornecimento do consentimento do titular11. Na
sociedade de tecnologia vivenciada, criou-se um ecossistema no qual transitam dados
pessoais em um fluxo volátil, incompreensível para o titular de dados pessoais, em
razão da racionalidade limitada do ser humano12, de forma que o homem médio, terá
9 Código Civil. Art. 1.783-A. A tomada de decisão apoiada é o processo pelo qual a pessoa com deficiência
elege pelo menos 2 (duas) pessoas idôneas, com as quais mantenha vínculos e que gozem de sua confiança,
para prestar-lhe apoio na tomada de decisão sobre atos da vida civil, fornecendo-lhes os elementos e
informações necessários para que possa exercer sua capacidade.
10CHERTMAN, Fernando. Vulnerabilidade de consumo por analfabetos. Disponível em:
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/8161. Acesso em 31/08/2020.
11 Art. 7º, I, LGPD.
12 BIONI, Bruno Ricardo. Proteção de dados pessoais: a função e os limites do consentimento. 2ª Ed.Editora Forense. Rio de Janeiro, 2020.
p. 139-141.
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/8161
71
dificuldade de compreender o caminho traçado por seus dados pessoais, ao fornecer
o consentimento ao controlador dos dados. Assim, notamos que, os hipervulneráveis
poderão ser amplamente prejudicados, pois sequer terão o discernimento e
conhecimento suficiente para consentir com o tratamento de seus dados pessoais.
A VULNERABILIDADE NO CDC
O conceito de vulnerabilidade é mais abrangente do que a ideia clássica e
formal da incapacidade no Direito Civil. A vulnerabilidade ultrapassa a ideia de
igualdade formal, pois só tem vez quando se está diante de pessoas concretas, com
análise contextual13.
O Direito do Consumidor, calcado no Código de Defesa do Consumidor,
apresenta a ideia de vulnerabilidade, protegendo a parte mais fraca da relação
jurídica. Cuida-se de uma presunção absoluta e que é relevante fator de análise para
criação de padrões diferenciados na norma. Portanto, a vulnerabilidade permeia as
controvérsias jurídicas, nas relações de consumo. Observa-se que, não basta que as
partes sejam capazes, mas é necessário que se esteja atento para as fragilidades de
cada uma, visando ao equilíbrio material entre as prestações, atentando-se para a
inexistência de abuso de direito e a boa-fé objetiva.
Nesse contexto, cabe a conceituação da hipervulnerabilidade, que demanda
situações específicas, as quais devemos estar atentos. Para que esta ocorra, estaremos
diante de um indivíduo que é duplamente vulnerável, isto é, se enquadra em mais de
uma situação de fragilidade simultaneamente.
A exemplo disso temos os consumidores idosos, que terão seus direitos
subjetivos preservados, tais como a garantia de privacidade, informação, liberdade
de escolha, somados a sua condição de idoso e às proteções a ela inerentes. Da mesma
forma, ocorrerá com o Titular de Dados Pessoais, previsto na Lei Geral de Proteção
13 FARIAS, Cristiano Chaves de. NETTO, Felipe Braga. ROSENVALD, Nelson. Manual de Direito Civil, 4ª Ed., Editora Juspodivm,
Salvador, 2019. p. 357.
72
de Dados, que acumula características que exigem proteção superior como as
crianças e adolescentes, os idosos, as pessoas com deficiência e os analfabetos.
A AUTODETERMINAÇÃO INFORMATIVA
O conceito de autodeterminação informativa, em que pese estivesse previsto
na doutrina norte-americana, ganhou força com a decisão da Corte Constitucional
Alemã, a respeito do recenseamento de 1983. A sentença utilizou a expressão para
designar o direito dos indivíduos de “decidirem por si próprios, quando e dentro de
quais limites seus dados pessoais poderiam ser utilizados”14. O julgado é
paradigmático, pois abriu espaço para a discussão sobre a existência de um direito
autônomo quanto à proteção de dados pessoais em relação à personalidade, e
tratando-a como uma evolução do direito à privacidade15.
A Lei Geral de Proteção de Dados estabelece como fundamentos da proteção
de dados pessoais, a garantia dos direitos fundamentais e o livre desenvolvimento da
personalidade, além do desenvolvimento econômico-tecnológico e a inovação16.
Portanto, estabelece uma dialética normativa de conciliação dos elementos, cujo
principal vetor para alcançar este intuito é conceder ao cidadão o controle sobre seus
dados pessoais. Dessa forma, entende-se que isso vai além do consentimento do
titular ao autorizar o uso de seus dados. Com a mesma importância que o elemento
da vontade é garantir que as informações condizem com as legítimas expectativas,
pois a junção destes elementos resulta na autodeterminação informacional17.
E, por isso, a LGPD trouxe, em seu art. 2º, inciso II, a autodeterminação
informativa como um fundamento da lei. Isso porque, a quantidade de dados
14 DONEDA. Danilo. Da Privacidade à Proteção de Dados Pessoais. 2ª Ed. Revista dos Tribunais. São Paulo, 2019. p. 168.
15 BIONI, Bruno Ricardo. Proteção de dados pessoais: a função e os limites do consentimento. 2ª Ed. Editora Forense. Rio de Janeiro,
2020. p. 99-100.
16 LGPD, Artigos 1º e 2º.
17 BIONI, Bruno Ricardo. Proteção de dados pessoais: a função e os limites do consentimento. 2ª Ed. Editora Forense. Rio de Janeiro,
2020. p. 104-105.
73
disponíveis e a qualidade de seu tratamento, através de sistemas informatizados, são
capazes de transformar os dados pessoais em verdadeiras commodities18.
Contudo, a Lei, em sua essência ainda superficial, deixa de adentrar no
tocante à proteção de dados – e autodeterminação – de minorias consideradas
naturalmente vulneráveis e, nessa relação em específico, hipervulneráveis.
ASSIMETRIA E HIPERVULNERABILIDADE NAS RELAÇÕES
ENVOLVENDO DADOS PESSOAIS
Os dados pessoais são considerados ativos econômicos de grande valia.
Constantemente nos deparamos com a frase “dados são o novo petróleo”, o que
enseja uma corrida desenfreada para obtenção de quantidade significativa destas
informações valiosas para quem sabe como tratar e analisar. Para Bruno Bioni, há
uma contratualização da autodeterminação informativa do titular de dados, pois as
políticas de privacidade,na sociedade da tecnologia, têm se mostrado ineficazes para
capacitar o cidadão a controlar seus dados pessoais19.
O Direito tem-se mostrado sensível às relações assimétricas. Isso ocorre, por
exemplo, como já dito, pelo Direito do Consumidor, que visa a fornecer mecanismos
para que a relação de consumo se torne paritária, concedendo direitos ao cidadão,
para corrigir a desigualdade.
Da mesma forma, a Lei Geral de Proteção de Dados - não apenas no Brasil,
mas também em suas equivalentes ao redor do mundo - surge para equilibrar as
relações jurídicas, protegendo o elo mais fraco na cadeia econômica, que tende a se
submeter ao poder do controlador de dados pessoais, a fim de obter o bem fornecido.
O cidadão, em relação aos seus dados pessoais, é naturalmente vulnerável,
tendo uma fraqueza inerente, pois não dispõe de conhecimento técnico para
gerenciamento do fluxo pelo qual suas informações pessoais transitam. As normas
especiais têm o objetivo de tutelar os direitos de quem é vulnerável, na medida de
suas fraquezas. Nesse contexto, observamos que o regramento de proteção de dados
18 MALDONADO, Viviane Nóbrega. BLUM, Renato Opice, coordenadores. LGPD. Lei Geral de Proteção de Dados Comentada. Thomson
Reuters Brasil, São Paulo, 2019. p. 27.
19 BIONI, Bruno Ricardo. Proteção de dados pessoais: a função e os limites do consentimento. 2ª Ed. Editora Forense. Rio de Janeiro,
2020. p. 263-264
74
apresentou dispositivos para proteção desse vulnerável, mas não dispôs sobre a tutela
dos direitos da maioria dos indivíduos em situação de hipervulnerabilidade, à
exceção das crianças e adolescentes.
Em que pese o legislador não tenha determinado preceitos de
hipervulnerabilidade na LGPD, ao emitir o Decreto 10.474/2020, que aprovou a
estrutura regimental da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), a
Presidência da República, instituiu, como competência da autoridade, garantir que o
tratamento de dados de idosos seja efetuado de maneira clara, simples, acessível e
adequada ao seu conhecimento, respeitando o disposto no Estatuto do Idoso20.
No entanto, novamente, observamos o esquecimento do poder público quanto
à tutela dos demais hipervulneráveis, que não foram contemplados na lei. Nesse
contexto, deverá ocorrer a interligação das normas, especialmente daquelas que já
tratam de fraquezas do cidadão.
CONCLUSÃO
O Poder Judiciário terá o papel fundamental de interligar as normas, fazendo
analogia da vulnerabilidade descrita no Código de Defesa do Consumidor, para
solucionar as controvérsias jurídicas. As decisões deverão levar em consideração, as
normas esparsas, tais como os estatutos, o Marco Civil da Internet e a própria
Constituição Federal.
A Lei Geral de Proteção de Dados foi criada – a nível mundial – deficitária.
Ainda que venha como uma iniciativa esperada e necessária em face do mundo digital
e tecnológico, ainda apresenta sérias lacunas que deverão ser esclarecidas e
normatizadas.
Ainda que se trate de minoria, o hipervulnerável está presente em todos os
tipos de relação jurídica e, destaca-se, a comercial. Em especial, o idoso que vem,
pouco a pouco, deixando de ser visto, inclusive, como minoria, em face do
envelhecimento longevo e saudável.
A proteção de dados precisará ser regulada no detalhe das carências sociais
de cada país em que vige e, aqui no Brasil, a Autoridade Nacional de Proteção de
Dados terá como função elaborar diretrizes para a Política Nacional de Proteção de
20 Art. 2º, XIX, Dec. 10.474/2020.
75
Dados Pessoais e da Privacidade – art. 55-J, III, LGPD – e promover na população o
conhecimento das normas e das políticas públicas sobre proteção de dados pessoais
e das medidas de segurança - art. 55-J, VI, LGPD, mantendo sempre em visão o
completo quadro de cidadãos, tanto os naturalmente vulneráveis pela própria situação
em que se encontram, mas principalmente aqueles que merecem a maior proteção, os
hipervulneráveis.
REFERÊNCIAS
BIONI, Bruno Ricardo. Proteção de dados pessoais: a função e os limites do
consentimento. 2ª Ed.Editora Forense. Rio de Janeiro, 2020.
CHERTMAN, Fernando. Vulnerabilidade de consumo por analfabetos.
Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/8161. Acesso em
31/08/2020
DONEDA. Danilo. Da Privacidade à Proteção de Dados Pessoais. 2ª Ed. Revista dos
Tribunais. São Paulo, 2019.
FARIAS, Cristiano Chaves de. NETTO, Felipe Braga. ROSENVALD, Nelson. Manual de
Direito Civil, 4ª Ed., Editora Juspodivm, Salvador, 2019.
MARTINS-COSTA, Judith. A boa fé no Direito Privado: critérios para a sua
aplicação. São Paulo: Marcial Pons, 2015.
ROSA, Conrado Paulino da. Curso de Direito de Família Contemporâneo. 1ªEd.,
Editora Juspodivm, Salvador, 2016.
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/8161.%20Acesso%20em%2031/08/2020
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/8161.%20Acesso%20em%2031/08/2020
76
AS MULHERES COMO PROTAGONISTAS, NA TOMADA DE
DECISÃO: UMA ESTRATÉGIA EM BUSCA DA AUTONOMIA,
DESENVOLVIMENTO E SUSTENTABILIDADE
Andréa Marta Vasconcelos Ritter1
Resumo: O objetivo deste artigo consiste em demonstrar que as mulheres são protagonistas
e fazem parte do sistema político, em seus vários órgãos e poderes, sendo importante para
estabelecer uma estratégia em busca da autonomia. As mulheres, pessoas físicas, são
diferentes dos rígidos Estados, Pessoa Jurídica de Direito Público e que as mulheres são, no
processo de tomada de decisão, as propulsoras em prol das políticas institucionais e públicas,
bem como impulsionam ações em favor da equidade de gênero, autonomia, desenvolvimento
e sustentabilidade. A pesquisa é documental e de caráter qualitativo, as autoras e documentos
referenciados são os fundamentos jurídicos e principal eixo. A conclusão é que as mulheres
de todas as qualificações, são agentes, sujeitos, capazes e que ao tomar as decisões sobre as
políticas públicas atuam em prol da coletividade e empoderadas, são de grande importância
para o desenvolvimento social e econômico da humanidade. Não se trata apenas de tornar
visível o invisível ou de retirar a neutralidade, mas de reconhecer que necessário considerar
o “recorte de gênero” para a tomada de decisão, para a formulação, planejamento e execução
das políticas públicas pelas mulheres, devendo a perspectiva de gênero ser aplicada para
reduzir as desigualdades, na consecução de um objetivo comum, entre Estado, Família e
Comunidade, com mobilidade para além do ordenamento jurídico. Eis que o
desenvolvimento requer uma visão estratégica com o empoderamento e a autonomia das
mulheres que são as reais agentes da tomada de decisão, transformando e atingindo a
sustentabilidade da vida com igualdade e paz.
Palavras-Chave: Mulheres – Agentes – Tomada de Decisão – Desenvolvimento
1. INTRODUÇÃO
As questões de gênero, nos últimos 40 anos e especificamente às referentes ao lugar
e papel das mulheres adquiriram uma grande importância nas ciências. Eis que cresceram os
Movimentos de Mulheres, as Agendas foram incrementadas pelas Resoluções das
Conferências mundiais e regionais de mulheres, mas ainda há lacunas e lutas, sendo
1 Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais ( PUC 1987 ) Advogada desde 1987 e sócia de Roque e Vasconcellos
Advogados Associados ; Professora Universitária desde 1989; Bacharel em Relações Internacionais (
UNIRITTER 2016 ) , Pós Graduação em Metodologia do Ensino Superior ( UNISINOS 1991), em Direito
Público e Privado ( UNIRITTER ) e em Estratégias e Estudos Internacionais ( UFRGS 2018 ) ; Mestre em
Direito das Relações Internacionais ( UDE 2016 ) . Membro da Comissão da Mulher Advogada da OAB/RS.
InscriçãoOABRS 24451.
77
contínua, crescente a conscientização sobre a importância das questões de gênero e suas
peculiaridades.
Tais questões de gênero, apesar de estarem em expansão é preciso pontuar que se
apresenta um quadro de que estão sendo abandonadas pela política dos Estados em que as
políticas não são entabuladas e exercidas com os chamados “recortes de gênero”, que são
essenciais, face às necessidades e especificidades das meninas, jovens e mulheres.
As mulheres foram esquecidas, escondidas, proibidas e afastadas dos espaços de
poder e como se as questões e resultado do feminino não tiveram força suficiente para
empoderar as mulheres ou fossem simplesmente consideradas irrelevantes para as esferas
internas e externa.
Essencial superar a invisibilidade, mas sobremaneira necessário seguir avaliando,
analisando as causas que contribuem para fortalecer a luta das mulheres pelo
empoderamento, pela autonomia, pela igualdade e pela liberdade.
O processo de tomada de decisão das mulheres foi por muito tempo e ainda é
ignorado no campo das Ciências Políticas e Sociais. Não fosse isso, também existe a
definição convencionada de que o Estado é o tomador de decisão, é o responsável pela
formulação e exercício da Alta Política, isto é, as questões referentes à segurança e a
macropolítica e neste nível, as questões de gênero têm pouco ou nenhum lugar.
Mesmo o alargamento das questões, com as Agendas de Gênero, Cartas das
Conferências, as questões multiníveis e transversais não são propostas, mediadas e definidas
através dos Estados, mas sim, por meio das verdadeiras protagonistas, agentes e tomadoras
de decisão que são as mulheres, pessoas físicas, diferentes da pessoa jurídica do Estado e
que de fato decidem e devem tomar as decisões sobre as políticas institucionais e públicas.
2. AS MULHERES COMO AGENTES NA TOMADA DE DECISÃO
O terreno do poder e da prática nacional e internacional, como os Ministérios,
Secretarias e órgãos políticos, ainda são próprios e impregnados de dominação masculina,
distante das normas como a das cotas femininas, nas esferas de poder e formação de políticas
em Ministérios e Secretarias, valendo inclusive para o Sistema Internacional.
78
Para Halliday 2, na ideologia convencional, as mulheres não são preparadas para tais
atividades e responsabilidades e não se pode contar com elas em uma questão de segurança
e crise, que nada poderá estar mais distante da esfera tradicional de preocupação das
mulheres do que a segurança internacional e as outras questões globais.
Em verdade, há uma razão intencional e estrutural para a cegueira de gênero na maior
parte das relações e nos processos de tomada de decisão, além do paternalismo, machismo,
pretender uma separação entre o gênero e o processo de tomada de decisão, que é manter as
mulheres invisíveis e subjugadas, quando é através das mulheres que se alcança o
desenvolvimento e a paz.
Não há como se estudar as relações entre os Estados, Organizações Internacionais e
as pessoas, sem considerar às questões de gênero, sendo necessário o recorte para o processo
de tomada de decisão, para a formulação e execução de políticas públicas e negligenciar a
existência desta leitura particular de gênero implica em amparar a tese de que os processos
de tomada de decisão seriam neutros em gênero, ou seja, que não teriam nenhum efeito sobre
a posição e o papel das mulheres na sociedade.
Então, é mister considerar o feminismo que se preocupa com o interpessoal,
subjetivo, com o privado, com o individual, que vê as formas de domínio, ideologia,
diferenças do trabalho e sobretudo a paridade de gênero, raça e etnia.
Essencial considerar que não é o ente Estado quem de verdade realiza a tomada de
decisão, fato é que os processos de tomada de decisão possuem os efeitos de gênero e que
as mulheres são as agentes, as atoras das relações, sujeitos de direitos, protagonistas e
participantes das tomadas de decisão.
Para Darvin 3, a política do futuro será doméstica, eis que “não existe um útero
estatal, não existe seios estatais, não há substitutivo real para a beleza da maternidade
individual”. De outra sorte, vários Estados usaram até de forma brutal, este papel social e
reprodutor das mulheres, mas como agentes e tomadoras de decisão, as mulheres têm
liberdade que significa autonomia e tal gera desenvolvimento e sustentabilidade que são os
objetivos da Agenda 2030.
No debate político contemporâneo, ainda há a presença da violência, dos
dominadores, de insultos para as mulheres, tais como louca, histérica, chorona, fraca, burra,
2 HALLIDAY, Fred. Repensando as Relações Internacionais. Porto Alegre, Ed da Universidade/UFRGS,
1999.
3 DARVIN, Anna. Imperialism and Motherhood. History Workshop Journal, n.5. Spring, 1978, P.29.
79
entre outros adjetivos que reduzem e menosprezam as mulheres, mas também se verifica
mulheres que ocupam posições políticas de destaque, assegurando a contraparte masculina
e à opinião pública de que podem agir e ser tão fortes quanto os viris homens.
A emergência sobre as questões das mulheres dentro da política institucional e nos
processos de tomada de decisão envolve desafio duplo, para tais domínios que estão
separados. Se a primeira deveria reconhecer em que grau está sujeita à percepção de gênero
e o processo de tomada de decisão teria que superar a negação sobre o agente, se Estado ou
as mulheres, ou o processo e normas e formular sua análise e sugestão para apresentar um
processo em que as mulheres são agentes, formuladoras, tomadoras de decisão e exercem as
políticas destas oriundas.
Aspecto do desafio é revelar como as questões de gênero exercem e poderiam
desempenhar um papel relevante nos processos de tomada de decisão, com vistas à
formulação e realização de políticas públicas para as meninas, jovens e mulheres; e segundo,
analisar as especificidades de gênero, o denominado recorte de gênero, nas várias áreas de
atuação do Poder Público e também dos processos militares, ideológicos, políticos, sociais
que tem consequências domésticas e mudanças internas com implicância nos destinos das
mulheres e da sociedade.
Após anos da emergência do feminismo, mesmo assim, a relevância sobre as
questões de gênero nos processos de tomada de decisão, como fator de autonomia das
mulheres, de desenvolvimento e sustentabilidade é vista como evidente, principalmente
pelos Movimentos, Organizações Internacionais e pelas Conferências de Mulheres.
Os direitos humanos, por exemplo, tornaram-se muito mais importantes, na medida
em que adquiriram uma dimensão de gênero, são relevantes para a dimensão do papel dos
Estados e de outras protagonistas para a promoção ou negativa dos direitos para as mulheres.
Isso ocorre em arenas políticas mais amplas, assim como em áreas mais visíveis como as
políticas para a erradicação da violência contra as mulheres.
Se verdade que o interesse nacional enfatiza das diferenças de grupos sociais e
comunidades, bem como interesses burocráticos, étnicos e religiosos, com maior razão, as
políticas militares, econômicas ou sociais, têm efeitos variados sobre homens e as mulheres.
Não havendo neutralidade de gênero, então, mais que necessário a presença das
mulheres nos espaços de poder em todos os níveis. O recorte de gênero nos possibilita
observar as peculiaridades femininas para o processo de tomada de decisão mais específico,
80
que deve envolver todas as mulheres, considerando a variedade de raças, cor, etnias, idades,
profissões, origem, etc.
As políticas nacionais e internacionais e os processos de tomada de decisão não são
neutros de gênero e exercem importante presença na determinação do lugar das mulheres na
sociedade, que como protagonistas são livres para estar, ter vez e voz, onde desejar, bem
comona estrutura das relações sociais, econômicas e políticas entre os sexos.
Há um lugar? Há uma posição específica para as mulheres?
Na esfera política o ingresso das mulheres na vida política como eleitoras e sujeitos
políticos, um fenômeno internacional e após apresentado como nacional foi uma grande
mudança no século XX. Desde então, as mudanças políticas têm consequências diretas para
as mulheres.
Halliday 4, sem risco de exagerar, estende o slogan do movimento das mulheres- que
o pessoal é político- para afirmar que o pessoal é internacional, no sentido de que as relações
interpessoais, são bastante influenciadas pelos processos transnacionais. Isto é real e agora
comprovado pela Covid-19, cujo efeito é múltiplo nas relações de gênero e agravou mais os
problemas particulares das mulheres, como o excesso de trabalho e a violência doméstica.
De outro lado, dimensão a ser considerada, é que as mulheres, apesar da história e
estrutura de subordinação, adquirem e experimentam excelência na qualidade de
protagonistas, como agentes internacionais e nacionais. Basta verificar tal verdade em
assuntos de gênero e paz, bem como desenvolvimento econômico, sustentabilidade e
também cumprimento de Agendas, crescimento de Movimentos de Mulheres, com a
preocupação de alterar a posição e pensamento que estuda a sociedade e pessoas.
As redes, movimentos e organismos de mulheres existem desde a antiguidade sendo
exemplos de protagonismos de autoras não estatais, considerando que as mulheres como
grupos ou pessoa não detém poder Estatal em qualquer um dos países independentes do
mundo. É necessário reforçar que de fato são as agentes, as pessoas que atuam e exercem a
tomada de decisão todos os dias.
Desde o apelo do sufrágio feminino, cresceu o transnacional e as questões de gênero
devem ser tratadas em várias arenas, em multiníveis e com transversalidade entre os poderes,
matérias e ações. As questões de gênero não são pessoais ou únicas, mas formam parte de
um todo, como é evidente nas campanhas para a promoção da igualdade, as dimensões de
4 Op.cit. 1999
81
gênero da política econômica com relação ao emprego, divisão sexual do trabalho,
cuidatoria, migração, desenvolvimento e sustentabilidade recebem mais agentes e ações que
beneficiam as mulheres e a sociedade.
Em várias áreas as questões de gênero fazem intervir com valores e políticas
estabelecidas, sendo relevante o nacionalismo e a política, afirmando Jayawardena5 que o
nacionalismo mobiliza as mulheres na vida política, exalta as tradições nacionais
particularmente com relação às mulheres e por lhes dar direitos, como cidadã fornecendo
uma fundamentação para superar as designações especiais de gênero.
