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Autores: Prof. Cristiano Schiavinato Baldan Prof. Diego Galace de Freitas Prof. Ricardo Thiago Paniza Ambrosio Colaboradores: Profa. Roberta Pasqualucci Ronca Prof. José Carlos Morilla Termo e Fototerapia Professores conteudistas: Cristiano Schiavinato Baldan / Diego Galace de Freitas / Ricardo Thiago Paniza Ambrosio © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B175t Baldan, Cristiano Schiavinato. Termo e Fototerapia / Cristiano Schiavinato Baldan, Diego Galace de Freitas, Ricardo Thiago Paniza Ambrosio. – São Paulo: Editora Sol, 2020. 176 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Termoterapia. 2. Magnetoterapia. 3. Ultrassom. I. Baldan, Cristiano Schiavinato. II. Freitas, Diego Galace de. III. Ambrosio, Ricardo Thiago Paniza. IV. Título. CDU 615.84 U508.29 – 20 Cristiano Schiavinato Baldan Natural de São Carlos (SP). Bacharel em Fisioterapia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar-2001) e em Direito pela Universidade Paulista (UNIP-2018). Especialista em Fisioterapia Motora pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP-2002), mestre (2005) e doutor (2013) pela Universidade de São Paulo (USP) em Ciências (Fisiopatologia Experimental). Na UNIP, desempenha várias funções. É professor desde 2002, coordenador de curso e de clínica desde 2003, coordenador geral e diretor adjunto do Instituto de Ciências da Saúde desde 2012. É fisioterapeuta ortopédico-funcional e esportivo desde 2000. Atuou como preceptor de fisioterapia ortopédica e traumatológica no Hospital do Ipiranga por dez anos, assim como foi professor dos cursos de Fisioterapia e supervisor de estágios da Unicapital, Unisa, Unicid e Faculdade Mario Schenberg entre 2001 e 2012. Atualmente, é diretor do Instituto Imparare, diretor adjunto do Instituto de Ciências da Saúde, coordenador geral do curso de Fisioterapia da UNIP, coordenador do curso de Fisioterapia da UNIP (campus Alphaville), coordenador da Clínica de Fisioterapia da UNIP (campus Alphaville), membro do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP-UNIP), membro fundador do Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA-UNIP), professor dos cursos de pós-graduação lato sensu em Fisioterapia Ortopédica e Esportiva da UNIP e do Instituto Imparare, membro honorário da Associação Nacional de Fisioterapia em Quiropraxia (ANAFIQ) e membro do corpo editorial do Journal of the Health Sciences Institute e do International Journal of Sports Medicine. Diego Galace de Freitas Graduado em Fisioterapia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas-2005), especialista em Acupuntura pelo Instituto Brasileiro de Acupuntura e Massoterapia de Ribeirão Preto (Ibram-2006), em Fisioterapia Quiropraxia pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp-2008), em Terapia Manipulativa pela Hands-On Seminar (2009) e em Fisioterapia Osteopática pela Faculdade de Ciências e Tecnologia Alberto Einstein (FACTAE-2018). Especialista e aprimorado em Fisioterapia Musculoesquelética pela ISCMSP (2006). Doutor em Ciências da Saúde pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP-2014). Atualmente, é fisioterapeuta da ISCMSP e do Centro de Integração Postural (CIP). É coordenador do MBA em Ortopedia, Traumatologia e Esporte no Cefai/Ibramed e da pós-graduação em Fisioterapia Ortopédica no Instituto Imparare. É coordenador auxiliar e professor titular da UNIP e professor instrutor da FCMSCSP. Possui experiência na área da fisioterapia, com ênfase em musculoesquelética. Ricardo Thiago Paniza Ambrosio Graduado em Fisioterapia pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicid-2008), complemento em Ciências Biológicas e pós- graduação em Recursos Terapêuticos Manuais pela Unicid (2012) e Medicina Tradicional Chinesa pelo Centro de Estudos de Acupuntura e Terapias Alternativas (Ceata-2014). Atualmente, é docente e supervisor de estágio em ortopedia no curso de graduação em Fisioterapia do grupo Kroton e da UNIP e coordenador do curso de pós-graduação da Faculdade Unyleya. Conteudista pedagógico do Instituto Imparare e escritor para a editora Guanabara, grupo Somos, ETB, Universidade Brasil, grupo Kroton e UNIP. Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcello Vannini Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Deise Alcantara Carreiro – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Bruna Baldez Vitor Andrade Sumário Termo e Fototerapia APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................7 Unidade I 1 REPARO TECIDUAL .............................................................................................................................................9 1.1 Processo de cicatrização .......................................................................................................................9 1.2 Fases da cicatrização ..............................................................................................................................9 1.3 Formas de cicatrização ....................................................................................................................... 11 2 CRIOTERAPIA ..................................................................................................................................................... 12 2.1 Efeitos fisiológicos, terapêuticos, neurológicos e neuromusculares da aplicação do frio ................................................................................................ 12 2.2 PRICE ou REGECEE ............................................................................................................................... 14 2.3 Técnicas e aplicações da crioterapia ............................................................................................. 18 3 EFEITOS FISIOLÓGICOS E TERAPÊUTICOS DO CALOR ........................................................................ 25 3.1 Resposta sistêmica frente à aplicação térmica ........................................................................ 30 3.1.1 Resposta celular frente às alterações térmicas .......................................................................... 30 3.1.2 Resposta muscular à aplicação térmica ........................................................................................ 33 3.1.3 Resposta neural à aplicação térmica .............................................................................................. 33 3.1.4 Resposta do fluxo sanguíneo à aplicação térmica.................................................................... 35 3.1.5 Resposta do colágeno à elevação térmica ................................................................................... 35 3.2 Técnicas e aplicações do calor ........................................................................................................36 3.2.1 Parafina ou cera....................................................................................................................................... 38 3.2.2 Bolsas ou compressas térmicas ......................................................................................................... 41 3.2.3 Turbilhão ..................................................................................................................................................... 43 4 ONDAS CURTAS ............................................................................................................................................... 52 4.1 O equipamento ...................................................................................................................................... 54 4.2 Atuação biofísica da diatermia por onda curta ....................................................................... 56 4.3 Modalidades de emissão de ondas curtas e regime de pulso ............................................ 59 Unidade II 5 MICRO-ONDAS E MAGNETOTERAPIA ...................................................................................................... 73 5.1 Micro-ondas ........................................................................................................................................... 73 5.1.1 Características físicas ............................................................................................................................ 74 5.1.2 Posicionamento do refletor ................................................................................................................ 76 5.2 Magnetoterapia – campo eletromagnético pulsado ou contínuo ................................... 84 5.2.1 Magnetismo .............................................................................................................................................. 86 5.2.2 A física na magnetoterapia ................................................................................................................ 89 5.2.3 Campos eletromagnéticos naturais ................................................................................................. 90 5.2.4 O que saber para realizar a magnetoterapia? ............................................................................. 90 5.2.5 Efeitos fisiológicos, terapêuticos e indicações ............................................................................ 91 5.2.6 Contraindicações .................................................................................................................................... 95 6 TERAPIA DE ONDAS DE CHOQUE (TOC) .................................................................................................. 96 6.1 O equipamento ...................................................................................................................................... 97 6.2 A física na TOC ....................................................................................................................................... 97 6.3 O que saber para realizar a TOC? .................................................................................................100 6.4 Efeitos fisiológicos e terapêuticos ...............................................................................................100 6.5 Indicações ..............................................................................................................................................101 6.6 Contraindicações ................................................................................................................................104 Unidade III 7 LASERTERAPIA DE BAIXA INTENSIDADE ..............................................................................................109 7.1 Histórico .................................................................................................................................................109 7.2 Produção de um laser .......................................................................................................................110 7.3 Características especiais do laser .................................................................................................112 7.3.1 Monocromaticidade ............................................................................................................................. 113 7.3.2 Colimação ................................................................................................................................................113 7.3.3 Coerência .................................................................................................................................................113 7.4 Interação do laser com os tecidos ...............................................................................................114 7.5 Capacidade de penetração do laser ............................................................................................115 7.6 Efeitos biológicos da radiação laser............................................................................................116 7.7 Principais indicações clínicas do laser de baixa energia ....................................................118 7.8 Aplicação prática do laser de baixa energia ............................................................................126 8 TERAPIA POR ULTRASSOM ........................................................................................................................136 8.1 Introdução .............................................................................................................................................136 8.2 Produção do ultrassom ....................................................................................................................137 8.3 Efeitos da terapia por ultrassom ..................................................................................................137 8.4 Fonoforese ou sonoforese ...............................................................................................................149 8.5 Contraindicações e precauções do uso do ultrassom .........................................................150 8.6 Precauções sobre o uso da terapia por ultrassom ................................................................152 7 APRESENTAÇÃO Esta disciplina propõe fornecer aos alunos os conhecimentos e recursos teórico-práticos para a terapêutica baseada na termoterapia e na fototerapia, capacitando-os para a escolha dos recursos indicados a cada necessidade terapêutica e para o manuseio dos diferentes dispositivos e aparelhos de crioterapia, diatermia, ultrassom terapêutico e laserterapia. Os objetivos desta disciplina são: • Rever conceitos da termofísica. • Identificar as alterações fisiológicas promovidas pela alteração da temperatura corporal. • Apresentar os equipamentos termofototerapêuticos utilizados pela fisioterapia. • Expor os processos de reparação dos tecidos, frente às mais diversas lesões. • Demonstrar casos clínicos e discuti-los, a fim de preparar o aluno para a prática clínica. • Conhecer os mecanismos de ação, os efeitos fisiológicos, terapêuticos e adversos nas variadas formas de utilização de termoterapia e fototerapia. • Proporcionar um aprendizado teórico-prático do uso dos recursos térmicos e fototerapêuticos. • Capacitar o aluno para a utilização da termoterapia e da fototerapia perante condições patológicas do paciente. • Facilitar a formação do profissional da área para o emprego da termofototerapia como um recurso promotor de saúde e bem-estar para o paciente. INTRODUÇÃO Neste livro-texto, aprenderemos sobre os recursos de crioterapia, diatermia, ultrassom e laserterapia, assim como as ondas de choque. Inicialmente, vamos compreender o que é reparação tecidual, crioterapia, termoterapia e ondas curtas – tipos de ondas curtas, características físicas, colocação de eletrodos, interferência do campo magnético,regimes de pulso, interações biológicas, ação principal, indicação e contraindicação. Em seguida, conheceremos as técnicas de magnetoterapia, micro-ondas e as terapias por ondas de choque. Por fim, estudaremos a laserterapia e o ultrassom terapêutico. Dessa forma, você poderá aprender sobre os principais recursos da termofototerapia, desde os aspectos teóricos até os práticos, analisando as principais e atuais evidências científicas, não deixando, no entanto, de rever as bases da literatura que fundamentam o conhecimento atual. Bom estudo! 