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SOFT SKILLS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Definir competências a partir da escola francesa. > Descrever as capacidades comportamentais pela lente das soft skills. > Explicar as diferenças entre hard skills e soft skills. Introdução O mercado de trabalho reconfigurou-se em muitos aspectos a partir da inten- sificação da globalização ocorrida na década de 1990. Ele passou a exigir das organizações uma atuação mais dinâmica, flexível e adaptável ante a competição global que se iniciou. Isso fez com que os colaboradores também precisassem ampliar e complexificar suas competências. Hoje, as capacidades técnicas (hard skills) dos colaboradores não são mais suficientes para que eles persigam os resultados almejados pelas organizações de que participam. Assim, surgem novas capacidades sociais e comportamentais (soft skills), que possuem caráter univer- sal. Os colaboradores precisam desenvolver as soft skills para serem capazes de alcançar o nível de desempenho requerido atualmente. Na contemporaneidade, portanto, tanto as questões racionais — evidenciadas pelos conhecimentos, experiências e qualificações — quanto os aspectos subjeti- vos — internos, psicológicos e relacionais — são necessários para os profissionais darem conta das demandas do cotidiano do mundo do trabalho. Introdução às capacidades (skills) Pablo Bes Neste capítulo, você vai estudar o conceito clássico de competência, conhe- cendo seus componentes e limitações. Você também vai estudar as hard skills e as soft skills, com foco nas principais características dessas capacidades e nos aspectos que as diferenciam. Além disso, você vai verificar como as hard skills e as soft skills se inserem no ambiente organizacional. Definição de competência Viver em sociedade exige, a todo instante, seja no âmbito pessoal ou no profis- sional, uma série de conhecimentos específicos e habilidades para enfrentar os desafios cotidianos. Bauman (2001) propõe o conceito de modernidade líquida para caracterizar a sociedade contemporânea. Na modernidade líquida, tudo flui incessantemente. Nesse contexto, as mudanças frequentes e a exigência constante de flexibilidade, adaptabilidade e dinamismo por vezes tornam o mundo inseguro e instável. Quando está em pauta o acompanhamento dessa dinâmica e o êxito nas tarefas, o conceito de competência assume um papel central. Além disso, a competência endossa a racionalidade neoliberal, que hoje funciona, como apontam Dardot e Laval (2016), como a nova razão do mundo. A racionalidade neoliberal se baseia nas lógicas de funcionamento do mercado, compreendendo as profundas reconfigurações que ocorreram a partir da década de 1990, quando a globalização se intensificou. Desde então, é necessário e urgente estar apto para concorrer no mercado. Para isso, os diferenciais competitivos são fundamentais; eles normalmente são adquiridos a partir do mapeamento de tendências e do desenvolvimento de novas competências. Inclusive, no cenário contemporâneo, as ideias de felicidade e realização se associam com a busca de aprimoramento, pois, como comenta Achor (2012, p. 31), “ser feliz não é acreditar que não precisamos mudar, é perceber que podemos”. E é possível mudar, também, a partir das competências. Ao analisar a competência como a nova tendência evidenciada socialmente a partir da década de 1990, Zarifian (2001) destaca que as modificações no mundo do trabalho foram ocasionadas a partir de três elementos importantes: evento, comunicação e serviço. No Quadro 1, a seguir, veja uma síntese das ideias desse autor. Introdução às capacidades (skills)2 Quadro 1. Fatores que ocasionaram mudanças na sociedade e no trabalho a partir da década de 1990 Evento É algo que ocorre de forma inesperada, contingencial, que pode, por vezes, obstaculizar os processos em andamento, perturbando o desenrolar normal da produção. O mundo, agora mais imprevisível e flexível, dado o dinamismo do mercado global, exige mais qualificações dos trabalhadores, para que eles possam lidar com as situações que surgem e desafiam as organizações. Comunicação Passa a ser o componente central do trabalho, sendo necessária uma ação de gerenciamento capaz de conduzir as interações das equipes rumo aos resultados almejados. A comunicação também pode gerar falhas e conflitos quando realizada de forma inadequada. Serviço Refere-se à capacidade do homem de modificar o estado e as condições