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AULA 4 BRANDING E PRODUTOS Prof. Achiles Batista Ferreira Junior Prof.ª Anelise Jensen 2 Nesta aula, vamos acompanhar o modo como as atividades de branding e design de marcas e produtos foram se associando com o passar dos anos. Embora sejam conceitos diferentes, existe uma ligação expressiva entre as duas áreas. Abordaremos ainda de que formas essas especialidades podem se relacionar com conceitos como criatividade e inovação, no projeto e no desenvolvimento de embalagens e produtos atraentes, no planejamento e na execução de formas efetivas de exposição. TEMA 1 – DESIGN E BRANDING O branding é um processo abrangente, que inclui criação da identidade corporativa e definição de propósito, estratégias de valor e ações comerciais. Nele está incluído o design, responsável por apresentar esse conjunto de informações de forma visual. Deste modo, se o branding procura expressar um conceito coeso e único em todo tipo de comunicação, o design procura pensar em como dar forma para conceitos e funcionalidades que serão apresentados ao mercado. No entanto, temos que ter em mente algo importante: Créditos: wowomnom/Shutterstock. Branding não é somente identidade visual! Ela é apenas uma parte disso. As atividades de branding vão além da simples criação de um logotipo, de um nome para a marca ou de peças de publicidade. O branding é uma área destinada a criar uma marca forte e, assim, gerar valor para a empresa, por isso congrega outros setores, como planejamento, estratégia, administração e recursos humanos. Além da convergência com outros setores dentro da empresa, o branding estabelece relacionamento por meio de diferentes pontos de contato do cliente 3 com uma marca: as experiências de compra que são ofertadas, o preço cobrado, o posicionamento assumido. O design é, nesse sentido, um desses pontos de contato (Vinícius, 2017). Para Mozota (2011, p. 17), “as técnicas do design combinam o caráter lógico da abordagem científica e as dimensões intuitivas e artísticas do trabalho criativo.” Assim, uma de suas funções consiste em ajudar a tangibilizar (tornar concretos) os elementos apresentados pela promessa de uma marca. Outro propósito do design está na capacidade de diferenciar os produtos de uma marca. Para Kotler e Keller (2012, p. 354), o design “é o conjunto de características que dizem respeito à aparência, à sensação e ao funcionamento do produto sob a perspectiva do consumidor. Oferece benefícios funcionais e estéticos, apelando tanto para o nosso lado racional quanto para o emocional”. Se prestarmos atenção no que se refere a aparência e funcionamento de produtos, à medida que a importância do design foi sendo reconhecida pelo mercado, categorias que antes não se preocupavam com essa questão passaram a olhá-la com cuidado. Dessa forma, se antes uma cadeira era só um objeto para sentar, sob a ótica do design o mesmo objeto passa a ter identidade própria e estilo. Observe o exemplo a seguir: Créditos: kavring/Shutterstock. 4 Crédito: lynnette/Shutterstock. As taxas de insucesso no lançamento de produtos são expressivas e podem alcançar mais de 80% no primeiro ano (Martin, 2009). Por isso, as tradicionais pesquisas de mercado buscavam tentar compreender se os clientes potencias comprariam – ou não – determinados produtos com base na aparência. No entanto, em alguns casos surgiam imprecisões derivadas das respostas, pelo fato, por exemplo, de o respondente querer contribuir dando a resposta esperada pelo pesquisador. Com base nisso, as pesquisas de cunho científico passaram a analisar o comportamento do consumidor e sua tomada de decisão (Gallace, 2015). É nesse contexto que aparecem os primeiros estudos de neurodesign. Rodrigues (2015, p. 260) expressa que “a grande maioria dos elementos de design chegam ao cérebro através do sistema visual e, portanto, neste aspecto, o consumidor é maioritariamente estimulado