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PARTE I PARTE I CRIATIVIDADE Mola mestra da inovação, a criatividade vem sendo cada vez mais requerida pelas organizações como uma competência profissional. Nesse sentido, o que é valorizado não é apenas a "iluminação" obtida com uma nova ideia, mas também a capacidade de materializar, de implementar tal ideia. Dessa materialização - ou seja, dos processos que levam à inovação no âmbito organizacional - é que trataremos na segunda parte do livro. Nesta primeira parte, composta por dois capítulos, abordaremos algumas das principais teorias que se desenvolveram em torno do fenômeno da criatividade, explorando-o pelo viés psicológico e neurológico. O primeiro capítulo desmistifica a relatividade, tirando-a do âmbito dos dons naturais para colocá-Ia no âmbito das habilidades passíveis de desenvolvimento. Isso implica defini-Ia, medir sua intensidade, conhecer seus processos, entendê-Ia, enfim. Em seguida - e disso falaremos no segundo capítulo - é preciso descobrir os fatores que inibem a criatividade e os que a estimulam,de fim de usá-Ios em nosso beneficio . Capítulo 1 AS QUATRO DIMENSÕES DA CRIATIVIDADE "As mentes são como paraquedas: só funcionam se estiverem abertas." Ruth No/ler, pesquisadora do Centro de Estudos sobre Criatividade da Universidade de Buffalo. Neste capítulo, abordaremos as seguintes questões: O que é criatividade? Quais são as quatro dimensões da criatividade? O que são pensamento divergente, pensamento convergente e pensamento lateral? Como se pode medir a criatividade? Quais são as principais teorias que classificam os diferentes estilos criativos? Como o ambiente pode afetar a criatividade? Como se dá o processo criativo? Em que consiste um produto criativo? Introdução A criatividade é uma característica que reconhecemos em algumas pessoas, e não reconhecemos em outras. E nesse reconhecimento somos taxativos, como se a criatividade fosse um dom com o qual apenas alguns tivessem sido agraciados. No entanto, se formos questionados a respeito do que é essa tal criatividade, que atribuímos a uns e não a outros, provavelmente não saberemos responder. É justamente essa uma das respostas que buscamos neste primeiro capítulo. Na primeira seção, você verá que a criatividade é uma característica que pode ser desenvolvida, desde que devidamente treinada. Conhecerá, também, algumas das principais teorias formuladas para explicá-Ia - desde as mais antigas, centradas no indivíduo, até as mais modernas, que entendem a criatividade como um fenômeno sistêmico envolvendo quatro dimensões: pessoa, produto, processo e ambiente. Na segunda seção e nas seguintes, estudaremos com mais vagar cada uma dessas dimensões. É preciso, porém, ter em mente que esse é apenas o inicio do estudo e não pretende esgotar - nem poderia, sob pena de contradizer a si próprio - a questão da criatividade. Entenda este primeiro capítulo do livro como um convite a mergulhar na criatividade. É mais uma visão geral a partir da qual você traçará sua própria rota de estudo - ou de viagem, se preferir. Por que estudar criatividade Ao voltar de um passeio no bosque com seu cachorro, o engenheiro suíço George de Mestral percebeu que suas roupas e o pelo do animal estavam cobertos de carrapichos. Intrigado com o poder de aderência das bolinhas, resolveu examinar uma delas ao microscópio. O segredo estava em minúsculos ganchos na superfície, que se agarravam aos fios do tecido e aos pelos. Mestral então teve uma ideia: se conseguisse reproduzir essa estrutura - ganchinhos grudados em lacinhos -, conseguiria criar um excelente fecho, tão difícil de desgrudar quanto o carrapicho. Trabalhou no projeto durante quase uma década. As decepções foram muitas: às vezes o ganchinho ficava grande demais para o lacinho, outras o lacinho é que ficava folgado. Os experimentos só avançaram quando ele chamou um experiente tecelão francês para ajudá-Io. Além de achar o tamanho exato, a dupla descobriu que o fio de náilon era mais adequado que o de algodão. Finalmente, em 1955, nascia o Velcro®. Mestral patenteou o produto e depoisjá exportavam imensas quantidades do fecho para o mundo todo. Hoje, o Velcro® é utilizado nas mais variadas peças de vestuário, assim como em calçados, equipamentos esportivos, malas, carteiras, brinquedos e utensílios domésticos. Está, enfim, em todos os cantos do planeta - e até mesmo fora dele, mantendo objetos fixos no interior de espaçonaves. Muita