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Aconselhamento
Aula 2: Psicologia e Teologia
Apresentação
Nesta aula, falaremos sobre a relação entre psicologia e teologia. Estas duas formas cientí�cas de conhecimento da
pessoa humana, embora autônomas e diferentes, são complementares, sobretudo para uma práxis aconselhadora, que
busca a vida plena da pessoa aconselhada.
Estes conhecimentos são imprescindíveis para um aconselhamento holístico, centrado na pessoa humana, visando sua
libertação e crescimento integral.
Mencionaremos os encontros e desencontros destes dois saberes, que, por investigarem dimensões humanas muito
próximas, causaram certo anarquismo epistemológico e estranhamento.
Objetivos
Analisar a pertinência e relevância da práxis interdisciplinar, transdiscipliar, múltidisciplinar e pluridisciplinar na
construção do verdadeiro conhecimento cientí�co;
Apontar os objetos de investigação da psicologia e da teologia;
Explicar a autonomia e complementariedade epistemológica da psicologia e da teologia no aconselhamento.
Não havendo sábios conselhos, o povo cai, mas na multidão de conselhos
há segurança. Provérbios 11:14
Porque um menino nos nasceu, um �lho se nos deu, e o principado está
sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro,
Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Isaías 9:6
Conselhos acadêmicos iniciais
Antes de iniciar o estudo do conteúdo sobre aconselhamento, escolha músicas instrumentais relaxantes, com sons da
natureza, e coloque-as para sua leitura, seu estudo. Esse tipo de som pode ajudar muito na apropriação do conteúdo
programático deste componente curricular e, quando estiver aconselhando alguém, coloque num volume baixo.
Sempre que encontrar uma citação bíblica, se não tiver a versão impressa, acesse a Bíblia na versão online e leia o texto
na fonte.
Seja autodidata, organize sua agenda acadêmica com dias e horários �xos de estudos e faça anotações dos aspectos
mais importantes. Este procedimento metodológico ajudará na apropriação do conteúdo e na elaboração das atividades,
bem como nas interações com colegas e tutores.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
Psicologia e teologia
O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu
rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas
sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus,
também eu me esquecerei de teus �lhos. Oséias 4:6
A relação da teologia com a �loso�a e com as ciências nunca foi tranquila, sobretudo durante a Idade Média. A teologia
escolástica monopolizou toda forma de conhecimento cientí�co e �losó�co, basta recordar os episódios de: Giordano Bruno
(1548-1600), �lósofo, teólogo, escritor e frade dominicano; Galileu Galilei (1564-1642), matemático, físico, astrônomo e �lósofo;
e Martinho Lutero (1483-1546), monge agostiniano e reformador cristão.
Giordano Bruno foi condenado pela Inquisição Romana por supostas heresias e executado na “fogueira do conhecimento”.
Galileu Galilei precisou jurar com a mão na Bíblia que o heliocentrismo de Copérnico era uma ilusão de ótica da cosmologia
moderna, mesmo tendo provado empiricamente por meio do telescópio. Martinho Lutero, por sua vez, é símbolo das vítimas de
uma teologia fundamentalista não dialógica.
Desencontro
Por aproximadamente mil anos a �loso�a foi feita serva da teologia. Este longo período de hegemonia da teologia levará o
pêndulo do conhecimento para o outro lado. Ou seja, para que as ciências conquistassem a autonomia epistemológica, elas
tentaram dar o troco na base do “olho por olho, dente por dente, palavra por palavra, tinta por tinta.” (Ex 21,24; Lv 24,20; Dt
19,21.).
O desencontro ocorreu no campo da psicologia da religião. Com o equívoco dos dois lados, houve historicamente um
“anarquismo epistemológico”, ou seja, uma confusão sobre o objeto de estudos da psicologia e da teologia.
Por isso, alguns teólogos a�rmam que a maioria das enfermidades da mente são de origem espiritual, como Clinebell no livro
Aconselhamento pastoral. Para ele, problemas religiosos podem ocultar problemas psicológicos e problemas psicológicos
podem ocultar problemas espirituais.