de trabalho para entregar o resultado daquilo que executa ao destinatário, cliente ou usuário, com a qualidade necessária e exigida pelo mercado. Fonte: Adaptado de Zarifian (2001). Ao analisar o Quadro 1, perceba como os aspectos listados alteraram a sociedade. Atualmente, as pessoas precisam aprender a enfrentar situações imprevistas e incertas, o que exige resiliência, capacidade de adaptação e flexibilidade. Da mesma forma, os avanços das tecnologias digitais da infor- mação e comunicação (TDICs) ofertam novas possibilidades de comunicação e interação, elementos cada vez mais essenciais. Alguns autores, como Friedman (2009), afirmam inclusive que o mundo passa “a ser plano” a partir desse impulso das TDICs, devido à compressão espaço-temporal que se realiza. Veja o que Friedman (2009, p. 396) comenta: […] aprendi que as empresas que conseguiram sobreviver e crescer são hoje as mais preparadas para mudar. Elas percebem as novidades que o achatamento do mundo permite ou proíbe mais rápido do que as concorrentes e são as primeiras a desenvolver estratégias para explorar as novas possibilidades e satisfazer as novas exigências. Em outras palavras, Friedman (2009) observou, ao realizar a pesquisa que embasou a escrita de seu livro “O mundo é plano”, que as empresas que continuavam tendo êxito, mantendo-se ativas e crescendo no mercado global eram aquelas que conseguiam mapear as novas exigências e preparar seus colaboradores para as mudanças. Introdução às capacidades (skills) 3 Como você viu, o serviço também foi apontado por Zarifian (2001) como uma das mutações do trabalho contemporâneo. Os clientes e usuários de serviços se tornaram mais exigentes e críticos em relação ao que as organizações lhes disponibilizam. Esse fato se associa às reconfigurações do capitalismo, que na lógica neoliberal se torna ainda mais competitivo, estimulando a concor- rência e exigindo esforço para o aprimoramento e a melhoria contínua dos processos organizacionais. Cabe a você, então, dada a importância do tema para a vida contempo- rânea, conhecer o conceito de competência. Para começar, considere que, de acordo com a definição clássica, a competência é formada por: conheci- mentos, habilidades e atitudes (ZARIFIAN, 2003). A junção das letras iniciais das palavras que designam os elementos definidores da competência dá origem ao acróstico “CHA”, que hoje é amplamente conhecido e difundido no ambiente organizacional. Dessa forma, alguém competente é alguém que possui um rol de saberes sobre determinado assunto ou área, tendo experienciado esses conhecimentos na prática e se tornado hábil na sua utilização. Nesse caso, a competência fica evidente nas ações do sujeito. As atitudes dizem respeito à propensão pessoal de utilizar esses conhecimentos e habilidades para realizar algo, produzindo um resultado eficiente e eficaz. Os conhecimentos podem ter sido adquiridos por meio da educação formal — escolarizada, abrangendo todos os níveis da educação básica e do ensino superior —, da educação informal — no âmbito cultural de que o sujeito par- ticipa — ou ainda da educação não formal — em cursos profissionalizantes, de idiomas, etc. Em síntese, os conhecimentos correspondem ao saber. Por sua vez, as habilidades costumam ser desenvolvidas ao longo dos processos com os quais os sujeitos se deparam no seu cotidiano. Nesses processos, a sua capacidade é evidenciada, isto é, os sujeitos se valem do que conhecem e do repertório que já possuem para realizar algo, o que cor- responde ao “saber fazer”. Asatitudes, por sua vez, correspondem ao querer fazer/agir. Assim, chega-se ao conceito de competência definido por Zarifian (2003, p. 137). Veja: […] competência é a tomada de iniciativa e responsabilidade do indivíduo em situa- ções profissionais com as quais ele se defronta. Competência é uma inteligência prática das situações, que se apoia em conhecimentos adquiridos e os transforma à medida que a diversidade das situações aumenta. Introdução às capacidades (skills)4 Perceba que a competência se manifesta na iniciativa do sujeito ao lidar com uma situação que lhe aparece. Nessa situação, ele canaliza tudo o que sabe e já vivenciou para dar conta de solucionar o que precisa e atingir algum tipo de resultado. Zarifian (2001, p. 121) destaca, nesse sentido, que as com- petências “só são utilizáveis e se desenvolvem como consequência de uma automobilização do indivíduo”. Isto é, de nada adianta você ter conhecimentos