9 TERMO E FOTOTERAPIA Unidade I Nesta unidade, estudaremos os principais aspectos da crioterapia e da termoterapia superficial e profunda por ondas curtas e micro-ondas, assim como os diferentes métodos de aplicação. Para que possamos compreender as indicações, as contraindicações, os cuidados e os efeitos terapêuticos, serão abordados aspectos quanto ao reparo tecidual, ao processo inflamatório e às alterações dos recursos nos diferentes sistemas, desde o vascular e nervoso até o metabólico e muscular. Vamos conhecer as bases conceituais e as aplicabilidades dos diferentes recursos, permitindo a indispensável comunicação e a ponte teórico-prática, útil tanto para o dia a dia clínico quanto para as possibilidades de pesquisas científicas. 1 REPARO TECIDUAL A pele é considerada o maior órgão do corpo humano, possuindo múltiplas funções, as quais podem ser prejudicadas pela ruptura desse tecido tegumentar. O processo de cicatrização, que ocorre no tecido epitelial, envolve fenômenos bioquímicos e fisiológicos, que interagem e desenvolvem uma cascata de eventos para que ocorra a reparação tecidual. A regulação fisiológica da cicatrização de feridas é dependente de muitos tipos de células, mediadores e fatores de crescimento, que ocorrem de forma dinâmica e regulada. Lembrete O processo inflamatório é uma resposta vascular e sanguínea que visa limpar toda e qualquer área lesada ou patogênica, a fim de preparar a região para o reparo tecidual. 1.1 Processo de cicatrização O processo de cicatrização de feridas pode ser dividido cinco fases, que se sobrepõem no tempo e espaço: fase de hemostasia e coagulação; fase inflamatória; fase de proliferação e reparo; fase de remodelação e fase de cicatrização final. 1.2 Fases da cicatrização Vamos conhecer melhor cada uma dessas fases a seguir. 10 Unidade I Fase de hemostasia e coagulação Após o trauma inicial, ocorre a formação de uma matriz celular provisória, e, devido à lesão de vasos sanguíneos e linfáticos, diferentes cascatas de coagulação são iniciadas. Diversos fatores extrínsecos ou intrínsecos de coagulação são acionados. Vasos sanguíneos realizam uma vasoconstrição, de 5 a 10 minutos, para reduzir a perda de sangue e preencher o tecido lesionado com compostos de citocinas e fatores de crescimento. Fase inflamatória Esta é a primeira fase do processo de reparo tecidual. Pode durar de 2 a 5 dias (fase aguda) ou estender-se por um período mais longo (fase subaguda e crônica), ocorrendo o recrutamento de neutrófilos, que realizam a fagocitose e servem como quimioatraentes para outras células envolvidas na fase inflamatória. Nessa fase, os neutrófilos liberam mediadores, como o fator de necrose tumoral (TNF), a interleucina-1 (IL-1) e a interleucina-6 (IL-6), que amplificam a resposta inflamatória e estimulam a liberação do fator de crescimento vascular endotelial (VEGF) e da interleucina-8 (IL-8) para uma resposta adequada ao reparo tecidual. Evidências relatam que a quantidade de inflamação determina a extensão das cicatrizes. Fase de proliferação e reparo Esta fase ocorre de 3 a 10 dias após a lesão inicial, com a formação do tecido de granulação, a restauração da rede vascular e a migração dos fibroblastos para favorecer a reepitelização e aproximação das margens da lesão. Aqui, há a presença de substâncias com importantes funções, como: • TGF-β (fator de crescimento tumoral-β): indução da síntese colagenosa. • IL-1: indução da síntese colagenosa. • TNF: indução da síntese colagenosa. • IFN (interferon): redução da síntese colagenosa. • TNF-α (fator de necrose tumoral-α): redução da síntese colagenosa. • PGE-2 (prostaglandina do tipo E2): redução da síntese colagenosa. Fase de remodelação É a última fase da cicatrização e ocorre aproximadamente do 21º dia até 1 ano após a lesão. Nessa fase de maturação, os componentes da matriz extracelular (MEC) sofrem alterações. Entre as principais, destaca-se a substituição gradual do colágeno do tipo III pelo colágeno do tipo I (paralelo e resistente). 11 TERMO E FOTOTERAPIA Observação As fases de remodelagem são dependentes das linhas de tensões geradas durante os movimentos, a partir de forças de tração e compressão. Fase de cicatrização final A formação das cicatrizes demarca o final da última fase da cicatrização da lesão, ou seja, a substituição do tecido original por uma cicatriz preferencialmente normotrófica. Vale ressaltar que o processo inflamatório se caracteriza por uma resposta vascular e sanguínea de migração leucocitária, com o objetivo de isolar o agente agressor, sitiá-lo ou degradá-lo, ou mesmo realizar a fagocitose de tecidos lesados, permitindo que ocorra um reparo tecidual como fase final. Durante o processo inflamatório, é possível identificar os clássicos sinais cardeais da inflamação, como pode ser visto na figura a seguir. A somatória destes elementos, principalmente em graus elevados, acaba por impedir muitas vezes que algumas funções sejam realizadas A tumefação, ou edema, ocorre devido à quantia de sangue que extravasa do vaso sanguíneo e se aloja em locais onde antes não estaria O aumento de temperatura que ocorre na região também acompanha o aumento do fluxo sanguíneo e o extravasamento de sangue tardio O rubor é a vermelhidão que ocorre durante o aumento do fluxo sanguíneo na região, causado principalmente pelo extravasamento de sangue tardio A dor é induzida pelos mediadores químicos que acompanham a inflamação • Perda funcional • Tumor • Calor • Rubor • Dor Figura 1 – Sinais cardeais do processo inflamatório 1.3 Formas de cicatrização Existem três formas de cicatrização, conhecidas como primeira intenção, segunda intenção e terceira intenção. Na primeira intenção, as margens da ferida estão próximas e a perda tecidual é pequena, permitindo a aproximação das margens teciduais por sutura. A segunda intenção pode estar associada a feridas infectadas e à considerável perda tecidual, impedindo a aproximação das margens da ferida por sutura. 12 Unidade I Na terceira intenção, realiza-se inicialmente o procedimento de sutura da ferida; porém, por algum motivo adverso, ocorre a perda da aproximação das margens. Após esse evento, a área é mantida sem intervenção, havendo a drenagem do líquido ou coleção purulenta para posterior sutura ou cicatrização por segunda intenção. 2 CRIOTERAPIA A crioterapia é uma modalidade terapêutica que atua com base no resfriamento dos tecidos superficiais e profundos. É comumente utilizada na prática esportiva e em lesões traumáticas musculoesqueléticas imediatas. Para resfriar um tecido humano, é necessário algum elemento ou substância com temperatura inferior à do corpo humano, possibilitando retirar o calor do corpo e diminuir, assim, a temperatura das estruturas teciduais. No entanto, outros fatores também estão relacionados à possibilidade de resfriamento do tecido, como: • Quantia de tecido. • Composição de cada tecido. • Condutividade do tecido. • Vascularização do tecido. • Tempo de exposição à temperatura reduzida. Tal modalidade vem sendo utilizada desde os gregos, que realizavam tratamentos com a utilização da neve. Relatos de 1850 descrevem a utilização terapêutica de compressas geladas para auxiliar em técnicas cirúrgicas, mas apenas na década de 1930 a crioterapia foi utilizada com tempo médio de 30 minutos para o tratamento de lesões agudas. 2.1Efeitos fisiológicos, terapêuticos, neurológicos e neuromusculares da aplicação do frio Com a redução da temperatura corporal, muitos efeitos fisiológicos ocorrem. É preciso, no entanto, entender que o corpo possui um limite de resfriamento para a resposta fisiológica saudável e terapêutica, uma vez que, quando resfriado além desse limite, o resultado é a lesão tecidual. Assim que o corpo toca o agente resfriador, os vasos sanguíneos respondem com uma constrição referente ao sistema nervoso autônomo, agindo tanto nas artérias e arteríolas quanto nas veias e vênulas. Tal efeito visa proteger a temperatura corporal central. Após a exposição por um dado período, o corpo tende a responder com uma vasodilatação, mas logo retorna ao estado de constrição, seguindo nesse ciclo por um período. Esse processo é chamado de vasodilatação induzida pelo frio. 13 TERMO E FOTOTERAPIA A redução da luz dos vasos sanguíneos altera o fluxo da região. O resfriamento poderá tornar o sangue mais viscoso, elevando a resistência da passagem do fluido contra a parede vascular. A vasoconstrição possui relação com a redução de substâncias como histamina e prostaglandina, assim como com a ativação do sistema adrenérgico simpático. Pensando em efeitos profundos, graças à barreira adiposa, existe uma demora de resposta muscular – por exemplo, pela proteção térmica. Esses eventos estão também associados indiretamente à redução da taxa metabólica, promovendo tempo de reparo tecidual e neoangiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) para correção das lesões e redução de aporte sanguíneo causado pelas lesões agudas. Pode-se dizer que a utilização da crioterapia evita, então, a lesão tecidual por hipóxia secundária. As estruturas colagenosas tornam-se menos maleáveis frente ao resfriamento, podendo, assim, gerar rigidez articular, principalmente em quadros patológicos de osteoartrose (OA). Ao analisar os impulsos elétricos, estes tendem a ser propagados de forma lentificada frente à redução térmica. Espera-se uma redução do tônus muscular. Esse efeito é notado inicialmente na análise do fuso neuromuscular, o qual apresenta resposta cada vez mais lentificada à medida que o resfriamento evolui. A redução da aferência de impulsos elétricos faz com que as infrações que serão interpretadas como dor, ao chegarem ao cérebro, tenham a sua condução reduzida; dessa forma, o paciente sentirá menos dor. As terminações nervosas livres, principalmente os nociceptores, aumentam seu limiar de disparo. Assim, são menos ativadas, contribuindo também para a redução de dor. Terapeuticamente, os efeitos do resfriamento dos tecidos são: • Controle do processo inflamatório agudo (o gelo auxilia na redução do edema e na redução do metabolismo, minimizando a lesão por hipóxia secundária). • Redução do metabolismo inflamatório. • Redução da síntese de prostaglandina. • Redução da permeabilidade vascular. • Redução dos extravasamentos de sangue tardio. • Redução dos espasmos musculares. • Resfriamento de tecidos imediatamente após queimaduras. • Edemas agudos. • Nevralgias. 14 Unidade I A crioterapia é contraindicada em casos específicos, que variam desde condições patológicas até o estado do paciente. São contraindicações: • Ferimentos abertos. • Insuficiência circulatória. • Diabetes descontrolada. • Fenômeno de Raynaud. • Alteração de sensibilidade. • Obesidade mórbida. Lembrete É preciso diferenciar a exposição climática ao frio da aplicação terapêutica de recursos que utilizam o meio frio (crioterapia), ou seja, a retirada de calor da região. 2.2 PRICE ou REGECEE O método PRICE é habitualmente utilizado na prática esportiva, mas pode ser utilizado no dia a dia de pacientes que não são atletas. O acrônimo deve ser entendido da forma como está apresentado na figura a seguir. • Protection (proteção)P • Rest (repouso)R • Ice (gelo)I • Compression (compressão)C • Elevation (elevação)E Figura 2 – Acrônimo com tradução do método PRICE 15 TERMO E FOTOTERAPIA O entendimento do acrônimo PRICE direciona a prática clínica dessa metodologia, uma vez que este descreve perfeitamente os passos do método crioterápico. Esse método possui vantagens por ser de fácil aplicação e grande efetividade quando realizado imediatamente após os processos de lesão aguda. Cada item do método PRICE possui uma função específica para auxiliar em casos de: • Entorses. • Estiramento. • Contusão. • Lesões musculoesqueléticas gerais. • Lesões articulares. Vamos, então, analisar cada elemento da metodologia PRICE. • Proteção: assim que ocorre algum tipo de lesão musculoesquelética, é preciso imediatamente proteger a região, evitando que uma segunda lesão ocorra na região ou periferia. • Repouso: o repouso é a primeira maneira de reduzir rapidamente o metabolismo da região e, assim, evitar o gasto energético desnecessário. • Gelo: a aplicação do gelo reduz o metabolismo, sendo capaz de manter seu efeito (caso o paciente permaneça em repouso) por até 60 a 90 minutos após a aplicação, evitando a lesão por hipóxia secundária. • Compressão: a presença de um processo inflamatório agudo promove a vasodilatação e o extravasamento de sangue tardio, responsável por edemas. Os edemas aumentam ainda mais o quadro álgico, uma vez que comprimem regiões específicas e ativam os nociceptores. A presença de edema prejudica também a função da região. A compressão visa, portanto, evitar o surgimento dos edemas. • Elevação: a elevação faz com que a ação da gravidade dificulte a formação de edemas e facilite a drenagem fisiológica. O método PRICE promove uma série de alterações fisiológicas e, por consequência, terapêuticas, conforme apresentado na figura a seguir. 16 Unidade I Redução metabólica PRICE Redução da condução neural Diminuição do quadro inflamatório Redução do fluxo sanguíneo Controle do quadro álgico Figura 3 – Efeitos fisiológicos e terapêuticos do método PRICE Alguns autores (GREGÓRIO et al., 2014), no entanto, acreditam que a redução da temperatura que ocorre frente ao método PRICE pode resfriar os tecidos a ponto de elevar a viscoelasticidade e reduzir a mobilidade pelo aumento da rigidez tecidual, o que pode promover um prejuízo à reabilitação. Eles afirmam também que o elevado período refratário neural após a aplicação da crioterapia impede, ou ao menos dificulta, a produção de força muscular. Porém, é necessário analisar que a aplicação da crioterapia reduz a condução do impulso elétrico, aumentando o limiar de disparo dos nociceptores e auxiliando no processo da reabilitação. Percebe-se, assim, que, como ocorre em quase toda modalidade terapêutica, há benefícios e prejuízos da técnica, sendo necessário entender o momento correto da sua utilização em relação à história natural da doença, respeitando as recomendações de segurança e avaliando a possível existência de contraindicações. Alguns cuidados prévios à aplicação do método PRICE são: • Verificar se o paciente possui hipersensibilidade ao frio (condições como o Fenômeno de Raynaud). • Mover o gelo a cada 5 minutos. • Triturar o gelo. • Evitar a utilização de gelo com álcool em casos de hipersensibilidade tecidual. • Evitar tempo de aplicação superior a 40 minutos. • Evitar contração excessiva. 