Os homens utilizam o Estado e as ideologias que o legitimam como um meio de
reforçar o controle sobre as mulheres exercendo por política estatal o que consideram
melhorar a posição das mulheres. Cabe dizer que o nacionalismo não é neutro de gênero,
que busca considerar seus objetivos que são contraditórios para as mulheres.
Em verdade, a posição das mulheres mudaria se realizasse o recorte de gênero e as
dificuldades seriam resolvidas e poderia evoluir para a independência de Estado e as
mulheres consideradas agentes, protagonistas têm o direito de desafiar a autoridade do
Estado que representa a nação. Se o nacionalismo tem consequência prejudicial para as
mulheres, a disciplina de gênero deve ser realizada, privilegiada e não marginalizada ou
silenciada e tal também deve ocorrer com que a política como direito das minorias, étnicas,
trabalho ou outras designações.
Os direitos das mulheres fazem parte dos direitos humanos e estão presentes nos
assuntos de política interna e externa que também se preocupam com a pobreza, emprego e
outras formas de discriminação. Em outras palavras, não se trata apenas de entender a
relevância das relações de gênero na organização da vida social, mas como o gênero afeta as
mulheres de modo especial e o processo de tomada de decisão que na política, uma vez
realizado pelas mulheres o seu ponto de vista para a formação e execução das políticas
públicas.
Importa salientar que os Estados e Instituições como atores principais não conseguem
dispor sobre as especificidades e peculiaridades das mulheres e assim, as mulheres como
atoras no sistema e a política exercendo um impacto sobre os indivíduos, suas identidades é
5 JAYAWARDENA, Kunari. Feminism and Nacionalism in de Third World. London: Zed, 1986.
82
o poder das mulheres em postos de tomada de direção, relevante para a política nacional e
internacional que está em ascensão.
No Brasil, conforme dados do IGADE6, apesar das mulheres representarem 52,64 %
do eleitorado, a participação feminina nas esferas de poder ainda é baixa, sendo a
participação das mulheres na Câmara de 77 cadeiras, 07 cadeiras no Senado Federal e as
mulheres ocupam 11,7 % das Prefeituras do Brasil.
Mesmo com a obrigação de 30% de proporção mínima, ainda há dificuldades em
atrair as mulheres para a política, eis que os quadros dos partidos que são controlados pelos
homens que entregam poucos espaços para as mulheres nas direções e para estruturar suas
campanhas.
Além disso, as mulheres necessitam vencer as barreiras do patriarcado, da estrutura
dos partidos, elegibilidade, reeleição e permanência no sistema partidário. A situação, no
entendimento de Michele Bachelet 7 exige a criação de política transversal no mais alto nível
da gestão pública, instituições fortes, que promovam o empoderamento das mulheres, são
indisponíveis para garantir avanços e impedir retrocessos.
A visão tradicional deve ser superada, assim como a masculinidade atribuída ao
poder, bem como os preceitos e estereótipos sobre o papel dos homens e mulheres levando
em conta a participação da democracia, cultura política e as relações de gênero.
Os processos de tomada de decisão irão oportunizar a autonomia e o empoderamento
das mulheres, sendo necessário viabilizar praticas e os interesses estratégicos das mulheres.
A tomada de decisão nesse sentido aproxima o aspecto prático do aspecto estratégico e
mudanças deverão ser realizadas nestes âmbitos, com o empoderamento e a consciência na
tomada de decisão é a forma de enfatizar a existência de desigualdade de gênero e a
importância da participação e da organização social das mulheres.
Os processos de empoderamento e tomada de decisão têm por objetivo a
transformação das estruturas que reforçam a discussão de gênero e a desigualdade social,
sem ignorar processos individuais e demandas cotidianas, sendo fundamental para o
desenvolvimento do sistema e a realização dos direitos humanos.
6 https://igade.com.br/
7 www.brasil.gov.br/cidadanie-e-justica/2012/02/mulheres-na-política
https://igade.com.br/
http://www.brasil.gov.br/cidadanie-e-justica/2012/02/mulheres-na-política
83
O empoderamento político não está ainda consolidado, vez que as instituições do
Estado e sociais ainda não garantem para as mulheres igualdade de direitos humanos básicos,
bem como nos recursos, no emprego e, ganhar a participação social e política, requer
intervenção estratégica em todos os níveis de programação, elaboração e execução das
políticas.
As mulheres e as jovens estão sub-representadas na tomada de decisão e poucas tem
ciência de que são visíveis, protagonistas, agentes nos processos de tomada de decisão,
havendo esta sub-representação no nível dos particulares, governos, parlamentos, órgãos de
decisão regionais e locais organizadores da sociedade civil e associações.
Esta baixa representação prejudica o exercício completo da cidadania e conduz à
decisão e políticas que ignoram problemas e necessidades especiais os direitose prioridades
devem ser garantidas e consideradas nas decisões e políticas afetando de forma direta ou não
a vida das mulheres.
Assim, necessário empoderar as meninas e jovens, alterar o funcionamento das
estruturas e aproximar a vida pública da vida privada, neste ponto, cabe ressaltar, para
exemplificar, que os horários do exercício da política do Poder Público são incompatíveis
com as necessidades da vida pessoal, familiar e considerar o envolvimento das mulheres na
política como legítimo e feminino e não como material e masculino.
O empoderamento e a autonomia, também são trazidos através dos movimentos,
redes de apoio e cooperação, que são fundamentais para a progressão política das mulheres
que serão modelos, referências, inspirações para outras mulheres devido à invisibilidade das
mulheres nos processos de tomada de decisões.
Cabe fomentar a aprendizagem e a autonomia das jovens, no que diz respeito às
competências de intervenção no domínio público, de modo que possam participar
efetivamente e eficazmente na tomada de decisão.
O fato de visibilizar, empoderar as mulheres e sensibilizar as jovens para a igualdade
de gênero é forma de conscientizar seus direitos e deveres como cidadãs e avançar para a
autonomia e participar mais ativamente em todas as dimensões da tomada de decisão política
e social, para alcançar um mundo não sexista, não racista, não homofóbico, com igualdade,
desenvolvimento e sustentabilidade.
84
O empoderamento feminino é o empoderamento das mulheres que traz nova
concepção de política, assumindo formas democráticas, constituindo novos mecanismos de
respeito coletivo e de tomada de decisões e respeito compartilhado.
Importante para o estudo considerar que a função das instituições políticas é de dar
resposta para as demandas provenientes do âmbito social e de converter as demandas em
respostas, em políticas públicas, planos programas etc. As respostas para a coletividade são
entregues na forma de decisões que irão integrar o bem comum e vincular a sociedade.
As respostas transformam o ambiente social, retroagindo, retroalimentando e nascem
novas demandas e em um processo contínuo que pode ser uma correspondente de demandas
e respostas, que podem avançar ou interromper, quando não haverá mais retroação.
O Estado e a política têm em comum o fenômeno do poder e assim se apoia a Teoria
do Estado e o processo político são definidos com a formação, distribuição e o exercício do
poder e a teoria política é considerada parte da teoria do poder.
Desde Locke é a capacidade do sujeito de obter certos efeitos e há uma relação entre
os sujeitos uma relação entre atores e o poder está estreitamente relacionado ao conceito de
liberdade.
Importam salientar que em tais relações há a presença do Poder Ideológico que se
vale de formas de saber, de doutrinas, conhecimento, informações, códigos de condições
para exercício de informações sobre comportamento de terceiros e induzem os membros a
realização ou não de ações.
De outra banda, o Poder Político é legitimado pelo indivíduo e o homem político é
livre para perseguir os próprios objetivos, sendo que os problemas de poder fazem parte das
relações de terceiros, das relações da comunidade e das relações sociais e pessoais.
Essencial entender o poder nas relações de gênero e o empoderamento das mulheres
para o desenvolvimento sustentável e entender que o poder não é só a capacidade da pessoa
de resolver sobre a sua própria vida, mas também da capacidade de decidir sobre a vida do
outro, o que transcende do poder formal do Estado, que é uma estrutura dura, tipo “bola de
bilhar”.
As relações de poder se mantém porque os atores ainda negam a existência da
desigualdade e é personificada como masculina eis que as mulheres são invisíveis e sofrem
a influencia do patriarcado estrutural e são mantidas como subalternas do outro lado do
poder.
85
Ressalta Costa8·, que muitas mulheres não podem resolver sobre suas vidas, não se
constituindo enquanto sujeitos, não exercem o poder e também, não acumulam este poder,
mas o reproduzem para elas mesmas, mas para aqueles que de fato contém o poder.
E segue dispondo o autor, que as pequenas parcelas de poder ou os pequenos poderes
que lhes tocam e permitem romper em alguns momentos ou circunstâncias, a supremacia
masculina, são poderes tremendamente designados.
Como se salientou, o domínio do patriarcado está presente na sociedade, em distante
manifestação, no mundo, domínio público e assegura poder para os homens e desiguala para
as mulheres envolvendo conteúdos de trabalho, sexo, violência, acesso restrito das mulheres
aos recursos do Estado, sociedade e participação política que distribui recursos desiguais
entre homens e mulheres, sendo que as mulheres continuam subjugadas, excluídas de
qualquer esfera de decisão.
As políticas de tomada de decisão, incluindo planejamento e execução, consideram
que as necessidades das mulheres são idênticas as dos homens ou a de grupos da sociedade
civil e assim, as mulheres são tratadas como mães, esposas e não como sujeito de direitos
com autonomia e vários projetos são inócuos, ineficazes e contraproducentes não produzindo
resultados transformadores o que não supera designação de gênero nem traz
desenvolvimento das mulheres, jovens e meninas.
3. CONCLUSÕES
Com o empoderamento as meninas, jovens e mulheres, de todas as pluralidades,
tomam conta de seus próprios assuntos, vida e consciência de sua habilidade e competência
para produzir, criar e gerir. Dentre a busca do empoderamento está à promoção da tomada
de decisão e a ação, sendo que o componente político supõe a habilitação para analisar e o
meio circunda em termos políticos e sociais que surge a capacidade para organizar promover
a mudança social, com maior igualdade e maior empoderamento.
O poder assume e torna a democracia com mecanismos de responsabilidade coletiva,
tomada de decisão, responsabilidade compartilhada e constrói uma democracia política mais
ampla.
8 COSTA, Ana Alice. As donas do Poder. Mulher e Política na Bahia. Salvador: NEIM/UFBA e Assembleia
Legislatica da Bahia, 1998 (coleção Baianas, vol 2).
86
Há uma transformação na dominação tradicional dos homens sobre as mulheres, pois
com o empoderamento, segundo Léon 9, há empoderamento também dos homens, no sentido
material e psicológico, já que as mulheres logram ter acesso aos recursos materiais em
benefício da família e da comunidade, a compartilhar responsabilidade e também devido a
que permitirem-se novas experiências emocionais para os homens e os libera dos
estereótipos de desigualdade.
É um dos objetivos da Agenda 2030, a igualdade entre os gêneros e em 2005, o
Fórum Econômico Mundial, comprometido com a melhoria das condições do mundo,
finalizou com o documento “Empoderamento das mulheres – Arena das disposições Globais
e de Gênero”.
Dentre as dimensões importantes para o empoderamento consta o empoderamento
político que diz respeito à representação equilibrada de mulheres em estado de tomada de
decisão, formação, informação e ao direito à voz na formulação das políticas que afetam a
sociedade na qual está inserida a ausência de mulheres nas estruturas de governo
significando a falta de participação das mulheres na alocação dos recursos.
A experiência de vida com relação aos homens proporciona compreender as
diferenças das necessidades, preocupações e interesses, sendo princípio estratégico para o
combate da pobreza e mudança nas relações de poder, eis que o reconhecimento valoriza as
mulheres e implica na autonomia, garantindo a igualdade.
Importante salientar que o processo de empoderamento vinculado ao processo de
participação, favorece o estabelecimento de políticas e pratica de desenvolvimento que
compreende as necessidadesdas pessoas e por isso vital o recorte de gênero.
Desta forma, as mulheres devem fazer parte de instancias de definição, implantação
e monitoramento de políticas, programas e a cidadania facilitada em projetos para propor
políticas públicas.
Neste sentido, não é possível separar a conduta individual do sujeito, no caso as
mulheres, e as disposições sociais que regem a vida em coletivo e assim o desenvolvimento
pleno está relacionado com a expansão das capacidades individuais e com o exercício da
condição de agente.
9 LEÓN, Magdalena. El Empoderamiento en la Teoria y Práctica del Feminismo. México: Universidad del
Colima, 2002.
87
Para Sen10, a definição de agente é alguém que age, ocasiona mudanças e cujas
realizações podem ser julgadas de acordo com seus próprios valores e objetivos, logo não é
o sujeito passivo receptor de benefícios e programas de assistência. Nesta perspectiva, o
empoderamento de mulheres, no sentido de obtenção do poder de escolher seu próprio
destino.
Cristalino que o poder de escolher, ter autonomia equivale à possibilidade ou não que
as mulheres têm de tomar decisões, enquanto sujeito de direitos, deveres na família, na
sociedade ou comunidade e reconhecer o direito das mulheres no seu processo de procura
de melhores condições de vida para si, para a família e para a sociedade.
Não bastam políticas de educação, saúde ou políticas contra a violência sem outros
acessos importantes, que quando totalmente implementados os beneficiários ocasionados
pela maior participação das mulheres na esfera política e instituições são transversais e
notáveis, pois as mulheres priorizam o bem estar coletivo.
A ampliação do empoderamento das capacidades de realização das mulheres e de sua
condição de agentes é transformadora, há conversão em benefícios para as mulheres e toda
a coletividade e se tal ocorre importante que os Estados e demais atores que atuam no âmbito
público considerem as mulheres, levando em conta a sua especificidade, com a consideração
de gênero.
A alta política deve ser responsável por este recorte de gênero e a participação
feminina deve ocorrer desde o âmbito de representação delegando até a formação dos grupos
de interesse ou de pressão.
Para finalizar, cabe trazer Reynolds11 que defende que as empresas e as pessoas
humanas são atores, dotados de ações e poder para a tomada de decisão e compõe o Sistema,
o que significa reconhecer as mulheres como protagonistas, como atoras, com papel
significativo para a tomada de decisão e integradas no desenvolvimento com capacidade de
desempenhar importante papel na estratégia de desenvolvimento.
É desafio o empoderamento, a autonomia das mulheres, o desenvolvimento
sustentável e a mudança com transformação que avance na igualdade de gênero, inclusão,
10 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia
das Letras, 2000.
11 REINOLDS, P. A., Introduccion AL Estudio de Las Relaciones Internacionales. Madri, Tecnos, 1977.
88
cumprimento das políticas públicas e o cumprimento da Agenda 2030 como apontam ONU
e a CEPAL12·.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Autonomia das Mulheres e igualdade na Agenda de desenvolvimento sustentável. 2015.
COMISSÃO ECONOMICA PARA AMERICA LATINA E CARIBE (CEPAL) Estratégia
de Montevideo para la implementacion de la Agenda Regional de Género em el marco
Del desarrollo sostenible hacia 2030. 2017.
COMISSÃO ECONOMICA PARA AMERICA LATINA E CARIBE (CEPAL). La
autonomia de lasmujeres em escenarios econômicos cambiantes. Santiago. 2019
COSTA, Ana Alice. As donas do Poder. Mulher e Política na Bahia. Salvador: NEIM/UFBA
e Assembleia Legislatica da Bahia, 1998 (coleção Baianas, vol 2 ).
DARVIN, Anna. Imperialism and Motherhood. History Workshop Journal, n.5. Spring,
1978, P.29.
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Globais de Gênero. Genebra, 2005.
HALLIDAY, Fred. Repensando as Relações Internacionais. Porto Alegre, Ed da
Universidade/UFRGS, 1999.
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JAYAWARDENA, Kunari. Feminism and Nacionalism in de Third World. London: Zed,
1986.
LEÓN, Magdalena. El Empoderamiento en la Teoria y Práctica del Feminismo. México:
Universidad del Colima, 2002.
REINOLDS, P. A., Introduccion AL Estudio de Las Relaciones Internacionales. Madri,
Tecnos, 1977.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução: Laura Teixeira Motta. São
Paulo: Companhia das Letras, 2000.
www.brasil.gov.br/cidadanie-e-justica/2012/02/mulheres-na-política
12 COMISSÃO ECONOMICA PARA AMERICA LATINA E CARIBE (CEPAL). La autonomia de
lasmujeres em escenarios econômicos cambiantes. Santiago. 2019.
https://igade.com.br/
http://www.brasil.gov.br/cidadanie-e-justica/2012/02/mulheres-na-política
89
A CELERIDADE NA RESOLUÇÃO DE CONFLITOS ENVOLVENDO
ENTES PÚBLICOS E OS JUIZADOS ESPECIAIS
Andréia Atti Simões1
Resumo: Esta monografia tem como objetivo analisar os Juizados Especiais da Fazenda
Pública, instituídos pela Lei nº 12.153 de dezembro de 2009, que adotam rito processual
mais célere e objetivam ensejar maior facilidade de acesso aos cidadãos na resolução de
conflitos de menor complexidade entabulados pelos entes públicos. Pretende-se verificar se
esses Juizados Especiais alcançam aos jurisdicionados, no seu propósito de dotar de maior
celeridade e eficácia a prestação jurisdicional nos litígios, envolvendo a Fazenda Pública.
Neste mister, intenta-se mensurar a importância e a eficácia da inclusão dos Juizados
Especiais da Fazenda Pública, como meio mais ágil e célere de se alcançar a prestação da
tutela jurisdicional, diante do direito fundamental à razoável duração do processo, insculpido
no inciso LXXVIII, do art. 5º, da Constituição Federal de 1988. O presente estudo baseia-se
na pesquisa bibliográfica em doutrinas, artigos científicos, Internet, revistas universitárias,
jurisprudências.
Palavras-chave: Juizado Especial da Fazenda Pública. Juizado Especial. Celeridade. Estado.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho se propõe a analisar a eficácia dos Juizados Especiais da
Fazenda Pública como instrumentos de efetivação do acesso à justiça, capazes de dotar a
prestação jurisdicional de efetividade através da celeridade na resolução de conflitos que
envolvam os entes públicos.
Os Juizados Especiais surgem para tornar a justiça mais acessível a população,
através de um procedimento informal, efetivo e simples, na resolução de conflitos de
menor complexidade. Procedimento sumaríssimo, utilizado para acelerar a entrega da
prestação jurisdicional, dotado da incumbência de conciliar, seguindo princípios próprios,
para assim atender a demanda, mediante um procedimento ágil e sem burocracia.
O trabalho insere a importância dos Juizados Especiais, como meio mais ágil de se
alcançar a prestação da tutela jurisdicional aos cidadãos diante do direito fundamental à
1 Advogada, OAB/RS 100.966, Pós-Graduada em Direito e Processo do Trabalho, Membro da CMA da
OAB/RS, Participações em palestras e aulas voltadas ao Direito Preventivo, nos cursos de Pós-Graduação,
simoesjuridico@hotmail.com.
90
razoável duração do processo, insculpido no inciso LXXVIII, do art. 5º, da Constituição
Federal de 1988.
O caminho se inicia pela jurisdição. Para que a prestação jurisdicional seja efetiva,
é necessário que o Estado, como detentor do seu monopólio, realize a entrega da prestação
jurisdicional de forma justa e tempestiva.
Assim, a pesquisa principia por uma abordagem da função jurisdicional como
poder-dever estatal para,em seguida, debruçar-se sobre a relevância do tempo de
tramitação do processo, elemento que contribui significativamente para essa efetividade
da tutela jurisdicional, dado que os litigantes têm direito não somente à jurisdição, mas,
também, a uma jurisdição que se ultime dentro de um prazo razoável.
Adentra no Sistema dos Juizados Especiais, abordando brevemente o seu
surgimento, deste modo, introduzindo os Juizados Especiais da Fazenda Pública,
instituídos pela Lei nº 12.153/09, analisando seu procedimento como alternativa capaz de
conferir a entrega da tutela jurisdicional de maneira célere e verdadeiramente efetiva aos
jurisdicionados nas causas que envolvem entes públicos.
Intenta-se, ao final, demonstrar que os Juizados Especiais da Fazenda Pública
contribuem para aliviar a Justiça Comum, reduzindo a sua morosidade através da resolução
de litígios por meios informais, simplificados e céleres que facilitam a entrega da prestação
jurisdicional ao cidadão em prazo razoável.
PROBLEMÁTICA
Neste mister, intenta-se mensurar a importância dos Juizados Especiais da Fazenda
Pública, apurando sua contribuição para aliviar a Justiça Comum. Tenciona, assim,
estabelecer esclarecimento ao tema, quanto ao alcance na redução da morosidade através da
resolução de litígios por meios informais, simplificados e céleres que facilitam a entrega da
prestação jurisdicional ao cidadão em prazo razoável. Por conseguinte, a proposta do artigo
é demonstrar que os que os Juizados Especiais se propõem a aliviar o abarrotamento dos
cartórios judiciais, desafogando o Judiciário, apresentando-se como meio mais eficaz para a
resolução de conflitos, reduzindo a demora na satisfação da sua prestação jurisdicional
através de métodos como o da simplificação dos procedimentos e da conciliação, ensejando,
deste modo, uma via de acesso eficiente à justiça e à efetivação dos direitos individuais.
91
1. JURISDIÇÃO E A EFETIVIDADE NA PRESTAÇÃO DA TUTELA
JURISDICIONAL
A jurisdição se apresenta como o primeiro elemento cuja compreensão se mostra
indispensável a uma análise acerca da efetividade da prestação jurisdicional.
A jurisdição, como poder e dever de aplicar o direito ao caso concreto, surge quando
o Estado avoca para si essa tarefa, proibindo a autotutela2 e disponibilizando o acesso à
justiça por meio do direito de ação. Nesse sentido é a lição de Barbosa Moreira:3
Mas, proibindo a Justiça por mãos próprias e chamando para si, com
exclusividade, a tarefa de assegurar o império da ordem jurídica, assumiu o
Estado, para com todos os cidadãos, o dever de tornar realidade a disciplina das
relações intersubjetivas previstas nas normas por ele mesmo ditadas.
A jurisdição surge a partir do momento em que o Estado assume posição de
independência, exercendo um poder mais acentuado de controle social.4 A ideia de direito,
assim, no Estado moderno, fomenta a de jurisdição, como bem referido por Ovídio A.
Baptista da Silva:5
[...] o direito, antes de ser monopólio do Estado, era uma manifestação das leis de
Deus, apenas conhecidas e reveladas pelos sacerdotes. O Estado não o produzia
sob a forma de normas abstratas reguladoras da conduta humana. Nesse estágio de
organização social e política, a atividade desenvolvida pelos pontífices, [...], não
pode ser equiparada à função nitidamente jurisdicional. A verdadeira e autêntica
jurisdição apenas surgiu a partir do momento em que o Estado assumiu uma
posição de maior independência, desvinculando-se dos valores estritamente
religiosos e passando a exercer um poder mais acentuado da vontade social.
Superada a fase da vingança privada, o Estado toma para si o monopólio da
jurisdição, cujo exercício é atribuído ao Poder Judiciário, poder autônomo e independente
que integra a estrutura estatal.6
2 De se ressalvar a existência de (poucas) hipóteses de atuação do particular por suas próprias mãos que possuem
autorização legal, como a legítima defesa, o desforço imediato e o penhor legal, por exemplo (DONIZETTI, Elpídio.
Curso didático de direito processual civil. 17. ed. rev. ampl. e atual. especialmente de acordo com as Leis nº
12.424/2011 e 12.431/2011. São Paulo: Atlas, 2013, p. 31-37).
3 MOREIRA, Barbosa, apud SOUZA, Marlene Marlei de. A efetividade da jurisdição. Revista da AJURIS, Porto
Alegre: Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, v. 36, n. 113, p. 288, 2009.
4 SILVA, Ovídio Araújo Baptista da. Teoria geral do processo civil. 5. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2009, p. 57.