gente associa criatividade a um dom especial, quase mágico, que somente alguns privilegiados teriam. Esses gênios, em geral artistas ou inventores, tirariam suas ideias do nada e rapidamente as colocariam em prática, sem ajuda alguma. A história de Mestral e da invenção do Velcro® nos mostra uma realidade bem diferente. Podemos dizer que sua "criatividade" foi a soma de vários fatores: Para saber mais sobre George de Mestral e seu grande invento, sugerimos os seguintes artigos (ambos em inglês): 1) "Inventor of the Week: George de Mestral", disponível em: <http://web.mit.edu/invent/ iow/demestral.htmi>; 2) "George de Mestral: Velcro® Inventor'; disponível em: <http://invention.smithsonion.org/cente rpieces/iap/inventors_dem.html> Curiosidade; curiocapacidade de ver as coisas sob um ângulo inusitado; perseverança; autoconfiança; humildade para perceber os próprios limites e pedir ajuda; e capacidade de perceber que uma ideia nova pode ser útil. Para o sucesso no contexto organizacional, o ideal é que todas essas características - e outras igualmente desejáveis - estejam presentes. Mas quem exibiria naturalmente um leque tão grande de qualidades? Com certeza, pouquíssimas pessoas. A boa notícia é que as características que definem a criatividade podem ser treinadas. Em outras palavras, criatividade é algo que pode ser aprendido. Nas décadas de 1970 e 1980, os psicólogos norte-americanos Ellis Paul Torrance e Jack Presbury examinaram 384 pesquisas sobre a eficiência dos programas de treinamento em criatividade. A maioria delas concluía que a criatividade pode, sim, ser aprimorada por meio de um treinamento formal. Ainda na década de 1970, os professores da Universidade de Buffalo Sidney J. Parnes e Ruth Noller acompanharam um grupo de graduandos matriculados num programa experimental que trabalhava o seguinte conteúdo: desenvolvimento da percepção, resolução criativa de problemas, sinética (um tipo de brainstorming) e análise criativa. Quando comparados aos outros, esses alunos mostraram avanço significativo em vários aspectos, como habilidade mental, aplicação criativa do conteúdo acadêmico, sucesso em áreas não acadêmicas que exigem criatividade e em certas características pessoais relacionadas à criatividade. De fato, a experiência foi tão bem- sucedida que a Universidade de Buffalo passou a oferecer permanentemente programas de treinamento em criatividade. Criatividade e ciência Desde o início do século XX, os psicólogos - sobretudo os da área cognitiva, aquela que investiga os processos mentais - vêm estudando a criatividade. Um.dos pioneiros nesse sentido foi o inglês Graham Wallas, que em 1926 elaborou aquele que é tido como o primeiro modelo do pensamento criativo. No modelo de Wallas, a criação de uma nova ideia é um processo de quatro etapas: 1. Preparação: coleta das informações necessárias sobre o problema em questão. 2. Incubação: período de "descanso" mental, em que a pessoa se afasta temporariamente do problema. 3. Iluminação: momento em que a pessoa tem um "dique" e, finalmente, chega à solução criativa. 4. Verificação: ajuste e implementação da solução. Como se percebe, no modelo de Wallas a geração da ideia criativa depende de um "clique" É, portanto, um processo subconsciente, incontrolável. Além disso, o "dique" pode acontecerou não. Nota-se, porém, que Wallas já previa um momento de preparação anterior ao "passe de mágica': Ao longo dos anos, seu modelo seria desenvolvido e ampliado por vários outros estudiosos. Em praticamente todos os novos modelos, a criatividade continuava sendo vista como uma mistura de esforço e imaginação. Contudo, aos poucos os passos analíticos que antecediam o momento de "iluminação" foram se tornando mais numerosos e robustos. O funcionamento do nosso cérebro é algo que sempre nos fascinou. Os avanços da neurociência trazem contribuições importantes para a compreensão desses processos, possibilitando "testar hipóteses'; "visualizar o cérebro funcionando" e descobrir ainda mais sobre as reações e as ligações que fazemos para sermos criativos. O site <www.cerebronosso.bio.br> é muito interessante para quem se interessa pelos progressos dessa ciência tão nova, que incorpora rapidamente os avanços da tecnologia. Não deixe de visitá-Io. Em outras palavras, os pesquisadores começaram a concordar que seria muito mais fácil chegar a soluções criativas se nos preparássemos para isso, seguindo um roteiro objetivo predefinido. Começaram a ser