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Ester Paiva P8M1 2024/1 Cho��� Definição ● É a expressão clínica da hipoperfusão tecidual. É causado pela incapacidade do sistema circulatório de suprir as demandas celulares de oxigênio, por oferta inadequada (DO2) e/ou por demanda tecidual aumentada (VO2) de oxigênio. ● É uma síndrome clínica e o seu diagnóstico pode ser feito a partir de critérios clínicos, hemodinâmicos e laboratoriais. ● Choque é uma emergência, e é imprescindível que o médico diagnostique e inicie o plano terapêutico imediatamente à apresentação do paciente, enquanto identifica a etiologia e define a terapia definitiva para revertê-lo, com o objetivo de prevenir a síndrome de disfunção de múltiplos órgãos e sistemas (SDMOS) e a morte. Mecanismos ● Distributivo (menor resistência vascular sistêmica): vasodilatação periférica; anafilático, séptico, neurogênico, cianeto/monóxido, endócrino ● Cardiogênico (menor DC): Falência mecânica da bomba (ICC), Arritmia, Cardiomiopatia ● Hipovolêmico (menor pré-carga): Trauma, hemorragia varicosa, úlcera péptica (hemorrágicos); Hiponatremia, desidratação (não hemorrágicos) ● Obstrutivo (causas extracardíacas que levam à IC): vascular, pulmonar, mecânica Fisiopatologia ● 1. Difusão do oxigênio dos pulmões ao sangue: O2 alveolar se difunde no sangue (qt depende da FiO2, membrana alvéolo-capilar, a concentração de hemoglobina no sangue e sua afinidade pelo O2) ● 2. Ligação do oxigênio à hemoglobina: 98%; O2 se liga ao Fe2+ do grupo heme na Hb (cada Hb carrega 4 moléculas de O2) ● 3. Transporte de oxigênio pelo débito cardíaco para periferia: depende da quantidade presente no sangue e do débito cardíaco ● 4. Difusão de oxigênio para a mitocôndria: fatores autonômicos neurais e metabólicos regulam os esfíncteres arteriolares de tal forma a aumentar a densidade capilar. Mecanismos compensatórios: ● Maior reabsorção de água e sódio pelos rins ● Maior inotropismo (aumento da FC) ● Maior extração tecidual de O2 ● Redistribuição de volemia para SNC e coração ● Vasoconstrição Tais mecanismos geram inflamação, lesão celular e microvascular, além de diminuir a perfusão tecidual, podendo causar uma lesão irreversível que culmina em disfunção orgânica. A SDMOS trata-se de 2 ou + disfunções orgânicas e quanto maior o tempo, pior o prognóstico. Critérios Clínicos Avaliar perfusão tecidual: ● Pressão arterial (hipotensão PAS < 90mmHg; PAm <70mmHg) ● Débito urinário (oligúria < 0,5 mL/kg/h) ● Nível de consciência (estado mental alterado, que inclui torpor, desorientação e confusão) ● Tempo de enchimento capilar (>2s) ● Perfusão da pele/presença de livedo (pele manchada, fria e úmida, cianose, palidez) ● Frequência cardíaca (taquicardia) ● Lactato sérico (hiperlactatemia >2mEq/L) ● pH arterial Ester Paiva P8M1 2024/1 Análise das disfunções orgânicas: ● Respiratório: dispneia, uso de musculatura respiratória acessória ● Hepática: encefalopatia, aumento de bilirrubinas ● Hematológica: sangramentos, petéquias, alargamento de RNI ● Cardiovascular: hipotensão, taquicardia, hiperlactatemia. Critérios laboratoriais ● Hiperlactatemia (> 2 mmol/L ou >18 mg/dL) Critérios diagnósticos ● Exame clínico com parâmetros hemodinâmicos e laboratoriais 4 ou + critérios define choque: ● Aparência ruim ● Alteração do estado mental ● Hipotensão > 30 minutos ● FC > 100 bpm ● FR > 20 irpm ● Lactato > 4 mmol/L ou > 32 mg/dL ● Excesso de bases < –4 mEq/L A ultrassonografia point-of-care ● Avaliação de derrame pericárdico ● Medição do tamanho e da função dos ventrículos esquerdo e direito ● Avaliação da variação respiratória da veia cava inferior ● Cálculo da integral da velocidade aórtica pela via de saída do ventrículo esquerdo ● Exame abdominal e torácico com avaliação da aorta e de pneumotórax Ester Paiva P8M1 2024/1 Choque Hipovolêmico Ocorre redução do volume intravascular (pré-carga reduzida), o que reduz o DC ● Hemorrágico: existem várias causas de choque hemorrágico, sendo o mais comum o trauma, seguido por hemorragia varicosa e úlcera péptica. Causas menos comuns incluem hemorragia perioperatória, aneurisma aórtico abdominal roto e iatrogênico. ● Não hemorrágico: volume intravascular reduzido por perda de fluidos que não sejam sangue. A depleção de volume pela perda de sódio e água (perdas gastrointestinais - diarreia, perdas de pele - necrólise epidérmica tóxica, perdas renais - diurese osmótica) Choque Cardiogênico É causado por patologias cardíacas que levem à falência da bomba e à redução do débito cardíaco (DC). ● Cardiomiopatia: IAM, IC exacerbada, pós PCR, cardiomiopatia em estágio final, doença cardíaca valvular avançada, miocardite ou arritmias cardíacas ● Arrítmica: tanto as taquiarritmias