e experiências se não estiver disposto a utilizá-los para agir. Considere que é a primeira vez que uma pessoa pinta uma parede de sua casa. Para se preparar, ela adquiriu conhecimentos na internet, conversando com amigos e auxiliando alguém em uma pintura. Assim, ao ver-se sozinha em frente à parede a ser pintada, ela mobiliza tudo o que sabe para cumprir a tarefa. Contudo, ainda que haja conhecimento, falta-lhe experiência, e as primeiras pinturas servirão para desenvolver essa habilidade. Ao deparar-se com situações que desconheça, como algum tipo de acabamento específico ou remoção de manchas, esse pintor iniciante pode ampliar seu conhecimento a fim de fazer um trabalho excelente, ou simplesmente ignorar esses detalhes. Ao final do trabalho, ao verem a parede pronta, as pessoas produzirão um julgamento, definindo se o pintor foi ou não competente na sua tarefa. Ao analisar o conceito de competência, sobretudo pela adoção generalizada do acróstico “CHA” para defini-la, você deve problematizar se os conhecimen- tos, as habilidades e as atitudes são de fato suficientes para que alguém se torne competente em algo. Para ser considerado competente, é suficiente ter um vasto conhecimento sobre algo, ser experiente e ter a intenção de mobilizar esses recursos em determinada área? Le Boterf (2000) enfatiza que só há competência no ato, que envolve a ação e também a capacidade de se antecipar aos fatos, indo além de sim- plesmente mobilizar recursos para resolver determinada situação. Isso abre espaço para se pensar nesse conceito de forma mais abrangente, envolvendo outros aspectos que vão além do CHA e que são igualmente importantes para a atuação nas áreas pessoais e profissionais. Na próxima seção, você vai conhecer melhor o conceito de competência. Introdução às capacidades (skills) 5 Soft skills: capacidades comportamentais requeridas no mercado de trabalho A gestão do desempenho dos colaboradores em uma organização contem- porânea transcende o conceito de competência, representado pelo acróstico clássico que a define como o fator resultante do conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes. Tal gestão entende que hoje existem outras capaci- dades (skills) fundamentais para que os profissionais desempenhem suas funções como se espera no mundo do trabalho. Fleury e Fleury (2001, p. 187) destacam que “a competência não se limita, portanto, a um estoque de conhecimentos teóricos e empíricos detidos pelos indivíduos, nem se encontra encapsulada na tarefa”. Assim, deter a maior quantidade de conhecimentos e experiências sobre algo, ou ainda ser um expert em uma tarefa específica, desempenhando-a de forma eficiente, não abrangeria tudo o que está envolvido no conceito de competência. Como comenta Zarifian (2003, p. 137), “competência é a faculdade de mobilizar redes de atores em volta das mesmas situações, de compartilhar desafios, de assumir áreas de responsabilidade”. Perceba que há outras skills igualmente importantes inseridas no próprio conceito de competência. É o caso da mobilização de pessoas e redes (network) visando a resolver os desafios compartilhados e da ação responsável frente às demandas. Como forma de ampliar a definição de competência, adotou- -se a sua divisão nas seguintes capacidades: hard skills — relacionadas às habilidades técnicas e básicas que uma pessoa possui, normalmente fruto de processos formais de escolarização — e soft skills — que abrangem um conjunto de capacidades necessárias para a interação e o convívio social no ambiente de trabalho. Assim, a competência exige de todos, independentemente do preparo técnico que possuam para exercer seus cargos (hard skills), outras capa- cidades que se ajustem às exigências do capitalismo atual. Sennett (2016, p. 9) argumenta que, no capitalismo flexível contemporâneo, “pede-se aos trabalhadores que sejam ágeis, estejam abertos a mudanças a curto prazo, assumam riscos continuamente, dependam cada vez menos de leis e pro- cedimentos formais”. Pode-se acrescentar a essa lista de exigências todo um conjunto de capacidades comportamentais específicas, que hoje são conhecidas como “soft skills”. Veja o que afirmam Lippman et al. (2015, p. 4): Introdução às capacidades (skills)6 Soft skills referem-se a um amplo conjunto de habilidades, competências, compor- tamentos, atitudes e qualidades pessoais que permitem às pessoas conduzir-se efetivamente em seu ambiente, trabalhar bem com os outros, ter um bom