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Natalia Quintino Dias Apendicite aguda É uma inflamação aguda do apêndice vermiforme. É a principal causa de abdome agudo e é a infecção cirúrgica mais atendida na emergência. Epidemiologicamente, é a principal causa de abdome agudo em crianças, adolescentes e adultos jovens. Acomete mais os indivíduos do sexo masculino. Fisiopatologia O apêndice cecal é um órgão que costuma apresentar topografias variáveis, sendo este, um motivo que influencia na clínica do paciente. A apendicite se dá por meio da obstrução do lúmen, com a aparição de fecalitos (+ comum – massa de fezes empedradas e endurecidas), infecções parasitárias, corpos estranhos ou tumores ou presença de hiperplasia linfóide. Assim que obstruído, haverá acúmulo de secreção, e como consequência, o aumento da pressão intraluminal, provocando assim um estímulo das fibras viscerais aferentes, (localizadas entre T8 e T10), o que resulta a dor referida na região periumbilical/mesogástrica. Em se tratando da dor referida, normalmente se mostra pouco localizada, não apresenta ser intensa, durando em torno de quatro a seis horas. Concomitante a isso, esta fase pode ser acompanhada de sintomas como náuseas, vômitos e anorexia. O processo para aparição da isquemia no apêndice acontece perante uma elevação da pressão intraluminal, o que resulta na diminuição da pressão de perfusão de sangue nos capilares sanguíneos. Assim, há perda na capacidade de proteção do epitélio, levando a propagação de bactérias e aparição de um processo infeccioso de maneira síncrona. A dor referida se irradia para a região do apêndice, sendo que o mesmo costuma se situar na fossa ilíaca direita, tendo potencial de associar sinais de irritação peritoneal, como visto na descompressão brusca positiva. As principais bactérias identificadas nos casos de apendicite aguda são E. coli e B. fragilis. (A) fase edematosa, apenas com edema e hiperemia do apêndice; (B) apêndice mais edemaciado, com gangrena em sua extremidade, na iminência de perfurar; (C) fecálitos no lúmen apendicular. Classificação Conforme a evolução do quadro, é possível classificar a apendicite aguda em fases: edematosa, fibrinosa, necrótica e perfurativa. A classificação é dividida em fases (0 – 4). Fase 0: apêndice normal; Fase I: apêndice hiperemiado e edemaciado; Fase II: apêndice dotado de exsudato fibrinoso; Fase III: apêndice com abscesso e necrose; Fase IV: estado de apendicite perfurada. Sendo estas fases divididas em não-complicada (casos I e II) e apendicite complicada (casos III e IV). Quadro clínico - Dor abdominal periumbilical que migra para fossa ilíaca direita (FID); - Anorexia, náuseas e vômito; - Estado subfebril ou ausência de febre no início do quadro. Com o decorrer do tempo, a dor vai se tornando cada vez mais localizada, surgindo irritação peritoneal local. Apresentações clínicas atípicas são comuns em pacientes que apresentam variações anatômicas do apêndice, imunocomprometidos (HIV, diabetes mellitus, lúpus, esclerodermia) ou por uso de imunossupressores (corticoides ou quimioterapia para câncer). Gestantes também podem apresentar dores atípicas no abdome, com dificuldade diagnóstica em virtude da posição cecal alterada pelo aumento do útero gravídico. Mulheres em idade fértil também apresentam diagnóstico dificultado pelo maior leque de possibilidades diagnósticas. Natalia Quintino Dias Diagnóstico É eminentemente clínico. Exame físico A ausculta abdominal pode revelar ausência ou diminuição acentuada dos ruídos intestinais. A percussão dolorosa também é manobra propedêutica importante. A palpação revela dor no ponto de McBurney, anatomicamente localizado no terço lateral de uma linha imaginária que vai da espinha ilíaca anterossuperior até o umbigo. O sinal de Blumberg consiste na descompressão brusca dolorosa após a palpação da FID. Outros sinais podem estar presentes: - Sinal de Rovsing: dor na FID quando se palpa a FIE, ocasionando retorno gasoso com distensão do ceco. - Sinal do Obturador: dor durante a rotação interna passiva da coxa direita flexionada. - Sinal do Psoas: Dor na flexão