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a viDa eM ciDaDes 71 Observe o mapa a seguir. A Mesopotâmia situa-se no Oriente Médio, entre os rios Tigre e Eufrates, na região conhecida como Cres- cente Fértil. Seu nome já sugere tratar-se de uma re- gião fértil, embora localiza- da em meio a montanhas e desertos: Mesopotâmia vem do grego (meso = meio; pota- mos = água) e signifi ca ‘terra ou região entre rios’. Quanto à organização socioeconômica, existem grandes semelhanças entre a mesopotâmica e a egíp- cia, que estudaremos a seguir. No entanto, algumas diferenças de caráter físico-geográfi co podem ser des- tacadas. Situado entre dois desertos, o Egito vivia em relativo isolamento geográfi co, o que lhe possibilitou longos períodos de estabilidade política; a Mesopotâ- mia, por sua vez, é ainda hoje uma planície aberta a invasões por todos os lados. Além disso, o regime de cheias do Tigre e do Eufrates não é tão regular como o do Nilo, no Egito; por isso são frequentes inundações violentas e até períodos de seca na região banhada por eles. Os primeiros vestígios de sedentarismo humano na Mesopotâmia datam de aproximadamente 10000 a.C. Com o crescimento populacional e dos primeiros núcleos urbanos da região, desenvolveu-se um com- plexo sistema hidráulico, que tornou possível a dre- nagem de pântanos e a construção de diques e barra- gens, para evitar inundações e armazenar água para épocas de seca. O sucesso das atividades produtivas levou à for- mação de grandes cidades com mais de mil habitan- tes já por volta de 4000 a.C., como Uruk. Essas cidades tinham principalmente função militar, protegendo a riqueza gerada pela agricultura e, ao mesmo tempo, exercendo o controle político da população da região. das cidadEs aos rEinos E imPÉrios Nas páginas seguintes, apresentaremos aspectos de cada uma das civilizações que selecionamos para esse nosso estudo. Não se pretende esgotar o assun- to, mas apenas evidenciar alguns sinais da trajetória humana nesse período conhecido como Antiguida- de, em que as cidades surgiram e se desenvolveram, das mais diferentes formas, em diferentes lugares do mundo. Com elas, fi rmavam-se espaços em que novas atividades ganhavam vida. Nas cidades estavam as construções públicas (ruas, pontes, templos, praças), o comércio (mercados e portos) e a sede do governo (palácios). Para proteção, geralmente eram cercadas por muralhas, demarcando seus limites com o campo da agricultura e do pastoreio. a civilização mesopotâmica Adaptado de: ALBUQUERQUE, M. M. de; REIS, A. C. F.; CARVALHO, C. D. de. Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: Fename, 1979. p. 73. Mar Mediterrâneo DESERTO DA ARÁBIA Mar Vermelho 30º N 30º L MONTES ZAGROS 225 km 0 450 crescente fértil A llm ap s/ A rq u iv o d a ed it o ra A Mesopotâmia situa-se no Oriente Médio, entre os rios Tigre e Eufrates, na região do grego ( mos G ia nn i D agli Orti/Corbis/Latinstock p rei acadiano, escultura em bronze de 2250 a.c. HGB_v1_PNLD2015_058a115_U2_C3.indd 71 3/8/13 9:40 AM 72 civilizações antigas Jörg Kan tel/Coleç ão partic ular Adaptado de: BARBERIS, Carlo. Storia Antica e Medievale. Milano: Casa Editrice G. Principato S.p.A., 1997. p. 37. v. 1. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 a 15 templos santuário Parque rio eufrates grande recinto (talvez do palácio real) canais Portos 15 10 11 12 13 14 7 3 95 4 6 8 1 2 Evolução política No fi m do Período Neolítico, diversas cidades já haviam sido criadas na Mesopotâmia, todas elas autônomas e habitadas por sumérios, povo oriun- do do vizinho planalto do Irã. Ur, Nipur e Lagash, além da já citada Uruk, foram os principais centros urbanos. As cidades eram governadas por patesis, misto de chefes militares e sacerdotes, que exer- ciam o controle sobre a população, cobran- do impostos e administrando as obras hi- dráulicas. Planta da cidade sumeriana de nipur, feita em tábua de argila (c. 1600 a.c.). abaixo, reprodução da planta com identifi cação dos principais pontos. P A escrita mesopotâmica inicial empregava pictogramas, associando uma forma ou imagem a cada palavra ou ideia, semelhante ao que ocorria no sistema egípcio de hieróglifos. Essa escrita, chamada de “Uruk IV”, descoberta ao sul da Me- sopotâmia, data de 3000 a.C. As inscrições encontradas eram principalmente listas de cabeças de gado ou de equipamentos agrícolas. Por volta de 2500 a.C., o sistema de escrita aproximou-se de uma representação das palavras que usava símbolos em for- mato de cunha gravados na argila feitos