de forma visual”. Note, com base nessa informação, o quanto a percepção estética que temos pode ser aspecto determinante na escolha de um produto. Existe um conceito dessa área que confirma tal ideia. Conhecido como processamento de fluência, é classificado por Genco et al., citado por Rodrigues (2015, p. 261), como “a facilidade com que um objeto pode ser identificado e percebido pelo cérebro”. Isso significa que, quando o processamento de fluência tem níveis altos, os consumidores não necessitam realizar um processo de reflexão consciente acerca do objeto de compra, que oferece apelo imediato. Na prática, esse conceito vem sendo utilizado para aprimorar as formas como o design é exposto ao público, as quais veremos logo a seguir. 5 TEMA 2 – CRIATIVIDADE, DESIGN E INOVAÇÃO EM PRODUTOS Criatividade, design e inovação são assuntos bastante abordados na atualidade, mas, apesar de sua aparente popularidade, muitas pessoas confundem o significado e a aplicação desses temas. A criatividade é a condição favorável para a criação de ideias, conceitos, produtos e serviços. De acordo com entrevista dada pela especialista em inovação Teresa Amabile ao site Administradores (2015), “a criatividade é a produção de qualquer coisa. Poderia ser uma ideia, um produto tangível, uma performance”. Essa capacidade é considerada, então, como o primeiro passo para aquilo que virá a ser traduzido posteriormente em inovação. Drew Marshall expõe seu ponto de vista em artigo para o Business Insider: “criatividade é sobre libertar o potencial da mente para conceber novas ideias. Esses conceitos podem se manifestar de várias maneiras, mas na maioria das vezes, eles se tornam algo que podemos ver, ouvir, cheirar, tocar ou sentir” (Marshall, 2013). Logo, a criatividade é um conceito subjetivo e denota, por exemplo, o fato de que podemos ter organizações criativas e, por outro lado, pouco inovadoras. Disso, pode-se depreender que a criatividade precisa ser implementada para que, então, torne-se inovação na prática. Isoladamente, a criatividade na gestão de marcas e produtos não se justifica. Desta maneira, o processo criativo se consolida por meio da inovação. Ao contrário do que muitos pensam, a inovação não está apenas no lançamento de produtos, portanto não é obrigatoriamente disruptiva (aquilo que provoca uma ruptura com os padrões até então conhecidos). Inovar representa uma nova forma de olhar para situações do presente, que pode ser um olhar atento para oportunidades de produtos para o mercado ou para a inserção de novas tecnologias no negócio etc. Com a inovação, a gestão de marcas incorpora ao portfólio de produtos algumas alterações viáveis e que vão permanecer por um certo tempo como oferta de mercado. Assim, se a criatividade é o item que busca conhecer (para atender) as necessidades de produtos do mercado, a inovação é o que vai transformar essas necessidades em realidade. Um levantamento feito em 2018 pela empresa de consultoria Boston Consulting Group (BCG) revelou algumas das empresas mais inovadoras no mundo: 6 Figura 1 – Empresas mais inovadoras de 2018 As empresas mais inovadoras de 2018 1 – Apple 11 – Airbnb 21 – Siemens 31 – Intel 41 – 3M 2 – Google 12 – SpaceX 22 – Unilever 32 – NTT Docomo 42 – SAP 3 – Microsoft 1 13 – Netflix 23 – BASF 33 – Daimler 3 43 – DuPont 4 – Amazon 14 – Tencent 24 – Expedia 34 – AXA 44 – InterContinental Hotels Group 5 – Samsung 2 15 – Hewlett-packard 25 – Johnson & Johnson 35 – Adidas 45 – Disney 6 – Tesla 16 – Cisco Systems 26 – JPMorgan Chase 36 – BMW 46 – Huawei 7 – Facebook 17 – Toyota 27 – Bayer 37 – Nissan 47 – Procter & Gamble 8 – IBM 18 – General Electric 28 – Dow Chemical 38 – Pfizer 48 – Verizon 9 – Uber 19 – Orange 29 – AT&T 39 – Time Warner 49 – Philips 10 – Alibaba 20 – Marriott 30 – Allianz 40 – Renault 50 – Nestlé Source 2017 BCG global innovation survey 1 Incluindo Nokia 2Inclui todos os grupos empresariais da Samsung (eletrônica e indústria pesada) 3 Incluindo Mercedes-Benz Fonte: Segura, 2018. Veja que grandes organizações que conhecemos (Google, Netflix) estão entre elas. Ao analisarmos suas características, podemos concluir que organizações inovadoras possuem pontos em comum, como visão compartilhada, foco nas pessoas, estímulo ao trabalho em equipe, atmosfera criativa e promoção do desenvolvimento contínuo (Mendes, 2011). O design, por sua vez, é o que integra a inovação à criatividade. Para Kotler (2012, p.355), ele pode “mudar a percepção do consumidor e tornar sua experiência com a marca mais recompensadora”. Basta pensarmos nos computadores de antigamente. Como eles eram? Caixas de cor bege que executavam funções tecnológicas. Esse paradigma mudou totalmente com a entrada dos produtos da Apple no mercado: a empresa introduziu peças práticas e atrativas aos usuários e consumidores comuns. 7 Figura 2 – Mac One Créditos: Anthony Hall/Shutterstock. Figura 3 – iMac Crédito: Zeynep Demir/Shutterstock. Na sociedade moderna atual, há uma gama de produtos muito similares, o que representa um movimento de padronização nas ofertas. Por esse motivo, as marcas, por meio do seu design, apresentam-se como estímulos e também como diferenciais para o consumo. Para isso, é preciso buscar formas de se destacar frente à concorrência. Assim, Kotler (2012, p. 354) aponta que “para o cliente, um produto com design eficaz é aquele com visual agradável e fácil de abrir, instalar, utilizar, consertar e descartar”. Ser criativo e inovador é também conhecer as demandas dos consumidores. TEMA 3 – COMO CRIAR EMBALAGENS ATRAENTES Levando em consideração os fatores estudados, o design começou a buscar meios para tornar os produtos insubstituíveis, desenvolvendo laços duradouros e procurando estabelecer uma ligação emocional com o consumidor. Essas características refletem o conceito de design emocional, que abrange o princípio de que um produto bonito, com apelo sensual ou esteticamente agradável aos olhos do cliente tem grandes chances de ser entendido pelo nosso cérebro como algo melhor. 8 O design thinker, professor e cientista cognitivo Don Norman, em parceria com professores do departamento de psicologia da Northwestern University, nos EUA, apresentou um estudo em que sugere que nossas emoções podem estar relacionadas ao design e ser processadas em três níveis (Norman, 2004). No nível visceral, fica tudo aquilo que chama a nossa atenção imediatamente, por ser belo e bem elaborado. É um entusiasmo estético, com o qual a ação acontece de forma automática. Para o planejamento de produtos e embalagens, deve-se pensar em associar esse estímulo ao toque, à aparência e às sensações provocadas. Garrafas de águas são todas iguais, certo? Em teoria, sim, mas você nunca viu pessoas comprarem uma água e, após beber, guardarem a embalagem? É o processamento no nível visceral que impulsiona esse tipo de comportamento. Afinal de contas, quem nunca teve sua atenção despertada por produtos em embalagens caprichadas? O nível comportamental responde pelos processos cerebrais habituais, e, como o apelo estético pode acabar rapidamente, nesse patamar, o comportamento do produto passa a ser testado. Traduzindo: não adianta ter um produto bonito se o funcionamento deixar a desejar. Estamos falando de usabilidade, que é um dos itens que ajuda a compor a experiência do usuário (Spagnuelo, 2012). Para o desenvolvimento de produtos e embalagens, tal estímulo está ligado à funcionalidade e ao desempenho. Tanto faz se for um tablet, uma serra elétrica ou uma bicicleta: o design deve estar necessariamente associado a performance e, mais ainda, a compreensão e facilidade de uso. Por fim, no nível reflexivo ficam os processos cerebrais intelectuais, cognitivos. Basicamente, são produtos de um relacionamento a longo prazo, que representam a imagem de como gostaríamos de ser vistos. Existe racionalização e consciência