17 TERMO E FOTOTERAPIA • Questionar constantemente o paciente quanto à sensibilidade. • Avaliar a região durante a aplicação. • Optar pela aplicação imediatamente após a lesão, ou seja, nos estágios inflamatórios agudos. • Atentar-se ainda mais quando a aplicação ocorrer sobre áreas distais de pequeno volume, como os dedos. Para realizar a aplicação do método PRICE, é importante que o terapeuta (sempre que possível) esteja preparado com materiais à disposição, como gelo e faixa elástica ou rígida. Para o atendimento emergencial na área esportiva, é fundamental que o fisioterapeuta, junto da equipe de saúde, encaminhe o atleta a um local seguro e inicie o protocolo, respeitando a fase agudada lesão. O paciente deve, preferencialmente, posicionar-se em decúbito, elevando o membro afetado para facilitar a drenagem postural do edema. O terapeuta deve fazer uso de gelo triturado a fim de melhorar o acoplamento à região corporal a ser tratada, envolvendo-a completamente. É essencial a utilização de uma bandagem que permita estabilizar a compressa fria, assim como comprimir a região, para que essa pressão externa favoreça a drenagem do edema. É recomendado que o paciente permaneça na posição por 20 a 30 minutos e mantenha o membro apoiado para que a elevação ocorra de forma passiva. Figura 4 – Aplicação do método PRICE em paciente que acabou de sofrer entorse do tornozelo esquerdo. Paciente em decúbito dorsal, com elevação do membro inferior esquerdo, mantido apoiado sobre a maleta do terapeuta (note que, para menor desconforto, houve o cuidado de usar uma manta sob o pé do atleta), para favorecer a drenagem do edema. Observa-se a presença de bandagem fixa sobre o agente resfriado, para manter a estabilidade da compressa gelada sobre o membro e aumentar a pressão externa na articulação 18 Unidade I 2.3 Técnicas e aplicações da crioterapia A aplicação da crioterapia tem sido cada vez mais explorada por diferentes profissionais da área da saúde e possui grande atuação, principalmente na parte esportiva. Assim, muitos dispositivos surgiram na busca por facilitar tal prática. Vejamos, a seguir, algumas dessas modalidades, seus benefícios e diferenciais. Compressa de gelo A compressa de gelo é a modalidade terapêutica de maior utilização, uma vez que pode ser aplicada facilmente apenas com gelo em um recipiente. Você já deve ter percebido que, quando alguém sofre uma lesão musculoesquelética, as pessoas próximas acabam por buscar gelo e logo aplicar sobre a lesão. Comumente, o gelo é armazenado num saco plástico ou envolvido por uma toalha e, então, pressionado sobre o local. Para que a técnica seja aplicada corretamente, sugere-se ao agente: • Triturar ou quebrar o gelo. • Envolver o gelo numa toalha (que não pode ser muito espessa) ou inseri-lo num saco plástico, evitando o contato direto com a pele. • Posicionar a compressa sobre o local. • Manter a compressa sobre a região a ser tratada por 20 ou 30 minutos. Para isso, é necessário, muitas vezes, realizar a troca do gelo durante a aplicação. Caso o recipiente seja de plástico, o acúmulo de água do derretimento do gelo pode prejudicar a troca de temperatura. Compressa de gel e química A compressa de gel é um método terapêutico de aplicação da crioterapia que utiliza um recipiente repleto de um gel clínico resfriável, capaz de manter a temperatura durante a sua aplicação. Entre as placas de gel disponíveis no mercado, é comum encontrarmos algumas que, quando resfriadas, tornam-se rígidas e, por isso, são incapazes de acoplarem-se totalmente à região, distribuindo de forma ineficaz a temperatura, diminuindo o potencial terapêutico e aumentando os riscos de gerar queimadura pelo frio, por concentrarem o resfriamento e a pressão sobre pequenas áreas da superfície corporal. 19 TERMO E FOTOTERAPIA A sensação térmica da aplicação terapêutica da crioterapia com compressa de gel tende a ser mais confortável do que a da compressa de gelo, mas, geralmente, o gel consegue manter-se resfriado por tempo menor. Para a aplicação da compressa de gel, é necessário mantê-la no refrigerador pelo tempo mínimo indicado pelo fabricante e retirá-la apenas no momento de aplicar sobre a região. Os melhores pacotes de gel resfriável disponíveis no mercado mantêm temperaturas baixas, sem enrijecerem-se, possibilitando ao terapeuta moldar o pacote à superfície da região tratada. Em situações em que a área da lesão for de grande extensão, poderá ser necessário mais de um pacote de gel para a execução correta do tratamento. O terapeuta deve fixar a compressa sobre a região lesionada, com bandagem elástica, e manter na região pelo tempo de 20 a 30 minutos. Em regiões corporais de grande porte e/ou em ambientes mais quentes, a bolsa de criogel poderá ganhar temperatura rapidamente, sendo necessária sua substituição por outra, em condições térmicas adequadas. Portanto, sugere-se que o profissional tenha sempre mais do que uma bolsa de criogel preparada. Quanto à compressa química, o resfriamento ocorre pela interação de dois ou mais princípios ativos dentro da bolsa vinílica, podendo gerar resfriamento superficial ou mesmo profundo. Esse método não é recomendado para pacientes com alergias e condições dérmicas sensíveis, uma vez que o vazamento do princípio ativo pode ocorrer, promovendo queimadura química. A) D) B) C) Figura 5 – A) Bolsas de gelo; B) bastões de gelo; C) bolsa de gel; D) bolsa de gelo instantânea Imersão em gelo ou crioimersão O método de crioimersão é muito utilizado no esporte e frequentemente demonstrado em reportagens quando atletas fazem a recuperação das atividades esportivas nas banheiras de gelo. 20 Unidade I A crioimersão pode ser realizada de corpo inteiro (até a região cervical) ou apenas imergindo o membro afetado, sendo considerada, em ambos os casos, um método de aplicação desconfortável. Para realizar o procedimento, são necessários: • Recipiente (balde ou banheira). • Água. • Gelo. Por meio da utilização dessa modalidade terapêutica, a temperatura da pele e dos tecidos superficiais é reduzida após 5 minutos de aplicação. Trata-se de um método que visa à redução rápida da temperatura global, promovendo a diminuição da atividade metabólica muscular e da velocidade da condução nervosa. Polar Care® e Cryo cuff O Polar Care® é um método de crioterapia usualmente indicado para o tratamento de pacientes em momentos pós-operatórios ou com lesões traumáticas. Trata-se de um recipiente com gelo e água, cujo líquido resfriado é movimentado por meio de dutos, de forma que o líquido frio preencha as cavidades de almofadas maleáveis no final do circuito de fluxo e que são posicionadas sobre a área da lesão, a fim de resfriar a região. Esse processo permite a circulação da água gelada, garantindo que as placas maleáveis mantenham temperaturas adequadas para o tratamento, uma vez que, por convecção forçada, sempre haverá a chegada de líquido resfriado em substituição àquele que, pelo contato com os tecidos em tratamento, ganharia calor do corpo e, por isso, teria menor efeito terapêutico. Figura 6 – Modelo de Polar Care 21 TERMO E FOTOTERAPIA Suas instruções de uso são indicadas pelo próprio fornecedor (U – POLAR CARE – reg. 10392060048 – rev.01 – 14/09/2015) e são apresentadas a seguir: • Aplicar a almofada Polar Care® de acordo com as instruções de aplicação. • Encher o resfriador com o gelo até o local indicado no dispositivo. • Adicionar água até 1 polegada do topo do resfriador e rosquear a tampa firmemente. • Inserir firmemente a haste do tubo no orifício da tampa do resfriador. • Conectar a almofada empurrando os acopladores juntos, até escutar um click (estalo). • Colocar o resfriador em uma mesa ou suporte ou acima da altura na qual o bulbo manual será usado. • Apertar o bulbo manual lentamente, até que uma bola vermelha indicadora de fluxo seja visível claramente no centro da janela (não apertar o bulbo mais do que o necessário para manter a bola centrada). É preciso dar, aproximadamente, dez apertos para encher a almofada completamente. • Uma vez que a almofada esteja cheia, parar o bombeamento e permitir que a água da almofada esfrie a área afetada durante 5-10 minutos. • Apertar o bulbo de 3 a 4 vezes a cada poucos minutos ou de acordo com o necessário para manter o efeito de resfriamento. Se a temperatura da pele estiver mais fria que a confortavelmente tolerada, apertar o bulbo menos frequentemente; se estiver mais quente que a desejada, apertar o bulbo mais frequentemente. • Reencher a água e o gelo antes de o gelo derreter completamente. • Para finalizar a sessão, parar o bombeamento e remover a almofada. •Drenar o máximo possível de água do sistema, elevando a almofada acima do resfriador e rolando-o lentamente acima da extremidade para retirar toda a água remanescente. • Esvaziar toda a água e o gelo e secar todos os componentes. Esse método é similar ao Cryo cuff, também um dispositivo de armazenamento de água e gelo que pode bombear o ar refrigerado, com os mesmos objetivos. 22 Unidade I Figura 7 – Início da aplicação com Cryo cuff Massagem com gelo ou criomassagem A massagem com gelo ou criomassagem é o método crioterapêutico realizado a partir da utilização de um meio de resfriamento, pressionado e friccionado contra o tecido, com terapêuticas similares à massagem. O método mais simples para realizar a criomassagem é a produção de “sorvetes” de gelo, que serão utilizados em regiões musculares para estímulos proprioceptivos antes da contração, ou mesmo em feridas abertas (borda) para favorecer o aumento do aporte sanguíneo após a cessação do procedimento. Durante a aplicação desse método, o resfriamento do tecido é baixo e sem muitos efeitos clínicos; por isso, esse estímulo acaba sendo mais usado pelos seus efeitos imediatos superficiais e sensório-motores. Não é indicada sua realização em emergências ou urgências esportivas ou traumáticas. Existe a possibilidade de utilizar a criomassagem para auxiliar na liberação do ponto-gatilho. Nesse caso, o procedimento deve seguir o passo a passo: • Identificar o ponto-gatilho. • Escolher a técnica de liberação. • Aplicar a criomassagem antes da realização da técnica, a fim de reduzir o quadro álgico. • Aplicar a técnica após a liberação para favorecer o reparo. 23 TERMO E FOTOTERAPIA Sprays refrigerantes Os sprays refrigerantes têm mostrado um método muito usado em práticas terapêuticas no esporte, por se tratar de aerossóis de fácil portabilidade, capazes de produzir efeito resfriador interessante no manejo de urgências traumáticas. São indicados para redução de espasmos musculares, contração protetora excessiva, controle da dor aguda e redução hemorrágica. Figura 8 – Modelo de Crio Spray Durante a aplicação, deve-se manter um movimento constante do bico ejetor do aerossol, evitando o acúmulo do produto sobre uma única região corporal. Também é fundamental evitar a exposição de regiões sensíveis, como as gônadas e os olhos, a esse tratamento. Outras precauções necessárias são: • Proteger a região dos olhos. • Não inalar o aerossol. • Manter uma distância de 45 cm da pele (ou outra indicada pelo fabricante). Assim como a criomassagem, os sprays são muito utilizados na liberação de pontos-gatilhos. Tal procedimento é bastante interessante, pois a crioterapia é uma forma eficaz de tratamento para essa afecção, e, além disso, quando comparado a outras técnicas, sem dúvida, o resfriamento apresenta a vantagem de ser menos desconfortável ao cliente. Lima, Duarte e Borges (2015) avaliaram a diferença dos resultados obtidos por métodos diferentes de crioterapia, conforme a tabela a seguir. 24 Unidade I Tabela 1 – Resultados clínicos da aplicação de diferentes métodos de crioterapia descritos em literatura nacional Autor/ano Amostra Método crioterápico Conclusão Abreu; Santos; Ventura, 2011 Seis participantes (50 a 60 anos) Bolsa de gelo moído, aplicação de 20 minutos durante 5 dias A terapia combinada não apresentou nenhuma melhora significativa na lombalgia crônica Carvalho et al., 2012 Vinte pessoas de ambos os sexos, com idade entre 20 e 27 anos Bolsa de gelo flexível, tamanho médio, contendo 0,6 kg; cada bolsa de gel permaneceu por, no mínimo, 8 horas no congelador antes de ser utilizada; aplicação: 25 minutos A associação da crioterapia com qualquer outra terapia que necessite da sensibilidade preservada é contraindicada Cassolato et al., 2012 Nove indivíduos de ambos os sexos, com idade de 21 anos Imersão dos tornozelos dominantes à altura de 3 cm acima do maléolo lateral, por 15 minutos, em mistura de água e gelo a 5 ºC; além disso, bacias com diâmetro de 80 cm e 25 cm de altura comportaram a mistura de água e gelo, para posterior imersão dos tornozelos por 15 minutos A crioterapia não influenciou no controle postural, em condição de postura ereta estática, de indivíduos saudáveis, pela avaliação do centro de pressão Correia et al., 2010 Sete voluntários de ambos os sexos, com idade média de 67 anos Aplicação de gelo na musculatura extensora do punho e dos dedos (crioestimulação) durante 1 minuto e 40 segundos A aplicação local, contínua e rápida da crioterapia, associada à cinesioterapia, parece ser eficiente Francisco et al., 2013 114 puérperas de 18 a 38 anos Três grupos usaram bolsa de gelo; a aplicação durou 10, 15 ou 20 minutos Dez minutos de aplicação foram suficientes para reduzir a temperatura perineal Adaptada de: Lima, Duarte e Borges (2015). Saiba mais Outra importante percepção atual sobre a crioterapia pode ser encontrada no estudo a seguir: POINT, M. et al. Cryotherapy induces an increase in muscle stiffness. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v. 28, n. 1, p. 260-266, 2018. Grainger, Comfort e e Heffernan (2020) realizaram uma pesquisa importante, demonstrando que a crioterapia ainda é um tema atual. Os autores estudaram os efeitos da crioimersão parcial dos atletas de rúgbi durante a temporada, identificando que essa modalidade não alterou de forma significativa a dor dos atletas, a qualidade de sono ou mesmo o rendimento esportivo. De acordo com o National Institute of Sport, Expertise, and Performance (INSEP), a crioimersão é utilizada na recuperação de atletas com diferentes focos (ALOULOU et al., 2020). 