atriais e ventriculares quanto as bradiarritmias podem induzir hipotensão. ● Mecânica: insuficiência valvar aórtica ou mitral grave, defeitos valvares agudos, como a ruptura de um músculo papilar ou de cordoalhas tendíneas, dissecção retrógrada da aorta ascendente, ruptura aguda do septo interventricular, mixomas atriais e ruptura do aneurisma da parede livre ventricular. Ester Paiva P8M1 2024/1 Choque Distributivo É caracterizado por vasodilatação periférica grave com queda da resistência vascular sistêmica. ● Choque séptico: tipo mais comum de choque distributivo; ● Choque neurogênico: ocorre geralmente em vítimas de traumatismo cranioencefálico grave e lesão da medula espinhal ● Choque anafilático: a anafilaxia está associada a mecanismos imunológicos (IgE mediado – alimento, inseto, látex – ou não IgE mediado – omalizumab, infliximab) e não imunológicos (exercício, frio, radiocontraste) ● Choque por cianeto e por monóxido de carbono: choque por disfunção mitocondrial. ● Choque por etiologias endocrinológicas: crise addisoniana (insuficiência adrenal devido à deficiência mineralocorticoide) e coma mixedematoso Ester Paiva P8M1 2024/1 Choque Obstrutivo É causado principalmente por causas extracardíacas que culminam em insuficiência cardíaca. ● Vascular pulmonar: a maioria dos casos de choque obstrutivo é devido a insuficiência ventricular direita decorrente de TEP ou hipertensão pulmonar grave (HP) ● Mecânica: apresentação clínica similar ao choque hipovolêmico, pois o distúrbio fisiológico primário é uma diminuição da pré-carga, em vez da falha da bomba; Causas mecânicas de obstrução de choque incluem: pneumotórax hipertensivo, pericardite constritiva e cardiomiopatia restritiva. Ester Paiva P8M1 2024/1 Manejo ● Suportes hemodinâmico e ventilatório precoce e adequado ● Deve ser iniciado enquanto se investiga a etiologia ● Sala de emergência ● Inserir cateter arterial para monitorar a pressão arterial invasiva ● Acessos venosos periféricos calibrosos ● Acesso venoso central para administração de drogas vasoconstritoras (exceto dobutamina, nitroglicerina e nitroprussiato de sódio) Otimização da Pré-carga ● Cristaloides: solução salina clássica (<2L) e as soluções balanceadas (Ringer lactato, PlasmaLyte >3L). ● Colóides: ocorre menor extravasamento extravascular ● Albumina: não há superioridade da expansão volêmica com albumina em relação aos cristaloides, vale ressaltar que a albumina deve ser evitada no contexto de trauma cranioencefálico (TCE); Pacientes cirróticos, que possuem hipoalbuminemia, redução do volume intravascular e sobrecarga volêmica total Ester Paiva P8M1 2024/1 ● Hemocomponentes: os principais utilizados no tratamento do choque são concentrado de hemácias, concentrado de plaquetas, aférese de plaquetas (corresponde a seis concentrados de plaquetas de um único doador), plasma fresco congelado (contém todos os fatores de coagulação e todas as proteínas do plasma) e crioprecipitado (contém os fatores VIII, XIII, fibrinogênio e vWF) Se choque hemorrágico: administração de 1 L de cristaloide inicialmente, seguida de hemocomponentes, caso o paciente mantenha-se hipotenso. Choques hemorrágicos graus III e IV já são indicações de ressuscitação com hemocomponentes. Otimização da Pós-carga Iniciar as drogas vasoativas mais precocemente, enquanto a ressuscitaçãovolêmica está em andamento. ● Providenciar uma pressão arterial invasiva para monitorização da pressão arterial média ● Providenciar um cateter venoso central para administração de drogas vasoconstritoras Outra maneira de otimizar a pós-carga é reduzi-la no contexto de choque cardiogênico; mas, para utilizarmos os vasodilatores endovenosos nesse contexto, precisamos de uma pressão arterial minimamente segura, em geral uma PAS acima de 90 mmHg. Ester Paiva P8M1 2024/1 Otimização do Débito Cardíaco Dobutamina é o agente inotrópico mais utilizado para o aumento do débito cardíaco, apresentando efeitos em receptores beta-1 e beta-2-adrenérgicos. ● Dose inicial de apenas 2 mg por kg por minuto Otimização da Oxigenação A administração de O2 suplementar deve ser iniciada precocemente; a ventilação mecânica invasiva tem as vantagens adicionais de redução da demanda de O2 dos músculos respiratórios e diminuição da pós-carga ventricular esquerda. Suporte transfusional ● Manter um alvo de hemoglobina (Hb) acima de 7 g/dL ● Para cardiopatas o alvo passa a ser Hb acima de 8 a 8,5 g/dL Redução do VO2 ● Evitar hipertermia (antitérmicos, se necessário). ● Controlar a dor (analgésicos, se necessário). ● Reduzir a ansiedade (ansiolíticos, se necessário). ● Reduzir o trabalho respiratório (ventilação mecânica, quando indicada, e esta deve ser bem ajustada, evitando assincronias).