neste nível, o qual espelha uma busca por controlar a forma como somos vistos (Agni, 2015). Aplicando ao desenvolvimento de produtos e embalagens, deve-se pensar em imprimir em marcas e produtos a ideia de raridade, exclusividade e prestígio, como em um rótulo de vinho edição especial. Assim, por meio do entendimento desses níveis é possível compreender que uma embalagem é uma das maneiras mais efetivas que as marcas têm à sua disposição para promover um produto. Por esse motivo, ela deve ser pensada para atrair o consumidor. Basta pensar em uma linha de amaciantes de roupas que tivesse embalagens pretas: será que a embalagem seria tão atrativa quanto as tradicionais, em tons de azul bebê? rtave Realce rtave Realce rtave Realce rtave Realce rtave Realce rtave Realce rtave Realce 9 Somos seres impulsivos por natureza, e mais de 50% das nossas decisões são tomadas de forma espontânea. Por isso, as estratégias visuais são muito importantes. Tanto é assim que as cores influenciam sobremaneira os produtos que consumimos. Segundo Rodrigues (2015, p. 263), “a cor é um dos elementos do design com maior preponderância nas emoções dos consumidores, sendo que esta resposta afetiva acaba por influenciar as decisões de consumo”. Podemos notar, por exemplo, o uso do vermelho e do amarelo em muitos tipos de produtos, feito que possui uma explicação evolucionista, pois, quando os seres primitivos colhiam alimentos nas árvores, eram atraídos por essas cores, justamente por saber que indicavam um fruto maduro e bom para consumo. Perceba que isso se mantém, dadas as devidas proporções, até hoje (Silva, 2014). Outra constatação obtida em estudos de neuromarketing, e que Gonçalves (2013, p. 50) expressa, informa que, para o desenvolvimento de embalagens e produtos, “curvas são sexys e o cérebro humano detesta bordas afiadas”. Isso significa para os profissionais que desenvolvem produtos, por exemplo, que formatos com grande angulação ou arestas podem ser rejeitados pelo nosso cérebro. Imagine uma embalagem do chocolate da marca Toblerone tempos atrás. Talvez muitos mercados não quisessem aceitar o produto, já que sua embalagem irregular não seria perfeitamente empilhável (Lindstrom, 2016). Em contrapartida, veja o apelo das curvas – e a inconsciente busca do nosso cérebro pelo prazer – presente no design das garrafas de cerveja: Com base nessas observações, Genco et al., citados por Rodrigues (2015), agruparam algumas dicas para que o design de produtos e embalagens seja percebido como atrativo. Vamos a elas: • Conservação da informação: uma quantidade menor de informação passa a impressão de precisão e atratividade, sendo mais facilmente processada pelo cérebro. • Simetria: produtos e embalagens com simetria na horizontal, vertical ou diagonal contêm menos informação e são vistos, como no caso anterior, como mais atrativos. • Constraste/claridade: quanto maior o contraste e a saliência em relação ao ambiente, associando o uso de cores chamativas e linhas nítidas, mais o produto/embalagem é entendido como atrativo. • Exposição repetida: quanto maior o número de vezes que um objeto é visto, mais familiar ele se torna para o cérebro, facilitando seu rtave Realce rtave Realce rtave Realce rtave Realce rtave Realce rtave Realce 10 processamento, o que faz com que alguns produtos e embalagens familiares se tornem chamativos para nós. • Padrão de reconhecimento implícito: quando uma estrutura é percebida como previsível (algo que reconhecemos), ela é mais facilmente processada e também tida como atrativa. • Tipicalidade: produtos que representam a versão ideal ou média de uma categoria são mais facilmente processados em relação a itens considerados incomuns. • Transferência semiótica: designs que contêm elementos da natureza e do meio animal “assumem”características desses elementos, transferindo associações positivas. De outra maneira, o neuromarketing aponta que o design de produtos