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31 December, 2022 | created using PDF Newspaper from FiveFilters.org
Livro de Jó: como texto
bíblico escrito há 2,5 mil
anos combate ideia de
teologia da prosperidade —
BBC News Brasil
Dec 28, 2022 02:05PM
Edison Veiga
De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
28 dezembro 2022
 
Crédito, Domínio Público
A história de Jó, um homem justo, fiel e paciente, está
presente na tradição oral de povos do Oriente Médio há
cerca de 4 mil anos. Em algum momento entre o século 6 e 5
antes de Cristo, contudo, esta história foi redigida em
hebraico, na versão que está presente até hoje no Antigo
Testamento da Bíblia.
Entre os especialistas, é consenso que se trata de um conteúdo
mítico, uma fábula que pretende deixar uma mensagem. E,
curiosamente, essa mensagem bíblica é justamente o oposto do
que defende a teologia da prosperidade, ideia encampada por
muitas igrejas evangélicas neopentecostais hoje.
Porque Jó foi da riqueza à pobreza e permaneceu fiel a Deus. A
narrativa, portanto, ilustra o problema da teodiceia —
emprestando o conceito do filósofo alemão Gottfried Leibniz
(1646−1716): justifica a justiça de Deus em um contexto de
humanidade que está sofrendo.
“Jó não pode ser considerado um personagem histórico e, sim, uma
personificação teológica”, comenta o teólogo, cientista da religião
e historiador Luiz Alexandre Solano Rossi, professor da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), do Centro
Universitário Internacional (UNINTER) e autor de, entre outros
livros, A Origem do Sofrimento do Pobre: Teologia e Antiteologia
no Livro de Jó.
Rossi lembra que a experiência de Jó serve “como uma referência
para mostrar como um tipo de teologia pode ser relacionada
facilmente a esta prática da recompensa”.
“Essa teologia é costumeiramente denominada de teologia da
retribuição. Para a teologia da retribuição, Deus concede a riqueza
para alguns e a pobreza para todos os outros”, explica ele.
“A partir dessa premissa, os ricos são ricos e continuarão ricos
porque eles são justos, enquanto que os pobres são pobres e
possivelmente continuarão sendo pobres porque eles não confiam
na justiça de Deus, ou, ainda pior, porque eles são pecadores”,
prossegue o teólogo.
Para Rossi, Jó, “por meio de seus discursos”, busca “dar uma
resposta às questões fundamentais presentes no texto bíblico
considerando este tipo de teologia”.
“A experiência de Jó proclama desde o seu início que não há
relação alguma entre pecado e sofrimento e entre virtude e
recompensa”, sintetiza.
Para o historiador, filósofo e teólogo Gerson Leite de Moraes,
professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a leitura de Jó
“é algo complexa” que ressoa sociológica e religiosamente até os
dias atuais.
“Temos uma corrente muito presente no movimento pentecostal
que a é a teologia da prosperidade, a ideia do ‘seja fiel a Deus e
seja rico’”, comenta ele. “É como se fosse automático: se você for
fiel a Deus, ele é obrigado a abençoá-lo”, diz o teólogo.
“O Livro de Jó vai por uma direção contrária: Jó foi fiel a Deus a
vida toda, Deus o abençoava. Mas quando Deus foi desafiado por
Satanás, ele tirou tudo de Jó”, resume Moraes.
“Talvez essa seja a grande lição da história: você continuar fiel a
Deus mesmo passando por dificuldades. Porque ter fé enquanto
tudo vai bem é lindo e maravilhoso. Mostrar fé e fidelidade a Deus,
mostrar que ainda continua crendo na justiça e na soberania de
Deus mesmo em meio a dificuldades, talvez essa seja a questão”,
acrescenta.
 
Crédito, Divulgação
1
http://fivefilters.org
A história de Jó
Segundo o relato, Jó teria sido um homem que vivia na terra de Uz,
um local nunca identificado ao certo. Ele seria casado com uma
mulher árabe — cujo nome não é mencionado. Era um homem rico,
dono de 7 mil ovelhas, 3 mil camelos, 500 juntas de bois, 500
jumentas.
Ele teria sido pai de sete filhos e três filhas. E senhor de muitos
servos. No texto bíblico, é dito que “este homem era maior do que
todos os do oriente”. E um “homem íntegro, reto e temente a
Deus”, que “se desviava do mal”.
Literariamente, o entendimento mais comum é de que o livro seja
a história tradicional original com um grande enxerto poético.
“As diferenças de vocabulário, de estilo, de tradição cultural e até
mesmo de ideias religiosas, de teologias distintas, mostram que
essa obra, na verdade, foi composta por muito tempo”, aponta
Moraes.
“Não é uma obra produzida em um único momento histórico. É
uma colcha de retalhos. E isso já traz evidência de que o texto foi
ressignificado ao longo do tempo, pois não é produto de um único
tempo”, acrescenta.