desem- penho e atingir seus objetivos. Essas habilidades são amplamente aplicáveis e complementares a outras habilidades, como técnicas, vocacionais e habilidades acadêmicas. Assim, as soft skills são normalmente identificadas como capacidades pessoais e subjetivas que facilitam as relações intrapessoais e interpessoais, agindo como complemento às habilidades técnicas; logo, são multifuncionais. Por exemplo, imagine que você é um engenheiro de software formado e que é competente para programar e criar jogos digitais. Ao receber a tarefa de conduzir um processo criativo em equipe, você precisará pôr em prática ou- tras habilidades, como a comunicação, a inteligência emocional, a liderança, a análise de problemas e a tomada de decisão, que permitirão que essa tarefa se efetive. Caso sua personalidade seja mais extrovertida e suas vivências culturais tenham contribuído para que você saiba se relacionar com os outros, isso vai ocorrer de forma mais tranquila. Porém, se for o contrário, você deverá desenvolver tais capacidades, que são justamente as soft skills. Como explicitam Lippman et al. (2015, p. 4), “as ‘soft skills’ são de impor- tância central para o desenvolvimento do capital humano e o sucesso da força de trabalho”. Porém, os mesmos autores alertam para a existência de grandes lacunas no desenvolvimento dessas capacidades entre os profissionais que atuam hoje no mercado. Aprofundando suas pesquisas, Lippman et al. (2015, p. 5) definem as cinco soft skills principais para a atuação bem-sucedida no mercado de trabalho contemporâneo. Veja quais são elas: � habilidades sociais; � comunicação; � pensamento de ordem superior; � autocontrole; � autoconceito positivo. A soft skill denominada “habilidades sociais” pode ser considerada uma competência transversal, pois se refere à forma como as pessoas interagem umas com as outras em seu cotidiano, isto é, está em jogo o relacionamento interpessoal. As habilidades sociais envolvem ainda o respeito a todos e a capacidade de se adequar a situações decorrentes das atividades realizadas, sejam elas previsíveis ou contingenciais, o que inclui a resolução de conflitos. Lippman et al. (2015) destacam que essa é uma soft skill considerada de Introdução às capacidades (skills) 7 extrema importância atualmente no mundo todo, no âmbito de empregos formais e informais. A respeito das relações interpessoais no ambiente de trabalho, Moscovici (1997, p. 34) pontua o seguinte: Em situações de trabalho, compartilhadas por duas ou mais pessoas, há atividades predeterminadas a seremexecutadas, bem como interações e sentimentos reco- mendados, tais como: comunicação, cooperação, respeito, amizade. À medida que as atividades e interações prosseguem, os sentimentos despertados podem ser diferentes dos indicados inicialmente e então — inevitavelmente — os sentimentos influenciarão as interações e as próprias atividades. A partir da citação da autora, perceba como funcionam as skills na prática no mundo do trabalho: elas acabam por mesclar as capacidades técnicas dos colaboradores com as sociais, de ordem subjetiva. Nas atividades e in- terações, “sentimentos positivos de simpatia e atração provocarão aumento de interação e cooperação, repercutindo favoravelmente nas atividades e ensejando maior produtividade” (MOSCOVICI, 1997, p. 34). Mas também existe outra possibilidade de ocorrência, pois “sentimentos negativos de antipatia e rejeição tenderão à diminuição das interações, ao afastamento, à menor comunicação, repercutindo desfavoravelmente nas atividades, com provável queda de produtividade” (MOSCOVICI, 1997, p. 34). Perceba, assim, como as soft skills são imprescindíveis para que as organizações contemporâneas atinjam seus resultados, pois se associam com o clima organizacional existente e com a qualidade de vida no trabalho que se almeja, fatores que interferem diretamente na motivação dos colaboradores. A habilidade de comunicação tem sido apontada, da mesma forma, como uma das soft skills determinantes da eficácia das atividades exercidas pelos trabalhadores no mercado de trabalho atual. Essa habilidade abrange tanto a capacidade de se expressar de forma coerente e assertiva (obtendo êxito na tarefa de comunicar o que se pretende) quanto os atributos de compreensão e interpretação requeridos nas práticas comunicativas cotidianas, sejam elas verbais (orais ou escritas) ou não verbais. A soft skill denominada por Lippman et al. (2015) “pensamento de ordem