e embalagens precisa fazer um produto se sobressair em relação aos demais, e, para isto, embalagens de grande impacto na atenção do consumidor devem considerar três pontos fundamentais (Tellini, 2016). O primeiro deles diz respeito à relação entre familiaridade versus novidade, já que é preciso equilibrar a inserção de novos produtos e embalagens com aquilo que nos é familiar (e que também pode causar tédio). Embalagens atraentes devem ser inovadoras, mas suficientemente familiares para proporcionar conforto ao consumidor. Às vezes, pequenas alterações podem surtir ótimos efeitos. O segundo critério menciona os valores de categoria. As categorias existem para organizar os produtos em grupos e, na nossa mente, como uma forma de agilizar a tomada de decisão, de modo a não perdemos tempo analisando categoria a categoria. Isso quer dizer que categorias com produtos novos, mas com um posicionamento claro e valores coerentes, tendem a facilitar o entendimento do consumidor quanto aos seus conceitos. Pense, por exemplo, no caso do IPod (tocador de músicas portátil da Apple), quando foi lançado. Apesar de ser um produto novo, suas características e seus atributos eram bastante definidos. Por fim, temos o aspecto relacionado à facilidade de processamento. As cores, as texturas e o formato das embalagens ajudam para que o processamento aconteça de forma mais simples, o que acarreta sentimentos inerentes de familiaridade e confiança (Tellini, 2016). Observe a diferença apresentada no padrão a seguir: 11 Esses são alguns dos aspectos que podem influenciar as decisões de compra de um consumidor, embora naturalmente existam outros. Hoje se fala muito no conceito de unboxing experience, que retrata o ato de desembrulhar (abrir) um produto, acompanhando quais são as reações do consumidor. Essa ideia é bastante observada atualmente no segmento de comércio virtual (e- commerces). Figura 4 – Unboxing (ato de abrir o produto) Créditos: Elvira Koneva/Shutterstock. É preciso lembrar que um design bem elaborado pode reduzir custos de produção e facilitar a logística de uma marca. Além disso, ajuda a promover uma impressão positiva da marca, o que inclui cores, fontes diferenciadas (porém simples), ilustrações e fotos bem escolhidas. Entra nessa conta também o cuidado com o uso de materiais sustentáveis, além de formatos fáceis e inovadores de manusear. Para Giovanni Tellini (2016), da Forebrain, “com a ajuda do neuromarketing, as empresas conseguem avaliar a experiência dos consumidores, aprimorando suas embalagens e desenvolvendo produtos que agradam e, possivelmente, vendem mais”. Desta maneira, conhecer os gostos e as preferências declarados e agregar pesquisas sobre os elementos inconscientes pode ser a chave para o desenvolvimento de produtos de maior impacto na mente e no coração do consumidor. 12 TEMA 4 – ESTRATÉGIAS DE EXPOSIÇÃO DOS PRODUTOS Depois de pensar em embalagens atraentes para o cérebro, entramos no plano da exposição dos produtos. De que maneiras a gestão de marcas/branding pode apresentar os produtos para potencializar suas vendas? Nos ambientes de loja, a exposição dos produtos é tão importante quanto ter um produto de qualidade ou bons vendedores. Considere o fato de que atualmente as marcas não entregam simplesmente produtos, mas, sim, experiências de compra, que vão desde a temperatura do ambiente até a qualidade do atendimento ofertado. Por esse motivo, a exposição dos produtos deve ser estrategicamente planejada. E, para que qualquer estratégia funcione, é necessário ter uma execução adequada, o que inclui o espaço de consumo. O design define qual será o conceito e a ambientação de um estabelecimento, que normalmente é desenhado, segundo Rodrigues (2015, p. 275), para “reter o consumidor por mais tempo no interior das lojas, vendo mais produtos, aumentando as probabilidades de gastar mais dinheiro”. Os consumidores, uma vez dentro dos estabelecimentos