5Ibidem.
6 DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de direito processual civil. 17. ed. rev. ampl. e atual. especialmente de
acordo com as Leis nº 12.424/2011 e 12.431/2011. São Paulo: Atlas, 2013.
92
Assim, a jurisdição é função realizada pelo Estado, sendo sua missão a aplicação do
direito.7 Atua o direito objetivo na composição dos conflitos de interesses, com o intuito de
preservar a paz social e o império da norma jurídica.8
No Estado Democrático contemporâneo podem ser identificados três objetivos
primordiais da função jurisdicional: um social, um político e um jurídico. No aspecto social,
a jurisdição tem como finalidade a pacificação, por intermédio da solução dos conflitos, no
objetivo de encontrar rápida resolução às controvérsias que se encontram no meio social. No
político, a jurisdição tem por escopo fazer valer a imposição da vontade do Estado e de suas
determinações, garantindo-se a participação democrática da sociedade no exercício desse
poder político, de modo que o exercício da jurisdição atenda à pretensão da sociedade. Por
derradeiro, no objetivo jurídico, a jurisdição tem por finalidade instituir o direito a ser
observado, agindo positivamente o direito em última instância.9
Mas é justamente essa sua finalidade de pacificação social, escopo relacionado com
o resultado do exercício da atividade jurisdicional perante a sociedade, a vida e a felicidade
pessoal de seus cidadãos, o traço distintivo mais marcante da função jurisdicional com
relação às demais funções estatais.10
Destarte, a jurisdição, como função estatal, está designada a exercer o ordenamento
e a solução dos conflitos, garantidos os direitos pela Constituição Federal e seus princípios
constitucionais, valendo-se do processo como instrumento para solução de litígios e
pacificação social.11
O acesso à jurisdição é direito de todos aqueles que se sentem lesados, pleiteando
suas demandas junto ao órgão jurisdicional competente.12 A jurisdição existe para resolver
litígios, tutelando o direito subjetivo das partes ou interessados e aplicando,
imperativamente, as normas jurídicas, objetivando, conforme a natureza da controvérsia, a
solução dos conflitos; a atuação do direito material; o cumprimento das decisões judiciais de
7 OLIVEIRA, Carlos Alberto Álvaro de e outro. Curso de processo civil: teoria geral do processo civil e parte
geral do direito processual civil. São Paulo: Atlas, 2010, v. 1, p. 130.
8 ALVIM, José Eduardo Carreira. Teoria geral do processo. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009, p. 55.
9 OLIVEIRA, Marcus Vinícius Amorim de. Jurisdição, poder do Estado e acesso à justiça. Doutrina, Rio de
Janeiro, n. 8, p. 251, jan. 1999.
10 Ibidem.
11 WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: teoria geral do processo
e processo de conhecimento. 11. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 85.
12 ROCHA, José de Albuquerque. Teoria geral do processo. São Paulo: Atlas, 2009, p. 64-65.
93
forma coercitiva; ou, ainda, acautelar situações de risco de lesão, evitando a concretização
do dano.13
O Estado, como detentor do monopólio da jurisdição, atribuído ao Poder Judiciário,
deve realizar a entrega da prestação jurisdicional quandoprovocado pelo cidadão. Essa
prestação há de ser efetiva, a fim de que a jurisdição alcance seu fim último, que é a
promoção da pacificação social.14
Neste sentir, Pontes de Miranda já salientava que aquele que busca o Estado,
desencadeando o exercício da jurisdição, é titular de uma pretensão à obtenção da prestação
jurisdicional.15 Prestação jurisdicional essa que, como bem destaca Araújo Neto, citando
Francesco Carnelutti, que “o tempo é inimigo do processo”,16 sendo a morosidade da justiça
o grande desafio imposto aos legisladores e os processualistas modernos.
Com efeito, a entrega da prestação jurisdicional a destempo coloca em xeque a
confiança da população no Direito e na Justiça,17 pois, como já advertia Rui Barbosa, justiça
atrasada não é justiça, mas injustiça qualificada e manifesta.18
Em consonância com os ditames da moderna doutrina processual, a Emenda
Constitucional nº 45/04 atribuiu nova redação ao art. 5º, inciso LXXVIII, da Carta da
República, introduzindo no ordenamento jurídico brasileiro, de forma expressa, o princípio
da razoável duração do processo. Assim, resta assegurado aos litigantes, como direito
fundamental, não só o direito à jurisdição, mas, também, o direito à entrega da prestação
jurisdicional dentro de prazo razoável.
Outrossim, a garantia constitucional da razoável duração do processo conduz os
legisladores à incessante busca pelo aperfeiçoamento do sistema processual, “instituindo
13 DESTEFENNI, Marcos. Curso de processo civil, volume 1: tomo I: processo de conhecimento convencional
e eletrônico. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 41-42.
14 GRANGEIA, Marcos Alaor Diniz. Fatores de aceleração da prestação jurisdicional. Disponível em:
http://www.enfam.jus.br/wp-co ntent/uploads/2013/02/909_Artigo_Fatores_de_AceleracaodaPresta
cao_Jurisdicional2.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2020.
15 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Comentários ao Código de Processo Civil. tomo I, arts. 1ª
a 45. Rio de Janeiro: Forense, 1985, p. 81.
16 CARNELUTTI, Francesco, apud ARAÚJO NETO, José Donato de. Duração razoável do processo:
inconstitucionalidade dos prazos processuais diferenciados da Fazenda Pública. Revista ESMAFE: Escola de
Magistratura Federal da 5ª Região, Recife, n. 19, t. 3, p. 270, mar. 2009.
17 NEGRÃO, Theotonio, apud CHIMENTI, Ricardo Cunha. Juizados Especiais da Fazenda Pública: Lei n.
12.153/2009. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 19-20.
18BARBOSA, Rui. Oração aos moços. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 53.
94
novas categorias de tutela e promovendo reformas que tornem os processos mais efetivos e
céleres.19
Do mesmo modo, os já implementados Juizados Especiais da Fazenda Pública
almejam dotar a atividade jurisdicional de maior efetividade, agilidade e simplificação,
ensejando um tramitar mais célere das demandas envolvendo entes públicos, restando,
destarte, por dar concreção à garantia constitucional da razoável duração do processo.20
3. SISTEMA DOS JUIZADOS ESPECIAIS
O primeiro diploma legislativo que regulamentou os Juizados Especiais de Pequenas
Causas foi a Lei Federal nº 7.244, de 07 de novembro de 1984, posteriormente revogada pela
Lei nº 9.099, de 26/09/1995, ora em vigor.
Embora tenham sido criados antes do advento da Constituição Federal de 1988, esses
Juizados de Pequenas Causas já contemplavam o objetivo de garantir o acesso ao Poder
Judiciário de modo mais simples e rápido, além de amenizar a angustia do cidadão de arcar
com custas perante a justiça comum.21
Almejavam, desta feita, dotar de maior celeridade processual as causas de reduzido
valor econômico, assim consideradas, inicialmente, as ações que não excedessem a 20
(vinte) vezes o salário mínimo vigente no País. Surgiram, assim, os Juizados Especiais de
Pequenas Causas, com o intuito de permitir acesso à justiça à classe menos favorecida e de
proporcionar uma prestação jurisdicional menos burocrática e mais célere.22
Conforme Wander Paulo Marotta Moreira, os Juizados Especiais vieram
primeiramente para atender à “explosão de litigiosidade”, consequência da incorporação ao
espaço urbano da grande população, “gerando contradição entre a marginalização e a
exclusão desses grupos e o discurso jurídico de garantia de igualdade e de acesso ao
Judiciário.23
19DIAS, Handel Martins. O tempo e o processo. Revista da AJURIS, Porto Alegre: Associação dos Juízes do
Rio Grande do Sul, v. 34, n. 108, p. 233, dez. 2007.
20FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados Especiais da Fazenda Pública: comentários à Lei 12.153, de 22
dezembro de 2009. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010.
21WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: teoria geral do
processo e processo de conhecimento. 11. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 48.
22Ibidem.
23 MOREIRA, Wander Paulo Marotta. Juizados Especiais Cíveis. Belo Horizonte: Del Rey, 1996, p. 23-24.
95
Os Juizados Especiais surgem, para resolução de causas de menor complexidade,
visando alcançar a solução do conflito de forma mais rápida e, para tanto, apresentando uma
nova proposta de procedimento, menos formal e burocrático. Foram instaurados com o
propósito de criar um novo rito processual, com solução rápida dos litígios, reduzindo os
procedimentos formais da justiça comum, bem como, de facilitar o acesso à justiça aos
cidadãos mais humildes.
Pouco tempo após sua criação, os Juizados Especiais se tornaram um dos mais
importantes segmentos Poder Judiciário, por suas qualidades de justiça célere, acessível e
eficiente. Promovem, assim, a efetivação dos direitos dos litigantes em um período de tempo
mais razoável e compatível com a complexidade do litígio - em contraposição ao que se
verifica com as demandas ajuizadas perante a justiça comum, que tendem a se eternizar.24
José Venâncio de Miranda Neto destaca o papel dos Juizados Especiais como uma
garantia efetiva do acesso à Justiça, nos quais prepondera a tônica processual oral e informal
como caminho inarredável à almejada celeridade, sem prejuízo às garantias
constitucionais.25
O amplo acesso à justiça, o incremento do número de demandas, a crescente
densidade demográfica dos centros urbanos, a complexidade das novas relações jurídicas e
sociais são fatores determinantes para que o Estado seja, cada vez mais, acionado para o
restabelecimento e manutenção da paz social.26
A eficiência dos Juizados Especiais se revela, dentre outros fatores, pela entrega da
tutela jurisdicional em tempo razoável, com redução dos custos processuais para as partes.
4. OS JUIZADOS ESPECIAIS DA FAZENDA PÚBLICA
A criação dos Juizados Especiais da Fazenda Pública dos Estados, do Distrito Federal
e dos Municípios complementou esse novo sistema de prestação jurisdicional que preconiza
maior facilidade de acesso aos cidadãos, com julgamentos mais céleres e com redução no
24 SCHELEDER, Adriana Fasolo Pilati. As garantias constitucionais das partes nos Juizados Especiais Cíveis.
Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009, p. 70.
25 MIRANDA NETO, Venâncio de. A inversão probatória do Código de Defesa do Consumidor e sua
Aplicação nos Juizados Especiais Cíveis Estaduais. Revista da Faculdade de Direito Milton Campos, Belo
Horizonte: Del Rey/Faculdade de Direito Milton Campos, ano I, n. 1, p. 284, 2009.
26 BRASIL. Superior Tribunal Federal. Manual de procedimentos dos Juizados Especiais Cíveis. Brasília, 2009.
Disponível em: <http://www.tjsc.jus.br/institucional/especial/coordjuzesp/manualCivel.pdf>.Acesso em: 28 ago.
2020.
96
tempo de tramitação dos feitos. 27
Órgão integrante do Sistema dos Juizados Especiais por expressa previsão legal (art.
1º, parágrafo único da Lei nº 12.153/09),o Juizado Especial da Fazenda Pública destina-se
à conciliação e julgamento das causas cíveis de interesse fazendário de menor complexidade.
Representa uma grande conquista para a sociedade, propiciando agilidade nos julgamentos
e nas decisões judiciais para quem demanda em face da Fazenda Pública, apresentando-se,
nas palavras de Ricardo Cunha Chimenti, como um novo modelo de prestação do serviço
jurisdicional.28
Para melhor compreensão do tema proposto, insta traçar algumas considerações
acerca do conceito de Fazenda Pública e de sua atuação como integrante da relação jurídica
processual.
A expressão “Fazenda Pública” é usualmente identificada como área da
Administração Pública relacionada às finanças estatais, representando o aspecto financeiro
do ente público. Já no campo do direito processual, “Fazenda Pública” tem o significado de
Estado em juízo, ente público em juízo ou, também, da Pessoa Jurídica de Direto Público
em juízo. É a personificação do Estado, envolvendo as pessoas jurídicas de direito público.29
Destarte, aludir à Fazenda Pública é fazer referência à União, aos Estados, ao Distrito
Federal, aos Municípios e às suas respectivas autarquias e fundações públicas.30
Na lição de Geraldo Jobim, o Estado, como pessoa de direito público, exerce suas
demandas perante o Judiciário na defesa do interesse público, quer como sujeito ativo nas
relações processuais, quer como demandado. Assim, em sua complexa atuação, o Estado
inúmeras vezes demanda e é demandado, exigindo uma postura e representação eficaz,
organizada e estruturada através das procuraturas públicas.31
Conclui o mencionado autor, conceituando Fazenda Pública:32 “[...] é denominação que
se atribui ao ente público enquanto representante do patrimônio público, que deve resguardá-
lo e protegê-lo, visto que relevante ao interesse público, em especial, sua indisponibilidade”.
27 CHIMENTI, Ricardo Cunha. Juizados Especiais da Fazenda Pública: Lei n. 12.153/2009. São Paulo: Saraiva,
2010, p. 28.
28 Ibidem, p. 29.
29 CUNHA, Leonardo José Carneiro da. A Fazenda Pública em juízo. São Paulo: Dialética, 2008, p. 15-17.
30 Ibidem.
31 JOBIM, Geraldo Cordeiro. As prerrogativas da fazenda pública em juízo e a efetividade processual:
ponderações sobre o tempo no processo. In: TELLINI, Denise Estrella (Org.). Tempestividade e Efetividade
processual: novos rumos do processo civil brasileiro: estudos em homenagem à professora Elaine Harzheim
Macedo. Caxias do Sul: Plenum, 2010, p. 230.
32 Ibidem, p. 231.
97
O direito processual pátrio contempla prerrogativas processuais à Fazenda Pública,
conferindo-lhe um tratamento diferenciado em razão do interesse público que defende, o
qual, ao final, é o da própria sociedade, existindo, destarte, uma supremacia do interesse
público sobre o privado.33
Uma das mais conhecidas prerrogativas processuais da Fazenda Pública é a do artigo
188 do Código de Processo Civil, que consistente na dilação do prazo processual para
contestar e recorrer:34 “Computar-se-á em quádruplo o prazo para contestar e em dobro para
recorrer quando a parte for a Fazenda Pública ou o Ministério Público”.
A doutrina é controversa acerca desse regime processual diferenciado para a Fazenda
Pública. Como asseveram os defensores desse sistema de prerrogativas, a exemplo de
Leonardo José Carneiro da Cunha, a Fazenda Pública é diferente do particular em juízo, em
razão da sua complexa estrutura administrativa (a qual, por muitas vezes, dificulta o acesso
aos fatos, elementos e dados da causa); do regime jurídico ao qual se submete, com estrita
vinculação ao princípio da legalidade, bem como pela sua vinculação aos demais princípios
constitucionais (moralidade, publicidade, eficiência etc), reduzindo, ainda mais, sua margem
de atuação. Ademais, há o volume processual, além da circunstância de que, diferente do
particular, a Fazenda Pública não pode escolher as causas em que atuará. Em se tratando a
defesa da Fazenda Pública de uma defesa do próprio patrimônio público, já que destinado à
satisfação das necessidades públicas, a manutenção das prerrogativas atuaria como forma
de se evitar a própria depreciação do patrimônio público.35
Para o mencionado autor, tal entendimento seria condizente com o princípio da
proporcionalidade e da isonomia substancial, tratando desigualmente os que se encontram
em situações desiguais:36
[...] quando a Fazenda Pública está em juízo, ela está defendendo o erário. Na
realidade, aquele conjunto de receitas públicas que pode fazer face às despesas
não é de responsabilidade, na sua formação, do governante do momento. É toda
a sociedade que contribui para isso.
[...] Ora, no momento em que a Fazenda Pública é condenada, sofre um revés,
contesta uma ação ou recorre de uma decisão, o que se estará protegendo, em
última análise, é o erário. É exatamente essa massa de recurso que foi arrecadada
e que evidentemente supera, aí sim, o interesse particular. Na realidade, a
autoridade pública é mera administradora.
33 CUNHA, Leonardo José Carneiro da. A Fazenda Pública em juízo. São Paulo: Dialética, 2008, p. 35.
34 BRASIL. Congresso Nacional. Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Código de Processo Civil. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5869.htm>. Acesso em: 28 ago. 2020.
35 CUNHA, Leonardo José Carneiro da. A Fazenda Pública em juízo. São Paulo: Dialética, 2008, p. 35.
36 Ibidem.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5869.htm
98
Para a outra corrente, integrada, dentre outros autores, por Geraldo Cordeiro Jobim,
as prerrogativas da Fazenda Pública acarretam nítido prejuízo pela demora da prestação
jurisdicional, considerando o dever de igualdade e o princípio constitucional da razoável
duração do processo.37
No âmbito da jurisprudência, porém, o Supremo Tribunal Federal, desde há muito,
sedimentou o seu entendimento pela constitucionalidade das prerrogativas processuais da
Fazenda Pública:38
Não se equipara ao particular a Fazenda Pública. A Relevância do interesse
público, por estar preservado, separa-a, na sua natureza, do particular.
RECURSO. IGUALDADE PROCESSUAL. PRIVILÉGIO DA FAZENDA
PÚBLICA. ART. 74 DO DL 960/38. Não ofende o princípio da isonomia,
aplicável a igualdade das partes no processo, o conferimento de tratamento
especial à Fazenda Pública, o que se faz em atenção ao peso e superioridade dos
seus interesses em jogo. RE 83432, Relator Min. Leitão de Abreu, publicado no
DJU de 06.06.80.
A despeito disto, a matéria segue sendo de grande interesse dos processualistas, em
especial, diante dos princípios constitucionais da efetividade da prestação jurisdicional e da
razoável duração do processo, não sendo poucos os que, como já referido, ponderam que as
prerrogativas da Fazenda Pública vêm acarretar um prejuízo ao andamento processual e,
consequentemente, afetam a sua efetividade e celeridade.39
A controvérsia em questão não se mostra, todavia, relevante para os Juizados
Especiais fazendários, posto que estes não contemplam prazos diferenciados para as pessoas
jurídicas de direito público para a prática de qualquer ato processual - tudo em prol de uma
prestação célere e eficaz. O procedimento adotado por esses Juizados é simplificado,
buscando, sempre que possível, a conciliação e, desta forma, facilitando o desafogamento
judicial. Objetivam garantir a igualdade entre as partes, no intuito da rápida e eficaz solução
para o litígio.40
O Juizado Especial da Fazenda Pública, na condição de integrante do Sistema de
37JOBIM, Geraldo Cordeiro. As prerrogativas da fazenda pública em juízo e a efetividade processual:
ponderações sobre o tempo no processo. In: TELLINI, Denise Estrella (Org.). Tempestividade eEfetividade
processual: novos rumos do processo civil brasileiro: estudos em homenagem à professora Elaine Harzheim
Macedo. Caxias do Sul: Plenum, 2010, p. 233-235.
38 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. RE 83041. Relator: Min. Cordeiro Guerra. Diário de Justiça da União,
de 15 agosto de 1980.
39 CUNHA, Leonardo José Carneiro da. A Fazenda Pública em juízo. São Paulo: Dialética, 2008, p. 36.
40 CHIMENTI, Ricardo Cunha. Juizados Especiais da Fazenda Pública: Lei n. 12.153/2009. São Paulo: Saraiva,
2010, p. 38.
99
Juizados Especiais, como já referido, é informado pelos mesmos princípios da oralidade, da
simplicidade, da informalidade,41 da economia processual e da celeridade, previstos no art.
2º da Lei nº 9.099/95.
Os Juizados Especiais da Fazenda Pública, de acordo com o art. 2º, § 4º, da Lei nº
12.153/09, possuem competência absoluta nos foros onde forem instalados, incumbindo-lhe
processar, conciliar e julgar as causas cíveis de interesse dos Estados, do Distrito Federal,
dos Territórios e dos Municípios, até o valor de 60 (sessenta) salários mínimos.42
Excluem-se de sua competência as ações de mandado de segurança, de
desapropriação, de divisão e demarcação, populares, por improbidade administrativa,
execuções fiscais e as demandas sobre direitos ou interesses difusos e coletivos; também as
causas sobre bens imóveis dos Estados, Distrito Federal, Territórios e Municípios, autarquias
e fundações públicas a eles vinculadas; as causas que tenham como objeto a impugnação da
pena de demissão imposta a servidores públicos civis ou sanções disciplinares aplicadas a
militares (conforme dispositivo no art. 2º, § 1º).43
Os Juizados Especiais da Fazenda Pública operam com juízes togados, juízes leigos
e conciliadores. A sua competência é absoluta no foro em que estiverem instalados, não
vigorando a liberdade de opção das partes entre esses Juizados e a justiça ordinária.44
Em relação às partes do processo, poderão figurar no polo ativo (autor) as pessoas
físicas (capazes e incapazes) e as jurídicas microempresas e empresas de pequeno porte.
Ressalva-se que, no caso de incapazes, é necessária a intervenção do Ministério Público. No
polo passivo (réu), poderão se encontrar os Estados, o Distrito Federal, os Territórios e os
Municípios, bem como as fundações, as autarquias e empresas públicas.45
Para dar mais celeridade aos procedimentos, bem como em respeito ao princípio da
41
Merece menção, em relação à informalidade, o quanto previsto no Enunciado 4 do FONAJEF: “Na
propositura de ações repetitivas ou de massa, sem advogado, não havendo viabilidade material de opção pela
auto-intimação eletrônica, a parte firmará compromisso de comparecimento, em prazo pré-determinado em
formulário próprio, para ciência dos atos processuais praticados”.
42 WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: teoria geral do
processo e processo de conhecimento. 11. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p.
784.
43 Ibidem.
44 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil - procedimentos especiais. 45. ed. Rio
de Janeiro: Forense, 2013, v. III, p. 469.
45BRASIL. Congresso Nacional. Lei nº 12.153, de 22 de dezembro de 2009. Dispõe sobre os Juizados Especiais
da Fazenda Pública no âmbito dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L1
2153.htm>. Acesso em: 28 ago. 2020.
100
informalidade, é vedada a citação por edital. Consoante o artigo 6º da Lei nº 12.153/09, os
atos de comunicação processual obedecerão as regras do Código de Processo Civil, sendo
autorizada, também, a utilização de meios eletrônicos para as intimações. Não há previsão
de intimação pessoal para os representantes da Fazenda Pública.46
A citação deverá ser realizada com antecedência mínima de 30 dias da audiência de
conciliação. Importante salientar que o ente público fica obrigado a fornecer toda
documentação necessária para a causa até a audiência de conciliação, facilitando o
andamento do feito, tudo fulcrado no princípio de que o autor não tem o dever de mostrar os
documentos para o órgão público.47
No que concerne à dilação probatória, tem-se que a prova testemunhal poderá ser
coletada na primeira audiência de conciliação, e, entendendo-a suficiente, o juiz poderá
dispensar novos testemunhos, desde que não haja impugnação das partes (art. 16, § 2º, in
fine, da Lei nº 12.153/09). Com relação à prova pericial, dispõe que, em se fazendo
necessária, o perito nomeado deverá apresentar o laudo contábil até 5 dias antes das
audiência de conciliação ou de instrução e julgamento (art. 10 da Lei nº 12.153/09).48
Outrossim, as medidas cautelares e antecipatórias poderão ser deferidas de ofício ou
de requerimento das partes, com propósito de “evitar dano de difícil ou incerta reparação
(art. 3º)”.49
Chama a atenção o art. 8º da Lei nº 12.153/2009, que se refere aos representantes das
entidades públicas, os quais possuem poderes para conciliar, transigir ou desistir nos
processos da competência dos Juizados Especiais. É facultativa a presença do advogado para
causas de até 60 salários mínimos, assim facilitando o acesso dos economicamente
hipossuficientes.50
46 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Os Juizados Especiais da Fazenda Pública (Lei nº 12.153, de
22.12.2009). Palestra proferida em 19.02.2010, no III Encontro de Juízes Especiais do Estado de Minas Gerais,
e, em 26.02.2010, no I Seminário de Direito Processual Civil do Triângulo Mineiro: O Processo Civil no Século
XXI. Disponível em: <http://www.ejef.tjmg.jus.br/home/files/pu
blicacoes/palestras/pal022010.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2020.