25 TERMO E FOTOTERAPIA O estudo de Ihsan e colaboradores (2020) desvenda que a crioimersão pós-atividade física pode melhorar as respostas cardiovasculares e a função microvascular alterada em decorrência da atividade física de alto rendimento, influenciando, inclusive, no consumo de O2 máximo. No entanto, ainda são necessários mais estudos para o melhor entendimento. Santos (2018) afirma que atletas envolvidos em esportes de contato são habitualmente expostos a danos nos músculos esqueléticos em seus ambientes de treinamento e desempenho. Isso geralmente leva ao dano muscular induzido pelo exercício (DMIE), resultante de exercícios excêntricos e/ou de alta intensidade repetidos, e ao dano muscular induzido pelo impacto (DMII), resultante de colisões com oponentes e na superfície de jogo. Embora o DMIE tenha sido uma área de extensa investigação, conforme apontamos no estudo citado, o mesmo não ocorre com o DMII, de forma que a magnitude e o prazo das alterações após sua ocorrência ainda não são bem conhecidos. Acredita-se que o DMIE resulte de uma sobrecarga de estresse mecânico que causa danos ultraestruturais aos constituintes da membrana celular. O dano leva à capacidade comprometida de produzir força, que se manifesta imediatamente e persiste por até 14 dias após a exposição ao exercício. O DMII tem sido implicado no desempenho e na recuperação neuromuscular atenuados e nos processos inflamatórios, embora o curso subjacente ao longo do tempo permaneça incerto. A exposição ao DMIE leva a uma adaptação às exposições subsequentes, um fenômeno conhecido como efeito de repetição. Uma adaptação análoga foi sugerida para ocorrer após o DMII; no entanto, até o momento, não se pode afirmar que realmente haja tal adaptação nesse tipo de lesão. Embora um considerável corpo de pesquisa tenha explorado a eficácia das estratégias de recuperação após o DMIE, as estratégias que promovem a recuperação do DMII são limitadas a investigações que utilizam modelos de contusão animal. Estratégias como crioterapia e suplementação de antioxidantes que se concentram na atenuação da resposta inflamatória secundária podem fornecer benefícios adicionais na DMII. A crioterapia apresenta-se como uma modalidade muito utilizada na prática esportiva.Podemos concluir que sua indicação para DMIE é bastante estudada, e, por isso, seus efeitos são conhecidos. No que se refere ao DMII, os estudos são escassos, mas os resultados preliminares parecem encorajadores. 3 EFEITOS FISIOLÓGICOS E TERAPÊUTICOS DO CALOR Certamente você já percebeu que a temperatura do seu corpo se altera em alguns momentos específicos, como em condições patológicas ou quando realiza atividades físicas moderadas e intensas. Essa alteração é percebida frente a uma resposta de controle térmico. A sudorese torna-se mais elevada, e, dependendo da situação, é possível experimentar a piloereção. Ambas as regulações visam impedir alterações bruscas nas temperaturas corporais, tentando manter a chamada homeostase térmica. 26 Unidade I A homeostasia é o termo que define o equilíbrio entre os sistemas biológicos. Logo, a homeostasia térmica visa manter esse equilíbrio com uma temperatura adequada e compatível à vida humana, mesmo em condições patológicas. Você já notou que são raríssimas as experiências na nossa vida que, mesmo em condições de infecções (principalmente de origem bacteriana), nossa temperatura altera-se em, no máximo, 2 ºC? As diferentes condições térmicas apresentadas pelos seres humanos podem ser classificadas nos padrões a seguir: • Padrão de normalidade: 37 ºC. • Hipertermia: 39 ºC. • Hipotermia: 35 ºC. No repouso, em condições normais de saúde, a temperatura corporal central oscila bem menos, conforme pode-se verificar a seguir: • Padrão de normalidade: 37 ºC. • Elevação: 37,3 ºC. • Redução: 36,7 ºC. Acredita-se que a regulação térmica em indivíduos saudáveis pode acompanhar rotinas de alterações leves, de acordo com o estilo de vida do indivíduo, assim como pode estar relacionada a épocas cíclicas do ano, meses ou semanas. Saiba mais Muitos fatores, como a melatonina, podem influenciar a termorregulação, conforme afirma Mendes (2017) no estudo a seguir: MENDES, C. Melatonina e termorregulação. 2017. Tese (Doutorado em Ciências) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/42/42137/tde-31012018-170056/ publico/CarolineMendes_Doutorado_I.pdf. Acesso em: 2 jun. 2020. A temperatura do corpo humano é regulada por diferentes mecanismos, devendo ser dividida, para estudo, em superficial e central. 27 TERMO E FOTOTERAPIA A temperatura superficial sofre maiores variações, uma vez que está em contato direto com o meio ambiente, que altera rapidamente de temperatura e influencia os tecidos cutâneos. Alguns órgãos possuem maior atividade metabólica e, assim, podem alterar sua formação calórica. Entre eles, podemos citar o coração, o rim e o fígado. Durante o período matinal, a temperatura tende a ser inferior a períodos tardios. Tal fato pode estar alterado em alguns indivíduos. A camada de tecido adiposo auxilia na relação entre a temperatura superficial e a central. Cada região do corpo humano apresenta uma condição específica de temperatura – normalmente, o tronco apresenta maior temperatura. O membro superior apresentará temperatura mais elevada quanto mais próximo estiver do coração, mas nunca superior à temperatura do tronco. O mesmo ocorre com os membros inferiores, ou seja, quanto mais próximo à raiz do membro, maior a temperatura. No entanto, a temperatura das coxas, das pernas e dos pés nunca será maior que a temperatura dos membros superiores (respeitando-se a posição do membro, no que se refere à proximidade da porção radicular do membro). Vamos entender, neste momento, como realizar a mensuração das temperaturas do corpo humano. As medidas de temperatura do corpo humano no Brasil são dadas em graus Celsius, enquanto em alguns outros países, como os Estados Unidos, faz-se a menção da temperatura comumente em Fahrenheit. Conheça a definição das medidas de temperatura: Celsius Embora inicialmente definido como ponto de congelação da água (e depois como ponto de fusão do gelo), a escala Celsius é agora oficialmente uma escala derivada, definida em relação à escala de temperatura Kelvin. O zero na escala Celsius (0 °C) é agora definido como equivalente a 273,15 K, com uma diferença de temperatura de 1 °C equivalente a uma diferença de 1 K, ou seja, o tamanho da unidade em cada escala é a mesma. Isto significa que 100 °C, previamente definido como o ponto de ebulição da água, é agora definido como equivalente a 373,15 K. A escala Celsius é um sistema de intervalo, mas não um sistema de relação, ou seja, segue uma escala relativa, mas não uma escala absoluta. Isto pode ser observado porque o intervalo de temperatura entre 20 °C e 30 °C é o mesmo que entre 30 °C e 40 °C, mas 40 °C não tem o dobro da energia térmica de um ar de 20 °C. A diferença de temperatura de 1 °C é equivalente a uma difer (CONVERSÃO..., 2018b). 28 Unidade I Fahrenheit O Fahrenheit é uma escala de temperatura termodinâmica, onde o ponto de congelamento da água é de 32 graus Fahrenheit (°F) e o ponto de ebulição de 212 °F (com uma pressão atmosférica normal). Isso coloca os pontos de ebulição e de congelamento da água exatamente a 180 graus de separação. Por conseguinte, um grau na escala Fahrenheit é de 1/180 de intervalo entre o ponto de congelação e o ponto de ebulição da água. O zero absoluto é definido como igual a -459,67 °F. A diferença de temperatura de 1 °F é o equivalente a uma diferença de temperatura de 0,556 °C (CONVERSÃO..., 2018a). Saiba mais Veja as informações completas sobre as unidades de medida no texto seguir: CONVERSOR de temperatura. Metric Conversions, 2018. Disponível em: https://s11.metric-conversions.org/pt-br/temperatura/. Acesso em: 2 jun. 2020. As medidas para temperatura corporal podem ser feitas por meio de: • Termômetro retal. • Termômetro bucal. • Termômetro eletrônico autocorretivo. • Termômetro de vidro (mercúrio). • Termômetro eletrônico. Para que possa ser mantida a temperatura corporal, é necessária uma enorme produção energética, uma vez que se perde constantemente caloria para o ambiente. Nesse processo, estão envolvidos elementos como: • Alimentação. • Transpiração. • Contração muscular. • Contato com meio externo frio. 29 TERMO E FOTOTERAPIA • Contato com meio externo quente. • Consumo de oxigênio. • Vestimenta. A regulação térmica ocorre no corpo humano por meio de sistemas básicos, como: • Fisiológicos: regulação realizada prioritariamente por meio do hipotálamo. —― Controle vasomotor. —― Controle hídrico (retenção hídrica e aumento da diurese). —― Controle metabólico. • Comportamentais: —― Atividades físicas. —― Vestimentas. —― Ambientes frequentados. Percebemos, então, que o corpo humano realiza um grande esforço para manter a temperatura padrão. Dessa forma, todos os seus sistemas podem se manter em funcionamento harmonioso. Pensando de forma simples, caso nosso corpo respondesse totalmente às temperaturas externas, nosso sangue poderia congelar ou tornar-se tão quente, fluido e pouco espesso que inviabilizaria a vida. Com base em todo o exposto, ter a possibilidade de influenciar a temperatura corporal (central ou superficial) nos permite alterar o sistema de funcionamento de células, órgãos e sistemas e, consequentemente, modular (acelerar ou inibir) suas ações. A fisioterapia possui recursos para elevar ou reduzir a temperatura corporal, de forma tanto superficial quanto profunda: modular a produção do colágeno, a ativação dos macrófagos, a vasomotricidade etc. A temperatura interna é tão importante que, nos homens, o músculo cremáster mantém o saco escrotal próximo ou distante da região inguinal (considerada uma região mais quente, por ser a área em que há a artéria inguinal) a partir da movimentação organizada dos testículos. Tal organização biológica mantém uma diferença de temperatura entre o corpo e a região de armazenamento dos espermatozoides, os quais, sabidamente, precisam ser conservados em temperaturas um pouco menores do que a temperatura centraldo organismo para manter a viabilidade. 30 Unidade I Concluímos, então, que elevar ou reduzir a temperatura de uma região pode certamente influenciar o funcionamento geral do corpo e/ou específico de algumas células, órgãos ou tecidos. São muitos os fatores que influenciam as alterações fisiológicas decorrentes da modificação da temperatura, como os apresentados a seguir: • Quantidade de tecido que irá absorver ou perder a temperatura. • Características dos tecidos. • Vascularização do tecido. • Fluxo sanguíneo do tecido. • Alteração térmica sofrida. • Velocidade da alteração térmica. • Duração e persistência da alteração térmica. 3.1 Resposta sistêmica frente à aplicação térmica Aquecer uma região por alguns minutos é diferente de realizar esse aquecimento por um longo período. Quando a região do braço é aquecida por um curto período, as respostas são predominantemente locais; porém, após uma longa permanência, o calor aquecerá significativamente o sangue que flui pelo membro superior, levando a energia térmica da região periférica à central, alterando o fluxo sanguíneo global e exigindo uma resposta do hipotálamo. A elevação de temperatura prolongada promoverá a sudorese, com possibilidade de desidratação. Observação Assim como na crioterapia, a aplicação da termoterapia local é diferente da exposição climática a temperaturas elevadas. 3.1.1 Resposta celular frente às alterações térmicas Nosso corpo é um grande posto de unidades celulares com distintas funções de acordo com a região onde estão localizadas. 31 TERMO E FOTOTERAPIA Vesícula transportadora Aparelho de Golgi Citossol Retículo endoplasmático rugoso Membrana celular Face trans Face cis Figura 9 – Estruturas do citoplasma Basicamente, uma célula (figura anterior) possui as seguintes estruturas, que podem responder às alterações térmicas: • Membrana plasmática: fina e elástica película que realiza o envoltório celular. Reguladora de passagens entre o meio externo e interno, com permeabilidade seletiva. —― Passiva: sem gasto energético (oxigênio). —― Ativa: com gasto energético; são necessárias enzimas de transportes. • Citoplasma: material entre a membrana plasmática e a região nuclear. Constituído pelo hialoplasma, onde estão presentes as organelas. —― Mitocôndrias. —― Ribossomos. —― Retículo endoplasmático. —― Complexo de Golgi. —― Lisossomos. —― Centríolos. 32 Unidade I A função das mitocôndrias é realizar a chamada respiração celular, a qual utiliza elementos como a glicose (oriunda de fatores nutricionais) associada ao oxigênio para a ressíntese da adenosina trifosfato (ATP). Tal fator resulta na liberação de água e gás carbônico, ao produzir energia (figura a seguir). Glicose + O2 Gás carbônico + água + energia Figura 10 – Atuação metabólica resumida da mitocôndria Os ribossomos realizam a produção de substâncias proteicas, enquanto o retículo endoplasmático realiza a distribuição das substâncias para facilitar o transporte no interior celular. Quando elevada de forma controlada, a temperatura pode aumentar em até 15% o metabolismo celular, ou seja, é possível elevar a produção energética a partir da diatermia. Perceba que, para ser possível a elevação da produção energética, faz-se necessária a presença dos substratos energéticos e da integridade celular, sendo que a desnutrição, ou mesmo déficit ferroso, poderia claramente impedir a formação da ATP, ainda que com o aumento da temperatura. Assim, a elevação da temperatura promove: • Elevação da demanda de O2. • Elevação de consumo de nutrientes. • Elevação da produção de resíduos. Aqui, é possível que você realize algumas perguntas pertinentes, como: por que não elevar a temperatura rapidamente para produzir a energia necessária e após resfriar? Por que não manter as células específicas com temperatura elevada por um longo período? Ocorre que muitas enzimas acabam lesionadas frente à elevação térmica. Basicamente, as enzimas respondem à diatermia da forma exposta na figura seguir. 33 TERMO E FOTOTERAPIA Temperatura (°C) Ele va çã o da at ivi da de Declínio da atividade Pico 6040200 Ve lo ci da de d e re aç ão Figura 11 – Resposta da atividade enzimática à diatermia 3.1.2 Resposta muscular à aplicação térmica A ativação muscular é alterada mediante a aplicação de diatermia, mas a evidência científica ainda busca um melhor entendimento desses aspectos. O aumento do fluxo sanguíneo na região, associado ao aumento da velocidade da condução elétrica, tende a promover uma melhora na capacidade de produção de força, assim como uma redução da fadiga muscular. Porém, o seu tempo de permanência ainda é incerto. 3.1.3 Resposta neural à aplicação térmica O sistema neural é uma complexa rede de entradas e saídas de impulsos elétricos que comandam o corpo executando as ordens das regiões centrais. A condução dos impulsos elétricos ocorre na região de periferia com base nos tipos de fibras nervosas e pode variar de acordo com a característica da fibra. Os ramos neurais que possuem bainha de mielina permitem os impulsos elétricos de forma saltatória e, assim, aumentam a velocidade de condução de potenciais de ação. Já a ausência de bainha de mielina reduz a velocidade dos impulsos. Dessa forma, podemos organizar as informações da seguinte maneira: • A beta: —― Superior a 10 µm com bainha de mielina grossa. —― Velocidade de condução de 30 m/s a 100 m/s. 34 Unidade I • A delta: —― 2 µm a 6 µm com bainha de mielina fina. —― Velocidade de condução de 12 m/s a 30 m/s. • oC: —― 0,4 µm a 1,2 µm sem bainha de mielina. —― Velocidade de condução de 0,5-2 m/s. Observação Cada fibra nervosa possui uma estrutura e desempenha uma função específica, podendo ser responsável por respostas terapêuticas positivas ou mesmo pelo desenvolvimento de sinais e sintomas frente à determinada lesão. Fibra Aδ Velocidade: alta Bainha de mielina Calibre: grosso Fibra Aβ Velocidade: moderada Bainha de mielina presente Calibre: médio Fibra C Velocidade: lenta Amielinizada Calibre: fino Velocidade de condução Figura 12 – Fibras de condução nervosa relacionadas aos estímulos de dor Os impulsos elétricos são responsáveis por propagar potenciais de ação da região central para a periferia, para, por exemplo, promover a contração muscular. Porém, o inverso também é verdadeiro, ou seja, há o transporte de potenciais de ação da periferia para o centro, como ocorre com o transporte das informações que serão interpretadas como dor. 35 TERMO E FOTOTERAPIA Quando uma região é aquecida, muitas estruturas neurais alteram o seu funcionamento, assim como o fuso neuromuscular, devido a estruturas como as fibras Y, sendo capaz de diminuir a ativação do tônus muscular. Os motoneurônios podem também estar hiperativados em quadro de alterações em tônus, respondendo à ativação térmica. A elevação da temperatura também contribui para o manejo da dor, mas o mecanismo ainda é incerto, tendo prováveis relações com aspectos secundários, como o relaxamento muscular e a liberação de tensões específicas. A alteração na captação de opioides endógenos, como a morfina, a serotonina e a encefalina, também pode estar associada à redução da dor frente às terapêuticas de elevação da temperatura. 