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Orientação Educacional na Prática Joelma Marçal JO ELM A M ARÇAL O RIENTAÇÃO EDUCACIO NAL NA PRÁTICA Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-65-5821-097-9 9 786558 210979 Código Logístico I000346 Orientação Educacional na prática Joelma Marçal IESDE BRASIL 2021 © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Almix/Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ M262o Marçal, Joelma Orientação educacional na prática / Joelma Marçal. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2021. 86 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-097-9 1. Escolas - Organização e administração. 2. Orientação educacional. I. Título. 21-74415 CDD: 371.2 CDU: 37.091.2 Joelma Marçal Mestre em Educação, História e Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pedagoga pela UFSC. Pesquisadora/Consultora do MEC. Coordenadora pedagógica da Educação Básica em escolas públicas e privadas. Docente do Ensino Superior na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e em outras faculdades, ministrando as disciplinas de Princípios da Orientação Educacional, Princípios da Supervisão Educacional, Didática Geral I e II, Metodologia da Pesquisa, Liderança e Trabalho em Equipe e Empreendedorismo. Coordenadora de curso de pós-graduação de Gestão de Projetos na rede privada. SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 1 Uma conversa sobre Orientação Educacional 9 1.1 Trajetória da Orientação Educacional no Brasil 10 1.2 Abordagens da Orientação Educacional 13 1.3 Princípios, técnicas e instrumentos da Orientação Educacional 16 2 O papel do orientador educacional 22 2.1 Orientação Educacional e intervenção psicopedagógica 22 2.2 Orientação Educacional em uma perspectiva pedagógica 25 2.3 Orientação Educacional no cotidiano da escola 28 3 Entraves e desafios da Orientação Educacional 36 3.1 O problema da burocracia 37 3.2 Crise identitária da profissão 40 3.3 Desatando os nós 44 4 Possibilidades da profissão 49 4.1 O espaço de trabalho do orientador educacional 49 4.2 Fatores que influenciam o fracasso escolar 54 4.3 Desenvolvimento de habilidades socioemocionais 61 5 A práxis do orientador educacional 66 5.1 O orientador educacional como gestor 67 5.2 Orientação profissional e vocacional 72 5.3 Acompanhamento de alunos com necessidades especiais 76 Resolução das atividades 83 A presente obra tem por objetivo oportunizar o debate acerca das questões que norteiam o trabalho do orientador educacional. A ideia é apresentar todos os elementos fundantes da prática de Orientação Educacional, para enriquecer as discussões sobre o trabalho dessa área da educação e a sua importância para o desenvolvimento de um processo educativo de qualidade nas escolas. Desse modo, no primeiro capítulo, apresentamos o histórico da Orientação Educacional no Brasil e a importância de se criar uma identidade para essa profissão. Essa é uma missão muito complexa, haja vista as diferentes abordagens que a Orientação Educacional reúne em seu processo histórico, diante de todas as transformações ocorridas, sempre atreladas ao contexto social e político vigente. Discutimos, ainda, sobre os princípios e as técnicas da Orientação Educacional, no sentido de trazer para a análise os elementos constituintes de uma prática orientadora fundamentada e congruente com os objetivos da escola na qual está inserida. Questões capazes de exemplificar a participação do orientador educacional como a figura central dos processos educativos foram trazidas também para o debate. No segundo capítulo, discutimos sobre o papel da Orientação Educacional na escola e a importância de ter elucidado o conceito das atribuições do orientador, com o intuito de contribuir com o trabalho pedagógico da instituição. Para isso, é crucial saber a diferença entre o trabalho de Orientação Educacional e a função do psicopedagogo. O objetivo é deixar claro que ambos os profissionais têm seu espaço na escola, porém são lugares definidos e distintos. Além disso, apresentamos as contribuições pedagógicas da Orientação Educacional, a efetividade da atuação dessa área do conhecimento e as suas contribuições para o contexto educacional. Abordamos, ainda, o trabalho do orientador educacional no contexto escolar, a sua influência no currículo, na APRESENTAÇÃOVídeo 8 Orientação educacional na prática didática e na metodologia da escola, bem como algumas alternativas de sua participação na busca por uma educação de qualidade. Apresentamos, no terceiro capítulo, o prejuízo causado pela burocratização do trabalho pedagógico, que faz com que as atribuições do orientador educacional se percam ou fiquem confusas diante do cotidiano escolar marcado por desencontros e processos educativos rasos. A crise de identidade da profissão é uma questão que ameaça a presença do orientador educacional na escola, o que dificulta o exercício da Orientação Educacional nesse espaço e impossibilita o avanço do processo educativo individual e coletivo dos sujeitos envolvidos. O quarto capítulo traz as possibilidades da profissão do orientador educacional, o seu espaço de trabalho, a realidade da sua função na escola e as variáveis que cercam a prática da Orientação Educacional. O trabalho do orientador, diante das situações de fracasso escolar, bullying e dificuldades de aprendizagem, também é discutido nesse capítulo. Ancorando-se na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), tem-se em evidência o objetivo da educação, que é o de realizar um trabalho pedagógico que desenvolva o aluno para além dos conteúdos, alinhando o conhecimento acadêmico com o desenvolvimento de habilidades que retratam o perfil desse sujeito. Para encerrar a obra, ressaltamos, no último capítulo, a práxis do orientador educacional, o seu espaço de trabalho, o seu papel de gestor e o desenvolvimento da sua prática gestora. O trabalho de orientação profissional do orientador também é destacado, assim como seu trabalho com os alunos que apresentam necessidades educativas especiais, promovendo espaços de estudo sobre as estratégias pedagógicas a serem desenvolvidas com essas crianças e garantindo o suporte necessário para que os professores possam efetuar um trabalho educativo de qualidade. Esperamos que tenham boas reflexões pedagógicas! Uma conversa sobre Orientação Educacional 9 1 Uma conversa sobre Orientação Educacional Neste capítulo, discutiremos sobre o papel da Orientação Educacional e a sua relevância para a construção de uma escola em sintonia com o seu contexto social e político. No primeiro momento, apresentaremos o contexto histórico da Orientação Educacional no Brasil, partindo de seu surgimento e seguindo até os dias atuais. É essencial entendermos historicamente a sua cons- trução,a fim de contextualizar as suas transformações ao longo de sua existência. O segundo ponto que levantaremos trata das diferentes abordagens que a Orientação Educacional comporta, bem como os seus enfoques distintos e o que há por trás de cada mudança significativa sofrida durante o processo de implementação, fortalecimento e aprimoramento dessa especialidade no cenário educacional vigente. Por último, chegaremos aos seus princípios, às suas técnicas e aos seus instrumentos, no sentido de debater os elementos contribuintes para uma prática de Orientação Educacional fundamentada, contextua- lizada e congruente com os objetivos da comunidade escolar na qual ela está inserida e é desenvolvida. Nessa parte do capítulo levantaremos algumas questões capazes de exemplificar a participação do orientador educacional como a figura central dos processos educativos que estão diretamente ligados ao aluno, à família e à comunidade. Desejamos que a leitura seja proveitosa, estimulante e cheia de contribuições significativas e reflexões profundas. É muito importante considerar o contexto histórico, político e social da Orientação Educacional e todas as influências que a cercam, pois somente assim essa área do co- nhecimento é elucidada. 10 Orientação Educacional na prática 1.1 Trajetória da Orientação Educacional no Brasil Vídeo Pensar os novos rumos da Orientação Educacional no Brasil nos traz a necessidade de voltar o olhar para o seu processo histórico, na tentativa de entender o contexto de seu surgimento, das experiências obtidas ao longo do tempo e dos direcionamentos atuais marcados pelo cenário educacional vigente. No Brasil, a Orientação Educacional surge, na década de 1940, como uma espécie de “organizadora” da vida profissional dos adolescentes e jovens integrantes e/ou recém-egressos daquilo que conhecemos, atualmente, como Ensino Médio. Ainda sem formação superior prevista por lei, a sua prática era exercida por técnicos sem preparação específica para essa especialidade – geralmente, pedagogos generalistas. Anos mais tarde, na década de 1960, a profissão de orientador edu- cacional foi legalmente regulamentada no país. Então, temos a primeira grande mudança na área: o objetivo da Orientação Educacional começa a ser direcionado não apenas para o atendimento ao adolescente (Anos Finais e Ensino Médio), mas também ao aluno das séries iniciais. Com o intuito de auxiliar no processo de escolha profissional dos alunos, a Orientação Educacional passa a ser entendida como a espe- cialidade educacional cuja abordagem se refere ao suporte profissionali- zante aos alunos e à sua identidade. Nesse período, ela vai se moldando com as características do que deveria ser apenas uma das ações den- tro da prática do orientador educacional, a de auxiliar no processo de construção e aprimoramento das escolhas profissionais dos alunos. Assim, a Orientação Educacional começa a ser encarada como um acon- selhamento vocacional. Diante dessa definição do seu papel, imposta pela sociedade da época, surgiram conflitos e debates quanto à identidade da área e, con- sequentemente, quanto ao esclarecimento das funções do orientador educacional. Pautados nas reflexões advindas das práticas de aconselha- mento vocacional, alguns autores construíram referenciais teóricos que embasaram os debates que se seguiram. Era inegável que os rumos da Orientação fossem repensados, considerando a necessidade de tornar Conhecer a trajetória da Orientação Educacional no Brasil. Objetivo de aprendizagem Uma conversa sobre Orientação Educacional 11 essa atividade uma espécie de mola propulsora para atingir o nível de uma sociedade mais justa e igualitária. Nesse período, a figura do orientador educacional passou a ser identificada como um bálsamo para os problemas enfrentados pelo aluno, não apenas na escola, como também na família. O assistente social e o psicólogo tinham suas funções fácil e convenientemente con- fundidas com as do orientador educacional – este que, na maioria das vezes, acabava exercendo os papéis dos profissionais citados, tornan- do os equívocos sobre sua identidade ainda mais latentes. A partir de 1980, a Orientação Educacional ganha mais espaço nas discussões educacionais. Desse modo, os profissionais da área passam a questionar as suas reais funções e a relevância de sua pre- sença e atuação nas escolas. As reflexões se aprofundam no sentido de construir uma trajetória voltada para o atendimento integral dos sujeitos, deixando de lado o papel burocrático ou, até mesmo, disci- plinador ao qual a Orientação Educacional tinha sido reduzida. Foi aí, então, que se passou a encarar a ausência de uma identidade emanci- patória, almejando-se novos olhares e perspectivas para a profissão. É muito importante que o objetivo da Orientação Educacional seja compreendido como o atendimento do sujeito na sua integralidade e nas suas relações com as demais instâncias, bem como que seja abandonada a ideia tanto de ações paliativas e isoladas quanto da realização de um tra- balho descontextualizado. Concordamos com Milet (1987, p. 43), quando diz que “é necessário pensar junto com os alunos sobre o ambiente que os circunda e as relações que estabelecem com esse ambiente, para que, tomando consciência da expropriação a que são submetidos, sintam-se fortalecidos para lutar por seus direitos de cidadãos”. O orientador educacional, quando compõe o corpo gestor escolar, envolvido não mais com questões paliativas, amplia seu horizonte de atuação para uma participação efetiva nas discussões dos projetos, do currículo e da proposta pedagógica da escola na qual está inserido. Assim, ele acaba desenvolvendo um sentimento de pertencimento às questões a serem trabalhadas e aos objetivos a serem alcançados, com todos os atores envolvidos no processo de ensino e aprendizagem. Dessa forma, a trajetória da Orientação Educacional vai sendo con- tada e os seus princípios e valores vão sendo desenhados à medida que se considera a realidade dos alunos, sem distanciar essa reflexão Com o filme Pink Floyd: The Wall, você irá perce- ber uma crítica severa ao ensino que proporciona o acúmulo de conteúdo, sem relacioná-lo com a rotina dos alunos. Além disso, o filme, com roteiro assinado por Roger Waters, faz uma crítica à opressão muitas vezes exercida por professores autoritários. Direção: Alan Parker. Reino Unido: Metro-Goldwyn-Mayer, 1982. Filme 12 Orientação Educacional na prática das questões urgentes apresentadas pela sociedade. De acordo com Grinspun (1994, p. 13): a orientação, hoje, está mobilizada com outros fatores que não apenas e unicamente cuidar e ajudar os ‘alunos com proble- mas’. Há, portanto, necessidade de nos inserirmos em uma nova abordagem de Orientação, voltada para a ‘construção’ de um cida- dão que esteja mais comprometido com seu tempo e sua gente. Desloca-se, significativamente, o ‘onde chegar’, neste momento da Orientação Educacional, em termos do trabalho com os alunos. Pretende-se trabalhar com o aluno no desenvolvimento do seu processo de cidadania, trabalhando a subjetividade e a intersubje- tividade, obtidas através do diálogo nas relações estabelecidas. Ainda, na década de 1980, em meio ao cenário educacional de refle- xões produtivas e incertezas relevantes, um movimento sindicalizado surge para embasar os debates realizados até então. Com os estudos e as pesquisas se consolidando e pautando as discussões, ocorre a fundação da Federação Nacional dos Orientadores Educacionais (Fenoe), uma organização sindical que, em sua permanência atuante, contribuiu muito para a ampliação das conquistas da categoria dos orientadores educacionais no país. Sua extinção foi sentida pela classe como uma espécie de perda da bússola que os guia- va na luta por uma prática de Orientação que primasse pela cidadania dos sujeitos. Ao longo desse período, outras organizações foram surgindo, como a Associação dos Orientadores Educacionaisdo Rio Grande do Sul (AOERGS), sempre objetivando organizar a categoria e trazer novas perspectivas de atuação. Com os desafios educacionais crescendo a passos largos, as articula- ções no âmbito da gestão escolar precisaram ser repensadas de tempos em tempos. Portanto, durante toda a década de 2000, a Orientação Educacional voltou a passar por profundas e marcantes transforma- ções. Os cursos de Pedagogia haviam sido responsáveis pela formação do orientador educacional, por meio das reformas sofridas pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB); porém, com o passar dos anos, essa espe- cialidade começou a ser encarada, também, como uma formação de pós-graduação ou especialização. Esse novo modelo acabou por enfra- quecer a unidade do conceito de Orientação Educacional e, novamente, os profissionais da área se viram sem um ponto de referência. É essencial registrar que, durante toda a trajetória explicada até aqui, a Orientação Educacional sofreu ameaças de extinção, corroboradas pe- las dúvidas sobre o seu conceito, o seu propósito e a sua identidade. Uma conversa sobre Orientação Educacional 13 Como forma de dinamizar os seus estudos, acompanhe a linha do tempo que reúne as informações apresentadas: Figura 1 Linha do tempo da Orientação Educacional 1940 1960 1980 1990 2000 Surgimento da Orientação Educacional no Brasil. Regulamentação da profissão do orientador educacional no Brasil. Debates acalorados e reflexões profundas. Fundação da Fenoe. Extinção da Fenoe e perda da referência. Novas transformações nas abordagens da Orientação Educacional. im E vs ee v/ Sh ut te rs to ck Fonte: Elaborada pela autora. A partir da década de 2000, as transformações vivenciadas pela Orientação Educacional direcionaram a sua prática para diferentes campos, fazendo com que surgissem abordagens distintas e, conse- quentemente, técnicas e instrumentos que correspondessem aos objetivos de cada direcionamento exercido. A seguir, veremos os diversos caminhos percorridos pela Orientação Educacional. 1.2 Abordagens da Orientação Educacional Vídeo Já vimos que, com o passar do tempo, a Orientação Educacional tem sua trajetória marcada por mudanças, impactos e redirecionamentos. Essas modificações ocasionaram diferentes caminhos tanto do ponto de vista da conceituação e dos objetivos a serem perseguidos quanto do viés prático. A Orientação Educacional, enquanto aconselhamento profissional, estava voltada para a parametrização das habilidades e aptidões dos indivíduos, preocupando-se apenas com a parte técnica, profissionalizante e limitada. Com o objetivo de responder à demanda da sociedade, com relação aos setores que precisavam de mão de obra especializada, o orienta- dor educacional era uma espécie de “analista” do perfil do sujeito alu- no, a fim de identificar em qual área ou setor profissionalizante ele se encaixaria melhor. Essa prática tornou a Orientação Educacional co- nhecida como Orientação Vocacional. Conhecer as aborda- gens da Orientação Educacional. Objetivo de aprendizagem 14 Orientação Educacional na prática A Orientação Vocacional visava classificar os sujeitos por meio da uti- lização de testes psicométricos, com os quais se construía uma escala não apenas para justificar a falta de êxito de determinados alunos no desempenho escolar, mas também para tornar apropriada a indicação de certos estudantes como indivíduos necessitados de condições edu- cativas especiais. Isso era realizado tendo como base apenas a aplica- ção, por parte dos profissionais que ocupavam o cargo de orientador educacional, de testes psicológicos padrão, distantes da realidade dos alunos e descontextualizados da vida escolar destes. O desenvolvimento da industrialização e do processo produtivo, em meados da década de 1930, passa a exigir do trabalhador hábitos, atitudes e conhecimentos, o que pode ser entendido como uma “capacitação profissional”, adquirida previamente à entrada no emprego. Entendida como um conjunto de habi- lidades básicas para o necessário ajustamento às funções pro- dutivas, esta “capacitação profissional” era adquirida na escola. (PIMENTA, 2002, p. 20) Longe de serem objetivos da Orientação Educacional, o aconselhamento profissionalizante e, até mesmo, a indicação para espaços educativos espe- ciais obedeciam às regras vigentes da sociedade e aos seus interesses e, principalmente, carregavam a função de manter o seu status quo. Outra abordagem marcante da Orientação Educacional se dá em sua prática meramente administrativa e burocrática. Atrelar o papel do orientador educacional ao contexto das campanhas solidárias da escola, à distribuição aleatória dos alunos nas turmas ou, ainda, aos atendimentos individualizados, na tentativa de resolução de conflitos internos familiares, é descaracterizar essa especialidade e impingir um caráter restritamente formal, limitando sua atuação. O cumprimento da burocracia escolar, o acúmulo e/ou o equívoco de funções e atribuições são, muitas vezes, ações internalizadas pelo profissional, por não ter conhecimento da verdadeira identidade da Orientação Educacional. O orientador não deve ser confundido com um agente operacional, mas sim ser um sujeito com uma formação específica que contribua para o exercício de uma Orientação Educacio- nal capaz de fazer a diferença na vida dos alunos atendidos. Sendo assim, é de suma importância distinguir os diferentes papéis dentro do corpo gestor da escola, no que se refere à clareza de atribui- ções e funções. De acordo com Pascoal (2010, p. 109): O texto Orientador Edu- cacional, da autora Neide Elisa Portes dos Santos, irá auxiliar a aprofundar seus estudos, pois traz um resumo interessante a respeito das transfor- mações ocorridas na trajetória da Orientação Educacional no Brasil. Disponível em: https://gestrado.net. br/verbetes/orientador-educacional/. Acesso em: 1 set. 2021. Leitura https://gestrado.net.br/verbetes/orientador-educacional/ https://gestrado.net.br/verbetes/orientador-educacional/ Uma conversa sobre Orientação Educacional 15 o orientador educacional diferencia-se do coordenador pedagó- gico, do professor e do diretor. O diretor ou gestor administra a escola como um todo; o professor cuida da especificidade de sua área do conhecimento; o coordenador fornece condições para que o docente realize a sua função da maneira mais satisfatória possível; e o orientador educacional cuida da formação de seu aluno, para a escola e para a vida. A prática atrelada às tarefas controladoras, vigilantes e disciplinadoras é outro exemplo de abordagem da Orientação Educacional. O orienta- dor, em muitos casos, encontra-se na posição de mediador dos conflitos ocorridos entre os alunos e entre o aluno e o professor, caracterizando-se como uma válvula de escape nos momentos em que este não se sente capaz de gerir seu grupo, isto é, sua turma. Nesse contexto, o docente apela para a figura do orientador, na esperança (equivocada) de colocar nesse profissional o peso do autoritarismo, da punição e da coerção, so- licitando dele ações isoladas e paliativas. Diferentemente disso, Pascoal (2010, p. 109) coloca que: a perspectiva de orientação educacional que consideramos váli- da não se equipara ao trabalho do psicólogo escolar, que tem dimensão terapêutica. O papel do orientador com relação à família não é apontar desajustes ou procurar os pais apenas para tecer longas reclamações sobre o comportamento do filho e, sim, procu- rar caminhos, junto com a família, para que o espaço escolar seja favorável ao aluno. Não cabe ao orientador a tarefa de diagnosti- car problemas e/ou dificuldades emocionais ou psicológicas e, sim, que volte seu trabalho para os aspectos saudáveis dos alunos. É preciso ter em mente que uma escola não se faz sem a presença do aluno. Ele é o centro do processo e o seu acompanhamento, tanto individual quanto em grupo, deve se dar, única e exclusivamente, pelo orientador educacional. É de responsabilidadedo orientador oportu- nizar o diálogo do aluno consigo mesmo, com seus pares, com o pro- fessor, com a comunidade escolar e com a sociedade. De acordo com Pascoal (2010, p. 110): a visão contemporânea de orientação educacional aponta para o aluno como centro da ação pedagógica, cabendo ao orientador atender a todos os alunos em suas solicitações e expectativas, não restringindo a sua atenção apenas aos alunos que apre- sentam problemas disciplinares ou dificuldades de aprendiza- gem. Para poder exercer a contento a sua função, o orientador precisa compreender o desenvolvimento cognitivo do aluno, sua Você sabia que no dia 4 de dezembro é comemorado o Dia do(a) Orientador(a) Educacional no Brasil? Mais do que acompanhar o aluno nas situações cotidianas da escola, a Orientação Educacional visa, por meio da utilização de instrumentais e técnicas, auxiliar no processo formativo do aluno como um todo, abordando aspectos culturais, científi- cos e emocionais. Para acessar o código de ética construído pela Fenoe, acesse o link a seguir. Disponível em: http://www. drearaguaina.com.br/minutas/ anexo_5_minuta_oficio_gab_ circ_100_2011.pdf. Acesso em: 1 set. 2021. Saiba mais http://www.drearaguaina.com.br/minutas/anexo_5_minuta_oficio_gab_circ_100_2011.pdf http://www.drearaguaina.com.br/minutas/anexo_5_minuta_oficio_gab_circ_100_2011.pdf http://www.drearaguaina.com.br/minutas/anexo_5_minuta_oficio_gab_circ_100_2011.pdf http://www.drearaguaina.com.br/minutas/anexo_5_minuta_oficio_gab_circ_100_2011.pdf 16 Orientação Educacional na prática afetividade, emoções, sentimentos, valores, atitudes. Além disso, cabe a ele promover, entre os alunos, atividades de discussão e informação sobre o mundo do trabalho, assessorando-os no que se refere a assuntos que dizem respeito a escolhas. Diante do cenário apresentado até o momento, muitas são as dú- vidas e inúmeros são os questionamentos que acompanham o debate sobre a Orientação Educacional. Como, então, essa especificidade se dá na prática? Como efetivar a qualidade da profissão, por meio de estraté- gias e metodologias próprias e com sentido? É o que veremos a seguir. 