superior” envolve três habilidades principais que costumam funcionar simul- taneamente: a resolução de problemas, o pensamento crítico e a tomada de decisão. Essa capacidade é muito útil para aqueles que ocupam funções de liderança na atualidade. Afinal, ela viabiliza que os gestores ajam de forma analítica para solucionar problemas no cotidiano organizacional, chegando a uma solução razoável no tempo adequado. Introdução às capacidades (skills)8 A soft skill denominada “autocontrole” integra uma das facetas da in- teligência emocional que têm sido apontadas como habilidades essenciais para todos que atuam no ambiente organizacional. O autocontrole promove a busca de compreensão e de melhores formas de conduzir as respostas psicofisiológicas relacionadas às emoções. Além disso, a busca do gerencia- mento apropriado das emoções também remete à capacidade de direcionar e focar a atenção ao longo da jornada diária. O conceito de inteligência emocional foi amplamente difundido ao redor do mundo pelo psicólogo norte-americano Daniel Goleman, a partir da escrita de sua obra “Inteligência emocional”, publicada originalmente em 1995. Para o autor, a inteligência emocional envolve, entre as suas dimensões, duas que se voltam à autopercepção das emoções e à sua autorregulação pelos sujeitos. Assim, a inteligência emocional pode ser considerada uma importante competência social, pois permite que, por meio do autoconhecimento das emo- ções próprias e alheias, os sujeitos avaliem seus sentimentos e gerenciem suas respostas psicofisiológicas com base no contexto e no ambiente em que se encontram (GOLEMAN, 1995). O autoconceito positivo envolve um conjunto de fatores subjetivos que precisam estar presentes para que os profissionais sejam bem-sucedidos nas organizações em que atuam. Entre esses fatores, destacam-se a autoconfiança, a autoestima, o orgulho de si e a sensação de bem-estar pelo que realiza a partir do seu trabalho. O autoconceito positivo envolve ainda o conjunto de crenças que a pessoa possui e o seu nível de autoconhecimento. Essa soft skill vai ao encontro da definição de qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde (OMS): “a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações” (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998, p. 28). A psicologia positiva, da mesma forma, tem procurado desta- car a importância das emoções positivas para que os sujeitos ampliem sua condição de bem-estar onde quer que se encontrem, o que contribui para promover a sua felicidade. Como você viu nesta seção, as soft skills têm grande importância na atu- alidade para que se atinjam os patamares de desempenho requeridos nas tarefas nas quais os colaboradores se envolvem cotidianamente. Perceba que Introdução às capacidades (skills) 9 elas funcionam de forma transversal e complementar às habilidades técnicas existentes, muitas vezes sendo imprescindíveis para que os conhecimentos e habilidades dos sujeitos sejam canalizados de modo mais acertado e pro- dutivo no ambiente organizacional. A seguir, você vai ver como as hard skills se diferenciam das soft skills. Hard skills e soft skills A gestão do desempenho das organizações contemporâneas tem desdobrado seus esforços em pesquisa para mapear as tendências do mercado e, assim, verificar as capacidades que serão requeridas dos trabalhadores para que atinjam seus resultados. Essa busca indica que a articulação e a integração das capacidades técnicas e sociais são cada vez mais necessárias para que a eficácia exista, contribuindo também para melhorias na qualidade de vida no trabalho e para o bem-estar dos colaboradores de modo geral. Ao analisar as competências relacionadas ao mercado de trabalho con- temporâneo e as tendências futuras (para 2025), o Fórum Econômico Mundial listou, no seu relatório “The Future of Jobs 2020”, as 15 competências que devem estar em alta nesse período. Veja quais são elas (WORLD ECONOMIC FORUM, 2020): 1. pensamento analítico e inovação; 2. aprendizagem ativa e estratégias de aprendizagem; 3. resolução de problemas complexos; 4. pensamento crítico e análise; 5. criatividade, originalidade e iniciativa; 6. liderança e influência social; 7. uso, monitoramento e controle de tecnologia; 8. projeto e programação de tecnologia; 9. resiliência, tolerância ao estresse e flexibilidade; 10. raciocínio, resolução de problemas e ideação; 11. inteligência emocional; 12. solução de problemas e experiência do