47 PINHO, Humberto Dalla Bernardina de. Direito processual civil contemporâneo: teoria geral do processo.
4. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 691-690.
48 CARNEIRO, Athos Gusmão, apud FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados Especiais da Fazenda Pública:
comentários à Lei 12.153, de 22 dezembro de 2009. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2010, p. 168-172.
49 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil - procedimentos especiais. 45. ed. Rio
de Janeiro: Forense, 2013, v. III, p. 475.
50 BRASIL. Congresso Nacional. Lei nº 12.153, de 22 de dezembro de 2009. Dispõe sobre os Juizados
Especiais da Fazenda Pública no âmbito dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L1
101
No propósito de assegurar um processo mais simplificado e ágil, as sentenças
proferidas nos Juizados Especiais da Fazenda Pública não se submetem a reexame
necessário, além de consagrar a irrecorribilidade das decisões interlocutórias, salvo no caso
de medidas cautelares e antecipatórias.51
O recurso inominado contra a sentença segue o que dispõe a Lei nº 9.099/95, no
artigo 43, sendo dotado, de regra, somente de efeito devolutivo, podendo o Juiz dar-lhe efeito
suspensivo unicamente a fim de evitar dano irreparável para a parte.52 As decisões colegiadas
das Turmas Recursais podem ser objeto de irresignação mediante recurso extraordinário.
Outrossim, de salientar que nos procedimentos dos Juizados Especiais da Fazenda
Pública não há previsão de intervenção do Ministério Público, à exceção da hipótese de
incidente de uniformização perante as Turmas Recursais. Porém, havendo incapaz envolvido
na causa, a participação do órgão ministerial, na condição de custos legis, será obrigatória,
em obediência à regra geral do artigo 82, inciso I, do CPC.53
A fim de garantir agilidade e a efetividade dos Juizados fazendários, o cumprimento
das decisões será efetuado mediante ofício. Nesta lógica, a prestação de fazer, denão fazer
e de entrega de coisa deverão ser procedidas pela autoridade pública imediatamente após
trânsito em julgado da sentença ou do prazo para impugnação acordado entre as partes. Já as
obrigações pecuniárias, de pagar quantia certa, “serão objeto de ordem específica do juiz”.
Nada obstante, ainda encontramos presente o sistema de precatórios, indissociável quando
se fala no pagamento de créditos pela Fazenda Pública, o qual, por muitas vezes, ocasiona
dificuldades à efetividade jurisdicional, levando não raro as partes a renunciarem a um
determinado valor para receberem em um tempo menor por meio requisição de pequeno
valor – RPV.54
2153.htm>. Acesso em: 28 ago. 2020.
51 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Os Juizados Especiais da Fazenda Pública (Lei nº 12.153, de
22.12.2009). Palestra proferida em 19.02.2010, no III Encontro de Juízes Especiais do Estado de Minas Gerais,
e, em 26.02.2010, no I Seminário de Direito Processual Civil do Triângulo Mineiro: O Processo Civil no Século
XXI. Disponível em: <http://www.ejef.tjmg.jus.br/home/files/publ
icacoes/palestras/pal022010.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2020.
52 BRASIL. Congresso Nacional. Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados Especiais
Cíveis e Criminais e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planal
to.gov.br/ccivil_03/leis/l9099.htm>. Acesso em: 29 ago. 2020.
53 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil - procedimentos especiais. v. III. 45.
ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013, p. 473.
54 PINHO, Humberto Dalla Bernardina de. Direito processual civil contemporâneo: teoria geral do processo.
4. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 698-699.
102
5. CONCILIAÇÃO E INTERESSE PÚBLICO
O artigo 98, inciso I, da Constituição Federal determinou a criação dos Juizados
Especiais como um mecanismo eficaz de prestação jurisdicional, com competência para a
conciliação, o julgamento e a execução das causas cíveis de menor complexidade, mediante
procedimento oral e sumaríssimo.55
A conciliação é vocacionada à pronta solução do litígio, tendo por finalidade facilitar
o acesso ao Poder Judiciário, envolvendo os descrentes, humildes e hipossuficientes, para os
quais o legislador tem procurado abrir novos caminhos para a Justiça, com objetivo de tornar
célere a entrega da tutela jurisdicional.56
Todavia, as pessoas jurídicas de direito público não podiam integrar a relação jurídica
processual que se instaurava perante esses Juizados Especiais (conforme expressa vedação
contida no artigo 8º da Lei nº 9.099/95), situação essa que somente veio a ser alterada pela
Emenda Constitucional nº 22/99, posteriormente regulamentada pela Lei Federal nº
10.259/01, a qual instituiu os Juizados Especiais Cíveis e Criminais da Justiça Federal,57
passando, assim, a admitir a Fazenda Pública Federal no procedimento por ela instituído.
Os entes de direito público estaduais e municipais, porém, permaneceram alijados
desse novo sistema. Somente com a Lei nº 12.153/09 é que se tornou admissível a
participação das pessoas jurídicas de direito público estaduais e municipais nos
procedimentos dos chamados Juizados Especiais da Fazenda Pública.58
Destarte, a Lei nº 12.153/09, segue esse verdadeiro sistema inaugurado pela Lei dos
Juizados Especiais de Pequenas Causas, instituindo os Juizados Fazendários como
instrumento de facilitação da solução de conflitos envolvendo a Fazenda Pública, em busca
da conciliação. A aplicabilidade desta nova sistemática mostra-se, a princípio, favorável à
sociedade, facilitando o acesso ao Judiciário, promovendo a entrega da prestação
55 PINHO, Humberto Dalla Bernardina de. Direito processual civil contemporâneo: teoria geral do processo.
4. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 690.
56CERQUEIRA, Manfredi Mendes de. Conciliação e prestação jurisdicional do Estado. Doutrina-
Jurisprudência-Legislação-Ementário, Teresina: Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, v. 15, p. 13-17, 1994.
57 FERREIRA, Glayciele Rodrigues Gonçalves. O art. 61 da Lei dos Juizados Especiais Criminais estaduais
(Lei nº 9.099/95) com o advento da Lei dos Juizados Especiais Criminais na Justiça Federal. Disponível em:
<http://jus.com.br/artigos/6191/o-art-61-da-lei-dos-juizados-especiais-crimin
ais-estaduais-lei-n-9-099-95-com-o-advento-da-lei-dos-juizados-especiais-criminais-na-justiça-fede
ral/2>. Acesso em: 18 de ago. 2020.
58 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil - procedimentos especiais. 45. ed. Rio
de Janeiro: Forense, 2013, v. IIII, p. 473.
http://50.116.32.46/953063-glayciele-rodrigues-goncalves-ferreira/publicacoes
http://jus.com.br/artigos/6191/o-art-61-da-lei-dos-juizados-especiais-criminais-estaduais-lei-n-9-099-95-com-o-advento-da-lei-dos-juizados-especiais-criminais-na-justica-federal/2
103
jurisdicional de forma mais célere, visando a conciliação, nas demandas que envolvem os
entes públicos.59
Athos Gusmão Carneiro defende a conciliação nesses procedimentos especiais, a
qual afirma deve ser vista como “objeto primacial a ser perseguido”, para assim a busca em
prol da sua efetividade, facilitando o dia a dia forense nos Juizados Especiais da Fazenda
Pública.60
Todavia, a Administração Pública é regida pelo princípio da indisponibilidade do
interesse público, sendo a sua atividade voltada à consecução do bem comum. Conjugado a
esse, a Administração se vê inexoravelmente submetida ao princípio da legalidade, segundo
o qual ao administrador só é permitido fazer o que a lei determina, restringindo a atuação
estatal, para que não se desvirtue do único fim permitido – a finalidade pública –, pois,
somente assim, restará satisfeito o interesse público.61
Atualmente o direito deixou de ser apenas instrumento de garantia dos direitos do
indivíduo e passou a ser visto como meio para consecução da justiça social, do bem comum,
do bem-estar coletivo.62 Trata-se da dimensão pública dos interesses individuais, ou seja,
dos interesses de cada indivíduo enquanto partícipe da sociedade.63
Destarte, para conciliar em juízo, mostra-se necessário que os entes públicos estabeleçam
os limites da conciliação e outorguem, por meio de lei específica, poderes especiais aos
advogados públicos para que possam conciliar, transigir ou desistir.64
A conciliação nos Juizados da Fazenda Pública obedece aos princípios
constitucionais norteadores da administração pública, além de atender à dignidade da pessoa
humana, ao realizar a entrega da prestação jurisdicional em prazo razoável.
59 FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados Especiais da Fazenda Pública: comentários à Lei 12.153, de 22
dezembro de 2009. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 21.
60 CARNEIRO, Athos Gusmão, apud FIGUEIRA JUNIOR, Joel Dias. Juizados Especiais da Fazenda Pública:
comentários à Lei 12.153, de 22 dezembro de 2009. 2. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2010, p. 185.
61 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Curso de direito constitucional. 10. ed. São Paulo: Atlas, 1998, p. 92.
62 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 19. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p. 69.
63 MELLO, op. cit., p. 60.
64 SOARES, Milton Delgado. A nova lei dos Juizados Especiais da Fazenda Pública: Primeiras Considerações
e Proposta para Implementação. Disponível em: <http://www.emerj.tjrj.jus.br/revist
aemerj_online/edicoes/revista51/Revista51_77.pdf>. Acesso em: 19 ago. 2020.
http://www.emerj.tjrj.jus.br/revistaemerj_online/edicoes/revista51/Revista51_77.pdf
104
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Jurisdição é poder-dever, função e atividade do Estado, exercida através de um poder
autônomo e independente, a quem incumbe a missão de atuar o direito para a composição
dos conflitos intersubjetivos,missão essa que realiza por meio do processo, intentando a
pacificação social.
A chamada “explosão de litigiosidade”, decorrente do aumento da população e da
sua conscientização acerca da proteção jurídica conferida pela Constituição Federal de 1988,
contribuiu decisivamente para o aumento do número de demandas judiciais.
Diante desse grande volume de processos, aliado, dentre outros fatores, a um diploma
processual carecedor de modernização, o acúmulo e a lentidão passaram a fazer parte da
rotina dos foros, impondo aos jurisdicionados uma grande demora no alcance do bem da
vida pleiteado em juízo.
Em vista desta realidade, e da perspectiva de seu agravamento, mostra-se incessante
a busca de soluções mais favoráveis à população, oferecendo uma tutela jurisdicional capaz
de satisfazer suas pretensões de forma mais ágil e célere.
Nesse contexto, o presente trabalho analisou a eficácia dos Juizados Especiais na
busca de uma prestação jurisdicional eficiente e célere, com maior facilidade de acesso aos
cidadãos, para a resolução de conflitos de menor complexidade entabulados perante a
Fazenda Pública.
Os chamados Juizados Especiais apresentam um procedimento simplificado e
desburocratizado, calcado na oralidade, na simplicidade, economicidade e na celeridade,
visando fornecer ao cidadão um mecanismo rápido para a solução de seus conflitos de
interesses, primando pela conciliação e transação das causas cíveis de menor complexidade
e, deste modo, respeitando o prazo razoável de tramitação das demandas e concretizando o
preceito constitucional do amplo acesso à justiça.
Com efeito, as garantias constitucionais somente serão efetivadas através da
tramitação processual célere que culmine em uma prestação judicial justa, eficiente e
alcançada em prazo razoável.
Inseridos no Sistema dos Juizados Especiais, os Juizados Especiais Fazendários
buscam assegurar a entrega da tutela jurisdicional de maneira rápida e verdadeiramente
efetiva nas causas de menor complexidade envolvendo entes públicos.
105
Nesse contexto, a prática da conciliação nos Juizados Especiais da Fazenda Pública
se mostra consentânea com os vetores da moralidade, da eficiência e da transparência, além
de promover a dignidade humana. Os Juizados Especiais caracterizam uma via de acesso à
justiça de forma efetiva e célere, comprovando a eficácia da conciliação como meio
alternativo de solução de conflitos. Uma alternativa para combater essa indesejada realidade,
numa tentativa de desburocratização dos atos processuais, dotando-os de maior agilidade e,
assim, facilitando a entrega da prestação jurisdicional de forma mais eficiente à população.
Em virtude de sua menor complexidade e maior celeridade, os Juizados Especiais
vem promovendo transformações nas resoluções dos conflitos. Intentam aliviar a Justiça
Comum, afastando e minimizando sua lentidão na entrega da prestação jurisdicional.
Os Juizados Especiais Fazendários assim promovem a criação de uma nova
mentalidade para o processo e para a conciliação, em prol da pacificação social, garantindo
a ordem pública e o bem-estar coletivo e viabilizando a solução de litígios por meios
informais, simplificados e céleres.
Não se pretende com isso afirmar que todas as mazelas do Judiciário se encontram
solucionadas. O Sistema dos Juizados Especiais, dentre os quais se inserem os Juizados
Especiais Fazendários, representam não mais do que um pequenino passo em direção da
justiça que desejamos.
Mudanças mais profundas e significativas se fazem necessárias. Mas, como refere o
velho provérbio oriental, “uma viagem de mil léguas começa com o primeiro passo”. Que
possamos persistir no caminho e, assim, concretizar as garantias estampadas na Carta
constitucional.
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109
A APLICABILIDADE DA SOCIOLOGIA DA DOMINAÇÃO
WEBERIANA NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA:
ANÁLISE DOS MODELOS PATRIMONIALISTA E BUROCRÁTICO
Isabela Bohnen1
Ariane Faverzani da Luz2
Resumo: O presente estudo toma como ponto de partida a compreensão de Max Weber de
sociedade formulada a partir de uma realidade social alinhada com os conceitos tipo ideal.
Foi nesse contexto de “realidade ideal” que o autor se dedicou em repensar o poder sob o
ponto de vista da dominação, já que a última eleva o poder à legitimidade. Isso porque,
enquanto o poder encontra-se socialmente amorfo, a dominação consegue obediência dos
subordinados de forma legítima, já que os indivíduos obedecem porque querem. Diante
dessa vontade em obedecer à ordem dominante, atento aos fatores que a determinavam,
Weber desenvolveu uma sociologia da dominação, dividindo-a em três tipos ideais. Com
base nesses fundamentos, utilizando-se do escopo teórico-bibliográfico e do método
hipotético-dedutivo, o objetivo da pesquisa se justifica no questionamento sobre a
aplicabilidade dos tipos de dominação weberiano no desenvolvimento da administração
pública brasileira, com ênfase nas fases de gestão patrimonialista e burocrática.
Palavras-chave: Administração Pública. Dominação. Max Weber. Sociedade.
INTRODUÇÃO
Dado que a sociedade é o plano de fundo para a existência dos indivíduos e das
relações que entre os quais se seguem, o entendimento sobre as bases da sociedade e o seu
funcionamento sempre foram ideais perseguidos. Nesse contexto, a fim de propiciar uma
análise adequada de pontos fundamentais da administração pública brasileira, tomou-se
como pilar o estudo desenvolvido por um dos criadores da sociologia, o sociólogo Max
Weber, cujas contribuições são irrevogáveis.
Nessa linha, o presente trabalho pautou-se, como ponto de partida, no entendimento
de preceitos fundamentais da sociedade delineados por Max Weber, o qual, adianta-se,
1 Mestranda em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Passo Fundo.
Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade de Passo Fundo (2019). Advogada inscrita na
OAB/RS sob o nº 119.128. E-mail 142261@upf.br.
2 Mestranda em Direito pela Universidade de Passo Fundo (UPF) com auxílio CAPES. Especialista em Direito
Público pela Fundação Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul (FMP-RS). Especialista
em Ciências Criminais pela Fundação Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul (FMP-RS).
Especialista em Direito Civil e Processo Civil pela Faculdade Meridional (IMED). Graduada em Direito pela
Faculdade Meridional (IMED). Advogada inscrita na OAB/RS sob o nº 97.174. E-mail:
arianefaverzani@outlook.com.
110
lançou mão da criação de uma realidade social. Criação, sim, já que não se trata de observar
a própria realidade, mas uma realidade desenvolvida a partir de tipos ideais.
No que diz respeito à formulação dos tipos ideais, Weber não se ateve em estabelecê-
los apenas quanto à realidade social, transpondo-os para o campo das ações sociais e relações
sociais. Assim, uma vez estabelecidos diversos tipos ideais em diferentes nichos, Weber
conseguiu avançar no estudo para pensar o poder, momento em que não apenas considerou
a dominação como forma legítima de exercício do poder, como estabeleceu três tipos ideais
de dominação.
Assim, utilizando-se do escopo teórico-bibliográfico e do método hipotético-
dedutivo, em um primeiro momento, o trabalho centra-se em realizar um aprofundamento
na sociologia da dominação Weberiana, analisando os modelos de dominação, os quais
divididos em três critérios - racional, tradicional e carismático. Em seguida, diante dos
fundamentos de dominação em Weber, busca identificar a aplicabilidade da teoria
Weberiana na conformação da administração pública brasileira, valendo-se dos modelos de
gestão patrimonialista e burocrático para proceder a análise. Por fim, salienta-se que a
pesquisa objetiva construir um pensamento teoricamente crítico, o que se alcançou a partir
do fomento das reflexões acerca do poder na contemporaneidade.
1. A SOCIOLOGIA WEBERIANA: CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Antes de qualquer adentramento no estudo desenvolvido por Max Weber, preocupa-se em tecer breves comentários acerca do autor. O alemão Max Weber construiu uma
brilhante trajetória que lhe rendeu a consagração como sendo um dos fundadores da
sociologia, especialmente a moderna, tamanha a sua preocupação em compreender a
sociedade. Dessa forma, “A ética protestante e o espírito do capitalismo” representa a maior
obra escrita pelo autor, haja vista o vultuoso impacto gerado na sociologia mundial, tendo
como a questão central as elações entre religião e capitalismo.
Apesar da matriz sociológica da qual Weber lançou mão para desenvolver os seus
estudos, as contribuições do sociólogo alemão vão muito além da sociologia, a julgar pela
influência do seu estudo nas mais diversas áreas, tais como, na filosofia, no direito, na
administração, na ciência política e na economia. Nesse sentido, destaca-se a atenção do
111
trabalho em tela voltado para o estudo de Weber aplicado à administração pública,
concentrada precipuamente na obra “Economia e sociedade”.
Na referida obra, Weber explora os conceitos sociológicos fundamentais, como ação
e relação social. Desta maneira, para Weber3, a sociologia pode ser concebida como sendo
“uma ciência que pretende compreender interpretativamente a ação social e assim explicá-
la causalmente em seu curso e em seus efeitos”.
Infere-se, então, que a ação social atua como objeto da sociologia, devendo ser, para
tanto, estudada como ponto de partida para qualquer compreensão sobre o funcionamento
da sociedade. A relação social, por outro lado, corresponde à “conduta de múltiplos agentes
que se orientam reciprocamente em conformidade com um conteúdo específico do próprio
sentido das suas ações”4.
A par desses conceitos, Tomazzete5 assevera que “a definição weberiana de ação
social, dá o primeiro passo para colocar sua principal ênfase sociológica na conduta que o
ator subjetivamente orienta para o comportamento de outrem”. Isto é, a vida social não é
formada, senão pelo resultado das interações entre os indivíduos em suas ações e relações
sociais.
Uma vez identificada uma relação social, o próximo passo será a orientação dessa
relação por certas máximas, as quais garantirão a ordem. Weber6 aponta para duas formas
passíveis para a garantia da ordem social: a) de maneira puramente íntima: expressa por três
situações distintas, quais sejam, de maneira puramente afetiva, racional de acordo com
valores e religiosa7; e, b) também ou somente pela expectativa de determinadas
consequências externas, ou seja, por uma situação de interesses, porém por expectativas de
determinado gênero.
Ainda, uma ordem pode ser chamada de convenção ou de direito. A diferença entre
os dois conceitos concentra-se na reprovação que cada um possui diante da desobediência a
3 WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Régis Barbosa
e Karen Elsabe Barbosa. 4. ed. v. 1. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. p. 3.
4 AMORIM, Aluízio Batista de. Elementos de Sociologia do Direito em Max Weber. Florianópolis: Insular,
2001. p. 85-86.
5 TOMAZZETE, Marlon. A Contribuição Metodológica de Max Weber para a Pesquisa em Ciências Sociais.
Revista Universitas Jus, Brasília, v. 17, p. 1-30, jul./dez. 2008. p.12.
6 WEBER, 1998, p. 15.
7 1) de forma puramente afetiva: por meio de uma entrega sentimental; 2) racional de acordo com valores: pela
crença em sua validez absoluta, enquanto expressão de valores supremos geradores de deveres (morais,
estéticos, entre outros)3) religiosa: pela crença de que a sua observância depende da existência de um bem de
salvação. WEBER, 1998, p. 12.
112
uma ordem. Isso porque, enquanto na convenção, havendo uma conduta discordante por um
indivíduo dentro de um determinado círculo de homens, o resultado ao infrator será uma
reprovação geral e praticamente sensível, no direito, a estrutura detém maior rigidez. Desse
modo, a ordem garantida por um direito possui um aparato com “possibilidade de coação,
física ou psíquica exercida por um quadro de indivíduos instituídos com a missão de obrigar
a observância dessa ordem ou de castigar a sua transgressão”8.
Diante dessas conceituações, Weber9 afina a compreensão de ordem social
privilegiando a concepção do direito, pois entende que a ordem considerada mais atual pode
ser legitimada por meio da legalidade, já que ela “se caracteriza na obediência a preceitos
jurídicos positivos estatuídos segundo o procedimento usual e formalmente correto”.
Salienta-se que todos esses conceitos trazidos por Weber formam o que o autor
procura: estabelecer um “tipo ideal” de realidade. Sabe-se que é por meio dos conceitos que
se permite a compreensão de uma realidade social. No entanto, Weber não busca a
compreensão da própria realidade, mas de uma realidade ideal, o que só será possível, por
meio de conceitos ideais. Nas palavras de Karl Jaspers10, os conceitos chamados de tipos
ideais “são instrumentos para se chegar à realidade, e não à própria realidade”.
Dessa forma, a realidade social, que é o plano de fundo para qualquer compreensão
acerca da sociedade, só pode ser interpretada por meio de conceitos - os quais não figuram
como cópias da realidade, mas são eles que permitem ordenar a realidade do pensamento de
modo válido. Em outras palavras, servem como um recurso que permite a análise dessa
realidade11 12.
Segundo observa Tomazzete13, “na construção do tipo ideal, são acentuados certos
aspectos do fenômeno a ser observado, não coincidindo necessariamente com a realidade
8 WEBER, Max, 1998, p. 20.
9 WEBER, Max, 1998, p. 100.
10 JASPERS, Karl. Método e Visão do Mundo em Weber. In: COHN, Gabriel (Org.). Sociologia: para ler os
clássicos. Rio de Janeiro: Azougue, 2005. p. 105-124. p. 115.
11 TOMAZZETE, 2008, p. 16.
12 De modo geral, os tipos ideais possuem três características básicas que definem suas possibilidades e limites:
(1) racionalidade (ou estrutura lógica) - quando são avaliados os meios e as consequências previsíveis,
examinadas as condições que podem afetar o plano construído abstratamente sob a forma de tipo ideal da ação
futura; (2) unilateralidade - permite dar rigor ao tipo ideal, por ser a condição ao mesmo tempo de amplificação
dos traços característicos e da elaboração do quadro de pensamentos em conjunto coerente e não contraditório;
(3) caráter utópico - o tipo ideal não é, e nem pretende ser, reflexo ou repetição da realidade. DE MORAES,
Lúcio Flávio Renault; DEL MAESTRO FILHO, Antonio; DIAS, Devanir Vieira. O Paradigma Weberiano da
Ação Social: um ensaio sobre a compreensão do sentido, a criação de tipos ideais e suas aplicações na teoria
organizacional. RAC, v. 7, n. 2, p. 57-71, abr./jun. 2003. p. 64.