com a ponta de um ca- niço cortado ou estilete. Esse sistema era capaz de representar não apenas uma palavra isolada, mas também valores fonéticos – ou seja, as formas podiam representar sons. Com o tempo, os símbolos cuneiformes foram simplifi cados e convencionados, o que facilitou sua representação em diferentes línguas.1 priMEiros pictograMas Escrita cunEiforME 1 RATHBONE, Dominic. História ilustrada do mundo antigo. São Paulo: Publifolha, 2011. p. 96. HGB_v1_PNLD2015_058a115_U2_C3.indd 72 3/8/13 9:40 AM a viDa eM ciDaDes 73 Os sumérios chegaram a estabelecer relações comerciais com povos vizinhos, tanto na direção oeste, indo para o mar Mediterrâneo, como na di- reção leste, rumo à Índia. Desenvolveram a escrita cuneiforme, para registrar suas complexas transa- ções econômicas. Por volta de 2400 a.C., o povo acádio, que já vinha se introduzindo na região havia algum tempo, dominou a Mesopotâmia. O rei acádio Sargão I unifi - cou as regiões centro e sul, submetendo os sumérios, ao mesmo tempo que incorporava sua cultura. Po- rém, contínuas invasões estrangeiras inviabilizaram a permanência do Império Acádio, que acabou desa- parecendo por volta de 2100 a.C. A partir do século XIX a.C., com os invasores amoritas, fi rmou-se uma nova tentativa de unidade da região, originando o Primeiro Império Babilônico. Com o rei Hamurabi (1792 a.C.-1750 a.C.), a cidade da Babilônia, a capital, transformou-se em um dos prin- cipais centros urbanos e políticos da Antiguidade. O império abrangia uma região que se estendia do golfo Pérsico à Assíria. Com Hamurabi foi organizado um código de leis escritas tido como um dos mais antigos de que se tem notícia. O Código de Hamurabi determinava penas para delitos domésticos, comerciais, ligados à propriedade, à herança, à escravidão e a falsas acusa- ções, sempre baseadas na lei de talião, que pregava o princípio do “olho por olho, dente por dente”. A pena seria, na medida do possível, semelhante ao delito cometido, embora pudesse variar conforme a posição social e econômica da vítima e do infrator. Para um ladrão, por exemplo, a pena era ter uma das mãos cortada. artigos do código dE HaMurabi E ri ch L es si n g /L at in st o ck /M u se u d o L o u vr e, P ar is , F ra n ça . art. 200. se um homem arrancou um dente de um outro ho- mem livre igual a ele, arrancarão o seu dente. art. 201. se ele arrancou o dente de um homem vulgar, pagará um terço de uma mina de prata. art. 202. se um homem agrediu a face de um outro homem que lhe é superior, será golpeado sessenta vezes diante da assembleia com um chicote de couro de boi. art. 229. se um pedreiro edifi cou uma casa para um homem, mas não a fortifi cou e a casa caiu e matou o seu dono, esse pedreiro será morto. art. 230. se causou a morte do fi lho do dono da casa, matarão o fi lho desse pedreiro. art. 231. se causou a morte do escravo do dono da casa, ele dará ao dono da casa um escravo equivalente. art. 232. se causou a perda de bens móveis, compensará tudo que fez perder. além disso, porque não fortifi cou a casa que cons- truiu e ela caiu, deverá reconstruir a casa que caiu com seus pró- prios recursos. Código de Hamurabi. Bauru: edipro, 1994. p. 36 e 38. (clássicos). mina: medida de peso equiva- lente a cerca de 500 gramas. o código de hamurabi, em escrita cuneiforme, foi impresso em um bloco de rocha. em sua parte superior, há uma representaçãode hamurabi em frente ao deus sumeriano do sol. o rei mandou fazer cópias do código e espalhar por várias regiões de seu império. a descoberta do código, em 1901-1902, abriu seguidos achados na região, atraindo a atenção de mui- tos pesquisadores. atualmente, faz parte do acervo do Museu do louvre, em Paris, na França. P HGB_v1_PNLD2015_058a115_U2_C3.indd 73 3/8/13 9:40 AM 74 civilizações antigas Karkemish Mari Ugarit NíniveEbla Imar Biblos Nippur Adab Larak Der Acádia Sippar Harmal KishBabilônia Ur Uruk Umma Susa Lagash Tuttul Anat Ekallate Assur Tirqa Shusharra M ar M ed ite rr ân eo assírios sumérios acádios M onte Zagros Golfo Pérsico Mar Cáspio R io Tigre DESERTO Rio Eufrates 30º N 0 130 km 260 Principais cidades-Estado entre 2900 a.C. e 2390 a.C. Unificação dos sumérios por volta de 2380 a.C. Império dos acádios e cidades principais (entre 2375 a.C. e 2200 a.C.) Império Sumério de Ur (aproximadamente entre 2112 a.C. e 2004 a.C.) Império Babilônico de Hamurabi (1792 a.C. a 1750 a.C.) acádios Povos 02_03_M024_1HGB Larsa 40º L Ao declínio do Primeiro Império seguiram-se invasões de diversos povos, chegando alguns a exer- cer eventualmente o controle da região. Observe no mapa a seguir a localização de alguns desses povos do Oriente Próximo. Os assírios tornaram-se conhe- cidos por seu forte caráter militar e pela violência ao tratarem os prisioneiros de guerra. Já os caldeus, fundadores do Segundo Império Babilônico, fi caram famosos pelas seguidas conquistas e pelo governo de Nabucodonosor (604 a.C.