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1 
Recensão crítica 
 
POMIAN, Krzysztof. “The Collection: Between the Visible and the Invisible” in 
Interpreting Objects and Collections, edited by Susan M. Pierce, Routledge: London 
and New York, 1994. Pp. 160-174. 
 
Lara Lisboa Portela 
FCSH-UNL 
 
1. Publicado pela primeira vez no verbete “Collezione” da Enciclopédia Einaudi (Turim: 
Einaudi, 1978), e em 1987 pela Gallimard, no livro de Pomian “Collectionneurs, 
Amateurs et Curieux - Paris, Venise: XVIe-XVIIIe siècle”, este texto é um valioso 
contributo para o estudo das colecções na Europa Moderna, como o atestam as 
diversas inclusões em outras publicações dedicadas ao tema, dentre as quais a que 
serve de referência. 
2. Tendo em conta que a sua primeira edição foi na Enciclopédia Einaudi, já se deduz 
que a natureza do texto em estudo é a de trazer à luz uma série de ideias, conceitos 
e definições, que são também transversais à obra do autor, nomeadamente a 
definição de Colecção, e a sua relação com o Museu e o Coleccionador. 
3. O texto organiza-se em três momentos: um momento introdutório em que o autor 
define colecção, e questiona a sua razão de ser; uma segunda parte em que aponta 
o percurso histórico da colecção e do coleccionismo, desde a antiguidade clássica 
até ao renascimento; e uma última parte em que desenvolve o ponto que dá título ao 
texto - o entre o visível e o invisível - onde explora o significado que é atribuído aos 
objectos, a partir do qual, desenvolverá, mais tarde, o conceito de semióforo. 
4. Pomian começa por apresentar o vasto universo de objectos que compõem 
colecções de museus e colecções privadas - enumera alguns dos 150 museus de 
Paris e dá o exemplo de uma mulher polaca que guarda embalagens de citrinos - 
para concluir que «qualquer objecto natural de que o homem conheça a existência e 
que qualquer artefacto, por mais estranho que seja, aparecerá em alguma parte num 
museu ou numa colecção particular» (p. 160). Então, o que existe em comum numa 
tão grande panóplia, já que «um livro grosso não seria suficiente para fazer o 
inventário do conteúdo de todos os museus e colecções privadas, ainda que se 
referisse uma única vez cada categoria»? (p.160) 
5. «As locomotivas e os vagões alinhados no museu ferroviário não transportam 
mercadoria nem passageiros. [...] As fechaduras e as chaves já não protegem 
nenhuma porta, as máquinas não produzem e dos relógios não se espera que digam 
a hora certa» (p.161). Os objectos de colecção já não cumprem a sua função 
original, estão descontextualizados, e adquirem um valor semelhante ao das obras 
de arte, levando «coleccionadores e conservadores a agir como se guardassem um 
tesouro» (p. 161). Produzidas para existirem e serem mostradas, as peças de 
colecção inscrevem-se num mercado que lhes confere valor, mas precisam também 
do elemento observador. 
6. Um dos momentos importantes do texto é a definição de colecção: 
 
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«um conjunto de objectos naturais ou artificiais, mantidos temporária ou 
definitivamente fora do circuito das actividades económicas, sujeitos a uma 
protecção especial num local fechado preparado para esse fim, e colocados 
em exposição» (p. 162). 
7. Dividida em três pontos, esta definição, levanta questões essenciais: o imperativo do 
observador; e o paradoxo de valor: se as peças de colecção são mantidas fora do 
circuito das actividades económicas, mas submetidas a uma protecção especial, 
semelhante à dos objectos preciosos, então têm valor de troca mas não de uso. O 
que nos leva, então, a atribuir-lhes valor de troca e considerá-las objetos preciosos? 
Jean Baudrillard definiu, no Sistema dos Objectos, o objecto de colecção como 
«puro, privado de função ou abstraído de seu uso, que toma um estatuto 
estritamente subjetivo» (BAUDRILLARD, 2000: 94). O subjectivo a que Baudrillard 
se refere, parece corresponder ao paradoxo detectado por Pomian. 
8. Instinto de propriedade e acumulação, prazer estético e objectivos históricos e 
científicos, assim como status e afirmação de poder, são alguns argumentos que 
poderiam dar resposta à pergunta. No entanto será necessário analisar a presença 
das colecções fora do contexto da nossa sociedade, no tempo e no espaço. 
9. Na segunda parte do texto, Uma Colecção de Colecções, Pomian começa por 
aplicar a definição de colecção aos objectos dos túmulos e templos, quase com 
humor, já que os objectos dos túmulos não estão expostos e visíveis, senão para os 
que aí habitam. Inicia-se então o traçado de objectos funerários, oferendas, 
presentes e despojos, relíquias e tesouros reais, para, com engenho, antecipar no 
leitor a narrativa da parte final. 
10. Os objectos funerários que eram colocados nos túmulos pertenciam aos mortos, e aí 
deviam permanecer, para serem vistos para sempre pelos que vivem no outro 
mundo. Por vezes eram os objectos reais, por vezes modelos. Pomian anota que 
uma série de medidas eram tomadas para proteger os túmulos de potenciais roubos. 
E salienta que a «substituição dos modelos pelas coisas parece então ser ditada, 
não por motivos económicos, mas pela convicção de que os objectos funerários não 
devem ser utilizados: a sua função é a de ser perpetuamente olhado e admirado» (p. 
164). 
11. As oferendas aos deuses, uma vez colocadas nos templos, tornavam-se sagradas, e 
o templo passa a ser não só um lugar de culto dos deuses, como também de culto 
dos objectos: «Assim como vinham para rezar, os peregrinos, que eram também 
turistas, visitam os templos para admirar os objectos que estes continham» (p. 165). 
12. «As relíquias ou objectos que supostamente estiveram em contacto com um deus ou 
um herói, ou que constituíam os restos de um acontecimento mítico ou distante no 
tempo, eram igualmente bem conhecidas na Grécia e Roma» (p. 167). O 
cristianismo e o culto dos santos prolongou esta ideia de relíquia e levou-a ao seu 
apogeu. As igrejas continham tanto objectos que pertenceram aos santos como 
imagens que os representavam, além de curiosidades da natureza e oferendas de 
todos os tipos. «Assim, além de serem lugares de culto, cada igreja constituía uma 
exibição permanente de dezenas de objectos» (p. 168). 
 