desenvolvidas, então, técnicas para estimular a criatividade. Um dos passos mais decisivos nesse sentido foi dado pelo publicitário norte- americano Alex F. Osborn, inventor do famoso brainstorming (veremos mais sobre essa técnica e seu criador no próximo capítulo). Outro aspecto que chama a atenção naquele modelo pioneiro de Wallas é a ênfase no indivíduo. Parece que a criatividade depende exclusivamente do talento pessoal, e não de um ambiente estimulante ou da colaboração de colegas, por exemplo. Com o passar do tempo, teorias como essa, centradas no indivíduo, passaram a ser substituídas por teorias sistêmicas, que atribuem as soluções criativas não a uma pessoa ou processo isolado, mas a uma série de fatores inter- relacionados. Um dos primeiros especialistas a perceber essa inter-relação foi o psicólogo Mel Rhodes. Rhodes estabeleceu que criatividade é um fenômeno em que uma pessoa comunica um novo conceito - o produto. A pessoa chega até esse produto por meio de um processo mental. Como nenhum ser humano vive ou opera num vácuo, precisamos considerar também o ambiente. Surgia assim, em 1961, o modelo das quatro dimensões da criatividade: pessoa, produto, processo e ambiente (pressão). Essas quatro dimensões se inter-relacionam conforme mostra a Figura 1.1. Rhodes observou que, até então, as pesquisas psicológicas tinham se centrado em apenas uma das dimensões - em geral a pessoa ou o processo. No entanto, afirmava ele, o fenômeno só seria plenamente entendido se estudássemos suas quatro dimensões constitutivas. É o que faremos nas próximas seções, intituladas "Pessoa criativa", "Ambiente e produto criativos" e "Processo' criativo'. As quatro dimensões da criatividade também são chamadas de quatro Ps da criatividade. Isso porque as palavras escolhidas por Rhodes em inglês foram: person, process, product e press (pressão do ambiente). Algumas definições de criatividade "Criatividade não é uma lâmpada na cabeça, como muitos desenhos animados a representam. É uma conquista nascida de intenso estudo, longa reflexão, persistência e interesse." Richard Eric Snow, psicólogo norte- americano "Criatividade é a capacidade de encontrar respostas inusitadas, às quais se chega por associações muito amplas." Joy Paul Guilford, psicólogo norte- americano "Criatividade é qualquer ato, ideia ou produto que muda um campo já existente, ou que transforma um campo já existente em outro novo." Mihalyi Csikszentmihalyi, pes- quisador de ponta em criativi- dade e psicologia positiva Mitos sobre criatividade Scott Isaksen (apud PUCCIO, 1999), um dos maiores especialistas em criatividade da atualidade, identificou vários mitos que impedem o estudo criterioso do tema. Os mais contraproducentes são: Mito 1: a crença de que a criatividade é um fenômeno mágico. Aqueles que alimentam esse mito acreditam que estudá-Ia criteriosamente quebraria seu "encanto"; Mito 2: para ser criativo é preciso ser louco ou psicologicamente desequilibrado. Exemplo disso é a clássica imagem do "cientista maluco'; com os cabelos desgrenhados, imerso em seu laboratório e totalmente alheio à realidade. A criatividade seria, então, coisa de excêntricos - algo a ser evitado pelas pessoas "normais': Esses mitos devem ser combatidos, pois criam um ambiente desfavorável à criatividade. Mais adiante, veremos como as soluções criativas dependem - e muito - de um entorno que Ihes seja receptivo. Pessoa Criativa Desde sempre, essa foi a dimensão que mais atraiu o interesse de leigos e pesquisadores. Por que certas pessoas são mais criativas do que outras? Como saber se alguém é criativo ou não? Além de frequentar conversas cotidianas, essa duas perguntas inspiram boa parte das primeiras pesquisas sobre criatividade. De fato, os primeiros estudos centravam-se principalmente em mensurações. Naquela época - dos anos 1950 aos 1970 -, a psicologia cognitiva vivia seu auge e havia um grande interesse em mensurar fatores como inteligência, criatividade e capacidade de aprendizagem. A intenção era aplicar testes em larga escala na população, sobretudo entre crianças e jovens, e usar os resultados para aperfeiçoar as políticas públicas, como as de educação e emprego. A partir da década de 1950, portanto, começou a surgir uma série de testes e teorias que tentavam medir, classificar e explicar a criatividade e seus processos. Nos próximos tópicos veremos alguns desses testes e teorias, especificamente: as teorias de Joy Paul Guilford e Edward de Bono