comerciais (sejam lojas, supermercados ou afins), precisam encontrar “pistas visuais” que possam guiar a sua navegação no espaço, como letreiros, cartazes, setas, cores e imagens (Rodrigues [S. d.], citado por Morris, 2015). Isso ajudará na memorização do espaço e também na orientação espacial, que, na prática, contribui, por exemplo, para encontrar os produtos procurados de forma mais rápida. Hoje já existe a possibilidade de adotar ferramentas da realidade virtual para esse tipo de interação, pois há cada vez mais pessoas comprando pela internet. Para Pradeep, citado por Rodrigues (2015, p. 276), “é uma experiência de consumo totalmente imersiva, mas sem lojas ou espaços físicos, sendo que o cérebro responde exatamente da mesma forma que responderia num ambiente real”. Com o uso da realidade virtual, é possível andar pelos corredores de um e- commerce, olhando e analisando cada um de seus produtos. O vitrinismo é item muito importante, já que é a primeira impressão que um cliente terá de uma loja. Nesse sentido, a vitrine precisa ser suficientemente atrativa para fazer o cliente parar, dar uma olhada e ainda entrar na loja para comprar. A iluminação também é essencial e deve ser clara, focando justamente os produtos a que se quer dar um destaque maior para ampliação das vendas. Nesse quesito, é preciso cuidar para que as luzes não alterem a cor original dos 13 produtos, pois isso gera decepções após a compra. Portanto, um produto verde deve chegar à casa do consumidor verde. Os materiais de mobiliário da loja, expositores, cadeiras e araras devem transmitir ao cérebro a sensação de familiaridade e conforto, encontrada em materiais “quentes” como a madeira, ao contrário de balcões em vidro, por exemplo (Bôas, 2016). Visando estimular esse processo de atração especificamente de produtos, foram sendo desenvolvidas algumas estratégias para uma boa exposição. A organização comercial Igara (2017) apresenta algumas técnicas que podem auxiliar nesse processo de disposição visual. É preciso dar atenção e cuidado especial para a exposição de produtos de maior valor agregado. São produtos comprados não pelo preço em si, mas pelos benefícios que proporcionam em determinadas situações. Tome como exemplo a seção de cafés de um supermercado. Pode-se destacar os cafés importados ou os nacionais de safras e aromas diferenciados, o que funciona como um indutor para a compra. É um café que não se compra pelo preço (que certamente será superior ao convencional), mas, sim, pelas ocasiões especiais em que será degustado. Nessa perspectiva de categorização de produtos, também podem ser apresentados produtos complementares, como copos de cristal ou queijos finos próximos da seção de vinhos. Outra estratégia a ser adotada diz respeito à divulgação das promoções: as ofertas devem ser colocadas em destaque em áreas de maior circulação de pessoas, de modo que possam se sobressair em relação ao restante dos produtos. Outra possibilidade é apresentar embalagens econômicas, que sinalizem desconto (e, portanto, como já vimos, vantagens) à mente do consumidor. Créditos: Thyago Macson. 14 Os produtos podem estar distribuídos em pontos extras, ou seja, mais de um ponto nas lojas, sejam ele ilhas, gôndolas ou caixas, preferencialmente em áreas nobres. O importante é que não atrapalhem o fluxo da loja. Isso não significa uma promoção, mas um destaque que a loja quer dar para a marca ou para a qualidade do produto. Isso se explica porque, se esses itens estivessem em seus pontos habituais, em meio aos outros produtos, poderiam passar despercebidos. Em pesquisas realizadas via eletroencefalograma, Pradeep (2010), citado por Rodrigues (2015, p. 272), descortinou cinco itens importantespara uma boa experiência de consumo: • Informação: refere-se a ter informações disponíveis dentro de uma loja, o que permite que os produtos sejam facilmente encontrados em um local. Nesse sentido, Pradeep (2010) descobriu que imagens e ícones são mais bem processados, emocionalmente falando, evitando a sobrecarga cerebral com palavras e números. • Ambiente de consumo: refere-se ao contexto físico da experiência, sendo a agradabilidade e os aspectos sensoriais motivadores para as compras. É preciso ter poucos (e bons) produtos dentro de uma loja, que não confundam o consumidor, tampouco briguem pela sua atenção. • Entretenimento: a oferta de entretenimento no ambiente de compras é poderosa e pode ampliar o tempo passado no estabelecimento e o envolvimento emocional, ao mesmo tempo que reduz a chamada “dor de pagar”. • Simplicidade: o simples é “lido” pelo nosso cérebro como algo seguro e confortável. A ideia é manter os itens essenciais e racionalizar a experiência de compra: nem produtos demais, nem tão poucos produtos que o cliente sinta não ter opções. O uso ponderado de cores e palavras também contribui neste conceito. • Comunidade: os seres humanos desejar pertencer a um grupo ou a uma comunidade. Trata-se de uma necessidade de socialização. Então, locais que adotam palavras ou imagens que remetam o cérebro ao senso de pertencimento são mais bem vistos quanto às experiências de compras que proporcionam. Por meio das diferentes táticas, pudemos verificar que os cuidados na exposição de produtos no ponto de venda são diversos. Ao efetivamente 15 implementar essas técnicas, pode-se ter uma melhora geral na imagem da marca, o que possibilita aumentar as vendas e fidelizar os clientes. Nesse sentido, a disposição dos produtos deve ser feita pensando sempre em quais são as necessidades dos clientes, os itens que têm maior saída, a validade dos produtos etc. Assim, cada vez mais consumidores viverão melhores experiências, buscando regularmente os produtos e as marcas de sua preferência. TEMA 5 – ESTUDO DE CASO Caso Beleza Natural A Beleza Natural, uma marca de produtos para cabelos cacheados, resolveu conhecer a fundo seu público, como forma de atrair a atenção das consumidoras nas gôndolas de supermercado e, consequentemente, ampliar suas vendas. Ao invés de adotar exatamente a mesma comunicação que os concorrentes, a marca foi entender como suas compradoras se comportavam. Depois de algumas semanas de observação em campo no Rio de Janeiro, uma nova identidade visual foi desenvolvida e as embalagens foram adaptadas à forma de uso das clientes. A base dos produtos, por exemplo, foi alargada, para que não caíssem do apoio no tanque de roupas, aonde muitas delas lavavam o cabelo. No total, das observações até chegar às prateleiras, foram 3 anos. O resultado foi um aumento nas vendas dos produtos da marca, devido à identificação gerada com as consumidoras e o diferencial dentro dos pontos de venda. Fonte: Oliveira, 2016. Considerando esse contexto, responda as questões a seguir: • Qual é o papel do design para a embalagem da Beleza Natural? Para a marca de cosméticos para cabelos Beleza Natural, o design foi essencial, na medida em que apresentou a marca como uma opção diferenciada de mercado, o que fez com que as vendas dos produtos da empresa crescessem. • Que tipos de aspectos práticos da embalagem as técnicas de neuromarketing, como o eye tracking (movimentação ocular) e o 16 eletroencefalograma (medição de ondas cerebrais), podem ajudar a melhorar? As técnicas de neuromarketing, no que diz respeito às embalagens, podem contribuir para a escolha de fontes adequadas com o perfil do negócio e a personalidade da marca (mais informal, mais humorada etc.). Pode contribuir também na escolha das cores, ilustrações e imagens das embalagens, além do formato. Tudo isso para que fiquem mais atraentes no ponto de venda. 17 REFERÊNCIAS AGNI, E. Os três níveis de design de Don Norman. Ux. Disponível em: <https://uxdesign.blog.br/os-três-n%C3%ADveis-de-design-de-don-norman- 38c565e2aa64>. Acesso em: 23 jul. 2019. BCG. 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