3.1.4 Resposta do fluxo sanguíneo à aplicação térmica Você já reparou que a pele tende a ficar vermelha quando aquecida? Esse processo é chamado de hiperemia. Quando um tecido é aquecido, os vasos sanguíneos da região acabam por sofrer o processo de dilatação, e, consequentemente, há o aumento do diâmetro do vaso e a permeabilidade das paredes, que levam à elevação do fluxo sanguíneo na região. O mesmo processo pode ocorrer por meio da presença de substâncias inflamatórias, como a histamina e a bradicinina. Além dessas substâncias, o próprio sistema nervoso pode promover a vasodilatação ou a vasoconstrição. A elevação do fluxo sanguíneo permite: • A passagem facilitada de leucócitos duranteo processo inflamatório. • A nutrição de tecidos. • O maior aporte de oxigênio à região acometida. • A retirada elevada de catabólicos das regiões específicas. 3.1.5 Resposta do colágeno à elevação térmica É comum que algumas propriedades elásticas sejam encontradas em tecidos do corpo humano, que atuam de forma importantíssima nos conceitos de biomecânica e cinesiologia. A elasticidade é definida pela capacidade que um corpo tem de deformar e retornar ao seu estado inicial sem que ocorra dano tecidual. O sistema musculoesquelético apresenta em suas estruturas tendíneas e musculares o colágeno, que contribui para essa característica, associado à elastina. Em dias frios, notamos que o nosso corpo parece mais rígido, e iniciar uma atividade física parece ser mais dificultoso, enquanto em dias quentes o corpo parece ter uma maior mobilidade, e iniciar a mesma atividade física acaba sendo mais fácil. 36 Unidade I Dessa forma, fica claro que existe uma influência da temperatura nos tecidos biológicos em relação à extensibilidade das estruturas do colágeno, facilitando, assim, a sua mobilidade. Esse fator influencia na(o): • Mobilidade articular. • Flexibilidade. • Prática de atividade física. • Acúmulo de tensão elástica. • Alongamento. A viscosidade dos fluidos se torna reduzida em resposta às alterações de temperatura (redução); pode responder também em relação ao tecido cicatricial, evitando, assim, restrição tecidual e aderência da cicatriz. Saiba mais Conheça o estudo de Dohnert, Oliveira e Hoffmann (2017), que pesquisam sobre os efeitos da diatermia sobre a flexibilidade dos isquiotibiais: DOHNERT, M. B.; OLIVEIRA, M. S.; HOFFMANN, R. F. Efeito agudo da crioterapia e diatermia na flexibilidade e força muscular de isquiotibiais. Ciência & Saúde, v. 10, n. 2, p. 89-95, 2017. 3.2 Técnicas e aplicações do calor A diatermia por calor superficial vem sendo utilizada cada vez menos nas atuações terapêuticas, pois os recursos tecnológicos permitem a utilização de calor profundo, muitas vezes com dispositivos portáteis e de baixo custo em relação ao passado. É importante notar que o calor superficial pode ser utilizado em momentos que o terapeuta julgar necessário, aliado às técnicas que ele já está realizando em sua terapêutica. Entretanto, não é recomendado que a sessão seja baseada no calor superficial como item primordial do tratamento. Os métodos de aplicação de calor superficial são realizados por meio de: • Compressas. • Banho de parafina. 37 TERMO E FOTOTERAPIA • Turbilhão. • Forno de bier. • Luz infravermelha. Florentino et al. (2014) citam a termoterapia de calor superficial para os cuidados paliativos: A termoterapia é uma modalidade que possibilita a vasodilatação, o relaxamento muscular, a melhora do metabolismo e circulação local, a extensibilidade dos tecidos moles, a alteração de propriedades viscoelásticas teciduais e a redução da inflamação. A termoterapia por calor superficial pode ser realizada através do uso de bolsas térmicas, banhos de contraste, banhos de parafina, infravermelho, forno de Bier, hidroterapia de turbilhão e por calor profundo; os mais utilizados são: o ultrassom, ondas curtas, laser e micro-ondas. A termoterapia superficial pode ser utilizada para aliviar a dor de pacientes em tratamento paliativo. O objetivo é o de promover o alívio do espasmo muscular, interferindo no ciclo dor-espasmo-dor, aumento da extensibilidade tecidual e relaxamento muscular em indivíduos portadores de tumores, os quais podem estar comprimindo estruturas neuromusculares e, dessa forma, causando dor. A utilização do frio (crioterapia) pode ser utilizada em disfunções musculoesqueléticas, traumáticas, inflamatórias, incluindo processos agudos. No entanto, não há estudos conclusivos sobre a diminuição de dor oncológica através de crioterapia, porém sua aplicação pode ser útil para dores músculoesquelética. Vale ressaltar que a termoterapia superficial com calor está contraindicada quando aplicada diretamente sobre áreas tumorais. A vasodilatação provocada pelo calor superficial pode oferecer riscos na disseminação de células tumorais por via linfática e hematogênica (FLORENTINO et al., 2014, p. 52). Saiba mais Antes de iniciar os estudos dos métodos de aplicação, sugerimos a leitura do artigo a seguir: FLORENTINO, D. et al. A fisioterapia no alívio da dor: uma visão reabilitadora em cuidados paliativos. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto, [S.l.], v. 11, n. 2, p. 50-57, dez. 2014. Disponível em: https:// www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistahupe/article/view/8942/6835. Acesso em: 9 jan. 2020. 38 Unidade I 3.2.1 Parafina ou cera Antigamente, era comum a utilização da parafina ou cera na fisioterapia; porém, esse recurso encontra-se cada vez mais em desuso, uma vez que necessita de muitos cuidados diferenciais, além de apresentar riscos ao paciente. Figura 13 – Cera ou parafina terapêutica Normalmente, a parafina ou a cera é combinada com óleo mineral e derretida a uma temperatura aproximada de 50 ºC a 54 ºC. A aplicação da parafina é chamada de banho de parafina ou banho de cera, e sua temperatura deve ser controlada em uma faixa de 42 ºC a 50 º C. Nessa temperatura, o calor sentido pelo paciente é tolerável. É importante notar que o calor específico dessa terapêutica é inferior ao da água, como podemos ver a seguir: • Parafina ou cera: 2,72 Kj/Kg. • Água: 4,2 Kj/Kg. Há inúmeros dispositivos para derretimento da parafina, sendo necessário que o terapeuta, antes da compra, avalie: • A presença de termômetro. • A presença de termorregulador. • As laterais com isolamento térmico. • O peso (para transportar). • O tamanho (para alocação na clínica e para que o paciente consiga realizar a imersão total da área). • A facilidade para higienizar. 39 TERMO E FOTOTERAPIA Figura 14 – Dispositivo para derretimento de parafina A realização da terapêutica deve sempre respeitar o protocolo. O terapeuta deve orientar adequadamente o paciente sobre como ocorrerá a terapia, tendo seu consentimento e garantindo que ele conheça as seguintes informações sobre o procedimento, incluindo as questões relativas à biossegurança: • O paciente sentirá um calor tolerável, que logo reduzirá – caso esteja sentindo “queimar” a região, deve informar ao terapeuta. • O paciente deve manter a região tratada imóvel. • A região a ser tratada, normalmente a mão, deve ser adequadamente higienizada. • Não pode haver nessa região: feridas abertas; infecções; impurezas que possam ser retiradas durante a higiene; adesivos; eletrodos; processo inflamatório agudo ou subagudo. • O terapeuta mostra para o paciente, por meio do termômetro, qual é a temperatura que a parafina está derretida; assim, existe uma maior segurança e confiança do paciente na conduta. • O terapeuta mostra ao paciente que o recipiente com parafina está limpo de impurezas. • O terapeuta realiza o mergulho. • O terapeuta realiza a imersão. • O terapeuta repete o procedimento até formar uma luva de parafina. Alguns cuidados são de grande importância: • O terapeuta deve sempre medir a temperatura da parafina. • A parafina deve ser trocada constantemente. 40 Unidade I • O recipiente deve ser adequadamente higienizado. • O paciente nunca deve realizar a terapia sozinho; deve fazer o mergulho e a imersão com auxílio/ supervisão do terapeuta. • É preciso sinalizar que o dispositivo pode aquecer as suas bordas para evitar que os pacientes se queimem. • A base onde fica o dispositivo de derretimento deve ser firme para evitar acidentes e derramamento. • A manutenção periódica deve ser sempre realizada. Um diferencial normalmente utilizado na realização do banho de parafina é o acréscimo de essências ou óleos aromáticos para que a parafina fique com um odor diferente. Normalmente, são acrescentadas gotas de essência de eucalipto. É fundamental verificar se o paciente refere alergias. O banho de parafina é indicado em: • Lesõesem mão. • Pós-operatório de dedo e mão. • Longos períodos de imobilização de extremidade dos membros superiores ou inferiores. • Condições reumatológicas da mão. A técnica é contraindicada em casos de: • Processos infecciosos. • Feridas abertas. • Hipossensibilidade. • Obesidade mórbida. • Déficit de comunicação. • Sensibilidade térmica alterada. • Processo inflamatório agudo. • Linfedema. • Edemas agudos não diagnosticados. 41 TERMO E FOTOTERAPIA Observação É possível solicitar que o paciente mergulhe a mão na parafina diversas vezes, até criar uma camada íntegra e densa sobre a sua mão. Tenha cuidado para não criar uma camada fina ou grossa. 3.2.2 Bolsas ou compressas térmicas Entre as modalidades de calor superficial, as bolsas térmicas ou compressas térmicas são comumente utilizadas pelas pessoas, mesmo sem a indicação de um profissional de saúde, fato que destacamos aqui como não recomendado. Todo e qualquer recurso terapêutico, superficial ou profundo, térmico, elétrico, mecânico ou químico, por mais simples ou acessível que possa ser, deve sempre ser utilizado com as orientações de um profissional da área de saúde, uma vez que possui riscos, contraindicações absolutas e relativas. Os tipos de bolsas e compressas que existem são: • Bolsas elétricas: bolsas aquecidas eletricamente, controladas por um regulador de temperatura (termostato). Permitem o aquecimento prolongado, sem necessidade de troca. Figura 15 – Bolsa térmica • Bolsas hidrocoladas: bolsas em sílica que contêm gel hidrofílico. Devem ser aquecidas em água quente de - 65 ºC a - 75 ºC e aplicadas quando a temperatura atingir 40 ºC a 44 ºC. Essas bolsas mantêm o calor por um período prolongado em relação aos métodos similares. • Compressas úmidas: aquecidas em água quente entre 35 ºC e 42 ºC. Perdem a temperatura rapidamente. 42 Unidade I Método de aplicação Para realizar aplicação de compressas e bolsas térmicas, o profissional deve seguir os passos a seguir: • Explicar ao paciente sobre a necessidade de aplicação de diatermia por calor superficial. • Aguardar o consentimento do paciente. • Questionar sobre as contraindicações. • Higienizar a região. • Testar a sensibilidade térmica do paciente. • Preparar o material antes da aplicação. • Aplicar a bolsa ou compressa térmica na região. • Iniciar a contagem de tempo por um cronômetro. • Enfaixar a região para evitar que o método aplicado não se altere. • Questionar periodicamente quanto à sensibilidade do paciente e ao calor tolerável. • Realizar a troca frequente da compressa de acordo com cada tipo. • Avaliar a pele do paciente após a aplicação. O posicionamento do paciente durante a aplicação deve garantir o conforto, uma vez que a compressa poderá envolver totalmente a região. Indicação A diatermia superficial deve ser indicada nos seguintes casos: • Necessidades de hiperemia. • Relaxamento muscular. • Sensação de relaxamento. • Necessidade de vasodilatação superficial. • Rigidez articular na região das mãos. • Liberação cicatricial em que não existam processos inflamatórios agudos. 43 TERMO E FOTOTERAPIA Contraindicações Não se deve indicar a diatermia superficial se o paciente apresentar: • Déficit de sensibilidade. • Obesidade mórbida. • Linfedemas. • Quadros oncológicos não compreendidos. • Processos infecciosos. • Processos inflamatórios agudos. 3.2.3 Turbilhão O turbilhão é uma modalidade terapêutica de diatermia superficial que, como a parafina, vem sendo cada vez menos utilizada, por apresentar características, como tamanho do dispositivo, higienização e gastos, que dificultam sua utilização ou manutenção nos espaços dos consultórios e das clínicas. Os efeitos podem ser obtidos a partir de recursos similares, que apresentam menor tamanho e gastos inferiores. Figura 16 - Tipo específico de dispositivo do turbilhão O turbilhão é um recipiente que permite a imersão dos membros superiores ou inferiores. Alguns modelos podem permitir a imersão do corpo inteiro para tratamento de afecções na região do tronco. Acoplado a esse dispositivo, existe um motor capaz de realizar a ejeção de um fluxo constante de água, com a mesma temperatura ou com temperatura superior à da água do recipiente. Existem, ainda, os turbilhões que atuam como uma banheira de hidromassagem, com jatos fixos nas paredes, e, nesse caso, o posicionamento do paciente em relação ao jato deverá ser orientado. 44 Unidade I Figura 17 – Turbilhão similar à hidromassagem Saiba mais Em 2016, da Silva publicou o estudo a seguir, demonstrando a possibilidade de fazer uso do turbilhão como um dos recursos terapêuticos para o tratamento de cisto sinovial do punho. Confira: DA SILVA, M. B. Fisioterapia na reabilitação do cisto sinovial de punho: uma revisão narrativa. Revista da Mostra de Iniciação Científica, v. 2, n. 1, 2016. Disponível em: http://ulbracds.com.br/index.php/rmic/ article/view/564. Acesso em: 2 jun. 2020. É de grande importância relembrar as propriedades físicas da água, uma vez que essa modalidade terapêutica promove seu benefício a partir de tal meio. São elas: • Densidade. • Pressão hidrostática. • Temperatura. • Flutuação. • Viscosidade. 