sobre pensamento divergente, pensamento convergente e pensamento lateral; o Teste Torrance do Pensamento Criativo, criado por Ellis Paul Torrance nos anos 1960 e até hoje o mais usado para medir a criatividade; algumas teorias que classificam os estilos criativos: a teoria da adaptação-inovação; o modelo Creatrix; a teoria do investimento em criatividade; a teoria sistêmica da criatividade. Pensamento divergente Um dos primeiros a elaborar testes no campo da criatividade foi o norte-americano Joy Paul Guilford. Na verdade, Guilford é considerado o mentor do estudo científico da criatividade. Isso porque, em 1950, durante um discurso para a Associação Norte-Americana de Psicologia, ele chamou a atenção dos colegas para a necessidade de pesquisar o assunto. Ele havia vasculhado os arquivos de produção científica da associação nos últimos 23 anos e descoberto que, dos 121 mil artigos publicados, apenas 186 versavam sobre criatividade. O discurso de Guilford sensibilizou os psicólogos e é considerado o marco inicial da pesquisa FIGURA 1.1 As quatro dimensões da criatividade, segundo Mel Rhodes (RICKARDS, 1999). Figura 1.1 sistemática sobre criatividade. Além desse estímulo prático, Guilford também deu importantes contribuições teóricas para a área. Especializado na mensuração da inteligência, Guilford percebeu que não havia uma correlação necessária entre nível de inteligência e de criatividade. Os testes de inteligência mediam se a pessoa era capaz de chegar à única resposta correta para determinado problema lógico. Mas a pessoa criativa muitas vezes chegava a várias soluções para um único problema; ou a soluções que não representavam necessariamente uma saída lógica. Com base nessa comparação, Guilford criou um conceito decisivo para o estudo da criatividade: a diferenciação entre pensamento convergente e pensamento divergente. Pen samento convergente é aquele que, por meio de um raciocínio analítico, leva a uma única solução lógica para determinado problema.Já pensamento divergente é aquele que apresenta várias alternativas de solução para o mesmo problema. Em outras palavras, o pensamento convergente parte de muitos pontos para chegar a um só destino, enquanto o divergente parte de um só ponto e chega a vários destinos. A Figura 1.2 representa esses dois tipos de pensamento. Guilford elaborou, então, testes-para mensurar o grau de pensamento divergente nas pessoas. Em um deles, o participante devia apontar os mais diferentes usos para determinado objeto do cotidiano, como um lápis. Quanto menos convencionais as respostas, mais divergentes - e, portanto, criativas - eram consideradas. É importante lembrar que o pensamento divergente não é "melhor" do que o convergente. Os dois são importantes e se retroalimentam. Quanto mais a pessoa se informar e desenvolver sua capacidade lógico- analítica, fortalecendo seu pensamento convergente, mais estará apta a ter, também, momentos de pensamento divergente. Além disso, os dois se complementam porque o pensamento convergente está ligado à estabilidade, enquanto o divergente está ligado à ruptura. Para haver ruptura, é preciso que antes haja estabilidade. Momentos de reviravolta e contestação são bem-vindos. Mas, se não houver um direcionamento que leve essas ideias "rebeldes" a um porto seguro, elas vão se perder pelo caminho. É o que acontece, por exemplo, com pessoas que estão sempre tendo ideias para projetos brilhantes, mas não levam nenhum adiante, pois não se dão tempo suficiente para amadurecê-Ios e geri-Ios com objetividade. Lado direito do cérebro e criatividade A teoria de Guilford intrigou os cientistas da época: se o cérebro era capaz de ter pensamentos convergentes e divergentes, será que esses dois tipos de raciocínio ocorreriam em áreas diferentes do órgão? A ideia de que regiões diferentes do cérebro desenvolveriam funções específicas já era conhecida desde o século XVIII. No fim do século XIX, um acontecimento fortuito nos Esta- dos Unidos acabaria comprovando esse fato: num trágico acidente de trabalho, o ferroviário Phineas Gage teve seu crânio perfurado por um pedaço de ferro. O ferro atravessou a testa e lesionou gravemente uma parte do cérebro: o córtex pré-frontal. Após um curto período de inconsciência, Gage parecia recuperado e em pouco tempo voltou à vida normal. Os conhecidos, porém, notaram uma drástica mudança: antes amis- toso e cooperativo, o ferroviário tornou-se insensível, arroqante e indiferente. Depois desse