“A história de Jó é de um drama universal. Uma história conhecida
no Oriente Médio por volta de 2 mil anos antes de Cristo, muito
provavelmente contada nos mais variados lugares, uma história
que encampava problemas universais como o problema do mal, do
sofrimento, da dor, do relacionamento do homem com Deus, da
riqueza e da pobreza”, enumera o professor.
Moraes explica que, provavelmente por volta dos séculos 11 ou 10
antes de Cristo, essa história foi incorporada pelos hebreus e
passou a ser recontada pelos israelitas, ainda de maneira oral.
“O cerne da história está nos capítulos 1, 2 e 42 do que a gente
tem hoje como Livro de Jó”, diz.
Ou seja: essa história mais fundamental, digamos assim, é o que
está nos dois primeiros e no último capítulo do relato bíblico
depois canonizado. “Esta versão bastante resumida é o núcleo do
que a gente tem hoje”, acrescenta.
Foram mais de 500 anos, dali em diante, para que o texto se
tornasse escrito da maneira como o conhecemos.
“O que pode ser considerado histórico é, sim, o período em que o
livro provavelmente foi escrito. E, nesse sentido, estamos ao redor
do pós-exílio, isto é, 450 a.C., período no qual o poderosíssimo
Império Persa dominava o mundo conhecido da época e, inclusive,
a região onde se encontrava o povo da Bíblia”, contextualiza Rossi.
Foi um período de intensa dificuldade para o povo hebreu, que se
viu obrigado a buscar o exílio diante da dominação babilônica.
“Trata-se de um período de maior miserabilização do povo de
Deus”, salienta o especialista. “Assim, o livro de Jó é um produto
que reflete justamente essa época de crise econômica, política,
social e religiosa que alcança os camponeses da Yehud, nome da
província do império persa.”
Moraes lembra que foi um período em que “muitos judeus tinham
perdido praticamente tudo”.
“A perspectiva deles fazia com que se levantassem questões, pois
muitos estavam perdendo sua crença em Deus, a crença no Deus
que faz uma justiça plena e que executa plenamente sua verdade e
sua justiça”, afirma.
 
Crédito, Domínio Público
A história de Jó, nesse momento, vem como uma luva. “Eles se
servem dessa narrativa como uma espécie de reflexão sapiencial
sobre a própria existência”, explica Moraes. “Muito provavelmente
é nesse momento que algum poeta exilado amplia o texto,
inserindo na composição o que hoje são os capítulos de 3 a 41″,
conclui.
A forma antiga então da história, em prosa, se converte em um
prólogo e um epílogo e ganha uma série de diálogos e monólogos
em verso. Tornou-se um livro épico, uma obra-prima da literatura
ancestral.
Havia um propósito. “Isso servia para que aquelas pessoas que
estavam sofrendo, tinham perdido absolutamente tudo, tinham se
empobrecido radicalmente, estavam enfermas física e
espiritualmente, que elas pudessem refletir e ter esperança de que
seriam novamente restituídas, teriam uma restituição da parte de
Deus, assim como Jó teve”, comenta Moraes.
Na narrativa, Jó, o homem abençoado com riqueza, prole e servos,
torna-se epicentro de um desafio feito no céu por Satanás a Deus.
Deus começa perguntando ao seu oponente a opinião deste sobre a
piedade de Jó. Satã rebate que Jó só seria um bom homem porque
Deus o havia abençoado com tudo do bom e do melhor — bastava
que lhe retirasse tudo e Jó seria um homem que daria as costas a
Deus, apostava o demônio.
Eles fazem então um acordo e Deus permite que Satanás se
encarregue de desgraçar avida do homem, tirando-lhe a riqueza a
matando seus filhos e seus escravos. Jó também é privado da boa
saúde e perde o apoio até mesmo da esposa.
Jó permanece firme na fé em Deus, sem blasfemar nenhuma vez.
Diante de tudo isso, Deus decidiu recompensá-lo restituindo-lhe as
posses em dobro, dando-lhe outros sete filhos e três filhas e
fazendo com que vivesse, com saúde, mais 140 anos, vendo sua
família chegar até a quarta geração. “Então morreu Jó, velho e
farto de dias”, finaliza o texto.
2
Paciência de Jó
“Jó se dirige a Deus e descreve a condição humana por meio de
seu exemplo. Por causa disso, não deveríamos ver Jó como um
indivíduo ou uma pessoa isolada, não deveríamos olhá-lo como
uma exceção”, argumenta Rossi. “Ao contrário, ele é o porta-voz
de uma história e de uma sociedade que estão repletas de
contradições. Seu clamor não é um grito de uma só pessoa, mas o
primeiro clamor de uma série, incluindo nossos próprios clamores,
que, ao longo da história, têm se juntado como um modo de
expressar que a dor, mesmo que intensa, pode ser vencida com a
solidariedade.”
“O clamor sofredor e dolorido de Jó é uma clara advertência para
que voltemos nossos olhos para a experiência dele se quisermos
verdadeiramente encontrar a Deus, como também um discurso
teológico que seja relevante para os nossos dias”, prossegue Rossi.