1.3 Princípios, técnicas e instrumentos da Orientação Educacional Vídeo Para falarmos sobre os elementos que embasam a Orientação Educacional, cabe conceituá-la, conferindo-lhe importância acadêmica e caráter rigoroso quanto ao seu significado. Essa especialidade é identificada como um processo educativo no qual o aluno é a figura central e o orientador é aquele que oportuniza o diálogo democrático sobre as relações desse aluno com os demais ato- res desse processo. Concordamos com Porto (2009, p. 48) quando afirma que a fundamentação dessa prática se dá “no reconhecimento das dife- renças individuais e no reconhecimento de que o ser humano, em qual- quer momento de sua vida, pode apresentar carências e dificuldades, necessitando, pois, de compreensão, ajuda e orientação”. Dessa forma, a Orientação Educacional é uma prática essencial nas escolas e é fundamentada em valores íntegros, compromisso com o aluno e princípios éticos, estes descritos no quadro a seguir. Quadro 1 Princípios da Orientação Educacional Princípio 1 Processo integrado com o currículo escolar. Princípio 2 Processo que abrange toda a escola e no qual todos assumem papel ativo e de relevância. Princípio 3 Processo que enxerga o aluno como um ser global e contribui para o desenvolvimento integral tanto físico quanto emocional, social, estético, político e educacional. Princípio 4 Processo de equidade perante todos os atendidos. Princípio 5 Processo que tira o foco das ações paliativas e objetiva construir um plano de ação preventivo. Fonte: Elaborado pela autora. Conhecer as técnicas utilizadas pela Orientação Educacional. Objetivo de aprendizagem O vídeo Orientação Educa- cional na Dinâmica do Coti- diano Escolar, do canal de Juliana Araujo, apresenta a fala da filósofa Mirian Grispun sobre o papel do orientador educacional na escola, a importância de sua função e os processos do cotidiano escolar. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=jFqh5nK47II. Acesso em: 1 set. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=jFqh5nK47II https://www.youtube.com/watch?v=jFqh5nK47II https://www.youtube.com/watch?v=jFqh5nK47II Uma conversa sobre Orientação Educacional 17 O Quadro 1 representa as intenções da prática orientadora, pauta- das na finalidade da Orientação Educacional como agente ativo do pro- cesso de ensino e aprendizagem dos alunos, o papel desse profissional consiste em mediar, de maneira dialógica, as ações a serem desenvol- vidas dentro e fora do contexto escolar. As diretrizes do trabalho de Orientação perpassam pelo seguinte ponto: o bem-estar do aluno, o seu desenvolvimento e direcionamento devem sempre considerar a realidade do educando e o seu contexto socioeconômico cultural em todas as fases de realização das atividades educacionais. Logo, é um trabalho colaborativo, preventivo e oportunizador, conforme podemos conferir na citação a seguir. Sabe-se que o trabalho educacional consiste em uma experiên- cia orientada para produzir resultados específicos na formação e aprendizagem dos alunos. Corresponde a uma ação intencional e sistemática, cuja efetividade depende de que seja organizada e implementada conforme os objetivos pretendidos. Essa con- dição, portanto, demanda clareza de fundamentos, propósito e diretrizes, assim como objetividade do olhar sobre os fatos que informam o processo educacional e os resultados de suas ações, que se obtém pela contribuição do monitoramento e avaliação. (CORDINGLEY, 2007 apud LÜCK, 2013, p. 162) Para que a prática da Orientação atinja a excelência, é necessário elencar os elementos fundantes do papel do orientador, quais sejam: • atender aos alunos de todas as faixas etárias; • auxiliar no processo de organização; • executar e acompanhar a proposta pedagógica; • praticar a escuta atenta como método eficaz de capturar as ne- cessidades reais dos alunos; • estar aberto ao diálogo; • desenvolver senso crítico; • analisar colaborativamente o processo de ensino e aprendizagem, por meio do estudo do currículo escolar. Percebemos que as atribuições do orientador dão conta de uma função de mediação, capaz de desenvolver um processo organizado e pedagógico, Lück coloca que O delineamento das funções do orientador educacional, que, re- forçamos, devem ser entendidas como dinâmicas, processuais e, sobretudo interativas, a serviço do compromisso social da 18 Orientação Educacional na prática educação. Isso é, nenhuma delas tem significado e valor por si mesmas, ou pode ser considerada isoladamente, daí por que seu planejamento deve ter caráter abrangente. Elas têm importância como elementos de um processo global de atuação pedagógi- ca. As funções da Orientação Educacional podem ser engloba- das em dois grupos, que se caracterizam como dois eixos de um mesmo processo, em que nenhum existe sem o outro e a amplia- ção de um implica na ampliação do outro. Os dois grupos são: O das funções de organização; o das funções de implementação. (LÜCK, 1979b) Sendo assim, é importante trazer para a discussão o planejamento do profissional da Orientação Educacional. O orientador deve pensar as suas ações em consonância com os objetivos a serem alcançados, consi- derando, também, a proposta pedagógica da escola onde está inserido. Trabalhar por esse caminho possibilitará a ele ampliar a sua visão edu- cativa, a de si mesmo e a da sociedade como um todo. A pesquisa na área favorece a expansão do conhecimento e a construção de uma base sólida de atuação; além disso, transforma a realidade ao redor e acaba por promover a potencialização do traba- lho desenvolvido. Enxergar diferentes alternativas para as questões escolares cotidianas, sem desvinculá-las da realidade da comunidade local, abre portas para uma Orientação Educacional pautada no pla- nejamento, na execução, no acompanhamentoe na avaliação dos processos educativos dos quais o orientador faz parte e é agente de mudança e de colaboração qualitativa. É o orientador educacional quem articula o diálogo entre o aluno e o professor. Por meio do currículo escolar, ele oportuniza o debate entre os conteúdos a serem trabalhados e a sua completa contextualização mediante o seu conhecimento da comunidade. Estar inserido no territó- rio é primordial para oferecer uma Orientação Educacional de qualida- de e que faça total sentido para os envolvidos. De acordo com Oliveira e Bitencourt (2021, p. 170), “o planejamento participativo é considerado condição fundamental da Orientação Educacional envolvendo também habilidades de trabalho em grupo, de pessoas e de articulação de seus esforços, de comunicação e negociação, sendo uma ação complexa e coletiva, implicando de forma participativa”. A seguir, veja um passo a passo do processo de planejamento volta- do para a Orientação Educacional. Uma conversa sobre Orientação Educacional 19 Figura 2 Planejamento da Orientação Educacional aS ha til ov /S hu tte rs to ck Conhecer a proposta da escola. Contribuir na construção do currículo escolar. Fomentar a autonomia dos alunos por meio de ações pedagógicas contextualizadas. Desenvolver e acompanhar os projetos escolares, nos quais os alunos são os protagonistas. Avaliar o desempenho integral dos alunos. Oportunizar o diálogo entre o corpo gestor e os alunos. Fonte: Elaborada pela autora. Com base no pressuposto da organização prévia para a reflexão das ações educativas a serem executadas pelo orientador, o esquema apresentado (Figura 2) mostra a relevância de dar vez e voz aos alu- nos, sendo mediados pela Orientação Educacional. Muito mais do que justificar o baixo desempenho desses alunos em avaliações formais, a Orientação promove debates capazes de fomentar alternativas viáveis de recuperação, ampliação, valorização e potencialização do processo de ensino e aprendizagem desenvolvido na escola. Dar sentido à práti- ca pedagógica parece ser o objetivo principal da Orientação Educacio- nal atualmente; de acordo com Garcia (1986, p. 18): uma das funções específicas do orientador educacional é a socia- lização do saber sobre o aluno, na medida em que a ele cabe tra- zer a realidade do aluno para o currículo. O saber sobre o aluno concreto, confrontado com as teorias do desenvolvimento e de aprendizagem, vai possibilitando a criação coletiva de uma teoria mais adequada ao aluno brasileiro, e a construção de uma práti- ca pedagógica que atenda melhor o aluno real. É necessária a formação contínua de todos os profissionais, bem como a reflexão sobre a identidade real do orientador educacional e a constante atualização dos debates referentes a essa área. As ações dos alunos devem estar pautadas nas relações entre todas as dimensões da escola. O corpo gestor escolar precisa estar alinhado, de modo que todos os envolvidos sejam corresponsáveis pela busca por uma prática libertadora que promova sentido e produza signifi- cado para toda a comunidade escolar. Uma prática crítica e reflexiva, com disposição para desenvolver competências e habilidades e dar continuidade aos projetos e processos da escola, é o que se espera da Orientação Educacional. No filme Madadayo, você irá conhecer a história de Hyakken Uchida, que, após 30 anos traba- lhando como professor em uma escola, anuncia que irá parar de lecionar. Seus alunos, inconforma- dos com a decisão, passam a promover encontros quinzenais para aprender lições de vida com o ancião. Direção: Akira Kurosawa. Japão: Daiei Film, 1993. Filme 20 Orientação Educacional na prática Os orientadores têm como prática trazer temas atuais e que dizem respeito aos interesses da comunidade escolar para serem discutidos dentro da escola, o que acaba por provocar possibilidades infinitas de trabalho, gerando formação para todos os indivíduos. Por meio da atuação da Orientação Educacional, é possível emancipar social e poli- ticamente o aluno, o professor, a escola e a comunidade. A conscientização da escola sobre o seu papel na sociedade é uma das mais importantes atuações do orientador educacional – prática essa que ainda se apresenta tímida e nem sempre está acompanhada de colaboração efetiva por parte dos demais profissionais da escola. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como vimos, a Orientação Educacional vem transformando e sendo transformada. Sua trajetória, seu propósito e seus valores, no cenário educacional atual, impingem novos olhares e novas perspectivas de refle- xão, prática e atuação. É importante considerar as influências sofridas pelas transformações da sociedade e os impactos causados nos processos educativos à vista das mudanças ocorridas nessa especialidade ao longo do tempo. Os debates, as discussões, as pesquisas e os estudos na área contri- buíram muito para o esclarecimento e aprofundamento das diferentes abordagens, bem como para a superação de entendimentos equivocados quanto às funções e aos papéis a serem desempenhados pelo orientador educacional na escola. Repensar a prática da Orientação Educacional, com vistas à valorização dessa especialidade, parece ser um importante objetivo a ser persegui- do, uma vez que dele depende a construção da identidade do orientador educacional e o empoderamento da sua prática pedagógica. O orientador é mediador e responsável por possibilitar um ambiente escolar capaz de refletir uma sociedade mais humana. Com o orientador educacional, a escola aprende a respeitar as especificidades atendidas, oportunizando experiências e contribuindo para que o conhecimento seja construído coletivamente. A Orientação Educacional contribui de maneira direta na formação de alunos pesquisadores, protagonistas e autônomos, que possam aprender em todas as etapas da vida. As práticas da Orientação Educacional foram amplamente redefinidas com o passar das décadas, o que gerou consequências nos métodos e modos de se pensar e se fazer educação. Por essa razão, faz-se necessá- Uma conversa sobre Orientação Educacional 21 ria, na escola, a presença de um orientador educacional, com visão con- temporânea do processo de ensino e aprendizagem e das relações, o que significa atuar de modo participativo, visando à formação de um sujeito consciente e atento às transformações não apenas no mundo do traba- lho, como também da sociedade em geral. ATIVIDADES Atividade 1 Na primeira seção do capítulo, discutimos sobre a trajetória da Orientação Educacional no Brasil. Analise o início dessa trajetória e relacione-a com o contexto do país na década de 1940. Atividade 2 Comente sobre a abordagem da Orientação Educacional enquanto aconselhamento profissional. Atividade 3 Analise a importância do planejamento das ações da Orientação Educacional. REFERÊNCIAS GARCIA, R. L. Especialistas em educação: os mais novos responsáveis pelo fracasso escolar. In: ALVES, N.; GARCIA, R. L. (org.). O fazer e o pensar dos supervisores e orientadores educacionais. São Paulo: Loyola, 1986. GRINSPUN, M. P. S. (org.) A prática dos orientadores educacionais. São Paulo: Cortez, 1994. LÜCK, H. Planejamento em orientação educacional. Rio de Janeiro: Vozes, 1979. LÜCK, H. Avaliação e monitoramento do trabalho educacional. Petrópolis: Vozes, 2013. MILET, R. M. L. Uma orientação que ultrapassa os muros da escola. Revista Ande, n. 10, 1987. OLIVEIRA, I. C. B. de.; BITENCOURT, S. Orientação Educacional planejada. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, v. 6, n. 6, p. 167-176, fev. 2021. PASCOAL, M. O orientador educacional no Brasil: uma discussão crítica. Poíesis Pedagógica, v. 3, n. 3-4, p. 114-125, 2010. PIMENTA, S. G. (org.) Pedagogia e pedagogos: caminhos e perspectivas. São Paulo: Cortez, 2002. PORTO, O. Orientação Educacional: teoria, prática e ação. Rio de Janeiro: Wark, 2009. 22 Orientação Educacional na prática 2 O papel do orientador educacional Nestecapítulo, discutiremos sobre o papel da Orientação Educacional no contexto escolar e a importância de esclarecer suas atribuições, com o intuito de contribuir para o contexto social e político nos quais esse profissional está inserido. No primeiro momento, discutiremos sobre as diferenças entre a Orientação Educacional e a Psicopedagogia. O objetivo é deixar claro que os profissionais de ambas as áreas têm seu espaço na escola, porém, são lugares definidos e distintos. O segundo ponto que trabalharemos é o das contribuições verda- deiramente pedagógicas da Orientação Educacional. Discutiremos a efe- tividade da atuação dessa área do conhecimento, suas contribuições e construções significativas dentro do processo educativo. Finalmente, abordaremos o papel do orientador educacional no con- texto da escola no que tange às influências no currículo, na didática e na metodologia desenvolvidas no dia a dia pedagógico. Apresentaremos algumas alternativas de participação efetiva desse profissional na busca por edificar uma educação de qualidade, voltada à construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Acreditamos que o presente material proporcionará importantes refle- xões e, sobretudo, contribuirá para a formação de profissionais críticos e conscientes do seu papel transformador dentro do cenário educacional. É muito importante que o orientador educacional tenha clareza sobre seu papel e busque o aprimoramento da sua prática em todos os processos escolares vivenciados. 2.1 Orientação Educacional e intervenção psicopedagógica Vídeo Diante do histórico da Orientação Educacional, é possível per- ceber que, com tantas transformações sofridas ao longo das déca- das, muitas lacunas foram também vivenciadas durante o processo Refletir sobre as distin- ções entre a Orientação Educacional e a interven- ção psicopedagógica. Objetivo de aprendizagem O papel do orientador educacional 23 Neste capítulo, discutiremos sobre o papel da Orientação Educacional no contexto escolar e a importância de esclarecer suas atribuições, com o intuito de contribuir para o contexto social e político nos quais esse profissional está inserido. No primeiro momento, discutiremos sobre as diferenças entre a Orientação Educacional e a Psicopedagogia. O objetivo é deixar claro que os profissionais de ambas as áreas têm seu espaço na escola, porém, são lugares definidos e distintos. O segundo ponto que trabalharemos é o das contribuições verda- deiramente pedagógicas da Orientação Educacional. Discutiremos a efe- tividade da atuação dessa área do conhecimento, suas contribuições e construções significativas dentro do processo educativo. Finalmente, abordaremos o papel do orientador educacional no con- texto da escola no que tange às influências no currículo, na didática e na metodologia desenvolvidas no dia a dia pedagógico. Apresentaremos algumas alternativas de participação efetiva desse profissional na busca por edificar uma educação de qualidade, voltada à construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Acreditamos que o presente material proporcionará importantes refle- xões e, sobretudo, contribuirá para a formação de profissionais críticos e conscientes do seu papel transformador dentro do cenário educacional. É muito importante que o orientador educacional tenha clareza sobre seu papel e busque o aprimoramento da sua prática em todos os processos escolares vivenciados. 2.1 Orientação Educacional e intervenção psicopedagógica Vídeo Diante do histórico da Orientação Educacional, é possível per- ceber que, com tantas transformações sofridas ao longo das déca- das, muitas lacunas foram também vivenciadas durante o processo Refletir sobre as distin- ções entre a Orientação Educacional e a interven- ção psicopedagógica. Objetivo de aprendizagemde construção de identidade dessa área do conhecimento. Isso fez com que, por mais de uma vez, a Orientação Educacional fosse con- fundida com outras áreas – a psicopedagogia, por exemplo. A Psicopedagogia trata do processo de ensino e aprendizagem no que tange ao individual do ser. Assim dizendo, é uma área do conhecimento que acompanha as estratégias de ensino a serem executadas para se chegar à construção de um processo educativo que seja capaz de suprir as necessidades individuais de cada um. Dentro do âmbito escolar, o psicopedagogo vai atuar de manei- ra a identificar necessidades educativas peculiares, além de refletir sobre quais alternativas devem ser adotadas para atender a es- sas necessidades, e fará o acompanhamento desse processo. É um profissional que atua de maneira singular, focando nas particulari- dades e auxiliando o sujeito no seu modo de aprender e construir conhecimento. Concordamos com Bassedas (1996, p. 24) quando afirma que o psicopedagogo: busca conhecer, olhar e escutar a relação do sujeito com o conhecimento objetivando a melhoria do ensino e da apren- dizagem, ou seja, para ajudar a família, a escola (em todos os níveis – administrativo, docente, técnico, discente) a cumprir o seu papel, atuando como um articulador do ensino e da aprendizagem. Assim, a Psicopedagogia atua com o aluno e com a família, po- rém em um âmbito particular, de modo a agir diretamente no pro- cesso de ensino e aprendizagem daquele aluno em questão. Sua contribuição para a escola será sempre pelo viés do atendimento individual do sujeito. O artigo Psicopedagogia: limites e possibilidades a partir de relatos de profissio- nais, das autoras Maria Regina Peres e Maria Helena Mourão Alves Oliveira, publicado na revista Ciências e Cognição, em 2007, apresenta dilemas, entra- ves, desafios e possibilidades da área da Psicopedagogia no que concerne ao trabalho desenvolvido por esse profissional na escola. As autoras basearam- -se em uma pesquisa de campo para entender o perfil do psicopedagogo e suas contribuições para o processo educativo nas instituições de ensino. Acesso em: 24 set. 2021. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-58212007000300012 Artigo http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-58212007000300012 24 Orientação Educacional na prática Na verdade, assim como a Orientação Educacional, a Psicopedago- gia acaba influenciando na dinâmica da escola, uma vez que interfere no modo de construir conhecimento. Todavia, nesse caso, as inter- venções passam pela família, que busca esse profissional na tentativa de entender as necessidades específicas do aluno. Com o tratamen- to, o psicopedagogo estabelece uma parceria com a escola e com a família. Ele precisa conhecer o contexto escolar daquele aluno, suas experiências estudantis e sua realidade de aprendizagem. Conhecendo esse cenário, o psicopedagogo vai construindo (em parceria com a escola) estratégias capazes de possibilitar o aprendi- zado ideal, além de ir desenhando junto à escola alternativas viáveis de atendimento e acompanhamento desse aluno no que se refere ao seu processo educativo. É muito importante que esse profissional tenha passe livre na es- cola para dialogar com os professores, pois será por meio destes que muitas estratégias pensadas se concretizarão. As sugestões do psi- copedagogo devem ser apresentadas, discutidas e refletidas com os professores, e quem faz a mediação desse diálogo é o orientador edu- cacional – inclusive, é esse profissional que muitas vezes indica para a família a necessidade de buscar a Psicopedagogia para responder a algumas das lacunas verificadas no aluno no âmbito escolar. Contudo, é necessário esclarecer as diferentes intervenções, bus- cando valorizar os papéis e compreender em quais processos a cola- boração é mais pertinente. Para o psicopedagogo, é essencial estar ligado ao contexto escolar e familiar do aluno atendido. É por meio desses cenários que a inter- venção psicopedagógica acontece de maneira embasada e proveito- sa. O profissional irá fazer observações sobre o aluno nos seguintes cenários: escola, família e espaços de convíviosocial, além de realizar atendimento com os demais profissionais da escola, sessões com a família e atendimentos individuais ao aluno. Ele pode também fazer um trabalho de prevenção junto aos professores no intuito de capaci- tar os docentes para atender a necessidades específicas de aprendi- zagem, tudo isso mediado pelo orientador educacional. Resumindo, o objetivo da Psicopedagogia pode ser definido, de acordo com Beyer (2003, p. 58), da seguinte maneira: O filme O Discurso do Rei apresenta a amizade profunda que surge entre duas pessoas, sendo que o que as aproxima, em um primeiro momento, é a dificuldade na dicção de uma delas e a possibilida- de de que a outra auxilie para que essa questão seja vencida. Desse modo, inicia-se um processo de, em médio prazo, vencer desafios e encontrar apoio em um profissional capacitado. Direção: Tom Hooper. Reino Unido: See Saw Films e Bedlam Productions, 2010. Filme O papel do orientador educacional 25 A Psicopedagogia, área de conhecimento interdisciplinar, tem como objeto de estudo a aprendizagem humana. É papel fun- damental do psicopedagogo potencializá-la e atender as ne- cessidades individuais, no decorrer do processo. O trabalho psicopedagógico pode adquirir caráter preventivo, clínico, tera- pêutico ou de treinamento, o que amplia sua área de atuação, seja ela escolar – orientando professores, realizando diagnós- ticos, facilitando o processo de aprendizagem, trabalhando as diversas relações humanas que existem nesse espaço; em- presarial – realizando trabalhos de treinamento de pessoal e melhorando as relações interpessoais na empresa; clínica – es- clarecendo e atenuando problemas; ou hospitalar – atuando junto à equipe multidisciplinar no pós-operatório de cirurgias ou tratamentos que afetem a aprendizagem. É importante sa- lientar que a Psicopedagogia é uma área que vem para somar, trabalhando em parceria com os diversos profissionais que atuam em sua área de abrangência. Para o orientador educacional, as intervenções ultrapassam o âm- bito das singularidades, muito embora estas estejam contempladas na visão gestora estratégica exercida por esse profissional. Faz par- te do objetivo da Orientação Educacional unir as partes ao todo, no sentido de considerar as especificidades de aprendizagem à proposta pedagógica da escola. 2.2 Orientação Educacional em uma perspectiva pedagógica Vídeo No campo pedagógico, a prática da Orientação Educacional torna-se essencial para atingir o objetivo de tornar significativo o processo de ensino e aprendizagem desenvolvido na escola. A Orientação Educacional (OE) tem o aluno como prioridade, no sen- tido de compreender quais são as necessidades reais do grupo aten- dido na escola, alinhando-as aos projetos a serem construídos com a participação das famílias e dos professores. Fazendo parte da equipe gestora, o orientador educacional oportu- niza o elo entre as ações pedagógicas micro ocorridas no dia a dia e os projetos macro que consolidam o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola. O olhar pedagógico desse profissional possibilita o pensamento e a reflexão sobre ele no que se refere à práticas pedagógicas significa- Elencar os pontos da Orientação Educacional em uma perspectiva pedagógica. Objetivo de aprendizagem 26 Orientação Educacional na prática tivas, que dialogam com o contexto social dos alunos. De acordo com Cordingley (2007) apud Lück (2013, p. 162): Sabe-se que o trabalho educacional consiste em uma experiên- cia orientada para produzir resultados específicos na formação e aprendizagem dos alunos. Corresponde a uma ação intencional e sistemática, cuja efetividade depende de que seja organizada e implementada conforme os objetivos pretendidos. Essa con- dição, portanto, demanda clareza de fundamentos, propósito e diretrizes, assim como objetividade do olhar sobre os fatos que informam o processo educacional e os resultados de suas ações, que se obtém pela contribuição do monitoramento e avaliação. No âmbito pedagógico, o orientador educacional contribui com o desenvolvimento de novas ideias que possam otimizar o trabalho realizado pelos professores na esola, além de ser peça fundamental da gestão no que se refere a organizar o pensamento educativo da escola e tornar viável a proposta pedagógica por meio de projetos que unam a comunidade escolar como um todo: território, famílias, professores e alunos. O orientador educacional deve voltar seu olhar para os problemas da escola e as dificuldades dos alunos e professores, propondo solu- ções que oportunizem transformações reais do cenário educacional vigente. Atuar de modo preventivo deve ser prioridade do trabalho da Orientação Educacional, haja vista a necessidade de se pensar em alternativas que respondam às necessidades dos contextos escolares vividos. Tornar significativo o processo de construção do conhecimen- to, independentemente dos entraves e amarras que se apresentem, é meta a ser alcançada. A figura a seguir reúne, de maneira sintética, o caminho a ser per- corrido para a efetivação de um trabalho de Orientação Educacional efetivo e significativo. Figura 1 OE: perspectiva pedagógica Comunidade escolar • Necessidades reais. Professores • Necessidades reais. Alunos • Proposta pedagógica da escola. Projetos Fonte: Elaborada pela autora. O papel do orientador educacional 27 Diante dos resultados de desempenho dos alunos, analisando o processo de aprendizagem desenvolvido pela escola, o orientador pre- cisa estar antenado às discussões pertinentes ao âmbito educacional para propor ideias e efetuar ações capazes de responder às demandas advindas da prática escolar. Mediar o trabalho de equipe necessário para sanar as lacunas do processo pedagógico é uma função desse profissional. Por meio do contato direto com os alunos, ele possui co- nhecimento genuíno da matéria-prima do seu trabalho: as necessida- des dos alunos nos aspectos cognitivo, afetivo, social e político. Martins (1984, p. 97) nos diz: A Orientação Educacional (OE) é um processo organizado e per- manente que existe na escola. Ela busca a formação integral dos educandos (esse processo é apreciado em todos seus aspectos, tido como capaz de aperfeiçoamento e realização), através de conhecimentos científicos e métodos técnicos. A Orientação Educacional é um sistema em que se dá através da relação de ajuda entre Orientador, aluno e demais segmentos da escola; resultado de uma relação entre pessoas, realizada de maneira organizada que acaba por despertar no educando oportunida- des para amadurecer, fazer escolhas, se autoconhecer e assumir responsabilidades. O orientador educacional é responsável por fomentar, inspirar, de- senvolver, aprimorar e acompanhar a transformação dos alunos em su- jeitos críticos e cidadãos conscientes dos seus deveres e direitos dentro da vida em sociedade. Faz parte do trabalho do orientador despertar nos alunos o sentimento de pertencimento ao seu lugar de direito na sociedade, reconhecendo sua real função e o valor que ela apresenta no cenário educacional. É muito importante entender que a Orientação Educacional tem papel fundamental na mediação dialógica do proces- so educativo, uma vez que possibilita a reflexão, o autoconhecimento e o planejamento de ações que contribuem para o crescimento indivi- dual dos sujeitos, dentro de um processo coletivo de amadurecimento. A educação inclusiva está também dentro das responsabilidades pedagógicas do orientador. Ao receber um aluno com necessidades educativas específicas, a escola afirma seu compromisso com aquele processo de aprendizagem e precisa oportunizar condições para que a construção do conhecimento se efetive. Quem faz essa mediação é o orientador. Grinspun (2006, p. 33) afirma: Para aprofundar seus estudos sobre essa temá- tica, leia o texto O papel do orientador educacional na educação inclusiva, dis- ponível no link a seguir. Disponível em: https://meuartigo. brasilescola.uol.com.br/pedagogia/o-papel-orientador- educacional-na-educacao-inclusiva. htm. Acesso em: 24 set. 2021. Saiba mais https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/pedagogia/o-papel-orientador-educacional-na-educacao-inclusiva https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/pedagogia/o-papel-orientador-educacional-na-educacao-inclusiva https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/pedagogia/o-papel-orientador-educacional-na-educacao-inclusiva https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/pedagogia/o-papel-orientador-educacional-na-educacao-inclusiva 28 Orientação Educacional na prática O principal papel da Orientação Educacional será ajudar o aluno na formação de uma cidadania crítica, e a escola, na organização e realização de seu projeto político pedagógico. Isso significa aju- dar nosso aluno “por inteiro”: com utopias, desejos e paixões. A escola, com toda sua teia de relações, constitui o eixo dessa área da Orientação, isto é, a Orientação trabalha na escola em favor da cidadania. Dessa forma, as dificuldades dos alunos, sendo elas de determina- dos grupos ou individuais, devem ser conhecidas pelo orientador e di- vididas com toda a equipe a fim de serem refletidas e transformadas em possibilidades de atendimento. Tornar possível a aprendizagem de todos é objetivo da Orientação, respeitando o contexto no qual a escola está inserida, conhecendo as expectativas das famílias atendidas e con- siderando os anseios da equipe gestora. Orientar o trabalho pedagógico é o cerne da função da Orientação Educacional. É preciso levar em conta aspectos como: • conhecimento da profissão; • identidade profissional; • formação contínua; • clareza das suas funções. Só assim é possível desenvolver um trabalho educacional de qua- lidade. Enxergar possibilidades e alternativas dentro do campo das dificuldades escolares, desenvolver um olhar sistêmico para os pro- cessos ocorridos no âmbito escolar, mediar o diálogo entre alunos e professores, propor ideias que comunguem com a proposta educativa da escola e fomentar a evolução pessoal dos alunos, assim como os ca- minhos que serão vivenciados na prática são metas do orientador, que devem ser alcançadas, assim como os caminhos que serão vivenciados na prática. 2.3 Orientação Educacional no cotidiano da escola Vídeo Qual é a função do orientador na escola? Em quais processos peda- gógicos ele de fato contribui efetivamente? Como construir um traba- lho coletivo de orientação? Diante dos estudos já realizados até o momen- to, analise as sentenças a seguir e tente classificá-las entre: I) Faz parte das atri- buições do orientador educacional. II) Não faz parte das atribuições do orientador educacional. ( ) Desenvolver habili- dades e competên- cias individuais nos alunos. ( ) Desenvolver hábitos, atitudes e valores coletivos para a vida em sociedade. ( ) Substituir o professor. ( ) Formação docente. ( ) Castigar os alunos. Desafio O papel do orientador educacional 29 Dentro do cotidiano escolar, as atividades desenvolvidas no dia a dia pedagógico naturalmente envolvem o orientador. A grande ques- tão é compreender a sua importância para o bom andamento de todo o processo educativo. De acordo com o pensamento democrático, o orientador educacio- nal é o profissional que carrega as características que o capacitam a desenvolver o trabalho educativo coletivo. Para entendermos as ativi- dades desenvolvidas por ele no interior da escola, tenhamos em mente as habilidades e competências mostradas no quadro a seguir. Quadro 1 Perfil do orientador educacional 5 Ps 5 Cs Pesquisador Criativo Paciente Competente Político Crítico Participativo Comprometido Pensante Capaz Fonte: Adaptado de Pozza (2020). Os elementos acima citados tratam das características essenciais que o orientador precisa reunir em seu perfil profissional para atender às suas atribuições de maneira positiva e, com isso, vislumbrar resulta- dos significativos no seu trabalho. Diante de tais características, é pos- sível vislumbrar o trabalho pedagógico do orientador na prática. É por meio do trabalho interdisciplinar que o orientador contribui significativamente para a atuação dos professores. A participação no planejamento docente é de suma importância para inserir ideias e ações capazes de dar vez e voz aos anseios da comunidade escolar, e isso ocorre quando o orientador educacional escuta os alunos. Trabalhar junto à equipe docente permite influenciar o processo educativo que é desenvolvido em sala de aula. Além disso, oportuniza a construção de projetos que vão ao encontro da realidade dos alunos e possibilita o trabalho interdisciplinar, pois, ao conhecer o perfil das turmas, o orientador pode sugerir elementos significativos que elevem o nível do planejamento dos professores. Trazer assuntos que fazem parte da realidade dos alunos, propor projetos em parceria com a comunidade, realizar a transposição didáti- ca entre os componentes curriculares a fim de aproximar os conteúdos Compreender a Orien- tação Educacional no cotidiano da escola. Objetivo de aprendizagem O vídeo Quem é o Pedago- go Orientador Educacio- nal? apresenta a fala da Doutora Mariangela Pozza a respeito da Orientação Educacional na escola. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=G8h3vfPRcOQ. Acesso em: 24 set. 2021. Vídeo O vídeo Transposição didá- tica: Introdução, Aspectos Gerais e Histórico, do canal Prof. Rogério Joaquim Matemática, é um ótimo instrumento para que você aprofunde seus conhecimentos sobre o tema de transposição didática. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=Aqmzz59_ ruI. Acesso em: 24 set. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=G8h3vfPRcOQ https://www.youtube.com/watch?v=G8h3vfPRcOQ https://www.youtube.com/watch?v=G8h3vfPRcOQ https://www.youtube.com/watch?v=Aqmzz59_ruI https://www.youtube.com/watch?v=Aqmzz59_ruI https://www.youtube.com/watch?v=Aqmzz59_ruI 30 Orientação Educacional na prática do dia a dia da escola, mediar a discussão pedagógica entre as áreas do conhecimento a fim de proporcionar um cenário propício para a interdisciplinaridade são aspectos comuns à rotina pedagógica desen- volvida pelo orientador educacional. Para Placco (1984, p. 30), Orientação Educacional é: um processo social desencadeado dentro da escola, mobilizando todos os educadores que nela atuam – especialmente os profes- sores – para que, na formação desse homem coletivo, auxiliem cada aluno a se construir, a identificar o processo de escolha por que passam, os fatores socioeconômico-políticoideológicos e éti- cos que o permeiam e os mecanismos por meio dos quais ele possa superar a alienação proveniente de nossa organização so- cial, tornando-se, assim, um elemento consciente e atuante den- tro da organização social, contribuindo para sua transformação. Para efetivar o trabalho descrito por Placco, é necessário fazer par- te da construção do planejamento docente e ter domínio do trabalho com projetos. Somente assim o educador poderá encontrar eficácia na execução das ideias e ações pertinentes ao processo. A figura a seguir ilustra o trabalho com as mais diversas áreas do conhecimento, de- monstrando as inúmeras possibilidades de se trabalhar por projetos. Figura 2 A importância do trabalho por projetos na escola 11 11 2 3 3 4 5 3 3 3 1 2 - dobrograph/Shutterstock 1 - Moofer/Shutterstock 3 - Kirasolly/Shutterstock 4 - EveeKamp/Shutterstock 5 - Anatolir/Shutterstock O trabalho com projetos possibilita o protagonismo dos alunos e auxilia no processo de formação dos mesmos pois busca dotar de autonomia os sujeitos e integrar a todos dentro de uma proposta interdisciplinar e colaborativa. Fonte: Adaptada de Silva, 2018. O papel do orientador educacional 31 Outra vertente muito importante do trabalho da Orientação Educa- cional dentro da escola é a participação no conselho de classe. O papel de articular as informações dos alunos é do orientador, e este deve efe- tivar sua participação contribuindosignificativamente com um discurso fundamentado pedagogicamente. A voz do orientador é essencial para a condução de um conselho de classe participativo e atuante, indo muito além da discussão sobre notas e/ou resultado final dos alunos. É o momento de apresentar o aluno, seu contexto, suas particularidades, garantindo assim o olhar “por inteiro” do estudante, munindo os professores de informações a serem consideradas na hora de avaliar e, principalmente, de traçar um plano de ação capaz de preencher as lacunas do sujeito. Ter domínio do histórico escolar do aluno, conhecer as necessidades reais de cada um, ter organizados os dados referentes aos atendimen- tos já realizados (tanto do aluno quanto da sua família) e considerar a individualidade sem esquecer a participação do aluno no todo da escola são aspectos relevantes a serem ressaltados no momento do conselho de classe. Este, de fato, é o tipo de mediação que interessa na prática do orien- tador: aproximar o aluno do ambiente escolar, da figura do professor e pensar estratégias para transformar a realidade desse aluno, oportu- nizando momentos de reflexão e autoconhecimento. Iavelberg (2011) nos fala que: Para tanto, a contribuição do orientador educacional é essencial, visto que ele pode ajudar a equipe a compreender como ques- tões cognitivas, afetivas e sociais afetam a aprendizagem. Juntos, o orientador e os docentes devem definir os encaminhamentos que levem à melhoria da qualidade da produção dos estudantes. Nesse sentido, é fundamental o grupo socializar práticas bem-su- cedidas que possam ser replicadas – considerando que, muitas vezes, os bons resultados na aprendizagem aparecem apenas após a mudança nas estratégias de ensino. Dessa forma, construir um conselho de classe que seja ferramenta de transformação pedagógica e se apresente como um verdadeiro ins- trumento de organização do trabalho pedagógico são ações que neces- sitam da participação efetiva do orientador. Motivar o corpo docente na elaboração de um plano de ações que contemple os objetivos da escola, sem deixar de considerar as necessidades individuais e dos gru- pos, é uma prática educativa significativa da Orientação Educacional. 32 Orientação Educacional na prática A Figura 3 ilustra o pensamento tradicional dos professores quanto ao objetivo do conselho de classe: padronizar todos e condenar os que não se encaixarem no padrão estabelecido, em uma espécie de prejul- gamento pedagógico. Outro aspecto a ser ressaltado é a participação do orien- tador no processo avaliativo dos alunos. Esse profissional contribui expressivamente na formação c o n t í - nua dos professores no momento em que apresenta alternativas para des- construir os padrões tradicionais de avaliação do ensino. Para os professo- res, a forma tradicional de avaliar é, além de facilitadora do tra- balho docente, a única estra- tégia pensada pela maioria na hora de construir o pro- cesso avaliativo. Su rfs Up /S hu tte rs to ck Figura 3 Apontando os defeitos dos alunos Cabe ao orientador desconstruir esse pensa- mento e fornecer alternativas fundamentadas para avaliar o trabalho educativo desenvolvido durante determinado período. A ideia é abando- nar práticas como a da Figura 4, na qual é possí- vel perceber a ideia de padronização do ensino. É preciso considerar as particularidades de cada indivíduo, o contexto em que ele está inse- rido e as especificidades que caracterizam seu processo de aprendizagem e que, portanto, precisam ser evidenciadas no momento de esse sujeito ser avaliado. Todas essas considerações e informações podem chegar até os professores apenas por meio da prática do orientador edu- cacional, cujos fundamentos são apresentados na figura a seguir. Figura 4 Padronização do ensino Sen tav io/S hut ters toc k A padronização do ensino tenta colocar todos os alunos em um mesmo molde, sem considerar suas particularidades. O papel do orientador educacional 33 Figura 5 Elementos fundantes da prática do orientador educacional Conselho de classe Avaliação Trabalho por projetosPlanejamento Fonte: Elaborada pela autora. A contribuição da Orientação Educacional na formação docente reúne inúmeros benefícios para todos os envolvidos, uma vez que traz para a prática estratégias diversificadas e contextualizadas embasadas em uma proposta pedagógica capaz de empoderar os sujeitos na bus- ca pelo próprio processo de formação. Por meio da aproximação entre o currículo e a realidade da escola (fazendo uso do planejamento), tor- na possível o diálogo entre aluno e professor. Ao mediar os debates sobre as parcerias entre escola, família e co- munidade, a Orientação Educacional possibilita a reflexão dos papéis de cada um dentro da sociedade; na busca por reconhecimento de de- veres e luta por direitos, oportuniza aos alunos o reconhecer-se cida- dão e reconhecer seu espaço dentro do coletivo. Assim, vamos percebendo que o papel do orientador educacional na escola é de extrema relevância e, ainda que a área de conhecimento da Orientação Educacional tenha sido ameaçada de extinção ao longo da história, ao estudarmos as atribuições e funções desse profissional, é possível concluir que essa área não só não pode ser extinta como pre- cisa ser defendida por todos os outros atores do sistema educacional. 34 Orientação Educacional na prática CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo aprendemos sobre o verdadeiro papel do orientador educacional e a importância dele dentro do cenário educacional. A busca pela identidade desse profissional é constante e se faz neces- sária, uma vez que é por meio da construção e consolidação desse perfil que a Orientação Educacional ganha força e relevância diante das tentati- vas de extinção sofridas ao longo de toda a sua história. Para tanto, é muito importante compreender as inúmeras atividades desenvolvidas pelo orientador e entender quais são as verdadeiras contri- buições desse profissional em sua atuação. Realizar um trabalho consistente de mediação dialógica, lado a lado com a equipe gestora, e caminhar junto aos professores parece ser um ótimo começo para se afirmar no ambiente escolar e poder ter seu espaço na elaboração de estratégias educacionais significativas. O orientador educacional precisa ser reconhecido como ser pensante e atuante dentro do processo educativo desenvolvido na escola. É essen- cial que a escola possa contar com o orientador no que tange ao trabalho de reconhecer as reais necessidades dos alunos, das famílias e da escola como um todo. Quanto mais o orientador estiver inserido nos projetos da escola, mais ele vai conhecer o território no qual está inserido e mais poderá contribuir para o trabalho pedagógico da instituição. Dessa forma, ele influencia po- sitivamente na formação individual de cada aluno e isso tem consequên- cias na vida coletiva da comunidade escolar. ATIVIDADES Atividade 1 A respeito das diferenças entre a Orientação Educacional e a Psicopeda- gogia, cite um exemplo que as distingue. Atividade 2 Na perspectiva pedagógica, cite um exemplo de prática do orientador educacional. O papel do orientador educacional 35 Atividade 3 Cite uma atividade desenvolvida pelo orientador educacional no âmbito escolar. Justifique sua importância. REFERÊNCIAS BASSEDAS, E. Intervenção educativa e diagnóstico piscopedagógico. São Paulo: Artmed, 1996. BEYER, M. Psicopedagogia: ação e parceria. 