13 TOMAZZETE, 2008, p. 18.
113
concreta”, já que trata de um tipo puro que empiricamente não existe. Assim, “o tipo ideal é
na verdade um recurso heurístico utópico através do qual o cientista ordena uma série de
aspectos recorrentes da realidade”14.
Indo além, para que os tipos ideais sejam definidos, é imprescindível que sejam
identificados como objetiva e subjetivamente possíveis. Assim, “é preciso ver os possíveis
para captar o real”15, mas não somente, já que se deve construir “algo que possivelmente
ocorreria diante de motivações individuais. Algo que jamais decorreria de motivos
individuais não pode ser entendido como um tipo ideal”16.
Destaca-se, portanto, a relevância do estabelecimento de um tipo ideal na orientação
do cientista social, uma vez que atua como baliza17, guiando a pesquisa do investigador.
Dessa forma, trata-se de uma metodologia pertinente para o estudo da realidade social, a
qual, reitera-se, Weber lançou mão ao explorar os conceitos imanentes da sociedade.
Esse delineamento das premissas utilizadas por Weber na construçãode seu estudo
mostra-se inevitável antes de se inclinar ao aprofundamento em pontos específicos de sua
teoria. Isso porque, entende-se que a compreensão das especificidades não pode ser
alcançada de forma plena senão pela anterior gnose do todo.
Uma vez entendidas as bases teóricas vislumbradas por Weber, parte-se para o
aprofundamento do estudo no campo das ações sociais. Isso porque, é em sede de ação social
que a dominação emerge, constituindo um dos elementos mais importantes da ação social18.
2. OS TIPOS DE DOMINAÇÃO DE MAX WEBER
Como visto, as ações sociais funcionam como plano de fundo para o surgimento de
relações de dominação. Nesse sentido, Weber19 ensina que:
Todas as áreas da ação social, sem exceção, mostram-se profundamente
influenciadas por complexos de dominação. Num número extraordinariamente
grande de casos, a dominação e a forma como ela é exercida são o que faz nascer,
de uma ação social amorfa, uma relação associativa racional, e noutros casos, em
que não ocorre isto, são, não obstante, a estrutura da dominação e seu
desenvolvimento que moldam a ação social e, sobretudo, constituem o primeiro
impulso, a determinar, inequivocamente, sua orientação para um "objetivo".
14 AMORIM, 2001, p. 75.
15 JASPERS, 2005, p. 113.
16 TOMAZZETE, 2008, p. 18.
17 DE MORAES; DEL MAESTRO FILHO; DIAS, 2003, p. 64.
18 WEBER, 1998, p. 187.
19 WEBER, 1998, p. 186.
114
Apesar de evidente o papel da dominação como determinante para a organização
social, Weber assume que nem toda a ação social apresenta uma estrutura que implica
dominação, mas que, apesar disso, mesmo as sociedades que resistem à adoção da
dominação em uma primeira vista acabam reconhecendo o resultado considerável dela.
Assim, a dominação apresentou papel decisivo, tanto nas formações sociais economicamente
mais relevantes, não apenas do passado, mas também do presente, como o regime feudal e a
grande empresa capitalista20.
Recorrentemente considerada como sinônimo de poder, a dominação em Weber
consiste de fato no exercício do poder, mas de forma legitimada. Nessa mesma linha, Hannah
Arendt21 corrobora a noção de que o poder consiste em um meio para o exercício da
dominação ao mencionar que “poder, vigor, força, autoridade e violência seriam simples
palavras para indicar os meios em função dos quais o homem domina o homem”.
Nessa mesma linha, ao se observar os ensinamentos de Foucault, que em certo
momento de sua pesquisa dedicou-se aos estudos das relações de poder, também se verifica
uma distinção entre relações de poder e dominação. Para o autor, “a dominação é uma
estrutura global de poder cujas ramificações e consequências, podemos, às vezes, encontrar
até na trama mais tênue da sociedade”22.
No entanto, essa diferenciação não se mostra de tamanha relevância para o deslinde
da sua pesquisa, tal qual a abordagem feita por Weber, que, seguramente opta pelo termo
dominação por entender que o conceito de poder se encontra socialmente amorfo.
Assim sendo, Weber23 conceitua o poder como sendo “a probabilidade de impor a
própria vontade dentro de uma relação social, até contra qualquer tipo de resistência, seja
qual for essa probabilidade, mesmo que a pessoa não queira”.
De outra banda, a dominação consiste na probabilidade de se encontrar obediência
para ordens específicas (ou todas) dentro de um determinado grupo de pessoas24. Essa
obediência é conquistada pois os subordinados encaram a ordem como legítima, passando a
20 WEBER, 1998, p. 186.
21 ARENDT, Hannah. Sobre a Violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994. p. 183.
22 FOUCAULT, Michel. O Sujeito e o Poder. In: DREYFUS, Hubert; RABINOW, Paul. Michel Foucault,
uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1995. p. 231-249. p. 249.
23 WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva Brasília. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 1991. p. 33.
24 WEBER, 1998, p. 186.
115
ser influenciados pelas ordens emanadas pelo dominador. Dessa forma, muito mais que o
exercício do poder, o detentor da dominação, constitui um verdadeiro líder.
Resta evidente que poder está associado à imposição de vontade de um indivíduo
sobre outro. Com isso, haja vista a natureza de imposição, inexistindo um certo mínimo de
vontade, ou interesse do subordinado em obedecer, o exercício do poder tende a ser rápido,
difícil de ser mantido por muito tempo, já que enfrenta forte resistência, sendo, portanto,
menos eficaz que a dominação.
Quanto à dominação, conceituá-la pode significar uma tarefa complexa, tendo em
vista a existência de numerosos tipos de dominação. Nesse sentido, Weber25 menciona que
existem dois tipos de dominação radicalmente opostos, “por um lado, a dominação em
virtude de uma constelação de interesses (especialmente em virtude de uma situação de
monopólio), e, por outro, a dominação em virtude de autoridade (poder de mando e dever de
obediência)”.
Assim, enquanto o tipo mais puro da primeira dominação é a monopolizadora de
mercado, o da última é o poder do chefe de família, da autoridade administrativa ou do
príncipe. Nas palavras de Weber26:
A primeira, em seu tipo puro, fundamenta-se, exclusivamente, nas influências que
pode fazer valer, em virtude de uma propriedade garantida de alguma forma (ou
de uma habilidade disponível no mercado), e que exerce sobre a ação formalmente
"livre" e aparentemente voltada para interesses próprios dos dominados, enquanto
a última se baseia num dever de obediência, sem mais, que é considerado sem
atenção a quaisquer motivos e interesses.
Com base nesses fundamentos e apesar de reconhecer a possibilidade de transição de
uma dominação em virtude do monopólio em uma dominação decorrente da autoridade e
vice e versa, Weber27 adota para o estudo dos tipos de dominação o conceito idêntico ao
poder de mando autoritário, o que restou corroborado pelo seguinte excerto:
[...] "dominação" compreenderemos, então, aqui, uma situação de fato, em que
uma vontade manifesta ("mandado") do "dominador" ou dos "dominadores" quer
influenciar as ações de outras pessoas (do "dominado" ou dos "dominados"), e de
fato as influência de tal modo que estas ações, num grau socialmente relevante, se
realizam como se os dominados tivessem feito do próprio conteúdo do mandado a
máxima de suas ações (“obediência").
25 WEBER, 1998, p. 188.
26 WEBER, 1998, p. 189.
27 WEBER, 1998, p. 191.
116
Nesse contexto, Weber concebe o termo dominação como legítimo, pois o dominado
aceita a dominação, independentemente de quais sejam os motivos, legitimando, assim, o
domínio exercido pelo dominador.
Partindo-se para a análise dos tipos puros de dominação legítima de Weber, sabe-se
que se consubstanciam, primordialmente em três: a dominação de caráter racional, de caráter
tradicional e a de caráter carismático.
A dominação do tipo racional “baseia-se na legitimidade das ordens estatuídas e do
direito de mando daqueles que, em virtude dessas ordens, estão nomeados para exercer a
dominação”28 (autoridade legal). Nesse sentido, a forma mais pura de expressão dessa
dominação é a burocracia, elemento característico do estado moderno, entendimento
consolidado por Weber29 ao dispor que “a administração burocrática constitui a célula
germinativa do moderno Estado ocidental”.
Isso porque é por meio da estrutura hierarquizada30 da burocracia que se alcança,
tecnicamente, o máximo de rendimento em virtude de precisão, continuidade, disciplina,
rigor e confiabilidade.31 A par disso, extrai-se que o conhecimento constitui o caráter
fundamentalmente racional da administração burocrática, já que, além da posição deformidável poder devido ao conhecimento profissional, “a burocracia tem a tendência de
fortalecê-la ainda mais pelo saber prático do serviço: o conhecimento de fatos adquirido na
execução das tarefas, ou obtido via documentação”32.
Quanto ao quadro administrativo, a dominação racional é composta por funcionários
individuais, os quais possuem como principais características, entre outras, o fato de serem
pessoalmente livres, já que só obedecem as regras objetivas estipuladas para o cargo,
28 WEBER, 1998, p. 141.
29 WEBER, 1998, p. 144.
30 Uma estrutura hierarquizada corresponde a diferentes níveis de hierarquia, isto é, há uma hierarquia em cima
de outra hierarquia de pessoas que mandam. Por exemplo, ao se fazer o passaporte, diante de uma estrutura
hierarquizada, sabe-se que a competência é da esfera federal para conceder autorização para que o indivíduo
saia da país. Trata-se, portanto, de uma estrutura de competências preestabelecida e hierarquizada.
31 A dominação puramente burocrática, portanto, a administração burocráticamonocrática mediante
documentação, considerada do ponto de vista formal, é, segundo toda a experiência, a forma mais racional de
exercício de dominação, porque nela se alcança tecnicamente o máximo de confiabilidade em virtude da
precisão, continuidade, disciplina, rigor e confiabilidade – isto é, calculabilidade tanto para o senhor quanto
para os demais interessados – intensidade e extensabilidade dos serviços, e aplicabilidade formalmente
universal a todas as espécies de tarefas. O desenvolvimento de formas de associação “modernas” em todas as
áreas (Estado, Igreja, exército, partido, empresa econômica, associação de interessados, união, fundação e o
que mais seja) é pura e simplesmente o mesmo que o desenvolvimento e crescimento contínuos da
administração burocrático: o desenvolvimento desta constitui, por exemplo, a célula germinativa do moderno
Estado Ocidental. WEBER, 1999, p. 145-146.
32 WEBER, 1999, p. 147.
117
possuírem competências funcionais fixas, bem como qualificação racional, atestada por uma
prova de concurso. Além disso, são remunerados com salário fixo e em dinheiro, sendo esse
salário escalonado de acordo com a hierarquia que ocupa, além de terem programas de
aposentadoria33.
Percebe-se, portanto, que os funcionários de um sistema de dominação racional estão
submetidos a uma estrutura rigorosa e homogênea de disciplina de controle e de serviço,
pertencendo a um corpo de funcionários qualificados segundo critérios racionais legais. Em
função disso, a maioria exerce o cargo como profissão única ou principal.
Haja vista a dominação amparada por leis, estatutos e regras, os quais estatuídos por
um órgão impessoal, infere-se a obediência em função da ordem, não pelas características
pessoais do líder. Isso faz com que esse tipo de dominação seja o único dos três que não é
personalizada.
Diferentemente da dominação burocrática, a dominação de caráter tradicional tem a
sua legitimidade repousada na “crença cotidiana na santidade das tradições vigentes desde
sempre e na legitimidade daqueles que, em virtude dessas tradições, representam a
autoridade”34 (autoridade tradicional).
Dessa forma, a máxima “porque sempre foi assim” é utilizada para justificar o padrão
de fidelidade dos servidores pessoais (companheiros tradicionais, súditos) ao senhor pessoal.
Nesse sentido, as monarquias são o melhor exemplo desse tipo de dominação, já que os
dominados sequer enxergam outra possibilidade senão a de obedecer àquele sistema
monárquico já existente. Ou seja, não há questionamento quanto à dominação sofrida, fator
que reforça a noção de que a legitimidade se dá pelo hábito e pelo costume em se adotar e
propagar crenças geracionais. A exemplo disso, tem-se a transição do patronado de rei pra
príncipe e em tribos também.
Nessa linha, o senhor então domina não porque houve um processo democrático de
votação, ou legisladores o indicaram, nem porque ele é um ditador que tomou o poder a
força, mas por uma legitimidade advinda da tradição35. Quanto a isso, Weber menciona que
33 WEBER, 1999, p. 144.
34 WEBER, 1999, p. 141.
35 Destaca-se que, como ensina Weber, as ordens são legitimadas de dois modos: a) em parte em virtude da
tradição que determina inequivocamente o conteúdo das ordens, e das crença no sentido e alcance destas, cujo
abalo por transgressão dos limites tradicionais poderia pôr em perigo a posição tradicional do próprio senhor e
b) em parte em virtude do livre arbítrio do senhor, ao qual a tradição deixa espaço correspondente. Esse arbítrio
tradicional baseia-se primordialmente na ausência de limitações que por princípio caracteriza a obediência em
118
o exercício dessa dominação pode ser feito tanto de forma individual quanto conjuntamente,
por meio de um quadro burocratizado, similar à burocratização existente na dominação legal.
Nessa esteira, quando organizada segundo um quadro administrativo, a estrutura não
se dará de forma racional, mas por razões históricas, já na dominação tradicional “não se
obedece a estatutos, mas à pessoa indicada pela tradição ou pelo senhor tradicionalmente
determinado”36. Isto é, os servidores estão colocados estruturalmente haja vista a sua
condição de servo, parente, cliente, colono, escravo, libertado pessoa tradicionalmente
ligadas ao senhor por vínculos de piedade, membros do clã, entre outros vínculos possíveis.
Tais afinidades podem ser observadas tanto nas relações de suserania e vassalagem, quanto
no feudalismo da idade média37.
Portanto, o dominador não é um superior, mas um senhor pessoal e seu quadro
administrativo não se compõe primariamente de funcionários, mas de servidores pessoais.
Em função disso, os dominados não são membros da associação, mas companheiros
tradicionais ou súditos.
Por fim, o terceiro tipo de dominação é a dominação de caráter carismático. Assim
como nos outros tipos de dominação, o termo adotado para descrevê-los é autoexplicativo.
No entanto, Weber assevera que não se pode confundir carisma com simpatia. Isto é, o
carisma, define Weber38, é uma “qualidade pessoal considerada extracotidiana e em virtude
da qual se atribuem a uma pessoa poderes ou qualidades sobrenaturais, sobre-humanos, ou
então se a toma como enviada por Deus, como exemplar, e, portanto, como líder”.
Feitas as considerações, Weber39 conceitua esse tipo de dominação como a
“veneração extracotidiana da santidade, do poder heroico ou do caráter exemplar de uma
pessoa e das ordens por esta reveladas ou criadas” (autoridade carismática).
Assim, o carisma representa uma qualidade do líder que, por meio dele, mantém um
grupo de dominados. Os dominados, aqui melhor denominados de “adeptos”, por sua vez,
legitimam a dominação exercida pelo líder carismático motivados pelo sentimento de
virtude do dever de piedade. Existe, portanto, o duplo reino: da ação do senhor materialmente vinculada à
tradição e da ação do senhor materialmente independente da tradição.” WEBER, 1999, p. 148.
36 WEBER, 1999, p. 148.
37
Weber acrescenta que os tipos primários da dominação tradicional são os casos em que falta um quadro
administrativo pessoal do senhor: gerontocracia e o patriarcalismo primário. Gerontocracia: se houver uma
dominação no grupo, essa será liderada pelo mais velho, pois é o que mais tem conhecimento. Patriarcalismo:
dentro de uma associação doméstica, a dominação é exercida por um indivíduo determinado, por regras de
sucessão: homem. WEBER, 1999, p. 153.
38 WEBER, 1999, p. 159.
39 WEBER, 1998, p. 141.
119
reconhecimento e até mesmo de idolatria. Isso se deve ao fato de os líderes carismáticos, no
sentido genuíno, serem considerados enviados de Deus, e dada essa graça divina, sãovistos
como detentores de poderes extraordinários, como se fossem verdadeiros super homens.
Cumpre destacar que os maiores líderes da terra foram guias carismáticos, como
Jesus Cristo, Gandhi, Nelson Mandela Buda, e até mesmo Adolf Hittler, o qual conseguiu
através de seu carisma, mobilizar todos os alemães em prol da “raça pura”, exterminando
um grande número de judeus.
A dominação carismática, portanto, subsiste com base nas características pessoais do
líder, que detém como atributo principal o carisma e por conseguinte a boa retórica e o poder
de influenciar as massas. Weber, destaca, porém, que a dominação carismática só é mantida
e efetiva quando continuamente reafirmada pelo líder, que o faz por meio de suas ações,
consideradas como vindas de Deus, de sua magia e, acima de tudo o grupo deve considera-
las benéficas, sob pena de a autoridade carisma desvanecer40.
Com base nos principais conceitos trazidos por Weber no que tange à sociologia da
dominação, parte-se no capítulo adiante para a análise da aplicabilidade dessa teoria na
configuração da administração brasileira, especialmente quanto aos modelos patrimonialista
e burocrático de gestão.
3. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA: MODELOS PATRIMONIALISTA
E BUROCRÁTICO
O vínculo entre a dominação e a administração foi identificado por Weber41 ao
afirmar que “toda dominação se manifesta e funciona como administração”. Isso porque
“toda administração precisa, de alguma forma, da dominação, pois, para dirigi-la, é mister
que certos poderes de mando se encontrem nas mãos de alguém”42.
Inspirada nos tipos de dominação legítima propostos por Weber, a administração
pública brasileira foi marcada por três principais modelos de gestão. Segundo consta em
importante documento elaborado pelo Ministério da Administração Federal e da Reforma
do Estado no ano de 1995, o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado – PDRAE, a
administração pública brasileira se desenvolveu em três fases:
40
WEBER, 1999, p. 159.
41 WEBER, 1998, p. 193.
42 WEBER, 1998, p.193.
120
[…] partindo-se de uma perspectiva histórica verificamos que a administração
pública – cujos princípios e características não devem ser confundidos com os da
administração das empresas privadas – evoluiu através de três modelos básicos: a
administração pública patrimonialista, a burocrática e a gerencial
43
.
Tendo em vista o intento do presente trabalho em demonstrar a aplicabilidade da
sociologia da dominação weberiana na conformação da administração pública brasileira, por
uma questão de logística, optou-se por balizar a referida análise nos primeiros dois modelos
de gestão: a administração patrimonialista e burocrática, já que, o adentramento na
administração gerencial renderia assunto para um trabalho inteiro.
Adiante, sabe-se que a primeira forma de administração presente brasileira foi a
patrimonialista. Esse modelo foi introduzido no Brasil quando o país era colônia, pela coroa
portuguesa, persistindo até a década de 1930. Baseado nos modelos de estados absolutistas,
essa forma de administração foi “fortemente firmada nos séculos XVII e XVIII, quando o
patrimônio do Monarca Absoluto se misturava com o patrimônio público, formando uma
linha tênue na distinção entre público e privado”44.
É evidente, portanto, a confusão entre a res pública e a res privada nas mãos do
governante (monarca) é a principal característica desse modelo de administração. Em função
disso, a preocupação maior do governante se situava em satisfazer os seus interesses
pessoais, bem como os de seus favorecidos, o que gerava um cenário administrativo
nepotista, corrupto e clientelista.
A partir dessa dificuldade em diferenciar a esfera pública da esfera privada, já que
ambas se concentravam na mão de uma única pessoa, o governante tratava dos assuntos do
Estado como se fosse uma extensão da sua vida pessoal, tendo como fio condutor de sua
administração, os seus próprios interesses. Corroborando esse cenário, historicamente, o Rei
Luiz XIV se tornou figura emblemática ao proferir a máxima “L’etat c’est moi”, colocando-
se no centro do poder, não é à toa a auto intitulação que fez como sendo, nada menos do que
o Rei Sol45.
43 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Ministério da Administração Federal e da Reforma do Estado. Plano
Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Brasília, nov. 1995. p. 14-15. Disponível em:
http://www.anped11.uerj.br/planodiretor1995.pdf. Acesso em: 27 mar. 2020.
44 CAMPELO, Graham Stephan Bentzen. Administração Pública no Brasil: ciclos entre patrimonialismo,
burocracia e gerencialismo, uma simbiose de modelos. Ci. & Tróp., Recife, v. 34, n. 2, p. 297-324, 2010. p.
299.
45 CAMPELO, 2010, p. 306.
121
Tais conceitos puderam ser observados na própria Constituição Imperial de 1824,
cujo artigo 99 retrata a ideia de patrimonialismo: “a pessoa do Imperador é inviolável e
sagrada: ele não está sujeito a responsabilidade alguma”46. Tal disposição evidencia a teoria
da irresponsabilidade absoluta, chancelado pelo provérbio inglês, “the king can no do
wrong”, ou seja, o rei nunca erra47.
Com base nesses fundamentos, esse tipo de administração, na qual o rei figura como
um verdadeiro Deus na terra, pode se inferir a correspondência com o segundo tipo de
dominação proposto por Weber, qual seja, a dominação de caráter tradicional. Ora, pois, não
restam dúvidas de que a base da dominação exercida pela administração patrimonialista é a
tradição, já que, retomando os ensinamentos de Weber, a dominação de caráter tradicional
tem a sua legitimidade repousada na “crença cotidiana na santidade das tradições vigentes
desde sempre e na legitimidade daqueles que, em virtude dessas tradições, representam a
autoridade”48, em outras palavras, “porque sempre foi assim”.
Adiante, tendo em vista a predominância de uma administração pública
patrimonialista e clientelista, até o Governo de Getúlio Vargas, bem como a República
Velha, caracterizada pelo controle de oligarquias, dominadas por uma elite, esse modelo
excludente foi precursor de uma grande Revolução, a Revolução de 1930.
Nesse ínterim, se segundo Flávio Resende49, “até 1930, o Estado brasileiro era um
verdadeiro mercado de troca de votos por cargos públicos; uma combinação de clientelismo
com patrimonialismo”, após a revolução, o Estado novo buscou a centralização do poder no
governo federal, retirando, para tanto, poder e autonomia dos estados.
Assim sendo, a complexidade da sociedade fez com que o modelo administrativo
patrimonialista fosse abandonado, em prol de uma administração de modelo burocrático.
Dessa forma, conforme conceitua o PDRAE50, “surge na segunda metade do século XIX, na
época do Estado liberal, como forma de combater a corrupção e o nepotismo
patrimonialista”. Nesse sentido,
46 NOGUEIRA, Octaviano. Constituições Brasileiras: 1824. Brasília: Senado Federal e Ministério da Ciência
e Tecnologia, Centro de Estudos Estratégicos, 2001. p. 23.
47 CAMPELO, 2010, p. 306.
48
WEBER, 1999, p. 141.
49 RESENDE, 2004 apud PALUDO, Agustinho. Administração pública: teoria e questões. 1. ed. Rio de
Janeiro: Elsevier, 2010. p. 97.
50 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1995, p. 15.
122
Constituem princípios orientadores do seu desenvolvimento a profissionalização,
a ideia de carreira, a hierarquia funcional, a impessoalidade, o formalismo, em
síntese, o poder racional-legal. Os controles administrativos visando evitar a
corrupção e o nepotismo são sempre a priori. Parte-se de uma desconfiança prévia
nos administradores públicos e nos cidadãos que a eles dirigem demandas. Por
isso são sempre necessários controles rígidos dos processos, como por exemplo na
admissão de pessoal, nas compras e noatendimento a demandas
51
.
Percebe-se, portanto, a superação do modelo patrimonialista quanto à confusão da
coisa pública e privada, o que gerou proteção maior aos interesses da sociedade, bem como
ao patrimônio público contra a corrupção e o clientelismo, práticas tipicamente
patrimonialistas. Desta feita, esse avanço foi marcado pela adoção de uma estrutura rígida
de controle de processos, aonde procedimentos e atos administrativos detinham demasiado
formalismo.