Sobre esta relação de estranhamento da psicologia com a teologia a�rma Noé:
"Pode-se constatar que, ao longo da história, a Teologia mostrou-se aberta ao diálogo
(conflituoso) com a Psicologia, se bem que o mesmo não valesse em sentido inverso.
Especialmente, neste tocante, merece destaque a Psicologia Pastoral, no âmbito
protestante e a Teologia Pastoral, no contexto católico. A partir de pioneiros, como o
pastor O. Pfister, desenvolveu-se um diálogo crítico significativo, por exemplo, quando
da sua réplica a Freud em relação à obra o “Futuro de uma Ilusão”, intitulada, a “Ilusão
de um Futuro”."
- NOÉ, 2016.
Atenção
É pertinente lembrar, porém, que o diálogo entre os diversos saberes cientí�cos nunca foi tranquilo. Como vimos na primeira aula,
a �loso�a surgiu na Grécia Antiga, em rota de colisão com os diversos saberes constituídos, entre os quais as religiões gregas,
tanto a pública − a religião do povo − quanto a religião das elites − o or�smo.
Durante toda a Idade Média, foi a vez da teologia monopolizar o conhecimento, por vezes interferindo de forma equivocada na
pesquisa cientí�ca
Diálogo
No entanto, com o amadurecer epistemológico e a nova concepção da necessidade da complementariedade dos vários
saberes na busca da verdade, as teologias católica e reformada começaram a dialogar com a psicanálise:
"Conforme assinala M. Utsch, este diálogo se deu majoritariamente em relação à
Psicologia do Profundo, com uma predileção especial do ramo protestante por S. Freud e
da ala católica, por C. G. Jung. Seria isso também um indício de que no fundo são opções
antropológicas que definem as preferências epistemológicas e metodológicas? Esta
corrente, todavia, em muitos cursos de Psicologia sequer é considerada e manteve uma
posição marginal. Apenas recentemente tem-se buscado um diálogo com a Gestalt,
Terapias Sistêmicas, Terapias Breves, Comportamentais... Do ponto de vista
metodológico, contudo, a relação interdisciplinar ainda se ressente de uma reflexão mais
pertinente, pois, muitas vezes, ela se estabelece nos moldes de uma ciência aplicada. Ou
seja, utiliza-se outra ciência para preencher lacunas conceituais e metodológicas da
própria."
- NOÉ, 2016
Este estranhamento não é fruto da modernidade. A teologia paulina já levantou uma suspeita sobre a �loso�a que não pode ser
desconsiderada. A comunidade de Colossas é seriamente advertida para tomar cuidado com especulações �losó�cas que não
levam a nada:
"Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs
sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não
segundo Cristo."
- Colossenses 2:8.
Paulo ainda teve um debate com �lósofos epicuristas e estóicos no aerópago (Ágora) de Atenas sobre o tema da ressurreição
de Jesus de Nazaré, veja em At 17,16-32
Saiba mais
Para uma análise mais detalhada deste desencontro entre a ciência teológica e as ciências do psicológico, leia o clássico de
Sigmund Freud, O futuro de uma ilusão, de 1927.
Embora respeitando o fenômeno religioso como forma de conhecimento do absoluto, o fundador da psicanálise tece duras
críticas à religião como fonte das mais sérias neuroses e psicoses que levam a pessoa à mais profunda alienação de si e da
realidade
Nova relação
 Fonte: Shutterstock.
No entanto, apesar de um histórico de con�ito, hoje há uma nova relação − sobretudo pela consciência interdisiciplinar,
pluridisciplinar, transdisciplinar, metadisciplinar e transversal − para chegar ao verdadeiro conhecimento sobre qualquer objeto
de pesquisa, especialmente quando este objeto é a pessoa humana (objeto-sujeito epistémico).
Na teologia cristã contemporânea, há uma consciência de que uma antropologia teológica − ou seja, um conhecimento
teológico verdadeiro − não pode prescindir das contribuições das ciências,sobretudo das ciências humanas e especialmente
da psicologia, cujo objeto de pesquisa é muito próximo do objeto da pesquisa teológica: Alma ou mente e espírito.
Principalmente pela necessidade de uma abordagem holística da pessoa humana.