2003. Disponível em: https://pt.scribd.com/ document/371539597/Psicopedagogia-Acao-e-Parceria. Acesso em: 24 set. 2021. GARCIA, R. L. Especialistas em educação: os mais novos responsáveis pelo fracasso escolar. In: ALVES, N.; GARCIA, R. L. (org.). O fazer e o pensar dos supervisores e orientadores educacionais. São Paulo: Loyola, 1986. GRINSPUN, M. P. S. Z. A Orientação Educacional: conflitos de paradigmas e alternativas para a escola. São Paulo: Cortez, 2006. IAVELBERG, C. Conselho de classe: um espaço de reflexão. Nova Escola, 2011. Disponívelem: https://gestaoescolar.org.br/conteudo/417/conselho-de-classe-um-espaco-de- reflexao. Acesso em: 24 set. 2021. MARTINS, J. P. Princípios e métodos da orientação educacional. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1984. PLACCO, V. M. N. S. Formação e prática do educador e do orientador. Campinas: Papirus, 1994. QUEM é o Pedagogo Orientador Educacional? 2021. 1 vídeo (8 min.) Publicado pelo canal Mariangela Pozza. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=G8h3vfPRcOQ. Acesso em: 29 nov. 2021. https://pt.scribd.com/document/371539597/Psicopedagogia-Acao-e-Parceria.Acesso https://pt.scribd.com/document/371539597/Psicopedagogia-Acao-e-Parceria.Acesso https://gestaoescolar.org.br/conteudo/417/conselho-de-classe-um-espaco-de-reflexao https://gestaoescolar.org.br/conteudo/417/conselho-de-classe-um-espaco-de-reflexao 36 Orientação Educacional na prática 3 Entraves e desafios da Orientação Educacional Neste capítulo, discutiremos sobre os desafios da Orientação Educacional no ambiente escolar, sobretudo os dilemas enfrentados pelo orientador no exercício de sua função. No primeiro momento, discutiremos sobre o prejuízo causado pela burocratização do trabalho pedagógico, que faz com que as atri- buições do orientador educacional se percam ou fiquem confusas diante do cotidiano escolar marcado por desencontros e processos educativos rasos. Dando continuidade ao debate acerca da dificuldade de esclare- cimento quanto à verdadeira função da Orientação Educacional e ao seu objetivo central, o segundo ponto levantado é o da crise de iden- tidade da profissão, acrescida da falta de engajamento da categoria na busca por alinhar o perfil desse profissional, elencando as caracte- rísticas necessárias para se garantir uma formação que contemple as necessidades reais da escola. Por fim, trabalharemos no cerne da questão para se garantir a presença do orientador educacional na escola. Apresentaremos as al- ternativas e as estratégias de desenvolvimento para que a Orientação Educacional seja exercida no espaço escolar de maneira a contribuir significativamente no processo educativo individual e coletivo dos su- jeitos envolvidos. É muito importante que o corpo gestor da escola tenha ciência da relevância do papel da Orientação Educacional e oportunize espaço suficiente para que essa área do conhecimento possa crescer e bus- car envolvimento para além dos muros da escola. 3.1 O problema da burocracia Vídeo No dicionário, o significado da palavra burocracia trata de um sistema de regras fixas, bem definidas e que cumpre determinada hierarquia. Podemos, então, dizer que o trabalho burocrático é muito importante e dele dependem uma série de organizações e determinações que têm consequências em todos os âmbitos da vida em sociedade. O que se quer discutir aqui é a separação, organização e determina- ção do trabalho puramente burocrático desenvolvido na escola, para que sua execução seja cumprida sem que, para isso, o trabalho dos profissionais esteja comprometido. Motta (2000, p. 14) fala que “a bu- rocracia monopoliza todo o conhecimento e o mantém em segredo. A burocracia tem e sempre teve no segredo uma de suas armas funda- mentais. Esse segredo é mantido através de uma hierarquia rígida que controla as informações”. Sabe-se que é um fato, nas instituições de ensino, sobretudo as públicas, a questão da burocratização do trabalho pedagógico. Ocorre que, diante de tantas ausências (recursos, mão de obra especializada), faz-se necessário remanejar o trabalho a fim de suprir as necessidades da escola. Com isso, tem-se o acúmulo e o desvio de funções dentro do âmbito escolar. A situação da burocracia escolar fica evidenciada como uma ação consciente de divisão do processo educativo em duas vertentes: de um lado, o corpo gestor da escola afundado em trâmites burocráticos, pla- nilhas, papéis e carimbos. Do outro, os professores e alunos. An dr ey _P op ov /S hu tte rs to ck In gr id B al ab an ov a/ Sh ut te rs to ck Ra wp ixe l.c om /S hu tte rs to ck XX Compreender o trabalho burocrático da Orientação Educacional. Objetivo de aprendizagem O filme Tempos modernos retrata a vida urbana nos Estados Unidos e apre- senta ao público como funciona a produção industrial, com a utilização de linhas de montagem. No filme, quando o perso- nagem principal consegue um emprego em uma grande indústria, torna-se também um líder grevista e por isso passa a ser perseguido. Temas como a desigualdade também são abordados no filme. Direção: Charlie Chaplin. Estados Unidos: United Artists, 1936. Livro Entraves e desafios da Orientação EducacionalEntraves e desafios da Orientação Educacional 3737 38 Orientação Educacional na prática Essa distância pode ser classificada como um abismo entre o grupo que pensa e o grupo que apenas executa. Como se planejar, organizar e analisar não fosse parte importante do processo pedagógico. Motta e Pereira (2004, p. 232) apontam que “a escola é amplamente burocratizada. Percebe-se isso nos exames, nos critérios de seleção, de promoção e nos programas. ‘A compulsão burocrática transparece claramente no meio acadêmico’”. No caso do orientador educacional, essa questão se torna evidente em sua rotina de trabalho. Envolvido com as questões burocráticas da escola, tais como encaminhamentos, documentos dos alunos, requeri- mentos e tantos outros tipos de padronizações, esse profissional acaba por preencher todo seu tempo com esse tipo de atividade e o seu fazer pedagógico não encontra espaço para crescer e se desenvolver como prática significativa. Na maioria das vezes, a Orientação Educacional se reduz a formulá- rios e a fichas de atendimento. Não há perspectiva de se construir um planejamento junto aos professores, tampouco alguma probabilidade de elaboração de projetos. Dessa forma, torna-se uma área obsoleta, assistencialista e totalmente apartada do trabalho pedagógico desen- volvido na escola. O debate sobre o processo de burocratização do trabalho pedagó- gico não é um tema precisamente atual. A “pedagogia das planilhas”, como identificam alguns autores, apresenta um excesso de esforço com instrumentos que acabam por comprometer o trabalho na escola. Dão a impressão de exacerbação de controle e poder, em detrimento da elaboração e planejamento de ações que potencializem as condições de ensino e aprendizagem da escola. Libâneo, Oliveira e Toschi (2007, p. 357) apontam que, “em boa parte das escolas, predomina o modelo burocrático de gestão: decisões centralizadas, falta de espírito de equi- pe, docentes ocupados apenas com suas atividades de aula, relações entre professores e alunos ainda regidas por regras disciplinares.” De acordo com os autores, uma gestão escolar pautada pelo tra- balho meramente burocrático tende a fracassar em seus objetivos pe- dagógicos. Por tratar-se de uma instituição escolar, a gestão precisa manter sua meta, seu foco e seus objetivos centrados no aluno e no processo educativo a ser desenvolvido ali. Entraves e desafios da Orientação Educacional 39 Dentro dessa realidade, na qual o orientador educacional é víti- ma do rolo compressor que é a burocratização do trabalho na escola, muitas crises, tanto de identidade quanto do próprio perfil de gestor, são desencadeadas e atingem diretamente esse profissional. Por estar na linha de frente do saber fazer pedagógico, na relação de ensino e aprendizagem, o profissional acaba por não exercer sua real função e se vê perdido e abandonado na roda viva que é a rotina escolar. No entanto, é preciso romper com essa roda viva. É de extrema im- portância uma formação de nível superior consistente para o orienta- dor, além de um esclarecimento efetivo do seu compromisso com a escola, como ambiente de construção coletiva do conhecimento. O orientador deve incitar, em seu saber fazer pedagógico, ações de caráter preventivo por meio de ideias e projetos que compartilham com os anseios da escola e que se traduzam,de alguma forma, em al- ternativas viáveis de resposta às necessidades do coletivo, sem perder o caráter de subjetividade dos sujeitos envolvidos. O papel fundamental do gestor é garantir oportunidades de poten- cializar a formação dos alunos nos aspectos da cidadania, carreira e sentimento de pertença ao mundo. Dentro da equipe gestora, o orien- tador educacional é aquela figura que participa da organização e pla- nejamento do trabalho estratégico, mas também conhece a realidade da sala de aula. Com ele, é possível garantir a aproximação da gestão às ações vivenciadas no dia a dia escolar. O orientador oportuniza o encurtamento da distância entre o olhar sistêmico de tudo que acontece na escola e o olhar micro da observa- ção dos detalhes das aulas e do planejamento dos professores. Carac- terísticas individuais dos alunos são matéria-prima de trabalho para esse profissional. Só ele pode contribuir com a percepção do todo e das partes que compõem o cenário educacional: o interior da escola. Para desenvolver essa gestão democrática e garantir a construção de uma educação de qualidade, o orientador educacional não pode fi- car refém do trabalho operacional, dos formulários e planilhas. Ele pre- cisa voltar o seu saber fazer pedagógico a uma prática de convívio entre alunos e professores, desenvolvendo os hábitos de escuta, observação, participação na comunidade e do acompanhamento dos anseios dos alunos. 40 Orientação Educacional na prática A Figura 1 ilustra o verdadeiro papel da gestão na Orientação Educacional: Figura 1 Tríade gestora da Orientação Educacional Planejamento estratégico Currículo Projetos Equipe gestora. Formação docente. Parceria com a comunidade. Fonte: Elaborada pela autora. É importante ressaltar que o trabalho do orientador educacional está muito além de administrar dossiês de alunos, com laudos e de- mais informações sigilosas. Se ele focar apenas nessa demanda, cairá novamente na armadilha burocrática do trabalho escolar. Sua prática deve estar voltada aos estudos, às pesquisas e à elaboração (em con- junto com os demais profissionais de sua equipe) de projetos e ações que contemplem as diferenças e a diversidade atendida pela escola, vi- sando incluir a todos, sem distinção, contemplando as individualidades dentro do contexto de aprendizado coletivo. Uma forma de exemplificar o que foi discutido até o momento, é pen- sar no trabalho realizado com as famílias dos alunos, o qual deve apre- sentar caráter formativo em detrimento de ações pontuais que podem ser interpretadas como dissociadas da realidade da função do orientador. 3.2 Crise identitária da profissão Vídeo Muito se fala sobre a ausência de uma identidade para o profissional da Orientação Educacional. Alguns autores já apontam essa questão em suas obras. Inclusive, chamam atenção aos perigos oferecidos por esse cenário que, além de enfraquecer as lutas dessa categoria (como uma legislação que garanta a presença do orientador nas escolas, por exemplo), ainda contribui negativamente para o reconhecimento e a valorização do profissional orientador educacional. A orientação é um processo dinâmico, contínuo, sistemático e integrado em todo o círculo escolar encarando o aluno como um ser global que deve desenvolver harmoniosamente e equilibra- damente todos os aspectos: intelectual, físico, social, moral, esté- tico político educacional e vocacional. (LÜCK, 1991, p.64) O filme Onde tudo começa conta a história de Daniel Lefebvre, professor de uma cidade pequena que está enfrentan- do uma alta taxa de desemprego. Daniel e os demais professores são aconselhados a não se envolver nos problemas da comunidade, mas para eles é impossível ignorar o que está acontecendo. Direção: Bertrand Tavenier. França: Les Filmes Alain Sarde, 1999. Filme Estudar os diferentes papéis do orientador educacional. Objetivo de aprendizagem Entraves e desafios da Orientação Educacional 41 A dificuldade da Orientação Educacional, no que diz respeito à cons- trução de um perfil identitário, perpassa justamente pela ausência do conhecimento apresentado por Lück (1991). Significa dizer que, dentro do próprio cenário educacional, a figura do orientador ainda é desco- nhecida, não reconhecida e/ou pouco valorizada. Isso ocorre não só por parte dos outros profissionais da escola, como também por parte dos alunos e, consequentemente, das suas fa- mílias. Uma vez que desconhecem essa área da educação, acabam por não recorrer a ela quando necessitam. Em virtude disso, o orientador acaba por ser caracterizado como uma figura desnecessária, excluída e alheia ao processo educativo como um todo. Diante da ausência da compreensão do conceito de Orientação Edu- cacional e, consequentemente, das atribuições inerentes à função do orientador. Ocorre que, em muitos espaços escolares, esse profissio- nal se torna mão de obra sucateada, por assumir atividades de cunho meramente burocrático, que muito se distanciam dos reais objetivos de seu trabalho pedagógico e que em nada se assemelham à realidade e necessidade dos alunos. A Orientação Educacional, de acordo com Loffredi (1976, p. 25) é “uma ação no sentido de mobilizar os agentes educativos de forma que cada um dentro de suas limitações possa de- senvolver relações significativas, com o objetivo de criar um clima edu- cativo que favoreça o processo de aprendizagem-maturação.” Dentro desse contexto equivocado, a presença do orientador passa até a ser questionada no sentido de: a Orientação Educacional, de fato, faz falta na escola? A partir da formação do orientador educacional, é possível perceber os entraves vivenciados pela categoria, haja vista todas as transforma- ções e períodos instáveis que constituem o histórico profissional da área. Diante das mudanças de legislações e da falta de acompanha- mento especializado, a Orientação Educacional foi, ao longo de sua existência, perdendo as suas características básicas e se submetendo ao que lhe era direcionado: atividades que não necessitavam de for- mação específica e que faziam parte do cotidiano da secretaria escolar, recepção da escola e demais atividades. O trabalho de Orientação Educacional dentro da relação de ensino e aprendizagem ficava em segundo plano e, na maioria dos casos, nem existia como deveria ser. A escola delegava para o orientador outras Acesse o link a seguir para ler o artigo Afetividade na sala de aula, de Patrícia Lopes. Para corroborar com a ideia de que a Orientação Educacional é muito importante dentro do processo educativo dos alunos, o artigo citado traz referências muito interessantes acerca da atuação do orientador alicerçada nas compe- tências socioemocionais apresentadas pela BNCC. Disponível em: https://educador. brasilescola.uol.com.br/orientacao- escolar/afetividade-no-contexto- sala-aula.htm. Acesso em: 21 set. de 2021. Leitura https://educador.brasilescola.uol.com.br/orientacao-escolar/afetividade-no-contexto-sala-aula.htm https://educador.brasilescola.uol.com.br/orientacao-escolar/afetividade-no-contexto-sala-aula.htm https://educador.brasilescola.uol.com.br/orientacao-escolar/afetividade-no-contexto-sala-aula.htm https://educador.brasilescola.uol.com.br/orientacao-escolar/afetividade-no-contexto-sala-aula.htm 42 Orientação Educacional na prática demandas que considerava mais urgentes sem se preocupar em dis- cutir as reais necessidades dos alunos e professores. Para Nérici (1983, p. 53), Se pode dizer que a Orientação Educacional é o trabalho conju- gado de todos os membros de uma escola, coordenados por um Orientador junto ao educando, a fim de levá-Io a integrar da melhor forma possível e sob todos os aspectos, com base na sua realidade biopsicossocial, tendo em vista integrá-Io na sociedade, com base em uma atividade profissional, para torná-Io um cidadão consciente, eficiente e responsável. Concordamos com a autora sobre o conceito atual de Orientação Educacional. Diante dessa compreensão,percebemos o choque entre a teoria e a realidade experienciada por muitos orientadores nas escolas. Outro ponto de extrema relevância na discussão sobre a crise de identidade do orientador diz respeito às suas bases legais. A legislação brasileira relativa ao orientador educacional tomou como base, ao lon- go dos anos, teorias equivocadas que provocaram profundas lacunas na construção do perfil desse profissional. A Orientação Educacional já teve o acolhimento de “alunos-proble- ma” como objetivo, bem como o entretenimento e lazer deles. Também já teve seu foco voltado às áreas psicológica, profissional, familiar e da saúde. Já foi até mesmo direcionada para o atendimento exclusivo de prevenção psicológica dos alunos da Educação Básica. Esse vai e vem das metas propostas para essa profissão tornou-a uma incógnita para muitos dentro do âmbito escolar e contribuiu, sobremaneira, para a re- dução do entendimento do que, de fato, faz um orientador educacional. Amparadas pela lei, essas transformações foram sendo acompa- nhadas pelos cursos de nível superior que formam os profissionais da área da Orientação e esses, ao longo do processo, também foram to- mados por diferentes características, de acordo com o que se preten- dia desenvolver na figura do orientador educacional. Ora formado para atender psicologicamente o aluno, ora focado apenas na orientação profissionalizante, o orientador foi se consti- tuindo um profissional que não apresentava um perfil sólido, capaz de impor respeito e transmitir segurança suficiente para conquistar seu espaço dentro do universo educativo. Entraves e desafios da Orientação Educacional 43 Somente com a Lei n. 5.692 de 1971 é que a sua presença na escola ficou garantida, ainda que com uma visão limitada e distorcida de sua função. O debate sobre a participação efetiva da Orientação Educacional no processo formativo dos alunos, buscando fazer a diferença na socie- dade, só ganhou força quando surgiram as primeiras discussões sobre o papel do orientador educacional, relacionando-se com as possíveis interações entre a escola e o território onde ela se insere, mais especi- ficamente, entre os alunos e a realidade que os cerca. Dessa forma, a Orientação Educacional timidamente começa a de- senhar seu perfil, no qual deve prevalecer os aspectos pedagógicos em detrimento dos aspectos assistencialistas, fortemente disseminados até então. Diante do exposto, muitos são os questionamentos tanto sobre a existência do orientador quanto a sua permanência como parte funda- mental do corpo gestor da escola. Com um histórico desfavorável no que diz respeito a essa discussão, a Orientação Educacional, em contra- partida, vem lutando para sobreviver no cenário educativo. De acordo com Giacaglia e Penteado (2002, p. 15), “participando do planejamento e da caracterização da escola e da comunidade, o orientador educacio- nal poderá contribuir, significativamente, para decisões que se referem ao processo educativo como um todo.” A presença do orientador educacional responde diretamente às ne- cessidades do trabalho em equipe junto ao corpo de gestão da escola. Somente alinhado aos demais profissionais, as contribuições podem se tornar efetivas e serem uma mola propulsora do desenvolvimento formativo dos alunos, dos professores e da comunidade. A prática do orientador educacional está diretamente ligada ao ato de aprender e construir conhecimento, incluindo o seu próprio. Esse profissional busca, em seu fazer pedagógico, a observação e a análise para interagir propondo estratégias e intervindo no processo educativo dos alunos para que a aprendizagem ocorra de maneira a fazer sentido aos envolvidos e dialogar de modo intrínseco com a realidade da escola e da comunidade. Ao influenciar na formação do aluno, o orientador educacional in- fluencia também, mas indiretamente, na didática docente e, conse- 44 Orientação Educacional na prática quentemente, na maneira de ensinar e aprender da escola. Sobre isso Hernandez (1998, p. 12) nos diz que: procura-se transgredir a visão do currículo escolar centrada nas disciplinas, entendidas como fragmentos empacotadas em com- partimentos fechados, que oferecem ao aluno algumas formas de conhecimento que pouco têm a ver com os problemas dos saberes fora da Escola, que estão afastados das demandas que diferentes setores sociais propõem à instituição escolar e que têm a função, sobretudo, de manter formas de controle e poder sindical por parte daqueles que se concebem antes especialistas do que como educadores. Atualmente, é urgente e necessário elencar critérios e construir pa- râmetros que, dialogando entre si, sejam capazes de imprimir, no meio educacional, a marca do orientador, reunindo características que com- põem o seu perfil e buscam edificar o processo pedagógico da escola na qual está inserido. O papel do orientador educacional é sustentar o seu trabalho educativo, baseando-se no centro dos estudos da Orien- tação Educacional: o aluno. 