“A história revelada a partir da experiência de Jó é
presumivelmente endereçada às pessoas proprietárias de terras e
de rebanhos, mas que haviam perdido suas posses. A perda das
posses foi ocasionada tanto por razões internas quanto externas. É
importante observar que as razões internas e externas são
instrumentos eficazes de desumanização. Podemos até mesmo
afirmar que elas foram os instrumentos mais penetrantes na pele
do povo. É diante desse cenário alienante que nasce a teologia
oficial dos amigos de Jó. Ela nasce do desejo de ensinar os
camponeses, por meio da catequese, a ter paciência, a paciência
de Jó, para aceitar tudo e, principalmente, permanecerem
calados.”
 
Crédito, Domínio público
O teólogo lembra que o cenário apresentado na narrativa “é
profundamente acinzentado”.
“As pessoas pararam de plantar somente para sua subsistência e
passaram a plantar para o comércio internacional. Os camponeses
judeus estavam, portanto, diante de uma dupla tributação: um
tributo cobrado pelo Império Persa e um segundo tributo cobrado
pelo Templo de Jerusalém”, contextualiza.
“Jó fala em nome daqueles que são vítimas da sociedade, ou seja,
daqueles que são sofredores, e, portanto, não são vagabundos e
preguiçosos como muitos pensam precipitadamente”, explica.
“Ao contrário, são pobres porque trabalham, são pessoas que
trabalham e se esforçam para garantir a sua subsistência.
Trabalham em meio à abundância de seus patrões, mas, mesmo
assim, sofrem porque não têm o que comer, o que vestir e nem
onde morar. Na época em que o livro de Jó foi escrito, a pobreza e
a miséria eram fruto de dupla tributação interna e externa.”
Rossi enfatiza que muitos eram “as vítimas da injustiça”. “Há, no
livro de Jó, como em todo o Antigo Testamento, uma consciência
social que muitos leitores modernos não têm, ou seja, Deus é o
salvador dos pobres, porque os ricos e poderosos não necessitam
de salvação, pois já possuem tudo o que precisam para viver”,
pontua.
“Deus deseja deixar muito claro que, em um sentido especial, ele é
o protetor destas pessoas fracas”, prossegue o teólogo.
“Na verdade, enquanto são expulsos das ruas, os pobres,
simultaneamente, também são banidos da comunidade
reconhecidamente humana. E, a partir do momento em que são
enviados a viver na periferia da vida, passam a ser retratados
como desleixados, pecaminosos e destituídos de padrões morais.
E, dessa forma, legitima-se a exclusão e a necessidade de se
manter afastados todos aqueles que, de alguma maneira, poderiam
contaminar a pureza do ambiente”, conclui.
Lições
Para o historiador, filósofo e teólogo Gerson Leite de Moraes, da
Universidade Presbiteriana Mackenzie, “Jó é instigante”
justamente porque “há múltiplas lições” que podem ser
depreendidas da história.
“A questão da dor, do sofrimento, do por quê as pessoas sofrem ou
acabam sendo levadas às vezes a uma situação de exaustão”,
comenta. “O desafio de Satanás a Deus, metafísico,
transcendental, faz com que Jó tenha sua vida completamente
alterada.”
Essa aposta entre as entidades acaba funcionando como uma
resposta que rebate a ideia “dessa teologia retributiva”. “Ou seja,
do ‘seja bom porque automaticamente você será cercado de
bondade’”, ilustra Moraes.
“Jó mostra que é possível manter a fé em Deus, a crença em Deus
e na sua justiça mesmo em meio às dificuldades”, acrescenta ele.
Uma outra camada de interpretação trazida pelo teólogo diz
respeito ao fato de que, a partir do relato de Jó, “os dramas
humanos às vezes são desenhados pelos deuses sem que haja
nenhuma possibilidade de alteração disso por parte dos homens,
sendo eles bons ou maus, porque supostamente as coisas estão
sendo decididas num outro plano”.
“Isso é complexo demais”, acredita. “Não é uma lição simples, é
uma lição que faz com que as pessoas fiquem remoendo, afinal
quer dizer que a riqueza e a pobreza não dependem do esforço
humano: os deuses podem mudar suas vontades e suas intenções
conformem seus interesses específicos”, diz Moraes.
A narrativa mostra que “não há a possibilidade de termos domínio
pleno da existência”. “E isso nos leva a uma reflexão de que tanto
a bondade quanto a maldade não dependem necessariamente de
nossos atos, das coisas que fazemos, porque às vezes as decisões
estão nas mãos das divindades”, acrescenta. “É como se fôssemos
impotentes diante de forças que nós desconhecemos.”
Moraes vê em Jó “o grande símbolo de ter fé”. “Porque ter fé
quando tudo vai bem é muito fácil. Ter fé quando as coisas estão
completamente fora de controle, essa talvez seja a fé verdadeira”,
analisa.
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Para ele, a grande lição do livro é fazer pensar “na nossa relação
com Deus”, seja em tempos fáceis, seja em tempos difíceis.
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