É nesse cenário que a primeira noção de dominação de Weber - a dominação de
critério racional - ganha aplicabilidade na administração pública brasileira. Dessa forma, em
1938, foi criado o DASP - Departamento Administrativo do Serviço Público, que, segundo
Costa52, detinha como missão de “definir e executar a política para o pessoal civil, inclusive
a admissão mediante concurso público e a capacitação técnica do funcionalismo, promover
a racionalização de métodos no serviço público e elaborar o orçamento da União”.
Com a criação do DASP, portanto, rompeu-se com o modelo patrimonialista, o que
gerou o fortalecimento do princípio da meritocracia, já que os ocupantes de cargos públicos
passaram a ser selecionados objetivamente, de acordo com o desempenho. Isto é, os
principais elementos do quadro administrativo burocratizado de Weber, componentes da
dominação racional passaram a ser perseguidos pela administração de modelo burocrática,
quais sejam, a formalidade, a impessoalidade e a profissionalização.
Apesar dos merituosos avanços sociais conquistados pelo modelo burocrático, o
excessivo formalismo e o controle tornaram a administração pública rígida e engessada,
comprometendo a sua eficiência. Dessa forma,
O Estado volta-se para si mesmo, perdendo a noção de sua missão básica, que é
servir à sociedade. A qualidade fundamental da administração pública burocrática
é a efetividade no controle dos abusos; seu defeito, a ineficiência, a
51 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1995, p. 15.
52 COSTA, Frederico Lustosa da. Brasil: 200 anos de Estado; 200 anos de Administração Pública; 200 anos de
reformas. Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro, v. 42, n. 5, p. 829-874, set./out. 2008. p. 846.
123
autorreferência, a incapacidade de voltar-se para o serviço aos cidadãos vistos
como clientes
53
.
Além desse extremismo que a administração burocrática repercutiu, ressalta-se que
“a administração pública brasileira, embora marcada pela cultura burocrática e regida pelo
princípio do mérito profissional, não chegou a se consolidar, como uma burocracia
profissional nos moldes weberianos”54. Ou seja, por mais elementos da dominação racional
de Weber que a administração burocrática brasileira tenha adotado, é forçoso afirmar que
houve uma aplicação do modelo “puro” de Weber. Isso porque, como o próprio PDRAE55
assinala, por mais que as três formas de administração se sucedam, em uma espécie de
substituição, nenhuma delas é inteiramente abandonada56.
Tais fatores levaram o modelo burocrático a percorrer uma curta duração,
diferentemente do modelo patrimonial, dando espaço para o surgimento do terceiro modelo
de gestão administrativa no Brasil, o modelo gerencial. Nesse sentido, segundo Bresser57, o
Estado Burocrático na sociedade capitalista, industrial teve vida curta, não somente “porque
a industrialização chegou tarde e logo começou a ser substituída pela sociedade pós-
industrial do conhecimento e dos serviços”, mas também porque “a reforma burocrática de
1936 também chegou tarde e foi atropelada pela reforma gerencial, que a globalização
imporia e a democracia tornaria possível”58.
Quanto à idealização de uma administração pública burocrática/racional de weber,
percebe-se que a aplicação prática desse modelo no Brasil não correspondeu às suas
expectativas. Dessa forma, os anseios por eficiência em uma organização centralizada e
53
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1995, p. 15. Nesse sentido, em um de seus importantes estudos,
menciona: “A administração pública burocrática clássica foi adotada porque era uma alternativa muito superior
à administração patrimonialista do Estado. Entretanto o pressuposto de eficiência em que se baseava não se
revelou real. No momento em que o pequeno Estado liberal do século XIX deu definitivamente lugar ao grande
Estado social e econômico do século XX, verificou-se que não garantia nem rapidez, nem boa qualidade nem
custo baixo para os serviços prestados ao público. Na verdade, a administração burocrática é lenta, cara, auto-
referida, pouco ou nada orientada para o atendimento das demandas dos cidadãos. BRESSER-PEREIRA, Luiz
Carlos. Da Administração Pública Burocrática à Gerencial. Brasília: Revista do Serviço Público, v. 47, n. 1,
p. 1-28, jan./abr. 1996. p. 05.
54 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1995, p. 19.
55 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 1995, p. 14-15.
56 A exemplo disso, destaca-se o nosso contexto atual, pois temos ainda aspectos presentes que são heranças
do patrimonialismo (nomeações em cargos de confiança), aspectos da teoria da burocracia (concursos públicos
e noção de carreira, entre outros), entre outros.
57 BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Do Estado Patrimonial ao Gerencial. In: PINHEIRO, Paulo Sérgio;
WILHEIM, Jorge; SACHS, Ignacy. Brasil: um século de transformações. São Paulo: Cia das Letras, 2001. p.
222-259. p. 233.
58 BRESSER-PEREIRA, 2001, p. 233.
124
rigorosamente focada nas regras, findaram em um resultado oposto, haja vista inúmeros tipos
de disfunções que esse sistema gera.
Prova disso está a visão social diante da palavra “burocracia”, a qual inevitavelmente
remonta a um imaginário negativo de lentidão, atraso, dificuldade e, portanto, ineficiência.
Nesse sentido, menciona-se a colocação do crítico Michel Crozier59, ao contrário do que
pensava Weber, acreditava que o modelo burocrático reduzia a eficácia das organizações,
isto é, as instituições não poderiam operar como máquinas, ao invés disso, as organizações
deveriam ser vistas como algo que:
[...] não está apenas constituída pelos direitos e obrigações da bela máquina
burocrática, e nem muito menos pela exploração e pela resistência da força de
trabalho a ser explorada por um patrão ou por uma tecnoestrutura. Ela é um
conjunto complexo de jogos entrecruzados e interdependentes, através dos quais
os indivíduos, com oportunidades frequentemente muito diferentes de sucesso,
procuram maximizar seus benefícios, respeitando as regras não escritas do jogo
que o meio lhes impõe, tirando partido sistematicamente de todas as suas
vantagens e tentando minimizar as dos outros.
Afora os autores que apontam para as disfunções da burocracia e, portanto, o
insucesso do tipo ideal burocrático de Weber, há quem defenda o autor, situando-o como um
eterno incompreendido. Nessa linha, Humberto Falcão Martins60 destaca para o que chamou
de o primeiro problema da burocracia - o de natureza epistemológica, já que a sociologia
política de Weber “raramente conta com uma apreciação organizacional condizente com a
sua complexidade, refletindo em duas perspectivas: a da sociologia das organizações e a da
administração”.
Martins61 aponta a existência de uma sistemática incompreensão da burocracia no
contexto da sociologia política de Weber resultante de “uma compreensão organizacional da
burocracia, desconexa de uma visão da burocracia em Weber, no conjunto de sua obra”.
Dessa forma, “falham os sociólogos das organizações e os administradores ao tentar
conceituar a burocracia a partir da organização burocrática”62, pois “antes de mais nada,
burocracia é poder”63.
59 CROZIER, Michel. O Fenômeno Burocrático. Brasília: UNB, 1981. p. 50.
60 MARTINS, Humberto Falcão. Burocracia e a Revolução gerencial - a persistênciada dicotomia entre política
e administração. Revista do Serviço Público, v. 48, n. 1, p. 42-78, jan./abr. 1997. p. 43.
61 MARTINS, 1997, p. 44.
62 MARTINS, 1997, p. 44.
63 BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos; MOTTA, Fernando Claudio Prestes. Introdução à Organização
Burocrática. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 141.
125
Quanto ao problema da epistemologia, Martins aponta apoiar-se na confusão entre
organização burocrática e no tipo ideal descrito por Weber, que de recurso puramente
metodológico, no qual não cabe identificação com a realidade é transformado em modelo
prescritivo64.
Nessa linha, Parsons65 reforça o descontentamento com o termo burocracia,
identificando o tipo ideal burocrático como um dos mais pobres utilizados por Weber ao
mencionar que a organização burocrática descrita no tipo ideal não tem nada de ideal: “se
fosse ideal não seria tipo, porque estes derivam-se da realidade empírica; se fossem tipos
não seriam ideais, porque estes derivam-se da pura abstração”. Martins66 conclui, assim, que
O problema epistemológico da burocracia, do qual Weber é, até hoje, vítima, é que
a burocracia, enquanto fenômeno de poder, prescinde de uma organização
burocrática típica. Dito de outra forma, não há organização burocrática típica,
senão aquela que se baseia, de uma forma bastante flexível no que se refere à sua
morfologia, num sistema formal-impessoal.
Destaca-se, por fim, que o problema da epistemologia remonta apenas um dos
problemas encontrados na burocracia e que, portanto, refletem na aplicação prática da teoria
weberiana quanto ao tipo de dominação racional. Assim, o próprio Weber tratou do problema
político da burocracia, considerando-o como problema central. Em outras palavras, o
problema central da burocracia, segundo Weber, não é organizacional ou administrativo, é
político67.
CONCLUSÃO
A partir do exposto, assente em uma breve trajetória sobre os principais conceitos
sociológicos trazidos por Max Weber, foi possível extrair a pertinência de refleti-los sob o
ponto de vista da contemporaneidade.
Tendo a administração pública brasileira sido escolhida como foco de análise,
percebe-se que as suas bases de conformação são, dentre outras, weberianas. Nesse sentido,
o primeiro modelo de gestão administrativa adotado no Brasil, o patrimonialismo remontou
inúmeros aspectos existentes na dominação tradicional de Weber. Isso se corroborou não
64 MARTINS, 1997, p. 45.
65 PARSONS, Talcott. The Structure of Social Action. Marxists.org, 2020. Disponível em:
https://www.marxists.org/reference/subject/philosophy/works/us/parsons.htm. Acesso em: 1 abr. 2020.
66 MARTINS, 1997, p. 45.
67 MARTINS, 1997, p.45.
126
apenas pela do quadro administrativo da sociedade colonial, mas pela autoridade advinda do
monarca, que representava verdadeiro líder perante os dominados.
Obviamente que a adequação não é integral, já que, como evidenciado, os modelos
administrativos evoluíram com o passar do tempo, mas sempre deixando alguns resquícios
nos modelos sucessores.
Quanto ao modelo de administração burocrática, apesar das dificuldades encontradas
em não apenas afinar, mas sobretudo, distinguir o significado de dominação do tipo
burocrática, com o termo burocracia, mostra-se inegável as raízes weberianas nessa fase da
administração brasileira. Se antes, a sociedade era administrada por um quadro nepotista,
clientelista e corrupto, agora, formalidade impessoalidade e profissionalização passaram a
ser as características preconizadas pela administração burocrática.
Por todo o exposto, conclui-se que, muito mais do que verificar se as dominações
weberianas “deram certo” na configuração da administração brasileira, o que se buscou
demonstrar é que, apesar dos percalços, controversas e dicotomias, Max Weber contribuiu,
sem dúvidas para a formação do quadro administrativo do país. Assim, apesar de a análise
ter sido concentrada em dois principais modelos de gestão, sustenta-se que, não importa em
que momento da evolução da administração pública do país se esteja, sempre existirá por
trás, uma contribuição weberiana.
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128
A ATUAÇÃO DO TERCEIRO SETOR COMO EXERCÍCIO DA
CIDADANIA
Bárbara Bidese1
Resumo: A sociedade, historicamente, sempre se dividiu em dois setores: o primeiro, o
Estado e o segundo, o mercado, que é o particular que visa o lucro. Após a Reforma
Gerencial, ocorrida em 1998, surgiu o Terceiro Setor que possui como centro as entidades
sem fins lucrativos. O Terceiro Setor possui uma racionalidade diferentedaquela a ser
perseguida pelo Poder Público. Em regra, é um mecanismo de retirada de funções estatais,
que repassa à entidade não estatal a prestação dos serviços públicos, o que nem sempre pode
representar uma otimização de sua qualidade e eficiência. O Terceiro Setor,
obrigatoriamente, passa por diversas formas de controle, pois como recebe recursos públicos
destinados às entidades particulares, estes devem ser acompanhados, publicizados seus
investimentos, formas de uso e aplicações. A possibilidade de fiscalizar a atuação do
Terceiro Setor frente à Administração Pública dá-se pelo efetivo exercício de cidadania,
através da participação popular, concretizando a democracia participativa.
PALAVRAS-CHAVE: Terceiro Setor; Estado; controle; participação popular; cidadania.
INTRODUÇÃO
Várias Constituições fizeram parte da história do Brasil, cada uma com um ideal
diferente, porém, sua maioria assegurando direitos e defendendo o cidadão. Com o passar
dos tempos e o aumento da população brasileira se tornou necessária a descentralização de
serviços que antes eram exclusivamente prestados pelo Estado, passando-se, assim, a serem
prestados pelos particulares.
Diante desta nova realidade, surgiu o denominado Terceiro Setor da sociedade, quem
em seu âmago buscava suprir as necessidades sociais atuando ao lado do Estado, mas, sem
interesse lucrativo. A onda de serviços sociais, no Brasil, deu-se após a Reforma Gerencial
que foi implementada pela Emenda Constitucional nº. 19, de 4 de junho de 1998. Esta inseriu
no texto constitucional o princípio da eficiência administrativa.
1 Advogada Inscrita na Ordem do Advogados do Brasil/RS 115.556. Bacharel em Direito pela Universidade
de Caxias do sul - UCS, Pós-graduanda em Direito Agrário e do Agronegócio - FMP. E-mail:
barbara.bidese@gmail.com
129
O chamado Primeiro Setor, o público, e o Segundo setor, o mercado, deixaram nas
mãos do Terceiro Setor o papel de construir um diálogo entre os dois mundos, para buscar a
evolução social, procurando apenas fazer o meio do caminho entre o público e o privado. As
entidades de Terceiro Setor possuem, sim, um fim social e de interesse público, mas são
diversificadas, em seus conteúdos e ideologias, por isso, capazes de atingir uma maior
parcela da população brasileira, mesmo não possuindo fins lucrativos.
Entender o funcionamento do Terceiro Setor é fundamental para contribuir com o
acesso a direitos fundamentais atribuídos ao público não estatal, bem como para que seja
possível efetivar o controle social, mote da administração gerencial. Por isso, necessário se
faz a promoção de informações sobre a atuação do Terceiro Setor e o controle social, não
apenas para os profissionais da área jurídica, mas também para pessoas interessadas em
integrar uma entidade de fins não lucrativos.
1. O ESTADO E OS SERVIÇOS PÚBLICOS
A Reforma do Estado, idealizada pela Emenda Constitucional nº. 19, de 4 de junho
de 1998, versou sobre a proposta de transformação da Administração Pública burocrática
para uma Administração Pública Gerencial, propiciando maior discricionariedade para as
autoridades, no poder, além de uma movimentação e uma conduta mais produtiva e eficiente
em relação aos interesses coletivos.
Os denominados Direitos Sociais são, de fato, garantias dadas aos cidadãos, com a
finalidade de melhoria de condições, visando igualdade e justiça social, ansiada por muitos.
A Administração Pública gerencial se revelou muito próspera para a efetivação de tais
direitos, pois, além de contribuir para a prestação de serviços de forma mais ágil, culminou
na busca de suprir as necessidades básicas dos mais vulneráveis.
Grande passo em favor da democracia, a Constituição Federal de 1.988 proclamou
uma nova enunciação dos direitos de cidadania; ampliou os mecanismos de inclusão política
e participação; estabeleceu larga faixa de intervenção do Estado no domínio econômico;
redistribuiu os ingressos públicos entre as esferas de governo; diminuiu o aparato repressivo
130
herdado do regime militar e institucionalizou os instrumentos de política social, dando-lhes
substância de direção.2
Os idealizadores da reforma gerencial buscavam inicialmente uma mudança em
relação ao agigantamento do Estado em relação aos governados. Basta analisar o artigo 37
da Constituição Federal de 1.988 que, implementou o princípio da eficiência, mas, por outro
lado, manteve outros princípios, como legalidade, impessoalidade e moralidade. Nota-se que
não era pretendida uma reforma de modo a inovar totalmente a forma de governança, mas
sim, buscava-se aprimorar ainda mais o que já havia sido executado até então.
Desta maneira, a Reforma surgiu com o intuito de mudar a grande concentração de
oferta dos serviços públicos que estavam na mão do Estado. Ansiava-se por uma
descentralização para permitir que estes serviços fossem prestados de forma mais eficiente
e justa possível. Antes, a administração burocrática funcionou, até certo ponto, mas o
agigantamento do Estado tornou-se algo, de certa forma, incontrolável, pois além dos
serviços básicos prestados, Este interferia muito nas relações privadas, mostrando assim que
não conseguiria atender as necessidades básicas dos cidadãos, que era seu papel
fundamental.
A Reforma, muito ao contrário do que se tanto estimava, transformou o Estado em
uma máquina maior, mais fortalecida e muito mais eficiente, com uma menor burocracia.
Porém, esta eficiência, só se torna possível, com uma gestão e organização estruturada. A
transformação da burocracia clássica, para uma gestão pública eficiente, concretiza-se com
a colaboração de organizações públicas, não estatais, com capacidade para exercer o controle
social.
O gestor público governante, após esta época de mudança, teve mais controle
direcionado à população, e é este que detém o poder para a organização estatal, exigindo do
mesmo, cada vez mais que seja capacitado e demonstre maior competência, tendo em vista,
além do mundo cada vez mais globalizado, uma necessidade de aprimorar-se para
acompanhar as mudanças que se iniciam.
Muitos dos trabalhos que o Estado assumiu sem realizá-los, histórica e gradualmente,
voltam às mãos dos particulares. Diante da nova realidade, começa-se a tomar o verdadeiro
2 COSTA, Frederico Lustosa da. Brasil: 200 anos de Estado; 200 anos de Administração Pública; 200 anos
de reformas. Rev. Adm. Pública, Rio de Janeiro,2008. Available from:
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-76122008000500003&lang=pt.Acesso
10/08/2020.
131
sentido do status de cidadania, ou seja, aquela que envolve a capacidade de ser sujeito das
decisões e influenciar os destinos da sociedade da qual se faz parte.3
A garantia de direitos, no ordenamento jurídico brasileiro, é de extrema importância
e deve-se partir da premissa de necessidade de proteção da população mais frágil e
vulnerável, por parte do Estado. Assim, o Estado deve garantir os direitos da população
através de sua atuação em defesa da mesma. Para que os direitos sociais sejam efetivados,
com democracia e em relação a quem precisa, deve-se ter um agir por parte dos governados
e que demonstrem preocupação e cobrança aos governantes. A população precisa
manifestar-se e encarar a democracia participativa como possibilidade de mudanças para
uma vida em sociedade, melhor e mais igualitária, para não apenas esperar do Estado à
efetivação de seus direitos positivados.
É necessário analisar que, os direitos sociais, chamados de direitos fundamentais de
segunda dimensão tiveram sua origem através da industrialização e os graves problemas
econômicos e sociais que acompanharam este processo. Conforme Pedro Lenza4:
O fato histórico que inspira e impulsiona os direitoshumanos de 2.a dimensão é a
Revolução Industrial europeia, a partir do século XIX. (...) O início do século XX
é marcado pela Primeira Grande Guerra e pela fixação de direitos sociais. Essa
perspectiva de evidenciação dos direitos sociais, culturais e econômicos, bem
como dos direitos coletivos, ou de coletividade, correspondendo aos direitos de
igualdade. (...)
Coube assim, ao Estado, outorgar aos cidadãos prestações de cunho assistencial,
proporcionando saúde, educação e trabalho, efetivando um modelo de Estado mais
interventor e positivo.
Os direitos sociais, fazem parte dos serviços a serem oferecidos pelo Estado aos
cidadãos, de forma direta ou indireta, os quais também são parte integrante dos direitos da
população, que dependem da Administração Pública para tê-los efetivados.
[...] a natureza fundamental dos direitos sociais estaria vinculada a atuação do
legislador, ainda, em um momento em que se buscava a observância pelo Poder
Público das garantias e direitos constitucionais, especificamente dos direitos
sociais, que despendem por parte do Estado grande esforço econômico, a
vinculatividade estaria inerente a boa vontade do legislador em abarcar os direitos
sociais no rol dos direitos fundamentais nas Constituições.5
3 RIPARI, Vanessa Toqueiro. Eficiência do Estado: limites e possibilidades no atual modelo de estado
gerencial. XXI Congresso Nacional do CONPEDI/UFF, 2012, Niterói, Rio de Janeiro. Disponível em:
https://www.conpedi.org.br/publicacoes/02q8agmu/9rabty0z/S2UXi2drT3p07NX6.pdf. Acesso em:
10/08/2020.
4 LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado, 20th edição. Editora Saraiva. 2012. Pg. 1.157.
5BORTOLOTI, José Carlos Kraemer; MACHADO, Guilherme Pavan. Direitos sociais como fundamentais:
um difícil diálogo no Brasil. Prisma Jurídico, São Paulo, 2017.
https://www.conpedi.org.br/publicacoes/02q8agmu/9rabty0z/S2UXi2drT3p07NX6.pdf
132
O Estado deve, obrigatoriamente, oferecer e garantir ao cidadão a concretização de
tais direitos, que são vistos como necessários à coletividade. Esses direitos serão efetivados
a população como direitos difusos.
Conforme manifestou a Declaração Universal dos Direitos Humanos6, aprovada em
Paris, em 1.948, garante direitos sociais de acesso ao serviço público por todos assegurados
pelo país aonde vivem. A caracterização de tais prerrogativas se busca através de uma
igualdade em que o Estado intervém na ordem social para pulverizar as injustiças sociais.
Tradicionalmente, os serviços públicos foram prestados pelo primeiro setor, o
Governo, que tinha em vista uma melhoria na condição de vida da população, buscando
também adequar condutas ao interesse geral. Era apenas o Governo que abrangia os mais
diversos serviços que eram postos à disposição da população.
No período da Reforma Gerencial, o Estado interferia em todas as relações, sejam de
consumo ou serviços, fato que causou um agigantamento na máquina pública, por pouco
tempo considerado louvável. Logo, passou a ser considerado um problema, pois o Estado
não conseguia mais realizar suas funções por si só, não atendendo também às necessidades
da população.
A crise deste modelo estatal burocrático começou a surgir, necessitando de
transformações. Tornou-se difícil aplicar os direitos sociais e prestação de serviços públicos
eficientes, na prática, pelo contexto de lentidão e grandiosidade do Estado, que avocou
serviços demais para si, não conseguindo prestá-los de forma digna à população:
Com essas mudanças, saiu-se de uma estrutura baseada em normas centralizadas
para outra ancorada na responsabilização dos administradores, avaliados pelos
resultados efetivamente produzidos. Esse novo modelo busca responder mais
rapidamente as grandes mudanças ambientais que acontecem na economia e na
sociedade contemporâneas. 7
Deste modo, a Reforma redefine o papel do Estado perante os governados, através
dos serviços públicos prestados, para a consecução dos objetivos de interesse público, com
maior agilidade. A busca pela tão desejada eficiência estatal, dá-se através da criação de
6UNESCO. Declaração Universal dos Direitos Humanos, Paris, 1948, disponível em:
http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf . Acesso em 10/08/2020.
7 MENDES, Gilmar Ferreira. Estado de direito e jurisdição constitucional. 2002-2010. Disponível em:
https://books.google.com.br/books?id=MYNnDwAAQBAJ&lpg=PP1&dq=inauthor%3A%22GILMAR%20
FERREIRA%20MENDES%20-%20MINISTRO%20STF%22&hl=pt-BR&pg=PP1#v=onepage&q&f=false.
Acesso em: 10/08/2020.
http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf
133
meios de gestão inovadores, de novo enfoque, devendo o Estado ser quem ampara e ajuda
as pessoas, diante dos novos desafios de uma sociedade complexa.
1.2 O ESTADO BRASILEIRO COMO GARANTIDOR DOS SERVIÇOS PÚBLICOS
É notória, atualmente, a crítica da população em relação a prestação dos serviços
públicos estatais. O Direito Administrativo surgiu, inicialmente, para regular as práticas dos
serviços públicos. Ainda é controverso certos aspectos no tocante à conceituação dos
serviços públicos. Analisar-se-ão os elementos essenciais, no decorrer deste tema para a
construção de um conceito acerca da referida expressão jurídica.