3.3 Desatando os nós Vídeo Como transformar a prática da Orientação Educacional em uma práxis pedagógica de excelência? Quais as estratégias necessárias para atender às reais necessidades dos alunos? De que perfil de orienta- dor educacional estamos falando? Essas e outras questões rondam o trabalho do orientador e exercem influência significativa em seu saber fazer educativo. De acordo com Grinspun (2003, p. 149-150): A prática de orientador, hoje, deve estar em procurar ajudar o aluno a construir o conhecimento, a facilitar as condições de aquisição desse conhecimento, promovendo as interações e toda a teia de relações que envolva o sujeito e o meio. Os sen- timentos permearão todo o processo e o seu significado será valorizado na construção pretendida. É com esse desafio que o orientador, na prática, terá que lidar: ajudar o aluno, orientá-lo no sentido de permitir viver seus desejos, sonhos e paixões, que se inter-relacionam com os saberes, com os fazeres, com o pró- prio conhecimento. Diante dos ranços do passado e dos percalços vividos pelo orienta- dor na construção da sua carreira, os esforços para que o seu trabalho Construir possibilida- des de um trabalho de Orientação Educacional significativo. Objetivo de aprendizagem Entraves e desafios da Orientação Educacional 45 seja reconhecido, valorizado e encontre espaço no ambiente escolar, devem apontar para a relação dos alunos com o meio em que vivem: a escola, a família, a comunidade e/ou a sociedade. É na mediação dessa relação que a Orientação Educacional deve atuar, de modo a enrique- cer as possibilidades e aprimorar as habilidades e as competências dos sujeitos, criando oportunidade de crescimento em todos os setores da vida dos alunos. Na busca por compreender seu papel como corresponsável na so- ciedade, deixando muito claro suas subjetividades, os alunos devem contar com o suporte do orientador educacional no processo de elu- cidação, tanto de enxergar a si quanto o seu espaço no coletivo. Os estudantes precisam ter clareza do papel desse profissional, para bus- cá-lo como meio de alicerçar a construção de suas individualidades e vislumbrar um caminho de ascensão não apenas profissional, mas, so- bretudo, de formação de hábitos, atitudes e valores que servirão como base para a vida em comunidade. A Orientação Educacional se caracteriza como um ambiente de es- cuta atenta, um espaço democrático para se exercer a cidadania e apri- morá-la. Martins (1984, p. 97) aponta que A Orientação Educacional (OE) é um processo organizado e per- manente que existe na escola. Ela busca a formação integral dos educandos (este processo é apreciado em todos seus aspectos, tido como capaz de aperfeiçoamento e realização), através de conhecimentos científicos e métodos técnicos. A Orientação Educacional é um sistema em que se dá através da relação de ajuda entre Orientador, aluno e demais segmentos da escola; resultado de uma relação entre pessoas, realizada de maneiraorganizada que acaba por despertar no educando oportunida- des para amadurecer, fazer escolhas, se auto conhecer e assumir responsabilidades.. O conhecimento sobre a realidade dos alunos, bem como a parceria com a comunidade, famílias e demais instâncias no entorno da escola onde estão inseridos, conferem ao trabalho do orientador educacional um caráter de legitimidade. Estar ciente dos anseios dos alunos, suas limitações e seus sonhos faz com que o orientador ultrapasse o campo escolar e atue para além dos muros da escola. No filme Encontrando Forrester, o personagem Jamal Wallace é um adolescente ganha uma bolsa de estudos em uma escola considerada de elite e passa a viver expe- riências em um mundo muito diferente de seu co- tidiano. Diante dessa nova realidade, ele desenvolve uma grande amizade com um escritor que passa a ser uma espécie de tutor para ele, com quem Jamal aprenderá muitas coisas importantes, as quais levará para sua vida. Direção: Gus Van Sant, Estados Unidos: Columbia Pictures, 2000. Filme 46 Orientação Educacional na prática No campo da Orientação Educacional, é possível criar oportunida- des de contribuição na formação cultural dos alunos, organizando, por exemplo, o grêmio estudantil, uma rádio escolar e/ou um jornal. Veícu- los nos quais os alunos serão os protagonistas, orientados e mediados pelo orientador. Todas essas ações são de responsabilidade dele e de- vem contar com a parceria da comunidade que, por sua vez, precisa ver na escola, um espaço democrático de diálogo. Transformar a escola em um palco de fóruns, discussões e deba- tes sobre os temas da atualidade também é uma das estratégias de trabalho do orientador educacional. É por meio da sua mediação que os alunos têm contato com os assuntos relevantes para a sociedade e conseguem fazer analogias pertinentes com sua realidade local. Evoluir o pensamento crítico, por meio de estudos e pesquisas é uma maneira eficaz de construção de princípios, não apenas para a vida escolar, mas para toda a sua trajetória. Para Lück (2009, p. 82): Educação é processo humano de relacionamento interpessoal e, sobretudo, determinado pela atuação de pessoas. Isso por- que são as pessoas que fazem diferença em educação, como em qualquer outro empreendimento humano, pelas ações que pro- movem, pelas atitudes que assumem, pelo uso que fazem dos recursos disponíveis, pelo esforço que dedicam na produção e alcance de novos recursos e pelas estratégias que aplicam na re- solução de problemas, no enfrentamento de desafios e promo- ção do desenvolvimento. Outro elemento muito importante é a interdisciplinaridade, ela é constituinte de um trabalho pedagógico de extrema relevância dentro da prática do orientador educacional. Estando próximo dos alunos é fácil saber seus interesses e o modo como enxergam as coisas do mundo. Dessa forma, o orientador edu- cacional faz a ponte dessas informações junto aos professores, cons- truindo coletivamente o planejamento interdisciplinar. Lado a lado com a equipe docente, ele abre o diálogo entre o currículo e as estratégias metodológicas necessárias para trazer à pauta os temas que fazem parte da vida dos alunos, com o propósito de ampliar a visão de mun- do deles. De acordo com Urbanetz e Silva (2008, p. 54) “uma proposta pedagógica inovadora não pode perder de vista as metas a atingir. [...] A gestão pedagógica que não tem consciência de seu papel no processo de mudança repete cegamente as práticas já existentes, sem o questionamen- to sobre a realidade social que a escola se insere”. Entraves e desafios da Orientação Educacional 47 Faz parte das atribuições do orientador educacional: o fomento das inovações pedagógicas, no que diz respeito às práticas educativas sig- nificativas; a instrumentalização dos professores quanto aos recursos diferenciados para atender às necessidades dos alunos; e o estímulo para a formação de grupos de estudo que contemplem a pesquisa e a produção acadêmica como parte dos afazeres dos professores. Tudo isso sempre com o intuito de aprimorar e potencializar o pro- cesso de aprendizagem dos alunos, aumentando suas chances de êxito em todos os setores da vida. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, foi possível compreender melhor os desafios enfren- tados pelo orientador educacional e a sua importância dentro do espaço da escola. Além de facilmente entender como o orientador pode ver sua função sucateada, desviada e, até mesmo, sendo exercida por alguém sem qua- lificação específica, serve de alerta para esse profissional que, além de necessitar demarcar seu território no âmbito escolar, também precisa ter compreensão de suas atribuições, seu perfil e identidade. Assim, o orientador educacional deve exercer uma presença significa- tiva nas instituições de ensino, tomar posse do seu lugar de direito e bus- car parcerias para a consolidação de um trabalho pedagógico essencial e relevante. É muito importante contar com o apoio dos demais profissionais en- volvidos no processo educativo construído na escola. Esse reconhecimen- to profissional dá força e corpo para as discussões acerca dessa área de conhecimento. É necessário estudo constante e vínculo com toda a comunidade esco- lar para realizar um trabalho pedagógico consistente. O trabalho em equi- pe com os professores é a melhor estratégia para contribuir, de modo significativo, com o trabalho desenvolvido. Ter clareza sobre o seu papel e saber a sua importância dentro da área educacional é de grande valia para o orientador. Durante seu processo formativo, é preciso focar em tais questões a fim de preparar esse profis- sional para a realidade escolar. É essencial que o espaço da prática de Orientação Educacional seja reconhecido e valorizado por todos os sujeitos que fazem parte dela: ges- tão, professores, alunos, famílias e comunidade. 48 Orientação Educacional na prática ATIVIDADES Atividade 1 A respeito da burocratização do trabalho do orientador educacional, descreva como é possível desvencilhá-lo desse tipo de atividade. Atividade 2 Cite uma razão pela qual é possível perceber a crise de identidade que caracteriza o orientador educacional, profissionalmente falando. Atividade 3 Aponte duas estratégias das quais o orientador educacional pode lançar mão para contribuir significativamente no processo educativo dos alunos. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei n. 5.692, de 11 de agosto de 1971. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 12 ago. 1971. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970- 1979/lei-5692-11-agosto-1971-357752-publicacaooriginal-1-pl.html. Acesso em: 30 set. 2021. GIACAGLIA, L. R. A.; PENTEADO, W. M. A. Orientação educacional na prática: princípios, técnicas, instrumentos. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. GRINSPUN, M. P. S. Z. A Orientação Educacional: conflito de paradigmas e alternativas para a escola. São Paulo: Cortez, 2002. GRINSPUN, M. P. S. Z. Supervisão e orientação educacional. São Paulo: Cortez, 2003. GRINSPUN, M. P. S. Z. (org.) A prática dos orientadores educacionais. São Paulo: Cortez, 1994. HERNÁNDEZ, F. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. 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Curitiba: IBPEX, 2008, p. 53-62. Possibilidades da profissão 49 4 Possibilidades da profissão Neste capítulo, discutiremos as possibilidades da profissão do orien- tador educacional. Em um primeiro momento, trataremos da Orientação Educacional no ambiente escolar, trazendo a realidade da função do orientador e as variáveis que cercam a prática. O intuito é colaborar com o debate a respeito da relevância da profissão e os prejuízos causados por sua ausência nas escolas. O segundo ponto que abordaremos é o trabalho do orientador diante das situações de fracasso escolar, como a saúde da criança, seu abando- no, a negligência familiar, o bullying e as dificuldades de aprendizagem. Debateremos sobre o papel do orientador diante dessas demandas, pois é de suma importância que o profissional saiba analisá-las para encontrar alternativas viáveis de intervenção. O objetivo é contribuir de maneira po- sitiva com a formação de alunos que vivenciam essas condições. Outra questão muito importante que diz respeito à Orientação Educacional são as competências socioemocionais. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) deixa muito claro o objetivo da educação, que é realizar um trabalho pedagógico para além dos conteúdos, alinhando o conhecimento acadêmico com o desenvolvimento de habilidades que retratem o perfil do sujeito, bem como suas áreas de interesse e seus desafios. Nesse campo da aprendizagem, o orientador é a figura capaz de liderar esse trabalho. Ressaltamos que as discussões sobre Orientação Educacional devem ser construídas com seriedade, a fim de que se obtenham bases argu- mentativas sólidas que garantam a efetividade do trabalho educativo desse profissional nas escolas. 4.1 O espaço de trabalho do orientador educacional Vídeo O debate sobre a presença do orientador educacional na escola não é atual. Muito já se escreveu sobre essa profissão e seus entraves na forma- ção acadêmica, nas atribuições e na legislação específica. Em se tratando do espaço de trabalho do orientador, não podemos tomar outro caminho que não seja a escola. É no espaço escolar que esse profissional deve exercer sua função e, assim, contribuir de ma- neira efetiva com o processo educativo dos alunos. A presença do orientador na escola pode ser exercida de diferen- tes maneiras. Vamos tratar aqui de três diferentes tipos de experiência que podem ser construídos pelo orientador dentro do ambiente es- colar, entendendo que muitas outras formas de atuação significativa podem ser estabelecidas no exercício de sua função. O primeiro deles é a experiência da elaboração do projeto denomi- nado de escola de pais. Um dos grandes desafios do orientador é apro- ximar a escola e a família, atraindo os pais para dentro do ambiente escolar de modo ativo e propositivo. Sabemos que a participação da família no processo de aprendizagem do aluno é de suma importância para o êxito dele, permitindo que obtenha o melhor desempenho aca- dêmico, social e emocional. Entretanto, para que a escola crie vínculo com a família, é necessá- rio que ambas tenham total compreensão de seus papéis no processo educativo; nesse sentido, o orientador educacional é quem desempe- nha o papel de construtor de elo. De acordo com Souza (2010 apud Martins, 1984, p. 13): o Orientador ao elaborar seu planejamento precisa detectar quais são as reais perspectivas da família em relação à progra- mação que a escola e o serviço de orientação educacional vão oferecer ao educando, neste sentido deve-se levantar dados de quais as reais possibilidades de assistência e participação dos pais na vida escolar dos filhos. A escola de pais é uma alternativa para construir um trabalho con- sistente com as famílias atendidas é elaborar ações de formação de pais e responsáveis por meio da escuta atenta dos grupos, organizando en- contros nos quais seja tratado de temáticas próprias das faixas etárias dos filhos e de assuntos da atualidade e, sobretudo, oportunizado espaço para discussão dos problemas enfrentados na comunidade, das dificuldades encontradas na escola e de outros pontos que o orien- tador julgar relevantes. Entender o papel do orientador educacional no espaço escolar. Objetivo de aprendizagem Pi xe l-S ho t/S hu tte rs to ck 5050 Orientação Educacional na práticaOrientação Educacional na prática Possibilidades da profissão 51 O vínculo com os pais deve ser articula- do para além da convocação de reuniões ou das conversas sobre o desempenho dos filhos. Criar uma relação de parceria com as famílias no cotidiano da escola é o pri- meiro passo para motivar os familiares a fazer parte do movimento do dia a dia escolar como um todo. Para tanto, se faz necessário estabelecer canais efetivos de comunicação entre a escola e as famílias, possibilitando o estreitamento do vínculo e da parceria nos projetos e nas demais ações da rotina escolar. É muito importante ressaltar que a ação de acolher os pais não é uma função restrita ao corpo gestor, devendo ser desencadeada por todos os sujeitos envolvidos no processo educativo da escola. Uma ideia bastante interessante é chamar as famílias para contri- buírem naquilo que sabem fazer de melhor, seja contar a história do bairro e da comunidade; explicar quais são os desafior enfrentados e como a escola pode contribuir, entre outros. Significa aprofundar o conhecimento da comunidade escolar a fim de contar com o apoio dos pais para ajudar na construção de parcerias entre a gestão e a comunidade, partindo da sua própria visão da escola e do trabalho nela desenvolvido. A propaganda “boca a boca” ainda é a forma mais eficaz de verificar o êxito das ações escolares diante das dificuldades evidenciadas na comunidade. O orientador deve, portanto, trabalhar com as famílias a responsa- bilidade social e os valores pregados pela escola. Considerar temáticas que representam os anseios da comunidade é uma estratégia bastante exitosa, pois, ao ver sentido no trabalho escolar, os pais passam a não apenas acompanhar os resultados, mas também a contribuir com o que de fato traz benefícios para todos os envolvidos. Os projetos encabeçados pelo orientador podem seguir a linha do micro (ações pontuais, como caminhada para conhecer o bairro) para o macro (abordagem de problemáticas mais abrangentes, como discussão da mobilidade urbana e acessibilidade no bairro), objetivan- do estruturar a relação escola e família no âmbito do enriquecimento da aprendizagem dos alunos. Studio Romantic/Shutterstock 52 Orientação Educacional na prática Essas são apenas algumas sugestões de trabalho com a escola de pais que deixam evidente a atuação do orientador educacional. Diante de todas as ideias aqui elencadas, as práticas pedagógicas es- tão sempre em pauta e servem como pano de fundo para a relação com a comunidade. O segundo tipo de experiência é a presença do orientador educacio- nal na sala de aula, no contato direto com os alunos. Nesse momento, é possível desenvolver uma série de projetos voltados para socialização, habilidades socioemocionais, diversidade e outros temas condizentes com a realidade dos alunos. Para Grinspun (2011, p. 24): a educação é uma prática social, e a Orientação deve ser vista como uma prática que ocorre dentro da escola, mas cujas ativi- dades podem e devem ultrapassar seus muros; uma prática que caminha no sentido da objetividade, da subjetividade e da totali- dade da Educação. É perceptível que a Orientação está cada vez mais junto à Educação como um todo, na busca das finalidades de um projeto político-pedagógico formulado para a escola, em favor de seus próprios alunos. As intervenções na sala de aula podem ser organizadas de manei- ra sistemática, e sua periodicidade irá depender do objetivo do tra- balho. Projetos com prazos curtos deexecução podem apresentar ações específicas. Já trabalhos com resultados previstos a longo pra- zo necessitam de contato frequente com os alunos. A esse respeito, Grinspun (2011, p. 29) afirma que “o papel do orientador educacional na dimensão contextualizada diz respeito, basicamente, ao estudo da realidade do aluno, trazendo-a para dentro da escola, no sentido da melhor promoção do seu desenvolvimento”. Com a prática docente do orientador, o trabalho desenvolvido torna-se muito mais consistente e significativo para os alunos e acaba gerando resultados positivos para toda a escola. Grinspun (2011, p. 64) coloca que o orientador precisa refletir sobre o aluno no sentido de: desvelá-lo, trazendo à tona o que está oculto, menosprezado ou alienado; analisá-lo, priorizando o que, para o indivíduo, é o essencial, o relativo, o articular, o coletivo, o duradouro, o efêmero, o transformador, o ameaçador etc.; relacioná-lo com os outros cotidianos com os quais o indivíduo convive. Estou mencionando e caracterizando o cotidiano escolar, mas temos outros também: o familiar, o dos amigos, o do trabalho, o da religião, o pessoal etc.; discuti-lo, interrogando sobre as No link a seguir você poderá consultar mais informações sobre a escola de pais, além de aprender como montar um projeto de formação para essa escola. Disponível em: https://escoladepais. org.br/. Acesso em: 22 out. 2021. Saiba mais https://escoladepais.org.br/ https://escoladepais.org.br/ Possibilidades da profissão 53 determinações e obrigações, sobre as ambiguidades, sobre as diferenças e desigualdades; compreendê-lo, contextualizan- do a trama das relações que dele provêm e dos dramas que ele pode nos provocar se não tivermos a consciência de que em parte somos também responsáveis pelo cotidiano escolar; visualizá-lo, identificando o aproveitamento do espaço/tempo em que ele ocorre, da mesma forma como acontecem as to- madas de decisão na escola. O impacto da presença do orientador na sala de aula é extrema- mente positivo na medida em que o profissional elabora intervenções de acordo com a proposta pedagógica da escola, as diretrizes metodo- lógicas e, principalmente, o currículo a ser trabalhado com os alunos. Como terceiro e último exemplo de experiência apresentamos o tra- balho do orientador com os professores em dois pontos principais: o currículo e a formação docente. A principal contribuição do orientador no aspecto do currículo é pro- por mudanças no sentido de agregar significado aos assuntos e conteú- dos trabalhados com os alunos. Aproximar a didática dos professores da realidade dos alunos e fazer com que estes se enxerguem enquanto sujeitos de direitos é o objetivo do orientador ao propor a discussão do currículo. Trabalhar com o currículo é fazer com que essa ferramenta pedagógica seja motivo de constante reflexão do corpo docente. O trabalho formativo com os professores possibilita o debate so- bre o currículo e traz alternativas de desenvolvimento do processo educativo. O orientador é capaz de contribuir com a discussão de metodologias eficazes que oportunizem aos alunos situações signifi- cativas de aprendizagem. Esse trabalho passa pela análise, construção e acompanhamento do currículo da escola. O orientador precisa compreender o conceito de currículo e o papel que ele desempenha no processo pedagógico com os professores. Para essa discussão, entenderemos o currículo como o conjunto de informações diretamente ligadas ao processo de ensino e aprendiza- gem dos alunos, organizado de modo a dar forma ao trabalho pedagó- gico a ser construído no cotidiano escolar. A concepção de currículo passa pela necessidade de integrá-lo em suas diversas áreas: cognitiva, social e afetiva. Cabe ao orientador 54 Orientação Educacional na prática Sa vic ic /S hu tte rs to ck educacional assumir o papel de mediação entre o currículo e o grupo docente da escola no sentido de fazer com que os assuntos a serem trabalhados contemplem a realidade dos alunos e seus interesses e que respondam às necessidades de desenvolvimento das habilidades e competências dos diferentes grupos atendidos. Dessa forma, o currículo deixa de ser considerado apenas como os componentes curriculares a serem estudados e passa a ser encarado como a totalidade das vivências que integram o sujeito na sociedade, capacitam-no para a resolução de problemas e potencializam as alter- nativas de êxito em todos os setores de sua vida. Se o papel da Orientação Educacional é auxiliar na formação dos alu- nos, a fim de contribuir no seu processo de escolha, os fatores que põem em prática o currículo não podem separar orientador e professores. A Orientação Educacional e os professores precisam realizar um trabalho que integre suas atividades. Um currículo com base nos prin- cípios da Orientação propicia o crescimento do aluno por meio de ex- periências pedagógicas significativas, retratando a sua caminhada ao longo da trajetória educacional e reunindo todas as experiências peda- gógicas oportunizadas pela escola. 4.2 Fatores que influenciam o fracasso escolar Vídeo Ao tratarmos das dificuldades de aprendizagem dos sujeitos, é ne- cessário compreendermos as limitações, como elas influenciam o pro- cesso educativo e, principalmente, o papel do orientador educacional no auxílio a esses alunos. Esse é sem dúvida um ponto ao qual o orientador precisa es- tar atento. Ao acompanhar o trabalho dos professores, o profissio-• Compreender os fato- res que influenciam no fracasso escolar. Objetivo de aprendizagem Possibilidades da profissão 55 nal consegue ter um panorama dos avanços e das dificuldades de aprendizagem enfrentadas pelos alunos em seu desenvolvimento pedagógico. Conhecer a fundo o trabalho realizado pelos docen- tes é fundamental para que as dificuldades de aprendizagem se- jam discutidas com todos os envolvidos, e as alternativas viáveis de superaçãosejam encontradas. O papel do orientador educacional na discussão das dificuldades de aprendizagem dos alunos é essencial para que as situações sejam analisadas e acompanhadas e os planos de ação sejam traçados a fim de que essas dificuldades possam ser superadas. Entendemos por dificuldade de aprendizagem toda e qualquer li- mitação apresentada pelo sujeito dentro do seu processo educativo. As dificuldades são divididas em dois grupos distintos: os transtornos e as questões circunstanciais. O transtorno de aprendizagem abrange características espe- cíficas dos indivíduos, geralmente de ordem genética, neurológica e até como consequência de situações de negligência familiar. De acordo com o Sulkes (2020), no manual MSD, o livro médico mais vendido no mundo e mais continuamente publicado (última versão atualizada em 2018), transtornos de aprendizagem “envolvem uma incapacidade de adquirir, reter ou usar habilidades ou informações gerais, o que resulta de dificuldades com a atenção, com a memória ou com o raciocínio e afeta o desempenho acadêmico”. Sendo assim, o transtorno (ou distúrbio) indica uma questão de saú- de, que pode ou não vir a ser desencadeada por algum trauma sofrido e ter sua origem na formação genética/neurológica do sujeito. Alunos que apresentam transtornos de aprendizagem possuem comprometimentos cognitivos relevantes em seus processos educa- tivos, uma vez que o desenvolvimento pedagógico se torna limitado devido às dificuldades enfrentadas. O impacto negativo na escolari- dade é evidente. Entre os vários distúrbios de aprendizagem existentes, o quadro a seguir apresenta os considerados mais comuns de serem diagnostica- dos em parceria com a escola. 