Nesta perspectiva, a pessoa humana aparece no centro da teologia contemporânea. A re�exão sistemática e cienti�camente
organizada sobre Deus e a criação, que é constitutivo da teologia, considera a constituição e o desenvolvimento antropológico
da pessoa humana. Assim, a elaboração teológica usa a mediação cientí�ca no processo epistémico.
Portanto, hoje cada vez mais cresce a consciência do diálogo na busca do verdadeiro conhecimento do objeto investigado,
sobretudo quando este é a pessoa humana.
Atenção
Este diálogo ou a interdependência não pode, porém, levar à perda da autonomia de cada ciência. A re�exão teológica precisa
fazer criticamente a passagem da experiência religiosa natural para a experiência da revelação cristã. É tarefa do labor teológico
analisar a experiência religiosa natural e, então, a mediação das ciências, sobretudo as ciências humanas.
Agostinho de Hipona
Esta nova práxis epistêmica é fruto de um longo processo
de desencontro, pesquisa e humildade. Tanto o lado
reformado quanto o lado católico no ocidente cristão
amadureceu de forma diferente na concepção dialógica na
busca do conhecimento cientí�co.
Embora não seja necessariamente algo novo para a teologia
cristã, basta lembrar como Agostinho de Hipona usa a
�loso�a platônica na sua elaboração teológica no período
patrístico. E Tomás de Aquino faz a mediação �losó�ca na
elaboração de sua teologia escolástica no século XII.
Portanto, hoje esse diálogo com a devida crítica teológica
deve se estender em todas as direções do conhecimento
cientí�co.
 Fonte: Wikipedia.
Prática holística no aconselhamento cristão
Cada vez mais evolui dentro dos cursos de teologia cristã de con�ssão católica, reformada, ortodoxa e anglicana a consciência
e a sensibilidade para prática epistêmica interdisciplinar, pluridisciplinar, metadisciplinar e multidisciplinar para uma ação
pastoral libertadora. Igualmente tem havido, por parte dos líderes dessas igrejas, a preocupação com uma prática holística no
aconselhamento cristão.
A ação pastoral das igrejas cristãs tem cedido espaço para atuação de psicólogos e psicólogas nas igrejas e instituições
mantidas por elas no atendimento de crianças vítimas de violência, abuso, abandono ou exploração, idosos abandonados pelas
famílias, mulheres vítimas de violência doméstica etc.
Esses trabalhos pastorais combinam re�exão teológica com saúde mental. A abordagem espiritual é realizada através de
meditações, leituras, retiros, celebrações e dinâmicas psicoterapêuticas. Esta parceria acontece com sucesso também nos
centros de recuperação de dependentes químicos.
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
"Para alcançar o máximo de eficácia na próxima década, o aconselhamento pastoral
precisa recorrer aos insights e métodos de uma variedade de novas terapias centradas
no crescimento. Nosso campo precisa ampliar seu fundamento conceptual e fortalecer
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suas metodologias estando aberto para essas terapias: Gestalt-terapia, psicossíntese,
análise transacional, terapias corporais, terapias centradas no comportamento e na ação,
terapias feministas (e outras terapias radicais) e as terapias de sistemas, incluindo
aconselhamento conjunto de casais e famílias. As terapias radicais oferecem uma ponte
conceptual entre crescimento pessoal e mudança social, entre as dimensões pessoal e
profética do ministério."
- CLINEBELL, 1987, p. 36.
Atenção
A fragmentação do conhecimento prejudica o povo, pois o conhecimento cientí�co é um patrimônio da humanidade para o seu
crescimento (evolução) e para sua permanente libertação, isto é, para a sustentabilidade da espécie e planetária.
O diálogo inter, pluri, meta e multidisciplinar não só ajuda na construção do verdadeiro conhecimento, mas, sobretudo, ajuda na
melhoria da qualidade de vida do povo, que, segundo o profeta, será destruído por falta de conhecimento (Os 4,6).
Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online
 Atividade
1.O texto bíblico a seguir foi citado no conteúdo da segunda aula sobre aconselhamento pastoral. Marque a alternativa que
contenha a resposta certa:
a) Gn 1,1-26.
b) Mt 5,1-10.
c) Os 4,6.
d) Ex 3,1-5.
e) Is 49,1-10.