45 TERMO E FOTOTERAPIA • Turbulência. • Tensão superficial. • Refração. A seguir, conheceremos melhor cada uma dessas propriedades. Densidade A densidade é uma grandeza que demonstra a relação entre a massa e o volume ocupados pelos corpos. Dizemos “pelos corpos” porque não é só a água que pode ter sua densidade calculada, mas todos os corpos. A relação entre as densidades dos corpos denomina o que chamamos de densidade relativa, calculada da forma apresentada a seguir: Densidade relativa = massa do objeto / massa de volume da água Ao calcularmos a densidade relativa de um corpo em relação à água, saberemos se esse corpo flutua ou não na água. Assim, podemos afirmar que: • Quando um objeto tem a mesma densidade de um fluido, o objeto permanece em equilíbrio indiferente, isto é, o corpo permanece na posição em que ele for colocado no fluido. • Quando o corpo ou objeto imerso possuir uma densidade relativa inferior a 1, este irá flutuar. • Quando o corpo ou objeto imerso possuir uma densidade relativa superior a 1, este irá afundar. As implicações clínicas dessa condição podem ser vistas a seguir, com a apresentação do comportamento de diferentes tecidos e/ou condições clínicas imersos na água. • Massa magra: tendência a afundar. • Massa gorda: tendência a flutuar. • Pulmões desinflados: tendência a afundar. • Hipotonia: tendência a flutuar. • Hipertonia: tendência a afundar. Assim, um atleta responde de forma diferente quando comparado a um idoso com sarcopenia ou mesmo a uma criança com osteogênese imperfeita no ambiente líquido. 46 Unidade I Água Figura 18 – Demonstração da densidade relativa de diferentes objetos em relação à água Flutuação ou empuxo A força da gravidade atrai os corpos e objetos para o centro da Terra; influencia, portanto, no peso de todos os corpos que estão na Terra. O empuxo é uma força que atua sobre os corpos imersos, contrária à ação da gravidade, sendo gerada pelo volume deslocado da água. Esse é um dos principais motivos pelos quais, ao adentrar no meio líquido, nosso corpo flutua. Água Peso Empuxo Figura 19 – Demonstração do empuxo O empuxo pode influenciar das seguintes formas: favorecendo movimentos realizados no mesmo sentido e resistindo a movimentos realizados em sentido oposto. Exatamente por isso ele tão importante na fisioterapia. 47 TERMO E FOTOTERAPIA Independentemente das condições clínicas apresentadas pelos pacientes e suas respectivas fases da reabilitação, a imersão poderá ser utilizada, já que, em condições iniciais de tratamento de pacientes que apresentem fraqueza muscular, é possível utilizar o empuxo para facilitar a realização dos movimentos. Por outro lado, se o paciente estiver em um momento mais avançado da reabilitação, no qual seja interessantehaver resistência à realização do movimento, o empuxo poderá ser utilizado para gerar essa resistência. Pressão hidrostática A pressão hidrostática se altera com o meio líquido analisado e responde à conhecida lei de Pascal. É exercida igualmente sobre a superfície de um corpo imerso, em repouso, numa profundidade. Durante a imersão de tronco, alguns pacientes podem experienciar dificuldade de respiração, uma vez que o tórax, para se expandir, deve superar a pressão hidrostática exercida sobre toda a caixa torácica. Assim, deve-se analisar quais pacientes deverão adentrar o turbilhão de corpo todo para realizar a terapia em região dorsal. Pelos motivos expostos, a inspiração será dificultada e a expiração facilitada. Resistência da água A propriedade de resistência da água está relacionada à viscosidade, à coesão e à adesão. A viscosidade está relacionada ao atrito que existe entre as moléculas do meio líquido. Quanto maior a viscosidade, maior será a resistência ao movimento dos corpos imersos. A temperatura pode influenciar a viscosidade dos fluidos. Quanto maior a temperatura, menor será a viscosidade, uma vez que a agitação das partículas pode afastar a ligação entre elas. A adesão é similar à coesão: ambas são forças de atração entre moléculas. A coesão ocorre entre partículas do mesmo tipo, enquanto a adesão ocorre entre partículas de matérias distintas. Tensão superficial da água A tensão superficial é uma resultante de forças que utiliza o princípio de coesão, criando uma espécie de película elástica na superfície de um líquido, resistindo à sua perfuração. Para que um corpo possa vencer a tensão superficial da água e conseguir imergir, a pressão exercida pela superfície de contato do corpo sobre a água deverá ter magnitude suficiente para vencer a coesão entre as moléculas. Turbulência A turbulência é a principal propriedade que deve ser compreendia, uma vez que o turbilhão faz claramente o turbilhonamento na água. Quando um movimento ocorre no meio líquido, sua viscosidade cria um atrito entre partículas adjacentes, que se movimentam em velocidades distintas. 48 Unidade I Os movimentos ocorrem em camadas, da central para a periferia, formando um fluxo laminar. Contudo, com o aumento da velocidade desse fluxo, surge a turbulência, caracterizada por: perturbação, desordem e agitação. No escoamento laminar, é pequena a agitação do fluido, e o movimento das partículas é apenas na direção do escoamento. O fluxo turbulento ocorre devido a um movimento rápido ou com grande perturbação da água, criando um movimento irregular, que move a água para diferentes direções. Ff = Assistência Ff = Resistência Movimento Água FfFf Movimento Movimento lento Movimento rápido Figura 20 – Fluxo turbulento e fluxo laminar Calor específico A propriedade de calor específico define a energia necessária para elevar de 1 ºC 1 g de água. Sobre essa questão, sabe-se que a troca de calor entre o corpo humano e a água é mais rápida do que entre o corpo e o ar, assim como a água retém mais calor que o ar. A troca de calor por influência dos líquidos pode ocorrer por duas vias: • Condução: transferência da energia térmica do corpo mais quente para o mais frio. • Convecção: transferência de calor através de um fluido que ocorre devido ao movimento do próprio fluido. Refração A refração é a alteração do ângulo direcional da luz, relacionada à sua velocidade de propagação em diferentes meios, que ocorre após a passagem da luz de um meio de condução para outro. Considerando que a densidade da água é maior que a do ar, há uma importante mudança desse ângulo. 49 TERMO E FOTOTERAPIA Ângulo incidente N Feixe Transmitido Tecido Refratado Absorvido Figura 21 – Efeito visual causado pela refração Diferenciais Pela possibilidade de imersão, o paciente pode vivenciar os benefícios da hidroterapia. Por isso, artigos e livros também citam a técnica de turbilhão dentro do estudo da hidroterapia. O meio aquático promove a sensação de conforto, acolhimento e bem-estar em grande parte dos pacientes, o que acaba por aliviar e reduzir a percepção da dor e, assim, permitir que o terapeuta possa trabalhar com maior tranquilidade durante a realização de exercícios e mobilização da região. O empuxo e a flutuação permitem que o membro fique no meio aquático, apoiado ou não; quando apoiado, a descarga de peso sobre a região é diminuída. O percentual de redução do peso corporal de uma pessoa imersa na água, em decorrência do empuxo, é de 90%. Quando a água ultrapassa a linha clavicular, é de 75%, se o corpo estiver imerso até o apêndice xifoide. A temperatura da água também exerce influência sobre alguns efeitos fisiológicos, que, somados, podem promover: • Relaxamento muscular. • Redução do tônus. • Redução de espasmos. • Conforto. Vale lembrar que os benefícios são elevados na imersão total do paciente, sendo importante avaliar a necessidade dessa terapêutica durante a sessão. 50 Unidade I A pressão hidrostática auxilia no retorno venoso. Assim, graças a essa propriedade da água, durante a imersão o paciente pode experimentar: • Redução de edemas pela ativação do sistema linfático. • Dessensibilização – uma vez que o corpo do paciente está envolvido pela água, a percepção das sensações provenientes de um local específico do corpo pode ficar reduzida. A somatória dos eventos anteriores favorece a mobilidade articular e pode: • Manter ou melhorar o equilíbrio, a coordenação e a postura. • Facilitar o processo de reeducação musculoesquelética. • Melhorar a circulação. • Reduzir forças de compressão articular. • Diminuir edemas de membros inferiores. • Encorajar a realização das atividades de vida diárias. • Facilitar ou dificultar o movimento. • Promover estímulo tátil. • Gerar movimento de difícil previsão. Método de aplicação Para realizar a aplicação terapêutica do turbilhão, o terapeuta deve seguir os seguintes passos: • Orientar o paciente sobre a necessidade de aplicação. • Questionar sobre as contraindicações. • Preparar a região na qual será utilizado o turbilhão. • Verificar a temperatura da água. • Realizar a imersão do membro. • Ligar o motor. 51 TERMO E FOTOTERAPIA —― Iniciar com o jato não apontado para o paciente. —― Apontar o jato para o paciente. —― Questionar sobre a temperatura. —― Questionar sobre a intensidade. • Solicitar movimentação ou estabilidade da região de acordo com o jato. • Acompanhar toda a terapêutica. Indicação A temperatura da água para o turbilhão deve respeitar a terapêutica de 33 ºC a 36,5 ºC. Nessas condições, os clínicos buscarão: • Reduzir o edema. • Melhorar a mobilidade articular. • Reduzir a cinesiofobia. • Reduzir a rigidez articular. Contraindicações Uma vez que existe a possibilidade da imersão de corpo total do paciente para a realização do turbilhão em região de tronco, as contraindicações das piscinas terapêuticas também se aplicam no tratamento com o turbilhão. Dessa forma, não se deve indicar esse tratamento para pacientes que apresentem: • Febre alta. • Escaras ou feridas abertas. • Hipertensão ou hipotensão sem controle (instabilidade hemodinâmica). • Convulsões sem controle. • Cateteres ou sondas. • Incontinência urinária e/ou fecal. Ao realizar uma busca do termo “thermotherapy” na plataforma da colaboração Cochrane, encontramos estudos de 2003 (BROSSEAU et al., 2003) sobre a eficiência desse recurso em pacientes 52 Unidade I com OA de joelho. Independentemente da data de publicação dos estudos, eles nos trazem importantes informações que continuam válidas para o nosso tempo: • A massagem com gelo comparada ao grupo controle teve um efeito estatisticamente benéfico na amplitude de movimento (ADM), na função e na força do joelho. • As compressas frias diminuíram o inchaço. As compressas quentes não tiveram efeito benéfico no edema em comparação com o placebo ou com a aplicação ao frio. • As compressas de gelo não afetaram significativamentea dor em comparação com o controle em pacientes com OA. Estudos mais bem projetados, com protocolo padronizado e número adequado de participantes, são necessários para avaliar os efeitos da termoterapia no tratamento da OA do joelho. O estudo apresentado (BROSSEAU et al., 2003) – uma revisão sistemática de ensaios clínicos – baseou seus efeitos de hemoterapia na OA de joelho e precisa certamente ser atualizado, embora tenha sido composto por um número de 170 participantes. 4 ONDAS CURTAS A diatermia por ondas curtas é um método terapêutico que permite a utilização do calor profundo promovido pela conversão de ondas eletromagnéticas. Vamos entender melhor. Diatermia é um termo de etimologia grega que significa “produção de calor por meio de”. O método é possível graças a um dispositivo gerador de energia eletromagnética de alta frequência, que é convertida em energia térmica e, assim, aquece os tecidos biológicos de acordo com a região a ser tratada, o método de aplicação e a dosimetria eleita. O número de vezes que a onda atinge picos e vales é conhecido como frequência, que é medida em Hertz. Figura 22 – Modelo de dispositivo para diatermia por ondas curtas 53 TERMO E FOTOTERAPIA O método de indução de calor por meio de ondas curtas ocorre a partir de uma radiação não ionizante, sendo uma porção da frequência de radiação dentro do espectro conhecido como eletromagnético, capaz de ser convertido em energia térmica, ou seja, calor. Esse meio de corrente de alta frequência surgiu em meados de 1880, quando cientistas utilizaram corrente elétrica de alta frequência, com 1 ampère, e relataram efeitos totalmente distintos dos de baixa frequência com a mesma amperagem, os quais poderiam ser letais e incompatíveis à vida. Os efeitos relatados descrevem a sensação de elevação de temperatura. A evolução dos estudos levou outros cientistas a desvendarem métodos de gerar calor a partir de duas vertentes: método capacitivo e método indutivo – ambos com a utilização de correntes de alta frequência. Relatos de Jacques-Arsène d’Arsonval (século X) demonstram que tais correntes se popularizaram na Europa como método terapêutico, em um momento que os campos magnéticos estavam ainda sendo estudados. Em 1950, as ondas curtas pulsadas tornaram-se o método rapidamente popularizado em muitas clínicas terapêuticas, superando o método de ondas curtas. Contudo, os efeitos, as indicações e as contraindicações ainda não eram conhecidos perfeitamente. A falta de pesquisa e recursos para avaliação científica representou uma grande barreira. Atualmente, podemos perceber que muitas clínicas descartam essa modalidade de aplicação, talvez pela necessidade de maior compreensão do método, ou mesmo pela inviabilidade de espaço físico em relação ao tamanho dos aparelhos. Alguns autores, como Pope, Kitchen e Partridge, citados no livro Eletroterapia: prática baseada em evidências, de Sheila Kitchen (2003), discutem, embasados no artigo de Gross e colaboradores (2002), que a evidência científica quanto à utilização das ondas curtas pulsadas ou mesmo das ondas curtas é escassa e que, por esse motivo, muitos acabam por não mais utilizar esses métodos terapêuticos. Os autores ainda afirmam que a substituição desse método por outros não deve ser realizada apenas por esse fator, uma vez que a redução da evidência científica não descarta o valor das formas terapêuticas citadas. A evidência científica funciona como guia e norteadora das terapêuticas clínicas, o que não exclui a importância da visão crítica dos fisioterapeutas. Apesar de importantes, essas discussões aparecem em artigos científicos que datam do século passado, entre 1992 e 1999, levantando alguns questionamentos e a necessidade de atualização. Mais do que apenas conhecer os artigos científicos, é preciso ser capaz de identificar se estes possuem ou não adequada qualidade que permita a multiplicação de seu resultado em determinada população, tendo em vista que a amostra de cada estudo pertence a uma população específica e controlada. Muitas vezes, os elevados níveis de vieses das publicações científicas em diatermia, assim como em áreas distintas, podem vir a ludibriar os terapeutas, de forma não intencional. Por isso, iremos também 54 Unidade I comentar sobre a metodologia e a qualidade dos estudos científicos atuais em diatermia, aumentando a possibilidade de utilização do recurso de forma segura e consciente. 