A evolução da noção de serviços públicos é passível de ser verificada,
concretamente, com a mudança de perfil da Administração Pública no Brasil, que
migrou do perfil burocrático à perspectiva gerencial de Estado, sob os auspícios
da nova ordem global. Nesse sentido, os serviços públicos, até então prestados de
forma preponderante e quase exclusiva pelo Poder Público, foram outorgados ao
setor privado, rompendo-se, destarte, com a formatação clássica do instituto.8
Ao Estado incumbe a prestação dos serviços públicos, obedecendo as definições da
Constituição e da legislação infraconstitucional. Conforme verifica-se no artigo 175 da
Constituição Federal de 19889. É dever do Estado efetivar direta ou indiretamente a
prestação dos serviços públicos.
Ocorre que a noção de serviços públicos foi influenciada pela doutrina mais
moderna de forma a restringir seu conceito. Com efeito, tradicionalmente, a
conceituação de serviço público era muito abrangente, abarcando toda a atuação
do Estado, na busca do interesse público, sem efetivar a distinção em relação as
demais atividades administrativas.10
Os serviços públicos são toda a atividade material que a lei atribui ao Estado para
que exerça diretamente ou por meio de seus delegados, com o objetivo de satisfazer
concretamente as necessidades coletivas, sob o regime jurídico total ou parcial público.11
8 FRANÇA, Vladimir da Rocha. Reflexões Sobre a Prestação de Serviços Públicos por Entidades do
Terceiro Setor. Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado, Salvador, 2006. Disponível na Internet:
<http://www.direitodoestado.com.br>. Acesso em: 10/08/2020.
9 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Art. 175. Incumbe ao Poder Público, na
forma da lei, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, sempre através de licitação, a prestação
de serviços públicos.
10 CARVALHO, Matheus. Manual de Direito Administrativo. 5 ed. Salvador: Juspodvim, 2018. p. 637.
11 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 30. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. p. 139.
134
Após apresentados os conceitos acerca dos serviços públicos, deve-se distinguir que,
serviço público não é a única atividade de Estado. O Estado age em busca de interesses da
coletividade e cabe a cada governante definir o que é oportuno e o que é conveniente e
necessário para a prestação de serviços públicos sobre seus governados.
O Brasil, conforme influência europeia, sempre subsidiou os serviçospúblicos que
eram essenciais à população, porém, com o passar do tempo e com o surgimento de novas
práticas, transferiu aos particulares certas prestações de serviços públicos não exclusivos de
Estado.
Historicamente, o Estado, à medida que foi se afastando dos princípios do
liberalismo, começou a ampliar o rol de atividades próprias, definidas como
serviços públicos, pois passou a considerar determinadas atividades que antes
eram consideradas privadas.12
Neste contexto, verifica-se a expansão do Estado e seu agigantamento em relação ao
particular. No entanto, como visto em alhures, esse agigantamento e essa máxima
intervenção se tornou falha. O Estado não conseguia mais amparar todos os serviços, haja
vista a demanda da população. Em consequência, o Estado passou a delegar a sua execução
a particulares, por meio de contratos de concessão, e posteriormente a pessoas jurídicas de
Direito Privado criadas para este fim.
Assim, as formas de prestação dos serviços públicos atualmente definem-se que o
Estado não pode se eximir da prestação dos serviços, configurando-se em poder-
dever do ente estatal, que tem possibilidade de prestá-lo diretamente ou por
particulares, mediante contratos de concessão e a permissão. A omissão do Estado
no dever de prestação do serviço público seja na forma direta ou indireta configura
abuso de poder e justifica, inclusive, responsabilidade civil, caso algum dano ocorra
do seu não agir.13
O Estado pode executar os serviços de forma direta ou por meio de
descentralização14. É importante ressaltar que o Poder Público transfere a titularidade do
serviço apenas quando ocorrer a outorga. A titularidade deve permanecer com pessoas
jurídicas de Direito Público. Outrossim, na delegação o Estado não transfere a titularidade
do serviço público ao particular, transferindo apenas a execução de tal serviço. Às pessoas
12 ibidem. p. 136.
13 CARVALHO, Matheus. Manual de Direito Administrativo. 5 ed. Salvador: Juspodvim, 2018. p.640
14 Descentralização: As competências administrativas são distribuídas a pessoas jurídicas autônomas, criadas
pelo Estado para tal finalidade. Exemplos: autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de
economia mista. MAZZA, Alexandre. Manual de Direito Administrativo. 7 ed. São Paulo. Saraiva. 2017.
p.197.
135
jurídicas de direito privado apenas se transferem a execução do serviço público, a
titularidade ainda permanece nas mãos da Administração Pública.
A delegação de serviço público, é mencionada no artigo 175 da Constituição Federal
de 1.988 e possui expressamente a admissão de execução de serviços públicos por
particulares por meio de concessão e de permissão definidas por lei.
Quando o Estado resolve delegar a prestação de um determinado serviço público,
este procedimento apenas será efetivado após a realização de procedimento licitatório nos
moldes do previsto na Lei nº 8.666 de 21 de junho de 1.99315 e da legislação sobre concessão
ou sobre permissão, que, conforme o caso, ditará regras específicas.
De outro modo, deve-se analisar, conforme a Constituição da República Federativa
do Brasil qual a forma com que a prestação de serviços públicos é distribuída entre a União,
os Estados, os Municípios e ao Distrito Federal.
Ao longo de seu texto, a Constituição Federal dispõe expressamente as competências
acerca dos serviços públicos a serem respaldadas pelos Entes federativos.
Cabe lembrar que existem muitos serviços públicos de titularidade comum entre a
União, os estados o distrito federal e os municípios, como saúde, previdência
social e assistência social. Tais serviços sociais, também podem ser prestados por
particulares mediante autorização estatal. Porém só serão considerados serviços
públicos propriamente ditos quando prestados diretamente pelo Estado.16
É importante ter a noção de quais serviços são de responsabilidade de cada Ente,
principalmente no momento de exercer o controle social frente à Administração Pública na
reivindicação de direitos e melhorias de cada serviço prestado.
O Estado deve ter ciência dos serviços que presta e da qualidade de tais serviços que
são postos à disponibilidade para cada cidadão. A falta de recurso ou a má utilização destes
podem gerar resultados negativos em relação aos índices. Em consequência, a menor
satisfação dos usuários gera revolta pelo povo que, necessita destes serviços e não pode pagar
para ter acesso a um atendimento melhor na rede privada, dependendo da boa prestação pelo
Estado, que é direito de todos.
O Poder Público deve agir de acordo com o seu dever de garantidor de serviços
públicos adequados, tratando o usuário de forma isonômica. Como não pode se escusar de
15 LEI Nº 8.666, DE 21 DE JUNHO DE 1993. Regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal,
institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências.
16 MAZZA, Alexandre. Manual de Direito Administrativo. 7 ed. São Paulo. Saraiva. 2017. p. 1062
136
prestar o serviço público, a Administração Pública tem o poder-dever de executar o mesmo
da melhor maneira possível, em busca do bem-estar da coletividade.
1.3 O TERCEIRO SETOR E OS SERVIÇOS PÚBLICOS
Muito ainda é discutido na doutrina acerca do denominado Terceiro Setor. Há de se
partir da premissa de que, com a execução da Reforma da gestão pública, esta alavancou o
surgimento de um novo setor na economia, o chamado Terceiro Setor. O objetivo da reforma
era transformar a máquina pública burocrata em eficiente, forte e mais rápida em seus
serviços.
O Terceiro Setor surge na economia com o propósito de atuar ao lado da
Administração Pública, praticando atos e realizando atividades de interesse do Estado.
Designa atividades que não são governamentais, pois não fazem parte do governo, e, não
são empresariais ou econômicas, não fazendo parte também do segundo setor que é o
mercado. Entende-se, dessa forma, para tanto que o Terceiro Setor é formado entidades que
exercem um serviço social sem fins lucrativos.
O Terceiro Setor tem grande destaque em todo o mundo. No Brasil, porém, só tomou
grande proporção a partir do aumento das demandas sociais causadas pelo intenso
desenvolvimento da sociedade. Este setor ganhou dimensão com a Reforma do Estado onde
presava-se a eficiência estatal, colaborando assim para a delegação de serviços para o
Terceiro Setor.
Desta maneira, as entidades do Terceiro Setor, por não visarem lucro e terem como
propósito o trabalho voluntário de cunho social, podem receber incentivos por parte do Poder
público.
As organizações privadas do Terceiro Setor, como exercem atividades de interesse
público, recebem tratamento especial e diferenciado por parte do Poder Público
(fomento), por meio do qual o Estado estimula o desenvolvimento de suas
atividades sociais (incentivos, subvenções, convênios). Por outro lado, sujeitam-
se ao controle e à fiscalização por parte da Administração Pública e do Tribunal
de Contas.17
17 FALCÃO, Elisabeth Couto. Terceiro Setor: Fiscalização das Organizações Sociais e das Organizações
da Sociedade Civil de Interesse Público pelos Tribunais de Contas. Revista Controle,2007.Directory of
Open Access Journals (DOAJ) Disponível em:
http://revistacontrole.ipc.tce.ce.gov.br/index.php/RCDA/article/view/195/197. Acesso em 10/08/2020.
http://revistacontrole.ipc.tce.ce.gov.br/index.php/RCDA/article/view/195/197
137
Muitas são as formas de incentivo que as entidades pertencentes ao Terceiro Setor
usufruem, cada entidade possui um estímulo diferente, que pode se dar através de recursos
financeiros até utilizar imóvel público para a realização de suas atividades.
Importante salientar que estes Entes pertencentesao Terceiro Setor não integram a
Administração Pública, integram a iniciativa privada, porém, atuando ao lado do Estado.
Estes são criados por particulares para a execução de serviços públicos e não exclusivos do
Estado, respeitando a legislação. Não podem possuir finalidade lucrativa, no entanto, podem
cobrar pelas utilidades e serviços prestados desde que os recursos sejam limitados ao
pagamento dos próprios colaboradores e a melhoria dos serviços prestados, sem prejuízo dos
recursos repassados pelo governo.
2. TERCEIRO SETOR E AS PRINCIPAIS FORMAS DE CONTROLE DA
ATUAÇÃO
É notório que o Terceiro Setor passa por diversas formas de controle, pois como
recebe recursos públicos destinados às entidades, estes devem ser acompanhados seus
investimentos, formas de uso e aplicações.
É importante reter a ideia que rege o princípio da indisponibilidade do interesse
público. Este princípio torna-se parte central em relação a todos os controles existentes frente
à Administração Pública. A indisponibilidade do interesse público está ligada com a
necessidade de agir do ente estatal frente a uma indispensabilidade coletiva existente.
Existem, atualmente, diversas entidades integrantes do Terceiro Setor no Brasil.
Alguns doutrinadores ainda discutem quais são exatamente estas entidades. Por atuarem ao
lado do Estado, podem ser chamadas de entidades paraestatais, estas não pertencem ao
Estado, mas, atuam ao seu lado exercendo atividades de cunho social.
Pelo fato de atuarem ao lado do Estado como provedoras de serviços sociais de
interesse do mesmo, essas entidades recebem dinheiro público, incentivos e até controle
exercido pela Administração Púbica.
De acordo com a grande maioria dos doutrinadores, são cinco, as espécies de Entes
do Terceiro Setor tratados no direito brasileiro, a saber: entidades do serviço social autônomo
(sistema S), entidades de apoio, Organizações Sociais (OS), Organizações da Sociedade
Civil de Interesse Público (OSCIP), organizações da sociedade civil (OSC).
138
As formas de controle da Administração Pública são divididas em três principais
categorias: controle interno, controle externo e controle judicial que serão estudadas
individualmente.
O Controle Interno é a modalidade de fiscalização do Poder Público, constante de
um Sistema de Controle Interno, exercido pelos próprios órgãos da Administração Pública,
ligados ao Poder Executivo e positivado nos termos do artigo 70, da Constituição Federal de
1988.18
Essa modalidade de controle é a forma mais comum - o controle administrativo,
exercido dentro de um mesmo Poder e se relaciona com o poder que a própria Administração
Pública tem sobre seus agentes.
Esta formação deixa claro o intuito do legislador em manter o controle interno das
Organizações Sociais preponderantemente nas mãos do Poder Público, fato que só
corrobora a ideia de tratar-se este novel instituto de verdadeiro desvirtuamento das
características fundamentais do Terceiro Setor, dentre as quais ser controlado pela
sociedade.19
O controle interno também poderá ser dividido em controle por hierarquia ou
vinculação que é exercido pelos próprios órgãos da Administração Pública. O controle por
hierarquia é expresso pelo artigo 74 da Constituição Federal atual. Este é exercido entre os
órgãos e agentes que pertencem à mesma pessoa jurídica. O controle por vinculação, também
conhecido por tutela, refere-se à supervisão ministerial da Administração Direta sobre atos
da Administração Indireta que não caracteriza controle por hierarquia.
Os controles internos devem ser adequados à realidade e necessidades da
organização, devidamente acompanhados, a fim de detectar se estão sendo obedecidos todos
os procedimentos que garantem a confiabilidade e transparência das informações.20.
18 LUCENA, Cezar Viana. Terceiro setor: conceito, histórico e marco regulatório, instrumentos jurídicos
de formalização de parcerias entre Administração Pública e terceiro setor e fiscalização das parcerias
entre terceiro setor e Administração Pública. Disponível em:
https://monografias.brasilescola.uol.com.br/direito/terceiro-setor-parcerias-com-a-administracao-
publica.htm#capitulo_7. Acesso em: 10/08/2020.
19 PRADO, Inês Maria Coimbra de Almeida; CASTRO, Tatiane Lobato de. O controle do terceiro
setor. Revista de Direito Sanitário, São Paulo, 2007. Disponível em:
<http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510>. Acesso em:10/08/2020.
doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
20 MAGNUS, Cristina de Oliveira. Controle interno financeiro em uma entidade sem fins lucrativos.
Monografia apresentada à Universidade Federal de Santa Catarina , curso de Ciências Contábeis.
Floriaópolis,2007. Disponível em : http://tcc.bu.ufsc.br/Contabeis293891.pdf. Acesso em: 10/08/2020.
https://monografias.brasilescola.uol.com.br/direito/terceiro-setor-parcerias-com-a-administracao-publica.htm#capitulo_7
https://monografias.brasilescola.uol.com.br/direito/terceiro-setor-parcerias-com-a-administracao-publica.htm#capitulo_7
http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510
http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
http://tcc.bu.ufsc.br/Contabeis293891.pdf
139
O controle externo pode acontecer de duas maneiras: parlamentar direto e pelo
Tribunal de Contas. Expresso no artigo 71 da Constituição Federal, o Tribunal de Contas
auxilia o Poder Legislativo atuando na função de controle. Sobre isso, é importante destacar
o ensinamento de Matheus Carvalho:
O Tribunal de Contas é órgão auxiliar do Poder Legislativo no controle externo.
Tem competência para a fiscalização de quaisquer entidades públicas, incluindo
as contas do Ministério Público, Legislativo e Judiciário, assim como para efetivar
seu controle sobre entidades privadas que utilizem dinheiro público para execução
de suas atividades. 21
Vale ressaltar o papel do Tribunal de Contas e saber qual é a sua relação com o Poder
Legislativo, pois atuam lado a lado, dentro do controle interno, sobre os atos praticados pela
Administração Pública e, também, pelo Terceiro Setor.
Os Tribunais de Contas são órgãos auxiliares do Poder Legislativo na função de
fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União
e das entidades da Administração Pública direta e indireta, quanto à legalidade,
legitimidade, economicidade, aplicação das subvenções e renúncias de receitas
(arts. 70 e 71, CF/88). Nota-se que os Tribunais de Contas são órgãos auxiliares
do Poder Legislativo na fiscalização do dinheiro público. Todo o cidadão tem o
direito de denunciar a estes tribunais irregularidade e ilegalidade verificadas contra
o patrimônio público. Estas instituições exercem o controle sobre as despesas da
espécie considerando principalmente os princípios que resguardam o interesse
público.22
O Tribunal de Contas, porém, não possui competência para sustar contratos
administrativos, que deve ser efetuada pelo Poder Legislativo, pois este tem legitimidade
suficiente para fazer um controle posterior, analisando a legalidade do ato e se sua forma
obedeceu aos requisitos impostos pela lei.
Tanto na Lei nº. 9.637/98 como na Lei nº. 9.790/99 existem disposições em relação
à possibilidade de controle do Tribunal de Contas de toda a atividade das quais participam
recursos públicos e destinação do fomento. 23
21 CARVALHO, Matheus. Manual de Direito Administrativo. 5 ed. Salvador: Juspodvim, 2018. p. 400.
22 PRADO, Inês Maria Coimbra de Almeida; CASTRO, Taiane Lobato de. O controle do terceiro
setor. Revista de Direito Sanitário, São Paulo, 2007. Disponível em:
<http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510>. Acesso em: 10/08/2020
doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
23 PRADO, Inês Maria Coimbrade Almeida; CASTRO, Taiane Lobato de. O controle do terceiro
setor. Revista de Direito Sanitário, São Paulo, 2007. Disponível em:
<http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510>. Acesso em:10/08/2020.
doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33.
http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510
http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510
http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
140
As disposições citadas legitimam o Tribunal de Contas para exercer o controle
externo frente às entidades pertencentes ao Terceiro Setor. Cabe ainda, ao Tribunal de
Contas, não apenas a aprovação da boa utilização de recursos pelas entidades do Terceiro
Setor, mas, também, fiscalizar a legalidade do ato praticado.
Ressalta-se:
Além de fiscalizar eventual irregularidade na utilização das verbas públicas
repassadas, ainda pode requerer informações outras com a determinação de que os
processos submetidos à auditoria sejam instruídos com dados sobre o quanto vem
sendo cumprido dos compromissos assumidos no contrato; que tipo de
contratações foram feitas com recursos públicos e se foram com permissão
contratual e de modo adequado; se os investimentos realizados com recursos
públicos atenderam a previsão contratual e de modo adequado.24
O controle externo é realizado da forma parlamentar direta, que nada mais é do que
a atuação do Poder Legislativo, como a Câmara dos Deputados e o Senado, ou seja. o
Congresso Nacional, que controlam os atos da Administração Pública, por meio de
Conselhos Parlamentares de Inquérito, e, no caso de municípios por comissões.
O Controle Judicial será sempre exercido pelo próprio Poder Judiciário quando este
for provocado. Também, poderá ser exercido de duas formas, o controle prévio ou posterior
ao ato praticado pela Administração Pública. Tal controle deve dar-se sobre a legalidade do
ato e não sobre o mérito dele, e o mesmo não pode ser discutido em sede de controle judicial.
É possível a provocação do judiciário para a análise de controvérsias ainda que já
se tenham esgotadas as instâncias administrativas e, independentemente disso, ou
seja, não se pode exigir a decisão final em sede administrativa como requisito para
ingresso em demanda judicial.25
Apenas o Poder Judiciário profere decisões com caráter finalístico, isto é, definitivas.
O Brasil utiliza o chamado Sistema de Freio e Contrapesos26, o que se refere à possibilidade
de os três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) atuarem no controle sobre a
Administração Pública.
24 Ibidem.
25 CARVALHO, Matheus. Manual de Direito Administrativo. 5 ed. Salvador: Juspodvim, 2018. p. 403.
26 O Sistema de Freios e Contrapesos consiste no controle do poder pelo próprio poder, sendo que cada Poder
teria autonomia para exercer sua função, mas seria controlado pelos outros poderes. Isso serviria para evitar
que houvesse abusos no exercício do poder por qualquer dos Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).
Desta forma, embora cada poder seja independente e autônomo, deve trabalhar em harmonia com os demais
Poderes.
BRASIL. Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Disponível em:
http://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/artigos/2018/consideracoes-sobre-a-teoria-dos-freios-e-
contrapesos-checks-and-balances-system-juiza-oriana-piske. Acesso em: 10/08/2020.
http://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/artigos/2018/consideracoes-sobre-a-teoria-dos-freios-e-contrapesos-checks-and-balances-system-juiza-oriana-piske
http://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/artigos/2018/consideracoes-sobre-a-teoria-dos-freios-e-contrapesos-checks-and-balances-system-juiza-oriana-piske
141
Desta forma, vale ressaltar, a importância dos controles exercidos, tanto interno,
externo e judicial, para a garantia de atividades da Administração Pública em prol do bem
comum e, de acordo com a lei, sem nenhum tipo de violação, com total transparência.
2.1 A PARTICIPAÇÃO POPULAR E O CONTROLE SOCIAL
Quando se pesquisa acerca das formas de controle sobre a Administração Pública
depara-se, como já afirmado, apenas com três configurações: controle interno, externo e
judicial que são exercidos pelos três Poderes de Estado, ou seja, pelos Poderes Judiciário,
Legislativo e Executivo.
Atualmente, muito se discute acerca do controle social e se de fato ele se consagra
ao lado das demais formas de controle já existentes. Ocorre que, com as mudanças que a
sociedade passou e ainda vem passando, o controle social faz-se necessário para uma maior
democracia na relação Administração Pública versus população.
Após a Reforma Gerencial, a Administração Pública deu um grande salto em relação
à imposição de novos princípios como o Princípio da Eficiência. Ao lado deste, tornou-se
necessária a aplicação da Publicidade, outro princípio importante relacionado à atuação do
Estado. Em decorrência da publicidade de atos da Administração Pública, abriu-se ainda
mais a possibilidade de influência popular, possibilitando, assim, uma gestão mais
democrática com participação popular e o controle social.
A transparência estatal, relacionada à Reforma Gerencial modernizou-se nos últimos
tempos. A transparência dá-se através da publicidade de dados em relação aos atos da
Administração Pública. A população pode acompanhar de forma efetiva e até online de que
forma se dão os gastos do governo, quais são os salários dos servidores e vários outros dados.
A problemática da participação democrática dos cidadãos centra-se na
possibilidade de se exigir, do Estado, a emissão de atos legislativos ou
administrativos destinados a órgãos e a estabelecer procedimentos, ou mesmo,
medidas que objetivem garantir aos indivíduos a participação efetiva na
organização da sociedade.27
27 SANTIN, Janaína Rigo. Estado, constituição e Administração pública no século XXI: novos desafios da
cidadania e do poder local. Belo Horizonte. Arraes Editores, 2017. p. 155
142
O controle social deve ser exercido pelo cidadão que respeita o interesse coletivo e
busca o bem comum, podendo, assim, fiscalizar os atos da Administração Pública. Faz-se
necessário, distinguir o controle social da participação popular:
O controle social e a participação popular são irmãos siameses, entretanto, o
controle social é distinto da participação popular. Esta ocorre no momento da
tomada de decisões, antes ou concomitante à elaboração do ato da Administração;
é um poder político de elaboração de normas jurídicas. O controle social pode
concretizar-se em dois momentos: 1) análise jurídica da norma estabelecida pela
Administração Pública, como a relação de compatibilidade com outras normas de
hierarquia superior; 2) fiscalização da execução ou aplicação dessas normas
jurídicas ao caso concreto. A participação popular ocorre antes ou durante o
processo de decisão da Administração Pública, e o controle social, após a
concretização desse processo, com o intuito de verificar se a norma jurídica foi
concretizada pela Administração na forma estabelecida.28
A internet é um grande instrumento a ser utilizado pelos governantes e pelos próprios
governados. Com a utilização adequada dos meios de fiscalização, a democracia
participativa pode realizar-se de uma forma mais direta, por ser de fácil acesso a todos.
O grande risco, portanto, destas novas formas de interação entre público e privado,
tendo em vista a realidade de organização da sociedade brasileira, é o uso do
Estado em benefício de poucos, permitindo maior participação e maior
transparência a certos grupos sociais em detrimento de outros.29
A participação pública nos atos da Administração pode ser um ato de democracia,
bem como, direito fundamental.O cidadão deve fiscalizar o governo, pois, é de seu interesse.
Para haver mudanças é necessária uma fiscalização que deve realizada com afinco pelos
governados.