ativa da coxa direita contra uma resistência ou dor na extensão passiva desta, com o paciente deitado em decúbito lateral esquerdo. Exames laboratoriais São inespecíficos e, na maioria das vezes, solicitados para afastar diagnósticos diferenciais. O leucograma da apendicite aguda não costuma cursar com desvio à esquerda nos primeiros três dias de evolução da doença, inclusive podendo até não causar leucocitose. Porém, ocorre neutrofilia (aumento de neutrófilos). Escala de Alvarado É usada como triagem para identificar pacientes com alto risco de apendicite aguda. < 2: baixo risco 3-6: risco intermediário >7: alto risco. Exames de imagem Raios X de abdome: fornecem sinais indiretos, como borramento da linha do psoas, posição antálgica com escoliose côncava para o apêndice e alça de íleo parética próxima à FID. O achado de cálculo no quadrante inferior direito do abdome pode sugerir fecálito. A presença de pneumoperitônio na apendicite aguda é rara. Natalia Quintino Dias USG abdominal: O achado de apêndice não compressível costuma ser relatado como o dado mais específico, porém isso só pode ser considerado em pacientes magros. Também é possível localizar bloqueio pélvico ou coleção líquida na FID. Tomografia Computadorizada (TC): pode identificar o apêndice distendido ou coleções e bloqueios locais. Também podem ser encontrados espessamento parietal do ceco, fecálito, ar extraluminal, ar intramural dissecando as paredes e flegmão do ceco. A videolaparoscopia pode ser usada como recurso diagnóstico e terapêutico. Suas indicações clássicas são para obesos, gestantes e em casos de dúvida diagnóstica. Tratamento É cirúrgico. A incisão clássica utilizada é a descrita por McBurney. (A) incisão de McBurney; (B) sítios para colocação dos trocartes na apendicectomia videolaparoscópica; (C) outras incisões possíveis: 1 - Battle, 2 - Rockey-Davis e 3 - mediana. Outras incisões possíveis são as de Rockey-Davis (transversa, sobre o ponto de McBurney), de Battle (paramediana, pararretal externa, infraumbilical à direita) e a mediana. Esta deve ser indicada nos casos de diagnóstico tardio, presença de plastrão palpável e suspeita de complicações, como fístulas para outros órgãos. O ceco deve ser identificado primeiramente; caso isso não seja possível, deve-se considerar má rotação dos intestinos. Identificado o apêndice cecal, realiza-se a ligadura dos vasos do mesoapêndice, seguida da ligadura e da secção do apêndice na base. O coto cecal pode ser invaginado pela técnica de Ochsner (“bolsa de tabaqueiro”) ou à Parker-Kerr. Com o advento da laparoscopia, tornou-se aceita a prática de apenas grampear o apêndice sem invaginar o coto. Em caso de apêndice normal no intraoperatório, deve-se estender a investigação procurando por divertículo de Meckel, salpingite aguda e doença de Crohn. Preconiza-se a remoção do apêndice, mesmo estando normal, a todos os submetidos à incisão de McBurney ou de Rockey-Davis. A abordagem laparoscópica facilita investigação mais ampla e está associada a menor período de internação hospitalar e à recuperação mais rápida do paciente para suas atividades diárias. A videolaparoscopia realizada na gestante costuma ser bem tolerada pela mãe e pelo feto. Se diagnóstico duvidoso: observação clínica + hidratação intravenosa + analgesia (não mascara o sinal de peritonite). O uso pré-operatório de antibiótico em casos de apendicite não perfurada diminui infecções de ferida e a formação de abscessos intracavitários. Apendicite hiperplásica Ocorre em 7% dos casos, o apêndice se torna intensamente bloqueadopelo epíploon, com alças do delgado próximas e o peritônio parietal formando uma massa tumoral. O tempo de evolução é mais longo (5-10 dias), o ritmo intestinal está mantido e os sinais de irritação peritoneal são bem localizados e pouco intensos. A presença de massa palpável na FID desperta a atenção para seu diagnóstico. Seu tratamento inicial consiste basicamente em antibioticoterapia e observação clínica. Apendicectomia de intervalo: realiza-se drenagem percutânea do abscesso associada ao antibiótico venoso e opera-se o paciente normalmente após seis semanas.