4.1 O equipamento Diferentes marcas apresentam dispositivos de diatermia por ondas curtas, sendo que cada um possui uma interface e uma estética diferenciadas. No momento de compra de um desses aparelhos, o indicado é escolher aquele que oferece regulação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e manutenção nacional, garantindo que, em caso de avaria ou manutenções preventivas, o procedimento será realizado rapidamente. Ainda assim, é importante entender que cada profissional deve avaliar a sua compra dentro de suas preferências. Cada aparelho de ondas curtas deve apresentar a possibilidade de regular as seguintes funções: • On/Off (ligar e desligar). • Tempo. • Dose. • Frequência. Frequência Regulador do tempo Sintonia Cronômetro Ligar e desligar Dose LED indicando que o dispositivo está ligado Figura 23 – Aparelho de ondas curtas em atuação terapêutica com os pontos de regulação Existe a possibilidade de realizar a compra de um aparelho com painel digital. Os dispositivos possuem duas possibilidades de emissão do campo eletromagnético para realizar a aplicação: eletrodos (figura a seguir) ou placas de Schiliepack (figura adiante). 55 TERMO E FOTOTERAPIA Figura 24 – Kit de eletrodos vulcanizados (marca KLD) Figura 25 – Schiliepack As ondas eletromagnéticas que geram os efeitos terapêuticos esperados com esses recursos apresentam frequência entre 1,8 MHz e 30 MHz, com comprimento que varia de 3 m a 200 m, recebendo, por isso, a classificação como radiação por ondas curtas. Espectro eletromagnético Ondas rádio Micro-ondas Infravermelho Visível Ultravioleta Raio X Frequência (Hz) 104 108 1012 1015 1016 1018 1020 Raio gama 103 10-2 10-5 10-6 10-8 10-10 10-12 Figura 26 – Espectro das ondas eletromagnéticas 56 Unidade I A frequência específica eleita para a diatermia por ondas curtas foi a de 27,12 MHz, apresentando 11,062 m de comprimento. Ao analisar o efeito das ondas curtas em relação ao tecido biológico, não foram encontradas interações que gerem alteração significativa, exceto no que se refere à alteração de temperatura (aquecimento dos tecidos). Você consegue imaginar o porquê? A elevação da temperatura causada no tecido biológico pela diatermia por ondas curtas é oriunda do campo eletromagnético gerado por esse método. 4.2 Atuação biofísica da diatermia por onda curta O principal efeito da irradiação por ondas curtas é a produção de calor nos tecidos superficiais e profundos, sem que, para isso, seja necessária a existência de contração muscular. O calor é produzido pela absorção do campo elétrico pelos diferentes tecidos biológicos. É possível utilizar três métodos para fazer com que o participante se torne parte do campo eletromagnético, gerando a transformação da energia eletromagnética em energia térmica. O primeiro método é chamado de vibração de íons ou aceleração iônica. Sabemos que há forças de atração ou repulsão entre moléculas eletricamente carregadas. Considerando que a irradiação de ondas curtas emitida com objetivos terapêuticos apresenta um campo de alta frequência de oscilação das cargas dos eletrodos, os íons são acelerados e passam a vibrar muito rapidamente, produzindo calor. Vibração de íons + + - - + + + + + + + + + + + + + + + + + + - - - - - - - - - - - - - - - - - - Figura 27 – Vibração de íons. Os íons positivos são atraídos para os eletrodos negativos e vice-versa. Com a alternância dos polos dos eletrodos, promove-se a vibração desses íons, e, consequentemente,aumenta-se o calor O segundo método é a rotação de dipolos. As estruturas moleculares bipolares presentes no organismo, quando expostas a um campo elétrico alternado, sofrem rotação em torno de seus próprios eixos e, por isso, supostamente, passam a friccionar com as outras moléculas presentes, aumentando a temperatura. 57 TERMO E FOTOTERAPIA - - - - - - - -- - - - - - + + + + + + + + + + + + + + Figura 28 – Rotação de dipolos As moléculas bipolares são aquelas que não têm preponderância de uma carga elétrica, mas que os posicionamentos dos átomos que as compõem são opostos na constituição dessas moléculas. Dessa forma, com a alta frequência de modificação dos polos dos eletrodos, as moléculas giram em torno de seus próprios eixos, em decorrência das forças de atração e repulsão entre os eletrodos e as extremidades polarizadas delas, aumentando a movimentação dessas partículas no interior dos tecidos, promovendo aquecimento. Podemos citar como exemplos de moléculas bipolares as proteínas e a água, ambas com grande presença no corpo humano. Há, ainda, um terceiro mecanismo que pode explicar o aumento da temperatura pela submissão dos tecidos biológicos à radiação por ondas curtas: a distorção molecular. As órbitas por onde trafegam os elétrons modificam suas conformações, tornando-se ovaladas, com predominância para o lado do eletrodo que se apresentar positivo. + + + + + + + + + + + + + + + + - - - - - - - - - - - - - - - - Figura 29 – Distorção molecular As nuvens de elétrons são atraídas para os eletrodos positivos, gerando a modificação da estrutura das órbitas eletrônicas. Essa é a modalidade de produção de calor pela radiação de ondas curtas menos importante clinicamente, pois o calor gerado é menor. 58 Unidade I As moléculas não polares encontradas no corpo humano, como aquelas que constituem o tecido adiposo, não possuem íons livres ou moléculas com polaridades de carga. Dessa forma, nesses tecidos, o campo elétrico não terá maior influência no que se refere à possibilidade de gerar calor. Assim, pode-se afirmar que os tecidos que sofrerão maior influência dos campos elétricos serão aqueles que apresentarem maior concentração de íons, seguidos daqueles que apresentarem grande concentração de moléculas bipolares, respectivamente, sangue e água. Logo, concluímos que: • Quanto maior a carga elétrica do tecido, maior a chance de aquecimento por meio da diatermia por ondas curtas. • Quanto mais vascularizado o tecido, maior a chance de aquecimento. • Tecidos ricos em água têm boa capacidade de se aquecer pela irradiação por ondas curtas. • Tecidos adiposos têm menor capacidade de aquecimento por esse método. Vibração de íonsRotação de dipolosDistorção molecular Ordem crescente de produção de calor por radiação por ondas curtas Figura 30 – Meios de produção de calor pela interação do campo elétrico de ondas curtas com o tecido biológico, em ordem crescente de eficiência Nesse contexto, note que implantes metálicos ou áreas com elevada sudorese podem criar um campo elétrico de alta densidade e resultar em alta carga térmica aos tecidos adjacentes, podendo causar queimaduras. Por isso, nessas condições, esse recurso terapêutico é contraindicado. Os métodos de aplicação da diatermia por ondas curtas se dividem da forma apresentada na figura a seguir. Método de aplicação Indutivo Capacitivo Bobina Eletrodos Figura 31 – Métodos de diatermia por ondas curtas No método capacitivo, são chamadas de capacitivas as placas metálicas flexíveis envolvidas por um material isolante, como: 59 TERMO E FOTOTERAPIA • Plásticos específicos. • Borracha. • Feltro. • Espuma. Na utilização durante a prática clínica, recomenda-se colocar uma toalha dobrada entre a placa e a pele do paciente. No método indutivo, por ser menos utilizado, o aparelho apresenta um cabo isolado, por onde a corrente elétrica passa e permite a criação do campo eletromagnético, associado a um tambor, como um único grande eletrodo. 4.3 Modalidades de emissão de ondas curtas e regime de pulso Os aparelhos de ondas curtas podem fazer emissões contínuas ou pulsadas do campo eletromagnético alternado. As ondas geradas em ambas as modalidades são idênticas, mas o campo intermitente acaba por proporcionar o surgimento de bandas laterais, alterando a frequência padrão de 27,12 MHz para 26,95 e 27,28 MHz. Além disso, a modalidade pulsada de emissão do campo eletromagnético promove menor aquecimento, pois, entre os momentos de emissão do campo (nos quais ocorrem os efeitos capazes de elevar a temperatura tecidual), há períodos de intervalo (sem emissão do campo eletromagnético), nos quais o calor gerado é dissipado pelos tecidos irradiados, impedindo o acúmulo significativo de energia. Portanto, não há aquecimento fisiologicamente relevante. As bandas secundárias que são geradas na modalidade de ondas curtas pulsadas praticamente não geram energia. Dessa maneira, podemos assumir que não existe significância clínica relacionada ao aquecimento tecidual para as bandas laterais. A modalidade pulsada expõe o paciente a um campo eletromagnético de menor magnitude, visando à ausência de alteração térmica significativa, mas ocasionando: • Alteração da membrana celular. • Alteração da taxa de fagocitose. • Elevação dos transportes ativos de membrana. • Elevação da atividade enzimática local. 60 Unidade I Os aparelhos que apresentam a possibilidade de emissão de ondas curtas pulsadas, além dos parâmetros dosimétricos já apresentados, podem oferecer controle da frequência de repetição do pulso, de duração do pulso e de potência de pico do pulso. A duração do pulso multiplicada pela frequência de repetição do pulso e pelo pico de potência gera a chamada potência média. Redução da carga eletromagnética Redução da produção de temperatura Surgimento de bandas laterais Alteração da frequência padrão Figura 32 – Organização das ondas curtas pulsadas Interações biológicas Quanto à interação biológica especificamente, os tecidos que possuem maior concentração proteica ou vascularização, devido à quantidade de íons do meio líquido no sistema sanguíneo, são mais responsivos à conversão do campo elétrico em energia térmica do que os tecidos com menores concentrações de íons livres, como o tecido adiposo. Por isso, é comum ouvirmos entre os clínicos que o aumento de temperatura promovido pelas ondas curtas ocorre, prioritariamente, no tecido musculoesquelético. Tecido adiposo Menor produção de calor pelas ondas curtas Maior produção de calor pelas ondas curtas Tecido fibroso Tecido muscular Tecidos ricos em proteína Tecidos bem vascularizados Figura 33 – Influência da irradiação de ondas curtas na produção de calor em diferentes tipos de tecidos biológicos humanos null 61 TERMO E FOTOTERAPIA Alguns estudos sugerem que o tecido adiposo, embora apresente condições menos favoráveis para a geração de calor relevante em decorrência da submissão de irradiação por ondas curtas, poderá ser influenciado e gerar calor por ser vascularizado. Assim, o fato de esse tecido conter baixa concentração de íons não seria suficiente para afirmar que ele não sofre qualquer alteração térmica relevante do ponto de vista fisiológico e/ou terapêutico. Os estudos sugerem, ainda, que a região sanguínea aquecida não dissipa a temperatura devido ao isolamento térmico inerente ao tecido adiposo. Outra questão discutida é a relação entre o aquecimento de tecidos profundos e superficiais. Teoriza-se que o método indutivo da diatermia por ondas curtas aquece seletivamente o tecido profundo, enquanto afeta os tecidos superficiais de forma elevada em relação aos profundos. Logo, é preciso considerar que pacientes com hipersensibilidade em região cutânea podem não responder bem a tratamentos que possuem terapêutica de diatermia por ondas curtas pelo método capacitivo. A tabela a seguir demonstra com maior clareza a relaçãoentre o aquecimento dos tecidos superficiais e profundos em cada método. Tabela 2 – Proporção de aquecimento superficial e profundo nos métodos capacitivo e indutivo Método de aplicação Superficial Profundo Referência Capacitivo 13 1 Van der Esch e Hoogland, 1991 10 1 Van der Esch e Hoogland, 1991 12-18 1 Hand, 1990 Indutivo 1 1 Van der Esch e Hoogland, 1991 1 4 Hand, 1990 Adaptada de: Kitchen (2003). Cada região do corpo humano possui diferentes números de termorreceptores e, por isso, apresenta capacidade específica de perceber, de fato, a alteração da temperatura. Assim, não podemos esquecer que, embora muito importante, o relato da sensação de aquecimento percebida pelo paciente não pode ser o único parâmetro pelo qual o profissional deve se guiar, uma vez que, por exemplo, se estiver utilizando o método indutivo, de acordo com Hand (1990), o aquecimento profundo (no qual há muito menos termorreceptores e, portanto, menor capacidade de detecção de alteração da temperatura) pode ser quatro vezes maior que na superfície. Considerando que a pele apresenta enorme quantidade de termorreceptores, a sensação de aquecimento percebida pelo paciente submetido à técnica indutiva será muito menor do que aquela que, de fato, está ocorrendo nos tecidos mais profundos, onde o aquecimento é muito maior. Haverá o risco de queimadura muscular se, nesse método de aplicação, for permitido que o paciente seja tratado por 20 minutos em uma sensação de aquecimento elevada. 62 Unidade I Vejamos, a seguir, a capacidade de aquecimento pela irradiação por ondas curtas nos diferentes tecidos: • Baixa condução: unha, gordura, osso e pelos. • Média condução: cartilagem, fáscias, pele úmida e tendões. • Elevada condução: tecido neural, linfa, líquidos corporais, músculos, sangue e vísceras. Dosimetria Para que a atuação clínica surta os efeitos desejados, é importante conhecer a dose que deve ser utilizada em cada caso, a qual sempre terá relação íntima com a condição patológica apresentada. Infelizmente, até o momento, a evidência científica é escassa no que diz respeito à exatidão das doses indicadas, impedindo-nos de apresentar uma diretriz para as diferentes condições patológicas. Dessa forma, a clínica, no Brasil, baseia-se na sensibilidade e no relato térmico do paciente para identificar se a dose de ondas curtas está adequada. Vale ressaltar que, em nosso país, a maioria dos equipamentos disponíveis trabalha com o método capacitivo, que, quando comparado ao indutivo, conforme apresentado na tabela anterior, tem um aquecimento mais importante dos tecidos superficiais, onde há maior número de termorreceptores. Com isso, quando se sugere a utilização da modalidade de emissão contínua da irradiação (lesões em processos inflamatórios crônicos), a dose deve promover sensação confortável de aquecimento aos pacientes, pois, assim, garante-se que não haverá superaquecimento dos tecidos mais profundos. Por outro lado, quando se utiliza esse recurso para tratamento de lesões, cujo processo inflamatório se encontre na fase aguda, é indicada a modalidade pulsada de ondas curtas, pois o aquecimento, nesses casos, é indesejado. Portanto, nessas condições, os pacientes não devem ter qualquer sensação de aquecimento. Ao manusear um aparelho de ondas curtas, é possível identificar em seu painel a possibilidade de ajustes dos seguintes parâmetros dosimétricos: • Intensidade. • Sintonia. • Tempo de tratamento. • Modalidade de emissão: —― Modo contínuo. —― Modo pulsado. • Potência. 