2. Assinale o �lósofo que completa o sentido da a�rmação:
Esta nova práxis epistêmica é fruto de um longo processo de desencontro, pesquisa e humildade. Tanto o lado reformado
quanto o lado católico no ocidente cristão amadureceu de forma diferente na concepção dialógica na busca do conhecimento
cientí�co. Embora não seja necessariamente algo novo para a teologia cristã, basta lembrar como no século terceiro da era
cristã este pensador usa a �loso�a platônica na sua elaboração teológica no período patrístico. E Tomás de Aquino faz a
mediação �losó�ca na elaboração de sua teologia escolástica no século XII. Portanto, hoje esse diálogo com a devida crítica
teológica deve se estender em todas as direções do conhecimento cientí�co.
a) Agostinho de Hipona
b) Tomás de Aquino
c) Karl Marx
d) Santo Ambrósio
e) Antonio Gramsci
 Atividade
3. Leia atentamente a tese a seguir e depois assinale a alternativa que contém os �lósofos pré-socráticos:
Os �lósofos pré-socráticos provocaram uma revolução epistemológica. Como um terremoto de alta escala faz tremer e racha a
terra, o despertar do logos grego deslocou o eixo do epicentro da re�exão humana. Como Aristóteles os chamou, estes
�siólogos ou estudiosos da physis, da natureza e da cosmologia passaram de uma concepção sobrenatural da realidade para
uma cosmovisão natural, ou seja, buscaram nos elementos primordiais: Água, terra, fogo, ar, átomo, apeiron a arké, a gênesis
ou origem de tudo.
a) Karl Marx, Sigmund Freud, Tomás de Aquino.
b) Tales de Mileto, Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eleia.
c) Sócrates, Platão e Aristóteles.
d) Epicuro, Plotino e Sêneca.
e) Augusto Comte, Plotino e Homero.
 Atividade
4. Segundo os conteúdos programáticos desta aula, as suspeitas recíprocas entre psicologia e teologia atrapalharam a prática
interdisciplinar, o diálogo di�cultando o desenvolvimento da psicologia da religião na Alemanha. Mas atualmente a teologia
busca o diálogo com os diversos saberes, sobretudo com a psicologia para que o aconselhamento pastoral seja cada vez mais
libertador e de crescimento integral da pessoa aconselhada.
Assinale os autores que trabalharam para que houvesse o diálogo entre teologia, �loso�a e ciências, na Idade Média e
sobretudo na atualidade:Aristóteles e Karl Marx.
a) Platão e Sigmund Freud.
b) Augusto Comte e Thomas Hobbes.
c) Santo Agostinho e Jean-Paul Sartre.
d) Santo Tomás de Aquino e Howard J. Clinebell.
Notas
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Referências
BÍBLIA ONLINE. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/acf <https://www.bibliaonline.com.br/acf> . Acesso em: 06 jan.
2020.
BOCK, A. M. B., et al. Psicologias: Uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2002.
CARPIGIANI, B. Psicologia: Das raízes aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Pioneira, 2001.CLINEBELL, Howard J. Aconselhamento pastoral: Modelo centrado em libertação e crescimento. São Paulo: Sinodal, 1987;
Paulinas e Sinodal, 2000.
COLLINS, G.R. Aconselhamento cristão. São Paulo: Vida Nova,2011.
https://www.bibliaonline.com.br/acf
DAVIDOFF, L.L. Introdução à psicologia. 3. ed. São Paulo: Makron Books, 2001.
INTERSABERES (Org.). Práticas pastorais. Curitiba: InterSaberes, 2015.
MARCONDES, D. Iniciação à história da �loso�a. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
NOÉ, Sidnei Vilmar. Encontros e desencontros da Psicologia com a Teologia no estudo da Religião. Disponível em:
https://periodicos.ufjf.br/index.php/numen/article/view/21997/11985
<https://periodicos.ufjf.br/index.php/numen/article/view/21997/11985> . Acesso em: 7 jan. 2020.
PEZZINI, Lucineyde Amaral Picelli. Contribuições da psicologia para o trabalho pastoral. Curitiba: InterSaberes, 2017.
POPPER, P. O balde e o holofote (apêndice). In.; POPPER, P. Conhecimento objetivo. São Paulo: Statiaia-Edusp, 1974.
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