-561 a.C.), com suas obras urbanas na Babilônia. Esse poderio não foi capaz de conter as tropas dos conquistadores persas coman- dadas por Ciro I. No século VI a.C., a Babilônia foi in- tegrada ao Império Persa. A llm ap s/ A rq u iv o d a ed it o rapovos da Mesopotâmia do iV ao ii milênio a.c. Adaptado de: ATLANTE storico De Agostini. Novara: Istituto Geografico De Agostini, 2005. p. 4. Economia, sociedade e cultura na mesopotâmia Assim como no Egito, na Mesopotâmia a agri- cultura foi a principal atividade econômica pratica- da pela população. À frente das primeiras cidades, emergiram lideranças com a responsabilidade de cuidar dos canais de irrigação, da justiça e da buro- cracia. Não havia separação entre a vida prática, do dia a dia, e a vida religiosa. Todos prestavam serviços aos deuses e à administração locais, fazendo crescer o poder das duas principais instituições mesopotâ- micas: o templo e o palácio. Cabia a elas a maior parte das terras, além de cuidar da tributação e re- distribuição dos excedentes agrícolas. Dessa forma, a estrutura social baseava-se na existência de uma elite que controlava a parcela da população submetida ao trabalho compulsório, caracterizando o domínio de todos os grupos sociais por meio de uma administra- ção centralizada, de um governo despótico e teocrá- tico, ou seja, associava-se a autoridade do governante à religiosidade. Quanto aos escravos, seu número tendia a ser bastante elevado em certos períodos, principalmente durante o Império Assírio, e o comércio e o artesanato tiveram signifi cativo desenvolvimento, pelos contatos com povos diversos. A religião mesopotâmica servia de elemento de ligação entre a população e os governantes. Os sacer- dotes (templo) tinham importante função política e o governante (palácio) era considerado um represen- tante dos deuses – diferentemente do que ocorria no Egito, como veremos mais adiante, onde era visto como uma divindade viva. HGB_v1_PNLD2015_058a115_U2_C3.indd 74 3/8/13 9:40 AM a viDa eM ciDaDes 75 Essam Al-Sudani/Agência France-Presse Os povos da antiga Mesopotâmia eram poli- teístas, ou seja, adoravam vários deuses, que repre- sentavam elementos da natureza. Acreditavam que esses deuses – que habitariam os zigurates, tem- plos em forma de pirâmides – podiam interferir em sua vida, causando o bem e o mal. Ishtar, deusa da chuva, da primavera e da fertilidade, ganhou muita importância na Mesopotâmia (ver foto do Portal de Ishtar na página 63). Havia também deuses próprios de cada cidade. Os povos mesopotâmicos destacaram-se na ciên- cia, arquitetura e literatura. Observando o céu, os sa- cerdotes desenvolveram os princípios da Astronomia e da Astrologia. Os zigurates, além de morada dos deuses e de abrigar celeiros e ofi cinas, eram também verdadei- ras torres de observação dos céus. Possibilitaram cál- culos do movimento de planetas e estrelas e a poste- rior elaboração de sofi sticados calendários. Foram os mesopotâmios que elaboraram o calendário dividindo o ano em doze meses e a semana em sete dias, cada um dos quais dividido em dois períodos de doze horas. Os mesopotâmios desenvolveram ainda cálcu- los algébricos, dividiram o círculo em 360 graus e cal- cularam as raízes quadrada e cúbica. Sua arquitetura introduziu o uso de arcos e a decoração em baixo-re- levo. Na literatura, criaram poemas e narrativas épi- cas, como A epopeia de Gilgamesh. Esse texto, con- siderado por alguns estudiosos a narrativa escrita mais antiga de que se tem notícia (c. 2000 a.C.), con- ta as aventuras do lendário rei sumério Gilgamesh, de Uruk, na Mesopotâmia, que teria sido o quinto rei da primeira dinastia após o dilúvio de Uruk. Um dos episódios traz a referência ao dilúvio, narrativa recorrente em muitas culturas, estando presente nas narrativas mais antigas do Velho Testamento, que faz parte do livro sagrado dos judeus e dos cristãos. π o zigurate de ur, localizado em nasiriya, atual iraque (foto de 2010). construído em homenagem ao deus da lua, nanna, entre 2113 e 2096 a.c., o zigurate de ur é o mais bem conservado da Mesopotâmia. HGB_v1_PNLD2015_058a115_U2_C3.indd 75 3/8/13 9:40 AM