56 Orientação Educacional na prática Quadro 1 Transtornos de aprendizagem Tipos Conceito De ordem escrita e oral Dislexia Dificuldade de ler, escrever e compreender a linguagem escrita; geral- mente resultante de anormalidades congênitas cerebrais, afetando as áreas da linguagem, produção do som e fala. De ordem escritaDisgrafia Alteração que afeta a construção da escrita, no que se refere à grafia e ao traçado das letras. Geralmente, a escrita apresenta-se de manei- ra não elaborada. De ordem oral Dislalia Alteração da fala que impossibilita articular e pronunciar algumas pala- vras, principalmente quando possuem “R” ou “L”, por exemplo. De ordem lógico-matemática Discalculia Má-formação neurológica que prejudica o aprendizado dos números. Causa dificuldade em identificar sinais matemáticos, montar operações, classificar números, entender princípios de medida, seguir sequências, compreender conceitos matemáticos, relacionar valores de moedas etc. Pode ser dividida em seis tipos: léxica, verbal, gráfica, operacional practognóstica e ideognóstica. Fonte: Elaborado pela autora. As questões que não se encaixam como distúrbio são chamadas de dificuldades circunstanciais de aprendizagem que, em algumas situações, podem vir a se tornar transtornos. Essa discussão é muito re- levante para o trabalho da Orientação Educacional, pois a intervenção do orientador é fundamental para o avanço dos alunos. O acompanhamento da rotina dos alunos permite ao orientador com- preender várias situações ocorridas no cotidiano que acabam refletindo no processo educativo, como questões de saúde. Sempre que um aluno se ausenta da escola por motivos de saúde, o orientador deve realizar o atendimento à família para entender o caso e pensar, com os professores, qual será a forma ideal de suporte a ser oferecido pela escola durante casos de afastamento e tratamento. O objetivo é garantir que a aprendizagem possa acontecer, mesmo dian- te de problemas de saúde. Dependendo da situação de saúde enfrentada pelo aluno, o orien- tador pode organizar, com os professores, o envio periódico das ati- vidades que serão realizadas pela turma durante a sua ausência. Em comum acordo com a família e de posse das informações necessárias sobre o estado de saúde do aluno, esse envio pode ser tanto de ativi- dades que ficariam pendentes quanto de exercícios extras para ocupar o tempo e/ou recuperar a aprendizagem de assuntos nos quais o aluno apresente dificuldades, em uma espécie de reforço escolar. Possibilidades da profissão 57 No caso de o aluno precisar se afastar das aulas por motivo de longos tratamentos e pe- ríodos de internação. O orientador precisará estabelecer uma parceria com o profissional do hospital – o pedagogo hospitalar – para que, junto dele, possam ser estabelecidas estratégias de aprendizagem, levando-se em conta o estado de saúde do aluno e sua disposição para a realização dos estudos durante o tratamento (possíveis efeitos co- laterais das medicações etc.). Outro fator que acarreta prejuízo ao aprendizado e pode ter como consequência o fracasso escolar é a si- tuação de abandono por parte dos responsáveis pelo aluno, desde au- sência de material escolar, atrasos constantes e até mesmo situações mais graves, como negligência dos assuntos escolares do filho e isen- ção das responsabilidades pela sua formação como um todo. Todos esses casos devem ser de conhecimento do orientador e encami- nhados para os órgãos competentes. O profissional precisa realizar o acom- panhamento, servindo como testemunha em muitos momentos. Sempre que abordamos o fracasso escolar, a figura do orientador educacional é lembrada como o profissional capacitado para mediar as situações de aprendizagem prejudicadas pelas dificuldades e pe- los transtornos. É ele quem vai explicar aos professores as condições reais do aluno e oferecer alternativas para que o processo educativo possa ser desenvolvido com adaptações e adequações, garantindo, assim, a aprendizagem. Para Grinspun (2011, p. 90), esse trabalho deve ser pautado em: discussão sobre o fracasso escolar à luz da realidade existente (dimensão social) e da regulação das normas dentro do sistema e da escola (dimensão pedagógica); viabilização de meios para que haja uma complementação das lacunas existentes, a fim de que não se efetive e cristalize o fracasso escolar (trabalhos inde- pendentes, grupos de apoio, monitorias etc.); discussão dos me- canismos que temos para que a superação do fracasso ocorra pela via da própria escola, não só dos sistemas, mudando nomes e denominações para camuflar o próprio fracasso, em termos de repetência, por exemplo; união com os alunos desmistifican- do o fracasso como sendo responsabilidade unicamente deles; O vídeo Desafio profissão – Pedagogia hospitalar, do canal TVPUC, é extrema- mente relevante para conhecer a pedagogia hospitalar e os desafios na prática. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=FGzHfNTjj5w. Acesso em: 22 out. 2021. Vídeo Se ve nt yF ou r/ Sh ut te rs to ck https://www.youtube.com/watch?v=FGzHfNTjj5w https://www.youtube.com/watch?v=FGzHfNTjj5w https://www.youtube.com/watch?v=FGzHfNTjj5w 58 Orientação Educacional na prática trabalhar a autoestima e as fontes viáveis de eliminação do fra- casso (há alunos que repetiram várias vezes a mesma série do ensino fundamental, por exemplo, e já internalizaram o discur- so de incompetentes e incapazes); disponibilização de espaços para que os alunos enriqueçam e aprofundem seu conhecimen- to, como forma de apostar na autoestima e indiretamente ter melhores condições de desafiar o próprio fracasso (verificar e estimular aquilo em que o aluno tem melhores resultados: arte, esporte, música, linguagens etc.). O fracasso escolar pode apresentar diferentes origens na trajetória educativa individual dos sujeitos, pudemos observar que os distúrbios e/ou dificuldades de aprendizagem apresentam como consequência o fracasso escolar, representado muitas vezes pela retenção do aluno na mesma série/ano por se considerar que ele, ao longo de todo o ano letivo, não alcançou as expectativas para a faixa etária. O artigo As causas do fracasso escolar na percepção de professores do Ensino Fundamental, das autoras Fernanda Aparecida Szareski Pezzi e Angela Helena Marin, publicado no X Anped Sul em 2014, é uma ótima fonte para que você aprofunde seus estudos acerca da temática do fracasso escolar. Acesso em: 22 out. 2021. http://xanpedsul.faed.udesc.br/arq_pdf/837-0.pdf Artigo Outro fator que pode vir a desencadear o fracasso no processo edu- cativo é o fato de os assuntos trabalhados, reunidos no currículo, não serem parte da realidade do aluno, fazendo com que ele se distancie das atividades, não se sentindo pertencente ao próprio processo peda- gógico da escola. O combate ao bullying é um exemplo claro do acompanhamento da Orientação Educacional com relação às dificuldades de aprendi- zagem e demais situações que podem culminar no fracasso escolar. Episódios de perseguição, exposição e importunação podem evoluir para graves transtornos e prejudicar o processo educativo como um todo. De acordo com Almeida (2008, p. 10), “bullying é o ato de praticar ou se envolver em violência, seja ela física ou psicológica, de comportamento agressivo, intencional e negativo com execução re- petida da ação, envolvendo crianças e adolescentes que apresentam relacionamento com desequilíbrio de poder”. http://xanpedsul.faed.udesc.br/arq_pdf/837-0.pdf Possibilidades da profissão 59 Rido/Shutterstock O bullying é uma das formas de violência mais velada que ocorre na escola. São epi- sódios tão específicos e muitas vezes car- regados de sutilidade que nem sempre são percebidos pelos profissionais da es- cola. Os alunos que sofrem situações de bullying nem sempre têm coragem sufi- ciente para relatar e pedir ajuda. Tudo isso corrobora a não tratativa dos casos pela escola, gerando angústia e desmotiva- ção nesses alunos, impactando os resultados de aprendizagem. Concordamos com Lopes Neto (2005, p. 24) quando o autor coloca que o bullying é: a forma mais comum de violência entre crianças e adolescentes, podendo causar traumas irreversíveis, como medo, insegurança, vingança e até mesmo suicídio nas vítimas. Também podem dei- xarsequelas nos próprios agressores como, por exemplo, danos físicos e psicológicos, agressividade e comportamento antisso- cial. [...] A ocorrência de bullying é muito mais frequente do que se pode imaginar, admitindo-se, inclusive, que seria esta a forma mais comum de violência entre crianças e adolescentes. Para responder a essas situações, o orientador educacional deve atuar no sentido de desenvolver projetos que conscientizem e traba- lhem a formação não só dos alunos, mas também das famílias e de todos os profissionais da escola. É preciso fortalecer as relações e os vínculos de socialização e convivência no interior da escola. Jo ch en S ch oe nf el d/ Sh ut te rs to ck No filme As vantagens de ser invisível você conhe- cerá a história de um adolescente que retorna à escola após um período afastado por motivos (emocionais) de saúde e passa a ser vítima de bullying. Com o passar do tempo, ele constrói uma linda amizade com seu professor e consegue fa- zer mais dois amigos, com os quais passa a dividir as alegrias e frustrações dessa fase de sua vida. Direção: Stephen Chbosky. EUA: Summit Entertainment, 2012. Filme DIGA NAO AO BULLYING! https://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-146685/ 60 Orientação Educacional na prática As ações de combate ao bullying devem ser de responsabilidade do orientador educacional, que precisa contar com o apoio dos professores e integrantes da equipe gestora. Assim, para que todos possam se unir diante dessa importante demanda, é necessário estu- dar, compartilhar saberes acerca da temática e envolver a comunidade escolar. De acordo com Chalita (2008, p. 203) “o primeiro passo é organi- zar o trabalho coletivo, envolvendo tanto os professores quanto os demais profissionais ligados à escola, e estabelecer uma estratégia de ação focada em três objetivos: neutralizar os agressores; auxiliar e proteger as vítimas; transformar os espectadores em aliados”. Diante dessa realidade, o orientador educacional precisa realizar um trabalho de conscientização de todos os envolvidos a respeito dos prejuízos causados no desenvolvimento educativo das vítimas de bullying, pois estas apresentam fragilidades tanto emocionais quanto sociais. Também é muito importante alertar para os sinais de que algo está comprometendo o bem-estar dos alunos. O trabalho do orientador educacional precisa estar pautado no fo- mento e na disseminação do respeito às diferenças, à diversidade e à inclusão de todos. Para isso, pode desenvolver, com o corpo docente, projetos que tenham como objetivo debater a política de direitos por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Envolver as famí- lias é fundamental para o sucesso desse trabalho. No quadro a seguir vemos alternativas de trabalho encontradas no Guia Bullying Infantil (2011). Figura 1 Trabalhando o bullying na escola. Fonte: Adaptada de Guia Bullying Infantil, 2015, p. 63. M ay oC re at ive /S hu tte rs to ck Instruir a equipe no assunto bullying. 1 2 3 5 6 7 4 Conscientizar de que nenhum tipo de agressão física ou psicológica será tolerado nos ambientes escolares. Promover rodas de conversa com os alunos sobre bullying. Incentivar o reconhecimento e a valorização dos alunos que se empenham no combate ao bullying. Solicitar que todos deem atenção a questionamentos, reclamações e sugestões dos alunos sobre a temática. Reforçar a importância de manter o respeito mútuo com todos. Estabelecer regras de convivência, registrando-as no regimento escolar. Possibilidades da profissão 61 Diante desse contexto, o orientador deve lançar mão de estratégias para a conscientização, a prevenção e o combate ao bullying na esco- la por meio de projetos que envolvam não somente os alunos, mas também as famílias e toda a comunidade escolar. Promover pales- tras, debates, exibição de filmes, dinâmicas de grupo e projetos que possibilitem a inclusão e o respeito à diversidade são alguns exemplos de práticas significativas na busca por amenizar e/ou erradicar situa- ções de bullying na escola. Essas sugestões precisam estar no radar do orientador, pois é ele o responsável por desencadear todas as ideias referentes a essa temática. O trabalho do orientador educacional é de fundamental impor- tância para a discussão das dificuldades de aprendizagem dos alu- nos. Atuando de modo efetivo na prevenção do fracasso escolar, esse profissional precisa desenvolver o olhar sistêmico para todos os grupos e focar ações e estratégias para sujeitos que necessitam de intervenções específicas, de acordo com as dificuldades apresen- tadas. Dessa forma, o orientador oportuniza condições igualitárias de aprendizagem e coloca o combate ao fracasso escolar como meta de sua atuação profissional. 4.3 Desenvolvimento de habilidades socioemocionais Vídeo Desde a reforma da BNCC, em 2018, muito tem se falado sobre as habilidades socioemocionais e o quanto trabalhar essas competências é primordial para o pleno desenvolvimento humano. Contudo, é im- portante ressaltar que a discussão sobre o trabalho pedagógico com as emoções, os sentimentos e demais habilidades que compõem o âm- bito das subjetividades (lado artístico, liderança, perfil etc.) não é pro- priamente um ponto atual. Wallon (2007, p. 198) já nos agraciava com sua teoria da afetividade: É contra a natureza tratar a criança fragmentariamente. Em cada idade, ela constitui um conjunto indissociável e original. Na sucessão de suas idades, ela é um único e mesmo ser em curso de metamorfoses. Feita de contrastes e de conflitos, a sua unidade será por isso ainda mais suscetível de desenvolvi- mento e de novidade. Entender como as habilidades socioemo- cionais interferem na aprendizagem. Objetivo de aprendizagem 62 Orientação Educacional na prática Nesse sentido, concordamos com o autor no sentido de entender que o sujeito não pode ser encarado pela escola de modo fragmentado, mas sim respeitado em sua totalidade única e com atenção plena em todos os setores de sua vida (afetivo, social, intelectual, motor etc.). A questão é que, estando registrado no documento que serve como base para a educação brasileira, essa discussão ganha corpo e obriga- toriedade de execução. A BNCC destaca a importância das competên- cias socioemocionais (autoconsciência, autogestão, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisão responsável) para que a formação construída na escola seja integral e completa. Diante disso, a escola precisa se debruçar sobre estudos e pesqui- sas a fim de construir um trabalho educativo sólido no que diz respeito às habilidades socioemocionais. Ainda de acordo com o autor, a aprendizagem não ocorre de ma- neira isolada das emoções. Significa dizer que os sentimentos e as emoções humanas, atrelados à construção do conhecimento cientí- fico, vão influenciando e sofrendo influências no decorrer do desen- volvimento educativo de cada indivíduo. Wallon considera a emoção como um meio de que o sujeito se utiliza para socializar, interagir e, assim, aprender. Diante desse contexto, a BNCC prevê a construção de ações volta- das ao desenvolvimento pleno das competências sociais e emocionais nas escolas, proporcionando aos alunos um processo educacional hu- manizador. O profissional que deve estar à frente desse processo é o orientador educacional. Para Barbosa, Lima e Lima (2011, p. 78): a Orientação Educacional deve ter como eixo de seu trabalho o aluno, não só o aluno que já apresenta problemas, mas todos os educandos, buscando equidade nesse processo de auxílio ao educando. Mas o orientador deve inserir-se na escola como um todo, pois o aluno é um ser biopsicossocial e está inserido numa sociedade da qual a escola é também parte. É preciso que o orientador conheça a realidade e os processos que relacionam a aprendizagem e a afetividade. Reconhecer as implicações das emoções no desenvolvimento e considerar as subjetividadesdos envolvidos no processo educativo da escola é outro ponto muito im- portante na atuação desse profissional. Conheça a BNCC na íntegra acessando o link a seguir. Disponível em: http:// basenacionalcomum.mec.gov.br/ images/BNCC_EI_EF_110518_ versaofinal_site.pdf. Acesso em: 22 out. 2021. Leitura Assista ao vídeo Henri Wallon – Afetividade e inte- ligência – Desenvolvimento infantil e aprenda um pouco mais sobre a teoria desse autor. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=1GWP3xsrvLc. Acesso em: 22 out. 2021. Vídeo Com base no que você aprendeu até o momento, elabore um plano de atuação para o orientador educacional que contemple a escuta atenta dos alunos. Desafio http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf https://www.youtube.com/watch?v=1GWP3xsrvLc https://www.youtube.com/watch?v=1GWP3xsrvLc https://www.youtube.com/watch?v=1GWP3xsrvLc Possibilidades da profissão 63 Ele é o mediador entre o cotidiano pedagógico desenvolvido pe- los professores e o envolvimento dos alunos nesse processo. Deve participar do planejamento das aulas, contribuindo para as evidên- cias das reais necessidades afetivas dos alunos, e pensar em alterna- tivas viáveis para atender às demandas específicas que acompanha diariamente tanto de modo individual quanto em grupos. A escuta atenta desse profissional faz com ele tenha material de trabalho su- ficiente para compreender do que de fato os alunos sentem falta e como a escola pode contribuir para que essa ausência seja suprida, ainda que não totalmente. Promovendo espaços de diálogo, o orientador consegue auxiliar no desenvolvimento das habilidades e competências socioemocionais dos alunos. Entendendo a realidade afetiva deles, obtém elementos fun- damentais para alicerçar o trabalho do corpo docente na busca por alinhar os assuntos acadêmicos abordados em sala de aula com as questões que permeiam as relações sociais e afetivas de toda a comu- nidade escolar. O orientador deve preparar muito bem os professores para o trabalho com a parte emocional dos alunos. Para o orientador educacional, o aluno não pode ser reduzido apenas a uma nota, mas ser reconhecido como cidadão, ter seus di- reitos garantidos e contar com o apoio da escola para o entendimen- to de seus deveres. Participar da formação dos sujeitos é colaborar significativamente com o processo educativo de tal forma que, de posse do esclarecimento das competências necessárias para o em- poderamento do indivíduo, seja possível fazer a diferença de modo positivo nas suas vidas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, conhecemos algumas das possibilidades de atuação do orientador educacional e ratificamos sua importância dentro do es- paço da escola. Também entendemos a figura do orientador como pro- fissional capacitado para lidar com as questões do fracasso escolar, mais especificamente as dificuldades de aprendizagem evidenciadas na escola. É de suma importância construir alternativas dentro do trabalho de Orientação Educacional que auxiliem a escola na busca pelo êxito no processo de ensino e aprendizagem a ser construído. Mais do que ape- nas identificar os problemas enfrentados pelas famílias e pelos alunos, o 64 Orientação Educacional na prática orientador educacional deve estar preparado para intervir na realidade da comunidade e promover ações eficazes de prevenção e conscientização de todos acerca dos dilemas enfrentados. Assim, a Orientação Educacional deve atuar de maneira significativa nas escolas, objetivando a consolidação de um trabalho pedagógico consistente e relevante para todos os envolvidos. Lidar com os aspectos emocionais dos estudantes, considerando suas realidades e trazendo elementos consisten- tes de análise do currículo escolar e do planejamento dos professores, é um ponto muito forte na atuação do orientador educacional. O trabalho em equipe com os professores é a melhor estratégia para contribuir de modo significativo com o processo educativo, de maneira a colaborar efetivamente com a construção de um currículo voltado para as habilidades socioemocionais e as relações entre afetividade e desenvolvi- mento da intelectualidade. É essencial que a posição de escuta atenta do orientador educacional seja reconhecido e valorizado por todos os sujeitos que fazem parte dele: gestão, professores, alunos, famílias e comunidade. Reconhecer o papel transformador da Orientação dentro da área educacional é vital para que o trabalho seja respeitado e ganhe força para fazer a diferença positiva na vida escolar dos alunos. ATIVIDADES Atividade 1 Cite um exemplo de prática do orientador educacional que auxilie no processo de formação da identidade do sujeito.. Atividade 2 Qual é a diferença entre transtorno e dificuldade de aprendizagem? Atividade 3 Qual documento prevê a obrigatoriedade do trabalho com as habilida- des socioemocionais? Cite exemplos presentes no documento. Possibilidades da profissão 65 REFERÊNCIAS ALMEIDA, K.L.; SILVA, A.C.; CAMPOS, J.S. Importância da identificação precoce da ocorrência do bullying: uma revisão da literatura. Revista Pediatra, 9 (1), 2008: 8-16 BARBOSA, C. C.; LIMA, N. S.; LIMA, E. B. As contribuições da Orientação Educacional ao processo ensino-aprendizagem. Revista Brasileira de Informações Científicas, v. 2, n. 1, p. 76-81, 2011. CHALITA, G. Pedagogia da amizade – Bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores. São Paulo: Gente, 2008. Guia bullying infantil, 1(1). São Paulo: On line Editora, 2011 GRINSPUN, M. P. S. Z. A Orientação Educacional: conflito de paradigmas e alternativas para a escola. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2011. SULKES, S. B. Distúrbios de apresndizagem. Manual MSD: versão Saúde para a Família. 2020. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/problemas-de-sa%C3%BAde- infantil/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem-e-do-desenvolvimento/dist%C3%BArbios-de- aprendizagem. Acesso em: 11 out. de 2021. LOPES NETO, A. A. Bullying – comportamento agressivo entre estudantes. Jornal de Pediatria, v. 81, n. 5, p. 164-172, 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jped/a/ gvDCjhggsGZCjttLZBZYtVq/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 22 out. 2021. MARTINS, J. do P. Princípios e métodos da orientação educacional. 2 ed. São Paulo; Atlas, 1984. WALLON, H. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007. https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/problemas-de-sa%C3%BAde-infantil/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem-e-do-desenvolvimento/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/problemas-de-sa%C3%BAde-infantil/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem-e-do-desenvolvimento/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/problemas-de-sa%C3%BAde-infantil/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem-e-do-desenvolvimento/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem https://www.scielo.br/j/jped/a/gvDCjhggsGZCjttLZBZYtVq/?format=pdf&lang=pt https://www.scielo.br/j/jped/a/gvDCjhggsGZCjttLZBZYtVq/?format=pdf&lang=pt 66 Orientação Educacional na prática 5 A práxis do orientador educacional Neste capítulo discutiremos sobre a práxis do orientador educa- cional. Inicialmente, a discussão será sobre o espaço de trabalho do orientador no que se refere ao seu papel de gestor e ao desenvolvi- mento da sua prática gestora. É importante perceber os resultados positivos alcançados quando o orientador assume o papel de gestor do processo educativo desenvolvido. O segundo ponto a ser abordado é com relação ao trabalho do orientador diante das inúmeras possibilidades profissionais que se apresentam para os jovens. Mais do que apenas apresentar as pro- fissões, ele precisa mediar a discussão sobre o mercado de trabalho e o cenário social atualacerca das profissões. Para isso, é necessário trabalhar as competências dos alunos, apontando para os pontos que necessitam de aprimoramento, e fazer com que cada indivíduo consiga se conhecer a fundo, para que sua escolha profissional possa ser a mais próxima de seus interesses e habilidades. Veremos, ainda, outra questão muito importante sobre a Orientação Educacional: o ponto que trata do atendimento aos alunos com ne- cessidades educativas especiais. É de responsabilidade do orientador promover espaços de estudo, pesquisa e debate sobre as estratégias pedagógicas a serem desenvolvidas com essas crianças e garantir o su- porte necessário para que os professores possam efetuar um trabalho educativo de qualidade. O orientador é o profissional que tem por função costurar a tríade aluno, professor e família, com o intuito de garantir o diálogo entre os sujeitos e mediar a construção do conhecimento, a qual é promovida pela escola. A práxis do orientador educacional 67 5.1 O orientador educacional como gestor Vídeo A discussão sobre o tema da gestão democrática é objeto de conquista para todos os envolvidos na educação. Com o intuito de promover a participação efetiva dos sujeitos implicados na cons- trução do conhecimento na escola, é muito importante que esse debate ganhe força e alcance resultados significativos para o avan- ço da democratização do ensino. Esse tipo de gestão torna todos os membros da equipe gestora corresponsáveis por garantir a qualidade da educação e de todo o processo educacional construído. Envolver os sujeitos na constru- ção do projeto pedagógico – alunos, famílias e professores – legi- tima o trabalho coletivo e contribui para o processo de criação de vínculo e identidade com a escola e o seu entorno. O orientador é peça-chave de todo esse trabalho educativo, buscando atingir os objetivos, e da função de gestor, desempenhando esse papel com total comprometimento. Na escola, o orientador educacional é um dos profissionais que compõe a equipe gestora. Ele se relaciona diretamente com os alu- nos, auxiliando-os em todos os aspectos referentes ao seu desen- volvimento. Esse trabalho se dá em parceria com os professores, oferecendo insumos para que eles compreendam o contexto de vida de cada aluno, bem como com a escola, na medida em que contribui para a organização e articulação do processo educativo, e com a comunidade escolar, na efetivação e mediação do diálogo entre a proposta pedagógica da instituição e os interesses das fa- mílias atendidas. Diante disso, torna-se primordial a inserção, na discussão, da figura do orientador educacional dentro do processo de gestão. É ele o responsável por manter a prática da gestão escolar e pro- mover a reflexão sobre ela no espaço escolar, contribuindo para o aprofundamento da concepção de gestão democrática, baseada na atuação do orientador educacional. Observe a figura a seguir. Compreender o papel de gestão do orientador educacional. Objetivo de aprendizagem 68 Orientação Educacional na prática Figura 1 Dimensões da gestão do orientador educacional Fonte: Elaborada pela autora. DIMENSÃO EDUCACIONAL DIMENSÃO POLÍTICA DIMENSÃO FILOSÓFICA DIMENSÃO PEDAGÓGICA DIMENSÃO SOCIAL A educação, assim como a escola, está diretamente ligada a um contexto social, político e econômico, que reflete o comportamento da sociedade vigente, tanto localmente quanto globalmente. Assim, é essencial que se garanta a participação de todos na conscientização e formação de sujeitos democráticos, por meio da organização do trabalho pedagógico e da adoção de estratégias educacionais, para democratizar o processo de ensino e aprendizagem, de modo que se possa efetuar mu- danças positivas na qualidade de vida e no crescimento dos indivíduos. As dimensões citadas na Figura 1 têm o objetivo de emancipar os seres em todas as suas habilidades e competências, não só individuais, mas também coletivas. Esse pensamento deve embasar os diálogos acerca da gestão escolar, que são apresentados por Lück (2006, p. 25): a gestão educacional corresponde à área de atuação responsá- vel por estabelecer o direcionamento e a mobilização capazes de sustentar e dinamizar o modo de ser e de fazer dos sistemas de ensino e das escolas, para realizar ações conjuntas, associadas e articuladas, visando o objetivo comum da qualidade do ensino e seus resultados. Assim, de acordo com Lück, o orientador exerce um papel importante na vida dos alunos, sobretudo no desenvolvimento de sua identidade, autonomia, corresponsabilidade e consciência dos seus direitos e deveres. A práxis do orientador educacional 69 Para executar sua função gestora, o orientador precisa reunir ca- racterísticas específicas em sua personalidade profissional, sendo elas: Responsabilidade Sensibilidade Liderança Habilidade pessoal Resistência Iniciativa Comunicação Perspectiva educacional Dinamismo Segurança intelectual Autoconhecimento Planejamento e organização do trabalho 1 2 5 6 3 4 7 8 9 11 10 12 O orientador tem a função de harmonizar o ambiente escolar, transformando-o em um laboratório de conhecimento, favorecedor da liberdade e da democracia. É ele quem deve fomentar o movimento de oportunizar qualitativamente o acesso a todos com necessidades educativas especiais, por exemplo, favorecendo o aprendizado dessas pessoas, possibilitando o convívio com a diversidade em todos os seus âmbitos e trabalhando na formação contínua dos sujeitos. Trazer te- máticas relevantes, envolver as famílias nos debates e discutir sobre os desafios da comunidade escolar são exemplos de contribuição do orientador na formação dos sujeitos. Conforme Camargo (2009, p. 44): a Orientação Educacional poderá contribuir para a transformação da escola em um local de busca constante de soluções de proble- mas, planejando momentos culturais em que a família, juntamente com seus filhos, possa participar ativamente. Servindo de ligação entre o aluno e a família, compreendendo a realidade, os interes- ses e as necessidades dos mesmos, e servindo-se disso para ele- var o nível cultural da comunidade, através de debates envolvendo questões do dia a dia, este profissional não tem currículo a seguir, podendo assim, usar de fatos marcantes que a mídia transmite como a corrupção, terrorismo, violência urbana, ética, cidadania, 70 Orientação Educacional na prática entre outros temas, fazendo com isso, que a curiosidade dos alu- nos possa ser aguçada através de pesquisas, tornando-os assim, conscientes de que podem transformar a sociedade, descobrindo- -se como seres que sentem, fazem e pensam. O orientador é o profissional que aproxima a escola da discussão sobre gestão democrática, quando exerce, na prática, a tolerância e o respeito às diferenças, não só no exercício de observação do seu entorno, como, principalmente, na forma de estimular a investigação e os estudos sobre educação democrática. Ao assumir o papel de gestor, o orientador dissemina o conceito de gestão democrática e oportuniza a vivência de novas experiências para os alunos, mantendo sempre o foco de seu trabalho nas necessidades deles e respeitando os princípios e valores da instituição de ensino na qual exerce seu papel. Para realizar a gestão dos professores, é interessante que o orienta- dor promova momentos de trabalho coletivo entre docentes e alunos. Ações como rodas de conversa, participação dos estudantes na elabo- ração dos projetos da escola, representação dos alunos no conselho de classe e momento de escuta a respeito do currículo, em forma de debate entre alunos e professores, são alguns exemplos de propostas viáveis para a promoção do trabalho coletivo na gestão docente do orientador. É importante que os docentes conheçam seus alunos e suas necessidades e que possam, junto ao orientador, alcançar os anseios das famílias e firmar as metas da escola como base para o trabalho educativo que desenvolvem em sala de aula. Dessa forma, o orientadorgestor está sempre buscando a troca de conhecimento entre os docentes e os integrantes da equipe gestora da escola. Esse trabalho pode propiciar novos caminhos para aprimorar a qualidade de ensino, e esse profissional é capaz de se fazer instru- mento de transformação da prática escolar, resultante de um trabalho pedagógico consistente e de qualidade. Por meio de formações, grupos de estudos, fóruns e conselhos, o orientador fomenta o diálogo sobre gestão democrática e os meios para que essa prática se efetive e apre- sente resultados sólidos. Sobre essa questão, Lück (2008, p. 97) coloca que: o desempenho de uma equipe depende da capacidade de seus membros de trabalharem em conjunto e solidariamente, A práxis do orientador educacional 71 mobilizando reciprocamente a intercomplementaridade de seus conhecimentos, habilidades e atitudes, com vistas à realização de responsabilidades comuns. […] Por outro lado, a mobilização e o desenvolvimento dessa capacidade dependem da capacida- de de liderança de seus gestores. O trabalho de gestão do orientador tem por objetivo a organiza- ção tanto das condições materiais quanto das humanas, presentes no espaço escolar, elevando a qualidade do processo educativo das esco- las. Cabe a esse profissional fundamentar e dinamizar o trabalho da e na escola, atuando como agente transformador e se tornando, na prá- tica, referência em educação. A sua gestão deve coordenar e articular a potencialização dos processos educacionais, orientando para o de- senvolvimento de cidadãos críticos. De acordo com Garcia (1986, p. 18): uma das funções específicas do orientador educacional é a socia- lização do saber sobre o aluno, na medida em que a ele cabe tra- zer a realidade do aluno para o currículo. O saber sobre o aluno concreto, confrontado com as teorias do desenvolvimento e de aprendizagem, vai possibilitando a criação coletiva de uma teoria mais adequada ao aluno brasileiro, e a construção de uma práti- ca pedagógica que atenda melhor o aluno real. Para que a gestão democrática do orientador aconteça, é necessário assegurar a participação de todos os interessados no processo educa- tivo desenvolvido. Esse profissional deve apresentar um perfil de lide- rança e uma formação acadêmica que sejam capazes de construir e solidificar ações integradas, com foco em alcançar as metas traçadas pela escola, em comum acordo com a comunidade escolar. A formação do orientador deve seguir, após a graduação, para cursos que comple- mentem e intensifiquem os estudos na área educacional e nas tratati- vas sobre educação especial, gestão escolar e gestão de projetos. Quando o orientador abre as portas da escola para a comunidade, ele está inserindo a instituição no contexto em que atua e estimulan- do a interação de todos que fazem parte desse processo. Para fomen- tar a luta por melhores condições de trabalho e formação continuada própria e dos professores, é necessário alinhar o papel da Orientação Educacional com as metas da escola, sobretudo com a proposta pe- dagógica da instituição, para que a construção do conhecimento seja sempre favorecida e o envolvimento de todos seja reconhecido e ga- rantido dentro do trabalho educativo desenvolvido. 72 Orientação Educacional na prática Go rit za /S hu tte rs to ck 5.2 Orientação profissional e vocacional Vídeo A palavra vocação tem origem no verbo latino vocare, que signifi- ca chamar. A vocação, portanto, simboliza uma espécie de chamado para o exercício de determinada função. Partindo, então, desse ponto de vista, a orientação vocacional permitiria compreender efetivamente qual o chamado de cada indivíduo, na hora de escolher qual exercício profissional ele realizará durante toda a sua vida. Porém, sabemos que a discussão não é nem simples nem linear; dessa forma, muitos são os elementos envolvidos a serem altamente considerados nesse debate. As transformações no mundo do trabalho (a concorrência do mer- cado, a rapidez e precocidade das mudanças e a liquidez das relações), acrescidas da pressão exercida pela família, contribuíram sobrema- neira para que a escolha profissional dos estudantes padecesse sob a mira das expectativas da sociedade de modo geral. A grande variedade de possibilidades profissionais existente, as dú- vidas sobre qual curso de Ensino Superior fazer e a decisão definitiva sobre o que fazer nos próximos anos de vida são momentos críticos que podem gerar desconforto e causar prejuízos nas relações familiares e no processo de amadurecimento do aluno. Vivemos em uma sociedade que não oferece as mesmas oportunidades para todos e que incentiva a competição individual para o ingresso no mercado de trabalho. Diante disso, o orientador educacional se vê desafiado a exercer sua função de orientar profissionalmente, uma vez que necessita co- nhecer seu aluno, compreender a dinâmica do mundo do trabalho e as suas transformações até chegar na atual sociedade e reconhecer as possibilidades viáveis de escolha, cruzando os dados da realidade dos estudantes com as alternativas encontradas nesse contexto, além de trabalhar com a certeza de nem sempre conseguir êxito no atendimen- to das especificidades de seus alunos. Esse profissional também participa efetivamente da função gesto- ra da unidade escolar e é responsável pela árdua missão de orientar os alunos em suas vocações, as quais culminam em escolhas profis- sionais. Assim, precisa assumir o compromisso de estimular, de modo ininterrupto, a autonomia e a escolha genuína, ou seja, orientar para que os estudantes não se deixem influenciar pelas imposições dos pais, dos amigos e da sociedade em geral. Entender o processo de orientar alunos com rela- ção à carreira profissional. Objetivo de aprendizagem No filme Larry Crowne: o amor está de volta, conhecemos a história de Larry, um sujeito na fase madura da vida que trabalha há anos em uma loja. Acreditando que se manteria nesse emprego por toda sua existência, ele recebe com surpresa a notícia de que está demitido, e o motivo diz respeito à sua escolarida- de. Larry resolve, então, recomeçar sua vida e conhece uma professora que irá contribuir para que ele se reinvente e se redescubra profissional- mente. Direção: Tom Hanks. Estados Unidos: Paris Filmes, 2011. Filme A práxis do orientador educacional 73 5.2 Orientação profissional e vocacional Vídeo A palavra vocação tem origem no verbo latino vocare, que signifi- ca chamar. A vocação, portanto, simboliza uma espécie de chamado para o exercício de determinada função. Partindo, então, desse ponto de vista, a orientação vocacional permitiria compreender efetivamente qual o chamado de cada indivíduo, na hora de escolher qual exercício profissional ele realizará durante toda a sua vida. Porém, sabemos que a discussão não é nem simples nem linear; dessa forma, muitos são os elementos envolvidos a serem altamente considerados nesse debate. As transformações no mundo do trabalho (a concorrência do mer- cado, a rapidez e precocidade das mudanças e a liquidez das relações), acrescidas da pressão exercida pela família, contribuíram sobrema- neira para que a escolha profissional dos estudantes padecesse sob a mira das expectativas da sociedade de modo geral. A grande variedade de possibilidades profissionais existente, as dú- vidas sobre qual curso de Ensino Superior fazer e a decisão definitiva sobre o que fazer nos próximos anos de vida são momentos críticos que podem gerar desconforto e causar prejuízos nas relações familiares e no processo de amadurecimento do aluno. Vivemos em uma sociedade que não oferece as mesmas oportunidades para todos e que incentiva a competição individual para o ingresso no mercado de trabalho. Diante disso, o orientador educacional se vê desafiado a exercer sua função de orientar profissionalmente, uma vez que necessita co- nhecer seu aluno, compreender a dinâmica do mundo do trabalho e as suas transformações até chegar na atual sociedade e reconheceras possibilidades viáveis de escolha, cruzando os dados da realidade dos estudantes com as alternativas encontradas nesse contexto, além de trabalhar com a certeza de nem sempre conseguir êxito no atendimen- to das especificidades de seus alunos. Esse profissional também participa efetivamente da função gesto- ra da unidade escolar e é responsável pela árdua missão de orientar os alunos em suas vocações, as quais culminam em escolhas profis- sionais. Assim, precisa assumir o compromisso de estimular, de modo ininterrupto, a autonomia e a escolha genuína, ou seja, orientar para que os estudantes não se deixem influenciar pelas imposições dos pais, dos amigos e da sociedade em geral. Entender o processo de orientar alunos com rela- ção à carreira profissional. Objetivo de aprendizagem No filme Larry Crowne: o amor está de volta, conhecemos a história de Larry, um sujeito na fase madura da vida que trabalha há anos em uma loja. Acreditando que se manteria nesse emprego por toda sua existência, ele recebe com surpresa a notícia de que está demitido, e o motivo diz respeito à sua escolarida- de. Larry resolve, então, recomeçar sua vida e conhece uma professora que irá contribuir para que ele se reinvente e se redescubra profissional- mente. Direção: Tom Hanks. Estados Unidos: Paris Filmes, 2011. FilmeÉ de suma importância ter clareza da diferença entre orientação vo- cacional e profissional para que o orientador possa, de fato, exercer sua função com total compreensão qualitativa dessas duas ações, que são igualmente relevantes, mas distintas. A orientação vocacional vai trabalhar as variáveis socioemocionais do sujeito, fazendo com que ele descubra-se, motive-se e compreenda-se enquanto ser que expressa e que tem vontades, interesses e prefe- rências, ainda que tudo isso possa vir a ser motivo de conflito consigo mesmo e com os demais à sua volta. O orientador tem por objetivo apoiar os alunos na escolha da carreira, porém sua função não é a de escolher a profissão por eles, e sim de orientá-los, de acordo com as características e a personalidade de cada um, quanto a profissões e áreas que sejam de possível interes- se e possam ir ao encontro dos anseios desses indivíduos. Já a orientação profissional apresenta as possibilidades reais de praticar aquilo que o indivíduo escolher para a sua carreira. Dessa ma- neira, mostra o campo profissional, o mercado de trabalho, a longe- vidade da carreira, os seus entraves, os desafios e as alternativas de crescimento – tudo isso alicerçado no cenário social vigente. A figura a seguir apresenta, de modo sistemático, as diferenças entre vocação e profissão e a maneira como ambas se complementam. Figura 2 Orientação vocacional e orientação profissional Fonte: Elaborada pela autora. • Áreas de interesse. • Habilidades em potencial. • Competências bem desenvolvidas. • Perfil socioemocional. • Análise SWOT. • PDCA. • Compreensão do mercado de trabalho. • Análise dos cursos de Ensino Superior. • Troca de experiências com profissionais de diferentes níveis de vivência da profissão escolhida ou a escolher. ORIENTAÇÃO VOCACIONAL ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL O orientador educacional deve discutir com os alunos sobre quais são as opções dentro do processo de suas escolhas, trocando expe- riências e apresentando o maior número de informações sobre as mais 74 Orientação Educacional na prática diversas áreas. O objetivo é fomentar nos alunos a confiança e a segu- rança sobre qual caminho profissional trilhar. Observe a figura a seguir. Figura 3 Plano de ação do orientador educacional por meio do ciclo PDCA Fonte: Elaborada pela autora. Action (agir) • Realizar ações corretivas visando ao êxito. • Padronizar para as próximas intervenções. • Localizar o problema. • Estabelecer o plano de ação. • Verificar o alcance das metas. • Acompanhar os indicadores. • Colocar em prática o plano de ação. Check (checar) Plan (planejar) Do (fazer) A Figura 3 apresenta o plano de ação e acompanhamento do traba- lho de orientação profissional do orientador educacional por meio do ciclo PDCA. Ele é composto de quatro etapas: elaborar, executar, acom- panhar e agir de acordo com as reflexões resultantes desse acompa- nhamento. O PDCA, portanto, deve estabelecer as metas, os prazos e o processo de elaboração de plano e acompanhamento da evolução dessas ações que compõem o projeto. Acompanhar a escolha profis- sional dos alunos, apontando para suas habilidades e competências (vocação), não deve ser encarado pelo orientador como algo simples e operacional, mas sim como um projeto de vida, no qual sua participa- ção é primordial para mediar os diálogos entre as áreas e a realidade dos indivíduos. Muitos são os instrumentos e as ferramentas que podem ser utili- zados pelo orientador na busca por promover espaços de escuta dos alunos e por compreender os desejos, as áreas de interesse, os medos e as angústias que permeiam essa fase de suas vidas. A análise SWOT ou FOFA (termo utilizado no Brasil) é um instru- mento comum do qual o orientador lança mão para entender como o aluno se enxerga diante das inúmeras possibilidades de construção de sua carreira. Acompanhe, a seguir, os elementos que compõem esse modelo de análise. A práxis do orientador educacional 75 Figura 4 Análise SWOT SWOT S O W T FATORES EXTERNOS FATORES INTERNOS Stronger (força) Opportunities (oportunidades) Weaknesses (fraquezas) Threats (ameaças) FATORES POSITIVOS FATORES NEGATIVOS Fonte: Elaborada pela autora. Quais são minhas forças? E fraquezas? O que o mundo me pro- porciona de positivo? Quais são as ameaças da sociedade com rela- ção ao meu contexto? Ao trabalhar essa ferramenta com os alunos, o orientador os instrui a preenchê-la com os dados que se pede, a fim de construir um cenário de possibilidades para a compreensão do contexto do aluno. Assim, será possível verificar por quais caminhos o orientador deve seguir, com o intuito de auxiliar no processo de escolha do sujeito. O importante para o orientador educacional é compreender que ele precisa desenvolver um processo de reflexão que permita a elaboração de estratégias de mediação de conflitos e dê suporte diante das dificuldades inerentes à escolha profissional que os estudantes vierem a enfrentar. Isso ocorrerá através da escuta atenta dos alunos, professores e familiares. A Orientação Educacional oportuniza o desenvolvimento integral, por meio de um projeto dinâmico, contínuo, sistematizado e conecta- do ao contexto dos alunos. O orientador reúne muitos elementos em sua prática pedagógica, os quais ficam evidenciados em sua atuação orientadora e estão intrinsecamente ligados ao currículo desenvolvido pela escola. Para Grinspun (2002, p. 64) “a prática da Orientação Educa- cional deve ser vista como um processo ativo, dinâmico, como construção, produção de conhecimento, de saberes, de comunicações e interações”. Para consolidar sua atuação, o orientador tem que desenvolver e cultivar o hábito de estudar e se capacitar profissionalmente, de modo permanente, interagindo com os debates e as discussões acerca da te- mática da Orientação Profissional, estabelecendo a interlocução com o cenário educacional vigente e aprimorando suas competências e sua ca- pacidade de análise. 