usuário; 13. orientação de serviço; 14. análise e avaliação de sistemas; 15. persuasão e negociação. Introdução às capacidades (skills)10 Perceba como essas competências envolvem tanto capacidades técnicas adquiridas pelo estudo formal e pela experiência empírica no trabalho quanto capacidades sociais e subjetivas, que operam de forma multifuncional, sendo inerentes a todos os cargos ou funções executadas. Por exemplo: a primeira das competências elencadas envolve as hard skills voltadas para o estudo do campo da inovação e suas ferramentas, porém também envolve uma das soft skills mais requeridas atualmente, de cunho pessoal e subjetivo, a capacidade de pensamento analítico. Isso significa que as possibilidades de existir um processo de fato inovador têm a ver com a junção de aspectos técnicos e subjetivos. Leia atentamente todas as demais competências listadas e procure cons- tatar quais delas podem ser adquiridas com a busca de conhecimentos e ao longo das experiências profissionais. Por outro lado, identifique aquelas que necessariamente dizem respeito a fatores internos, a processos psicológicos e a interações sociais que ocorrem no ambiente organizacional diariamente. Você vai notar o quanto ambas as capacidades são necessárias. É importante que você conheça mais detalhadamente o que diferencia as hard skills das soft skills. Para isso, observe o Quadro 2, a seguir, que apresenta a conceituação dessas capacidades. Quadro 2. Conceitos e exemplos de hardskills e soft skills Competências Conceito Exemplos Hard skills Competências do domínio técnico, adquiridas por meio de formação profissional e acadêmica ou pela experiência adquirida; competências relacionadas com a profissão ou atividade exercida; procedimentos administrativos relacionados com a área de atividade da organização. Capacidade de operar/ manusear máquinas, aparelhos e equipamentos; conhecimentos relativos a normas de segurança; conhecimentos de informática/programas; habilidades financeiras/ contábeis; experiência profissional e técnica. (Continua) Introdução às capacidades (skills) 11 Competências Conceito Exemplos Soft skills Habilidades universais/ transversais, não acadêmicas e não relacionadas com a formação ou com o desempenho de funções técnicas; traços de personalidade; objetivos; preferências e motivações; atributos de carreira. Capacidade de se comunicar, de dialogar, de responder, de cooperar com os outros, de trabalhar em equipe/ grupo; capacidade de resolver problemas/ conflitos, de motivar, de estimular, de incentivar, de facilitar, de apoiar e de se adaptar; criatividade; iniciativa; capacidade de se comportar em diferentes situações; etiqueta. Fonte: Adaptado de Swiatkiewicz (2014). No Quadro 2, atente aos fatores que diferenciam as hard skills das soft skills. O principal deles é o modo como essas capacidades costumam ser desenvolvidas. As capacidades técnicas se relacionam com o conhecimento científico e acadêmico, com o empenho em aprender a partir das teorizações pertinentes à área profissional em questão e com a expertise desenvolvida no exercício da profissão. Já as capacidades sociais remetem ao desenvolvimento subjetivo, intrapessoal, bem como às atividades de interação com as demais pessoas, isto é, aos aspectos interpessoais. Entre as soft skills hoje necessárias ao sucesso no mundo do trabalho, você ainda pode incluir aquelas capacidades subjetivas de cunho moral. Elas têm a ver com agir de acordo com padrões éticos, âmbito em que se evidenciam a honestidade, a justiça e a transparência. Maniscalco (2010, p. 54) afirma que “frequentemente diz-se que as com- petências técnicas proporcionam o trabalho, mas depois são necessárias competências transversais para mantê-lo”. Assim, embora exista essa dis- sociação conceitual, ambas as capacidades costumam funcionar de forma simultânea e, inclusive, mantêm a empregabilidade quando coexistem. As hard skills e as soft skills atuam de forma complementar ao longo da (Continuação) Introdução às capacidades (skills)12 execução das tarefas diárias, pois os sujeitos são a todo instante exigidos em termos técnicos e subjetivos. Shakir (2009, p. 310), ao perceber essa complementação necessária entre as hard skills e as soft skills, constata que “os indivíduos com melhor desem- penho possuem simultaneamente competências técnicas adequadas, assim como comportamentais”. Esse fato se relaciona com as reconfigurações do mundo do trabalho, que passou a exigir um