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13. «Os objectos mantidos fora do circuito das actividades económicas acumulavam-se 
não só nos templos, mas também nas residências dos detentores do poder» (p.165). 
Tal é o caso dos tesouros reais, e dos presentes e despojos, cuja exposição 
acontecia maioritariamente em momentos solenes, para demonstrar o poder de 
quem os possuía. 
14. Os objectos funerários colocados nos túmulos funcionam como moeda de troca 
entre vivos e mortos. Os objectos são escondidos, e de certa forma sacrificados, 
para que os homens recebam a benevolência dos mortos: «A relação entre vivos e 
mortos foi sempre e em todo o lado compreendida como uma mudança» (p. 170). 
Essa mudança pressupõe a divisão de seres humanos em dois grupos: os deste 
mundo e os do próximo, e os objectos funcionam como intermediários entre ambos - 
entre a vida e a morte, entre o visível e o invisível. O mesmo sentido se encontra nas 
oferendas aos deuses: «As oferendas eram parte do processo de mudança, e 
juntamente com rezas e sacrifícios, garantiam que os pedidos aos deuses fossem 
satisfeitos» (p. 170). À semelhança dos objectos funerários, as oferendas funcionam 
como mediadoras na comunicação entre o mundo visível e o mundo invisível, entre 
os homens e os deuses. Se os objectos colocados nos túmulos deveriam ajudar o 
morto na sua travessia para o outro lado da vida, as oferendas aos deuses deveriam 
ajudar os homens na sua travessia terrena; o primeiro caminha no sentido do visível 
para o invisível, o segundo no sentido do invisível para o visível, mas não deixam de 
ter o mesmo propósito, o de intermediários entre um mundo e o outro. 
«Tais oferendas poderiam continuar a funcionar como intermediários entre 
este mundo e o próximo, entre o sagrado e o profano, enquanto ao mesmo 
tempo constituíam, no mais profundo do mundo profano, símbolo do distante,do oculto, do ausente. Por outras palavras, elas actuam como intermediárias 
entre os que contemplam e o invisível que é contemplado» (p. 171). 
15. No entender do autor, embora escondidos, tanto os objectos funerários como as 
oferendas devem ser consideradas colecções uma vez que 
«o importante parece não ser tanto o facto de serem destinadas aos mortos 
ou aos deuses, mas o conhecimento da existência de possíveis 
espectadores, ainda que noutra esfera temporal ou espacial, e cuja 
existência está implícita no próprio acto de colocar objectos num túmulo ou 
num templo» (p. 170). 
16. As pinturas e esculturas representando deuses ou santos, que se encontravam nos 
templos, também fazem parte desta forma da comunicação entre o visível e o 
invisível, já que são representações, às quais, na altura, eram atribuídos poderes. O 
mesmo é válido para as pedras preciosas, vasos Coríntios e outros objectos dos 
tesouros romanos: esses objectos encontram o sentido do sagrado, já que 
representava a perfeição e vinham muitas vezes de lugares distantes. 
17. Apesar da aparente dispersão destas colecções, elas são homogéneas pelo seu 
envolvimento no processo de mudança entre o visível e o invisível: 
«O invisível é espacialmente distante, não apenas além no horizonte, mas 
também muito alto ou muito baixo. É também temporalmente distante, tanto 
 
4 
no passado como no futuro. Mais, ele está além de todo o espaço físico e de 
qualquer vastidão, estruturado num espaço totalmente diferente. Ele situa-se 
no seu próprio tempo, ou fora da passagem do tempo, na própria eternidade» 
(p. 172). 
18. «Todas as colecções a que aqui nos referimos têm uma função idêntica: permitir que 
os objectos sejam os intermediários entre o espectador e o mundo ao qual ele não 
pertence» (p. 173). 
 
 
BIBLIOGRAFIA 
 
BAUDRILLARD, Jean, O Sistema dos Objectos, trad. de Zulmira R. Tavares, Ed. 
Perspectiva: S. Paulo, 2000. 
POMIAN, Krzysztof. “The Collection: Between the Visible and the Invisible” in Interpreting 
Objects and Collections, edited by Susan M. Pierce, Routledge: London and New York, 
1994. Pp. 160-174. 
 
Trabalho escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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