5.3 Acompanhamento de alunos com necessidades especiais Vídeo A educação inclusiva é pauta de trabalho de renomados autores da área educacional, como Philippe Perrenoud, Peter Mittler, Lino de Macedo e muitos outros, e versa, entre outros aspectos, sobre a inserção de alunos com necessidades educacionais especiais em salas de aula regulares. Entretanto, o próprio debate quanto ao conceito de inclusão é muito mais profundo do que simplesmente decidir se o alu- no pode ou não, deve ou não e tem ou não o direito de permanecer em uma escola de ensino regular. Destacaremos aqui o papel do orientador educacional nessa discussão, contribuindo com a reflexãoa favor da inserção com quali- dade dos alunos com necessidades educacionais especiais e o seu su- porte, para que tanto o corpo docente quanto os demais profissionais da equipe pedagógica da escola possam oferecer um processo educa- tivo de qualidade para esses sujeitos. Sabe-se que a escola tem a missão de promover a educação para todas as pessoas, combatendo com todas as forças e argumentos peda- gógicos qualquer tipo de exclusão. Diante de um contexto cada vez mais diversificado, onde as distinções étnicas, culturais, sociais, re- ligiosas, entre outras, estão presentes no cotidiano escolar, é impossível fechar os olhos para as questões específicas de alguns alunos, referentes às necessi- dades pontuais dentro do proces- so individual de aprendizagem, as quais são chamadas de necessida- des educativas especiais. Entender o processo de orientar alunos com necessidades especiais. Objetivo de aprendizagem Ha lfp oi nt /S hu tte rs to ck A práxis do orientador educacional 77 A figura a seguir demonstra os diferentes conceitos associados à tematica. Figura 5 Conceitos importantes dentro da discussão sobre inclusão Fonte: Elaborada pela autora. Exclusão Segregação Integração Inclusão É importante ter clareza pedagógica sobre os conceitos apresentados, uma vez que, ao se deparar com as especificidades, o orientador precisa utilizar sua formação e seu conhecimento para subsidiar o trabalho dos professores. Esses conceitos são cada vez mais exigidos, no que tange às habilidades e competências imprescindíveis para desenvolver, em sala de aula, a construção do conhecimento que envolva todos os sujeitos. Ao falar de segregação, chamamos a atenção para um processo que de fato separa os alunos em dois grupos distintos, sendo eles: aque- les que conseguem acompanhar os processos e aqueles que ficam à margem dos acontecimentos. Trazendo o conceito de exclusão, perce- bemos, pela Figura 5, que se trata única e exclusivamente de retirar do trabalho a ser desenvolvido os alunos que não acompanham a dinâmica. Sobre integração, dizemos que, ao oportunizarmos esse movi- mento integrador, fazemos com que todos participem dos processos com qualidade e equidade e alcancem resultados, ainda que cada um a seu modo. Já ao tratarmos de inclusão, estaremos apenas garantindo 78 Orientação Educacional na prática a estadia de todos no mesmo espaço. Portanto, a discussão aqui deve ser acerca de qual tipo de prática inclusiva estamos falando e como garantir qualidade nesse processo. O orientador educacional está diretamente ligado à interação/interlo- cução entre aluno e professor. É ele quem desempenha o papel signifi- cativo, no que diz respeito ao processo de inclusão escolar, vivenciado principalmente em atividades inclusivas diárias, no auxílio dos mo- mentos de adaptação e nas orientações de interação para o professor dentro das ações inclusivas. O orientador atua como mediador efetivo na busca por alternativas eficazes, com vistas a viabilizar o processo de ensino e aprendizagem e o aperfeiçoamento da formação docente em sua prática pedagógica. Não podemos falar sobre educação inclusiva sem nos atentar para a legislação brasileira que versa sobre o assunto. Para que a ideia de uma sociedade inclusiva saia do papel e se efeti- ve na prática pedagógica das escolas, alguns documentos legais foram elaborados, com o objetivo de garantir o cumprimento dos princípios de inclusão, reconhecendo a diversidade como característica inerente à constituição de todo e qualquer indivíduo, de modo a valorizar a ne- cessidade de garantir o acesso e a participação qualitativa de todos, independentemente das suas particularidades. De acordo com a Constituição Federal (BRASIL, 1988): Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da fa- mília, será promovida e incentivada com a colaboração da socie- dade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. Ainda, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) discorre (BRASIL, 2002, p. 17): Art. 53. A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II – direito de ser respeitado por seus educadores. Diante dos dispositivos legais descritos, como garantir, na prática, a inserção e a permanência de alunos com necessidades educativas Acesse a Constituição Federal na íntegra e leia o Capítulo III, “Da educação, da cultura e do desporto”, Seção I, “Da educação”. Nesse capítulo, você irá encontrar os direitos assegurados a todos, sem distinção, à uma educação de qualidade. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constituicaocompilado. htm. Acesso em: 11 nov. de 2021. Leitura http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm A práxis do orientador educacional 79 especiais nos espaços regulares de ensino? Será que, ao elaborar tra- tativas legais, a sociedade contribuiu o suficiente para essa garantia? O que encontramos atualmente nas escolas? Como assegurar o direito ao atendimento educacional de qualidade das diferenças e, assim, promo- ver a igualdade em sociedade? Castilho chama a atenção para a elaboração teórica de Morin (1996, p. 50) que: anota que há dois princípios associados: o princípio de exclusão e o de inclusão. O que é o princípio de exclusão? Qualquer um pode dizer “eu”, mas ninguém pode dizê-lo por mim. Esse princí- pio de exclusão é inseparável de um princípio de inclusão que faz com que possamos integrar em nossa subjetividade outros dife- rentes de nós, outros sujeitos. Por exemplo, nossos pais fazem parte desse círculo de inclusão. Assim, cabe ao orientador reunir insumos capazes de qualificar o olhar inclusivo da escola para a efetivação significativa não só do alu- no em questão, mas também dos profissionais envolvidos no processo educativo dele. É importante esclarecer quem estamos considerando como público integrante da educação inclusiva: alunos com diferentes tipos de limi- tações (intelectual, física, auditiva, visual e múltiplas), transtornos do desenvolvimento (TDAH, autismo, entre outros) e altas habilidades. Longe de ter como prioridade os alunos que, porventura, apresentam questões sociais comportamentais e/ou dificuldades de aprendizagem, o orientador é o mediador entre o aluno e a escola, discutindo problemá- ticas que fazem parte do contexto sociopolítico, econômico e cultural em que vivemos. É por meio dessa reflexão sobre a realidade experienciada que o orientador oportuniza ao aluno o conhecimento sobre sua própria condição de aprendizagem, seus direitos e como vencer suas limitações, estabelecendo relações e se desenvolvendo enquanto cidadão conscien- te e crítico. De acordo com Dantas O Orientador Educacional deve estar sempre atento a identifi- car as diferenças individuais de cada aluno, esse procedimento acontece através de observações no recreio ou em sala de aula. Faz-se necessário um trabalho de integração entre o O.E., o pro- fessor e a família dos educandos sempre visando assistir todos os alunos. (DANTAS, 2011, p. 20) No link a seguir, você tem acesso a um texto muito interessante sobre a importância do ECA, o seu objetivo e as diretrizes que esse documento re- presenta. É uma leitura de suma relevância para todo orientador educacional. Disponível em: https:// grupomarista.org.br/noticias/ por-que-foi-criado-e-qual-a- importancia-do-estatuto-da-crianca-e-do-adolescente/. Acesso em: 11 nov. de 2021. Saiba mais No filme Meu Nome é Rádio, conhecemos Anderson, que é treina- dor de futebol americano em uma escola. Ele conhece um jovem com necessidades educativas especiais, que não falava e só perambulava em volta do campo de trei- namento. O treinador o coloca sob sua proteção e descobre que existem muitas maneiras de se aprender e conviver com as diferenças. Direção: Michael Tollin. Estados Unidos: Revolution Studios: 2003. Filme https://grupomarista.org.br/noticias/por-que-foi-criado-e-qual-a-importancia-do-estatuto-da-crianca-e-do-adolescente/ https://grupomarista.org.br/noticias/por-que-foi-criado-e-qual-a-importancia-do-estatuto-da-crianca-e-do-adolescente/ https://grupomarista.org.br/noticias/por-que-foi-criado-e-qual-a-importancia-do-estatuto-da-crianca-e-do-adolescente/ https://grupomarista.org.br/noticias/por-que-foi-criado-e-qual-a-importancia-do-estatuto-da-crianca-e-do-adolescente/ https://grupomarista.org.br/noticias/por-que-foi-criado-e-qual-a-importancia-do-estatuto-da-crianca-e-do-adolescente/ 80 Orientação Educacional na prática O orientador educacional deve estar comprometido com o exercício da cidadania e com uma educação emancipatória. Ainda, ele precisa lutar contra todas as formas excludentes de se fazer educação em uma sociedade como a nossa, que não oportuniza a todos as mesmas condi- ções nem preza pela equidade dos processos educativos desenvolvidos. O grande desafio desse profissional é colocar em prática um projeto democrático de educação que garanta espaço efetivo e de qualidade para todas as diferenças de aprendizagem reunidas em sala de aula. A democracia, que é o exercício efetivo da cidadania, pressupõe a autonomia – das pessoas e instituições. A educação emancipado- ra e gestão democrática são indissociáveis, sem o que estaríamos trabalhando numa contradição intrínseca. Escolas, profissionais da educação e estudantes privados de autonomia não terão a con- dição essencial para exercer uma gestão democrática, de promo- ver uma educação cidadã. (BORDIGNON, 2005, p. 32) O foco da atuação orientadora deve estar no desenvolvimento de uma aprendizagem que seja significativa, visando à formação do cida- dão crítico reflexivo, capaz de, mesmo diante de todas as adversida- des advindas das suas condições (sejam elas físicas ou intelectuais), transformar o mundo em um lugar muito melhor para se viver. Portanto, cabe ao orientador descobrir e promover estratégias viá- veis e efetivas, que contribuam de modo significativo no desenvolvi- mento do aluno, bem como trabalhar na organização e na realização da proposta pedagógica da escola, dialogando e praticando a escuta atenta das necessidades dos sujeitos. Diante do contexto desafiador da inclusão e do convívio diário com os alunos que apresentam necessidades educativas especiais em seu processo de aprendizagem, o papel do orientador é o de mediador. Assim, cabe a ele desenvolver projetos educacionais sobre a inclusão com toda a comunidade escolar, pois, como formador, atende direta- mente ao professor nas questões de conflito encontradas na sala de aula e é capaz de reverter essas situações em momentos de escuta, reflexão e criação de maneiras possíveis de intervenção. O orientador deve se debruçar e investir na questão da formação continuada do professor – promovendo grupos de estudos, fóruns e seminários sobre temáticas ligadas ao meio educacional de modo ge- ral – e, também, em questões específicas, de acordo com as demandas Para aprofundar a discussão acerca das desigualdades sociais que acabam por influenciar diretamente os processos educativos desenvolvidos, o livro Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável serve como referência para enri- quecer o debate acerca do tema. LAHIRE, B. São Paulo: Ática, 2004. Livro A práxis do orientador educacional 81 escolares, para que o docente esteja preparado para trabalhar com a inclusão na escola. Tudo isso com a intenção de evitar práticas pedagó- gicas excludentes e instrumentalizar o corpo docente para realizar um trabalho educativo de qualidade e que alcance a todos, sem distinção. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, discutimos sobre as inúmeras possibilidades de atuação do orientador educacional e pudemos valorizar ainda mais sua presença dentro do espaço da escola. Além disso, foi possível entender a figura do orientador como gestor, mais especificamente como integrante da equipe gestora da escola, abrindo um leque de alternativas de emancipação desse profissional, e sua valoriza- ção e importância dentro do processo educativo construído. Assim, o orientador educacional deve estar preparado para ser líder das questões reflexivas e críticas da sociedade, sobretudo daquelas que envolvam o futuro dos alunos – diante das escolhas profissionais deles e das considerações relevantes acerca das habilidades e competências dos sujeitos –, os seus interesses e as chances reais de êxito no contexto atual do mercado de trabalho. As transformações educacionais vivenciadas ao longo da construção dos cenários educativos provocam mudanças que, por sua vez, acarretam consequências na realidade da comunidade. Nesse sentido, a função do orientador é elaborar projetos e promover estratégias de atendimento a todos, engajando toda a escola nas ações inclusivas e integrativas pe- dagogicamente emancipatórias. A atuação do orientador educacional consiste em realizar continuamente o movimento de pesquisa, estudo e reflexão sobre a prática pedagógica dos professores, a fim de potencializar o trabalho educativo na sala de aula, além de inserir toda a comunidade nesse processo, apresentando a esco- la, os seus desafios e os resultados positivos, bem como oportunizando a participação de todos na busca dos objetivos da instituição. A melhor estratégia para contribuir de modo significativo com o pro- cesso educativo é garantir o espaço da escuta atenta, para reunir elementos importantes que irão embasar o trabalho do orientador educacional, seja na gestão, na formação dos professores ou no atendimento dos alunos, das famílias e da comunidade. 82 Orientação Educacional na prática ATIVIDADES Atividade 1 Qual é a principal função do orientador gestor? Atividade 2 Quais são as diferenças entre orientação vocacional e profissional? Atividade 3 Quais são os documentos que garantem a educação inclusiva? REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ Constituicao.htm. Acesso em: 11 nov. 2021. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente: Lei Federal n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 2002. BORDIGNON, G.; GRACINDO, R. V. Gestão da educação: município e escola. IN: FERREIRA, N. S. e AGUIAR, M. A. (Orgs.). Gestão da Educação: impasses, perspectivas e compromissos. São Paulo: Cortez, 2002. BORDIGNON, G. Gestão democrática da educação. Salto para o futuro, Boletim 19, out. 2005. Disponível em: http://www2.ifrn.edu.br/ppi/lib/exe/fetch.php?media=textos:03_ gestao_democratica_textos. pdf. Acesso em: 24 jun. 2014. CAMARGO, M. A verdadeira função do orientador educacional na escola. UNICENTRO (Universidade estadual centro oeste), 2009. CASTILHO, E. W. V. de. O papel da escola para a educação Inclusiva. Disponível em: http:// pfdc.pgr.mpf.mp.br/atuacao-e-conteudos-de-apoio/publicacoes/pessoa-com-deficiencia/ papel-escola-educacao-inclusiva. Acesso em: 26 out. 2021. DANTAS, M. M. A contribuição do orientador educacional no processo de inclusão escolar em uma escola rural do Distrito Federal. 2011. Disponível em: http://bdm.bce.unb.br/ bitstream/10483/2415/1/2011_MarciaMedeirosDantas.pdf. Acesso em: 28 out. 2021. GARCIA, R. L. Especialistas em educação: os mais novos responsáveis pelo fracasso escolar. In: ALVES, N.; GARCIA, R. L. (org.). O fazer e o pensar dos supervisorese orientadores educacionais. São Paulo: Loyola, 1986. GRINSPUN, M. P. S. Z. A Orientação Educacional: conflito de paradigmas e alternativas para a escola. São Paulo: Cortez, 2002. LÜCK, H. A escola participativa: o trabalho de gestor escolar. 4. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. LÜCK, H. Gestão Educacional: uma questão paradigmática. 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Na primeira seção do capítulo, discutimos sobre a trajetória da Orientação Educacional no Brasil. Analise o início dessa trajetória e relacione-a com o contexto do país na década de 1940. Na década de 1940, o Brasil enfrentava muitas reformas políticas e sociais. Diante dessas transformações, a Orientação Educacional surgiu, trazendo como objetivo principal organizar a vida profissional dos jovens egressos do Ensino Médio. 2. Comente sobre a abordagem da Orientação Educacional enquanto aconselhamento profissional. O aconselhamento profissional objetivava classificar os sujeitos por meio de suas aptidões e direcioná-los para as áreas técnicas do mercado de trabalho. 3. Analise a importância do planejamento das ações da Orientação Educacional. O planejamento é uma ferramenta essencial para a qualidade do trabalho do orientador educacional, pois possibilita sua antecipação nas situações do cotidiano escolar e potencializa a elaboração de projetos significativos para toda a comunidade escolar. 2 O papel do orientador educacional 1. A respeito das diferenças entre a Orientação Educacional e a Psicopedagogia, cite um exemplo que as distingue. A Psicopedagogia trata dos casos individuais, geralmente desenvolvendo tratamentos para atender a necessidades específicas de aprendizagem. Já a Orientação Educacional desenvolve um trabalho escolar sistêmico, mediando ações e construindo projetos pedagógicos significativos. 2. Na perspectiva pedagógica, cite um exemplo de prática do orientador educacional. O orientador educacional constrói sua prática pedagógica com base no seu conhecimento sobre as necessidades dos alunos, da escola e de toda a comunidade escolar. Resolução das atividades 83 3. Cite uma atividade desenvolvida pelo orientador educacional no âmbito escolar. Justifique sua importância. A participação no conselho de classe é uma atividade muito importante desenvolvida pelo orientador educacional, pois ele está munido de informações relevantes a respeito do processo de aprendizagem dos alunos e pode contribuir para o plano de ação a ser traçado pelos professores. 3 Entraves e desafios da orientação educacional 1. A respeito da burocratização do trabalho do orientador educacional, descreva como é possível desvencilhá-lo desse tipo de atividade. Uma prática voltada para observação do cotidiano da escola faz com que o saber fazer pedagógico do orientador educacional ganhe legitimidade, uma vez que ele conseguirá reunir elementos muito importantes a respeito da realidade dos alunos e, assim, poderá pensar em projetos e ações pedagógicas eficazes. 2. Cite uma razão pela qual é possível perceber a crise de identidade que caracteriza o orientador educacional, profissionalmente falando. Os fatos do não reconhecimento das atribuições e da não valorização da função dentro do espaço da escola, contribuem negativamente para a crise de identidade profissional do orientador educacional. 3. Aponte duas estratégias das quais o orientador educacional pode lançar mão para contribuir significativamente no processo educativo dos alunos. Abrir a escola para a comunidade debater temas atuais e trabalhar no planejamento em parceria com os professores. 4 Possibilidades da profissão 1. Cite e explique um exemplo de prática do orientador educacional que auxilie no processo de formação da identidade do sujeito. Conhecer a familia do aluno, sua rotina, a comunidade onde reside e fazer a escuta atenta desse alluno, individualmente. 2. Qual é a diferença entre transtorno e dificuldade de aprendizagem? 84 Orientação Educacional na prática Transtorno caracteriza uma condição neurológica e dificuldade significa uma circunstância específica de ordem situacional enfrentada pelo aluno. 3. Qual documento prevê a obrigatoriedade do trabalho com as habilidades socioemocionais? Cite exemplos presentes no documento. O documento que prevê a obrigatoriedade do trabalho com as habilidades socioemocionais é a Base Nacional Curricular Comum (BNCC). O documento cita, entre outros, o trabalho em equipe, a liderança e empatia como habilidades essenciais a serem desenvolvidas nos alunos. 5 A práxis do orientador educacional 1. Qual é a principal função do orientador gestor? Promover o diálogo entre as diferentes áreas que compõem a escola: professores, alunos e comunidade. 2. Quais são as diferenças entre orientação vocacional e profissional? A orientação vocacional foca as habilidades socioemocionais dos alunos, enquanto a orientação profissional apresenta o mercado de trabalho e os cursos de Ensino Superior. 3. Quais são os documentos que garantem a educação inclusiva? A Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Resolução das atividades 85 Orientação Educacional na Prática Joelma Marçal JO ELM A M ARÇAL O RIENTAÇÃO EDUCACIO NAL NA PRÁTICA Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-65-5821-097-9 9 786558 210979 Código Logístico I000346 Página em branco Página em branco