Claramente, tal controle relaciona-se com o Princípio da Supremacia do Interesse
Público, que é supremo sobre o interesse particular, e todas as condutas estatais têm como
finalidade a satisfação das necessidades coletivas.30
O controle social exercido com constância resulta em uma Administração Pública
mais transparente e é realizado pela própria sociedade sobre a mesma. Como formas de
28 SIRAQUE, Vanderlei. Controle Social da Função Administrativa do Estado. Possibilidades e limites na
Constituição Federal de 1988. São Paulo: Saraiva, 2009. Pg. 112.
29 PRADO, Inês Maria Coimbra de Almeida; CASTRO, Taiane Lobato de. O controle do terceiro
setor. Revista de Direito Sanitário, São Paulo, 2007. Disponível em:
<http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510>. Acesso em: 10/08/2020.
doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
30 CARVALHO, Matheus. Manual de Direito Administrativo. 5 ed. Salvador: Juspodvim, 2018. p. 385.
http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510
http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
143
concretização do controle social destacam-se as possibilidades elencadas na Constituição
Federal e na legislação vigente.
A participação dos cidadãos deve ser posta em prática com empenho para que
efetivamente a supremacia do interesse público seja respeitada, tornando a Administração
Pública transparente, ao máximo.
É importante destacar que o surgimento da Lei de Responsabilidade Fiscal Lei
Complementar nº 101, de 4 de maio 2000, foi de suma importância na relação entre a
Administração Pública e os cidadãos:
A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) surgiu em um contexto mundial de
reforma administrativa do Estado, passando pela mudança de paradigma, da
administração burocrática para a administração gerencial. A partir desse novo
modelo, a Administração Pública visa a eficiência, a eficácia e a efetividade de
seus planos, programas e ações, fundados em uma estrutura mais descentralizada,
flexível e transparente.31
O Portal da Transparência32 é um instrumento de controle social frente à
Administração Pública, que surgiu através da Lei de Responsabilidade Fiscal e funciona
como utensílio para a fiscalização dos atos do governo.
O controle social exercido pelo cidadão frente à Administração Pública é de extrema
importância no momento em que vive, enquanto sociedade. Existem diversas formas de
controle social em relação ao Poder Público. Apenas, é necessária a interação do cidadão
sobre tais meios para, assim, exercer seu direito de cidadania.
Outrossim, o controle social frente às organizações do Terceiro Setor é algo novo,
não pensado pelo legislador e pouco debatido pela doutrina pátria. O controle de atos, na
relação da Administração Pública com as entidades do Terceiro Setor é feito, como já
referido, basicamente, pelas três formas mais conhecidas: controle externo, interno e judicial.
31 SILVA. Jorge Bernardo Oliveira da. TRANSPARÊNCIA E PARTICIPAÇÃO POPULAR: DOIS
LADOS DA MESMA MOEDA. Disponível em:
https://revistadostribunais.com.br/maf/app/resultList/document?src=docnav&ao=&fromrend=&srguid=i0ad8
2d9b00000166ad6b262190790dfa&epos=2&spos=2&page=0&td=26&savedSearch=&searchFrom=&contex
t=278&crumb-action=append&crumb-label=Documento. Acesso em:25/10/2018
32 PORTAL DA TRANSPARÊNCIA: Lançado pelo Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da
União em 2004, o Portal da Transparência do Governo Federal é um site de acesso livre, no qual o cidadão
pode encontrar informações sobre como o dinheiro público é utilizado, além de se informar sobre assuntos
relacionados à gestão pública do Brasil. Desde a criação, a ferramenta ganhou novos recursos, aumentou a
oferta de dados ano após ano e consolidou-se como importante instrumento de controle social,
com reconhecimento dentro e fora do país. Disponível em: http://www.portaltransparencia.gov.br/sobre/o-que-
e-e-como-funciona Acesso em: 10/08/2020.
http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lcp%20101-2000?OpenDocument
http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lcp%20101-2000?OpenDocument
https://revistadostribunais.com.br/maf/app/resultList/document?src=docnav&ao=&fromrend=&srguid=i0ad82d9b00000166ad6b262190790dfa&epos=2&spos=2&page=0&td=26&savedSearch=&searchFrom=&context=278&crumb-action=append&crumb-label=Documento
https://revistadostribunais.com.br/maf/app/resultList/document?src=docnav&ao=&fromrend=&srguid=i0ad82d9b00000166ad6b262190790dfa&epos=2&spos=2&page=0&td=26&savedSearch=&searchFrom=&context=278&crumb-action=append&crumb-label=Documento
https://revistadostribunais.com.br/maf/app/resultList/document?src=docnav&ao=&fromrend=&srguid=i0ad82d9b00000166ad6b262190790dfa&epos=2&spos=2&page=0&td=26&savedSearch=&searchFrom=&context=278&crumb-action=append&crumb-label=Documento
http://www.portaltransparencia.gov.br/pagina-interna/603246-portal-premiado
http://www.portaltransparencia.gov.br/sobre/o-que-e-e-como-funciona
http://www.portaltransparencia.gov.br/sobre/o-que-e-e-como-funciona
144
O controle social em relação aos atos das entidades do Terceiro Setor deve ser
pensado da mesma maneira com que a população pode exercê-lo frente à Administração
Pública. Mecanismos de fiscalização dos atos devem ser refletidos pelos administradores das
entidades do Terceiro Setor.
O controle social das ações de forma transparente surge como diretriz do Programa
Nacional de Publicização; mas, não há previsão de qualquer instrumento que realize este
vetor.33
É notório que, para receberem recursos, as entidades devem apresentar um plano de
execução para a Administração Pública. Porém, este não é de total acesso à população
interessada. O que deve ser buscado seria uma forma para que o cidadão tivesse acesso mais
profundo aos planos de trabalho das entidades e poder fiscalizá-lo, de forma concreta.
Muito ainda deve ser refletido quanto ao exercício do controle social sobre as
entidades do Terceiro Setor para que os cidadãos tenham acesso às informações sobre a
destinação de recursos públicos. É um direito da população e este deve ser reivindicado.
CONCLUSÃO
O Terceiro Setor, no Brasil, ainda é algo novo a ser estudado e pensado pela
sociedade, em geral. Surgiu após a Reforma Gerencial, que aconteceu em 1998, que
implementou o Princípio da Eficiência, na Constituição Federal de 1988. Pela efetivação
deste princípio, tornou-se necessária a distribuição pelo Estado da prestação de certos
serviços públicos para particulares.
Somente após a promulgação da Constituição Federal de 1988 é que o país pode se
espelhar no continente europeu para a efetivação do modelo de administração gerencial. O
modelo, baseado no Princípio da Eficiência Administrativa, buscava aprimorar a qualidade
dos serviços prestados pelo Estado.
Este novo Setor, conduzido por particulares, pode realizar parcerias com o Poder
Público, atuando na prestação de serviços não exclusivos de Estado. As entidades
particulares que atuam ao lado do Estado, prestando serviços de interesse público, sem a
33 PRADO, Inês Maria Coimbra de Almeida; CASTRO, Tatiane Lobato de. O controle do terceiro
setor. Revista de Direito Sanitário, São Paulo,2007. Disponível em:
<http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510>. Acesso em: 10/08/2020.
doi:http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/79474/83510
http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9044.v8i2p11-33
145
intenção de visar lucro são rotulados como entidades paraestatais, integrantesdo Terceiro
Setor. Estas entidades devem obedecer a requisitos para sua criação, determinados por lei.
O conceito acerca do tema Terceiro Setor ainda é bem vago e tratado de forma
dessemelhante pelos doutrinadores. Por este motivo, cabem aos princípios constitucionais e
os que regem à Administração Pública cumprir o papel de guiar as relações entre o poder
público e as entidades que pertencem ao Terceiro Setor.
É importante destacar, também, a importância de cada controle de atuação sobre a
Administração Pública e o Terceiro setor. O controle interno é o exercido dentro do próprio
órgão do Poder Público, realizado por comissões que avaliam a execução dos contratos e
parcerias firmadas entre o Poder Público e as entidades particulares.
O controle externo é exercido pelo Poder Legislativo com o auxílio do Tribunal de
Contas. Eles analisam se a atuação do Poder Público e da entidade foi de acordo com a
legalidade e com os princípios que regem a relação. É importante destacar que esta forma de
controle não pode exercer um controle de mérito do ato, apenas um controle da legalidade
do ato.
O controle judicial é exercido pelo próprio Poder Judiciário que atua apenas quando
for provocado. Esse controle pode ser exercido previamente à realização do ato
administrativo ou posterior a ele. Também, não pode realizar um controle de mérito, pelo
fato derivar da discricionariedade do próprio poder público. O Poder Judiciário realiza um
controle de legalidade do ato realizado, analisando se os requisitos das leis foram
devidamente respeitados ou se houve equívocos.
Cumpre destacar que, com a efetivação da democracia participativa, a população terá
uma ferramenta de fiscalização dos atos e repasses da Administração para as entidades. Com
o acelerado desenvolvimento da sociedade, o Estado acaba não conseguindo atender as
demandas da população, da maneira com que devia atuar. Caberá ao Terceiro Setor, com
suas causas sociais e inclusivas proporcionar serviços que atendam às necessidades da
parcela da população que mais precisa.
146
REFERÊNCIAS
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fundamentais: um difícil diálogo no Brasil. Prisma Jurídico, São Paulo, v. 16, n. 2, p. 429-
455, 2017.
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______. Tribunal de Justiça do Distrito Federal.
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dos-freios-e-contrapesos-checks-and-balances-system-juiza-oriana-piske. Acesso em:
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148
PRECEDENTES NO DIREITO BRASILEIRO
Camila Paese Fedrigo1
Resumo: No Brasil, em virtude de um Poder Judiciário ativista e interventor, o precedente
é pensado, criado, estabelecido e utilizado como solução do litígio, sem haver a preocupação
em obter a prestação jurisdicional que deveria ser construída pelos sujeitos do processo,
conferindo estabilidade e segurança jurídica, em respeito óbvio ao Estado Democrático de
Direito. A decisão final, como produto do processo, poderá ser alçada ao status de precedente
se tiver afastado, acolhido ou fixado os motivos determinantes deduzidos pelas partes. No
sistema civil law os precedentes não possuem caráter vinculativo, mas apenas força
argumentativa e persuasiva. O problema, entretanto, reside na utilização indiscriminada dos
precedentes por meio de enunciados genéricos e descolados da realidade ou desvinculados
dos julgamentos que lhe embasaram, como se possuíssem caráter legal ou pudessem ser
exercidos de forma dedutiva.
Resumo: Precedente. Processo. Ativismo.
INTRODUÇÃO
No Brasil, como nos demais países de direito codificado, aqueles do chamado civil
law, o precedente não tem – e não poderia ter – caráter normativo. Afinal, nos falta,
exatamente, aquele caráter consuetudinário que faz o common law funcionar, ou seja, a
vinculação aos precedentes, feita de maneira tradicional, não legislada. Não é essa a fonte
primária em nosso direito. A fonte primária de nosso direito está nas leis. Por essa razão,
devemos olhar os precedentes com diferente função e finalidade.
Os precedentes, para nós, não são normativos, mas jurisprudenciais. Buscamos neles,
não a norma, mas uma unidade de sentido para aqueles preceitos normativos encontrados
em nossas leis.
1 AS RAZÕES DOS PRECEDENTES DA JURISPRUDÊNCIA
MacCormick defende uma teoria relativamente estrita ou formalista no sentido de
uma ratio fixa e determinada, pois as decisões judiciais sobre as disputas jurídicas devem
1 Pós-Graduada em Direito. Aluna Especial do Mestrado em Direito da Universidade do Rio Grande. Advogada
OAB/RS 98.329. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0536577742508465 ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8872-
8431 Contato: contato@paesefedrigo.adv.br
149
estar assentadas em regras firmes e determinadas2. É certo que o juiz não deve formular
proposições conclusivas sobre tudo o que for apresentado pelas partes, contudo deve
necessariamente produzir proposições capazes de justificar a procedência ou improcedência
das pretensões deduzidas pelas partes, salvo se a decisão sobre uma pretensão exclua
logicamente outras pretensões.
O que isso significa é que a decisão judicial deve enfrentar as pretensões aduzidas
pelas partes, nisso compreendidas as questões de interpretação das disposições jurídicas, de
classificação ou de avaliação dos fatos. Uma decisão desse tipo é tal que poderá ser colocada
em termos de universalizáveis para outros casos semelhantes, mas permanecerá sempre
aberta para justificação posterior quanto as suas consequências, consistência e coerência3.
Assim, uma ratio é uma justificação formal dada pelo juiz, suficiente para decidir as
questões jurídicas suscitadas pelas partes e necessária para a justificação da decisão judicial
mesma. Em outras palavras, a ratio decidendi corresponde à proposição normativa explícita
ou implicitamente dada pelo juiz para enfrentar os argumentos formulados pelas partes e
necessária para justificação da decisão judicial4.
O uso dos precedentes da jurisprudência na justificação das decisões judiciais
pressupõe que as razões das decisões judiciais são razões para a justificação de decisões
judiciais. É nessa condição de justificativas para decisões que as razões dos juízes e tribunais
desempenham um papel normativo.
O uso dos precedentes da jurisprudência para justificar uma decisão judicial
pressupõe a identificação e a aplicação da norma jurídica informadora das decisões judiciais
anteriores. Quando o juiz toma os precedentes da jurisprudência como razões para justificar
a sua decisão judicial, cuida-se da aplicação de uma norma jurídica – a norma jurídica do
caso já decidido, reiteradamente aplicada pelos outros juízes e tribunais. Essa é a ratio
decidendi que detém efeito vinculante ou argumentativo forte em relação às decisões
posteriores sobre casos semelhantes. Cuida-se de uma regra ou princípio decisivo para o caso
2 MacCORMICK, Neil. Rhetoric and the rule of Law. Oxford: Oxford University Press, 2005, p. 146.
3 MacCORMICK, Neil. Rhetoric and the rule of Law. Oxford: Oxford University Press, 2005, p. 152-153.
4 MacCORMICK, Neil. Legal Reasoning and Legal Theory. Oxford: Oxford University Press, 1978, p. 215;
MacCORMICK, Neil. Rhetoric and the rule of Law. Oxford: Oxford University Press, 2005, p. 153;
PECZENIK, Aleksander. On Law and Reason. London: Springer, 2008, p. 273.
Sobre a regra do precedente, ver Planned Parenthood of Southeastern Pennsylvania v. Casey, 505 U.S. 833
(1992), In ZOLLER, Elisabeth. Grands arrest de la Cour supreme des États-Unis. Paris: Presses Universitaires
de France, p. 1123-1156, 2000.
150
julgado5, de tal modo que a decisão judicial seria outra diferente se outra fosse a sua ratio
decidendi.
É essa regra ou princípio que faz do precedente o modelo a ser generalizado para
outros casos semelhantes em seus aspectos essenciais6. Com isso, pode ser colocada a
distinção entre a ratio decidendi e a obter dicta, assim entendidas as opiniões e comentários
dos juízes que vão além do necessário para a justificação da decisão judicial. Os argumentos
sobre princípios ou sobre avaliações de outros precedentes ou, ainda, sobre as consequências
da decisão judicial, integram a classe da obter dicta7.
Segundo Marshal, o conceito de obter dicta pode ser relacionado às proposições
usadas nas razões de uma decisão judicial: (i) não relevantes para definição do caso que está
sendo julgado ou para qualquer outro caso; (ii) relevantes para a definição do caso que está
sendo julgado, mas não necessariamente; (iii) relevantes para uma questão colateral ao caso
que está sendo julgado; (iv) relevantes para a definição de questões importantes colocadas
em outros casos. A importância da obter dicta depende da sua classificação em uma dessas
quatro situações8
2 REGRAS DE APLICAÇÃO NO SISTEMA COMMON LAW
O stare decisis, abreviação da expressão latina stare decisis et non quieta movere,
que significa “mantenha-se a decisão e não se moleste o que foi decidido”9, origina-se no
common law, mas com ele não se confunde. Tal doutrina visa fundamentar a obrigatoriedade
de as cortes e os juízes observem os precedentes oriundos das cortes superiores (dimensão
vertical), ou os precedentes oriundos da própria corte que irá tomar a decisão (dimensão
horizontal).
Dentro da dimensão vertical do stare decisis, existe o chamado efeito vinculante
(binding effect), o qual, como o próprio nome diz, estabelece que os tribunais e juízos
inferiores ao tribunal do qual se origina o precedente estão vinculados à decisão proferida
por este, não podendo negar-lhes aplicação, à primeira vista.
5 MacCORMICK, Neil. Rhetoric and the rule of Law. Oxford: Oxford University Press,2005, p. 145.
6 PECZENIK, Aleksander. On Law and Reason. London: Springer, 2008, p. 273
7 MARSHAL, Geoffrey. What is Binding in a Precedent. In: MacCORMICK, Neil; SUMMERS, Robert.
Interpreting Precedents. Aldeshot: Ashgate/Dartmouth, 1997, p. 515.
8 MARSHAL, Geoffrey. What is Binding in a Precedent. In: MacCORMICK, Neil; SUMMERS, Robert.
Interpreting Precedents. Aldeshot: Ashgate/Dartmouth, 1997, p. 515.
9 DIDIER JR, Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael. Curso de Direito Processual Civil. 4. ed.
Salvador: JusPodivm, 2009, p.385.
151
Para que se constitua como precedente, a decisão deve enfrentar todos os
argumentos relacionados à questão do direito do caso em concreto, além de necessitar de
inúmeras decisões para ser definitivamente delineado. O precedente é a primeira decisão que
elabora a tese jurídica.
Devemos observar que o fundamento do precedente está em produzir uma norma
jurídica com potencial de aplicar-se a casos futuros, visando assegurar maior previsibilidade
na realização do direito e tratamento isonômico aos cidadãos.
Nessa senda, na doutrina do stare decisis, ou doutrina dos precedentes obrigatórios,
se entende que os juízes e tribunais devem seguir obrigatoriamente os precedentes já
existentes, no entanto, o que ocorre é que eles devem seguir a ratio decidendi, ou seja a razão
de decidir dos precedentes.
Desta forma, ao contrário da construção típica do stare decisis, as súmulas como
aplicadas em terrae brasilis tratam-se de enunciados gerais e abstratos, criados apenas para
a aplicação de casos futuros, o que é um absurdo, como tentativa de antever e aprisionar
conceitos e fatos.
Infelizmente, no ordenamento pátrio, torna-se natural conferir força de ratio
decidendi a quaisquer razões versadas nos casos, mesmo que estas não sejam necessárias aos
resultados da causa. Assim, cada um dos movimentos passa a se constituir em um ratio
decidendi (holding), sendo, portanto, vinculador de decisões relativas a análogas questões
de direito.
Por outro lado, a definição de obter dictum se dá de um modo negativo, partindo-se
da determinação do que seja ratio decidendi de um caso, ou seja, se faz uma proposição ou
regra de direito constante em um caso não faz parte de sua ratio, ela é dictum ou obter dictum,
e, por conseguinte, não obrigatória. Assim são consideradas dictum as passagens que não
são necessárias ao resultado.10
Toda decisão judicial é munida de ratio decidendi, a qual não necessariamente é
única, podendo existir uma decisão que possua diversas rationes decidendi11. É a ratio
decidendi (ou as rationes decidendi) de determinada decisão que irá fundamentar a parte
dispositiva, integrando o comando normativo.
10 MARINONI, Luiz Guilherme. Precedentes Obrigatórios. 2.ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2011.
11 SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do precedente judicial à súmula vinculante. Curitiba: Juruá, 2011, p.137-
138.
152
De outra banda, caso o fundamento invocado na decisão não seja relevante para a
conclusão almejada, tendo sido aduzido “de passagem”, ele não faz parte da ratio decidendi,
não sendo, consequentemente, de observância obrigatória: é o caso do chamado obiter
dictum, ou, simplesmente, dictum.
No Brasil os precedentes judiciais têm sido aplicados pelos julgadores sem ser
levada em consideração a ratio decidendi. Ou seja, consulta-se o dispositivo do precedente
(geralmente a ementa do acórdão ou o enunciado de súmula, apenas) e simplesmente o
subsume ao caso a ser resolvido, sem investigar a fundo os fundamentos que levaram o
tribunal a decidir de tal forma, como se a ratio decidendi não interessasse, como se ela fosse
uma obiter dicta de observância não obrigatória, quando, em verdade, é a ratio que
possibilita a própria existência do precedente.
Assim, como é da ratio decidendi constante em um determinado precedente que é
extraída uma regra que se pretende universalizante, passível de ser aplicada a situações ditas
semelhantes àquela que envolveu o caso que foi decidido, é inadequado aplicar tão somente
a parte dispositiva, o enunciado da súmula, sem, antes, consultar a ratio decidendi.
É por isso que a ratio decidendi possui um conteúdo flexível, pois a validade de um
precedente tem “condicionada a sua adequação à situação política, econômica e social
presente”12. Nesta senda, o tribunal ou o juiz de primeiro grau pode e deve negar aplicação
ao precedente, se verificar que ele não se conforma ao fato a ser decidido, ou se ele não mais
reflete a realidade social.
Como dito, nos sistemas de precedentes vinculantes existem, obviamente, técnicas
de aplicação e superação destes que permitem a estabilidade e uniformidade do direito e seu
natural desenvolvimento. Como técnicas principais temos o distinguishing e o overruling.
A observância de um precedente em um litígio requer uma confrontação entre fatos
materiais relevantes de dois ou mais casos, analisando assim a ratio decidendi, verificando
qual a razão de decidir do caso em julgamento. Essa técnica de confronto e diferenciação
entre fatos relevantes de dois casos é denominada distinguishing, e revela a inadequação da
aplicação da ratio decidendi do precedente ao caso sub judice, em virtude da diversidade
fática entre estes. Dessa forma, acarreta na flexibilidade do sistema, não o engessando,
fazendo justiça no caso concreto.
De outra banda, o overruling é forma de superação, isto é, de revogação de
12 SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do precedente judicial à súmula vinculante. Curitiba: Juruá, 2011, p.90.
153
precedente, ocorrendo tanto em órgão que revoga seu próprio precedente, ou em tribunal
superior que revoga precedente de um inferior hierárquico. Como requisitos para a
revogação de precedente, temos a perda da congruência social e o surgimento da
inconsistência sistêmica.
Ao contrário do que ocorre no ordenamento pátrio, para a criação e para a revogação
de um precedente, há de haver uma justificação com séria argumentação, eis que pode levar
perda de estabilidade e segurança jurídica. A perda da congruência social ocorre quando um
precedente passa a negar proposições morais, políticas e de experiência. De outro lado, a
inconsistência sistêmica se dá quando deixa o precedente de guardar coerência com outras
decisões, ou seja, quando há uma nova concepção geral em termos de teoria a evidenciar que
aquilo que se pensava acerca de uma questão ou instituto jurídico se alterou. Aqui cabem as
importantes lições de Dworkin13 sobre coerência e integridade do sistema.14
Ainda existem as técnicas do overriding e da transformaton. A primeira, é uma
técnica utilizada quando se deseja limitar ou restringir a incidência de um determinado
precedente, aproximando-se de uma espécie de revogação parcial, muito embora não se trate
de uma revogação propriamente dita.
Embasados nessa técnica, o resultado da decisão tomada pela corte julgadora é
compatível com apenas uma parte do precedente, em virtude de mudanças no entendimento
jurisprudencial no decorrer dos tempos. Assim, apesar de o overriding tratar da mesma
situação que envolve o precedente, ele não o revoga, mas, apenas, adéqua a um novo
entendimento firmado, muito embora dessa adequação possa resultar, excepcionalmente, a
revogação implícita do precedente, em sua totalidade, ao que se chama implied overruling15.
A transformation consiste na técnica adotada pelos tribunais de transformar e
reconfigurar o precedente, sem que isso importe em sua revogação explícita. Por meio dela,
a corte nega a aplicação do precedente, mas sem anunciar, expressamente, a sua revogação,
como ocorre no overruling. Em outras palavras, a transformation resulta na revogação
substantiva do precedente, e não formal. A utilização dessa técnica