caso, outras lesões no córtex pré-frontal foram relatadas, sempre com resultados semelhantes: os sobreviventes não perdiam nenhuma capacidade física ou motora, mas sofriam graves transtornos de personalidade (GRENFIELD, 2000). Com o avanço das técnicas de cirurgia e observação, os neurocientistas foram aprofundando seu conhecimento sobre as diferentes regiões cerebrais e suas funções. Até que, nos anos 1960, o neurologista norte- americano Roger Sperry fez uma descoberta espantosa, que em 1981 lhe renderia o Prêmio Nobel de Medicina. Sperry interessou-se por pacientes splít braín -literalmente, "de cérebro dividido". Essas pessoas sofriam de um tipo raro de epilepsia, na época impossível de ser tratado com medicamentos. A única solução para evitar as crises era cortar a ligação entre os dois hemisférios cerebrais, impedindo que as descargas elétricas se irradiassem por todo o órgão. Para isso, os médicos faziam uma cirurgia no corpo caloso, estrutura que faz a ligação entre os dois lados do cérebro. Depois da operação, os pacientes levavam uma vida normal e não tinham aparentemente nenhuma função comprometida. Usando uma máquina especial, Sperry mostrou a esses pacientes figuras que só podiam ser vistas por um lado do campo visual. Assim, descobriu que o lado direito do cérebro recebia informações do campo visual esquerdo, e vice-versa. Em outras palavras, o lado direito do cérebro comunicava-se com o lado esquerdo do corpo, e o esquerdo, com o direito. Sperry percebeu, também, que cada hemisfério cerebral especializava-se em tarefas distintas: o esquerdo era responsável pelas tarefas verbais, lógicas e analíticas, enquanto o direito lidava com elementos não verbais, como expressões faciais, melodias e imagens, além de cuidar da percepção espacial. Por exemplo, o lado esquerdo é mais acionado quando lemos um jornal ou fazemos uma conta, e o direito quando precisamos indicar a alguém como chegar a determinado lugar, quando nos deleitamos com uma música ou simplesmente quando nos emocionamos. "Suponha que você esteja lendo um poema de Goethe. O hemisfério esquerdo analisa a sequência de letras, compõem-nas de modo que formem palavras e frases segundo as regras lógicas da linguagem escrita, averigua se a gramática e a sintaxe resultam sensatas e apreende o conteúdo concreto. Mas é apenas o direito que fará do poema mais que uma mera sucessão de letras, conceitos e sentenças. Ele integra as informações a ideias e noções próprias, faz surgir imagens na mente, reconhece o significado metafórico mais geral", explica o médico Ulrich Kraft (2004). Assim, metáforas, abstrações, fantasia, intuição e - é claro - criatividade são a especialidade do lado direito do cérebro. Mas, se todos temos um hemisfério cerebral direito, por que só alguns de nós parecem criativos? Segundo os especialistas, o problema está na maneira como somos educados. Edvaldo Pereira Lima, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, explica, em reportagem de Rosângela Petta para a revista Superinteressante: o sistema educacional tradicional.sempre se apoiou nas funções do lado esquerdo, que só se liga no lado linear, lógico e material das coisas. O lado direito, mais criativo, ficou atrofiado. De meados da década de 1980 para cá, pesquisas de universidades americanas, como as da Califórnia e do Texas, mostram que o rendimento de qualquer atividade é maior quando há mais equilíbrio entre os dois hemisférios. (PETTA, 1996) Equilíbrio, aliás, parece ser a palavra-chave quando o assunto é lados do cérebro. O hemisfério direito é capaz de gerar ideias criativas, mas nem toda ideia criativa é necessariamente boa. E mesmo as boas precisam de razão e lógica para ser executadas. Nessa hora entra em cena o lado esquerdo, avaliando, organizando e direcionando. Kraft (2004, p. 7) citando o neurocientista Bruce L. Miller, acrescenta: "Somente o lado esquerdo do cérebro, com uma atividade estritamente racional, torna possível ao produtor de ideias analisar se seu insight pouco ortodoxo, vindo do hemisfério direito, realmente contribui para a solução do problema". E resume: "A criatividade sempre tem a ver com o cérebro todo." O site do Prêmio Nobel, com informações (em inglês) sobre os experimentos de Roger Sperry, é muito interessante para quem quer explorar um pouco mais as questões relativas aos dois lados do cérebro e suas funções. Basta acessar o link <http.//nobelprize.org/educational/medici ne/splitbrain/background.html>.