perfil mais dinâmico e adaptável das pessoas e que vem constantemente impondo novas capacidades a serem desenvolvidas. Perceba, ainda, que as soft skills, pelo seu caráter universal (elas se apli- cam a todos, independentemente do cargo ou função), passam a ser cada vez mais exigidas em paralelo às capacidades técnicas, que historicamente pautaram o mundo do trabalho. Malhotra (2017) indica a importância do de- senvolvimento das soft skills quando analisa a capacidade de negociação e a necessidade de empatia. Malhotra (2017) ainda comenta que, nas situações de negociação, quanto maiores forem a sua capacidade de empatia e o seu cuidado para entender as motivações, os interesses e as limitações da pessoa ou organização do outro lado, mais opções você poderá ter para resolver a disputa ou o impasse”. A empatia pode ser vista como uma das dimensões da inteligência emo- cional ou simplesmente como uma emoção positiva, sendo subjetiva e, nesse caso, uma capacidade social (amplamente utilizada na negociação ou geren- ciamento de conflitos). A empatia possibilita que os sujeitos entendam os reais motivos uns dos outros em situações de conflito, evitando que façam julgamentos precipitados e equivocados. Um bacharel em administração possui amplo conhecimento das teorias que compõem essa ciência. Ele é hábil no uso de ferramentas e na produção de ações voltadas para o planejamento, a organização, a direção e o controle das tarefas cotidianas. Porém, para que possa colocar em prática seu conhecimento técnico (hard skills) precisa ter desenvolvido algumas capacidades sociais ou comportamentais específicas (soft skills). Por exemplo, ele precisa relacionar-se bem com as equipes de trabalho, ter um bom nível de inteligência emocional, saber tomar decisões, lidar com as pressões e contingências do dia a dia, comunicar-se adequadamente, exercer sua liderança de forma persuasiva, etc. Como esse bacharel desempenha uma função de liderança, as soft skills se tornam ainda mais significativas, pois podem aumentar o engajamento e o comprometimento dos colaboradores, ou, numa perspectiva mais pessimista, afastá-los das possibilidades de atingir suas metas e agregar valor à organização. Introdução às capacidades (skills) 13 Como você viu no exemplo, as hard skills justificam a ocupação do cargo pelo profissional. Afinal, elas o qualificam formalmente e o habilitam tec- nicamente a desempenhar essa função, que exigiu o esforço de cursar uma faculdade e buscar experiências que consolidassem uma base técnica. Porém, isso não é suficiente para que o profissional atue de forma eficaz: ele também precisa de um conjunto de capacidades sociais. Veja o que destacam Del Prette e Del Prette (2001, p. 31): Na dinâmica das interações, as capacidades sociais fazem parte dos componentes de um desempenho social competente. Assim, a competência social qualifica a proficiência dessa atuação e se refere à capacidade do indivíduo de organizar pensa- mentos, sentimentos e ações em função de seus objetivos e valores, articulando-os às demandas imediatas e mediadas pelo ambiente. Dessa forma, para serem considerados competentes no mundo do trabalho atual, os profissionais precisam desenvolver e aprimorar tanto aspectos técnicos quanto aspectos sociais. A ideia é que extraiam o máximo de seus pensamentos e emoções em busca dos objetivos que focalizam em seu co- tidiano. Isso significa direcionar tanto as questões racionais (intelectuais e cognitivas) quanto as psicológicas (subjetivas e sensoriais) para o alcance de melhores performances nas tarefas executadas nas organizações. Referências ACHOR, S. O jeito Harvard de ser feliz: o curso mais concorrido de uma das melhores universidades do mundo. São Paulo: Benvirá, 2012. 216 p. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 280 p. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. 416 p. (Coleção Estado de Sítio). DEL PRETTE, A.; DEL PRETTE, Z. A. P. Psicologia das relações interpessoais: vivências para o trabalho em grupo. Petrópolis: Vozes, 2001. 232 p. FLEURY, M. T. L.; FLEURY, A. Construindo o conceito de competência. Revista de Adminis- tração Contemporânea, Maringá, v. 5, n. esp., p. 183–196, 2001. Disponível em: https:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1415-65552001000500010&lng=p t&nrm=iso&tlng=pt. 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No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Introdução às capacidades (skills) 15