63 TERMO E FOTOTERAPIA Por todas as questões previamente apresentadas, tem-se sugerido que o ajuste da dosimetria pode ser feito com base na escala de Schliephake, a qual relaciona o possível nível de aquecimento nos tecidos mais profundos, como os músculos, com a sensação de aquecimento percebida pelo paciente, como podemos ver no quadro a seguir. Quadro 1 – Escala de Schliephake Dose Aquecimento profundo Sensação de aquecimento pelo paciente I Calor muito débil Calor imperceptível; abaixo do limiar de sensibilidade de aquecimento II Calor débil Imediatamente perceptível; início da sensação de aquecimento III Calor médio Sensação mais clara do calor; calor agradável IV Calor forte Limite de tolerância; calor desconfortável Acredita-se que se deva relacionar o processo inflamatório local existente com a dosimetria indicada (quadro a seguir). Quadro 2 – Relação entre a escala de Schliephake (sensação percebida de aquecimento) e a condição inflamatória do paciente Sensação percebida de aquecimento Condição clínica indicada Calor muito débil Processo inflamatório agudo Calor débil Processo inflamatório subagudo Calor médio Processo inflamatório crônico Calor forte Processo inflamatório crônico Do mesmo modo, sugere-se haver relação entre o tempo de tratamento a ser indicado e a condição clínica apresentada, uma vez que, quanto maior o tempo de exposição à radiação, maior a produção de calor e, consequentemente, maiores os riscos de elevação da temperatura (quadro a seguir). Quadro 3 – Relação entre o tempo de tratamento indicado para a emissão contínua de ondas curtas e a condição inflamatória apresentada pelo paciente Tempo de tratamento Condição clínica indicada 10 a 15 minutos Processo inflamatório agudo 15 a 20 minutos Processo inflamatório subagudo 20 a 30 minutos Processo inflamatório crônico 64 Unidade I Outro parâmetro dosimétrico importante é a sintonia, responsável por tornar as linhas do campo eletromagnético mais homogêneas, ou seja, equidistantes, o que é fundamental para garantir que a irradiação de ondas curtas seja distribuída de forma regular em toda a área a ser tratada. Emissões de irradiação de ondas curtas por placas capacitivas com baixa sintonia indicam que poderá haver maior concentração do campo em determinada região corporal, o que, por sua vez, poderá gerar superaquecimento em um determinado ponto (com riscos iminentes de queimadura tecidual) e aquecimento sublimiar em outro. El et ro do p os iti vo Eletrodo negativo + - A) El et ro do p os iti vo Eletrodo negativo + - B) Figura 34 – Apresentação das linhas do campo eletromagnético gerado entre os eletrodos de equipamento emissor de irradiação por ondas curtas pelo método capacitivo. A) Linhas do campo eletromagnético distribuídas de forma homogênea, como resultado de emissão com sintonia alta; B) linhas do campo eletromagnético distribuídas de forma heterogênea, concentradas em uma região, como resultado de emissão com sintonia baixa A posição e a distância entre os eletrodos são variáveis muito importantes para a adequação da aplicação da diatermia por ondas curtas, pois elas interferem diretamente na qualidade do campo eletromagnético que será emitido aos tecidos biológicos, garantindo que seja possível obter a melhor sintonia possível. Os eletrodos devem sempre ser fixados nos pontos eleitos para seus posicionamentos, pois seus movimentos interferem diretamente na sintonia do campo. Também devem manter uma distância mínima entre si de 4 cm, uma vez que, se estiverem muito próximos, poderá haver concentração das linhas do campo eletromagnético entre eles. Por outro lado, os eletrodos não devem ser posicionados muito distantes entre si, pois a quantidade de irradiação disponibilizada aos tecidos poderá ser insuficiente para gerar os efeitos fisiológicos desejados. Sugerimos que, no máximo, a distância entre as placas seja de 50 cm. Essa é uma sugestão empírica, embasada em uma experiência clínica. Não há estudos que façam comparações entre a distância entre as placas capacitivas (eletrodos) e os efeitos gerados. 65 TERMO E FOTOTERAPIA Técnica de colocação dos eletrodos Basicamente, existem três diferentes técnicas para a aplicação de eletrodos: • Contraplanar: —― Alinhada —― Desalinhada • Coplanar • Longitudinal As técnicas contraplanares de colocação dos eletrodos são indicadas, geralmente, para a promoção de aquecimentointra-articular ou quando se deseja aquecer regiões bastante profundas dos membros. Quanto maior a distância entre os eletrodos, mais profunda será a produção do calor. Figura 35 – Método de aplicação da diatermia por ondas curtas com aplicação contraplanar desalinhada, utilizando uma toalha para aumentar o espaço entre o eletrodo vulcanizado e a pele do paciente. A maca é de madeira, e os cabos dos eletrodos não se cruzam Figura 36 – Método de aplicação da diatermia por ondas curtas com aplicação contraplanar alinhada 66 Unidade I No método coplanar, os eletrodos estão na mesma face anatômica da região a ser tratada; por exemplo, na face posterior da coxa ou sobre a região lombar. No método longitudinal, as placas capacitivas são dispostas de forma que uma delas esteja sobre uma das extremidades dos membros e a outra fechando o campo longitudinalmente ou na outra extremidade. Figura 37– Representação esquemática do método longitudinal do posicionamento de eletrodos capacitivos de ondas curtas. Esta forma de posicionamento é aplicada para tratamento de lesões tibiais, de tornozelo, do pé ou do tríceps sural Evidências científicas realizadas por Kaur (2019) demonstram que a utilização de ondas curtas, juntamente com a liberação miofascial ou a massagem de fricção transversa, auxilia de forma significativa a liberação de pontos-gatilhos em região cervical, reduzindo o relato de dor feito pela escala visual analógica (EVA). Autores também buscam, atualmente, utilizar o método de diatermia por ondas curtas para tentar induzir a dor muscular e, assim, estudar profundamente os conceitos de dor. No entanto, o método ainda é experimental e foi publicado em setembro de 2019, demonstrando uma nova utilização da diatermia iniciada por Mista (2019) e colaboradores. Ação principal Os efeitos da diatermia por ondas curtas envolvem as respostas biológicas frente à submissão do tecido ao campo eletromagnético e ao calor gerado em decorrência do tratamento (quando se utiliza o modo de emissão contínuo). 67 TERMO E FOTOTERAPIA São efeitos promovidos pela irradiação por ondas curtas: • Vasodilatação. • Aumento do fluxo sanguíneo. • Aumento da remoção de catabólitos. • Aumento da oferta de oxigênio. • Aumento da taxa metabólica. • Aumento da maleabilidade tecidual. • Aumento do limiar de dor. • Aumento da síntese de ATP. • Redução da viscosidade dos líquidos. Esses efeitos fisiológicos, sozinhos ou associados, promovem efeitos terapêuticos, que são o motivo pelo qual os clínicos tendem a indicar tal recurso para o tratamento das diferentes condições de saúde. Os efeitos terapêuticos são: • Analgesia. • Modulação do processo inflamatório. • Ganho da amplitude de movimento. • Redução do espasmo muscular. Saiba mais Leia o texto a seguir para conhecer melhor o estudo sobre a utilização de ondas curtas no tratamento de cervicalgia em universitários: BULOW, C. T. et al. Análise do efeito da diatermia por ondas curtas nas cervicalgias de universitários. Lecturas: Educación Física y Deportes, v. 23, n. 250, p. 90-102, 2019. 68 Unidade I Contraindicações As contraindicações podem ser relativas ou absolutas: as relativas referem-se à análise do custo-benefício da utilização do recurso; as absolutas relacionam-se às circunstâncias que impedem a indicação do recurso sob qualquer hipótese. Dessa forma, são contraindicações absolutas de aplicação das ondas curtas: • Processos inflamatórios agudos (somente o modo de ondas curtas contínuo é contraindicado). • Quadros oncológicos. • Utilização de implantes metálicos. • Utilização de marcapasso. • Gônadas. • Quadros hemorrágicos. • Quadros de trombose. • Tuberculose. • Condição febril. • Quadros infecciosos. • Gestantes. Detalhes importantes durante a aplicação Como todo recurso terapêutico, é preciso se atentar a detalhes específicos para que a aplicação da diatermia por ondas curtas ocorra de modo satisfatório e principalmente seguro para o paciente. Considerando que o campo eletromagnético emitido é de magnitude considerável, o equipamento não deve ser ligado na presença de pessoas que apresentem implantes metálicos ou marcapasso e de gestantes. Além disso, não se indica esse recurso para o tratamento de: crianças; pessoas que façam uso de aparelhos auditivos; pessoas portando relógios e/ou outros acessórios metálicos, como brincos, anéis, pulseiras, piercings etc. Não se deve utilizar as ondas curtas em consultório que apresente macas metálicas. Elas devem ser de madeira, preferencialmente. 69 TERMO E FOTOTERAPIA O paciente deve ser amplamente monitorado e acompanhado. Não se admite permitir que o paciente fique sozinho na sala de terapia enquanto a sessão estiver em andamento, pois ele pode acabar dormindo e, com o estado de vigília prejudicado, sofrer queimaduras. Antes de iniciar a sessão, é preciso orientar adequadamente o paciente quanto às contraindicações, assim como às sensações que são esperadas, a fim de que ele possa relatar qualquer alteração inesperada. Outro detalhe muito importante está relacionado com o cuidado no posicionamento dos cabos dos eletrodos do aparelho durante a aplicação terapêutica. Há passagem de campo eletromagnético desde os cabos, e, por isso, eles não podem ficar cruzados. Nessa situação, há a possibilidade de haver concentração do campo eletromagnético nesses pontos de aproximação formada pela posição inadequada dos cabos, o que pode gerar lesões nos pacientes ou danos ao equipamento. Resumo Nesta unidade, aprendemos sobre os aspectos que envolvem o reparo tecidual, desde o reparo até a cicatriz, entendendo que a inflamação é uma resposta vascular e sanguínea que visa limpar a área lesionada ou mesmo retirar os agentes patogênicos, por meio de migração leucocitária, para permitir a melhor condição possível para o reparo tecidual. Em muitos momentos, devido a uma lesão extensa, profunda ou sem os devidos cuidados, em vez de ocorrer o reparo tecidual, ou seja, a recuperação e a regeneração total do antigo tecido, acaba ocorrendo a cicatrização, que é a deposição de um tecido conjuntivo fibroso, o qual não possui a mesma função do tecido anterior. Como formas terapêuticas, conhecemos a crioterapia, que é o tratamento baseado na retirada de calor, pelo qual, além de efeitos analgésicos, é possível promover benefícios nas fases iniciais pós-lesão, por evitar as lesões por hipóxia secundária. Além da aplicação da crioterapia, estudamos a aplicação da termoterapia. Em vez de retirar calor, vimos que existem os meios que podem adicionar calor à região, por meio de ondas eletromagnéticas (ondas curtas, micro-ondas, luminosidade ou a aproximação de tecidos aquecidos). Vimos que muitos dos efeitos ocorrem em tecidos mais superficiais e não conseguem adentrar mais que 1 cm de profundidade, como sob a utilização da luz infravermelha, do banho de parafina e de compressas quentes, sendo, então, pouco utilizados para casos que necessitam de ações profundas, uma vez que as alterações fisiológicas são impedidas de passar pela barreira adiposa. 70 Unidade I Outros recursos, no entanto, como as ondas curtas, atingem os tecidos mais profundos e podem interagir de diferentes formas, favorecendo a maleabilidade de estruturas como o colágeno, o aumento do fluxo sanguíneo, a alteração no quadro álgico e da condução neural, além de promover o relaxamento muscular. Compreendemos, por fim, que a termoterapia é um método importante de tratamento para disfunções musculoesqueléticas. Algumas desvantagens desse método são o tamanho do aparelho, a dificuldade de transportá-lo, o custo e o tempo de terapia; porém, é totalmente indolor e, além de promover benefícios fisiológicos, gera uma sensação de bem-estar associado ao aumento de temperatura. É necessário recordar que esses são métodos complementares e coadjuvantes no tratamento, devendo aumentar o arsenal do fisioterapeuta. Exercícios Questão 1. (Fadesp 2020, adaptada)O uso de recursos termoterápicos auxilia na recuperação dos pacientes, levando em consideração que possibilitam a modulação do metabolismo. Esses recursos apresentam um modo característico de transmissão de calor, sendo esses distribuídos em condução, convecção e conversão. Nesse contexto, cada recurso utilizado na prática clínica apresenta o seguinte método primário de transferência do calor: A) As compressas quentes apresentam como método primário de transferência do calor a conversão. B) Os banhos de parafinas apresentam como método primário de transferência do calor a conversão. C) As ondas curtas apresentam como método primário de transferência do calor a convecção. D) O ultrassom apresenta como método primário de transferência do calor a conversão. E) Os banhos de cera quente apresentam como método primário de transferência de calor a irradiação. Resposta correta: alternativa D. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: o método primário de transferência do calor das compressas quentes é a condução. 71 TERMO E FOTOTERAPIA B) Alternativa incorreta. Justificativa: o método primário de transferência do calor do banho de parafina é a condução. C) Alternativa incorreta. Justificativa: o método primário de transferência do calor das ondas curtas é a conversão. D) Alternativa correta. Justificativa: o método primário de transferência do calor é a conversão. E) Alternativa incorreta. Justificativa: o método primário de transferência do calor do banho de cera quente é a condução. Questão 2. Os efeitos da crioterapia nos tratamentos fisioterápicos estão vinculados ao resfriamento dos tecidos superficiais e profundos. A crioterapia é comumente utilizada nas lesões traumáticas musculoesqueléticas imediatas. Com relação à crioterapia, analise as afirmativas: I – Quando o corpo entra em contato com o agente resfriador, os vasos sanguíneos respondem com uma constrição. Tal efeito visa proteger a temperatura corporal central. II – Após a exposição por um dado período, o corpo tende a responder com uma vasoconstrição, mas logo retorna ao estado de dilatação, seguindo nesse ciclo por um período. Esse processo é chamado de vasodilatação induzida pelo frio. III – A crioterapia não é contraindicada em casos como ferimentos abertos e insuficiência circulatória. Assinale a alternativa certa. Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s): A) I. B) I e II. C) I e III. D) II e III. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa A. 72 Unidade I Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: quando o corpo entra em contato com o agente resfriador, os vasos sanguíneos respondem com uma constrição. Tal efeito visa proteger a temperatura corporal central. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: após a exposição por um dado período, o corpo tende a responder com uma vasodilatação, seguida rapidamente pelo retorno ao estado de constrição, continuando nesse ciclo por um período. Esse processo é chamado de vasodilatação induzida pelo frio. III – Afirmativa incorreta. Justificativa: a crioterapia é contraindicada em casos como: ferimentos abertos, insuficiência circulatória, diabetes descontrolada, fenômeno de Raynaud, alteração de sensibilidade e obesidade mórbida.